Os Estados Unidos deixaram de fingir que a Doutrina Monroe visava qualquer outra coisa que não a sua própria liberdade de ação. Donald Trump declarou agora a sua hegemonia sobre todo o hemisfério ocidental.
Andre Pagliarini
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| Os defensores da Doutrina Monroe sempre insistiram que ela protege as Américas. Tanto a sua história quanto a retórica e as ações contemporâneas do governo Trump na América Latina revelam algo mais restrito: a proteção da supremacia dos EUA. (Graeme Sloan / Bloomberg via Getty Images) |
Em 1914, ao discursar na Universidade de Buenos Aires, o presidente Theodore Roosevelt descreveu a Doutrina Monroe como uma política "que os Estados Unidos promulgaram, em parte como uma medida de interesse próprio e, em parte, como uma medida de interesse de todas as repúblicas do Novo Mundo". No início desta semana, o Departamento de Estado publicou um vídeo de cinco minutos em sua conta oficial no Twitter traçando uma linha direta desde a mensagem de James Monroe ao Congresso em 1823, passando pela Guerra Hispano-Americana, pelo Corolário Roosevelt e pela Crise dos Mísseis em Cuba, até chegar, finalmente, à retirada forçada de Nicolás Maduro de Caracas em janeiro passado. O vídeo apresenta Donald Trump como o "mais recente defensor" da doutrina.
Deixando de lado dois séculos de eufemismos diplomáticos, o vídeo conclui que "a dominância americana no Hemisfério Ocidental jamais será questionada novamente". Em vez de uma defesa da independência hemisférica que, por acaso, beneficia os Estados Unidos, a Doutrina Monroe é hoje apresentada abertamente como uma ferramenta de dominância americana.
Isso não chega a ser surpreendente — a fachada de boa vontade nunca foi central para o projeto MAGA. No entanto, durante a maior parte de sua história, a Doutrina Monroe exigia certo esforço interpretativo para ser compreendida como um instrumento da hegemonia dos EUA. Seus defensores podiam apontar para suas origens como um alerta contra a recolonização europeia, um escudo de solidariedade estendido sobre repúblicas recém-independentes e instáveis. Os críticos precisavam traçar o caminho pelo qual aquele escudo se transformou em uma arma de coerção.
Henry M. Brackenridge, que liderou uma missão especial ao Brasil em 1817 a mando do presidente James Monroe, captou a sensibilidade ambígua das autoridades americanas. "Como americano, não posso deixar de sentir certo orgulho ao vislumbrar os destinos grandiosos deste novo mundo", escreveu ele, concluindo, contudo, que "quando consideramos as vastas capacidades e recursos do Brasil, não é delírio afirmar que este império está destinado a ser nosso rival". Movida apenas pela desconfiança, sem qualquer gesto de compreensão ou benevolência, a administração Trump é claramente impulsionada pelos impulsos históricos mais sombrios dos Estados Unidos em relação à América Latina. No dia seguinte à publicação do tweet do Departamento de Estado, Celso Amorim — principal assessor de política externa do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e ex-chanceler da maior nação da América Latina — afirmou ao Congresso brasileiro que o vídeo põe em xeque a soberania de todos os países da região. Ele observou que o Brasil não é mencionado, mas insistiu que isso pouco importa. Uma declaração de domínio hemisférico não precisa citar alvos nominalmente se reivindica a todos eles.
Amorim explicou então aos parlamentares como tal imposição poderia se concretizar. A recente classificação, por parte de Washington, de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, alertou ele, não pode ser interpretada fora desse contexto. Interpretações elásticas dos rótulos de terrorista e narcoterrorista já serviram de justificativa para operações militares em outras partes do mundo.
Ironicamente, o governo de Dom Pedro I foi o primeiro na América Selatan a apoiar publicamente a Doutrina Monroe. O jovem imperador mandou imprimir a declaração do presidente dos EUA em português e a divulgou como uma notícia bem-vinda. O Brasil, que conquistara a independência apenas dois anos antes e buscava afirmar-se na região e além dela, interpretou a doutrina como uma promessa de que o Novo Mundo teria liberdade para governar a si mesmo. José Silvestre Rebello, o primeiro representante diplomático do Brasil em Washington, recorreu exatamente a esse argumento ao pressionar John Quincy Adams pelo reconhecimento — concretizado em 26 de maio de 1824, após a promulgação da primeira Constituição brasileira. A independência do Brasil era justa e constitucional, argumentava Rebello; portanto, o país deveria ter liberdade para trilhar seu próprio caminho.
Um mundo no qual Washington sequestra chefes de Estado do hemisfério é um mundo no qual a soberania de nenhum governo está segura.
Esse era o acordo, tal como o entendiam os latino-americanos mais otimistas do século XIX. O hemisfério estaria fechado aos impérios europeus, e as nações americanas determinariam seus próprios destinos. O que a região obteve em troca está bem documentado. O corolário de Theodore Roosevelt, de 1904, transformou um aviso à Europa em uma licença para que os Estados Unidos policiassem seus vizinhos. A doutrina embasou ocupações no Caribe e na América Central, a diplomacia das canhoneiras, a diplomacia do dólar e, durante a Guerra Fria, o apoio a golpes e ditaduras, da Guatemala ao Chile e ao próprio Brasil.
