Fernando Cerimedo construiu a máquina de desinformação por trás das vitórias da extrema direita — da Argentina à Bolívia e a Honduras — com tecnologia e recursos provenientes dos próprios operadores de Trump. Agora, ele está preso na Bolívia, acusado de tentar mandar matar seu ex-sócio.
Kurt Hackbarth
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| Policiais transferem o assessor próximo do presidente Rodrigo Paz, o argentino Fernando Cerimedo, do Palácio da Justiça para a prisão de Palmasola, em Santa Cruz, Bolívia, em 21 de agosto de 2026. A polícia boliviana prendeu Cerimedo devido a um ataque a tiros contra sua ex-companheira. (Rodrigo Urzagasti / AFP via Getty Images) |
Na terça-feira, 18 de agosto, um cidadão argentino chamado Fernando Cerimedo foi preso no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Cerimedo, de 45 anos, foi acusado da tentativa de homicídio de sua ex-companheira, a advogada boliviana Nadia Beller, e teve decretada sua prisão preventiva por 180 dias. Os detalhes são macabros: imagens de câmeras de segurança mostraram pistoleiros, disfarçados de entregadores, disparando à queima-roupa contra Beller — que foi pega de surpresa — antes de fugirem do local. Para agravar a situação, Beller, que sobreviveu milagrosamente ao ataque, estava aparentemente grávida de um filho do próprio Cerimedo.
Até esse ponto, o caso poderia ser classificado como mais um episódio — horrendo, sim, mas pouco incomum — de tentativa de feminicídio após o fim de um relacionamento. Algo para ocupar brevemente as páginas policiais dos jornais locais. E, de fato, é assim que várias partes interessadas gostariam de retratar o caso. No entanto, Cerimedo é o mentor da desinformação por trás das campanhas de extrema-direita que ganharam força avassaladora na América Latina.
Suas conexões também não se limitam ao Cone Sul: elas se estendem até os círculos mais restritos do próprio trumpismo.
Cerimedo está no centro da extrema-direita latino-americana
Ao começar a observar a extrema-direita latino-americana, o nome de Fernando Cerimedo surge por toda parte. Ele esteve no Brasil, ajudando a família Bolsonaro a disseminar a narrativa de fraude nas eleições de 2022, que marcaram o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva. Esteve na Argentina, onde — segundo Beller — trabalhou para o próprio Javier Milei, a quem considerava "louco", ao mesmo tempo em que compilava informações sobre o escândalo de suborno envolvendo a irmã de Milei, Karina, atual secretária-geral da Presidência. Esteve no Chile, onde se gabou de ter derrubado o referendo para a nova constituição — que substituiria a versão da era Augusto Pinochet ainda em vigor — enquanto, segundo relatos, também auxiliava na campanha presidencial de José Antonio Kast. Esteve no Peru, circulando com um assessor próximo de Keiko Fujimori no período que antecedeu as eleições presidenciais de junho, vencidas por ela por uma margem mínima. Esteve em Honduras, onde supostamente aparece em um áudio admitindo crimes eleitorais no pleito de novembro de 2025, que resultou na vitória inesperada de Nasry Asfura, aliado de Donald Trump. E esteve presente nas eleições presidenciais da Colômbia, onde, segundo a contagem oficial, outro apoiador de Trump, Abelardo de la Espriella, derrotou Iván Cepeda por uma diferença inferior a um ponto percentual, em junho.
Imagens de câmeras de segurança mostraram os pistoleiros, disfarçados de entregadores, disparando à queima-roupa contra Beller — que foi pego de surpresa — antes de fugirem do local.
