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18 de abril de 2017

O socialismo é eurocêntrico?

Tanto a exploração capitalista quanto a resistência dos trabalhadores são similares em todo o mundo. No Ocidente e fora dele, o socialismo fala sobre essas experiências.

Nivedita Majumdar


Trabalhador de uma fábrica de roupas em Bangladesh. Banco Asiático de Desenvolvimento / Flickr

A melhor maneira de falar sobre socialismo é começar pelo capitalismo. O capitalismo, como todos sabemos, é um sistema fundamentalmente guiado pela intenção do lucro. Essa é a questão central do capitalismo. Todos os malefícios do capitalismo que conhecemos - salários baixos, condições de trabalho degradantes, perda da autonomia dos trabalhadores, retaliação contra quem se organiza - tudo isso provém da corrida pelo lucro. Os capitalistas querem lucrar; e todo o resto deriva dessa lógica fundamental.

O socialismo surge como uma resposta à esta natureza intrinsecamente injusta do capitalismo. Se o capitalismo está enraizado na intenção do lucro, o socialismo está baseado na intenção de lutar pela equidade e justiça. Os trabalhadores, apesar de tudo, sempre revidam. O socialismo é sobre essa luta, e sobre a visão de uma ordem justa, livre da opressão e dominação, que incentiva essa luta.

A pergunta a ser feita é, essas forças opostas da opressão capitalista e da resistência socialista têm diferenças nas diversas partes do mundo? 

Houve um acidente em uma fábrica de roupas em 2013 em Dhaka, Bangladesh, onde 1.100 trabalhadores perderam suas vidas quando as paredes desmoronaram em cima deles. Foi uma tragédia totalmente evitável. A administração sabia que a estrutura estava cedendo, mas forçou os funcionários a continuar trabalhando mesmo assim.

Mesmo que o acidente tenha chamado a atenção global, as condições de trabalho da indústria têxtil continuam funestas. Os trabalhadores em Dhaka, no entanto, continuaram a se organizar por melhores salários e melhores condições – e a retaliação contra eles tem sido brutal. Em dezembro de 2016, milhares de trabalhadores de Bangladesh participaram de uma greve não-autorizada. Consequentemente, nos dois meses seguintes, dezenas de organizadores foram detidos sob acusações criminais infundadas; mais de 1.500 perderam seus empregos, e no chão de fábrica, trabalhadores enfrentam retaliações verbais e físicas rotineiras e ataques aos sindicatos.

Não há dúvidas de que a história em Bangladesh corresponde à de trabalhadores no México, Indonésia, Brasil e em toda parte. No início de 2017, na Índia, por exemplo, tribunais condenaram treze pessoas em uma fábrica multinacional de automóveis à prisão perpétua e diversas outras a sentenças menores. Seus crimes: se organizarem. Há o Massacre dos Mineradores de Marikana na África do Sul, no qual trinta e quatro mineradores foram alvejados e mortos. Exemplos como estes são abundantes. 

A questão é, esses acontecimentos no Sul Global são tão diferentes daquilo que se vê nos países capitalistas centrais?

Durante as recentes audiências no Senado dos EUA de Neil Gorsuch, o então candidato da Suprema Corte de Trump, o caso do motorista de caminhão Alphonse Maddin recebeu atenção nacional. Maddin estava dirigindo um caminhão de reboque em temperaturas abaixo de zero quando os freios da carreta falharam. Ele pediu um caminhão de resgate e, depois de esperar várias horas sem aquecimento, decidiu desatrelar a carga e dirigir até um lugar seguro.

Por causa dessa decisão, Maddin perdeu seu emprego.

Maddin, como os trabalhadores têxteis de Bangladesh, foi obrigado a escolher entre a sua vida e seu ganha-pão. Novamente, nos EUA, como em qualquer outro lugar no mundo, quando trabalhadores se organizam contra condições brutais de trabalho e por melhores salários, encontram retaliação.

Em 2015, o Walmart fechou 5 de seus escritórios e 2.200 trabalhadores perderam seus empregos, tudo sob o pretexto de reparos nos encanamentos das lojas – mas os fechamentos foram claramente medidas para quebrar a sindicalização. A retaliação pode não ser tão crua e brutal, mas isso só ocorre porque eles conseguem se safar mais facilmente em outras partes do mundo.

A lógica, no entanto, é a mesma. Não há diferença no que motiva os capitalistas – ou no que motiva os trabalhadores.

A acusação de que o socialismo seria uma questão apenas Ocidental supõe que, por causa da origem do socialismo no Ocidente, ele perderia a relevância em contextos não-Ocidentais. Entretanto, os trabalhadores estão sujeitos às mesmas forças de exploração de trabalho, independente de onde estejam. Eles trabalham para patrões que são motivados apenas pelo lucro e que têm pouco incentivo para atender às suas necessidades. 

E aonde for, os trabalhadores também percebem que sua única opção é lutar, se quiserem melhores condições. Portanto, contra todas as adversidades, eles revidam.

Sempre internacionalista

Desde sua concepção, o socialismo foi fundamentalmente internacionalista tanto na sua conceituação quanto no seu alcance. 

Essa é a ideia de socialismo que incentivou Frantz Fanon em sua batalha contra o colonialismo francês; o comunista Chris Hani no movimento anti-apartheid na África do Sul; Amílcar Cabral quando ele lutou contra os Portugueses; Walter Rodney em seu ativismo pelos oprimidos do Caribe; Che Guevara em Cuba e na América Latina. Para eles, e para incontáveis outros, o socialismo era uma teoria e filosofia não menos relevante às suas realidades do que era para os sindicalistas britânicos ou estadunidenses.

Pensemos em M. N. Roy. Ele nasceu no fim do século XIX em uma vila na região da Bengala. Ele foi radicalizado no movimento de independência indiano, e nos seus vinte e poucos anos, Roy saiu da Índia para levantar fundos para uma insurreição armada contra os britânicos. Ele viajou da Indonésia para a China, para o Japão, e para os Estados Unidos – o tempo todo desviando das autoridades, fazendo conexões políticas e tentando obter armas e dinheiro, viajando disfarçado na maior parte do tempo.

