31 de agosto de 2026

A teoria do capitalismo de Nancy Fraser é politicamente vital

Nancy Fraser ampliou sua compreensão sobre como o capitalismo funciona e por que ele depende de múltiplas formas de dominação. Sua teoria nos mostra que as lutas feministas, ambientais e antirracistas estão todas necessariamente ligadas a uma política anticapitalista.

Marjan Ivković e Zona Zarić


A obra de Nancy Fraser nos mostra que o capitalismo se baseia em múltiplas formas de dominação e que a política anticapitalista deve incorporar todas as lutas contra tal dominação, incluindo os movimentos feministas e antirracistas, bem como as lutas pelo aprofundamento da democracia. (Jim West / UCG / Universal Images Group via Getty Images)

A obra de Nancy Fraser tem exercido uma influência significativa na política anticapitalista ao longo das últimas décadas. Algumas de suas reflexões — como aquelas sobre a relação entre "redistribuição" e "reconhecimento" ou sobre a "aliança perigosa" entre o feminismo liberal e o antirracismo e as agendas econômicas neoliberais — transcenderam os círculos acadêmicos de esquerda e passaram a integrar o vocabulário do ativismo político.

É precisamente esse o objetivo da tradição da teoria crítica, na qual Fraser se insere: fornecer recursos para o autocompreendimento das lutas políticas progressistas. Em um sentido mais amplo, Fraser formulou uma teorização singular do capitalismo que responde, de maneira inovadora, a algumas das questões mais prementes da estratégia política anticapitalista.

A teoria do capitalismo de Fraser evoluiu gradualmente ao longo dos anos; podemos considerar sua trajetória — pragmática, dialógica e orientada pela investigação de problemas — rumo à formulação de uma análise sistemática do capitalismo como um modelo de como um pensador engajado deve chegar a uma "grande teoria" da sociedade.

Dualismo analítico

Fraser expôs sistematicamente a sua teoria do capitalismo no seu livro de 2022, Cannibal Capitalism, mas para apreciar plenamente a profundidade da sua perspectiva, deve-se também consultar os trabalhos anteriores sobre os quais a sua teoria madura se baseia. A pedra angular da teoria social de Fraser é uma forma de “dualismo” analítico.

A pedra angular da teoria social de Nancy Fraser é uma forma de "dualismo" analítico.

Por um lado, em oposição ao reducionismo econômico característico do marxismo ortodoxo, ela enfatiza que a reprodução material e a simbólica no capitalismo são mutuamente irredutíveis. Rejeitando o esquema de base e superestrutura, ela argumenta que o capitalismo é tanto uma ordem econômica quanto cultural — um sistema de exploração econômica e de hierarquias de status, uma configuração de formas de dominação tanto materiais quanto simbólicas.

Para Fraser, a classe é uma modalidade fundamental de diferenciação social, enraizada na estrutura político-econômica da sociedade, enquanto o grupo de status é outra modalidade, enraizada na ordem cultural (simbólica). Todo ator social no capitalismo ocupa uma posição específica ao longo de ambos os eixos, de modo que sua posição geral na hierarquia social resulta da combinação dessas duas posições. Grupos sociais são frequentemente submetidos, simultaneamente, a injustiças econômicas e culturais.

Já encontramos esse argumento sobre as duas dimensões da sociedade capitalista — a sistêmica e a cultural — nos primeiros trabalhos de Fraser; por exemplo, em sua crítica a Jürgen Habermas, intitulada "O que há de crítico na Teoria Crítica? Habermas e o caso do gênero". Nesse ensaio, Fraser argumenta que o ideal capitalista do "salário familiar" foi historicamente concebido como um pagamento a um homem que sustentava sua família, e não como um pagamento a um "indivíduo sem gênero".

Segundo Fraser, essa "leitura sensível ao gênero" das relações institucionais no capitalismo — entre família, economia, esfera pública e Estado burocrático — demonstra que a dominação masculina é "intrínseca, e não acidental, ao capitalismo clássico". Uma leitura desse tipo também revela a natureza multidirecional da causalidade no capitalismo. Contrapondo-se ao determinismo econômico do marxismo ortodoxo, Fraser demonstra que normas de gênero culturalmente elaboradas condicionam a característica político-econômica fundamental do capitalismo: a divisão sexual do trabalho — ou, mais precisamente, a divisão entre trabalho remunerado e trabalho reprodutivo não remunerado.

O dualismo analítico de Fraser nos ajuda a identificar o que ela chama de "subtextos" de fenômenos sociais no capitalismo que, tradicionalmente, eram considerados puramente (ou predominantemente) "econômicos" ou "culturais". Sua crítica a Habermas transmite uma mensagem política essencial para os movimentos anticapitalistas: ordens de dominação "culturais", como o patriarcado, não são "secundárias" nem "residuais". Elas são intrínsecas ao capitalismo, e a política anticapitalista deve reconhecer as lutas contra tais injustiças como indispensáveis.

Negação

Nas obras escritas ao longo da última década e meia, Fraser aprofundou essa percepção fundamental. Partindo do feminismo marxista clássico, ela argumenta que o capitalismo é uma ordem social que institui uma divisão historicamente arbitrária entre trabalho remunerado e atividades de reprodução social não remuneradas (como a criação de filhos e o trabalho de cuidado), sendo estas últimas inerentemente marcadas pelo gênero e atribuídas às mulheres.

A economia capitalista depende da reprodução gratuita da força de trabalho. Em nível simbólico, contudo, tal dependência não pode ser reconhecida, pois isso significaria admitir que o trabalho reprodutivo é uma forma de trabalho de alto valor e deveria ser remunerado. A economia capitalista tem, portanto, uma necessidade sistêmica de negar sua dependência em relação à esfera da reprodução social.

Como se efetiva essa negação? Precisamente por meio de subtextos de gênero culturalmente elaborados — presentes em fenômenos econômicos-chave como o "salário familiar" — que reforçam e naturalizam a divisão sexual do trabalho, obscurecendo seu caráter arbitrário.

A economia capitalista depende da livre reprodução da força de trabalho.

Além de teorizar o papel do trabalho de cuidado não remunerado como condição de possibilidade para o capitalismo, Fraser recorreu à obra de Karl Polanyi para conceituar outros aspectos não econômicos da realidade social capitalista que, em conjunto, formam a estrutura "ampliada" do capitalismo. Esses aspectos incluem as relações humanas com a natureza, a esfera da política institucional liberal-democrática e a dominação imperial global baseada em hierarquias raciais.

Esse conceito ampliado de capitalismo oferece um antídoto poderoso contra a ideologia burguesa, que trata o capitalismo como uma ordem puramente econômica compatível com o ideal político da meritocracia liberal. Trata-se de uma ferramenta crucial para críticas ideológicas e lutas sociais emancipatórias, ao expor o papel estrutural que formas de dominação distintas da exploração clássica — como o patriarcado e o racismo — desempenham no capitalismo.

Ligações perigosas

É tendo como pano de fundo a apropriação que Fraser faz de Polanyi que devemos considerar seu conhecido argumento sobre a "ligação perigosa" entre a política emancipatória liberal e a economia neoliberal. Ela sustenta que a atual crise multidimensional do capitalismo foi desencadeada por outro grande "movimento" polanyiano em direção à mercantilização, análogo ao liberalismo econômico do século XIX.

No entanto, enquanto Polanyi conseguia identificar claramente uma lógica unificadora de um "contramovimento" protecionista em relação ao liberalismo de livre mercado — lógica que perpassava projetos políticos tão díspares quanto os EUA do New Deal, a União Soviética, a Europa fascista e a social-democracia europeia do pós-guerra —, Fraser observa que não existe hoje uma alternativa tão clara ao projeto neoliberal.

Ela explica essa ausência de um contramovimento expandindo a concepção de Polanyi — que define a dinâmica política básica do capitalismo como um "duplo movimento" de "mercantilização" e "proteção" — para incluir um terceiro polo: o da "emancipação". Ela argumenta que cada polo desse "triplo movimento" deriva sua configuração política concreta não apenas de sua própria lógica interna, mas também de suas relações com os outros dois polos, o que resulta em uma ambivalência interna de todos os três polos.

No caso do polo da emancipação, essa ambivalência significa que os movimentos emancipatórios do pós-guerra (Nova Esquerda, feminismo, ambientalismo) apresentavam divisões internas. Por um lado, havia facções que combatiam formas de dominação de base cultural (o polo da proteção), ao mesmo tempo que davam pouca atenção aos processos de mercantilização ou até mesmo os endossavam. Por outro, havia facções que combatiam simultaneamente formas opressivas tanto de proteção quanto de mercantilização, o que, na prática, significava lutar para transformar aquilo que Fraser denomina "substância ética" da proteção.

Nosso atual bloco hegemônico, que agora se desintegra, é uma amálgama de mercantilização e emancipação que Fraser denomina "neoliberalismo progressista".

Como ela observa, as correntes liberais tornaram-se hegemônicas ao longo do tempo e formaram uma aliança com os agentes neoliberais da mercantilização. No âmbito dessa aliança, argumenta Fraser, uma “crítica emancipatória” da proteção em suas formas opressivas “convergiu com a crítica neoliberal da proteção *per se*”.

É aqui que encontramos a chave para compreender a peculiaridade atual da ausência de um contramovimento. Fraser desenvolve a teoria da hegemonia de Antonio Gramsci sob uma ótica polanyiana, argumentando que um determinado bloco histórico (hegemônico) é uma configuração específica de dois polos presentes no movimento triplo.

Nosso atual bloco hegemônico, que agora se desintegra, é uma amálgama de mercantilização e emancipação que Fraser denomina “neoliberalismo progressista”. O que a política anticapitalista precisa forjar, se quiser construir um bloco contra-hegemônico, é uma combinação de proteção e emancipação.

Mudanças epistêmicas

Mas, para a teorização de Fraser sobre o capitalismo, algo ainda mais fundamental do que a obra de Polanyi é o que ela considera ser o método básico de Karl Marx: o das “mudanças epistêmicas”. O que Marx essencialmente fez foi escavar para além da economia política burguesa, a qual privilegia os mercados — a troca de mercadorias de valor equivalente — como o elemento central do capitalismo.

Por trás dessa “narrativa de fachada”, Marx identificou o “segredo sujo” de como a própria produção se organiza no capitalismo: por meio da exploração, isto é, a extração de mais-valia do trabalho. Aqui encontramos a primeira “morada oculta” do capitalismo, como a chama Fraser: a relação de exploração — de natureza não equivalente — subjacente à equivalência da troca de mercado. Contudo, o método de Marx não para por aí, como ressalta Fraser.

No capítulo sobre a “acumulação primitiva”, no Volume 1 de O Capital, ele desloca a perspectiva mais uma vez, revelando uma “morada por trás da morada”. Marx identifica, na gênese histórica do capitalismo, o processo brutal de desapossamento (o que Fraser chama de “expropriação”) que separou as pessoas de seus meios de subsistência por meio de cercamentos, roubos e conquistas coloniais. O método das mudanças epistêmicas, que nos permite identificar camadas de dominação cada vez mais profundas no capitalismo, constitui, para Fraser, a própria essência da teoria crítica.

O método das mudanças epistêmicas, que nos permite identificar camadas cada vez mais profundas de dominação no capitalismo, constitui para Fraser a própria essência da teoria crítica.

