8 de julho de 2018

Campanha já é governo

Estelionato eleitoral costuma ser suicídio político

Paulo Nogueira Batista Jr.


O economista Paulo Nogueira Batista Jr., em reunião no Palácio do Planalto, em 2009. Alan Marques/Folhapress.

"Paulo, você faz o que quiser depois, mas se eu defender reforma da Previdência mais dura durante a campanha, nem chego lá", disse Jair Bolsonaro, segundo relatou Paulo Guedes, seu assessor econômico. É o velho e surrado lema —"campanha é campanha; governo é governo".

Pequeno problema. A experiência mostra que o brasileiro pune severamente o estelionato eleitoral. Em 1986, o governo Sarney aguardou a eleição para corrigir tardiamente o Plano Cruzado por meio do desastrado Cruzado II. Sarney nunca mais se recuperou. Em 1990, Collor surpreendeu com o confisco da poupança e o alongamento forçado dos ativos financeiros. Perdeu apoio político e acabou sofrendo impeachment.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso se reelegeu com o câmbio artificialmente valorizado e as finanças públicas em desordem. Logo após a eleição, veio a maxidepreciação do real. Foi possível salvar o Plano Real, mas o governo FHC nunca se refez do estelionato.

Dilma Rousseff foi pelo mesmo caminho. Reelegeu-se em 2014 com discurso de esquerda para logo em seguida anunciar a nomeação de um economista agressivamente conservador para o Ministério da Fazenda, que aplicou um choque tarifário e medidas drásticas na área fiscal. A economia afundou na recessão, e Dilma nunca mais retomou a iniciativa. Os adversários aproveitaram a perda de credibilidade do governo para tramar a sua derrubada.

Em resumo, estelionato eleitoral é suicídio político.

Lula, em 2002, foi exceção a essa regra? Não creio. É verdade que, no período Palocci, de 2003 a 2005, Lula governou em desacordo com as tradições do PT, da esquerda em geral e do desenvolvimentismo brasileiro. Mas não foi sem aviso. Durante a campanha, Lula conseguiu a proeza de se colocar, em termos de economia, à direita de José Serra, candidato de FHC...

Nas circunstâncias atuais, há um obstáculo adicional à aplicação do velho e surrado lema. A situação das contas públicas, em parte por causa da Previdência, é muito difícil e requer providências imediatas.

O presidente da República toma posse em janeiro com a força das urnas. Só que não terá necessariamente maioria estável no Congresso. Muitas das medidas requeridas, algumas constitucionais, vão exigir maiorias ou até supermaiorias parlamentares.

A força das urnas será tanto maior quanto maior for a clareza, durante a campanha, quanto aos desafios econômicos e os caminhos para enfrentá-los. Trata-se de apresentar propostas e submetê-las à discussão pública. É a melhor forma de corrigir erros e aperfeiçoar as ideias.

Outro fator a considerar: o novo presidente terá janela relativamente estreita, talvez de um ano, para se impor e passar por um Congresso fragmentado e problemático toda uma agenda de reformas, necessariamente controvertidas.

Cada medida de corte de gastos ou aumento de receita atinge diretamente interesses constituídos e representados, em maior ou menor medida, no Congresso e na mídia.

O barulho será grande; a resistência, feroz. Só um governo que saiba o que pretende fazer —e que tenha explicitado as grandes linhas das reformas na campanha— poderá vencer essa guerra.

O quadro é desafiador, mas não há por que desanimar nem partir para a ignorância. O Brasil tem muitos trunfos. Apesar dos estragos que o atual governo e o Congresso fizeram e ainda farão, a nossa situação está longe de desesperadora.

Não cabe, por exemplo, se precipitar e adotar de imediato, como em 2015, uma política fiscal contracionista. A economia está fraca; o desemprego, elevado. Um choque fiscal aprofundaria a recessão, dificultando o próprio ajuste das contas públicas.

O ideal é combinar uma política fiscal moderada no curto prazo, que permita a retomada do crescimento, com um plano de ajustamento sólido de médio prazo, ancorado em regras fiscais rigorosas e críveis.

Sobre o autor

Economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (estabelecido pelos Brics em Xangai) e ex-diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

6 de julho de 2018

Sonhos de um México melhor

Violência, corrupção, desigualdade - AMLO tem a chance de atacar os três e transformar o México para melhor.

Roger Lancaster

Jacobin

Andres Manuel López Obrador, presidente eleito do México, fala durante um evento de comemoração na Praça Principal de Zócalo em 1º de julho na Cidade do México. Alfredo Martinez / Getty

As eleições de 2018 no México foram as mais sangrentas na memória viva.

Na última contagem, 136 candidatos e militantes partidários foram mortos, com ataques a cerca de trezentos. Centenas de candidatos abandonaram as disputas, alguns temendo por suas vidas, alguns porque se descobriu que tinham laços com o crime organizado - meu colega na Benemérita Universidade Autônoma de Puebla, Carlos Figueroa Ibarra, chefe da divisão de direitos humanos de Morena, coloca esse número em impressionantes seiscentos políticos.

As apostas eram altas e várias “guerras vindas de baixo” se alastraram antes da eleição. A maior parte dos assassinatos parece ter acontecido no norte de Puebla, na zona rural de Oaxaca, em Guerrero, e em estados dispersos que vivenciaram a guerra do narco-tráfico. Muitos candidatos do MORENA foram mortos ou ameaçados.

Isso não é surpresa: historicamente, o Partido da Revolução Institucional (PRI, na sigla em espanhol) promove uma guerra de baixa intensidade e campanhas seletivas de assassinato contra seus adversários de esquerda. No norte de Puebla e na zona rural de Oaxaca, as fortalezas do PRI estavam lutando - em última análise sem sucesso - para manter o controle político. Mas candidatos de todos os partidos foram mortos.

O que surpreende a todos é o grande número de candidatos do PRI assassinados - mais do que qualquer outro partido. Várias explicações estão no ar, embora pesá-las seja difícil. Alguns dizem que os narcotraficantes querem anistia e um plano de paz (que o Morena apóia e o PRI se opõe). Outros sugerem que isso faz parte de um conflito de alto risco sobre o futuro do PRI. Em alguns casos, os candidatos locais foram aparentemente considerados desfavoráveis ​​aos cartéis.

Não há uma explicação única para a violência, mas o padrão se encaixa no quadro mais amplo: o ano passado foi o ano mais violento do México na memória recente, e este ano parece estar no caminho certo para superar esse número.

O plano de fundo da violência caótica pré-eleitoral: o antigo sistema político está se esfarelando. Esta eleição foi uma disputa por posição antes da mudança chegar.

Os resultados

O esperado desmoronamento se materializou, apesar dos amplos relatos confiáveis ​​de adulteração de urnas. Andrés Manuel López Obrador (AMLO) terminou trinta pontos à frente de seu rival mais próximo. A fraude pode ter mordido as margens ou capturado um ou dois governos, mas no final, a AMLO capturou 53% a 54% dos votos declarados.

Ainda mais notavelmente, seu novo partido, MORENA, e seus aliados conquistaram 73% dos assentos na Câmara dos Deputados e 56% do Senado. MORENA também levou vários governos do PRI e do PAN. Até mesmo jornalistas da Televisa, a gigantesca empresa de mídia mexicana que favoreceu candidatos da direita apoiados por empresas no passado, estavam entusiasmados com as maravilhas da democracia na cobertura das eleições eleitorais.

Enrique, meu parceiro, me conta que em sua vila - uma cidade pobre de classe trabalhadora, historicamente alinhada com o PRI - as pessoas riam, gritavam e choravam nas ruas, uma resposta pós-eleitoral que ele nunca viu antes. Nós testemunhamos um massivo realinhamento político esta semana: o PAN viu algumas deserções, é claro, mas o PRI praticamente desmoronou. As cidades e aldeias historicamente alinhadas com o PRI mudaram de lado. (Na Câmara dos Deputados, o PRI caiu de 204 para 15. MORENA agora tem 218 assentos no corpo.) Não está claro se o PRI pode sobreviver a tal derrota; o partido foi eliminado em suas bases, os pueblos.

Eu sempre sustentei que os mexicanos são nostálgicos pelos dias em que o PRI era um partido de centro-esquerda, implementando alguns programas social-democratas e amigáveis ​​aos negócios que produziram o milagre mexicano: quarenta e poucos anos de crescimento econômico contínuo com redistribuição. Mas eles também têm medo de reproduzir a ditadura, que com o tempo se tornou cada vez mais corrupta e violenta.

Para alguns, então, a votação foi uma votação para retornar aos dias de glória do nacionalismo e desenvolvimento mexicano, antes que as políticas neoliberais transformassem o país em um anexo econômico dos EUA. Para outros, era uma aposta que AMLO não é a figura antidemocrática que ele é muitas vezes ridicularizado como sendo.

Este é o fim de uma luta de cinquenta anos. Em 1988, as correntes democráticas e socialistas do PRI fundiram-se com um punhado de partidos sectários de esquerda para formar o Partido Revolucionário Democrático (PRD). A corrente democrática derivou das lutas estudantis da Nova Esquerda de 1968, que expuseram a brutalidade e o conservadorismo da ditadura. Mas o voto de 1988 foi roubado à vista de todos. 2018 é a vindicação de 1988 e 1968.

O PRD está morto agora, capturado pelo tipo de forças que se propôs a desenraizar. (Foi um governador do PRD em Guerrero que está implicado no massacre de quarenta e três manifestantes estudantis em Ayotzinapa.) O PRI foi reduzido a um pequeno grupo de garupa. O PAN sobrevive e será a oposição conservadora. MORENA leva o manto do partido pretendendo guardar e estender a Revolução Mexicana.

O mapa eleitoral

In 2006, the electoral map was neatly bifurcated: Felipe Calderon carried almost every state in the North; Lopez Obrador carried almost everything in the South. The dividing line was sharp. Scholars and journalists wrote about the political division of the country: the North’s embrace of Americanism, with the South inexplicably mired in poverty and backwardness.

By contrast, the 2018 election-day map was almost uniformly brown, the color of Morena.

AMLO ran a thirty-one-state campaign and won thirty — everything except Guanajuato, a PAN stronghold — on a crisp, clear message to combat corruption, wind down the narco war, and reduce social inequality. With tireless stump speeches and stops in every pueblo, he took this message into the supposedly conservative North of the country, as well as the left-leaning South.

I’ve never seen a better-run campaign, a better-pitched message, than AMLO’s (in sharp contrast to his lackluster runs in 2006 and 2012).

The candidate essentially deferred the social issues — abortion, gay marriage, and adoption — in favor of three broad, popular themes. The work that urgently needs to be done, he explained in various speeches and interviews, requires a diverse coalition: people of goodwill who have different opinions about these other matters. We will hold a national discussion on the social issues at a later date. I doubt that this sort of move could ever be pulled off in the US, but it does suggest that prioritizing is an important factor in vote-getting.

