Radhika Desai
Sidecar
Mark Carney está em uma maré de sucesso. A guerra tarifária com os EUA pode ter afetado a indústria, mas, até agora, tem sido uma grande vantagem política para o primeiro-ministro canadense. Tendo assumido o cargo na esteira de um sentimento anti-Trump, Carney ganhou destaque em Davos, em janeiro, com um discurso no qual declarou uma "ruptura" com a ordem global liderada pelos EUA. Uma ovação de pé foi seguida por uma cobertura entusiástica da imprensa liberal. Sua reputação de desafiador atingiu o auge no mês passado, com o anúncio surpresa de que Ottawa estava rompendo as negociações com Washington. Ao declarar que os EUA não são confiáveis — "sua assinatura é feita a lápis" — e que estão "em guerra" com o Canadá, Carney impôs tarifas de retaliação, equiparando-se às medidas de Trump em uma base de "dólar por dólar". Ele conquistou para o Canadá uma oferta para se tornar "membro associado" da União Europeia; fez um discurso no Parlamento Europeu defendendo uma "aliança para o futuro" entre o Canadá e a UE, que incluiria uma "cooperação profunda" em diversos setores estratégicos; e anunciou a criação de um "Banco de Defesa, Segurança e Resiliência" para financiar o rearmamento militar e a reindustrialização dos aliados.
Embora a retórica tenha persistido, elevando os índices de aprovação de Carney para 70% — algo inédito para políticos ocidentais na era neoliberal —, suas ações contam uma história diferente. Nos meses seguintes à sua eleição, ele buscou um "acordo abrangente de economia e segurança" com Trump por meio de uma ofensiva de charme. Carney aprovou uma lei de fronteiras rígidas ao estilo de Trump, estigmatizando migrantes como perigosos, endurecendo as regras de elegibilidade e fortalecendo a maquinaria de deportação. Ele minimizou a importância do acordo comercial firmado com a China no início de 2026. Manteve as mudanças climáticas fora da pauta, apesar de dois verões de incêndios florestais terem devastado as florestas do Canadá e a despeito de seus próprios compromissos anteriores com a ação climática — ou, pelo menos, com o financiamento climático. Ele concordou com a exigência de Trump de que os membros da OTAN destinassem 5% do PIB à defesa, chegando a prometer atingir essa meta antecipadamente — desviando recursos de gastos sociais em habitação, saúde e educação, e apontando a Rússia e a China como as principais ameaças ao Canadá. Ele atenuou as críticas às ações de Israel em Gaza, voando para o Egito em cima da hora para saudar o "acordo de paz" de Trump, e declarou imediatamente seu apoio ("com pesar", acrescentou mais tarde) à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Também manifestou interesse no duvidoso projeto de defesa antimísseis "Golden Dome" de Trump, revertendo décadas de resistência canadense que remontavam ao projeto "Guerra nas Estrelas" de Reagan. Mesmo a retirada das negociações comerciais em agosto foi menos desafiadora do que parecia. Carney marcou a imposição de medidas recíprocas para dali a duas semanas e continuou negociando na esperança de algum acordo minimamente aceitável. A imposição de tarifas canadenses — respondida, naturalmente, com mais tarifas dos EUA, bem como proibições de importação — não mudou nada.
Embora as tarifas sejam impopulares nos EUA — e as medidas de retaliação envolvendo aço, alumínio e autopeças devam prejudicar a indústria dos estados do Meio-Oeste, onde ocorrerão eleições cruciais para o Senado em novembro —, o governo Trump declarou não sentir "nenhuma urgência" em encerrar a disputa. O porte muito menor da economia canadense e sua profunda integração com a dos EUA tornam o país mais vulnerável. Os EUA respondem por quase três quartos das exportações do Canadá e por 60% de suas importações. A exposição do Canadá ao mercado americano é fortemente condicionada pelas inclinações de sua classe capitalista. Como uma sociedade de colonização de povoamento voltada para a exportação, o país dependia inicialmente do Reino Unido tanto como principal destino de suas exportações de matérias-primas quanto como fonte primordial de investimentos. Durante um breve intervalo — cerca de quatro décadas em torno do ano 1900 —, em meio à ascensão do protecionismo no mundo capitalista, o Canadá deu sinais de que se tornaria uma "nação crustácea" (nos termos de Polanyi), utilizando o vasto fluxo de capital proveniente de Londres para construir uma indústria nacional protegida por barreiras tarifárias. No entanto, a partir da década de 1920, o país começou a integrar-se aos EUA, justamente quando sua expansão industrial recebia um enorme impulso da Grande Guerra. Esse processo acelerou-se no pós-guerra: o famoso acordo automotivo (Auto Pact), que fundiu a indústria automobilística canadense à dos EUA — muito maior —, foi assinado em 1965.
