30 de maio de 2016

Os socialistas não são pacifistas? Algumas guerras não são justificadas?

Socialistas querem erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional. Mas nós pensamos que existe uma diferença entre a violência dos oprimidos e a dos opressores.

Jonah Birch


Ilustração por Phil Wrigglesworth

Em junho de 1918, Eugene Debs fez um discurso que o colocaria na prisão. Falando em Canton, Ohio, o líder do Partido Socialista denunciou o presidente Woodrow Wilson e a Primeira Guerra Mundial para a qual ele guiou os Estados Unidos.

Para Debs, a matança em massa que havia assolado toda a Europa por quatro anos sangrentos era um conflito travado em nome dos interesses dos capitalistas, mas combatido por trabalhadores. Em cada país era o rico quem havia declarado guerra e se mantinha lucrando à partir dela; mas eram os pobres quem eram enviados para lutar e morrer aos milhões.

Isso, Debs disse à sua audiência, era como sempre foi, enquanto exércitos têm sido enviados para batalharem uns aos outros em nome de reis ou países. “As guerras através da história têm sido travadas para conquista e pilhagem,” ele disse. “A classe dominante tem sempre declarado as guerras; a classe dominada tem sempre lutado as batalhas. A classe dominante tem tido tudo a ganhar e nada a perder, enquanto a classe dominada não tem tido nada a ganhar e tudo a perder – especialmente suas vidas.”

A mensagem de Debs aos trabalhadores era simples: seu inimigo não eram as pessoas da Alemanha, os soldados da classe trabalhadora que eles estavam sendo embarcados para assassinar; eram os dominadores, em ambos os lados, que ordenaram suas tropas rumo a batalha. Eram os capitalistas e seus representantes nos governos americano e alemão, cuja riqueza e poder lhes deu controle sobre os destinos de milhões.

O discurso de Debs foi demais para as autoridades nos Estados Unidos – eles os prenderam sob uma nova lei de restrição da liberdade de expressão, o Ato de Espionagem de 1917, e o sentenciaram a dez anos de prisão. Notavelmente, nas eleições de 1920, Debs concorreu para presidente na cédula Socialista enquanto permanecia em uma penitenciária federal em Atlanta, e ainda conseguiu conquistar quase 1 milhão de votos.
Tornando o Mundo Seguro Para o Capitalismo

No exemplo de Debs, podemos ver as principais ideias que têm sustentado a abordagem do movimento socialista para a questão da guerra. Socialistas têm sempre visto a propensão do Capitalismo para guerras de conquista e pilhagem como a expressão definitiva da brutalidade do sistema. Na organização da violência de Estado em uma escala sem precedentes, nós vemos a tendência do Capitalismo de subordinar as necessidades humanas à lógica do lucro e do poder. No intervalo entre a promessa de igualdade democrática e a realidade da opressão de classe que a guerra expressa, vemos a injustiça fundamental que define nossa ordem social.

Sob o Capitalismo, a exploração ocorre na maior parte do tempo através do mercado. É a relação contratual ostensivamente não-coercitiva entre trabalhadores e empregadores que mascara as desigualdades de classe mais profundas subjacentes. Mas o poder de fazer a guerra dos Estados Capitalistas ainda é essencial para o funcionamento saudável do sistema. Capitalistas em países como Estados Unidos ainda dependem dos militares de seus próprios governos, tanto para fazer cumprir “as regras do jogo” na Economia Global e para ajudá-los a competir mais eficientemente contra outras Classes dirigentes.

Contra esse estado de coisas, os Socialistas apoiam a organização de movimentos de massa contra as guerras travadas por nosso governo [1]. Nós participamos [2] na luta contra restrições à liberdade de expressão e outros direitos democráticos que inevitavelmente acompanham essas guerras. Contra os chamados por “unidade nacional”, nós lutamos por solidariedade internacional e organização de classe mais forte para lutar pelos interesses dos trabalhadores. No longo prazo, esperamos traduzir estes movimentos em uma luta mais ampla por uma transformação radical da Sociedade ao longo de linhas democráticas.

Em nenhum lugar essa abordagem é mais importante do que nos Estados Unidos [3] – o mais poderoso país capitalista do mundo. Hoje, os EUA gastam mais com seus militares do que os próximos 7 países que mais gastam nisso combinados. Nosso governo tem cerca de 800 bases militares no estrangeiro. Soldados estadunidenses ou tropas aliadas estão presentes em cada região do globo.

No último século e meio, o Estado Estadunidense tem travado guerras brutais em nome de um império crescente, desde a guerra hispano-americana de 1898 até as recentes invasões do Afeganistão e Iraque. Interveio de novo e de novo na África, Ásia, América Latina para proteger os interesses dos negócios e chutar os movimentos que pudessem ameaçar seu controle sobre recursos-chave ou minar a estabilidade do sistema global capitalista.

Frequentemente estas aventuras foram descritas como sendo necessárias para trazer liberdade e democracia para países oprimidos, ou para proteger cidadãos estadunidenses do perigo. O registro histórico, entretanto, conta uma história diferente.

Mesmo na época da Guerra Hipano-Americana de 1898, considerada por muitos como sendo a alvorada do imperialismo estadunidense moderno, o governo estadunidense estava invadindo Cuba, Porto Rico e as Filipinas em nome da libertação de seus povos do jugo do colonialismo espanhol. Quando, depois da vitória ter sido assegurada, Washington decidiu fazer daqueles três territórios protetorados estadunideses (ou, no caso de Porto Rico, uma colônia por completo), eles garantiram que tinham apenas as intenções mais benevolentes. E quando os residentes desses países levaram essas promessas de liberdade e democracia muito literalmente, os Estados Unidos decidiram que não tinham escolha além de esmagar as lutas por independência que emergiram. Nas Filipinas, uma insurreição nacionalista que irrompeu em 1899 foi suprimida às custas de várias centenas de milhares de vidas filipinas.

Em cada guerra entre aquela época e agora o padrão tem sido o mesmo. O governo estadunidense entrou na Primeira Guerra Mundial em 1917 (depois que Wilson venceu as eleições de 1916 na base de suas promessas anti-guerra) para “tornar o mundo seguro para a democracia,” enquanto enviava Marines por toda a América Latina na defesa dos interesses econômicos e políticos do Capital. Lutou a Segunda Guerra Mundial para “livrar o mundo da tirania,” mas gastou os anos do pós-guerra manipulando eleições na Itália, patrocinando uma perversa guerra civil na Grécia e escorando o xá do Irã. Enviou milhões para o túmulo na Coréia e no Sudeste Asiático para “salvar” as pessoas de lá do Comunismo, enquanto instalava ditaduras brutais tanto no Vietnã do Sul quanto na Coreia do Sul. Enquanto isso, os decisores políticos dos EUA secretamente organizaram a derrubada de governos populares e democráticos por todo o mundo – desde Mohammad Mosaddegh no Irã, passando por Patrice Lumumba no Congo e Salvador Allende no Chile.

Para justificar estas campanhas, os oficiais estadunidenses têm muitas vezes recorrido ao perverso racismo. O General William Westmoreland uma vez justificou a brutalidade das forças que ele liderava no Vietnã dizendo que “os orientais não colocam o mesmo valor na vida como faz um ocidental… Nós valorizamos a vida e a dignidade humana. Eles não se importam com a vida e a dignidade humana.”

A cada turno o governo estadunidense tem mostrado [4] seu compromisso com a democracia e a liberdade no estrangeiro como sendo tão superficial quanto o seu compromisso com a igualdade em casa. Vez após outra, tem provado que seu temor pelo controle democrático sobre os recursos do mundo corre mais fundo que sua retórica pró-Democracia. Como Henry Kissinger, que serviu como um consultor em políticas estrangeiras a três presidentes, disse dos esforços da administração de Nixon para tombar o governo socialista eleito no Chile, “não vejo por que nós devemos ficar parados e assistir um país se tornar comunista por causa da irresponsabilidade de seu próprio povo.” O mesmo se deu nos anos 80 nas tentativas de minar os governos esquerdistas na pequena Nicarágua e na menor ainda Granada.

Mais recentemente, esse padrão tem se repetido no Oriente Médio – agora o campo de batalha central para os EUA e seus competidores imperiais, por causa de seu papel como o centro da produção global de petróleo.

Se as guerras no Iraque e no Afeganistão foram inicialmente justificadas como necessárias para defender vidas estadunidenses, detruir a Al-Qaeda, e erradicar o terrorismo, elas não atingiram nenhum desses objetivos. Nem resultaram em governos democráticos em nenhum desses países. Ao contrário, as centenas de milhares de vidas perdidas nestas guerras apenas desestabilizaram a região e intensificaram as divisões sectárias. Ao invés de dar suporte a movimentos democráticos, os EUA tem apoiado regimes ditatoriais no Egito e no Bahrein, e ajudado a fortalecer as monarquias mais cruéis e reacionárias na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.

Os Estados Unidos têm também permitido a Israel escalar sua violência diária (com assaltos semi-regulares de matança em massa em Gaza), ocupação e expansão de assentamentos às custas de palestinos. E têm assistido enquanto os lados em enfrentamento na guerra civil síria tem dirigido um massacre que afogou as lutas sírias por democracia no sangue de centenas de milhares de seus cidadãos.

Dados o escopo e a escala da violência imperial estadunidense, é crucial que os Socialistas nos Estados Unidos se oponham às intervenções militares de seu governo. Tal posição é necessária para qualquer solidariedade genuína da classe trabalhadora. Toda vez que o governo dos EUA explode uma festa de casamento afegã ou ajuda a proteger um esquadrão da morte no Iraque; toda vez que ele envia alguém para apodrecer em uma prisão no Afeganistão ou na Baía de Guantánamo; toda vez que ele permite que a CIA torture um prisioneiro; torna a solidariedade de classe através das fronteiras mais remota.

Por que trabalhadores em outros países deveriam se aliar àqueles nos EUA, em nome de quem eles são bombardeados e ocupados? Na medida em que estadunidenses compram o nacionalismo que inevitavelmente segue as maquinações estrangeiras de seu governo, tornam a emergência de um movimento de classe contra a opressão e a exploração impossíveis.

Enquanto isso, a posição dos trabalhadores estadunidenses apenas se deteriora mais. Quando centenas de bilhões de dólares são gastos atacando países ao redor do globo, não estão disponíveis para programas de Bem-Estar Social que poderiam ajudar aqueles em casa. O desperdício de sangue e recursos, o racismo, e os levantes reacionários que acompanham as guerras no estrangeiro ricocheteiam para detrimento dos trabalhadores nos EUA. Em um tempo em que milhões de estadunidenses estão sofrendo com o desemprego e a pobreza, os mais de $2 trilhões gastos na invasão e ocupação do Iraque parecem cada vez mais obscenos.

Tudo isso significa que o movimento trabalhista estadunidense tem um incentivo material para se opor os desejos de guerra de seu próprio governo. É por esta razão que os Socialistas pensam que um movimento internacional da classe trabalhadora contra a guerra e o imperialismo não é apenas necessário, mas também possível.
O Inimigo em Casa

Entretanto, se Socialistas em um país como os EUA se opõem às guerras travadas por seus governos, não significa que eles são pacifistas. – ou seja, que eles se opõem a todas as guerras ou tem uma posição baseada em princípios contra qualquer tipo de violência. A questão é quem está travando a guerra e em nome de quais interesses e políticas.

Como o teórico militar do século XIX Carl von Clausewitz disse, “Guerra é a continuação da política por outros meios.” Clausewitz queria dizer que para entender o caráter de uma dada guerra, você tem de entender quem estava lutando e por quais propósitos. É claro, Clausewitz, um general prussiano nas guerras napoleônicas, não era bem um radical de Esquerda, mas seu ponto básico é um importante para os Socialistas compreenderem.

