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7 de julho de 2026

O populismo de direita não acabou com o neoliberalismo

A característica definidora do neoliberalismo sempre foi o isolamento do capital em relação ao controle democrático. A ruptura do trumpismo com o livre-comércio alterou a retórica. No entanto, a ordem econômica subjacente permanece intacta.

Matías Vernengo

Jacobin

O populismo de direita apresenta-se como uma revolta contra o establishment, mas o cerne de sua visão econômica permanece inalterado: o capital é isolado de demandas democráticas, e os trabalhadores são privados de poder. (Joe Sohm / Visions of America / Universal Images Group via Getty Images)

O neoliberalismo frequentemente se esconde à vista de todos. Seus defensores raramente se identificam como neoliberais. Philip Mirowski descreveu-o como o movimento que não ousava dizer o próprio nome. Seus adeptos frequentemente sugerem que ele nunca existiu, exceto como um termo pejorativo inventado pela esquerda. Recentemente, Branko Milanovic foi além, argumentando que o neoliberalismo está morto. A era da globalização, construída sobre o cosmopolitismo e a competição internacional, deu lugar a um mundo mais protecionista e nacionalista. No entanto, o erro reside em identificar o neoliberalismo com a globalização ou o livre comércio. Esses eram instrumentos de política, não sua característica definidora. Sua marca registrada sempre foi a subordinação da política democrática à racionalidade de mercado e o isolamento institucional do capital em relação às demandas populares. Sob essa ótica, a ascensão do populismo de direita não marca o fim do neoliberalismo, mas sim uma de suas transformações mais recentes.

Milanovic tem razão ao afirmar que a velha retórica do livre comércio e da integração cosmopolita já não descreve o comportamento das grandes potências. Os Estados Unidos e a Europa agora recorrem a tarifas, subsídios, sanções, políticas industriais e controles geopolíticos com uma abertura que pareceria incomum há algumas décadas. A reação política contra a desindustrialização, a desigualdade e a crise financeira é real. Contudo, disso não se conclui que o neoliberalismo tenha chegado ao fim. É preciso ter cautela quanto ao significado dessa mudança: a verdade é que o Ocidente — e, em particular, os Estados Unidos — jamais abandonou a política industrial. Na prática, a intervenção estatal em setores estratégicos tem sido uma constante, ainda que frequentemente negada no plano do discurso.

É fundamental distinguir o neoliberalismo dos slogans sob os quais ele frequentemente se apresenta. O neoliberalismo não foi uma redescoberta da doutrina antiquada do laissez-faire do liberalismo clássico. Tampouco se trata apenas de um movimento político. Sua base analítica reside na economia neoclássica moderna — sobretudo na premissa de que os mercados são os mecanismos superiores para coordenar a vida social e de que a falha do governo é, em geral, mais perigosa do que a falha do mercado.

Essa distinção explica tanto o que é o neoliberalismo quanto a razão de sua grande longevidade. Ele consegue sobreviver ao abandono de políticas específicas — inclusive do próprio livre comércio —, desde que os mercados continuem sendo a norma pela qual se julga a ação política e o capital permaneça protegido de reivindicações democráticas.

Os neoliberais recorrem a todo tipo de subterfúgio para mascarar a natureza de suas ideias. Eles preferem se autodenominar liberais clássicos, defensores da liberdade econômica ou simplesmente realistas que compreendem o funcionamento dos mercados. Tanto Milton Friedman quanto Friedrich Hayek — os principais expoentes intelectuais do neoliberalismo — acabaram rejeitando o termo. Eles invocavam a autoridade de Adam Smith, o pai da economia, mas essa ligação com o liberalismo clássico original sempre foi tênue. Em particular, a apropriação do legado de Smith pela Escola de Chicago — com o mito do self-made man, as virtudes do empreendedor e os perigos do poder burocrático — impulsionou a ascensão do conservadorismo americano; esse é outro rótulo frequentemente rejeitado, mesmo quando Friedman atuava como conselheiro-chave de Barry Goldwater.

A velha linguagem do livre comércio e da integração cosmopolita já não descreve o comportamento das grandes potências.

The neoliberal story is simple. Society prospers when individuals are free to buy, sell, invest, and compete, while government stays out of the way. That story has been one of the most successful political narratives of the last half century. It has made privatization sound like liberation, deregulation sound like modernization, and attacks on unions sound like a defense of ordinary consumers. It has allowed enormous transfers of power and income upward to appear as the neutral outcome of impersonal market forces.

Adam Smith is often treated as neoliberalism’s patron saint. The familiar image is of Smith as the apostle of the invisible hand. But Smith’s concerns were different, rooted in his own historical experience. Smith wrote against a world of aristocratic privilege, colonial monopoly, mercantilist restrictions, and feudal remnants that impeded the rise of the bourgeoisie. His political economy was concerned with production, accumulation, and the distribution of income among social classes. Wages, profits, and rents were not simply rewards handed out by a perfectly efficient market. They were shaped by social relations, institutions, and conflict.

Smith defended commercial society because he believed that the division of labor could raise productivity and weaken old systems of privilege. But he did not provide a theory showing that markets always produce the best possible social outcome. Nor did he regard the state as inherently illegitimate. He assigned it responsibilities in infrastructure, education, justice, and defense. The liberalism of Smith’s age was, at least in part, an attack on an established order dominated by landlords, monopolists, and inherited power.

Neoliberalism is something different. It is not primarily a revolt against privilege. More often, it is a defense of new privileges attached to property, finance, corporate power, and the freedom of capital to move beyond democratic control.

The difference becomes clearer once we look at the economics behind it. Classical political economy, from Smith through David Ricardo and Karl Marx, focused on production and distribution. It asked how economies reproduce themselves, how profits and wages are divided, and how accumulation changes the social structure. It treated capitalism as a system marked by conflict between classes, even when its authors differed sharply on whether that conflict was manageable or desirable. Neoclassical economics changed the terms of the discussion. Instead of beginning with classes, production, and distribution, it began with individuals, their preferences, and choice in a world of scarcity. Prices became signals that coordinate decentralized decisions. In its idealized world, markets allocate resources efficiently because each person responds to incentives, and prices convey the information needed to guide production and consumption.

O neoliberalismo fez com que a privatização soasse como libertação, a desregulamentação como modernização e os ataques aos sindicatos como uma defesa dos consumidores comuns.

That framework did not automatically imply neoliberal politics. Much twentieth-century neoclassical economics supplied arguments for public intervention. Welfare economists accepted the marginalist framework but emphasized that markets could fail. Monopolies could distort prices, pollution could impose costs on others, public goods could be under-provided, and private investment could fall short of what society needed. From that perspective, taxes, subsidies, regulation, public investment, and social insurance could improve market outcomes. The state was not necessarily opposed to the market. It could correct the failures of markets.

The decisive neoliberal move was to reverse the presumption. The question was no longer whether markets fail. Of course they do. The question became whether governments can do any better. The Chicago School, and in particular the work of Ronald Coase and George Stigler, was instrumental for that change. They argued that political institutions are captured by special interests, bureaucrats pursue their own power, regulation is distorted by the firms it is supposed to control, and democratic demands lead to wasteful spending, inflation, and political disorder.

This also marked a shift of the Chicago School on antitrust, associated with the work by Aaron Director, Friedman’s brother-in-law, Stigler, and their disciples Robert Bork and Richard Posner, who redefined the problem of monopoly away from political power and market structure, and toward a narrow consumer-welfare standard. Big firms were no longer presumed dangerous because of concentration or power. For the Chicago antitrust school, many allegedly monopolistic practices were actually competitive, reflecting an efficient solution to market conditions. Corporations were often treated as efficient unless clear price effects could be shown, and that eventually had significant implications for antitrust policy.

The intellectual implications were clear. Even an imperfect market is usually preferable to a government trying to correct it. Regulation is better done by the corporations, and their behavior should be judged by whether prices hurt the consumer. This is the intellectual heart of neoliberalism. Its central claim is not merely that private enterprise is good or that all government intervention is bad. It is that the price system is the best available mechanism for organizing society, while collective action through democratic institutions is inherently suspect. The price system is the king.

The ideas of James M. Buchanan, another figure of the Chicago School, are central in this respect. Unlike Friedman or Hayek, who emphasized the superiority of markets and often hoped to persuade public opinion, Buchanan focused on institutional design. His objective was to create constitutional arrangements that would protect capitalism from democratic pressures regardless of electoral outcomes. Nancy MacLean argued that Buchanan’s influence in the broader neoliberal movement, the so-called public-choice school, was to design mechanisms that narrow the scope of democratic choice and limit the control over capital, basically through independent central banks, fiscal rules, and judicial protections of property. The objective was to reduce the scope of democratic institutions that could limit capital’s autonomy. The implicit idea, however, was still that markets are the best mechanism for the harmonious coordination of individual exchange interactions. That is why they had to be shielded from majority rule.

Austrian economists, the Chicago School, public-choice theorists, and law-and-economics scholars developed that claim in different ways. Some preferred formal models; others distrusted mathematical economics. Some wanted a minimal state; others wanted a state strong enough to impose competitive discipline. But they shared a basic belief: markets are the privileged form of social coordination, while politics tends to corrupt, distort, and destroy.

Hayek is particularly important in this context. His deeper argument against state intervention was that no government planner could possess the dispersed knowledge held by millions of individuals. Prices, he claimed, communicate information that no central authority could ever gather or process. The market was therefore not just efficient — it was a kind of social intelligence.

O neoliberalismo não pede que o Estado desapareça. Pede ao Estado que reorganize a sociedade para que os mercados e o capital sejam protegidos da pressão democrática.

This was a powerful idea because it gave markets an almost moral authority. To interfere with prices was not merely to alter the distribution of income. It was to disrupt a vast, spontaneous system of knowledge and coordination. Democracy could make demands, workers could organize, and voters could seek redistribution — but all such claims could be dismissed as dangerous intrusions into a process supposedly wiser than any collective political decision.

The neoliberal state was therefore never meant to be weak. This is one of the ideology’s most persistent disguises. Neoliberalism does not ask the state to disappear. It asks the state to reorganize society so that markets and capital are protected from democratic pressure. It needs courts to enforce contracts, central banks to discipline labor and control inflation, police to protect property, trade agreements to limit national policy, and international institutions to make debts enforceable.

It may oppose welfare spending, but it does not oppose public power when public power is used to rescue banks, guarantee financial assets, suppress unions, privatize public services, or open new spaces for capital accumulation. Quinn Slobodian calls this the encasement of markets. The goal is not to free markets from all institutions. It is to build institutions that place markets beyond the reach of popular sovereignty.

That is why neoliberalism has been compatible with authoritarian politics. Its first large-scale experiments did not occur in the peaceful democracies usually associated with the free market. Chile after the 1973 coup and Argentina after the 1976 coup became laboratories for privatization, deregulation, anti-labor policy, and monetary orthodoxy. The debt crisis of the 1980s then helped generalize these policies across Latin America and eventually much of the developing world.

