25 de fevereiro de 2014

A Venezuela está em chamas?

Como os protestos anti-governo continuam na Venezuela, Mike Gonzalez argumenta que somente um aprofundamento da revolução bolivariana pode salvá-la.

por Mike Gonzalez

Jacobin

Créditos: Gaz/Flickr.

Tradução / A imprensa e mídia globais mostrou imagens de uma Venezuela em chamas. Ônibus queimando, demonstrações de raiva, prédios públicos cercados. Mas essas imagens não são explicadas ou colocadas em um contexto e, com isso, as pessoas assumem que não passa de um motim, uma rebelião jovem contra a crise como as na Grécia e Espanha.

A realidade é muito diferente e mais complexa. O país, no fim das contas, é uma sociedade que declarou guerra ao neoliberalismo 15 anos atrás.

Caracas, onde essa série de eventos se iniciou, é uma cidade dividida. Sua parte leste é de classe média e próspera; ao oeste sua população é mais pobre. A divisão política reflete exatamente a divisão social. Leopoldo López, que tem sido o líder dessa nova fase violenta da oposição ao governo de Nicolas Maduro, foi prefeito de um dos distritos do leste.

Junto com outra proeminente anti-chavista de direita, Maria Corina Machado, López havia emitido uma chamada para uma reunião pública, no último domingo, afim de exigir a queda do governo. O Dia da Juventude, 12 de fevereiro, foi munição suficiente para levar os estudantes às ruas.

A maioria das barricadas queimadas foi construída em áreas da classe média. E os estudantes que as construíram vieram tanto de Universidades particulares quanto de estatais, que excluíram amplamente os estudantes pobres. Não havia quase nada acontecendo nas áreas mais pobres no oeste do país.

Ultimamente, o caráter classista dos protestos se fez claro. O novo sistema de ônibus do governo que oferece viagens boas e baratas, foi atacado. 50 deles só na sexta. A Universidade Bolivariana, que oferece maior educação para aqueles excluídos do sistema universitário, foi sitiada na sexta – mesmo com a fracasso dos protestos em destruí-la. Em diversos locais, médicos cubanos que dirigem o sistema de saúde "Barrio Adentro," foram atacados. Em um curioso acontecimento, uma escultura do arquiteto comunista Fruto Vivas, localizada na cidade de Barquisimeto, está sendo defendida por Chavistas depois de uma ameaça da oposição de destruí-la.

Maduro e seu gabinete responderam aos acontecimentos denunciando o teor violento crescente nas confrontações organizadas por fascistas e apoiadas pelos EUA. Existem, certamente, extremistas envolvidos e comprometidos em desestabilizar a situação. Dentre eles estão os paramilitares ligados ao tráfico de drogas, os quais a presença aumentou muito neste pais demasiadamente armado.

Mas por que a direita escolheu este momento em particular para tomar as ruas? Em parte, é uma resposta ao que parece ser uma fraqueza do governo Maduro, e especialmente do próprio presidente. Não é segredo que por trás dessa fachada de unidade governamental existe uma luta pelo poder entre os muito ricos e os grupos de influência dentro do governo – luta essa que se intensificou meses antes da morte de Chávez.

A presença militar no governo cresceu dramaticamente, e são amplamente controlados pelo grupo de Diosdado Cabello. O líder da corporação de petróleo e vice-presidente de economia, Rafael Rodriguez, tem um enorme poder econômico nas mãos.

Ao mesmo tempo, existe uma luta pelo poder dentro da direita. Todos os lideres proeminentes, incluindo Leopoldo López, Cristina Machado e Capriles, vêm das partes mais ricas da burguesia. Mas estão competindo. López e Machado estão em busca de um tipo de “golpe leve”: desestabilização econômica somada a uma mobilização contínua nas ruas para aprofundar as fraquezas do governo.

Capriles, no entanto, hesitava em apoiar os protestos, argumentava sobre um “governo de unidade nacional,” o qual Maduro aparentava legitimar. Há algumas semanas atrás, Maduro conversou com um dos capitalistas mais ricos do país, Mendoza, e outros setores da burguesia expressaram seu apoio para com o presidente. E essa estratégia tem o apoio de figuras importantes dentro e à margem do governo.

Contra esse passado, a posição do governo chavista tem sido de pedir "paz" – o slogan ecoou pelo enorme número de venezuelanos que se mobilizaram atrás de Maduro. O canto "eles nunca voltarão" é muito significante. Eles reconhecem nos lideres da agitação as mesmas pessoas que implementaram os devastadores programas econômicos antes de Chávez nos anos 90 e quem tentou destruir seu governo duas vezes. Ao mesmo tempo, a tal ‘paz’ ainda tem que ser decidida. Ela significa abranger os problemas reais que as pessoas sofrem, e criar um calço entre uma classe media ansiosa e os auto-proclamados lideres da burguesia? Ou será alcançado por consenso com outros setores da mesma classe, talvez representados por Caprilles, que não tem nenhum compromisso com o socialismo?

A direita venezuelana não é estranha à violência. Em 11 de abril de 2002, lançou um golpe contra Chávez e assumiu o poder. Contata a mídia e exige o assassinato de chavistas tendo em vista o que seriam capazes de fazer. O golpe teve apoio de setores do exército, da igreja, da federação dos funcionários, da embaixada dos EUA e da Organização corrupta do sindicato nacional. Mas falhou devido o levante da massa pobre da população a favor de Chávez e que o trouxeram de volta.

Nove meses depois, a tentativa de destruir a indústria de petróleo e, com isso, a economia como um todo, foi frustrada novamente pela mobilização em massa da maioria dos Venezuelanos – as mesmas pessoas que levaram Chávez ao poder.

A situação presente é uma repetição de Abril? Entre 2002 e 2014, a direita falhou em expulsar Chávez; e o apoio ao então presidente subiu consistentemente até sua morte. Depois disso, seu sucessor Maduro, ganhou as eleições em Abril de 2013. Mas dessa vez, o candidato direitista Henrique Capriles Radonski chegou aos 250,000 votos de diferença, a menos de 1% de ganhar.

Foi uma expressão clara da frustração e raiva crescentes dentre os simpatizantes de Chávez. Em 2012 viram a inflação chegar a 50% e o nível aumentou inexoravelmente pelo ano passado. Atualmente, a cesta básica custa 30% a mais do que o salário mínimo – e isso se os produtos básicos forem encontrados na prateleiras vazias das lojas e mercados. A escassez é explicada, parcialmente, pela especulação por parte dos capitalistas – como aconteceu no Chile em 1972 – e também pelos aumentos nos custos dos importados, que fazem parte de uma proporção crescente do que é consumido no país. E não me refiro à objetos de luxo, mas sim comida, tecnologia básica e até gasolina.

Tudo isso é expressão de uma crise econômica vigorosamente negada pelo governo Maduro, mas óbvio para toda a população. A inflação é causada pela decadência da moeda venezuelana, o bolivar. A verdade é que a produção de qualquer coisa sem ser petróleo levou a uma parada virtual. A indústria de carros emprega 80,000 trabalhadores, só que, desde o inicio de 2014, produziu apenas 200 veículos – o que seria produzido normalmente em um dia.

Como é possível que um país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo (e possivelmente de gás também) esteja agora endividado com a China e impossibilitado de financiar o desenvolvimento industrial que Chávez prometeu em seu primeiro plano econômico?

A resposta é mais política que econômica: corrupção em uma escala inimaginável combinada com a ineficiência e total ausência de estratégias econômicas. Nas últimas semanas, houve muitas denuncias públicas de especuladores e contrabandistas se apropriando de petróleo e quase de todo o resto existente na fronteira Colombiana. Além disso, houveram relatos da descoberta de milhares de containeres com comida apodrecida. Mas tudo isso já é de conhecimento comum por anos. É também sabido do envolvimento de setores do Estado e governo em todos esses fatos.

Chávez prometeu poder popular e o investimento da riqueza petrolífera do país em novos programas sociais. E de fato, seus programas de saúde e educação foram fontes de muito orgulho e garantia de um apoio garantido dentre a maioria dos Venezuelanos. Atualmente, esses fundos estão se esvaindo enquanto a renda do petróleo é usada para o pagamento de importações.

O que emergiu no país é uma nova classe burocrática que são, eles mesmos, os especuladores e donos dessa nova e fracassada economia. Atualmente, com o crescimento da violência, eles são vistos declamando discursos furiosos contra corrupção e usando a camisa vermelha e o boné do chavismo.

Mas os bilhões de dólares que desapareceram nos últimos anos e a riqueza acumulada pelos Chavistas são os sinais claros de que seus interesses prevaleceram. As promessas de controle pelas comunidades, vindo de baixo, de um socialismo que beneficiasse toda população, provaram-se vazias.

A direita esperava negociar com essa desilusão. Porém, a falha da direita em mobilizar uma parcela da classe trabalhadora é testemunho da lealdade que a população tem para com o governo chavista ou até mesmo com o próprio Chávez.

A solução não está nas alianças com os oponentes do chavismo, nem em convidar multinacionais como a Samsung para aproveitar a produção barata do seu equipamento no país. O que pode salvar o projeto bolivariano e a esperança que inspirou tantos é: a remoção dos burocratas e especuladores e a reconstrução do poder popular com base no socialismo genuíno – participativo, democrático e exemplar em recusar os valores e métodos do capitalismo que já foi desmascarado pela juventude revolucionária da Grécia, Espanha e Oriente Médio.

Roland Denis, um líder ativista venezuelano, resumiu a questão assim: "Ou transformamos este momento em uma oportunidade criativa para reativar nosso desejo coletivo de revolução, ou podemos começar a dizer adeus à história que vivemos nos últimos 25 anos."