Meanwhile, international leftists were consistently second-guessing the candidate’s every move, accusing him of moving too far to the right, of not having a sufficiently socialist agenda, and so on. These are not criticisms that one encounters here in Mexico. The main fear that I hear, over and over again on the morning after, is that AMLO won’t be able to fulfill his campaign promises. What if he can’t do what he’s promised to do?

Pace external critics, the candidate’s overarching goal of a fourth Mexican “refounding” is itself quite radical, if vague. (The conquest, independence, and the revolution were the first three.) So, too, the promise to launch a genuine campaign against corruption.

The playbook for all of this was there in a short book AMLO wrote in the aftermath of the 2006 debacle: Mexico, he argued, isn’t a genuine democracy. It’s a quasi-authoritarian regime run by a powerful mafia that controls the media and fixes elections. Mexico also doesn’t have a genuine capitalist class; what it has instead are crony businessmen who cut juicy deals with the state, run by the mafia.

In other words, the system isn’t merely embellished or distorted by graft, corruption, or takings; it is defined by those features.

The 2018 campaign was a promise to change that. If international leftists weren’t especially inspired by the message, the fault was their own. Mexicans understand all too well what kind of system they inhabit.

The Victory Speech

AMLO’s victory speech was calming: it bolstered friends and reassured adversaries. The rhetoric was lapidary, and the peso rallied. He even had kind words for outgoing president Enrique Peña Nieto (who did not attempt to interfere in the elections).

From the victory speech: “I call on all Mexicans to reconciliation, and to put above their personal interests, however legitimate, the greater interest, the general interest,” he said. “The state will cease to be a committee at the service of a minority and will represent all Mexicans, rich and poor, those who live in the country and in the city, migrants, believers and nonbelievers, to people of all philosophies and sexual preferences.”

Every time I read a headline that calls AMLO a “firebrand,” I have to wonder: has the author ever sat through one of the president-elect’s speeches or interviews? He’s quite possibly one of the most uncharismatic speakers ever. He is calm, quiet, he often speaks painfully slowly, as though weighing every word, and only warms to his theme when he closes in on social gospel rhetoric.

But the journalistic template is already written. “Populists” — and Lopez Obrador must be a populist; what else could he be? — are always overheated rubes with a flair for drama, the kind of fool who pounds the podium with a machete just to hear the people scream his name.

The most common chant using AMLO’s name is of a more considered tone: “Es un honor estar con Obrador” — “It’s an honor to be with Obrador.” This underscores something important. His charisma, to the extent that he has any, is distinctly negative. He’s not trying to pull one over on you. He lives a simple, austere life; he invites political and business foes over to his house for quiet conversations (which often win them over); he’s the only politician on the scene about whom there is no whiff of scandal or corruption. This a rarity in politics: a genuinely honorable man.

After attending the 2006 counter-inaugural in Mexico City, I commented to a supporter as AMLO read through a long list of promises and proposed programs that it was like listening to Hubert Humphrey on quaaludes. “That’s what I like about him,” she said. “He tells you exactly what he’s going to do, and you have that list to hold him to it.”

I had a long chat with two socialists last night, laying out for them the persistent criticism that one encounters in North Atlantic left publications: that AMLO has moved too far to the right, that he is now too moderate to undertake the necessary transformations.

They shook their heads. “Of course, it’s not enough, it’s never enough,” they said. “But Mexico is a relatively conservative country, and to build a movement, the issues have to be framed just so.”

In fact, AMLO hit the sweet spot at the right time. He spoke in general terms about how he wanted to emulate some of the great national heroes in Mexican history, how the neoliberal present was one long deviation from the dream of a better Mexico. The press and his opponents pooh-poohed the idea: more messianism from AMLO, poor thing. The people, on the other hand, were stirred by historical memories of Benito Juarez and Lázaro Cárdenas.

Besides, a “fourth founding” is, in fact, a pretty radical conceptual launchpad.

Sobre o autor

Roger Lancaster é um professor de antropologia e estudos culturais na George Mason University e autor de Sex Panic and the Punitive State.

4 de julho de 2018

O México de AMLO

Edwin F. Ackerman

Jacobin

O recém-eleito presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, em coletiva de imprensa no Palacio Nacional, na quarta-feira, na Cidade do México. Manuel Velasquez / Getty

Tradução / É difícil superestimar a dimensão da vitória de Andrés Manuel López Obrador , o AMLO como é amplamente conhecido no México, nas eleições presidenciais de seu país neste último domingo. AMLO ganhou com 53% dos votos, incríveis 30 pontos percentuais a mais que o segundo colocado, o direitista Ricardo Anaya. O presidente eleito do México obteve a maior quantidade de votos presidenciais na história de seu país — e com a mais ampla margem de vitória desde a transição democrática de 2000. Ele triunfou em todos menos um dos trinta e dois estados — pelo menos doze deles lhe deram mais do que 60% dos votos, tendo ainda prevalecido em 80% dos municípios.

O Morena, partido de AMLO criado em 2014 e, portanto, ainda em sua primeira eleição nacional, também conseguiu vitórias esmagadoras — garantindo maiorias sólidas para o Congresso e o Senado. O partido vai dirigir cinco dos nove governos estaduais que estavam em disputa, ganhando a maioria destes com margens históricas. Na Cidade do México, em que AMLO foi prefeito no início dos anos 2000, a candidata do Morena, Claudia Sheinbaum, foi eleita com dezesseis por cento a mais que o segundo colocado. Em Tabasco, estado em que nasceu López Obrador, o candidato do partido ganhou com quarenta pontos de vantagem. Os incríveis ganhos foram para além dos bastiões tradicionais de AMLO, atingindo boa parte da região norte. Os três principais partidos Mexicanos — o PRI, o PAN e o PRD — acordaram na manhã de segunda transformados em partidos secundários. A arena política inteira foi sacudida da noite para o dia.

Apesar de AMLO ter liderado as pesquisas por meses, muitos no país começaram o dia das eleições preocupados com possíveis operações de fraude e compra de votos. Diversos relatos dispersos de atividades suspeitas ao longo do dia aumentaram estes temores. Alguns relatos eram dramáticos. No estado de Puebla, por exemplo, uma van que carregava urnas roubadas bateu ao tentar fugir. Moradores da região correram para pegar os culpados e deram os braços em volta do veículo para proteger as urnas enquanto aguardavam a chegada das autoridades locais. O processo eleitoral em si foi marcado por violência, com mais de cem candidatos de diferentes partidos assassinados ao longo da campanha, a maioria pelas mãos dos cartéis de drogas.

Mas a noite terminou em tom eufórico para AMLO e seus apoiadores. Discursos antecipados dos opositores reconheceram a derrota, reduzindo as tensões. O Instituto Nacional Eleitoral confirmou que AMLO estava a caminho da vitória. O presidente em final de mandato, Peña Neto, foi à televisão nacional reconhecer os resultados e garantir à nação que a transição será pacífica. Centenas de milhares encheram a praça Zocalo, no centro da Cidade do México, para celebrar a notícia. Em discurso emocionado, López Obrador agradeceu aos movimentos de esquerda de antes — dos camponeses, trabalhadores, estudantes — que abriram o caminho para este momento. Você não está sozinho, o público cantava enquanto AMLO reconhecia a responsabilidade histórica que lhe fora confiada. Ele relembrou o slogan de sua campanha eleitoral passada a seis anos atrás: para o bem de todos, primeiro os pobres.

Mesmo assim, ao baixar a poeira, algumas perguntas permanecem. Que momento exatamente é este? E qual a natureza do mandato que foi claramente concedido a AMLO? Antes de ir a Zocalo, AMLO proferiu um discurso desde seu hotel, no qual afirmava aos mercados que estava comprometido à disciplina fiscal e financeira. Afonso Romo, provável Chefe de Gabinete (NT –– equivalente ao Ministro Chefe da Casa Civil no Brasil) de um futuro governo AMLO, é um interlocutor hábil entre o presidente eleito e o mercado financeiro. Ele chefia uma das maiores corretoras da América Latina e tem relações próximas ao ex-presidente Carlos Salinas de Gortari (do PRI), que forçou o país a adotar uma rota neoliberal no final dos anos 80. Naquela noite de domingo na Zocalo, o público também aplaudiu o nome de Romo quando anunciado por López Obrador na equipe de transição.

Na sua atual configuração, o Morena é uma coalizão ampla de distintos interesses antissistema. AMLO se apresenta, corretamente, como integrante de uma longa linhagem de dissidentes de esquerda. Boa parte de seu apelo é de que utilizará o Estado como uma força redistributiva agindo em prol da classe trabalhadora. No entanto, Romo e outros apoiadores de classe média e alta do Morena acreditam sua tarefa histórica ser construir as condições básicas para um regime liberal capitalista. Esta tarefa tem sabor antissistêmico no atual contexto dado que exige um fim do banditismo, consolidar o Estado de Direito e talvez até reduzir a evasão de impostos. A mensagem da campanha de AMLO encontrou um jeito de juntar estas duas visões: a corrupção impede o Estado de gerir de forma redistributiva o capitalismo, e o crescimento do crime organizado é consequência da retirada do Estado da economia. Com a legitimidade política dos partidos passando por grave crise, o Morena ofereceu um caminho para distintas frações de classe. Ele é um bloco político temporário que contém sérias tensões internas.

E mesmo assim, López Obrador pode não ver estas duas visões — a de Romo e a dos líderes de esquerda que ele reivindicou em seu discurso — como contraditórias. Uma das razões que explicam a dificuldade dos observadores de fora em localizar a ideologia política de AMLO (há abundância em debates de se ele deve ou não ser classificado como de “esquerda”) é que sua trajetória política é inteiramente peculiar ao caso mexicano. Ele não vem de uma esquerda socialista ou social democrata como seus equivalentes na Europa. Ele não vem do ativismo sindical como Lula ou Evo na América do Sul.

López Obrador foi membro do partido oficialista, o Partido Institucional da Revolução (PRI), no início de sua carreira, quando a organização — herdeira da revolução agrária radical do início do século XX — ainda possuía uma forte ala nacionalista, sendo também o único veículo para entrar no serviço público. Seu primeiro cargo nos anos 70 foi como diretor da fundação indígena em seu próprio estado, uma agência responsável por executar projetos locais de desenvolvimento. Nos anos 80, ele foi forçado a deixar o cargo de dirigente estadual do PRI por suas tentativas em democratizar a organização. O giro brusco do PRI ao neoliberalismo ao longo da década deixou a ala nacionalista do partido isolada, a levando eventualmente a romper com a organização. AMLO rompeu também, iniciando sua longa marcha enquanto um membro da oposição.