Ele não pôde ficar muito tempo nos EUA pois estava sendo seguido. Acabou indo para o México, onde se envolveu com os trabalhadores organizados e fundou o que hoje é o Partido Comunista Mexicano em 1919. Vladimir Lenin confiou a Roy o trabalho na causa colonial, e Roy teve um famoso debate com Lenin sobre o papel da burguesia nacional em países coloniais.

Em 1920, em Tashkent, Roy também foi um dos membros fundadores do Partido Comunista da Índia. Mais tarde, ele voltou para a Índia, onde foi aprisionado em condições horríveis, mas continuou a escrever.

Agora imagine o absurdo que seria considerar o socialismo eurocêntrico quando apresentamos o contexto da vida de um revolucionário do Sul Global como M. N. Roy, que fundou não um, mas dois Partidos Comunistas, em dois continentes diferentes.

Então a verdadeira questão é: por que a dúvida se o socialismo seria apenas ocidental ou eurocêntrico ganhou força nos últimos tempos?

Um produto da derrota

Uma perspectiva como esta ganha adeptos somente em um momento de derrota. Quatro décadas de incessante ataques neoliberais aos pobres e aos trabalhadores, aos salários, ao financiamento público de necessidades básicas como moradia, saúde e na educação que possibilita uma vida decente, e de dizimação de sindicatos e do poder da classe trabalhadora no geral, resultou em uma esquerda eviscerada, incerta do seu próprio legado.

Assim, esse questionamento emerge de uma esquerda acadêmica, de uma esquerda que foi desprovida da força vital dos movimentos, e da compreensão do poder e da solidariedade que os movimentos trazem para a cultura mais ampla.

Sem os movimentos, não há muita consciência do que incentiva a classe trabalhadora. Se você não é proletário; se você é da classe-média ou classe alta, sua tendência natural não vai ser se aproximar das necessidades e interesses da classe trabalhadora, a menos que existam estes movimentos. Esse é o porquê dos movimentos terem, em muitas maneiras, mudado os cenários de um país como os EUA, especialmente os ambientes da Universidades, nas décadas de 1960 e 1970. Mas desde então houve um grande período de “seca” de movimentos.

Portanto, na academia de hoje dos países capitalistas centrais, temos uma classe abastada que não tem razão alguma para se inclinar às políticas da classe trabalhadora – mas que interesse, no entanto, de manter seus privilégios de classe.

A noção de que o socialismo seria Ocidental emerge deste quadrante, e toma a forma de um radicalismo que afirma falar pelo Sul Global, e declara que o socialismo não atenderia às experiências culturais desses países.

Note como tal posição tira o crédito do socialismo, e que cria um racha no interior da esquerda como ela é, sem estabelecer uma posição que ameace as estruturas de poder. E, ainda assim, parece ser radical porque afirma falar por um não-Ocidente autêntico. Muito esperto.

Essa posição é também parte de uma tendência mais ampla na academia frequentemente alinhada com problemas de colonialismo, raça, gênero, sexualidade e afins. Não há absolutamente nada de errado com isso. Não se pode ser socialista sem ser antirracista, feminista – alguém que é contra toda forma de discriminação e indignidade.

O problema é um tanto diferente: é como as análises desses problemas têm sido frequentemente alienadas da lógica do capital e da luta de classes.

Um radicalismo desdentado

O que temos hoje é um antirracismo dos privilegiados, um antirracismo que não ameaça o poder e que não se envolve com os sofrimentos reais dos pobres e das minorias.

A crítica à esquerda da corrida presidencial de Bernie Sanders refletiu muito dessa posição. Ta-Nehisi Coates, por exemplo, criticou Bernie por defender mudanças estruturais sem considerar a raça, como o aumento do salário mínimo ou faculdades gratuitas. Coates argumentou que esse tipo de programa universal acaba beneficiando principalmente os brancos.

O que esse antirracismo ignora é o fato de que a grande maioria dos trabalhadores que seriam retirados da pobreza ao aumentar o salário mínimo seriam pessoas não brancas. Ou que os benefícios da faculdade gratuita seriam enormes e pesariam esmagadoramente para os negros da classe trabalhadora.

Eu ensino na CUNY, uma universidade onde 75% dos estudantes são de alguma minoria. Mais da metade dos nossos alunos tem uma renda familiar anual de menos de US $ 30.000. Meus alunos não precisaram de nenhum curso em pensamento interseccional para entender que a faculdade gratuita é do interesse deles.

Por que, então, essa oposição a programas universais que visam transformar as desigualdades estruturais – precisamente as desigualdades que sustentam o racismo? É um antirracismo que se recusa a ver o capitalismo como o principal fator de desigualdade – e um antirracismo que goza de uma enorme popularidade nesta época. Como resultado, é um antirracismo que não fala das necessidades e interesses das minorias da classe trabalhadora. É o antirracismo de uma classe privilegiada.

Se você acredita que políticas econômicas universais não seriam especialmente benéficas para as pessoas negras pobres dentro do país, então você será igualmente crítico das políticas socialistas internacionalmente. Se a política socialista não fala das experiências das minorias raciais dos EUA, segue o argumento, ela também seria estranha à realidade cultural dos países não ocidentais.

É um radicalismo que, em nome da cultura, em ambos os casos prejudica certas necessidades e impulsos fundamentais das pessoas exploradas.

Algumas dessas mesmas forças estão operando no Sul Global, que também testemunhou um reinado neoliberal que ainda não foi contido. Também por lá, com o enfraquecimento da resistência da esquerda organizada, as idéias socialistas de transformação econômica e de direitos universais estão cada vez mais sob ataque.

Eu fazia parte da esquerda estudantil Indiana e, como estão fazendo estudantes em todos os lugares, nós lutávamos por uma educação de qualidade e acessível para todos. Também éramos muito ativos em outras causas maiores, sociais e políticas. Tive a sorte de fazer parte da esquerda em um país onde, ao contrário dos EUA, ela desfruta de uma ressonância cultural e eleitoral muito maior.

