Enfrentando a verdadeira crise do país
Matias Spektor
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| Avenida Paulista refletida em bandeira brasileira, São Paulo, setembro de 2026 Brian Snyder/Reuters |
A eleição presidencial brasileira, que começa com o primeiro turno de votação em 4 de outubro, oferece aos cidadãos uma escolha entre visões de política radicalmente diferentes. Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula — principal expoente da esquerda latino-americana —, busca um quarto mandato presidencial contra Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, o ex-presidente de extrema-direita condenado a 27 anos de prisão por tentar anular os resultados da eleição presidencial anterior. A disputa também envolve a forma como o Brasil deve conduzir suas relações exteriores: Lula enfatiza a autonomia estratégica, inclusive por meio do estreitamento de laços com a China e outros parceiros, enquanto Flávio Bolsonaro defende um alinhamento estreito com a administração Trump, nos Estados Unidos.
O que une os dois candidatos é a premissa de que o Brasil ainda tem liberdade para escolher sua estratégia de política externa. Os vastos recursos do país, sua distância de conflitos ativos e o fluxo de investimento estrangeiro direto deveriam colocá-lo em uma posição favorável para lidar com a atual instabilidade global e a competição entre grandes potências, bem como para negociar de forma eficaz o que deseja. No entanto, apesar desses valiosos ativos geopolíticos, o Brasil está perdendo influência global, e sua autonomia de ação corre riscos. Grandes potências, incluindo a China e os Estados Unidos, têm cada vez mais condições de ditar os termos de seu relacionamento com o Brasil. O país também vem se isolando na América do Sul, região onde, até pouco tempo atrás, liderava a criação de instituições como o bloco comercial Mercosul. Sua relação com a Argentina, por exemplo — que ajudou a sustentar quatro décadas de estabilidade regional —, deteriorou-se a ponto de nenhum dos dois países manter um embaixador na capital do outro.
O Brasil é, em grande medida, responsável pelo declínio de sua influência. Grande parte do peso do país no cenário internacional depende de os parceiros estrangeiros acreditarem que os acordos firmados hoje serão implementados amanhã. Essa credibilidade, por sua vez, baseia-se na capacidade de compromisso do Estado — isto é, sua habilidade de mobilizar os recursos necessários para cumprir promessas, coordenar instituições públicas de forma eficaz e garantir que os acordos firmados sobrevivam às alternâncias democráticas de poder. Uma série de problemas internos — incluindo restrições fiscais crescentes, um sistema político em conflito consigo mesmo e corrupção generalizada — tem dificultado a capacidade de ação do Estado. Um grande escândalo envolve agora o Supremo Tribunal Federal, instituição destinada a aplicar as regras de forma imparcial e que, portanto, é essencial para a perenidade dos compromissos brasileiros. A interferência aberta do governo Trump na política interna do Brasil agravou as vulnerabilidades do país, tornando qualquer acordo controverso e partidário, além de aumentar a probabilidade de que futuras administrações, tanto em Brasília quanto em Washington, tentem revertê-lo.
Quem quer que vença a próxima eleição presidencial herdará esses fatores de fragilidade. Até o momento, os candidatos não apresentaram nenhum plano claro para enfrentá-los. Nem uma inclinação em direção a Washington nem a adoção da diplomacia multilateral resolverão o problema mais profundo que está corroendo a autonomia da política externa brasileira e impedindo o país de transformar seus ativos em força real.
À medida que o Brasil perde a capacidade de controlar sua própria agenda de segurança, as decisões sobre como lidar com facções criminosas que operam a partir de seu território são tomadas, cada vez mais, no exterior. O governo Trump classificou o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho — as duas organizações criminosas mais proeminentes do Brasil — como grupos terroristas, conferindo aos Estados Unidos novos instrumentos financeiros e jurídicos para combatê-los. Vários governos da América Latina aderiram à política de Washington de combate aos cartéis. Consequentemente, o Brasil está se tornando objeto das políticas de segurança de outros países, em vez de ser o protagonista da sua própria política.
