1 de agosto de 2026

O novo Homem-Aranha é pura diversão

O recordista Spider-Man: Brand New Day é uma diversão alegre e sem grandes exigências que não finge ser nada além disso. Em uma monocultura de super-heróis que continua drenando dinheiro, talento e ambição de Hollywood, isso é praticamente o melhor que se pode esperar.

Eileen Jones

Jacobin

Spider-Man: Brand New Day é a prova de que filmes de super-heróis funcionam melhor quando não aspiram a nada além da diversão típica de desenhos animados. (Columbia Pictures / Marvel Studios)

O que se pode dizer sobre um novo filme do Homem-Aranha além de, num tom de incredulidade: "Lá vem outro!"?

Bem, algumas coisas. Spider-Man: Brand New Day foi dirigido por Destin Daniel Cretton, que também comandou Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021), filme de que gostei. Era uma obra leve e bem-humorada, com excelentes sequências de ação e um desenvolvimento de personagens sutil e agradável, além de ter transformado Simu Liu em estrela de cinema — ainda que brevemente. Aliás, eu gostaria de ver mais filmes com Simu Liu; e não me refiro a papéis pequenos, como um dos Kens em Barbie (2023) ou um membro da multidão de Vingadores — como ele aparecerá em seu retorno como Shang-Chi no próximo Avengers: Doomsday. É bom que ele esteja ganhando a vida e tudo mais, mas a maneira como Hollywood desperdiça tanto carisma é um pecado e uma pena.

Quem recebe muito mais atenção e cuidado na carreira são as jovens estrelas Tom Holland e Zendaya, que retornam para o quarto filme desta mais recente série reiniciada do Homem-Aranha, após a trilogia composta por Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), Homem-Aranha: Longe de Casa (2019) e Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021). Interpretando o Homem-Aranha/Peter Parker e sua amada de língua afiada, Michelle "MJ" Jones-Watson, neste início de uma nova trilogia — meu Deus, é algo incessante —, Holland e Zendaya atingem o auge profissional após o casamento amplamente divulgado e suas atuações no sucesso épico A Odisseia, que estreou há poucas semanas e ainda está em cartaz em salas concorrentes.

Ambos estão muito melhores em Spider-Man: Brand New Day. Aquele tom de voz de "bom moço" impecável, com um sotaque americano típico de filmes ingênuos e otimistas adotado por Holland — que é britânico — para interpretar Peter Parker, soa estranho e distrai o espectador quando ele vive Telêmaco, príncipe de Ítaca e filho imaturo de Odisseu; no entanto, encaixa-se perfeitamente na diversão cartunesca dos filmes do Homem-Aranha. Zendaya é, naturalmente, linda, mas interpretar a deusa Atena tal como Christopher Nolan a escreveu — uma observadora preocupada e sombria, sem nada de "divino" para fazer — não a favoreceu. Ela tem uma postura maravilhosamente moderna e um ótimo timing cômico. Ela e Holland compartilham uma dinâmica de trocas bem-humoradas e descontraídas, o que é cativante e divertido.

O melhor aspecto de Spider-Man: Brand New Day é que o filme não tenta ser nada além de pura diversão, reunindo ação vibrante, momentos frequentes de humor e bastante drama emocional em um pacote de entretenimento bem acabado. Há muito pouco daquela falsa profundidade tola que somos obrigados a suportar quando certos diretores — que não vêm ao caso mencionar — assumem o comando de filmes de super-heróis. Além disso, o filme já é um sucesso estrondoso, estabelecendo um recorde de bilheteria no dia de estreia que supera a marca anterior de outro longa da Marvel: Vingadores: Ultimato (2019).