20 de fevereiro de 2014

Marijuana: O alto e o Baixo

Jerome Groopman


Jeff Chiu/AP Images

A New Leaf: The End of Cannabis Prohibition
por Alyson Martin & Nushin Rashidian
New Press, 264 pp., $17.95 (impresso)

Tradução / No verão de 2006, um jovem cientista de Israel se juntou a meu laboratório. Veio aprender como vírus atacam células, uma questão relevante na minha pesquisa. Ansiava me aprofundar no meu tema com sua experiência em uma área emergente que muito me intrigava: os efeitos biológicos do canabinoide, um composto químico ativo da marijuana. O cientista tinha estudado na Universidade Hebraica de Jerusalém com o professor Raphael Mechoulam, químico conhecido pela descoberta em 1964 do delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), principal composto psicoativo presente na marijuana. Mais tarde, Mechoulam identificou a cannabidiol (CBD), uma substância relacionada abundante na erva, tão díspar do THC que não apresentou efeitos patentes no humor, na percepção, na consciência ou no apetite. [1]

O trabalho do jovem cientista mostrou-se produtivo. De maneira muito rápida, testou os efeitos de várias canabinoides em um vírus da herpes que causa o desenvolvimento do sarcoma de Kaposi, um tumor desfigurante e por vezes fatal em pessoas com baixa imunidade, como os portadores da Aids. Acontece que o CBD, o composto não psicoativo abundante, pode anular os danos malignos do vírus. [2] No meu departamento, cientistas também descobriram que os canabinoides podem alterar a maneira pela qual leucócitos migram em resposta a um estímulo fisiológico, um aspecto essencial em defesa imunológica. Outras equipes de pesquisa descobriram que o THC inibe o crescimento e a propagação do câncer de pulmão e o CBD, o câncer de mama em protótipos de laboratório. [3] É evidente que substâncias químicas presentes na erva podem ter resultados diversos e potentes tanto em células normais quanto malignas.

No entanto, o que achei mais fascinante é o fator de possuirmos um sistema de canabinoide natural ou “endógeno”. Em 1988, pesquisadores identificaram um local de chegada, ou receptor, na superfície das células cerebrais que retêm o THC. O primeiro receptor foi chamado de canabinoide receptor 1, ou CB1. [4] Cinco anos depois, descobriu-se um segundo receptor para canabinoides, CB2. [5]  Esta última proteína receptora era menos frequente no sistema nervoso central, mas numerosa em leucócitos. Novamente, foi Raphael Mechoulam quem descobriu o primeiro canabinoide endógeno, um ácido adiposo no cérebro, o qual chamou de “anadamida”. (O nome vem do sânscrito ananda que significa “bem-aventurança”.) A ligação entre a anandamida e o CB1 produz uma avalanche de mudanças bioquímicas em nossos neurônios. [6]

Outro canabinoide endógeno foi identificado posteriormente. Isso faz sentido em termos de evolução, na medida em que os receptores CB1 e CB2 estariam ausentes em nossas células, se não criássemos moléculas de forma natural para atracar nesses receptores. As ramificações fisiológicas dos canabinoides endógenos mostram-se bastante amplas; seus efeitos mais impressionantes relacionam-se à percepção e à reação a dor.


A cannabis é uma das mais antigas drogas psicotrópicas em uso contínuo. Arqueologistas confirmam a tese em escavações na Ásia que remontam ao período Neolítico, por volta de 4000 a.C. A espécie mais comum da erva é a Cannabis sativa, presente em climas tropicais e temperados. Marijuana é um termo mexicano que se referia inicialmente a fumo barato e hoje designa as folhas e flores secas do cânhamo. Haxixe é em um termo em árabe para o cânhamo indiano e se refere a sua viscosa resina. Acredita-se que o imperador chinês Shen Nung, que descobriu também o chá e a efedrina, foi um dos primeiros a relatar o uso terapêutico da cannabis em um compêndio médico que data de 2737 a.C. Em 1839, William O’Shaughnessy, médico britânico que trabalhou na Índia, publicou um artigo sobre o uso da cannabis como analgésico e estimulante de apetite que também modera náusea, relaxa os músculos, e pode melhorar ataques epiléticos. Suas observações abriram caminho para um uso amplo da cannabis para fins medicinais no Reino Unido: chegou a ser prescrito à rainha Vitória para aliviar o desconforto menstrual. [7]

A planta de cannabis contém cerca de 460 compostos, entre mais de 60 canabinoides. THC, a substância psicoativa chave na marijuana, aumentou de cerca de 1-5% para 10-15% nas plantas cultivadas desde os anos 60. Ao fumar-se a erva, 20-50% de THC é absorvido pelos pulmões. Ao comê-la, menor quantidade de THC atinge o cérebro porque a substância sofre metabolização ao passar do intestino em direção ao fígado. O THC acumula-se em tecidos adiposos, do qual é liberado devagar, e age primariamente no receptor CB1 na região do sistema dopaminérgico mesolímbico, que, acredita-se, contribui positivamente para o prazer e a excitação da droga. [8]

Embora fumar ou ingerir cannabis provoque, em geral, uma sensação de estar “alto”, de forma relaxada e eufórica à medida que a ansiedade e a precaução diminuem, alguns usuários de primeira viagem, assim como pessoas com transtornos psicológicos, podem sentir mal-estar, medo e pânico. Ao ficar alto, é comum sentir-se um nível de sociabilidade bastante elevado, embora possa haver forte retraimento para aqueles que reagem de forma disfórica. A percepção do tempo é alterada, a sensação em geral é de que as horas passam mais rápido; a percepção de espaço também muda, e as cores parecem mais nítidas e a música mais vibrante. Altas doses de cannabis podem levar a alucinações, costume religioso em algumas culturas. Diferente do ópio, não há casos de morte registrados por overdose de THC, provavelmente porque os canabinoides não inibem os canais respiratórios, que resultaria em asfixia. Para o usuário regular, a falta de marijuana pode causar uma síndrome de abstinência incômoda e perturbadora.

Em 2008, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou uma pesquisa sobre saúde mental com 54.068 participantes com mais de 16 anos em 17 países. Na pesquisa, pelo menos 160 milhões de pessoas entre 15 e 65 anos admitiram ter usado marijuana pelo menos uma vez; o menor uso foi constatado na República Popular da China, 0,3%, e o maior nos Estados Unidos, 42,4%, com a Nova Zelândia em segundo lugar.9

Apesar do vasto consumo, a marijuana ainda é ilegal na maior parte dos países. Harry J. Anslinger, um importante proibicionista, pressionou com sucesso o congresso norte-americano para passar a Lei Fiscal da Marijuana de 1937, deixando o acesso à erva mais custoso. Anslinger foi diretor da Secretaria Federal de Narcóticos e falou em público que a marijuana era um verdadeiro perigo, resultando em “um barato louco”. A Associação Médica norte-americana se opôs à Lei Fiscal da Marijuana, temendo que a medida pudesse limitar o estudo clínico e potenciais receitas médicas. Em 1942, depois de muito tempo listada no United States Pharmacopeia, um compêndio de regras para remédios e alimentos, a cannabis foi removida.

Em 1970, o congresso aprovou a Lei de Substâncias Controladas, que classificou a marijuana junto com a heroína como droga do Anexo 1. Drogas nessa categoria podem viciar e não há nenhum valor medicinal. (Ópio, base da morfina, e anfetaminas pertencem ao Anexo II, e são classificadas como menos nocivas apesar de suas propriedades altamente viciantes.) Logo depois, o presidente Nixon lançou a “guerra às drogas”, e, em 1986, o presidente Reagan assinou a Lei Antidrogas, que condenava pessoas à prisão sem liberdade condicional por posse e venda de todas as drogas ilegais, inclusive marijuana.


O estudo dos canabinoides, tanto os que provêm da planta quanto os endocanabinoides que existem naturalmente em nosso corpo, é uma grande iniciativa global que reúne diversos cientistas do meio acadêmico e de empresas farmacêuticas.

Mitch Earleywine, renomado pesquisador de drogas e vício na Universidade de Albany (SUNY), apontou a semelhança dos resultados dos estudos atuais sobre a marijuana com os borrões do teste de Rorschach: “As pessoas veem essas figuras ambíguas do ponto de vista delas e revela-se mais sobre elas do que sobre a tinta.” Muitos que criam políticas públicas ou estão associados a grupos de interesse respondem à pesquisa com a marijuana de acordo com a visão desses grupos, argumenta ele. Suas interpretações evidenciam mais seus próprios preconceitos que as informações factuais. Por exemplo, os proibicionistas defendem que o THC frequentemente aparece no sangue de sujeitos envolvidos em acidentes de carro; só omitem o fato de que muitos desses indivíduos também consumiram bebidas alcoólicas. Antiproibicionistas citam pesquisas que mostram que usuários crônicos não possuem nenhum sinal de perda memória, mas não mencionam que os testes cognitivos são tão fáceis que mesmo uma pessoa mentalmente incapaz poderia fazê-lo.

Duas análises recentes evitam tais vieses e examinam de modo crítico as informações colhidas em mais de centenas de testes clínicos aleatórios envolvendo placebos controlados em cerca de 6.100 pacientes de diferentes condições médicas. [10] A marijuana parece útil no tratamento de anorexia, náusea e vômito, glaucoma, síndrome do intestino irritável, espasmos musculares, esclerose múltipla, sintomas da esclerose lateral amiotrófica (mal de Lou Gehrig), eplepsia, e síndrome de Tourette. (Testes clínicos recentes confirmam muitas das teses do imperador Shen Nung e do Dr. O’Shaughnessy.) Apesar das descobertas em experiências no meu laboratório e outras, os efeitos anticancer em pacientes são mais duvidosos e nem o THC nem o CBD são comprovadamente agentes antineoplásticos, isto é, adequados para tratar o crescimento anormal de tecido.

Judy Foreman, uma excelente jornalista da área médica, dedica um capítulo à marijuana no seu mais recente livro A Nation in Pain: Healing Our Biggest Health Problem [11]. De forma lúcida, ela examina as informações sobre riscos e benefícios da marijuana enquanto terapia para pacientes com dor, destacando onde parece melhorar, e onde é insuficiente, e onde não é possível afirmar valor algum com clareza. Foreman escreve:

Para irmos direto ao ponto, a marijuana funciona. Não de forma muito impressionante, mas tão bem quanto os opioides. Isto é, pode reduzir dor crônica em mais de 30%. E com poucos efeitos colaterais sérios. Para se ter certeza, alguns estudiosos acham muito cedo considerar a marijuana e os canabinoides sintéticos como tratamento de primeira linha para dor, argumentando que outras drogas devem ser testadas antes. Essa visão, porém, pode ser cautelosa demais.

