15 de agosto de 2026

A Odisseia é um lamento emocionante e reacionário

A Odisseia, de Christopher Nolan, proporciona uma experiência cinematográfica fantástica. Também promove uma visão fundamentalmente conservadora da sociedade.

Grant Morgan


Em A Odisseia, de Nolan, o saque de Troia rompe um vínculo sagrado e a civilização entra em colapso. É uma analogia sedutora para os nossos tempos — mas não funciona muito bem. Nossos problemas não se explicam por uma ruptura com antigas tradições, mas sim pela recusa em desafiá-las. (Universal Pictures)

A Odisseia, a releitura cinematográfica de Christopher Nolan para o poema épico de Homero, tornou-se um sucesso estrondoso no país. Durante as férias em minha terra natal, no sul de Illinois, fui com minha família a uma sala de cinema Dolby para conferir o filme pessoalmente — e não me decepcionei. A obra ofereceu um visual espetacular, efeitos engenhosos e um design de som de tirar o fôlego.

Dezenas de cenas fizeram meu coração disparar, com aumentos bruscos no volume que faziam as paredes ao meu redor e a poltrona sob mim tremerem. Quando o Ciclope foi atingido no olho, seus gritos de agonia ecoaram pelas paredes da caverna e chegaram diretamente à nossa sala de cinema, criando uma sensação real de terror. Quando Circe transformou os soldados em porcos, o som de ossos sendo triturados pareceu saltar pelos corredores, causando arrepios. As atuações foram soberbas, assim como a habilidade de Nolan em injetar energia e suspense em uma história que já foi contada, recontada e parodiada centenas de vezes.

Em um momento marcado por saturação excessiva e falta de originalidade, a releitura apaixonada de Nolan inspirou e cativou o público. O filme não era perfeito, mas brilhou ao retratar a narrativa, os alertas e os símbolos do poema. Eu me diverti; minha família se divertiu; e minha mãe, ex-professora de mitologia, gostou tanto que assistiu ao filme duas vezes.

Igualmente fascinante tem sido observar críticos e comentaristas interpretando a mensagem do filme sobre normas e laços sociais. Invocada ao longo da obra, a "Lei de Zeus" funciona como uma "Regra de Ouro" da Idade do Bronze, destinada a promover o respeito mútuo entre os indivíduos e a sociedade. A hospitalidade, a tradição e a empatia são altamente valorizadas, com instituições e indivíduos sendo instados a cuidar dos visitantes e de suas necessidades. Tanto anfitriões quanto convidados devem agir com gentileza e cortesia; palácios devem oferecer orientação moral e compartilhar parte da riqueza social com as classes menos favorecidas; e estranhos e mendigos devem ser tratados com cuidado, pois qualquer um deles pode ser um deus disfarçado cuja ira não se deve provocar.

Logo no início do filme, fica claro que Nolan está criticando o momento atual sob uma perspectiva conservadora (no sentido amplo do termo). O historiador Bret Devereaux expressou bem esse argumento em uma crítica, descrevendo a visão de Nolan sobre a Lei de Zeus e a estrutura civilizacional como algo de natureza quase "burkeana". Nolan vê o colapso civilizacional — tanto na Grécia Antiga quanto em nossa própria época — como algo impulsionado pela ruína da moralidade, da misericórdia, do decoro e dos laços sociais. O vício — a ganância, o hedonismo, a violência, o sadismo — torna-se o novo impulso instintivo que rege as ações humanas, criando uma sociedade na qual o bem-estar coletivo é destruído por um egoísmo individual distorcido.

Logo no início do filme, fica claro que Nolan está criticando o nosso momento atual a partir de uma perspectiva conservadora (sem o "C" maiúsculo).

Vemos essa visão conservadora se manifestar em Troia. O Cavalo de Troia de Odisseu, ao mesmo tempo, viola a Lei de Zeus e desencadeia a destruição ímpia de Troia e de seu povo. Os soldados gregos que invadem a cidade, sob o comando de Agamenon, transformam-se em criaturas selvagens e depravadas, empenhadas na destruição. Mulheres e crianças são mortas, estupradas e escravizadas; homens são massacrados às centenas; estátuas e templos sagrados são profanados, e sacerdotes inocentes são abatidos. Com os laços sociais e a moralidade rompidos, a humanidade é lançada em um mundo onde a anarquia, o poder e a brutalidade regem a relação — ou a ausência dela — do indivíduo com as estruturas e obrigações da sociedade.

Odisseu percebe isso no templo de Atena. Afinal, são seus próprios homens que decapitam crianças e sacerdotisas, que ateiam incêndios que consomem casas e lojas, e que profanam tanto deuses quanto mortais ao violar uma lei sagrada que deveria ser respeitada por todos. Em meio às celebrações e brindes jubilosos, Odisseu começa a sentir pavor, humilhação e trauma. Ele é aclamado como herói, um estrategista que trouxe uma vitória inequívoca ao seu povo. Mas, interiormente, sua mente começa a sofrer. Ele violou os princípios de uma ordem social burkeana, na qual a obrigação e a integridade moral precedem o interesse individual. Quem era ele, um simples homem, para romper uma ordem que perdurara por incontáveis ​​gerações?

A jornada pelo Hades — ou inferno — serve como um acerto de contas com o colapso da ordem tradicional. Os soldados que pereceram em Troia não são recebidos como heróis na vida após a morte, mas sepultados sob cinzas e tormentos. Os veteranos que conseguem voltar para casa não são saudados como vencedores; tornam-se mendigos ou ladrões em um mundo onde a misericórdia e a empatia estão em declínio acentuado. Assim como o Reinado do Terror que se seguiu à Revolução Francesa, a ruptura com as tradições antigas é apresentada como algo que gera uma barbárie muito maior. Nossos direitos herdados — legados pelos mortos e preservados por gerações por meio de obrigações morais e culturais — são abandonados e incinerados, deixando para trás uma sociedade em decadência. Cidades e portos são devastados à medida que o colapso das normas, da hospitalidade e do comércio dissemina a anarquia e a ruína. Diz-se que o temido "povo do mar" — na verdade, apenas outros gregos fugindo do colapso e da guerra — está trazendo o apocalipse. O terror está em toda parte, e nenhuma regra é infalível.

A interpretação de Nolan sobre A Odisseia — sob uma ótica burkeana e com ênfase nas ordens morais tradicionais e nas obrigações sociais — retrata o nosso presente como um momento de ruptura ideológica e social. Neste "fim da história", políticos desprovidos de decoro, respeitabilidade e empatia voltam-se para uma política de avareza cruel e amargura. Somos todos, agora, o povo de Ítaca, observando a nossa ordem social ruir em meio à imoralidade e à guerra.

Fronteiras foram militarizadas contra os diversos "povos do mar" do mundo; vastas regiões do globo transformaram-se em zonas de crueldade, violência e inospitalidade; a lei foi instrumentalizada para atacar normas, indivíduos e instituições, bem como para garantir o enriquecimento pessoal; a arbitragem e a coordenação internacionais foram suplantadas por um apetite imperial descarado de conquista. Quaisquer ideais que outrora balizavam a nossa ordem liberal parecem agora mortos e enterrados, descartados por uma geração que trocou a tradição e o dever para com a nação por sangue, riqueza e poder.

A jornada pelo Hades — ou pelo inferno — serve como um acerto de contas com o colapso da ordem tradicional.

A visão poderosa que anima a Odisseia de Nolan sem dúvida ressoa entre os americanos que sentem que o nosso momento atual é inédito e desprovido de razão. Muros estão sendo erguidos, portões fechados e o cosmopolitismo jogado aos leões em favor do retraimento e de novas formas de nacionalismo.

O liberalismo do lado da oferta como a lei de Zeus

Para os liberais, em particular, essa interpretação burkeana faz, ironicamente, muito sentido. Afinal, muitas das tradições e normas que passamos a valorizar são vestígios do liberalismo americano. O liberalismo de meados do século produziu praticamente todas as leis, decisões judiciais e normas relativas à privacidade, liberdade de expressão, propriedade e igualdade que passaram a ser vistas como fixas e permanentes. O próprio liberalismo tornou-se uma espécie de tradição.

Nossa lógica econômica também se encaixa nesse molde, com a desregulamentação, os incentivos fiscais e o crescimento impulsionado pela oferta servindo como pilares da ortodoxia liberal moderna. Por mais de cinquenta anos, a ordem social americana legou um conjunto de direitos e obrigações sem romper fundamentalmente com a maquinaria administrativa do New Deal. O papel do movimento trabalhista, naturalmente, diminuiu em relação ao seu destaque na década de 1940, mas nem mesmo isso representou uma ruptura significativa. Após a Segunda Guerra Mundial, a militância trabalhista e da classe operária foi gradualmente transformada em apenas mais um grupo de interesse, ao lado de ativistas, organizações sem fins lucrativos, organizações não governamentais (ONGs) e empresas. Os sindicatos ainda desempenhavam certo papel na coalizão eleitoral liberal, mas já não eram o foco da energia do partido.

Nessa analogia, a Lei de Zeus é a nossa própria ordem social liberal. Nossa lei, em termos simples, constituía um pacto social que carregava certas expectativas e promessas tanto em relação ao capitalismo quanto ao indivíduo. Direitos individuais e liberdades sociais — privacidade, aborto, contracepção, liberdade religiosa, o fim de jure da segregação — deveriam ser protegidos e retirados da disputa política. O sonho americano, ou a ideia de mobilidade social de forma mais ampla, deveria estar disponível, pelo menos hipoteticamente, para todos aqueles dispostos a trabalhar duro, inovar e se qualificar nas áreas emergentes do futuro.

Quanto aos governos estaduais e locais, os investimentos e subsídios baseados na lógica da oferta — que, por décadas, fluíram dos cofres federais para grupos empresariais regionais, comunidades e projetos — continuariam em ritmo constante. Os defensores da economia da oferta orientariam o fluxo de recursos federais, gerando uma economia que não era planejada, mas também não era inteiramente privada. A partir da década de 1970, essa ordem moral e política ofereceu a todos um contrato liberal baseado na economia da oferta, o qual supostamente garantia o direito a uma vida segura e protegida. Afastando-se de visões mais comunitárias e baseadas em classes sociais, tratava-se de uma nova maneira de enxergar os concidadãos — uma forma de identificar um potencial Zeus em cada transeunte. Caberia ao governo assegurar condições equitativas de atuação, ajudando tanto empresas quanto consumidores, empreendedores e profissionais, a prosperar e a desfrutar dos frutos do esforço e do crescimento individuais.

A analogia de Nolan entre a Lei de Zeus e a nossa própria ordem social é atraente, especialmente para aqueles que veem a nossa época como marcada por um colapso repentino das normas e da sanidade.

Nolan testemunhou essa ordem em primeira mão durante sua infância no Reino Unido e nos Estados Unidos. Ao crescer em Londres e passar os verões em Evanston, Illinois, ele vivenciou essas promessas em centros urbanos definidos pelo setor financeiro, pelo mercado imobiliário, pela tecnologia e, acima de tudo, por um crescimento constante. No início de sua carreira, nas décadas de 1990 e início dos anos 2000, esse vínculo e suas obrigações gozavam de grande prestígio: era uma era de fé nos mercados, fé na intervenção estatal limitada e fé na capacidade dos indivíduos de buscar educação, investir e prosperar.

