A crise hídrica deste verão em Porto Rico é o exemplo mais recente da violência lenta da crise da dívida porto-riquenha, exacerbada por padrões de remilitarização no arquipélago.
Marisol LeBrón, Sarah Molinari e Isabel Guzzardo
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| O controle dos próprios porto-riquenhos sobre a água de Porto Rico está diminuindo — resultado de um controle colonial que mina a soberania e a autodeterminação de Porto Rico. (Ricardo Arduengo / AFP via Getty Images) |
Neste verão, centenas de milhares de porto-riquenhos estão enfrentando interrupções generalizadas no serviço, fluxo irregular, baixa pressão e falta de acesso a água potável limpa e segura. A busca por pontos de abastecimento ou caminhões-pipa tornou-se uma tarefa doméstica diária para muitos, uma vez que mais de 150.000 moradores de sete municípios enfrentam a imposição de períodos rigorosos de racionamento de água.
Essa recente emergência hídrica é, em parte, resultado de uma longa negligência na manutenção e de grandes rupturas no superaqueduto — uma tubulação de 72 polegadas que transporta água potável para a região metropolitana de San Juan e que é marcada por problemas e controvérsias. Além da ruptura do superaqueduto, outros fatores impactaram negativamente os recursos hídricos e o abastecimento: um verão marcado pela temporada de furacões no Atlântico, calor extremo, condições de seca que esvaziaram os reservatórios, um forte fenômeno El Niño e a poeira do Saara — uma enorme nuvem de poeira e ar que sopra do Deserto do Saara, na África, através do Oceano Atlântico, em direção ao Caribe e a partes do sudeste dos Estados Unidos.
Em resposta, a governadora Jenniffer González acionou a Guarda Nacional para auxiliar na distribuição de água e pediu aos consumidores que fossem "prudentes" no uso do recurso, indicando que os porto-riquenhos teriam de lidar com o baixo abastecimento por algum tempo. Ao longo de agosto, centenas de pessoas foram às ruas em marchas organizadas pela Coalición Exigimos Agua, pela La Colectiva Feminista en Construcción e outros grupos, exigindo soluções urgentes para que os porto-riquenhos possam ter acesso confiável à necessidade mais básica para a vida. Em um arquipélago acostumado a lidar com frequentes apagões e picos de energia destrutivos, torneiras secas tornaram-se agora uma ocorrência frustrantemente comum.
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| A Guarda Nacional distribui água em Santurce, San Juan, em 16 de junho de 2026. (Cortesia de Sarah Molinari) |
Estes dois marcos do verão de 2026 em Porto Rico — uma crise hídrica de grandes proporções e uma década de gestão colonial da dívida — fazem parte de uma história entrelaçada. A atual emergência hídrica de Porto Rico é o resultado de um longo processo, moldado tanto pela crise climática quanto pelas condições de governança colonial e extração financeira que antecedem e caracterizam a era da lei PROMESA.
No entanto, as mudanças climáticas e a seca de verão não são as únicas causas da escassez de água em Porto Rico. Pesquisas indicam que o aumento das temperaturas, a seca prolongada e a maior variabilidade das precipitações estão sobrecarregando sistemas hídricos cuja resiliência já havia sido enfraquecida por décadas de manutenção postergada, austeridade fiscal e investimentos desiguais em infraestrutura. A crise hídrica deste verão não é apenas consequência do calor extremo e da seca severa; ela representa mais um exemplo da "violência lenta" associada à crise da dívida porto-riquenha, recentemente agravada por padrões de remilitarização no arquipélago que ameaçam amplamente os recursos hídricos.
Infraestruturas da dívida
Em 1994, Porto Rico enfrentava uma seca devastadora que afetou gravemente os recursos hídricos. Em resposta à falta de acesso confiável à água causada pela seca para muitos porto-riquenhos — especialmente na densamente povoada região metropolitana de San Juan —, a administração do governador Pedro Rosselló propôs a construção de um grande aqueduto para transportar água do interior montanhoso da ilha principal para a região metropolitana e o nordeste.
Durante a fase de proposta e discussão inicial do projeto, parcelas significativas da população, sobretudo na região metropolitana, apoiavam o superaqueduto, visto que a seca de 1994 representava o auge de décadas de intensa insegurança hídrica. Críticos, no entanto, apontavam que o projeto seria prejudicial ao meio ambiente, desnecessariamente custoso e extremamente difícil de reparar, dadas as dimensões gigantescas da tubulação.