As relações entre a economia capitalista e todas as suas condições de possibilidade subjacentes – natureza, política e reprodução social – seguem a lógica marxista da acumulação primitiva, que envolve tomar tudo o que se pode sem qualquer compensação, ao mesmo tempo que se nega e encobre todo o processo. Fraser resume essa lógica com o termo “freeriding”.

Para se reproduzir e prosperar, a economia capitalista deve aproveitar-se do trabalho reprodutivo não remunerado das mulheres, da natureza como uma “tomada” gratuita de recursos e do poder político (ou público, como Fraser prefere) como garante do quadro legal de coerção económica. Para permitir tal freeriding, a sociedade capitalista institucionaliza as fronteiras historicamente únicas que definem a sua estrutura básica.

A primeira fronteira é aquela entre a economia como esfera de trabalho remunerado e a reprodução social como esfera de trabalho reprodutivo não remunerado. A segunda é a fronteira que separa a natureza e o mundo humano. A linha divisória entre sistema político e economia (ou, para ser mais franco, entre a coerção aberta da força armada e a coerção encoberta do mercado de trabalho) torna possível remover todas as questões “económicas” da esfera da tomada de decisão política.

Finalmente, existe a distinção entre trabalho “explorável” e “expropriável”. Para Fraser, esta fronteira segue em grande parte a “linha da cor”, que tem sido historicamente constituída em termos imperialistas como uma divisão entre trabalhadores explorados (que são considerados brancos) e sujeitos expropriáveis ​​(que não o são).

Gramáticas morais

O último limite é o mais complexo. “Quando devidamente compreendido”, argumenta Fraser no seu debate de 2018 com Rahel Jaeggi, “clarifica o lugar estrutural da opressão imperial e racial na sociedade capitalista”. Ela aplica o seu dualismo analítico a esta divisão institucionalizada do capitalismo, definindo-a como simultaneamente económica e política.

A expropriação ajuda a sustentar a economia capitalista oficial de exploração ao reduzir os custos de produção e reprodução da força de trabalho.

Sob uma perspectiva econômica, a exploração e a expropriação são dois mecanismos de acumulação de capital, sendo o primeiro estruturalmente dependente do segundo — não apenas nos primórdios do capitalismo, mas ao longo de toda a sua história até o presente. A expropriação ajuda a sustentar a economia capitalista oficial de exploração ao reduzir os custos de produção e reprodução da força de trabalho.

Por outro lado, sob uma perspectiva política, a fronteira entre exploração e expropriação é uma fronteira de status institucionalizada por meio da atuação dos Estados. Ao combinar esses dois pontos de vista, podemos concluir razoavelmente, como faz Fraser, que aquilo que chamamos de "raça" é simplesmente "a marca que distingue os sujeitos livres da exploração dos sujeitos dependentes da expropriação".

Visto que o capitalismo se estrutura em torno de fronteiras constitutivas, argumenta Fraser, ele inevitavelmente gera disputas em torno dessas fronteiras. Trata-se de conflitos históricos multifacetados sobre a localização exata da linha divisória, nos quais os atores mobilizam diversas "gramáticas morais" da sociedade capitalista contra a lógica do capital e sua própria gramática moral de eficiência e meritocracia.

Na esfera da reprodução social, as normas de reciprocidade, cuidado e solidariedade desafiam a gramática capitalista. Nas interações humanas não capitalistas com a natureza, operam normas de gestão responsável (stewardship), sustentabilidade e justiça intergeracional. Por fim, na esfera da política democrática, prevalecem as normas de democracia, cidadania igualitária e interesse público.

Muitos campos de luta

Segundo Fraser, as disputas em torno das linhas de demarcação entre economia e política, produção e reprodução, sociedade e natureza, e exploração e expropriação são tão fundamentais para o capitalismo quanto as lutas de classe no âmbito da economia capitalista.

Assim, as obras da fase madura de Fraser reiteram, de forma mais elaborada, a percepção política central de seus primeiros trabalhos: o capitalismo é uma ordem social construída sobre formas multidimensionais de dominação estrutural, e a política anticapitalista deve apoiar e incorporar todas as lutas que desafiem as diversas dimensões dessa dominação, sem estabelecer distinções ou hierarquias entre elas. Isso inclui movimentos ambientalistas, feministas e antirracistas, bem como lutas para aprofundar e radicalizar a democracia liberal.

Colaboradores

Marjan Ivković é pesquisador sênior no Instituto de Filosofia e Teoria Social da Universidade de Belgrado e autor, juntamente com Zona Zarić, de Nancy Fraser and Politics.

Zona Zarić é pesquisadora no Instituto de Filosofia e Teoria Social da Universidade de Belgrado, professora na American University of Paris e autora, juntamente com Marjan Ivković, de Nancy Fraser and Politics.

30 de agosto de 2026

A crise do petróleo que se tornou uma arma contra o Estado de bem-estar social

A guerra, o caos em torno do dólar e a disparada dos preços do petróleo alimentaram a inflação da década de 1970. Os trabalhadores e o Estado de bem-estar social arcaram com a culpa. À medida que a guerra faz os preços do petróleo dispararem novamente, essa narrativa ainda limita o que acreditamos que a sociedade pode custear.

Oskar Brandt

Jacobin

Na década de 1970, a guerra e a escassez de petróleo impulsionaram a inflação. Uma crise de escassez de recursos foi apresentada como um problema de gastos públicos excessivos. Esse mito persiste sempre que governos alegam não haver dinheiro para saúde, habitação ou previdência. (Smith Collection / Gado / Getty Images)

Em 15 de agosto de 1971, Richard Nixon apareceu na televisão estadunidense para anunciar uma drástica reestruturação da economia do pós-guerra. Ele fechou a chamada janela do ouro, pondo fim à conversibilidade dos dólares detidos por bancos centrais estrangeiros em ouro estadunidense. Outros bancos centrais não estavam mais autorizados a trocar seus dólares por ouro dos EUA. Com um breve discurso, ele derrubou a ordem monetária que sustentava a economia mundial desde a Segunda Guerra Mundial: o sistema de Bretton Woods.

Os Estados Unidos haviam colocado o dólar no centro do sistema. O país prometeu resgatar dólares por ouro a um preço fixo. Outros países atrelaram suas moedas ao dólar. Mas a Guerra do Vietnã drenou recursos, aumentou os gastos e enviou novos dólares para o mundo todo.

A decisão de abandonar a indexação do dólar ao ouro foi impulsionada, em grande parte, por essas pressões. Ao final da década, os Estados Unidos tentaram financiar tanto a guerra quanto os crescentes programas da Grande Sociedade sem arcar com todos os custos por meio de impostos. O Congresso acabou promulgando uma sobretaxa temporária no imposto de renda em 1968, mas os déficits crescentes e a política monetária expansionista já haviam contribuído para a inflação. A guerra também desviou mão de obra, aço, combustível, transporte e outros recursos reais da economia civil, contribuindo para o superaquecimento da economia e para o envio de dólares adicionais para o exterior. De 1965 até a primavera de 1968, a presença estadunidense no Vietnã cresceu de cerca de 24.000 militares para cerca de 550.000.

Os Estados Unidos também descartaram alternativas à guerra. Inicialmente, Ho Chi Minh buscou a cooperação com os Estados Unidos e inspirou-se na Declaração de Independência estadunidense. Mas Washington acabou apoiando a recolonização francesa, aproximando assim o movimento de independência vietnamita da União Soviética e da China. Os Estados Unidos, portanto, escolheram um conflito que mais tarde contribuiu para minar seu próprio sistema monetário.

À medida que os bancos estrangeiros tentavam cada vez mais obter ouro em troca de dólares, a contradição ficou evidente: os Estados Unidos haviam emitido mais dólares do que podiam resgatar ao preço oficial. Nixon, portanto, suspendeu a conversibilidade numa tentativa de evitar a austeridade interna. A decisão permitiu maior liberdade monetária, mas a consequente desvalorização do dólar corroeu o poder de compra das receitas dos produtores e aumentou a pressão por preços mais altos do petróleo.

É claro que os Estados Unidos não iniciaram a Guerra do Vietnã para romper com o padrão-ouro. A relação causal foi a seguinte: a guerra agravou os déficits, aumentou as pressões inflacionárias e tornou o sistema de Bretton Woods insustentável. Washington compreendeu essa relação, mas permitiu que a guerra continuasse. Quando o sistema entrou em colapso, aproveitou a crise para construir um regime monetário baseado no dólar mais flexível e sob seu próprio controle.

Contudo, Washington não se contentou em apenas proteger suas reservas de ouro. Em uma reunião de 1974 com Henry Kissinger, o Secretário de Estado Adjunto Thomas Enders declarou que um papel mais forte para o ouro beneficiaria a Europa, que detinha a maior parte das reservas mundiais do metal. Os Estados Unidos, por sua vez, queriam transferir o sistema para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os Direitos Especiais de Saque (DES), um ativo de reserva internacional criado pelo fundo. A discussão revela uma luta pelo poder geopolítico, e não simplesmente uma reforma monetária técnica.

Quadruplicar o preço do produto essencial para a sociedade industrial

Dois anos depois, eclodiu a Guerra do Yom Kippur entre Israel e uma coalizão de Estados árabes liderada pelo Egito e pela Síria. Os produtores árabes de petróleo reduziram a produção e impuseram um embargo aos países que apoiavam Israel. Em poucos meses, o preço do petróleo bruto disparou.

O petróleo era a força vital da sociedade industrial. Naquela época, assim como agora, ele impulsionava caminhões, fábricas, agricultura e navios; aquecia edifícios; e servia como insumo fundamental na produção de plásticos, produtos químicos e fertilizantes. Com a disparada dos preços do petróleo, o custo de quase tudo aumentou. As empresas elevaram os preços. As famílias perderam poder de compra. Os países importadores de petróleo registraram déficits comerciais crescentes.

O choque do petróleo acelerou uma inflação que já estava em curso, principalmente sob a forma de um choque de custos. Ela não ocorreu porque os professores lecionavam para um número insuficiente de crianças, os enfermeiros cuidavam de poucos pacientes ou os aposentados recebiam pensões excessivas. A guerra, a energia cara, a desvalorização das moedas e a escassez de recursos essenciais impulsionaram os preços para cima.

Durante e após a Primeira Guerra Mundial, os preços também dispararam — praticamente dobrando entre 1914 e 1920 — à medida que o esforço de guerra consumia recursos, destruía a capacidade produtiva e criava escassez para a população civil. A Segunda Guerra Mundial trouxe consigo fortes pressões inflacionárias, embora o racionamento rigoroso e o controle de preços tenham atenuado grande parte do aumento provocado pelo período de guerra. Quando esses controles foram suspensos em 1946, desencadearam uma onda inflacionária curta, porém violenta, provocando aumentos de preços próximos a 20% em 1946-1947. Contudo, isso foi visto como um fenômeno normal e administrável do pós-guerra — e não como uma falha sistêmica permanente. Os Estados Unidos, portanto, possuíam ampla experiência histórica com guerras que geram inflação.

No entanto, a direita política passou a contar uma história diferente. Alegava que o Estado de bem-estar social havia crescido demais, os trabalhadores se tornaram poderosos demais e o Estado, generoso demais. O petróleo contribuiu para a crise. A narrativa política transferiu a culpa.