As batalhas políticas, quando ganhavam destaque nacional, nunca chegavam ao ponto de uma instrumentalização agressiva ou de agitação civil em massa. Paralisações do governo vinham e iam; o caso Bush v. Gore gerou controvérsia, mas o país seguiu em frente com o presidente eleito; a bolha das empresas "ponto com" abalou brevemente os mercados e os planos de previdência privada (401(k)s), para depois desaparecer das manchetes. Os ataques de 11 de setembro despertaram um fervor patriótico no país e levaram soldados para o exterior, mas isso não era exatamente uma novidade na política americana. Quanto às diferenças marcantes entre os partidos, ambos os lados apoiavam de bom grado políticas econômicas voltadas para a oferta, votavam a favor da Guerra do Iraque e relutavam em avançar em questões sociais — exceto, é claro, no combate ao crime.

Medidas rigorosas no sistema jurídico — como o policiamento de "janelas quebradas", as leis de reincidência e penas mais severas — foram implementadas, assim como políticas punitivas de combate às drogas que inflaram a população carcerária do país. Benefícios sociais de longa data foram extintos e substituídos por créditos fiscais, assistência temporária e uma ênfase crescente em exigências de trabalho e no mérito individual. A legislação pouco fez para proteger as mulheres da classe trabalhadora, de quem agora se esperava que ingressassem no mercado de trabalho, ganhassem menos que seus colegas homens e ainda cuidassem dos filhos com uma assistência cada vez mais escassa. A rede de proteção social também não abordou as desigualdades regionais e as "doenças do desespero" que se alastravam pelas regiões em declínio industrial do Nordeste e do Meio-Oeste.

A analogia de Nolan entre a Lei de Zeus e a nossa própria ordem social é atraente, especialmente para aqueles que veem o nosso período como marcado por um colapso repentino das normas e da sensatez. A imagem do Cavalo de Troia em chamas ao lado de Troia deixa o espectador sem palavras — levando-o a refletir sobre o significado do filme em sua própria vida, num momento em que comportamentos políticos sem precedentes e crises ambientais parecem sinalizar uma condenação divina. No entanto, apesar do visual e da direção impressionantes, a analogia de Nolan acaba não se sustentando, pois o momento atual é de continuidade, e não de divergência. Em outras palavras, Nolan enxerga uma ruptura moral que jamais ocorreu.

Os Estados Unidos não foram desviados de sua trajetória por alguma violação fundamental de contrato ou pacto social. A desregulamentação, os modelos orientados pelo mercado e os ataques aos direitos trabalhistas já estavam em curso desde as décadas de 1940 e 1950. A obra Illusions of Progress, de Brent Cebul, deixa claro o grau de predominância que o liberalismo focado na oferta e as políticas favoráveis ​​ao setor empresarial sempre tiveram em nossa ordem vigente. Afinal, foram o Oeste e o Sul dos Estados Unidos — redutos do conservadorismo e do reacionarismo — que mais se beneficiaram dos investimentos federais realizados por meio dos mecanismos do federalismo e de parcerias público-privadas.

Nolan enxerga uma ruptura moral que nunca ocorreu.

Mesmo no auge do Estado do *New Deal*, a intervenção governamental na economia operava por meio de canais preexistentes que, muitas vezes, deixavam de fora populações e regiões inteiras. Em vez de depender de instituições públicas ou de ativos estatais — como ocorre em um Estado social-democrata —, o governo americano assumiu o papel de financiador e garantidor do mercado, mantendo uma presença limitada na ponta final da execução. Em vez de construir obras ou prestar serviços diretamente, ele atuava por meio de cortes de impostos, incentivos, terceirização e subsídios. Governo, setor empresarial e filantropia tornaram-se indissociáveis ​​em um sistema triangular que canalizava recursos federais para organizações privadas. O homem provedor típico daquela época foi beneficiado, assim como as empresas e o setor sem fins lucrativos, que não parava de crescer. Esse foi, em essência, o limite máximo que nosso Estado de bem-estar social estava disposto a alcançar.

E, mesmo em seu auge, a militância trabalhista e a consciência de classe jamais constituíram os fundamentos ideológicos ou materiais dessa estrutura. Elas poderiam ter gerado resultados políticos diferentes, mas, infelizmente, isso não aconteceu. Assim, embora a estagflação e o neoliberalismo tenham castigado a classe trabalhadora e transformado a economia do país — de uma base industrial para uma orientada a serviços —, tais eventos nunca romperam o vínculo triangular baseado na lógica da oferta que ainda hoje impulsiona o país. É aqui que a analogia de Nolan falha: nunca houve um "Saco de Troia" para nós; nunca violamos a Lei de Zeus. E é precisamente esse o problema do nosso momento atual.

A Odisseia retrata o nosso momento como um período em que valores morais e laços sociais foram rompidos. Na realidade, porém, nossa ordem social manteve-se inabalada, com o liberalismo focado na oferta seguindo seu curso, a despeito da crescente polarização, da desigualdade e da instabilidade política. É verdade que as questões sociais tornaram-se mais conflituosas — especialmente no que diz respeito ao aborto e aos direitos LGBTQ+ —, mas, assim como nas décadas de 1980 e 1990, elas nunca foram o eixo central da nossa ordem. As políticas de policiamento do tipo "janelas quebradas" afetaram desproporcionalmente as comunidades da classe trabalhadora e a população negra, prejudicando bases fundamentais da coalizão liberal. A reforma da assistência social prejudicou, em larga escala, mães solteiras, trabalhadores e pessoas pobres — grupos pelos quais o liberalismo alegava lutar. Os Democratas, notoriamente, protelaram ações sobre o casamento homoafetivo e a proteção ao direito ao aborto, passando a defender este último com veemência apenas após a reversão da decisão Roe v. Wade.

Continuação, não aberração

O vínculo central do liberalismo do lado da oferta – a sua promessa de riqueza, mercados livres e autonomia de mercado – ainda não foi quebrado. Donald Trump descarrilou certos compromissos, como o comércio livre e o ostensivo anti-estatismo do Partido Republicano. Mas esses compromissos poderão sempre ser alterados para proteger o vínculo mais amplo e os seus despojos. Apesar das tarifas históricas e das restrições administrativas, não ocorreu nenhum evento que ponha fim ao paradigma. O nosso ainda é um sistema triangular de grande governo, grandes empresas e grande filantropia. Os dólares federais ainda fluem para estados, comunidades, empresas e organizações sem fins lucrativos e ainda permitem as funções básicas de um estado moderno. Esta estrutura não mudou.

Troia não foi saqueada, e a Lei de Zeus não foi violada, porque nenhuma parte fundamental do pacto social da América foi rompida.

A sugestão de Nolan parece ser a de que o trumpismo é a causa da nossa ruptura — que a falta de respeito pelo decoro, pela legitimidade institucional e pela moralidade gerou essa crise; que a adesão aberta ao nacionalismo e à crueldade está nos conduzindo a uma desigualdade e a uma violência maiores. O ponto crucial é que devemos acreditar que nos tornamos algo fundamentalmente diferente, que rompemos com a velha ordem e sofremos uma mutação, afastando-nos daquilo que costumávamos ser e defender. Afinal, segundo esse raciocínio, nem sempre fomos apenas agentes imperiais a serviço de um capitalismo americano que beneficia poucos e desrespeita todos os outros.

Mas a América capitalista sempre foi assim. Durante a era do consenso, Washington bombardeou nação após nação, matou um número incalculável de inocentes e fomentou golpes e guerras civis para defender empresas bananeiras e instituições financeiras. Políticos americanos, submissos à classe capitalista interna, desregulamentaram setores econômicos, privatizaram o Estado de bem-estar social e protegeram o direito das elites à exploração e ao acúmulo de riqueza isenta de impostos. No auge do triunfalismo neoliberal, os Estados Unidos invadiram o Iraque e o Afeganistão e, em seguida, provocaram uma crise financeira global que levou milhões à beira da pobreza e da fome. Quando ocorreu a suposta ruptura?

As extravagâncias de Trump foram históricas, mas, como muitos argumentaram, ele não é uma aberração. Muitos republicanos, especialmente na base do partido, já compartilhavam crenças trumpistas muito antes de 2016 — e essas crenças não desaparecerão repentinamente quando ele deixar o cargo. Não houve ruptura na ordem social americana. Troia não foi saqueada, nem a Lei de Zeus foi violada, pois nenhum aspecto fundamental do tecido social americano foi rompido.

O Estado pró-empresarial e voltado para a oferta (supply-side), surgido da consolidação do New Deal, continua firme e forte, com sua lógica fundamental ainda vigente. A Odisseia é um filme divertido, mas sua crítica conservadora à sociedade americana está simplesmente equivocada. Ainda vivemos na Idade do Bronze. A sociedade não colapsou, não houve revolução e nenhuma alternativa surgiu. Vivemos, em vez disso, aquele momento de uma ordem em que o propósito parece esgotado, as promessas soam fracas e o futuro se mostra incerto.

Assim como Odisseu, todos nós nos encontramos agora à deriva no mar, na esperança de retornar a um lar mítico e feliz que, na verdade, jamais existiu.

Colaborador

Grant Morgan é um jornalista freelancer radicado em Washington, D.C. Seu trabalho aborda a política externa dos EUA e questões de economia política comparada, podendo ser conferido em seu Substack, ProgressiveFP.

A visão de Karl Marx sobre a boa sociedade

A sociedade ideal de Karl Marx é levada muito menos a sério do que sua crítica ao capitalismo. No entanto, ele ofereceu uma descrição rica de como seria uma sociedade melhor — uma sociedade construída em torno do trabalho significativo, do cuidado mútuo e do florescimento humano.

Jan Kandiyali


Uma fotografia de parte do mosaico Unser Leben (1964), de Walter Womacka, na Alexanderstraße 9, em Berlin-Mitte, Alemanha. (OTFW)

Este argumento tem dois objetivos. O primeiro é desenvolver uma interpretação da visão de Karl Marx sobre a boa sociedade que seja mais social do que a interpretação predominante. O segundo é demonstrar que essa interpretação representa uma concepção atraente de boa sociedade, oferecendo uma alternativa convincente às visões predominantes de sociedade justa na filosofia política contemporânea.

Esses dois objetivos estão inter-relacionados. A visão de Marx sobre a boa sociedade raramente é levada a sério na filosofia política contemporânea. Frequentemente, considera-se que ela está sujeita a objeções devastadoras. No entanto, tais objeções baseiam-se em uma interpretação individualista da visão de Marx, popularizada por Jon Elster e G. A. Cohen. Ao apresentar uma interpretação mais social, demonstro que as objeções à posição de Marx não são decisivas e que ele oferece uma concepção de boa sociedade mais atraente do que aquela que nos é habitualmente apresentada.

A interpretação mutualista

A seguir, apresento uma interpretação da visão de Marx sobre a boa sociedade, fundamentada nas três afirmações abaixo:

  1. Uma boa sociedade é aquela que possibilita o florescimento de seus membros.
  2. A autorrealização no trabalho é um componente vital do florescimento humano.
  3. A autorrealização no trabalho consiste em realizar a si mesmo (exercer, desenvolver e manifestar as próprias potências humanas essenciais) por meio do fornecimento, a outros, dos bens e serviços de que necessitam para buscar seu próprio florescimento (do qual a autorrealização é um componente vital).

Os pontos 1 e 2 são consensuais na literatura sobre Marx. Mesmo comentadores que argumentam que os escritos de Marx não contêm uma crítica moral ao capitalismo concordam que Marx tinha um compromisso com o florescimento humano, o qual fundamenta sua condenação do capitalismo e sua defesa do comunismo. Além disso, a maioria dos comentadores concorda que Marx via a autorrealização no trabalho como um componente vital do florescimento humano. A principal contribuição deste argumento reside na interpretação do ponto 3: a visão de Marx sobre a autorrealização no trabalho.