Spider-Man: Brand New Day dá continuidade ao desfecho do filme anterior — resumido de forma eficiente em algumas linhas durante os créditos de abertura —, quando o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) lançou um feitiço fazendo o mundo esquecer a identidade de Peter Parker, a qual havia sido revelada com consequências potencialmente desastrosas. O resultado é que o Homem-Aranha pode continuar combatendo o crime com eficiência em Nova York sem que ninguém saiba sua verdadeira identidade. No entanto, isso inclui as pessoas da vida pessoal de Peter — como sua namorada, MJ, e seu amigo e ex-colega de turma do MIT, Ned Leeds (Jacob Batalon).

Como sua tia May (Marisa Tomei) — que sempre o apoiou — morreu em decorrência de sua ligação com o Homem-Aranha, Peter vive agora um isolamento quase monástico, dedicado exclusivamente à caçada solitária a vilões perigosos. Sua conexão mais próxima é com a detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas), com quem conversa por telefone sobre os roubos mais recentes e os perigos que ameaçam as ruas da cidade.

Trata-se de uma trama de super-herói que já vimos inúmeras vezes: a figura idolatrada pelo público por sua velocidade e força imbatíveis e por seus atos heroicos constantes, mas que, apesar disso, vive uma existência de profunda miséria e isolamento, precisando reencontrar alguma forma de conexão humana básica para salvar a si mesmo. Gostamos do lado sombrio e romântico desse personagem, assim como nos fascinamos infinitamente com histórias de estrelas de cinema que parecem ter tudo — beleza, dinheiro, fama, adoração — mas que, no fundo, sempre foram profundamente atormentadas e infelizes.

No entanto, as provações de Peter Parker/Homem-Aranha não param por aí. Ele também enfrenta um problema potencialmente fatal decorrente de sua angústia: um pico de hormônios aracnídeos relacionados ao estresse em seu organismo, o que torna suas características de aranha erráticas e excessivas. De repente, ele passa a disparar teias diretamente dos pulsos, e não mais do uniforme, sem conseguir controlar a quantidade: às vezes não sai nada, outras vezes a teia surge em tamanha profusão que ele acorda envolto nela, pendurado na beirada de prédios.

Ele experimenta soluções científicas, e há cenas divertidas de tentativa e erro enquanto ele cambaleia, despenca e sai disparado descontroladamente pela cidade. Mas é um péssimo momento para perder o controle de seus poderes, pois há uma nova e misteriosa força de caos em ação em Nova York — uma força invisível capaz de possuir humanos e saltar rapidamente de uma pessoa para outra, fazendo com que cada uma se contorça violentamente ao ser tomada ou abandonada, como aqueles bonecos infláveis ​​de tubo que balançam freneticamente em anúncios de carros usados. Assim, o Homem-Aranha não faz ideia de quem é esse suposto inimigo, sendo confrontado repetidamente por alguma pessoa aleatória na rua que o encara com escárnio, desafiando-o a acompanhá-la e dizendo, de forma mordaz: "Você é uma simples aranha".

Enquanto isso, sobra tempo para Peter/Homem-Aranha ficar melancólico, acompanhando MJ e Ned e sentindo uma tristeza profunda. Isso é facilitado pela presença constante de Ned online e por sua condição de fã do Homem-Aranha — o que inclui a invenção de um "Spidey-Tracker" (rastreador do Aranha) para smartphone, que se mostrará útil em vários momentos.

O filme conta com talentos de primeira linha surgindo por toda parte — um daqueles prazeres clássicos dos filmes de gênero de Hollywood: atores extremamente talentosos aparecendo em papéis pequenos e entregando atuações casualmente brilhantes. Florence Pugh está, como sempre, fabulosa como Yelena Belova/Viúva Negra; ela protagoniza cenas divertidas relaxando na piscina de um spa — que ela chama de "meu escritório" — e menosprezando as questões irrelevantes (ou melhor, as "batatinhas de bebê") com as quais o Homem-Aranha se preocupa, enquanto os Vingadores lidam com problemas globais de grande porte. De alguma forma, a leveza e o apelo pop da personagem tornam o talento extraordinário de Pugh ainda mais impressionante do que quando ela interpreta papéis mais densos.