Os Estados Unidos se contentavam em se apresentar como vítimas dos produtores de petróleo árabes. Mas o papel de Washington no aumento dos preços era mais complexo do que a narrativa da direita afirmava.

O Irã do Xá Mohammad Reza Pahlavi era um dos aliados mais importantes dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. O xá queria transformar o Irã em uma superpotência regional e comprar grandes quantidades de armas estadunidenses. Para isso, ele precisava de maiores receitas com petróleo. Nixon e Kissinger, portanto, tinham fortes razões para atender a pelo menos algumas de suas exigências por petróleo mais caro.

Poderosos interesses estadunidenses também lucraram com o aumento do preço. Os lucros das companhias petrolíferas dispararam, e bancos em Nova York e Londres obtiveram acesso a enormes fluxos de dinheiro provenientes do petróleo. A indústria bélica conquistou novos clientes. Embora o petróleo caro tenha prejudicado a economia em geral, ele enriqueceu interesses estratégicos e comerciais e fortaleceu as relações entre os EUA e o Irã.

Os Estados Unidos se contentavam em se apresentar como vítimas dos produtores de petróleo árabes. Mas o papel de Washington no aumento dos preços era mais complexo do que a narrativa da direita afirmava.

A Arábia Saudita tentou periodicamente estancar os aumentos de preços. O xá, por sua vez, pressionava para mantê-los altos ou para que subissem ainda mais. A resposta de Washington foi oscilante. Resistiu ao embargo e buscou preços mais baixos, mas também se mostrou avessa a confrontar o Irã. Em um artigo da época, “Nós os pressionamos”, V. H. Oppenheim afirmou que os Estados Unidos incentivaram os produtores de petróleo do Oriente Médio a aumentarem os preços em 1971.

Os Estados Unidos não criaram a crise do petróleo. A guerra, o embargo, o crescente poder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e os interesses próprios dos produtores de petróleo desempenharam papéis cruciais. Mas os líderes estadunidenses reforçaram essa tendência e aceitaram os danos, e setores estrategicamente importantes colheram os benefícios. Os líderes estadunidenses não precisavam ter planejado cada passo da crise para entender e explorar as oportunidades resultantes.

A ascensão do petrodólar

Após Nixon romper o vínculo com o ouro, os Estados Unidos precisavam reforçar sua posição como detentores da principal moeda de reserva e de comércio internacional. O petróleo ofereceu ao país uma nova âncora.

Em 1974, Washington firmou secretamente um acordo histórico com a Arábia Saudita. Os Estados Unidos concordaram em comprar petróleo saudita e fornecer ao reino ajuda militar e equipamentos. Em troca, os sauditas concordaram em reinvestir seus excedentes em dólares em títulos do governo estadunidense. Outros produtores de petróleo seguiram o exemplo, investindo também grande parte de seus lucros em bancos dos EUA, títulos do governo e na compra de armamentos. Assim, o sistema de reciclagem de petrodólares começou a tomar forma.

Como o preço do petróleo era cotado principalmente em dólares, todos os países importadores de petróleo precisavam ter acesso a dólares. Eles tinham que obtê-los por meio de exportações, utilizar suas reservas ou tomar empréstimos de bancos. Os Estados Unidos, por outro lado, emitiam a moeda na qual o preço do petróleo era cotado. Portanto, podiam pagar pelas importações e tomar empréstimos no exterior em sua própria moeda — privilégios especiais não disponíveis para outros países.

O petrodólar não substituiu o ouro como lastro formal do dólar. Mas reforçou uma forma diferente de poder estrutural. O ouro restringia os países por meio de uma âncora monetária escassa. O novo sistema do petrodólar exigia que os países que compravam petróleo obtivessem dólares, enquanto os produtores de petróleo reinvestiam grande parte de seus excedentes em bancos e títulos do governo estadunidense. O petróleo ajudou a consolidar a posição do dólar como moeda de reserva mundial.

Essa ordem pressionou os países, especialmente os mais pobres e endividados, a buscarem receitas de exportação, a contraírem empréstimos em dólares e a adaptarem suas políticas às taxas de juros estadunidenses. Também deu aos Estados Unidos um incentivo para defender a posição global do dólar com sanções, alianças e, não raramente, guerras.

Mas os Estados Unidos não precisavam de hegemonia monetária baseada no petróleo para se manterem imensamente ricos. A mão de obra, os recursos naturais, a tecnologia e a capacidade produtiva estadunidenses teriam sido suficientes para sustentar uma enorme prosperidade. Mesmo assim, optaram pela dominância em vez de um sistema internacional mais igualitário.

O álibi da estagflação

Acrise do petróleo popularizou um termo relativamente novo na época: estagflação. Os preços subiram enquanto o crescimento desacelerou e o desemprego aumentou.

Isso desafiou uma leitura simplista da curva de Phillips no pós-guerra, que os economistas usam para representar a relação entre inflação e desemprego. Muitos economistas haviam entendido essa relação como prova de que os governos poderiam aceitar alguma inflação em troca de menor desemprego. No entanto, na década de 1960, Milton Friedman e Edmund Phelps argumentaram que o Estado não poderia reduzir o desemprego abaixo de um nível supostamente “natural” sem gerar aumento da inflação.

Quando o choque do petróleo eclodiu, Friedman e seus seguidores declararam que estavam certos e que John Maynard Keynes estava errado. Mas eles mudaram o questionamento. A estagflação pode ter justificado o alerta de que o modelo de Phillips não poderia servir como um guia permanente para as opções de política econômica. Ela não demonstrou que o pleno emprego, o investimento público ou o bem-estar social se tornaram impossíveis. Um modelo simples falhou em explicar uma crise global de energia e moeda, mas o keynesianismo como um todo não foi refutado.

Os sindicatos na Grã-Bretanha, por exemplo, optaram por tentar compensar seus membros pelo choque do preço do petróleo exigindo salários mais altos. O governo respondeu com controles de preços e salários, negociações com os sindicatos e cortes nos gastos públicos. As reivindicações salariais poderiam gerar aumentos de preços em toda a economia, mas não foram a causa do choque do petróleo. Os governos optaram por não adaptar a política keynesiana de forma pragmática às circunstâncias (por exemplo, por meio de acordos salariais coordenados, controles temporários de preços ou aumento de impostos). Em vez disso, políticos de todo o espectro político priorizaram a baixa inflação em detrimento do pleno emprego e de bons salários.

Keynes nunca prometeu que o Estado poderia comprar quantidades ilimitadas de petróleo, mão de obra ou matérias-primas sem aumento de preços. Sua ideia central era que o Estado poderia mobilizar recursos ociosos quando a demanda privada falhasse. A crise do petróleo apresentou um problema diferente: atingiu o lado da oferta da economia. Exigiu regulação temporária da política energética, controle de preços, investimento, reestruturação e uma distribuição justa dos custos inevitáveis. Não exigiu austeridade permanente.

Das fábricas às finanças

A crise também demandou uma escolha sobre o que fazer com o poder produtivo da indústria do pós-guerra. Segundo o historiador empresarial Alfred Chandler, as grandes corporações tornaram-se tão eficientes na década de 1960 que a superprodução deprimiu os preços e os lucros. Essa capacidade produtiva poderia ter sido redirecionada para as necessidades sociais. O Estado poderia ter financiado a reestruturação industrial em troca de empregos seguros e objetivos sociais mais amplos, como na Suécia após 1931. Um acordo semelhante poderia até ter usado a crise energética como um marco do ano zero para iniciar uma transição verde.

Em vez disso, a redução dos lucros e a crise do petróleo fortaleceram a demanda do capital financeiro por retornos rápidos. Em vez de direcionar essa capacidade produtiva para fins socialmente úteis por meio de planejamento democrático, as empresas tentaram restaurar a lucratividade fechando fábricas, demitindo funcionários, reduzindo salários e recorrendo ao setor financeiro. A lição havia sido aprendida: a escassez de oferta podia manter os preços e os lucros elevados.

Um país pode, de fato, não ter pessoal suficiente, eletricidade, materiais e recursos naturais. Essas são limitações reais. Mas um Estado com moeda própria não precisa esperar que bilionários ou bancos criem seu dinheiro.

O antropólogo David Graeber demonstrou como a burocracia desnecessária prejudica as operações, enquanto o jornalista especializado em neurociência David Rock explicou como a pressão constante e as hierarquias comprometem o foco, o julgamento, a cooperação e a resolução de problemas. Um mercado de trabalho mais intenso pode, portanto, reduzir a eficiência real e, ao mesmo tempo, disciplinar os funcionários. O culto ao trabalho cada vez mais árduo cumpria uma função econômica, mesmo que não tenha gerado mais produtividade.

Os críticos do keynesianismo transformaram a estagflação em uma arma ideológica. A combinação de guerra, escassez de petróleo e turbulência cambial tornou-se prova de que o Estado de bem-estar social havia fracassado. Em vez de adaptar pragmaticamente as políticas keynesianas às novas circunstâncias, a baixa inflação tornou-se o objetivo primordial, tornando o pleno emprego e o aumento dos salários “impossíveis”.

Pesquisas mais recentes enfraqueceram ainda mais a alegação de que o baixo desemprego impulsiona automaticamente a inflação. As consequências da pandemia de Covid-19 reiteraram esse ponto: a inflação surgiu da interrupção das cadeias de produção e abastecimento, dos choques energéticos e da incapacidade de expandir a capacidade produtiva. Não se tratava simplesmente de pessoas terem empregos ou excesso de segurança econômica. De fato, o que foi descrito como “espirais de preços e salários” eram, com a mesma frequência, “espirais de preços e lucros”.

Duas faces da contrarrevolução

Os Estados Unidos não usaram apenas o comércio, os empréstimos e o dólar para fortalecer seu poder, mas também a Agência Central de Inteligência (CIA), a pressão econômica e o apoio a golpes militares.

O exemplo mais claro é o golpe de Estado chileno de 1973. Os chilenos elegeram o socialista Salvador Allende como presidente. Ele queria assumir o controle das minas de cobre e implementar uma política econômica independente. O presidente dos EUA, Richard Nixon, temia que uma trajetória democrática bem-sucedida rumo ao socialismo inspirasse outros países a seguirem o exemplo do Chile.

Nixon ordenou à CIA que fizesse a economia do Chile “gritar”. Os Estados Unidos suspenderam a ajuda e o crédito, financiaram partidos e meios de comunicação da oposição e usaram a CIA para desestabilizar o governo de Allende. A crise se aprofundou à medida que greves e conflitos abalaram o país.

Em 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet tomou o poder. Os militares derrubaram Allende e impuseram uma brutal ditadura de direita. Os Estados Unidos ajudaram a criar as condições para o golpe. Pinochet então abriu a economia a experiências neoliberais que favoreceram poderosos interesses privados.

O Chile não foi uma exceção. Em 1954, a CIA derrubou o governo eleito da Guatemala depois que as reformas agrárias do presidente Jacobo Árbenz ameaçaram os latifundiários e a United Fruit Company. Em meados da década de 1960, Washington apoiou a destruição do Partido Comunista e do movimento operário de esquerda pelo exército indonésio, ligada a brutais assassinatos em massa. Na década de 1980, os Estados Unidos armaram e apoiaram os Contras em sua guerra contra o governo sandinista da Nicarágua.