AMLO trabalha com a noção de um aparato estatal com neutralidade de classe que pode servir como árbitro e regulador do conflito de classes. Para ele, o pecado do PRI foi ter traído este projeto ao ceder o controle da economia ao setor privado, que deu início à deslegitimação política do Estado. E, portanto, na atual conjuntura regulamentar o conflito de classes e reconstruir a autoridade do Estado exige lançar uma agenda capitalistadesenvolvimentista de redistribuição: para o bem de todos, primeiro os pobres. É aqui onde se encontra a enorme promessa e os limites de sua presidência.

O que será a correlação de forças dentro do Morena daqui a alguns anos obviamente ainda segue em aberto. A visão de AMLO, produto de sua trajetória, e o peso do mandato que lhe foi cedido, cria uma longa margem para manter junta essa coalizão de forças. Contudo, as tensões estão predestinadas a surgir.

Sobre o autor
Edwin F. Ackerman é Professor Assistente de Sociologia na Universidade de Syracuse.

2 de julho de 2018

Domenico Losurdo (1941-2018)

Domenico Losurdo foi um crítico agudo da hipocrisia liberal e da duplicidade na escrita da história.

David Broder


Domenico Losurdo

Tradução / Pode parecer estranho começar o obituário de alguém de 77 anos de idade dizendo que ele foi levado de nós em seu apogeu. Antes de Domenico Losurdo ser atingido por um tumor cerebral, o marxista italiano estava no auge de sua capacidade. Somente ano passado ele publicou uma polêmica contra as pretensões do marxismo ocidental, seguindo um trabalho de 2016, no qual ele lançou um olhar crítico aos projetos de paz através da história.

Como professor emérito na Universidade de Urbino e presidente da Associazione Marx XXI, Losurdo, mesmo em idade avançada, manteve suas atividades ao redor do mundo em conferências e apresentações de livros. Sempre entusiasmado em promover seu pensamento no âmbito internacional, até mesmo logo antes de sua morte, ele estava trabalhando em um novo capítulo para a versão em inglês de seu livro “Antonio Gramsci: From Liberalism to Critical Communism.”

Esta é apenas uma das três obras de Losurdo em inglês previstas para serem publicados, continuando o esforço em tornar seu trabalho conhecido para camadas de leitores ainda mais amplas. Ele já estava entre os mais reconhecidos marxistas italianos em âmbito internacional, enquanto um robusto militante e historiador de filosofia, sempre atento em expor as realidades materiais, as condições históricas e sociais, que estiveram por trás de todos os ideais e sistemas filosóficos.

Particularmente, isso tomou a forma de um ataque perfurante à hipocrisia liberal, mais notadamente expresso em um trabalho inicialmente publicado em italiano, em 2005, depois traduzido para o inglês pela Verso em 2011, como “Liberalism: A Counter History” [“Contra-História do Liberalismo“]. Losurdo expôs a violência colonial e a posse de escravos que passaram de mão em mão com a ascensão do projeto liberal no século XVIII, apontando acidamente seus limites, a exclusão e a hipocrisia no coração do alegado universalismo do liberalismo.

Isso, inclusive, auxiliou os esforços de Losurdo, na defesa das experiências soviética e chinesa de construção do socialismo. Ele não explicou meramente seus crimes e erros (os quais ele admitia livremente) como uma resposta ao clima de guerra sob as quais emergiram. Além disso, ele expôs as falsas assimetrias que levaram os liberais a comparar a violência comunista e nazista, como se o colonialismo ocidental pudesse de alguma forma ser separado.

Revisionismo e anti-revisionismo

Domenico Losurdo foi, de fato, um escritor marcadamente político. Nascido no ano em que a Itália fascista se uniu à Alemanha nazista em sua guerra contra a URSS, ele foi parte de uma geração radicalizada nos anos 1960, na qual o “anti-revisionismo” maoísta exerceu uma forte influência em figuras da extrema esquerda. A partir deste contexto marxista-leninista, nos anos 1980 ele se juntou ao Partido Comunista Italiano (PCI) e posteriormente, após sua dissolução em 1991, ao esforço de refundação do partido, o Rifondazione Comunista (PRC).

Professor de filosofia da história na Universidade Urbino e um reconhecido estudioso de Hegel, em décadas mais recentes, o trabalho de Losurdo adotou um particular caráter proferidamente “militante”. Deparado com o colapso da União Soviética e com a corrida do triunfalismo liberal, Losurdo construiu críticas devastadoras àqueles que pintaram esta última ideologia como o prenúncio de um abrangente progresso humano.

Isso estava mais expresso, particularmente, em seu livro “Contra-História do Liberalismo”. Contrário à sua própria auto-hagiografia, Losurdo explorou o lado obscuro do afloramento do liberalismo em potências industriais como Inglaterra, Holanda e os Estados Unidos. Não somente estas sociedades construíram um legado de escravidão e expansão dos circuitos comerciais de escravos, bem como radicalizaram e formalizaram suas premissas na supremacia branca.

Para esta Contra-História, como também para seu estudo de “Democracia ou bonapartismo”, Losurdo revelou a dependência essencial do liberalismo com a segregação, criando barreiras de propriedade e raça. O liberalismo não só herdou as hierarquias do mundo pré-capitalista, como também criou outras novas; ele não apenas subverteu a monarquia e a regra hereditária, bem como impôs novas formas de divisão e exclusão nas massas coloniais e metropolitanas.

Aqui, Losurdo obteve maior sucesso ao expor as sombrias origens do liberalismo e os crimes nele engendrados, do que ao apresentar sua necessidade fundamental e permanente de formas particulares de exclusão (como a escravidão). Suas acusações à hipocrisia liberal frequentemente aparecem como se fossem uma demanda para o fim das falsas assimetrias e pontos cegos; o que significa dizer, a completa realização de um proclamado universalismo, mais do que sua simples destruição.

Esta determinação em historicizar o pensamento político é também chave para a defesa de Losurdo do socialismo ao estilo soviético. Contra aqueles que diriam que comunismo funciona em teoria, mas não na prática, seu trabalho coloca a questão de que o mesmo também poderia ser dito do liberalismo. A Contra-História pergunta, “assim como com qualquer outro grande movimento histórico,” não apenas o que o liberalismo pretende em sua “pureza abstrata,” mas em suas relações sociais reais.

Assim que a polêmica pesquisa de Losurdo sobre liberalismo estabeleceu os valores que reivindica, sob a áspera luz de sua realidade histórica, seus escritos sobre as críticas à URSS buscaram destacar o contexto histórico que os liberais preferem ignorar. Particularmente, Losurdo era incisivamente crítico à escola “totalitária” representada por Hannah Arendt e uma manada de historiadores anticomunistas, que por sua vez reduziram Stalin e Hitler à “irmãos gêmeos.”

Enquadrando o liberalismo nos termos da exclusão, Losurdo buscou reformular nossa visão do século XX, ao centralizá-la no colonialismo. A guerra nazista por “espaço habitável no Oriente” foi uma guerra colonial de agressão contra a URSS: ela pegou as ferramentas que a Grã-Bretanha, Bélgica e França utilizaram na África e Ásia, modernizando-as e reclinando-as para o continente europeu. Mesmo tal empreendimento assassino poderia assegurar a fidelidade de um pensador como Martin Heidegger, pois, sua cultura não era, de fato, tão inovadora assim.

Neste sentido, Losurdo argumenta que o rótulo do “totalitarismos” difamou deliberadamente a URSS, enquanto reduzia à um plano secundário a violência massiva que já vinha sendo perpetrada por poderes coloniais nas décadas recentes. Por que nós ouvimos muito mais sobre o Massacre de Katyn e Holodomor do que sobre a carnificina dos Mau Mau ou da Fome em Bengala? Na visão de Losurdo, comparar Stalin a Hitler era como colocar Toussaint Louverture, líder da rebelião dos escravos haitianos, na mesma base moral que os proprietários de escravos franceses, simplesmente porque ambos os lados tinham lideranças “autoritárias”.

Foi sem dúvida uma reformulação provocativa. Losurdo estava tranquilo em pisar nos dedos dos pés, mas algumas vezes era tonalizado como alguém que queria contrariar. Embora ele reconhecesse os aspectos exorbitantes e paranoicos da liderança de Stalin, seus esforços para relativizá-lo eram frequentemente governados por um zelo polêmico injustificado pelas evidências reunidas. Isso tornou sua reformulação do stalinismo mais “interessante” do que necessariamente persuasiva.

Construindo o socialismo

Losurdo há muito tempo desafia a esquerda que, em sua visão, criticava abstratamente esforços reais de construção do socialismo sem sentir a necessidade de sujar suas mãos com escolhas pragmáticas. Isso foi resumido pelo seu recente estudo sobre o marxismo ocidental. Insistindo que, longe da URSS estar “degenerando-se” por conta de seu isolamento, a esquerda da Europa Ocidental que atrofiou-se em uma gama de debates por conta de seu isolamento dos processos reais de mudança social.

Nesta veneração da URSS e, verdade, da China (a qual ele continuava a ver como um país no caminho rumo ao socialismo, por meio de um tipo moderno de Nova Economia Política), Losurdo rejeitou agudamente qualquer inutilidade da história do século XX. Ele era mordaz com teóricos modelados na esquerda ocidental, de Theodor Adorno a Michel Foucault, e buscou expor os pontos cegos e mesmo o racismo alicerçado na rejeição dos esforços orientais de “construção do socialismo”.

O engajamento político de Losurdo foi uma ponte na divisão entre a história do século XX e o presente. O pequeno Partido Comunista no qual ele era envolvido nos anos recentes, autodenominado em homenagem ao PCI de Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti, buscou reviver o partido que se dissolveu após a queda do Muro de Berlim. Entretanto, o trabalho de Losurdo tendia a evitar qualquer exame dos processos específicos que levaram o histórico PCI à destruição.

Atualmente, a esquerda italiana ainda precisa se recuperar da morte do PCI, ou talvez, de sua vida. Suas estruturas zumbis ainda permanecem conosco, como no neoliberal Partido Democrata; sua residual influência cultural incorpora a nostalgia de uma grande esquerda de outrora que é incapaz de dar vida à qualquer coisa nova. A extrema-direita está na ofensiva e parece faltar esperança; talvez seja mais fácil agarrar-se à velhas certezas do que iniciar um projeto comunista do zero.

Os esforços de Losurdo em recuperar esta herança eram frequentemente questionáveis, mas sempre estimulantes. E seu pensamento ainda está conosco. O ano de 2019 viu edições de seu livro “Democracia ou bonapartismo” (Unesp), sua vasta biografia de Nietzsche e seu estudo de Antonio Gramsci (ambos com Brill). Outras traduções previstas incluem estudos de Hegel e de Kant. Por meio destes títulos e da descoberta de seus trabalhos por novos leitores, o pensamento penetrante de Losurdo irá sobreviver ao tumor que o matou.