Baseando-me especialmente na passagem conclusiva do texto de Marx de 1844, "Comentários sobre James Mill, Éléments d’économie politique" — no qual Marx descreve as pessoas como "produzindo enquanto seres humanos" —, desenvolvo uma interpretação da visão de Marx sobre a autorrealização no trabalho que enfatiza seu caráter social e voltado para o outro. Segundo essa interpretação, as pessoas não se realizam meramente exercendo e desenvolvendo suas potências essenciais; elas se realizam ao exercer e desenvolver essas potências em um trabalho que, simultaneamente, proporciona aos outros os bens e serviços de que necessitam para florescer.

Visto que as pessoas se realizam ao promover o florescimento e a autorrealização dos outros, chamo isso de "interpretação da autorrealização mútua da visão de Marx sobre a boa sociedade" ou, abreviadamente, "interpretação mutualista".

Ao desenvolver a interpretação mutualista, espero desafiar e, por fim, substituir a interpretação predominante da visão de Marx sobre a boa sociedade, a qual foi articulada por Jon Elster e G. A. Cohen. Trata-se de uma interpretação influente: quando filósofos políticos de língua inglesa criticam e rejeitam as concepções de Marx sobre a boa sociedade, eles tendem a se basear no trabalho interpretativo de Elster e Cohen. Ao oferecer uma interpretação alternativa, meu objetivo é minar o fundamento sobre o qual muitas dessas críticas se apoiam e restabelecer o marxismo como uma opção viável para a filosofia política contemporânea.

Florescimento humano

Elster e Cohen concordam que a boa sociedade, para Marx, é aquela que promove o florescimento humano, e que a autorrealização no trabalho é um componente vital desse florescimento. No entanto, eles interpretam a autorrealização no trabalho de uma maneira diferente, mais individualista. Especificamente, segundo a interpretação deles, a autorrealização no trabalho consiste no desenvolvimento pleno e livre das capacidades do indivíduo e não precisa envolver a satisfação das necessidades de outras pessoas. Nessa perspectiva, outras pessoas são necessárias para a autorrealização, uma vez que precisamos dos bens e serviços alheios para buscar nossa própria autorrealização. Contudo, elas são necessárias apenas de forma contingente, como um mero meio para nossos objetivos individuais (o desenvolvimento pleno e livre de nossas capacidades). Elas não são necessárias de forma constitutiva, como um componente central de nossa autorrealização.

Chamo a interpretação de Elster e Cohen de "interpretação da autorrealização paralela da visão de Marx sobre a boa sociedade" ou, abreviadamente, de "interpretação paralelista". Assim como no conceito de brincadeira paralela em crianças pequenas, as pessoas, na interpretação paralelista, alcançam a autorrealização lado a lado com outras; nesse sentido, a interpretação é social. No entanto, ela é social apenas em um sentido muito fraco, pois fazer coisas pelos outros não é um componente constitutivo da autorrealização do indivíduo. Disso decorre que, se as pessoas pudessem obter o necessário para buscar sua autorrealização sem produzir umas para as outras — suponhamos que Deus fizesse chover maná do céu —, nada se perderia. Em contrapartida, na interpretação mutualista, a autorrealização no trabalho envolve, de forma constitutiva, realizar-se por meio do fornecimento, aos outros, dos bens e serviços de que necessitam para buscar seu próprio florescimento. Se Deus fizesse chover maná do céu, a autorrealização no trabalho seria prejudicada.

Demonstro como a interpretação mutualista oferece uma descrição muito diferente — e, a meu ver, significativamente mais atraente — da boa sociedade. Mais precisamente, enquanto a interpretação paralelista vincula Marx a uma visão acentuadamente individualista da sociedade ideal — envolvendo a abolição da divisão do trabalho, a abundância ilimitada e uma sociedade na qual o trabalho para os outros é totalmente eliminado —, a interpretação mutualista o vincula a uma visão solidária da sociedade ideal, que implica uma reorganização radical (mas não a abolição) da divisão do trabalho, uma abundância modesta (mas não ilimitada) e a defesa da centralidade do trabalho para os outros no florescimento humano. Ao passo que a interpretação paralelista deixa Marx vulnerável a objeções sérias, a interpretação mutualista fornece a base para uma visão atraente de como poderíamos viver juntos.

A boa sociedade

Em Karl Marx’s Theory of History: A Defense, Cohen afirma o seguinte sobre a interpretação de Marx que ele desenvolve nessa obra:

A exposição respeita duas restrições: por um lado, o que Marx escreveu e, por outro, os padrões de clareza e rigor que distinguem a filosofia analítica do século XX. O objetivo é construir uma teoria da história sustentável que esteja em ampla consonância com o que Marx disse sobre o assunto.

Assim, o objetivo de Cohen não é simplesmente a exegese, mas reconstruir uma versão "sustentável" da teoria de Marx. Como diz Cohen, tal visão deve estar em "ampla consonância" com os textos; caso contrário, não seria a teoria da história de Marx. No entanto, visto que Marx foi um "pensador inquieto e criativo que produziu muitas ideias em muitas direções", é preciso decidir quais dessas ideias desenvolver e em que direção. A interpretação de Cohen sobre a teoria da história de Marx faz exatamente isso, defendendo uma teoria da história tecnologicamente determinista que está em "ampla consonância" com os textos, embora talvez não com tudo o que Marx escreveu sobre o tema.

Sigo a linha de Cohen. Pretendo desenvolver uma descrição sustentável da boa sociedade que seja consistente com as declarações de Marx sobre o assunto. Argumento que a interpretação mutualista é superior à interpretação paralelista segundo esses critérios — critérios que os próprios Cohen e Elster aceitam. A interpretação mutualista é mais consistente com os textos e mais sustentável como descrição da boa sociedade do que a interpretação paralelista.

Embora eu critique duas das figuras fundadoras do marxismo analítico, não faço — ao contrário do livro recente de Vanessa Wills sobre Marx e ética — uma crítica ao marxismo analítico enquanto tal. Argumento que a interpretação paralelista não é a melhor interpretação da visão de Marx. Não argumento que o marxismo analítico — entendido como uma vertente do marxismo que se distingue "de certas formas clássicas de marxismo por sua abertura a métodos analíticos, sua atitude crítica em relação a certas afirmações substantivas marxistas, seu reconhecimento de seus próprios compromissos normativos e sua defesa da necessidade de um projeto socialista" — seja defeituoso em si mesmo, talvez sob a alegação de que uma abordagem analítica é incompatível com a metodologia dialética do marxismo. Embora Elster e Cohen se equivoquem em certos pontos, não acredito que as falhas sejam inerentes à abordagem analítica que adotam.

Pelo contrário, estou convencido de que a ênfase do marxismo analítico na precisão, na clareza conceitual, na argumentação detalhada, na abertura ao pensamento não marxista e no "compromisso sem reverência" em relação aos textos de Marx torna essa abordagem particularmente valiosa para o tema em questão. Espero validar essa avaliação e contribuir para o ressurgimento do marxismo analítico como programa de pesquisa.

Este é um trecho de Flourishing Together: Karl Marx’s Vision of the Good Society, de Jan Kandiyali (Oxford University Press, 2026).

Colaborador

Jan Kandiyali é professor associado de teoria política na Universidade de Durham, no Reino Unido. Ele é o autor do livro Flourishing Together: Karl Marx's Vision of the Good Society, com lançamento previsto.

Trump assume a realidade da hegemonia dos EUA na América Latina

Os Estados Unidos deixaram de fingir que a Doutrina Monroe visava qualquer outra coisa que não a sua própria liberdade de ação. Donald Trump declarou agora a sua hegemonia sobre todo o hemisfério ocidental.

Andre Pagliarini


Os defensores da Doutrina Monroe sempre insistiram que ela protege as Américas. Tanto a sua história quanto a retórica e as ações contemporâneas do governo Trump na América Latina revelam algo mais restrito: a proteção da supremacia dos EUA. (Graeme Sloan / Bloomberg via Getty Images)

Em 1914, ao discursar na Universidade de Buenos Aires, o presidente Theodore Roosevelt descreveu a Doutrina Monroe como uma política "que os Estados Unidos promulgaram, em parte como uma medida de interesse próprio e, em parte, como uma medida de interesse de todas as repúblicas do Novo Mundo". No início desta semana, o Departamento de Estado publicou um vídeo de cinco minutos em sua conta oficial no Twitter traçando uma linha direta desde a mensagem de James Monroe ao Congresso em 1823, passando pela Guerra Hispano-Americana, pelo Corolário Roosevelt e pela Crise dos Mísseis em Cuba, até chegar, finalmente, à retirada forçada de Nicolás Maduro de Caracas em janeiro passado. O vídeo apresenta Donald Trump como o "mais recente defensor" da doutrina.

Deixando de lado dois séculos de eufemismos diplomáticos, o vídeo conclui que "a dominância americana no Hemisfério Ocidental jamais será questionada novamente". Em vez de uma defesa da independência hemisférica que, por acaso, beneficia os Estados Unidos, a Doutrina Monroe é hoje apresentada abertamente como uma ferramenta de dominância americana.

Isso não chega a ser surpreendente — a fachada de boa vontade nunca foi central para o projeto MAGA. No entanto, durante a maior parte de sua história, a Doutrina Monroe exigia certo esforço interpretativo para ser compreendida como um instrumento da hegemonia dos EUA. Seus defensores podiam apontar para suas origens como um alerta contra a recolonização europeia, um escudo de solidariedade estendido sobre repúblicas recém-independentes e instáveis. Os críticos precisavam traçar o caminho pelo qual aquele escudo se transformou em uma arma de coerção.

Henry M. Brackenridge, que liderou uma missão especial ao Brasil em 1817 a mando do presidente James Monroe, captou a sensibilidade ambígua das autoridades americanas. "Como americano, não posso deixar de sentir certo orgulho ao vislumbrar os destinos grandiosos deste novo mundo", escreveu ele, concluindo, contudo, que "quando consideramos as vastas capacidades e recursos do Brasil, não é delírio afirmar que este império está destinado a ser nosso rival". Movida apenas pela desconfiança, sem qualquer gesto de compreensão ou benevolência, a administração Trump é claramente impulsionada pelos impulsos históricos mais sombrios dos Estados Unidos em relação à América Latina. No dia seguinte à publicação do tweet do Departamento de Estado, Celso Amorim — principal assessor de política externa do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e ex-chanceler da maior nação da América Latina — afirmou ao Congresso brasileiro que o vídeo põe em xeque a soberania de todos os países da região. Ele observou que o Brasil não é mencionado, mas insistiu que isso pouco importa. Uma declaração de domínio hemisférico não precisa citar alvos nominalmente se reivindica a todos eles.

Amorim explicou então aos parlamentares como tal imposição poderia se concretizar. A recente classificação, por parte de Washington, de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, alertou ele, não pode ser interpretada fora desse contexto. Interpretações elásticas dos rótulos de terrorista e narcoterrorista já serviram de justificativa para operações militares em outras partes do mundo.

Ironicamente, o governo de Dom Pedro I foi o primeiro na América Selatan a apoiar publicamente a Doutrina Monroe. O jovem imperador mandou imprimir a declaração do presidente dos EUA em português e a divulgou como uma notícia bem-vinda. O Brasil, que conquistara a independência apenas dois anos antes e buscava afirmar-se na região e além dela, interpretou a doutrina como uma promessa de que o Novo Mundo teria liberdade para governar a si mesmo. José Silvestre Rebello, o primeiro representante diplomático do Brasil em Washington, recorreu exatamente a esse argumento ao pressionar John Quincy Adams pelo reconhecimento — concretizado em 26 de maio de 1824, após a promulgação da primeira Constituição brasileira. A independência do Brasil era justa e constitucional, argumentava Rebello; portanto, o país deveria ter liberdade para trilhar seu próprio caminho.