The Washington Consensus presented this transformation as a technical necessity. Countries were told they needed fiscal discipline, trade liberalization, privatization, deregulation, and independent central banks because there was no alternative. Structural adjustment was sold as a repair job, not as a redistribution of power.

That is another reason neoliberalism has been successful politically. It converts political choices into technical questions. The issue is not whether workers should have greater bargaining power, but rather how to allow labor markets to adjust efficiently. That means eliminating the power of unions and promoting greater flexibility. The issue is not whether governments should direct credit toward housing, infrastructure, or industry, but rather whether governments know better than bankers. The issue is never whether public services are universal rights, but rather which ones are public goods that cannot be delivered efficiently by markets. The issue is not whether wealth should be taxed, but rather whether that would threaten the entrepreneurs and distort investment incentives. The effect is to make class conflict disappear. There are no longer workers and owners with competing claims on income and power. There are only individuals making choices, entrepreneurs responding to incentives, consumers maximizing welfare, and governments interfering with the self-organization process that would order things around.

The ideal citizen in this worldview is not a worker with collective interests. It is an entrepreneur, or, more precisely, a potential entrepreneur. The unemployed person is not someone failed by the economy but someone who must become more adaptable. The indebted household is not caught in a system of unequal power but must learn financial responsibility. The worker demanding higher wages becomes a threat to competitiveness. The union becomes a special interest. The welfare state becomes dependency. The entrepreneurial myth speaks to genuine frustrations. It tells people they are not powerless, even as the institutions that might give them collective power are dismantled. It promises freedom while narrowing its meaning to the freedom to compete.

This is why contemporary right-wing populism should not be mistaken for a clean break with neoliberalism. Donald Trump’s tariffs, sanctions, and attacks on globalization are often presented as a rejection of the old free-market consensus. But the underlying moral economy remains deeply neoliberal. The entrepreneur is still the hero. Government is legitimate when it protects national business, punishes foreign competitors, or clears obstacles to private accumulation. Tariffs are sold less as a challenge to markets than as a way of restoring a supposedly fair market order against cheating foreigners, bureaucrats, and global elites.

Os Estados sempre intervieram nos mercados. A questão é se a intervenção altera a hierarquia social de poder ou se apenas utiliza recursos públicos para assegurar um capitalismo mais competitivo.

The same point applies more broadly to the new industrial policy, which, one might add, was never completely abandoned in the United States or Western Europe. States may subsidize national champions, direct investment, or protect selected sectors. Yet they can still treat profitability, competitiveness, shareholder value, and private returns as the ultimate criteria of success. Protectionism is not, by itself, an alternative to neoliberalism. Nor is a larger state. States have always intervened in markets. The question is whether intervention changes the social hierarchy of power or merely uses public resources to secure a more competitive capitalism.

Two recent decisions by the Supreme Court of the United States on the independence of regulatory agencies are symbolic of neoliberalism’s persistence. One protects the appointed officials of the Federal Reserve from firing, while the other allows similar intervention in the Federal Trade Commission (FTC). The implicit assumption is that the Fed occupies a unique institutional position whose insulation from democratic politics is both desirable and necessary. The Court simultaneously expanded presidential control over agencies such as the FTC while preserving the Fed’s special status under the Federal Reserve Act.

Trump has challenged parts of the postwar administrative state, but neither the court nor much of the political establishment has questioned the privileged constitutional and ideological status of the Federal Reserve. The Court’s ruling does not simply protect the Fed. It reaffirms the neoliberal distinction between acceptable democratic intervention (over regulatory agencies) and unacceptable intervention (over monetary policy). That is a powerful indication that, despite the rise of right-wing populism, the neoliberal constitutional order has proven remarkably resilient. The court protects the Fed because monetary discipline remains central to the neoliberal institutional order, but it makes the FTC more directly subject to presidential control, undermining the agency most associated with policing corporate power. The asymmetry is revealing. Central banking is insulated from democracy, but antitrust enforcement is weakened. That is not the end of neoliberalism, but one of its mutations. The system worked to protect the institutions that discipline labor while reducing the autonomy of institutions that might discipline capital.

Right-wing populism, which emerged as a result of the success of neoliberalism, and the inability of left-of-center governments to decisively break with it in order to deal with the market failures it caused, has not abandoned the underlying logic of free markets. The underlying project was the protection of capital, the weakening of labor, and the encasement of markets against democratic control. Neoliberalism will not end merely because governments impose tariffs or because nationalist politicians denounce globalization. It will end only when states cease to treat market rationality as the primary logic of governance. It will end only when the entrepreneurial myth ceases to be the dominant mode through which people are addressed and governed. That would require pro-labor organizations, parties, unions, and civil society organizations, to acquire the structural power to contest capital. Only then, can we begin to build a society in which employment, housing, health, ecological survival, and democratic equality are not subordinated to the logic of free markets.

Colaborador

Matías Vernengo é professor de economia na Universidade Bucknell e ex-gerente sênior de pesquisa do Banco Central da Argentina. Ele é coeditor da Review of Keynesian Economics e coeditor-chefe do The New Palgrave Dictionary of Economics.

4 de julho de 2026

O declínio de 250 anos do excepcionalismo americano

O excepcionalismo americano sempre teve um caráter absurdo e interesseiro. No entanto, qualquer pretexto usado para justificá-lo ruiu diante da crueldade e da corrupção oligárquica de Donald Trump.

Nelson Lichtenstein

Jacobin

Duzentos e cinquenta anos após a fundação, com Donald Trump em seu segundo mandato como presidente, é impossível manter a ficção do "excepcionalismo americano", que se mostrou tão central para o projeto americano. (Bryan Bedder / Getty Images para a Theodore Roosevelt Presidential Library)

É impossível revisitar a Revolução Americana sem levantar a questão: aquele conflito do final do século XVIII criou um tipo de sociedade verdadeiramente novo, uma nação "excepcional" que atenuou o conflito de classes e sustentou a hegemonia capitalista por mais de 250 anos? Com ​​Donald Trump na Casa Branca e o movimento MAGA no poder em tantas frentes, será que a ideia de um "excepcionalismo americano" — que surgiu mesmo antes de os colonos empilharem seus mosquetes — acabou sendo reduzida e aviltada a pouco mais do que a crença de que o nacionalismo cristão, a supremacia branca e um capitalismo robusto e irrestrito se tornaram elementos definidores da identidade americana após 250 anos de história?

Em sua série documental de seis partes sobre a história predominantemente militar da revolução, o cineasta Ken Burns buscou subverter esse chauvinismo autocomplacente. Um grupo diversificado de estudiosos, representando uma visão abrangente — típica do século XXI — do que constitui a história política e social, ofereceu uma perspectiva desafiadoramente anti-Trump sobre aquela revolução ocorrida há 250 anos. Múltiplas vozes — incluindo as de povos indígenas, afro-americanos escravizados, legalistas britânicos e "patriotas" de diversas classes, gêneros e regiões — conferiram ao documentário de Burns uma complexidade multifacetada, muito distante das narrativas de livros didáticos e programas de TV de décadas passadas ou do revisionismo unidimensional emanado da Casa Branca contemporânea.

Assim como tantos movimentos anticoloniais de tempos mais recentes, a Revolução Americana foi uma guerra civil inserida em um contexto global, no qual cada facção e partido buscava vantagens, seja resistindo a forças mais dominantes, seja aliando-se a elas — forças que podiam ou não se revelar compatriotas leais. Os povos indígenas americanos, bem organizados em tribos politicamente sofisticadas e militarmente ativas, foram claramente os maiores perdedores durante e após o conflito, traídos em proporções quase iguais tanto pelos patriotas quanto por seus adversários britânicos. Da mesma forma, os britânicos tentaram atrair os americanos escravizados para o seu lado com promessas de liberdade futura.

A manutenção da escravidão pode não ter sido a causa principal da revolução — uma hipótese levantada pelo Projeto 1619 do New York Times —, mas a questão da escravidão americana ganhou crescente relevância à medida que a guerra se prolongava. Como observou o historiador Bernard Bailyn em um dos depoimentos, o destino da escravidão americana raramente foi objeto de debate público antes da Revolução; contudo, depois dela, não houve um ano sequer em que o tema não tenha sido motivo de controvérsia.

Um dos méritos do documentário de Burns foi apresentar George Washington como algo além de um ícone de mármore. O fato de ele ter sido proprietário de escravos, especulador imobiliário e um produto — bem como defensor — da elite colonial já vem sendo explorado por historiadores há gerações. No entanto, na qualidade de comandante do Exército Continental, a estratégia militar de Washington não diferia muito daquela adotada por insurgentes bem mais radicais que lideraram movimentos anticoloniais no século XX.

Assim como Ho Chi Minh, Ahmed Ben Bella e Fidel Castro, Washington tinha como missão principal não derrotar o exército do opressor em combate aberto, mas sim manter suas próprias forças intactas e em campo, prontas para o confronto militar caso surgisse a oportunidade. Dadas a fragilidade financeira do novo Congresso e a natureza fragmentada das milícias a partir das quais Washington precisou formar seus regimentos, essa era uma tarefa extremamente difícil, porém vital. Acredito que isso explique por que, em nossa memória patriótica convencional, o inverno que seu exército passou em Valley Forge — momento em que a desintegração da tropa era uma possibilidade real — permanece como o episódio militar emblemático da Guerra da Independência; ele é mais celebrado até mesmo do que a derrota e a captura de um exército britânico em Saratoga, em 1777, ou do que a penúltima vitória das forças francesas e americanas em Yorktown, em 1781.

No entanto, apesar de todas as novas vozes e perspectivas reunidas por Burns, seu documentário deixa intacta a visão de excepcionalismo americano. Embora a Revolução Americana tenha sido, sem dúvida, apenas uma entre tantas convulsões sociais ocorridas no final do século XVIII e início do XIX, ela permanece como a pioneira e — do ponto de vista econômico e geográfico — a mais bem-sucedida de todas. Tanto a Revolução Francesa quanto a Bolchevique foram muito mais radicais e, em diversos momentos e lugares, foram fervorosamente tomadas como modelo por aqueles que buscavam derrubar a velha ordem. Mas, independentemente da linguagem iluminada e universalista incorporada à Declaração de Independência, não creio que seu alcance teria sido tão vasto sem o desenvolvimento de uma ideologia de excepcionalismo — em graus variados, mito e realidade — que persiste, ora na direita, ora na esquerda, há 250 anos.

O surgimento do excepcionalismo americano

Havia dois aspectos nesse desenvolvimento. O primeiro era a ideia de que os homens brancos chefes de família — principalmente agricultores durante o primeiro século da nação — viviam em condições muito melhores do que seus equivalentes europeus. Essa observação estava estreitamente ligada ao argumento de que a nova nação nascera como uma república burguesa, praticamente desprovida de estruturas e ideias feudais. Sob essa perspectiva, a Revolução Americana — como argumentaria o historiador Louis Hartz em sua obra, outrora influente, The Liberal Tradition in America (1955) — não foi, de fato, uma revolução. O que ocorreu na Guerra de Independência apenas formalizou o que já era tido como certo na América do Norte inglesa.