O que une os dois candidatos é a premissa de que o Brasil ainda tem liberdade para escolher sua estratégia de política externa. Os vastos recursos do país, sua distância de conflitos ativos e o fluxo de investimento estrangeiro direto deveriam colocá-lo em uma posição favorável para lidar com a atual instabilidade global e a competição entre grandes potências, bem como para negociar de forma eficaz o que deseja. No entanto, apesar desses valiosos ativos geopolíticos, o Brasil está perdendo influência global, e sua autonomia de ação corre riscos. Grandes potências, incluindo a China e os Estados Unidos, têm cada vez mais condições de ditar os termos de seu relacionamento com o Brasil. O país também vem se isolando na América do Sul, região onde, até pouco tempo atrás, liderava a criação de instituições como o bloco comercial Mercosul. Sua relação com a Argentina, por exemplo — que ajudou a sustentar quatro décadas de estabilidade regional —, deteriorou-se a ponto de nenhum dos dois países manter um embaixador na capital do outro.
O Brasil é, em grande medida, responsável pelo declínio de sua influência. Grande parte do peso do país no cenário internacional depende de os parceiros estrangeiros acreditarem que os acordos firmados hoje serão implementados amanhã. Essa credibilidade, por sua vez, baseia-se na capacidade de compromisso do Estado — isto é, sua habilidade de mobilizar os recursos necessários para cumprir promessas, coordenar instituições públicas de forma eficaz e garantir que os acordos firmados sobrevivam às alternâncias democráticas de poder. Uma série de problemas internos — incluindo restrições fiscais crescentes, um sistema político em conflito consigo mesmo e corrupção generalizada — tem dificultado a capacidade de ação do Estado. Um grande escândalo envolve agora o Supremo Tribunal Federal, instituição destinada a aplicar as regras de forma imparcial e que, portanto, é essencial para a perenidade dos compromissos brasileiros. A interferência aberta do governo Trump na política interna do Brasil agravou as vulnerabilidades do país, tornando qualquer acordo controverso e partidário, além de aumentar a probabilidade de que futuras administrações, tanto em Brasília quanto em Washington, tentem revertê-lo.
Quem quer que vença a próxima eleição presidencial herdará esses fatores de fragilidade. Até o momento, os candidatos não apresentaram nenhum plano claro para enfrentá-los. Nem uma inclinação em direção a Washington nem a adoção da diplomacia multilateral resolverão o problema mais profundo que está corroendo a autonomia da política externa brasileira e impedindo o país de transformar seus ativos em força real.
DESCONTROLE
O Brasil nem sempre teve dificuldades para projetar credibilidade perante o mundo. Na década de 1990, o plano de estabilização econômica do país conteve a inflação galopante, seus líderes consolidaram e fortaleceram a democracia, e foram assinados acordos com a Argentina sobre integração econômica e salvaguardas nucleares que melhoraram a segurança regional. Todos esses compromissos perduraram ao longo de várias transições de governo. Aos olhos de atores influentes, como a Europa e os Estados Unidos, o Brasil era um destino atraente para investimentos e uma força crescente na diplomacia multilateral.
Hoje, no entanto, o que os parceiros veem é um país assolado por graves problemas fiscais, uma política interna profundamente fragmentada e corrupção endêmica. A economia brasileira tem um porte semelhante à do Canadá e superior à da Espanha, e o governo possui uma capacidade formidável de tributar seus cidadãos e arrecadar receitas. Contudo, mais de 90% das despesas do governo federal (excluindo-se os juros da dívida) são obrigatórias, deixando pouca margem para gastos discricionários em áreas como infraestrutura — algo de que o país necessita urgentemente para aproveitar suas vastas reservas de minerais críticos. Paralelamente, o Fundo Monetário Internacional projeta que a dívida pública brasileira chegará a cerca de 98% do PIB até o final de 2026. Com taxas de juros reais em torno de 10%, o serviço dessa dívida é extremamente oneroso, consumindo recursos que poderiam ser empregados para fortalecer as forças de segurança ou financiar outras prioridades estratégicas.
As restrições fiscais do país dificultam o combate à expansão transnacional de facções criminosas locais — uma falha que obriga outras nações a lidar com problemas originados no Brasil e que mina ainda mais a credibilidade do país como parceiro. As autoridades brasileiras não dispõem de recursos suficientes para enfrentar as vastas redes criminosas que operam em mais de 1.500 pistas de pouso clandestinas na bacia amazônica, transportam ilegalmente drogas, ouro, armas e outras mercadorias através das fronteiras com os dez países vizinhos e exploram uma costa permeável de quase 8.000 quilômetros de extensão. À medida que a situação financeira do Brasil se aperta, a ameaça evolui muito mais rápido do que a capacidade do Estado brasileiro de direcionar recursos para combatê-la.
