30 de maio de 2021

John Stuart Mill era um socialista?

John Stuart Mill pode ter muitos fãs entre os “libertários” de direita, mas suas ideias idiossincráticas, apesar de limitadas, tinham mais em comum com o socialismo democrático do que com ideologias pró-capitalistas.

Matt McManus


Réplica de um retrato de John Stewart Mill encomendada por Charles Dikes. Foto: G. F. Watts / National Portrait Gallery

Tradução / John Stuart Mill foi o pensador liberal mais influente do século XIX. Diversos argumentos que utilizou em defesa da liberdade de expressão e da autonomia pessoal se tornaram marcos dessa tradição, e ele ainda conta com seguidores fiéis entre “libertários” de direita e autointitulados “liberais clássicos”. Logicamente, a afinidade com esses últimos rendeu a Mill vários inimigos na esquerda. Em uma célebre passagem do primeiro volume de O capital, Karl Marx repudiou a “mesmice imbecil” de autores burgueses medíocres como Mill. Anos depois, Herbert Marcuse (corretamente) o criticou por manter opiniões “elitistas”.

É uma pena pois, como Mill afirma em sua Autobiografia, seu “ideal máximo de melhoria da sociedade ia bem além da democracia e o colocaria decididamente sob a designação geral de ‘socialista’”. Não dá para ser mais explícito que isso.

No final da vida, Mill defendia o que hoje poderíamos denominar de socialismo liberal: uma ordem política que protege e expande a maior parte das clássicas liberdades liberais, mas que abandona a rigidez do direito à propriedade privada, tão cara aos primeiros liberais, como John Locke e James Madison.

O socialismo liberal de John Stuart Mill era analiticamente limitado e, em alguns aspectos relevantes – especialmente no que concerne à democratização –, profundamente falho. No entanto, é impressionante que um autor que alegadamente seria um padroeiro do capitalismo vitoriano era, na verdade, um de seus críticos mais contundentes.

Os argumentos de J. S. Mill em favor do socialismo liberal

Como ele próprio admitiu, Mill chegou tarde ao socialismo. Nascido em 1806, radicalizou-se lendo socialistas como Charles Fourier e Robert Owen e por influência de sua amiga de longa data e eventual esposa Harriet Taylor, que o pressionou a levar mais a sério a opressão às mulheres e à classe trabalhadora.

Os escritos de Mill mais importantes sobre o assunto foram as últimas edições de Princípios de Economia Política, o pequeno panfleto Socialismo e a Autobiografia. Juntos, eles expõem a crescente simpatia de Mill por reformas socialistas e uma convicção de que aqueles que “no presente [recebem] a última fatia” dos benefícios produzidos pela sociedade merecem bem mais.

Em Socialismo, ele condenou os liberais clássicos, os “niveladores dos tempos antigos”, por criticarem o poder adquirido por herança e os privilégios aristocráticos, mas fracassarem no exame das diversas formas em que a sociedade capitalista erguia desigualdades similares. Ele elogiou os socialistas como sendo os seus “sucessores de mais perspicazes” – mais consistentes na busca por garantir a igualdade material como um pré-requisito para o florescimento e a liberdade de todos.

Os argumentos de Mill em favor do socialismo eram bem diferentes do materialismo histórico de alguém como Marx. Caracterizada por afirmações morais diretas na maneira dos socialistas utópicos, a visão política de Mill era uma mistura intrigante de três elementos distintos: liberalismo clássico, utilitarismo e romantismo inglês.

Dos liberais clássicos, Mill internalizou o profundo respeito pelo individualismo e a prioridade da liberdade pessoal, mas rompeu com o “individualismo possessivo” de alguém como Locke, que acreditava que os proprietários tinham um direito natural ao lucro extraído do labor dos trabalhadores. O individualismo de Mill era bem mais igualitário. Ele manteve o utilitarismo da sua juventude – “todos devem contar como um, e ninguém como mais do que um”, nas palavras de Jeremy Bentham – que estabelecia a igualdade material e moral como o padrão do qual os desvios precisavam ser justificados.

Entretanto, Mill também se preocupava profundamente com o raciocínio excessivamente mecânico de Bentham, que reduzia os seres humanos a pouco mais que maximizadores hedonísticos de utilidade. Então, do romantismo inglês, manteve a posição segundo a qual o importante na vida não é só a busca por prazer, mas que cada um tenha a chance de se tornar a pessoa que deseja ser – que tenhamos a capacidade de seguir nossas “forças internas” e expressar nossa individualidade por meio de experimentos de vida cada vez mais diversos.

O que temos em Mill, portanto, é um individualismo igualitário e expressivo que se distancia bruscamente de Locke ao sustentar que a todos os indivíduos deve ser assegurada a capacidade de viver uma vida boa; e não apenas aos proprietários, que se tornam ricos por viverem às custas do trabalho alienado dos trabalhadores.

Mill se baseou nessas convicções filosóficos para sustentar que a sociedade capitalista era fundamentalmente defeituosa. Embora sua produtividade material fosse inegável, ele acreditava que o capitalismo falha miseravelmente na distribuição equitativa de recursos - e que o sistema se presta a apologias neo-lockeanas sobre as virtudes de "capitalistas esforçados" e os vícios dos pobres.

Mill não admitia nada disso. Em seu favor, ele reconhecia que a maior parte das razões que explicavam por que as pessoas ficam para trás na sociedade capitalista nada tem a ver com esforços pessoais - e que mesmo se os capitalistas fossem mais capazes e mais esforçados, isso não justificaria permitir que milhões de pessoas definhassem na pobreza.

Em Socialismo, Mill ofereceu uma visão devastadora desse tipo de raciocínio, invocando os mais autocráticos dos tiranos antigos:

Se algum Nero ou Domiciano exigisse que cem pessoas participassem de uma corrida pelas próprias vidas, sob a ameaça de que os últimos 50 ou 20 a chegar seriam mortos, não serviria de alívio o fato de que, exceto por algum acidente inesperado, os mais fortes ou mais ágeis certamente escapariam da morte. A miséria, o crime é o fato de que haveriam pessoas executadas, para início de conversa. O mesmo ocorre na economia de uma sociedade: se há qualquer pessoa sofrendo com privações físicas e degradações morais [...] isso é, em certa medida, uma falha dos arranjos sociais; e afirmar, como forma de minimizar esse mal, que aqueles que sofrem são, física ou moralmente, os membros mais fracos da comunidade, é adicionar insulto à essa desgraça.

As limitações do socialismo de Mill

Mill conclui Socialismo argumentando que uma sociedade liberal justa deveria experimentar diferentes tipos de organizações socialistas para melhorar a situação dos menos favorecidos. Ele nunca elaborou um trabalho sistematizado explicando quais deveriam ser esses experimentos, mas, nas últimas edições de Princípios de Política Econômica, endossou a superioridade de cooperativas de trabalhadores perante firmas administradas por capitalistas e insistiu que não havia "nada, em princípio, na teoria econômica" contra experimentos com formas de organização e princípios socialistas. Ele também sustentou que o Estado deveria ajudar a garantir oportunidades econômicas mais igualitárias a todos e fornecer uma gama de serviços públicos, especialmente educação.

Curiosamente, ele foi um dos primeiros entre os principais escritores liberais ou socialistas de maior projeção a levar a sério a questão da igualdade das mulheres e, em A sujeição da mulher, chegou a escrever que as reformas deveriam ir além de simplesmente assegurar os direitos políticos liberais às mulheres. Instituições patriarcais como a família, escreveu ele, deveriam passar por um escrutínio e serem remodeladas.

Seu histórico foi menos admirável quanto à questão da democracia. Mill tinha alguns instintos democráticos: defendeu o sufrágio universal em Considerações sobre o governo representativo e, como membro do parlamento britânico, demandou a concessão do direito de voto não apenas aos trabalhadores homens, mas às mulheres também. Algumas de suas preocupações com relação ao princípio democrático - por exemplo, o potencial de uma maioria tirânica oprimir as minorias - permanecem válidas.

Mas ele também estremecia diante da perspectiva de que os incultos e pouco inteligentes participassem demais da política e apoiou o colonialismo britânico, olhando com condescendência os não-europeus sujeitados ao seu império. Ele pareceu não entender como a persistência de instituições e atitudes paroquiais mantinha as desigualdades que ele frequentemente criticava.

Isso se relaciona com a segunda maior limitação do socialismo liberal de Mill: sua interpretação insossa do poder. Mill se limitava a desenvolver argumentos morais em prol do socialismo liberal. Inegavelmente convencido de que esse seria o arranjo social correto, ele acreditava que a persuasão moral era a forma de concretizá-lo. Ele parecia obstinadamente pouco interessado em analisar a dinâmica do poder do Estado liberal burguês, sua história, e a maneira como as potências imperiais como o Reino Unido trabalhavam para espalhar o capitalismo por meio da força bruta. Ele não foi capaz de ponderar quais atores sociais poderiam ter o poder e o interesse em alcançar uma ordem socialista liberal.

Mill estava ciente de que a concentração de poder político nas mais do capital ou dos endinheirados mina reformas igualitárias e até reconheceu que, instituições aparentemente privadas, como a família patriarcal, são definidas por uma dinâmica de poder desigual que requer correções. No entanto, ele simplesmente não teve interesse em contemplar uma democratização mais completa da sociedade, ainda que ela pudesse destruir várias estruturas de poder coercitivas.

Sobre essas questões, alguém como Marx é nitidamente um analista bem mais perspicaz e mais útil que Mill.

O valor de Mill

Mill foi um pensador complexo que foi reiteradamente arrastado em múltiplas direções. Ao invés de escolher um caminho e se manter firme nele, a resposta dele era normalmente tentar sintetizar os melhores elementos de tradições contraditórias em um todo homogêneo. Em nenhum lugar isso ficou mais nítido do que na sua versão de socialismo liberal, que unia o comprometimento do liberalismo com o individualismo e a igualdade moral às demandas socialistas por igualdade econômica e democracia no local de trabalho.

Atualmente, qualquer socialismo liberal precisaria ser mais abrangente no que diz respeito aos compromissos democráticos e mais astuto na sua análise do poder nas sociedades capitalistas. Mas Mill de fato fornece uma plataforma a partir da qual é possível pensar mais cautelosamente sobre a relação entre as grandes doutrinas modernistas do liberalismo e do socialismo e como elas poderiam ser conciliadas.

No mínimo, nós da esquerda não deveríamos permitir que "libertários" de direita e liberais clássicos o reivindiquem como um deles sendo que Mill se considerava um socialista e não carregava nada além do desprezo para os defensores da desigualdade e da exploração capitalista.

Então... que tal algumas palmas para J. S. Mill?

Colaborador

Matt McManus é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".

29 de maio de 2021

Colômbia e os sinais de uma crise orgânica

A profunda crise de regime pela qual a Colômbia está passando tem semelhanças com o fenômeno que Gramsci chamou de "crise orgânica". Pensar sob esse ângulo esclarece a situação atual do país, mas, ao mesmo tempo, traça possíveis estratégias para a construção de ações autônomas das classes subalternas.

Jacobin

(Juan Barreto / AFP vía Getty Images)

A contundência com que a Greve Nacional surgiu e se sustentou ao longo do tempo fala de uma crise com raízes sistêmicas e estruturais que não pode ser superada ou resolvida com ações imediatas ou parciais. No máximo, talvez o regime possa esperar encontrar alguma medida que acalme temporariamente as contradições que surgem de trinta anos de neoliberalismo. Mas apenas temporariamente; não definitivamente. E é que o que expressa o influxo e a persistência das mobilizações é mais profundo: o que as despertou - o repúdio à reforma tributária - não esgota o descontentamento da população.

A Colômbia já saía de um processo de mobilização no final de 2019, o que surpreendeu igualmente pela força com que se desencadeou. Tanto essas como as manifestações atuais denotam uma situação latente que pode ser pensada como uma indicação de uma crise orgânica. E é precisamente que se as mobilizações se restabeleceram no início deste ano, é porque as condições que lhes deram origem em 2019 permanecem inalteradas. Em linhas gerais, essas condições podem ser concebidas em torno de dois pontos: 1) a crise da hegemonia política do uribismo e 2) a fratura do modelo econômico neoliberal.