O movimento socialista quer erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional – um desperdício de vida humana e recursos sociais que produz uma devastação enorme. Mas em um mundo cheio de exploração e opressão, é preciso diferenciar entre a violência daqueles lutando para manter a injustiça e aqueles lutando contra a injustiça.

Uma pessoa não pode, por exemplo, misturar a violência do apartheid sul-africano com aquela dos elementos armados do Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela. O mesmo vale para a violência dos militares estadunidenses na Guerra do Vietnã – uma guerra que eventualmente matou 3.5 milhões de pessoas – e aquela da Frente de Libertação Nacional Vietnamita, que lutou para libertar o Vietnã da dominação estadunidense e francesa.

Para o movimento socialista, a máxima de Clausewitz aponta para a necessidade de pesar qualquer guerra na base dos interesses a que ela serve. Não é coincidência que socialistas como Marx e Engels apoiaram a União na Guerra Civil estadunidense, reconhecendo que apesar da fala de Lincoln de que sua intenção era reunir o país sem acabar com a escravidão, uma guerra [5] contra os Confederados se tornaria necessariamente uma guerra contra a classe dos proprietários das plantations [6]. De fato, como Lincoln – que nos anos 1840 se opôs à Guerra Mexicana-Estadunidense por que a via como um esforço para expandir a escravidão para novos territórios – veio a reconhecer, o Norte só poderia ter sucesso mobilizando os escravos em uma batalha por sua própria liberdade.

Nada disso é para sugerir que os Socialistas possuem uma abordagem puramente instrumental para com a violência – que nós pensamos, como tão comumente afirmam, que “os fins justificam os meios.” Em nossos esforços para atingir o tipo de mudança que procuramos, a violência só pode minar a nossa causa no longo prazo; nós nunca podemos esperar igualar a capacidade para a violência do Estado Capitalista, e nosso movimento somente será enfraquecido enquanto a luta pelo Socialismo for transformada de um conflito social e político em um militar.

Também não apoiamos necessariamente governos apenas por que acontece deles estarem em conflito com o nosso: não perdoamos a violência imperial, por exemplo, da Rússia e da China apenas por que eles estão ocasionalmente discordando dos nossos próprios dominadores.

Mais fundamentalmente, é importante deixar claro que nosso suporte por grupos lutando contra sua opressão, nas mãos do governo dos EUA ou de qualquer outro, não significa que seremos sempre acríticos com essas forças. Alguém precisa apenas olhar para os níveis crescentes de desigualdade e a penetração cada vez maior do Capitalismo Global na África do Sul desde a queda do Apartheid, ou no Vietnã desde a libertação, para ver que mesmo lutas vitoriosas não precisam produzir um resultado realmente justo. De fato, enquanto expressam solidariedade com movimentos desafiando a opressão, os Socialistas precisam estar dispostos a criticar aqueles que travam estas lutas, sempre que necessário – seja esta crítica feita em termos políticos, estratégicos ou mesmo morais.

Mas também não tratamos todos os lados em um conflito particular como se eles fossem o mesmo. Acima de tudo, nós nos opomos ao papel de nosso próprio governo na propagação de guerras, ou na expansão de sua influência militar e política, às custas das classes trabalhadoras do mundo. Como o revolucionário alemão Karl Liebknecht colocou em seu discurso durante a Primeira Guerra Mundial, nós entendemos que “o principal inimigo está em casa.”

Sobre esta base, nós esperamos forjar um movimento internacional que possa não apenas desafiar uma intervenção imperial específica, mas que possa representar uma ameaça às próprias fundações de um sistema que cria guerra e violência de massa numa escala sem-precedentes na História.
Além do Imperialismo

Hoje, a Esquerda é fraca demais para atingir esse objetivo. Nos Estados Unidos, o movimento trabalhista carece de capacidade para atividade sustentada contra a guerra. Mas o que o exemplo de Eugene Debs nos mostra é que existe uma longa história de oposição radical ao imperialismo [7] da qual nós podemos tirar esperança e inspiração.

A tradição anti-imperialista de Esquerda sobreviveu depois que o próprio Debs morreu. Se ela perdeu força durante os anos de Guerra Fria de repressão macartista após a Segunda Guerra Mundial, ela reviveu durante os anos 60 e 70. Figuras como Martin Luther King Jr. se tornaram vozes cada vez mais críticas da Guerra do Vietnã. Mesmo que ele seja frequentemente pintado como um moralista anódino, um precursor para o liberalismo multicultural, King foi na verdade um visionário cuja política se tornou cada vez mais radical em conjunto com o movimento que ele liderava. Nada expressava melhor esse radicalismo crescente do que sua decisão de se opor publicamente à Guerra do Vietnã – um movimento que mesmo seus conselheiros mais próximos recomendaram que ele não fizesse por causa de suas potenciais consequências políticas.

Ignorando seus conselhos, em 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de seu assassinato, King proferiu o discurso mais controverso de sua carreira. Falando para a Igreja Riverside de Nova Iorque, ele se abriu contra a Guerra do Vietnã e cobrou a administração de Johnson para que parasse sua campanha de bombardeio sem precedentes e iniciasse a retirada de meio milhão de tropas estadunidenses do Sudeste Asiático.

Denunciando a “loucura” da política da administração Democrata, King se focou na incrível brutalidade que as pessoas comuns no Vietnã encaravam nas mãos dos militares estadunidenses. “Eles devem ver os estadunidenses como estranhos libertadores,” ele concluiu, quando essa suposta libertação envolvia apoiar governos corruptos e anti-democráticos, destruir vilas inteiras, desflorestar o interior com napalm e Agente Laranja, e matar mulheres, crianças e idosos.

Uma estimativa conservadora das mortes civis geradas pela guerra é de 2 milhões, apenas entre Sul-Vietnamitas, de uma população de 19 milhões. Uma taxa análoga de baixas civis nos Estados Unidos hoje seria próxima de 33 milhões.

E sobre os soldados estadunidenses, na maioria esmagadora das vezes jovens tirados de comunidades rurais indigentes e guetos urbanos segregados? Notando o número desproporcional de afro-estadunidenses que haviam sido enviados para matar e morrer nos pântanos do Vietnã, King castigava a administração por “tirar os jovens negros que tinham sido acorrentados pela nossa sociedade e os enviar 8000 milhas para longe, para garantir liberdades no Sudeste Asiático que eles não haviam encontrado em Georgia ou no Harlem Leste.

King apontou que as esperanças de um esforço real para combater a pobreza nos EUA que haviam sido inspiradas pelo programa da “Grande Sociedade” de Johnson haviam sido destruídas pela escalada no Vietnã. Uma campanha genuína para erradicar a pobreza em casa seria impossível, ele havia concluído, “enquanto as aventuras como no Vietnã continuarem a sugar homens e talentos e dinheiro como um demoníaco tubo de sucção de destruição.”

Dado tudo isso, King disse que não poderia mais ficar em silêncio, apesar da forte pressão de seus supostos aliados na administração Johnson para evitar a crítica pública da política do governo para o Vietnã. Comparando a escala incrível de violência no Vietnã com a relativamente pequena destruição causada por uma série de revoltas que estouraram em muitas cidades grandes dos EUA – que haviam causado muita gritaria na mídia sobre a ameaça representada por “extremistas negros” – King descreveu sua percepção de “que eu não poderia nunca mais levantar minha voz contra a violência dos oprimidos nos guetos sem ter primeiro falado claramente do maior fornecedor de violência no mundo hoje: meu próprio governo.” Alguns dias depois, ele marchou em um protesto de massa contra a guerra no Central Park em Nova Iorque.

O discurso de King, conhecido pela posteridade como “Além do Vietnã,” fez com que ele ganhasse a ira mesmo de figuras antes simpatizantes no establishment progressista. Ele foi desconvidado de uma visita planejada com Johnson na Casa Branca. Um dos conselheiros do presidente escreveu privadamente que King havia “feito sua jogada com os ‘comunas’” [8]. Enquanto isso, ele foi atacado em editoriais que apareceram no dia seguinte em 168 jornais de maior circulação. O New York Times escreveu que sua denúncia da guerra era “um desperdício e auto-destrutiva.” O Washington Post fez ainda melhor, dizendo que King “diminuiu sua utilidade para sua causa, seu país e seu povo.”

O que King veio a entender [9] foi que o racismo e a desigualdade dentro do país, e a guerra no exterior, estavam interligados. Este reconhecimento o colocou em desacordo com seus antigos apoiadores progressistas, cujas vontades de desafiar o status quo acabaram – como é tão comum para o establishment progressista – quando a posição dos EUA como o maior poder imperial mundial entrou em questão.

Assim, ao confrontar estas questões e desafiar seus antigos amigos, King estava lidando com um conjunto de problemas que qualquer movimento social de massa que faça sérios avanços nos EUA vai ter de encarar, uma hora ou outra: você não pode falar sobre mudança social em seu país enquanto ignora a carnificina gerada pela política externa estadunidense. Para a Esquerda dos EUA, e especialmente qualquer futuro movimento socialista por aqui, essa é uma lição a ser aprendida.

28 de maio de 2016

Nem só de pão vive o homem

Celso Amorim

Folha de S.Paulo

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, durante cerimônia de posse no Itamaraty. Pedro Ladeira/Folhapress

A nota 192 do Ministério das Relações Exteriores dá conta da viagem oficial do chanceler a Cabo Verde.

Que bom que ao menos aproveitará a escala (necessária para os aviões da FAB) para uma visita bilateral a um país africano. É um começo. O crescimento da cooperação com Cabo Verde no governo Lula foi enorme, com pelo menos duas visitas presidenciais e inúmeros encontros ministeriais.

Em uma das viagens, o presidente, foi convidado especial para uma reunião da Cedeao, o Mercosul (ou Unasul) da África Ocidental, de grande importância estratégica para o Brasil, em função do Atlântico Sul, que, desde os anos 1980, por iniciativa brasileira, foi declarado pela ONU uma Zona de Paz e Cooperação.

Foi, em parte, o reconhecimento dessa importância que levou o governo Dilma a autorizar o início de uma missão naval no país, tarefa que nossa Marinha abraçou com entusiasmo.

Curiosamente, porém as duas embaixadas que se cogita fechar (segundo notícias de jornal) - Libéria e Serra Leoa - estão nesta região: dois países afetados pelo ebola, que mereceriam interesse especial do Brasil, não só por solidariedade (não indiferença), mas em benefício próprio, em um mundo em que os problemas de saúde pública, como as pandemias, são parte inevitável da globalização.

Uma nota à margem, que não passará despercebida, entre outros, do movimento feminino, nestes tempos de misoginia e violência contra as mulheres. Coincidência ou não, a Libéria, uma das vítimas da tesoura, é o único país africano governado por uma mulher, uma estadista muito respeitada, escolhida por voto direto, que pacificou o país depois de anos de uma brutal guerra civil e comandou, com coragem e discernimento, a luta contra o ebola. (O Brasil ajudou ainda que de forma modesta).

Os dois países, juntamente com a nossa irmã da CPLP, Guiné Bissau, integraram o núcleo de países objeto de atenção da Comissão de Construção da Paz, para cuja criação o Brasil contribuiu decisivamente com ideias e apoio político e que foi brilhantemente presidida por nosso Embaixador junto às Nações Unidas.

O que se passa nesses países, nos domínios da Paz e da Segurança, mas também no da saúde, é de vital importância para a Guiné-Bissau, país de língua portuguesa, do qual nem o mais fervoroso mercantilismo ousaria nos afastar.

A presidenta Ellen Sirleaf visitou o Brasil, pouco depois de eleita. O mesmo fez o Presidente de Serra Leoa, cuja ministra do exterior era também uma mulher. Será que a questão de gênero tem algo a ver? Ou é simples falta de informação?

Sobre o autor
CELSO AMORIM, diplomata de carreira, foi ministro das Relações Exteriores (governos Itamar e Lula) e da Defesa (governo Dilma)

23 de maio de 2016

Avaliando Che

Che Guevara foi um revolucionário honesto e comprometido mas nunca abraçou a sua essência mais democrática.