Um mundo no qual Washington sequestra chefes de Estado do hemisfério é um mundo no qual a soberania de nenhum governo está segura.

Esse era o acordo, tal como o entendiam os latino-americanos mais otimistas do século XIX. O hemisfério estaria fechado aos impérios europeus, e as nações americanas determinariam seus próprios destinos. O que a região obteve em troca está bem documentado. O corolário de Theodore Roosevelt, de 1904, transformou um aviso à Europa em uma licença para que os Estados Unidos policiassem seus vizinhos. A doutrina embasou ocupações no Caribe e na América Central, a diplomacia das canhoneiras, a diplomacia do dólar e, durante a Guerra Fria, o apoio a golpes e ditaduras, da Guatemala ao Chile e ao próprio Brasil.

A deputada Delia Ramirez, cujos pais fugiram da Guatemala durante o massacre apoiado pelos EUA naquele país, reagiu ao vídeo do Departamento de Estado classificando-o como propaganda imperialista barata de uma abordagem que gerou "instabilidade, pobreza profunda, migração em massa e colonialismo em toda a América Latina e no Caribe".

Em novembro passado, a Estratégia de Segurança Nacional do governo anunciou um "Corolário Trump" à Doutrina Monroe, declarando que os Estados Unidos impediriam que concorrentes de fora do hemisfério — sobretudo a China — estabelecessem qualquer presença nas Américas e tratariam os ativos estratégicos da região como questões de segurança americana. Os primeiros meses de 2026 mostraram o que isso significa na prática. Maduro foi capturado em uma operação militar dos EUA que o governo chamou de Operação *Absolute Resolve*. Cuba, por sua vez, tem sido alvo de um regime de sanções cada vez mais abrangente.

"O que estamos tentando ensinar a eles é que não existem válvulas de escape", disse Rubio ao site Axios.

Em uma entrevista recente, Amorim classificou a operação na Venezuela como uma violação do direito internacional em sua acepção mais antiga — o direito das nações — e observou que o único paralelo recente é o destino de Saddam Hussein. Ele fez questão de ressaltar que não estava defendendo Maduro. Esse é precisamente o ponto. Não é preciso defender um governo específico para compreender que um mundo no qual Washington sequestra chefes de Estado do hemisfério é um mundo no qual a soberania de nenhum governo está segura.

Com a relação bilateral em seu ponto mais baixo em décadas — talvez em seu nível histórico mais crítico —, o Brasil tem motivos particulares para se preocupar com as implicações dessa mensagem vinda de Washington. O Brasil jamais buscou romper com os Estados Unidos. Apoiou a Doutrina Monroe antes de qualquer um de seus vizinhos. Lutou ao lado dos Estados Unidos, manteve relações comerciais com o país e cooperou com administrações de ambos os partidos. O que o Brasil tem buscado, de forma consistente, é algo mais valioso e aparentemente mais difícil de conceder do que a amizade: o reconhecimento de seu direito de perseguir seus próprios interesses, tal como definidos pelos brasileiros, mesmo quando isso causa incômodo a Washington.

Lula negocia com a China porque a China compra o que o Brasil vende. Ele dialoga com Moscou e Teerã porque o Brasil acredita que conflitos se resolvem por meio da mediação, e não da escalada. Apesar das insinuações do governo Trump, nada disso configura um alinhamento com os inimigos dos EUA. Trata-se da política externa de uma nação grande e soberana, que se recusa a viver sob a esfera de influência de quem quer que seja.

Uma doutrina que feche o hemisfério aos impérios externos é tão boa quanto a autocontenção do poder que a anuncia.

Essa recusa é o verdadeiro alvo do vídeo. Amorim tem argumentado que a multipolaridade está degenerando em algo mais rudimentar: uma divisão do mundo em esferas de influência, na qual as grandes potências condenam retoricamente as apropriações territoriais umas das outras, mas as respeitam na prática. Questionado sobre o que o Brasil faria caso os Estados Unidos invadissem o país, o ministro da Defesa brasileiro disse recentemente que um Brasil indefeso "teria de abrir o portão". Por sua vez, Amorim concluiu que o Brasil não pode competir com o poder militar dos Estados Unidos, da China ou da Rússia — e nem deve tentar —, mas pode tornar uma agressão custosa. Daí seu apelo por gastos com defesa próximos a 2% do PIB e por uma estratégia nacional voltada a minerais críticos, setor no qual o Brasil já ocupa o segundo lugar mundial em reservas de terras raras. Um país anuncia que o domínio hemisférico é seu direito inato; seus maiores vizinhos começam a cotar preços de submarinos. É assim que a administração Trump faz o hemisfério pensar.

O problema mais profundo é aquele que muitos latino-americanos identificaram em 1823. Uma doutrina que fecha o hemisfério a impérios externos é tão válida quanto a capacidade de autocontenção da potência que a proclama. Simón Bolívar percebeu isso logo de início. Diplomatas brasileiros já haviam constatado o fato na década de 1820, quando Rebello — que não era republicano — deixou Washington convencido de que os Estados Unidos priorizavam seus próprios interesses em detrimento de qualquer princípio abstrato.

Os defensores da doutrina sempre insistiram que ela protege as Américas. A história revela algo mais restrito: ela protege a primazia americana. O vídeo do Departamento de Estado agora descartou essa distinção. Os Estados Unidos deixaram de fingir que a Doutrina Monroe visava algo além de sua própria liberdade de ação. A América Latina percebeu isso há dois séculos. Washington só agora está se dando conta de seu próprio histórico. Os brasileiros irão às urnas em outubro sob a sombra de tarifas arbitrárias impostas para ganho político, classificações como terroristas que poderiam legitimar uma intervenção e uma superpotência que proclama abertamente sua hegemonia sobre o hemisfério. Se concluírem que a soberania está em jogo, estarão interpretando corretamente o momento.

Colaborador

Andre Pagliarini é professor assistente de História e Estudos Internacionais na Louisiana State University, pesquisador associado do Washington Brazil Office e especialista não residente do Quincy Institute for Responsible Statecraft. Ele é autor de Lula: A People’s President and the Fight for Brazil’s Future e da obra a ser lançada Claiming the Nation: The Politics of Nationalism in Modern Brazil.

Como fica o Brasil na globalização sem os EUA e com a China

  • País corre o risco de, como a Venezuela, ser alvo de imposições norte-americanas por meio de coerção econômica ou militar
  • Futuro do Mercosul está em jogo nas eleições presidenciais brasileiras

Monica de Bolle
Pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e conselheira internacional do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais)

Philip Yang
Fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole) e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais)


[RESUMO] Diante de uma globalização esgarçada, da qual os EUA tentam se retirar e a China é parte cada vez mais relevante, incertezas enfraquecem os países do Mercosul, que precisam do bloco para se distanciar do fogo cruzado entre as duas potências. O acordo bilateral entre os EUA e a Argentina fere os princípios do bloco sul-americano, ao mesmo tempo em que o governo Trump eleva tarifas de produtos do Brasil. Riscos ao Mercosul deveriam ser pauta na campanha eleitoral, ainda que o resultado do pleito não mude o quadro sombrio gerado pelas ações coercitivas dos EUA na região.

*

Há tempos, parte do debate público vem proclamando o fim da globalização. A tese se ampara em um punhado de inferências: por exemplo, as cadeias produtivas voltariam para casa, o protecionismo seria duradouro, a segurança nacional teria aposentado o cálculo econômico e as grandes potências reorganizariam suas relações segundo critérios geopolíticos.

O diagnóstico é correto, mas o atestado de óbito é prematuro.

O mundo continua interessado na globalização, como revela a proliferação de acordos comerciais desde que os Estados Unidos decidiram promover uma desglobalização seletiva. Tarifas, sanções, controles tecnológicos, restrições a investimentos e, sobretudo, o conflito com a China vêm mudando a natureza das relações do país com o resto do mundo.

Lula cumprimenta o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, durante visita oficial do governo brasileiro à China  Tingshu Wang - 13.mai.25/AFP - Tingshu Wang - 13.mai.25/AFP

As ações dos EUA, ainda que reveladoras de um ímpeto isolacionista, não eliminarão a importância do país no mundo. Permanecerão relevantes para as finanças internacionais, para o desenvolvimento tecnológico e para o investimento.

No entanto, a abertura do pós-guerra está se esgarçando, cedendo lugar a uma política discriminatória que subordina os instrumentos econômicos a outros objetivos. Enquanto isso, boa parte do planeta começa a se reorganizar em torno de uma globalização cada vez menos centrada nos Estados Unidos.

Eis o paradoxo do nosso tempo: a China torna-se cada vez mais indispensável ao funcionamento material da economia mundial no exato momento em que os Estados Unidos rompem a ordem que criaram. Em escala global, o movimento é conhecido por vários nomes: friend-shoring, segurança econômica, redução de riscos e proteção de cadeias estratégicas.

Nas Américas, assim como na Ásia, a geografia voltou a ditar o alinhamento entre os países. A crise atual do Mercosul é o exemplo mais nítido dessa tendência, a julgar por como escolhas políticas internas, incentivos econômicos e instrumentos externos de coerção empurram os países da região para inserções internacionais distintas.

O Mercosul foi criado em 1991, quando Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai assinaram o Tratado de Assunção. A imperfeita união aduaneira conviveu com exceções tarifárias, com o regime automobilístico enquadrado fora de seu escopo e com as crises recorrentes no Brasil e na Argentina.

Ainda assim, fez duas coisas muito importantes: ampliou o comércio regional e criou um núcleo industrial integrado que atravessou mais de três décadas de turbulência. Hoje, com a Bolívia em processo de incorporação às normas do bloco, esse espaço está sendo ampliado.

O que temos diante de nós não é mais uma disputa comercial entre Brasil e Argentina, gênero de que a história do bloco está cheia, mas algo novo.

Trata-se da possibilidade de duas inserções internacionais distintas dentro de uma mesma união aduaneira, com a Argentina mais alinhada aos EUA e o Brasil, por ora, tentando não se alinhar a ninguém. Isso põe em xeque a própria arquitetura do Mercosul.

No último ano, a Argentina de Javier Milei aproximou-se dos EUA de Donald Trump mais do que qualquer outro governo sul-americano. Em outubro de 2025, em meio à escassez de dólares, o Tesouro americano abriu-lhe uma linha de estabilização cambial de US$ 20 bilhões.

Em fevereiro de 2026, os dois países assinaram o Acordo de Comércio e Investimento Recíproco, no qual os EUA eliminaram os tributos sobre 1.675 linhas tarifárias argentinas e quintuplicaram a cota de importação de carne bovina.

Em contrapartida, a Argentina concedeu acesso preferencial a um amplo conjunto de produtos americanos e comprometeu-se a priorizar os EUA como parceiro na produção de cobre, lítio e outros minerais críticos, em detrimento do Brasil, que não é mencionado no documento.

O acordo bilateral argentino afeta diretamente o funcionamento do Mercosul. Afinal, uma união aduaneira funciona porque seus membros aplicam uma tarifa externa comum, o que significa que a mercadoria importada por um país circula pelos demais sem que seja necessário reconstruir controles nas fronteiras internas.

Quando um produto americano entra no Mercosul pela Argentina, que agora pratica tarifas preferenciais, ele pode chegar ao Brasil sem recolher os tributos que nós aplicaríamos diretamente, o que fere o princípio da tarifa comum que governa o bloco. Para preservá-la, seria preciso voltar a verificar origem e documentação no comércio intrabloco. Não à toa, o Brasil registrou objeção formal ao acordo em março.