Sobre o autor

David Broder é um historiador do comunismo francês e italiano. Atualmente, ele está escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

1 de julho de 2018

Marx, valor e natureza

John Bellamy Foster


Tradução / O filme de Raoul Peck O Jovem Karl Marx, de 2017, abre com uma silenciosa cena de pobres “camponeses proletários”, homens, mulheres e crianças sujos e maltrapilhos, catando madeira morta numa floresta. De repente são atacados por uma tropa de polícia montada armada com porretes e espadas. Alguns dos catadores são mortos; o resto é capturado. A cena corta para Karl Marx com 24 anos, na redação do Rheinische Zeitung [Gazeta Renana] de Colônia, onde era editor, escrevendo o artigo “Os Debates sobre a Lei do Roubo de Madeira”. Entre outubro e novembro de 1842, Marx escreveu uma série de cinco artigos com esse título – e foi isso, mais que qualquer outra coisa, que levou os censores prussianos para cima do jornal, de seu talentoso jovem editor e outros escritores. [1] No filme, vemos o jovem Marx e seus comparnheiros debatendo o caminho que os levara a desafiar tanto o Estado prussiano quanto seus próprios patrocinadores industriais liberais. Marx era intransigente; não havia outro caminho possível. Como explicou mais tarde em seu famoso Contribuição para a Crítica da Economia Politica, de 1859, foi sua tentativa de refletir sobre a expropriação dos direitos de costume dos pobres sobre a floresta que primeiro o levou ao estudo sistemático da economia política. [2]

A criminalização do usufruto da floresta era uma grande questão na Alemanha daquele tempo. Em 1836, ao menos 150 mil das 207.478 ações judiciais existentes na Prússia eram por “furto de madeira” e delitos relacionados. Na Renânia, a proporção era ainda maior. Esses processos resultaram em multas pesadas e prisões. Em Baden, em 1842, um em cada quatro habitantes foi condenado por roubo de madeira. Central para o argumento de Marx era o uso da “categoria de roubo onde ela não deveria ser aplicada”: não apenas recolher madeira morta, mas também catar folhas mortas e colher morangos silvestres (um direito de costume concedido às crianças) eram ações declaradas como sendo roubo, muito embora essas fossem formas há muito estabelecidas de apropriação tradicional pelos pobres. O “direito de costume” dos pobres à apropriação livre de madeira morta, insistia Marx, não se aplicava à árvore viva, “orgânica”, ou à “madeira cortada” – que podiam ser vistas como propriedade dos donos privados – mas apenas a aquilo que já estava morto. O usufruto da floresta pelos pobres estava sendo transformado “num monopólio dos ricos”, através de um processo de expropriação por “pequenos mercadores atrás de dinheiro... e juros sobre terras teutônicas”. Em resposta, Marx referia-se à “natureza elementar” do sistema florestal e, como indica o historiador Peter Linebaugh, fundamentava seu argumento num apelo à “bioecologia da floresta” e à “complexa sociedade” que ela mantinha, incluindo o modo como o direito dos pobres à madeira morta espelhava sua posição empobrecida mais geral e sua relação com a natureza. [3]

Questões relativas à expropriação da terra/natureza e dos seres humanos nunca deixaram de ocupar Marx em seus trabalhos subsequentes, aparecendo em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos e em suas duas grandes discussões da “chamada acumulação primitiva” no Grundrisse e no Capital. No filme de Peck, o assalto da polícia florestal aos pobres é um pesadelo recorrente, no qual Marx vê a si mesmo correndo ao lado dos trabalhadores rurais sem-terra que estão sendo caçados pelas autoridades.

A apropriação e expropriação da natureza

A distinção crucial de Marx entre apropriação e expropriação, em torno da qual orbita sua crítica ecológica, bem como econômica do capitalismo, fica evidente em sua resposta a Pierre-Joseph Proudhon, como foi dramaticamente retratado em O jovem Karl Marx. Proudhon é retratado dando uma palestra na qual faz sua famosa declaração de que “propriedade é roubo”. [4] Da plateia, Marx pergunta, “que tipo de propriedade, propriedade burguesa?” Proudhon responde, “propriedade em geral”. Marx observa que isso é “uma abstração”. [5]

Para Marx, como ele indica num encontro posterior com Proudhon, no filme, a declaração deste último é logicamente insustentável, pois se a propriedade em geral é definida como roubo, e todos os títulos de propriedade são, portanto, inválidos, levanta-se então a questão: o que é roubo? Era necessário, na visão de Marx, distinguir apropriação, ou propriedade em suas muitas e diversas formas históricas, de expropriação, isto é, apropriação sem um equivalente (nos termos de Marx, também sem troca e sem reciprocidade). [6] A teoria política clássica, de John Locke a Hegel e Marx, localiza a base da sociedade civil e do Estado na apropriação – o termo ativo para propriedade ou direito à posse através do trabalho. [7]

Como Marx explicou em A Miséria da Filosofia e nos Grundrisse, todas as sociedades humanas repousam sobre a livre apropriação da natureza, que é a base material do trabalho e da produção. Esse é outro modo de dizer que todas as sociedades dependem da propriedade. Não pode haver existência humana sem a apropriação da natureza, sem produção, e sem propriedade de algum tipo. “Toda produção é apropriação da natureza por parte de um indivíduo dentro e através de uma forma específica de sociedade. Nesse sentido, é uma tautologia dizer que a propriedade (apropriação) é uma pré-condição da produção.” Para Marx, declarar que “propriedade é roubo”, como fez Proudhon, era portanto contornar a questão fundamental – o desenvolvimento de várias formas de apropriação na história humana, das comunais a formas mais extremas de mercantilização privada. [8] Essa abordagem possibilitou a Marx desenvolver uma poderosa crítica da sociedade capitalista, tanto econômica quanto ecológica. [9] A concepção de Proudhon não deixava saída para a humanidade; já que alguma forma de apropriação era a base universal da sociedade e da própria vida, declarar que a propriedade em geral era roubo, independentemente de formas particulares de propriedade, era um beco sem saída para movimentos revolucionários. [10]

Aqui pode ser traçado um paralelo com a noção de alienação como objetificação, de Hegel, em cuja filosofia poderia ser transcendida pela unificação de sujeito e objeto, mas apenas em pensamento — isto é, no conhecimento absoluto da filosofia hegeliana. Para Marx, que rejeitava a solução idealista, a objetificação era inerente à existência humana, uma vez que os seres humanos eram seres materiais, sensuais e objetivos, que retiram seu sustento de fora de si mesmos. Daí que, na visão de Marx, não era a objetificação, mas antes a “mediação alienada” intrínseca à produção da mercadoria capitalista que estava sujeita à transcendência, e isso tinha de acontecer na realidade material, não simplesmente em pensamento. [11] De modo semelhante, os seres humanos, como seres materiais objetivos, não podiam ser libertados da apropriação da natureza, isto é, da propriedade em todas as suas variadas formas, que era uma condição objetiva de sua existência. O que era possível, contudo, era a libertação revolucionária da humanidade das formas mais alienadas, expropriativas do metabolismo social humano com a natureza.

Essas mesmas questões reemergem hoje em debates sobre o significado e método do que é amplamente denominado ecossocialismo. Para Raj Patel e Jason W. Moore, em seu livro A History of the World in Seven Cheap Things [Uma História do Mundo em Sete Coisas Baratas], “apropriação” em geral, como em Proudhon, é definida como “um tipo contínuo de roubo”. [12] Tanto aqui quanto no livro anterior de Moore, Capitalism in the Web of Life [Capitalismo na Rede da Vida], o foco é na “apropriação do trabalho” em todas as suas formas – sendo que ele se referia a “trabalho” no sentido físico (isto é, a medida de energia transferida quando uma força externa é aplicada a um objeto e o move). Nesse sentido naturalista, podemos falar do “trabalho” de um rio ou de um poço de petróleo, nos mesmos termos que os de um ser humano. A apropriação, ou propriedade, concebidas por Patel e Moore como roubo de “trabalho”, são pois universais e inescapáveis, associadas ao próprio movimento físico. [13] Tal apropriação da natureza externa, nos diz Moore, suplanta a exploração do trabalho na produção. [14]

Ninguém, é claro, iria duvidar que a apropriação da natureza está na base de toda a produção humana. Seres humanos são objetivos, seres materiais; como qualquer criança sabe, nós, como todos os outros seres vivos, não podemos existir sem a apropriação livre da natureza. De fato, toda a produção material humana, como Marx enfatiza, nada é além da mudança na forma daquilo que a própria natureza cria. [15] Mas argumentar, como fazem Patel e Moore, que a apropriação humana da natureza em geral (isto é, do seu “trabalho” ou energia) é “uma espécie de roubo contínuo”, e que esse é o centro da crise ecológica, é atribuir implicitamente todo o problema à própria existência dos seres humanos – uma posição misantrópica.

Tal perspectiva, comum à maioria do pensamento ambiental mainstream, afasta-se necessariamente da crítica à mediação alienada da relação humana-social metabólica com a natureza, e das formas específicas de expropriação capitalista da natureza e seus efeitos sobre os ecossistemas. Na perspectiva marxista clássica, é precisamente porque a história humana criou um modo de produção (capitalismo) que aliena as relações metabólicas entre seres humanos e natureza, criando assim uma fissura metabólica e a ruptura das condições de reprodução ecológica, que podemos ter a esperança de restaurar o metabolismo essencial – através de uma reversão revolucionária do capitalismo e da criação de uma nova realidade material, coevolutiva. Esta é a principal mensagem ecológica de Marx.

Na visão do materialismo histórico clássico, a livre apropriação da natureza (o uso dos dons gratuitos da natureza) não deve ser condenada como roubo. De fato, “trabalho real efetivo”, para Marx, “é a apropriação da natureza para satisfação das necessidades humanas, atividade pela qual o metabolismo entre a humanidade e a natureza é mediado”. A preocupação também não deveria ser primordialmente, como na sociedade burguesa, o simples fato da natureza ser “barata”. Antes, é a expropriação da natureza no sentido da apropriação da terra ou recursos sem reciprocidade (manutenção das “condições de reprodução”) pelo capital que constitui roubo nessa esfera. Na visão de Marx, isso reflete a “lei de ‘expropriação’, não de ‘apropriação’” que sustenta o capitalismo. É associada, nesses aspectos ambientais, com a violação capitalista sistemática daquilo que um químico alemão do século XIX, Justus Von Liebig, chamou de “lei de reposição” natural-material (ou “lei de compensação”), necessária para a reprodução ecológica. [20]

A relação destrutiva do capitalismo com o reino ecológico depende desse roubo a que Marx se refere como “os poderes integrantes da natureza” – roubo não no sentido de que esses elementos não são “pagos”, como diz Moore, mas antes na violação da lei de reposição. Como Erysichthon na mitologia grega, o capital requer cada vez mais rodadas de expropriação somente para avançar, até o ponto de devorar tudo que existe – incluindo, em última análise, a si mesmo. A dialética da expropriação e exploração, levando por fim ao exterminismo, encontra-se assim no centro da crítica do capital do materialismo histórico clássico. Para Marx, não era a apropriação da madeira morta da floresta por camponeses-proletários, mas antes a expropriação alienada do capital de toda a madeira (e toda a terra) para alimentar sua ânsia insaciável de acumulação, que constituía a realidade essencial da espoliação do mundo material: uma “tragédia da mercadoria”, não uma tragédia dos comuns.