Os Estados Unidos se opuseram repetidamente a governos que tentaram controlar suas próprias economias e escapar de sua órbita política. A crise do petróleo pode não ter criado a máquina imperial, mas lhe deu instrumentos poderosos. À medida que os empréstimos em petrodólares e a dívida denominada em dólares se expandiam, Washington ficou livre para combinar pressão financeira, ações secretas e poder militar para derrotar projetos de desenvolvimento independentes e atrair países mais estreitamente para sua esfera de influência.

A coerção era apenas um aspecto do projeto. Os liberais de mercado não precisaram inventar sua narrativa em 1973. Eles a vinham preparando há décadas.

Friedrich Hayek, Milton Friedman e outros fundaram a Sociedade Mont Pèlerin já em 1947. Interesses empresariais financiaram grupos de reflexão, cátedras, livros e campanhas. Essas organizações treinavam políticos e forneciam à mídia mensagens simplistas: o Estado é o problema, os impostos são um obstáculo e os sindicatos elevam os preços.

A crise deu a essas redes a oportunidade que elas tinham. Apontaram para as filas nos postos de gasolina e disseram que o sistema de bem-estar social tinha ido longe demais. Apontaram para a inflação e disseram que os trabalhadores tinham recebido demais. Apontaram para os déficits e fingiram que um Estado com moeda própria funcionava como uma família endividada.

A mensagem obscureceu a diferença crucial. Uma família precisa ganhar ou pedir dinheiro emprestado antes de poder gastá-lo. Um Estado monetário soberano emite a moeda que utiliza. Um Estado pode ficar sem enfermeiros, eletricidade, aço, moradia ou medicamentos. Mas não pode ficar sem sua própria moeda no mesmo sentido.

A inflação estabelece um limite real. A natureza estabelece outro. Mas o esvaziamento do tesouro é frequentemente uma narrativa política, não um fato concreto.

Apresentando Paul Volcker

Em 1979, Paul Volcker assumiu o comando do Federal Reserve dos EUA. Ele elevou as taxas de juros para 20% para combater a inflação. Seu objetivo era derrotar a inflação sufocando a demanda.

O método gerou falências e desemprego em massa. Quando as pessoas temiam perder seus empregos, tinham menos poder para exigir salários mais altos. Quando os sindicatos perderam membros e o poder de greve, o poder passou para os empregadores. A luta contra a inflação, portanto, também se tornou política de classe.

Mas os aumentos das taxas de juros frequentemente atacam os sintomas em vez das causas originais da inflação. Quando os preços são impulsionados para cima por choques de oferta, problemas de distribuição ou guerras, taxas de juros mais altas não produzem mais petróleo, eletricidade, moradias ou alimentos. As pessoas ainda precisam comprar o que necessitam. Em vez disso, taxas altas reduzem o crédito e o investimento e aumentam o desemprego. A economia é forçada a absorver o choque por meio da perda de empregos, salários mais baixos e fechamento de empresas — tudo isso sem realmente sanar a escassez que fez os preços dispararem.

O choque Volcker também provocou a valorização do dólar, já que retornos mais altos atraíram mais capital para os Estados Unidos. Isso dizimou fábricas em todo o cinturão industrial estadunidense. O impacto foi ainda mais severo na América Latina e na África. Muitos países haviam contraído empréstimos com base nos petrodólares emitidos pelos bancos ocidentais na década de 1970. Os empréstimos eram geralmente em dólares e frequentemente tinham taxas de juros variáveis. Quando os Estados Unidos aumentaram as taxas de juros e o dólar se valorizou, o endividamento desses países explodiu.

Em 1982, o México anunciou que não conseguiria mais honrar sua dívida. O FMI e o Banco Mundial ofereceram novos empréstimos, mas exigiram cortes, privatizações, redução dos salários do setor público e abertura de mercados. A crise da dívida deu a essas instituições a alavancagem necessária para desmantelar modelos sociais inteiros e interromper a nascente industrialização que havia começado no Sul Global durante o período de desenvolvimento do pós-guerra.

Em muitos países, os programas de ajustamento do FMI e do Banco Mundial contribuíram para a pobreza, a desindustrialização e a desintegração. Na Iugoslávia, a dívida, o desemprego e os cortes no bem-estar social enfraqueceram a coesão federal. A camisa de força econômica não causou, por si só, a guerra civil e o genocídio na Iugoslávia, mas exacerbou a insegurança e os antagonismos regionais que os líderes nacionalistas transformaram em uma força política explosiva.

Todos são informados de que os recursos estão esgotados e que alguém em uma posição social inferior já se apropriou da sua parte. O conflito subjacente entre trabalho e capital desaparece de vista.

Ronald Reagan apontou o Estado como o problema. Ao mesmo tempo, aumentou os gastos militares e acumulou grandes déficits orçamentários. Os Estados Unidos utilizaram pesquisa pública, aquisições de defesa e políticas industriais para impulsionar a aviação, a computação e novas tecnologias.

Por outro lado, muitos países endividados foram instruídos a cortar gastos. Os países europeus impuseram, cada vez mais, medidas semelhantes em seus próprios territórios. Japão, Coreia do Sul e Taiwan foram autorizados — e, por vezes, incentivados — a utilizar bancos estatais, proteção tarifária e crédito direcionado, desde que seu desenvolvimento servisse à estratégia dos EUA durante a Guerra Fria. A disciplina de mercado, portanto, aplicava-se com maior rigor àqueles que não tinham poder para dizer não.

Na Suécia, a direita, particularmente através da Associação Patronal, conduziu uma longa e dispendiosa campanha para apresentar a crise internacional como um argumento contra os sindicatos, as condições de trabalho, a segurança social e o bem-estar público. O choque do petróleo não provou, de fato, que o Estado de bem-estar social — o folkhem — tivesse falhado. Mas deu aos patrões uma oportunidade de ouro para inverter o equilíbrio de poder, desviando-o dos trabalhadores e das instituições eleitas para as empresas, os proprietários de capital e os mercados privados.

As consequências das lições erradas

Trabalhadores trabalham em fábricas, armazéns, transportes, restaurantes e serviços de assistência. Professores, assistentes sociais, jornalistas, pesquisadores e comunicadores enfrentam a mesma lógica, porém de forma diferente. As organizações sofrem com a falta de pessoal e tempo. Os gestores continuam exigindo que os trabalhadores se tornem mais flexíveis, positivos e eficientes.

Muitas pessoas ainda desejam um bom sistema de saúde, aposentadorias seguras, auxílio-desemprego mais alto, aluguéis acessíveis e escolas que funcionem bem. No entanto, a maioria dos partidos tradicionais, desprovidos de ambição e imaginação política, continua a minar esses mesmos sistemas.

O professor sobrecarregado é colocado em conflito com o funcionário de licença médica. A enfermeira, contra o desempregado. O trabalhador, contra o migrante. Todos são informados de que os recursos estão esgotados e que alguém em uma posição social inferior já se apropriou da sua parte. O conflito subjacente entre trabalho e capital desaparece de vista.

Quando partidos de esquerda e de centro-direita prometem segurança, mas implementam austeridade, a democracia perde credibilidade. Os eleitores se cansam de diferentes versões das mesmas políticas e escolhem aquela que promete mudar o cenário.

Líderes autoritários criam inimigos em vez de segurança para as pessoas. Atacam migrantes, minorias, jornalistas, trabalhadores da cultura, tribunais e sindicatos. Ao mesmo tempo, protegem as maiores fortunas e corporações que lucram com a ordem desigual.

Eles prometem mudanças sistêmicas. Mas direcionam a revolta para baixo.

Meio século depois, os paralelos são difíceis de ignorar. A pandemia desestabilizou a produção e as cadeias de suprimentos; a guerra na Ucrânia aumentou os custos de energia; e agora a guerra com o Irã e os imbróglios que interrompem o tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz fizeram os preços dispararem novamente. As circunstâncias podem ser diferentes; as respostas políticas, não. A inflação resultante da guerra, da escassez e da produção interrompida é atribuída aos salários, aos gastos públicos ou ao fato de as pessoas comuns supostamente viverem na opulência. Repetidamente, os trabalhadores são informados de que devem absorver o custo de crises pelas quais não têm nenhuma responsabilidade.

O mundo da década de 1970 foi assolado por guerras, caos monetário e um aumento drástico no preço de sua fonte de energia mais importante. Os Estados Unidos contribuíram para a convulsão, lucraram com o petrodólar e usaram sua recém-conquistada liberdade monetária para financiar guerras e sustentar a hegemonia global. No entanto, as pessoas comuns foram levadas a acreditar que sua própria prosperidade e segurança haviam causado o desastre.

Esse mito persiste sempre que um governo afirma ter ficado sem dinheiro para saúde, educação, moradia, aposentadorias ou mudanças climáticas. Um país pode, de fato, não ter pessoal suficiente, eletricidade, materiais e recursos naturais. Essas são limitações reais. Mas um Estado com moeda própria não precisa esperar que bilionários ou bancos criem seu dinheiro.

Além disso, a medida prescrita — suprimir a demanda privada e restringir os orçamentos públicos — pode, por si só, prejudicar a produção. Os liberais de mercado podem então citar as dificuldades resultantes para justificar ainda mais austeridade. Em tempos de crise, políticas que transferem riqueza e poder para as camadas mais altas da sociedade podem ser apresentadas como inevitáveis ​​e necessárias.

O Estado deve governar de acordo com a capacidade produtiva real da economia. Deve conter a demanda quando os recursos forem insuficientes, preferencialmente atribuindo uma parcela maior do ônus aos mais ricos. Mas quando houver desemprego, fábricas ficarem ociosas e as necessidades sociais aumentarem, o Estado pode utilizar sua capacidade monetária para colocar os recursos ociosos em atividade.

A crise do petróleo não foi apenas um choque econômico. A direita a transformou em uma narrativa de que a democracia não conseguia mais controlar a economia. Dessa narrativa surgiram cinquenta anos de cortes, desregulamentação, privatização, estresse e desigualdade.

A maior vitória da direita não foi ter resolvido a crise do petróleo. Foi fazer o mundo se lembrar da crise da maneira errada.

Colaborador

Oskar Brandt é um jornalista e historiador sueco que escreve sobre história política e econômica, trabalho, segurança social e desenvolvimento pessoal. Ele é o autor de Överlevnad — för samhället och människorna (Sobrevivência — para a sociedade e seu povo).

26 de agosto de 2026

Dolly Parton usou sua voz para contar histórias da classe trabalhadora

Durante décadas, Dolly Parton — que faleceu ontem, aos 80 anos — escreveu sobre a pobreza, o trabalho árduo e o orgulho desafiador das mulheres da classe trabalhadora. A esquerda deveria seguir o exemplo dela.

Jarek Paul Ervin

Jacobin

Há uma razão pela qual os hinos de Dolly Parton resistiram a todas as tentativas de cooptação: eles são retratos poderosos da dor e do espírito de resistência da classe trabalhadora. (Andrew Putler / Redferns via Getty Images)

A lendária cantora, compositora e ícone cultural Dolly Parton morreu em 25 de agosto aos oitenta anos. Sua morte imediatamente inspirou uma enxurrada de elogios de estrelas e figuras públicas, bem como uma enxurrada de conversas nas redes sociais.

Poucas figuras públicas neste momento atrairiam tais elogios universais. O Empire State Building foi iluminado em rosa em sua homenagem, e o presidente Donald Trump ordenou que as bandeiras americanas fossem baixadas para meio mastro por uma semana.