Samuel Farber

Jacobin

Greta Gabaglio / Shutterstock

Tradução / Os principais líderes da Revolução Cubana — Fidel Castro, Raúl Castro e Che Guevara — tinham estilos de liderança política diferentes. Fidel Castro, de longe o líder mais importante, foi, até se retirar por questões de saúde em 2006, um astuto e táctico político revolucionário com a intenção de consolidar o seu poder e inicialmente adverso a correr riscos que o levassem a perder o controlo da ilha por implementações prematuras de objectivos ideológicos.

O segundo em comando era o irmão mais jovem de Fidel, Raúl, que rapidamente adquiriu uma reputação pelas suas actividades repressivas assim como pela sua disciplina organizativa e competência. Raúl era um antigo membro da Juventude Socialista, o grupo de jovens do Partido Socialista Popular (PSP) cubano, porém mostrava ainda empatia pela União Soviética. Depois havia Che Guevara, cuja imagem icónica sobreviveu ao colapso da União Soviética e ao declínio do comunismo Cubano.

De alguma forma, quase cinquenta anos após a sua morte, Che emergiu como o mais importante dos três líderes. No entanto, tal como tenho referido, as políticas de Che Guevara tinham muito mais em comum com as políticas dos irmãos Castro do que os seus admiradores actuais estão dispostos a admitir.

Primeiro, compartiu com estes uma política revolucionária de cima [para baixo] que lhe permitiu reter, juntamente com os Castro, o controlo político e a iniciativa na ilha, baseado na concepção política monolítica de um tipo de socialismo imune a qualquer controlo democrático e a iniciavas a partir de baixo.

Tal como os irmãos Castro, Guevara tinha um compromisso profundo a um estado de um só partido e a uma versão extrema de vanguardismo, que por vezes lavou ao nível do absurdo. Por exemplo, a sua resposta às condições sociais e políticas que encontrou na parte oriental do Congo, quando se deu conta de não estarem reunidas quaisquer condições necessárias para uma revolução socialista — tais como a demanda por terra por parte da vasta população rural, uma classe trabalhadora (que não existia na região Katanga), e uma presença significativa imperialista que pudesse provocar um sentimento nacional de resistência — foi criar um Partido Comunista de vanguarda que iria liderar isoladamente a revolução nessa parte do país.

Tão cedo quanto os dias de luta de guerrilha na Serra Maestra, Guevara, articulava explicitamente a concepção dos líderes revolucionários cubanos, atribuindo-lhes, na revolução, um papel de apoio e subordinado à classe trabalhadora e campesina. Mais tarde, quando liderava a sua pequena força de guerrilha, na Bolívia, subordinava as necessidades e o potencial político dos militantes e trabalhadores bolivianos politicamente conscientes aos guerrilheiros das suas reduzidas forças sob o seu comando.

Mesmo quando ocasionalmente se referia à classe trabalhadora como tendo um papel na tomada do poder, fá-lo a respeito de uma putativa ideologia da classe trabalhadora do Partido Comunista, tratando a classe trabalhadora como uma abstracção ideológica. Mais tarde, após ter deixado o governo cubano para empenhar-se na luta de guerrilha, fora do país, aprofundou o seu compromisso com uma perspectiva que colocava a autonomia tecnológica e o determinismo — não a classe trabalhadora — no centro da economia socialista de uma maneira reminiscente da novela utópica, Looking Backward, de Edward Bellamy, uma novela que este muito admirava .

As idiossincrasias de Che Guevara

Mas Che Guevara era também diferente dos irmãos Castro em alguns aspectos importantes. Era um igualitário radical, uma característica que tinha raízes na sua formação boémia na Argentina. Os seus quase seis anos no poder em Cuba (1959-1965) não lhe diminuíram esta característica de todo. O mesmo caso com a sua honestidade política, particularmente em comparação com o muito manipulador Fidel Castro. Tinha também um lado profundamente ascético que o levou, por exemplo, a tentar impor, em contraste com outros líderes revolucionários, políticas puritanas durante a sua ocupação da vila Sancti Spiritus no centro de Cuba, em 1958, e considerar, numa reunião do ministério da indústria, que ele dirigia, que o desenvolvimento da “consciência” poderia inverter o progresso material em bens de consumo.

De acordo com Guevara, o povo cubano podia ser educado a construir [o socialismo], sem televisão, baseado no exemplo dos vietnamitas, que não tinham televisão e no entanto estavam a construir o socialismo.

O Internacionalismo de Guevara ou, mais precisamente, a sua vontade de expandir a revolução fora da ilha, particularmente no resto da América Latina, estava mais vincada que nos irmãos Castro. Sem embargo, estava baseada num claro ultra-vanguardismo e na substituição da classe trabalhadora e do campesinato pela “ditadura do proletariado” do Partido Comunista, levando ao estabelecimento de uma nova classe dirigente.

O igualitarismo e internacionalismo de Che estava também ligado ao voluntarismo que se expressava a si mesmo tanto na política como na política económica através dos seus sublinhados sobre os incentivos morais e na criação de um “Homem Novo” que seria totalmente dedicado à sociedade e alheio às suas satisfações pessoais.

As características políticas e pessoais de Guevara – a sua honestidade política e o seu radicalismo igualitário — talvez o tivessem feito mais capaz de ser um comunista oposicionista do que um dirigente comunista a longo termo, que teria que lidar com o crescimento da desigualdade e a corrupção que acompanhou a Revolução Cubana.

Apesar de que o seu igualitarismo, honestidade e ascetismo o pudessem ter ajudado a construir e consolidar a Revolução Comunista Cubana, o sistema que ele ajudou a construir iria quase de certeza virar-se contra os seus valores mais elementares.

Max Weber famosamente arguia que a ética ascética puritana teve um papel essencial no desenvolvimento original do capitalismo, mas isso mais tarde, depois

do ascetismo se comprometer em remodelar o mundo e a desenvolver os seus ideais pelo mundo, os bens materiais ganharam um crescente e finalmente poder inexorável sobre a vida dos homens como em nenhum outro período anterior da história. Hoje o espírito ascético religioso — de forma definitiva, quem sabe? — escapou da jaula. Mas o capitalismo vitorioso, uma vez que se apoia em fundações mecânicas, já não precisa do seu suporte. O mesmo pode também ser aplicado ao Comunismo que Guevara ajudou a construir em Cuba.

O objetivo comum

Não obstante as diferenças que Guevara tinha com os irmãos Castro e os comunistas cubanos pró-Moscovo, este partilhava com eles, até mesmo ao fim, o mesmo projecto para derrubar o capitalismo e construir uma nova sociedade socialista. Este projecto que compartiam estava fundado na criação de um novo sistema de classes baseado em um colectivismo estatal, um modelo de propriedade no qual o estado detém e controla a economia e a burocracia política central “detém” o estado. A pertença à classe dirigente é determinada pela ocupação de um lugar na burocracia que está no centro do poder numa sociedade e que une o poder político ao económico.

Tais sociedades burocráticas são caracterizadas pela produção de valores de uso que satisfazem as necessidades sociais determinadas pela classe dirigente. Neste sistema, a maior parte do excedente não é apropriado pela empresa individual que produziu o excedente, nem tampouco é obtido primariamente pelo mercado.

Em vez disso, é apropriado pelo estado para a economia como um todo. O estado apropria o excedente através dos seus mecanismos de planeamento e controlo — determinando o quê, quanto e onde os bens são produzidos. O excedente não vai financiar primariamente os salários e privilégios dos burocratas (não mais do que os lucros vão financiar principalmente os consumos privados da classe capitalista), ainda que os oficiais do estado possam de facto desfrutar de alguns privilégios especiais.

Vai primeiramente financiar a acumulação e investimento, defesa e outras formas de despesas assim decididas pela burocracia tal como fazem os capitalistas e o capitalismo de mercado sob o capitalismo.

Existe uma contradição determinante neste sistema social entre a necessidade de planeamento e a ausência de liberdade política essencial para a eficiência e precisão do planeamento. Sem liberdade política não há autenticidade de respostas, informação verdadeira e iniciativa independente a partir de baixo que torna possível os planos económicos serem bem desenvolvidos. Os rebeldes anti-burocráticos e revolucionários que possam ter sido inspirados pelo espírito revolucionário intransigente representado por Guevara podem apenas atingir os seus objectivos através de um processo que traz no mesmo saco políticas socialistas, democracia e revolução.

Socialismo: porque a verdadeira libertação da classe trabalhadora apenas pode ser alcançada quando tanto a economia como a política estejam sobre o controlo dos homens e mulheres que através do seu trabalho façam a existência social possível. Democracia: porque a regra da maioria e o respeito pelos direitos das minorias e liberdades civis é a única maneira da classe trabalhadora poder, de facto, e não apenas em teoria, controlar o seu destino. Revolução: porque nem mesmo as reformas mais bem-vindas e autênticas podem trazer uma verdadeira emancipação e libertação. Em qualquer caso, a resistência dos poderosos à mudança social radical faz com que seja provável tornar a revolução tanto inadiável como desejável.

Republished from Haymarket Books.

Colaborador

Samuel Farber was born and raised in Cuba and is the author of numerous books and articles dealing with that country. He is a member of Jewish Voice for Peace and supports BDS.

18 de maio de 2016

O socialismo soa bem na teoria, mas a natureza humana não o torna impossível de se realizar?

Nossa natureza compartilhada na verdade nos ajuda a construir e definir os valores de uma sociedade mais justa.

Adaner Usmani e Bhaskar Sunkara

Jacobin

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Tradução / “Bom na teoria, ruim na prática.” Quem declara interesse no socialismo e na ideia de uma sociedade sem exploração e hierarquia recebe frequentemente essa resposta desdenhosa. Legal, o conceito soa bem, mas as pessoas não são muito gentis, certo? O Capitalismo não é mais adequado à natureza humana – uma natureza dominada por competitividade e corrupção?

Socialistas não acreditam nesses lugares-comuns. Eles não veem a História como uma mera crônica de crueldade e egoísmo. Eles também veem incontáveis atos de empatia, reciprocidade, e amor. As pessoas são complexas: elas fazem coisas indescritíveis, mas também se envolvem em atos notáveis de bondade e, mesmo em situações difíceis, mostram profunda consideração pelos outros.

Isso não significa que nós somos “elásticos” – que não existe algo como uma “natureza humana.” Progressistas às vezes fazem essa afirmação, muitas vezes discutindo com aqueles que veem pessoas como máquinas de “maximização de utilidade” que andam e falam. Apesar da boa intenção, essa acusação vai longe demais.

Por pelo menos duas razões, socialistas estão comprometidos com a visão de que todos os humanos compartilham alguns interesses importantes. A primeira é moral. As acusações dos socialistas sobre como as sociedades de hoje falham em prover necessidades básicas como comida e abrigo em um mundo de abundância, ou bloqueiam o desenvolvimento de pessoas presas em empregos ingratos, fatigantes e mal pagos, estão baseadas em uma crença central (declarada ou não) sobre os impulsos e interesses que animam as pessoas em todos os lugares.

Nossa indignação com que se negue a indivíduos o direito de ter vidas livres e satisfatórias está ancorada na ideia de que as pessoas são inerentemente criativas e curiosas, e que o capitalismo muito frequentemente asfixia estas qualidades. Para simplificar, nós lutamos por um mundo mais livre e mais satisfatório por que todo mundo, em todos os lugares, se preocupa com sua liberdade e satisfação.

Mas esta não é a única razão por que socialistas se interessam pelas motivações universais da humanidade. Ter um conceito de “natureza humana” também nos ajuda a encontrar sentido no mundo que nos rodeia. E nos ajudando a interpretar o mundo, ele auxilia em nossos esforços para mudá-lo também.