No fim das contas, a marijuana pode ser utilizada em combinação com opioides como a morfina, permitindo menores doses e poucos dos efeitos colaterais decorrentes dos analgésicos da família opioide. Embora a marijuana amenize a dor crônica, seu impacto é mínimo em dores agudas, como depois de uma cirurgia.

Como a cannabis reduz a dor? Alguns dos benefícios podem resultar da dissociação cognitiva: você percebe que a dor é patente, mas não reage a ela emocionalmente. Se você consegue separar-se da dor assim, há menos sofrimento.


Toda terapia, seja droga ou procedimento cirúrgico, requer um equilíbrio entre benefícios versus riscos. Talvez a preocupação mais controversa e importante sobre os canabinoides é a possibilidade de aumentar o risco de psicoses como esquizofrenia, situação mais recorrente entre adolescentes e jovens. Muitos estudos analisaram a saúde de jovens na Suécia, Nova Zelândia e Holanda, que admitiram uso de marijuana, em comparação aos jovens que não usavam. A conclusão de pelo menos 36 estudos relacionaram o uso de cannabis ao desenvolvimento posterior de esquizofrenia e outras psicoses. [12]

A limitação de tais estudos observacionais é que eles sugerem uma associação, mas de modo algum provam uma ligação causal. De fato, na literatura médica há incontáveis estudos observacionais que foram levados a sério, mas depois se mostraram ultrapassados quando testes com placebo controlados vieram à tona. O Women’s Health Iniciative é um bom exemplo. Trata-se de uma pesquisa aleatória, com placebos controlados, que desmentiu o pensamento de quatro décadas sobre os benefícios alegados da terapia de substituição hormonal em mulheres na pós-menopausa, na prevenção de demência e doenças do coração. Não é possível conduzir uma pesquisa aleatória controlada com centenas de adolescentes, escolhendo um grupo para fumar ou ingerir cannabis e outro para receber placebos. Portanto, a relação causal entre marijuana e o desenvolvimento de esquizofrenia e outras psicoses permanecerá um caso não resolvido.

O que está provado é que a marijuana afeta reações cognitivas e psicomotoras. Numerosos estudam revelam que a droga retarda o tempo de reação de uma pessoa e prejudica a atenção, a concentração, a memória de curto prazo e a avaliação de riscos. As mudanças na performance psicomotora podem ir além da sensação de estar “alto”. Testes com pilotos profissionais concluíram que a marijuana prejudicou a condução em um simulador de voo por até 24 horas. [13] Além disso, a maioria dos pilotos não percebeu que o efeito durou até o dia seguinte. Muitas pesquisas relacionaram a cannabis a acidentes de carro: estima-se que motoristas que usaram marijuana são de duas a sete vezes mais propensos a se envolver em acidentes que aqueles que não usaram drogas ou álcool. [14]

A Associação Americana Psiquiátrica, em seu novo dicionário médico (DSM-5), definiu o diagnóstico de “transtorno do uso de cannabis”. Essas pessoas têm por hábito o uso com consequências nocivas, como inaptidão de desempenhar grandes responsabilidades no trabalho e problemas sociais persistentes em família. Tanto o DSM-5 quanto o International Classification of Diseases 10th edition (ICD-10) também incluem uma lista de possíveis sintomas da abstinência de marijuana: fatiga intensa, sonolência, retardo psicomotora, ansiedade e depressão. [15] Há ainda um debate caloroso sobre se a marijuana vicia ou não. Proponentes da marijuana duvidam que possa haver vício real, condição psicológica com desejo e uso compulsivo a despeito de seus males. Argumentam também que a dependência, caso haja alguma, é menos nociva do que em outras drogas. Oponentes da marijuana, principalmente aqueles dos institutos nacionais de saúde, afirmam que dependência e vício são riscos reais, embora em um percentual mais baixo do que a cocaína ou heroína. [16]


O livro A New Leaf: The End of Cannabis Prohibition detalha a história da regulação da marijuana, apresentando em pormenores os conflitos legais e políticos em torno da proibição. O evento começa com uma nota comemorativa, com a legalização da maconha para uso recreativo em dois estados:

Outra proibição está acabando. Em 6 de novembro de 2012, os eleitores do Colorado e de Washington foram os primeiros no mundo a desafiar com sucesso quase um século de políticas ruins e equívocos sobre a cannabis.
No centro de Seattle, o Hotel Ändra estava vestido de branco e azul, as cores do time da campanha do estado de Washington...
Por volta das 19h, o dono de um dos maiores e mais bem-sucedidos dispensários de cannabis medicinal do país chegou. Steve DeAngelo era inconfundível até mesmo na multidão, com suas longas e apertadas tranças de rabo de cavalo e chapéu escuro... No início daquele ano, ele foi a estrela de seu próprio programa no Discovery Channel, Weed Wars. Seus dois Harborside Health Centers ficam na Bay Area, mas ele tinha uma queda por Seattle. Poucos meses antes, ele havia falado no famoso Hempfest de Seattle, frequentado por dezenas de milhares a cada ano. "Tenho trabalhado nessa questão durante toda a minha vida... E eu sei que esta noite... haverá muitos anjos dançando no céu”, disse DeAngelo, com os olhos marejados.

Os autores descrevem uma cena semelhante em Denver:

Brian Vincente, um advogado que defendeu a cannabis medicinal no Colorado por quase uma década, subiu ao palco. “Hoje à noite fizemos história. Isso é algo que você vai contar aos seus filhos”, disse Vincente. “A proibição da maconha começou em 1937. A primeira pessoa presa foi no Colorado.” A multidão vaiou. “O Colorado virou essa porra de cabeça para baixo hoje à noite.” E com a palavra com f veio a alegria.

Estes sucessos resultaram de um esforço único que uniu grupos dos extremos do espectro político:

O apoio dos republicanos conservadores e libertários foi tão importante para a campanha do Colorado quanto o dos democratas e liberais... O estado indeciso do Colorado, berço do partido libertário, é decididamente roxo. O Partido Libertário do Colorado endossou enfaticamente a Emenda 64 em maio, por exemplo, enquanto o Partido Democrata do Colorado ofereceu apoio, mas parou antes de um endosso. O Republican Liberty Caucus do Colorado também endossou a emenda porque a proibição é "inconsistente com os valores republicanos", que exigem mais "responsabilidade pessoal" e menos "exagero federal".

Artigos recentes das revistas The New Yorker [17] e The Nation [18] descrevem de maneira sucinta a seara política em torno da legalização da marijuana para uso médico ou recreativo nos Estados Unidos. No artigo da The New Yorker, o professor Mark Kleiman, especialista em política de drogas da Universidade da Califórnia em Los Angeles, vê a legalização do ponto de vista de um cientista, como se fosse uma experiência em andamento. A legalização testará um grupo de hipóteses sobre políticas públicas, e ele prefere não concluir nada até que mais informações estejam disponíveis.

Assim como toda iniciativa social, consequências negativas são prováveis, e Kleiman defende um monitoramento minucioso do uso excessivo entre adolescentes e da direção sob influência da marijuana quando disponível para uso recreativo. Ele, “aparentemente”, segundo a reportagem da The New Yorker, “obtém um prazer mórbido ao informar aos políticos que eles subestimam a complexidade do problema”. Outra grande preocupação é que quando a marijuana legal estiver à venda no estado de Washington, o mercado negro existente não desaparecerá; ou melhor, a marijuana legal e de venda livre competirá com fontes ilícitas. Kleiman defende que para apoiar o mercado legal, deve haver ainda mais rigor na lei para aqueles que não respeitam as regras. E, em Washington, poucos congressistas querem ouvir tal proposta.

De igual maneira, Kleiman não acha que o álcool será menos visado se a marijuana for legalizada. Embora reconheça que o álcool é a mais perigosa das duas drogas, o professor levanta a possibilidade de que a marijuana possa ser consumida de forma complementar à bebida alcoólica. Concluindo, ele enxerga: “O mundo maniqueísta da política” – o pêndulo pode ir da ilegalidade da marijuana, venda e uso levando à prisão até “aqueles que acham que ‘deveríamos vendê-la como água’”.

Em contraste com a matéria cautelosa do The New Yorker, os artigos da revista The Nation propõem uma evidente endosso à legalização. Na capa da revista, uma foto do jovem Barack Obama com o V da vitória ao lado de colegas apinhados ao redor da logo da “Choom Gang”. O editorial, assinado por Katrina vanden Heuvel, pontua que os últimos presidentes, entre eles Bill Clinton, George W. Bush e Barrack Obama, todos “de uma forma ou outra não respeitaram as leis norte-americana de drogas”, portando ou fumando cannabis. Se tivessem sido flagrados pela polícia, poderiam estar presos, sem qualquer chance de uma carreira na Casa Branca. O livro A New Leaf: The End of Cannabis Prohibition destaca os riscos de prisão por porte de marijuana. A discriminação racial, com um número desproporcional de afro-americanos presos, é a triste realidade da proibição:

Enquanto os usuários de cannabis que são encaminhados à delegacia raramente vão para a prisão, há ainda mais de 30 mil pessoas presas por mero porte. Segundo um amplo relatório de 2013 publicado pela American Civil Liberties Union (ACLU), entre 2001 e 2010 houve mais de oito milhões de detenções por marijuana nos Estados Unidos (88% por porte), e o cumprimento da lei por porte custa sozinho mais de 3,6 milhões de dólares em 2010. 
Em todo o país, os negros têm quase quatro vezes mais probabilidade que os brancos de serem detidos por porte, apesar de índices de uso praticamente iguais; em alguns países, o número aumenta de 4 a 30 vezes. Enfim, 62% dos capturados têm menos de 24 anos, o que significa que isso constará em sua ficha ao longo da vida adulta.

Todo esse desperdício de horas, dinheiro e prisões tiram a atenção do uso indiscriminado e do tráfico de drogas:

Novamente, quando a marijuana – que responde por 80% dos entorpecentes ilegais nos Estados Unidos – for retirada da guerra contra as drogas, o país poderá efetivamente discutir e implantar uma nova e mais flexível política de saúde pública para outras drogas pesadas.