O debate sobre o superaqueduto também coincidiu com um momento decisivo na relação colonial de Porto Rico com os Estados Unidos, evidenciando a constituição mútua do declínio econômico e ambiental. Em 1996, o presidente Bill Clinton sancionou uma lei para encerrar a vigência da Seção 936 do código tributário — um conjunto de incentivos fiscais que sustentava o modelo de desenvolvimento econômico colonial no final do século XX. A revogação da Seção 936, implementada de forma gradual entre 1996 e 2006, resultou em perda massiva de empregos no setor manufatureiro, fuga de capitais e quedas na arrecadação governamental, o que elevou o déficit público e a dependência de títulos com isenção tripla de impostos. Esses títulos municipais são isentos de tributação federal, estadual e local sobre os pagamentos de juros, tornando os títulos de Porto Rico atraentes para investidores de fundos de cobertura e carteiras do mercado de títulos municipais.
A crise hídrica deste verão não é apenas consequência do calor extremo e da seca severa; é o exemplo mais recente da "violência lenta" associada à crise da dívida de Porto Rico.
Em meio à recessão econômica e ao aumento da dívida pública, o projeto do superaqueduto enfrentou problemas quase de imediato, incluindo atrasos e contestações judiciais. À medida que a construção avançava, surgiram acusações de corrupção envolvendo desde os contratos firmados até o uso de materiais de qualidade inferior. Quando o superaqueduto foi finalmente concluído, em 2000, a um custo de US$ 585 milhões (quase o dobro das estimativas iniciais), ele se tornou um marco do tipo de projeto de infraestrutura de grande porte empreendido pela administração Rosselló.
Além do superaqueduto, a administração Rosselló também supervisionou a construção do Tren Urbano, do Centro de Convenções de Porto Rico e do Coliseu de Porto Rico (“el choli”), sem mencionar a ampla expansão e modernização da malha viária em toda a ilha principal. Esses projetos de infraestrutura exigiram vultoso financiamento estatal via endividamento e foram marcados por acusações de corrupção. Em 2016, estava mais do que evidente que projetos como o superaqueduto foram fatores determinantes para as crises financeiras que desafiariam Porto Rico ao longo das décadas de 2000 e 2010, acabando por servir de justificativa para a lei PROMESA.
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| Moradores de Santurce, San Juan, fazem fila no ponto de distribuição de água em 16 de junho de 2026. (Cortesia de Sarah Molinari) |
As três rupturas principais no superaqueduto, descobertas em 10 de junho de 2026, desencadearam esta crise hídrica mais recente e são resultado de décadas de manutenção postergada, situação que apenas se agravou nos anos seguintes à aprovação da lei PROMESA. Quase imediatamente após a instalação do último tubo do superaqueduto, a Autoridade de Aquedutos e Esgotos (AAA) viu-se prejudicada por tentativas de privatizar o serviço público e reduzir drasticamente seus custos operacionais. Privada de recursos e marcada há muito tempo pela corrupção institucional e pelo uso político, a AAA não realizou a manutenção e as melhorias necessárias tanto no superaqueduto quanto no restante da envelhecida infraestrutura hídrica do arquipélago.
As interrupções no serviço, o racionamento e o acesso limitado à água potável vivenciados neste verão — embora particularmente graves — têm sido, na verdade, recorrentes nas últimas duas décadas, intensificando-se à medida que a aprovação da PROMESA exigia ainda mais austeridade das empresas de serviços públicos para reduzir a dívida do arquipélago e pagar os investidores.
Porto Rico enfrentou uma seca histórica entre 2014 e 2016, deixando centenas de milhares de pessoas sem acesso regular à água, uma vez que o governo impôs um racionamento extremo que cortava o abastecimento por períodos de dois a três dias de cada vez. Coincidindo com a aprovação da PROMESA, essa seca deixou dolorosamente evidente a incapacidade da autoridade pública de água em fornecer água potável segura e confiável à população. No entanto, após 2016, empresas de serviços públicos como a AAA — que, em muitos aspectos, já operavam no limite máximo de cortes de gastos — foram submetidas a exigências ainda maiores de austeridade, enquanto se esperava que os consumidores pagassem contas mais altas por um serviço de pior qualidade. A infraestrutura hídrica do arquipélago nunca se recuperou totalmente após o Furacão Maria; em vez disso, os porto-riquenhos acostumaram-se à instabilidade do abastecimento de água.