Mark Ruffalo traz diversas nuances à sua atuação como Bruce Banner/Hulk, pois é, aparentemente, um profissional exemplar que jamais faz o trabalho "nas coxas" apenas para receber seu enorme cachê por algumas poucas cenas. E Sadie Sink, de Stranger Things, tem um papel importante que não posso descrever para evitar spoilers, mas ela é muito eficiente. Há uma forte presença de talentos da televisão aqui: Tramell Tillman traz as qualidades enigmáticas que exibiu em Severance, e Liza Colón-Zayas, de The Bear, realiza um trabalho notavelmente comovente em um papel genérico de policial "do bem".

A única atuação de que eu poderia ter dispensado foi a de Jon Bernthal como Frank Castle/Justiceiro; seu vigilantismo machista é tão caricato em sua beligerância que chega a irritar o fato de Peter/Homem-Aranha continuar confiando nele. Bernthal — que também participou de The Odyssey, interpretando Menelau como um brutamontes vingativo — parece surgir em toda parte ultimamente, encarnando variações da masculinidade tóxica. Suponho que não seja culpa dele ter essa cara de brutamontes de nariz quebrado, mas que maneira de ganhar a vida!

Mas, se você procura um entretenimento que não exija muito esforço mental, há vários aspectos agradavelmente distrativos em Spider-Man: Brand New Day para manter seu interesse ao longo da duração excessiva do filme, que é tipicamente carregada de tramas. No entanto, é preciso não deixar a mente divagar — acima de tudo, não pense na situação deplorável do cinema ou na situação ainda mais deplorável do mundo enquanto assiste.

Porque, se você ama cinema, essa onda interminável e avassaladora de filmes de super-heróis é — e há muito tempo tem sido — algo exaustivo e deprimente, pois suga todo o dinheiro, talento, energia e cobertura da imprensa, deixando apenas migalhas para outras iniciativas cinematográficas potencialmente mais ambiciosas. E, se você se detiver a pensar nos enormes recursos dedicados a esses circos cinematográficos que frequentamos — enquanto enfrentamos cerca de seis crises globais mortais diferentes que ameaçam toda a vida na Terra —, sentirá um mal-estar ao imaginar o que todo esse dinheiro poderia realizar se não o estivéssemos desperdiçando constante e deliberadamente.

E isso certamente não ajudará você a manter o interesse em saber como o Homem-Aranha capturará a ameaça capaz de saltar de um corpo para outro, ou se Peter Parker algum dia terá coragem de falar para MJ sobre o amor perdido entre eles.

Às vezes, temos de admitir, estamos desesperados por uma distração descompromissada.

Colaborador

Eileen Jones é crítica de cinema na Jacobin, apresentadora do podcast Filmsuck e autora de Filmsuck, USA.

A Revolução Cubana foi uma revolução na arte e na cultura

A Revolução Cubana não foi apenas uma transformação da ordem político-econômica do país. Foi também uma revolução na cultura, levando a alfabetização às massas e inspirando uma efervescência artística e intelectual diversificada.

Entrevista com
Abel Prieto


Um pintor trabalha em um afresco em uma parede de Havana, em 17 de fevereiro de 2010. (François Goudier / Gamma-Rapho via Getty Images)

Entrevista de
Simón Vázquez

Como parte da Rumbo a Cuba — uma missão de solidariedade a Cuba na qual, pela primeira vez, uma embarcação da sociedade civil atravessou o Oceano Atlântico transportando equipamentos de energia solar para um hospital pediátrico em Havana —, o colaborador da Jacobin Simón Vázquez visitou Abel Prieto na Casa de las Américas. Escritor e ensaísta, ex-ministro da Cultura de Cuba e atual presidente dessa instituição fundada pela revolucionária cubana Haydée Santamaría, Prieto tem sido uma das figuras centrais da política cultural da Revolução Cubana por mais de três décadas. Ele presidiu a União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC), chefiou o Ministério da Cultura em duas ocasiões e atuou como assessor tanto de Fidel quanto de Raúl Castro.