Os parceiros veem um país assolado por problemas graves.
O Brasil também enfrenta dificuldades para fazer com que os órgãos governamentais trabalhem em conjunto. Essas instituições contam com quadros de profissionais altamente qualificados, que precisam ser aprovados em concursos públicos para ingressar; no entanto, os próprios órgãos disputam autoridade e recursos, o que resulta em conflitos ferozes e tentativas de minar uns aos outros. A responsabilidade pela política de segurança, por exemplo, está fragmentada entre a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a agência de inteligência, as diversas polícias militares e civis dos 26 estados e do Distrito Federal (onde se localiza a capital, Brasília), as Forças Armadas, a Receita Federal e o Ministério Público (tanto federal quanto estadual). Tentativas de coordenar esses diferentes órgãos sob uma autoridade central para combater o crime organizado fracassaram no Congresso, onde associações de classe que representam essas instituições resistiram a qualquer medida que pudesse reduzir seu poder. Como resultado, não há uma autoridade única capaz de definir prioridades ou mobilizar recursos com rapidez, permitindo que organizações criminosas proliferem nas brechas da burocracia.
A fragmentação interna do Brasil também prejudica a cooperação internacional. Diferentes órgãos reivindicam competências sobrepostas e não se coordenam ao buscar seus objetivos, dificultando a atuação do Estado como uma entidade unificada. Mesmo em relação a países vizinhos como Paraguai e Uruguai — onde redes criminosas brasileiras se expandiram, mas que carecem de recursos para combatê-las sozinhos —, o Brasil não conseguiu estabelecer mecanismos duradouros de compartilhamento de inteligência, operações conjuntas e ações coordenadas de aplicação da lei.
NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO
Embora a corrupção há muito assombre alguns dos projetos de política externa mais ambiciosos do Brasil, escândalos públicos recentes abalaram a reputação do país. Grandes escândalos envolvendo a Petrobras — a estatal de petróleo — e gigantes da construção civil financiadas pelo BNDES (o banco nacional de desenvolvimento) inviabilizaram vultosos negócios que o Brasil havia conquistado pela América Latina. Esses escândalos, que incluíram o pagamento de propinas e o retorno de recursos ilícitos em projetos por todo o continente, contribuíram para uma crise política que, em 2016, pôs fim à presidência de Dilma Rousseff e, em 2018, levou Lula à prisão. (Suas condenações foram posteriormente anuladas.) Mais tarde, em 2018, os escândalos alimentaram a reação contra o establishment político que conduziu Jair Bolsonaro ao poder. Juízes e promotores que revelaram e investigaram a corrupção emergiram daquele período com extraordinária autoridade política, apresentando-se como um contrapeso a uma classe política que havia falhado com o povo brasileiro.
No entanto, a partir do final de 2025, o público começou a tomar conhecimento de quão profundamente setores do Judiciário haviam se envolvido em esquemas de corrupção. O proprietário do Banco Master — instituição que oferecia taxas de juros acima das praticadas pelo mercado — é acusado de realizar pagamentos paralelos e conceder contratos lucrativos a familiares de ministros do Supremo Tribunal Federal, além de ceder seus jatos particulares para viagens pessoais desses magistrados. Um tribunal cuja autoridade se baseava, em parte, na capacidade de fazer frente a governos eleitos encontra-se agora sob suspeita, gerando dúvidas sobre sua capacidade de responsabilizar a próxima administração.
O escândalo dominou o cenário da próxima eleição e elevou a importância de seu desfecho. O próprio Flávio Bolsonaro está sendo investigado por supostas ligações com o Banco Master; ele prometeu confrontar o tribunal que condenou seu pai, inclusive cogitando conceder-lhe um perdão. Lula não foi diretamente implicado no escândalo, mas figuras próximas ao seu governo foram envolvidas nas investigações. O vencedor da eleição também terá a prerrogativa de nomear pelo menos três dos 11 ministros da Corte, conferindo-lhe, na prática, o poder de remodelar a instituição.
