29 de julho de 2026

A situação só piora para a dinastia Bolsonaro no Brasil

Após a condenação de Jair Bolsonaro por tentar derrubar a democracia brasileira, seu movimento de extrema-direita precisou encontrar um novo candidato à presidência. Seu filho Flávio assumiu o posto, mas sua campanha já está marcada por escândalos.

Olavo Passos de Souza


Um filme prestes a ser lançado, estrelado por Jim Caviezel — conhecido por seu papel em A Paixão de Cristo —, retratará o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro como o mártir supremo. No entanto, o culto à sua personalidade não parece estar ajudando seu filho Flávio em sua candidatura à presidência, que é assolada por escândalos. (Evaristo Sa / AFP via Getty Images)

Enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva faz campanha para um quarto mandato antes das eleições gerais de outubro, a direita brasileira luta para acompanhar o popular líder de esquerda do país. O vácuo político na direita, criado pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, levou muitos a questionar quem assumiria a causa bolsonarista — que continua sendo a força dominante entre os conservadores brasileiros.

Por fim, Flávio Bolsonaro — filho mais velho do ex-presidente e também um político experiente — assumiu o papel e é atualmente o principal adversário de Lula na disputa pela liderança do Brasil. No entanto, uma série de escândalos financeiros e pessoais surgidos nos últimos meses — que vão desde supostas propinas ligadas a filmes até desavenças com sua influente madrasta — abalou a candidatura do filho de Bolsonaro, levando alguns a afirmar que sua campanha está em queda livre.

Política dinástica

Em 2025, à medida que crescia a probabilidade de Jair Bolsonaro ser condenado por conspiração contra a democracia brasileira, começou a surgir a questão de quem o substituiria. Assim como Lula no lado oposto do espectro político, Bolsonaro havia passado a dominar o campo da direita no Brasil.

À medida que crescia a probabilidade de Jair Bolsonaro ser condenado sob a acusação de conspiração contra a democracia brasileira, começou a surgir a questão de quem o substituiria.

O Partido Liberal (PL), adotado por Bolsonaro durante sua presidência e rapidamente moldado à sua imagem populista e de caráter quase fascista, tornou-se o principal partido de direita do Brasil. Ele eclipsou o neoliberal (e de nome confuso) Partido Social Democrata, deslocando a política brasileira do centro em direção à extrema-direita.

Hoje, o Partido Liberal está entre os maiores do Brasil, contando com o maior número de senadores e o segundo maior número de deputados, sem falar em milhares de prefeitos e representantes locais. Seus candidatos defendem uma plataforma evangélica, autoritária e reacionária, que dilui as fronteiras entre Estado e religião, bem como entre interesses privados e públicos. Nesses círculos, Bolsonaro é visto mais como uma figura paterna do que como um líder político convencional.

No entanto, durante muitos meses, o favorito para substituir Bolsonaro não era membro do Partido Liberal. A escolha esperada era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, figura que conseguiu se posicionar como uma opção mais moderada e palatável. Isso não se devia a qualquer moderação real de sua parte — Freitas é um conhecido populista de direita, envolvido em suas próprias controvérsias —, mas simplesmente ao fato de não estar vinculado aos inúmeros escândalos que assolaram Bolsonaro e seus principais aliados políticos.

Ao se apresentar como um direitista menos polêmico e mais pragmático, Tarcísio remetia à campanha presidencial fracassada de Ron DeSantis, o político da Flórida que tentou se colocar como a alternativa republicana mais sensata a Donald Trump.

Filho de seu pai

No final, e para surpresa de muitos — inclusive de Tarcísio —, Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de Jair e senador por direito próprio, anunciou sua candidatura pela legenda do Partido Liberal, após supostamente consultar seu pai, que se encontra preso. O anúncio colocou Flávio na posição de sucessor ou, mais precisamente, de substituto (já que a influência de seu pai certamente pairaria sobre sua eventual gestão). Também frustrou imediatamente as expectativas de Tarcísio, que prontamente anunciou, em vez disso, sua campanha à reeleição para o governo de São Paulo.

Mais do que uma decisão partidária, a escolha de Bolsonaro pelo próprio filho demonstra que o ex-presidente deseja, acima de tudo, manter a liderança da direita brasileira sob seu controle. Contudo, Flávio Bolsonaro não é uma cópia fiel de seu pai.

Apesar de ser um defensor fervoroso do legado de seu pai, Flávio é conhecido como o mais "respeitável" dos três irmãos Bolsonaro.