Se eu me lembro de ter sido acusada com a idéia que nossa luta pela justiça educacional e pelos direitos dos trabalhadores era algo… Ocidental? Que de alguma forma estávamos sendo enganados pelo pensamento Ocidental ao seguirmos essa linha? Sim, eu me lembro – essa acusação vinha da direita.

A direita cultural não tinha problemas com o capitalismo, mas o socialismo era uma coisa Ocidental. O feminismo também, aliás. Soa familiar?

Agora, a deslegitimação do socialismo como algo Ocidental por uma direita nacionalista no Sul Global é obviamente compreensível. O que é curioso é o ressurgimento da mesma idéia, de que o socialismo seria eurocêntrico e inadequado à experiência vivida pelas pessoas não-ocidentais, no interior da esquerda ocidental amplamente baseada na academia.

Pense no que esse posicionamento significa.

Significa que uma mulher de Bangladesh, em uma fábrica de roupas, se organizando apesar do risco de ser demitida e de receber retaliação física de diferentes tipos – que uma mulher como essa, que está se reunindo com outras pessoas, tentando se organizar, tentando formar um sindicato, e que tem uma visão do que seria trabalhar sob condições que não sejam tão coercitivas, e que com salários com os quais ela possa alimentar sua família, poderia até ter uma vida decente – que essa mulher foi enganada.

Significa que ela não está em sintonia com a autêntica cultura de Bangladesh, onde as pessoas não entendem as condições opressivas de trabalho como uma injustiça – e que, se o fazem, não se espera que elas lutem contra essas condições. Significa que o povo de Bangladesh não experimenta a liberdade em relação à coerção como uma necessidade fundamental.

Essa trabalhadora supostamente foi enganada pelo pensamento socialista; ela está funcionando de uma maneira desconectada de sua cultura. Essa é a acusação de que estamos falando. 

Uma luta universal

Devemos ser claros: um radicalismo que acredita que o socialismo seria uma idéia estrangeira no não-ocidente está negando aos os trabalhadores naquela parte do mundo a resposta humana fundamental de lutar contra a opressão. Está dizendo que pessoas não ocidentais são incapazes de imaginar uma sociedade justa e livre.

Então, quando radicais nos EUA afirmam que o socialismo seria ocidental, estão unindo forças com a direita ao redor do mundo.

Abraçar a universalidade do socialismo não é negar especificidades culturais. Pessoas de todos os lugares vivem e florescem em suas culturas e comunidades locais e mais amplas. Contudo, os seres humanos não podem prosperar plenamente em nenhuma cultura enquanto o capitalismo continuar gerando privação e impotência.O socialismo é o esforço para lutar contra uma ordem social desumanizada e para criar as condições para o florescimento humano. É um impulso universal.

Colaborador

Nivedita Majumdar é professora associada de Inglês na Universidade John Jay. É secretária do sindicato de professores e funcionários da Universidade CUNY, em Nova Iorque.

5 de abril de 2016

O socialismo não é só um conceito ocidental?

O socialismo não é eurocêntrico por que a lógica do capital é universal - e a resistência a ela também.

Nivedita Majumdar


Ilustração por Phil Wrigglesworth / Jacobin

Tradução / O socialismo está no ar. Ele voltou para os Estados Unidos com a crise econômica de 2008, que tornou a natureza ativamente exploradora do capitalismo clara para uma nova geração, e que desencadeou lutas para desafiar a austeridade e a atordoante desigualdade de rendas. Ativistas em uma série de movimentos ajudaram a criar o ambiente em que um candidato presidencial poderia falar sobre socialismo em um palco nacional.

Mesmo que ele não seja a mais radical das figuras, Bernie Sanders, que abertamente se identifica como um socialista, está atraindo dezenas de milhares para sua campanha, superando as expectativas de todo mundo.

Não é surpresa, então, que a ideia de socialismo também esteja encarando um contra-ataque pesado – e não apenas da direita. Dentro da esquerda mesmo, existe a suspeita de um ideal que muitos veem como unicamente focado em questões econômicas e distante de outros sofrimentos cotidianos, especialmente aqueles das pessoas negras. A evocação específica da social-democracia escandinava por Sanders tem suscitado críticas que endorsam um tipo de “excepcionalismo nórdico” que é hostil com a diversidade. Tais ataques mesmo às versões mais dóceis de socialismo são nutridos, especialmente em campi universitários, por suposições teóricas que veem o marxismo e muitos de seus descendentes como irremediavelmente eurocêntricos.

A premissa subjacente nestas linhas de ataque relacionadas é que o socialismo, uma ideologia supostamente ocidental (e branca), mesmo que capaz de lidar com injustiças econômicas, permanece incapaz de conversar com as experiências de opressão e discriminação vividas no Sul Global, e em grupos oprimidos em outros lugares.

Existe alguma validade nessas críticas? O ideal socialista repousa sobre a crença de que os trabalhadores por todo o mundo sofrem nas mãos de capitalistas e que compartilham um interesse comum em resistir à exploração. Dizer que isso é uma ideia estritamente ocidental seria novidade para os mais de 1.100 trabalhadores têxteis em Dhaka, no Bangladesh, que foram mortos em abril de 2013 quando a construção da fábrica Rana Plaza em que eles estavam trabalhando colapsou sobre eles. O prédio havia sido declarado um risco de segurança, mas os empregadores forçaram que eles continuassem lá sob ameaça de demissão.

Dois anos depois do colapso da fábrica, o Human Rights Watch (“Observatório de Direitos Humanos”) conduziu um estudo detalhado das práticas industriais em Bangladesh. Eles encontraram por toda a área industrial severas retaliações contra o trabalho organizado, que é a garantia efetiva contra condições de trabalho arriscadas e salários terríveis. Para parar atividades sindicais, proprietários de fábricas rotineiramente levaram em frente perversas campanhas de intimidação e retaliação contra os trabalhadores, a maioria deles mulheres. A tentativa de trabalhadores de iniciar organização leva não apenas à perda de seus empregos, mas muitas vezes a serem colocados em uma lista negra de todo o setor.