Enquanto os EUA tratam a Argentina com leniência, o Brasil passa por processo inverso. As tarifas americanas aplicadas a nosso país foram explicitamente associadas à política doméstica brasileira e ao julgamento de Jair Bolsonaro em 2025.

Depois que a Suprema Corte americana derrubou, em fevereiro, o fundamento legal do primeiro tarifaço, o governo Trump reconstruiu a medida. A investigação aberta em julho de 2025, amparada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, resultou na imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre as exportações brasileiras.

O problema vai além das tarifas. Em 2000, por decisão do Conselho do Mercado Comum, os países do Mercosul assumiram o compromisso de negociar acordos comerciais em bloco.

A regra sempre foi alvo de controvérsias; não à toa, a Argentina hoje a contesta. Mas a lógica é incontestável, pois a negociação em bloco amplia o poder de barganha de todos de um modo que as relações bilaterais não alcançam. Nesse sentido, o Mercosul é uma infraestrutura de autonomia.

Em um mundo em que o acesso ao mercado americano é condicionado, diversificar as relações torna-se uma política de segurança econômica interna.

O acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado em janeiro, entrou em vigor provisório em 1º de maio deste ano. O acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) foi assinado em setembro de 2025. Há ainda negociações e conversas com outros parceiros. Iniciativas bilaterais impactam diretamente a capacidade de avançar nessas tratativas.

A economia mundial, nos próximos anos, deverá evoluir para uma descentralização maior, com a formação de redes comerciais e tecnológicas parcialmente sobrepostas.

A China ocupará um espaço crescente nas cadeias produtivas globais, enquanto os Estados Unidos continuarão, por algum tempo, a sacrificar a abertura econômica em nome de objetivos estratégicos. Com a erosão relativa da primazia norte-americana e a expansão da China, os EUA estarão cada vez mais dispostos a usar instrumentos de integração como mecanismos de coerção.

Para a América Latina, as implicações dessas mudanças são graves. Ao longo das últimas décadas, os países da região puderam expandir suas relações econômicas com a China sem romper com os Estados Unidos.

O Brasil foi dos exemplos mais bem-sucedidos dessa estratégia: a China tornou-se seu principal parceiro comercial, enquanto os EUA permaneceram essenciais em áreas como investimento, tecnologia, finanças, serviços.

A capacidade de se relacionar simultaneamente com os dois polos constitui uma das bases materiais da autonomia brasileira. Nenhuma grande potência deveria arrogar-se o direito de definir quais relações econômicas um outro país pode ou não manter.

Um episódio recente na Argentina dá concretude ao argumento e mostra que a compressão desse espaço de manobra alcança até mesmo governos que fizeram do alinhamento uma profissão de fé.

A Calf, cooperativa de eletricidade e serviços públicos da província de Neuquén, na Argentina, desenvolve a rede de fibra óptica Calfibra. Em abril, seus dirigentes acertaram com a Huawei, na China, a construção de um data center regional e a compra de equipamentos.

Em julho, o gerente de tecnologia da cooperativa começou a receber mensagens de WhatsApp de um adido da embaixada americana advertindo que os EUA poderiam restringir ou revogar vistos de dirigentes da Calf que expandissem as operações da Huawei. A ameaça atingiria 18 integrantes de seus órgãos de direção.

A cooperativa pediu que a preocupação lhe fosse apresentada com fundamento técnico. Em vez disso, recebeu do embaixador Peter Lamelas a confirmação de que as mensagens refletiam a política americana, acompanhada da solícita oferta de ajuda para substituir a Huawei por fornecedores dos EUA.

Lamelas enquadrou o caso como uma questão de segurança nacional, o que levou a embaixada chinesa a denunciar interferência na soberania argentina. A Calf respondeu, enfatizando que compraria tecnologia para prestar melhores serviços aos seus clientes, não para tomar partido no fogo cruzado entre a China e os Estados Unidos.

O mais revelador do episódio são as distorções que expõe: uma decisão comercial de uma cooperativa provincial vira objeto de pressão estrangeira, e uma prerrogativa soberana dos EUA, o controle de vistos, vira instrumento de influência.

Que isso tenha ocorrido justamente na Argentina de Milei torna o caso ainda mais instrutivo. Na rivalidade EUA-China, a pressão pode atingir empresas, tecnologias, sistemas de pagamento, fluxos financeiros, investimentos e transações com terceiros países.

Por isso, a hipótese de uma nova regionalização coercitiva das Américas precisa ser levada a sério. Ela não assumirá necessariamente a forma das antigas zonas coloniais de influência nem deverá ser formalizada por tratados.

A reorganização regional poderá nascer simplesmente da instrumentalização de diversas medidas, incluindo tarifas, sanções, restrições tecnológicas, financiamento preferencial a aliados e ameaça de punição a governos, empresas ou indivíduos que mantenham relações consideradas contrárias aos interesses dos Estados Unidos.

O resultado seria uma esfera econômica definida pela capacidade dos EUA de impor custos a quem tentasse dela escapar. Portanto, corremos o risco de enfrentar um sistema global ao mesmo tempo mais integrado e mais opressor.

Diante disso, no Brasil surge a possibilidade de uma "venezuelização" às avessas. Não nos referimos à venezuelização, invocada no debate político doméstico, como sinônimo de uma suposta transição socialista, mas a que ocorre quando uma potência hegemônica passa a empregar coerção econômica ou militar para limitar o espaço de decisão soberana de um país.

"Venezuelização", tal qual empregada aqui, refere-se à possibilidade de os Estados Unidos passarem a impor ao Brasil suas preferências por meio de instrumentos de coerção econômica (ou mesmo militar), como vêm fazendo em relação à Venezuela desde a queda de Nicolás Maduro.

No cenário mais agudo, o Brasil poderia ser confrontado com exigências sucessivas, como limitações aos investimentos chineses, restrição ao acesso a tecnologias (como a escolha do futuro padrão 6G), abandono de sistemas financeiros ou digitais considerados inconvenientes (como o PIX), entre outras medidas.

O caso da Calf sugere que esse processo poderia começar apenas por meio de pressões informais, seguidas de tarifas, restrições financeiras e sanções contra empresas. A resposta estratégica não pode consistir em escolher antecipadamente uma potência em detrimento da outra, mas sim em tornar muito custosa qualquer tentativa externa de nos obrigar a escolher.

É por essa razão que o Mercosul tem hoje uma dimensão muito maior do que a de sua arquitetura tarifária. Um bloco capaz de negociar com Europa, Ásia, América do Norte e outros parceiros amplia o leque de opções do Brasil e dos demais membros. Em contrapartida, um Mercosul enfraquecido faz o contrário.

A dissolução prática do bloco teria, portanto, uma consequência geopolítica mais séria do que se costuma admitir. O enfraquecimento do Mercosul aproximaria a América do Sul de uma configuração em que cada país teria de negociar isoladamente com os EUA e a China, e os países isolados resistem menos à coerção do que um bloco parcialmente unido.

As eleições brasileiras deixam claro o que está em jogo. Em julho, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) encaminhou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos um documento contra as novas tarifas e declarou que o Brasil deve "libertar-se das amarras do Mercosul", que supostamente teriam impedido governos anteriores de negociar diretamente com os EUA.

Flávio citou o caminho da Argentina de Milei como precedente a ser examinado. Uma vitória dessa candidatura poderia levar o Brasil e a Argentina a quererem transformar o bloco em uma simples área de livre-comércio, com a consequente redução do poder de barganha coletivo.

Uma reeleição de Lula manteria a defesa brasileira da união aduaneira, mas em um ambiente regional e internacional cada vez mais hostil.

Há, portanto, dois cenários possíveis. No primeiro, a globalização recua e a economia mundial se reorganiza em blocos ou esferas de influência cada vez mais rígidos. Nesse mundo, a capacidade brasileira de manter relações simultâneas com os Estados Unidos e a China seria gradualmente reduzida, até que a inevitável escolha entre um campo e outro se impusesse.

No segundo, a globalização continuaria de forma mais fragmentada em termos políticos, mais disputada, e progressivamente menos centrada nos Estados Unidos. Nesse mundo, a estratégia brasileira deve ser exatamente a de não escolher antecipadamente um campo, mas construir deliberadamente uma rede de interdependências que preserve nossa capacidade de escolha. O Mercosul é uma das plataformas que permitem ao Brasil fazê-lo.

Se a Argentina abandonasse a disciplina comercial comum, estaria o Mercosul condenado a desaparecer? Pensamos que não necessariamente. Os membros remanescentes —Brasil, Paraguai, Uruguai e uma Bolívia em processo de incorporação— poderiam preservar um núcleo de negociação com a Europa, a Ásia e outros parceiros.

Uma eventual saída argentina reduziria a escala e o poder de barganha do bloco e exigiria a adequação jurídica dos acordos já celebrados, mas não eliminaria a lógica estratégica do Mercosul.

A pergunta para a qual o Brasil precisa urgentemente elaborar uma resposta é: se um membro escolher atrelar sua inserção externa a uma grande potência, devem os demais segui-lo ou preservar entre si uma plataforma para negociar com todas?

Milei chamou o Mercosul de prisão, e Flávio Bolsonaro usou a metáfora das amarras. O vocabulário é de aprisionamento, alçando a permanência no Mercosul a uma questão de liberdade.

A sobrevivência do Mercosul é, de fato, uma questão de liberdade, mas não pelos motivos que apontam Milei e Flávio Bolsonaro.

Em um mundo marcado por potências que disputam áreas de influência e empregam os instrumentos da interdependência como mecanismos de coerção, certas amarras coletivas podem ser justamente aquilo que amplia a liberdade de cada país.

Em tempos de Odisseia cinematográfica, não custa lembrar que Ulisses pediu que o amarrassem ao mastro não para renunciar à viagem, mas para completá-la.

14 de agosto de 2026

Mitos econômicos predominantes são desastrosos para a política dos EUA

Em uma entrevista abrangente à Jacobin, o economista James K. Galbraith discute como a ortodoxia econômica neoclássica distorceu profundamente a formulação de políticas nos EUA em diversas áreas, desde a inflação e a política comercial até a crise de fertilidade.

Entrevista com
James K. Galbraith

Jacobin

Em seu novo livro, The Power to Destroy, James K. Galbraith critica a economia convencional por equívocos fundamentais em uma ampla gama de questões, incluindo inflação, orçamento federal e política comercial. (Chip Somodevilla / Getty Images)

Entrevista de
Ana G. Perez

Após décadas de domínio do consenso neoliberal, Washington começou a romper com esse paradigma sob administrações presidenciais recentes, incluindo as de Joe Biden e Donald Trump. A adoção de tarifas e os esforços para reconstruir a capacidade industrial interna representam um afastamento da ortodoxia política anterior, motivados em parte pela ascensão da China como potência econômica e geopolítica e, no caso de Biden, pelo desafio das mudanças climáticas.

James K. Galbraith ocupa a cátedra Lloyd J. Bentsen de relações entre governo e setor empresarial na Lyndon B. Johnson School of Public Affairs e é professor de governo na Universidade do Texas em Austin. Ele trabalhou anteriormente no Comitê de Serviços Bancários da Câmara dos Representantes e atuou como diretor executivo do Comitê Econômico Conjunto do Congresso no início da década de 1980. Uma voz heterodoxa influente na economia, ele é autor de vários livros, incluindo The Predator State: How Conservatives Abandoned the Free Market and Why Liberals Should Too (2008) e Inequality: What Everyone Needs to Know (2016).