A corrupção exerce um impacto desproporcional sobre a política externa do Brasil. Os escândalos no país têm derrubado, repetidamente, as empresas e instituições capazes de projetar a influência do Brasil no exterior. No início do século XXI, a Petrobras e grandes empreiteiras construíam o peso regional do Brasil por meio do desenvolvimento; os escândalos da década de 2010 minaram essa influência. Hoje, é o Judiciário — cuja função é garantir que as regras prevaleçam sobre a política — que perde autoridade. Parceiros não conseguem prever quais acordos acabarão envolvidos no próximo escândalo, o que os leva a adotar estratégias de proteção contra riscos. Governos e empresas que cogitam grandes investimentos de longo prazo no Brasil — em áreas como minerais críticos, energia, agricultura ou infraestrutura — provavelmente buscarão garantias de investimento mais robustas, exigirão maior controle sobre os termos dos negócios ou simplesmente optarão por arranjos menos ambiciosos e de menor risco.
SEM PARA ONDE SE VOLTAR
Durante décadas, o Brasil aumentou a credibilidade de seus compromissos ao limitar sua própria margem de manobra internacionalmente. A adesão às regras da Organização Mundial do Comércio, por exemplo, dificultou a oposição de políticos protecionistas internos à abertura comercial, e a assinatura de tratados de direitos humanos ajudou a conter forças de segurança nacionais que desejavam manter práticas — como a tortura e a violência extrajudicial — herdadas da era da ditadura militar. A concordância com normas bancárias globais fortaleceu a capacidade do Banco Central do Brasil de impor regras rigorosas ao sistema financeiro. Essas restrições externas deram aos líderes brasileiros força política para superar a oposição interna e também conferiram aos parceiros estrangeiros maior confiança no país. Agora, com as regras globais sob forte ataque, há menos barreiras contra interesses internos que buscam acesso privilegiado a contratos públicos, favores regulatórios ou proteção política.
O governo Trump agravou consideravelmente o problema. A tentativa de Washington de influenciar a política interna brasileira aumentou o custo, para Brasília, de contrariar as preferências dos EUA. Se os Estados Unidos conseguirem forçar o Brasil a desfazer promessas anteriores, o prestígio do país em Washington poderá aumentar, mas sua credibilidade despencará junto a todos os outros parceiros. O inverso também é verdadeiro: se as relações entre EUA e Brasil dependerem de acordos que a Casa Branca condicione a resultados políticos ou a laços pessoais, futuros governos americanos terão mais motivos para descartá-los como partidários e poderão tentar desfazê-los ou alterá-los.
Enquanto isso, a competição entre as grandes potências assumiu um caráter de "jogo de soma zero", submetendo todas as parcerias do Brasil a um escrutínio constante. Seja ao decidir qual país fornecerá suas redes de telecomunicações 5G ou qual tecnologia sustentará sua infraestrutura emergente de IA, o Brasil precisa que seus parceiros acreditem que Brasília honrará seus compromissos, mesmo quando uma potência rival pressionar pelo recuo. Quanto menor a credibilidade do Brasil, menor sua margem para manter laços estreitos com múltiplas potências concorrentes.
Na disputa por minerais críticos, o Brasil domina a produção global de nióbio — metal utilizado na fabricação de aço de alta resistência — e possui grandes reservas de terras raras, mas a China domina o processamento desses materiais. Preocupados com esse domínio, os Estados Unidos tentam afastar as cadeias de suprimentos de empresas controladas pela China. Os produtores já se veem pressionados entre cadeias de suprimentos concorrentes. A Viridis Mining & Minerals, empresa australiana que desenvolve o projeto de terras raras Colossus no estado brasileiro de Minas Gerais, declarou que planeja vender apenas para compradores dos EUA e da Europa, apesar do interesse chinês. No entanto, a China compra quase 30% do total das exportações brasileiras e tornou-se um grande investidor nos setores de energia elétrica, mineração, automóveis, petróleo e outras áreas estratégicas. O Brasil precisa conseguir tranquilizar diferentes partes, mas isso se torna cada vez mais difícil quando tanto os Estados Unidos quanto a China, por exemplo, acreditam que Brasília pode ceder à pressão do outro lado.