No outro lado do globo, em abril de 2015, o Walmart fechou 5 de suas lojas, demitindo 2200 trabalhadores com apenas algumas horas de aviso. Enquanto que a razão afirmada para os fechamentos fosse “reparos de encanamento,” foi uma ação de retaliação contra trabalhadores tentando se organizar por um salário mínimo e melhores condições de trabalho. Walmart, onde os trabalhadores recentemente entraram em greve de fome em protesto aos salários de pobreza, é o maior empregador de negros, hispânicos e mulheres dos Estados Unidos.

É Eurocêntrico afirmar que os trabalhadores de vestuário bengaleses tem tanto em jogo na luta por seus direitos econômicos – por uma vida decente e segurança de emprego – quanto os trabalhadores demitidos das lojas estadunidenses do Walmart? Certamente os administradores e proprietários de fábricas bengaleses não pensam assim. Eles não estão menos preocupados e nem menos hostis à ideia de trabalhadores se organizando do que estão os administradores do Walmart.

Capitalistas por todo lado veem os trabalhadores como uma fonte de lucro. Em um sistema guiado apenas pela motivação do lucro, existe pouco incentivo para endereçar as necessidades dos trabalhadores além do que ditar o Mercado. E as leis do Mercado, não importa o que afirmem os economistas neoclássicos, não são justas ou imparciais. O poder econômico e político superior do Capital garante que as leis do Mercado estejam invariavelmente em seu favor.

Em ambos os contextos, porém, uma análise socialista aponta para outra realidade em jogo. Contra todas as possibilidades, trabalhadores invariavelmente contra-atacam. Mas é sempre uma batalha agonizante, com o Capital usando cada arma em seu arsenal para esmagar a resistência dos trabalhadores. Os métodos cruéis dos chefes incluem intimidação física quando eles podem sair impunes, como em Bangladesh, e jogadas mais polidas, como fechar lojas inteiras, como nos Estados Unidos. Para o Trabalho, o resultado das batalhas é sempre arriscado e imprevisível por que o Capital retalha contra a dissidência a cada passo. Mas o Capital não pode estar completamente à vontade, por que a exploração por todo lado faz nascer resistência.

O Socialismo não é Eurocêntrico por que a lógica do Capital é universal – e a resistência a ela também. Especificidades culturais podem dar forma a alguns detalhes da operação do Capital diferentemente nos Estados Unidos e em Bangladesh, na França e na Nicarágua, mas elas não alteram sua priorização fundamental do Lucro sobre as Pessoas. É por isso que, por mais de 100 anos, muitos dos mais poderosos e extensos movimentos sociais no Sul Global tem sido inspirados nos ideais socialistas.

Não importa as suas diferenças, líderes tão diversos como Mao Tsé-Tung na China, Kwame Nkrumah em Gana, Walter Rodney na Guyana, Chris Hani na África do Sul, Amílcar Cabral em Guiné-Bissau, M. N. Roy na Índia e Che Guevara pela América Latina viram o Socialismo como uma teoria e prática não menos relevante em sua experiência do que foi para os sindicalistas Europeus. E sim, estes revolucionários também encararam oponentes que repudiaram suas causas como uma teoria Ocidental, inapropriada para as realidades Orientais: os líderes da Direita religiosa, as classes de proprietários de terra, e outras elites econômicas.

O crime do Capitalismo é que ele força a vasta maioria da população a permanecer preocupada com questões básicas de nutrição, moradia, saúde e aquisição de habilidades. Ele deixa pouco tempo para incentivar a comunidade e a criatividade que os humanos almejam.

Na manhã fatídica do colapso de Rana Plaza, trabalhadores estavam relutantes de entrar no prédio. Grandes rachaduras haviam aparecido nas paredes da fábrica e inspetores tinham declarado o prédio uma ameaça. Mas a administração forçou os trabalhadores a começar a trabalhar. Uma mãe devastada depois lembrou que sua filha de 18 anos, que morreu no colapso, havia sido ameaçada com a perda do pagamento do mês inteiro se escolhesse não trabalhar aquele dia. Essa é uma forma específica de desumanização, nascida da privação e da impotência e familiar para trabalhadores em todas as partes do mundo, que são forçados a escolher entre seu sustento e sua segurança. O Socialismo identifica a fonte de tal desumanização - a propriedade privada dos meios de produção e a exploração – e as rejeita.

O Capitalismo não apenas oprime os trabalhadores no chão de fábrica. Ele cria toda uma cultura em que a lógica da opressão e competição se tornam senso-comum. Ele coloca as pessoas contra as outras e contra sua própria humanidade. Como o personagem de Franz Kafka em A Metamorfose, Gregor Samsa, as pessoas são alienadas de sua própria natureza humana, isolados dos outros seres humanos, e torturados pela perda de tudo o que poderia ser possível.

Não há nada Eurocêntrico em rejeitar a lógica destrutiva do capital e lutar por um mundo melhor para substituí-lo. É a escolha genuinamente universal e humana.

Colaborador

Nivedita Majumdar é professora associada de inglês no John Jay College. Ela é secretária do Congresso de Pessoal Profissional, do corpo docente e do sindicato de funcionários da CUNY.

2 de janeiro de 2016

Bernie e seus críticos

Independentemente de ele vencer as prévias desta noite em Iowa, Bernie Sanders proporcionou uma abertura que não podemos desperdiçar.

Nivedita Majumdar


Sam Bartlett / Flickr

Tradução / O impensável está acontecendo. Um autodeclarado socialista não apenas está avançando nas preliminares do Partido Democrata, mas pode até mesmo ganhar.

No entanto, ainda que sua popularidade cresça, ainda que ele traga pautas que nenhum candidato colocou na arena pública em décadas, Bernie Sanders sofre ataques de todos os setores da esquerda. Ele é acusado de não ter propostas econômicas radicais o suficiente, de não dar atenção o suficiente à questão racial, de diminuir as chances de uma mulher ser eleita presidente, de não ser elegível e de potencialmente abrir caminho para a vitória republicana, além de ameaçar os movimentos sociais, atraindo os progressistas para o Partido Democrata.

