Daniel Cheng
Jacobin
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| Alunos do último ano do ensino médio estudam durante sessões noturnas de estudo individual à medida que se aproxima o gaokao, o exame nacional anual de admissão às universidades da China. (Li Haitao / VCG via Getty Images) |
Resenha de The Highest Exam: How the Gaokao Shapes China, de Ruixue Jia e Hongbin Li (Belknap Press, 2025)
Para quem passou pelo sistema educacional americano, o Exame Nacional de Admissão ao Ensino Superior da China — ou gaokao — pode parecer um simples equivalente chinês do SAT. No entanto, o gaokao é muito mais importante do que qualquer teste padronizado nos Estados Unidos. O processo de admissão universitária nos EUA baseia-se em uma avaliação holística, levando em conta uma ampla gama de variáveis, das quais os testes padronizados são apenas uma parte. Para a vasta maioria dos estudantes na China, o desempenho no gaokao é o fator principal que determina se serão admitidos na universidade. Esse exame extenuante ajuda a decidir o destino de milhões de pessoas todos os anos.
Em The Highest Exam, Ruixue Jia e Hongbin Li mostram como a influência do gaokao vai muito além do sistema educacional. Jia e Li, que também prestaram o gaokao, definem o exame como o confronto decisivo em um "torneio hierárquico centralizado". Todos os anos, o gaokao é realizado por mais de dez milhões de estudantes do ensino médio e candidatos que repetem o exame. A pontuação do aluno não é o que realmente importa; o que conta é a sua posição em relação aos outros estudantes dentro de sua própria província. A lógica do sistema é inerentemente de soma zero: o sucesso de um indivíduo depende do fracasso de outros.
As consequências desse torneio de soma zero são extraordinariamente significativas. Nos Estados Unidos, a importância do diploma de graduação tende a perder relevância à medida que se acumula experiência profissional ou se obtém uma pós-graduação. Na China, a formação universitária definida pelo gaokao acompanha o indivíduo por toda a vida. Portas que levam às melhores carreiras fecham-se definitivamente se a pontuação no gaokao for muito baixa. Como apontam Jia e Li, "frequentar uma universidade de elite afeta sua faixa socioeconômica pelo resto da vida".
Uma crise de acessibilidade na educação
A alta competitividade e as enormes consequências do gaokao geram uma pressão imensa sobre os pais para que invistam na "corrida armamentista" educacional. Embora os americanos frequentemente lamentem o custo exorbitante do ensino superior, o livro The Highest Exam mostra que as famílias chinesas também enfrentam custos educacionais elevados, apenas em etapas diferentes do sistema. O ensino fundamental (que na China abrange o primário e o ginásio) é gratuito, mas o ensino médio, em geral, não o é. Alunos e suas famílias precisam pagar mensalidades, uniformes e, por vezes, hospedagem e alimentação, o que representa a maior parte das despesas com educação. Além disso, aulas particulares caras tornam-se uma necessidade prática para estudantes de áreas urbanas.
O ingresso nas melhores escolas de ensino fundamental depende da residência no distrito escolar correspondente; no entanto, não é incomum que pais ricos paguem taxas únicas elevadas ou utilizem conexões especiais para matricular seus filhos nessas escolas de elite, mesmo que o Ministério da Educação da China tenha ordenado repetidamente às autoridades locais que eliminem taxas ligadas à admissão. Comprar um apartamento para atender aos requisitos de residência é algo absurdamente caro, com os preços dos imóveis nos melhores distritos escolares de Pequim superando até mesmo os de Palo Alto. Em um trecho do livro The Highest Exam, Ruixue e Li relatam casos de pais que pagam taxas de admissão de até 75 mil dólares — mais de quatorze vezes a renda anual mediana disponível na China. Apenas pais situados no topo da pirâmide socioeconômica possuem as conexões necessárias para garantir a vaga de seus filhos nessas escolas. Mesmo com essas barreiras imensas para o ingresso no ensino fundamental, o número de candidatos ainda supera o de vagas, o que obriga os alunos a prestar um exame de admissão. Para se preparar para essa prova, os pais submetem os filhos a uma rotina intensa de aulas particulares já a partir dos quatro anos de idade.
Pesquisas mostram que a maioria dos cidadãos chineses acredita que a pobreza se deve a falhas individuais, como preguiça ou falta de talento.
O acúmulo desses custos faz com que as famílias gastem quantias enormes com a escolarização de seus filhos. Famílias com estudantes gastam, em média, 17% de sua renda doméstica com educação. Esse fardo financeiro recai com muito mais peso sobre as famílias de baixa renda, desesperadas para ascender social e economicamente. Apesar de gastarem muito menos em termos absolutos com educação do que as famílias ricas, os domicílios do quartil inferior — que gastam, em média, "apenas" 1.280 dólares por ano — comprometem 57% de sua renda doméstica com a educação. Embora o gaokao em si seja o mesmo para todos os alunos, os recursos que as famílias podem mobilizar não o são. A pressão intensa do sistema educacional chinês e o seu ponto de partida precoce geraram uma crise de saúde mental que afeta estudantes a partir dos sete anos de idade.