Em um trecho famoso Marx diz que “a história de todas as sociedades até aqui tem sido a história da luta de classes.” Resistência à exploração e opressão é uma constante através da História – é tão parte da natureza humana quanto competitividade, ou ganância. O mundo que nos cerca está cheio de exemplos de pessoas defendendo suas vidas e dignidade. E enquanto estruturas sociais podem moldar e restringir a ação individual, não existem estruturas que passem o rolo compressor sobre direitos e liberdades das pessoas sem despertar resistência.

É claro, a história de “todas as sociedades até aqui” é também uma coleção de relatos de passividade e mesmo aquiescência. A ação coletiva de massa contra a exploração e opressão é rara. Se humanos por todos os lados estão comprometidos com a defesa de seus interesses individuais, por que nós não resistimos mais?

Bem, a visão de que todas as pessoas têm incentivos para exigir liberdade e satisfação não implica que elas sempre terão a capacidade para fazer isso. Mudar o mundo não é uma tarefa fácil. Sob condições normais, os riscos associados com agir coletivamente muitas vezes parecem esmagadores.

Por exemplo, trabalhadores que escolhem se associar a um sindicato ou entrar em greve para melhorar suas condições de trabalho podem despertar perseguições por seus chefes ou mesmo perder seus empregos. A ação coletiva requer que muitos indivíduos diferentes decidam assumir esses riscos juntos, então não é surpreendente que isso seja incomum e mesmo que dure pouco.

Colocando de outra maneira, socialistas não acreditam que a ausência de movimentos de massa seja um sinal de que as pessoas em geral não tenham desejos inerentes de contra-atacar, ou pior, que elas nem mesmo reconhecem quais são seus interesses. Ao invés disso, protestos são incomuns porque as pessoas são espertas. Elas sabem que no atual momento político a mudança é uma esperança distante e arriscada, então elas desenvolvem outras estratégias para se virar.

Mas às vezes as pessoas se levantam e assumem riscos. Elas se organizam e constroem movimentos progressistas populares. A história está repleta de exemplos de pessoas lutando contra a exploração, e uma de nossas principais tarefas como socialistas é apoiar esses movimentos, para ajudar a fazer da ação coletiva uma escolha viável para ainda mais pessoas.

Nesse esforço – e na luta para definir os valores de uma sociedade mais justa – nós seremos auxiliados, não atrapalhados, pela nossa natureza compartilhada.

16 de maio de 2016

Uma nova abordagem radical para o campo da economia

Uma entrevita com
Anwar Shaikh

Public Seminar

William Playfair bar chart, “Wheat and Labour,” 1822 / Wikimedia Commons

Tradução / Anwar Shaikh vem ensinando economia na The New School a 42 anos. Um dos líderes mundiais da economia heterodoxa, ele argumenta que o modelo neoclássico ensinado na maioria das universidades é uma ferramenta ruim para se entender o capitalismo. Ele espera que o seu novo livro, Capitalismo: Competição, conflito e crise, possa ser a fundação para uma teoria econômica e pedagógica alternativa. Ele recentemente se sentou com a estudante da New School, Ebba Boye, para falar sobre o seu trabalho.

Porque você escreveu esse livro?

Quando eu inicialmente entrei na economia, existia um desejo de entender como o mundo funciona. Eu sou do Paquistão, eu cresci em uma parte do mundo onde a disparidade entre riquezas era enorme e o crescimento era lento. Meu pai era um diplomata que havia sido designado para vários países, então, enquanto eu crescia, observei a diversidade de povos, culturas e economias. No Kuwait, eu observei como eles tinham mais dinheiro do que era possível contar, e mesmo assim, muitos eram pobres e trabalhavam sob condições muito difíceis. Então eu pensei que a economia me ajudaria a entender isso. Mas, quando eu cheguei na economia, eu percebi que a ortodoxia não estava lidando com o mundo no qual eu estava interessado, estava lidando com um mundo de fantasia.

Então você teve que construir a sua própria teoria econômica?

A economia neoclássica (a abordagem dominante no campo, hoje) lida com um mundo de perfeição e racionalidade. A tradição neoclássica começa com premissas altamente idealizadas, e então usa essas premissas como material de construção para sua teoria. Muito da pesquisa econômica foca em mudar algumas premissas para fazer o modelo mais aplicável na realidade. Mas isso não é começar mal?

Eu queria voltar ao meu questionamento original, como o capitalismo funciona? Mas ao invés de começar com um mundo idealizado, eu comecei com observações de fato e tentei conceber um modelo coerente. Mas isso tomou tempo; estou trabalhando nisso por 35 anos e passei 15 anos escrevendo esse livro.

Você teve que começar do zero?

Não, eu não precisei. Houve muito o que se aproveitar dos economistas clássicos, Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. Eu também continuei alguns dos trabalhos de John Maynard Keynes, Joan Robinson, Luigi Pasinetti, Piero Sraffa e Geoffrey Harcourt. A tradição clássica começou com a observação de padrões e resultados reais. A idéia é começar de baixo para cima, do mundo real que observamos ao nosso redor, e daí construímos abstrações.

No seu livro você mostra como é desnecessário e até errado construir um modelo econômico com base na “competição perfeita”. Porque você acha que tantos dos modelos neoclássicos têm isso como premissa central?

Essa é uma coisa muito interessante. Os economistas políticos clássicos, como Smith, Ricardo e Marx, descrevem, com riqueza de detalhes, o que eu chamo de “competição real”. Relações entre capital e trabalho, entre grande e pequeno capital, e entre nações, eram todas conflituosas dentro da estrutura clássica.

Os economistas neoclássicos queriam mostrar que o sistema era harmônico e benéfico para todos. Então eles construíram uma estrutura de trabalho onde esses conflitos foram todos abolidos. Eles apresentaram o capitalismo como um sistema harmônico e ideal. Coisa que não é, evidentemente. Mas isso fornece uma fundação ideológica poderosa, ou uma justificativa, do capitalismo.

Quais são algumas das implicações políticas das teorias mostradas em seu livro?

Deixe-me começar no nível micro. Competição funciona. Ela disciplina empresas individuais, indústrias e nações. Mas também produz resultados que não são desejáveis, especialmente para aqueles que perdem. A primeira lição que temos no livro é que temos que entender o que esses resultados são, que eles representam as consequências naturais do mecanismo capitalista. Então, se nós não gostarmos desses resultados, a questão política é como lidamos com eles?

Livre mercado na teoria ortodoxa, supostamente faz com que todos estejam em melhores condições, tanto indivíduos como nações. Por causa da premissa de pleno emprego, se uma companhia ou indústria for terceirizada, os trabalhadores não sofrem nenhuma desvantagem, porque é só eles simplesmente mudarem para novos empregos. Claro que na prática, economistas ortodoxos admitem que há algumas discrepâncias nessa teoria, mas basicamente eles acreditam que todo mundo vai terminar mais feliz.

Por outro lado, na tradição clássica, o livre comércio é uma guerra, porque a competição é uma guerra. E em toda guerra temos vencedores e perdedores, e os perdedores podem ser permanentemente danificados.

Meu objetivo é mostrar que os dois lados dessa estória, as vantagens e os custos, são consequências naturais porque são intrínsecos à competição.

No nível macro, nós precisamos olhar para os padrões recorrentes no capitalismo e entender os “prosperar e falir”. Os fortes mecanismos do comportamento motivado pelo lucro (ambos) alavancam a economia para frente e também a joga em uma crise profunda.

Você foi um dos economistas heterodoxos que previram a crise econômica. O que foi no seu método que te fez ver o que estava vindo, enquanto os neoclássicos não?

Primeiramente, eu não fui assim tão preciso. Em minhas palestras eu argumentei que a crise iria nos alcançar por volta de 2008-2009,  mas como nós sabemos a economia quebrou já em 2007-2008.

O problema para os neoclássicos é que eles já tinham concluído que não existia nada de “ciclos”. O mercado já era perfeito. Ciclos de crises e negócios acontecem por causa de choques aleatório, e não por causa de algo intrínseco no modelo. Muitos economistas heterodoxos, por outro lado, vão apresentar modelos onde as crises são uma parte natural e recorrente do nosso sistema econômico atual.

Como é o seu modelo micro?

Ao usar modelos estocásticos, você consegue acomodar múltiplos comportamentos humanos, você não precisa se ater a um único comportamento. E se nós agregarmos esses comportamentos em níveis suficientes, nós terminamos conseguindo padrões assombrosamente estáveis, ainda que a observação dos indivíduos nos mostre que as pessoas trilham caminhos completamente diferentes. Pessoas, sendo pessoas, podem escolher passar por cima de padrões habituais. Por exemplo, trabalhadores se comportam de maneira diferente se eles estão organizados, em oposição a quando estão competindo uns com os outros. Isso também é uma parte da história social. E a economia deveria ser capaz de incluir isso desde o seu princípio. É por isso que eu digo que precisamos começar olhando para o que a antropologia tem a nos dizer, e construímos nosso modelo a partir disso. Isso pode soar complicado, mas não é. Tudo o que estamos fazendo é aceitando a complexidade do comportamento humano.

Meu argumento é que é possível criar modelos abstratos que podem ser usados para analisar a economia, usando uma estrutura de trabalho que vai se encaixar muito melhor com o conhecimento que temos de como as pessoas realmente se comportam. Não há necessidade para as premissas feitas por economistas neoclássicos.

O que você espera alcançar ao escrever esse livro?

Eu desejo criar uma fundação para um currículo alternativo. Espero que outras pessoas com a mesma motivação, face às mesmas contradições óbvias entre as fundações dos economistas ortodoxos e o mundo que eles enxergam, não precisem passar por todo o processo que eu precisei.

Quais são as suas percepções sobre como as teorias econômicas heterodoxas são recebidas pela comunidade econômica ortodoxa?

Eu acho que economistas convencionais, desde pelo menos os anos 80, têm deixado de fora todos os outros pontos de vista, ao declarar que todos os outros pontos de vista podem ser derivados de dentro de suas estruturas de trabalho. Tudo que eles precisam fazer é adicionar um número suficiente de imperfeições. Isso começou com Paul Samuelson e a tentativa de incorporar a economia Keynesiana à ortodoxia, ao dizer que os resultados Keynesianos foram devido a rigidez dos salários. Então veio a rigidez dos preços e a rigidez das taxas de juros.

Eu sempre me opus a idéia de que resultados reais pudessem ser entendidos como imperfeições. Me parece que então que você está aprisionado no interior da perfeição, e você tem sempre de voltar a mesma para ter a que recorrer. Eu queria construir um sistema que não dependeria de jeito nenhum das expressões tradicionais – sem maximização, sem a utilidade sendo a maior motivação do comportamento do consumidor, sem redução de custos como a definição de competição, sem a idéia de que somente pequenas empresas são competitivas. Porque essas não são necessárias para se argumentar sobre o funcionamento da economia.

Micro é muito importante, mas nós não precisamos dessa micro ficcional, nós precisamos de uma microeconomia real.

Muitos que criticam o campo da economia, focam no uso de modelos abstratos e suas limitações para o entendimento do mundo real. Como você usa modelos e abstrações em seu livro?

A abstração é necessária em qualquer análise. A questão é como a abstração foi criada. Se abstração é idealização, que eu defendo ser a raiz fundamental da teoria ortodoxa, então isso é muito diferente da abstração enquanto tipificação. Galileo fez uma abstração sobre o movimento dos planetas. Essa abstração foi derivada da observação. A igreja ocidental tinha outra abstração. Ela não era derivada da observação, mas de uma necessidade ideológica. E a igreja tentou deixar de fora os outros pontos de vista.

Eu sei que o que você quer mesmo é falar sobre as teorias em seu livro. Mas eu realmente quero ouvir um pouco mais sobre como é estar em um ambiente econômico heterodoxo, e como você é recebido pelos neoclássicos.