Não há dúvidas de que alguns aspectos destas críticas são merecidos. Sanders não oferece nada que se aproxime de uma solução abrangente para a miríade de problemas enfrentados pelos pobres e oprimidos, e parte de sua agenda política é efetivamente retrógrada. Contudo, quando colocamos sua candidatura no contexto dos desafios enfrentados pela esquerda, a orientação de seus rivais políticos e o incrível entusiasmo gerado por ele em um clima generalizado de derrota, os ataques da esquerda se tornam mais difíceis de serem justificados.

Algumas são críticas prosaicas. Bernie é apenas um social-democrata. Ele não defende a socialização dos meios de produção e nem busca desconstruir o império norte-americano; em alguns momentos ele não conseguiu demonstrar experiência e empatia com as minorias raciais; e, é claro, seria ótimo se ele fosse uma mulher.

Mas a política é sempre contextual, e nós estamos falando dos Estados Unidos, não da Europa ou da América Latina. Trata-se de um país com uma longa história de anticomunismo, pouca memória sobre o que é política de esquerda organizada e de um ataque contínuo e incessante de três décadas contra a classe trabalhadora. O fato é que hoje, depois de décadas de perda da influência política por parte da esquerda, a campanha de Sanders ressoou entre os trabalhadores de todo o país, não a despeito da palavra "socialismo", mas especificamente por causa dela. Pense um pouco nisso.

É claro que ele não está falando de grandes expropriações. Mas quando foi a última vez que um candidato teve chances de ganhar com base em uma plataforma que defendia o fim dos grandes bancos, o aumento dos impostos sobre os mais ricos e as grandes empresas, a realocação de recursos para o aumento da seguridade social, a criação de um sistema de saúde público universal e de creches púbicas, a oferta de ensino superior gratuito, o gasto de trilhões de dólares em obras públicas, o aumento do salário mínimo para US$15 por hora?

Não é preciso muito para reconhecer que estas ainda estão longe de ser a transformação revolucionária que desejamos ver. Mas o que queremos não está em jogo. O que é notável, contudo, é que até recentemente a visão e as propostas de Sanders também não estavam, e agora ele tem um vasto setor do país agrupado em torno delas.

Bernie, o homem

Feministas liberais como Katha Pollitt e Gloria Steinem argumentaram que Clinton deve ser apoiada, já que sua vitória seria também uma vitória para o movimento feminista. Nenhuma das duas parece ter uma objeção substancial às posições políticas de Bernie.

Em seu artigo na The Nation, "Por que estou preparada e entusiasmada com Hillary", Pollitt cita três motivos para apoiar Hillary Clinton: em primeiro lugar, sua capacidade de ser eleita; em segundo, seria a primeira vez que uma mulher seria presidente dos Estados Unidos; em terceiro, Clinton, diferentemente do "republicano que derrotaria Bernie Sanders", trabalhará no sentido de aumentar a justiça de gênero, particularmente por meio de indicações à Suprema Corte.

O primeiro motivo e o último não são tão diferentes entre si. Ambos provêm da presunção de que Sanders não conseguiria vencer. Se conseguisse, o suposto papel de Hillary indicando juízes progressistas e usando seu poder executivo com finalidades liberais não importaria, já que Sanders faria a mesma coisa, ou algo ainda melhor. Além disso, desde que Pollitt escreveu o artigo, em junho do ano passado, o argumento da elegibilidade entrou em cheque. Muitas pesquisas indicam Bernie vinte pontos à frente dos principais possíveis candidatos republicanos.

Assim, só resta o argumento em prol de uma presidente mulher, compartilhado por Steinem, que propôs a bizarra teoria de que a razão pela qual mulheres liberais se opõem a Clinton é a inveja. Enquanto fazia campanha para Hillary Clinton em 2008, Steinem chegou à conclusão de que mulheres brancas de alto nível educacional frequentemente viviam em "casamentos precários e desiguais", de modo que sentiam inveja de Clinton porque "seus maridos não compartilham o poder com elas".

Steinem sequer considera a hipótese de que estas mulheres podem estar se opondo a Hillary por seu militarismo, suas políticas para a imigração ou porque ela hesita quanto à questão do aborto, ou em razão do desastroso impacto de sua "reforma" na assistência social sobre mulheres da classe trabalhadora.

Pollitt e Steinem são progressistas de longa data, e estão conscientes do contraste político entre Clinton e Sanders. Para elas, este contraste é menos importante do que a missão de tornar uma mulher presidente. O que elas nos pedem é que nos empolguemos com a ideia de eleger uma candidata com uma agenda corporativa.

Sim, "símbolos importam", como nos lembra Pollitt, mas neste caso eles assumem prioridade sobre questões substanciais, com consequências diretas para as vidas de mulheres da classe trabalhadora. Estas posições evidenciam uma cegueira voluntária quanto aos efeitos da política de Clinton sobre questões de classe, tudo em nome do feminismo.

Bernie, o reducionista-classista

As críticas a Sanders por sua suposta desatenção às questões raciais foram muitas, mas ele respondeu a elas mais cuidadosa e extensamente do que qualquer outro candidato. O mais recente ataque veio de Ta-Nehisi Coates, que critica Sanders por sua recusa em apoiar as reparações raciais, defendendo, em vez disso, transformações estruturais sem caráter racial.

Coates baseia seu argumento em um apelo moral pela reparação, sem sequer se dar ao trabalho de explicar o motivo pelo qual algo como o pagamento de indenizações únicas resolveria os problemas do racismo institucionalizado ou como isso seria mais eficaz em melhorar a condição dos americanos negros do que as reformas defendidas por Sanders.

Coates desqualifica as iniciativas de Sanders, como o aumento do salário mínimo e a oferta de ensino superior gratuito, afirmando acreditar que o racismo institucionalizado garantirá que pessoas brancas serão sempre os beneficiários primários de qualquer iniciativa de caráter universal.