A devastação causada pelo Furacão Maria em 2017 expôs a fragilidade da infraestrutura hídrica do arquipélago, bem como as consequências fatais da austeridade e da inação estatal. O apagão histórico de meses provocado pela tempestade deixou bombas d'água e sistemas de filtragem inoperantes, ao mesmo tempo em que alguns poços subterrâneos foram contaminados pelo escoamento das águas da tempestade. O conjunto desses fatores, decorrentes da tempestade, gerou uma intensa escassez de água em todo o arquipélago. A falha dos governos local e federal em distribuir suprimentos de ajuda humanitária — como água engarrafada — ou em instalar pontos de abastecimento de água pelo arquipélago de maneira rápida e eficiente levou a população a se banhar, higienizar-se e beber água de fontes contaminadas. Como resultado, dezenas de pessoas morreram devido a infecções bacterianas transmitidas pela água, incluindo a leptospirose.
A infraestrutura hídrica do arquipélago jamais se recuperou totalmente após o furacão Maria. Em vez disso, os porto-riquenhos acostumaram-se à instabilidade do abastecimento de água e de outros serviços públicos. De fato, as imposições do conselho de controle fiscal, somadas à insuficiência de recursos federais para a recuperação pós-desastre, fazem com que a infraestrutura pública do arquipélago continue a se deteriorar, tornando-o mais vulnerável a crises recorrentes e prolongadas. A disparidade entre os recursos federais de recuperação prometidos após o furacão Maria e o montante efetivamente repassado a Porto Rico agrava o contínuo declínio da infraestrutura.
Segundo o Escritório Central de Reconstrução, Recuperação e Resiliência de Porto Rico, dos US$ 42,6 bilhões destinados a todos os programas de recuperação, apenas cerca de US$ 13 bilhões foram repassados. Quando o furacão Fiona atingiu a região em 2022, por exemplo, cerca de meio milhão de porto-riquenhos ficaram dias sem acesso a água potável segura. Naquele mesmo ano, Porto Rico ocupou a sexta posição no Índice de Risco Climático entre os países mais afetados pela crise climática. Por outro lado, ilhas caribenhas vizinhas demonstraram muito mais resiliência a eventos meteorológicos extremos, evidenciando que a insegurança hídrica em Porto Rico é, primordialmente, fruto da governança colonial e de medidas de austeridade, e não de forças "naturais".
O movimento para privatizar serviços públicos essenciais, como parte do acordo de reestruturação da dívida de Porto Rico, criou um ciclo de retroalimentação entre a AAA (Autoridade de Aquedutos e Esgotos) e a Autoridade de Energia Elétrica de Porto Rico: as falhas na rede elétrica privatizada impactam direta e negativamente o acesso à água potável para milhões de pessoas, devido à interdependência entre a rede elétrica e outros serviços essenciais. Após o furacão Maria, em janeiro de 2018, o governador Ricardo Rosselló anunciou que sua administração privatizaria a rede elétrica em um esforço para modernizá-la e reduzir a dívida de aproximadamente US$ 9 bilhões da autoridade de energia, que se encontrava insolvente.
Em 22 de junho de 2020, o governo do Estado Livre Associado assinou um contrato de quinze anos com a LUMA Energy — uma parceria entre a Quanta Energy Services, sediada em Houston, e a ATCO, sediada em Calgary — para assumir todos os aspectos da rede que não envolvem a geração de energia, como transmissão, distribuição, despacho de carga, atendimento ao cliente e faturamento. Após a LUMA assumir as operações em 1º de junho de 2021, os moradores vivenciaram uma queda quase imediata na confiabilidade da rede elétrica. Em particular, os consumidores relataram interrupções mais longas e frequentes, bem como flutuações severas de energia que danificam equipamentos elétricos. A insegurança hídrica em Porto Rico é, primordialmente, resultado da governança colonial e de medidas de austeridade, e não de forças "naturais".
O sistema de abastecimento de água do arquipélago — especialmente nos pontos de distribuição e filtragem — depende de um fornecimento de eletricidade estável e constante para funcionar. Por exemplo, as bombas de água utilizadas para distribuir a água proveniente das áreas montanhosas da ilha principal requerem eletricidade. Todo esse cenário foi agravado pela liberação lenta e insuficiente de recursos para a recuperação. Um relatório recente do Government Accountability Office (órgão de auditoria do governo dos EUA) aponta que, embora a Federal Emergency Management Agency (FEMA) tenha destinado US$ 11,1 bilhões para a recuperação e modernização da rede elétrica desde 2017, apenas cerca de US$ 2,7 bilhões foram efetivamente repassados.