Nesta conversa com a Jacobin, Prieto faz um balanço do legado cultural da Revolução Cubana, de seus erros — do caso Padilla à repressão contra homossexuais nas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP) — e dos desafios do presente em Cuba: os apagões, a emigração, as redes sociais e a batalha pela construção de sentidos.

Simón Vázquez

Vamos começar pelo início. Como você descreveria a Cuba em que você cresceu, a Cuba pré-revolucionária?

Abel Prieto

Lembre-se de que fomos uma colônia dos ianques por sessenta anos. Em 1898, eles intervieram em Cuba para nos roubar a vitória sobre a Espanha; depois, tomaram a ilha e a transformaram em uma neocolônia.

Cuba foi o lugar onde o modelo neocolonial estreou: pela primeira vez, construíram uma república de fachada no país — com o dinheiro, com o controle político e o controle econômico. Aqui, a figura mais importante era o embaixador dos Estados Unidos: ele era a voz do patrão. Nossa burguesia não era propriamente nacional, como em outros países latino-americanos; era uma burguesia que olhava obsessivamente para o norte. Ela enviava seus filhos para estudar no norte e tentava consumir todo o lixo cultural que vinha de lá, reproduzindo-o mecanicamente.

Era uma burguesia que desprezava as raízes africanas da nossa identidade. Imagine só tentar entender Cuba desprezando o componente africano: é impossível. Todo o legado espiritual das raízes africanas do nosso país — que é imensamente rico — era visto por eles como obra do diabo. O que eles consumiam era a cultura deles, fabricada nos EUA. Foi nesse contexto — o contexto de uma nova Cuba — que eu me formei.

Simón Vázquez

Diante daquela burguesia crioula que desprezava tudo o que era africano, o que a Revolução fez com esse legado?

Abel Prieto

Desde muito cedo, a Revolução conferiu grande destaque ao legado cultural e espiritual africano, que é essencial para compreender este país. O Teatro Nacional ajudou a elevar o Conjunto Folclórico Nacional — em termos de prestígio artístico — ao mesmo patamar do Balé Nacional de Cuba: o balé burguês, branco e afrancesado, de repente em pé de igualdade com a dança, o movimento e a música dos cubanos negros. Antes da Revolução, o balé era como um adorno da família burguesa — a menina tocando piano e aprendendo seus passos de dança. De repente, tornou-se expressão de uma nova cultura nacional mestiça. Surgiram grandes bailarinos mestiços — como o nosso Carlos Acosta; são verdadeiras estrelas.

Simón Vázquez

Você trabalhou muito próximo de Fidel Castro. No centenário de seu nascimento, sua relação com a cultura e a intelectualidade não tem sido o aspecto mais debatido de sua trajetória. Que tipo de relação ele construiu com os intelectuais cubanos?

Abel Prieto

A relação que Fidel estabeleceu com os intelectuais cubanos é singular. Em 1961, com o discurso "Palavras aos Intelectuais", ele lançou as bases de uma política cultural sem precedentes em qualquer processo revolucionário. A partir do IV Congresso, ele passou a frequentar assiduamente a União [União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba], como se costuma dizer: não faltava a uma única reunião do conselho nacional nem a nenhum congresso, passando todo o tempo ouvindo as pessoas e participando dos debates.

Desde muito cedo, a Revolução conferiu grande relevância ao legado cultural e espiritual africano, elemento essencial para compreender este país.

Fidel adorava o debate intelectual. Aquela caricatura de Fidel como um ditador que não ouvia ninguém e impunha seus próprios critérios é falsa e indefensável. Fidel era um grande intelectual — embora talvez não gostasse de ser chamado assim — que apreciava o debate.

Simón Vázquez

E em um terreno tão espinhoso quanto a questão racial?

