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4 de agosto de 2026

O argumento marxista a favor da hipótese do tecnofeudalismo

Yanis Varoufakis classificou o poder desmedido das Big Techs de moldar a economia moderna como "tecnofeudalismo". Em artigo para a Jacobin, ele argumenta que não se trata de uma crítica moral, mas de uma análise baseada na dinâmica atual de acumulação de capital.

Yanis Varoufakis

Jacobin

Alguns críticos da ideia de Yanis Varoufakis sobre um controle "tecnofeudal" opressor argumentam que ela idealiza formas passadas de capitalismo. Ele sustenta que essa crítica é equivocada. (Nicolas Economou / NurPhoto via Getty Images)

Quando o meu livro Tecnofeudalismo foi publicado em 2023, não imaginava que gente como Steve Bannon o abraçaria. No entanto, eu tinha previsto plenamente uma enxurrada de críticas por parte de pensadores marxistas, especialmente em resposta ao provocativo subtítulo do livro (What Killed Capitalism). Cabe-me agora apresentar a defesa marxista da hipótese tecnofeudal, que, embora escrita para um público mais amplo, era marxista na sua concepção.

O próprio método de Karl Marx procurou contornar a censura moralista da propensão do capitalismo para a injustiça, o monopólio e a vulgaridade. Em vez disso, estudou o capitalismo na sua forma mais pura: como um sistema de mercado anárquico impulsionado por uma força estranha – o capital – que procura a sua própria proliferação, uma tarefa que exige a mercantilização de tudo e uma luta de classes viciosa pela mais-valia. Qualquer análise que pretenda continuar o trabalho de Marx deve fazer o mesmo.

Hoje, afirmo, uma mutação do capital ganhou uma força excessiva. Chamo-lhe capital na nuvem: uma rede de máquinas notáveis ​​que não produzem mercadorias, mas geram enormes poderes de extracção de renda ao interagirem directamente connosco, fora de qualquer coisa que possa ser utilmente chamada de mercado. Estudar esta nova forma de capital deveria ser responsabilidade de todo marxista.

Antes de focar no capital da nuvem, é importante esclarecer três mal-entendidos comuns. Primeiro, não, não vamos regressar ao feudalismo. A história não está retrocedendo. Impulsionados pela acumulação desenfreada de capital, estamos a avançar para um modo socioeconómico totalmente novo. De acordo com a hipótese tecnofeudal, o capital é mais dominante do que nunca. A riqueza cresce exponencialmente a partir de investimentos gigantescos em máquinas dinâmicas, e não em ativos estáticos. Alphabet, Microsoft, Meta e Apple são tão impiedosamente capitalistas como Edison e Ford alguma vez foram. Assim, o termo “tecnofeudal” não denota nenhuma regressão literal, mas antes traça uma analogia com o poder extractivo praticado fora dos mercados.

A história não está retrocedendo. Impulsionados por uma acumulação desenfreada de capital, avançamos em ritmo acelerado rumo a um modo socioeconômico totalmente novo.

Em segundo lugar, as rendas não são novidade no capitalismo. O capitalismo jamais existiu na forma pura descrita pela economia convencional. Assim como nossos corpos precisam de DNA residual de réptil, o capitalismo precisou de vestígios do feudalismo para funcionar. David Ricardo alertou que a renda da terra cresceria perigosamente — e foi o que aconteceu. Paul Baran e Paul Sweezy demonstraram que o excedente monopolista era uma forma de renda. Desde a década de 1970, a financeirização enxertou rendas financeiras vultosas sobre as formas já existentes. Portanto, a mera proliferação de rendas não oferece evidências de que o capitalismo esteja evoluindo para algo diferente. Para que tal afirmação seja plausível, é preciso haver provas de uma mudança qualitativa no próprio capital.

Em terceiro lugar, os dados não são a nova terra. A crença de que nossos dados roubados se tornaram a nova propriedade feudal é uma forma de "fetichismo dos dados" que os marxistas devem rejeitar. O "capitalismo de vigilância" não constitui uma mudança qualitativa no sistema capitalista, uma vez que uma legislação que nos concedesse direitos de propriedade sobre nossos dados eliminaria quaisquer rendas extraídas por meio de sua coleta furtiva. A verdadeira novidade reside em outro ponto: na maneira como o capital em nuvem utiliza os dados para modificar diretamente nosso comportamento e nos "transportar" para fora de qualquer coisa que se assemelhe a um mercado capitalista.

Em suma, a hipótese do tecnofeudalismo gira em torno da noção de capital em nuvem. Para compreender sua natureza, precisamos partir da definição de Marx de mercadorias como bens ou serviços produzidos para troca no mercado; de bens de capital como meios de produção de mercadorias (MPM); e de mercados como esferas descentralizadas de circulação onde valores do trabalho se transformam em dinheiro e mais-valias se convertem em lucros, rendas e juros.

Mudando nosso comportamento

As máquinas do Google são bens de capital convencionais do tipo PMCP ou capital em nuvem? A resposta é: depende! Quando o Google cobra de você por um filme no YouTube, ele vende uma mercadoria — caso em que suas máquinas funcionam como PMCP padrão. No entanto, quando as máquinas do Google lhe oferecem um resultado de busca gratuito ou direções em um mapa, elas funcionam como capital em nuvem: máquinas baseadas na nuvem que não produzem mercadorias, mas estabelecem uma relação com você para modificar seu comportamento. Isso é algo que nenhuma máquina conseguia fazer até pouco tempo atrás.

Mas como o capital em nuvem modifica nosso comportamento? Ao nos envolver em um diálogo individual, bidirecional e em tempo real. Considere a Alexa, da Amazon. Ela treina você para treiná-la a conhecer suas preferências, de modo a realizar tarefas para você, oferecer bons conselhos e, assim, conquistar sua confiança. Então, um dia, quando sua cafeteira pifa, ela sugere que você compre um modelo específico. Você clica em "comprar". O que acabou de acontecer? O capital em nuvem vendeu a você uma mercadoria na qual não teve participação na produção, e seu proprietário, Jeff Bezos, embolsou até 40% do preço como renda da nuvem — uma forma de renda absoluta.

Evidentemente, essas máquinas não são bens de capital convencionais (PMCP). Elas cruzaram o Rubicão rumo ao que chamo de "meios de modificação comportamental produzidos" (PMBM) — ou capital em nuvem. Fascinantemente, o capital em nuvem é, no sentido técnico de Marx, improdutivo (pois não produz mercadorias), mas imensamente poderoso; seu novo poder social estende-se sobre consumidores, trabalhadores assalariados e produtores capitalistas convencionais. Nesse processo, o capital em nuvem substitui mercados por algo que chamo de feudos em nuvem, como a Amazon.com.

Por que a Amazon.com não se parece em nada com um mercado? Lembre-se do Gosplan, o ministério de planejamento soviético. Ele também oferecia um sistema algorítmico de cima para baixo que conectava compradores e vendedores. Aquilo não era um mercado — era o seu oposto. A Amazon é semelhante: um sistema de alocação centralmente planejado. Ninguém interage com ninguém a menos que o algoritmo os conecte. Dado que, ao contrário do Gosplan, a Amazon é de propriedade privada, ela é melhor definida como um feudo em nuvem, e não como um mercado capitalista.

Considere a Instacart. Ela pratica a "otimização perfeita de preços" — cada cliente recebe um preço único e incomparável. Assim, a concorrência de preços torna-se impossível. Varejistas e plataformas podem conspirar de maneiras imperceptíveis a olho nu. O sistema foi projetado para atuar como um agente invisível de dissolução das características fundamentais de um mecanismo de mercado.

Considere a Uber. Sim, ela parece uma revendedora monopolista da força de trabalho dos motoristas. Mas a Uber também monitora as obrigações de dívida deles. Ela oferece tarifas mais altas e empréstimos para a atualização dos veículos a motoristas relutantes, reduzindo depois as taxas de pagamento assim que eles estão presos ao sistema. A ShiftMed faz o mesmo com enfermeiros — oferecendo taxas mais baixas pouco antes do vencimento do aluguel. Trata-se de um despotismo algorítmico extramercado, e não de um mercado de trabalho capitalista no qual, como Marx hipotetizou, os salários refletem o valor do trabalho incorporado nos bens de consumo que os trabalhadores adquirem.

E aqui está outra percepção que os marxistas precisam assimilar: pela primeira vez, o trabalho livre ajuda uma variante do capital a ampliar seu poder de modificar o comportamento de todos em benefício de seus proprietários. Ao contrário do capital convencional, que é produzido apenas pelo trabalho assalariado, o trabalho livre em massa ajuda o capital em nuvem a se acumular. A cada vídeo que postamos, a cada avaliação que fazemos, a cada quilômetro que percorremos, a cada compra que realizamos, nós incrementamos o capital em nuvem e elevamos os nossos próprios custos de saída. Podemos abandonar uma plataforma, sim. Mas o custo de sair aumenta a cada clique. A liberdade formal mascara a falta de liberdade real. Esse é o diagnóstico marxista clássico, aplicado à era do capital em nuvem.

A cada vídeo que publicamos, a cada avaliação que fazemos, a cada quilômetro que percorremos, a cada compra que realizamos — ampliamos o capital na nuvem e elevamos nossos próprios custos de desistência.

“Mas as plataformas não estão competindo ferozmente entre si?”, muitos perguntam. “Os confrontos entre elas não são prova de uma competição de mercado implacável?” Não, não são. A competição de mercado baseia-se em preço e qualidade e desenrola-se em mercados descentralizados. A rivalidade econômica, em contrapartida — do tipo que vemos hoje nos embates entre TikTok e Instagram, Uber e Lyft, etc. —, é um jogo de soma zero, de natureza territorial, que coloca um feudo de nuvem totalmente centralizado contra outro. Ao contrário da disputa de mercado entre, digamos, Toyota e General Motors, as plataformas competem para nos aprisionar em seus esquemas centralizados de transação, e não para nos oferecer preços mais baixos ou maior qualidade.

E quanto aos YouTubers e influenciadores de sucesso? Eles trabalham duro e alguns ganham bem. Eles não seriam empreendedores? De uma perspectiva marxista, não. O trabalho deles não produz novo valor de troca nem capital produtivo (o próprio capital de nuvem é improdutivo). Ele gera apenas valor de uso e ajuda a atrair usuários não remunerados, mas não cria mais-valia. Nesse sentido, os influenciadores não são capitalistas, mas sim uma camada privilegiada e bem remunerada de servos da nuvem; seus altos rendimentos ocultam a condição geral: a maioria de nós trabalhando sem remuneração para aumentar o poder do capital de nuvem sobre nós.

Agora, passemos à macroeconomia. Marx demonstrou que o impulso de acumulação do capitalismo gera ciclos econômicos e uma tendência de queda da taxa de lucro a longo prazo. No artigo mais extenso, estendi essa análise para incluir o capital de nuvem. Com base na adaptação de Richard Goodwin de um modelo presa-predador, a análise demonstra a relação dinâmica entre o setor produtivo da economia — onde todo valor é criado utilizando capital convencional e trabalho assalariado — e o setor tecnofeudal, onde são extraídas as rendas da nuvem. Surgem quatro fases.

Inicialmente, o setor tecnofeudal cresce à custa do setor produtivo. Em seguida, quando a extração de renda da nuvem ultrapassa um certo patamar, o capital produtivo volta a se acumular e ambos os setores crescem. Uma terceira fase tem início quando, à medida que a taxa de lucro supera outro limite, ocorre uma superacumulação de capital de nuvem e sua capacidade de extrair renda diminui. Por fim, na quarta fase, tanto a taxa de lucro quanto a taxa de extração de renda da nuvem entram em declínio.