Enquanto seu pai tem um longo histórico de grosseria e de proferir insultos — o que o tornou amado por alguns e odiado por muitos —, Flávio tem fama de ser educado e pragmático. Ele é conhecido por trabalhar bem até mesmo com rivais do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, quando isso é necessário para aprovar leis.

Ele é tão de direita quanto o pai e defende muitas das teses reacionárias sobre a histórica ditadura militar e a eleição de 2022 — a qual apoiadores de Bolsonaro alegam falsamente ter sido roubada por Lula. No entanto, apesar de ser um defensor fervoroso do legado do pai, Flávio é visto como o mais "respeitável" dos três irmãos Bolsonaro e parece determinado a construir sua própria imagem pública.

Sua campanha já havia sido prejudicada pela alta na popularidade de Lula no início deste ano. Agora, enfrenta grandes reveses, todos ligados à sua própria família.

Parentes que causam constrangimento

A imagem polida e calculada de Flávio contrasta fortemente com a de seu irmão mais novo, Eduardo. Atualmente residindo nos Estados Unidos, Eduardo assemelha-se muito mais ao pai em sua postura, sendo conhecido por seus desabafos na internet e por suas diatribes repletas de ofensas contra aqueles que se opõem à família.

A persona bem-cuidada e calculada de Flávio contrasta fortemente com a de seu irmão mais novo, Eduardo.

Principal porta-voz e redator de discursos do ex-presidente, Eduardo é um propagandista talentoso que passou os últimos anos no circuito de palestras conservadoras pregando sobre a suposta perseguição à sua família, as tendências ditatoriais do Judiciário brasileiro e os perigos do marxismo cultural. Figura com laços estreitos com a mídia de direita dos EUA, Eduardo Bolsonaro licenciou-se do cargo de deputado federal para viver nos Estados Unidos no início de 2025.

Desde então, ele lidera o lobby antibrasileiro na política dos EUA a partir dessa posição, trabalhando arduamente para sabotar o governo brasileiro por todos os meios possíveis. Em julho de 2025, ele reivindicou parte do crédito pela decisão de Trump de impor tarifas ao Brasil — uma medida justificada com base no tratamento dispensado a Jair Bolsonaro.

No entanto, a atuação de Eduardo gerou uma enorme reação negativa dentro do Brasil. Além de criar um efeito de "união em torno da bandeira" — fortalecendo a posição de Lula nas pesquisas num momento em que o presidente enfrentava seu pior índice de popularidade —, a atitude provocou ampla condenação à família Bolsonaro por parte de todo o espectro político brasileiro.

Desde então, Eduardo teve seu mandato de deputado federal cassado devido à sua longa ausência. Em junho deste ano, ele foi condenado por tentar obstruir a justiça e o julgamento de seu pai por meio de sua atuação de lobby. Eduardo rapidamente rotulou as autoridades brasileiras de "Gestapo" e solicitou asilo político ao governo dos EUA. O pedido foi prontamente concedido — em contraste com a forma como a administração Trump trata refugiados genuínos — e ele agora possui um green card.

As atitudes de Eduardo prejudicaram consideravelmente a imagem de seu irmão como candidato à presidência. Seu envolvimento nas tarifas impostas ao Brasil manchou significativamente o nome Bolsonaro e, com o anúncio pelos Estados Unidos de uma tarifa adicional de 25% sobre todos os produtos brasileiros em julho, a questão permanece viva na memória de todos os brasileiros.

Produzindo filmes

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro também se viu envolvido em um escândalo bancário bizarro. Mensagens vazadas entre Flávio e o banqueiro brasileiro Daniel Vorcaro mostram o político solicitando quase 25 milhões de dólares para ajudar a financiar seu projeto cinematográfico, Dark Horse.

Mensagens vazadas entre Flávio e o banqueiro brasileiro Daniel Vorcaro mostram o político solicitando quase 25 milhões de dólares para ajudar a financiar seu projeto cinematográfico, Dark Horse.

O filme é uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos, estrelada pelo ator americano Jim Caviezel — anteriormente mais conhecido por interpretar Jesus em A Paixão de Cristo — no papel de Jair Bolsonaro. A obra ainda não foi lançada, mas já gera muita discussão entre o público brasileiro quanto às escolhas do elenco e ao seu caráter presumivelmente propagandístico.

Vorcaro, chefe do Master Bank, está atualmente sob investigação por um grande e amplamente divulgado escândalo de fraude bancária. A origem dos recursos transferidos para o financiamento do filme — uma transferência inicialmente negada por todas as partes envolvidas — tem sido alvo de intenso escrutínio, sem falar na questão da adequação ética de um senador em exercício receber tal quantia.