A deputada Delia Ramirez, cujos pais fugiram da Guatemala durante o massacre apoiado pelos EUA naquele país, reagiu ao vídeo do Departamento de Estado classificando-o como propaganda imperialista barata de uma abordagem que gerou "instabilidade, pobreza profunda, migração em massa e colonialismo em toda a América Latina e no Caribe".
Em novembro passado, a Estratégia de Segurança Nacional do governo anunciou um "Corolário Trump" à Doutrina Monroe, declarando que os Estados Unidos impediriam que concorrentes de fora do hemisfério — sobretudo a China — estabelecessem qualquer presença nas Américas e tratariam os ativos estratégicos da região como questões de segurança americana. Os primeiros meses de 2026 mostraram o que isso significa na prática. Maduro foi capturado em uma operação militar dos EUA que o governo chamou de Operação *Absolute Resolve*. Cuba, por sua vez, tem sido alvo de um regime de sanções cada vez mais abrangente.
"O que estamos tentando ensinar a eles é que não existem válvulas de escape", disse Rubio ao site Axios.
Em uma entrevista recente, Amorim classificou a operação na Venezuela como uma violação do direito internacional em sua acepção mais antiga — o direito das nações — e observou que o único paralelo recente é o destino de Saddam Hussein. Ele fez questão de ressaltar que não estava defendendo Maduro. Esse é precisamente o ponto. Não é preciso defender um governo específico para compreender que um mundo no qual Washington sequestra chefes de Estado do hemisfério é um mundo no qual a soberania de nenhum governo está segura.
Com a relação bilateral em seu ponto mais baixo em décadas — talvez em seu nível histórico mais crítico —, o Brasil tem motivos particulares para se preocupar com as implicações dessa mensagem vinda de Washington. O Brasil jamais buscou romper com os Estados Unidos. Apoiou a Doutrina Monroe antes de qualquer um de seus vizinhos. Lutou ao lado dos Estados Unidos, manteve relações comerciais com o país e cooperou com administrações de ambos os partidos. O que o Brasil tem buscado, de forma consistente, é algo mais valioso e aparentemente mais difícil de conceder do que a amizade: o reconhecimento de seu direito de perseguir seus próprios interesses, tal como definidos pelos brasileiros, mesmo quando isso causa incômodo a Washington.
Lula negocia com a China porque a China compra o que o Brasil vende. Ele dialoga com Moscou e Teerã porque o Brasil acredita que conflitos se resolvem por meio da mediação, e não da escalada. Apesar das insinuações do governo Trump, nada disso configura um alinhamento com os inimigos dos EUA. Trata-se da política externa de uma nação grande e soberana, que se recusa a viver sob a esfera de influência de quem quer que seja.
Uma doutrina que feche o hemisfério aos impérios externos é tão boa quanto a autocontenção do poder que a anuncia.
Essa recusa é o verdadeiro alvo do vídeo. Amorim tem argumentado que a multipolaridade está degenerando em algo mais rudimentar: uma divisão do mundo em esferas de influência, na qual as grandes potências condenam retoricamente as apropriações territoriais umas das outras, mas as respeitam na prática. Questionado sobre o que o Brasil faria caso os Estados Unidos invadissem o país, o ministro da Defesa brasileiro disse recentemente que um Brasil indefeso "teria de abrir o portão". Por sua vez, Amorim concluiu que o Brasil não pode competir com o poder militar dos Estados Unidos, da China ou da Rússia — e nem deve tentar —, mas pode tornar uma agressão custosa. Daí seu apelo por gastos com defesa próximos a 2% do PIB e por uma estratégia nacional voltada a minerais críticos, setor no qual o Brasil já ocupa o segundo lugar mundial em reservas de terras raras. Um país anuncia que o domínio hemisférico é seu direito inato; seus maiores vizinhos começam a cotar preços de submarinos. É assim que a administração Trump faz o hemisfério pensar.
O problema mais profundo é aquele que muitos latino-americanos identificaram em 1823. Uma doutrina que fecha o hemisfério a impérios externos é tão válida quanto a capacidade de autocontenção da potência que a proclama. Simón Bolívar percebeu isso logo de início. Diplomatas brasileiros já haviam constatado o fato na década de 1820, quando Rebello — que não era republicano — deixou Washington convencido de que os Estados Unidos priorizavam seus próprios interesses em detrimento de qualquer princípio abstrato.
Os defensores da doutrina sempre insistiram que ela protege as Américas. A história revela algo mais restrito: ela protege a primazia americana. O vídeo do Departamento de Estado agora descartou essa distinção. Os Estados Unidos deixaram de fingir que a Doutrina Monroe visava algo além de sua própria liberdade de ação. A América Latina percebeu isso há dois séculos. Washington só agora está se dando conta de seu próprio histórico. Os brasileiros irão às urnas em outubro sob a sombra de tarifas arbitrárias impostas para ganho político, classificações como terroristas que poderiam legitimar uma intervenção e uma superpotência que proclama abertamente sua hegemonia sobre o hemisfério. Se concluírem que a soberania está em jogo, estarão interpretando corretamente o momento.
Colaborador
Andre Pagliarini é professor assistente de História e Estudos Internacionais na Louisiana State University, pesquisador associado do Washington Brazil Office e especialista não residente do Quincy Institute for Responsible Statecraft. Ele é autor de Lula: A People’s President and the Fight for Brazil’s Future e da obra a ser lançada Claiming the Nation: The Politics of Nationalism in Modern Brazil.

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