As frequentes quedas de energia e o impacto da rede elétrica precária no acesso à água criaram um estado de desastre cotidiano sem fim previsível. Os porto-riquenhos são forçados a conviver com a incerteza e situações extremas em seu dia a dia. Afinal, quem sabe quando se pode acordar e descobrir que nada acontece ao acionar o interruptor de luz ou abrir a torneira?
A insegurança hídrica também revela as camadas de desigualdade presentes em Porto Rico. Por exemplo, para acessar os pontos públicos de abastecimento de água, é preciso primeiro localizar onde eles estão — seja ligando para a prefeitura, buscando informações precisas nas redes sociais ou na televisão, ou encontrando o caminhão-pipa por acaso em alguma rua próxima. Encher e carregar galões e baldes exige tempo, capacidade física e mobilidade para transportar a água obtida.
Assim como ocorre no mercado residencial de energia solar para mitigar a insegurança energética, a crise hídrica aumentou a demanda por cisternas particulares para armazenar água quando ela está disponível — mais um exemplo de soluções privadas para crises públicas que, no entanto, têm custos proibitivos para o morador comum ou para pequenas empresas. Alguns moradores com mais recursos contratam empresas privadas para abastecer suas cisternas, serviço que pode custar mais de 500 dólares por 150 galões. Contudo, mesmo aqueles que dispõem de cisternas particulares ficam à mercê da falta de preparo do governo diante de uma crise que já se desenrola há meses, se não anos.
Por exemplo, quando uma das coautoras deste artigo entrou em contato com o município de San Juan, em junho, para solicitar o abastecimento da cisterna de seu prédio, foi informada de que poderia ser incluída em uma lista de doze mil solicitações individuais e teria de esperar cerca de duas semanas pela chegada do caminhão-pipa. Como o Guardian relatou recentemente, há quem sinta que é "como se um furacão tivesse passado". No entanto, o desastre responsável pela falta de eletricidade ou água para os porto-riquenhos em uma terça-feira ensolarada qualquer é o colonialismo da dívida.
O custo da construção de um paraíso tropical
Segundo estimativas, a AAA perde entre 40% e 65% da água devido a vazamentos, rupturas e transbordamentos. Essa perda significativa de água ocorre em todas as etapas do processo — desde tubulações e reservatórios até as estações de tratamento — em decorrência da deterioração da infraestrutura. Como apontaram o pesquisador e ativista Manuel Rodríguez Banchs, o problema do assoreamento reduziu a capacidade dos reservatórios e gerou sérios transtornos nas estações de tratamento. Vale ressaltar que esse assoreamento tem duas causas principais: a erosão e o material particulado proveniente de obras de construção. É aqui, também, que a crise hídrica e a crise da dívida se encontram.
À medida que o governo de Porto Rico impõe medidas de austeridade aos serviços públicos e sociais, ele perde serviços cruciais de monitoramento e flexibiliza regulamentações ambientais destinadas a proteger áreas costeiras e cursos d'água. Em 2016, com o aumento da preocupação em torno da crise da dívida, o Serviço Geológico dos EUA (USGS) suspendeu o monitoramento hídrico em 177 estações hidrológicas devido a uma dívida de 2 milhões de dólares, afetando o acompanhamento da qualidade da água, do abastecimento de água potável e dos níveis dos aquíferos. Mais recentemente, o governo tem buscado facilitar megaprojetos de construção voltados para atrair turismo de luxo e capital estrangeiro, numa tentativa de compensar as medidas de aperto fiscal ditadas por Wall Street e Washington e implementadas pela Junta de Supervisão Fiscal.
O megaprojeto proposto, chamado "Esencia", no município de Cabo Rojo (sudoeste da ilha), escancara as contradições no cerne da crise hídrica de Porto Rico. Planejado para ocupar uma área de dois mil acres em uma das regiões mais secas e de maior biodiversidade do arquipélago, o empreendimento de luxo proposto — orçado em US$ 2 bilhões e com quase US$ 498 milhões em créditos fiscais aprovados — deve incluir hotéis, residências, campos de golfe, escola particular, centro médico privado e outras comodidades de alto padrão, tudo isso em um município onde os moradores enfrentam há muito tempo a escassez persistente de água.