Ambos os fatores condicionam um ao outro. Por um lado, devido à postura estatista do uribismo; de outro, pelos efeitos históricos que o neoliberalismo teve nas sociedades latino-americanas, exacerbando os problemas sociais, humanitários e econômicos que a pandemia de COVID-19 imprevisivelmente trouxe consigo. É nessa triangulação dos fenômenos sociais que encontramos a magnitude da crise socioeconômica e política que a Colômbia vive hoje.

O uribismo como lugar de consenso e representação das classes dominantes deixa de ter a liderança das classes outrora subordinadas, não tendo escolha senão apelar para a dominação pura e bruta expressa na força repressiva das armas. Essa é a estratégia que o governo escolheu até agora, mesmo quando se mostrou totalmente malsucedido em reconquistar a obediência das massas. Conseqüentemente, não cumpre mais a função de direção cultural e moral da sociedade, pois deixou de ser senso comum.

Mas essa ruptura tem dois outros componentes que Gramsci concebe em qualquer crise orgânica: primeiro, o fracasso da classe dominante em um empreendimento político que pode ser exemplificado com a reforma tributária fracassada, onde grandes mobilizações demonstraram ao uribismo seu erro grosseiro. E de onde ele obteve uma rejeição firme, quase como o golpe final de sua decadência. Em segundo lugar, estamos testemunhando a iniciativa popular de massa: da passagem da passividade política a um certo ativismo social que, espontânea e popularmente, contagia a maioria da população. Esses dois componentes se combinam para moldar a realidade colombiana hoje: o retrocesso político da classe dominante e uma politização espontânea das massas que promove uma divisão com a classe que detém a liderança política e cultural.

Há, então, o encontro de dois elementos: o econômico-objetivo e o ético-subjetivo. O que há é uma demarcação com os representantes políticos tradicionais e seus radiodifusores ideológicos (a população colombiana também está cobrando seu preço na mídia e em alguns artistas por sua mornidão e indiferença para com o país). Mesmo amplos setores das classes médias, que por tanto tempo se moveram a favor das ideias do uribismo, se voltaram para desafiá-lo.

Portanto, a Greve Nacional não é algo casual ou temporário. Embora o gatilho para as manifestações tenha sido a reforma tributária apresentada pelo governo, esta nada mais foi do que a válvula de escape para um incômodo que já estava contido há muito tempo na população. A rejeição da reforma tornou-se o principal slogan que reuniu diversos atores da sociedade que se uniram em uma voz coletiva de apoio e resistência. Mas o impulso, a força e a rápida propagação que as manifestações depois do 28 de abril tiveram de forma espontânea e sem diretriz de nenhum partido ou organização política são dados pelo esgotamento experimentado pelas maiorias sociais diante do modo de vida neoliberal.

Hoje a Colômbia é um acúmulo de descontentamento que encontrou no desemprego o momento propício para dar vazão à raiva e indignação diante das desigualdades e injustiças sofridas pelos setores mais vulneráveis ​​da sociedade (aqui a semelhança com as manifestações que eclodiram no Chile em outubro de 2019, quando o presidente Piñera promoveu o "tarifazo" e encontrou uma retumbante mobilização popular como resposta).

A irrupção da subalternidade

Com subalternidade nos referimos a um conjunto heterogêneo de grupos e classes sociais que amplia a denominação clássica de proletariado ou assalariado, aludindo àqueles atores que, sem necessariamente estar vinculados a uma organização política, em determinado momento se rebelam contra um regime, que na visão gramsciana do passado constitui "um fato de valor inestimável". Jovens, estudantes, assalariados, camponeses, indígenas, caminhoneiros, taxistas, grupos de mulheres, dissidentes sexuais, entre outros. Todos os atores subalternos aparecendo nas ruas expressando seu descontentamento.

O chamado à marcha está relacionado com surtos de insubordinação popular que surgem espontaneamente por iniciativa de diferentes grupos sociais. Mesmo aqueles setores da sociedade que não costumam se manifestar têm aderido às marchas ou implantado algumas ações particulares em apoio à greve. Assim, deram um passo da subordinação ao reconhecimento da própria subordinação, pois respondem a uma situação que concebem injusta.

As expressões de descontentamento e desobediência civil se tornaram massivas e se espalharam como fogo em um pavio encharcado de gasolina. Elas surgem "naturalmente" de pessoas comuns. Não são ações premeditadas ou dirigidas; as centrais sindicais apenas citaram algumas manifestações. A partir daí, a irrupção de sucessivos cacerolazos, marchas diurnas e noturnas em departamentos, cidades e bairros surgiram de uma dinâmica da sociedade civil, configurando um verdadeiro transbordamento democrático. As pessoas “a pé” se apropriam do momento e cada uma se torna protagonista, na melhor das suas possibilidades, do momento inusitado que vivemos.

O que esses eventos demonstram é um desejo de transformação e uma ruptura com a ordem estabelecida. Claro, de forma instintiva e incipiente, e em certos setores da população. Mas está fermentando com força e pode levar a ações e projetos políticos que realmente viram o jogo na política colombiana. Agora, para isso, o elemento espontâneo deve ser considerado e interpretado em toda a sua potencialidade. Porque denota que o desejo de transformação começa a assumir a forma de uma necessidade histórica e orgânica, que não é uma demanda externa e mecanicamente interposta, nem é a palavra de ordem de uma minoria intelectual iluminada ou de algum partido político de esquerda ou progressista. Nas palavras de Gramsci, "não é algo arbitrário, artificial [mas] historicamente necessário".

Desafios do movimento social

Mas acontece que a rejeição às formas tradicionais de representar e explicar a realidade carece, por sua vez, de um novo tipo de organicidade. Em outras palavras, faltam líderes, organizações ou partidos para assumir a liderança política dessa subalternidade mobilizada. Quando alguns setores insatisfeitos passam da passividade à expressão política, o fazem carregando muitos erros, equívocos e inadequações próprias da inexperiência e da ausência de formação política. E isso pode levar a ações imediatas e mal calculadas.

Embora reconheça o papel da espontaneidade nas manifestações recentes, os desafios que ela acarreta também devem ser considerados. Uma delas consiste em lidar com seu caráter niilista: a crítica e a rejeição ao que existe tem dado às marchas uma visibilidade muito forte; porém (e aqui entra em jogo a retirada do uribismo com a retirada da reforma e a concessão de certos acordos, prevendo seu descrédito nas eleições de 2022), o verdadeiro desafio é liderar e direcionar o enorme descontentamento social que se desencadeou. Quais são os passos a dar, ou mesmo explorar, para superar o mero desafio? Em outras palavras, como politizar a raiva e a indignação? Sob quais slogans, propostas ou estratégias a mobilização das massas será justificada e promovida? Qualquer que seja a orientação, uma questão é certa: essas questões e as decisões que envolvem não são mais resolvidas espontaneamente.

A qualificação política continua a ser a pedra no sapato das mobilizações sociais do século XXI. Dos Coletes Amarelos na França à Primavera Árabe, passando pelo Chile, as mobilizações são muitas vezes inundadas por um espírito anarquista que rejeita todas as formas de representação política, rejeita os partidos de esquerda e desafia alguns atores políticos que até mesmo expressaram seu apoio a lutas sociais.

Em muitas ocasiões, esse desprezo se justifica pela incapacidade de alguns partidos em assumir as transformações a partir da esfera estatal. No entanto, a negação de tais atores só pode permanecer nisso: um niilismo incapaz de propor a construção de um projeto político alternativo que eles negam. Nesse sentido, sofrem de um vácuo estrutural de poder, de um claro horizonte organizacional e estratégico. A questão é que tal problema não seria tão urgente de abordar se não fosse pelo fato de que é precisamente neste vácuo político que as classes dominantes desenvolvem suas manobras reacionárias.

Essa é a atitude dos manifestantes colombianos desde as marchas de 2019 até o presente. Como nos exemplos citados, na Colômbia também existem amplos setores que rejeitam líderes políticos e partidos de todos os tipos. A questão que se deve colocar, então, é se essa independência pode se sustentar indefinidamente e esperar para concretizar as mudanças desejadas independentemente da articulação do movimento nas organizações políticas que incorporam nas instituições as diversas demandas das lutas sociais.

Os protestos, por maiores que sejam, chegam a um ponto de exaustão. O mesmo ocorre com o espírito combativo das pessoas quando não se constroem formas organizacionais que canalizem suas demandas pelo positivo. Assim, momentos de efervescência social acabam frustrados.

Ajustes intrassistêmicos

Diante das dificuldades de organização autônoma das massas, o que pode acontecer é que o descontentamento social seja canalizado por partidos que se autodenominam progressistas, de centro, centro-esquerda ou liberais (como Alianza Verde, Polo Democrático, Colombia Humana ou Dignidad, para citar os mais representativa para o caso colombiano). Eles configuram todo um espectro político que integra o que pode ser concebido como um "reformismo vertical", ditado de cima pelo aparelho de Estado, sem cultivar uma relação orgânica com a sociedade civil. São atores que têm em comum o culto ao Estado e que o concebem como palco principal da disputa pelo poder político e pela transformação social. Nisso, eles se assemelham muito a uma forma do que Gramsci chamou de "estatutários".

A definição do poder político que esses atores exercem é a acumulação de cargos no Estado. E embora essa não seja uma abordagem errada ou um objetivo secundário, acaba se revelando um caminho um tanto precário para a construção de uma política genuinamente subalterna. Além disso, algumas organizações ou figuras políticas dessas tendências correm o risco de serem utilizadas pelas classes dominantes para se reciclarem. Para salvar o que é possível do regime em crise e evitar uma irrupção de baixo que direcione suas forças para uma ruptura radical com o sistema econômico e político.

Continuando com Gramsci, nessas circunstâncias a classe fundamental intervém para decapitar a direção política e ideológica das classes subalternas. Seja pelo transformismo, que se caracteriza por absorver os representantes que emergem das massas populares na classe política conservadora, mutilando potenciais lideranças das classes subalternas, seja pelo cesarismo ou bonapartismo, que supõe um acordo entre classes para restabelecer a hegemonia da classe fundamental baseada em concessões e pactos.

A saída cesariana é mais provável no caso colombiano. Uma opção pela qual, diante da ameaça de crise, a pequena e média burguesia "se apoderam do Estado e mantêm o bloco histórico existente em benefício da classe fundamental". Desta forma, o sistema não muda no seu essencial: a burguesia mantém a direção econômica, e a única coisa que muda é o lugar da pequena burguesia, que deixa de ser uma classe auxiliar que serve de base social e canteiro de quadros para as classes dominantes; que não é mais um apêndice do bloco histórico, mas ocupa um lugar preponderante no aparato estatal. É aqui que alguns partidos reformistas podem desempenhar um papel importante, ambíguos em seu apoio à mobilização, mas muito determinados quando o uribismo os chama para "dialogar".

Construir alternativa

Mas há um aspecto em tudo isso que não deve ser esquecido: a profundidade das raízes em que se baseia a atual crise na Colômbia fará com que seus efeitos persistam no tempo. É possível que os esforços conjunturais das lideranças possam contê-la momentaneamente. Na melhor das hipóteses, eles serão capazes de abafá-la; mas não para eliminá-la: "uma crise orgânica não é um fenômeno efêmero ou repentino. É uma situação que pode durar um longo período histórico, dezenas de anos".

É de se esperar uma sucessão de períodos instáveis ​​de confronto e correlação de forças entre as classes. Embora no imediato possa haver uma solução do tipo cesarista, não será uma solução definitiva para a crise orgânica, mas sim um capítulo de confronto, expressão da tensão entre a velha e a nova sociedade, na qual a primeira recorre a todos os tipos de manobras para impedir o desenvolvimento do segundo.