Na verdade, o apelo de Parton transcende as divisões políticas numa época em que muitas divisões culturais parecem irreparáveis; O presidente republicano da Câmara, Mike Johnson, e seu oponente político, o democrata Chuck Schumer, são apenas dois dos muitos políticos que expressaram afeto pela falecida estrela.

Parton perdura acima de tudo por seus triunfos como musicista: ela vendeu cem milhões de discos, conseguiu quarenta e quatro álbuns no top ten da música country e passou para o Hot 100. Das mais de três mil canções que ela escreveu, várias estão entre as mais amadas da música pop, incluindo “Jolene”, “9 to 5” e “I Will Always Love You” - esta última tornada instantaneamente reconhecível pela capa imortal de Whitney Houston.

Mas Parton superou suas origens humildes como compositora de Nashville, tornando-se um ícone de piadas grandioso na cultura pop em grande escala. Uma pesquisa de março de 2026 descobriu que 70% dos americanos entrevistados tinham sentimentos positivos em relação a ela, e muitos comentaristas online a usaram como parâmetro de simpatia.

Durante sua carreira, Parton foi aclamada por sua filantropia e apoio a grupos sociais marginalizados – especialmente a comunidade LGBTQ, que sempre teve uma queda por ela.

Ainda assim, ela se recusou explicitamente a tomar partido na política atual, afirmando: “Não me meto com política. Sou uma artista”. Mais tarde, Parton também protagonizou uma série de deslizes, incluindo um dueto com Kid Rock e a regravação de “9 to 5” como um jingle de gosto duvidoso e tom pró-empresarial para a Squarespace.

Isso não importa. Independentemente de seus pontos de vista, Parton foi uma das vozes mais consistentes da classe trabalhadora. Ela usou suas canções para contar histórias de trabalho duro, pobreza e desafio, transformando a vida de pessoas comuns em tema de baladas heróicas.

Zohran Mamdani expressou melhor quando caracterizou Parton como uma “campeã insubstituível da classe trabalhadora”.

Hoje lamentamos essa grande campeã da classe trabalhadora.

Uma voz da classe trabalhadora

Ao longo de sua carreira, Parton desafiou convenções sociais e derrubou estereótipos usados ​​para menosprezar as preocupações das mulheres do meio rural.

Ela ficou famosa por frases autodepreciativas como "custa muito dinheiro parecer tão barata", abraçando uma estética frequentemente rejeitada devido às suas origens de classe. A cantora costumava dizer com orgulho que baseou seu visual na "mulher de vida fácil" de sua comunidade rural, afirmando: "Ela era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Quando todos diziam 'Ah, ela não passa de lixo', eu respondia: 'Pois é lixo que eu quero ser quando crescer'".

Essa sensibilidade permeava a música de Parton, que trazia mulheres de classe trabalhadora — como mulheres estigmatizadas, viúvas, crianças famintas e divorciadas — como narradoras. Suas canções contavam histórias de famílias pobres que, apesar de tudo, mantinham a cabeça erguida e seguiam em frente, mesmo quando as probabilidades estavam contra elas. Ela também não temia abordar temas difíceis, como a sexualidade feminina e a infidelidade conjugal.

Esses tópicos foram centrais em sua obra durante as décadas de 1960 e 1970. Por exemplo, a faixa-título do álbum de 1969, In the Good Old Days (When Times Were Bad), retratava a dor de trabalhadores rurais que labutavam do amanhecer ao anoitecer, apenas para ver suas plantações destruídas pelo granizo. A música falava de famílias pobres demais para ir ao médico, enquanto viam sua casa se deteriorar.

O disco também trazia regravações de "D-I-V-O-R-C-E", de Tammy Wynette — que abordava com franqueza a dor da separação conjugal — e do grande sucesso de Jeannie C. Riley, "Harper Valley PTA", que contava a história de uma viúva que desmascarava os críticos hipócritas que a rotulavam como uma mãe inadequada.

Essas faixas associavam Parton diretamente a uma era de cantoras poderosas que abordavam questões polêmicas. Além de Wynette e Riley, aquela época testemunhou alguns dos melhores momentos de cantoras como Bobbie Gentry — que abordou com ousadia temas como a sexualidade feminina, o suicídio e a prostituição — e Loretta Lynn, que falou abertamente e sem rodeios sobre a desigualdade de gênero em faixas como "Don’t Come Home A-Drinkin’ (With Lovin’ on Your Mind)" (1966) e "The Pill" (1975); esta última tratava explicitamente de controle de natalidade.

Essa era também contou com a presença de homens como Johnny Cash, John Prine e Kris Kristofferson, cantores que retrataram tanto os aspectos belos quanto os sombrios da realidade — coisas frequentemente ignoradas ou mantidas longe dos holofotes. Parton foi apenas uma das muitas artistas que encararam a música country como um espaço para revelar verdades duras sobre uma sociedade que, muitas vezes, era retratada de forma idealizada por seus defensores.

Ela figura entre os maiores nomes do gênero graças à força e à paixão com que abordava os temas de suas canções.

Na década de 1970, Parton continuou a ampliar sua temática e a consolidar sua reputação. Mesmo ao ingressar na televisão como coapresentadora ao lado de Porter Wagoner — famoso por seus trajes repletos de brilho e pedrarias —, ela seguiu lançando álbuns que mergulhavam nos lados mais sombrios e difíceis da vida.

Sua canção "Coat of Many Colors" (1971), por exemplo, transforma a pobreza da infância em um ato de resistência silenciosa. A música conta a história de uma criança que vai à escola vestindo roupas feitas de retalhos e sapatos gastos, ignorando os provocadores porque sabe que sua família é rica em espírito.

My Tennessee Mountain Home (1973), um álbum conceitual sobre sua infância no leste do Tennessee, traz a faixa "Daddy’s Working Boots" — uma das maiores homenagens ao trabalho árduo e aos sacrifícios da classe trabalhadora.

Há também "Jolene", do álbum homônimo de 1974. É uma história poderosa sobre uma mulher que teme ser abandonada em favor de outra.

Trabalhando das 9 às 5

A representação de classe mais reconhecível e poderosa de Parton é “9 às 5”, a história de uma mulher que está “presa no jogo de um homem rico”. A música foi escrita para o filme de mesmo nome de 1980, que viu Parton estrelar ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin como três mulheres exaustas que viram o jogo contra seu chefe sexista e explorador.

Parton escreveu a faixa enquanto trabalhava no filme. Ela se inspirou no estalar das unhas, imitando o estalo da máquina de escrever de uma secretária. (Parton é creditado na faixa por performances tanto nos vocais principais quanto em “nails”.) A música alcançou o primeiro lugar em três paradas diferentes da Billboard - Hot 100, Adult Contemporary e Hot Country Songs.

Esta faixa às vezes foi criticada como uma narrativa de resiliência, um hino para engolir tudo e fazer acontecer. Esse tema é central para o comercial de Parton no Super Bowl de 2021 para o Squarespace, apresentando uma versão reformulada da música onde ela diz ao ouvinte para começar um negócio e “ser seu próprio patrão”.

Isso é lamentável, dada a faixa original e o tema do filme.

Abrindo com o ritmo de uma máquina de escrever, as letras de Parton narram as experiências de uma mulher sobrecarregada e mal paga. Ela canta sobre dar ao seu chefe “todo o seu tempo” enquanto ele recebe “todo o crédito”, criticando um sistema de “tudo recebe e não dá”, onde os trabalhadores “mal conseguem sobreviver”. Embora a alegria da faixa a tenha deixado aberta à cooptação do bem-estar, o original está repleto de raiva pelas desigualdades que descreve.

Isso é ainda mais enfatizado pelo filme. Fartas dos maus tratos, as três mulheres pensam em assassinar o seu chefe e decidem raptá-lo. Enquanto ele está escondido, eles assumem o controle do negócio, conquistando seus colegas de trabalho ao instituir reformas como salários justos, melhores horários e creches no local.

O comercial do Squarespace se tornou ridículo - o New Statesman chamou a música de “vendido para a cultura tóxica de 'agitação paralela'”, enquanto David Sirota a descreveu como “o anúncio mais distópico que já vi”.

Mas a música original é o que as pessoas lembram, um testemunho poderoso da mensagem da classe trabalhadora de Parton no ponto alto de sua carreira.

Emprestado a sua voz

No fim das contas, Parton não era a heroína perfeita da esquerda. Suas opiniões eram complexas, muitas vezes enraizadas tanto em imagens idealizadas de resiliência e empreendedorismo quanto em representações de um sistema que jamais proporcionaria sucesso a todos.

Nesse sentido, ela personifica uma tensão que está no cerne da própria música country — um gênero que frequentemente retratou a vida da classe trabalhadora melhor do que muitos outros, mas que, com a mesma frequência, transforma essa dor em tradicionalismo de manutenção do status quo, em vez de confrontar suas causas.

Mas a música nem sempre precisa servir também como sermão político. A arte não existe apenas para introduzir furtivamente ortodoxias, como se fosse o livro didático de um professor marxista.

Parton abordou temas que as pessoas ansiavam por ouvir: pobreza, injustiça, exploração trabalhista e o orgulho da classe trabalhadora. Ela o fez de uma maneira que era, ao mesmo tempo, divertida e comovente, criando músicas que perduram muito além de seu momento original.

Esses temas ainda são raros demais nas paradas de sucesso do country e do pop hoje em dia — para não mencionar a própria concepção que a esquerda tem de quem é o seu público.

Parton deu voz àqueles que são esquecidos com demasiada frequência, tanto na cultura quanto na política. Não faria mal à esquerda seguir o exemplo dela.

Colaborador

Jarek Paul Ervin é escritor e editor radicado na Filadélfia. Seus trabalhos foram publicados em veículos como The Baffler, Damage, Critique e Popular Music & Society.

25 de agosto de 2026

Depois de Petro

O novo presidente da Colômbia.

Nick MacWilliam

Sidecar


Em 10 de agosto, às 7h34, um terremoto atingiu o oeste da Colômbia, matando mais de 300 pessoas e deixando muitas outras desabrigadas. Cali, a terceira maior cidade do país, foi duramente atingida; três dias antes, o presidente Abelardo de la Espriella havia realizado ali sua cerimônia de posse — uma violação controversa da regra constitucional que determina que os presidentes assumam o cargo no Congresso Nacional, em Bogotá. Enquanto as pessoas buscavam desesperadamente por sobreviventes entre os escombros, o Ministério das Relações Exteriores anunciou o reconhecimento oficial, pelo novo governo, da soberania israelense sobre as Colinas de Golã ocupadas, bem como da reivindicação do Marrocos sobre o Saara Ocidental, revertendo as políticas da administração anterior, de Gustavo Petro. O momento escolhido para o anúncio não ajudou a dissipar a percepção de que o governo de de la Espriella priorizará os interesses dos EUA e de Israel em detrimento dos da população. Durante uma coletiva de imprensa de emergência naquela tarde, de la Espriella foi filmado rindo e mandando beijos. "Estamos diante de uma tragédia nacional", lembrou-lhe seu vice-presidente.