Diante de um futuro marcado pela insegurança hídrica e do reconhecimento, por parte da AAA, de que não possui capacidade para abastecer o empreendimento, a Esencia promove um modelo de "ciclo fechado". Nele, os desenvolvedores planejam garantir o acesso à água — estimado em 1,25 milhão de galões por dia em plena operação — principalmente por meio de infraestrutura privada (extração de águas subterrâneas, captação de água da chuva e tratamento de águas residuais). No entanto, apesar da crônica insegurança hídrica da região, o projeto propõe manter a conexão com a rede pública como uma possível fonte de emergência e utilizará o mesmo sistema hidrológico regional, gerando preocupações entre moradores e agricultores.
Os incorporadores também propõem uma comunidade totalmente abastecida por energia solar e afirmam gerar energia suficiente para compartilhá-la com a comunidade local, se necessário. Dessa forma, alegam seguir "rigorosos padrões ambientais em todas as fases" — mesmo que o Esencia dependa da criação de novas leis, como a Lei 82, que se sobrepõe a normas ambientais e estipulações de uso do solo já estabelecidas. A questão da água revela visões conflitantes sobre o futuro de Porto Rico: uma organizada em torno de megaprojetos de luxo e enclaves autônomos exclusivos, e a outra centrada na proteção de recursos ecológicos de uso comum.
A controvérsia em torno do Esencia também envolve a disputa pelo acesso a paisagens costeiras e a questão de quem arca com os danos socioecológicos decorrentes do empreendimento. Organizações comunitárias, cientistas e defensores do meio ambiente argumentam que o projeto ameaça áreas úmidas ecologicamente sensíveis, recursos de águas subterrâneas e o acesso público ao litoral, ao mesmo tempo em que acelera um padrão mais amplo de privatização da costa, especulação imobiliária e deslocamento populacional. Conforme alertou o vice-diretor de Turismo, Jorge Pérez González, em carta enviada ao Escritório de Gestão de Licenças em março de 2025: "O projeto abrange uma extensa faixa costeira de recursos ecológicos, incluindo a zona marítimo-terrestre, áreas de mangue e zonas úmidas associadas ao Caño Boquerón, floresta seca nativa e terrenos classificados para preservação". Essas áreas ecológicas desempenham um papel fundamental na proteção dos recursos hídricos naturais de Porto Rico, e sua destruição agravaria as crises hídricas recorrentes do arquipélago.
Além disso, os resíduos da construção do projeto ameaçam o abastecimento público de água existente, aumentando a entrada de sedimentos nas reservas hídricas, o que reduz a capacidade de armazenamento e obstrui os sistemas de filtragem. Assim, o modelo de construção de "ciclo fechado" do Esencia contribui para a destruição da infraestrutura pública de água — problema que o próprio projeto pretende solucionar por meio de alternativas privatizadas para aqueles que podem optar por não depender dos serviços públicos de Porto Rico, marcados por dívidas e pela falta de confiabilidade.
No final de julho de 2026, à medida que a seca se agravava e o governo adotava medidas de emergência para gerir a crise hídrica, o Escritório de Gestão de Licenças de Porto Rico aprovou a consulta de ubicación (licença de localização) para o Esencia, autorizando o avanço do projeto para a sua próxima fase de desenvolvimento. A ironia da decisão não passou despercebida aos porto-riquenhos e provocou críticas imediatas da coalizão Defiende a Cabo Rojo e de outros defensores, que argumentam que o processo de licenciamento falhou em abordar adequadamente as preocupações com os recursos hídricos e os ecossistemas costeiros, além de não ter incluído uma participação pública significativa.
Nesse sentido, a questão da água torna-se uma lente para observar visões conflitantes sobre o futuro de Porto Rico: uma organizada em torno de megaprojetos de luxo e enclaves autônomos exclusivos (refúgios costeiros para os ricos), e a outra centrada na proteção de bens comuns ecológicos compartilhados e no direito de permanecer e prosperar no local.