Em sua obra mais recente, The Power to Destroy: How Bad Economics Drove America’s Decline — a ser lançada no próximo mês pela University of Chicago Press —, Galbraith argumenta que a estrutura dominante adotada pelos economistas do mainstream teve um efeito desastroso na política econômica dos EUA ao longo das últimas décadas. Em entrevista à Jacobin, Galbraith discutiu os argumentos de The Power to Destroy, incluindo os problemas que ele aponta nos esforços recentes de Biden e Trump para superar a ortodoxia política e o que o futuro pode reservar para a dominância financeira e militar dos EUA.

Ana G. Perez

The Power to Destroy trata, em grande medida, de como a estrutura amplamente aceita da economia neoclássica — o que você chama de "economia de equilíbrio" — é empiricamente desacreditada e prejudicial à formulação de políticas econômicas nos Estados Unidos. Você poderia resumir sua análise sobre a economia de equilíbrio?

James K. Galbraith

Primeiro, deixe-me falar em termos bastante gerais sobre a mentalidade com a qual somos formados como economistas. Ela é fruto de um esforço de construção de sistemas que envolvia duas dimensões nem sempre bem alinhadas: as chamadas micro e macro.

A dimensão micro, que ganhou força durante o governo de Ronald Reagan, prioriza essencialmente tudo o que é organizado pelo mercado e defende que o papel do governo se restringe a intervir quando surgem problemas no funcionamento desse mercado. Na realidade, porém, os mercados só existem porque os governos fornecem a estrutura regulatória que permite sua operação.

A outra vertente, a macroeconomia, parte da mesma premissa geral: a de que a economia, como um todo, tende a um estado de crescimento estável. Se ela sofre uma queda, acaba se recuperando. Essa estrutura incorpora noções como o chamado trade-off (relação de troca) entre inflação e desemprego, além de toda uma série de conceitos que predominaram na formação dos economistas da minha geração. Tais ideias continuam exercendo grande influência sobre instituições importantes.

Entre essas instituições estão o Federal Reserve, que acredita ter o poder de controlar a taxa de inflação e o nível de preços, e o Congressional Budget Office (Escritório de Orçamento do Congresso), que defende a necessidade de equilíbrio no orçamento federal. Trata-se de concepções ou preconceitos trazidos para o debate como um "ruído de fundo" — o legado de um século de economistas moldando a discussão sobre políticas públicas para todos os demais.

É uma visão simplista, porém extremamente irrealista, de como as sociedades funcionam na prática — ou de como qualquer sistema vivo opera. Seria possível construir um sistema de políticas muito mais eficaz a partir de uma concepção alternativa. O objetivo deste livro foi apresentar uma série de casos em que fosse possível identificar a predominância do pensamento econômico convencional e apontar as consequências decorrentes dele.

Ana G. Perez

Um dos estudos de caso que você analisa é a inflação que dominou o noticiário em 2021 e 2022. Você argumenta que as medidas adotadas pelo Federal Reserve para controlar a inflação, por meio do aumento das taxas de juros, não apenas fracassaram, mas também podem ter sido prejudiciais de outras formas.

James K. Galbraith

Existe uma maneira automática de falar sobre o Federal Reserve quando ele aumenta as taxas de juros. É quase certo que a mídia noticiará que o Federal Reserve elevou as taxas de juros "para controlar a inflação".

A realidade é que a ferramenta de que o Federal Reserve dispõe — a taxa de juros de curto prazo — não tem qualquer relação com a taxa de inflação ou com o nível de preços. A única forma de o Federal Reserve realmente derrubar os preços é forçando a economia a passar por uma contração longa e dolorosa, deixando muitas pessoas desempregadas e levando muitas empresas à falência. Isso já aconteceu no passado; ocorreu no início da década de 1980.

A realidade é que a alavanca de que o Federal Reserve dispõe — a taxa de juros de curto prazo — não tem qualquer relação com a taxa de inflação ou com o nível de preços.

Mas, se observarmos a estrutura financeira da economia americana hoje, ela é fundamentalmente diferente. Os sindicatos são muito menores e muito mais fracos. O setor manufatureiro é muito menor; o emprego concentra-se majoritariamente no setor de serviços. A dívida pública é muito maior em relação ao PIB. E quando a taxa de juros sobe — como ocorreu sob a gestão de Jerome Powell a partir do início de 2022 —, não se verificou aquela contração acentuada que Paul Volcker alcançou, à custa do empobrecimento da economia, entre 1979 e 1980.

Portanto, não se pode afirmar que a queda na taxa de inflação tenha ocorrido por causa do Fed. Isso não teve nada a ver com o Fed, pois o único mecanismo de transmissão que costuma operar nesse sentido não estava presente.

O que estava acontecendo era que, na esteira da pandemia, primeiro, os preços do petróleo subiram. Segundo, as cadeias de suprimentos sofreram bloqueios e desorganização. Assim, carros novos tornaram-se escassos e o preço dos carros usados ​​aumentou. Além disso, houve uma situação complexa no setor imobiliário. Esses aumentos de preços não tiveram relação alguma com qualquer tipo de aumento generalizado na demanda.

Houve, então — particularmente no início do governo Biden —, um aumento muito substancial nos gastos federais. Muitas pessoas — Lawrence Summers, por exemplo — deram grande ênfase a isso, alegando que tal medida impulsionaria a inflação. Ele baseava-se em um modelo ou estrutura mental consolidada há cinquenta ou sessenta anos, quando éramos muito mais jovens e estávamos iniciando nossas carreiras.

No entanto, ao observarmos o que aconteceu quando as famílias americanas receberam auxílio financeiro devido à COVID-19 — parte sob Donald Trump e parte sob Joe Biden —, percebemos que elas agiram com muita sensatez, raciocinando da seguinte forma: "Estou desempregado no momento. Este é um colchão financeiro útil. Vou guardá-lo e utilizá-lo aos poucos; isso me dará certa margem de manobra. Não preciso voltar ao trabalho tão rapidamente; não estou desesperado para retornar àquele emprego ruim que eu tinha antes".

Elas não saíram em uma onda de gastos desenfreados que, na imaginação dos economistas, elevaria a taxa de inflação. Não foi isso o que aconteceu. As famílias americanas comportaram-se como agentes relativamente prudentes e avessos ao risco. Elas pouparam grande parte do dinheiro recebido como auxílio. E então, eles foram utilizando suas economias conforme a necessidade. Não existe ali nenhum mecanismo que vá provocar uma alta nos preços.

O que realmente impulsionou os preços em certos mercados, como o imobiliário, foi o comportamento de pessoas cuja renda não foi afetada pela COVID: ou seja, pessoas como eu, que tinham salários e não se beneficiaram muito dos auxílios emergenciais. O que aconteceu com essa classe — os 20% ou 25% do topo da distribuição de renda — foi que deixamos de ter acesso a tudo aquilo em que gastávamos dinheiro. Restaurantes e viagens — toda a economia de serviços paralisou.

Então, acumulamos dinheiro. O que fizemos? Reformamos cozinhas, construímos casas. Saímos e compramos imóveis. Elevamos os preços de ativos fixos. Mas aumentar o preço de uma casa não é um ato inflacionário; trata-se de elevar o patrimônio líquido de quem é proprietário do imóvel.

O que defendo neste capítulo sobre inflação é que as pessoas se aprofundem nos detalhes para entender o que realmente está acontecendo e, então, elaborem políticas adequadas à realidade. Quem fez isso — e de forma brilhante — foi Isabella Weber, uma jovem economista da Universidade de Massachusetts Amherst. Ela apontou que, quando o sistema é atingido por um grande evento disruptivo, muitos dos hábitos que normalmente restringem o comportamento das empresas são rompidos; elas acabam correndo para tentar aumentar os preços o máximo possível, a fim de garantir a cobertura de seus custos. Esse é um fenômeno competitivo, que pode ser observado pelo aumento das margens de lucro.

Isso também aconteceu. A resposta adequada é restringir esse comportamento. Não se trata de causar um choque brusco nas vendas dessas empresas, mas apenas de limitar suas ações para que continuem obtendo um lucro razoável e possam retomar uma estabilidade razoável na relação estruturada entre seus preços e custos.

Ana G. Perez

Você também analisa a resposta à COVID de uma perspectiva mais ampla e, em seguida, o grande pacote de infraestrutura de Biden, a Lei CHIPS e a Lei de Redução da Inflação. Um argumento que você apresenta é que, mesmo quando os formuladores de políticas tentam reconstruir a indústria dos EUA, a economia americana mudou demais — passando de uma economia manufatureira para uma economia de serviços — e a capacidade estatal se deteriorou. Portanto, esses esforços não funcionam; os formuladores de políticas não dispõem de recursos suficientes para realizar o trabalho.

James K. Galbraith

Sobre a COVID: como muitas pessoas, fiquei praticamente confinado nos cômodos do terceiro andar da minha casa em Austin. Tornei-me muito ativo online, bem como na publicação de textos e na tentativa de direcionar a mobilização em torno da COVID para caminhos que eu considerava necessários para enfrentar os problemas da cadeia de suprimentos.

Não foi essa a direção que a política acabou tomando. A política seguiu, essencialmente, o rumo de inundar o sistema com dinheiro. Isso me obrigou a analisar o que estava acontecendo na economia real subjacente.

A primeira constatação foi a de que a capacidade efetiva do governo para tomar medidas concretas diante de problemas técnicos específicos — como as questões da cadeia de suprimentos — era muito limitada. Deixemos de lado a discussão sobre se as máscaras eram uma boa ou má ideia. A realidade é que havia uma capacidade limitada, e as empresas privadas que fabricavam esses itens não estavam muito dispostas a ampliar sua produção, pois, de forma bastante racional, previam que, uma vez terminada a crise, aquele seria um investimento perdido. Elas teriam de arcar com o prejuízo.

A reação na China foi muito diferente. Cerca de mil empresas chinesas converteram suas linhas de produção — que antes faziam qualquer outro tipo de produto, como artigos de papelaria — para fabricar máscaras cirúrgicas. E elas exportaram esses produtos rapidamente para todo o mundo. Isso demonstra que a estrutura empresarial produtiva na China é muito diferente da nossa: muito mais flexível e com maior capacidade de resposta. E, se os chineses estão fazendo isso, não há necessidade real de que outros o façam. Basta garantir que eles enviem as máscaras, o que de fato fizeram.

O outro aspecto era: quais foram as consequências de inundar o sistema americano com dinheiro? Distribuir dinheiro é algo que o governo americano sabe fazer muito bem. Apesar de algumas falhas iniciais nos sistemas de seguro-desemprego e questões correlatas, o governo conseguiu colocar muito dinheiro nas mãos das pessoas. A maioria dessas pessoas trabalhava no setor de serviços, em funções que foram suspensas; por isso, elas deixaram de receber seus salários habituais. Em alguns casos, elas recebiam mais dinheiro com os auxílios emergenciais da COVID do que ganhavam anteriormente. Constatou-se que isso não representava uma catástrofe, desde que conseguissem honrar seus compromissos: aluguel, contas de serviços públicos e alimentação. Além disso, estavam economizando com combustível. É claro que a questão escolar foi um grande problema. Mas, de modo geral, quando a situação começou a se normalizar, muitas pessoas não estavam tão ansiosas para retornar aos empregos que tinham antes. Suas vidas estavam se reorganizando de várias maneiras.

Muitas pessoas não retornaram à força de trabalho nem voltaram a procurar emprego, o que diz muito sobre como elas encaravam os trabalhos que exerciam anteriormente. O que ocorria na gestão de Biden junto ao Federal Reserve — e Powell foi bastante explícito quanto a isso — era um esforço para reduzir o apoio financeiro às famílias americanas, levando ao esgotamento de suas economias, e para elevar as taxas de juros, dificultando o desenvolvimento imobiliário e forçando o retorno das pessoas ao mercado de trabalho.