A hipótese do tecnofeudalismo generaliza a teoria de Karl Marx sobre a queda da taxa de lucro para um mundo com capital em nuvem, reafirmando o argumento marxista em favor do socialismo como a única alternativa ao colapso do sistema e da sociedade.

A longo prazo, à medida que o capital da nuvem se acumula e o trabalho não remunerado substitui cada vez mais o trabalho assalariado no departamento tecnofeudal, os próprios limiares diminuem e o sistema tende para um colapso tanto das taxas de lucro como das taxas de extracção de rendas da nuvem. Assim, a hipótese tecnofeudal generaliza a queda da taxa de lucro de Marx para um mundo com capital na nuvem, reafirmando a defesa marxista do socialismo como a única alternativa ao fracasso do sistema e ao colapso social.

Resposta à crise

Desde que o meu Tecnofeudalismo foi publicado, a inteligência artificial tornou-se na moda. O capital da nuvem não precisava da IA ​​para surgir – algoritmos de aprendizagem por reforço construíram os primeiros feudos da nuvem. Mas a IA aumenta enormemente o poder do capital da nuvem. Os bots alimentados por IA em breve nos conhecerão perfeitamente, falarão conosco como humanos e cultivarão dependência emocional. Mudar de plataforma será semelhante a um divórcio doloroso. Isto cria o que chamo de “relações sociais artificiais de consumo (ASRC)”, que interagem dialeticamente com as próprias máquinas.

Como é que o capital respondeu, no passado, à intensificação das suas contradições? Os sucessores de Marx identificaram três respostas: capital financeiro, imperialismo e legitimação de ideologias. Vemos o mesmo hoje:

  1. Finanças na nuvem: a fusão do capital na nuvem com as finanças tradicionais desencadeou uma Nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China. Através de stablecoins e da “Genius Act” de Trump, o financiamento na nuvem está privatizando o dólar, dando às Big Tech poderes antes reservados aos bancos centrais.
  2. Imperialismo e guerra: os sistemas de IA que trouxeram mega-mortes a Gaza são o mesmo capital da nuvem que a Palantir e a Oracle vendem ao Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha. O tecnofeudalismo é o servo da guerra moderna.
  3. Teclordismo: uma nova ideologia que substitui o neoliberalismo. À medida que o neoliberalismo diviniza o mercado, o teclordismo diviniza o capital na nuvem, oferecendo um verniz de legitimidade filosófica à substituição do trabalho humano por máquinas de extracção de rendas, integrando a Big Tech nas instituições estatais e entregando os bancos centrais ao financiamento na nuvem.

E aqui está a contradição dialética central: quanto mais sucesso a classe cloudalista concentrar todos os poderes – poder industrial, financeiro, político, cultural e estatal – mais rapidamente reduzirá tanto as taxas de lucro como as taxas de extração de rendas da nuvem. O sucesso privado gera falha no sistema.

Não absolvendo o capitalismo

Alguns críticos temem que, ao argumentar que surgiu algo pior do que o capitalismo, eu tenha absolvido o capitalismo ou servido aos propagandistas burgueses que desejam retornar a um mítico capitalismo puro. Esse receio é infundado. Minha hipótese está firmemente ancorada na tradição marxista. O capitalismo sempre foi monstruosamente irracional. O tecnofeudalismo é uma mutação interna ao capitalismo: ele surgiu porque a transformação socialista foi brutalmente impedida. Reconhecer isso não isenta o capitalismo; pelo contrário, intensifica a necessidade do socialismo.

Talvez a maior contribuição da hipótese do tecnofeudalismo seja ilustrar como o capital privado se tornou incompatível não apenas com o bem-estar social, mas até mesmo com a propriedade privada — exceto para um grupo restrito de "senhores da tecnologia". O capital em nuvem habilitado pela IA está coletivizando nosso trabalho, nosso intelecto, nossa identidade e até mesmo nossa imagem audiovisual. O Estado burguês é incapaz de regular as Big Techs. O argumento a favor da socialização tanto do capital produtivo quanto do capital em nuvem — todo o estoque de capital da sociedade — emerge mais forte do que nunca.

Alguns críticos receiam que, ao argumentar que algo pior do que o capitalismo surgiu, eu tenha absolvido o capitalismo. Esse receio é infundado.

No que diz respeito à nossa teoria da mudança, alguns marxistas criticam o meu apelo a uma frente unida de proletários tradicionais, proletários da nuvem (trabalhadores assalariados), servos da nuvem (utilizadores não remunerados) e até capitalistas vassalos (pequenas empresas esmagadas pelos feudos da nuvem). Isso é controverso, naturalmente. E, no entanto, os marxistas sempre debateram alianças – com os camponeses ou com a pequena burguesia. Este debate deve continuar dentro da nossa tradição, e não fora dela.

O que há em uma palavra?

Permitam-me encerrar com a questão semântica. Isso ainda é capitalismo ou deveríamos chamá-lo de tecnofeudalismo? Compreendo a hesitação. Um economista marxista certa vez me disse, com um sorriso amargo, que se recusava a abandonar a ideia de que pessoas como nós vieram a este mundo para derrubar o capitalismo. "Se o capital fizesse isso sem nós", perguntou ele, "qual seria o nosso propósito?" Eu me identifico com esse sentimento. Eu também cresci esperando que a esquerda tivesse a honra de derrubar o capitalismo. Mas há também a pergunta contundente de Rosa Luxemburgo: "Socialismo ou barbárie?" O ponto dela era que o socialismo não era inevitável — que a barbárie era uma possibilidade muito real. Em sua época, a barbárie assumiu a forma do fascismo. O fascismo de hoje pega carona no tecnofeudalismo e na ideologia dos senhores da tecnologia.

Então, o que há em uma palavra? Na década de 1770, Adam Smith celebrava a "sociedade comercial", embora o setor feudal da Grã-Bretanha ainda fosse maior do que o seu setor capitalista. Na década de 1840, Marx e Friedrich Engels poderiam ter chamado a nova era de "feudalismo industrial". Mas chamá-la de capitalismo ajudou as pessoas que viviam no século XIX a compreender a transformação em curso.

A opção segura, hoje, é presumir que a transformação "nuvialista" é interna ao capitalismo. A opção controversa — e aquela que defendo — é adotar um novo termo, como tecnofeudalismo, para provocar um choque em nossa imaginação coletiva. Ambas são defensáveis ​​dentro da tradição marxista. Nenhuma delas justifica hostilidade entre marxistas.

A dialética nos ensina que a realidade é construída sobre contradições. Na época da "Grande Transformação" original, a sociedade era, ao mesmo tempo, feudal e capitalista. Hoje, ela é, simultaneamente, capitalista e tecnofeudal. O cerne da dialética marxista é reconhecer essa coexistência intrigante e enxergar nela a possibilidade de superar a contradição por meio da transformação socialista.

Primeiro, precisamos enxergar a contradição. Uma vez feito isso, o potencial emancipatório não conhece limites.

O argumento completo que conecta a economia política de Karl Marx à minha hipótese do tecnofeudalismo está delineado em um artigo mais longo e técnico, de mesmo título, publicado na *transform review*. Este artigo é uma versão resumida.

Colaborador

Yanis Varoufakis é líder do MeRA25 e ex-ministro das Finanças da Grécia. Entre seus livros estão Adults in the Room; Technofeudalism: What Killed Capitalism; e, o mais recente, Raise Your Soul: A Personal History of Resistance.

22 de julho de 2026

O argumento socialista contra a nacionalização da IA

A IA não é uma tecnologia neutra cujos benefícios precisam ser redistribuídos. Ela é uma arma de luta de classes vinda de cima, projetada para baratear a mão de obra e concentrar poder. Nacionalizá-la não muda isso em nada.

Hagen Blix, Ingeborg Glimmer


Patrões e gerentes adoram a IA porque a veem como uma máquina capaz de transformar empregos qualificados em funções desqualificadas e atreladas a um computador. A produção rápida e barata reina absoluta. (Julia Demaree Nikhinson / Pool / AFP via Getty Images)

Bernie Sanders quer nacionalizar a IA. No artigo "O Argumento a Favor da Nacionalização da Inteligência Artificial", Dustin Guastella defende a proposta de Sanders: os grandes laboratórios de IA deveriam ser parcialmente nacionalizados, com a transferência de 50% de suas ações para um fundo público. Em uma foto que ilustra o artigo, Bernie Sanders aparece atrás de um cartaz com a frase "A IA deve beneficiar os trabalhadores". Esse slogan, apesar de sua imprecisão, revela uma compreensão equivocada e perigosa da economia política da IA. Apresentaremos aqui argumentos contra a proposta de Sanders — e a favor da construção de um movimento socialista contra a IA.

A Inteligência Artificial é uma arma de luta de classes vinda de cima

A inteligência artificial é, antes de tudo, uma máquina de transferência de renda e poder do trabalho para o capital. Quando investidores capitalistas pagam bilhões de dólares para fazer com que computadores "saibam coisas", o objetivo é baratear o conhecimento que as pessoas possuem, economizar com salários e transformar essa economia em lucro.

No capitalismo, os trabalhadores são remunerados por seus conhecimentos e habilidades passíveis de comercialização. O conhecimento lhes confere poder de negociação — mas isso só ocorre se o capital não encontrar uma maneira mais barata de adquirir esse conhecimento. Claramente, patrões e gerentes adoram a IA porque a veem justamente como essa alternativa mais barata. Eles enxergam a IA como uma máquina capaz de transformar empregos qualificados em funções desqualificadas e atreladas a um computador.

O capital sonha com a fungibilidade: qualquer dólar pode ser substituído por outro dólar, seja ele amassado ou novo, um objeto físico ou apenas um número no livro-razão de um banco. Quem dera aqueles trabalhadores incômodos fossem como dólares: fungíveis, substituíveis, sem qualidades individuais, sem atrito! Peças consumíveis da máquina que são descartadas e substituídas assim que se desgastam ou causam problemas. E o que poderia ser mais problemático do que trabalhadores precisando dominar certos conhecimentos? (Ou até mesmo querendo receber por isso!)

Como defendemos há muito tempo — e como Katy Habr acaba de argumentar em um artigo recente na Jacobin —, a IA é uma máquina que pega bons empregos e os torna precários. É uma máquina de transformar empregos estáveis ​​em trabalho sob demanda (gig work). De designers a engenheiros de software, o "polimento de tralha" tornou-se a ordem do dia. A IA aplica a lógica do fast fashion a todo tipo de trabalho intelectual. A produção rápida e barata reina absoluta.

O taylorismo consistia em transferir o conhecimento sobre os processos de trabalho dos trabalhadores para a gestão. Com a IA, o capital já não se contenta em centralizar o conhecimento apenas entre os seus representantes humanos.

Ao encararmos os grandes modelos de linguagem como meios de produção, nada disso deveria causar surpresa. A IA representa uma tentativa de industrializar a produção da linguagem. Ao ouvirmos falar de IA, não devemos cair nas narrativas dos seus promotores sobre explosões de produtividade e desemprego em massa. Devemos pensar no taylorismo e nas inúmeras formas pelas quais o capital centraliza o conhecimento, mensura as pessoas e fragmenta o trabalho para maximizar o seu controle e minimizar os custos. Em outras palavras: minimizar o poder de negociação e a renda dos trabalhadores.