Há muitos anos, recebi uma consulta de uma jovem com anemia. O clínico tinha feito uma avaliação completa da sua condição, mas não achou motivo para a doença. A paciente tinha passado por períodos estressantes no trabalho, e quando perguntei como lidava com isso, ela disse que costumava fumar marijuana toda noite. Segundo o exame de medula óssea, havia número reduzido de células, não tão grave para ser classificado como anemia plástica, mas sem dúvida anormal para uma mulher com vinte e poucos anos. Os numerosos componentes da cannabis não são tidos como tóxicos para as células sanguíneas; fumar marijuana nunca causou anemia. Lembro-me, porém, que algumas colheitas ilícitas têm sido tratadas com toxinas que podem apresentar efeitos perniciosos ao desenvolvimento de células sanguíneas.

Então, juntos decidimos suspender o fumo, e depois de alguns meses a anemia estava resolvida. Um exame subsequente de medula óssea revelou a restauração completa dos números normais de células sanguíneas. Não foi uma prova definitiva, mas certamente sugeriu que algo da erva que ela comprara de um traficante foi a causa. Se não houver uma fiscalização adequada da marijuana à venda, aqueles que procuram a cannabis de rua podem se expor a perigosos ingredientes.

No livro Weed Land: Inside America's Marijuana Epicenter and How Pot Went Legit, Peter Hecht, jornalista do The Sacramento Bee, mapeia a evolução da lei da maconha para fins medicinais na Califórnia, a primeira dos Estados Unidos. [19] Muito do apoio para sua jornada veio da união de forças entre ativistas da Aids e médicos acadêmicos como Donald Abrams do hospital geral de São Francisco, que comprovou os benefícios clínicos para apetite aumentado e alívio de dor em pacientes com caquexia decorrente do HIV. Maconha para fins médicos, agora legal em vinte estados mais o Distrito de Columbia, é regulamentada mais como suplemento que como uma droga. Não há uma padronização de porções ideais para o THC psicoativo e o CBD não psicoativo, embora devam ser sem toxinas. (Um empresa britânica, GW Pharmaceuticals, fabrica o Sativex, um spray oral que contém extratos de duas variedades de cannabis padrão que são misturadas para dar doses exatas de THC e BD. O Sativex foi aprovado em muitos países, mas não nos Estados Unidos.)

Para um médico como eu, prescrever terapia é uma situação desconfortável, porque a receita médica deve especificar a quantidade exata da droga recomendada. Além disso, efeitos colaterais podem ocorrer em pacientes que tomam múltiplos medicamentos, devido à chamada “interações droga-droga”. Essas interações não foram bem examinadas em relação ao THC e o CBD, em parte por causa do acesso restrito à planta para a comunidade de pesquisada clínica. Os cientistas em meu laboratório estudaram substâncias químicas puras, THC e CBD, sob restrita supervisão federal; compramos os canabinoides de empresas químicas que usam controle de qualidade. Como apontam Martin e Rashidian, o estudo médico da planta em si, contendo as susbtâncias químicas ativas, é outra questão:

“O governo federal impôs uma série de restrições adicionais e exclusivas para a pesquisa com a cannabis, com pouca sensatez – exceto no campo político. O governo concedeu a uma única instituição, a Universidade do Mississipi, a permissão de cultivar cannabis legalmente para pesquisa em nome do Estado, embora seja livre para contemplar outros contratos. E a cannabis é a única substância para pesquisa cujo único provedor é o governo. Para um cientista obter cannabis da fazenda federal, na Universidade do Mississipi, é preciso um montão de aprovações... do FDA, DEA, do conselho do Serviço de Saúde Pública.”

Talvez, à medida que os estados legalizem a marijuana, essa barreira à pesquisa possa ser menor, assim como foi para a pesquisa com células-tronco, antes restrita, nos EUA, por lei federal. E, quanto mais estudos sobre a marijuana para fins médicos ou recreativos aparecerem, é provável que oponentes e entusiastas descubram que não estavam nem totalmente certos, nem totalmente errados.

Notas

1. Mohamed Ben Amar, “Cannabinoids in Medicine: A Review of Their Therapeutic Potential,” Journal of Ethno-pharmacology, Vol. 105 (2006); Arno Hazekamp and Franjo Grotenhermen, “Review on Clinical Studies with Cannabis and Cannabinoids 2005–2009,” Cannabinoids, Vol. 5 (2010).

2. Y. Maor, J. Yu, P.M. Kuzontkoski, B.J. Dezube, X. Zhang, and J.E. Groopman, “Cannabidiol Inhibits Growth and Induces Programmed Cell Death in Kaposi Sarcoma–Associated Herpesvirus-Infected Endothelium,” Genes & Cancer, Vol. 3, No. 7–8 (2012); X. Zhang, J.F. Wang, G. Kunos, and J.E. Groopman, “Cannabinoid Modulation of Kaposi’s Sarcoma–Associated Herpesvirus Infection and Transformation,” Cancer Research, Vol. 67, No. 15 (August 1, 2007).

3. S. Ghosh, A. Preet, J.E. Groopman, and R.K. Gaju, “Cannabinoid Receptor CB 2 Modulates the CXCL 12/ CXCR 4-Mediated Chemotaxis of T Lymphocytes,” Molecular Immunology, Vol. 43 (2006); A. Preet, R.K. Ganju, and J.E. Groopman, “∆ 9 -Tetrahydrocannabinol Inhibits Epithelial Growth Factor–Induced Lung Cancer Cell Migration in Vitro as Well as Its Growth and Metastasis in Vivo,” Oncogene, Vol. 27 (2008); X. Zhang, Y. Maor, J.F. Wang, G. Kunos, and J.E. Groopman, “Endocannabinoid-like N-arachidonoyl Serine Is a Novel Pro-angiogenic Mediator,” British Journal of Pharmacology, Vol. 160 (2010); A. Preet, Z. Qamri, M. Nasser, A. Prasad, K. Shilo, X. Zou, J.E. Groopman, and R. Ganju, “Cannabinoid Receptors, CB 1 and CB 2, as Novel Targets for Inhibition of Non-Small Cell Lung Cancer Growth and Metastasis,” Cancer Prevention Research, Vol. 4 (2011); A. Shrivastava, P.M. Kuzontkoski, J.E. Groopman, and A. Prasad, “Cannabidiol Induces Programmed Cell Death in Breast Cancer Cells by Coordinating the Cross-Talk Between Apoptosis and Autophagy,” Molecular Cancer Therapeutics, Vol. 10 (2011).

4. W.A. Devane, F.A. Dysarz III, M.R. Johnson, L.S. Melvin, and A.C. Howlett, “Determination and Characterization of a Cannabinoid Receptor in Rat Brain,” Molecular Pharmacology, Vol. 34 (November 1, 1988).

5. S. Munro, K.L. Thomas, and M. Abu-Shaar, “Molecular Characterization of a Peripheral Receptor for Cannabinoids,” Nature, Vol. 365 (1993).

6. W.A. Devane, L. Hanus, A. Breuer, R.G. Pertwee, L.A. Stevenson, and G. Griffin, “Isolation and Structure of a Brain Constituent That Binds to the Cannabinoid Receptor,” Science, Vol. 258 (December 18, 1992).

7. D. Baker, G. Pryce, G. Giovannoni, and A.J. Thompson, “The Therapeutic Potential of Cannabis,” Lancet Neurology, Vol. 2 (May 2003).

8. Mitch Earleywine, Understanding Marijuana: A New Look at the Scientific Evidence (Oxford University Press, 2002).

9. L. Degenhardt, W.T. Chiu, N. Sampson, et al., “Toward a Global View of Alcohol, Tobacco, Cannabis, and Cocaine Use: Findings from the WHO World Mental Health Surveys,” PLoS Medicine, Vol. 5 (July 2008).

10. See Amar, “Cannabinoids in Medicine: A Review of Their Therapeutic Potential,” and Hazekamp and Grotenhermen, “Review on Clinical Studies with Cannabis and Cannabinoids 2005–2009.”

11.Oxford University Press, 2014

12. M. Large, S. Sharma, M.T. Compton, T. Slade, O. Nielssen, “Cannabis Use and Earlier Onset of Psychosis,” Archives of General Psychiatry, Vol. 68, No. 6 (2011).

13. V.O. Leirer, J.A. Yesavage, and D.G. Morrow, “Marijuana Carry-Over Effects on Aircraft Pilot Performance,” Aviation, Space, and Environmental Medicine, Vol. 62, No. 3 (1991); D.G. Newman (Australian Government, Australian Transport Safety Bureau), “Cannabis and Its Effects on Pilot Performance and Flight Safety: A Review” (2004).

14. M. Asbridge, J.A. Hayden, and J.L. Cartwright, “Acute Cannabis Consumption and Motor Vehicle Collision Risk: Systematic Review of Observational Studies,” BMJ, Vol. 344, No. 14 (2012).

15. D.S. Hasin, K.M. Keyes, D. Alderson et al., “Cannabis Withdrawal in the United States: Results from NESARC,” Journal of Clinical Psychiatry, Vol. 69, No. 9 (2008).

16. See Baker et al., “The Therapeutic Potential of Cannabis,” and Foreman, A Nation in Pain.

17. Patrick Radden Keefe, “Buzzkill,” The New Yorker, November 18, 2013.

18. Katrina vanden Heuvel, “Why It’s Always Been Time to Legalize Pot,” and other articles in The Nation’s “Special Issue: Marijuana Wars,” November 18, 2013.

19. Peter Hecht, Weed Land: Inside America’s Marijuana Epicenter and How Pot Went Legit (University of California Press, May 2014).

Jerome Groopman é o Professor de Medicina em Harvard e Diretor da Experimental Medicine. Ele publicou mais de 180 artigos científicos, e é escritor da The New Yorker. Mais recentemente publicou, em co-autoria com Pamela Hartzband, o livro Your Medical Mind: How to Decide What Is Right for You.