O mercado de trabalho em forma de K
Sob outra perspectiva, a existência do gaokao em um país nominalmente comunista é bastante irônica. Ele reproduz, dentro do sistema educacional, a competição de soma zero típica do capitalismo, na qual trabalhadores disputam vagas de emprego. Garantir uma vaga em uma das melhores faculdades da China significa empurrar outros estudantes para baixo na classificação. Isso faz com que, desde muito cedo, o gaokao incuta uma mentalidade de gladiador nos estudantes chineses. Em vez de promover o calor humano do coletivismo, o sistema educacional da China incentiva um individualismo frio.
No entanto, quando comparado ao sistema dos EUA, o modelo chinês parece menos cruel do que aparenta à primeira vista. Embora famílias chinesas ricas gastem mais dinheiro com seus filhos do que as famílias pobres, estudantes provenientes do quintil de maior riqueza têm apenas 2,3 vezes mais chances de ingressar em uma faculdade de elite do que aqueles do quintil mais baixo. Nos Estados Unidos, os ricos têm onze vezes mais chances de enviar seus filhos para as universidades mais prestigiadas.
Apesar de todas as suas falhas, um sistema de testes padronizados baseado em um único critério é relativamente mais meritocrático e permite maior mobilidade social. Contudo, a mobilidade social não é tudo. Em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, a meritocracia frequentemente serve mais para legitimar essas disparidades do que para corrigi-las. Se os exames são considerados justos, torna-se muito mais difícil questionar a situação de vencedores e perdedores.
O que The Highest Exam revela implicitamente é que o gaokao é sintoma de um problema mais profundo na China: um mercado de trabalho brutalmente competitivo e altamente desigual. A taxa de desemprego entre os jovens chineses é de quase 18%, mais que o dobro da registrada nos Estados Unidos. Na República Popular, há uma competição intensa pelos melhores empregos, com uma média de 150 a 250 currículos por vaga nos setores mais cobiçados. Dada a dinâmica em forma de K — com crescimento no topo e estagnação na base — característica da economia de muitos países capitalistas avançados, não conseguir um emprego que exija alta qualificação pode significar ser lançado no mundo do trabalho precário (gig economy), marcado por baixos salários e longas jornadas. Os cargos públicos privilegiados, destinados aos melhores alunos, são tão desejados porque oferecem benefícios de moradia, educação e assistência médica aos quais poucos têm acesso. A competição implacável do gaokao "tem êxito" em preparar os estudantes chineses para a vida justamente porque essa disputa espelha a natureza de "o vencedor leva tudo" da economia capitalista no pós-universidade. Assim, a verdadeira solução para os problemas do gaokao não é uma reforma educacional, mas sim enfrentar a desigualdade extrema, da qual o exame é apenas um mecanismo de triagem.
Se a China se tornasse uma sociedade mais igualitária, com uma estrutura tributária progressiva que investisse em serviços sociais universais, grande parte da tensão em torno do gaokao desapareceria, pois o que estaria em jogo nessa disputa seria muito menos crítico. Um desempenho ruim no exame não resultaria em salários mais baixos, oportunidades educacionais precárias ou falta de assistência médica. Seria muito mais fácil para as famílias de toda a República Popular desacelerar a corrida armamentista educacional.
A percepção de meritocracia associada ao gaokao funciona, na prática, como uma barreira para uma República Popular mais igualitária. As instituições sociais da China são notoriamente corruptas e favorecem sistematicamente os ricos e aqueles com boas conexões. Como demonstrou Yuen Yuen Ang, o suborno de autoridades com "dinheiro de acesso" é um ingrediente fundamental para o sucesso nos negócios. Por ser mais justo do que essas instituições, o gaokao gera uma distribuição de empregos e segurança que é vista como legítima. Isso tem impactado as atitudes sociais no país. Pesquisas indicam que a maioria dos cidadãos chineses acredita que a pobreza decorre de falhas individuais, como preguiça ou falta de talento. Apenas 25% dos entrevistados defendiam a redistribuição de renda dos ricos para os pobres. Se a disputa do gaokao é considerada justa, então aqueles que fracassam são vistos como merecedores de seu sofrimento.
Tudo isso significa que os problemas do gaokao estão enraizados nas questões mais profundas da economia política chinesa. Os desafios impostos por uma economia altamente bifurcada — com uma trajetória em formato de "K" — não podem ser facilmente resolvidos por meio de uma reforma educacional. Diante da atual trajetória econômica da China, há poucos motivos para otimismo entre estudantes e pais.
Colaborador
Daniel Cheng é ex-doutorando em Sociologia e pesquisador independente nas áreas de economia política e tecnologia da China.

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