Além de mudar o local de sua posse, de la Espriella também pretende que a cidade de Barranquilla, no norte do país — onde possui laços familiares —, funcione como uma das principais sedes do governo. Ambas as iniciativas visam apresentar sua eleição como uma ruptura com o poder estabelecido — representado, segundo ele, tanto pela direita tradicional quanto por uma esquerda historicamente vitimada pela violência que, contra todas as expectativas, chegou ao governo em 2022. Assim como ocorreu em outros lugares, a postura populista de de la Espriella mostrou-se eficaz. No segundo turno, realizado em junho, ele derrotou por uma margem estreita o sucessor pretendido por Petro, Iván Cepeda — senador de esquerda e ativista de direitos humanos, filho do senador comunista Manuel Cepeda, assassinado por paramilitares em 1994.

A vitória de de la Espriella mantém a tendência recente de eleição de governos de extrema-direita na América Latina; governos que, embora representem os mesmos interesses de classe, em grande parte não estão vinculados ao conservadorismo tradicional. A maioria dos analistas esperava que o partido Centro Democrático — construído em torno do culto à personalidade do ex-presidente Álvaro Uribe (2002–2010) — fosse o principal opositor de extrema-direita ao Pacto Histórico de Petro e Cepeda; de fato, alguns setores da esquerda chegaram a demonstrar otimismo, acreditando que de la Espriella poderia dividir o voto da direita e garantir a vitória de Cepeda ainda no primeiro turno. No entanto, enquanto a candidata do Centro Democrático, Paloma Valencia, tentava suavizar a imagem de linha-dura do "uribismo" para atrair eleitores de centro, de la Espriella a superou pela direita, conquistando o apoio em massa dos eleitores conservadores. O resultado surpreendente do primeiro turno, no qual de la Espriella obteve 43,7% dos votos em uma disputa com 13 candidatos, foi um duro golpe tanto para a esquerda quanto para a direita tradicional.

Assim como ocorreu com Noboa no Equador ou Kast no Chile, de la Espriella capitalizou o receio público quanto à percepção de deterioração da segurança, escolhendo estrategicamente para o partido que fundou em 2024 o nome "Defensores da Pátria". No campo econômico, sua campanha argumentava que as políticas do Pacto Histórico contrárias ao capital baseado em combustíveis fósseis estavam prejudicando as famílias de baixa renda. A promessa de se opor ao aborto e à parentalidade homoafetiva atraiu o eleitorado religioso conservador, um grupo de expressão significativa. Do ponto de vista estratégico, considerando o sistema de representação proporcional da Colômbia, a campanha de De la Espriella concentrou-se em áreas urbanas densamente povoadas. A participação eleitoral foi excepcionalmente alta, atingindo 64%, e seus 12,9 milhões de votos superaram a marca de qualquer candidato presidencial anterior. Embora Cepeda tenha vencido em 18 dos 32 departamentos colombianos, bem como em Bogotá e Cali, sua campanha enfrentou dificuldades em redutos conservadores tradicionais, especialmente no norte do país. Como demonstrou a eleição de Petro em 2022, uma plataforma baseada na construção da paz, na proteção ambiental e na defesa de direitos sociais conquista forte apoio em regiões política e economicamente marginalizadas, como Cauca e Nariño, mas tem menos força em grandes centros urbanos, onde os eleitores são menos afetados pelo conflito e pela negligência estatal.

Como ocorre com muitos que se autodenominam "outsiders", a ascensão de de la Espriella foi viabilizada pela proximidade com o poder. Ele nasceu em uma família abastada de Córdoba, um reduto conservador. Seu pai era juiz; sua mãe, herdeira de uma fazenda de gado. O casal desempenhava um papel de destaque na política regional — seu pai viria a ser coordenador regional da bem-sucedida campanha presidencial de Uribe em 2002, o que ampliou o contato do jovem Abelardo com figuras influentes, tanto dentro quanto fora da legalidade. Ele passou a casa dos vinte anos convidando comandantes das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) — o maior grupo paramilitar do país — para palestrar em fóruns universitários, ao mesmo tempo em que fazia campanha contra a extradição deles; essa tática era favorecida por certos círculos poderosos para impedir que ex-aliados testemunhassem sobre a conivência da elite em atrocidades. Uma investigação ordenada pela Suprema Corte em 2007 sobre a Fundação Iniciativas para a Paz (FIPAZ), de Abelardo, devido às suas ligações com paramilitares, foi barrada pelo Procurador-Geral, um amigo pessoal.

Após mudar-se para Miami e habilitar-se como advogado, de la Espriella defendeu narcotraficantes e obteve a cidadania americana. Ele cultivou um estilo chamativo, adequado ao meio conservador latino de Miami: dentes reluzentes, barba impecável e ternos ajustados ao corpo. De volta à Colômbia, contou histórias em programas de entrevistas sobre como matava gatos com fogos de artifício — algo que ele alegou ser apenas uma brincadeira quando as imagens ressurgiram durante a campanha. As ofensas misóginas e homofóbicas, os tons autoritários e a promessa de "aniquilar a esquerda" jamais foram retratados.

Depois de liderar as pesquisas na fase de pré-campanha, Cepeda obteve a marca inédita de 12,7 milhões de votos — 1,5 milhão a mais do que o total que garantiu a vitória de Petro em 2022 —, com uma margem de derrota inferior a 1%. No entanto, sua campanha cometeu vários erros evitáveis: demorou a diversificar a atuação nas redes sociais e concentrou-se excessivamente nos já convertidos; além disso, a postura ponderada de Cepeda acabou ofuscada pela combatividade inflamada — que garantia alta audiência — tanto de Petro quanto de de la Espriella. Seu desempenho expressivo pode justificar uma nova tentativa em 2030. Mas, por enquanto, Cepeda — um homem compassivo e digno — terá de continuar a luta a partir da oposição.

Os índices de aprovação de Petro são altos para um presidente em fim de mandato, refletindo as conquistas notáveis ​​de seu governo. Os sindicatos saudaram um projeto de lei de reforma trabalhista que formalizou trabalhadores da gig economy e do setor de cuidados, aumentou a remuneração por horas extras, fortaleceu contratos, estabeleceu salários obrigatórios para aprendizes, restringiu a terceirização e impôs uma jornada semanal de 42 horas. Mais de meio milhão de hectares de terras produtivas foram redistribuídos para famílias rurais, em comparação com apenas 13.000 na gestão anterior. Uma demanda histórica foi atendida com o reconhecimento da população camponesa como "sujeito de direitos", garantindo acesso à terra, produção de alimentos e investimentos estatais nas comunidades. O governo proibiu o fracking e a concessão de licenças para exploração de combustíveis fósseis. Internacionalmente, Petro promoveu a integração e a autonomia regionais, restabeleceu relações diplomáticas com a Venezuela e Cuba e desenvolveu o comércio Sul-Sul, com as exportações para a África dobrando de volume. Sua postura em relação a Gaza tornou-o uma figura de destaque global no movimento pró-Palestina. Embora os avanços legislativos estejam sob ameaça — de la Espriella derrubou a proibição do fracking e planeja expandir a extração de petróleo e gás, enquanto os sindicatos se preparam para um ataque às conquistas duramente obtidas —, a força do Pacto Histórico no Congresso deve impedir uma reversão total.

No entanto, apesar dessa resistência, a esquerda acabou não conseguindo garantir a continuidade do governo. Petro assumiu o cargo com um mandato para mudanças estruturais e redistribuição de renda, mas foi frustrado por um sistema político intransigente. A falta de maioria no Congresso forçou uma aproximação inicial com liberais e conservadores que ruiu como um castelo de cartas, uma vez que os partidos tradicionais resistiram às tentativas de reformular o sistema de livre mercado arraigado e de ampliar o acesso público a serviços essenciais. Para o primeiro governo de esquerda do país, foi uma lição marcante sobre onde reside a lealdade do centro político. O discurso de Petro tornou-se mais à esquerda na tentativa de mobilizar a base do Pacto Histórico, mas esbarrou em um Congresso obstrucionista, forçando concessões a opositores que diluíram ou bloquearam reformas progressistas. Dada a história de conflitos de classe do país, muitos setores poderosos nunca aceitaram um ex-guerrilheiro como presidente — mesmo um oriundo do movimento M-19, de orientação mais moderada, que havia adotado a social-democracia.

As reformas sociais do Pacto Histórico buscavam corrigir as profundas desigualdades do país — 10% da população colombiana detém cerca de 70% da riqueza nacional —, propondo ampliar o acesso da classe trabalhadora e das populações de baixa renda à educação, saúde, previdência e direitos trabalhistas. Ao final do mandato de Petro, apenas versões desidratadas dessas duas últimas medidas haviam sido aprovadas. Sob pressão da direita, o projeto de reforma trabalhista, embora contivesse proteções importantes aos direitos individuais, teve suprimidas as garantias relativas à negociação coletiva e ao direito de greve — pilares fundamentais do poder dos trabalhadores. Quando não conseguia barrar a legislação no Congresso, o bloco de direita liderado pelo Centro Democrático recorria aos tribunais: a reforma da previdência, que prevê renda estatal para até três milhões de aposentados anteriormente desassistidos, e o aumento de 23% no salário mínimo ocorrido em janeiro passado estão travados em meio a contestações judiciais (de la Espriella alegou apoiar o aumento, que conta com amplo apoio popular, mas poucos acreditam que ele o implementará). Eleito em meio a uma enorme expectativa pública — que Petro jamais poderia realisticamente satisfazer no único mandato de quatro anos permitido pela Constituição —, o Pacto Histórico não conseguiu proporcionar os benefícios materiais que muitos esperavam. Paralelamente, foi resgatada a velha acusação de irresponsabilidade fiscal da esquerda, atribuindo o alto endividamento a supostos gastos excessivos de Petro, mas omitindo o déficit que ele herdara.

Os legados do conflito também lançam uma sombra. Com duração de mais de meio século e envolvendo o Estado, grupos guerrilheiros marxistas e paramilitares de direita, o conflito deixou mais de 400 mil mortos e deslocou milhões de pessoas à força até à sua resolução parcial através do acordo de paz de 2016 entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC. O governo do Centro Democrático de Iván Duque (2018-22), que se opôs veementemente ao processo de paz das FARC, negligenciou a implementação do acordo, levando a vazios de poder em grandes territórios anteriormente sob controlo das FARC. Os grupos armados competiram para preencher o vazio, colocando-os em colisão uns com os outros e com comunidades que se opunham à sua presença. Os ataques judiciais a antigos guerrilheiros, em violação do acordo de paz, e o agravamento da violência fizeram com que uma minoria abandonasse o processo de reintegração e regressasse às armas.

Após o progresso inicial, a política de “Paz Total” de Petro de negociação com grupos armados vacilou à medida que os cessar-fogo expiraram e a violência aumentou, enraizada na luta para controlar economias e territórios ilícitos. Mercenários colombianos regressaram da Ucrânia e do Sudão treinados em novas técnicas, como a guerra com drones. Os combates entre grupos têm sido particularmente prejudiciais, tendo os confrontos em Catatumbo, em Janeiro de 2025, causado a maior crise humanitária da Colômbia em duas décadas. O governo suspendeu as negociações com os guerrilheiros do ELN em resposta. Ativistas e ex-guerrilheiros são assassinados com uma frequência chocante. As atrocidades são mais uma vez comuns. Em Abril deste ano, um bombardeamento matou 21 civis num autocarro em Cauca. A retórica da direita acusa a esquerda de ceder e insiste na necessidade de uma abordagem mano dura (punho de ferro). De la Espriella herda nove processos de diálogo separados – alguns em curso, outros congelados, outros mal iniciados – e encerrará todos eles. Ele está a encerrar o Gabinete do Alto Comissariado para a Paz, que coordena a consolidação da paz, e a Unidade de Protecção Nacional, que fornece guarda-costas às pessoas consideradas em risco. Ele atacará o acordo de 2016, particularmente o seu capítulo sobre justiça transicional – odiado pela direita colombiana – que sanciona abusos do exército, bem como os das FARC.