O imigrante francês J. Hector St. John de Crèvecoeur abordou esses dois pontos já em 1782, em Letters From an American Farmer, ao escrever que a nova nação

não é composta, como na Europa, por grandes senhores que tudo possuem e por uma massa de pessoas que nada tem. Aqui não há famílias aristocráticas, nem cortes, nem reis, nem bispos, nem domínio eclesiástico, nem um poder invisível conferindo a poucos um poder muito visível; não há grandes industriais empregando milhares de pessoas, nem grandes refinamentos de luxo. Somos um povo de agricultores... animados por um espírito de iniciativa livre e irrestrita, pois cada indivíduo trabalha para si mesmo.

Essa vertente do excepcionalismo americano perdurou por um século. O presidente Thomas Jefferson via a Compra da Louisiana como uma vasta extensão de terra adequada ao cultivo por pequenos proprietários independentes — um "Império para a Liberdade". Essa ideia foi ratificada e refinada na década de 1830 por Alexis de Tocqueville, que se impressionou com os níveis relativamente elevados de igualitarismo social, produtividade econômica e mobilidade social, bem como com a força da religiosidade popular, a fragilidade do Estado central e a propensão dos americanos a formar associações voluntárias.

Na "tese da fronteira", formulada por Frederick Jackson Turner em 1893, o historiador sustentava que a contínua expansão americana em direção ao oeste, rumo a terras praticamente livres, fora o fator mais decisivo na formação do caráter excepcional da vida democrática e da cultura americanas. O fato de que as realidades sociais tão exaltadas por De Crèvecoeur, De Tocqueville e Turner eram, na verdade, formas de colonialismo de povoamento baseadas na expropriação violenta de terras e recursos dos povos nativos americanos constitui uma acusação que teria de aguardar um novo século e novos historiadores para que um acerto de contas começasse.

A tese de Turner também apresentava um lado negativo na forma como foi inicialmente formulada. No final do século XIX, a fronteira já não existia mais, e Turner — assim como figuras que iam de Teddy Roosevelt a Karl Marx — acreditava que as condições sociais e econômicas dos Estados Unidos logo se assemelhariam às das sociedades europeias marcadas pela divisão de classes. Os marxistas viam isso com bons olhos. De fato, acreditavam que, com o crescimento espantoso da indústria americana e do proletariado necessário para a sua reprodução contínua, os Estados Unidos estavam mais do que maduros para o socialismo. A nação continuava sendo excepcional, mas agora por se enquadrar na lógica de transformação econômica postulada por Marx e Friedrich Engels.

Hoje, a ideia de um excepcionalismo americano não se apresenta tanto como uma ficção útil, mas sim como um pesadelo dominante.

No prefácio de O Capital, Marx escreveu que "o país industrialmente mais desenvolvido mostra ao menos desenvolvido a imagem de seu próprio futuro". Concordando com essa visão, o marxista britânico H. M. Hyndman observou, em 1904, que "assim como a América do Norte é hoje o país mais avançado econômica e socialmente, será também o primeiro onde o socialismo encontrará expressão aberta e legal". Da mesma forma, escreveu em 1907 August Bebel, líder político dos social-democratas alemães: "Os americanos serão os primeiros a inaugurar uma república socialista".

A visão comunista do excepcionalismo americano

No início do século XX, os conflitos industriais nos Estados Unidos eram tão intensos quanto quaisquer outros na Europa; contudo, nem a consciência de classe nem o socialismo ganharam muita força. Os sindicatos eram frequentemente combativos, mas dificilmente de esquerda em qualquer sentido programático; mesmo no auge de sua popularidade, o Partido Socialista de Eugene Debs não era revolucionário nem capaz de conquistar a adesão da maioria da classe trabalhadora. Embora Werner Sombart, um acadêmico alemão de inclinação social-democrata, tivesse argumentado anteriormente que a classe trabalhadora dos EUA inevitavelmente se tornaria socialista, ele respondeu à pergunta do título de seu livro de 1906 — Por que não há socialismo nos Estados Unidos? — declarando que, no país, "todas as utopias socialistas fracassam diante do rosbife e da torta de maçã". Essa era uma formulação excessivamente simplista, e Sombart sem dúvida sabia que, tanto na Alemanha quanto nos Estados Unidos, muitos dos trabalhadores com maior consciência de classe pertenciam às camadas do proletariado altamente qualificadas e bem remuneradas.

A resposta mais sofisticada e de maior repercussão retomava a ideia de que a América nasceu burguesa; nela, o amplo sufrágio, uma população etnicamente fragmentada e uma hegemonia capitalista absoluta constituíam obstáculos ao crescimento da consciência de classe, independentemente do padrão de vida dos próprios trabalhadores. Em 1892, Engels observou que era "bastante natural que, em um país tão jovem, que jamais conheceu o feudalismo e se desenvolveu desde o início sobre uma base burguesa, os preconceitos burgueses estivessem também tão profundamente enraizados na classe trabalhadora".

Essa foi uma ideia que alguns comunistas também passaram a aceitar. Vimos que a noção de que a América era, em certo sentido, excepcional já existia desde a fundação do país, mas o conceito de "excepcionalismo americano" — aplicado à consciência e à organização da classe trabalhadora — só ganhou ampla difusão e debate nos meios radicais em 1929; isso ocorreu primeiramente em Moscou, durante um famoso conflito entre Josef Stalin e Jay Lovestone, o líder comunista americano da época.

Anos mais tarde, Lovestone se tornaria um feroz anticomunista, aliado à CIA e aos sindicalistas americanos mais conservadores. No entanto, em 1929, ele era um comunista veterano de muitas batalhas, que buscava tornar seu pequeno partido relevante para um movimento sindical bastante desgastado nos anos seguintes à Primeira Guerra Mundial. Assim, quando Stalin proclamou um "terceiro período" de militância revolucionária para o movimento comunista mundial, Lovestone opôs-se, argumentando que as condições sociais e ideológicas nos Estados Unidos davam origem a um "excepcionalismo americano". Os opositores de Lovestone, liderados por William Z. Foster — um dos líderes da Grande Greve do Aço de 1919 —, defendiam o ponto de vista oposto. Essa disputa logo agitou uma reunião da Internacional Comunista (Comintern) em Moscou, na qual Stalin condenou a "heresia do excepcionalismo americano". Quando Lovestone e sua facção retornaram aos EUA, mais tarde naquele mesmo ano, stalinistas de Moscou e Nova York já os haviam expulsado do Partido Comunista.

A explicação

Como grupo de esquerda, a influência dos "lovestoneitas" logo diminuiu, mas a expressão "excepcionalismo americano" ganhou força quando um grupo de intelectuais — todos ex-radicais familiarizados com as batalhas ideológicas da década de 1930 — passou a utilizá-la para explicar e defender a política e a cultura americanas no início da Guerra Fria. Como os Estados Unidos haviam evitado os conflitos que geraram movimentos fascistas ou comunistas de massa na Europa, dando origem ao que Arthur Schlesinger chamou de política do "centro vital" na América? A resposta parecia residir na relativa ausência de consciência de classe e do conflito que tal mentalidade poderia gerar.

Na década de 1950, Richard Hofstadter, Louis Hartz, Henry Nash Smith e tantos outros — fundadores da corrente acadêmica conhecida como "Estudos Americanos" — eram, na prática, lovestoneitas. Como escreveu Daniel Bell em sua coletânea de ensaios O Fim da Ideologia, embora ideias de transformação social ainda pudessem animar movimentos anticoloniais e anticapitalistas no Terceiro Mundo, nos Estados Unidos e em outros países industrializados que seguiram seus passos, tais ideologias radicais não tinham serventia. O mundo inteiro estava se tornando "excepcionalista".

Na década de 1960, o movimento pelos direitos civis, a Nova Esquerda e a Guerra do Vietnã abalaram profundamente essa complacência liberal. Uma interpretação consensual da história americana, como a defendida por Hartz e Hofstadter, não conseguiu resistir a uma historiografia cada vez mais voltada para as divisões geradas pela escravidão e pelo sistema Jim Crow, pela desigualdade de gênero e pelo poder bruto e a brutalidade do empreendimento capitalista, livre tanto da organização da classe trabalhadora quanto da regulamentação governamental. Em seu livro Belated Feudalism, a socióloga Karen Orren postulou que, no que diz respeito ao direito e à cultura que regiam as relações de trabalho nos Estados Unidos, as normas burguesas estiveram totalmente ausentes durante a maior parte da história americana, sendo substituídas por conceitos medievais tardios de "patrão e criado" importados da Europa.

A ideia de excepcionalismo americano não morreu, mas migrou firmemente para a direita, onde Ronald Reagan, seus sucessores e um grupo de ideólogos neoconservadores buscaram utilizar a ideologia excepcionalista para projetar o poder americano no exterior. Há menos de quinze anos, Peggy Noonan, a redatora de discursos favorita de Reagan, declarou — presumivelmente com toda a seriedade — que “a América não é excepcional por ter tentado, durante muito tempo, ser uma força para o bem no mundo; ela tenta ser uma força para o bem porque é excepcional”.

No entanto, enquanto mito social, até mesmo essa formulação conveniente ruiu diante do transacionalismo grosseiro e da corrupção oligárquica de Donald Trump. Hoje, a ideia do excepcionalismo americano não se apresenta tanto como uma ficção útil, mas sim como um pesadelo vigente. Para despertar desse domínio, precisaremos abandonar as noções que sustentaram esse mito por 250 anos e, em seu lugar, propor um universalismo radical que vincule o nosso destino ao de todo o mundo.

Colaborador

Nelson Lichtenstein é professor pesquisador na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Seu livro mais recente é A Fabulous Failure: The Clinton Presidency and the Transformation of American Capitalism.

18 de junho de 2026

Precisamos enterrar para sempre a teoria do "choque de civilizações"

A teoria desacreditada do "choque de civilizações" continua ressurgindo porque disfarça guerras sórdidas por recursos com uma roupagem pseudo-heroica. Após mais uma guerra desastrosa alimentada por tais fantasias, é hora de mudarmos o roteiro.

Robin Andersen


O presidente Donald Trump, à esquerda, e Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, durante uma reunião de gabinete na Casa Branca, em Washington, DC, na quarta-feira, 27 de maio de 2026.

Donald Trump e Pete Hegseth representam o ponto mais baixo da visão de mundo caricata que guiou os EUA em seu caminho para a guerra repetidas vezes. Foi totalmente apropriado que eles acabassem perdendo a batalha da propaganda para os vídeos iranianos de Lego. (Samuel Corum / Sipa / Bloomberg via Getty Images)

Ao longo dos anos, filósofos e teóricos lançaram grandes ideias em diversos momentos. No verão de 1993, com uma certa arrogância, Samuel Huntington articulou um grandioso modelo global em um ensaio para a influente revista Foreign Affairs, intitulado "O Choque de Civilizações?".