Este é um argumento terrivelmente enviesado. Ele ignora o fato de que a grande maioria dos trabalhadores que deixariam a pobreza por meio do aumento do salário mínimo seriam negros e latinos. Coates também não dá atenção aos estudos que mostram que a diferença de salários entre negros e brancos diminui à medida que o nível educacional aumenta, o que diminui os privilégios da população branca, mas que a diferença de salários entre pessoas com ensino superior incompleto e completo, entre a população negra, cresce muito mais do que entre a população branca. Isso significa que os benefícios do ensino superior gratuito seriam enormes e particularmente significativos para negros de classe baixa.

A popularidade, contudo, da crítica de Coates a Sanders é inacreditável. Coates fala em nome de uma ideologia política para a qual as questões de classe são apenas um desvio do foco principal, as questões de raça, para a qual a política racial não se mistura com a política de classe, não são vistas como elementos complementares na luta por justiça social. Mas não se engane, o que Coates defende não é uma visão específica da política racial, mas também uma visão bastante específica da política de classe.

Bernie, o moderado

Não é tão surpreendente que Sanders esteja sendo atacado por pessoas próximas ao Partido Democrata tradicional, liberais que acreditam que ele está excessivamente preocupado com as dinâmicas de classe. O que é genuinamente intrigante é a resposta de alguns radicais. Eles rejeitam Bernie não porque ele não seja diferente de Hillary Clinton, mas sim porque ele não é diferente o suficiente, não é de esquerda o suficiente. Querem que ele seja mais radical em sua restruturação da economia, e questionam, com razão, suas declarações sobre política externa.

Perguntam-se, antes de tudo, por que um socialista verdadeiro concorreria pelo Partido Democrata. Não é esse o partido no qual os movimentos sociais ingressam para morrer? Eles temem que ativistas comprometidos sejam levados a se filiar ao Partido Democrata. Preocupam-se com a possibilidade de que, se Sanders ganhar, não será ou não conseguirá ser tão diferente dos outros democratas, causando o dano adicional de desmobilizar toda uma geração de jovens com tendências esquerdistas.

O problema com tal análise não é que ela esteja errada, mas que vários aspectos dela são, na verdade, apolíticos. O ponto não é se Bernie pode ou não ser criticado por suas posições quanto à economia e a política externa. É claro que ele pode. A questão é, em vez disso, se sua campanha oferece à esquerda a abertura necessária para colocar suas pautas políticas pelas margens. Deveríamos estar empolgados com as possibilidades levantadas por um candidato presidencial que captura a imaginação de dezenas de milhares de norte-americanos atacando as elites e seu sistema político.

Minha própria resposta a Sanders é, em parte, advinda de minha formação política, que se deu em um contexto muito diferente. Como estudante e ativista na Índia, eu fazia parte de uma organização de esquerda eleita para liderar a agremiação estudantil de minha universidade. Nossa organização começou como um corpo insurgente dentro de um campus tradicionalmente direitista. Nossos números eram pequenos, e nossa política definitivamente nos tornava extremistas. Mas estávamos comprometidos com a organização e o crescimento.

Olhando para o passado, especialmente em contraste com a esquerda radical dos Estados Unidos, eu agora vejo que a mentalidade política que tomamos como algo dado surgiu em um contexto mais amplo, no qual a esquerda era ainda um ator significativo. Nós entendíamos, é claro, que fazer parte da esquerda exigia que fizéssemos um sacrifício adicional, que estivéssemos sempre aperfeiçoando nossas análises políticas a fim de podermos enfrentar nossos adversários mais poderosos. Mas também sabíamos que ser político significava envolver números grandes, e que era necessário que continuássemos sendo relevantes e eficazes. Sabíamos que, precisamente por sermos a esquerda, precisávamos ser relevantes.

Aparentemente, décadas de isolamento fizeram com que a extrema esquerda nos EUA se esquecesse de um dos princípios cardinais da política: que ela exige, fundamentalmente, que você se envolva em um trabalho com as massas, e não que lide apenas com pequenos grupos de ativistas de opinião semelhante à sua.

A campanha de Sanders deveria ser bem-vinda pela esquerda radical porque ela nos fornece uma oportunidade espetacular para a organização. Centenas de milhares de pessoas estão participando de encontros e comícios porque ele despertou uma grande revolta contra a classe dominante. Essas pessoas só estão comparecendo porque estão inspiradas por seu discurso contra a captura corporativa dos poderes políticos, sua crítica cada vez mais profunda contra o sistema carcerário, e sua convocação de uma mobilização da classe trabalhadora. Ele tornou a palavra "socialismo" parte do léxico político pela primeira vez em décadas.

Se você é um organizador, você sabe que as palavras importam, as ideias importam, a transformação do senso comum importa. Eu ouvi críticas que sugeriam que sua campanha não levaria a muita coisa, já que não está baseada em uma organização política profunda. Mas ainda assim, não é melhor isso do que nada? E a organização política mais profunda, uma tarefa que a esquerda terá de assumir, já não começa melhor quando tem como base uma campanha anticorporativa?

Partes da esquerda radical rejeita Sanders tanto porque ele pode perder, quanto porque ele pode ganhar. Se ele perder e apoiar Hillary, terá levado centenas de milhares a apoiar o Partido Democrata, acreditam eles. Se ganhar, estará amordaçado pela política do establishment e, portanto, não será diferente dos demais democratas.

Se Sanders ganhar, será essencial para a esquerda fazer com que ele cumpra suas promessas e tentar levá-lo ainda mais a esquerda. E se ele perder nas primárias, não duvido que vá tentar conduzir seus apoiadores a passar a apoiar Hillary. Mas será que isso realmente levará tantos socialistas ao Partido Democrata? Quem são estes ativistas tão facilmente enganados?

É claro, alguns acompanharão Sanders. Mas temos de ser realistas aqui. A esquerda, da forma como é hoje, é tão pequena, tão marginal, que o maior desafio que ela enfrenta não é a possibilidade de perder alguns membros para os Democratas, mas sim o de crescer até um ponto em que, de fato, passe a fazer alguma diferença, tendo algum peso para além dos campi universitários e de pequenos sindicatos.

Ao se envolver com a campanha, ativistas de esquerda poderão se ligar a centenas de americanos da classe trabalhadora que sentem repulsa pela forma como o mundo corporativo se apossou dos Estados Unidos, e que não abominam a ideia do socialismo. Esta é uma oportunidade inestimável para crescer e até mesmo aprender. Mas só é possível por meio do envolvimento.

