15 de agosto de 2026

A visão de Karl Marx sobre a boa sociedade

A sociedade ideal de Karl Marx é levada muito menos a sério do que sua crítica ao capitalismo. No entanto, ele ofereceu uma descrição rica de como seria uma sociedade melhor — uma sociedade construída em torno do trabalho significativo, do cuidado mútuo e do florescimento humano.

Jan Kandiyali


Uma fotografia de parte do mosaico Unser Leben (1964), de Walter Womacka, na Alexanderstraße 9, em Berlin-Mitte, Alemanha. (OTFW)

Este argumento tem dois objetivos. O primeiro é desenvolver uma interpretação da visão de Karl Marx sobre a boa sociedade que seja mais social do que a interpretação predominante. O segundo é demonstrar que essa interpretação representa uma concepção atraente de boa sociedade, oferecendo uma alternativa convincente às visões predominantes de sociedade justa na filosofia política contemporânea.

Esses dois objetivos estão inter-relacionados. A visão de Marx sobre a boa sociedade raramente é levada a sério na filosofia política contemporânea. Frequentemente, considera-se que ela está sujeita a objeções devastadoras. No entanto, tais objeções baseiam-se em uma interpretação individualista da visão de Marx, popularizada por Jon Elster e G. A. Cohen. Ao apresentar uma interpretação mais social, demonstro que as objeções à posição de Marx não são decisivas e que ele oferece uma concepção de boa sociedade mais atraente do que aquela que nos é habitualmente apresentada.

A interpretação mutualista

A seguir, apresento uma interpretação da visão de Marx sobre a boa sociedade, fundamentada nas três afirmações abaixo:

  1. Uma boa sociedade é aquela que possibilita o florescimento de seus membros.
  2. A autorrealização no trabalho é um componente vital do florescimento humano.
  3. A autorrealização no trabalho consiste em realizar a si mesmo (exercer, desenvolver e manifestar as próprias potências humanas essenciais) por meio do fornecimento, a outros, dos bens e serviços de que necessitam para buscar seu próprio florescimento (do qual a autorrealização é um componente vital).

Os pontos 1 e 2 são consensuais na literatura sobre Marx. Mesmo comentadores que argumentam que os escritos de Marx não contêm uma crítica moral ao capitalismo concordam que Marx tinha um compromisso com o florescimento humano, o qual fundamenta sua condenação do capitalismo e sua defesa do comunismo. Além disso, a maioria dos comentadores concorda que Marx via a autorrealização no trabalho como um componente vital do florescimento humano. A principal contribuição deste argumento reside na interpretação do ponto 3: a visão de Marx sobre a autorrealização no trabalho.

Baseando-me especialmente na passagem conclusiva do texto de Marx de 1844, "Comentários sobre James Mill, Éléments d’économie politique" — no qual Marx descreve as pessoas como "produzindo enquanto seres humanos" —, desenvolvo uma interpretação da visão de Marx sobre a autorrealização no trabalho que enfatiza seu caráter social e voltado para o outro. Segundo essa interpretação, as pessoas não se realizam meramente exercendo e desenvolvendo suas potências essenciais; elas se realizam ao exercer e desenvolver essas potências em um trabalho que, simultaneamente, proporciona aos outros os bens e serviços de que necessitam para florescer.

Visto que as pessoas se realizam ao promover o florescimento e a autorrealização dos outros, chamo isso de "interpretação da autorrealização mútua da visão de Marx sobre a boa sociedade" ou, abreviadamente, "interpretação mutualista".

Ao desenvolver a interpretação mutualista, espero desafiar e, por fim, substituir a interpretação predominante da visão de Marx sobre a boa sociedade, a qual foi articulada por Jon Elster e G. A. Cohen. Trata-se de uma interpretação influente: quando filósofos políticos de língua inglesa criticam e rejeitam as concepções de Marx sobre a boa sociedade, eles tendem a se basear no trabalho interpretativo de Elster e Cohen. Ao oferecer uma interpretação alternativa, meu objetivo é minar o fundamento sobre o qual muitas dessas críticas se apoiam e restabelecer o marxismo como uma opção viável para a filosofia política contemporânea.

Florescimento humano

Elster e Cohen concordam que a boa sociedade, para Marx, é aquela que promove o florescimento humano, e que a autorrealização no trabalho é um componente vital desse florescimento. No entanto, eles interpretam a autorrealização no trabalho de uma maneira diferente, mais individualista. Especificamente, segundo a interpretação deles, a autorrealização no trabalho consiste no desenvolvimento pleno e livre das capacidades do indivíduo e não precisa envolver a satisfação das necessidades de outras pessoas. Nessa perspectiva, outras pessoas são necessárias para a autorrealização, uma vez que precisamos dos bens e serviços alheios para buscar nossa própria autorrealização. Contudo, elas são necessárias apenas de forma contingente, como um mero meio para nossos objetivos individuais (o desenvolvimento pleno e livre de nossas capacidades). Elas não são necessárias de forma constitutiva, como um componente central de nossa autorrealização.