O taylorismo e os seus muitos desdobramentos gerenciais baseiam-se na transferência do conhecimento sobre os processos de trabalho dos trabalhadores para a gestão. Com a IA, vemos que o capital já não se contenta em centralizar o conhecimento apenas entre os seus representantes humanos. Agora que essa possibilidade parece estar ao alcance, exige-se uma intensificação da sua lógica: transformar o conhecimento diretamente em capital constante, em propriedade privada. O objetivo, como já dissemos, é desvalorizar e tornar as pessoas fungíveis, reduzindo o seu poder de negociação e a sua capacidade de interromper fluxos de trabalho (seja individual ou coletivamente).

A IA é, acima de tudo, uma arma da luta de classes travada de cima para baixo. O fato de ser empunhada pelo Estado ou por corporações pouco altera essa realidade.

Corporativismo de IA

Pior ainda: não estamos sequer falando de socialização. O que Sanders propõe é a estatização (parcial). A questão em debate não é "Os trabalhadores deveriam assumir o controle?", mas sim "O governo deveria fazê-lo?". Pode ter passado despercebido aos participantes desse debate, mas o governo atual não é particularmente simpático aos interesses socialistas. O fato de Donald Trump e Bernie Sanders terem defendido a estatização de empresas de IA é apresentado por Guastella como algo positivo, como uma superação da divisão partidária. Nós, porém, acreditamos que isso representa um grave erro estratégico.

Defender a estatização sob um governo socialista seria algo completamente diferente; exigiria uma visão e um plano para transformar a IA em uma ferramenta de poder da classe trabalhadora. Dadas as características reais dessa tecnologia (algumas das quais acabamos de discutir), é discutível se tal visão é sequer viável. No entanto, em nossa opinião, defender a estatização da IA ​​sob qualquer governo não socialista resume-se, na melhor das hipóteses, a exigir que a IA seja controlada pelo que Karl Marx chamou de "comitê para os assuntos comuns da burguesia".

O fato de o mecanismo de depressão salarial ser vendido por empresas que são (parcialmente) de propriedade do Estado — ou não — não deixa de torná-lo um mecanismo de depressão salarial. Assim, quem quer que o produza já tomou, mesmo que inconscientemente, o partido daqueles que desejam reduzir os salários. Pouco importa se esses interesses se organizam por meio do mercado, por empresas privadas ou pelo Estado, com a mediação de organizações como a Citizens United e os super PACs.

O fato de o mecanismo de depressão salarial ser vendido por empresas que são (parcialmente) de propriedade do Estado — ou não — não deixa de torná-lo um mecanismo de depressão salarial
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A proposta de Sanders criaria um fundo soberano de IA dos EUA, que deteria uma participação de 50% no capital das maiores empresas de IA do país. Sanders imagina o fundo sendo gerido por uma "comissão independente", cujos membros seriam indicados pelo presidente e confirmados pelo Senado — numa analogia aproximada com o Conselho de Governadores do Federal Reserve ou com a Suprema Corte. No caso do Federal Reserve, a lei incumbe o presidente de garantir uma "representação justa dos interesses financeiros, agrícolas, industriais e comerciais". Os trabalhadores, naturalmente, estão ausentes — trata-se, de fato, do comitê para os assuntos comuns da burguesia.

Mesmo que deixemos de lado as formas óbvias pelas quais o governo atual tentaria assumir o controle de tal instituição — tal como fez com a Suprema Corte e o Federal Reserve —, inúmeros problemas ainda persistiriam.

Tanto Sanders quanto Guastella citam a Noruega e o Alasca como modelos, visto que ambos criaram seus próprios fundos soberanos. Em ambos os casos, estamos falando, obviamente, de uma riqueza imensa derivada da extração de combustíveis fósseis. Sob uma perspectiva socialista, qual é o sentido da produção socializada? Ela deveria, no mínimo, envolver a capacidade de priorizar as necessidades sociais em detrimento da simples busca pelo lucro. O fato de os modelos da Noruega e do Alasca se basearem justamente na infraestrutura de combustíveis fósseis que impulsiona as mudanças climáticas e compromete a habitabilidade de grande parte do planeta deveria suscitar sérias dúvidas quanto à eficácia dos fundos soberanos para alcançar esses objetivos.

Sobre o argumento moral a favor da socialização

Como argumentamos, a nacionalização da IA ​​não oferece uma solução para os problemas trabalhistas que ela suscita. A IA é uma arma da luta de classes travada de cima para baixo. Guastella tem toda a razão, é claro, ao argumentar que a IA foi literalmente construída a partir de todos nós — de livros a postagens em blogs, de dados de treinamento por reforço a conversas online; esses modelos foram treinados com dados extraídos de todos nós. Guastella argumenta que, a partir desse fato, podemos derivar uma reivindicação moral coletiva de propriedade.

Não temos objeções a esse argumento no plano moral. Infelizmente, o plano de nacionalização de Guastella — segundo o qual a IA passaria a ser parcialmente propriedade dos Estados Unidos — entra em contradição imediata com o seu próprio argumento moral. Afinal, existem inúmeros anotadores de dados em todo o mundo que, com base nos critérios dele, poderiam muito bem apresentar reivindicações morais legítimas.

Levar a sério essa reivindicação moral implicaria, naturalmente, um internacionalismo político sério. Mas há algo mais: a constatação de Guastella sobre a IA — a de que os trabalhadores cujo trabalho sustenta a tecnologia têm um direito moral à propriedade coletiva — é, na verdade, uma característica que se aplica ao capital de modo geral. Das fábricas aos centros de dados, a riqueza tangível e intangível do mundo foi criada pelo trabalho da classe trabalhadora global.

Em que os socialistas devem focar?

Nossas ressalvas, portanto, não dizem respeito à reivindicação moral de Guastella. A primeira diz respeito à sua aplicação inconsistente. A segunda é que ele confunde a reivindicação moral com uma perspectiva estratégica. Firmar um acordo de participação nos lucros com o capital não resolve o fato de que a IA é uma arma apontada para as nossas cabeças (em sentido figurado) e, talvez, para as nossas mentes (em sentido literal).

A ideia de um fundo soberano de riqueza baseia-se na premissa de continuar operando empresas de IA com fins lucrativos. Isso não altera em nada as decisões estratégicas do capital. Em vez de buscar falsos compromissos com o capital — que deixam sua lógica perfeitamente intacta —, devemos nos empenhar em identificar as brechas estratégicas que as movimentações deles nos oferecem.

A IA pode ser um fenômeno bastante revelador. Ela deixa claro que os conflitos entre gestores e trabalhadores, entre capital e trabalho, não dizem respeito apenas à remuneração, mas à própria estrutura do trabalho. A IA deve ou não ser utilizada? Há duas respostas óbvias para essa pergunta. Uma é a resposta do capitalismo: ele exige a IA para reduzir custos e implementar medidas que economizam com salários e desqualificam a mão de obra. O sistema é indiferente à degradação do trabalho e dos trabalhadores. A outra resposta é aquela em que o uso da IA ​​está sujeito ao controle dos trabalhadores, e na qual a dignidade do trabalho e de quem trabalha é fundamental. Se os trabalhadores controlam o processo produtivo, é possível levantar questões sobre o valor social do trabalho que vão além do lucro. Hoje, o capitalismo trava uma corrida impulsionada pela IA para transformar tudo em fast fashion, tornando tudo barato, degradado e descartável. Raramente foi tão fácil defender o socialismo — devemos aproveitar essa oportunidade, em vez de embarcar no trem da IA ​​capitalista.

Hoje, o capitalismo trava uma corrida impulsionada pela IA para tornar tudo barato, degradado e descartável. Raramente foi tão fácil defender o socialismo.

Isso é particularmente crucial justamente porque a IA está atingindo muitos dos trabalhadores mais privilegiados, levando a lógica da produção em massa a áreas que, até agora, estavam relativamente protegidas dela. Tomemos como exemplo os terapeutas. É fácil imaginar o futuro capitalista da terapia produzida em massa: não se trata daquele cenário otimista de automação total, no qual um chatbot oferece terapia competente para as massas. O futuro em que todos nós teremos dezenas de "agentes" trabalhando em nosso favor (ou qualquer que seja o discurso de venda do momento) parecerá sombrio — como um único terapeuta supervisionando várias janelas de interfaces de chat com IA. Cliente após cliente conversando com um modelo de linguagem, enquanto o profissional qualificado está ali apenas para supervisionar as conversas, monitorando-as em busca de riscos e possíveis responsabilidades jurídicas. O atendimento prestado será de qualidade duvidosa — mas, nossa, como será barato.

Profissionais como o nosso terapeuta hipotético têm, historicamente, demonstrado indiferença ou até hostilidade em relação ao socialismo. Hoje, é possível demonstrar que o controle socializado dos processos de trabalho — a produção socialista, na qual os trabalhadores podem levar em conta necessidades sociais para além do lucro — é essencial para um trabalho digno. Em meio a uma configuração de classes em transformação, surgem inúmeras oportunidades de solidariedade; precisamos arregaçar as mangas e construir um movimento socialista capaz de oferecer, de forma plausível, uma alternativa à degradação capitalista do trabalho, da vida e do planeta.

As empresas de IA estão investindo quantias enormes de dinheiro não apenas em infraestrutura e desenvolvimento, mas também em marketing (só a OpenAI gastou cerca de 6 bilhões de dólares em vendas e marketing em 2025). Enquanto elas disseminam a IA e seus anúncios por toda parte (inclusive — lamentamos dizer — chegando aos ouvidos de Bernie Sanders, que parece confundir o discurso de vendas com a realidade), surge também um movimento orgânico de resistência e contestação.

Há movimentos que buscam banir a IA das escolas. O ludismo voltou à moda. Feministas lutam contra a automação da violência sexual e do assédio (especialmente, embora não exclusivamente, por meio do Grok, de Elon Musk). Sindicatos que representam desde artistas até os próprios pesquisadores de IA estão engajados em disputas sobre os usos dessa tecnologia. A oposição aos centros de dados está surgindo em toda parte.

Raramente tantos movimentos distintos se uniram de forma tão natural em torno de uma única questão. A IA é uma questão trabalhista. A IA é uma questão feminista. A IA é uma questão ambiental. A IA é uma questão climática. Desde o Grok autodenominando-se "MechaHitler" e disseminando teorias da conspiração de supremacia branca até seus centros de dados poluindo bairros de população negra, a IA é uma questão de antirracismo e de luta contra o antissemitismo. Um movimento socialista que se preze deve lutar em todas essas frentes. Cabe a nós, socialistas, conectar essas lutas e transformar todas as formas espontâneas de resistência em uma coalizão capaz de enfrentar as Big Techs e o capitalismo.

Colaboradores

Hagen Blix é um cientista cognitivo radicado em Nova York, cuja pesquisa abrange linguagem, inteligência artificial e economia política. Ele é coautor do livro Why We Fear AI.

Ingeborg Glimmer é uma profissional de tecnologia e pesquisadora do setor na Alemanha, atuando na área de aprendizado de máquina. Ela é coautora de Why We Fear AI.

16 de julho de 2026

Não se limite a nacionalizar a IA. Democratize-a.

A propriedade pública da IA ​​não é garantia de democracia. Precisamos de uma propriedade pública democrática para impedir que as elites mantenham o controle da tecnologia.