Precisamos entender que, em última instância, isto não é tanto sobre Sanders. É sobre o impulso político criado por sua campanha, e as possibilidades que vêm com ele. A campanha eleitoral anticorporativa e pró-trabalhadores de Sanders atraiu milhões, contra todos os revéses. A esquerda pode rejeitar ou escolher se aproveitar desta abertura, isto é o que definirá sua trajetória ao longo dos próximos anos.

Colaboador

Nivedita Majumdar é professora associada de inglês no John Jay College. Ela é secretária do Professional Staff Congress, do corpo docente e do sindicato de funcionários da CUNY.

7 de fevereiro de 2014

Por que somos marxistas

O marxismo vive porque não fomos além das circunstâncias que o criaram.

Nivedita Majumdar



Meses depois de seu lançamento, o Capital de Thomas Piketty no século XXI ainda está sendo elogiado em resenhas e posicionado perto do topo das paradas dos mais vendidos. Se a invisibilidade de um sistema é um marcador de seu sucesso ideológico, isso não pode ser um bom sinal para o capitalismo.

Não é surpresa que as pessoas estejam curiosas sobre as causas da injustiça que as rodeia. Os salários médios dos trabalhadores nos EUA caíram de forma considerável de 2007 a 2012; no mesmo período, mais de 90% de toda a nova renda foi para o 1% mais alto; enquanto cerca de 46 milhões de americanos vivem na pobreza, a diferença entre os lucros das empresas e os salários dos trabalhadores nunca foi tão grande. A conclusão de Piketty de que o capitalismo, se não for controlado, gera uma concentração de riqueza entre uma pequena minoria se encaixa bem nessa experiência vivida.

Mérito ou trabalho duro, a justificativa padrão para a desigualdade, tem pouco a ver com a nossa nova era dourada.

Embora ele se distancie do velho homem, as análises de Piketty foram alinhadas em certo sentido com as de Marx. Não é de surpreender que a resposta ao livro tenha revelado alguns equívocos centrais incorporados nas críticas ao marxismo.

Aqui fica claro que a invisibilidade não é a única arma no arsenal ideológico do capitalismo. A primeira linha de defesa da direita é a negação, com alguma variação na alegação de que o estado da economia é bom, obrigado. Pode haver desigualdade, como Scott Winship ou Kevin Hasset argumentariam, mas não é realmente prejudicial. Eles estão baseando-se na convicção ideológica de que o capitalismo deixado por conta própria recompensa o meritório e é benéfico não apenas para os capitalistas, mas para todos.

Infelizmente para eles, Piketty não faz simplesmente uma reconvenção; ele demonstra com dados irrefutáveis ​​que a fé depositada nessa doutrina dualista do capitalismo - da criação natural e justa de uma meritocracia cuja resultante desigualdade beneficia a todos - é simplesmente falsa. É por isso que Paul Krugman chama-o “pânico de Piketty”, e eles se movem para a segunda linha de defesa.

Os opositores de Piketty fazem uma afirmação que é poderosa em sua velha simplicidade: o dinheiro não importa. Não é a desigualdade que gera infelicidade, mas a falta de possibilidades comunitárias. Observe que eles não questionam o fato da desigualdade ou até mesmo que isso pode causar infelicidade, mas, como Megan McArdle insiste, “[A] proporção dessa infelicidade devido à desigualdade de renda é, na verdade, relativamente pequena”.

Em vez disso, McArdle sustenta em sua resenha do livro de Piketty - que ela admite não ter lido - que o que é necessário “é a sensação de que você pode planejar uma vida decente, cheia de amor e alegria e amizade e, em seguida, enviar seus filhos para uma vida pelo menos tão segura e bem provisionada quanto a sua.”

Em uma resenha marginalmente mais sofisticada, Ross Douthat argumenta da mesma forma que a ressurreição de Marx não trará muito conforto, porque o que está errado nas sociedades capitalistas contemporâneas não é a falta de segurança econômica, mas a erosão da “identidade cultural - família e fé, soberania e comunidade... formas de solidariedade que dão sentido à vida para muitas pessoas, oferecendo apenas dinheiro no lugar disso”.

Recusas esquerdistas fáceis de tais posições idealistas não são necessariamente úteis. A razão pela qual os argumentos que rejeitam a conexão entre dinheiro e felicidade têm um apelo tão duradouro é porque há um núcleo de verdade neles. A realização do potencial humano e da felicidade está muito mais ligada à criatividade, à arte, à ciência, a inúmeras práticas culturais e a formas de solidariedade e comunidade, e não de materialidade.

Mas aqui está a questão - Marx concordaria de todo o coração! O poder moral da obra de Marx não deriva apenas de sua desmistificação sistemática do capitalismo; também flui da sua insistência de que o capitalismo não pode gerar as condições para o florescimento humano. Ele nunca igualou o bem-estar material à felicidade, mas sabia que não pode haver felicidade sem o bem-estar material.

O crime do capitalismo é que ele força a grande maioria da população a permanecer preocupada com as preocupações básicas de nutrição, moradia, saúde e aquisição de habilidades. Deixa pouco tempo para estimular a comunidade e a criatividade que os humanos anseiam.

E a injustiça do capitalismo é que isso acontece em uma era de abundância. Há recursos suficientes para garantir a satisfação material básica para todos, mas o capital exige que esses recursos não beneficiem a grande maioria. Além disso, esses mesmos recursos foram gerados pelo trabalho árduo da população, a quem são negados seus benefícios.

Marx demonstrou que não havia justificativa moral ou prática para a concentração da riqueza nas mãos de uma pequena minoria, e Piketty mostra que esse ainda é o caso. Assim, quando os ideólogos de direita declaram a necessidade de “amor, alegria e amizade” ou “formas de solidariedade que dão sentido à vida”, eles não entendem que esses são precisamente o tipo de visão social que sempre estarão sob ameaça no capitalismo.