Abel Prieto

Lá na UNEAC, vários atores e atrizes negros expuseram a Fidel que ainda havia preconceito racial em Cuba. Dessa discussão surgiu, a meu ver, o discurso mais importante de Fidel sobre a questão racial.

Fidel explicou como, no início da Revolução, ele e a liderança revolucionária acreditavam que, ao eliminar as barreiras institucionais do racismo — acabando com as praias exclusivas para brancos, ou seja, o aspecto institucional e formal —, o problema seria resolvido; o racismo se dissolveria. E disse que agora começava a compreender que se trata de um problema cultural, um problema complexo, ainda que a solução para esse tipo de questão fosse mais lenta.

A partir dessas discussões, ele passou a indagar sobre a cor da pele dos estudantes de arte e dos assistentes sociais; promoveu deliberadamente uma maior participação de pessoas de pele negra. Che Guevara já havia dito: a universidade precisa ser pintada com as cores do trabalhador, do camponês, do negro, do mulato.

Simón Vázquez

Aquele impulso de democratizar a cultura — como ele conseguiu escapar, ao mesmo tempo, do realismo socialista soviético e da cultura de massa norte-americana?

Abel Prieto

Fidel era um adversário da cultura de elite. Mas, simultaneamente, a partir de 1961, ele rejeitou o modelo soviético de realismo didático e simplificador — aquele tipo que transformava a arte em propaganda, a ponto de, no final, não funcionar nem como propaganda nem como arte — e rejeitou também o modelo ianque de cultura de massa: a ideia de estereótipos, dos mocinhos e vilões, a visão de mundo medíocre, maniqueísta e simplificada. Fidel aliou-se à vanguarda intelectual.

Simón Vázquez

Pode dar um exemplo concreto disso?

Abel Prieto

Ele criou um programa de televisão chamado "Universidade para Todos". O primeiro curso foi uma oficina de técnica narrativa ministrada por um grande escritor cubano, já falecido — uma oficina para jovens escritores que ele vinha dando a um grupo minúsculo —, e Fidel transformou isso em algo de massa: levou o programa para a televisão. Cada curso vinha acompanhado de um livreto, um tabloide impresso em papel-jornal, vendido por alguns centavos nas bancas, com tiragens de meio milhão de exemplares.

O interessante, quando se pergunta quantas pessoas realmente aprenderam a escrever narrativas com aquele curso, é que não foram muitas. Mas o que ele promoveu, de forma incrível, foi a leitura, pois as pessoas iam às bibliotecas e livrarias procurar os livros mencionados no curso.

Simón Vázquez

Era uma prescrição cultural.

Abel Prieto

Isso também. Aí está a chave para escapar da simplificação, seja de matriz soviética ou ianque: colocar a vanguarda em primeiro plano, aliar-se à vanguarda.

Fidel estava convencido de que as pessoas podiam ser preparadas para compreender e apreciar qualquer tipo de expressão artística ou literária: a chave reside na educação e na cultura. Para ele — ele disse isso mil vezes —, sem cultura não há liberdade possível. É a ideia de cultura e emancipação, uma ideia martiana: José Martí dizia que ser culto era a única maneira de ser livre. Fidel dizia que, sem cultura, não há liberdade possível, porque você pode ser manipulado.

Simón Vázquez

Você vê esse mecanismo em ação hoje, com a ascensão da Nova Direita?

Abel Prieto

Estamos vendo isso hoje, com a ascensão do fascismo, com essas eleições na América Latina. Em um discurso na Universidade de Havana, em novembro de 2005, Fidel analisa o que chama de reflexo condicionado. Ele diz: o imperialismo afirma "Cuba é ruim, o socialismo é ruim", e lá vão os condenados da terra atrás disso — aqueles sem emprego, sem educação, sem saúde pública — repetindo "Em Cuba, o socialismo...", e fazem isso sem pensar, sem analisar, por reflexo condicionado.

José Martí disse que ser culto era a única maneira de ser livre. Fidel disse que, sem cultura, não há liberdade possível, pois é possível ser manipulado.