As mensagens vazadas revelaram laços estreitos entre Flávio e Vorcaro, indicando um longo histórico de comunicação entre ambos. À medida que a investigação sobre o banqueiro prossegue, novas revelações podem surgir.

O Master Bank é uma instituição muito popular, especialmente entre a classe trabalhadora brasileira, e o caso atraiu grande atenção pública, transformando Vorcaro rapidamente em uma figura execrada. As mensagens de Bolsonaro, nas quais ele pede a Vorcaro que cubra despesas e se refere a ele como "irmão", não ajudaram a melhorar sua imagem perante o público.

A família tem o hábito de fazer campanha com base em plataformas anticorrupção, apesar de estar cercada por seus próprios escândalos de corrupção; a campanha de Flávio não é diferente, lançando acusações de corrupção grave contra Lula e o PT. O escândalo do Master Bank tornou impossível para o filho de Bolsonaro fazer campanha com essa bandeira sem atrair acusações de hipocrisia.

No entanto, isso não o impediu de tentar. Em um comício recente, Flávio apareceu vestindo uma camiseta com a frase "O Pix é do Bolsonaro, a Master é do Lula", tentando reivindicar o crédito pelo popular sistema de pagamento direto e sem dinheiro em espécie utilizado no Brasil, ao mesmo tempo em que atribuía a Lula a culpa pelo escândalo da Master. Parece pouco provável que tal retórica surta efeito, mas há pouco mais que Flávio possa fazer para se distanciar desse escândalo em curso.

Desavença familiar

Além de tudo isso, Flávio protagonizou recentemente um desentendimento público com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, em uma disputa familiar que ameaça dividir a base eleitoral bolsonarista. Michelle ganhou destaque durante o período em que foi primeira-dama. Ela é uma voz conservadora influente entre as mulheres brasileiras e preside o segmento feminino do Partido Liberal, coordenando a campanha de diversas candidatas conservadoras.

Flávio protagonizou recentemente um desentendimento público com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, em uma disputa familiar que ameaça dividir a base eleitoral bolsonarista.

Há muito se sabe que Michelle nutre ambições políticas maiores. Ela não apenas é popular entre o eleitorado feminino — público-alvo específico de suas campanhas —, mas também mantém fortes laços com o poderoso movimento evangélico no Brasil. Após a prisão e a condenação de Jair Bolsonaro, ela chegou a ser cogitada como possível substituta dele, antes que o nome de Flávio, mais experiente, fosse escolhido.

Nos últimos anos, houve diversos relatos de conflitos entre Michelle e seus enteados; estes alegavam que ela não tinha experiência e interferia em áreas fora de sua alçada. Recentemente, essa disputa se intensificou em torno de uma possível aliança política que Michelle criticou, classificando-a como "incompatível com os interesses da direita brasileira".

Antes, essas desavenças ocorriam a portas fechadas, mas Michelle decidiu trazê-las a público ao divulgar, em 25 de junho, um vídeo de vinte e sete minutos no qual relata os desentendimentos com Flávio Bolsonaro e os motivos do conflito com os irmãos dele. Ao longo do vídeo, ela desferiu diversos ataques passivo-agressivos contra o candidato de seu partido.

Apresentando o vídeo como uma mensagem a todas as "mulheres de bem" do Brasil, Michelle posicionou-se como defensora das mulheres conservadoras em âmbito nacional, exaltando sua "força delicada". Sua linguagem enfatizava a lealdade ao líder (Bolsonaro); ela argumentou que sempre atuou sob instruções diretas e com o aval total do marido.

Ela afirmou que eram Flávio e outros membros do Partido Liberal que agiam contra os interesses da direita brasileira e instou Flávio a parar de falar sobre ela, sugerindo que as fofocas na internet estavam afetando o bem-estar de sua filha.

Com esse vídeo, amplamente divulgado e analisado, Michelle criou uma ruptura pública evidente entre ela (e, por extensão, seus seguidores) e Flávio Bolsonaro. Sua influência nos meios evangélicos, sua retórica notável, a ligação direta com Bolsonaro e seu histórico (até o momento) ilibado fazem de seus ataques a Flávio um golpe devastador para a campanha dele.

Isso pode indicar o desejo dela de, futuramente, liderar o movimento bolsonarista, bem como de se distanciar do que pode muito bem vir a ser um projeto eleitoral fadado ao fracasso.