Por que ele era tão requisitado? Porque Cerimedo era o homem capaz de articular tudo isso: marketing político, segmentação de público, fazendas de bots que somavam centenas de milhares de contas, pesquisas enganosas, investigação de opositores e manipulações via inteligência artificial. Em suma, ele fornecia a mensagem negativa — fosse mentira ou calúnia — e, em seguida, a segmentava, sensacionalizava e ampliava para alcançar o maior e mais receptivo público possível. Junto com seu sócio, o falsificador contumaz Javier Negre (condenado repetidamente na Espanha por inventar informações e até entrevistas inteiras), ele fundou o La Derecha Diario, uma plataforma de mídia online concebida para legitimar esse material como se fossem "notícias" em toda a América Latina.
Tendo começado na Argentina, o veículo rapidamente estabeleceu edições regionais no México, Uruguai, Equador e Israel, além de uma versão em inglês nos Estados Unidos, onde Negre se tornaria presença constante nas coletivas de imprensa da Casa Branca. No caso do México, conforme o próprio Negre explicou em um evento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), o grupo foi convidado a se instalar no país pelo magnata de extrema-direita Ricardo Salinas Pliego para "travar a batalha cultural". O México — aponta Beller — era o próximo da lista, servindo como ponto de partida para interferir nas eleições de meio de mandato de 2027 no país. Tudo isso era impulsionado por uma rede de carteiras digitais encontradas no celular dele, totalizando cerca de US$ 132,8 milhões.
Um ministro sem pasta
Mas nada supera o caso da Bolívia, onde Cerimedo foi muito além de um simples mercenário digital: ele atuou como uma espécie de ministro sem pasta e todo-poderoso no governo de direita de Rodrigo Paz, eleito em outubro de 2025 após uma ruptura devastadora no partido governista Movimento ao Socialismo (MAS). Embora tenham tido o cuidado de não incluí-lo na folha de pagamento oficial, o "assessor principal" exercia poderes que, na prática, equivaliam a uma cogestão nas áreas de comunicação, gabinete e polícia. Tamanho era esse poder que, nos dias que antecederam a tentativa de assassinato de Beller, Cerimedo manteve contato via chat com o tenente-coronel Erik Correa González, diretor de inteligência da Força Especial Antinarcóticos da Bolívia, para coordenar o ataque. Correa também está sendo investigado por supostamente receber propinas de 50 mil dólares por avião para fazer vista grossa a voos de transporte de cocaína. Por sua vez, além da tentativa de homicídio, Cerimedo também é investigado por enriquecimento ilícito ligado ao narcotráfico — especificamente, tráfico de substâncias controladas e encobrimento de atividades de narcotráfico.
É a ironia das ironias. A máquina de desinformação de Cerimedo especializou-se em associar o prefixo "narco" a líderes, movimentos e governos progressistas em toda a região, com o objetivo de desacreditá-los. Agora, ele é acusado não apenas de conluio com narcotraficantes, mas de utilizar um deles para tentar eliminar seu próprio ex-sócio e o filho que ainda não havia nascido. Toda acusação é uma confissão.
A conexão com os EUA
Se a história de Cerimedo terminasse aqui, isso poderia justificar, ao menos em parte, a escassa cobertura da imprensa de língua inglesa. Mas não termina. Segundo uma investigação publicada no jornal mexicano La Jornada e baseada em documentos arquivados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA), a porta de entrada de Cerimedo nos Estados Unidos foi Miami. A cidade do sul da Flórida era mais do que um endereço comercial; funcionava "como uma plataforma de coordenação entre campanhas latino-americanas, veículos de mídia de orientação ideológica, consultores políticos, organizações do ecossistema cubano-americano e setores do Partido Republicano com capacidade de influenciar a política dos EUA para o hemisfério". E a figura-chave que dá as boas-vindas nesse ambiente propício ao extremismo é Damian Merlo — lobista, consultor de relações públicas, sócio-diretor do Latin America Advisory Group (LAAG) e ex-analista do Departamento de Estado dos EUA em Havana. Foi Merlo, de fato, quem organizou a participação de Javier Milei no programa de Tucker Carlson em 2023 — uma aparição que viralizou —, dois meses antes de sua eleição para a presidência da Argentina.