15 de fevereiro de 2014

Os riscos de uma leitura vitimizadora do golpe de 1964

Entender por que uma solução autoritária foi de algum modo aceita pode servir para exorcizarmos a sociedade brasileira do despotismo que tantas vezes assolou a República, diz historiador

Carlos Fico

O Globo

Foto | Marcha da Família com Deus pela Liberdade no Centro do Rio de Janeiro/Arquivo/Agência O GLOBO/2-4-1964

O golpe de 1964 é muito citado, mas pouco pesquisado. A literatura especializada usualmente o menciona como a culminância dramática da trajetória de João Goulart ou como o episódio inaugural da ditadura. Hoje, temos uma historiografia crescente sobre os 21 anos dos governos militares, mas o golpe em si não é o objeto preferencial de tais pesquisas. Entretanto, ele é o “evento-chave” da história do Brasil recente: naquele momento, parcelas significativas da sociedade brasileira aceitaram uma solução autoritária para os problemas que afligiam o país. Podemos assegurar que estamos livres dessa “tentação”? Estudos verticalizados sobre o golpe nos ajudariam a responder a esta pergunta.

Não houve grandes revelações desde as últimas contribuições da historiografia conhecidas há mais de três décadas. De fato, os principais “achados” sobre 1964, especificamente, foram divulgados nos anos 1970 e 1980: a descoberta da “Operação Brother Sam” (o apoio norte-americano ao golpe), por Phyllis R. Parker, em 1976; o livro “O governo João Goulart”, de Moniz Bandeira, publicado em 1978 e a obra magistral de René Armand Dreifuss, de 1980, “1964: a conquista do Estado”, que deslindava, com documentos inéditos, a campanha de desestabilização de que João Goulart foi vítima.

Certamente não se deve reduzir a pesquisa histórica à busca de revelações chocantes, mas seria ingênuo não reconhecer sua importância. Nesse sentido, não é difícil antecipar que significativas informações surgirão a partir da pesquisa de novas fontes documentais — e elas são muitas. Os documentos outrora sigilosos, no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países, vêm sendo revelados paulatinamente. Por exemplo, encontra-se em curso, neste momento, pesquisa documental sobre a comissão que cuidou dos primeiros inquéritos policiais militares (IPMs) logo após o golpe. Do mesmo modo — conforme a legislação norte-americana —, a importante documentação do governo daquele país vai aos poucos sendo liberada. Amplo projeto de digitalização desses documentos, conduzido por historiadores do Brasil e dos EUA, encontra-se em andamento. Militares e políticos brasileiros tinham conhecimento da “Operação Brother Sam” e esta revelação virá inevitavelmente.

As principais teses explicativas sobre o golpe também foram divulgadas há muito tempo. Duas delas são clássicas. Alfred Stepan publicou, em 1969, a interpretação segundo a qual a singularidade de 1964 residiria na mudança do padrão de intervenções militares: em vez de apenas corrigir os rumos e devolver o poder aos civis, os militares, na ocasião, estariam convencidos de que deveriam assumir integralmente o poder. A leitura de Wanderley Guilherme dos Santos, divulgada em 1979, é mais sólida porque amparada em expressiva pesquisa empírica: o golpe de 1964 se explicaria em função de uma “paralisia decisória”, isto é, a radicalização dos atores políticos impediria qualquer tomada de decisão. Outra contribuição importante e mais recente contrapôs-se à leitura marxista segundo a qual os militares eram mero “instrumento” da burguesia: a preocupação em valorizar o que os próprios oficiais pensavam motivou a equipe do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) a realizar significativas entrevistas com eles, publicadas em 1994, por meio das quais podemos conhecer sua própria interpretação sobre o golpe.

Boa parte dos projetos de pesquisas que se candidatam aos mestrados e doutorados em História, Brasil afora, dizem respeito aos diversos temas do regime militar. O notável avanço da pós-graduação em nossa área, nas últimas décadas, tem permitido um conhecimento mais detalhado do golpe e da ditadura a partir de uma perspectiva regional — pois, até recentemente, dispúnhamos de leituras que abordavam, sobretudo, o que houve no Sudeste e em Brasília.

O distanciamento histórico é essencial para que possamos abordar questões delicadas, temas tabu. Talvez se possa dizer que o maior avanço da historiografia recente consista nessa busca de objetividade: hoje podemos nos lembrar de que setores significativos da sociedade apoiaram a derrubada de João Goulart. Jovens pesquisadores têm dado grandes contribuições: Aline Presot comprovou que as Marchas da Família com Deus pela Liberdade expressaram efetiva insatisfação das classes médias urbanas, não resultando apenas da “manipulação” propagandística. Mateus Capssa mostrou que alguns estudantes apoiaram o golpe de 1964. Por tudo isso, o golpe de Estado, outrora chamado de “militar”, tem sido melhor designado como “civil militar”. Historiadores como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg têm chamado a atenção para isso. A serenidade possibilitada pelo recuo temporal e a grande quantidade de novas fontes documentais nos permitem antever um futuro muito promissor para as pesquisas sobre o golpe de 1964.

Isso é essencial. Se entendermos o golpe apenas como o episódio que iniciou uma ditadura brutal, correremos o risco de construir leitura romantizada, segundo a qual a sociedade foi vítima de militares desarvorados. Quando a historiografia mais ousada se contrapõe a essa leitura vitimizadora, ela não está propondo um “revisionismo reacionário” que buscaria eximir de culpa os golpistas. Apenas se trata da reafirmação de algo óbvio: não há fatos históricos simples. Entender porque uma solução autoritária foi de algum modo aceita naquele momento pode servir para exorcizarmos a sociedade brasileira do autoritarismo que tantas vezes vitimou a história de nossa República.

Sobre o autor


Carlos Fico é historiador, professor da UFRJ e autor dos livros “Além do golpe — Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar” e “O grande irmão — Da Operação Brother Sam aos anos de chumbo”

11 de fevereiro de 2014

Novas massas?

Bases sociais da resistência

Göran Therborn


NLR 85 • JAN/FEB 2014

Se quiserem fazer sentido político, as críticas ao capitalismo devem ter - ou arranjar - uma base social. Nos séculos XIX e XX, a crítica mais relevante ficou conhecida como "questão operária" - sua base mais representativa se ​​encontrava justamente na classe operária industrial em ascensão. Era um tema que interessava não só às organizações operárias emergentes e seus eventuais simpatizantes, de convicções liberais, mas também à opinião conservadora; até os fascistas, os inimigos mais violentos do movimento operário, se organizaram a partir desse exemplo. Os operários industriais mantiveram sua posição proeminente até a década de 1970, quando surgiu uma base social para a luta anticapitalista nos movimentos anticolonialistas, mobilizados pela libertação nacional das colônias e contra o "desenvolvimento dependente" imposto pelo imperialismo.

Contudo, nos últimos trinta anos assistimos a uma desindustrialização no Norte, que deteve e inverteu a marcha do operariado. Já a industrialização bem-sucedida de países líderes do Sul, durante esse mesmo período, resultou sobretudo na visão atual de que o desenvolvimento capitalista também é possível na Ásia, na África e na América Latina, ao contrário do que diziam as teorias da dependência, outrora influentes. Assim, será que existe hoje alguma força social que poderia assumir o papel da classe trabalhadora organizada ou dos movimentos anticolonialistas do século XX? No momento, não se veem as camadas de massas anticapitalistas – uma situação nova para o capitalismo, no contexto dos últimos 150 anos. Contudo, se não procurarmos movimentos anticapitalistas, mas sim formações que encerrem, potencialmente, uma posição crítica ao desenvolvimento capitalista contemporâneo, veremos que há forças sociais importantes se manifestando. Podemos distinguir quatro tipos diferentes.

A partir das margens

A primeira força social potencialmente crítica consiste em populações pré-capitalistas que resistem às intrusões das grandes empresas. Os principais atores são os povos indígenas, que em tempos recentes alcançaram certo poder. Eles são politicamente significativos na América Andina e na Índia, mas também se encontram em grande parte do Sul e criaram redes de contatos internacionais. Eles não são numerosos o bastante, tampouco dispõem de recursos suficientes para exercer grande influência, a não ser em termos locais; suas lutas, porém, podem se articular com movimentos críticos de resistência mais amplos. Hoje representam considerável força na Bolívia, onde compõem com uma coalizão governamental turbulenta, e na Índia, onde centralizam uma insurgência em grande escala; em ambos os casos, os organizadores provêm da tradição do movimento operário - na Bolívia, mineiros socialistas demitidos, transformados em plantadores de coca; na Índia central, revolucionários profissionais maoistas. Estes últimos andaram sofrendo reveses, mas não foram derrotados nem destruídos. No México, os zapatistas ainda conservam a região de Lacandona, no estado de Chiapas. Essas mobilizações podem ser contraditórias: em Bengala Ocidental, de governo comunista, os camponeses que defendem suas terras contra projetos de desenvolvimento industrial impediram uma virada para o estilo chinês e empossaram um regime de extrema direita.

A segunda força crítica, em grande parte extracapitalista, é composta das centenas de milhões de camponeses sem-terra, trabalhadores informais e vendedores ambulantes que constituem as vastas populações das favelas em muitas partes da África, Ásia e América Latina. (Seu equivalente no Norte talvez seja o crescente número de jovens marginalizados, tanto nativos como imigrantes, excluídos da esfera do emprego.) Eles constituem, em potencial, um alentado fator de desestabilização para o capitalismo. A ira e a violência reprimidas dessas camadas já se mostraram muitas vezes explosivas, resultando em pogrons étnicos ou apenas em vandalismo descontrolado. No entanto, esses “miseráveis da terra” também já se envolveram em lutas contra despejos e pelo acesso a água e energia elétrica; tiveram papel significativo nas revoltas árabes de 2011 e nos protestos contra a austeridade econômica no litoral norte do Mediterrâneo e do Mar Negro - Grécia, Espanha, Bulgária, Romênia.

Em que condições essas forças poderiam se articular com alguma alternativa socioeconômica viável? Qualquer alternativa crítica precisaria falar diretamente a suas preocupações fundamentais - sua identidade existencial coletiva e seus meios de subsistência. Para atingir em profundidade esses estratos populares, seriam necessários meios de comunicação específicos e líderes carismáticos, com trânsito por todas as redes. Como a população urbana geralmente não é organizada, essa força com potencial crítico só entrará em ação se gerada por um acontecimento de natureza imprevisível.