Se a exploração do trabalho é a força por trás da valorização e da acumulação capitalista, segue-se que ele não pode continuar esse processo contraditório, numa escala sempre crescente, sem novas rodadas de destruição criativa nas fronteiras do sistema – a expropriação do ambiente natural, junto com a expropriação do trabalho social reprodutivo, da comunicação humana, do conhecimento, e mais. No Capital e em seus últimos escritos, Marx apontou tentativas, sob o capitalismo, de acelerar o tempo de rotatividade na produção de madeira com árvores de crescimento mais rápido, e na produção de carne pela reprodução do gado, argumentando que isso necessariamente pressionava as leis naturais (e no caso do gado, promovia crueldade com os animais).

Para Marx, a fissura metabólica – a mediação alienada entre a humanidade e a natureza – era produto do “roubo” ou expropriação do solo, e por conseguinte da natureza, dificultando assim “o funcionamento da eterna condição natural para a fertilidade duradoura do solo”. Isso por sua vez demandava a “restauração sistemática” desse metabolismo, numa sociedade futura de produtores associados capazes de governar “o metabolismo humano com a natureza de maneira racional... concretizando isso com o mínimo dispêndio de energia”, e desenvolvendo mais integralmente seus poderes humanos individuais e coletivos.

Valor e natureza

Com a ascensão do ecossocialismo, suscitado pela fissura planetária, aprofundaram-se e multiplicaram-se as críticas ecológicas ao sistema capitalista. Mas, como em qualquer período de avanço teórico desenfreado, isso produziu perspectivas e posições completamente diferentes, resultando em novos debates sobre a concepção, o escopo e o propósito da crítica do valor de Marx. Ambientalistas de esquerda e políticos ecologistas, tais como Stephen Bunker, Alf Hornborg, Zehra Tasdemir Yasin and Giorgos Kallis, procuraram descartar ou desconstruir a teoria do valor inteira, argumentando que a natureza em geral, a energia e espécies individuais criam valor no sentido abstrato, que não é restrito ao trabalho humano – ou que, no caso de Hornborg, o valor econômico é simplesmente normativo. [27] Essa análise vem frequentemente de teóricos que trabalham fora do campo da economia política crítica, os quais tendem a confundir conceitos de uso de energia, de valor de uso, de valor intrínseco e de valor normativo com o sistema econômico de valor da mercadoria baseado no trabalho abstrato sob o capitalismo.

Na crítica de Marx ao processo de valorização capitalista específico, historicamente, valor é a cristalização do trabalho abstrato socialmente necessário – “trabalho como gasto da força de trabalho”. [28] Essencial para essa crítica é o reconhecimento de que valores de uso natural-material, enquanto componentes de cada e toda mercadoria e base de toda a riqueza real, são excluídos do cálculo de geração de valor do capitalismo, na medida em que nenhum trabalho é incorporado em sua produção. Como o próprio Marx colocou nos Grundisse, “o puramente material natural, uma vez que nenhum trabalho humano está objetificado nele... não tem valor [econômico] sob o capitalismo”. [29] Esse caráter contraditório da produção de mercadoria capitalista, manifestado na oposição entre valor de uso e valor de troca, posiciona a estreita forma do cálculo capitalista de valor em oposição à real riqueza, que tem suas fontes em ambos, o valor de uso material-natural e trabalho humano concreto. [30]

Dado que o valor de uso não desempenha papel direto na lógica interna de valorização sob o capitalismo, isso dá origem, tanto na economia clássica como na neoclássica, à noção de “doação gratuita da Natureza ao capital”. A exploração e acumulação capitalista, como explica Marx, depende em última análise da usurpação, pelo capital, dos dons na natureza por si mesmos, assim monopolizando os meios de produção e riqueza em sua totalidade. [] Essa alienação da natureza tem sua contrapartida na alienação do trabalho – ou seja, na emergência de uma classe sem base de existência, exceto a venda de sua própria força de trabalho.

Compreendida deste modo, a forma do valor de mercadoria construída historicamente sob o capitalismo não é aquela em que participam diretamente a energia ou as abelhas, mas, ao contrário, um produto das relações de classes sociais humanas. Ver natureza ou energia, não apenas o trabalho socialmente necessário abstrato, como geradores do valor de mercadoria, serviria apenas para naturalizar e universalizar o processo de valor capitalista, omitindo seu caráter específico social e histórico e sua relação com a alienação e exploração do trabalho. Mesmo a economia neoclássica – junto com a economia ecológica de Nicholas Georgescu-Roegen – atribui todo valor agregado, na economia, ao trabalho ou serviços humanos, e nada à natureza ou energia. O capitalismo, assim, exclui a natureza (incluindo a natureza corpórea dos seres humanos) de sua forma de valor – uma contradição fundamental e de muitos modos fatal do sistema.

Em contraste com os ataques frontais à teoria de valor de Marx descritos acima, a abordagem mais sutil de Moore parece primeiro conforme à teoria de valor marxista, atribuindo valor ao trabalho. Mas, num exame mais detalhado, sua análise de fato rouba de todo significado a própria abordagem de Marx, e enfraquece qualquer crítica ecológica (ou econômica) coerente do capitalismo. Como Moore coloca, seu “argumento vem de uma certa desestabilização de valor como ‘categoria econômica’”. Diferentemente da critica da valorização capitalista de Marx, que reconhecer que sob o capitalismo todo valor é a cristalização do trabalho socialmente necessário, e que faz uma dura e rápida distinção entre valor e riqueza, Patel e Moore, em A History of the World in Seven Cheap Things, procuram apagar completamente essas distinções.

Eles declaram, portanto, que “valor é uma cristalização específica das ‘fontes originais de riqueza’: trabalho humano e extra-humano”. Aqui Marx é citado contra si mesmo, apresentando sua famosa definição de riqueza como base de uma definição de valor, apagando dessa forma uma distinção absolutamente crucial que separa Marx da economia burguesa. De fato, o centro da crítica marxista repousa sobre a distinção entre valor de uso e valor de troca e entre riqueza e valor.

Da mesma forma, em Capitalism in the Web of Life Moore procura transformar a noção de Marx de “lei de valor”, que foca em quid pro quo como base da troca de mercadorias capitalista, em seu oposto, em relação à “ecologia mundial” como um todo. Para Moore, a “lei de valor” está centrada na ausência de um quid pro quo (em termos de troca) entre capital e Natureza Barata – uma ausência que se torna então a base fundamental, em sua análise do “valor expansivo”, da valorização capitalista – em contradição total com a própria análise de Marx. Assim, ele afirma que o valor, em sua forma expansiva abrangente (incluindo o valor do não-trabalho), deriva primariamente da apropriação do trabalho/energia em geral, da qual a exploração do trabalho é simplesmente um epifenômeno.

Para Moore, portanto, o segredo da acumulação é “a lógica unificada do capitalismo de apropriação de ‘trabalho’ humano e extra-humano que é transformado em valor”. Nessa visão, a ecologia/economia e toda a interação humana com a natureza equivalem à apropriação dos “quatro baratos”: força de trabalho, comida, energia e matérias primas. A força de trabalho é assim apresentada como não mais significativa do que a comida, a energia e os recursos naturais, quanto à lei de valor. (Em seu último trabalho com Patel, Moore expandiu a moldura de quatro para sete baratos [cheaps], acrescentando natureza, trabalho, dinheiro, vidas e o trabalho de cuidar, e abandonando força de trabalho e matérias primas). Essa formulação complicada, contudo, inibe efetivamente qualquer crítica coerente da produção de valor capitalista, quanto mais qualquer entendimento significativo das crises ecológicas engendradas pelo sistema capitalista.

O argumento de Moore relativo aos quatro (ou sete) “baratos” tem base em sua concepção mais elástica daquilo que constitui valor sob o capitalismo e na civilização em geral, com o que ele visa apresentar nada menos que uma “nova lei de valor”, abrangendo a exploração do trabalho, bem como a apropriação da natureza/energia física. “Leis de valor”, escreve ele, são fenômenos “que formam e mantêm coesa uma civilização”. Elas são produto, em grande parte, da apropriação do “trabalho” físico, isto é, a energia do universo. Tais “relações de valor expansivas”, como ele chama, “levam uma vida dupla”, estendendo-se além do processo de trabalho e produção de valor apropriado, bem como além do fenômeno do trabalho humano não remunerado, para incluir todo o “trabalho extra-humano” envolvido na ecologia do mundo capitalista. Esses domínios mais amplos de “trabalho/energia não remunerados” associados à “zona de apropriação” superam de longe a exploração do trabalho na determinação das dimensões gerais e expansivas de valor de uma dada civilização.

“A lei do valor”, argumenta então Moore, “longe de ser redutível ao trabalho social abstrato, encontra suas condições necessárias de autoexpansão por meio da criação e subsequente apropriação da Natureza Barata”, isto é, apropriação da rede da vida em geral. De novo, somos deixados num nível de obscuridade equivalente ao do “propriedade é roubo” de Proudhon. É dito que a “lei de valor” está em última análise baseada na “apropriação do ‘trabalho não remunerado da natureza’” (juntamente com o trabalho doméstico não remunerado das mulheres e outras formas de trabalho humano não remunerado). “O trabalho/energia acumulado na formação dos combustíveis fósseis” e a exploração da força de trabalho numa fábrica são “momentos inscritos na lei de valor”. A atmosfera é “colocada para trabalhar” absorvendo gases de efeito estufa, pelo que também é “não remunerada”, assim contribuindo para a valorização capitalista.

Aqui a lei de valor expansivo de Moore, baseada num “mundo de trabalho não pago” no qual a “lei de valor no capitalismo é a lei da Natureza Barata”, esbarra com um problema não resolvido, uma vez que essa concepção é virtualmente sem fronteiras, abarcando não só o ambiente planetário mas todo o universo. Como lhe é forçoso admitir, nesse sentido um “mundo de trabalho não remunerado” simplesmente “não pode ser quantificado”. Embora ele declare que “valor não funciona a menos que a maioria do trabalho não seja valorizado”, isso fica sendo uma simples tautologia, já que o “trabalho” referido inclui todas as coisas sujeitas às leis do movimento da física, na medida em que, em última instância, relaciona-se à economia – da agricultura de subsistência a uma colmeia a uma cachoeira a um isótopo radioativo a uma reação nuclear. “Carvão e petróleo”, escreve ele, “são exemplos dramáticos desse processo de apropriação de trabalho não remunerado”.