Mas é claro. Bem, quando eu estava fazendo a minha graduação havia mais comunicação entre diferentes pontos de vista. Pessoas como Paul Samuelson e muitas das outras grandes figuras da época, todos leram os originais de Keynes e Marx. Em Cambridge você poderia conversar com Maurice Dobb por um lado e então com Piero Sraffa e Nicholas Kaldor por outro. Todos eram educados no sentido Europeu, eles tinham uma ampla educação e um amplo espectro teórico.

Esse espectro se estreitou. A Chicago School e o MIT começaram a tomar a profissão. Isso aconteceu especialmente com o advento da teoria das expectativas racionais. De repente, tudo que era legítimo tinha que ser moldado de acordo com os seus termos, do contrário não era economia… Se você não construísse a sua teoria com os mesmos fundamentos dos economistas neoclássicos, você simplesmente não era reconhecido como um economista de verdade.

E o único modo que o espectro se amplia para os economistas heterodoxos é quando o capitalismo, sem se impressionar com a teoria econômica, se mostrava como um terremoto. Então esses espaços se abriam por um tempo. Talvez tenhamos uma possibilidade como esta exatamente agora?

Você tem algum conselho para jovens economistas adentrando o campo heterodoxo?

Não gaste o seu tempo reclamando sobre a economia neoclássica. Isso é uma armadilha. Basicamente já foi tudo dito. Não é o suficiente estar em oposição. Penso que a atenção ao método é importante, mas você realmente tem que ter uma visão, um plano. Suponha que você acabou de chegar de Marte e você tem que analisar o capitalismo. Como você abordaria o funcionamento do sistema? Você iria ler o que os outros já disseram, mas também precisaria de começar a construir a sua teoria de uma fundação diferente.

Sobre a entrevitadora

Head of Rethinking Economics, Norway; Economics MA from The New School

8 de maio de 2016

Será que precisamos de um "think thank" socialista?

Jason Stahl


Tradução / A entrevista de Bernie Sanders no New York Daily News, no mês passado, foi tida como prova por algumas pessoas de que ele teria pouco domínio sobre políticas públicas. Hillary Clinton chegou a avisar os eleitores de que Sanders “tinha [problemas] ao responder questões inclusive sobre seu principal tópico, ou seja, a luta contra os bancos”.

Os apoiadores de Clinton na grande mídia ecoaram as preocupações da candidata; os apoiadores de Sanders, por sua vez, defenderam o candidato deles.

Pode ser tentador lidar com essas posições somente como uma disputa partidária. Mas ela levanta uma questão que tem sido persistente durante esse período eleitoral.

Será que os candidatos deveriam ter total controle dos detalhes das políticas públicas, ou deveriam tentar inspirar os eleitores com grandiosas declarações sobre valores compartilhados? Será que os debates sobre políticas públicas pertencem aos tecnocratas, ou ao público em geral?

A campanha presidencial desse ano oferece três respostas diferentes.

Donald Trump representa uma ponta extrema. Seu clamor em prol de deportações massivas de imigrantes sem documentos, de proibição de entrada de muçulmanos nos Estados Unidos e para uma enorme isenção tributária para a elite econômica mostra que ele liga muito pouco para as especificidades das suas políticas públicas ou mesmo para sua implementação. Sua desconexão com a tecnocracia está tão consolidada que ele raramente tem que lidar com questões feitas pela mídia sobre os detalhes de seus planos.

Do outro lado desse espectro, encontra-se Hillary Clinton. Ela é uma tecnocrata comprometida e que raramente discute as suas políticas em termos mais amplos ou morais. Segundo sua posição, políticas neoliberais planejadas cuidadosamente são a única saída possível e até mesmo isso pode ser ‘pedir muito’.

A estratégia de Clinton foi usada para deslegitimar Sanders. Ele representa uma terceira opção que argumenta que os detalhes das políticas públicas, ainda que importantes, não deveriam ficar no caminho de considerações mais importantes como a construção de movimentos e a necessidade de candidatos representarem os interesses das pessoas comuns nos debates políticos.

A falta de compromisso com as especificidades da política é uma crítica fácil a ser feita contra Sanders e pode vir a definir a sorte das futuras candidaturas socialistas na política eleitoral. Mas não há motivo para cedermos os terrenos tecnocráticos aos neoliberais. Um “think tank” socialista iria nos ajudar a ter certeza de que isso não ocorreria no futuro.

A comunidade baseada na realidade

Os “think tanks” tal como conhecemos hoje têm cerca de cem anos. Em 1927, os dois mais antigos “think tanks” (um deles iniciados em 1916) se fundiram e formaram o Brookings Institution. O Brookings foi uma entre várias instituições “liberais novas” que se formaram no início do século XX em oposição à ideologia do laissez-faire do século XIX. Eles prometeram reformar os males do capitalismo industrial a partir de pesquisas especializadas e de caráter empírico.

Instituições como o Brookings desenvolveriam políticas voltados para atender as necessidades das pessoas e funcionários dos governos iriam implementar essas políticas, geralmente estabelecendo novas instituições federais.

Muitas vezes, as elites corporativas entenderam que tais medidas eram preferíveis às outras alternativas dispostas, a dizer, as várias formas de radicalismo e a corrupção da política partidária.

Para consolidar essa nova instituição como algo ‘a parte’ do sistema, o Brookings consolidou uma identidade “não-partidária”. Seus associados falavam como tecnocratas ilustrados que entendiam o mundo melhor do que a ralé socialista ou os egoístas operadores dos partidos tradicionais.

A política “não-partidária” do Brookings permitiu que eles tivessem sucesso até se oporem a maior parte das iniciativas do New Deal durante a Grande Depressão. Acreditando que a Segurança Social e o programa de Recuperação Nacional da Indústria seriam intervenções excessivas do Estado na economia, a orientação reformista do ‘think tank’ não conseguiu abertura para adentrar na administração Roosevelt.

Essa orientação anti-New Deal continuou durante a administração Truman: o Brookings Institution se opôs às propostas de seguro de saúde nacional. Mas mudanças na equipe ocorridas nos anos 1950 mudaram fundamentalmente a presença do instituto.

O Brookings tornou-se um pilar do consenso tecnocrático liberal durante as administrações Kennedy e Johnson. Eles assinaram embaixo nos principais elementos do pacote Great Society, de Lyndon Johnson, fundindo assim objetivos político-morais com expertise tecnocrática.

Na festa de aniversário de cinquenta anos do Brooking, o president Johnson declarou: “vocês são uma instituição nacional, tão importante para o Executivo – e eu acredito que para o Congresso e para o país também – que se vocês não existissem, nós teríamos que pedir para alguém cria-los.”

Os “think tanks” conservadores como o American Enterprise Institute (AEI) reclamaram da enorme influência que o Brookings tinha no final da década de 1960. O Congresso e a Receita Federal (IRS) reprimiram o AEI sempre que ele ficava muito próximo dos Republicanos. A equipe do AEI argumentava que era exatamente isso que o Brookings estava fazendo com os Democratas – ou seja, disfarçando a construção de políticas públicas com uma aura de empirismo sócio-científico para disfarçar acusações de partidarismo – mas com a diferença de que eles estavam se safando.

O AEI posteriormente acusou tanto os Democratas como o governo federal de terem sido ‘engolidos’ por instituições pró-liberais e que elas seriam responsáveis por um grande número de crises domésticas e internacionais. Aqueles que estavam no AEI e em outras instituições políticas conservadoras, como a Hoover Institution, argumentaram que suas vozes precisavam ser amplificadas dentro de um mercado de políticas públicas em que se criassem soluções conservadoras para tais crises.

Como resultado desses debates, o AEI e posteriormente a Heritage Foundation, mudaram a forma como os americanos passaram a entender os debates sobre políticas públicas. A suposta “objetividade” do debate político fora substituída por um “mercado das ideias”, no qual a identidade conservadora, mais do que o mérito de suas propostas, tornou-se central.

As críticas dos conservadores tinham algum mérito. O consenso liberal limitou os debates da direita e da esquerda. Mas um “mercado de ideias” com diversidade nunca fez parte da agenda deles.

Ao invés disso, os conservadores ficaram obcecados com a necessidade de um “equilíbrio” nos debates de políticas públicas. Num mercado que fosse “equilibrado”, todavia, havia apenas duas posições: a “liberal” e a “conservadora”.

Enquanto as políticas identificadas como “conservadoras” podiam ser rigorosamente pensadas e planejadas do ponto de vista tecnocrático, elas não precisavam ser – e na maior parte do tempo, elas não eram. E esse foi o início da longa descida em direção a candidatura de Donald Trump.

O primeiro exemplo disso foi a chamada “isenção tributária da economia pelo lado da oferta” (supply-side tax cuts) durante o primeiro mandato de Reagan. Os aparatos dos “think tanks” conservadores venderam a ideia de que uma isenção tributária para a elite econômica baseados na noção de que eles trariam resultados e não causariam perda na renda tributária do governo, mesmo que acompanhadas por cortes em serviços governamentais.

Os principais opositores dessa lei argumentaram que a isenção tributária sem reduções correspondentes nos gastos poderia levar os Estados Unidos a um verdadeiro abismo fiscal.

Irving Kristol, porta-voz do neoconservadorismo e sócio do AEI, respondeu na época: “o neoconservadorismo está disposto a deixar esses problemas para que os interregnum liberais lidem com eles. Ele deseja moldar o futuro e vai deixar para que seus oponentes limpem a bagunça depois.”

Tal atitude se tornou o ethos dominante de boa parte do Partido Republicano e de seus candidatos: proponham grandes ideias que moldarão o futuro sem se preocupar com as especificidades políticas, sua implementação ou suas consequências.

Os principais Democratas compraram a visão de Kristol, prometendo “limpar a bagunça depois” e serem melhores gerentes tecnocratas e formadores de políticas públicas do que seus colegas Republicanos.

De certa forma, isso fazia sentido. Como a presidência de Bill Clinton deu a entender, há um desejo público para uma governança sadia e empírica. Incitado por “think tanks” como o Democratic Leadership Council, Clinton retomou muitas das ideias conservadoras – as mais importantes sendo a welfare reform e a criação do NAFTA – e administrou-as com extremo zelo, de uma forma que os governos Republicanos nunca poderiam imitar.

Os oito anos de governo de George W. Bush solidificaram as orientações Republicanas e Democratas perante a produção de políticas públicas.

George W. Bush sonhou com múltiplas e catastróficas guerras no exterior, assim como gigantescas e mal planejadas políticas domésticas, incluindo aqui um retorno às isenções fiscais. Assim como as isenções da era Reagan, elas redistribuíram a riqueza somente para o andar de cima, exacerbando a desigualdade econômica.

A orientação política do Partido Republicano foi perfeitamente sintetizada pelo braço direito de Bush, Karl Rove. Como ele mesmo dissera ao jornalista Ron Suskind em 2004, os membros da administração não eram “parte de uma comunidade baseada na realidade”. Com isso, Rove queria dizer que ele não acreditava que as “soluções emergiriam do estudo cuidadoso de uma realidade discernível”. De acordo com Rove,

“O mundo não funciona mais desse jeito... Nós somos um império agora e quando nós agimos, nós criamos nossa própria realidade. E enquanto nós estudamos essa realidade – de forma cuidadosa, se quiserem – nós vamos agir de novo, criando novas realidades, as quais nós também podemos estudar e vai ser assim que as coisas vão acontecer. Nós somos os atores da História (...) e a vocês, todos vocês, restará apenas estudar o que nós fizemos.”

Uma rejeição mais explícita da ideia de especialidade da tecnocracia administrativa não poderia ser encontrada em outra parte.

Os Democratas, por sua vez, adotaram a identidade zelosa como uma alternativa a visão de mundo de Rove, vendo assim os tecnocratas como a única resposta racional ao pensamento mágico Republicano.

Obama, e agora Hillary Clinton, moldaram cuidadosamente essa ideologia dentro da política do Partido Democrata. Todavia, quanto mais fica apertada a camisa de força tecnocrática – tal como Hillary Clinton tem feito – mais ela sacrifica a imaginação política.