No entanto, naquela altura, sinais de alerta já começavam a surgir. Ainda em 1955, o governo liberal encomendou um relatório que expressava preocupação com a crescente participação estrangeira na economia canadense. Na década seguinte, outro relatório governamental aprofundou a questão. Intelectuais alertavam para uma "rendição silenciosa" aos EUA e para a redução do Canadá a uma economia de "filiais" de empresas estrangeiras. Políticos defendiam uma "terceira opção" — nem a tendência atual de maior integração com os EUA, nem uma política para acelerá-la, mas sim um plano para "desenvolver e fortalecer a economia canadense e outros aspectos de sua vida nacional e, nesse processo, reduzir a atual vulnerabilidade do Canadá" por meio da diversificação comercial e de uma política industrial. Na década de 1970, criou-se uma estrutura substancial de políticas de nacionalismo econômico, incluindo a Agência de Revisão de Investimentos Estrangeiros (FIRA), a Corporação de Desenvolvimento do Canadá e um Programa Nacional de Energia. Contudo, essa agenda não sobreviveu à chegada do neoliberalismo; uma integração mais estreita era um elemento central da versão canadense dessa doutrina. As classes dominantes do Canadá lançaram o país ainda mais profundamente no abraço volúvel dos EUA com o Acordo de Livre-Comércio entre EUA e Canadá de 1988, seguido pelo NAFTA em 1992. Desde então, não houve retrocesso. A maioria ainda espera por um acordo com os EUA e, na falta disso, por uma administração americana mais favorável em 2029.
No fim de semana passado, Carney concedeu uma longa entrevista ao New York Times — realizada com dez jornalistas na sede do jornal em Manhattan — na qual revelou que estava reconsiderando a compra dos caças F-35 da Lockheed Martin em favor de alternativas suecas, e sugeriu que uma mudança de foco do dólar para uma variedade de moedas de reserva "proporcionaria mais flexibilidade". Ao ser questionado se estava preocupado com a possibilidade de os EUA usarem força militar contra o Canadá (que Trump ameaçou transformar em um "51º estado"), Carney respondeu que, "quando o líder de um país ameaça a sua soberania, você faz os ajustes necessários... seria irresponsável não levar certas coisas em consideração".
Sua postura firme, porém cautelosa, consolidou sua reputação como um primeiro-ministro destemido, disposto a resistir à pressão dos EUA, e como o tecnocrata confiável de que as "potências médias" do mundo necessitam. Ao divulgar a entrevista, o New York Times foi efusivo: "No último ano, ele emergiu como o líder global de maior destaque a enfrentar o Sr. Trump. Nesse processo, começou também a traçar um caminho para reduzir a dependência de uma superpotência vizinha que ele passou a considerar predatória. Líderes de todo o mundo passaram a vê-lo como um modelo de como lidar com um aliado errático e pouco confiável". Edward Luce, do Financial Times, manifestou admiração semelhante: "Carney não está apenas posicionando o país para o próximo ciclo eleitoral; ele está reformulando o lugar do Canadá no mundo para as próximas décadas".
Esse papel foi, em grande medida, imposto a Carney pelas circunstâncias: a reeleição de um presidente americano volátil — sintoma de uma crise profunda e abrangente no único vizinho terrestre do Canadá e seu parceiro de importância avassaladora nos campos comercial, de investimentos e de defesa. A eleição de Trump, em novembro de 2024, mergulhou em crise o governo — já conturbado e desacreditado — do "Governador Trudeau". Após Trudeau anunciar sua renúncia no início de janeiro de 2025, todos os seus rivais na disputa pela liderança do Partido Liberal aderiram à postura de "desafio a Trump". Tendo alternado entre o setor financeiro e a política no Canadá e, posteriormente, no Reino Unido, ao longo de um quarto de século — atuando como presidente de ambos os bancos centrais e em diversas funções de consultoria para ambos os governos —, Carney deixou o cargo de enviado especial da ONU para mudanças climáticas, conquistou a liderança liberal em março e convocou eleições para o mês seguinte.
Ele retornou ao poder sem maioria absoluta, mas tendo superado o conservador Pierre Poilievre — cuja vitória era dada como certa até a reeleição de Trump e que, em certo momento, chegou a liderar as pesquisas com quase vinte pontos de vantagem sobre os liberais. A imagem de "Trump canadense" cultivada por Poilievre — baseada em ataques ao establishment liberal, à política woke e à imigração — havia se desgastado diante das declarações de Trump sobre uma possível anexação. Carney, o banqueiro de modos refinados, conseguiu passar — ainda que com certa rigidez — a imagem de um sujeito autêntico e de fibra, vindo da zona rural de Alberta, que fazia campanha em defesa da "soberania canadense". Ele não hesitou em apelar para as consideráveis reservas de antiamericanismo sentimental dos canadenses: "A América", declarou em seu discurso de vitória, "quer nossas terras, nossos recursos, nossa água, nosso país... O presidente Trump está tentando nos quebrar para que a América possa nos dominar."