É isso que está acontecendo hoje com as redes sociais. Nesse discurso, na minha opinião, Fidel antecipa o debate sobre as redes sociais, a ideia de que as pessoas param de analisar, param de pensar e, em vez disso, reagem a um estímulo com ódio, com raiva ou com desprezo, por reflexo condicionado.

Simón Vázquez

Fidel falou sobre os "pobres de direita".

Abel Prieto

Isso o preocupava: pessoas pobres entregando seu voto a um demagogo porque foram manipuladas. É um fenômeno que temos em abundância: existe na Espanha, em toda a América Latina, na Europa, nos Estados Unidos. Muitas pessoas votaram em Jair Bolsonaro no Brasil — gente da favela, gente humilde — e Bolsonaro jamais cuidaria do destino de suas famílias. Fidel dizia que apenas a educação e a cultura poderiam garantir a capacidade de pensar por si mesmo, de forma independente.

Simón Vázquez

Você estava dizendo que, na cultura também, é possível regredir.

Abel Prieto

Pode haver regressão: não se pode tratar a cultura como um território já conquistado. Quando a Imprensa Nacional de Cuba foi criada, Fidel disse: "Não dizemos ao povo 'acredite', dizemos 'leia'. Não nos interessa produzir fanáticos; interessa-nos produzir pessoas cultas e livres".

E este país tornou-se um país de leitores. Aqui publicamos Fiódor Dostoiévski em tiragens de vinte ou cinquenta mil exemplares, toda a grande literatura russa; mas também Benito Pérez Galdós, Os Miseráveis de Victor Hugo e a grande literatura dos Estados Unidos, de Mark Twain a Gore Vidal.

Hoje, as pessoas leem cada vez menos, em todo o mundo. Regredimos.

Simón Vázquez

Um exemplo dessa regressão?

Abel Prieto

O beisebol, que faz parte do patrimônio cultural dos cubanos, enquanto hoje os jovens se interessam pelo futebol. Esta Copa do Mundo provoca um frenesi entre os mais jovens. Faz sentido que eles compartilhem desse apelo global, pois vivemos na famosa "aldeia global". Mas estamos perdendo algo muito importante. O beisebol é um esporte mais lento, que exige compreensão e análise; e, hoje, as pessoas não têm capacidade de concentração.

Simón Vázquez

Em meio à crise, que papel desempenham as redes sociais e aquela nostalgia pela Cuba dos anos 1950?

Abel Prieto

Devido à grande ofensiva de idiotização em massa, temos uma emigração muito grande de jovens, impulsionada principalmente por motivos econômicos, mas também culturais: eles compraram o conto de fadas do reino dourado da prosperidade nos Estados Unidos. Uma das coisas que se faz nas redes sociais é idealizar a Cuba do passado, a Cuba anterior ao século XXI. Há uma infinidade de vídeos gerados por IA da Havana dos anos 1950, a Havana do glamour: um jovem, em meio a um apagão, vê de repente uma Havana glamorosa, cheia de luzes, carros, neon, o Tropicana, as estrelas de Hollywood. Por um lado, há a falta de informação — precisamos ensinar história — e, por outro, existem os novos códigos.

Simón Vázquez

E alguém está respondendo usando esses mesmos códigos?

Abel Prieto

Há iniciativas muito interessantes utilizando Reels, aqueles vídeos curtos de um minuto. Vi um de que gostei muito, que usa uma música do Bad Bunny chamada "Lo que le pasó a Hawaii" (O que aconteceu com o Havaí): a tese de um jovem mestiço é "não queremos que aconteça com Cuba o que aconteceu com o Havaí". Há aí um caminho muito promissor para despertar o interesse dos jovens por uma questão, abordando-a por meio da música de que eles gostam. Mas o desafio é enorme: um adolescente cubano está sob a influência do celular vinte e quatro horas por dia.