É essa apropriação universal “não remunerada” do trabalho/energia da terra, como condição eterna da existência humana, que Patel e Moore descrevem como “roubo contínuo”, o qual leva a cada vez mais dispendiosos “baratos” no final. Contudo, embora o capital possa acabar possuindo poderes naturais pelos quais não paga, como não paga pela habilidade de pensar do trabalhador, só resta confusão da tentativa de tratar tal apropriação da capacidade de trabalho da natureza, no sentido da física, como quantificável e de alguma forma equivalente à produção de valor econômico nas relações sociais capitalistas. Nem ajuda muito caracterizar uma catarata, ainda que seja usada para gerar eletricidade, como “não remunerada”.

Na “nova lei de valor” de Moore, tudo na existência material, seja trabalho social remunerado, trabalho social não remunerado, ou o não remunerado trabalho/energia do universo, importa principalmente na medida em que é aproveitado no processo de valorização capitalista. O trabalho/energia operado pelo sol, e o do sistema terrestre que durante milhões de anos levou à formação de depósitos de carvão e petróeo – mais o trabalho físico que o carvão e o petróleo desempenham na produção atual, como fontes de energia de baixa entropia – tudo entra na determinação da lei de valor da mercadoria expandida, que ele afirma poder explicar a “transformação do trabalho da natureza no valor [econômico] da burguesia”. A física, a ecologia, a economia – são todas lançadas como uma coisa só, apagando distinções fundamentais, cruciais para a crítica ecológica (e econômica) de Marx. De fato, “a relação capital”, para Moore, “transforma o trabalho/energia da natureza em… valor”.

Os pontos de vista discutidos acima também negam completamente a teoria de valor do trabalho sob o capitalismo (como em Bunker, Hornborg, Yasin e Kallis) ou a estendem a ponto do absurdo, em busca de “uma única lógica de riqueza, poder e natureza” sob o capitalismo (como em Moore). Em contraste, argumenta-se aqui que a relação metabólica entre seres humanos e natureza é alienada e contraditória, colocando uma cunha entre as as leis antagônicas do movimento (e lei de valor) do capitalismo e o sistema terrestre. Crises ecológicas não surgem simplesmente, ou mesmo principalmente porque a economia mundial (ou a ecologia mundial) se apropria, sem pagamento, do trabalho externo da natureza, nem porque a Natureza Barata está se tornando Natureza Dispendiosa, minando a base do capitalismo. Entendida adequadamente, uma crise ecológica, ou crise de desenvolvimento humano sustentável, não pode ser quantificada em dólares e centavos, ou em termos de Natureza Barata, muito menos “natureza não remunerada”.

Ao contrário, no coração da fratura metabólica de hoje, como argumenta Marx, está a lógica do sistema alienado de acumulação capitalista, no qual todas as fronteiras naturais são tratadas como meras barreiras a ser superadas, abrindo fissuras antropogênicas nos ciclos biogeoquímicos fundamentais que constituem todo o sistema terrestre total. Crises ecológicas propriamente ditas não são, assim, crises de valor econômico, mas de ruptura e destruição das condições de reprodução ecológica e desenvolvimento humano às expensas das futuras gerações humanas e espécies vivas em geral. Percebida dessa maneira, a principal contradição ecológica reside na expropriação da natureza como oferta grátis ao capital, levando à “dilapidação dos poderes da terra”. Isso é o que Marx quis dizer quando falou que o solo era “roubado” de suas condições de reprodução, gerando em consequência uma fissura no metabolismo entre a humanidade e a Terra.

Não é tanto com a apropriação do trabalho/energia da natureza como condição inerente da produção e da sociedade humana, e por certo da própria vida, que deveríamos estar mais preocupados – embora o aumento da produtividade ambiental seja central – mas sim com as fissuras ecológicas, sempre em expansão, impostas ao sistema terrestre pela lógica antagônica do capital. Colocado de outra forma, não é o mero fato da apropriação gratuita do trabalho/energia física pelos seres humanos (uma condição objetiva de existência) que é a fonte maior de nossas contradições ecológicas, mas sim a gananciosa expropriação da natureza pelo capital e a própria fissura metabólica – isto é, a ruptura historicamente específica do sistema de mercadoria das condições elementares e ciclos biogeoquímicos de reprodução natural das quais dependem, em última instância, a existência humana e a de inúmeras outras espécies.

Contra a expropriação da terra

Um dos insights mais profundos de Marx foi de que as “forças produtivas” sob o capitalismo tornaram-se “forças destrutivas”. A própria “produtividade do trabalho”, sob o capitalismo, levou ao “progresso aqui, retrocesso ali”. Ele atribuiu esse retrocesso especificamente à degradação das “condições naturais” para “a exaustão das florestas, minas de carvão e ferro, e assim por diante” – estendendo-se aos efeitos negativos das mudanças climáticas regionais. A começar de seus primeiros trabalhos, ele concebia a expropriação e alienação da terra/natureza como contrapartida necessária, uma condição até mesmo primordial, da expropriação e alienação do trabalhador. Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos observou que o capitalismo, ainda mais que o feudalismo, antes dele, enraizava-se na “dominação da terra como de um poder alienado sobre o homem”. A expropriação e a remoção dos seres humanos das condições naturais de produção, através do confisco capitalista da terra, criaram as condições alienadas para a exploração dos trabalhadores. Pelo mesmo gesto, riquezas privadas eram ampliadas em todo lugar pela destruição da riqueza pública (o Paradoxo de Lauderdale).

“A chamada acumulação primitiva”, Marx continuou a explicar no Capital, “significa a expropriação dos produtores imediatos”, envolvendo a dupla expropriação dos produtores diretos e da terra. A imposição dessas condições (marcada pelo cercamento histórico dos comuns), o crescimento do proletariado, e a alienação do trabalho e da terra produziram a destrutividade indispensável ao sistema capitalista. Como observou Max Weber durante sua viagem ao Território Indígena (hoje Oklahoma) em 1905, “quase com a velocidade da luz, tudo o que se encontra no caminho da cultura capitalista está sendo esmagado”. Como Liebig e Marx, antes dele, Weber apontou para a cultura capitalista, neste sentido, como um sistema de roubo, Raubbau (ou Raubsystem), que destruía a terra e os recursos naturais juntamente com quaisquer formações econômicas pré-capitalistas que aparecessem em seu caminho. Contudo, esse Raubsystem não era atribuído à noção de que a propriedade (apropriação) era roubo, mas às formas históricas especificas de expropriação capitalista da humanidade e da natureza.

A expropriação da terra tem sido invariavelmente acompanhada pela expropriação dos humanos como seres corpóreos, através de inumeráveis formas de trabalho escravo e servidão, sempre presentes nas fronteiras lógicas e históricas do sistema, ajudando a tornar o capitalismo possível. Tal expropriação é sempre uma parte essencial do sistema, determinando seus parâmetros. O sistema do capital, disse Marx numa frase famosa, “vem pingando da cabeça aos pés, por todos os poros, com sangue e sujeira”. O papel da escravidão, do genocídio e de todo tipo de servidão humana, incluindo o roubo vil da própria terra, foi crucial tanto para as origens do capitalismo como para sua contínua reprodução antagônica. Hoje, a exploração bruta (ou superexploração), através da arbitragem global do trabalho de massa dos trabalhadores no Sul global, está dando origem a um “planeta de favelas” e à guerra imperialista imposta à periferia, juntamente com a contínua expropriação do trabalho não remunerado das mulheres.

Durante o tempo que Eric Hobsbawm chamou “a Era do Capital” – período de maior vitalidade do sistema, proveniente da Revolução Industrial – era possível focar principalmente nas características progressistas do capitalismo, abstraindo-se, de alguma forma, da expropriação. A crítica de Marx, então, centrou não na expropriação como tal, mas na exploração do trabalho, e foi no trabalho proletarizado, nesse sentido, que ele colocou suas esperanças de uma transição revolucionária. Hoje, contudo, a despeito de alguns desenvolvimentos tecnológicos notáveis – apenas parcialmente atribuídos ao sistema – estamos vendo um colapso dos principais mecanismos de acumulação capitalista, com tudo o que é sólido mais uma vez se desmanchando no ar. As taxas de exploração são hoje tão intensas que apresentam problemas de absorção do excedente associados à “superprodução dos meios de produção”. Assim, na era neoliberal, o capitalismo, em sua tentativa de superar as condições materiais da própria existência, buscou colocar toda a realidade dentro da lógica da valorização, via financeirização – refletindo o que Karl Polanyi chamou de concepção “utópica” da sociedade de mercado.

Nesta nova era de pilhagem e despossessão, a luta tem cada vez mais se deslocado para o lucro sobre a expropriação, a captura de todos os fluxos monetários, bens e propriedades individuais, onde quer que elas existam. A apropriação de terras é um fator dominante na maior parte do Sul global. O mercado de carbono foi introduzido ostensivamente para lidar com as mudanças climáticas, criando, ao contrário, mercados para lucrar em cima delas. O próprio Sistema Terrestre está sendo destruído como um lugar habitável pela humanidade. O trabalho está sendo desconstruído, tornando-se cada vez mais precário e inseguro. Nessas circunsâncias, o ditado sardônico de Marx, “Acumulem, acumulem! Isso é Moisés e os Profetas!” é mais do que nunca a meta do sistema, mesmo que todas as formas de vida, como as conhecemos, estejam em perigo.

Reduzir o problema ecológico do capital a uma questão meramente de Natureza Barata, como se tudo fosse simplesmente uma questão de internalizar as contribuições da natureza ao mercado – uma visão ideologicamente justificada por várias teorias do capital natural e serviços ecológicos – seria um grave erro. Antes, na raiz da emergência ambiental contemporânea, está a absoluta incompatibilidade de um sistema de acumulação de capital com a existência humana e o sistema da Terra. Se o capital tem sido imensamente bem sucedido ao explorar o trabalho humano, suas crises resultantes da superacumulação e absorção do excedente têm agora como contrapartida a visível desconstrução do planeta como lugar para habitação humana, conforme os oceanos se enchem de plástico e a atmosfera, de carbono. O impulso renovado para a expropriação do planeta, nessas circunstâncias, não é um sinal da vitalidade do capitalismo, mas da ameaça de sua dissolução.