Embora a retórica tenha persistido, elevando os índices de aprovação de Carney para 70% — algo inédito para políticos ocidentais na era neoliberal —, suas ações contam uma história diferente. Nos meses seguintes à sua eleição, ele buscou um "acordo abrangente de economia e segurança" com Trump por meio de uma ofensiva de charme. Carney aprovou uma lei de fronteiras rígidas ao estilo de Trump, estigmatizando migrantes como perigosos, endurecendo as regras de elegibilidade e fortalecendo a maquinaria de deportação. Ele minimizou a importância do acordo comercial firmado com a China no início de 2026. Manteve as mudanças climáticas fora da pauta, apesar de dois verões de incêndios florestais terem devastado as florestas do Canadá e a despeito de seus próprios compromissos anteriores com a ação climática — ou, pelo menos, com o financiamento climático. Ele concordou com a exigência de Trump de que os membros da OTAN destinassem 5% do PIB à defesa, chegando a prometer atingir essa meta antecipadamente — desviando recursos de gastos sociais em habitação, saúde e educação, e apontando a Rússia e a China como as principais ameaças ao Canadá. Ele atenuou as críticas às ações de Israel em Gaza, voando para o Egito em cima da hora para saudar o "acordo de paz" de Trump, e declarou imediatamente seu apoio ("com pesar", acrescentou mais tarde) à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Também manifestou interesse no duvidoso projeto de defesa antimísseis "Golden Dome" de Trump, revertendo décadas de resistência canadense que remontavam ao projeto "Guerra nas Estrelas" de Reagan. Mesmo a retirada das negociações comerciais em agosto foi menos desafiadora do que parecia. Carney marcou a imposição de medidas recíprocas para dali a duas semanas e continuou negociando na esperança de algum acordo minimamente aceitável. A imposição de tarifas canadenses — respondida, naturalmente, com mais tarifas dos EUA, bem como proibições de importação — não mudou nada.
Embora as tarifas sejam impopulares nos EUA — e as medidas de retaliação envolvendo aço, alumínio e autopeças devam prejudicar a indústria dos estados do Meio-Oeste, onde ocorrerão eleições cruciais para o Senado em novembro —, o governo Trump declarou não sentir "nenhuma urgência" em encerrar a disputa. O porte muito menor da economia canadense e sua profunda integração com a dos EUA tornam o país mais vulnerável. Os EUA respondem por quase três quartos das exportações do Canadá e por 60% de suas importações. A exposição do Canadá ao mercado americano é fortemente condicionada pelas inclinações de sua classe capitalista. Como uma sociedade de colonização de povoamento voltada para a exportação, o país dependia inicialmente do Reino Unido tanto como principal destino de suas exportações de matérias-primas quanto como fonte primordial de investimentos. Durante um breve intervalo — cerca de quatro décadas em torno do ano 1900 —, em meio à ascensão do protecionismo no mundo capitalista, o Canadá deu sinais de que se tornaria uma "nação crustácea" (nos termos de Polanyi), utilizando o vasto fluxo de capital proveniente de Londres para construir uma indústria nacional protegida por barreiras tarifárias. No entanto, a partir da década de 1920, o país começou a integrar-se aos EUA, justamente quando sua expansão industrial recebia um enorme impulso da Grande Guerra. Esse processo acelerou-se no pós-guerra: o famoso acordo automotivo (Auto Pact), que fundiu a indústria automobilística canadense à dos EUA — muito maior —, foi assinado em 1965.