As classes subalternas da Colômbia têm a tarefa urgente de se organizar politicamente. E o tempo de instabilidade aberto pode fornecer algumas opções. Claro, a esta altura ficamos tentados a dizer que isso deve ter uma configuração profundamente social e popular; que não pode ser apropriação dos partidos existentes (progressistas ou de centro-esquerda); que deve ser o contrário: uma criação autônoma que, a partir da sociedade civil e das diversas demandas existentes, reconheça seus melhores porta-vozes e representantes para formar novas lideranças e desenvolver os debates políticos necessários para traçar estratégias organizacionais e criar agendas que contenham o espírito do mobilização.

Idealmente, isso certamente seria a coisa certa a fazer. Mas é preciso entender a complexidade que envolve a construção de um projeto político com tais características na Colômbia. E aqui não podemos nos enganar: o conflito armado que tanto pesou em nossa história se enraizou social e culturalmente na reação violenta e paramilitar que é sempre uma opção para os grupos dominantes mais reacionários. Para que qualquer tentativa de mudança não seja aniquilada, é um pré-requisito o desmantelamento dos laços institucionais e estatais entre os paramilitares e os sindicatos econômicos.

Para tanto, é quase essencial ser companheiro de viagem de atores políticos do setor progressista. Essa unidade é o que vai permitir o desmantelamento das lideranças militares e policiais e o fortalecimento do Jurisdição Especial para a Paz (JEP). Aquela que possibilitará o desmantelamento das redes paraestatais e o julgamento de seus promotores. Que, em suma, pode aspirar a transformar a cena política colombiana em favor da manifestação popular. Mesmo tendo em mente os riscos e contradições da saída cesarista, no curto prazo (e dada a magnitude da ameaça direitista que se aproxima) tal opção torna-se inevitável.

Um acordo dessas características não contradiz diretamente a construção conjunta do setor progressista e dos movimentos sociais, mas implica uma mudança nas concepções políticas dos primeiros. Em aliança com setores progressistas, os movimentos sociais poderiam gerar as condições para o fortalecimento territorial de suas organizações, a implantação de assembleias, círculos, etc. que servem como um laboratório para lideranças em potencial que podem levar a processos de mudança mais profundos no futuro. Bem, se realmente faz sentido histórico, a transformação da sociedade não se reduz a um mandato presidencial.

Sobre o autor

Socióloga e coordenadora do seminário “Páginas de Marx” da Escola de Pensamento Crítico dos Mestres da Suspeita - Fundação Entrelíneas.

Como Joseph Stalin se tornou um bolchevique

Stalin: Passage to Revolution de Ronald Suny traça a trajetória de Josef Stalin desde sua infância na Geórgia até a Revolução Russa em 1917. Em uma entrevista, Suny explica as especificidades do movimento socialista georgiano, o papel de Stalin na revolução e por que o stalinismo era "sangrento, implacável" e "o nadir da experiência soviética".

Uma entrevista com
Ronald Suny

Jacobin

O jovem revolucionário russo e líder político Josef Stalin em 1915. (Hulton Archive / Getty Images)

Joseph Stalin está tendo um momento. Ele é atualmente mais popular na Rússia do que em qualquer momento desde o colapso da União Soviética, graças a uma campanha de reabilitação do presidente russo Vladimir Putin. A Morte de Stalin foi um dos filmes mais aclamados dos últimos anos. E em certos setores da internet, o jovem Stalin não é considerado um dos maiores monstros da história, mas um de seus maiores gostosões.

Ronald Suny dedicou sua vida ao estudo da história da União Soviética e dos países do Sul do Cáucaso. Seu livro mais recente é a tão esperada biografia Stalin: Passage to Revolution, que narra a transformação de um menino georgiano sensível chamado Iosib "Soso" Djugashvili no homem conhecido mundialmente como Stalin. Suny traz uma riqueza de material histórico anteriormente indisponível para analisar o início da vida de um revolucionário em ascensão, bem como as provações e tribulações do movimento social-democrata do Império Russo. Ele também lança luz sobre o legado subestimado dos social-democratas da Geórgia, que desempenharam um papel de liderança nas revoluções de 1905 e 1917 e estabeleceram uma república independente liderada pelos mencheviques em 1918-1921.

Suny conversou com o editor contribuinte da Jacobin, Chris Maisano, sobre a formação de Stalin, as contribuições pioneiras da social-democracia georgiana e como os socialistas de hoje deveriam ver o legado de Stalin.

Não há falta de material sobre Stalin por aí. O que o motivou a escrever este livro em particular?

Ronald Suny

Cerca de trinta anos atrás, eu me perguntei como poderia fazer com que as pessoas se interessassem pela área em que investi tanto da minha vida. Isso é o que agora chamamos de Cáucaso do Sul, os países que hoje são Armênia, Geórgia e Azerbaijão. Esta era uma área obscura e distante, muito complexa de entender, e eu havia sofrido o suficiente para aprender as línguas da região. Sou armênio por herança, mas nasci nos Estados Unidos, então armênio não era minha língua nativa. Meus pais falaram isso, mas não para mim. Aprendi isso na pós-graduação.

Depois fui para a Geórgia. Aprendi georgiano, o que é muito difícil. E, no momento, estou trabalhando para aprender turco. Demorou muito para fazer tudo isso. Então eu percebi, e se eu realmente escrevesse sobre Stalin, a figura mais importante nessa área, e usasse isso como o que Alfred Hitchcock chamou de "MacGuffin", um truque para colocá-los na história? Essa foi uma motivação.

A segunda, como qualquer um de meus alunos em Michigan, ou antes em Oberlin ou na Universidade de Chicago, saberia: Tenho grande interesse em socialismo, marxismo, movimento trabalhista, social-democracia russa e assim por diante. Essas são as duas coisas que me levaram a abordar este assunto. Provou ser muito bem-sucedido, embora tenha demorado muito, porque você tem aquela figura central que pode acompanhar por essa história muito complexa e mutante, desde aproximadamente seu nascimento, em dezembro de 1878, até a revolução em 1917. Esta é a história do jovem Stalin, a construção do revolucionário. Talvez, se eu viver o suficiente, escreverei o segundo volume. Veremos. Inshallah.

Por que demorou tanto? Quando comecei a escrever na década de 1980 e assinei meu primeiro contrato, percebi que a União Soviética estava mudando (embora eu não soubesse que ela iria entrar em colapso). Então os arquivos começaram a ser abertos. Então, deixei de lado para escrever alguns outros livros: The Soviet Experiment, They Can Live in the Desert but Nowhere Else: A History of the Armenian Genocide, The Revenge of the Past, uma série de outras coisas. Depois voltei para Stalin e trabalhei nos arquivos da Rússia e da Geórgia, e na Armênia, e obtive o livro que você vê hoje.

Chris Maisano

Como você disse, o livro cobre desde seu nascimento até a revolução de 1917, o jovem Stalin. O que é diferente em sua abordagem do que, digamos, a de Simon Sebag Montefiore, cujo livro, Young Stalin, cobre o mesmo período de sua vida?

Ronald Suny

Eu conheci Simon Sebag Montefiore em um café em Kensington, em Londres, uma vez. Ele disse: "Então, no que você está interessado e por que está escrevendo este livro?" Isso foi antes de seu livro ser lançado. E eu disse: "Oh, estou interessado no movimento trabalhista, marxismo, social-democracia, revolução." E ele me disse: “Que bom. Estou interessado nas mulheres deles." Então pensei: “Bem, tudo bem, temos uma ótima divisão de trabalho”.

Montefiore escreveu um livro muito legível. Há muitas coisas boas nele. Ele mesmo não foi aos arquivos, não conhece georgiano e nem mesmo tenho certeza de quão bom é o russo dele. Mas ele trabalhou lá e conseguiu muito material, parte dele totalmente novo. Isso foi bom para mim. Mas seu livro é um livro popular. É um pouco, no meu gosto, sensacionalista. Stalin é um bandido, um gangster, um mulherengo, até mesmo um pedófilo no livro. Em todas essas formas, é um tipo diferente de livro, e não lida com os escritos jornalísticos de Stalin, sua teoria das nacionalidades (que é a chave para seu sucesso), as complexidades e nuances da social-democracia russa.

Meu livro é basicamente um livro acadêmico, mas tentei escrevê-lo de uma forma acessível. Qualquer pessoa inteligente pode ler o livro e entender o que está acontecendo. Mas é baseado nas convenções dos estudos históricos, que procuram anomalias e lidam com contradições. Tudo é baseado em evidências. Foi assim que decidi fazer o livro. Stephen Kotkin, em Princeton, escreveu dois dos que serão três ou quatro volumes sobre Stalin, mas negligencia em grande parte o período anterior da vida de Stalin. Ele tem algumas das fontes convencionais, mas não está interessado nas complexidades desse movimento ou na psicologia inicial de Stalin. Então eu pensei que havia um espaço para esse tipo de livro, a feitura do revolucionário, a passagem para a revolução.

Chris Maisano

Uma das coisas que realmente se destacam em seu livro é quantas das principais figuras do movimento social-democrata do Império Russo vieram da Geórgia. Por que a Geórgia, um país isolado com uma classe trabalhadora industrial muito pequena, foi um dos maiores redutos da social-democracia?

Ronald Suny

Em geral, muitas pessoas pensam que existe uma tendência natural de se mudar de um império para uma nação. Ou seja, que você desenvolve um senso de quem você é como nação, se revolta contra o colonialismo e cria seu novo estado. Então, seria de se esperar que o movimento nacionalista na Geórgia fosse o mais poderoso. E havia um movimento nacionalista e havia intelectuais nacionalistas, poetas e escritores muito importantes como Ilia Chavchavadze, Akaki Tsereteli e assim por diante.

Mas o que é muito interessante é que, na década de 1890, certos intelectuais georgianos, muitos dos quais saíram do mesmo seminário ortodoxo religioso por que passaria Stalin, migraram para a Polônia e para a Rússia e voltaram com o que era então a filosofia mais revolucionária, progressista, ocidental e modernizante: o marxismo. O Partido Social-democrata Alemão era considerado o partido mais progressista da Europa na época. Eles trouxeram essa mensagem de volta, e ela se aplicava perfeitamente à Geórgia para eles.

Na Geórgia, havia uma sociedade predominantemente camponesa, uma pequena classe trabalhadora com artesãos e alguns operários, e os operários tendiam a ser russos ou armênios, em vez de georgianos. Você tinha uma pequena aristocracia, em grande parte georgiana, no topo, e depois uma classe média de empresários que era em grande parte armênia. E então você tinha o oficialismo russo, com a autocracia no topo e seus oficiais nas forças armadas. Essa era a estrutura social da Geórgia na década de 1890. Então, esses jovens marxistas como Noe Zhordania, que se tornou o líder do movimento, voltaram para a Geórgia e aplicaram uma análise marxista ao país. Em vez de dizer que nossos inimigos são russos ou armênios, que é a posição dos nacionalistas, esses marxistas disseram que nosso inimigo era a autocracia e o regime opressor, não os russos em si. E eles eram contra o capitalismo e a burguesia, não os armênios em si.

Então, eles transformaram o que poderia ter sido uma oposição mais etnicamente orientada para um tipo de classe ou oposição social. Funcionou muito bem, porque a Geórgia, como a maioria dos países, é uma sociedade multinacional. Surpreendentemente, talvez, ela logo deixou de ser a ideologia dessa elite intelectual para se tornar o movimento de libertação nacional dos georgianos.

Então aconteceu uma coisa muito estranha e interessante. Logo após a virada do século, em 1902, os camponeses locais de um lugar chamado Guria, no oeste da Geórgia, se revoltaram contra seus proprietários. Alguns social-democratas disseram: “Devíamos nos envolver neste movimento”, mas outros disseram: “Meu Deus, somos marxistas, somos pela classe trabalhadora. Os camponeses são atrasados, são pequeno-burgueses e não dá para ter um movimento revolucionário com os camponeses. Eles se tornarão nossos inimigos como fizeram em 1848 e 1871 com a Comuna de Paris. De jeito nenhum."