Foi um momento crucial após o fim da Guerra Fria, e outros celebravam o novo globalismo emergente. Mas a formulação de Huntington ganhou força como a visão ousada necessária dentro do establishment americano, embora fosse terrivelmente falha, reducionista e carente de profundidade e rigor.

Guerras catastróficas sucessivas no Oriente Médio, culminando no ataque de Donald Trump ao Irã, mostraram-nos o quão perigosas e prejudiciais essas perspectivas sobre o mundo podem ser.

Entidades isoladas

Huntington apresentou um mundo temeroso, profundamente dividido, não pela economia ou pela competição pelos mercados mundiais, mas por um termo vago e pouco elegante de sua própria autoria: “identidades civilizacionais”. Nesse mundo destinado ao conflito, ele imaginou um futuro onde as lutas entre sete ou oito “civilizações” diferentes representariam ameaças ao Ocidente.

Escrevendo sobre a obra de Huntington na revista The Nation, Edward Said observou que o conflito entre o Islã e o Ocidente consumiu “a maior parte de sua atenção”. Said também notou que Huntington se baseou fortemente na obra do “veterano orientalista” Bernard Lewis, cuja islamofobia pouco sutil era evidente no título de seu ensaio de 1990, “As Raízes da Fúria Muçulmana”.

Samuel Huntington não conseguia imaginar uma trajetória global impulsionada pela coexistência pacífica, pelos direitos humanos universais e pela cidadania global.

O acadêmico afirmou estar horrorizado com a crueza das definições de "civilizações" de Huntington, que ele apresentava como "entidades isoladas", expurgadas das muitas "correntes e contracorrentes que animam a história humana" e que, ao longo dos séculos, permitiram que elas contivessem guerras religiosas e se engajassem em processos de fertilização cruzada e compartilhamento. Perdidas em seu pensamento absolutista estavam as nuances das dinâmicas internas e a pluralidade de forças em disputa presentes em cada civilização.

É evidente que Huntington não conseguia imaginar uma trajetória global impulsionada pela coexistência pacífica, pelos direitos humanos universais e pela cidadania global. Certamente, ele não conseguia vislumbrar fusões culturais, como as da música e da culinária, que emergem especialmente onde comunidades diaspóricas se interpenetram em todo o mundo.

Um modelo profético

Huntington certamente errou ao conceber o mundo como um conjunto de campos armados em um impasse em constante evolução, com simples binarismos de bem versus mal, moderno versus atrasado, cristianismo versus islamismo. Mas o modelo tornou-se uma profecia, pois forneceu uma ferramenta útil para justificar as guerras modernas.

Após os ataques de 11 de setembro, que deveriam ter sido tratados como os atos criminosos que foram, o governo Bush optou por analisar o conflito através de uma lente huntingtoniana. George W. Bush descreveu sua “guerra ao terror” como uma “cruzada”. Era nós contra eles, a civilização contra a barbárie, em um mundo simplista de preto e branco. Em outras palavras, o Ocidente contra o Islã.

Após os ataques de 11 de setembro, o governo Bush optou por analisar o conflito através de uma lente huntingtoniana.

O mundo islâmico havia se tornado, então, um lugar mítico onde os males e as consequências do capitalismo poderiam ser armazenados. O resultado exigido por essa narrativa orientalista era a promessa de sua destruição. Somente ataques constantes através dessa divisão global seriam capazes de trazer de volta o bem-estar perdido em uma sociedade fragmentada que se tornava cada vez mais desigual, com um senso de justiça social em declínio.

As guerras americanas não são mais “vencidas”. Essas guerras se tornaram intermináveis, resultando na destruição de estados inteiros e no consequente desmantelamento do tecido da vida civil, do Iraque à Líbia. A estrutura de Huntington ainda é usada para ocultar a realidade do mundo e justificar a destruição causada pelas guerras de agressão e extração de recursos no Oriente Médio.

A política do Popeye

Tão rudimentar e simplista era "O Choque de Civilizações" que Said a comparou a um desenho animado onde Popeye e Brutus estavam sempre brigando. Mas Popeye, que veste um uniforme da Marinha dos EUA, sempre sai vitorioso, ostentando uma tatuagem de uma âncora de navio em seus antebraços musculosos.

Hoje, o Secretário de Defesa dos EUA é Pete Hegseth, um autoproclamado "guerreiro cristão" com uma visão de mundo igualmente caricata, que carrega uma tatuagem em seu bíceps direito musculoso com os dizeres "Deus Vult", que significa "Deus o quer". O chamado às armas remonta às Cruzadas e entrou para o léxico dos videogames, popularizado por Crusader Kings e outros jogos de guerra de destruição total.

Hegseth também tem uma cruz cruzada tatuada no peito e a palavra "Kafir" no torso, que significa, em seus círculos, "infiel", evidenciando sua islamofobia. Em 15 de abril, durante um culto de oração já controverso no Pentágono, Hegseth recitou solenemente o que disse ser o versículo bíblico “Ezequiel 25:17”. Na verdade, tal versículo não existia: ele havia “pegado emprestado” o texto de Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, como se fosse escritura sagrada.

A ignorância demonstrada por Pete Hegseth em relação à Bíblia, que ele alega seguir, coincide com sua incapacidade ainda maior de compreender as realidades geopolíticas.

O episódio foi igualmente absurdo e angustiante. A nova cruzada que Hegseth acredita estar liderando tirou a vida de 156 iranianos em um único ataque, a maioria crianças em idade escolar, no primeiro dia em que os militares dos EUA começaram a bombardear o Irã.

Orgulho defensivo

Desde o início, em nosso mundo moderno e interconectado, esta guerra estava fadada ao fracasso, pois seu impacto foi sentido através de dificuldades econômicas em todos os Estados Unidos. No entanto, nem Hegseth nem Donald Trump pareciam saber disso. A decisão do Irã de fechar o Estreito de Ormuz foi uma completa surpresa para a dupla belicista, embora fizesse parte da estratégia de defesa iraniana há anos.

As ameaças e os ataques de Trump e Hegseth contra o Irã carregavam o peso que absorveram através de batalhas míticas que sempre terminam em vitória americana. Frustrado com a recusa do Irã em ceder à pressão do poderio militar americano, em um ato de desespero, Trump fez uma ameaça sensacionalista nas redes sociais: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta”.

Como Said observou em 2001, é mais fácil “fazer declarações belicosas” do que compreender o que realmente enfrentamos: a interconexão de inúmeras vidas, “nossas” e “deles”. Até mesmo um ex-fabricante de sorvetes como Ben Cohen conseguia enxergar as conexões mencionadas por Said. Enquanto era preso por exigir a suspensão do fornecimento de armas a Israel, com as mãos amarradas nas costas, ele gritou: "O Congresso está pagando para bombardear crianças pobres em Gaza e financiando isso ao excluir crianças pobres do Medicaid nos EUA."

Edward Said descreveu o conceito de Huntington como um artifício, "mais adequado para reforçar o orgulho defensivo do que para uma compreensão crítica da desconcertante interdependência do nosso tempo".

Said descreveu o conceito de Huntington como um artifício, "melhor para reforçar o orgulho defensivo do que para uma compreensão crítica da desconcertante interdependência de nossa época". Com uma ignorância e belicosidade assombrosas, Trump sugeriu que a única saída para sua guerra contra o Irã era a destruição genocida de toda uma civilização.

Perder para a Lego

Ironicamente, os promotores de conflitos intermináveis ​​agora admitem, ainda que a contragosto, que a vitória do Irã reflete o declínio da hegemonia dos EUA. Como escreveu Robert Kagan, um desses defensores, no The Atlantic: “A adaptação global a um mundo pós-americano está se acelerando. A posição outrora dominante dos Estados Unidos no Golfo é apenas a primeira de muitas vítimas.”

As guerras modernas não são travadas apenas com armamento, mas também com propaganda e gestão da percepção, e anos de prolongada guerra midiática ajudaram a moldar as percepções externas e internas sobre o Irã. Os anos de sanções, pressão econômica e isolamento internacional normalizaram a visão de que o Irã era tecnologicamente atrasado e estruturalmente fraco. Mas os iranianos aprenderam que seu país é material e institucionalmente muito mais forte do que as narrativas ocidentais afirmavam há anos.

Os Estados Unidos, um país que outrora desfrutou de seu momento unipolar e hegemonia mundial, já não são a estrela-guia moral ou militar do mundo ocidental.

Os Estados Unidos, um país que outrora desfrutou do seu momento unipolar e da hegemonia mundial, já não é a Estrela do Norte moral ou militar do mundo ocidental. A imagem das liberdades americanas e do papel do país na exportação do respeito pelos direitos humanos foi completamente desmantelada pelo apoio dos EUA ao genocídio de Israel em Gaza. Os países europeus manifestaram finalmente a sua indignação depois de as forças israelitas terem violado e torturado cidadãos europeus e australianos raptados em águas internacionais, fazendo o que têm feito aos palestinianos durante anos.

Quanto à imagem e ao estatuto dos Estados Unidos a nível internacional, as paródias iranianas em vídeo Lego de Trump e da sua guerra acumularam centenas de milhões de visualizações online. Com cada anúncio falso e barulhento de um “grande” novo acordo com o Irão, imediatamente exposto como uma fantasia de louco, a imagem internacional dos EUA afunda-se a profundidades inimagináveis ​​há apenas alguns anos.

A civilização que queremos

Heather Cox Richardson chamou a nossa atenção para um discurso de formatura na Universidade de Michigan proferido pelo presidente Lyndon B. Johnson em 22 de maio de 1964. LBJ deu nome a uma nova visão para os Estados Unidos que ele chamou de “a Grande Sociedade”.

Nessa sociedade, a América exigiria o fim da pobreza e da injustiça racial e elevaria a nossa vida nacional. Cuidaria do ambiente e permitiria que todas as crianças aprendessem e crescessem, e as cidades satisfariam os nossos desejos de beleza e a nossa fome de comunidade. Olharia para o futuro, “acenando-nos para um destino onde o significado das nossas vidas corresponderia aos maravilhosos produtos do nosso trabalho”.

Quando Johnson prometeu reunir o melhor pensamento e o conhecimento mais amplo de todo o mundo para realizar este sonho, reconheceu que a procura de um Estado esclarecido teria de ser um projecto global. Mas LBJ não conseguiu cumprir as promessas que fez porque optou por não concorrer à reeleição face à oposição à Guerra do Vietname. A visão de Johnson de uma Grande Sociedade era incompatível com a sua invasão do Vietname e com a ignorância, a beligerância e o racismo que Huntington defendeu na sua tese do choque de civilizações.

A guerra e a destruição são incompatíveis com a alegria e o bem-estar, e a sua integração no pensamento dos EUA deve acabar, tal como a guerra no Irão e o genocídio em Gaza. Como salienta Richardson, temos o poder de moldar a civilização que queremos, e só se tentarmos é que os EUA emergirão como um Estado-membro global no mundo complexo e multipolar em que viveremos agora.

Colaborador

Robin Andersen é professora emérita de estudos de mídia na Fordham University. Seu último livro é The Complicit Lens: US Media Coverage of Israel’s Genocide in Gaza.