No entanto, naquela altura, sinais de alerta já começavam a surgir. Ainda em 1955, o governo liberal encomendou um relatório que expressava preocupação com a crescente participação estrangeira na economia canadense. Na década seguinte, outro relatório governamental aprofundou a questão. Intelectuais alertavam para uma "rendição silenciosa" aos EUA e para a redução do Canadá a uma economia de "filiais" de empresas estrangeiras. Políticos defendiam uma "terceira opção" — nem a tendência atual de maior integração com os EUA, nem uma política para acelerá-la, mas sim um plano para "desenvolver e fortalecer a economia canadense e outros aspectos de sua vida nacional e, nesse processo, reduzir a atual vulnerabilidade do Canadá" por meio da diversificação comercial e de uma política industrial. Na década de 1970, criou-se uma estrutura substancial de políticas de nacionalismo econômico, incluindo a Agência de Revisão de Investimentos Estrangeiros (FIRA), a Corporação de Desenvolvimento do Canadá e um Programa Nacional de Energia. Contudo, essa agenda não sobreviveu à chegada do neoliberalismo; uma integração mais estreita era um elemento central da versão canadense dessa doutrina. As classes dominantes do Canadá lançaram o país ainda mais profundamente no abraço volúvel dos EUA com o Acordo de Livre-Comércio entre EUA e Canadá de 1988, seguido pelo NAFTA em 1992. Desde então, não houve retrocesso. A maioria ainda espera por um acordo com os EUA e, na falta disso, por uma administração americana mais favorável em 2029.
Se Carney quisesse combinar a sua retórica com a ação, teria de enfrentar as classes capitalistas do Canadá. Teria de se comprometer com uma plataforma anti-neoliberal, incluindo o reforço da procura canadiana através de um Estado-providência alargado e do apoio aos sindicatos e a salários mais elevados, fazendo investimentos públicos na inovação industrial, regulando o sector financeiro para se concentrar no apoio à produção em vez de empréstimos predatórios e especulação. Teria de procurar alternativas reais ao comércio com os EUA que se encontram do outro lado do Pacífico e não do Atlântico – onde Carney tem concentrado os seus esforços recentes – bem como gastar menos nas forças armadas e reorientá-las do seu papel de ajuda ao imperialismo norte-americano para um papel centrado na defesa nacional.
Em vez disso, Carney tem aproveitado a oportunidade criada pela disputa com Trump para fazer avançar uma agenda neoliberal sob o fogo da retórica económica nacionalista. Ele reduziu as barreiras interprovinciais ao aprovar a Lei “pró-crescimento” da Economia Canadiana, que restringirá a capacidade dos governos locais de proteger o ambiente, estimular as suas economias e proteger o trabalho e os consumidores – tudo isto agradará ao capital canadiano. Ele apressou a aprovação da Lei Building Canada no parlamento, permitindo que o governo anulasse as leis que protegem a saúde, o meio ambiente e os direitos indígenas para projetos designados como de “interesse nacional”. Ele cortou impostos e está legislando para minar ainda mais as proteções trabalhistas. Estas reformas não são diluídas pelo mínimo de liberalismo social e ambientalismo que outrora foi considerado necessário para distinguir o Canadá dos EUA. Com a nação em perigo, tais frivolidades são incomportáveis.
A mais recente dádiva para o capital e para a agenda neoliberal foi a Cimeira de Investimentos de Carney, realizada em Toronto no dia 15 de Setembro. Não obstante a sua afirmação de que o Canadá “não está à venda”, convidou mais de uma centena de grandes investidores internacionais, metade dos quais provenientes dos EUA, representando 120 biliões de dólares em ativos, retratando o Canadá como um “porto seguro” num tempo de incerteza, açoitando centros de dados e oleodutos, portos e aeroportos, bem como importantes incentivos fiscais e um processo de aprovação mais rápido. O capital está encantado e exigindo mais. E, uma vez que o neoliberalismo canadiano está intimamente ligado à integração dos EUA, Carney esclareceu agora ao seu público de investidores que a relação EUA-Canadá estava longe de terminar: “Aos nossos amigos americanos, deixem-me dizer isto. Seremos sempre vizinhos e o Canadá continuará a ser o parceiro mais importante dos EUA em muitas áreas importantes... Afinal, mesmo em momentos de desacordo durante a nossa longa história, sempre mantivemos laços profundos.’
Há, no entanto, um elemento de autenticidade no ato David de Carney contra Golias de Trump. Tendo passado a maior parte da sua carreira madura ao serviço das “potências médias”, ele está consciente do preço da dominação dos EUA. Em 2019, em Jackson Hole, a conferência anual de banqueiros centrais tipicamente dominados pelas preocupações e prioridades dos EUA, Carney propôs que uma “moeda hegemónica sintética” seria melhor do que o dólar. Por mais útil que tal posição possa ser para conseguir um melhor negócio dentro dos parâmetros da dominação dos EUA, ela não oferece uma alternativa plausível; organizar a hegemonia ocidental sem os EUA equivaleria a encenar Hamlet sem o príncipe. Uma aliança compensatória de “potência média”, numa altura em que a UE continua a ser um bando de nações em conflito, no meio de dificuldades econômicas – para além das impostas por Trump – é dificilmente viável. A dominação dos EUA uniu o Ocidente; agora parece estar a terminar e é pouco provável que os políticos ocidentais encontrem uma fonte alternativa de coesão.

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