Petro está inflexível de que o resultado das eleições foi ilegítimo, alegando interferência da empresa israelita de software BlackCore, ecoando acusações feitas na Escócia, França, Angola e outros lugares. Cepeda argumenta que a dupla cidadania de de la Espriella o exclui do executivo. O novo presidente não terá vida fácil no Congresso: já conseguiu o aparentemente impossível ao unir o Centro Democrático e o Pacto Histórico para bloquear a sua escolha para presidente do Senado. Desejando preservar a sua influência política contra um desafiante iniciante, o Centro Democrático posicionou com sucesso o seu próprio candidato no papel, e o Pacto Histórico apoiou o mal menor. O Pacto forma o maior bloco parlamentar, enquanto a recusa de alianças por parte dos Defensores da Pátria durante a campanha – parte da rotina dos “estranhos” – pode custar caro ao governo. Como Petro descobriu, alcançar o consenso legislativo é uma tarefa ingrata. O partido do antigo presidente procurará utilizar o mesmo mecanismo que frustrou grande parte da sua própria visão para o país.

Os EUA apoiaram publicamente a candidatura de de la Espriella, tendo-se intrometido nas recentes eleições na Argentina e nas Honduras. Ele inspira-se noutros radicais regionais, quer na prisão de quase dois por cento da população salvadorenha por Bukele, quer no bombardeamento de pequenos barcos por Trump e na execução sumária de sobreviventes. Colocando em primeiro plano a segurança e uma imagem hiper-masculina – que se autodenomina “El Tigre” – de la Espriella comprometeu-se a intensificar o confronto militar com grupos armados, a construir megaprisões, a exterminar os traficantes de droga e a restaurar as relações diplomáticas com Israel que tinham sido cortadas por Petro por causa do genocídio de Gaza. Um dia antes de assumir o cargo, ele organizou uma reunião de três horas com o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, que saudou a planejada transferência da embaixada da Colômbia de Tel Aviv para Jerusalém. O Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, aproveitou o ataque à Mesquita de Al-Aqsa para felicitar o novo governo da Colômbia. Tal como acontece com outros líderes da extrema direita da América Latina, o apoio incondicional a Israel tem sido fundamental para garantir o apoio dos EUA.

A Colômbia aderiu agora à aliança "Escudo das Américas" de Trump – tendo como recompensa um pacote de segurança bilionário anunciado horas após a posse de de la Espriella. Criada em março de 2026, a aliança visa "deter a interferência estrangeira em nosso hemisfério, as gangues e cartéis criminosos e narcoterroristas, e a imigração ilegal e em massa". Essencialmente, ela concede aos EUA carta branca, militar e de outras naturezas, uma vez que a guinada conservadora na América Latina atraiu a maioria dos governos regionais para a iniciativa. Guatemala, Equador e Venezuela consentiram com ataques dos EUA em seus territórios. Em 12 de agosto, Pete Hegseth confirmou a realização de operações militares conjuntas entre EUA e Colômbia em território colombiano. Em julho, seu subordinado Joseph M. Humire mencionou o "Plano Patriota 2.0", sucessor do Plano Patriota (apoiado pelos EUA) — parte do acordo mais amplo do Plano Colômbia, que permitiu graves violações dos direitos humanos pelo exército sob o governo Uribe.

Com os EUA classificando opositores como "terroristas" (ativistas do Antifa) ou rotulando governos como "patrocinadores estatais do terrorismo" (governo cubano), além de atacarem com impunidade embarcações de pesca que supostamente abrigariam "narcoterroristas", um cenário alarmante parece estar se desenrolando nas Américas. Ações militares em terra inevitavelmente afetarão a população civil. Muitos agora se perguntam: o que impedirá o governo militarista e de extrema-direita da Colômbia de atacar opositores e ativistas — grupos que sofreram milhares de assassinatos entre as décadas de 1980 e 2000? Seria essa a forma como de la Espriella planeja "aniquilar a esquerda"? Em toda a América Latina, houve pouca justiça para as vítimas da violência histórica orquestrada em Washington. Agora, sob o "Escudo das Américas", a sombra da Operação Condor — o programa da década de 1970, apoiado pelos EUA, que coordenava ditaduras militares regionais para sequestrar e assassinar dissidentes — começa a ressurgir na história.

O epicentro do terremoto foi em San José del Palmar, no departamento de Chocó, uma das regiões mais afetadas pelo histórico abandono estatal e pelos conflitos. Hoje, mais de 60% da população de Chocó vive abaixo da linha da pobreza, e 30% não têm acesso a água potável. A mortalidade materna é três vezes superior à média nacional, e a expectativa de vida é mais de uma década menor. Por muito tempo, os governos centrais negaram à região uma rede viária ou serviços básicos, isolando a população majoritariamente afrodescendente do restante do país. Grupos armados preencheram esse vácuo. Assim como outras zonas de conflito, o Chocó votou de forma esmagadora — 81% — em Cepeda, cuja abordagem construtiva em relação à paz e ao subdesenvolvimento era a única proposta capaz de trazer a transformação social urgentemente necessária às periferias abandonadas da Colômbia. Vinte e quatro horas após o terremoto, o Ministro do Interior, Rodrigo Lara, declarou a um telejornal que nada sabia sobre a situação no Chocó, enquanto de la Espriella rejeitava equipes de resgate do México, da China e da Espanha por motivos políticos. Nos primórdios do "Espriellismo", o desastre pode vir a simbolizar as esperanças que muitos colombianos depositavam em um futuro construído sobre a inclusão, a soberania e a paz — esperanças que agora se reduziram a pó.

A guerra envolvendo o Irã mostra que a estratégia energética da China está funcionando

Esperava-se que a guerra com o Irã expusesse a vulnerabilidade da China em relação ao petróleo, mas as coisas não aconteceram exatamente assim.

Michal Meidan
Michal Meidan é o chefe de pesquisas sobre energia na China no Oxford Institute for Energy Studies.

Arne Bellstorf

Quando a guerra do Irã começou, no final de fevereiro, a China parecia vulnerável.

A China, maior importadora de petróleo bruto do mundo, dependeu nos últimos anos de importações para suprir mais de 70% de seu consumo, sendo que cerca de metade desse volume provinha do Oriente Médio. A ameaça de bloqueio ao Estreito de Ormuz — ocorrida meses depois de os Estados Unidos terem interrompido o fluxo global de petróleo proveniente da Venezuela — parecia colocar os líderes chineses diante de um de seus maiores temores estratégicos: um choque petrolífero paralisante que eles não teriam como controlar.

No entanto, a ofensiva do presidente Trump contra o Irã acabou sendo uma revelação positiva para a China. O país absorveu uma das mais severas interrupções no fornecimento de petróleo da era moderna, demonstrando que anos de preparação haviam mitigado uma enorme vulnerabilidade — e uma potencial fonte de influência dos EUA sobre Pequim em um eventual confronto geopolítico.

A China foi autossuficiente em petróleo até 1993, quando as necessidades crescentes de sua economia em franca expansão a transformaram em importadora líquida. As importações de petróleo dispararam nos anos seguintes, levando o presidente Hu Jintao a alertar, em 2003, que potências hostis poderiam tentar controlar o Estreito de Malaca — a rota marítima no Sudeste Asiático por onde passa grande parte do petróleo importado pelo país.

Pequim respondeu com uma estratégia abrangente para reduzir essa exposição. Diversificou as fontes de suprimento para limitar a participação do petróleo vindo do Oriente Médio e começou a constituir o que hoje se estima serem os maiores estoques de petróleo bruto do mundo, equivalentes, grosso modo, aos dos Estados Unidos e do Japão somados. A China tem impulsionado agressivamente a transição dos veículos de passeio de combustíveis fósseis para a energia elétrica — tornando-se, de longe, o maior mercado mundial de veículos elétricos atualmente — e está estendendo esse esforço aos caminhões. A geração de eletricidade depende quase inteiramente de fontes de energia nacionais, como carvão, energia nuclear, hidrelétrica e, cada vez mais, eólica e solar.

Essa estratégia de longo prazo foi submetida a um teste de estresse real com a crise envolvendo o Irã — e, até o momento, foi aprovada.

As interrupções no Estreito de Ormuz fizeram os preços do petróleo dispararem. No entanto, ao contrário do que ocorreu durante a escassez de carvão na China em 2021 — quando o governo instruiu os importadores a garantir suprimentos de energia com urgência —, desta vez não houve pânico. O fluxo de petróleo para a China despencou à medida que os importadores reduziram drasticamente as compras. O país recorreu aos seus estoques e, simultaneamente, restringiu as exportações de combustíveis para transporte, visando manter maior oferta internamente. A alta nos preços dos combustíveis também parece ter levado muitos motoristas chineses a optar pelo transporte público, táxis ou serviços de transporte por aplicativo — muitos dos quais operam com eletricidade.

Como resultado, enquanto alguns governos asiáticos foram forçados a adotar medidas emergenciais drásticas — como racionamento de combustível, aumento de preços e redução de serviços públicos —, a economia chinesa não sofreu perturbações significativas. A contenção nas compras do mercado global de petróleo também aliviou a pressão sobre os preços, poupando o mundo de um choque petrolífero ainda maior e, ironicamente, atenuando as repercussões políticas internas para Trump, ao limitar o impacto nos preços dos combustíveis nos EUA.

A capacidade da China de enfrentar as perturbações no fornecimento de petróleo decorrentes da guerra com o Irã surpreendeu a muitos. Não deveria ter surpreendido; é exatamente para isso que o governo vem se preparando há anos.

Os líderes chineses encaram a energia como uma fonte de poder nacional e geopolítico equiparável à força industrial, tecnológica e militar. Em 2021, eles defenderam que a China se tornasse uma "potência energética" — menos dependente de combustíveis fósseis, mas ainda capaz de fornecer energia abundante e confiável à economia. Mesmo antes do início da guerra, em fevereiro, a mídia controlada pelo Partido Comunista afirmava que alcançar esse objetivo era crucial para que a China "assumisse a iniciativa na disputa entre grandes potências" — uma referência clara à competição com os Estados Unidos em setores estratégicos, como manufatura avançada, centros de dados e inteligência artificial.

O plano energético mais recente da China, adotado este ano, reflete essa ambição. Ele prevê o desenvolvimento de mais fontes de energia renovável, bem como nuclear e hidrelétrica, mantendo o carvão — há muito a espinha dorsal do sistema energético chinês — como uma reserva estratégica fundamental. O país também está investindo pesadamente em novas linhas de transmissão para levar energia de regiões ricas em recursos para as cidades e fábricas que dela necessitam, bem como em baterias e outras capacidades de armazenamento e na modernização da rede elétrica para garantir um suprimento estável de eletricidade.