Para Cerimedo, Merlo poderia proporcionar acesso aos gabinetes de parlamentares profundamente ligados à política de extrema-direita na América Latina, como os deputados Mario Díaz-Balart e Maria Elvira Salazar — que preside a Subcomissão de Relações Exteriores da Câmara para o Hemisfério Ocidental — e o Secretário de Estado Marco Rubio. De fato, em uma foto oficial do Departamento de Estado referente à cúpula Shield of the Americas (Escudo das Américas), realizada em 7 de março de 2026, Cerimedo aparece sentado ao lado de Rodrigo Paz e em frente ao Secretário de Estado dos EUA, em uma mesa para seis pessoas onde o clima é de camaradagem.
Em uma foto oficial do Departamento de Estado, Cerimedo aparece sentado em frente ao secretário de Estado dos EUA, em uma mesa para seis pessoas com um clima de camaradagem.
Quando, naquele mesmo ano de 2023, Cerimedo fundou sua empresa Numen Academy em Miami, a Numen e a LAAG uniram forças para trabalhar na campanha de Milei. A Numen também colocou Cerimedo em contato com uma figura fundamental em toda essa saga: Brad Parscale, diretor de mídia digital da campanha de Trump em 2016 e gerente da campanha de Trump em 2020. Foi uma parceria perfeita, já que ambos ofereciam um leque muito semelhante de "serviços": foi Parscale quem pagou cerca de 6 milhões de dólares à Cambridge Analytica em 2016 para utilizar dados do Facebook coletados de 87 milhões de usuários sem o consentimento deles. Nas eleições de Honduras, Parscale assessorou a Numen remotamente sobre o uso de dados para segmentar eleitores. Na Bolívia, ele foi além, viajando ao país para ajudar a equipe da Numen a utilizar as ferramentas de dados de suas empresas. Em 2025, Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo para a América Latina da Campaign Nucleus, de propriedade de Parscale, e da Eyesover, uma empresa afiliada. "Brad forneceu toda a tecnologia com a qual trabalho", admitiu Cerimedo. Em outubro de 2025, Parscale registrou-se sob a FARA junto ao governo de Israel, por intermédio da Havas Media Germany GmbH.
O castelo de cartas
Tarifas, atentados a bomba contra embarcações, intervencionismo declarado, o sequestro de um chefe de Estado em exercício: basta uma análise superficial da ofensiva do segundo governo Trump contra a América Latina e o Caribe para levar qualquer pessoa ao desespero. No entanto, como demonstra o caso Cerimedo, a investida da extrema-direita é mais frágil do que pode parecer à primeira vista. De Kast a Milei e Paz, os líderes eleitos na esteira dessa onda tornaram-se impopulares, envolveram-se em escândalos e enfrentaram protestos populares — ou tudo isso ao mesmo tempo — em rápida sucessão. As vitórias em Honduras, no Peru e na Colômbia foram apertadíssimas, deixando o terreno propício para reviravoltas causadas pelo tipo de manipulação contratada no Norte e que metastatizou no Sul. Na ausência de um mandato popular, alguns recorreram a estados de exceção; outros, a se agarrar com mais força ao "Escudo das Américas" e às "colaborações" que ele oferece com as forças dos EUA.
Mas o fato de que grande parte disso pode ser atribuída a um único homem nos bastidores é revelador. Cerimedo, naturalmente, será descartado e substituído; já se formou a fila de antigos clientes e comparsas disputando espaço para se distanciar dele. Contudo, o castelo de cartas que é a extrema-direita latino-americana oscila sobre suas fundações precárias: a decadência de seu "mágico digital" passou a simbolizar a podridão no cerne de seu projeto.
Colaborador
Kurt Hackbarth é jornalista, escritor e dramaturgo que cobre o México e a América Latina. Ele atua como analista no Canal Once, do México, e é coapresentador do Soberanía: The Mexican Politics Podcast.

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