O movimento ecológico mundial surgiu num período da história geológica hoje comumente denominado Antropoceno, provocado pela Grande Aceleração – o período de uma fissura antropogênica que aumenta rapidamente, em ciclos biogeoquímicos, geralmente datado em 1945, com o advento da bomba atômica, ou no início dos anos 1950, com os testes nucleares da bomba de hidrogênio sobre o solo, e a consequente precipitação radiotiva nuclear. A resposta à crise do Antropoceno, contudo, precisa ser muito mais revolucionária do que a do movimento Verde surgido nos anos 1960 e que procurava simplesmente preservar o meio ambiente e combater a poluição, raramente questionando o sistema social. Hoje, não pode mais ser negado racionalmente que a valorização capitalista é um processo inerentemente destrutivo, inimigo não só do trabalho livre e criativo dos seres humanos, mas também da terra como local para habitação da humanidade e muitas outras espécies.

A famosa “destruição criativa” do capitalismo, a permitir-se que continue, ameaça de aniquilação “a cadeia de gerações humanas”. Neste século, a batalha contra a expropriação da terra deve unir-se à luta contra a expropriação de seres humanos, desafiando em última análise a dialética da expropriação e exploração, e todo o “coração bárbaro” do capital. O futuro está com o desenvolvimento do movimento socialista/ecossocialista do século 21, a ser enraizado numa classe trabalhadora ambientalista diversa e abrangente. Precisamos da reconstituição revolucionária do interdependente metabolismo social com a natureza, trazendo-o sob o controle racional dos seres humanos – voltado não apenas à sustentabilidade ecológica e conservação de energia, mas também ao desenvolvimento integral das necessidades e poderes humanos, na sociedade e através dela. Nada mais dará conta disso.

Notas:

[1] Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 1 (New York: International Publishers, 1975), 224–63. On the term “peasant proletariat,” see V. I. Lenin, Collected Works, vol. 20 (Moscow: Progress Publishers, 1972), 132–35.

[2] Karl Marx, Contribution to a Critique of Political Economy (Moscow: Progress Publishers, 1970), 19-20.

[3] Marx and Engels, Collected Works, vol. 1, 225, 233-35; Peter Linebaugh, Stop Thief! (Oakland: PM, 2014), 43-60; T. C. Banfield, Industry of the Rhine, Series I (London: Knight, 1846), 111; John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000), 66-68; David McLellan, Karl Marx (New York: Harper and Row, 1973), 56.

[4] Joseph-Pierre Proudhon, What Is Property? (Cambridge: Cambridge University Press, 1993),13–16, 70. Marx first referred to Proudhon in October 1842, around the time he wrote the first installment of his piece on the theft of wood. Marx and Engels, Collected Works, vol. 1, 220. In The Holy Family Marx and Engels argued that Proudhon’s critique of political economy in What Is Property? was “the criticism of political economy from the standpoint of political economy,” that is, he took the bourgeois criterion of the exchange of equivalents as the sole basis of his critique. Marx and Engels, Collected Works, vol. 4, 31–32; David McNally, Against the Market (London: Verso, 1993), 141–45.

[5] The encounter between Proudhon and Marx in Peck’s film is of course imaginary, but fits well enough with the known facts. See J. Hampden Jackson, Marx, Proudhon and European Socialism (London: English Universities Press, 1957), 50–70. The point on property in general as an “abstraction” is taken from Karl Marx, Grundrisse (London: Penguin, 1973), 85. Marx originally thought highly of the critique of private property in What Is Property?, but faulted Proudhon for his lack of analysis of property forms. Marx and Engels, Collected Works, vol. 4 (New York: International Publishers, 1975), 31–32.

[6] On Marx’s distinction between appropriation and expropriation, see John Bellamy Foster and Brett Clark, “The Expropriation of Nature,” Monthly Review 69, no. 10 (2018): 1–27.

[7] C. B. Macpherson, The Political Theory of Possessive Individualism (Oxford: Oxford University Press, 1962), 194–62; John Locke, Two Treatises on Government (Cambridge: Cambridge University Press, 1988), 297–301; G. W. F. Hegel, The Philosophy of Right (Oxford: Oxford University Press, 952), 41–45. In Locke’s case the bourgeois concept of appropriation was used to justify expropriation, as from Native Americans, on the fallacious grounds that they had not transformed the land through their labor. Locke, an investor in the Royal African Company, also justified the physical expropriation of human beings, in the case of the enslavement of Africans. See Barbara Arneil, John Locke and America: The Defense of English Colonialism (Oxford: Oxford University Press, 1996), 168–200; Peter Olsen, “John Locke’s Liberty Was for Whites Only,” New York Times, December 25, 1984.

[8] Karl Marx, The Poverty of Philosophy (New York: International Publishers, 1963), Grundrisse, 87–88, 488–49. See also Engels’s reference to “Proudhon’s theft thesis” in Marx and Engels, Collected Works, vol. 6 (New York: International Publishers, 1976), 260.

[9] Karl Polanyi, Primitive, Archaic, and Modern Economies (Boston: Beacon, 1968), 8–93, 106–07, 149–56.

[10] Marx and Engels, Collected Works, vol. 1, 228.

[11] Karl Marx, Early Writings (London: Penguin, 1970), 389–92; Georg Lukács, History and Class Consciousness (London: Merlin, 1971), xxiii–xxiv; István Mészáros, Marx’s Theory of Alienation (London: Merlin, 1975); John Bellamy Foster and Brett Clark, “Marxism and the Dialectics of Ecology,” Monthly Review 68, no. 5 (October 2016): 1–17.

[12] Raj Patel and Jason W. Moore, A History of the World in Seven Cheap Things (Berkeley: University of California Press, 2017), 81, 95. Elsewhere Moore defines appropriation as the identification, channeling, and securing of “unpaid work” outside the commodity system and embracing everything in nature that is “unpaid.” But since nature is never “paid,” this amounts in practice in his work to the notion of the appropriation of extra-human work encompassing all physical forces, i.e., appropriation in its very broadest sense (even divorced from the classical political-economic and philosophic sense of appropriation as property).

[13] For a concise discussion of the relation of physics to capitalism and ecological crisis, see Erald Kolasi, “The Physics of Capitalism,” Monthly Review 70, no. 1 (May 2018): 29–43.

[14] In The Condition of the Working Class in England, Engels defined “work” as “the expenditure of force.” See Marx and Engels, Collected Works, vol. 4, 431. Lancelot Hogben declared that Engels later welcomed the new developments in thermodynamics and the general theory of work that arose in physics through James Prescott Joule and others as, in Hogben’s words, “the beginning of a new chapter in the history of knowledge.” But no one could suggest that Marx and Engels’s analysis confused the specificity of human labor with “work” in the sense of physics. Lancelot Hogben, Science for the Citizen (New York: Knopf, 1938), 65; Marx and Engels, Collected Works, vol. 25 (New York: International Publishers, 1987), 370, 505.

[15] Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 133–34.


[16] Marx and Engels, Collected Works, vol. 30 (New York: International Publishers, 1988), 40.

[17] Marx can only be ironic when addressing the demands for “Cheap Food” by the bourgeois free traders of his time. See Marx, The Poverty of Philosophy, 207.

[18] Paul Burkett, “Nature’s Free Gifts and the Ecological Significance of Value,” Capital and Class 68 (1999): 89–110; Foster and Clark, “The Expropriation of Nature.”

[19] Marx and Engels, Collected Works, vol. 33, 301.

[20] Justus von Liebig, Letters on Modern Agriculture (London: Walton and Maberly, 1859), 254–55; Kohei Saito, Karl Marx’s Ecosocialism (New York: Monthly Review Press, 2017), 197. The law of compensation, which related to replenishment of renewable resources, should be supplemented by Herman Daly’s broader rules of sustainability: (1) Renewable resources must be used no faster than they regenerate; (2) Non-renewable resources should be used no faster than renewable substitutes can be put into place; (3) Pollution and wastes should be emitted no faster than they can be absorbed, recycled, or made harmless. See the Sustainable Water Resources Roundtable, “What Is Sustainability?” http://acwi.gov.

[21] Marx and Engels, Collected Works, vol. 1, 234.

[22] Ovid, Metamorphoses (New York: Norton, 2004), 298; Richard Seaford, Ancient Greece and Global Warming (London: Classical Association, 2009).

[23] See Stefano B. Longo, Rebecca Clausen, and Brett Clark, The Tragedy of the Commodity (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2015).

[24] On capitalism’s need for unlimited environmental expansion, see John Bellamy Foster, Brett Clark, and Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), 207–11. Nancy Fraser, “Behind Marx’s Hidden Abode: For an Expanded Conception of Capitalism,” New Left Review 86 (2014): 55–72, and “Expropriation and Exploitation in Racialized Capitalism,” Critical Historical Studies 3, no. 1 (2016): 163–78; Michael C. Dawson, “Hidden in Plain Sight: A Note on Legitimation Crises and the Racial Order,” Critical Historical Studies 3, no. 1 (2016): 143–61; John Bellamy Foster and Brett Clark, “Women, Nature, and Capital in the Industrial Revolution,” Monthly Review 69, no. 8 (2018): 1–24.

[25] Karl Marx, Capital, vol. 2 (London: Penguin, 1978), 321–22; John Bellamy Foster, “Marx as a Food Theorist,” Monthly Review 68, no. 7 (December 2016): 14–15.

[26] Marx, Capital, vol. 1, 637–38; Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 959.

[27] See, for example, Stephen Bunker, Underdeveloping the Amazon (Chicago: University of Chicago Press, 1985), 31–36, 44–45; Alf Hornborg, “Towards an Ecological Theory of Unequal Exchange,” Ecological Economics 25, no. 1 (1998): 130, and Global Ecology and Unequal Exchange (London: Routledge, 2011), 104; Zehra Taşdemir Yaşin, “The Adventure of Capital with Nature: From the Metabolic Rift to the Value of Nature,” Journal of Peasant Studies 44, no. 3 (2017): 391–93; Giorgos Kallis and Erik Swyngedouw, “Do Bees Produce Value?” Capitalism Nature Socialism 28, no. 3 (2017): 1–15. For critiques of such views, see Matthew T. Huber, “Value, Nature, and Labor: A Defense of Marx,” Capitalism Nature Socialism 28, no. 1 (2017): 39–52, and Paul Burkett, Marx and Nature (Chicago: Haymarket, 2014).

[28] Karl Marx, Texts on Method (Oxford: Basil Blackwell, 1975), 200.

[29] Marx, Grundrisse, 366. In classical political economy, rent, defined as a deduction from total surplus value, does serve to give certain natural resources exchange values, without these resources in any way generating commodity value as such—for the latter has its source exclusively in abstract labor.

[30] Karl Marx, Critique of the Gotha Programme (New York: International Publishers, 1938), 3–4.