17 de maio de 2026

Uma visão moral de esquerda precisa de uma economia política que a acompanhe

A "economia para a vida" de Gustavo Petro capta algo essencial sobre a crise planetária. Transformá-la em um programa exige confrontar as estruturas que se opõem a isso.

Matías Vernengo


A Internacional Progressista, o governo colombiano e grupos de reflexão locais coorganizaram a conferência "Economy for Life", durante a qual o presidente Gustavo Petro discursou. (Federico Parra / AFP via Getty Images)

“Hoje, não se trata mais de luta de classes entre capital e trabalho, mas de uma economia que sirva à vida ou à morte.” Essa observação de Gustavo Petro foi o ponto central de uma conferência na Colômbia sobre “A Economia para a Vida”, coorganizada pela Internacional Progressista, o governo colombiano e grupos de reflexão locais. A frase, citada por muitos participantes, captura algo real sobre a crise planetária.

Mudanças climáticas, dívida externa, extrativismo, destruição ecológica, fome e guerra nos obrigam a perguntar que tipo de economia está sendo organizada e para quem. Mas também revela um perigo em grande parte do discurso progressista contemporâneo: a substituição da economia política pela linguagem moral.

Uma “economia para a vida” é um slogan convincente. Contudo, a menos que esteja atrelado aos interesses concretos dos trabalhadores, à distribuição de renda e poder e às estruturas do capitalismo global, corre o risco de se tornar vago demais para orientar políticas públicas. O neoliberalismo não tem sido uma guerra abstrata contra a vida em geral. Tem sido, mais especificamente, um regime favorável ao capital, como observou David Harvey em seu livro clássico sobre o assunto. Ele enfraqueceu o movimento operário, disciplinou a periferia, restringiu o espaço político e reorganizou a economia global em torno das exigências da acumulação de capital. Uma alternativa séria não pode ser simplesmente uma economia para a vida em abstrato. Deve ser uma economia organizada em torno dos trabalhadores.

O bem-estar social não é uma abstração moral. É a melhoria concreta das condições de vida da maioria, e a maioria são os trabalhadores. Isso é especialmente importante porque a ideologia neoliberal tem tentado consistentemente apagar os trabalhadores como categoria política. Sob o neoliberalismo, não existem trabalhadores; todos são, ou potencialmente podem se tornar, empreendedores. É um mundo de mercado, com consumidores e empreendedores, e sem relações de poder. A economia política progressista deve rejeitar essa narrativa. O sujeito central de uma ordem econômica alternativa não é o consumidor ou o empresário, mas o trabalhador.

Isso é importante porque o diagnóstico dominante sobre o estado atual das coisas é frequentemente incorreto e também exagera a fragilidade do capital. Pelo menos desde a crise financeira global de 2008, a visão dominante tem sido a de que o capitalismo neoliberal está em crise. Há uma crise social e ambiental que, de muitas maneiras, se tornou uma crise de legitimidade política, e a ordem neoliberal sofreu choques. Mas o sistema se adaptou às novas circunstâncias de forma notável, e os fundamentos do regime neoliberal permanecem surpreendentemente resilientes.

Precisamente porque o neoliberalismo conseguiu reorganizar a economia mundial, ele também criou as condições para o enfraquecimento de algumas de suas próprias estruturas econômicas.

Os mercados de trabalho permanecem disciplinados, os sindicatos são fracos e o crescimento salarial é lento. A desigualdade permanece alta. A política fiscal permanece limitada por regras políticas, muitas vezes implementadas por governos progressistas. Os bancos centrais permanecem independentes e preocupados principalmente com a inflação e o resgate de investidores. Governos progressistas, mesmo quando eleitos, muitas vezes se veem operando dentro de limites institucionais criados por governos neoliberais.

Nesse sentido, o neoliberalismo não está falhando. Ele está cumprindo grande parte daquilo para o qual foi concebido. Criou condições favoráveis ​​à acumulação de capital e manteve os trabalhadores sob controle. O aumento da desigualdade, frequentemente citado como um sinal da crise da ordem neoliberal, não é necessariamente um sinal do colapso do neoliberalismo. É, em muitos aspectos, uma evidência de seu sucesso. O mesmo pode ser dito sobre a degradação ambiental ou a crise da democracia.

Outro equívoco frequente é a comparação entre o momento atual e a crise da década de 1970. A crise da década de 1970 foi a crise do capitalismo regulado do pós-guerra, ou o que frequentemente se chama de consenso keynesiano. Foi marcada por intensos conflitos distributivos, apoiados em dois pilares que não existem mais: o poder de barganha do movimento sindical e a capacidade dos países produtores de petróleo, por meio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), de influenciar os preços globais. Observe que os Estados Unidos também eram importadores líquidos de energia naquela época. Hoje, as condições são diametralmente opostas. O movimento sindical está fraco. O poder geopolítico relativo da OPEP evaporou-se. Os Estados Unidos são agora um grande produtor de energia e um exportador líquido.

Este não é o colapso do capitalismo neoliberal da mesma forma que a década de 1970 marcou o esgotamento da ordem pós-guerra. Estas são as tensões de uma sociedade capitalista global — o que Branko Milanović chamaria de “capitalismo, só” — que já disciplinou os trabalhadores e grande parte da periferia. Mas precisamente porque o neoliberalismo conseguiu reorganizar a economia mundial, também criou as condições para o enfraquecimento de algumas de suas próprias estruturas econômicas.
Desmistificando Mitos

A ascensão da China representa uma mudança na ordem global. A China é fundamental para qualquer análise séria da nova ordem mundial que emergiu neste século. A China tornou-se o grande centro produtivo manufatureiro do mundo. Isso não foi um acidente, nem um mero milagre nacional chinês. Foi facilitado pela estratégia geopolítica e econômica dos EUA. Primeiro, por meio da abertura de Richard Nixon à China na década de 1970, depois por meio da concessão de relações comerciais normais permanentes por Bill Clinton e da adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC). O resultado é o que tem sido chamado de China 2.0.

O primeiro choque chinês envolveu a exportação de bens manufaturados de baixo custo que devastou o emprego na indústria manufatureira na maioria dos países desenvolvidos e em grande parte da periferia do mundo capitalista. O segundo é mais profundo. A China não é mais apenas uma montadora de bens de consumo simples com baixos salários. Agora, está investindo agressivamente na manufatura de alta tecnologia e alto valor agregado, incluindo veículos elétricos, baterias, painéis solares e muito mais. A China, em muitos aspectos, faz parte do centro, assim como seus pares e rivais na Europa, Japão e Estados Unidos.

Isso também exige que se questionem alguns mitos sobre as economias capitalistas avançadas. Um dos mais persistentes é o de que as economias avançadas, especialmente os Estados Unidos, abandonaram a política industrial e só recentemente a redescobriram. A redescoberta da política industrial foi alardeada por Jake Sullivan, membro do governo Biden, como parte do chamado Novo Consenso de Washington, e, mais recentemente, pelo Banco Mundial. Mas isso é em grande parte falso.

Os Estados Unidos há muito praticam a política industrial por meio do complexo militar-industrial; Fred Block o chamou de um Estado desenvolvimentista oculto que sempre forneceu apoio estratégico para tecnologias-chave. O que mudou não foi a existência da intervenção estatal, mas a narrativa ideológica. Era livre mercado para a periferia e política industrial para o centro. A ascensão da China forçou os Estados Unidos e a Europa a serem mais explícitos sobre o que fazem e sempre fizeram. Eles chutaram a escada, como sugeriu Ha-Joon Chang, repetidas vezes.

A ascensão da China mudou a geografia da manufatura global, mas não deslocou a arquitetura financeira e militar centrada nos Estados Unidos.

No entanto, e mais importante, essa transformação na produção não foi acompanhada por uma transformação equivalente em questões monetárias. A hegemonia do dólar permanece intacta. A ascensão da China mudou a geografia da manufatura global, mas não deslocou a arquitetura financeira e militar centrada nos Estados Unidos. A geografia do dinheiro tem sido mais estável do que se costuma imaginar.

Este é o ponto crucial que a maioria das análises sobre a nova ordem mundial multipolar ignora. Não se trata de uma simples transição da hegemonia americana para a chinesa. É um processo mais contraditório, no qual o poder produtivo deslocou-se significativamente para a China, enquanto o poder monetário e militar permanece organizado em torno dos Estados Unidos. Mas o capitalismo neoliberal continua no comando.

Isso é particularmente importante para a América Latina. A região está agora inserida na economia mundial numa posição periférica dupla. Comercialmente, está cada vez mais ligada à China, frequentemente através da exportação de commodities e da importação de bens manufaturados. Financeiramente e geopoliticamente, contudo, permanece subordinada ao sistema do dólar e, em última instância, ao poder dos EUA, ou à Doutrina Donroe, como foi renomeada. Os governos progressistas latino-americanos, portanto, confrontam um mundo no qual a China oferece mercados, principalmente para suas commodities; crédito, muitas vezes com condições rigorosas; investimento em infraestrutura, com muitas condições atreladas; e bens manufaturados, mas não desenvolvimento.

Essa distinção é essencial. O Sul Global não é a mesma coisa que a periferia de Raúl Prebisch. O termo Sul Global muitas vezes obscurece mais do que revela. Isso sugere uma unidade de interesses que não existe. China, Brasil, Colômbia, México, Índia e África do Sul não ocupam a mesma posição na economia mundial. Tampouco devemos presumir que laços mais profundos com a China gerem automaticamente desenvolvimento.

A China possui uma estratégia nacional, como deveria. Ela não tem interesse em promover o desenvolvimento na América Latina, ou no restante do Sul Global, aliás. Isso significa que o desenvolvimento deve ser concebido a partir da própria periferia. Deve ser orientado para os trabalhadores, reduzindo as vulnerabilidades sociais por meio da promoção da capacidade produtiva interna e a vulnerabilidade externa por meio da proteção da autonomia política. A integração Sul-Sul pode criar oportunidades, mas não é uma panaceia nem um substituto para uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Regras fiscais e austeridade

Do ponto de vista da estratégia de desenvolvimento, é crucial distinguir entre o que funcionou na prática e o que a ortodoxia prescreve. O que funcionou nos países em desenvolvimento não foi a austeridade fiscal, a liberalização financeira plena ou a estrita independência do banco central. O que funcionou, quando funcionou, foram políticas que reduziram a vulnerabilidade externa e expandiram o crescimento interno, ao mesmo tempo que reduziram a desigualdade.

Algumas dessas medidas foram aplicadas durante a Onda Rosa na região, reconhecidamente sob condições externas mais favoráveis, antes da crise financeira de 2008. Evitar dívidas em moeda estrangeira, acumular reservas internacionais, manter taxas de câmbio nominais relativamente estáveis ​​dentro de regimes flexíveis; aumentar o salário mínimo real; apoiar programas de transferência para os pobres; usar bancos públicos para promover capacidades tecnológicas nacionais; e promover políticas industriais, particularmente por meio de políticas de compras governamentais. Os controles de capital podem ajudar em algumas circunstâncias, embora sua eficácia dependa das condições institucionais e sua utilidade seja limitada em um mundo no qual o emissor da moeda global promove a abertura financeira e a desregulamentação.