Mas, eventualmente, esses marxistas georgianos - que mais tarde se tornaram mencheviques, a ala mais moderada do Partido Social-democrata do império - se uniram a esses camponeses revolucionários. O movimento foi iniciado pelos camponeses, que procuraram lideranças. Os marxistas se tornaram os líderes, e de repente o marxismo georgiano, mais tarde menchevismo georgiano, tinha uma base popular, muito maior do que o menchevismo em qualquer outro lugar do império.

Assim, depois de 1905, quando o czar russo concedeu e deu ao povo uma duma, um parlamento, a facção socialista dominante naquele parlamento eram os mencheviques georgianos. Eles se tornaram líderes da facção social-democrata na Duma e, mais tarde, os líderes da revolução russa de 1917 após fevereiro, até que os bolcheviques assumiram no final daquele ano.

Chris Maisano

É justo dizer que o movimento georgiano antecipou, de certa forma, alguns dos movimentos de libertação nacional que mesclaram socialismo e nacionalismo no final do século XX na China, Vietnã ou Cuba? Obviamente, existem muitas diferenças entre a Geórgia e esses outros países, mas os paralelos são impressionantes.

Ronald Suny

Absolutamente certo. Na verdade, esta é a primeira vez que encontrei marxistas liderando ou participando significativamente de um movimento camponês. O que então, como você diz, no mundo extra-europeu se torna mais um modelo. Devo também enfatizar que, de todos os socialdemocratas russos, foi na verdade Vladimir Lenin, o líder da facção bolchevique, quem estava mais disposto a se aliar aos camponeses pobres - ao contrário dos mencheviques russos. Portanto, havia uma diferença clara entre os mencheviques russos e georgianos ali.

Os mencheviques russos queriam se aliar aos liberais burgueses e estavam preocupados em assustá-los e da reação. Lenin não queria se aliar aos liberais burgueses e disse: “Não, não tenha medo disso. Vamos nos aliar ao campesinato pobre e à classe trabalhadora. Teremos uma coalizão democrática das classes mais baixas e podemos fazer uma revolução dessa forma.”

Chris Maisano

Você mencionou anteriormente que muitas das principais figuras da social-democracia georgiana passaram pelas mesmas instituições que Stalin passou, ou seja, este seminário religioso em Tiflis. O que fez deste seminário uma fábrica de revolucionários? Tenho certeza de que esse não era o objetivo das pessoas que o dirigiam.

Ronald Suny

Sim, o Seminário Ortodoxo de Tbilisi (ou Tiflis) era uma espécie de fábrica, como você disse, de revolucionários. Sua missão era produzir padres, e isso é o que a mãe de Stalin queria que ele se tornasse, mas na verdade produziu revolucionários. Não é difícil explicar por quê. Em primeiro lugar, o seminário era dirigido pelos padres ortodoxos russos mais implacáveis ​​e repressivos que desprezavam os georgianos e pretendiam "russificá-los". O georgiano não tinha permissão para ser falado amplamente e houve uma espécie de impulso anti-nacional a esta instituição.

Quando Stalin foi para o seminário, ele era na verdade uma espécie de romântico nacionalista georgiano. Ele escrevia poesia, amava cantar, amava a música georgiana. Por meio de sua educação lá, sua própria nacionalidade parecia ameaçada por aqueles padres russificantes que chamavam os georgianos de cahorros, e chamavam sua língua de linguagem canina. Isso tudo levou muitos dos estudantes a se oporem não apenas à educação religiosa, mas também ao regime, e eles encontraram uma solução para seu dilema no movimento que esses outros intelectuais e ex-seminaristas pregavam na Geórgia, a saber, o marxismo.

Chris Maisano

Como exatamente Stalin fez essa transição do nacionalismo georgiano romântico para o social-democrata, e não apenas um social-democrata, mas também um bolchevique?

Ronald Suny

Minha biografia não é psicanalítica. Não adotei uma espécie de ponto de vista freudiano, porque não acho, como historiador, que posso psicanalisar Stalin cem anos depois do fato. Mas você não faz biografia sem psicologia. Você tem que descobrir, por seus escritos e ações e pelo que outras pessoas disseram sobre ele, qual era sua mentalidade, tanto quanto podemos determinar. Existem partes do cérebro e da mente que estão fechadas para os historiadores, mas fazemos o melhor que podemos.

O que descobri foi que a rigidez e a repressão do seminário ortodoxo criaram nos jovens georgianos uma espécie de alienação, ou o que chamo de crise de dupla realização. Eles eram, como Stalin, pobres e socialmente periféricos. Era difícil sobreviver naquele ambiente. Em segundo lugar, eles estavam sendo desafiados não apenas pelos preconceitos sociais e de classe, mas pelos preconceitos étnicos promovidos pelo regime. Portanto, para se tornarem eles próprios como indivíduos e para se tornarem totalmente georgianos, eles tiveram que se voltar contra o regime.

Stalin encontrou um herói em um romance chamado The Patricide, de um escritor chamado Aleksandre Qazbegi. O herói da história é Koba, um bandido feroz que vive nas montanhas e se vinga de quem cometeu injustiças contra o povo. A vingança é uma forma de restabelecer uma ordem justa, livrando-se daqueles que quebraram as formas tradicionais de justiça e equidade. Então, ele assumiu o apelido de Koba, e amigos próximos o chamaram assim até o fim da vida.

Para realizar suas aspirações de autolibertação e libertação de seu país, ele se voltou para a revolução e, aos poucos, descobriu o marxismo. O marxismo não é uma filosofia nacionalista, é internacional e cosmopolita, e passo a passo ele gravitou em direção ao movimento social-democrata russo, o movimento que os marxistas georgianos estavam propagando. Ele adotou a filosofia mais avançada, moderna e progressista disponível na Geórgia e, por fim, deu as costas ao seu próprio país.

A maioria dos social-democratas georgianos tornou-se menchevique, mas ele tornou-se bolchevique. Por que bolchevismo? Em 1902, Lenin escreveu um panfleto chamado Chto Delat, ou O que deve ser feito ?, Este panfleto, que foi muito mal interpretado, foi uma polêmica dentro dos pequenos círculos da social-democracia russa, argumentando contra o que Lenin e outros chamavam de "economicismo". O economicismo era uma espécie de abordagem reformista que se concentrava em apoiar os trabalhadores em seus esforços para reduzir a jornada de trabalho, melhorar as condições de trabalho e aumentar os salários, não a luta política contra o próprio regime. Lênin, é claro, sempre foi dedicado à revolução e argumentou em O que fazer? que se os trabalhadores fossem deixados por sua própria conta, eles desenvolveriam apenas o que ele chamou de consciência sindical, uma espécie de consciência burguesa. Eles ficarão satisfeitos em permanecer dentro do sistema capitalista e obter uma fatia maior do bolo econômico, e não se tornarem revolucionários.

Para que os trabalhadores se tornem revolucionários, os social-democratas precisam levar a mensagem a eles, para que possam compreender plenamente a repressão sob a qual vivem e a necessidade de revolução. Isso tem que vir dos social-democratas e de um partido social-democrata, neste caso um partido conspiratório porque a Rússia era um Estado policial. É importante lembrar que Lenin não queria apenas que intelectuais fizessem esse trabalho, ele queria que trabalhadores também fizessem. Ele queria que os socialistas operários pudessem levar esta mensagem ao povo.

Este panfleto é frequentemente mal interpretado como um apelo aos intelectuais para dominar a classe trabalhadora. Esse não é o caso. Lenin queria particularmente o que chamou de “Bebéis russos”, socialistas operários como o social-democrata alemão August Bebel, que era um trabalhador manual.

Stalin, é claro, foi exatamente isso. Seu pai era sapateiro. Então ele era um intelectual trabalhador, e Lenin o promoveu por esse motivo. Lenin acreditava que os trabalhadores tinham tendências naturais para o socialismo. Mas, dado o domínio da cultura burguesa, da hegemonia, como ele a chamou, das ideias burguesas, é muito difícil para eles gravitarem espontaneamente em direção ao socialismo. Os social-democratas podem trazer essa mensagem e ensinar aos trabalhadores sobre a necessidade de uma consciência socialista e de uma postura revolucionária. Essa é a mensagem de O que fazer ?.

A capa original de O que fazer? (1902).

Imagine o impacto sobre os revolucionários jovens e enérgicos como Stalin ao lerem este panfleto. Eles entenderam que a visão de Lenin deu a eles um papel importante para chegar lá, agitar e propagandear. Assim, Stalin mudou-se muito rapidamente em direção a essa postura leninista, que teve algum apoio na Geórgia nessa época, 1902-1904. Mas os líderes do que é chamado de mesame dasi, a "terceira geração" de intelectuais que trouxeram a mensagem do marxismo à Geórgia, tornaram-se mencheviques, e o movimento georgiano ficou sob a liderança do menchevismo em 1905.

Stalin e os poucos bolcheviques georgianos que permaneceram leais a Lenin ficaram no alto e áridos, generais sem exército. Eventualmente, Stalin teve que abandonar a Geórgia e ir para Baku, o centro produtor de petróleo no Mar Cáspio, hoje a capital do Azerbaijão, onde os bolcheviques tiveram um apoio significativo dos trabalhadores. Mais tarde, em 1905, Lenin apresentou o argumento de O Que Fazer? aparte e disse: “Os trabalhadores estão agora nas ruas. Eles estão fazendo uma revolução. Precisamos recrutar trabalhadores para o nosso movimento, precisamos expandir nosso movimento.” Alguns bolcheviques se apegaram a essa ideia mais restrita do partido que Lenin articulou em 1902 em O que fazer ?, e essa concepção voltará mais tarde nos tempos soviéticos. Mas quando os trabalhadores se tornaram espontaneamente ativos e revolucionários, Lenin quis celebrar isso.

Chris Maisano

Stalin realmente parecia absorver a ideia de que os trabalhadores-intelectuais social-democratas tinham um papel muito importante e especial a desempenhar na construção do movimento e na divulgação de sua mensagem às massas. Mas muitos de seus contemporâneos pensaram que ele não contribuiu muito nesse sentido. N. N. Sukhanov o descreveu como um “borrão cinza” em contraste com figuras mais brilhantes como Lenin e Trotsky.

Em suas memórias, Trotsky julgou Stalin basicamente irrelevante para as convulsões revolucionárias de 1905 e 1917. Mas você vê Stalin como uma figura mais importante no movimento do que essas avaliações críticas o fizeram parecer. Que papel Stalin realmente desempenhou, não apenas na facção bolchevique, mas no movimento social-democrata como um todo?

Ronald Suny

Muitas pessoas cometeram o erro, em seu detrimento, de subestimar Stalin. Stalin tinha verdadeiros talentos. Ele não era um orador extravagante e eloqüente como Trotsky. Ele não era um teórico sofisticado e matizado como Lenin. Mas ele tinha habilidades reais.

O grande talento de Stalin era o que um amigo meu, Paul Gregory, chamou de "jogo de chão". Em vez de apenas escrever artigos (o que ele fez) ou falar para multidões, ele trabalhou para organizar e chegar às pessoas nas fábricas, trabalhando com as pessoas e tentando agitá-las para a ação nas ruas. Stalin era muito bom nisso. Repetidamente, descobri que ele é elogiado, até mesmo por seus inimigos, por ser um bom organizador.

Há uma anedota engraçada que provavelmente não é verdade, mas é ilustrativa. Por volta de 1922, Lenin disse: “Preciso de alguém para ir a esta fábrica e trabalhar com esses caras e fazer isso. Trotsky, você pode fazer isso? ” Trotsky recusa, dizendo "Oh, você sabe, Vladimir Ilyich, eu tenho que escrever meu artigo agora mesmo sobre literatura e revolução." Stalin disse: “Eu farei isso”. Essa não é uma história verdadeira, mas é nisso que Stalin era bom: política partidária interna, recrutamento de seguidores, encontrar pessoas leais com quem pudesse trabalhar ou pudesse recompensar. Isso é o que tornou Stalin bem-sucedido.