Chamo a interpretação de Elster e Cohen de "interpretação da autorrealização paralela da visão de Marx sobre a boa sociedade" ou, abreviadamente, de "interpretação paralelista". Assim como no conceito de brincadeira paralela em crianças pequenas, as pessoas, na interpretação paralelista, alcançam a autorrealização lado a lado com outras; nesse sentido, a interpretação é social. No entanto, ela é social apenas em um sentido muito fraco, pois fazer coisas pelos outros não é um componente constitutivo da autorrealização do indivíduo. Disso decorre que, se as pessoas pudessem obter o necessário para buscar sua autorrealização sem produzir umas para as outras — suponhamos que Deus fizesse chover maná do céu —, nada se perderia. Em contrapartida, na interpretação mutualista, a autorrealização no trabalho envolve, de forma constitutiva, realizar-se por meio do fornecimento, aos outros, dos bens e serviços de que necessitam para buscar seu próprio florescimento. Se Deus fizesse chover maná do céu, a autorrealização no trabalho seria prejudicada.

Demonstro como a interpretação mutualista oferece uma descrição muito diferente — e, a meu ver, significativamente mais atraente — da boa sociedade. Mais precisamente, enquanto a interpretação paralelista vincula Marx a uma visão acentuadamente individualista da sociedade ideal — envolvendo a abolição da divisão do trabalho, a abundância ilimitada e uma sociedade na qual o trabalho para os outros é totalmente eliminado —, a interpretação mutualista o vincula a uma visão solidária da sociedade ideal, que implica uma reorganização radical (mas não a abolição) da divisão do trabalho, uma abundância modesta (mas não ilimitada) e a defesa da centralidade do trabalho para os outros no florescimento humano. Ao passo que a interpretação paralelista deixa Marx vulnerável a objeções sérias, a interpretação mutualista fornece a base para uma visão atraente de como poderíamos viver juntos.

A boa sociedade

Em Karl Marx’s Theory of History: A Defense, Cohen afirma o seguinte sobre a interpretação de Marx que ele desenvolve nessa obra:

A exposição respeita duas restrições: por um lado, o que Marx escreveu e, por outro, os padrões de clareza e rigor que distinguem a filosofia analítica do século XX. O objetivo é construir uma teoria da história sustentável que esteja em ampla consonância com o que Marx disse sobre o assunto.

Assim, o objetivo de Cohen não é simplesmente a exegese, mas reconstruir uma versão "sustentável" da teoria de Marx. Como diz Cohen, tal visão deve estar em "ampla consonância" com os textos; caso contrário, não seria a teoria da história de Marx. No entanto, visto que Marx foi um "pensador inquieto e criativo que produziu muitas ideias em muitas direções", é preciso decidir quais dessas ideias desenvolver e em que direção. A interpretação de Cohen sobre a teoria da história de Marx faz exatamente isso, defendendo uma teoria da história tecnologicamente determinista que está em "ampla consonância" com os textos, embora talvez não com tudo o que Marx escreveu sobre o tema.

Sigo a linha de Cohen. Pretendo desenvolver uma descrição sustentável da boa sociedade que seja consistente com as declarações de Marx sobre o assunto. Argumento que a interpretação mutualista é superior à interpretação paralelista segundo esses critérios — critérios que os próprios Cohen e Elster aceitam. A interpretação mutualista é mais consistente com os textos e mais sustentável como descrição da boa sociedade do que a interpretação paralelista.

Embora eu critique duas das figuras fundadoras do marxismo analítico, não faço — ao contrário do livro recente de Vanessa Wills sobre Marx e ética — uma crítica ao marxismo analítico enquanto tal. Argumento que a interpretação paralelista não é a melhor interpretação da visão de Marx. Não argumento que o marxismo analítico — entendido como uma vertente do marxismo que se distingue "de certas formas clássicas de marxismo por sua abertura a métodos analíticos, sua atitude crítica em relação a certas afirmações substantivas marxistas, seu reconhecimento de seus próprios compromissos normativos e sua defesa da necessidade de um projeto socialista" — seja defeituoso em si mesmo, talvez sob a alegação de que uma abordagem analítica é incompatível com a metodologia dialética do marxismo. Embora Elster e Cohen se equivoquem em certos pontos, não acredito que as falhas sejam inerentes à abordagem analítica que adotam.

Pelo contrário, estou convencido de que a ênfase do marxismo analítico na precisão, na clareza conceitual, na argumentação detalhada, na abertura ao pensamento não marxista e no "compromisso sem reverência" em relação aos textos de Marx torna essa abordagem particularmente valiosa para o tema em questão. Espero validar essa avaliação e contribuir para o ressurgimento do marxismo analítico como programa de pesquisa.

Este é um trecho de Flourishing Together: Karl Marx’s Vision of the Good Society, de Jan Kandiyali (Oxford University Press, 2026).

Colaborador

Jan Kandiyali é professor associado de teoria política na Universidade de Durham, no Reino Unido. Ele é o autor do livro Flourishing Together: Karl Marx's Vision of the Good Society, com lançamento previsto.

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