Por um fio

Apesar de estar cercado por escândalos, Flávio Bolsonaro continua à frente da candidatura do Partido Liberal à presidência. Não há outros candidatos que cheguem sequer perto dos seus índices de intenção de voto ou dos de Lula (todos os demais candidatos estão abaixo de 10%, enquanto Flávio e Lula oscilam em torno da marca de 40%). Isso significa que a única esperança da direita brasileira de recuperar a presidência reside na campanha cambaleante de Flávio.

Em conformidade com a legislação eleitoral brasileira, as convenções nacionais estão sendo realizadas durante a última semana de julho e a primeira semana de agosto. É nessas convenções, realizadas separadamente pelos diretórios estaduais do partido, que os pré-candidatos são geralmente confirmados pelos delegados partidários. Vale ressaltar que Flávio chegou a esse momento sem ter definido um candidato a vice — algo que praticamente todos os outros principais candidatos já haviam providenciado. Isso pode ser um sinal de que figuras de destaque da direita e do centro brasileiros estão tentando se distanciar de sua campanha.

Nada será oficial até a conclusão dessas convenções separadas, no início de agosto, mas as esperanças presidenciais de Bolsonaro estão por um fio. Embora a remoção dele da chapa fosse algo inédito, coisas muito mais inusitadas já aconteceram na política brasileira. Com a investigação do Master Bank prevista para se prolongar, ele ainda pode se tornar o terceiro membro da família Bolsonaro a enfrentar as consequências jurídicas de seus atos.

Colaborador

Olavo Passos de Souza é doutorando em História na Universidade de Stanford.

Em defesa dos direitos fundamentais e da democracia

Não se trata apenas da perseguição contra a única mulher eleita e reeleita, trata-se da tentativa de excluir da vida política uma liderança escolhida democraticamente

Não busco privilégios nem exceções; exijo apenas aquilo que todo cidadão tem o direito de esperar, um julgamento imparcial

Cristina Fernández de Kirchner
Ex-presidenta da República Argentina


A democracia não se esgota na realização periódica de eleições. Ela depende, acima de tudo, da existência de instituições capazes de garantir que a vontade popular possa se manifestar livremente. Entre essas instituições, nenhuma desempenha papel mais decisivo do que o Poder Judiciário. Quando a Justiça deixa de atuar como garantidora dos direitos fundamentais e passa a interferir na disputa política, a democracia se esvazia.

As violações de direitos humanos de que sou vítima transcendem minha situação pessoal. Elas revelam um problema institucional que precisa ser enfrentado. Ao longo dos últimos anos, fui submetida a um processo marcado por arbitrariedades incompatíveis com os princípios do devido processo legal e por um ambiente de hostilidade que também expressa o machismo estrutural ainda presente em setores do sistema de justiça argentino. Soma-se a isso o atentado que sofri em 1º de setembro de 2022, um episódio de extrema gravidade que colocou minha vida em risco e evidenciou até que ponto a violência política pode ameaçar a convivência democrática.

A ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner gesticula da sacada de sua casa 12.jun.26 - ALESSIA MACCIONI/REUTERS

Não se trata apenas da perseguição contra a única mulher eleita e reeleita para exercer a Presidência da República Argentina. Trata-se da tentativa de excluir da vida política uma liderança escolhida democraticamente por milhões de cidadãos. Quando isso acontece, a violação deixa de atingir apenas quem ocupa o banco dos réus. Ela alcança o direito político de cada eleitor de escolher livremente seus representantes.

A proscrição perpétua de um líder político mediante a manipulação do sistema de justiça constitui uma das formas mais sofisticadas de erosão democrática do nosso tempo. Não há tanques nas ruas nem fechamento do Congresso. As instituições permanecem formalmente em funcionamento. Mas, pouco a pouco, o espaço da soberania popular vai sendo substituído por decisões judiciais que acabam definindo quem pode ou não participar da disputa política.

Esse fenômeno não conhece fronteiras nem ideologias. Em maior ou menor medida, pode ser observado em diferentes continentes. Mudam os países, mudam os protagonistas e mudam as circunstâncias, mas permanece a mesma lógica: transformar o direito em um instrumento para eliminar adversários políticos. O resultado é o enfraquecimento da confiança pública nas instituições e a deterioração progressiva das democracias constitucionais.

Foi precisamente por compreender que essa discussão ultrapassa as fronteiras argentinas que decidi apresentar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas. O recurso a uma instância internacional não traduz mera inconformidade com decisões judiciais. Submeterei ao escrutínio do Direito Internacional dos Direitos Humanos a atuação daqueles que conduziram meu julgamento, a fim de verificar se foram respeitadas as garantias previstas no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, tratado incorporado à ordem jurídica argentina com hierarquia constitucional.