Stalin teria sido um bom chefe da máfia ou CEO corporativo. Ele sabia como jogar esses jogos políticos internos e tinha suas próprias ideias. O outro grande talento de Stalin era poder pegar as ideias muito sofisticadas de Lenin, como as que descrevi em O que fazer?, simplificá-las e articulá-las de maneiras que eram muito entediantes para outros intelectuais, mas eram eficazes para convencer as pessoas comuns, trabalhadores, ou quem quer que seja, de seus pontos de vista.

Chris Maisano

Você menciona que ele não foi um grande teórico, mas um dos momentos-chave de sua carreira foi a publicação de seus escritos sobre a “questão nacional”, o que o destacou no movimento. Quais eram suas perspectivas básicas sobre a questão nacional e como elas diferiam de alguns dos outros pontos de vista do movimento, tanto na Rússia quanto em outros lugares?

Ronald Suny

Por volta de 1913, ele produziu um panfleto que às vezes é chamado de Marxismo e a Questão Nacional - tem vários títulos. Foi encomendado por Lenin e basicamente seguiu as ideias de Lenin. Naquela época, ele era um obscuro funcionário inferior ou intermediário do partido, no comitê central bolchevique, mas ainda não era uma figura notável. Esse escrito tornou-se extraordinariamente importante mais tarde, quando os bolcheviques tomaram o poder, quando ele se tornou o primeiro comissário das nacionalidades e, por fim, o autocrata da União Soviética. Portanto, as ideias tornam-se importantes.

Stalin, em 1911, com cerca de trinta e três anos. (Coleção Hulton-Deutsch / CORBIS via Getty Images)

A premissa básica era que os marxistas e os social-democratas deveriam apoiar a libertação nacional. Houve muitos marxistas, como Rosa Luxemburgo ou Nikolai Bukharin por um tempo, e outros, que achavam que toda e qualquer forma de nacionalismo deveria ser rejeitada. Lenin disse: “Não, o nacionalismo está por aí, é parte da fase burguesa capitalista da história, e devemos reconhecer seu poder. Portanto, se os finlandeses, os poloneses ou os ucranianos querem ser independentes da Rússia, temos que apoiar suas aspirações nacionais”. Ele defendeu essa posição e disse: “Devemos apoiar a autodeterminação nacional, até o ponto de separação do império”. Esta foi uma posição radical no movimento.

O segundo ponto principal era que, se as nacionalidades escolhessem permanecer dentro do império, elas seriam organizadas com base na autonomia regional, mas não na autonomia nacional, cultural ou étnica, dentro do novo estado unificado e centralizado. Claro, essa posição mudou na prática depois que os bolcheviques tomaram o poder. A União Soviética se tornou o primeiro país do mundo, pelo menos o primeiro grande país do mundo, que adotou uma constituição baseada na autonomia territorial nacional da Geórgia, Armênia, Ucrânia, etc. e uma união federal dos estados, a União dos Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Mas essa não era a posição neste panfleto, ou na obra anterior de Lenin. Esta foi uma concessão que eles fizeram assim que a revolução ocorreu e eles viram o poder desses movimentos nacionais independentes. Foi uma estratégia para reuni-los de volta ao estado russo.

Stalin se opôs às opiniões de outros como os mencheviques georgianos, ou o Bund judeu, ou os austro-marxistas, que defendiam algo que você pode chamar de "autonomia cultural nacional extraterritorial". Isso significaria que os cidadãos do estado carregam consigo sua etnia e nacionalidade, onde quer que vivam no estado. Então, se por acaso você mora no Brooklyn ou em Ann Arbor, você ainda pode votar em sua Cúria Nacional de onde quer que tenha vindo. Isso pareceu a Stalin e Lenin ir longe demais, como encorajar a criação da nacionalidade, e eles se opuseram a isso. Mas, por fim, eles admitiram que o novo estado seria organizado com base na autonomia nacional, cultural e territorial - os armênios com sua própria república, os ucranianos com a deles e assim por diante.

Uma das coisas mais extraordinárias sobre a história soviética é que, após a revolução, eles não apenas reconheceram essas repúblicas, mas criaram literalmente milhares de aldeias e áreas na Ucrânia, Rússia e em outros lugares para outras nacionalidades. Digamos que você tenha uma aldeia judia em algum lugar na Ucrânia, e haja uma maioria de judeus lá, e é bastante coerente. Eles deram àquela aldeia seu próprio soviete judeu e o direito de ter sua própria representação nacional na Ucrânia. Isso é extraordinário. Depois da revolução, houve um verdadeiro esforço para resolver o problema nacional fazendo concessões com base na cultura nacional, promovendo as línguas locais, as elites locais, os quadros da mesma nacionalidade. Mais tarde, Stalin tornaria a URSS um Estado mais centralizado e russificante, mas eles jamais se livrariam desse incentivo à cultura nacional até o fim. Claro, algumas pessoas diriam que foi um erro, porque no final das contas essas repúblicas lutaram contra a União Soviética central e se tornaram Estados independentes.

Chris Maisano

Os principais social-democratas georgianos também acabaram mudando sua abordagem da questão nacional assim que tomaram o poder. Eles tradicionalmente não eram a favor da autonomia territorial nacional para a Geórgia, mas sim do autogoverno regional dentro de um grande estado multinacional russo. Você não cobre isso em seu livro, mas em 1918, os social-democratas georgianos lideraram a criação de uma nova república democrática georgiana independente.

Acabamos de comemorar o centenário da derrubada dos bolcheviques desta República Democrática da Geórgia (DRG). O que foi a DRG? Por que os bolcheviques o derrubaram e que papel Stalin desempenhou na decisão?

Ronald Suny

É uma história fascinante e trágica. Um caminho em direção a um tipo diferente de socialismo acabou sendo frustrado e não foi possível se desenvolver. Os social-democratas georgianos tinham vários pontos de vista. Alguns realmente queriam independência do império. Outros queriam essa autonomia cultural nacional extraterritorial. Portanto, houve debates dentro do movimento e, antes da revolução, Stalin lutou contra muitos desses tipos de coisas.

Em 1917, os mencheviques assumiram o controle da área que chamamos de Geórgia e fizeram várias tentativas para descobrir o que fazer quando os bolcheviques tomaram o poder em Petrogrado em outubro de 1917. Eles tentaram uma federação caucasiana. Isso não funcionou. Os azerbaijanos eram pró-turcos, os armênios eram obviamente anti-turcos porque haviam acabado de ser massacrados no genocídio de 1915. Os georgianos estavam flertando com os alemães, os armênios estavam flertando com os britânicos.

Com todo esse caos em curso, os mencheviques georgianos declararam independência em 26 de maio de 1918 e formaram uma nova república. Dois dias depois, o Azerbaijão declarou sua independência, assim como a liderança armênia, com muita relutância porque eram muito fracos e os otomanos estavam na fronteira. Portanto, agora havia três repúblicas que eventualmente se tornariam repúblicas soviéticas.

Nos próximos anos, de maio de 1918 a fevereiro de 1921, você terá uma república democrática liderada pelos mencheviques. É liderada por social-democratas, mas suas políticas são o que você chamaria de democrático burguesa. Eles não estavam exatamente construindo o socialismo; eles estavam construindo uma sociedade capitalista com muito bem-estar. É uma sociedade de base camponesa, ainda não era realmente receptiva a um socialismo marxista. Karl Kautsky, o grande teórico da social-democracia alemã, veio ao país e escreveu um livro intitulado Georgia: A Social-Democratic Peasant Republic, elogiando essa experiência democrática.

Lenin flertou em reconhecer e até mesmo fazer concessões a esta república. Ele pensava que não era necessariamente um inimigo dos bolcheviques, que eles poderiam viver com isso. Mas certos bolcheviques georgianos, como Sergo Ordzhonikidze e, principalmente, o próprio Stalin, não eram a favor disso. Estou simplificando aqui, mas eles basicamente enviaram o Exército Vermelho para a Geórgia, derrubaram os mencheviques e estabeleceram um governo comunista.

Lenin, relutantemente, reconheceu a tomada soviética da Geórgia. Ele estava pronto para fazer concessões, mas no final das contas os bolcheviques georgianos criaram fatos na prática, e então houve uma Geórgia soviética. Os mencheviques fugiram, primeiro para Batumi, no mar Negro, depois para a França, onde mantiveram um governo no exílio por muitas décadas.

Chris Maisano

O apoio de Stalin à invasão foi apenas um legado de suas lutas faccionais com os mencheviques georgianos ou foi mais baseado em princípios do que isso?

Ronald Suny

Ao contrário de Lenin, Stalin era muito menos tolerante com o nacionalismo ou comunismo nacional. Assim, ele e Ordzhonikidze não apenas enviaram o exército para se livrar dos mencheviques, mas, pelos próximos dois anos, eles lutaram contra os bolcheviques nacionais georgianos locais, que queriam ter maior autonomia para a Geórgia soviética. Lenin aliou-se aos bolcheviques nacionais e venceu a batalha, mas acabou perdendo a guerra.

Stalin e Ordzhonikidze derrotaram os bolcheviques nacionais georgianos, e a Geórgia foi integrada à República Socialista Federativa Soviética Transcaucasiana, junto com a Armênia e o Azerbaijão, que por sua vez passaram a fazer parte da União Soviética. A maioria dos bolcheviques nacionais georgianos acabou sendo assassinada nos expurgos da década de 1930.

Stalin queria uma União Soviética muito mais centralizada, com menos autonomia para grupos nacionais. Lenin queria dar mais autonomia, porque era mais sensível à questão nacional, aos povos não russos e às repúblicas não russas. Ele conseguiu segurar Stalin enquanto ainda estava vivo, mas teve vários derrames, ficou incapacitado e morreu em janeiro de 1924. Stalin continuou por quase mais trinta anos e construiu um tipo diferente de União Soviética.

Chris Maisano

Às vezes, encontramos uma nostalgia mais ou menos irônica por Stalin e pela União Soviética entre os socialistas recém-formados hoje. Você dedicou sua vida a estudar esta história. O que você acha desse impulso?

Ronald Suny

Acho que é um impulso de direita e muito conservador, se não reacionário. Stalin foi o coveiro da revolução. Ou, como disse Trotsky, um rio de sangue separou Lenin de Stalin. A revolução foi feita por pessoas comuns em 1917 - primeiro mulheres, que então chamaram os trabalhadores para as ruas. Eventualmente, os soldados foram até a multidão e você teve uma revolução. O czarismo se foi. Em 1917, houve uma euforia de participação popular, comitês, resoluções e assim por diante.

As pessoas comuns acabam tendo que voltar para casa, ganhar a vida, cuidar dos filhos, preparar o jantar. Eventualmente, essa revolução democrática e participativa foi consumida pela intervenção estrangeira, a guerra civil, o colapso da economia e a construção, pelos bolcheviques, de um estado autoritário centralizado. Se eu escrever um segundo volume sobre Stalin, escreverei sobre o período de 1917 até a morte de Lenin em 1924, sobre como o estado soviético foi construído e como ele se afastou desse tipo de ideal mais participativo da Comuna de Paris que você encontra no livro de Lenin, Estado e Revolução, no que eventualmente se tornou um Estado de partido único sob Lenin, e eventualmente a tirania stalinista que destruiu a maioria dos quadros leninistas em 1937.

Não deve haver nenhum pedido de desculpas das pessoas de esquerda por Stalin. É verdade, claro, que ele conseguiu muitas coisas: uma revolução industrial forçada e bastante rude, mas bem-sucedida, as campanhas de alfabetização, a vitória sobre o fascismo, a destruição do nazismo, o fim do Holocausto. Mas o stalinismo foi o nadir da experiência soviética. Foi um período sangrento e implacável. Ele destruiu muitas das conquistas importantes que haviam sido conquistadas anteriormente. Tornou o país mais estúpido ao decapitar o partido e decapitar a intelectualidade e transformar as pessoas em engrenagens, ou pequenos parafusos, como disse Stalin.

O marxismo e o socialismo são basicamente uma expansão democrática da democracia liberal burguesa. É a capacitação de pessoas comuns. O estalinismo foi a usurpação do poder do povo, a dizimação dos sindicatos e a independência das pessoas comuns em uma ditadura de cima para baixo. Apesar de algumas de suas conquistas, não deve ser comemorado.