Mas isso também significa que a principal batalha política é contra as regras fiscais e a austeridade. A questão não é simplesmente se os bancos centrais devem ser independentes ou se as taxas de juros devem ser um pouco mais altas ou mais baixas. Essas questões são importantes, especialmente em economias periféricas sujeitas às pressões da hegemonia do dólar e da política monetária dos EUA. Observe que a China mantém grandes reservas em dólares e não liberalizou completamente sua conta de capital. Mas a restrição mais profunda reside nas estruturas fiscais autoimpostas que impedem os governos de utilizarem o orçamento do Estado como instrumento de desenvolvimento.

O investimento público é fundamental; não existe estratégia de desenvolvimento séria sem ele.

As regras fiscais são frequentemente apresentadas como mecanismos neutros para credibilidade e estabilidade. Na prática, elas limitam a capacidade dos governos eleitos de expandir a demanda, sustentar o emprego, investir em infraestrutura e transformar a estrutura produtiva. A política fiscal não é meramente uma ferramenta para estabilização de curto prazo. Ela pode criar capacidade produtiva interna. Pode sustentar o pleno emprego e, mais importante, pode criar empregos de qualidade, apoiar os produtores nacionais e promover novas tecnologias.

Os gastos públicos podem moldar os mercados e direcionar recursos para necessidades sociais que o capital privado, por si só, não consegue suprir. A política fiscal é a base do Estado empreendedor de Mariana Mazzucato. Uma estratégia de desenvolvimento séria exige que a política fiscal seja usada não apenas para compensar os pobres, mas também para construir as bases produtivas e tecnológicas de uma sociedade mais igualitária.

Na periferia, os bancos centrais não operam isoladamente. Suas decisões são condicionadas pelo ambiente financeiro global, especialmente pela política monetária dos EUA. As altas taxas de juros nos Estados Unidos pressionam os países em desenvolvimento a manterem taxas relativamente elevadas para estabilizar as taxas de câmbio, evitar a fuga de capitais e conter a depreciação que pode ser tanto inflacionária quanto contracionista. Mas, precisamente por essa razão, a política fiscal torna-se ainda mais central. Se a política monetária é parcialmente condicionada pela hegemonia do dólar, então a disputa pelo espaço de política interna deve se concentrar em libertar a política fiscal das regras que reproduzem a austeridade.

O investimento público é fundamental. Não há estratégia de desenvolvimento séria sem ele. Nem há transição verde séria sem ele. A ideia de que os mercados irão reorganizar espontaneamente a produção em torno das necessidades sociais e ecológicas é uma das grandes ilusões do ambientalismo liberal. O desenvolvimento verde exige planejamento, coordenação e um Estado disposto a disciplinar o capital.

A autonomia política não é um fim em si mesma, mas um meio para um fim. Ela é desejável porque cria espaço para políticas que podem aumentar diretamente o poder da classe trabalhadora. Um Estado comprometido com o pleno emprego, empregos de qualidade, salários crescentes e serviços públicos mais robustos pode melhorar fundamentalmente a vida da maioria. Essas condições proporcionam não apenas segurança material, mas também maior poder de negociação para os trabalhadores, dando-lhes uma voz mais forte em seus locais de trabalho e na sociedade como um todo. É claro que esse potencial não pode ser alcançado apenas por meio de políticas de cima para baixo. Requer organização sustentada de baixo para cima para garantir que os benefícios sejam amplamente compartilhados e que as conquistas sejam politicamente duradouras.

Ideologia vs. Análise

A atual conjuntura geopolítica pode oferecer uma oportunidade para tal estratégia. Embora a ascensão da China não crie um sistema econômico alternativo da mesma forma que a União Soviética fez, a transformação da ordem global pode dar aos países periféricos e aos trabalhadores das economias avançadas maior margem de manobra. Essa margem, contudo, deve ser usada estrategicamente para reduzir a dependência externa e fortalecer a capacidade produtiva interna.

O grande perigo para a esquerda é substituir a análise pela ideologia.

Mesmo assim, é importante reconhecer os limites dessa abordagem. Fortalecer a classe trabalhadora não resolverá todos os problemas, pois desafios ambientais fundamentais persistirão, especialmente quando os interesses materiais dos trabalhadores do centro e da periferia divergirem, mesmo que o neoliberalismo seja derrotado.

Isso nos leva de volta à frase de Petro. Uma economia a serviço da vida não pode ser construída apenas por apelo moral. Ela exige o confronto com o capital e a reconstrução da força de trabalho. Exige a compreensão da hierarquia da economia mundial. Exige o reconhecimento de que o neoliberalismo não foi derrotado, que a analogia com a década de 1970 é enganosa, que a ascensão da China é real, mas parcial, e que a hegemonia do dólar permanece central.

O grande perigo para a esquerda é substituir a análise pela ideologia. É possível concordar com muitos dos objetivos da agenda da “economia para a vida” — melhores condições de vida, bens públicos, sustentabilidade ecológica, segurança alimentar, paz e dignidade humana, para citar os mais importantes — e discordar do diagnóstico que por vezes a acompanha.

O problema não é que o slogan esteja errado, mas que ele pode obscurecer o conflito central entre capital e trabalho. Falta-lhe um núcleo analítico adequado baseado na compreensão do conflito distributivo e geopolítico. Ele nomeia objetivos éticos desejáveis, mas não explica os mecanismos pelos quais o capitalismo produz desigualdade, destruição ecológica, subordinação financeira e austeridade. A tarefa, portanto, não é escolher entre urgência moral e economia política. É conectá-las.

Colaborador

Matías Vernengo é professor de economia na Universidade Bucknell e ex-gerente sênior de pesquisa do Banco Central da Argentina. É coeditor da Revista de Economia Keynesiana e coeditor-chefe do Novo Dicionário Palgrave de Economia.

28 de janeiro de 2026

Na origem do populismo: Indivíduo contra cidadão

O que mantém unida a coalizão de Donald Trump não é a coerência ideológica, mas sim uma mistura volátil de império, espetáculo e ressentimento. Compreender essas tensões ajuda a explicar tanto os sucessos quanto as fragilidades do movimento MAGA.

Uma entrevista com
John Ganz

Jacobin

As divisões na coalizão MAGA podem não ameaçar a durabilidade da política de Donald Trump, focada em sua imagem. (Manaure Quintero/AFP via Getty Images)

Uma entrevista de
Marshall Pierce

Debates recentes sobre guerra, imperialismo e violência estatal interna alimentaram especulações sobre possíveis fissuras na coalizão MAGA. Contudo, as divisões dentro do MAGA podem não representar uma ameaça séria à durabilidade da política de Donald Trump, focada em sua imagem, que abrange desde aventuras no exterior e o uso do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) até o uso confortável do poder coercitivo. Ainda assim, essas fissuras merecem atenção especial — principalmente na medida em que podem indicar oportunidades políticas.

A revista Jacobin conversou recentemente com John Ganz, autor de When the Clock Broke: Con Men, Conspiracists, and How America Cracked Up in the Early 1990s e do Unpopular Front, um boletim informativo sobre as forças sociais que mantêm a coalizão MAGA unida e onde suas contradições internas podem ser relevantes.

Marshall Pierce

Estamos aqui para discutir se rachaduras estão se formando dentro do bloco de direita contemporâneo e se essas rachaduras poderiam criar novas oportunidades políticas para a esquerda. Recentemente, houve um aumento nos comentários sobre uma possível divisão na coalizão de direita, com o ponto de conflito mais visível sendo a política externa, particularmente a recente invasão da Venezuela. Isso incomodou algumas figuras proeminentes — Candace Owens, Marjorie Taylor Greene — e levou a especulações sobre tensões crescentes dentro do movimento MAGA em geral.

Ao mesmo tempo, não me parece claro que o que estamos vendo vá resultar em uma ruptura profunda ou significativa. As pesquisas mostram uma oposição limitada à invasão da Venezuela entre os eleitores republicanos, e momentos anteriores que foram apresentados como pontos de ruptura da coalizão — a disputa entre Steve Bannon e Elon Musk ou o conflito mais recente entre Charlie Kirk e Owens — acabaram gerando mais controvérsia do que debate acalorado. O que você acha desses momentos e do discurso que os envolve?


John Ganz

Em primeiro lugar, acho importante pensar nas fissuras nos termos das próximas eleições. Alguns candidatos têm bases eleitorais ou ambições que tornam o posicionamento como anti-intervencionistas radicais politicamente vantajoso. Marjorie Taylor Greene renunciou ao cargo na Câmara dos Representantes e parece ter outras ambições — possivelmente até a presidência, por mais improvável que isso possa parecer. Thomas Massie é uma das poucas figuras que poderíamos chamar de “isolacionista” convicto, e essa não é uma posição da qual ele tenha se afastado. Portanto, há claramente setores da direita que continuam a se apegar a essa tradição isolacionista e veem vantagem política em mantê-la.

Os conflitos entre podcasters e streamers, e o drama online mais amplo que envolve esses debates, tendem a ser tanto efêmeros quanto espetaculares. Essas brigas surgem e desaparecem, e as posições envolvidas são frequentemente inconsistentes. Se você observar Nick Fuentes, verá uma distinção notável dentro de seu segmento da direita entre o intervencionismo em favor de Israel e o que seus apoiadores definiriam como uma política externa nacionalista estadunidenses. O imperialismo puro e simples não os incomoda tanto; o que eles combatem são instituições como a OTAN e a ONU — e Israel, por razões que não são particularmente admiráveis.

Por outro lado, Fuentes aplaudiu abertamente a intervenção na Venezuela. Na realidade, essa posição é coerente com uma longa tradição da direita: uma política externa soberanista ou nacionalista que não é nem pacifista nem genuinamente isolacionista. Ela favorece a aplicação unilateral do poder estadunidense, particularmente no Hemisfério Ocidental, e é preciso dizer francamente que essa tradição historicamente se mostrou muito mais confortável com o uso da força contra populações não brancas.

O que estamos vendo é uma decepção entre os eleitores que apoiaram Trump condicionalmente, e não uma crise real em sua base ideologicamente comprometida.

Em relação a esses debates de política externa que geram divisões significativas, as tensões são reais, mas limitadas. É evidente que JD Vance está tentando se posicionar para atrair um eleitorado anti-intervencionista, e divisões podem surgir nas primárias republicanas, como frequentemente acontece. Um candidato pode representar essa vertente nacionalista-soberanista, enquanto outro — alguém como Marco Rubio — tenta reabilitar uma forma de neoconservadorismo, mas um neoconservadorismo desprovido de sua retórica humanitária tradicional.

O senso comum afirma que a política externa raramente é decisiva para os eleitores estadunidenses, mas isso não é totalmente preciso. Ainda assim, eu alertaria fortemente a não depositar esperanças em fissuras dentro do núcleo ideológico do MAGA.