Michael A. McCarthy

Jacobin

Os trabalhadores cujos empregos estão ameaçados pela automação via inteligência artificial não são meros espectadores; eles são, muito provavelmente, as partes mais interessadas no futuro dessa tecnologia. (Wiktor Szymanowicz / Future Publishing via Getty Images)

Com o recente anúncio de Bernie Sanders sobre um plano em elaboração para transferir 50% das maiores empresas de inteligência artificial para a propriedade pública, a Jacobin publicou diversos artigos abordando o que deve ser feito em relação à ascensão predatória e ao futuro ecologicamente incerto dessa nova tecnologia. Sob diferentes perspectivas analíticas, Ben Burgis e Dustin Guastella elogiam a proposta de Sanders e defendem a nacionalização das empresas de IA. Em contrapartida, Cecilia Rikap argumenta que propriedade não equivale a controle e que um modelo de nacionalização norte-americano cai em uma "armadilha nacionalista", cometendo uma nova injustiça contra o restante do mundo — cujos dados também alimentam esses modelos. Ela defende, em vez disso, um "controle democrático internacional" e novas "instituições públicas".

Concordo com Rikap que o que limita muitas das perspectivas da esquerda sobre a nacionalização, de modo geral, é o fato de a "democratização" ser frequentemente tratada apenas como uma questão de propriedade pública. A questão de quem detém as ações dessas empresas e acumula riqueza com suas operações — seja em nível nacional ou global — é crucial. No entanto, neste debate, a questão igualmente complexa de quem realmente decide como a tecnologia é desenvolvida e utilizada, e por quais meios essas decisões são tomadas, tem sido amplamente ignorada. Parte-se do pressuposto de que o controle estatal e a propriedade pública gerarão um sistema de inteligência artificial que reflita o sentimento e a vontade populares. Contudo, essa suposição beira a pura fantasia. A esquerda não pode presumir que o controle estatal resultará no fortalecimento da classe trabalhadora e no aprofundamento da democracia. Afinal, até mesmo Donald Trump defendeu que os Estados Unidos adquirissem uma participação acionária significativa nessas empresas.

Uma IA democrática só é possível se as pessoas cujas vidas estão sendo remodeladas por ela tiverem um poder de decisão efetivo sobre como ela é desenvolvida e utilizada. Mas quem deve decidir como a inteligência artificial é desenvolvida? A maioria concorda que não devemos deixar algo tão monumental nas mãos de Dario Amodei (da Anthropic), Sam Altman (da OpenAI) ou Elon Musk (da xAI). Tampouco devemos começar pelo que desejam os engenheiros que escrevem o código. Nem devemos simplesmente fazer o que gera o maior retorno financeiro para os acionistas das empresas de inteligência artificial. Por mais atraente que o controle estatal da inteligência artificial possa parecer, pelas razões que exponho a seguir, não deveríamos deixar sua governança a cargo de autoridades eleitas. Em igualdade de condições, a simples estatização seria insuficiente e apenas aprofundaria e reproduziria os piores danos da IA ​​sob a atual administração. Ao abordar a questão da democracia, precisamos começar com uma pergunta simples: quem está sendo afetado pelo desenvolvimento da IA? E com que intensidade?

Uma IA democrática só é possível se as pessoas cujas vidas estão sendo remodeladas por ela tiverem um poder de decisão significativo sobre como ela é desenvolvida e utilizada.

É claro que todos nós, coletivamente, temos interesse no futuro dessa tecnologia e, portanto, deveríamos ter voz ativa. No entanto, dois grupos em particular arcam com os custos associados ao enriquecimento de um punhado de investidores em inteligência artificial nos dias de hoje. O primeiro grupo é o dos trabalhadores. A extraordinária valorização da IA ​​baseia-se quase inteiramente na promessa de um deslocamento massivo de mão de obra no futuro. Em uma declaração que pode soar como estratégia de vendas, Amodei, da Anthropic, observou que a IA poderia eliminar metade de todos os empregos de colarinho branco e elevar a taxa de desemprego nos Estados Unidos para algo entre 10% e 20% nos próximos um a cinco anos. Ainda não está claro como esses números se concretizarão, mesmo que a IA se desenvolvesse sem interferência das forças de mercado. Contudo, é inegável que a IA será utilizada como uma tecnologia de economia de mão de obra, ainda que gere alguns novos empregos que exijam novas habilidades. Os trabalhadores cujos empregos estão ameaçados pela automação não são meros espectadores; eles são, muito provavelmente, as partes mais interessadas no futuro dessa tecnologia.

O segundo grupo são aqueles que sofrerão as perturbações ecológicas da IA. Hoje, os enormes data centers que treinam e executam esses modelos consomem enormes quantidades de energia e água para fazer isso. Em 2025, os data centers consumiram 448 terawatts-hora de eletricidade e 4,5 trilhões de litros de água em todo o mundo. Além disso, geraram 189 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono. De acordo com o Instituto Universitário das Nações Unidas para a Água, o Ambiente e a Saúde, prevê-se que o consumo anual de energia duplique para 945 terawatts-hora até 2030. As empresas por detrás da implementação da IA ​​mantiveram as suas cartas fechadas e não divulgaram quase nenhuma informação sobre a escala a que estão a libertar esta nova tecnologia no planeta. Isto está, obviamente, a acelerar as alterações climáticas, mas também resultou, mais aproximadamente, em aumentos nos custos da electricidade para os americanos comuns e num novo movimento para impedir o estabelecimento de centros de dados, com mais de 150 moratórias locais e várias proibições permanentes aprovadas. Tal como o primeiro grupo, este grupo está esmagadoramente localizado na classe trabalhadora.

Dar a estes dois grupos, tanto aos trabalhadores ameaçados de serem deslocados como às manifestações mais amplas da classe trabalhadora que partilharão o custo colectivo de uma implementação da IA, o poder real de tomada de decisão sobre estas empresas ilustra o que os teóricos políticos chamam de princípio dos interesses de todos os afectados. A noção é bastante simples: se uma instituição ou organização toma decisões que afectam profundamente os interesses de alguns grupos da sociedade, esses grupos devem ter uma palavra a dizer nessas decisões. De acordo com esta noção simples, as pessoas que são prejudicadas pelo desenvolvimento da IA ​​são, por esse mesmo dano, as pessoas que também deveriam ser capazes de governá-la. A minha principal afirmação é que qualquer proposta que não coloque um poder de decisão significativo nas mãos do demos da classe trabalhadora, seja a nível nacional (por causa da viabilidade) ou global (por causa da conveniência), não resolveu o problema.

Mas como poderemos realmente colocar esse poder nas mãos do povo? No anúncio de Bernie Sanders da Lei do Fundo Soberano de Riqueza da IA ​​americana, ele observa que, como a própria IA foi construída sobre a “inteligência colectiva” roubada da sociedade, incluindo “livros, canções, obras de arte, jornalismo, código informático, investigação científica, vídeos, conversas, imagens e ideias que abrangem gerações”, a sociedade deveria possuir metade dela como um bem público. Se for o resultado do nosso próprio trabalho, a riqueza que gera deverá beneficiar-nos. Não vou me aprofundar muito nos detalhes financeiros do plano, mas ele envolve um imposto único de 50% sobre essas empresas, pago em ações usadas para capitalizar um fundo soberano que daria ao público uma participação acionária importante nas maiores empresas de IA, como OpenAI, Anthropic e xAI. Além de ganhar uma parte da riqueza produzida, através da participação votante do fundo e da representação igualitária nos conselhos de administração de cada uma destas empresas, o governo federal teria o poder “de bloquear decisões que prejudicam os nossos cidadãos e de pressionar por políticas que os ajudem”.

No entanto, o plano de Sanders apresenta uma limitação importante no que diz respeito à questão da democracia que abordei anteriormente com o "princípio de que todos os afetados devem ser incluídos". O poder e o controle são exercidos exclusivamente por meio de nomeados pelo governo federal — um poder que mudaria de mãos a cada nova eleição. Contudo, essa forma de conceber o poder público é, em grande medida, um resquício dos debates da Guerra Fria, que opunham rigidamente o Estado ao mercado, associando-os, respectivamente, às esferas pública e privada. Essa distinção é uma herança da longa disputa entre o capitalismo americano desenfreado e o planejamento central soviético. Para muitos setores da esquerda, essa é a estrutura padrão que molda praticamente todas as discussões sobre alternativas políticas e objetivos socialistas. No entanto, a ideia pluralista de que as democracias capitalistas são, de fato, democráticas — e de que não governam de maneira sistemática e fundamental em favor de elites e empresas capitalistas — reflete muito mais a retórica da Guerra Fria sobre a supremacia das instituições políticas americanas do que a realidade concreta. De fato, se há uma conclusão contundente resultante das últimas duas décadas de pesquisas sobre o poder empresarial nos Estados Unidos, é a de que as empresas desfrutam de um poder desproporcional e imenso nas instituições políticas americanas; um poder que se aprofundou drasticamente com o enfraquecimento do movimento sindical e a desmobilização dos movimentos da classe trabalhadora.

Qualquer plano para democratizar a IA que canalize a participação acionária do público por meio de autoridades governamentais acabaria se alinhando justamente aos bilionários que o plano visa conter.

Em suma: qualquer plano para democratizar a IA — seja em nível nacional ou global — que canalize a participação acionária do público por meio de autoridades governamentais estaria, automaticamente, alinhando-se aos bilionários que o plano pretende conter. Colocando a questão de outra forma: a viabilidade política de um plano de IA gerido pelo Estado depende quase inteiramente do caráter democrático do próprio Estado. Embora o novo entusiasmo com a possibilidade de socialistas democráticos vencerem eleições seja animador, não devemos nos iludir: o Estado já é dominado por elites e, no momento, não existem forças de contraposição significativas fora dele — seja no movimento sindical ou nas ruas — capazes de exercer pressão efetiva. O que o governo representativo nos mostrou é que, nos períodos de "política silenciosa" — especialmente entre eleições e em questões de baixa visibilidade pública, quando os movimentos estão desmobilizados —, a influência empresarial impera sem restrições. A nacionalização parcial não contorna esse problema de forma alguma, pois a propriedade pública não é garantia de controle público. De fato, sem a criação de novas instituições que efetivamente aprofundem a democracia no Estado, o controle público simplesmente reproduz o controle privado na prática.

A intenção aqui não é simplesmente afirmar que o Estado é um instrumento do capital desprovido de qualquer potencial emancipatório. Trata-se, antes, de um terreno contraditório, composto por aparatos de governo sobrepostos que são, eles próprios, resultados institucionais de lutas passadas. Geralmente, o capital sai vitorioso, mas nem sempre. A Lei Nacional de Relações Trabalhistas (National Labor Relations Act) de 1935 não foi uma concessão da administração Roosevelt; foi uma lei imposta por mobilizações trabalhistas generalizadas e pela crescente organização dos trabalhadores. Da mesma forma, a legislação sobre direitos civis aprovada na década de 1960, que garantiu liberdades fundamentais aos trabalhadores negros, não foi um presente de John F. Kennedy ou Lyndon Johnson, mas sim o resultado do próprio movimento pelos direitos civis. Novas instituições políticas que conferem poder duradouro à classe trabalhadora nunca são soluções de caráter tecnocrático. Elas sempre resultam de movimentos que precisam conquistá-las e defendê-las. Sem essa pressão vinda da base, nenhum projeto de nacionalização ou democratização conseguiria resistir ao poder do setor empresarial.

Se uma IA democrática for possível, não acredito que ela surgirá da escolha entre o Estado e o mercado. Em vez disso, será necessário que movimentos construam novas instituições nas quais os afetados tenham poder de decisão direto. Se sabemos quem deve ter maior voz — os afetados —, como então selecioná-los para governar ativamente? Em outras palavras: por que causas os movimentos democráticos devem realmente lutar?