Simón Vázquez

Vamos voltar a "Palavras aos Intelectuais". Passaram-se sessenta e cinco anos desde aquele discurso fundador da política cultural, que sustentava que a Revolução Cubana não teria uma forma artística específica — como era o caso do realismo socialista — e que classificava os artistas em três categorias: artistas revolucionários, artistas contrarrevolucionários e artistas não revolucionários. Qual foi o aspecto mais importante daquele discurso?

Abel Prieto

É um assunto que me apaixona. Aquele discurso chega a dizer que só podemos rejeitar aqueles que se tornam incorrigivelmente reacionários, incorrigivelmente contrarrevolucionários. Essa palavra é poderosa: "incorrigível". A ideia de que um contrarrevolucionário pode se corrigir. E ele sempre diz "se for honesto": a ideia de honestidade, de ética — de que um contrarrevolucionário pode se retificar, pode se aproximar da revolução.

Fidel diz que a revolução deve abrir espaço para um artista não revolucionário e garantir a esse artista seu espaço de liberdade criativa. Ele respondia, na ocasião, a um escritor católico que perguntava se teria liberdade para expressar sua fé, e Fidel lhe disse que sim — que se tratava de abrir um espaço para trabalhar pela revolução, com a revolução, em liberdade. Fidel não rotula a arte; ele fala com os criadores.

A revolução deve abrir espaço para o artista não revolucionário e garantir o espaço de liberdade criativa desse artista.

“Palavras aos Intelectuais” é um apelo à mais generosa e ampla unidade, reconhecendo a diversidade e a grande obra cultural que a revolução tem pela frente. Fidel chega a dizer algo aos escritores e artistas: queremos que criem para o povo, mas sem concessões na qualidade, porque precisamos trabalhar com o povo para que ele possa entender, apreciar e absorver a sua criação, por mais complexa que pareça. É por isso que a traição a “Palavras aos Intelectuais” a partir de 1971 foi tão amarga.

Simón Vázquez

“Palavras aos Intelectuais” foi apresentada como a política cultural da revolução, e anos depois houve uma virada na direção oposta — o notório “período cinzento de cinco anos” e sua guinada censória, o conhecido caso Padilla. [O caso Padilla foi o episódio que fraturou a relação entre a Revolução Cubana e grande parte da intelectualidade de esquerda internacional.] Heberto Padilla, poeta que apoiara a revolução, mas que passou a criticá-la no final da década de 1960, viu sua coletânea de poemas Fuera del juego — premiada pela UNEAC em 1968 — publicada com um prólogo que a classificava como contrarrevolucionária. Em março de 1971, ele foi preso e encarcerado por pouco mais de um mês, sendo libertado somente após ler uma humilhante autocrítica perante a UNEAC, na qual acusava a si mesmo e a outros escritores, um gesto que lembrou a muitos os julgamentos de fachada de Josef Stalin em Moscou. A reação foi imediata: figuras como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Susan Sontag e Octavio Paz assinaram cartas de protesto, e o episódio abriu um cisma na esquerda cultural e prenunciou o endurecimento do chamado Quinquenio Gris, o período cinzento de cinco anos.

Abel Prieto

O chamado caso Padilla. Nos ridicularizamos e divulgamos isso para o mundo inteiro: a autocrítica de Herberto Padilla era uma caricatura das armadilhas dos julgamentos de Moscou. Foi um erro grave, do qual a UNEAC, o Ministério do Interior e o Partido Comunista participaram.

Após o caso Padilla, grandes intelectuais europeus — até mesmo Sartre e Simone de Beauvoir — romperam com Cuba. Acho que fomos enganados. Padilla era um excelente poeta, e acho que devemos continuar publicando seus trabalhos e, ao mesmo tempo, divulgar o que realmente aconteceu.

Simón Vázquez

Houve também períodos muito severos, como as Unidades Militares de Auxílio à Produção (UMAP) — unidades militares que reuniam religiosos, pacifistas e homossexuais em campos de trabalho forçado na agricultura.