O desenvolvimento mais promissor, a julgar pelas pesquisas, reside nos eleitores menos comprometidos — aqueles que são instintivamente pacifistas ou céticos em relação a intervenções estrangeiras. Esses eleitores parecem cada vez mais receptivos a críticas ao intervencionismo, e temos visto uma deserção significativa entre os eleitores moderados de Trump, que veem as ações recentes como fracassos e traições, muitas vezes com um sentimento de alarme. O núcleo ideológico do MAGA, por outro lado, pode se fragmentar temporariamente, mas tende a se reestruturar. O que realmente estamos vendo é uma decepção entre os eleitores que apoiaram Trump condicionalmente, e não uma crise real de sua base ideologicamente comprometida.

Intervencionismo MAGA

Marshall Pierce

Eu também gostaria de perguntar sobre a genealogia mais longa das correntes anti-intervencionistas da direita atual. Em When the Clock Broke, você reconstrói a história do paleoconservadorismo como um precursor de Trump, mostrando como a hostilidade dos paleoconservadores ao internacionalismo liberal, às instituições de elite e à política de consenso do pós-guerra ajudou a preparar o terreno ideológico para o populismo de direita atual.

Existe também uma tradição relativamente independente do libertarianismo estadunidense que moldou a política do Tea Party e ganhou destaque público durante episódios como o impasse de Bunkerville. Em uma conversa recente com Elle Reeve, você descreveu o que chamou de “canal libertário-nazista” na política de direita contemporânea e sugeriu que o próprio libertarianismo, de certa forma, perdeu força ou foi radicalmente reconfigurado. Você poderia falar um pouco sobre como entende essa transição?

John Ganz

O chamado “caminho do libertarianismo para a extrema-direita” foi algo que muitos observadores notaram, visto que um número significativo de pessoas associadas ao libertarianismo migrou para a direita, aderindo a políticas abertamente fascistas. Há várias razões para isso. O libertarianismo estadunidense, particularmente suas variantes mais radicais, sempre foi altamente racializado. Ele também funcionou como uma corrente dissidente na política dos EUA, alienada tanto da centro-direita quanto da centro-esquerda, e, portanto, propensa a formar alianças com uma ampla gama de movimentos marginais e de oposição. Essa dinâmica tornou as guinadas à direita mais prováveis.

Existiu, e ainda existe, uma corrente de paleolibertarianismo cujas ideias e movimentos estratégicos prenunciaram aspectos do trumpismo. Essas figuras eram geralmente anti-intervencionistas com princípios mais firmes. Murray Rothbard é um bom exemplo: apesar de suas sérias falhas, sua posição mais consistente foi a oposição ao que ele chamava de “Estado de bem-estar social” estadunidense, e ele se manteve notavelmente firme em sua oposição às intervenções militares dos EUA no exterior.

Ninguém deve levar a sério a alegação de que o MAGA é um movimento pacifista ou isolacionista.

O outro lado da fórmula paleo — os paleoconservadores ou nacionalistas estadunidenses — nunca foi consistentemente pacifista. Sam Francis, por exemplo, acreditava que os Estados Unidos deveriam seguir uma política externa enérgica e unilateralista, destinada a proteger as indústrias e os grupos eleitorais associados ao que era então chamado de Nova Direita.

Essa vertente está muito mais próxima do que temos no poder hoje. Ela entende os Estados Unidos como um império concorrente entre outros impérios. Às vezes, essa perspectiva assume um caráter explicitamente racial, mas sua lógica central é geopolítica, e não doutrinária.

O domínio dessa tradição significa que o número de anti-intervencionistas genuinamente convictos na direita é bastante pequeno. Isso ficou evidente após a Venezuela, quando muitas figuras que haviam criticado intervenções anteriores rapidamente se alinharam a ela. Para sermos justos, esse padrão não é exclusivo da direita. Na política estadunidense em geral, o partido na oposição frequentemente denuncia a política externa do partido no poder, apenas para continuar com políticas semelhantes assim que assume o cargo. O que se apresenta como princípio muitas vezes se revela como partidarismo.

Em resumo, ninguém deve levar a sério a alegação de que o MAGA seja um movimento pacifista ou isolacionista. A prática por si só desmente essa ideia, mas também se trata de uma incompreensão da própria tradição. A atitude subjacente a essa tradição é a de que, se os Estados Unidos entrarem em guerra, devem lutar sem restrições. É uma tradição profundamente perturbadora, que defende que as guerras devem ser travadas contra populações inteiras — a mesma mentalidade que advogou o bombardeio dos diques no Vietnã para inundar o país e matar civis em massa.

Marshall Pierce

Isso levanta uma questão adicional sobre os resquícios do neoconservadorismo na política estadunidense atual. Em um debate recente com Ross Barkan, você apontou que os regimes fascistas clássicos nunca foram formações unificadas ou internamente coerentes; eles sempre refletiram uma amálgama desigual de conservadores do antigo regime e novos militantes de direita. Nesse sentido, os fascismos reais sempre foram permeados por contradições, em vez de serem totalmente integrados.

Gostaria que você comentasse como vê essa dinâmica se desenrolando no momento atual. Ou seja, como os elementos conservadores ou neoconservadores mais tradicionais interagem com as tendências de direita mais recentes e, em alguns aspectos, mais radicais?


John Ganz

Podemos entender boa parte disso por meio de analogias históricas. No início do século XX, havia uma corrente belicista, nacionalista e imperialista na política italiana que via no fascismo uma oportunidade para concretizar objetivos de longa data, como o irredentismo e a expansão colonial. Uma dinâmica semelhante existia na Alemanha. A Alemanha havia sido um império colonial antes da Primeira Guerra Mundial e continuou a perseguir ambições imperialistas mesmo depois de perder suas colônias.

Historicamente, o fascismo surgiu em contextos onde o hipernacionalismo e a ambição imperial já existiam, e o fascismo acelerou, absorveu ou cooptou esses elementos. [Adolf] Hitler dependia do apoio de facções militaristas dentro da política alemã, da burocracia e das forças armadas — grupos antidemocráticos e ávidos por reafirmar o poder contra a França e a Rússia, mesmo que não fossem eles próprios nacional-socialistas. Eles viam o fascismo como uma oportunidade.

A reaproximação entre neoconservadores, falcões e Trump pode ser entendida em termos semelhantes. O que emerge é uma coalizão que inclui imperialistas da velha guarda que podem não compartilhar as ambições domésticas mais radicais da ala fascista, mas que, no entanto, estão profundamente comprometidos com o expansionismo e o militarismo no exterior, ainda que de forma um tanto moderada.

Mas isso levanta uma das dimensões mais interessantes do atual debate sobre o fascismo em termos de política externa: a Itália e a Alemanha eram potências imperiais fracassadas ou de segunda linha que tentavam desafiar potências mais dominantes, e seu radicalismo se dava, em parte, por uma função de sua posição subordinada dentro da hierarquia imperial. Essa dinâmica não se aplica obviamente ao caso dos EUA.

O movimento MAGA possui um núcleo extremamente comprometido que aceita praticamente qualquer linha de propaganda e justifica quase tudo, mesmo que isso prejudique seriamente seus próprios interesses.

O que distingue o movimento MAGA é uma profunda divisão nos EUA sobre as percepções do poder imperial estadunidense. Da perspectiva das elites costeiras, liberais e intervencionistas, o império estadunidense permanece em grande parte intacto. Até o momento, a OTAN persiste, os Estados Unidos mantêm a dominância em instituições como a ONU e a OMC [Organização Mundial do Comércio] e, embora haja competição com a China, a primazia estadunidense está fundamentalmente assegurada.

Em contrapartida, outra parcela da população percebe os EUA como uma potência em declínio que precisa de redenção nacional. Aqueles que compartilham essa visão são muito mais propensos a apoiar Trump, que ecoa seu sentimento de declínio e humilhação.

Isso sugere a presença de uma base nacional que vivencia derrotas e humilhações, criando um potencial fascista latente, embora os Estados Unidos sejam hoje mais historicamente análogos a uma potência hegemônica como a Grã-Bretanha do que a um império decadente e desesperado. Compreender como os EUA estão em transição para essa nova configuração da política imperial é um problema crucial.

"Imperialismo de idiotas"

Marshall Pierce

Isso me faz lembrar de como, após a invasão da Venezuela, vimos uma onda de comentários sugerindo que o governo Trump simplesmente havia “tirado a máscara” do imperialismo estadunidense. Obviamente, havia referências explícitas à Doutrina Monroe na Estratégia de Segurança Nacional, e na esquerda esse tipo de comentário era frequentemente enquadrado por meio de comparações com teorias clássicas do imperialismo — algo como: “Trump leu Lênin falando sobre imperialismo e decidiu que gostava”. No entanto, você escreveu recentemente que o que estamos vendo hoje não se encaixa perfeitamente nas explicações marxistas clássicas do imperialismo. Você poderia reconstruir esse argumento e explicar o que considera distintivo nessa forma atual de prática imperial?

John Ganz

A teoria leninista do imperialismo baseia-se na ideia de que o capital excedente no núcleo imperial deve ser exportado para o exterior a fim de se manter lucrativo. Lênin identifica quatro características centrais do imperialismo, mas a exportação de capital é fundamental: a substituição da exportação de mercadorias pela exportação de capital é, para ele, a mudança determinante.

Trump pode ter presumido que os grandes conglomerados petrolíferos estariam ansiosos para exportar capital nessas condições, mas, na prática, eles têm se mostrado bastante relutantes em fazê-lo. No modelo leninista clássico, o capital monopolista ou financeiro — entendido como a fusão da grande indústria e do setor bancário — busca oportunidades lucrativas para investimentos no exterior. Essa dinâmica não parece se aplicar aqui.

O capital financeirizado contemporâneo, diferentemente do capital financeiro descrito por Lênin, é profundamente avesso ao investimento em capital fixo. Prefere manter-se líquido. A maioria das companhias petrolíferas hoje não está inclinada a investimentos em produção em larga escala; preferem acumular caixa e limitar a exposição. Há também tensões internas no setor: os Estados Unidos são agora um grande produtor de petróleo, e os produtores nacionais têm poucos incentivos para financiar projetos que possam prejudicar seus próprios preços. Pedir aos investidores petrolíferos estadunidenses que invistam capital na Venezuela para deprimir os preços globais é, da perspectiva deles, uma proposta irracional.

O que talvez seja mais esclarecedor é o que eu chamei, meio em tom de brincadeira, de “imperialismo amador”. Isso se refere a uma camada de empresas menores e mais especulativas — que muitas vezes têm conexões políticas dentro da administração — que não possuem as estruturas corporativas e a exposição ao mercado de ações dos grandes conglomerados. Essas empresas menores são atraídas por empreendimentos de curto prazo e alto risco: aventuras no exterior que prometem ganhos rápidos em vez de uma acumulação lenta e de longo prazo. Elas parecem mais dispostas a assumir o papel que Lênin atribuiu ao capital financeiro em sua leitura do imperialismo.