Os Estados Unidos possuem grandes vantagens energéticas próprias. O país continua sendo uma potência inigualável em petróleo e gás, contando com abundantes reservas internas, capacidade de processamento e exportação em escala gigantesca e grandes reservas estratégicas. No entanto, seu sistema elétrico enfrenta dificuldades para acompanhar o rápido aumento da demanda gerado por uma nova onda de indústrias de alto consumo de energia.

Durante décadas, o poder de influência no setor petrolífero parecia residir nos países que controlavam a oferta — a Opep, a Rússia e outros grandes exportadores, bem como os produtores de xisto dos EUA — e que podiam alterar os preços restringindo ou ampliando o fluxo de produção. A crise no Estreito de Ormuz demonstrou que a China está se tornando um novo tipo de potência energética: uma importadora de petróleo de tal magnitude que consegue influenciar os preços globais da commodity e resistir a perturbações externas.

Embora a dependência da China em relação ao petróleo importado continue significativa, a geopolítica da energia está migrando do controle dos fluxos de petróleo para o controle de sistemas industriais eletrificados. A China detém uma clara vantagem inicial nessa transição, o que fortalece sua posição na disputa industrial e estratégica com os Estados Unidos.

Michal Meidan é a chefe de pesquisa sobre energia na China no Oxford Institute for Energy Studies.

22 de agosto de 2026

Reduzir os juros altíssimos do Brasil exige enfrentar o rentismo

Debate sobre a Selic não se resume ao quadro fiscal e diz respeito a poder, desenvolvimento e distribuição de renda

Discordo de Samuel Pessôa, que se concentra no crescimento do gasto público para explicar a taxa de juros do país

José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)


[RESUMO] Autor sustenta que não é possível reduzir a explicação do patamar dos juros do Brasil, como faz uma vertente liberal, ao crescimento do gasto primário. A concentração bancária, a dívida pública fortemente sensível à Selic e uma economia em que a taxa básica remunera aplicações em condições extremamente vantajosas, desestimulando o investimento produtivo, também devem ser levadas em consideração.

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O debate sobre a formação da taxa de juros no Brasil voltou ao centro da discussão econômica —se é que saiu um dia, como não poderia deixar de ser em um país que convive há décadas com juros reais entre os mais elevados do mundo, crescimento insuficiente, baixa taxa de investimento e uma permanente transferência de renda para os detentores da riqueza financeira.

Essa é mais que uma controvérsia de economistas ou uma disputa entre modelos teóricos. Trata-se de uma questão decisiva para o futuro do país: por que o Brasil paga juros tão altos e o que precisamos fazer para financiar o nosso desenvolvimento?

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em evento na sede do banco, em Brasília - Gabriela Biló - 13.mai.26/Folhapress

Em diferentes momentos e espaços, eu e economistas temos debatido o tema com Samuel Pessôa, pesquisador cuja contribuição ao debate público merece respeito e atenção. Ele sustenta que houve diferentes etapas na formação dos juros brasileiros.

Primeiro, os juros incorporavam o risco de desvalorização do câmbio fixo; depois, já sob o câmbio flutuante, refletiam a nossa fragilidade externa, a escassez de reservas e o elevado risco-país. A partir de meados dos anos 2000, com a acumulação de reservas e a redução da vulnerabilidade externa, o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno teria se tornado o principal determinante da taxa real de juros.

A sua conclusão é que, quando o gasto primário cresce acima da economia, aumenta a disputa pelos recursos disponíveis e se eleva o juro de equilíbrio; se o gasto crescer durante alguns anos no mesmo ritmo do PIB, os juros reais poderão convergir para patamares próximos de 3%.

A tese merece um bom debate. A minha divergência com ele, como a de outros economistas, está em atribuir ao crescimento do gasto primário um papel predominante na explicação da excepcionalidade brasileira, reduzindo a segundo plano a arquitetura da política monetária, a estrutura da dívida pública, a concentração bancária, a formação das expectativas, os mecanismos de indexação, o comportamento do Banco Central e o peso assumido pelo rentismo no Brasil.

O país conviveu durante anos com superávits primários, acumulou centenas de bilhões de dólares em reservas, reduziu a sua dívida externa, fortaleceu a sua posição internacional e diminuiu drasticamente o risco de uma crise cambial sem que os juros reais convergissem para os níveis praticados em países comparáveis. Essa permanência deveria nos obrigar a olhar além do gasto público.

Se a vulnerabilidade externa foi reduzida e se houve longos períodos de resultados primários positivos, por que continuamos remunerando o capital financeiro a taxas tão superiores ao crescimento da economia?

Também é necessário distinguir o crescimento do gasto público do seu impacto macroeconômico efetivo. O aumento da despesa em uma economia próxima do pleno emprego pode pressionar preços, mas os seus efeitos são diferentes quando há desemprego, capacidade produtiva ociosa, baixo investimento e carência de infraestrutura.

O gasto público em saúde, educação, ciência, inovação, habitação, saneamento e infraestrutura não pode ser tratado apenas como consumo de recursos escassos. Ele também amplia a produtividade, cria demanda, induz investimentos privados e eleva a arrecadação e a capacidade futura de crescimento do país.

Da mesma forma, precisamos partir de um diagnóstico correto sobre a formação da inflação e discutir a própria meta de 3% ao ano, fixada em um patamar irrealista para a estrutura da economia brasileira e perseguida como se fosse um dogma.

Sobre nossa inflação, pesam decisivamente os preços dos alimentos e da energia elétrica, as variações cambiais, os preços administrados, os choques climáticos, os gargalos produtivos, a dependência de insumos importados, a indexação e o poder de mercado de setores oligopolizados. O IPCA incorpora integralmente alimentos e energia, componentes essenciais no orçamento das famílias, mas também altamente sujeitos a safras, secas, conflitos internacionais, petróleo, câmbio e outras variações sobre as quais a Selic não tem controle.

Nos Estados Unidos e em diversas outras economias, embora as metas formais também considerem índices cheios, os bancos centrais acompanham e dão grande destaque aos núcleos de inflação, que excluem alimentos e energia justamente para distinguir choques temporários de uma pressão persistente e generalizada de preços. Nem mesmo as principais economias, entre elas os EUA, a zona do euro e o Reino Unido, vêm cumprindo rigorosamente as suas metas de inflação e de déficit público e estão subsidiando fortemente os alimentos, a energia, a habitação e o transporte.

No Brasil, porém, insiste-se na convergência acelerada para 3% como meta de inflação, desconsiderando inclusive a margem de tolerância prevista no regime de metas.

Elevar os juros diante de uma quebra de safra ou de um aumento da energia não produz alimentos, não gera eletricidade, não reduz o preço internacional do petróleo nem resolve problemas de oferta. Mas comprime a atividade, o emprego e o investimento, eleva a despesa com a dívida pública e empurra o governo para metas fiscais incompatíveis com as necessidades de desenvolvimento do país.

Há, além disso, um problema de causalidade. É evidente que desequilíbrios fiscais podem pressionar os juros, mas é igualmente verdadeiro que juros persistentemente elevados deterioram o quadro fiscal. Eles aumentam o custo da dívida, restringem o investimento público, desestimulam o investimento produtivo, reduzem o crescimento, limitam a arrecadação e ampliam a relação dívida-PIB. Forma-se, assim, um círculo vicioso, no qual os juros altos fazem a dívida crescer e, em seguida, o crescimento da dívida é utilizado como justificativa para manter os juros altos.

Não dá para naturalizar esse mecanismo. A taxa de juros é o resultado de instituições, incentivos, correlações de forças, escolhas de política econômica e interpretações sobre o funcionamento da economia.

O Banco Central, ao definir a sua resposta aos choques inflacionários, decide quanto peso dará à atividade, ao emprego, ao câmbio, às expectativas do mercado financeiro, aos choques de oferta e ao horizonte de convergência da inflação. Bancos centrais submetidos a arquiteturas institucionais diferentes podem reagir de forma distinta ao mesmo choque.

É nesse ponto que se encontra uma das divergências centrais do debate. Para uma vertente liberal, a principal singularidade brasileira está nas instituições fiscais: no gasto previdenciário, nas vinculações constitucionais, na indexação de benefícios e na tendência de expansão da despesa acima do crescimento da economia.

Sem negar a importância desses fatores, considero impossível explicar os nossos juros sem examinar também a singularidade de um sistema financeiro altamente concentrado, de uma dívida pública fortemente sensível à Selic e de uma economia na qual a taxa básica remunera aplicações líquidas, seguras e de curto prazo em condições extremamente vantajosas.

Isso não significa negar a importância do mercado financeiro. Um sistema financeiro sólido, regulado e competitivo é indispensável para reunir a poupança dispersa da sociedade, administrar riscos, oferecer crédito e financiar os investimentos de longo prazo de que o país precisa. O problema começa quando o sistema deixa de cumprir prioritariamente essa função e passa a oferecer uma remuneração financeira elevada, de curto prazo e praticamente sem risco, muito mais atraente que o investimento produtivo.

Nesse ambiente, o empresário que poderia ampliar uma fábrica, desenvolver tecnologia, contratar trabalhadores ou disputar mercados compara o retorno incerto da produção com o ganho seguro oferecido por títulos e aplicações indexados aos juros. Empresas deficitárias sobrevivem com os ganhos financeiros da tesouraria. O resultado é a redução do investimento, da inovação e da produtividade.

A taxa de juros, portanto, define ganhadores e perdedores, redistribui renda, reorganiza os investimentos e condiciona o projeto de país. Juros excessivamente altos favorecem os proprietários de ativos financeiros, penalizam os trabalhadores endividados, as pequenas e médias empresas, a indústria, o comércio, a agricultura e o próprio Estado. A discussão sobre a Selic é também uma discussão sobre poder, desenvolvimento e distribuição da renda nacional.

Não se trata de defender inflação, irresponsabilidade fiscal ou emissão de moeda sem limites, caricaturas frequentemente mobilizadas para interditar qualquer crítica à política monetária. O Brasil precisa de estabilidade de preços, responsabilidade fiscal, dívida sustentável e instituições confiáveis. Mas responsabilidade fiscal não pode significar uma política permanente de compressão do gasto social e do investimento público enquanto a despesa financeira é tratada como inevitável e imune ao debate democrático.

Mais grave que o crescimento da dívida pública é não poder emitir dívida, como a Europa e mesmo os EUA fazem neste momento para financiar a reindustrialização, a inovação tecnológica e o rearmamento e subsidiar alimentos, energia e habitação, o que somente é possível porque pagam juros abaixo de 2% ou 1% quando nós pagamos 8% a 10%.

O Brasil não pode aceitar como destino uma economia em que o capital encontra maior segurança e rentabilidade financiando a dívida pública que construindo fábricas, desenvolvendo tecnologias, modernizando a infraestrutura ou criando empregos.

Sem enfrentar o rentismo e sem reduzir o custo do capital, não alcançaremos os níveis de investimento necessários à reindustrialização, à transição energética, à transformação digital e à construção de um Estado de bem-estar social compatível com as necessidades do nosso povo.

Esse debate é importante justamente porque explicita escolhas distintas. Ele identifica nas instituições fiscais a chave predominante para reduzir os juros. A responsabilidade fiscal é necessária, mas insuficiente. A arquitetura monetária e financeira também precisa ser submetida ao debate e à reforma.

Os juros brasileiros não são apenas consequência dos nossos problemas: são também uma das suas causas. Romper esse círculo é condição indispensável para o Brasil voltar a crescer, investir e distribuir renda.

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