Por razões que explorei a fundo no livro The Master’s Tools: How Finance Wrecked Democracy (And a Radical Plan to Rebuild It), nem o nosso atual sistema de democracia representativa nem a tendência à democracia direta — característica da era do movimento Occupy Wall Street — são realmente capazes de dar conta dessa tarefa. A democracia representativa é, em sua essência, um procedimento aristocrático de seleção de governantes. Como observa Bernard Manin em The Principles of Representative Government, as eleições "reservam os cargos públicos para indivíduos eminentes, que seus concidadãos consideram superiores aos demais". Pior ainda: esse método de seleção de governantes é assolado por problemas de agência e foi facilmente corrompido tanto pelo dinheiro na política quanto pelo poder estrutural do capital. Por outro lado, a democracia direta simplesmente não é viável em larga escala e sofre com problemas de autoseleção. Basta recordar as assembleias no Zuccotti Park: quem estava lá eram as pessoas que dispunham de tempo e vontade, e não uma amostra representativa da população afetada pelas práticas predatórias de Wall Street.

Em vez disso, deveríamos recorrer a uma tecnologia antiga para enfrentar o problema da democracia na IA: o sorteio (prática que remonta à antiga Atenas). Com uma participação acionária já garantida, uma assembleia popular — composta por meio de seleção aleatória (ou sorteio) entre as pessoas afetadas pela implementação da IA, abrangendo tanto a população em geral quanto aqueles mais expostos aos riscos — teria o poder de deliberar e tomar decisões vinculantes sobre o desenvolvimento da tecnologia. O sorteio é, em si, o mecanismo que permite concretizar o princípio de que "todos os afetados devem participar" em uma nova instituição política — seja em nível nacional ou global —, conferindo à classe trabalhadora uma voz real sobre o futuro da IA. Estatisticamente, a seleção aleatória é a forma de tirar o poder das mãos dos bilionários. Isso geraria muito mais do que apenas dividendos; promoveria uma redistribuição do controle.

O que, na prática, uma Assembleia Popular de IA desse tipo faria? Imagine uma trabalhadora da Amazon recebendo uma notificação semelhante a uma convocação para o júri, informando que ela integrará a assembleia por um período determinado para deliberar sobre decisões vinculantes a respeito de como esses modelos são desenvolvidos e implementados. A assembleia se reúne uma sexta-feira por mês, e a participação é remunerada. Não se espera que ela se torne engenheira ou domine a matemática por trás dos grandes modelos de linguagem, assim como não se exige que um jurado compreenda a fundo a perícia forense ou a ciência das provas de DNA. Em vez disso, especialistas técnicos em inteligência artificial e seus impactos atuam como consultores da assembleia, orientados por facilitadores neutros, para apresentar riscos, dilemas e opções que embasarão as deliberações do grupo. Os participantes aprenderiam sobre uma questão, deliberariam sobre um conjunto de opções relacionadas a ela e, então, tomariam decisões a respeito.

O sorteio é, em si, o mecanismo que permite concretizar o princípio de que "todos os afetados" devem participar, por meio de uma nova instituição política que daria à classe trabalhadora um poder de decisão real sobre o futuro da IA.

Nessa assembleia, comissões permanentes com poder de veto poderiam garantir uma voz constante aos grupos mais diretamente impactados pela implementação da IA. Isso poderia incluir uma comissão de trabalhadores, para prevenir a precarização do trabalho em casos de substituição de mão de obra, e uma comissão ambiental, para assegurar que o desenvolvimento da IA ​​seja compatível com a sustentabilidade ecológica em escala planetária. À medida que a democracia se fortalece e a IA é implementada, o modelo de assembleia pode ser aplicado em diversas escalas: decisões sobre as condições de construção de um novo centro de dados deveriam priorizar a voz da comunidade local que o receberia; decisões sobre transições justas em setores econômicos que adotam ferramentas de IA deveriam dar maior voz aos trabalhadores impactados nesses setores; e decisões sobre a pegada global agregada da IA ​​— seja em termos ecológicos ou em relação aos setores econômicos do sistema mundial — exigiriam um órgão que transcendesse as fronteiras de qualquer Estado-nação. Contudo, o princípio de incluir todos os afetados permanece válido: nesses órgãos democráticos, a voz é dada àqueles que são mais afetados.

No entanto, essas assembleias precisariam de força legal. É aí que entra a ideia de uma carta constitutiva ou licença específica para a inteligência artificial. Nos Estados Unidos, empresas de IA que ultrapassassem determinado porte ou capacidade computacional poderiam ser obrigadas a obter uma autorização federal para operar, tal como já ocorre com os bancos. Essa própria autorização poderia exigir mecanismos de governança democrática nos moldes que descrevi. Esse modelo já existe na forma de um projeto de lei em tramitação no Congresso. A Lei de Bancos Públicos de 2023 (Public Banking Act of 2023), apresentada pelas deputadas Rashida Tlaib e Alexandria Ocasio-Cortez, exigiria que qualquer banco público com ativos superiores a 500 milhões de dólares fosse governado, em parte, por uma assembleia democrática composta por pessoas selecionadas aleatoriamente na jurisdição do banco. A governança democrática em uma instituição complexa como um banco não é algo hipotético: o Banco Popular da Costa Rica é governado, em seu nível mais alto, por uma assembleia de trabalhadores com 290 membros, provenientes dos principais setores sociais e econômicos do país. Esse arranjo obriga o banco público a incorporar demandas populares e a submeter-se a uma supervisão democrática. Uma carta de princípios para a IA poderia funcionar de maneira semelhante, exigindo que, para empresas de IA que ultrapassem determinado porte, tal mecanismo de governança democrática fosse incorporado à própria empresa ou que as empresas do setor ficassem sujeitas a um órgão externo responsável por emitir regulamentações vinculantes para elas.

Uma IA democrática é possível, mas a questão não se resume a quem é o seu proprietário. Trata-se também de quem a controla e de que maneira.

Colaborador

Michael A. McCarthy é professor associado de sociologia e diretor do programa de estudos comunitários da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz.

14 de julho de 2026

O que Marx pode nos ensinar sobre a inteligência artificial

A análise de Karl Marx sobre a tendência do capitalismo de substituir o trabalho vivo por máquinas pode ajudar a esclarecer como poderá evoluir a adoção da IA.

Branko Milanovic


Robôs de serviço em exposição na Feira de Cantão, em Guangzhou, província de Guangdong, China, em 15 de abril de 2026. (Stringer / Anadolu via Getty Images)

Quais seriam os prováveis ​​efeitos da introdução em massa da inteligência artificial na economia, sob a ótica marxista?

À primeira vista, as implicações para a teoria do valor-trabalho de Karl Marx parecem negativas ou em contradição com os fatos ou com as nossas expectativas. A IA implica a introdução de técnicas de produção de extrema intensidade de capital ou, para usar a terminologia marxista, de processos com uma composição orgânica do capital muito elevada. Em outras palavras, a IA implica uma relação c/v muito alta. Trata-se da razão entre o capital constante (c) e o capital empregado para contratar força de trabalho (v). Se a presença de trabalho é reduzida e — talvez em casos de produção totalmente automatizada — próxima de zero, a mais-valia produzida pelo trabalho também deve ser pequena ou próxima de zero. Independentemente de quão elevada seja a taxa de exploração, um valor de v muito baixo implica um valor de s (mais-valia) muito baixo.

Estabelecemos, assim, que a taxa de lucro [s/(c+v)] também deve ser muito baixa, o que é consistente com uma das mais famosas "leis do desenvolvimento capitalista" de Marx: a tendência de queda da taxa de lucro com a introdução de processos de produção mais intensivos em capital. No caso de uma produção quase totalmente automatizada, a taxa de lucro tenderia a zero ou a um valor próximo de zero. Como nos dizem Marx, Joseph Schumpeter e o senso comum, o capitalismo com lucros zero é um absurdo. Os capitalistas não investirão se o retorno esperado for nulo. Portanto, a tendência de queda da taxa de lucro sinaliza o fim do capitalismo.

Muito antes de a IA surgir, essa ideia já era discutida por economistas marxistas do início do século XX, como Rosa Luxemburgo e Henryk Grossman. Eles previam que a concorrência levaria os capitalistas a adotar processos de produção cada vez mais intensivos em capital. A lógica básica era que, embora a substituição de trabalho por máquinas reduzisse os custos para empresas individuais, a adoção universal dessas técnicas acabaria por reduzir o montante de mais-valia e, consequentemente, a taxa de lucro global.

Então, será que a IA levará ao fim do capitalismo? Isso não parece condizer com os fatos e as expectativas de taxas de lucro mais elevadas — e não mais baixas — decorrentes da introdução da IA. Estaria Marx totalmente equivocado? Talvez não.

Para compreender isso, considere a economia composta por dois setores. Primeiro, o setor com composição orgânica do capital muito elevada, exatamente como o descrevemos. No entanto, considere que a automatização total da produção neste setor gera uma demanda por bens e serviços que apenas o trabalho humano direto pode oferecer, ou nos quais o trabalho humano supera a IA: pense em atividades de cuidado, esportes, enfermagem, alta gastronomia, treinamento de *coaching*, serviço de bar, escrita criativa e uma infinidade de outras tarefas que — justamente porque algumas delas podem ser executadas de forma rudimentar pela IA — se tornarão cada vez mais valiosas quando realizadas por seres humanos reais e qualificados. Milhares de professores podem ser substituídos pela IA, mas a demanda por professores realmente excelentes, capazes de superar a IA, irá aumentar.

Em seguida, desenvolver-se-á um segundo setor, exatamente o oposto do setor totalmente automatizado. Ele se caracterizaria por uma baixa composição orgânica do capital: o capital constante (c) seria pequeno em relação ao capital variável (isto é, ao montante de capital empregado sob a forma de salários). Ao contrário do setor automatizado, ele geraria uma enorme quantidade de mais-valia.

Mas, como sabemos, no capitalismo, as mercadorias e os serviços não são vendidos pelo seu valor-trabalho, mas sim pelos preços de produção que equalizam as taxas de lucro entre setores intensivos em capital e setores intensivos em mão de obra (ou seja, setores com diferentes composições orgânicas do capital). Isso significa, por sua vez, que o montante de lucro no setor automatizado será, em equilíbrio, proporcional ao (enorme) volume de capital nele empregado. Portanto, o lucro do nosso setor automatizado não será insignificante, como parecia à primeira vista quando o analisávamos isoladamente e presumíamos que toda a economia fosse composta apenas por ele. Pelo contrário, a taxa de lucro pode aumentar, pois a substituição de mão de obra em um setor é acompanhada pela criação de processos produtivos mais intensivos em mão de obra em outras áreas.

Em termos simples: enquanto uma parte da economia operará apenas com máquinas (incluindo a IA sob o termo "máquina"), outra parte será muito mais intensiva em mão de obra — provavelmente ainda mais do que hoje. Isso implica que os lucros no setor de IA podem ser elevados, mas apenas se o crescimento desse setor for acompanhado por uma demanda crescente por bens e serviços produzidos por trabalho humano — e, consequentemente, pelo surgimento desse segundo setor. Se o setor de IA ocupar toda a economia, então, segundo as análises marxistas, a taxa de lucro tenderá a zero.

Essa também seria a conclusão sob a ótica da análise neoclássica, pois uma produção totalmente automatizada, que não emprega mão de obra, implica uma massa salarial total nula ou próxima de zero; assim, não fica claro para quem a abundância da nova produção poderia ser vendida. Dessa forma, a abundância gerada pela IA conduz — mesmo em um mundo neoclássico, na ausência de uma redistribuição massiva para pessoas que não trabalham — a uma demanda agregada insuficiente e, consequentemente, a uma taxa de lucro próxima ou igual a zero. Tanto no mundo neoclássico quanto no marxista, a ascensão da IA ​​deve ser acompanhada por um crescimento equivalente de atividades intensivas em mão de obra, a fim de manter a economia em equilíbrio e evitar que a demanda agregada e a taxa de lucro caiam a zero.