Colaboradores

Ronald Suny is the William H. Sewell Jr. Distinguished University Professor of History at the University of Michigan, Emeritus Professor of Political Science and History at the University of Chicago, and Senior Researcher at the National Research University – Higher School of Economics in Saint Petersburg, Russia. He is the author of The Baku Commune, 1917-1918: Class and Nationality in the Russian Revolution (Princeton University Press, 1972), among many other works.

Chris Maisano is a Jacobin contributing editor and a member of Democratic Socialists of America.

28 de maio de 2021

Se Fujimori ganhar, a democracia perde

No Peru, os poderes constituídos estabeleceram uma agenda única: a salvação do modelo econômico do “fantasma comunista”, independentemente do preço moral, institucional e de direitos que isso implique. Para peruanos comuns com memória e senso de justiça, há apenas uma opção: votar contra Keiko Fujimori.

César Zarzosa González



A elite econômica e empresarial do Peru criou as condições e uniu forças para impulsionar a candidatura de Keiko Fujimori e lutar sem qualquer pudor contra a de Pedro Castillo. Cartazes gigantes e luminosos, espalhados por toda a cidade de Lima, tentam instilar o terror nas pessoas por meio de uma campanha abertamente macarthista que não fornece informações adequadas. Psicossociais armados sem nenhuma vergonha. A mídia impressa e televisiva concentrados, com porta-vozes agindo como jornalistas independentes, direciona abertamente a opinião em uma direção em entrevistas, reportagens e colunas escritas. Para se ter uma ideia da dimensão da intervenção, basta uma informação: recentemente, o diretor-geral de uma dessas mídias foi demitido por ser "moderado demais".

Também a classe política mais tradicional, aquela claramente rejeitada pela preferência popular nas eleições legislativas complementares e nestas eleições gerais, usa essas e outras plataformas para promover formas terruqueo e divulgar informações tendenciosas contra Castillo como um suposto "inimigo da democracia". Existe uma sinergia nisso com certos elementos de origem militar, que têm praticado atos públicos de repúdio hostil a esta candidatura, e com as ações veladas promovidas por certas empresas que induzem os seus trabalhadores a se sentirem ameaçados pelo seu emprego e futuro económico.

Todo esse desdobramento foi justificado por Mario Vargas Llosa (MVLL), um ex-representante do "liberalismo moral", que abandonou inconsistentemente trinta anos de ativismo anti-Fujimori sem exigir nada em troca e sem diálogo com o outro contendor. Suas razões, sem dúvida, merecem uma reflexão separada. Mas a verdade é que, presenteando seu voto e pedindo o mesmo aos demais, personagens como ele acabam condenando qualquer possibilidade de um diálogo social vigoroso, que seria o mais democrático.

Como se não bastasse, todo esse exercício de coerção teve a anuência do Estado por meio de instituições como o Oficina Nacional de Procesos Electorales (ONPE), que após várias semanas e somente após algumas críticas decidiram dar início a uma investigação preliminar do caso claramente ilegal dos cartéis gigantes.

Assim, é possível afirmar que os poderes instituídos impõem uma única agenda: a salvação do modelo econômico do "fantasma comunista" independentemente do preço moral, institucional e de direitos que isso implique, anulando qualquer diálogo democrático para exigir garantias dos candidatos e pressionando sem escrúpulos o voto a favor de Keiko Fujimori. E eles fazem isso sem exigir nada em troca. Nessas condições, uma opção institucionalista como a aposta em "vender caro o voto" está totalmente enterrada: é uma quimera, uma ficção que não tem lugar em uma realidade como a nossa, já lançada à sua sorte.

Mas isto não é tudo. Keiko Fujimori, sentindo-se protegida pelo poder dessas elites, não precisou arredar um milímetro em seu discurso. Muito pelo contrário: reforçou-o e aprofundou-o. Ela lembra continuamente do governo sangrento e ditatorial de seu pai - do qual participou - e promete seu perdão, apesar de ser ilegal. Um setor próximo a ela está intimamente ligado a atos que lembram o pior de Fujimori nos anos 1990, e outro setor está vinculado ao congresso golpista e protetor da corrupção que sob seu próprio comando gerou instabilidade permanente durante o governo PPK-Vizcarra. E não se deve esquecer que ela própria, e principalmente o seu partido político, são acusados ​​de organização criminosa.

Fujimori defende a famosa "mão dura" e insinua um discurso contra as minorias e o protesto social, o que nos permite imaginar que, em curto prazo, antes de nos tronarmos para a Venezuela, nos tornaremos a triste Colômbia de Iván Duque (outro personagem tristemente endossado pelo ilustre Mario Vargas Llosa).

É nessas condições que a população peruana se vê obrigada a escolher. Por isso, os democratas que acreditam nas instituições, mas também na participação cidadã, na justiça social e nos direitos de milhões de peruanos, não podem se dar ao "luxo" de decidir esta eleição pelo raciocínio bem-intencionado do "voto caro".

O slogan deve ser um voto de rejeição direto contra as elites que queriam capturar a democracia e o que isso significa. Um exercício de rejeição radicalmente democrático, tendo em conta que só o voto tem o poder de igualar todos nós e só nesta situação os poderosos valem tanto quanto qualquer um de nós. Esse voto, espaço irredutível de liberdade e igualdade apesar da coerção e da esquizofrenia que quiseram nos impor, também nos permite repudiar a manipulação, a discriminação e a intransigência exercidas pelo poder. Para peruanos comuns com memória e senso de justiça, há apenas uma opção: votar contra Keiko Fujimori.

Claro que isso não significa necessariamente abraçar o projeto de Castillo, pois dependerá das ações democráticas que ele tome e, se apesar disso alguns não conseguem diagnosticar que ele representa um mal menor em referência ao mal comprovado que Keiko Fujimori é, eles sempre têm o voto branco ou nulo como opção.

Um voto de rejeição não implica uma adesão automática à opção contrária, mas antes permite ativar os alarmes para gerar uma plataforma cidadã vigilante, mais ampla do que a representada pelo anti-fujimorismo, que permite a inclusão de pontos da agenda questionáveis ​​de Castillo. Este voto de oposição e vigilância servirá, portanto, para ambos os casos. Em todo caso, tudo parece indicar que Castillo está a caminho da moderação - tem vindo a recrutar técnicos e especialistas de vários lugares, independentes ou progressistas - e, em todo o caso, não tem os meios nem a força para tentar algo abertamente antidemocrático.

Definitivamente, não é o caso de Keiko Fujimori: ela tem à sua disposição todos os elementos para implementar o conhecido autoritarismo de Fujimori. Conta também com o apoio dos poderes constituídos, que podem conduzi-la a seguir um caminho já conhecido por seu grupo: o da violação sangrenta dos direitos humanos e da corrupção organizada. Se Fujimori vencer, a democracia perde.

Sobre o autor

Advogada peruana com especialização em direito constitucional, parlamentar e direitos humanos.

27 de maio de 2021

Terra e existência em Gaza

Asad Haider

Viewpoint



Tradução / Durante os onze dias de brutal ataque israelense a Gaza1 – que foi apenas uma intensificação da devastação diária na vida palestina – eu recorri aos escritos do romancista e militante palestino Ghassan Kanafani. Em seu conto “Cartas de Gaza”, o narrador escreve ao seu amigo que foi para a Califórnia para se formar em engenharia. Ele lembra de quando Gaza foi atacada em 1948 pelas forças que viriam a se tornar o Estado de Israel; do quanto ele queria ir embora e deixar Gaza para trás, para se libertar da derrota. Mas algo enfraqueceu seu “entusiasmo pela fuga”. Antes que pudesse partir de vez, ele foi para o hospital visitar sua sobrinha de treze anos, Nadia, que pertencia à “geração que foi criada em meio à derrota e à expropriação de tal maneira que passou a considerar que uma vida feliz é um tipo de disfunção social”. Sua perna foi amputada, após Nadia se jogar em cima de seus irmãos e irmãs para protegê-los do bombardeio. Ela poderia ter se salvado, fugido, mas ela não o fez. Agora, ele também nunca irá partir. Assim, conta a seu amigo:

Esse sentimento obscuro que você sentiu ao deixar Gaza, muito pequeno, precisa crescer e se tornar um abismo gigante dentro de você. Ele deve se expandir e você precisa buscá-lo para se encontrar, aqui, nos escombros da derrota. Eu não irei até você, mas você deve retornar a nós! Volte para aprender com a perna de Nadia, amputada desde o topo de sua coxa, o que a vida significa e o quanto vale a existência.

Depois de ler essas palavras, fui lembrado das de Karl Marx, pronunciadas um século antes dessas, tanto em seu discurso em Londres, em dezembro de 1867, quanto em sua carta aos camaradas de Nova Iorque, em 1870, tratando em ambas da “questão irlandesa”. Um registro do discurso de Marx documentou sua fala de que a questão irlandesa “não é simplesmente uma questão de nacionalidade, mas uma questão de terra e de existência”. Já em sua carta, ele escreveu que “na Irlanda a questão da terra tem sido, até agora, a forma exclusiva da questão social, pois é uma questão de existência, de vida e morte, para a imensa maioria do povo irlandês; pois é, ao mesmo tempo, inseparável da questão nacional”.

Em outras palavras, existe uma relação fundamental entre terra e nação, entre vida e existência. O que Marx chamava de “a questão nacional” era um modo de pensar essa relação. Em sua análise da questão nacional no vindouro “Handbook of Marxism”, Gavin Walker aponta que Marx escrevia em uma época em que as nações se encontravam em fluxo radical – seus limites territoriais eram constantemente redefinidos, diferentes línguas constituíam maiorias e minorias nacionais e o imperialismo produzia um ordenamento hierárquico global. Nesse contexto, portanto, era muito claro para Marx que havia certa volatilidade na categoria de “nação”: era o ponto de contestação que poderia ser levado a direções reacionárias ou emancipatórias.

Em um estudo histórico do período entre 1936 e 19393, Kanafani apresentou uma análise marxista da questão nacional na Palestina, circunscrita pelas relações entre a liderança local reacionária, os regimes Árabes vizinhos e a aliança entre o imperialismo britânico e o sionismo. Para os palestinos que se encontravam sob o cerco dessa aliança, a questão nacional se tornou prioridade dentre as questões sociais, enquanto, simultaneamente, o antagonismo entre o imperialismo e as lideranças feudais-religiosas levaram ao apoio da classe dominante a um certo nível de luta revolucionária. O desenvolvimento do capitalismo deu-se de forma desigual, às custas do povo palestino. A aliança sionista-imperialista deste período, para Kanafani, não havia levado apenas à institucionalização da violência colonial e à derrota da classe trabalhadora palestina, como também “sabotou, com sucesso, o desenvolvimento de um movimento trabalhista judeu progressista e de uma irmandade proletária judaica-arábica”.

A pesquisa de Kanafani foi interrompida por uma bomba plantada em seu carro pelo Mossad4, em 19725, então temos que recorrer às suas obras de ficção para completar as lacunas dessa história. Em “A terra das laranjas tristes”, o narrador lembra de sua família fugindo da Palestina em 1948, refugiados como outras centenas de milhões de pessoas. Ele era muito novo para compreender, inicialmente, o que estava acontecendo, mas tudo ficou mais claro quando viu os adultos de sua família caírem aos prantos ao avistarem laranjas. Ele recorda o momento em que foram parados pela polícia, que confiscava as armas dos refugiados:

Quando chegou nossa vez, eu vi os rifles e metralhadoras sobre a mesa e desviei meu olhar para a longa fila de caminhões entrando no Líbano, desaparecendo nas curvas da estrada e aumentando a distância entre eles mesmos e a terra das laranjas. Eu também derramei um mar de lágrimas.