Massas de colarinho branco

A dialética cotidiana do trabalho assalariado capitalista segue atual, embora tenha se reconfigurado geograficamente. A classe operária industrial que subsiste no Norte continua fraca demais para representar algum desafio anticapitalista; a austeridade econômica e as ofensivas capitalistas, contudo, estão engendrando protestos de horizonte curto - inclusive na França, onde, em 2010, operários organizados ameaçaram interromper o fornecimento de gasolina, e, em 2012, metalúrgicos ocuparam fábricas. Os novos trabalhadores industriais na China, Bangladesh, Indonésia e outras partes do Sul podem ter mais cacife para fazer demandas anticapitalistas, mas sua posição fica debilitada pela vasta oferta de mão de obra. Além disso, esses trabalhadores já estão sendo ultrapassados por padrões de emprego mais fragmentados do setor de serviços. Repetidas tentativas de fundar partidos operários, da Nigéria à Indonésia, fracassaram; o único sucesso nos últimos trinta anos foi o PT no Brasil. Tanto na Coreia do Sul como na África do Sul há movimentos operários importantes, baseados nos sindicatos, mas lhes faltam articulações políticas fortes: os sindicatos sul-africanos são ofuscados pela natureza do governo do ANC (Congresso Nacional Africano), e na Coreia os sindicatos se veem prejudicados por um partidarismo mesquinho, que no final de 2012 conseguiu torpedear um projeto, já bem desenvolvido, de formação de um partido de esquerda unido.

Embora no Sul as lutas de classe tenham obtido aumentos salariais e, em certa medida, condições de trabalho menos horríveis, parece improvável que se transformem num desafio mais sistêmico. No leste da Ásia, em particular, o capitalismo industrial está conseguindo elevar os níveis de consumo de modo muito mais rápido que as economias europeias, de desenvolvimento mais lento. É verdade que os atuais governos do Partido Comunista na China e no Vietnã não descartam uma virada anticapitalista - que seria viável, caso fosse tentada. Para tanto, seria preciso que o crescimento apresentasse uma queda e também ocorresse uma mobilização eficaz dos trabalhadores contra a enorme desigualdade, que ameaça a “harmonia” ou coesão social do capitalismo comunista. Tal conjectura é imaginável, mas altamente improvável, pelo menos em médio prazo. Cenário mais promissor pode ser a articulação das lutas operárias com as lutas comunitárias por habitação, saúde, educação ou direitos civis.

Temas críticos

Uma quarta força social potencialmente crítica pode estar surgindo no seio da dialética do capitalismo financeirizado. Camadas da classe média - incluindo, como fator decisivo, os estudantes - desempenharam papel fundamental nos movimentos de 2011 na Espanha, Grécia, Oriente Médio árabe, Chile, bem como nos protestos mais fracos do movimento Occupy nos Estados Unidos e na Europa - e na onda de manifestações na Turquia e no Brasil, em 2013. Essas irrupções levaram às ruas tanto jovens da classe média como das camadas populares contra sistemas capitalistas corruptos, exclusivistas, causadores de polarização social. Eles não conseguiram desestabilizar o poderio do capital, ainda que em 2011 dois governos tenham sido derrubados, Egito e Tunísia. No entanto, talvez venham a se revelar como ensaios gerais para dramas que estão por vir.

Os discursos sobre a nova classe média se multiplicaram nos últimos dez anos. Quando se originam na África, Ásia e América Latina, ou discorrem sobre essas regiões, predomina o tom triunfalista - embora mais cauteloso acerca da Europa Oriental -, que proclama a iminência de grandes mercados de consumidores solventes. Corretos ou não, discursos de classe são sempre significativos socialmente, de modo que o recrudescimento, a nível global, do discurso da classe média é um notável sintoma da década de 2010. Normalmente não aponta para nenhuma dialética social crítica; pelo contrário, em geral aplaude o triunfo do consumismo. A classe trabalhadora está desaparecendo dos documentos do Partido Comunista chinês e vietnamita, enquanto na Europa - Alemanha à frente - o ideal de uma "sociedade empresarial" substituiu a autoimagem de "sociedade assalariada" de meados do século XX. Comentaristas políticos costumam ver na classe média um alicerce promissor para economias "sólidas" e para a democracia liberal, embora economistas ponderados, particularmente no Brasil, já enfatizassem a fragilidade da noção de classe média e o risco sempre presente da pobreza a que muita gente está exposta. Já nos Estados Unidos predomina a preocupação com o declínio da classe média, em status econômico e peso social. A Europa Ocidental não seguiu exatamente o mesmo caminho: ali a noção de classe média sempre foi mais circunscrita do que nas Américas ou na Ásia – incluindo a China pós-maoista – devido à presença discursiva já bem estabelecida de uma classe trabalhadora. Fora da Europa, o novo conceito de classe média hoje engloba a vasta massa da população que fica entre os muito pobres e os ricos – com frequência a linha de pobreza é definida como uma receita ou despesa diária de 2, 4 ou 10 dólares, enquanto o limite superior exclui apenas os 5 ou 10% mais ricos.

Diferentemente da classe operária industrial, o composto heterogêneo conhecido como “classe média” não tem nenhuma relação específica com a produção, tampouco abriga tendências próprias de desenvolvimento, salvo o consumo ilimitado. No entanto, não importa como seja definida, a classe média – ou partes substanciais dela – já demonstrou ser capaz de atuar politicamente de modo significativo, e sua importância aumenta com o declínio ou a desorganização do proletariado industrial. A crescente classe média do Sul global merece particular atenção, pois pode ser crucial na definição das opções políticas.

Justamente por sua indeterminação social, a pressão da classe média pode ser aplicada em direções diferentes, e até opostas. No Chile, a classe média mobilizada atuou fortemente por trás do golpe de Pinochet, enquanto na Venezuela, em 2002, ela apoiou uma tentativa fracassada de desbancar Hugo Chávez; seis anos depois, os abastados “Camisas Amarelas” de Bangcoc derrubaram o governo da Tailândia. Como mostra a história da Europa do século XX, a classe média não é uma força intrinsecamente a favor da democracia. Mas também tem exercido pressão por mudanças democráticas, tendo atuado em Taiwan e na Coreia do Sul na década de 1980 – ao lado dos operários industriais – e na Europa Oriental em 1989. Foi uma força fundamental no Cairo e em Túnis em 2011, e defendeu os protestos populares de rua na Grécia, Espanha, Chile e Brasil em 2011–13. Sua volatilidade política é vividamente ilustrada pelas guinadas no Egito, desde a aclamação da democracia até a adulação aos militares e sua crescente repressão, aceitando, efetivamente, a restauração do ancien régime sem Mubarak.

Mas as intervenções críticas de forças da classe média também podem se manifestar nas urnas. Em 2012 a Cidade do México, com uma população igual à de um país europeu de tamanho médio, elegeu um prefeito de esquerda pelo quarto mandato consecutivo; o candidato, Miguel Ángel Mancera, abocanhou quase 64% dos votos, números que sugerem um bloco popular incontornável. Na Índia, a trajetória do AAP, o Aam Aadmi Party (Partido do Homem Comum), continua indefinida. O avanço espetacular do partido e de seu líder, Arvind Kejriwal, deveu-se a uma nova aliança que uniu manifestantes anticorrupção de classe média a um conjunto de propostas concretas sobre o acesso a água e outros serviços públicos, que podiam beneficiar camadas mais amplas. O novo partido venceu em Nova Delhi, bem como em nove dos doze distritos eleitorais das castas mais desfavorecidas, assumindo o governo da capital em fins de 2013 – e deixando o cargo depois de apenas 49 dias, quando seus esforços legislativos para coibir a corrupção se paralisaram por falta de aprovação do governo central. Na Indonésia, um candidato reformista, Jokovi, ganhou o governo de Jacarta em 2012, vencendo (com uma plataforma de ampliação dos serviços de educação e saúde e promoção do “urbanismo empresarial”) as forças locais do establishment, além de uma odiosa campanha sectário-religiosa (seu companheiro de chapa era um chinês cristão). Também aqui a força e a eficácia das alianças de classe – sua capacidade de oferecer melhorias tangíveis às massas populares – ainda estão por surgir.

O capitalismo – e sobretudo o capitalismo industrial – tem sido alvo de críticas culturais desde que o poeta William Blake denunciou seus “tenebrosos moinhos satânicos”. Durante muito tempo o sistema simplesmente passava direto por essas lamentações, mas o ano de 1968 pôs fim ao sossego. Os movimentos então simbolizados não fizeram muito progresso contra o capitalismo em si, mas exerceram impacto sobre as relações sociais: conseguiram erodir o patriarcado e a misoginia, deslegitimar o racismo institucional, reduzir a deferência e a hierarquia – em suma, promoveram a igualdade existencial, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Contudo, boa parte dessas transformações culturais vem sendo absorvida pelo capitalismo avançado, com a informalidade das indústrias de alta tecnologia, a onda de mulheres em altos cargos executivos, a generalização dos direitos dos gays e do casamento homossexual, a figura social do bubo, o burguês boêmio com dinheiro e valores de esquerda, e assim por diante.

Os movimentos baseados numa crítica cultural da sociedade capitalista sempre clamaram pela limitação e a regulamentação do desenvolvimento capitalista; ou então apresentaram formas alternativas de vida. As próximas décadas podem vir a conhecer pelo menos quatro tipos de movimentos crítico-culturais significativos, tanto pela abordagem da “limitação” como pela proposta de“alternativas”. Historicamente, o argumento mais importante a favor da limitação apontou a ameaça que o capitalismo desenfreado representa para a coesão social. A questão ambiental é mais recente, com sua discussão sobre o risco que o ecossistema corre pelas consequências não intencionais da industrialização, cada vez mais fora de controle.

Entre as “alternativas”, a relevância dosocialismo anda suspensa, porém há outras visões claramente discerníveis, mais parecidas com o comunismo no sentido marxista original do que com o socialismo industrial do século XX. Hoje é possível identificar dois desses movimentos, pelo menos em embrião, ambos oferecendo a promessa de uma qualidade de vida superior à do capitalismo. A primeira, mais bem articulada na Alemanha, parte da experiência dos países desenvolvidos e tem uma ênfase “pós-crescimento”. A segunda apresenta uma alternativa geossocial, derivando sua força do Sul não capitalista.