Em suma: tanto na visão marxista quanto na neoclássica, uma economia composta exclusivamente por um setor altamente automatizado é incompatível com a manutenção do capitalismo. Em um caso, porque a mais-valia produzida — e, consequentemente, o lucro — é nula; no outro, porque uma demanda agregada insuficiente resulta em lucros nulos. A situação só pode ser "salva" por meio de uma expansão equivalente de um setor intensivo em mão de obra ou através de uma redistribuição massiva de renda para pessoas que não trabalham.

Assim, vemos um futuro menos sombrio para o trabalho do que algumas pessoas argumentam. As atividades onde o trabalho não pode ser substituído pela IA irão florescer. A IA trará ou não uma desqualificação geral da mão de obra? À primeira vista, parece que a IA conduzirá à desqualificação da mão-de-obra simplesmente porque muitas competências (como a computação, o desenvolvimento de software, a escrita e até a matemática) serão redundantes, uma vez que podem ser assumidas pelas máquinas. No entanto, este processo pode ser, e é provável que seja, contrabalançado pela criação de profissões onde as competências laborais excederão o nível actual, simplesmente porque teriam de ser superiores aos níveis de competências produzidos pela IA para que as pessoas quisessem adquirir tais produtos e serviços.

Portanto, embora uma parte da força de trabalho possa sofrer com a desqualificação ou, para ser franco, com a emburrecimento, outra parte da força de trabalho ficará mais sofisticada e muito mais qualificada. Para permanecer à frente, terá de competir mais com máquinas do que com outros seres humanos. Mas enquanto acreditarmos na adaptação humana, podemos pensar que existiria sempre um segmento do trabalho humano que faria coisas que as máquinas não conseguem, ou, mesmo quando o mesmo resultado é produzido por ambas, que seria mais apreciado (e, portanto, mais valorizado) se fosse feito por trabalho vivo e não por IA. É improvável que um patinador no gelo igualmente bonito gerado por IA seja tão apreciado quanto um patinador no gelo humano. Pelo menos, não pelos humanos.

Colaborador

Branko Milanovic é economista e professor visitante (cargo de Presidential Professor) no Graduate Center da CUNY.

12 de julho de 2026

A IA é um produto da humanidade. A humanidade deve ser proprietária da IA.

As gigantes da tecnologia saquearam a produção criativa da humanidade para criar a inteligência artificial. Não merecemos apenas uma parcela dos lucros da IA ​​— merecemos ter o controle sobre ela.

Cecilia Rikap

Jacobin

A IA foi construída com base na produção criativa de todo o mundo. Os lucros estão indo para um punhado de bilionários americanos. (Abhishek Chinnappa / Getty Images)

Elon Musk é oficialmente o homem mais rico da Terra. A origem de sua riqueza não reside em sua própria astúcia. Tampouco pode ser totalmente explicada pela arquitetura financeira do capitalismo, pelas brechas fiscais e pelo valor gerado pelos trabalhadores empregados em seus diversos empreendimentos.

As empresas dos bilionários da tecnologia estão privando a humanidade de sua capacidade distintiva de criar. De dados de redes sociais a produções acadêmicas, obras literárias, arte, filmes, música, podcasts, código de software e nossos registros de saúde — enfim, tudo o que se possa imaginar: modelos de IA generativa são treinados com base em produtos criativos de todo o mundo. Uma vez em operação, os dados obtidos a partir dos comandos dos usuários são utilizados para o refinamento desses modelos, aprimorando as capacidades preditivas da IA. A IA é, inequivocamente, um produto da humanidade.

A proposta de Bernie Sanders de instituir um imposto único de 50% sobre empresas de IA como OpenAI, Anthropic e xAI — a ser pago em ações — constitui, sob essa perspectiva, uma medida compensatória razoável.

Mais do que dados americanos: um saque global

Existem razões ainda mais convincentes para justificar a propriedade compartilhada. Os modelos de IA são cocriados por muitos e, em seguida, monetizados por poucos. A própria concepção dos modelos de IA e das tecnologias subjacentes depende de uma rede global de cientistas e engenheiros sediados em universidades, organizações públicas de pesquisa e milhares de empresas financiadas, pelo menos em parte, com dinheiro dos contribuintes. Esses atores lucram muito pouco — ou nada — e praticamente não têm voz ativa sobre quais modelos são desenvolvidos ou como isso é feito.

Em outro texto, mostrei como a Microsoft e o Google ditam a agenda da comunidade global de pesquisa de IA de ponta. Essas e outras gigantes, como a Meta, praticam o chamado open-source-washing (uma apropriação estratégica do discurso de código aberto). Elas disponibilizam componentes de software estratégicos como código aberto — às vezes utilizando uma forma de "pseudo-código aberto" — para transformá-los em padrões de fato. A adoção em massa gera uma base de usuários cativa, mais propensa a consumir outros elementos de suas tecnologias — estes mantidos como software proprietário. Outra estratégia das Big Techs para controlar a tecnologia e outras organizações, além da simples propriedade, tem ganhado destaque. Elas atuam como grandes investidoras de capital de risco corporativo, investindo em milhares de startupsc para obter acesso a seus desenvolvimentos e direcioná-los. Foi assim que surgiram empresas como a OpenAI e a Anthropic.

O diagnóstico de Bernie está correto: a IA é, de fato, um produto da humanidade que foi apropriado indevidamente por alguns gigantes corporativos. No entanto, ele cai em uma armadilha nacionalista que levou até mesmo o Financial Times a associá-lo a Donald Trump, ao sugerir que os americanos deveriam possuir metade das ações das empresas de IA. Os produtos criativos utilizados para o treinamento, bem como os pesquisadores, desenvolvedores e startups que integram as redes controladas pelas Big Techs, não são exclusivamente americanos; eles vêm de todas as partes do mundo. Portanto, o fundo soberano de IA deveria pertencer ao verdadeiro público: a população mundial.

A geografia é apenas uma das razões pelas quais o escopo da proposta de Bernie é relevante. Se o objetivo é conceder à humanidade tanto a propriedade dos benefícios quanto o controle sobre o desenvolvimento dos modelos de IA, garantir uma participação nas empresas de IA que realizarão ofertas públicas iniciais (IPOs) este ano estaria longe de ser suficiente. Os verdadeiros comandantes da IA ​​e seus principais beneficiários são a Nvidia e as gigantes da computação em nuvem. Qualquer modelo de IA pode ser utilizado como serviço em pelo menos um dos maiores "supermercados de tecnologia" do mundo: as nuvens da Amazon, da Microsoft e do Google. Usar IA significa usar as nuvens dessas empresas. A adoção da IA ​​ocorre por meio de suas nuvens. Quanto mais modelos são lançados, mais se expandem os ecossistemas predatórios das gigantes da nuvem. E, embora essas gigantes também desenvolvam seus próprios modelos, as startups dependem das infraestruturas e dos marketplaces de nuvem da Amazon, da Microsoft e do Google — desde dependências já conhecidas, como a da OpenAI em relação ao Microsoft Azure, até casos como o da DeepSeek e o do Grok, da xAI.

E são justamente os data centers dessas nuvens que completam o processo de exploração predatória. Isso representa uma extração de recursos naturais que se soma à apropriação de dados e conhecimento. A expansão dessas empresas deveria ser regulamentada, e a sociedade deveria ser compensada pelo uso de terra, energia e água potável. Um fundo soberano internacional de IA poderia compensar essa dupla extração — da natureza e das criações humanas. Ainda assim, isso não conferiria à humanidade o poder de decisão.

Propriedade distribuída, controle concentrado

Em sua fase inicial, investidores individuais — isto é, pessoas físicas em vez de investidores institucionais, como fundos de hedge ou gestoras de ativos — receberam entre 20% e 25% das ações da SpaceX. A ilusão de uma propriedade distribuída começa a se dissipar quando comparada aos 42% detidos por Musk, que lhe conferem entre 80% e 85% dos direitos de voto. Propriedade não é sinônimo de controle. Assim como a Meta, a Alphabet e a Palantir, a SpaceX abriu seu capital oferecendo diferentes classes de ações. Cada classe possui direitos de voto distintos, preservando o controle nas mãos dos fundadores e CEOs. As ações de Musk têm dez vezes mais poder de voto.

Na prática, mesmo que a proposta de Bernie fosse bem-sucedida, Musk ainda manteria o controle sobre as atividades e o funcionamento da SpaceX. Por exemplo, seria improvável que o fundo soberano de IA impedisse a SpaceX de construir centros de dados extraterritoriais, independentemente de seu impacto ambiental. Da mesma forma, o público não teria qualquer poder de negociação para impedir que uma empresa como a OpenAI vendesse seus modelos avançados para as forças armadas; para dissuadir a Palantir de trabalhar em parceria com o órgão de imigração e alfândega (ICE) e, novamente, com os militares; ou para convencer a Anthropic a interromper o desenvolvimento de modelos que poderiam desencadear uma catástrofe de segurança cibernética.

A sociedade não pode confiar na disposição de alguns poucos CEOs e fundadores para interromper o desenvolvimento de IAs que podem ser usadas como armas autônomas, como ferramentas para ampliar o controle no ambiente de trabalho ou como assistentes escolares que entregam tudo "mastigado" aos alunos e fazem suas tarefas de casa. Por conta própria, essas pessoas jamais reduzirão o ritmo com que suas empresas desenvolvem tecnologia e expandem sua escala. A expansão de escala — concentrar mais dados para treinar modelos cada vez maiores em centros de dados gigantescos, com um número crescente de processadores — é uma estratégia fundamental para as gigantes da nuvem e as empresas de IA. Trata-se de um sistema excludente por concepção, que garante a liderança dessas companhias.

A escala possibilita o controle sem a necessidade de propriedade em todas as redes de organizações descritas anteriormente. Milhares de atores integram sistemas de inovação ditados por algumas poucas gigantes da tecnologia. Ao seguir as prioridades de pesquisa, desenvolvimento e negócios dessas gigantes, tais ecossistemas também contribuem para o desenvolvimento de tecnologias que reforçam o controle militar e no ambiente de trabalho, exacerbam a desinformação e minam a capacidade de pensamento das pessoas. Esses resultados não são inevitáveis ​​nem acidentais. As empresas de tecnologia (*Big Techs*) planejam a ciência e a tecnologia visando produzir IAs que tornam os usuários dependentes e que promovem os interesses corporativos e políticos daqueles que têm recursos para financiá-las. Há outra pauta relacionada à IA que não pode esperar. Para priorizar as comunidades e o planeta, o controle deve estar nas mãos do público. O controle democrático internacional sobre o ecossistema de IA é, no mínimo, tão urgente quanto a redistribuição de seus benefícios. Isso exigiria a criação de instituições públicas que fossem, ao mesmo tempo, independentes do poder corporativo e autônomas em relação aos caprichos de governos individuais.

Assim, um fundo soberano de IA só poderia ser celebrado como parte de uma estratégia internacional mais ampla. Como iniciativa isolada, corre-se o risco de um efeito contraproducente. Da mesma forma que fundos soberanos de petróleo podem arrefecer o entusiasmo popular pela transição para energias renováveis, um fundo soberano de IA poderia reforçar a adoção da IA ​​atual — a maior tecnologia de controle do mundo. Uma sociedade justa não é apenas aquela em que a riqueza é redistribuída; o controle — e, portanto, o poder de decisão — e o conhecimento também devem ser compartilhados de forma equitativa.