Muitas pessoas não retornaram ao mercado de trabalho, o que diz muito sobre como elas se sentiam em relação aos empregos que tinham anteriormente.

As pessoas não gostaram disso. E houve aquela situação peculiar nos últimos anos do mandato de Biden, em que a taxa de inflação estava caindo — pois tratava-se de um choque que estava sendo absorvido pelo sistema — e a taxa de desemprego não estava subindo. Pessoas formadas sob a ótica macroeconômica dominante na época da minha pós-graduação diziam: "O desemprego caiu, a inflação caiu. Todos deveriam estar felizes. Por que não estão?" Paul Krugman dizia que as pessoas deviam ser estúpidas; que não entendiam a boa situação em que se encontravam.

Ana G. Perez

A tese da "vibecession" [recessão de percepção/humor].

James K. Galbraith

Eles achavam que algo misterioso estava acontecendo. Mas não é tão misterioso assim quando se percebe o quanto a relação do trabalhador americano com o trabalho mudou nos últimos cinquenta anos. Nas décadas de 1970 e 1980, a taxa de desemprego subia, gerando uma onda de medo na força de trabalho. Noventa por cento da população ativa continuava empregada, mas ninguém sabia quando poderia ser atingido por uma demissão. E, se você é o único provedor da família, uma demissão é um golpe duro.

Assim, a taxa de desemprego sobe e a ansiedade se espalha pelo país. Quando ela cai, a ansiedade começa a diminuir muito antes de a taxa de desemprego chegar a 3% ou 4%, porque você não está mais em perigo.

Não é assim que funciona agora. Hoje, a taxa de desemprego cai porque as pessoas decidem: "Quer saber? Não vou ser a terceira fonte de renda da casa. Isso não trazia tanto dinheiro extra assim, afinal, eu tinha gastos com creche e transporte, além do estresse com a gestão do tempo e tudo o mais. Se tenho sessenta e dois anos, posso recorrer à Previdência Social ou simplesmente esperar a situação passar e fazer outra coisa."

Acho que foi isso que aconteceu aqui. Economistas presos a essa mentalidade antiga não estavam se adaptando à estrutura em transformação da economia americana.

Quanto às [outras políticas de Biden], é uma história um tanto triste porque, novamente, se voltarmos quarenta ou cinquenta anos — ao final dos anos 70 e início dos 80... Foi nessa época que a desindustrialização dos Estados Unidos começou a ganhar força de verdade, e os sindicatos sofreram um impacto muito duro. A taxa de desemprego chegou a 10% em outubro de 1982.

Uma das ideias que começaram a surgir naquela época era a de que deveríamos ter uma política específica para apoiar a indústria americana. Naquele momento, eu era diretor executivo do Comitê Econômico Conjunto do Congresso; estávamos envolvidos nessa discussão, assim como pessoas como Laura Tyson e outras que haviam estudado experiências relevantes em outros países.

Nada aconteceu. A ideia circulou, mas, fundamentalmente, não ganhou tração até 2020. Algumas dessas pessoas ainda estão na ativa e continuam influentes, levando essas ideias para os círculos de Biden. Elas apresentam essas propostas, mas, ao longo de quarenta anos, a capacidade de implementá-las praticamente desapareceu.

Houve a lei de infraestrutura, que consistia em muitos projetos locais. Isso pode ser observado na expansão de vias de acesso aos subúrbios em diversos lugares. Os incorporadores imobiliários gostam muito disso.

E houve a Lei CHIPS, que oferecia subsídios para trazer a fabricação de semicondutores de volta para cá. É preciso perguntar: "Quem exatamente vai fazer isso e com que capacidade técnica?" Então, recruta-se a Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation — que, como o nome indica, está sediada em Taiwan. E eles enfrentam dificuldades, pois já haviam estruturado todo o ecossistema de produção de semicondutores onde estão, em Taiwan. Não é tão simples replicar isso no Arizona.

A outra grande política de Biden foi a Lei de Redução da Inflação, que focava essencialmente em energia renovável. Vimos o efeito de subsidiar energias renováveis: houve um aumento na sua utilização. Mas, se a intenção é substituir os combustíveis fósseis, descobre-se que isso não acontece. O que se obtém, na verdade, é energia para centros de dados. Esse é um problema antigo. É algo que foi claramente exposto no século XIX por William Stanley Jevons: toda nova fonte de energia vem acompanhada de novos usos para ela. De fato, como costumo dizer, existe apenas uma fonte de energia que abandonamos de vez: o óleo de baleia.

Ana G. Perez

Quanto à política de energia renovável, você também aponta que as pessoas talvez não percebam uma redução mensurável nos níveis de dióxido de carbono tão cedo. Além disso, as empresas podem não ver vantagem em ingressar nesses mercados, especialmente se seus créditos fiscais forem eliminados após o próximo ciclo eleitoral.

James K. Galbraith

As consequências de, de alguma forma, controlar a elevação dos níveis de CO2 são necessariamente de longo prazo, pois o que já está na atmosfera não desaparecerá, mesmo que se interrompa qualquer nova emissão. Não se veria um declínio por meio século — um horizonte que certamente ultrapassa o escopo do planejamento econômico de uma empresa privada e vai muito além da duração da vida da maioria das pessoas. Portanto, há algo intrinsecamente problemático nisso.

Ana G. Perez

Outra questão de política interna que você aborda é a insistência predominante de que o orçamento federal deve funcionar como o orçamento de uma família ou de um município, onde é preciso equilibrar as despesas com as receitas. Você afirma que isso é um absurdo — que, na verdade, os governos nacionais não funcionam dessa maneira.

James K. Galbraith

Certamente, o governo dos Estados Unidos não opera dessa forma há meio século ou mais. E é completamente irrealista e insensato fazer dessa ideia a base de uma estratégia orçamentária.

A razão é muito simples. Mais uma vez, essas ideias que estamos discutindo surgiram em um período anterior da história, quando era mais ou menos razoável tratar o sistema de comércio mundial como um conjunto de trocas recíprocas. Isso ocorria porque havia uma terceira base para a liquidação de pagamentos — [elementos como] o ouro —, um ativo que não estava sob o controle de nenhum governo nacional específico.

No entanto, desde a década de 1970 — e certamente desde o período de Volcker, no início dos anos 1980 —, o ativo de reserva global passou a ser a dívida do Tesouro dos EUA. Portanto, existe uma assimetria na economia mundial. E, se os chineses, os japoneses ou qualquer outro país estiverem acumulando dívida do Tesouro dos EUA, eles estão enviando bens e serviços reais em troca dessa dívida. Na verdade, é vantajoso para eles fazerem isso. Mas isso significa, necessariamente, que importaremos mais do que exportaremos e que, consequentemente, na maior parte do tempo, teremos de registrar um excedente substancial de gastos governamentais em relação à arrecadação de impostos — o que chamamos de déficit orçamentário.

A economia mundial opera nessa base há muito tempo. Contudo, os economistas — e certamente as pessoas que chegam ao Congresso e trabalham com órgãos como o Congressional Budget Office (Escritório de Orçamento do Congresso) — ainda pensam em termos do ideal de um orçamento equilibrado. Existe uma entidade chamada Committee for a Responsible Federal Budget (Comitê para um Orçamento Federal Responsável). O que eles querem dizer com "orçamento federal responsável"? Eles se referem a um orçamento no qual o governo arrecada em impostos o mesmo montante que gasta.

O que ocorre é um pacto faustiano. Temos acesso a muitos produtos de alta qualidade e baixo custo, mas perdemos a capacidade de realizar grande parte dessa produção.

Não é esse o mundo em que os Estados Unidos operam — e têm operado há muito tempo. Por que os chineses toleram isso? E os japoneses? O que eles obtêm com isso é a capacidade de aprofundar seu desenvolvimento industrial e técnico — algo em que, obviamente, estão tendo sucesso. À medida que conseguem vender produtos em maior escala, eles colhem uma vantagem cumulativa, que também podem utilizar para elevar o padrão de vida em seus próprios países.

Se eles continuarão precisando desse mercado externo adicional — os Estados Unidos —, é uma questão em aberto. Mas é certamente assim que eles têm operado há muito tempo. E, como eu disse, eles se beneficiaram enormemente disso.

O que nós ganhamos? O que acontece nos Estados Unidos é uma espécie de pacto faustiano. Temos acesso a muitos produtos de alta qualidade e baixo custo, que todos nós utilizamos: desde nossas roupas e smartphones até grande parte de nossa alimentação e outros produtos. Mas, ao mesmo tempo, perdemos a capacidade local de realizar grande parte dessa produção altamente complexa aqui nos Estados Unidos.

Ana G. Perez

Este é um argumento central que você apresenta no livro: o de que a dominância financeira dos Estados Unidos está em conflito com a sua competitividade industrial.

James K. Galbraith

Não dá para ter as duas coisas. Os britânicos descobriram que não se pode ter ambas; nós estamos descobrindo que não se pode ter ambas. Como recuperar isso ou fazer algo que proporcione um equilíbrio melhor são outros problemas. Mas não é uma questão simples, pois, até agora, o resto do mundo tem, em grande parte, gostado do sistema.

O que temos feito — e isso toca em outro ponto do livro — é minar esse sistema ao usar nossa dominância financeira como arma. Impomos sanções aos russos, aos chineses, aos iranianos e a outros países de que não gostamos. E adivinhe o que eles fazem? Eles dizem: "Bem, é inconveniente para nós criar nossos próprios sistemas de pagamento e liquidar nosso comércio em nossas próprias moedas — e talvez até manter mais ouro, petróleo, estanho, cobre e assim por diante como reservas, em vez de títulos do Tesouro. Mas, se o título do Tesouro não é um ativo confiável para nós, se ele pode ser confiscado, então é isso que faremos".

Assim, acaba-se minando a base da força financeira americana. Novamente, talvez isso não seja algo ruim para os Estados Unidos. Mas não é esse o objetivo de quem impõe tais sanções.

Ana G. Perez

Vamos falar sobre as tarifas de Trump, sobre como ele tenta mudar a relação comercial entre os Estados Unidos e a China, assim como Biden fez. Você afirma que nenhuma política que os EUA pudessem adotar alteraria significativamente essa relação no curto prazo.

James K. Galbraith

Não posso dizer que discordo totalmente da crítica de Trump ao livre-comércio como dogma — algo que certamente faz parte do credo dos economistas. É uma ideia muito superestimada.

Mas, na situação atual, com uma política tarifária, é preciso perguntar: o que exatamente ela vai produzir? A resposta — e acho que a equipe de Trump tem sido bem clara quanto a isso — é que o objetivo principal é forçar grandes corporações industriais (particularmente as europeias, e especialmente as alemãs) a transferir ainda mais suas operações para os Estados Unidos, a fim de obter acesso ao mercado americano. Isso não terá sucesso em revitalizar as corporações industriais dos EUA, mas poderia atrair a BMW e a Volkswagen para o país, onde provavelmente conseguirão operar com maior lucratividade do que na Alemanha — cenário marcado por custos de energia elevados, mão de obra mais cara e regulamentações mais rigorosas.

Quanto à China: acredito que existe uma grande ambivalência em relação a atrair empresas chinesas para realizar grandes investimentos nos EUA, devido às tensões em torno das supostas implicações de segurança — algo que não nos preocupa no caso da BMW. Além disso, a ideia de que construiremos um setor de alta tecnologia autônomo, sem a estrutura global da indústria de semicondutores tal como ela existe hoje, é um tema que abordo no capítulo do livro dedicado à China.