Foi aí que Sanders encontrou sua abertura. Ao exigir que imaginemos políticas capazes de criar novos mundos, Sanders está claramente procurando lançar uma posição socialista no ‘mercado de ideias’, aquele espaço onde o zelo tecnocrático da produção política é menos importante do que as grandes ideias.

Movimento e política

Organizações tradicionais de mídia, as quais a maior parte das equipes estão ansiosas para mostrar suas credenciais “baseadas na realidade”, têm usado essa orientação de Sanders contra ele. Clinton praticamente trouxe todos os criadores de políticas públicas Democratas para sua campanha – até mesmo aqueles que talvez estivessem mais inclinados a votar em Sanders. Isso deixou o pré-candidato basicamente por conta própria na tentativa de oferecer defesas tecnocratas contra seus críticos.

Mas tais defesas não são responsabilidade dele. Sanders deve permanecer focado em conectar-se com seus eleitores com os termos mais amplos possíveis se ele pretende construir um movimento.

A produção de políticas públicas dos socialistas e suas defesas precisam vir de outros lugares. É por isso que precisamos de um “think tank” socialista – para garantir que as políticas tocadas pelos candidatos progressistas estão sendo geradas por instituições vinculadas aos interesses dos trabalhadores.

Nós podemos nos preocupar que os projetos políticos das elites possam eventualmente distrair a construção do movimento socialista e de uma política mais ampla. Mas não precisa ser esse o caso.

A Heritage Foundation, instituição de direita, é um modelo útil nesse sentido. Ao contrário de muitos outros “think tanks” que existem, a Heritage está profundamente conectada aos movimentos conservadores de base. Ela possui uma extensa rede de doação de pequenas quantias junto com as imensas doações privadas e corporativas.

Mais do que isso, os ativistas jovens e conservadores procurando um começo para suas carreiras políticas encontraram um lar na Heritage Foundation. A partir de sua subsidiária, a Heritage Action, conseguiu-se engajar-se ainda mais em direção aos movimentos políticos conservadores. Não há motivo para que um “think tank” socialista não possa emular esse modelo de cima-para-baixo e de-baixo-para-cima.

A maioria das defesas tecnocratas das políticas de Sanders tem sido produzidas bastante informalmente. Se esperamos que os futuros candidatos socialistas em âmbito local, estadual e nacional tenham sucesso, eles não podem desistir dos debates sobre políticas públicas com os candidatos neoliberais. Conceder essa derrota serve apenas para manter a noção reificada de que os neoliberais são os únicos que possuem uma agenda “factível”.

6 de maio de 2016

O longo jogo de Trump

A questão geral é se a abordagem de Trump para conseguir a nomeação funcionará tão bem para ele nas eleições gerais.

Elizabeth Drew

NYR Daily

Donald Trump e um pôster anunciando seu livro, Think Big and Kick Ass, Nova York, 16 de outubro de 2007. (Timothy A. Clary / AFP / Getty Images).

Desde que entrou na corrida presidencial, Donald Trump tem sido um perturbador de suposições. E agora a pergunta principal é se a sua abordagem para conseguir a nomeação vai funcionar tão bem para ele na eleição geral. De pouco adianta estudar mapas de resultados passados no colégio eleitoral, principalmente da eleição de Obama em 2012, e tentar projetar o futuro a partir daqueles dados – exercício que sugere uma provável vitória de Hillary Clinton. Por um lado, não estamos mais em 2012; além do mais, obviamente, Donald Trump não é Mitt Romney. (Nem Hillary Clinton, Barack Obama.) O notável triunfo de Trump, que já tem garantida a indicação do Partido Republicano (só falta oficializar), é efeito em grande parte de o candidato ter-se recusado a jogar pelas regras tradicionais. Ele fez o seu caminho, e ao fazer isso ceifou dezesseis oponentes republicanos.

Se se analisa contudo o longo arco do pensamento de Trump, compreende-se melhor e tem-se menor surpresa ante a evidência de que um empresário milionário e estrela de reality shows de televisão já obteve a indicação para concorrer à presidência dos EUA. As mesmas características que fizeram de Trump uma celebridade – a personalidade descomunal, a capacidade para ler nas entrelinhas dos humores do público e para jogar conforme o que veja – fizeram dele candidato bem-sucedido à indicação. No programa de televisão de Trump, O Aprendiz, o herói era homem que decidia ("Você está demitido!"), sem admitir nem contestação nem conversa fiada. Milhões de pessoas creem firmemente que esses traços podem, sim, produzir presidente efetivo.

Trump entende a importância do tamanho ( "Little Marco"), no confronto com sua imponência que ele mesmo é (quase 2m de altura, entroncado); lado a lado, Trump parece muito mais confiável e forte. (Há muito tempo se aceita como lei geral do marketing eleitoral que candidatos de mais alta estatura são mais bem-sucedidos nas disputas presidenciais; houve exceções – Harry Truman, por exemplo; mas as vitórias iniciais de Trump sugerem que a tendência tenha, sim, alguma correspondência com a realidade. Trump é maior também que todos os demais candidatos republicanos em vários sentidos: é mais atilado, mais engraçado e muito mais surpreendente e imprevisível. A magnitude da ousadia e da irreverência do homem gerou um atrativo a mais: o público aguarda, em suspense, o que ele dirá/fará na sequência.

Em certo sentido, Trump é homem de audácias, sem medo: correu riscos que outros candidatos jamais ousariam assumir – e em várias ocasiões, riscos que pesavam contra o próprio Trump. Analistas já observaram que uma das mais graves dificuldades que a campanha de Clinton enfrenta é jamais saber onde e quando Trump fará das suas: o homem não sinaliza onde baterá, e não faz esquentamentos; ele salta e ataca, sem hesitar e sem nuances, o que o torna completamente imprevisível.

Mas há algo mais, algo mais evasivo, que sugere que Trump poderia ser um candidato formidável nas eleições gerais. Na noite da primária em Indiana, dia 3 de maio, quando Trump detonou Ted Cruz (53-37) e John Kasich só obteve 7,5% dos votos, Michael Steele, ex-presidente do Comitê Republicano Nacional, que não é homem de Trump, observou que a principal dificuldade para Clinton é superar o apelo populista de Trump e mostrar "sincera empatia, passar a impressão de ser parte da alma e da inteligência de cada homem e de cada mulher." No caso do marido dela, era talento natural, como respirar, nas eleições de 1992. Em Hillary, absolutamente não existe. E Steele fala também de outro aspecto do appeal de Trump: "aquele lado intangível dele – o modo de ser, os maneirismos, a mensagem que faz perfeito sentido para os eleitores dia e noite, todos os dias." Esse lado de Trump, disse Steele, "é que tornará as próximas eleições extremamente disputadas."

Porque Trump perturba pressupostos e faz suas próprias regras, por causa de todos esses intangíveis e imprevisíveis, ele desafia também as convenções da análise política convencional. O fato é que Trump é muito mais inteligente e atilado do que finge ser quando se identifica com o Joe médio que perdeu o emprego, ou só consegue subempregos ou que teme a concorrência dos imigrantes, ou simplesmente, chateado por ter de ser "politicamente correto". Rejeitar o "politicamente correto" foi dos movimentos mais espertos de Trump: conseguiu libertar os que o ouvem e acompanham, mas também se libertou, ele mesmo. Aquele mesmo Joe (que coloca o "Joe, o Encanador" real, de rápida fama em 2008, como símbolo de campanha) não quer disputar empregos com minorias ou com imigrantes; e não quer ser obrigado a fingir-se de bom-moço. A declaração chocante, no discurso de apresentação de Trump em junho passado, de que o México "nos manda" estupradores e assassinos, foi de fato elemento crucial, maduramente refletido, da campanha que ali se iniciava.

A conversa anti-imigração de Trump, combinada com o fantástico muro que, parece, milhões creem que ele construirá com dinheiro mexicano, são exemplos de o quanto ele se dedica a trabalhar os pontos sensíveis do núcleo duro de seus eleitores. Como Bernie Sanders, Trump também entende que os acordos comerciais destruíram empregos e causaram fúria considerável. Como vários candidatos republicanos antes dele, Trump joga nem assim tão sutilmente, com o ódio racista. Antes de se candidatar, a obsessão de Trump com os documentos de nascimento de Obama, os "investigadores" que teria mandado ao Hawaii para exumar a verdadeira história do local de nascimento de Barack Obama e o material "absolutamente inacreditável" que teriam trazido (mas Trump jamais revelou) – já tinha a ver com a candidatura que viria. Trump faz um Archie Bunker plutocrático.

O que a vasta maioria das pessoas não compreendeu quando Trump desceu daquele elevador e anunciou que seria candidato à presidência, nem nas primeiras semanas da candidatura, quando tantos o davam por cachorro morto e "um palhaço", é que Trump é homem de visão de longo prazo. New York conhece muitos empreiteiros e construtores muito ricos, mas nenhum dos outros é celebridade. Na verdade, foi quando seu negócio estava empacando, no início dos idos anos 1990, que Trump redirecionou o próprio foco: de construir prédios, para se construir como marca comercial e se vender. Muitos, em vários estados, mostraram-se excitados pelo espetáculo do seu fantástico avião (com fivelas de ouro nos cintos de segurança), o nome do dono estampado na fuselagem, zunindo dos céus num pouso impressionante. Seja qual for o grau de narcisismo que haja por trás do movimento, a coisa de colar o próprio nome a tudo em que consiga pôr as mãos já tinha objetivo propósito político e econômico de longo prazo. Trump é a primeira marca comercial que concorre à presidência dos Estados Unidos.

Já em 2000, em uma entrevista com Bob Guccione Jr., Trump aplaudiu o fato de que figuras na cultura da celebridade - atletas, estrelas de cinema e empresários - serem consideradas para o cargo público. Ele atacou "os hipócritas [que] argumentam que um homem que ama e aprecia mulheres bonitas ... não deve se tornar um líder nacional." Ele disse, então, que ele acreditava que um cidadão político "é suficientemente inteligente e talentoso o suficiente para liderar este grande país", e ele concluiu: "Se as coisas correrem bem, eu vou ter a oportunidade de demonstrar esse fato ".

Trump também foi bem-sucedido na tarefa de fazer de seus adversários simples marcas. É homem que sabe fazer isso: tome um ponto fraco bem visível, dê-lhe um nome e repita, repita, repita infindavelmente. Já a caminho do fim das primárias, os públicos que o ovacionavam cantavam "Lyin’ Ted"; e em pouco tempo, já cantavam "Crooked Hillary". Trump testou "Incompetent Hillary" durante algum tempo, mas acabou por optar pelo apelido mais direto e mais agressivo. Que eu saiba, nenhum candidato presidencial anterior fez isso.

O slogan da campanha de Trump, "Make America Great Again", nasceu da mente de caixeiro viajante de talento: e o slogan foi conectado não a capacetes de baseball, mas a bonés de caminhoneiros. Alguém sabe qual o slogan de Hillary Clinton? Clinton vê as complexidades do mundo; não tem mentalidade de coladora de adesivos em para-brisas. Trump é simplificador máster – talento muito útil na política. (JFK, que compreendia as complexidades, nem por isso abriu mão de um slogan na campanha de 1960, "Get This Country Moving Again". A mensagem de Trump é mais sofisticada do que parece: pega precisamente no que seus eleitores ressentem e lastimam: que os EUA escorregaram economicamente, militarmente. Diz "Nós não podemos derrotar o ISIS;" afirma que outros países "não nos respeitam". Muitos republicanos pintam Obama como ambicioso insaciável de poder e, simultaneamente, como bunda-mole.

O homem antes dado a todos os excessos, apresenta-se hoje como homem de família pacificado, e o amor que manifesta pelos filhos não pode ser fingido. Trump não fuma, não bebe, não é dado a drogas e criou os filhos para não desejar qualquer aproximação com tudo isso. É estranhamente formal. Recentemente, foi forçado a falar sobre uma saída de Hillary Clinton de um dos debates, para ir ao toalete, mas achou a pergunta "horrível" – palavra que usa frequentemente, pronunciando-a "harroble." É Trump, o conhecido germanófobo.