Algumas laranjeiras foram destruídas e outras foram apropriadas pelo Estado israelense. Esse símbolo da terra natal da Palestina se tornou um símbolo de expropriação, antes de se tornar um símbolo do Estado de Israel. A extirpação das árvores não é apenas um dos mais potentes símbolos da expropriação palestina, mas também de seus efeitos mais devastadores. Estima-se que 2,5 milhões de árvores frutíferas tenham sido arrancadas desde 1967 para construir as colônias israelenses.

É possível compreender perfeitamente porque Marx descreveu a questão nacional como uma questão de terra e de existência, pois este é o caso da Palestina. A agricultura palestina é boicotada pela contínua expropriação de terras por parte da expansão israelense; pelo descarte de lixo doméstico e industrial dessas colônias em terras palestinas; pelas restrições na importação de insumos agrícolas e pela dependência na importação de bens de consumo israelenses; pelo controle do Estado de Israel sobre a água e a eletricidade; e pela destruição da infraestrutura de transporte pelas bombas de Israel.

Segundo o jornal Haaretz6, 99% da água potável de Gaza já era imprópria para consumo devido à contaminação do esgoto ou de níveis de salinidade elevados. O bombardeio recente destruiu sistemas de esgoto e fechou uma importante usina de dessalinização. Um relatório das Nações Unidas8, em 2020, mostrou que Gaza tem “a maior taxa de desemprego do mundo e mais da metade de sua população vive abaixo da linha da pobreza”. O bombardeio recente em Gaza deixou mais de 10.000 pessoas sem casa, desapropriadas.

Deveria ser muito claro que o caráter econômico da opressão palestina é inseparável de seu caráter nacional. Nós poderíamos incorrer em uma análise social do colonialismo israelense e o apoio do imperialismo americano, que demonstraria o papel estruturante da acumulação capitalista global. Mas isso não deveria encobrir o caráter relativamente autônomo da opressão nacional. As atrocidades cometidas por Israel são uma forma de terrorismo que pretende torturar, intimidar e humilhar palestinos, precisamente porque são palestinos. A ocupação que está em curso segue uma lógica niilista, que destrói e polui as terras palestinas, ameaçando a própria existência dos trabalhadores palestinos, que Israel deseja não apenas explorar, mas aniquilar, porque são palestinos. É a tentativa de destruir completamente qualquer coisa que se aproxime do controle palestino sobre sua terra e existência.

Esses temas estiveram profundamente presentes na análise de Marx sobre a questão nacional. É preciso notar que, para Marx, a questão nacional não estava, de modo algum, separada de questões que supostamente seriam puramente econômicas, nem subordinada a elas. Na verdade, Marx tinha acabado de apresentar (alguns meses antes) sua crítica sistemática à economia política no primeiro volume de O Capital, passando a ocupar-se completamente da questão irlandesa, não apenas em sua pesquisa, como também em suas intervenções políticas. Ele se posicionou incessantemente contra as influências do colonialismo na Internacional e se envolveu em campanhas em defesa dos prisioneiros políticos irlandeses depois do Movimento dos Fenianos10, uma tentativa fracassada de formar uma insurreição armada contra a dominação colonial inglesa, que ocorrera três anos antes, na Irlanda. Em suas cartas, Marx e Engels criticavam os fenianos pela incoerência de sua ideologia política e pelo caráter inconsequente e destrutivo de seus bombardeios. Entretanto, nunca expressaram suas críticas publicamente. As razões para tal foram expressas nos escritos de Marx sobre a questão irlandesa.

As condições impostas à Irlanda, relatadas longamente por Marx em O Capital e em seus discursos e cartas subsequentes, são um tanto familiares: despejo, expropriação, dispersão, expulsão das terras, salários baixos, desemprego, fome. Esse era o caráter econômico da questão nacional. Mas Marx também continuou insistindo no seu caráter fundamentalmente político. Ele escreveu para Engels, em 1869, que mesmo que ele tivesse, anteriormente, acreditado que a ascensão da classe trabalhadora inglesa possibilitaria a derrubada da dominação colonial na Irlanda, pesquisas mais aprofundadas o convenceram que o oposto era verdade. Ele, agora, concluía que a independência irlandesa era de “interesse direto e absoluto da classe trabalhadora inglesa” e que, sem ela, eles “nunca iriam conseguir nada”: “a alavanca deve ser puxada na Irlanda”. Utilizando mais uma imagem mecânica em 187011, ele descreveu a Irlanda como o “ponto mais fraco” da Inglaterra – um termo que antecipa as teorias posteriores sobre a Revolução Russa como o "elo mais fraco da corrente imperialista".

A primeira razão para o posicionamento de Marx era que a dominação das classes dominantes inglesas sobre a Irlanda mantinha não apenas a sua riqueza, como também a sua dominação sobre a própria Inglaterra. Se a polícia e o exército ingleses se retirassem da Irlanda, haveria imediatamente uma revolução agrária, que levaria à queda da aristocracia fundiária na Inglaterra. Os capitalistas ingleses se beneficiavam da importação de carne e lã baratas para o mercado inglês e tinha interesse na redução da população irlandesa através de seu despejo e de sua emigração forçada para que fosse possível investir em suas terras com “segurança”. Além disso, o lucro enviado da Irlanda para a Inglaterra reduzia os salários dos trabalhadores ingleses.

Mas “o mais importante de tudo”, escrevia Marx, era que a classe trabalhadora inglesa havia sido dividida em “dois campos hostis”. Os trabalhadores ingleses viam os irlandeses como competidores que diminuíam seu padrão de vida; eles se consideravam membros da nação dominante, transformando-se em armas para aristocratas e capitalistas contra a Irlanda e reforçando a dominação sobre si mesmos. Marx comparava os preconceitos religiosos, sociais e nacionais dos trabalhadores ingleses com o racismo dos “brancos pobres” dos Estados Unidos13. Os trabalhadores irlandeses, por outro lado, viam os trabalhadores ingleses como cúmplices da dominação inglesa na Irlanda e esse antagonismo foi “mantido artificialmente e intensificado pela imprensa, pelo púlpito e pelos jornais satíricos”, ou seja, pelo que passou a ser chamado de aparelhos ideológicos do Estado. Ele escreveu: “Este antagonismo é o segredo da impotência da classe trabalhadora inglesa, apesar de sua organização. É o segredo de como a classe capitalista mantém seu poder”. A tarefa mais importante da internacional era a de levar a cabo uma revolução social na Inglaterra, porque ela era “o único país em que as condições materiais para essa revolução atingiram certo nível de maturidade”. Mas a única forma de fazê-lo era através da conquista da independência da Irlanda. Portanto, era “dever da Internacional, por toda a parte, colocar em primeiro plano o conflito entre Inglaterra e Irlanda e aliar-se abertamente, em todos os momentos, com a Irlanda”, para que “os trabalhadores ingleses percebam que para eles a emancipação da Irlanda não é uma questão de justiça abstrata ou de um sentimento humanitário, mas a condição primeira de sua própria emancipação social”.

Gostaria de observar que Marx expõe dois argumentos a favor do caráter universal da emancipação irlandesa, objetiva e subjetivamente. Em primeiro lugar, ele apresenta uma análise social objetiva, que se apoia sob a premissa de que o nível de maturidade máxima do desenvolvimento capitalista oferece as condições materiais para a revolução. Ainda que este seja o caso, a evolução do processo material objetivo não é linear, pois não é a contradição entre capital e trabalho que inicia a revolução social, mas a contradição entre o colonialismo e a independência nacional. A análise objetiva do colonialismo demonstra não apenas que existe um processo não-linear, mas também que o que parece ser a contradição geral não existe em estado puro. As condições para a revolução são, na verdade, uma acumulação de contradições, que se fundem de tal modo que possibilitam uma ruptura revolucionária.

Isso significa que, especificamente, essas formas e circunstâncias historicamente concretas formam o locus da intervenção subjetiva. Essa é a minha leitura da análise de Marx sobre o antagonismo interno à classe trabalhadora. Também é possível interpretá-la como uma versão da teoria sobre a relação direta entre raça e classe, ou entre racismo e capitalismo. Essa é certamente uma questão interessante, mas tão importante quanto ela é a busca de Marx, aqui, em descrever porque a classe trabalhadora não tem força nem poder apesar de sua organização. Em outras palavras, é possível para a classe trabalhadora se organizar e ser organizada por organizações da luta de classes dentro das condições materiais mais maduras para a revolução e, ainda assim, não constituir um sujeito revolucionário. O sujeito revolucionário não existe a priori; não é simplesmente a classe trabalhadora, como uma categoria sociológica objetiva. O sujeito revolucionário deve ser construído politicamente e isso significa que a questão nacional é a condição política do sujeito revolucionário. Essa condição política, todavia, oferece uma pista para o caráter universal da luta, para além da sua relevância direta no caso da luta de classes na Inglaterra.

Obviamente, a análise historicamente específica de Marx sobre o colonialismo inglês na Irlanda e a composição da classe trabalhadora não pode simplesmente ser transplantada para cada forma de ocupação e de divisão identitária. Ele percebeu, em sua conjuntura, que era necessário superar a hostilidade e desconfiança mútuas entre os diferentes setores das massas trabalhadoras, assim como promover uma "desidentificação" com a nação dominante, algo que requer um comprometimento firme e abrangente com a emancipação anticolonial. Mas essas conclusões baseavam-se na análise concreta de uma situação concreta, que é precisamente o que deve ser feito atualmente. Não precisamos determinar antecipadamente que a Palestina é o ponto mais fraco no capitalismo global, que sua libertação seria a alavanca para uma revolução global ou que o antagonismo ente os palestinos e israelenses é o segredo da impotência da classe trabalhadora e do poder capitalista, para que possamos compreender a universalidade da causa palestina. A relevância permanente do engajamento de Marx é fruto de sua defesa de uma política emancipatória ligada à questão nacional. A importância dessa defesa fica clara quando consideramos que mesmo antes da última leva de bombardeios, o chefe dos direitos humanos das Nações Unidas disse que os habitantes de Gaza estão "enjaulados em uma favela tóxica desde o nascimento até a morte, desprovidos de dignidade, desumanizados pelas autoridades israelenses de tal maneira que parece que os oficiais nem consideram que esses homens e mulheres possuem algum direito ou razão para protestar".

Curiosamente, isso aponta para uma tensão presente na concepção de Marx sobre o processo revolucionário, ilustrada na relação entre a maturidade das condições materiais e o ponto mais fraco. Na análise de Marx, o nível máximo do desenvolvimento capitalista, na verdade, gerou uma situação em que a luta por libertação nacional passou ter prioridade na luta de classes. A própria independência nacional se tornou uma condição política para a revolução. A lógica de Marx do ponto mais fraco mostra que o processo revolucionário não é predeterminado e sua análise da questão nacional mostra que há uma dimensão irredutivelmente política. O que isso significa é que não haverá apenas uma luta, mas também que as diversas lutas possuem um caráter universal. Marx aponta nessa direção quando argumenta que a emancipação nacional é uma condição da emancipação social. Mas se nós defendermos que o processo revolucionário não segue um curso pré-determinado e que possui condicionamentos políticos, então a universalidade de uma luta não é determinada pelo fato de ser ou não a “alavanca” da revolução: situações diferentes, alavancas distintas. Essas lutas são universais por conta de seu próprio caráter emancipatório: porque colocam em jogo um princípio de justiça que atravessa situações locais e se aplica a todos. Esse princípio, mesmo que seja fruto de uma situação local específica, é antagônico a todo o sistema que gera e regenera a dominação e a exploração. Qualquer luta emancipatória precisa andar em direção à destruição desse sistema e à invenção de formas de vida novas, racionais e igualitárias.

Essa não é uma justiça abstrata ou uma lógica humanitária, que olha para a situação colonial e demanda o fim do ódio e da violência, uma variante humanista das formulações comuns da mídia hegemônica, que conecta as mortes dos palestinos ao “conflito” e não ao exército israelense. Nessa situação colonial, a luta por emancipação universal é necessariamente a luta pela autodeterminação da Palestina.