Colaborador

Cecilia Rikap é professora associada de Economia na University College London, chefe de pesquisa do Institute for Innovation and Public Purpose da UCL e autora de The Rulers: Corporate Power in the Age of AI and the Cloud e Teoría de la Dependencia Digital: Soberanía y Desarrollo en el Capitalismo del Siglo XXI, entre outros livros.

23 de junho de 2026

Cory Doctorow sobre a maneira certa — e a errada — de criticar a IA

Preocupar-se com a possibilidade de a IA assumir o seu trabalho é um beco sem saída, argumenta Cory Doctorow. O verdadeiro perigo é a bolha da IA: uma fantasia especulativa construída sobre a ideia de convencer chefes a substituir trabalhadores por sistemas que, na realidade, não conseguem fazer o que seus vendedores prometem.

Entrevista com
Cory Doctorow

Jacobin

Cory Doctorow sobre a política da IA: "Como escritor de ficção científica, a única coisa que sei ser absolutamente verdadeira é que o que uma máquina faz é muito menos importante do que para quem ela faz e contra quem ela faz." (Tomohiro Ohsumi / Getty Images)

Entrevista realizada por
Angela Frances Hui

À medida que a inteligência artificial prossegue em sua marcha inexorável pelas instituições humanas, sua popularidade parece estar atingindo um ponto baixo precoce. Até agora, a conduta do setor parece ter sido feita sob medida para provocar uma reação negativa. Em São Francisco, outdoors e anúncios em pontos de ônibus incitam empregadores a PARAR DE CONTRATAR HUMANOS. Trabalhadores de todo o país preparam-se para demissões atribuídas à IA, enquanto empresas do setor gastam centenas de bilhões de dólares em centros de dados ambientalmente destrutivos. Já não é possível falar com um atendente de suporte ao cliente, apenas com um chatbot que conta mentiras. Conteúdo de baixa qualidade gerado por IA está inundando feeds de redes sociais, playlists do Spotify e até mesmo periódicos acadêmicos e jornais.

O que fazer?

O autor e ativista dos direitos digitais Cory Doctorow propõe-se a responder a essa pergunta em seu novo livro, The Reverse Centaur’s Guide to Life After AI. Autor de mais de vinte livros, incluindo o sucesso de 2025 Enshittification, Doctorow é conhecido por sua escrita perspicaz e irreverente sobre as Big Techs. A Jacobin conversou com Doctorow sobre o que impulsiona a febre da IA, como ser um bom crítico da tecnologia e o que podemos fazer para nos proteger na era da IA.

Angela Frances Hui

Quero começar perguntando sobre o título do seu livro. O que é um "centauro reverso" e por que esse conceito é útil para entender a IA?

Cory Doctorow

Na teoria da automação, um centauro é alguém auxiliado por uma ferramenta. Sempre que você usa um corretor ortográfico ou anda de bicicleta, você é um centauro. Um centauro reverso é alguém recrutado para ajudar uma máquina. O exemplo que todo mundo conhece é o da Lucille Ball trabalhando na fábrica de chocolates: ela e Ethel precisam tirar os chocolates da esteira e colocá-los na caixa. O proprietário de uma máquina quer utilizá-la em sua capacidade máxima de produção, pois é assim que recupera o investimento. O ser humano — o centauro reverso — acaba sendo o elo mais lento do sistema. Então, você acelera a máquina até o limite extremo da resistência e da capacidade humana; isso significa que você não está apenas usando uma pessoa, você está exaurindo essa pessoa.

Ao conversar com as pessoas sobre IA, você encontra trabalhadores qualificados — narradores historicamente confiáveis ​​de suas próprias experiências — que dizem que o uso da IA ​​os ajuda de várias maneiras e melhora o trabalho deles. Por outro lado, você encontra outras pessoas — também trabalhadoras qualificadas e narradoras confiáveis ​​de suas experiências — que dizem que essa mesma ferramenta de IA as deixa infelizes e que não conseguem acreditar na baixa qualidade do trabalho que estão produzindo. Minha proposta aqui é que a resposta para esse dilema é que o primeiro grupo é formado por centauros, e o segundo, por centauros reversos.

Como escritor de ficção científica, uma coisa que sei ser muito verdadeira é que o que uma máquina faz é muito menos importante do que para quem ela faz e contra quem ela faz. Essa é a questão fundamental que deveríamos tentar responder ao falar sobre trabalho e automação, independentemente de estarmos falando de IA ou não.

Crítica eficaz à IA

Angela Frances Hui

Seu livro trata de como ser um crítico eficaz da IA. Pode nos contar mais sobre o que envolve uma crítica eficaz à IA e, inversamente, o que significa ser um crítico ineficaz?

Cory Doctorow

Se você acredita, assim como eu, que o aspecto tóxico da IA ​​é a bolha, então é preciso atacar a base material dessa bolha.

Existem grandes empresas de tecnologia que saturaram seus mercados ao conquistar monopólios e querem convencer Wall Street de que ainda podem crescer, pois empresas em crescimento têm uma avaliação de mercado muito superior à de empresas maduras.

Existe a ideia de que o capitalismo possui a ideologia de um tumor, no sentido de querer crescer indefinidamente. Acho que isso é um exagero, pois sugere que os capitalistas buscam manter o crescimento eterno por uma questão ideológica. Mas trata-se, na verdade, de uma base material. Empresas que param de crescer muitas vezes não sobrevivem à transição para o estágio de maturidade; elas acabam sendo absorvidas ou destruídas. Além disso, especialmente desde a década de 1950, observa-se uma tendência crescente de remunerar executivos de alto escalão — e até mesmo toda a camada gerencial — com ações. Se o preço das ações despenca, os indivíduos responsáveis ​​por essas decisões sofrem um grande prejuízo pessoal.

Como escritor de ficção científica, a única coisa que sei ser absolutamente verdadeira é que o que uma máquina faz é muito menos importante do que para quem ela faz isso e contra quem ela o faz.

É por isso que estão inflando a bolha da IA ​​— e por que inflam bolha atrás de bolha: para vender uma narrativa de crescimento. E a base dessa bolha é particularmente tóxica: trata-se de convencer outras empresas a demitir funcionários e substituí-los por chatbots, tanto porque isso reduzirá a folha de pagamento quanto porque a perspectiva de ter o emprego entregue a um chatbot exerce uma poderosa força disciplinadora sobre a mão de obra.

A bolha também terá um efeito catastrófico na economia como um todo e na situação dos trabalhadores. Não é a euforia irracional dos gestores de fundos que gera bolhas; é a aposta calculada de que, independentemente de a bolha dar lucro ou não, é possível repassar ativos supervalorizados para investidores comuns, que acabarão perdendo tudo. Quando o setor de IA colapsar, veremos a evaporação de cerca de um terço do mercado de ações, o que levará a medidas de austeridade devastadoras.

Para ser um crítico eficaz da IA, é preciso focar nas condições materiais que permitem o acúmulo de capital por essas empresas. Em vez de sair por aí dizendo "a IA pode fazer o meu trabalho", você deveria dizer: "os vendedores de IA conseguem convencer meu chefe de que uma IA — que na verdade não consegue fazer o meu trabalho — é capaz de fazê-lo". É preciso ressaltar que recorrer à IA é uma forma de fazer com que os consumidores aceitem uma qualidade inferior, culpando os trabalhadores por essa queda na qualidade e permitindo que os patrões embolsem a diferença.

Também é necessário entender a diferença entre uma demonstração de IA moralmente condenável e repugnante e uma demonstração de IA que tenha consequências materiais significativas por si só. Quando dizem "vamos substituir ilustradores comerciais por uma máquina que adivinha pixels", eles não estão afirmando que essa é a fonte dos lucros que impulsionam a bolha.

A soma dos salários de todos os ilustradores comerciais em atividade hoje não chega nem perto do orçamento gasto com kombucha em uma única rodada de treinamento do Midjourney. O que eles fazem é apenas uma demonstração espetacular para atrair o público, permitindo que falem sobre todos os radiologistas que pretendem demitir. Podemos sentir indignação e raiva disso, mas também precisamos focar na natureza material e na origem do fenômeno, em vez de ajudá-los a vender a história de um desemprego em massa causado pela substituição de trabalhadores por IA — em oposição a um desemprego em massa causado pela destruição da economia e pelo fato de os patrões serem enganados.

Quando a bolha estourar

Angela Frances Hui

Se, como você diz, o problema da IA ​​é a bolha e não a tecnologia em si, qual você vê como o futuro da IA ​​depois que a bolha colapsar?

Cory Doctorow

Tendo vivenciado várias bolhas, aprendi que, embora toda bolha seja um pecado e um crime, algumas deixam algo útil para trás. A WorldCom foi uma bolha, e o CEO que apodreça no inferno. Mas, na minha casa em Los Angeles, tenho uma conexão de fibra simétrica de 2 gigabits que a AT&T opera usando as antigas linhas da WorldCom, compradas por uma fração mínima do valor original. Isso não significa que foi bom a WorldCom ter roubado todo aquele dinheiro. Significa apenas que, daqueles escombros, conseguimos aproveitar algo.

A bolha da IA ​​deixará para trás várias coisas que serão úteis. Se você esperar o tempo suficiente, poderá comprar unidades de processamento gráfico (GPUs) por uma fração mínima do preço, contratar quantos estatísticos aplicados quiser e executar modelos de código aberto de maneiras que desafiariam a imaginação das pessoas de hoje — aquelas que os comparam a esses chamados "modelos de fronteira". E a IA continuará realizando as coisas que são genuinamente úteis. Nessas circunstâncias, poderemos organizar algo que se assemelhe mais a um "centauro" [uma colaboração humano-máquina], sem sermos soterrados por esses exageros absurdos sobre as capacidades da IA.

Angela Frances Hui

Você menciona, em seu livro, a ideia de que a IA é uma "tecnologia normal".

Cory Doctorow

Se não fosse pela bolha, chamaríamos a IA de plug-in. Nós recebemos plug-ins para nossas ferramentas o tempo todo; às vezes são úteis, às vezes não. Não decidimos reorganizar toda a economia em torno deles. Não decidimos demitir todo mundo e usar as últimas sete gotas de água potável que restam para ver até onde podemos levá-los.

O que devemos evitar é caracterizar a IA como algo excepcional — mesmo que a caracterizemos como excepcionalmente maligna. Porque há muitos investidores cuja heurística é que coisas excepcionalmente malignas são, provavelmente, excepcionalmente lucrativas. E não queremos alimentar essa narrativa de investimento.

Angela Frances Hui

Quando a bolha da IA ​​estourar e — como você prevê — esses modelos de base que exigem tantos recursos deixarem de estar disponíveis, quais dos problemas sociais atualmente associados à IA você acha que persistirão e quais deixarão de existir?

Cory Doctorow

Provavelmente ainda teremos a "psicose da IA" — aquela de que todo mundo fala, e não a psicose da IA ​​que faz seu chefe demitir você e substituí-lo por um chatbot de merda (que é, na prática, a versão com consequências mais graves). Mas aquela em que você conversa com um chatbot extremamente maleável que o convence a matar a si mesmo ou às pessoas que você ama... acho que isso continuará existindo, porque é possível configurar um chatbot local para fazer isso.

Na verdade, sempre que você estiver defendendo uma medida legislativa que agrade ao seu chefe, deve se perguntar se está do lado certo.