A remilitarização e a ameaça à soberania hídrica
Enquanto os porto-riquenhos enfrentam uma crise hídrica interminável e empreendimentos de luxo ameaçam desviar o abastecimento de água para enclaves exclusivos, as forças armadas dos EUA reocuparam rapidamente vastas áreas do arquipélago, ameaçando ainda mais os recursos hídricos. Porto Rico é peça-chave no plano implacável do governo Trump de dominar o hemisfério ocidental e apropriar-se de seus recursos. Essa ambição imperialista é justificada pela retomada, por parte de Trump, da Doutrina Monroe e pelo desenvolvimento do "Escudo das Américas" (Shield of the Americas); tais iniciativas reafirmam a América Latina e o Caribe como áreas sob a esfera de influência dos Estados Unidos e justificam operações militares para desmantelar cartéis transnacionais de drogas, conter a migração ilegal em massa e combater a influência estrangeira. Tanto o alto comando militar quanto autoridades porto-riquenhas indicaram que as tropas, tanques, submarinos, aviões e porta-aviões posicionados no arquipélago e em seu entorno não deixarão a região tão cedo.
Os porto-riquenhos conhecem bem o impacto da militarização sobre o meio ambiente, suas comunidades e seus próprios corpos. Vieques e Culebra, municípios insulares de Porto Rico, foram ocupados pelas forças armadas dos EUA para exercícios de bombardeio durante décadas no século XX — até 1975 em Culebra e 2003 em Vieques. Todas as intervenções dos EUA após a Segunda Guerra Mundial incluíram treinamentos em Vieques e Culebra. As ilhas foram bombardeadas com napalm, Agente Laranja, urânio empobrecido e outros produtos químicos tóxicos e metais pesados. Em Vieques, os bombardeios ativos cessaram em 2003, após uma longa batalha dos moradores locais contra a ocupação, durante a qual organizaram protestos, coordenaram ações diretas nas terras ocupadas, produziram jornais e análises e mobilizaram a comunidade internacional em solidariedade.
Ainda hoje, os moradores de Vieques sofrem as consequências da militarização para a saúde: altos níveis de metais pesados no sangue e taxas de câncer desproporcionalmente mais elevadas do que no restante do arquipélago. Com a atual onda de expansão militar, os moradores descrevem a situação como a reabertura de feridas antigas e temem que novas gerações estejam sendo expostas a ciclos de dor e violência.
No entanto, a militarização é frequentemente apresentada como desenvolvimento e um impulso econômico necessário em meio à crise da dívida. A reativação de bases militares em Porto Rico teve início em julho de 2024, quando o governo federal destinou US$ 325,9 milhões em recursos para construção militar — por meio da Lei de Autorização de Defesa Nacional — à infraestrutura militar na ilha, visando fortalecer e modernizar instalações como Fort Buchanan (em Guaynabo), a Base Ramey (em Aguadilla), Camp Santiago (em Salinas) e a antiga Estação Naval de Roosevelt Roads (em Ceiba).
Conforme relatado pelo Center for Investigative Journalism: “Segundo o Conselho de Planejamento de Porto Rico, a estratégia injetaria mais de US$ 898,4 milhões na economia local a longo prazo por meio de empregos na construção civil, na administração e em serviços, bem como pela arrecadação de impostos retidos na fonte e receitas de impostos sobre produtos específicos para os municípios onde estão localizadas as principais bases militares”. No entanto, a experiência histórica leva muitos a questionar quem se beneficiará dessa remilitarização.
Assim como enclaves de luxo, as bases militares funcionam como comunidades autossuficientes, concentrando investimentos econômicos em empresas privadas contratadas e beneficiando aqueles que vivem e trabalham dentro de seus limites. Em vez de impulsionar a economia local, a remilitarização de Porto Rico representa uma forma de guerra econômica que concentra riqueza em indústrias ligadas ao setor militar e ameaça perpetuar o subdesenvolvimento do arquipélago.
À medida que os porto-riquenhos se deparam cada vez mais com militares pelo arquipélago — inclusive, mais recentemente, em pontos de distribuição de água na região metropolitana —, é importante lembrar que a maquinaria de guerra e as bases militares exigem recursos imensos para operar. Além de ser o maior consumidor individual de petróleo do mundo e um dos principais emissores de gases de efeito estufa, o Departamento de Defesa dos EUA também consome quantidades enormes de água. Ondas anteriores de militarização em Porto Rico provaram ser prejudiciais à infraestrutura hídrica do arquipélago, não apenas esgotando os recursos hídricos, mas também contaminando fontes de água utilizadas para consumo, pesca e lazer.