Além do mais, há o modo como lida com a religião. Desde cedo Trump acompanha Jerry Falwell Jr., e falou na Liberty University: "2 Coríntios, 3:17. Isso é tudo no jogo". Durante algum tempo, brandia a Bíblia da família. A gente que Trump atraía havia ouvido as palestras de Falwell e as notícias do canal Fox News, segundo as quais a cristandade estaria sendo atacada. E Trump repetiu, na noite da sua vitória em Indiana – estado com substancial comunidade Evangélica – o que dissera antes, no início da campanha: "Voltaremos a dizer Feliz Natal outra vez." Os liberais podem se perguntar, por que ele está dizendo uma coisa boba como essa? Mas Trump compreende que muitos de seus potenciais seguidores foram realmente tocados pela ideia de que o Natal estaria realmente em perigo: afinal, houve todas aquelas batalhas judiciais, sobre se seria possível instalar presépios em propriedade do governo.

Durante as disputas pela indicação, o estado menos natural de Trump era quando tentava dar-se ares "presidenciais" – como no discurso sobre política externa no Hotel Mayflower em Washington, dia 27 de abril. Foi como se estivesse metido num terno apertado. Trump reclama do tratamento que recebe da mídia, mas além de lhe garantir muito tempo no ar durante as disputas pela indicação (em que se disputam números de pesquisas), várias vezes a mídia nos EUA fez o que Trump queria que fizesse, como nesse caso. (Pelo menos, deu-se pouca atenção ao fato de que naquele discurso pela primeira vez Trump usou um teleprompter – não muito bem, mas tudo se aprende.) O discurso sobre política externa foi, como tantos desse gênero, documento de campanha, embora visasse também à elite da política externa. (O embaixador da Rússia sentou-se na primeira fila; Trump e Vladimir Putin andam flertando.) Não é claro se Trump estava ciente das implicações de seu tema "America First"- de herança Lindbergiana, isolacionista, anti-semita.

O discurso foi elogiado por jornalistas e comentaristas políticos conservadores, por incluir a demanda de que aliados como Japão, Coreia do Sul e Alemanha passassem a pagar pela própria defesa, em vez de depender completamente de serem socorridos pelos EUA – ideia que sempre recebe aplausos entusiásticos. A coisa foi vista como esperteza política. Verdade é que todos esses países pagam – e pesadamente – para manter as tropas dos EUA ou, como no caso do Japão, para manter uma frota e uma base naval. Trump conseguiu o feito político de convencer seus ouvintes de que ele aumentaria consideravelmente a capacidade militar dos EUA, mas resistiria o mais possível a usá-la.

Pouca gente percebeu que Trump continuou a brincar com sentimentos antimuçulmanos, culpando as nossas políticas de imigração "sem sentido", pelo suposto influxo para o país de grande número de praticantes do "Islã radical". Abandonou algumas de suas propostas mais selvagens, mais violentas dos primeiros tempos: proibição temporária contra a entrada de muçulmanos nos EUA; que Coreia do Sul e Japão fossem autorizados a construir bombas atômicas; ou que métodos ilegais de tortura "além" até da simulação de afogamento, fosse reinstituídos. Numa entrevista a Lester Holt, da NBC, um dia depois de ter se tornado "indicado presuntivo", Trump voltou à ideia da proibição de muçulmanos – ideia que fora apoiada por 60% dos republicanos em todos os estados onde houve pesquisas sobre essa questão – e à ideia de deportar 11 milhões de imigrantes sem documentos. Um dos mitos que Trump continua a perpetuar, com praticamente nenhuma crítica pelos jornalistas, é que ele se opôs à guerra do Iraque. Até que criticou, depois que as coisas já iam muito mal, mas há várias declarações gravadas em que se declara favorável à invasão do Iraque naquele momento.

Depois do desajeitado discurso formal sobre política externa, Trump rapidamente voltou ao personagem inicial. De fato, reclamou de citações que vazaram de uma reunião de seu veterano conselheiro político Paul Manafort com o Comitê Nacional Republicano, na qual, revelando o impressionante cinismo da campanha de Trump, Manafort dissera que o comportamento aparentemente descontrolado nos comícios significava apenas que o candidato representava "um papel", que o Trump real privado tinha outra personalidade. Manafort disse "Os negativos vão cair, a imagem vai ser modificada" – e acrescentou: "mas Clinton continuará a ser Hilary Escroque." Embora haja alguma verdade no que disse Manafort, Trump não poderia deixar que transparecesse a ideia de que estaria aplicando uma espécie de golpe em seus seguidores, ou de que se deixava manipular por assessores de campanha. A rotina de gritaria, afinal de contas, sempre fora a base de seu sucesso.

Mas, em seguida, na noite da primária de Indiana, o Trump que por lá apareceu para discursar de improviso na Trump Tower estava calmo e cheio de graça – prova de que sua persona Archie Bunker era mesmo artificial. Falou em tom especialmente conciliatório com Cruz, cuja retirada inesperada da disputa, um pouco antes do previsto, acabou por carimbar, embora ainda não oficialmente, a indicação de Trump. Elogiou Cruz como "competidor duro" e "sujeito esperto, durão". Ted Mentiroso já se aposentara, por ter perdido a serventia. Trump não é político profissional, mas é homem habituado a negociações duras, que evoluem para calorosos apertos de mão, quando o negócio é fechado. Ele terá de decidir-se, para as eleições gerais que agora com certeza já se aproximam: fará o personagem lutador elegante, ou brigador-de-rua, durão e sujo? Ou poderá ainda dar jeito de ser os dois? Eu não descartaria essa terceira via. No discurso em Indiana, Trump evoluiu de uma posição positiva, de figura diplomática, para bater muito duro em Clinton: "Ela não vai ser um boa presidente. Ela vai ser um presidente fraca. Ela não entende o comércio."

Não há dúvidas de que Clinton deve esperar tratamento de máxima violenta, de Trump, em todos os assuntos, desde as infidelidades conjugais de Bill Clinton (com Hillary apresentada como a "facilitadora"), até a questão de ela usar seu próprio servidor doméstico para expedir e receber e-mails durante os anos de secretária de Estado. Clinton nem precisará ser indiciada – o que grande número de observadores preveem que não acontecerá, porque o procurador teria de provar a "intenção" de violar a lei – para que Trump parta para cima dela com todas as armas, para um tudo ou nada. Tudo sugere que a questão do servidor realmente feriu Clinton durante a disputa pela indicação, e que é parte do que levou números crescentes de participantes de pesquisas, mesmo entre os democratas, a declará-la "não confiável".

Trump pode também sacudir de outro modo as atuais decisões de voto para a eleição geral: pode remodelar o mapa eleitoral. Na noite da primária em Indiana, Politico publicou matéria sobre o longo, cuidadoso planejamento na campanha de Clinton, nos "estados oscilantes" – Florida, Virginia, Colorado, Nevada. Mas já há notícias de que Trump trabalhará para reverter as vantagens que se veem recentemente, pró-Democratas, em estado industriais como Michigan, Illinois, Ohio e Pennsylvania – estados nos quais Obama venceu em 2008 e 2012. Esses estados sofreram muito em termos econômicos; Trump portanto cuidará de fazer-se sedutor para eleitores das classes trabalhadoras. Já se ouviu que a campanha de Trump estaria atrasada na montagem da infraestrutura local em estados eleitoralmente importantes, que podem fazer mais diferença na eleição nacional do que nas primárias e caucuses.

Os governadores e senadores supostos invencíveis que concorreram contra Trump na disputa pela indicação não se comprovaram candidatos fortes. Ted Cruz sempre foi, de longe, o mais bem organizado dentre os opositores de Trump dentro do Partido Republicano, e sua campanha técnica foi muito elogiada por observadores políticos. Mas o que se viu foi que o jogo de campo organizado pelo coordenador de campanha de Cruz revelou-se muito mais efetivo que o candidato, que só interessou à ala mais conservadora do partido. Para piorar, Cruz mostrou-se sombrio e pomposo: não falava, declamava, com pausas dramáticas entre as frases. A retórica de Cruz era de chamas e enxofre; e Trump oferecia entretenimento. Cruz poderia ter se mostrado um Savonarola, mas ao escolher Carly Fiorina para compor a chapa – a candidata, provavelmente, mais detestada – ele se tornou uma figura cômica.

Por mais que Trump goste de declarar que não seria "um político", e use a frase como bandeira, no dia da primária de Indiana, mostrou que pode ser maleável pragmático como o mais político dos políticos profissionais. O que começou como dia extraído de Crepúsculo dos Deuses – com Trump fazendo referência a matéria de National Enquirer, que dizia que o pai de Cruz teria sido parceiro de Lee Harvey Oswald, e Cruz chamando Trump de "mentiroso patológico" e relembrando a luta que Trump confessara contra uma doença venérea ("meu Vietnã pessoal") – terminou com Cruz abandonando a disputa e discurso de Trump, vitorioso, elogiando o ex-adversário. A retirada de Cruz deixou Kasich, que só conseguiu vencer em seu estado natal, Ohio, sem escolha, exceto também se retirar. Kasich chegou a sonhar com ser o indicado da convenção, e teria qualificações para ser adversário considerável, mas fracassou como candidato – nunca teve a presença cênica de comando, que os americanos esperam do presidente. O establishment republicano, inclusive os doadores, não lhe viram capacidades para derrotar Trump.

É preciso levar em conta também a vitória de Bernie Sanders sobre Clinton em Indiana, que já fora sugerida, se não abertamente prevista. Gerou dia muito ruim para Clinton, que fazia campanha em Ohio e não fez declarações de campanha naquela noite, como tradicionalmente. Em vez dela, John Podesta, coordenador de sua campanha, distribuiu release em que dizia que "Donald Trump trabalha para dividir os americanos. Hillary Clinton nos unirá, para criar uma economia que ajudará todos." Nada exatamente muito entusiasmado.

A dor de cabeça de Clinton agora é que, por mais que ela deseje concentrar-se em espancar Trump, Sanders recusa-se a deixar a disputa, mesmo sabendo que já é matematicamente impossível derrotar a concorrente, porque já não conseguirá o número necessário de delegados comuns. (Em 2008, Clinton não abandonou a campanha; mas a situação dela, naquele momento, era mais forte que a de Sanders hoje.) Agora, Sanders considera a possibilidade de permanecer na disputa, sob o argumento de que a "convenção será contestada". Sanders chegou a essa estranha hipótese, depois de afirmar que os superdelegados, a vasta maioria dos quais já declararam que votarão em Clinton, mudarão de ideia, por causa das inúmeras vitórias de Sanders. Talvez, na paixão do momento, Sanders realmente acredite nessa possibilidade. Apesar de Sanders já ter forçado Clinton a curvar-se em direção às propostas dele, ele ainda quer que a plataforma do partido inclua propostas que ela não poderá aceitar – por exemplo, atendimento público universal à saúde em substituição ao Obamacare. Clinton talvez enfrente, sim, uma convenção difícil.