[31] Marx and Engels, Collected Works, vol. 37 (New York: International Publishers, 1998), 732–33. The notion of the “free gift of nature” to capital was not invented by Marx but was axiomatic in the work of all the classical political economists, including Thomas Robert Malthus and Adam Smith. It was left to Marx, however, to give this concept a critical reading by explaining that these free gifts were monopolized by capital in the context of the alienation of nature and humanity.

[32] None of this of course means, for example, that raw materials utilized in production lack commodity value, in Marx’s conception. They acquire value as a result of the labor-power expended in obtaining and processing them. Additionally, rent of land is a deduction from total surplus value, which then enters into the costs to industry. Still, it remains true that while raw materials and other natural-material use values employed in production (as constant capital) have value, they do not generate value, as does socially necessary abstract labor. Further, capital’s monopoly of the productive powers provided by nature, viewed as a “free gift of Nature to capital,” constitutes the ultimate source of its class domination and its wider destructive tendencies. Karl Marx, Theories of Surplus Value, Part Two(Moscow: Progress Publishers, 1968), 45–46.

[33] See Foster and Burkett, Marx and the Earth, 107–10.

[34] For a critical description of how standard capitalist economic accounting fails to incorporate household and subsistence labor (mainly by women) and nature into value-added accounting, see Marilyn Waring, Counting for Nothing (Toronto: University of Toronto Press, 2009). On Georgescu-Roegen’s position, see John Bellamy Foster and Paul Burkett, Marx and the Earth (Chicago: Haymarket, 2016), 135.

[35] Jason W. Moore, “The Capitalocene, Part II: Abstract Social Nature and the Limits to Capital” (June 2014): 29, http://researchgate.net; accessed April 13, 2018.

[36] Patel and Moore, A History of the World in Seven Cheap Things, 101.

[37] As Paul Baran wrote: “The law of value [can be seen] as a set of propositions describing the characteristic features of the economic and social organization of a particular epoch of history called capitalism. This organization is characterized by the prevalence of the principle of quid pro quo in economic (and not only economic) relations among members of society; by the production (and distribution) of goods and services as commodities; by their production and distribution on the part of independent producers with the help of hired labor for an anonymous market with the view to making profit. ... It is by the dominance of this law of value that the capitalist order differs from all others: from antiquity in which slavery dominated the conditions of production and distribution; from feudalism which system was based on a comprehensive network of rights, duties and traditions; from socialism in which planning becomes the overriding principle” (Paul A. Baran to Stanley Moore, August 5, 1960, in Paul. A. Baran and Paul M. Sweeezy, The Age of Monopoly Capital [New York: Monthly Review Press, 2017], 253).

[38] Moore, Capitalism in the Web of Life, 14, 191. The fact that much of nature or the Earth System is necessarily outside the value circuit of capital gives rise to the Lauderdale Paradox, in which public wealth (particularly the wealth of nature outside the economy) is destroyed by the enhancement of private riches in a commodity exchange economy. Private wealth depends on scarcity as one of its conditions, and thus on the destruction of nature’s abundance, such as ample clean water, breathable air, and so on. To try to incorporate both private riches and public wealth in this sense within the “law of value,” as in Moore’s analysis, only confuses matters by eliding the contradiction between capitalist commodity production and the world of nature as a whole—i.e., between the robber and the robbed. See Foster, Clark, and York, The Ecological Rift, 53–72.

[39] Moore, Capitalism in the Web of Life, 14, 17.

[40] Moore argues that capitalism produces (or “co-produces”) the natural world, effectively placing the activities of the physical universe and those of society on the same plane. In contrast, as Marx explains, the most that any form of social production can accomplish is to change the form in which biogeochemical processes occur and shift them around, often disrupting them and leading to unforeseen and often dangerous consequences. To speak of the anthropogenic production of nature is thus to attribute supranatural, godlike forces to human society. Karl Marx, Letters to Kugelmann (New York: International Publishers, 1934), 73; Marx, Capital, vol. 1, 133–34; Foster, Marx’s Ecology; Brett Clark and Richard York, “Rifts and Shifts: Getting to the Root of Environmental Crises,” Monthly Review 60, no. 6 (2008): 13–24.

[41] Moore, Capitalism in the Web of Life, 69–70.

[42] Jason W. Moore, “Value in the Web of Life, or, Why World History Matters to Geography,” Dialogues in Human Geography 7, no. 3 (2017): 327–28, Capitalism in the Web of Life, 53–54, 65–66, 73, and “The Rise of Cheap Labor,” in Moore, ed., Anthropocene or Capitalocene (Oakland: PM, 2016), 98. The critique of Moore’s expansive value-related analysis here was influenced by Kamran Nayeri, “Capitalism in the Web of Life—A Critique,” Climate and Capitalism, July 19, 2016, http://climateandcapitalism.com; Jean Parker, “Ecology and Value Theory,” International Socialism 153 (2017); Ian Angus, “Do Seven Cheap Things Explain the History of Capitalism?” Climate and Capitalism, January 10, 2018; Andreas Malm, The Progress of this Storm (London: Verso, 2018), 178–96.

[43] Moore, Capitalism in the Web of Life, 67.

[44] Moore, Capitalism in the Web of Life, 101–02. By defining appropriation as drawing on the “work” of nature in general, while also claiming that appropriation as such is theft, Moore implicitly categorizes all human property and production as theft. Moreover, there is no basis here for distinguishing bourgeois appropriation (property) from other forms of appropriation (property), a distinction that lay at the core of Marx’s own analysis.

[45] Moore is referring not only to human labor outside the formal economy but, more importantly, to all the “work” performed in the physical world of nature as well. Moore, Capitalism in the Web of Life, 95.

[46] Moore, Capitalism in the Web of Life, 54. Hornborg has argued that “Moore’s attempts to theorize the appropriation of ecological framework yields a turgid and obscure idiom,” which Hornborg blames on “Marxian dogma.” But Moore’s approach does not reflect any inherent shortcomings in Marxian theory, but rather Moore’s own neglect of crucial theoretical distinctions in the classical Marxian mode. This can be seen most starkly in his attempt to use a Marxian idiom, without its necessary conceptual framework, to develop a theory that erases distinctions between bourgeois appropriation and all other property forms (by relying on the concept of appropriation in general), and between human social labor and the expenditure of work/energy in the universe. None of this can be blamed on Marx or Marxian theory. Alf Hornborg, Global Magic (London: Palgrave Macmillan, 2016), 169.

[47] Moore, Capitalism in the Web of Life, 71. To be clear, there can be no doubt that capitalism depends on the physical appropriation of nature generally, and in ever greater quantities. Thus Moore writes of my own work that “Foster’s insight was to posit capitalism as an open-flow metabolism, one that requires more and more Cheap Nature just to stay in place.” Rather, the issue is how this relates to value, accumulation, expropriation, and ecological crisis under capitalism. Moore, Capitalism in the Web of Life, 84.

[48] Patel and Moore, A History of the World in Seven Cheap Things, 81, 95.

[49] Marx, Grundrisse, 357–58. For a good discussion of some of these issues, see Ali Douai, “Value Theory in Ecological Economics,” Environmental Values 18 (2009): 257–84.

[50] Moore, Capitalism in the Web of Life, 71, 101–02, “Value in the Web of Life,” 328, and “The Rise of Cheap Labor,” 89. It should be noted that classical rent theory, which was concerned with the incorporation of natural resources in the capitalist economy and which was key to Marx’s own economic analysis in this area, is completely ignored in Capitalism in the Web of Life. On the ecological aspects of Marx’s rent theory, see Burkett, Marx and Nature, 74–75, 90–103.

[51] Moore, “Value in the Web of Life,” 327, Capitalism in the Web of Life, 85, 137, 236. On Moore’s social monism, see Moore, Capitalism in the Web of Life, 85. For a critique, see John Bellamy Foster, “Marxism in the Anthropocene: Dialectical Rifts on the Left,” International Critical Thought 6, no. 3 (2016): 393–421; John Bellamy Foster and Brett Clark, “Marx’s Ecology and the Left,” Monthly Review 68, no. 2 (2016): 1–25.

[52] On the dialectic of barriers and boundaries, see Marx, Grundrisse, 334–35, 409–10, 539; Foster, Clark, and York, The Ecological Rift, 53–72, 284–86.

[53] On the contradictions that arise when ecological crisis is seen mainly as a question of economic crisis brought on by increased costs of natural resources, and not in terms of the degradation of nature itself, see John Bellamy Foster, “Capitalism and Ecology: The Nature of the Contradiction,” Monthly Review 54, no. 4 (September 2002): 6–16.

[54] Marx, Capital, vol. 1, 637–38, vol. 3 949.

[55] Marx, Capital, vol. 3, 369; Marx and Engels, Collected Works, vol. 5 (New York: International Publishers, 1975), 52; John Bellamy Foster, “Capitalism and the Accumulation of Catastrophe,” Monthly Review 63, no. 7 (December 2011): 1–17; Saito, Karl Marx’s Ecosocialism, 239–55.

[56] Marx, Early Writings, 318.

[57] Foster, Clark, and York, The Ecological Rift, 53–72.

[58] Marx, Capital, vol. 1, 871, 927.

[59] John Bellamy Foster and Hannah Holleman, “Weber and the Environment,” American Journal of Sociology 117, no. 6 (2012): 1650–55.

[60] Marx, Capital, vol. 1, 926.

[61] Sven Beckert, Empire of Cotton (New York: Vintage, 2014); Fraser, “Behind Marx’s Hidden Abode”; Fraser, “Expropriation and Exploitation in Racialized Capitalism”; Dawson, “Hidden in Plain Sight”; Foster and Clark, “The Expropriation of Nature”; John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century (New York: Monthly Review Press, 2016); Mike Davis, Planet of the Slums (London: Verso, 2007).

[62] Eric Hobsbawm, The Age of Capital (New York: Vintage, 1996).

[63] Paul M. Sweezy, “The Communist Manifesto Today,” Monthly Review 50, no. 1 (May 1998): 8–10.

[64] Karl Polanyi, The Great Transformation (Boston: Beacon, 1944), 178.

[65] Costas Lapavitsas, Profiting without Producing (London: Verso, 2013), 141–46.

[66] Marx, Capital, vol. 1, 742.

[67] Moore’s framework of Cheap Nature relies heavily on the monetary estimates of environmental services or ecosystem services developed by neoclassical environmental economics. Moore, Capitalism in the Web of Life, 64. See also the critique of natural-capital theory in John Bellamy Foster, “The Ecological Tyranny of the Bottom Line,” in Richard Hofrichter, ed., Reclaiming the Environmental Debate(Cambridge, MA: MIT Press, 2000): 135–53.

[68] Ian Angus, Facing the Anthropocene (New York: Monthly Review Press, 2016), 54–58; J. R. McNeill and Peter Engelke, The Great Acceleration (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014), 184–90.

[69] Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 754.

[70] Curtis White, The Barbaric Heart (Sausalito: PoliPoint, 2009).

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