Em sua última entrevista, Kanafani disse que era precisamente a dimensão universal da situação palestina que ele queria representar: “Não há um evento no mundo que não seja representado pela tragédia palestina. Quando eu retrato o sofrimento dos palestinos, estou, na verdade, utilizando os palestinos como um símbolo da miséria no mundo todo”. Mas como mostra “Cartas de Gaza”, não foi retratado apenas o sofrimento dos palestinos, mas também aquele comprometimento rebelde à vida e à existência, a recusa da fuga. Quando o narrador deixa sua sobrinha no hospital, ele é transformado pela coragem e pelo sacrifício da pequena. A Gaza da derrota e da expropriação se torna “algo novo. Parecia ser apenas um começo”.

Que nós também deixemos a rebeldia e a perseverança do povo palestino nos transformar. Este é o começo da política.

Asad Haider é editor do Viewpoint e autor de Mistaken Identity.

O cinema como arma da revolução

O nome de Raymundo Gleyzer (1941-1976) condensa a paixão do cineasta e do militante guevarense que quis pensar o cinema como arma da revolução. O programa cinematográfico do argentina continua despertando interesse pelo poder político da imagem e do cinema.

Oscar Ariel Cabezas


Referência internacionalmente reconhecida de sua época, Gleyzer foi sequestrado e assassinado pela ditadura civil-militar em 27 de maio de 1976.

Recordar Gleyzer hoje é recordar uma outra época: aquela em que as imagens eram vistas como um campo ideológico contestado. No léxico dos militantes revolucionários dos anos sessenta, a luta de classes era também a luta pela imagem. A revolução precisava de seu próprio cinema, pensava Gleyzer, um que pudesse formular uma alternativa ao paradigma industrializado de Hollywood. Sem ele, a luta das classes subalternas permaneceria subsumida na indústria comercial e de entretenimento do cinema capitalista.

Um epígono do cinema social latino-americano, Gleyzer combinou o marxismo e imagens da América Latina explorada para forjar um projeto social e político único: Cine de la Base. Num contexto distante, mas não tão diferente, devemos lembrar o exemplo de Gleyzer e repensar o poder político das imagens e do cinema.

A luta pela imagem

A história de Gleyzer surge no conturbado contexto dos anos 60 e, em particular, do cinema social latino-americano ou Terceiro Cinema. Esse cinema revolucionário deixou seus primeiros marcos nos filmes de Fernando Birri, como Los Inundados (1961), chegando ao filme Las Actas de Marusia, de Miguel Littin, de 1976. Mas, sobretudo, o caso paradigmático e revelador para Gleyzer e para a época foi o documentário realizado por Fernando Pino Solanas e Octavio Gettino, La Hora de los Hornos (1968). Embora Gleyzer não compartilhasse da militância peronista de Solanas e Gettino, tanto eles quanto seus colegas cineastas seguiam um modelo comum: um cinema que pretendia provocar revoluções na América Latina.

Além de Birri, Gettino e Solanas, havia um grande número de cineastas embarcando no mesmo projeto de cinema revolucionário. Os nomes de Glauber Rocha, Santiago Álvarez, Tomás Gutiérrez Alea, Jorge Sanjinés, Raúl Ruiz e Paul Leduc são alguns dos muitos que se posicionaram em relação às imagens cinematográficas. Com todas as suas diferenças estéticas e políticas, o cinema social latino-americano reuniu artistas, intelectuais e criadores sensíveis à pobreza e à exploração.

Em linhas gerais, o cinema social latino-americano buscava unir-se à luta dos povos e romper o cerco em que o "desenvolvimento desigual e combinado" do capitalismo impossibilitava a igualdade por meio de Estados democráticos e liberais. Era, em suma, um cinema que nasceu do imaginário e da prática revolucionária da época. Mas mesmo naquela constelação de artistas e intelectuais radicalizados, o caso de Gleyzer se destacava. A consciência crítica de Gleyzer era o olhar guevarista e o socialismo revolucionário, de militante do PRT-ERP (Partido Revolucionário dos Trabalhadores-Exército Popular Revolucionário).

Como artista e intelectual, o argentino entendeu que deveria filmar as desigualdades e injustiças sociais produzidas por um regime econômico que usurpa a vida dos trabalhadores. Mas a perspectiva de Gleyzer não era de mera denúncia. A postura crítica de Gleyzer e de engajados cineastas latino-americanos significou, antes de tudo, expor que as imagens não são politicamente neutras. A frase emblemática do brasileiro Rocha, "uma câmera na mão, uma ideia na cabeça", é sintomática de uma postura não só estética e política da região, mas também de um momento em que a ética revolucionária da época buscava politizar a imagem através do que Gleyzer e Solanas enunciaram como "cinema de contra-informação".

Uma das principais ideias do "cinema de contra-informação" era que a imagem não poderia ser neutra. Ela deveria ser contestada por meio da crítica à exploração do capitalismo e do imperialismo, mas as bases formadas principalmente pelo mundo dos trabalhadores e favelas também deveriam ser entrelaçadas com a atividade de contrainformação do Cinema de Base.

Através das imagens fílmicas, a base (um grupo de não mais de 20 pessoas) teve que se identificar como sujeito ativo da resistência, oposição e revolução socialista. Para alcançar tal identificação, era necessário um cinema em que o espectador despertasse pela reflexão e indignação. Todo o trabalho documental e o filme ficcional que Gleyzer filmou é motivado por isso: que a imagem desperte indignação, ou seja, o cinema como uma didática para despertar a consciência para o socialismo revolucionário.

Assim, o cinema de contra-informação consistia em uma teoria radical do espectador (muito semelhante àquela desenvolvida por Tomás Gutiérrez Alea em seu livro Dialéctica del espectador). Gleyzer pensou as imagens a partir de uma concepção do "popular" em que a luta de classes havia sido invisibilizada pelo puro entretenimento oferecido pelo paradigma da indústria cultural de massa. Como o livro de Alea tenta distinguir, o cinema que se posiciona em seu compromisso com o cinema popular deve produzir uma "dialética no espectador": um momento em que o espectador deixa de ser um consumidor passivo de imagens comerciais, interrompendo a economia da imagem e sua aliança com o capital.

No melhor do Terceiro Cinema, como no caso de Gleyzer, há uma interrupção da imagem controlada —o benevolente olhar humanista— que converte a pobreza, a miséria e a exploração das classes subalternas em objetos estéticos. E nessa interrupção da falsa ilusão consistia a arte que Gleyzer pregava.

Um cinema da realidade

Ao contrário da falsa verdade produzida pelo cinema de entretenimento, a verdade que Gleyzer perseguia não poderia ser uma mera utopia, uma ilusão. Para que o cinema contribua para a luta de classes, ele deve evitar o ilusionismo, ou seja, o espetáculo de falsas ilusões. Por isso, Gleyzer e seus companheiros inverteram a ideia de que as massas deveriam "fugir" para a cinemateca, e fizeram dos espaços do sindicato e das favelas o local de ocorrência da interrupção. Essa abordagem, de sair dos espaços institucionais de consumo, estava ligada à ideia de que o espectador não deveria se identificar com os personagens, mas sim discuti-los, levando a intensidade dos afetos e a trama para um plano real.

Segundo Gleyzer, a hegemonia visual promovida pelos signos informáticos da publicidade e do entretenimento reduzia o espectador a um lugar passivo e suscetível à moralidade burguesa. Por outro lado, os filmes do argentino buscavam uma mobilização, ou seja, que o cinema fizesse nascer entre as bases os afetos que seriam canalizados para uma transformação sensorial, que em última instância deveria preparar os corpos dos trabalhadores para a luta de classes.

Exemplos claros disso são o documentário que filmou com Jorge Prelorán, Ocurrido en Hualfín (1965), no qual são denunciadas as condições de extrema exploração dos habitantes de Catamarca, Argentina. Também em Swift (1971), curta-metragem em que narra o sequestro do cônsul britânico pelo ERP e a obtenção de um resgate que significava melhorar as condições de vida dos operários da fábrica.

No documentário Ni olvido ni perdón: la masacre de Trelew (1972), Gleyzer narra a fuga da prisão de vinte e cinco membros do PRT-ERP, Montoneros e FAR durante a ditadura do general Lanusse; seis deles conseguiram fugir de avião para o Chile, mas dezenove não conseguiram e foram assassinados à queima-roupa pela ditadura. Me matan sino trabajo y si trabajo me matan: La huelga obrera en la fábrica INSUD (1974) narra e denuncia as condições de vida dos trabalhadores que morreram por intoxicação por chumbo, ou seja, por contaminação por chumbo no sangue.

Um compromisso inabalável

A ideia da revolução socialista para Gleyzer é tão clara e necessária quanto para Che Guevara: a revolução socialista é a única saída para a exploração capitalista. Embora aniquilada pelo terrorismo de Estado e pelas ditaduras, a ideologia revolucionária de Gleyzer postulava que era preciso ver para pensar e pensar para agir. Nesse sentido, o revolucionário argentino nunca desistiu de seu compromisso com o cinema, que entendia literalmente como uma arma. Fiel às suas próprias ideias, o revolucionário argentino jogou sua vida como cineasta e militante do PRT-ERP, na luta armada e nas ideias que Mario Santucho disseminou no livro Poder Burgués, poder revolucionario (1974).
 
Ele tinha 35 anos quando foi sequestrado na porta do Sindicato Cinematográfico Argentino. Os sequestradores são conhecidos por roubar seus pertences sem nem imaginar quem eles estavam roubando. O verdadeiro tesouro, composto por várias latas de negativos de filmes, nem foi percebido pelos sequestradores. Em maio de 1976, as forças do terrorismo de Estado o fizeram desaparecer fisicamente e até hoje o cineasta que criou a imagem da indignação e traição continua desaparecido.

O pensamento que moveu toda a sua carreira cinematográfica era de uma humildade chocante e ao mesmo tempo uma enorme paixão militante. O que ressoa hoje, 45 anos depois de seu desaparecimento junto com o escritor Haroldo Conti, é o clamor de uma arte militante que tentou pensar o cinema e o compromisso com as imagens, a partir da coragem de se posicionar.

A imagem que escandaliza, ontem e hoje

Tendo presente a genealogia da sua obra cinematográfica —Círculo (1963), La Tierra quema (1964), Ocurrido en Hualfín (1965), Pictografías del Cerro Colorado (1965), Ceramiqueros de tras la sierra (cortometraje, 1965), Elinda del Valle (1969) Swift (1971), Ni olvido ni perdón: la masacre de Trelew (cortometraje, 1972), México, la revolución congelada (1973), Los traidores (ficción,1972), Me matan sino trabajo y si trabajo me matan: La huelga obrera en la fábrica INSUD (1974)— pode-se dizer que toda a obra cinematográfica de Gleyzer é um tratado político sobre a imagem-indignação.

Nos interstícios latino-americanos da desigualdade estrutural e de um mundo que gira em torno de espaços industriais de produção de imagens, Gleyzer foi, sem dúvida, um teórico da indignação. É exatamente isso que acontece no filme Los traidores e em México, la revolución congelada, ou seja, mostrando o desenrolar da luta de classes desde a arte de montar imagens que nos indignam a ponto de ser impossível ficar no espaço de espectador passivo.

Mas o legado que hoje nos chega com mais intensidade pode ser outro. Gleyzer se esforçou para mostrar as dobras ideológicas nas quais o poder da burguesia seria capaz de conter a revolução. Assim, a crítica aos sindicatos peronistas em Los traidores não é apenas uma crítica à burocratização dessa instituição operária, mas às formas como a hegemonia do capital e suas derivas discursivas e institucionais permearam a base operária a ponto de corromper isto. A mesma coisa acontece no documentário México, la revolución congelada; Na crítica de Gleyzer ao Partido Institucional Revolucionário do México (PRI), é possível compreender que a compreensão das imagens é inevitavelmente articulada por uma narrativa que sustenta a lógica do espectador passivo.

Por isso, a tarefa de Gleyzer é recuperar uma postura ética em que a indignação retome seu vínculo com a realidade social, fundamentando a ação política. A atualidade do Cine de la Base e suas questões devem ser buscadas nessa imagem-indignação e no núcleo sensível da materialidade da luta de classes.

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