Em primeiro lugar, a coesão social é muito menos vital para as elites de hoje do que era para as elites de séculos anteriores. Os exércitos com alistamento obrigatório foram em grande parte substituídos por forças mercenárias; os meios de comunicação têm ajudado a tornar as eleições internas “administráveis”; o consenso econômico predominante sustenta que a confiança dos investidores internacionais tem mais influência sobre o crescimento econômico do que a coesão do desenvolvimento. Para as elites do Norte, a coesão implica uma pressão sobre os imigrantes para se assimilarem melhor, em nome da “integração”. É verdade que existe uma preocupação oficial da União Europeia com a coesão social, mas na prática isso se manifesta sobretudo em termos geográficos, com o financiamento de programas de desenvolvimento nas regiões mais pobres. Durante a crise atual, que impôs uma dura austeridade econômica sobre as populações do sul da Europa, vê-se pouco interesse oficial pelo aumento da exclusão social. A coesão nacional já não é mais considerada a chave para o poder imperial – como foi nos séculos XIX e XX, quando a “revolução vinda de cima” da dinastia Meiji no Japão, e as tentativas menos bem-sucedidas de outros regimes, desde a China da dinastia Qing até o Império Otomano, a via como a base da moderna força geopolítica. Após a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento capitalista nacional coeso era o objetivo dos governantes eleitos do Japão e também dos militares de Taiwan e da Coreia do Sul, o que reverteu em sociedades industriais cujos baixos níveis de desigualdade econômica só ficavam a dever, no mundo capitalista, aos Estados europeus do bem-estar social. Para os governantes da República Popular da China, a coesão social continua a ser um critério decisivo do desempenho político. A extraordinária desigualdade produzida pela China nos últimos 35 anos – tão diferente da trajetória igualitária, de crescimento rápido do Japão, Coreia do Sul e Taiwan – torna insustentável a autoimagem da China como uma “sociedade harmoniosa”. Isso também pode ocorrer em outras partes do Sul.

No entanto, a exclusão social, a desigualdade e o deslocamento continuam a ser uma possível base para as críticas vindas de baixo, como já mostraram os recorrentes movimentos de protesto dos últimos anos. A lógica de O Capital não dá conta das atuais sociedades capitalistas, que também incluem áreas não capitalistas, com seus espaços e serviços públicos. No momento, o capitalismo está decidido a invadir todas as esferas da vida social – restringindo, ainda que não abolindo necessariamente (por enquanto), tudo que é público. Essa disseminação cria correntes de resistência, de defesa do que é público ou não comoditizado. Recentemente tem havido uma proliferação global desse tipo de movimento de protesto: contra a privatização do ensino superior no Chile e em outras partes da América Latina; contra a comercialização dos espaços públicos em Istambul; e, na Suécia, um ressentimento, mais abafado porém amplo, contra a desestatização de escolas e serviços sociais.

A mercantilização das relações sociais e o enfraquecimento, promovido pelo neoliberalismo, de qualquer noção de interesse público ou senso de responsabilidade social têm proporcionado grandes oportunidades para a corrupção. Mesmo em países como a Suécia, antes regidos por uma ética de serviço público muito forte, embora agora vilipendiada, os negócios obscuros entre a esfera pública e a privada se tornaram endêmicos. No Sul, onde a corrupção maciça é sistêmica na maioria dos países – e também na China e no Vietnã –, as campanhas em prol das “mãos limpas” são comuns, porém têm pouco impacto. Vez por outra são efetivas, como aconteceu nas manifestações de Nova Delhi. Iniciados em 2011 por Anna Hazare após a roubalheira descarada propiciada pelos Jogos da Commonwealth de 2010, os protestos acabaram se transformando no Aam Aadmi Party. Os movimentos contra a corrupção e a exploração comercial de espaços e serviços públicos tendem a crescer, já que as provocações vão se multiplicar, e também porque hoje os cidadãos são menos deferentes à autoridade, mais bem informados e mais fáceis de mobilizar por meio das mídias sociais. Um caso exemplar foi o da Turquia em 2013. Contudo, se esses protestos não integrarem configurações sociopolíticas mais amplas, eles vão permanecer – juntamente com as manifestações contra o endividamento e os despejos – dentro dos limites do sistema capitalista.

Na década de 1980, ambientalistas críticos ao capitalismo se organizaram num movimento social que ainda tem considerável expressão. Pode-se dizer que os desafios ecológicos apresentados por alterações climáticas, poluição urbana, pilhagem de oceanos e esgotamento de reservas hídricas reiniciaram a dialética entre o caráter social das forças de produção e a natureza das relações de propriedade existentes – uma dialética que a desindustrialização e o triunfo do capitalismo financeiro no Norte haviam suspendido. O impacto dessa crítica provavelmente vai depender de sua capacidade de desenvolver uma responsabilidade regulatória coletiva e ao mesmo tempo não exigir sacrifícios como o não crescimento. Uma questão crucial é a desastrosa poluição das cidades chinesas – inclusive, espetacularmente, Pequim – e de outros centros urbanos da Ásia. Na China, a poluição também está destruindo grandes áreas de solo arável. Ao exigir a regulamentação pública, o ambientalismo poderia se articular com as críticas ao capitalismo financeiro desenfreado. As escassas alianças desse tipo ressaltam a fraqueza da esquerda no Atlântico Norte – para não mencionar a obsessão chinesa, ainda praticamente incontestada, de recuperar o atraso econômico.

Uma crítica ao consumismo poderia assumir uma nova forma geracional. “1968” foi um movimento jovem – “Não confie em ninguém com mais de 30 anos” –, ao passo que nos protestos de 2011 no Mediterrâneo e no Chile, ou no Brasil em junho de 2013, muitos manifestantes estavam acompanhados dos pais. A crise devastadora do neoliberalismo na Argentina no alvorecer do século xxi acarretou vigorosos protestos de rua de aposentados, em defesa de suas pensões. Um movimento crítico poderia emergir das populações idosas da Europa e do Japão, em especial entre os mais velhos da geração de 1968. Poderiam ser protestos por qualidade de vida – serenidade, segurança, estética – em detrimento da expansão econômica e acumulação de capital. É pouco provável que ganhem muito impulso fora da Europa ou Japão, exceto, talvez, na região do rio da Prata e entre as minorias das “primeiras nações” indígenas. O consumismo parece persistir como a principal dinâmica cultural.

Articulada pelo movimento do Fórum Social Mundial, a crítica feita pelo Sul global ao capitalismo do Atlântico Norte foi levada mais adiante pelo estudioso português Boaventura de Sousa Santos em sua obra Epistemologias do Sul. Sua análise provavelmente exercerá uma influência cada vez maior devido às mudanças geopolíticas do poder planetário; mas também é provável que encontre resistência arraigada, e não apenas das elites do Norte. O consumismo está seduzindo novas e vastas camadas do Sul, que acorrem, em adoração, aos shopping centers que brotam como cogumelos. Boaventura e outros estudiosos abrem um espaçocrítico que deveria abalar a arrogância cultural do Norte. O problema deles é que se dirigem sobretudo àqueles que têm mais a perder com a sua mensagem: os modernos do Norte. No entanto, o espelho do Sul que o movimento do Fórum Social Mundial mostrou ao capitalismo do Atlântico provavelmente será incorporado ao pensamento crítico do Norte – tal como deveria ser.

Em resumo: as populações pré-capitalistas, lutando para conservar seu território e seus meios de subsistência; as massas “excedentes”, excluídas do emprego formal nos circuitos da produção capitalista; os trabalhadores fabris explorados em todas as zonas ex-industriais decadentes e outras zonas empobrecidas; novas e antigas classes médias, cada vez mais oneradas com o pagamento de dívidas às corporações financeiras – estas constituem as possíveis bases sociais para as críticas contemporâneas à ordem capitalista dominante. O avanço exigirá, quase com certeza, alianças entre essas bases e, portanto, a articulação de seus interesses. Para qual caminho, ou quais caminhos, vai pender a nova classe média na África, Ásia e América Latina? Esse será um fator determinante e vital.

Se a classe média em ascensão representou a vanguarda do desenvolvimento capitalista na Euro-América do século XIX, hoje sua função não é mais essa. O capital financeiro e as empresas multinacionais há muito tempo usurparam esse papel. Em vez disso, a classe média precisa tomar partido em sociedades fortemente polarizadas, seja ao lado dos oligarcas contra os pobres, seja com o povo contra os oligarcas. Qualquer crítica viável ao capitalismo do século XXI terá que recrutar grande parte da classe média, abordando algumas de suas preocupações e procurando articulá-las numa direção crítica, igualitária. Isso implicaria respeitar os valores clássicos da classe média de trabalho duro, autossuficiência, racionalidade e justiça. Será preciso articular a compatibilidade desses interesses com as demandas populares de inclusão e igualdade, e a sua incompatibilidade com as práticas insensatas das elites financeiras, os capitalistas de compadrio e os regimes corruptos ou autoritários. A classe média, em especial os assalariados e profissionais liberais, também está potencialmente aberta a críticas culturais feitas ao capitalismo, em especial quanto a questões ambientais e de qualidade de vida. Contudo, dada a inconstância política da classe média, qualquer virada progressista vai exigir a mobilização de considerável força popular entre as duas primeiras correntes sociais já mencionadas: as populações pré-capitalistas invadidas ou marginalizadas, e os trabalhadores que procuram se defender na esfera da produção.

7 de fevereiro de 2014

Por que somos marxistas

O marxismo vive porque não fomos além das circunstâncias que o criaram.

Nivedita Majumdar



Meses depois de seu lançamento, o Capital de Thomas Piketty no século XXI ainda está sendo elogiado em resenhas e posicionado perto do topo das paradas dos mais vendidos. Se a invisibilidade de um sistema é um marcador de seu sucesso ideológico, isso não pode ser um bom sinal para o capitalismo.

Não é surpresa que as pessoas estejam curiosas sobre as causas da injustiça que as rodeia. Os salários médios dos trabalhadores nos EUA caíram de forma considerável de 2007 a 2012; no mesmo período, mais de 90% de toda a nova renda foi para o 1% mais alto; enquanto cerca de 46 milhões de americanos vivem na pobreza, a diferença entre os lucros das empresas e os salários dos trabalhadores nunca foi tão grande. A conclusão de Piketty de que o capitalismo, se não for controlado, gera uma concentração de riqueza entre uma pequena minoria se encaixa bem nessa experiência vivida.