Ainda teremos chefes tentando substituir seus trabalhadores por automação, mas haverá muito menos pressão para isso, e não haverá todo esse capital disponível para tal. Certamente, não veremos governos propondo reorganizar suas economias em torno da IA ​​da maneira como fazem hoje. No Canadá, temos um fenômeno bizarro em que nosso primeiro-ministro nomeou um ministro da IA ​​que acredita que a forma de fazer a economia canadense crescer é gastando bilhões de dólares em centros de dados e, em seguida, demitindo o maior número possível de trabalhadores. Não acredito que essa abordagem sobreviverá à calamidade, pois penso que ela também custará muito capital social ao setor, e as pessoas estarão menos interessadas nisso do que estão agora.

Não Fique do Lado do Chefe

Angela Frances Hui

Estou curiosa sobre o papel dos modelos de IA chineses — mais baratos e eficientes — em tudo isso. Seu livro menciona que o lançamento do DeepSeek fez o valor de mercado da Nvidia cair dois terços de trilhão de dólares em um único dia. Ao mesmo tempo, algumas empresas dos EUA, como o Airbnb, começaram a usar modelos chineses, como o Qwen. Você acha que esses modelos chineses acelerarão o colapso da bolha da IA ​​ou a sustentarão?

Cory Doctorow

Fui à Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas, este ano com Ed Zitron. Ele levou alguns de seus críticos de tecnologia favoritos para zombar do evento em seu podcast. Tudo na CES deste ano era basicamente um chatbot integrado a algum objeto: um chatbot num brinquedo, num eletrodoméstico, numa parede de tijolos. Nossa pergunta para todos eles era o que fariam se a OpenAI quebrasse ou se começasse a cobrar cem vezes mais pelos tokens do que cobra atualmente. E todos disseram que migrariam para modelos chineses — o que, desde que você nunca pergunte ao seu robô companheiro sobre a Praça da Paz Celestial, pode ou não funcionar.

Mas a questão é que, se você pode usar um modelo chinês, pode usar um modelo local. O cerne da mania da IA ​​não é apenas a aposta de que se pode usar a automação para substituir um trabalhador, mas também de que essa automação pode ser propriedade exclusiva da empresa em que você está investindo. Se você consegue usar a automação para substituir um trabalhador, mas a empresa que cria essa automação não consegue capturar o valor do salário desse trabalhador dispensado, então isso é economicamente importante — e certamente importante para os trabalhadores —, mas não entendo muito bem qual é a tese de investimento aí. Se esse fosse o seu discurso para investidores, não sei de onde você tiraria os 2 ou 3 trilhões de dólares que Sam Altman diz serem necessários gastar para fazer a indústria realmente cumprir o que promete.

Angela Frances Hui

Editoras de livros, gravadoras e outras empresas de mídia vêm processando empresas de tecnologia por violação de direitos autorais, argumentando que o treinamento de modelos de IA com obras protegidas não se enquadra na doutrina de uso aceitável (fair use). Muitos escritores e artistas que conheço têm apoiado essas ações judiciais, mas seu livro argumenta que batalhas legais como essas não beneficiarão, no final das contas, os criadores. Pode nos falar mais sobre isso?

Cory Doctorow

O argumento é que as empresas de IA que utilizam obras para treinamento estão violando a legislação de direitos autorais vigente; no entanto, acredito que muitas pessoas não compreendem o quão frágil e controverso é esse argumento jurídico.

É possível dividir o treinamento de IA em três etapas — todas as quais considero, argumentavelmente, legais à luz das leis de direitos autorais, e todas utilizadas em atividades legítimas cuja existência, creio eu, agrada à maioria de nós.

A primeira etapa consiste em coletar dados da internet (scraping) e criar cópias temporárias de palavras. Se a coleta de dados na web dependesse de permissão explícita dos detentores dos direitos autorais de cada obra coletada, o Google seria o último mecanismo de busca que teríamos, pois nenhuma outra empresa teria o capital e a reputação necessários para obter tais autorizações. Também perderíamos nossos arquivos digitais. Fazer cópias — digamos, de um site corporativo antes e depois da posse do governo Trump — para observar as alterações feitas em políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), relações trabalhistas e justiça social é uma atividade de grande utilidade pública, viável apenas se a coleta de dados na web for permitida.

A segunda etapa envolve a realização de uma análise matemática da obra. No caso de um grande modelo de linguagem, isso significa contar palavras, medir a distância entre elas e verificar a frequência com que uma aparece próxima de outra — seja com uma palavra de intervalo, duas, e assim por diante. Não é necessária a permissão do detentor dos direitos autorais para extrair fatos de uma obra criativa. É possível contar todos os adjetivos nas letras de um CD ou criar um dicionário que cite onde cada palavra foi usada pela primeira vez; todas essas atividades deixariam de existir se criássemos um novo regime jurídico no qual elas exigissem permissão prévia.

Os direitos trabalhistas não surgiram porque passamos a ter legislação trabalhista. Eles surgiram porque reivindicamos esses direitos, e só então a lei veio na sequência.

E, então, a etapa final da criação de um modelo é a publicação de fatos. O software é uma obra literária; é por isso que é protegido por direitos autorais. Um modelo é uma obra literária repleta de fatos sobre outras obras literárias. Trata-se, basicamente, da proximidade de palavras em um espaço vetorial complexo, preenchido pela contagem de todas as palavras de tudo o que conseguimos encontrar. E, novamente, publicar compêndios de fatos sobre obras protegidas por direitos autorais não é algo que exija permissão legal específica.

Algumas pessoas podem discordar de mim e, mesmo aquelas que concordam com minha análise jurídica, podem se perguntar se é possível resolver nossos problemas elaborando uma lei que preserve todas essas atividades benéficas e, ao mesmo tempo, proíba a criação de modelos de IA. Minha resposta é não.

Há quarenta anos vimos expandindo o alcance dos direitos autorais. Eles abrangem mais tipos de obras e mais formas de utilização dessas obras; além disso, as indenizações legais fixadas em lei são mais altas e mais fáceis de obter. A indústria de mídia que pressionou por esses direitos autorais é maior e mais lucrativa do que nunca, enquanto a parcela da renda destinada aos profissionais criativos é a menor da história.

A resposta para esse aparente enigma é que conceder mais direitos negociáveis ​​aos profissionais criativos — em um mercado dominado por cinco editoras, quatro estúdios, três gravadoras, duas empresas que controlam todos os aplicativos e uma empresa que controla todos os e-books e audiolivros — é como dar mais dinheiro para o lanche ao seu filho que sofre bullying. Não existe quantia de dinheiro para o lanche que garanta a refeição da criança, pois os agressores acabarão tomando o dinheiro dela.

A indústria de mídia é bastante explícita quanto a isso. Quando a Midjourney foi processada pela Disney e pela Universal, recebi um comunicado à imprensa do CEO da Recording Industry Association of America (RIAA) dizendo, basicamente: "Estamos muito decepcionados pelo fato de a Midjourney ter utilizado todas essas obras criativas de empresas de mídia em vez de licenciá-las, pois poderíamos simplesmente ter feito uma parceria". Não é que as empresas de mídia não queiram usar IA para substituir profissionais criativos; o que elas querem é receber pelos dados de treinamento e, presumivelmente, estabelecer certas salvaguardas no modelo resultante.

Na verdade, sempre que você defende uma medida legislativa que agrada ao seu chefe, deve se perguntar se está do lado certo.

Quanto mais as coisas mudam...

Angela Frances Hui

Qual você acha que é a maneira mais eficaz de os trabalhadores se protegerem da IA?

Cory Doctorow

Já temos uma solução pronta para a questão dos direitos dos trabalhadores criativos: o Escritório de Direitos Autorais dos EUA (US Copyright Office) declarou repetidamente — e defendeu essa posição em litígios, chegando até a solicitar uma revisão pela Suprema Corte (certiorari) — que obras geradas por IA não têm direito a proteção por direitos autorais. Isso é algo que os trabalhadores criativos deveriam estar gritando aos quatro ventos. Se os seus investidores descobrirem que você demitiu todos os funcionários e gastou bilhões de dólares em chatbots, mas não conseguirá impedir que as pessoas vendam ou distribuam gratuitamente tudo o que você produzir daqui para frente, eles ficarão furiosos.

Há também um grupo de trabalhadores que conseguiu barrar o avanço da IA: os roteiristas de Hollywood. Eles conseguiram isso porque mantiveram o direito à negociação setorial — um modelo em que se negocia com todos os empregadores de um mesmo setor — garantido desde a aprovação da Lei Taft-Hartley, em 1947. O Sindicato dos Roteiristas da América (Writers Guild of America) e outras associações conseguiram assegurar e ampliar um conjunto de direitos trabalhistas que os trabalhadores do restante da economia — que não contam com a negociação setorial — acabaram perdendo. Portanto, se vamos imaginar a criação de uma nova lei ou nos mobilizar para aprová-la, que seja uma lei de negociação setorial. Isso ajudaria todos os trabalhadores dos EUA, e seu chefe odiaria a ideia.

Angela Frances Hui

Onde mais você vê oportunidades para os sindicatos criarem mais proteções desse tipo?

Cory Doctorow

Qualquer pessoa que se preocupe com o futuro do trabalho nos EUA acredita que os sindicatos precisam organizar mais trabalhadores e ter mais poder em nome daqueles que representam. E entendem que esse poder virá por meio de legislação, como resultado de uma luta que não começou no âmbito legislativo. Os direitos trabalhistas não surgiram simplesmente porque criamos leis trabalhistas; eles surgiram porque reivindicamos esses direitos, e a lei veio na sequência. Os tribunais e as leis não nos protegerão enquanto não nos unirmos e protegermos a nós mesmos. E essa é uma questão que a IA vai ajudar a acelerar, pois a IA representa um ataque direto ao poder dos trabalhadores; no entanto, a resposta não é diferente na era da IA ​​em relação ao que era antes de ela surgir.

Angela Frances Hui

Você acha que os trabalhadores de tecnologia, em particular, têm mais poder aqui para se organizar e conter alguns dos problemas associados à IA?

Cory Doctorow

Certamente, no sentido de que é muito difícil criar IA sem trabalhadores de tecnologia, embora os chefes do setor fantasiem que conseguirão fazer isso. Acredito que os trabalhadores de tecnologia enfrentam uma grande urgência nessa questão.

Por muito tempo, os trabalhadores de tecnologia foram a "aristocracia" da classe trabalhadora, pois eram extremamente escassos e muito, muito valiosos. Foi por isso que os chefes do setor foram tão generosos: havia outros dez chefes à porta da fábrica prontos para lhe dar um emprego caso você pedisse demissão naquele mesmo dia. Vivemos um período em que esses trabalhadores detinham muito poder, mas se enganaram quanto à origem desse poder. Eles achavam que, na verdade, não eram trabalhadores, mas sim fundadores temporariamente sem empresa ou empreendedores à espera de uma oportunidade.

Eles não se sindicalizaram quando tinham esse poder derivado da escassez, e então a escassez acabou. A oferta alcançou a demanda. Vimos meio milhão de demissões no setor de tecnologia do Vale do Silício nos últimos três anos e meio e, agora, não há dez chefes à porta da fábrica — há outros dez trabalhadores prontos para assumir o seu lugar. E sabemos como os chefes do setor tratam os trabalhadores de quem não têm medo. Não há nada na programação de computadores que impeça que alguém seja forçado a fazer xixi numa garrafa ou a trabalhar até sofrer uma lesão grave. Existe uma urgência enorme, neste momento, para que os trabalhadores de tecnologia exijam direitos que sempre foram muito frágeis e que eles, erroneamente, pensavam ser eternos.

Colaboradores

Cory Doctorow é autor de ficção científica, ativista e jornalista. Seu livro mais recente é Red Team Blues.

Angela Frances Hui é uma escritora de São Francisco e bolsista do programa Steinbeck de escrita criativa (2026-27) na San José State University.

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