As forças armadas ainda não concluíram a remediação exigida para a contaminação ambiental em Vieques e arredores. Embora as elites dos EUA e de Porto Rico prometam que a remilitarização de Porto Rico trará prosperidade econômica, é mais provável que o aumento da presença militar no arquipélago apenas sobrecarregue ainda mais os recursos hídricos.
Enquanto tantos porto-riquenhos se veem sem acesso à água, o controle sobre as vias navegáveis que cercam o arquipélago também diminui — e ambos os fenômenos são resultado de formas persistentes de controle colonial que minam a soberania e a autodeterminação de Porto Rico. O recente reforço militar transformou Porto Rico em uma plataforma de lançamento para operações dos EUA na América Latina e no Caribe. Porto Rico serve como base de operações para a campanha dos EUA contra o suposto narcotráfico, a qual tem visado barcos de pesca e causado a morte de mais de duzentas pessoas em execuções extrajudiciais.
Porto Rico também forneceu importante apoio logístico e de infraestrutura para a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores em janeiro de 2026, uma operação que resultou na morte de quase cem pessoas. Além disso, no contexto do bloqueio genocida imposto pelos Estados Unidos a Cuba, Porto Rico desempenha um papel fundamental em operações contínuas de vigilância e contingência. O arquipélago também serve como base dos EUA para as atividades do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) — incluindo a detenção e criminalização de migrantes que fogem de condições de desestabilização frequentemente criadas pelos Estados Unidos e seus aliados. Desde janeiro, agentes do ICE em Porto Rico detiveram quase dois mil migrantes, a maioria proveniente da ilha vizinha, a República Dominicana. O status colonial de Porto Rico permite que os Estados Unidos explorem suas águas para fins imperialistas e transformem o arquipélago tanto em um espaço de lazer para turistas e investidores quanto em um "porta-aviões natural" para operações militares.
Sob um regime de dívida, não apenas a qualidade de vida e o acesso a necessidades básicas da população porto-riquenha se deterioram, mas os habitantes também são cada vez mais recrutados para promover o poder militar dos EUA na região como uma forma de desenvolvimento econômico. O controle colonial dos EUA sobre Porto Rico restringiu não apenas a soberania do arquipélago sobre sua economia — culminando na aprovação da lei PROMESA e na instalação do conselho de controle fiscal —, mas também sobre suas águas. O colonialismo limitou a capacidade dos porto-riquenhos de tomar decisões sobre os recursos hídricos, abrangendo desde como lidar com os efeitos das mudanças climáticas e da infraestrutura precária até quem pode cruzar suas costas e quem controla a navegação por todo o Mar do Caribe.
Em Porto Rico e em toda a diáspora, muitas organizações se opõem a essa situação. Grupos como Madres Contra la Guerra e Vidas Viequenses Valen, por exemplo, têm contestado a remilitarização, enquanto uma coalizão internacional de organizações defende que as Américas se tornem uma "Zona de Paz", livre de intervenções militares dos EUA. Na luta contra o Esencia e outros empreendimentos de luxo extremo, a coalizão Defiende a Cabo Rojo, sediada no arquipélago, e a coalizão New York Contra Esencia, na diáspora, estão se organizando para barrar esses projetos. Paralelamente, comunidades em todo Porto Rico mobilizam-se em torno de uma reivindicação simples: "Exigimos agua". Cada uma dessas lutas, embora distinta, é, em última análise, uma luta pela soberania de Porto Rico. A atual emergência hídrica demonstra a urgência de que os porto-riquenhos reflitam sobre como gerir e proteger suas águas e terras de modo a salvaguardar a paz regional e garantir a todos o acesso a necessidades fundamentais para a vida, incluindo água limpa.
Colaborador
Marisol LeBrón é professora associada de Estudos Críticos de Raça e Etnia na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. É autora ou organizadora de diversos livros, incluindo Policing Life and Death: Race, Violence, and Resistance in Puerto Rico, e cocriadora e líder do projeto Puerto Rico Syllabus, um recurso digital para a compreensão da crise da dívida de Porto Rico.
Sarah Molinari é professora assistente no Departamento de Estudos Integrativos e Globais do Worcester Polytechnic Institute e pesquisadora integrante da Caribbean Collaborative Action Network.
Isabel Guzzardo é professora assistente no Departamento de Inglês da Seton Hall University, especializada em literaturas do Caribe.



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