O mesmo vale para Trump. Na noite da primária de Indiana, o Comitê Nacional Republicano ergueu bandeira branca, mas já não é possível esconder a agonia dentro do partido. Alguns Republicanos apresentaram-se para apoiar Trump – ou, no mínimo, suspenderam as críticas públicas – outros, especialmente senadores candidatos a reeleição, entraram em surto contorcionista, alguns já declarando que o apoiarão, sem declarações públicas. Alguns Republicanos de destaque, inclusive os dois presidentes Bush, optaram por manter-se em silêncio. O presidente da Câmara de Deputados Paul Ryan, que tem diferenças políticas profundas com Trump e cujas tropas podem ficar ameaçadas se Trump obtiver a indicação do Partido, disse que "não se sente pronto" para declarar apoio a Trump. Vários nomes a considerar para a vice-presidência já começaram a escalada. O super advogado e há muito tempo conselheiro dos Republicanos, Ben Ginsberg, alertou, pela MSNBC, na noite da primária de Indiana, que ainda há várias "armadilhas" no caminho de Trump até a convenção. Muito dependerá de como Trump lidará com Cruz, o qual, ao deixar a campanha, abraçou a retórica do candidato de uma causa: falou da própria campanha como "um movimento" – e a semelhança com o discurso de Bernie Sanders foi claramente visível. – "Estamos suspendendo nossa campanha, mas não estou suspendendo nossa luta pela liberdade." Dia seguinte, em resposta a uma pergunta, Trump deixou cair uma insinuação de que poderia convidar Cruz para concorrer como seu vice-presidente. Resposta esperta e prudente.

Ainda que Cruz seja seduzido na convenção, não significa que a base do partido também o seja – delegados conservadores que têm longa experiência de participar desse tipo de convenção. Ginsberg disse que só ¼ dos delegados são realmente escolhidos pelos candidatos – o que significa que a base pode operar como força por ela mesma, indiferente ao que tenha acontecido nas primárias. Trump não é ser do mesmo planeta que eles – disso não cabe dúvidas. E algumas das crenças de Trump soam como heresia para muitos republicanos: a declarada oposição de Trump aos acordos comerciais vigentes; a confessada oposição ao uso de força militar; a oposição a qualquer corte de aposentadorias; e o fato de ser homem de temperamento moderado sobre questões sociais. (Por exemplo, a resposta pragmática de Trump à questão que os conservadores puseram-se repentinamente a discutir, sobre que sanitário podem ser usados por pessoas transgêneros: "Qual é o problema?".)

Sem dúvida, o novo desafio diante de Trump é muito mais impressionante que tudo o que ele já enfrentou. Não só terá de lidar com território muito mais amplo, mas também, embora sua campanha até a indicação não tenha sido autofinanciada como Trump sempre diz, levantar dinheiro para a eleição geral é operação em escala absolutamente diferente.

Mas não há nenhum quadro de referência para o que está por vir. A nação está em um passeio selvagem.

Elizabeth Drew é autora de quatorze livros, incluindo Washington Journal: Reporting Watergate e Richard Nixon’s Downfall, que foi ampliado e reeditado em 2014.

5 de maio de 2016

Por que as elites odeiam Trump

Batalhas sobre a candidatura de Trump revelam as tensões subjacentes ao projeto capitalista global liderado pelos Estados Unidos.

Nicole M. Aschoff


Donald Trump em Las Vegas, Nevada em fevereiro de 2016. Gage Skidmore / Flickr

Tradução / Cruz e Kasich estão fora. O Donald está dentro. A brigada #NeverTrump, estratégia de dividir e conquistar hesitante do Partido Republicano, e os próprios erros retóricos aparentemente intermináveis ​​de Trump simplesmente não foram o suficiente para impedi-lo.

Até agora, apenas as garantias calmas de especialistas de que Trump não pode ganhar em novembro parecem estar protelando um colapso.

Comentaristas ocupam-se sem parar com detonar uma a uma as razões para algum inimaginável sucesso de Trump. Mas, além do perturbador apetite que os eleitores republicanos manifestam pelo impulso racista, xenófobo, misógino de Trump, estão em ação aí também outros fenômenos.

Nate Cohn, do New York Times lista o grande número de candidatos Republicanos (17); o comportamento estranho de Republicanos nos estados tradicionalmente azuis; a cobertura ininterrupta da mídia; e o fracasso da elite do establishment Republicano, que absolutamente não conseguiu agir como partido organizado e não se uniu contra Trump.

Christopher R. Barron nota, com sensibilidade, que dados de pesquisa das primárias mostram que os Republicanos estão irritados com a prática, que já se converteu em tradição, de o partido deles sempre acabar por trair os valores conservadores.

E Thomas Frank fez belo trabalho, ao fazer ver aos liberais enrustidos que Trump realmente fala de coisas que realmente dizem respeito aos trabalhadores norte-americanos, como os tratados de livre comércio que destroem empregos nos EUA; e o medo – que já tem raízes fundas –, de que a boa-vida (pelo menos, a boa-vida dos trabalhadores brancos) já é passado remoto nos EUA.

Mas uma pergunta diferente vale a pena ser feita: por que a elite americana está tão aterrorizada com uma presidência Trump?

Todas as pesquisas põem os milionários firmemente plantados no Campo Hillary. E como Corey Robin discutiu ontem (e Doug Henwood documentou), os Republicanos estão tão furiosos com Trump que já estão pulando do navio ou, pelo menos, já ameaçam pular.

Alguns, como o ex-governador de New Jersey Christie Whitman, dizem que votarão em Clinton; outros, como o governador de Massachusetts Charlie Baker, declararam quarentena contra as duas casas. Charles Koch manifestou profundo incômodo contra a candidatura de Trump, a qual, para ele "destruirá a sociedade livre".

Mas será que as ideias de Trump – uma muralha estratosférica ao longo da fronteira EUA-México, seus planos para cadastrar todos os muçulmanos, a propensão a desmoralizar e ofender as mulheres – seriam realmente excessivas, para a sensibilidade republicana?

Possivelmente. Mas o muro na fronteira - na realidade e na ideia - não é nova; remonta pelo menos a Nixon, e foi expandida enormemente após o NAFTA. Imigrantes e estudantes muçulmanos (incluindo os não-muçulmanos vindos de países predominantemente muçulmanos como Bangladesh) já foram forçados a se registrar com Homeland Security após o 9/11. E enquanto a franqueza de Trump pode constranger a multidão jet-set, muitos de seus pontos de vista são amplamente compartilhados por outros da elite norte-americana.

O que se vê contudo é que tampouco os embaraços conseguem explicar o desdém que Trump recebe do establishment. A chave de todo esse incontrolável Terror de Trump pode estar em outros dos itens da campanha eleitoral do candidato.

Como Thomas Frank apontou há meses, Trump e Bernie Sanders são os únicos dois candidatos a falar seriamente e regularmente sobre acordos de livre comércio e a perda de postos de trabalho associada a eles.

Trump chama o acordo NAFTA de "o pior tratado comercial de todos os tempos" e prometeu "consequências graves" contra empresas que mudem suas fábricas para outros países, mas continuem aproveitando as vantagens do mercado norte-americano.

E advoga confronto direto com a China, a ser "imediatamente declarada manipuladora de moedas"; e quer "reforçar a presença militar dos EUA nos mares do Sul e do Leste da China, para desencorajar o aventureirismo chinês".

Há mais. Em recente "discurso sobre a política exterior", Trump expôs um papel muito diferente para os EUA no cenário global. Condenou os desaforos que os EUA têm recebido no exterior – em visitas a Cuba e à Arábia Saudita, Obama não foi recebido na saída do avião pelos líderes principais; os EUA perderam a disputa para ser sede dos Jogos Olímpicos, apesar de Obama ter ido pessoalmente a Copenhagen; e a "lista de humilhações continua e continua".

Tem mais. Em seu recente "discurso sobre política externa" Trump expôs um papel muito diferente para os Estados Unidos no cenário mundial. Ele condenou os desaforos que ele diz que os EUA tem experimentado no exterior - em visitas a Cuba e Arábia Saudita Obama não foi recebido na chegada por líderes dos países; a candidatura olímpica dos Estados Unidos falhou apesar de uma visita pessoal de Obama a Copenhague; e a "lista de humilhação continua e continua."

Segundo Trump, tudo começou a cair ladeira abaixo depois que o país venceu a Guerra Fria. Para fazer que os EUA voltem à grandeza de antes, é preciso focar nos próprios EUA – e usar todos os meios necessários para garantir-lhe poder e honra.

De acordo com Trump, tudo foi por água abaixo depois que ganhamos a Guerra Fria. Para tornar a América grande outra vez temos de nos concentrar no número um - América - e usar todos os meios necessários para assegurar o nosso poder e orgulho.

Claro, Trump não é o único candidato a optar pela via de desqualificar a China ou lamentar a atual situação geopolítica. Mas quando quem o faz é gente como Hillary Clinton ou Marco Rubio, são só piscadelas, acenos. Eles são iniciados. Eles são previsíveis. A elite do poder sabe onde suas lealdades se encontram.

Também se sabe, mais ou menos, onde estão as alianças de Trump. Quer preservar o seu dinheiro e fazê-lo render (um de seus planos é o de reduzir a taxa de imposto sobre as corporações.) Mas ele é um outsider – um outsider bilionário, mas um outsider, no entanto.

É imprevisível e parece não se preocupar com queimar pontes. Quando fala de romper acordos comerciais e de despachar aliados na OTAN, deixa o establishment nervoso.

Todos ali levam a sério essas ameaças, porque Trump é atirador solitário – e atirador solitário que já teria sido varrido do mapa se as coisas tivessem andando como andam normalmente.

As elites se consolam com o fato de que Trump não conseguirá fazer tudo que ostensivamente quer fazer. Mas mesmo assim se sobrassaltam, porque Trump terá muito mais poder como presidente do que ensinam os livros de Educação Moral e Cívica para a quinta série nos EUA.

Acadêmicos como Nitsan Chorev e outros já mostraram que decisões de política internacional e de política econômica nacional foram aos poucos, nos últimos setenta anos, transferidas do Congresso para o Executivo.

E por mais que Trump esteja certo na avaliação de que a política exterior dos EUA é "completo e total desastre", o papel de Washington é muito maior do que suas ações de construção da nação e diplomacia.

O híbrido Tesouro dos EUA-Federal Reserve tem a função de superintendente da economia global – e desde o final da II Guerra Mundial. Faz a gestão (com a ajuda das elites globais) de uma estrutura internacional de comércio, regulação e lucratividade que subjaz a toda a economia global. O capitalismo global carece de um estado para assegurar as estruturas e fazer valer as leis e regras que tornam possível a acumulação capitalista. O híbrido Tesouro dos EUA-Federal Reserve fazem esse papel.

Onde Trump vê fracasso na trajetória do pós-Guerra Fria, o capital norte-americanos e respectivos políticos eleitos – pelo menos até recentemente – veem sucesso. Veem um projeto neoliberal vitorioso que restabeleceu o poder do big business à custa da classe trabalhadora, tanto nos EUA como em outros países, e construiu novas estruturas de integração global, e construir novas estruturas de integração global, subjugando mais e mais países às prerrogativas do capital.

E veem essas estruturas se solidificarem e aprofundarem-se no futuro, com projetos como a Parceria Trans-Pacífico e a Parceria Trans-Atlântico para Comércio e Investimento.

Por isso a irreverência e os ataques de Trump contra elementos centrais desse projeto é tão insuportável para eles. A atitude de Trump põe em risco todas as estruturas e práticas e normas que sustentam os negócios de sempre para o capital global.

Mas, por mais que seja alarmante para as elites, o tom bombástico de Trump contra o livre-comércio não é surpresa. Não é de hoje que cresce o ceticismo quanto ao papel dos EUA na gestão de toda a economia global.

O capitalismo global torna-se mais volátil a cada instante; como Sam Gindin e Leo Panitch dizem, ultimamente o principal serviço do Fed-Tesouro parece ser fazer o serviço de limpeza. Houve 72 crises financeiras em países de baixa e média renda, só na década de 1990.

Os EUA ajudaram a gerir todas elas, seja mediante empréstimos-ponte silenciosos, pela porta dos fundos, ou à luz do sol, mediante o Fundo Monetário Internacional, FMI. E a crise financeira de 2008 alcançou o ápice: custou trilhões, até amainar. Mas até aí, o custo dessa contenção é meramente pecuniário.

Mas o custo de contenção não é meramente pecuniário. A candidatura Trump destaca a tensão palpável entre a responsabilidade do Estado dos EUA para com a sua própria população soberana e suas funções em supervisionar a economia global.

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