A falta de credibilidade também pode afastar potenciais parceiros. O Brasil já vivenciou essa situação anteriormente quando, após descobrir reservas de petróleo em alto-mar, reformulou as regras que regiam seus campos petrolíferos mais valiosos para ampliar o poder do governo federal. Ao leiloar os direitos de exploração do gigantesco campo de Libra, em 2013, apenas um consórcio apresentou uma proposta viável — e ofereceu o valor mínimo permitido pelas novas condições. O Brasil esperava obter mais receita com seus ativos, que haviam se valorizado, mas a mudança abrupta nas regras do jogo custou ao país o poder de definir os termos de um novo acordo.
CREDIBILIDADE
Países como o Brasil dispõem de várias formas de tornar seus compromissos críveis. Nos Estados árabes do Golfo, por exemplo, a solução para uma eventual falta de credibilidade reside na concentração de autoridade. Parceiros estrangeiros confiam que esses países cumprirão sua parte em qualquer acordo, pois o poder político é suficientemente centralizado para que os líderes garantam a execução das medidas pelas burocracias estatais. Em contrapartida, democracias sólidas dependem de instituições impessoais — que protegem as promessas do Estado de interferências políticas cotidianas — e de orçamentos robustos o suficiente para que essas instituições possam concretizá-las.
O Brasil não possui nem a autoridade concentrada de uma autocracia, nem instituições democráticas fortes o bastante para desempenhar essa mesma função. O país enfrenta dificuldades para tornar críveis as garantias estatais, e sua situação fiscal limita os recursos necessários para honrá-las.
Os dois candidatos à presidência apresentam soluções distintas para restaurar a credibilidade. Flávio Bolsonaro pretende obter credibilidade junto a Washington por meio de um alinhamento mais estreito com os Estados Unidos, o que inclui maior abertura aos planos americanos para minerais críticos — iniciativas que visam manter as cadeias de suprimentos fora do controle chinês. Embora isso possa tranquilizar a administração Trump, também alarmaria Pequim e deixaria o Brasil à mercê de um único patrono cuja política externa é fortemente transacional. Aceitar termos que excluam a China ou outros atores poderia viabilizar mais acordos com os Estados Unidos, mas acarretaria um custo ainda maior: o de tornar o Brasil menos crível como parceiro independente perante outras grandes potências.
Escândalos públicos recentes abalaram a reputação do país.
Lula propõe preservar a autonomia brasileira fortalecendo, simultaneamente, os laços com todas as grandes potências e investindo ao máximo na diplomacia multilateral. Isso evitaria a dependência exclusiva de Washington, mas sobrecarregaria ainda mais as instituições brasileiras — já pressionadas ao limite — ao multiplicar as relações que o país precisa manter e nas quais deve investir. A estratégia só funciona se os diferentes parceiros acreditarem que o Brasil é capaz de honrar múltiplos compromissos simultaneamente, mesmo quando forças distintas o puxam em direções opostas.
Nenhuma das estratégias contribui significativamente para restaurar a credibilidade do Brasil, pois nenhuma delas reconstrói a capacidade que sustenta essa credibilidade. O Brasil ainda pode encontrar formas de colaborar com parceiros internacionais, mas só conseguirá fazê-lo a um custo mais elevado. Isso cria um ciclo vicioso no qual cada novo acordo deixa o Brasil com menos margem de manobra e torna as negociações subsequentes ainda mais difíceis. Esse ciclo se consolida justamente quando os recursos, as exportações e os investimentos brasileiros se tornam mais valiosos para o resto do mundo — um momento em que o poder de negociação do país deveria estar aumentando, e não diminuindo.
A votação que começa em 4 de outubro — e o provável segundo turno, três semanas depois, entre os dois candidatos mais votados — não romperá esse ciclo por si só. Para isso, é necessário um esforço de longo prazo para garantir que o Brasil disponha dos recursos, da coesão e das instituições confiáveis necessários para firmar acordos ambiciosos e assegurar que sejam cumpridos. O que os eleitores decidirão, na verdade, é como o Brasil lidará com seu déficit de credibilidade e se o país conseguirá iniciar o longo processo para revertê-lo.
MATIAS SPEKTOR é professor de Política e Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas em São Paulo.

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