Abel Prieto

A postura que adotamos em relação aos homossexuais teve vários momentos de repressão. A infame UMAP... Por ordem de Fidel e Raúl, foi realizada uma investigação, porque [havia a crença] de que um homossexual que trabalhasse na terra "se tornaria homem", que se transformaria num valentão se lhe entregassem uma enxada e um facão. É um absurdo. Tudo isso coincidiu com essas correntes de homofobia universal, do tipo que leva à injeção de hormônios — como no caso de Alan Turing, por exemplo.

Simón Vázquez

Você gosta de brincar dizendo que é um "marxista-lennonista" — em referência a John Lennon — e reivindica o artista britânico como parte do legado da Revolução.

Abel Prieto

Sempre que publico nas redes sociais imagens de Fidel no monumento a Lennon, em Havana, chovem críticas odiosas; mas o ódio contra mim é ainda mais intenso quando tento reivindicar Lennon como parte do legado da Revolução Cubana. Lennon, um agente do imperialismo? Um revolucionário, sem dúvida! Ele apoiou todas as causas, como a oposição à Guerra do Vietnã, e nos ajudou.

O caso Padilla foi um erro grave, do qual participaram a UNEAC, o Ministério do Interior e o Partido Comunista.

É uma loucura que, por falta de jeito, não tenhamos sido coerentes na divulgação do melhor da música de Lennon e do rock autêntico; em vez disso, houve uma tendência de fugir do inglês, "a língua do inimigo". Essa foi a minha batalha na universidade: cabelos compridos, colares de sementes — foram os barbudos cubanos que trouxeram isso para o século XX; os hippies imitaram esse nosso símbolo de rebeldia, e não o contrário. Como podemos chamar de afetação estrangeira um símbolo que nós, cubanos, trouxemos para o mundo moderno?

Simón Vázquez

Em sua perspectiva, há uma ideia que se torna urgente hoje: a de que enfrentamos um confronto entre humanismo e barbárie, tentando “salvar o que pudermos” da humanidade.

Abel Prieto

Vida, pessoas, o direito de viver.

Simón Vázquez

Gostaria que você falasse sobre esse sincretismo, essa construção do socialismo no Caribe, unindo elementos que, em uma fase dogmática, poderiam ter sido vistos como totalmente divergentes.

Abel Prieto

No início da revolução, havia cursos de ateísmo científico; se você tivesse batizado seu filho, não podia se filiar ao Partido Comunista, e o mesmo acontecia se você tivesse se casado na igreja: uma fase de busca por uma espécie de pureza ideológica. Isso mudou. Um ponto de virada foi a entrevista de Frei Betto com Fidel, Fidel e a Religião, que mudou nós, cubanos, e, de forma mais ampla, mudou a maneira como o movimento revolucionário na América Latina encarava a religião.

Simón Vázquez

E hoje?

Abel Prieto

Não é possível abandonar a dimensão espiritual, a religiosidade dos seres humanos; não é possível deixar o homem — como disse Sartre — diante da morte, diante do vazio, diante do nada. Os processos revolucionários precisam levar isso em conta e integrá-lo.

A mentalidade de "fortaleza sitiada", que muitas vezes nos prejudicou, nunca nos levou a rejeitar a Santería cubana, a Regla de Palo Monte, os Babalawos, a Abakuá ou os espíritas. O espiritismo cubano é revolucionário. E o Código da Família é um modelo de vanguarda: igualdade matrimonial, direito à adoção de crianças. Os evangélicos conseguiram mobilizar um bloco de votos contrários ao código, mas uma grande batalha foi vencida.

Colaboradores

Abel Prieto é presidente da Casa de las Américas, ex-chefe do Ministério da Cultura de Cuba e ex-presidente da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba.

Simón Vázquez é editor da Verso Libros e da Manifest llibres. Foi cofundador da Tigre de Paper e da Catarsi Magazín, e editor da Bellaterra Edicions.

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