Rosa Luxemburgo também pode ser relevante aqui, pois sua teoria do imperialismo enfatiza o dumping de mercadorias em mercados externos, em vez da exportação de capital. As repetidas fantasias de Trump sobre empresas estadunidenses vendendo mercadorias no exterior se alinham mais estreitamente com sua estrutura, tornando sua obra digna de ser revisitada.

Ainda mais convincente, porém, pode ser a teoria do imperialismo de Hannah Arendt, que se baseou fortemente em Luxemburgo. Lênin entendia o imperialismo como o estágio final ou mais elevado do capitalismo, no qual os capitalistas são forçados a uma fusão com o Estado para sustentar a acumulação. Arendt, por outro lado, trata o imperialismo como o início da captura burguesa do Estado, onde a ética empresarial da expansão perpétua se torna política nacional. Essa concepção de imperialismo — como o imperativo burguês da expansão transformado em um projeto de Estado — captura muito do que estamos vendo hoje e merece mais atenção.

Temos uma massa de elites tecnológicas que são agressivamente belicistas e entusiastas do rearme e das guerras estrangeiras porque lucram com a venda de sistemas de armas e infraestrutura de vigilância.

Outra visão do imperialismo que vale a pena analisar é a de Karl Kautsky. Ridicularizado por muito tempo por sua posição, Kautsky sugeriu que as potências imperiais poderiam eventualmente cooperar, formando algo como um cartel internacional que exploraria regiões periféricas, evitando guerras destrutivas entre si. Daí surgiu uma fantasia social-democrata, derivada de [Rudolf] Hilferding, de que a crescente cooperação e socialização entre as grandes potências eventualmente tornaria possível uma transição pacífica para o socialismo, uma vez que o capitalismo já teria realizado grande parte do trabalho organizacional.

Lênin rejeitou isso de forma categórica, insistindo que as potências imperialistas inevitavelmente se voltariam umas contra as outras. Contudo, durante grande parte do período pós-guerra, a ordem global assemelhava-se mais à visão de ultraimperialismo de Kautsky: um sistema concebido para gerir conflitos entre as grandes potências através de instituições e acordos.

Obviamente, há algo de convincente na insistência de Lênin de que as rivalidades imperiais tendem ao conflito, assim como havia algo de profético na crença de Kautsky de que a cooperação imperial era possível. O que estamos vendo agora é algo como um choque entre essas duas visões de mundo, embora os mecanismos em ação possam não corresponder precisamente às expectativas de Lênin ou de Kautsky.

A governança como espetáculo

Marshall Pierce

Um dos aspectos fascinantes da invasão da Venezuela — como você mencionou — é que os principais atores da indústria petrolífera americana não parecem tão entusiasmados quanto poderíamos esperar. Por outro lado, essa reticência não parece ser compartilhada pelos eleitores republicanos: as pesquisas ainda mostram uma oposição extremamente limitada.

Você vê isso como mais um caso em que Trump implementa políticas que parecem materialmente contraproducentes — como sua política econômica — mas sem uma erosão significativa do apoio de sua base? Ou você acha que a deserção está começando a ocorrer — mesmo que não se manifeste como uma mudança drástica em dados agregados de grande escala, como o índice geral de aprovação?


John Ganz

Em primeiro lugar, o movimento MAGA possui um núcleo extremamente comprometido que aceita praticamente qualquer linha de propaganda e justifica quase tudo, mesmo a ponto de prejudicar seriamente seus próprios interesses. O desenvolvimento mais interessante — e mais promissor — reside nas margens: eleitores que não são ideologicamente comprometidos, que podem inicialmente aceitar uma narrativa, mas não estão preparados para acreditar em toda propaganda indefinidamente.

De qualquer forma, a situação na Venezuela é ambígua. Tem sido uma certa decepção para os neoconservadores, que há muito desejam a derrubada do regime e esperavam esse desfecho. Trump, no entanto, parece estar mais interessado em coerção e extorsão do que em mudança de regime.

Em última análise, acho que vale a pena analisar todo o episódio sob a perspectiva da propaganda. Como o próprio Trump provavelmente diria, a invasão da Venezuela teve um aspecto cinematográfico: impecável, taticamente impressionante e visualmente atraente. Este é o modelo que eles parecem determinados a repetir — produzir vinhetas táticas discretas que pareçam poderosas e decisivas para o seu público. É exatamente com isso que muitos reacionários estadunidenses fantasiam. É Pete Hegseth em poucas palavras: a política moldada pela estética televisiva.

A mesma lógica se aplica às recentes operações do ICE [Serviço de Imigração e Alfândega]. Grande parte da estratégia gira em torno da produção de imagens impactantes, mas imagens são difíceis de controlar. Não está claro se as imagens vindas de Minnesota beneficiaram o governo. Alguns apoiadores podem gostar de ver agentes de segurança mascarados confrontando violentamente liberais, mas a maioria das pessoas não reage positivamente a esse tipo de cena.

Isso aponta para uma ilusão central comum às mentalidades autoritárias e totalitárias: a crença de que os líderes podem fabricar imagens e prever com segurança como o público reagirá. Na realidade, a resposta do público é muito menos previsível.

Nos Estados Unidos, existe há muito tempo um eleitorado estabelecido favorável a um populismo pacifista que encara as guerras como projetos das elites e das grandes corporações.

Quanto à política externa, parece-me que qualquer ímpeto inicial conquistado pelo governo foi desperdiçado. Foi minado, primeiro, pelo episódio da Groenlândia e, depois, pela subsequente reversão dessa postura. A postura belicosa em relação à Groenlândia foi intrigante, visto que os tratados existentes com a Dinamarca e a OTAN já concedem aos Estados Unidos ampla margem de manobra naquela região. Portanto, a intimidação pareceu desnecessária.

Poderíamos ser inclinados a analisar tudo isso por uma ótica puramente materialista — mapeando frações de capital, interesses de classe e estratégias de acumulação. Mas essa abordagem, por si só, é insuficiente. Qualquer análise séria precisa levar em conta a ideologia e o espetáculo, que explicam ações que, de outra forma, seriam difíceis de compreender. A produção e a circulação de imagens não são incidentais; são essenciais para o funcionamento desse projeto político.

Aberturas populistas

Marshall Pierce

Gostaria de saber sua opinião sobre o que tudo isso pode significar para a esquerda. Uma preocupação é que, mesmo no melhor cenário possível — em que a coalizão de direita se desfaz seriamente — o beneficiário provavelmente será o que o Partido Democrata tiver a oferecer, um desenvolvimento que não se traduziria necessariamente em ganhos substanciais para a esquerda. Aliás, podemos facilmente imaginar dissidentes do MAGA sendo reabilitados como símbolos de moderação e estabilidade — uma manobra que empurra a política tradicional para a direita, não para a esquerda, sem resolver o problema mais profundo dos progressistas em relação à construção de hegemonia. Como você acha que a esquerda deveria se posicionar diante das recentes discussões sobre “divisões” e “falhas” no movimento MAGA?

John Ganz

Primeiramente, gostaria de dizer que, como alguém que trabalha dentro de uma tradição antifascista, sou profundamente cético em relação a qualquer suposta reaproximação entre direita e esquerda. Qualquer anti-imperialismo de direita, como vimos repetidamente, é insincero e leviano.

Historicamente, houve figuras na esquerda anti-imperialista que expressaram curiosidade sobre Benito Mussolini e Adolf Hitler porque se consideravam opositores do poder anglo-estadunidense. Esse instinto é, sem dúvida, assustador e indefensável.

Mas existe uma corrente mais ampla e duradoura na política estadunidense: um populismo genérico profundamente cético em relação à riqueza e à guerra, e que frequentemente entende os dois como interligados. Isso nem sempre resulta em uma análise sofisticada, e às vezes leva a conclusões equivocadas, mas há muito tempo existe nos Estados Unidos um eleitorado estabelecido favorável a um populismo pacifista que vê as guerras como projetos das elites e das grandes corporações.

Enquanto os republicanos permanecerem no poder e continuarem envolvidos em corrupção e aventuras militares, esse instinto — essa tradição, esse bloco eleitoral — torna-se novamente politicamente relevante. Os democratas já apelaram com sucesso a esse eleitorado no passado. Bernie Sanders conseguiu se comunicar eficazmente com esse grupo porque está claramente conectado a ele.

A opinião pública sobre o Oriente Médio também mudou substancialmente. Sou a última pessoa a minimizar o papel do antissemitismo na política estadunidense neste momento, mas mesmo na direita — particularmente na centro-direita — há um crescente ceticismo em relação a Israel que não se encaixa perfeitamente no antissemitismo de direita. Muitas pessoas não nutrem hostilidade contra os judeus nem têm uma visão de mundo conspiratória; elas simplesmente acreditam que a política dos EUA em relação a Israel deveria ser diferente. Essa mudança é importante.

Uma crítica genuinamente populista deveria ter como alvo o belicismo dos oligarcas da tecnologia.

Muitos eleitores apoiaram Trump porque ele se apresentou como um populista e um opositor do intervencionismo. Esse apelo não era irracional, mas é óbvio que Trump o traiu. Um candidato democrata que possa argumentar de forma convincente que Trump era um falso populista e que abandonou uma tradição existente de populismo moderado poderia plausivelmente conquistar alguns desses eleitores.

Outra dinâmica importante é o papel da IA ​​e do capital de alta tecnologia. Hoje, temos uma massa de elites tecnológicas agressivamente belicistas e entusiastas do rearme e de guerras no exterior — seja na Ucrânia, em Israel ou na Venezuela — porque lucram com a venda de sistemas de armas e infraestrutura de vigilância. Isso cria tensões na direita populista. Figuras como Steve Bannon e Nick Fuentes são abertamente hostis à direita tecnológica, enquanto JD Vance tenta ficar em cima do muro entre ambos os campos.

Isso abre uma oportunidade estratégica. Uma crítica genuinamente populista deveria ter como alvo o belicismo dos oligarcas da tecnologia. Os vilões não são necessariamente os magnatas do petróleo, mas sim as elites tecnológicas que lucram com a militarização e a vigilância interna.

Há também uma dimensão materialista nisso. Ao contrário de alguns na esquerda que descartam a IA como algo superestimado, acredito que ela impulsionará uma onda significativa de proletarização. Esse processo será doloroso e desestabilizador, mas também poderá criar condições nas quais as pessoas se tornem mais receptivas a ideias e políticas populistas de esquerda.

Esses acontecimentos sugerem uma possível abertura. Normalmente sou cético em relação às afirmações de que a esquerda pode facilmente fragmentar as coligações republicanas, mas a convergência da inteligência artificial, do militarismo tecnológico e do descontentamento populista pode estar criando as condições para tal abertura pela primeira vez em muito tempo.

Colaboradores

Marshall Pierce é doutorando em teoria política na Universidade de Chicago.

John Ganz é o autor de When the Clock Broke e escreve uma coluna mensal para a revista The Nation, além da newsletter Unpopular Front no Substack. Seus trabalhos já foram publicados no New York Times, Washington Post, New Republic, New Statesman e outras publicações.

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