O poder militar dos EUA foi claramente minado pela revolução tecnológica.

Trata-se de um setor que conta com componentes praticamente insubstituíveis espalhados por todo o mundo. Substituir a capacidade chinesa de refino de terras raras seria extremamente difícil. Não há como substituir a dominância chinesa no fornecimento de gálio — que, embora não seja uma terra rara, é um subproduto da produção de alumínio. Nesse aspecto, a vantagem da China sobre os Estados Unidos é de noventa para um; simplesmente não é algo viável. Temos perdido capacidade de produção de alumínio desde 1980.

Também não é possível substituir as fontes necessárias de neônio e hélio: o hélio proveniente do Golfo Pérsico e o neônio da Rússia e da Ucrânia. Além disso, as fundições em Taiwan são produtoras altamente eficientes dos próprios chips.

Portanto, se tentássemos trazer tudo isso para os Estados Unidos — caso fosse sequer possível —, acabaríamos com uma indústria muito menor, com custos unitários muito mais elevados e totalmente sem competitividade. O resultado seria, basicamente, o colapso da indústria global de semicondutores, que serve de base para a maioria dos produtos manufaturados que utilizamos atualmente.

Os dois exemplos de tal tipo de dissociação que vêm à mente são a União Soviética e a Iugoslávia. A União Soviética se desintegrou. Mas o que aconteceu exatamente quando ela caiu? Havia uma vasta cadeia industrial. A União Soviética era uma grande produtora de aço, alumínio, níquel, automóveis, entre outros itens. Parte da produção era destinada ao mercado interno e outra à exportação, mas a cadeia de suprimentos estendia-se pelo território que viria a ser dividido em quinze países diferentes. Grande parte dessa estrutura entrou em colapso.

A Iugoslávia também possuía uma indústria automobilística. O carro produzido não era excelente — tratava-se de uma imitação de um modelo da Fiat, chamada Yugo. Essa indústria colapsou, pois dependia de componentes fabricados na Sérvia, na Croácia e em outras regiões, e essas operações deixaram de funcionar.

Poderíamos ver algo semelhante acontecer com o mercado global de semicondutores. No entanto, isso representaria um choque muito maior para o sistema produtivo mundial. Para mim, isso indica que não devemos tentar interferir no desenvolvimento da China. É um fenômeno que não temos poder para deter, e as consequências de tentar fazê-lo seriam muito piores para nós do que para eles.

Ana G. Perez

The Power to Destroy aborda um possível futuro multipolar no qual a Rússia, a China e outros Estados, como o Irã, são grandes potências globais, com um papel cada vez menor para os Estados Unidos. Em termos do trade-off entre a dominância financeira dos Estados Unidos e sua competitividade industrial, você acha que o declínio do dólar ou da posição econômica global dos EUA estimulará o crescimento e a inovação aqui?

James K. Galbraith

Quero ter cuidado para não afirmar que tenho algum tipo de visão messiânica para restaurar a posição dos Estados Unidos. Existe uma tendência, ao escrever um livro, de dizer: "aqui está um problema — onde está a solução?". Tenho certa resistência a isso. Porque me parece que, quando você passa quarenta ou cinquenta anos cavando um buraco para si mesmo, não deve imaginar que existe uma saída fácil.

O que fizemos foi construir uma espécie de pacto faustiano, no qual temos uma posição muito forte nas finanças mundiais e a sustentamos com o que pensávamos ser uma posição muito forte em poder militar. Adivinhe só? Não é. Isso foi claramente minado pela revolução tecnológica.

O poder militar dos Estados Unidos — o pilar sobre o qual nosso poder financeiro supostamente repousa (e não está claro se isso é totalmente verdade, mas certamente faz parte da equação) — tem basicamente duas vertentes. Primeiro, há os porta-aviões, que se tornaram a principal arma na Guerra do Pacífico em 1944. Naquela época, tínhamos noventa deles; agora, restam cerca de uma dúzia ou quinze. Segundo, há as bases que construímos ao redor do mundo para cercar a União Soviética e a China durante a Guerra Fria.

Ambos são essencialmente obsoletos e indefensáveis. Acabamos de descobrir isso no Golfo Pérsico. Os grandes navios precisam ficar muito distantes, o que reduz sua eficácia. E as bases são alvos fáceis. Todos sabem onde elas estão. Podem ser atingidas por muitos mísseis relativamente baratos e tornadas inutilizáveis. E não se pode simplesmente reconstruí-las, pois podem ser atingidas novamente. Portanto, ficou demonstrado, de forma abrupta, que essas duas coisas não passam de "tigres de papel".

A dominância financeira dos EUA sobreviverá? Por enquanto, sim, porque é conveniente para todos. Da parte dos entusiastas da multipolaridade, há um certo entusiasmo de torcida em relação a algum tipo de sistema monetário alternativo. Não me parece óbvio que isso vá acontecer tão cedo, pois não é algo fácil de concretizar.

Então, o que pode ser feito nos Estados Unidos? Em primeiro lugar, podemos redirecionar parte dos recursos que hoje ainda desperdiçamos nesse poço sem fundo de tecnologias militares obsoletas — usadas para intimidar o mundo, mas que já não são eficazes para esse fim. Gostemos ou não, é isso que temos feito. Meu conselho é parar com isso e empregar esses recursos em outra coisa.

Em segundo lugar, o sistema financeiro é uma das causas da enorme distorção na distribuição de renda e riqueza neste país. Por que estamos fazendo isso? A situação era diferente cinquenta ou setenta anos atrás. Uma grande vantagem de Franklin D. Roosevelt foi o fato de que o sistema financeiro havia entrado em colapso quando ele assumiu o poder. Isso lhe permitiu construir um país essencialmente industrial e de classe média.

É preciso desmantelar a oligarquia. A oligarquia é o setor financeiro e as valorizações de capital no setor de tecnologia.

Não acho que possamos recuperar os aspectos industriais — talvez nem devêssemos querer isso. Mas é preciso desmantelar a oligarquia. A oligarquia é o setor financeiro e a valorização de capital no setor de tecnologia. Esses dois elementos estão, obviamente, muito interligados; são eles que comandam o país hoje em dia. É aí que se deve pensar em reforma social. Depois, deixe que o restante do país tente descobrir como reconstruir sua própria base para uma prosperidade sustentável. E, quem sabe, você também consiga algum progresso ambiental nesse processo.

Ana G. Perez

O livro também inclui uma discussão interessante sobre a questão da queda das taxas de natalidade e do declínio demográfico.

James K. Galbraith

Essa é uma questão que tem recebido muita atenção recentemente. A dinâmica da reposição populacional é bastante implacável. Ela determina que, se você não mantém a população estável — o que exige uma certa proporção de filhos por mulher em idade fértil, especificamente 2,1 —, a taxa correspondente (que indica a dinâmica populacional) cai para menos de um. Quando isso ocorre, a população tende a diminuir e a envelhecer, e os recursos deixam de ser direcionados às crianças para serem destinados aos idosos. Isso torna cada vez menos vantajoso ter mais do que um número reduzido de filhos.

O que está acontecendo? Parece-me que as famílias estão tomando decisões que, do ponto de vista delas, são sensatas e pragmáticas. Isso ocorre em países ricos de todo o mundo — não apenas nos Estados Unidos. Ao constituir uma família, você se vê atrelado a uma série de custos fixos: financiamento imobiliário, contas de serviços públicos, despesas de deslocamento e custos básicos de subsistência. Além disso, há um padrão de vida desejado, que muitas vezes só é alcançável se ambos os parceiros trabalharem.

Você percebe — em decorrência de políticas de austeridade e de tentativas de disciplinar a força de trabalho da maneira que descrevi — que a margem entre sua renda e suas despesas está diminuindo. Então, você analisa a situação e se pergunta: "O que posso fazer para economizar?" Ora, uma grande despesa fixa para um casal jovem é ter filhos, pois eles precisam ser criados, alimentados, entretidos e educados. Já não basta garantir apenas a pré-escola; é preciso pagar a faculdade e a pós-graduação. E eles não contribuem com renda alguma: não estão trabalhando na fazenda. Além disso, não há garantia de que estarão por perto para cuidar de você na velhice, já que, mais ou menos, contamos com a previdência social para isso.

Isso não significa que as pessoas parem de ter filhos completamente, mas torna muito raro ter mais de dois. Muitas pessoas têm apenas um ou nenhum.

Até o momento, não tenho conhecimento de nenhuma sociedade que tenha caído abaixo da taxa de reposição e voltado a subir acima dela.

Quantas pessoas conhecemos que têm cinco? Não muitos. Na geração dos meus pais, era totalmente normal. Era um mundo diferente. Eles tinham um conjunto muito menor de demandas fixas e uma margem muito maior. Além disso, numa comunidade agrícola, as crianças são valiosas desde tenra idade. Adam Smith escreveu em A Riqueza das Nações que uma jovem viúva com oito ou nove filhos, que não tivesse perspectivas na Europa, teria uma pequena fortuna nas colónias americanas, porque cada criança valia pelo menos 100 libras de ganho líquido na quinta, e 100 libras era muito dinheiro em 1776.

Lutar contra isto requer um esforço realmente massivo de toda a sociedade. Até agora, nenhuma sociedade que eu conheça caiu abaixo da taxa de reposição e voltou a superá-la.

Ana G. Perez

Os republicanos parecem estar pensando sobre esta questão. Mas os mecanismos a que recorrem são mais culturais e coercivos.

James K. Galbraith

É preciso proporcionar às pessoas as condições materiais em que a formação familiar lhes seja vantajosa. Você não pode simplesmente forçá-los a, você sabe, fazer coisas caseiras...

Ana G. Perez

Tornando-se tradwives.

James K. Galbraith

É uma resposta a um problema real e existente, mas não é algo que vá funcionar. Há muita discussão sobre esse assunto. Mas, fundamentalmente, é preciso colocar os recursos nas mãos das pessoas para mudar a causa subjacente.

Isto faz parte do argumento do livro sobre a COVID: as famílias são entidades sensatas na tomada de decisões empresariais. Há uma ideia na economia tradicional que diz: dê mais dinheiro às famílias e elas gastarão – a análise do “multiplicador” – e você obterá um estímulo para a economia. É um termo que desprezo absolutamente, porque se baseia na noção deste tipo de resposta pavloviana: dê dinheiro às pessoas e elas gastarão mais.

Não – a família moderna tem um modelo de negócios mais estabelecido. Tem relacionamento bancário. Tem cartão de crédito e tem orçamento. Possui um conjunto de compromissos fixos. Não é como uma família da classe trabalhadora do século XIX que vivia num cortiço e gastava os ganhos da tarde de sexta-feira na taberna na noite de sexta-feira. Não é assim que funciona o americano ou qualquer família moderna. À medida que demos mais dinheiro às pessoas na COVID, elas acumularam-no nas suas contas bancárias. O que mais eles vão fazer? E então eles investiram em imóveis ou em qualquer outra coisa.

Eles estavam tomando decisões de negócios sensatas. E é isso que eles fazem quando pensam em quantos filhos podem sustentar.

Colaboradores

James K. Galbraith é presidente de relações governamentais/comerciais da Lloyd J. Bentsen na Escola de Relações Públicas Lyndon B. Johnson e professor de governo na Universidade do Texas em Austin.

Ana G. Perez é membro dos Socialistas Democratas da América e da Federação Unida de Professores e leciona biologia no ensino médio no Brooklyn, Nova York. Ela possui mestrado em Relações Públicas pela Escola de Relações Públicas Lyndon B. Johnson da Universidade do Texas em Austin.

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