Mérito ou trabalho duro, a justificativa padrão para a desigualdade, tem pouco a ver com a nossa nova era dourada.

Embora ele se distancie do velho homem, as análises de Piketty foram alinhadas em certo sentido com as de Marx. Não é de surpreender que a resposta ao livro tenha revelado alguns equívocos centrais incorporados nas críticas ao marxismo.

Aqui fica claro que a invisibilidade não é a única arma no arsenal ideológico do capitalismo. A primeira linha de defesa da direita é a negação, com alguma variação na alegação de que o estado da economia é bom, obrigado. Pode haver desigualdade, como Scott Winship ou Kevin Hasset argumentariam, mas não é realmente prejudicial. Eles estão baseando-se na convicção ideológica de que o capitalismo deixado por conta própria recompensa o meritório e é benéfico não apenas para os capitalistas, mas para todos.

Infelizmente para eles, Piketty não faz simplesmente uma reconvenção; ele demonstra com dados irrefutáveis ​​que a fé depositada nessa doutrina dualista do capitalismo - da criação natural e justa de uma meritocracia cuja resultante desigualdade beneficia a todos - é simplesmente falsa. É por isso que Paul Krugman chama-o “pânico de Piketty”, e eles se movem para a segunda linha de defesa.

Os opositores de Piketty fazem uma afirmação que é poderosa em sua velha simplicidade: o dinheiro não importa. Não é a desigualdade que gera infelicidade, mas a falta de possibilidades comunitárias. Observe que eles não questionam o fato da desigualdade ou até mesmo que isso pode causar infelicidade, mas, como Megan McArdle insiste, “[A] proporção dessa infelicidade devido à desigualdade de renda é, na verdade, relativamente pequena”.

Em vez disso, McArdle sustenta em sua resenha do livro de Piketty - que ela admite não ter lido - que o que é necessário “é a sensação de que você pode planejar uma vida decente, cheia de amor e alegria e amizade e, em seguida, enviar seus filhos para uma vida pelo menos tão segura e bem provisionada quanto a sua.”

Em uma resenha marginalmente mais sofisticada, Ross Douthat argumenta da mesma forma que a ressurreição de Marx não trará muito conforto, porque o que está errado nas sociedades capitalistas contemporâneas não é a falta de segurança econômica, mas a erosão da “identidade cultural - família e fé, soberania e comunidade... formas de solidariedade que dão sentido à vida para muitas pessoas, oferecendo apenas dinheiro no lugar disso”.

Recusas esquerdistas fáceis de tais posições idealistas não são necessariamente úteis. A razão pela qual os argumentos que rejeitam a conexão entre dinheiro e felicidade têm um apelo tão duradouro é porque há um núcleo de verdade neles. A realização do potencial humano e da felicidade está muito mais ligada à criatividade, à arte, à ciência, a inúmeras práticas culturais e a formas de solidariedade e comunidade, e não de materialidade.

Mas aqui está a questão - Marx concordaria de todo o coração! O poder moral da obra de Marx não deriva apenas de sua desmistificação sistemática do capitalismo; também flui da sua insistência de que o capitalismo não pode gerar as condições para o florescimento humano. Ele nunca igualou o bem-estar material à felicidade, mas sabia que não pode haver felicidade sem o bem-estar material.

O crime do capitalismo é que ele força a grande maioria da população a permanecer preocupada com as preocupações básicas de nutrição, moradia, saúde e aquisição de habilidades. Deixa pouco tempo para estimular a comunidade e a criatividade que os humanos anseiam.

E a injustiça do capitalismo é que isso acontece em uma era de abundância. Há recursos suficientes para garantir a satisfação material básica para todos, mas o capital exige que esses recursos não beneficiem a grande maioria. Além disso, esses mesmos recursos foram gerados pelo trabalho árduo da população, a quem são negados seus benefícios.

Marx demonstrou que não havia justificativa moral ou prática para a concentração da riqueza nas mãos de uma pequena minoria, e Piketty mostra que esse ainda é o caso. Assim, quando os ideólogos de direita declaram a necessidade de “amor, alegria e amizade” ou “formas de solidariedade que dão sentido à vida”, eles não entendem que esses são precisamente o tipo de visão social que sempre estarão sob ameaça no capitalismo.


Mesmo em algumas das leituras mais progressistas de Piketty, há uma curiosa convergência com a direita em sua animosidade ao marxismo. Na crítica tortuosa de Timothy Shenk no Nation of Piketty e outros "marxistas millenial", ele reconhece que a crise econômica causou um ressurgimento do interesse pelo marxismo, mas afirma que precisamos "repensar o marxismo ou ir além dele". O princípio principal dessa crítica cansada é que a perspectiva marxista carece de complexidade.

Embora despreze o movimento trabalhista porque parece "preso em um declínio perpétuo", Shenk reserva sua ira para os jovens seguidores de Marx que atingiram a maioridade no novo século. Ativistas do Occupy, pensadores esquerdistas e jornalistas que escrevem em fóruns como  Jacobin são ridicularizados por "usar tropos marxistas convencionais" e explorar o fácil alcance oferecido pela tecnologia para divulgar sua mensagem política.

Seu compromisso aparentemente é leve, mas é "mais fácil de compartilhar, talvez com uma postagem no Facebook". Então Shenk os ridiculariza tanto por sua fé do velho mundo na possibilidade de um "renascimento do marxismo" quanto por sua facilidade com a nova mídia. O problema é que Shenk nunca desmonta seu cavalo irônico para esclarecer por que o marxismo (ou a internet) é um problema.

Shenk certamente não é o primeiro a apontar o dedo para jovens radicais por sua falta de interesse em "ambiguidade, incerteza e diferença", por ignorar a "contingência"da vida social e coisas assim. Tudo isso agora são palavras de ordem na falsa esquerda, que eles usam como porretes contra os marxistas.

Talvez a razão pela qual jovens pensadores radicais não se impressionem com apelos para reconhecer "ambiguidade e contingência" seja porque o que eles viram em suas vidas é uma lição sobre alguns fatos bastante inequívocos sobre como o capitalismo funciona.

Mesmo economistas neoclássicos obstinados estão chegando à conclusão de que quarenta anos de salários estagnados podem ter algo a ver com o ataque aos sindicatos; que o declínio do movimento trabalhista, por sua vez, acelerou a virada para a direita na política; que essa mudança, por sua vez, levou a uma evisceração bastante bem-sucedida do pouco apoio social que o Estado dava aos pobres; que quando a corrida louca por lucros de curto prazo finalmente levou a economia ao tanque, o estado retribuiu o favor repassando os custos para o público e entregando trilhões de dólares aos bancos.

Não havia contingência ou ambigüidade em nada disso. Foi um resultado bastante previsível de uma guerra de classes altamente bem-sucedida que transferiu o poder político firmemente para as elites. É assim que o capitalismo se parece quando a luta de classes se torna feia.

Quando autodenominados progressistas pregam o evangelho da contingência e ambiguidade em tempos como estes, é uma surpresa que as pessoas se voltem para Marx em busca de um pouco de clareza?

Claro, Marx tem algo a oferecer não apenas em tempos de crise. O ponto principal de Marx era que as crises apenas trazem um alívio mais claro à instabilidade e à dinâmica de poder construída no capitalismo. Os períodos de crises econômicas não geram, mas são causados pelas contradições econômicas e políticas do capitalismo. A obscena concentração de riqueza nas duas décadas anteriores à crise de 2008 mostra que não há mecanismo para pressionar por uma alocação sustentável, muito menos justa, de recursos dentro do capitalismo.

As esperanças deflacionadas dos liberais no presidente Obama são lembretes de que qualquer entidade política, independentemente de suas afirmações de autonomia, que direta ou indiretamente dependa do capital, deve capitular à lógica e aos interesses do capital. Um desafio viável ao capital deve derivar de uma fonte diferente de poder - por meio da organização daqueles que o capital vitimiza. Na sociedade de classes, a luta de classes é imperativa.

Por sua própria admissão, Piketty não é marxista. No início do livro, ele escreve sobre ser “vacinado para o resto da vida contra a retórica convencional, mas preguiçosa, do anticapitalismo”, que permaneceu em grande parte alheio ao fracasso histórico do comunismo.

A própria análise econômica de Piketty mostra que uma posição anticapitalista não precisa ser preguiçosa. Sua postura política, infelizmente, é convencional em sua expressa necessidade de ser considerada não-marxista. Piketty deve saber que o fracasso do comunismo tem pouca influência na crítica política e econômica marxista de hoje ao capitalismo. As falhas soviéticas dificilmente têm ressonância para os trabalhadores do Rana Plaza.

O que a experiência desses trabalhadores confirma é o caráter abertamente explorador do capital e o poder político do capital, que torna incrivelmente difícil para os trabalhadores se organizarem e reagirem. E essa lógica em exibição no Rana Plaza está intimamente ligada à experiência dos trabalhadores do setor público em Wisconsin e à privação de direitos dos trabalhadores em todos os lugares.

Piketty reconhece que a operação irrestrita do capital exige fortes mecanismos de contra-ataque, mas evita o confronto político. Ele propõe a “tributação confiscatória” como forma de combater a tendência a desigualdades massivas. Uma ideia útil, mas qualquer proposta que exija uma redistribuição justa de recursos nunca funcionará sem lutas organizadas desafiando o poder capitalista.

Talvez sejam necessárias guerras e crises econômicas para introduzir uma transformação da base política do poder, como sugere Piketty. Mas mesmo nesses casos, não são os eventos, mas os movimentos de massa resultantes que causaram as mudanças. Piketty defende a “deliberação democrática” e educação acessível e de qualidade; sem dúvida, esses objetivos valem a pena, mas por si só nunca poderão remediar o desequilíbrio de poder arraigado no capitalismo.

Para isso, nossa única esperança são movimentos organizados baseados em uma fonte alternativa de poder. Como Doug Henwood, também tenho esperança de que uma nova geração que "perdeu a vacinação anticapitalista" mobilizará as análises de Piketty para a construção de uma cultura política insurgente. O futuro depende disso.

Colaborador

Nivedita Majumdar é professora associada de inglês no John Jay College. Ela é a secretária do Professional Staff Congress, do corpo docente da CUNY e do sindicato dos funcionários.

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