Mesmo em algumas das leituras mais progressistas de Piketty, há uma curiosa convergência com a direita em sua animosidade ao marxismo. Na crítica tortuosa de Timothy Shenk no Nation of Piketty e outros "marxistas millenial", ele reconhece que a crise econômica causou um ressurgimento do interesse pelo marxismo, mas afirma que precisamos "repensar o marxismo ou ir além dele". O princípio principal dessa crítica cansada é que a perspectiva marxista carece de complexidade.

Embora despreze o movimento trabalhista porque parece "preso em um declínio perpétuo", Shenk reserva sua ira para os jovens seguidores de Marx que atingiram a maioridade no novo século. Ativistas do Occupy, pensadores esquerdistas e jornalistas que escrevem em fóruns como  Jacobin são ridicularizados por "usar tropos marxistas convencionais" e explorar o fácil alcance oferecido pela tecnologia para divulgar sua mensagem política.

Seu compromisso aparentemente é leve, mas é "mais fácil de compartilhar, talvez com uma postagem no Facebook". Então Shenk os ridiculariza tanto por sua fé do velho mundo na possibilidade de um "renascimento do marxismo" quanto por sua facilidade com a nova mídia. O problema é que Shenk nunca desmonta seu cavalo irônico para esclarecer por que o marxismo (ou a internet) é um problema.

Shenk certamente não é o primeiro a apontar o dedo para jovens radicais por sua falta de interesse em "ambiguidade, incerteza e diferença", por ignorar a "contingência"da vida social e coisas assim. Tudo isso agora são palavras de ordem na falsa esquerda, que eles usam como porretes contra os marxistas.

Talvez a razão pela qual jovens pensadores radicais não se impressionem com apelos para reconhecer "ambiguidade e contingência" seja porque o que eles viram em suas vidas é uma lição sobre alguns fatos bastante inequívocos sobre como o capitalismo funciona.

Mesmo economistas neoclássicos obstinados estão chegando à conclusão de que quarenta anos de salários estagnados podem ter algo a ver com o ataque aos sindicatos; que o declínio do movimento trabalhista, por sua vez, acelerou a virada para a direita na política; que essa mudança, por sua vez, levou a uma evisceração bastante bem-sucedida do pouco apoio social que o Estado dava aos pobres; que quando a corrida louca por lucros de curto prazo finalmente levou a economia ao tanque, o estado retribuiu o favor repassando os custos para o público e entregando trilhões de dólares aos bancos.

Não havia contingência ou ambigüidade em nada disso. Foi um resultado bastante previsível de uma guerra de classes altamente bem-sucedida que transferiu o poder político firmemente para as elites. É assim que o capitalismo se parece quando a luta de classes se torna feia.

Quando autodenominados progressistas pregam o evangelho da contingência e ambiguidade em tempos como estes, é uma surpresa que as pessoas se voltem para Marx em busca de um pouco de clareza?

Claro, Marx tem algo a oferecer não apenas em tempos de crise. O ponto principal de Marx era que as crises apenas trazem um alívio mais claro à instabilidade e à dinâmica de poder construída no capitalismo. Os períodos de crises econômicas não geram, mas são causados pelas contradições econômicas e políticas do capitalismo. A obscena concentração de riqueza nas duas décadas anteriores à crise de 2008 mostra que não há mecanismo para pressionar por uma alocação sustentável, muito menos justa, de recursos dentro do capitalismo.

As esperanças deflacionadas dos liberais no presidente Obama são lembretes de que qualquer entidade política, independentemente de suas afirmações de autonomia, que direta ou indiretamente dependa do capital, deve capitular à lógica e aos interesses do capital. Um desafio viável ao capital deve derivar de uma fonte diferente de poder - por meio da organização daqueles que o capital vitimiza. Na sociedade de classes, a luta de classes é imperativa.

Por sua própria admissão, Piketty não é marxista. No início do livro, ele escreve sobre ser “vacinado para o resto da vida contra a retórica convencional, mas preguiçosa, do anticapitalismo”, que permaneceu em grande parte alheio ao fracasso histórico do comunismo.

A própria análise econômica de Piketty mostra que uma posição anticapitalista não precisa ser preguiçosa. Sua postura política, infelizmente, é convencional em sua expressa necessidade de ser considerada não-marxista. Piketty deve saber que o fracasso do comunismo tem pouca influência na crítica política e econômica marxista de hoje ao capitalismo. As falhas soviéticas dificilmente têm ressonância para os trabalhadores do Rana Plaza.

O que a experiência desses trabalhadores confirma é o caráter abertamente explorador do capital e o poder político do capital, que torna incrivelmente difícil para os trabalhadores se organizarem e reagirem. E essa lógica em exibição no Rana Plaza está intimamente ligada à experiência dos trabalhadores do setor público em Wisconsin e à privação de direitos dos trabalhadores em todos os lugares.

Piketty reconhece que a operação irrestrita do capital exige fortes mecanismos de contra-ataque, mas evita o confronto político. Ele propõe a “tributação confiscatória” como forma de combater a tendência a desigualdades massivas. Uma ideia útil, mas qualquer proposta que exija uma redistribuição justa de recursos nunca funcionará sem lutas organizadas desafiando o poder capitalista.

Talvez sejam necessárias guerras e crises econômicas para introduzir uma transformação da base política do poder, como sugere Piketty. Mas mesmo nesses casos, não são os eventos, mas os movimentos de massa resultantes que causaram as mudanças. Piketty defende a “deliberação democrática” e educação acessível e de qualidade; sem dúvida, esses objetivos valem a pena, mas por si só nunca poderão remediar o desequilíbrio de poder arraigado no capitalismo.

Para isso, nossa única esperança são movimentos organizados baseados em uma fonte alternativa de poder. Como Doug Henwood, também tenho esperança de que uma nova geração que "perdeu a vacinação anticapitalista" mobilizará as análises de Piketty para a construção de uma cultura política insurgente. O futuro depende disso.

Colaborador

Nivedita Majumdar é professora associada de inglês no John Jay College. Ela é a secretária do Professional Staff Congress, do corpo docente da CUNY e do sindicato dos funcionários.

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