Para conduzir essa etapa internacional da minha defesa, convidei dois juristas estrangeiros de reconhecida autoridade: Rafael Valim, prestigiado jurista brasileiro com destacada atuação perante tribunais internacionais, e Javier Borrego, ex-juiz do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. A participação de ambos expressa a convicção de que o debate jurídico deve ser elevado ao plano dos padrões universais de proteção da dignidade humana.

Não busco privilégios nem exceções. Exijo apenas aquilo que todo cidadão tem o direito de esperar: um julgamento imparcial, independente e compatível com as garantias internacionais assumidas pelo próprio Estado argentino.

Continuarei defendendo minha inocência com todos os instrumentos que o Estado de Direito coloca à disposição dos cidadãos. Faço isso por mim, mas também por todos aqueles que acreditam que nenhuma democracia permanece íntegra quando a Justiça deixa de proteger direitos para passar a decidir o destino da política.

Defender as garantias fundamentais nunca é um ato individual. É defender o direito de toda uma sociedade de permanecer verdadeiramente livre.

Como reindustrializar a América

Argumentos a favor de um Fundo de Investimento Estratégico

Jake Sullivan

Foreign Affairs

Na linha de montagem de uma fábrica de peças para veículos elétricos em St. Clair, Michigan, março de 2025
Rebecca Cook / Reuters

Por mais de um século, a capacidade inigualável dos Estados Unidos de inventar, construir e disseminar tecnologia sustentou sua prosperidade e seu poder. Essa base está agora sob pressão em uma nova era de competição impulsionada pelo Estado. Os economistas David Autor e David Dorn alertaram para um "segundo choque da China" — não decorrente de exportações baratas, mas da supremacia tecnológica. Pequim disputa a liderança global na fronteira das indústrias de ponta, incluindo inteligência artificial, computação quântica, aeroespacial, energia de nova geração e biotecnologia.

O país alcançou esse patamar ao construir um sistema vasto e descentralizado de financiamento à inovação com apoio estatal, canalizando capital subsidiado para setores prioritários de alta tecnologia e incentivando as empresas a competir agressivamente por escala. O resultado é um mercado sistematicamente distorcido pela intervenção estatal, no qual empresas chinesas podem criar capacidade excedente e inundar os mercados antes que concorrentes americanos e aliados consigam ampliar sua produção. A estratégia da China criou um ecossistema tecnológico que agora rivaliza com o dos Estados Unidos — e, em algumas áreas, o supera.

Pequim também utilizou essa abordagem para assumir o controle de cadeias de suprimentos críticas, explorando esse controle para pressionar seus rivais geopolíticos. Em 2010, a China cortou as exportações de terras raras para o Japão durante uma disputa diplomática sobre ilhas no Mar da China Oriental. Quinze anos depois, durante uma guerra comercial com os Estados Unidos, restringiu o fornecimento desses insumos para obter vantagem, levando o presidente americano Donald Trump a reduzir tarifas de três dígitos sobre produtos chineses. Para a China, a capacidade industrial tornou-se uma ferramenta tanto de coerção quanto de competitividade.

Enquanto a China construía sua força industrial, os Estados Unidos permitiam que grande parte de sua base produtiva migrasse para o exterior. Por algumas décadas, essa mudança pareceu acarretar poucos custos estratégicos. Os EUA permaneceram como o principal centro mundial de pesquisa e invenção, mesmo com a queda no emprego industrial e a expansão das cadeias de suprimentos por vários continentes. No entanto, os custos de separar a inovação da produção são agora elevados demais para serem ignorados. À medida que as fábricas se transferiram para o exterior, os Estados Unidos perderam grande parte de sua mão de obra qualificada e a expertise necessária para produzir com velocidade e em larga escala. Se não mudar de rumo, o país poderá ceder sua vantagem tecnológica e, com o tempo, sua liderança global mais ampla à China.

Para evitar a erosão daquilo que Alexander Hamilton chamou de "elementos essenciais do suprimento nacional", os Estados Unidos precisam revitalizar os ecossistemas que permitem o florescimento de uma indústria de manufatura complexa e de alto valor agregado. Em suma, a América precisa se tornar mais eficiente na fabricação daquilo que projeta.

No entanto, Washington não deve tentar copiar integralmente a estratégia de Pequim, fortemente apoiada pelo Estado. Afinal, os Estados Unidos dispõem de inúmeras vantagens em relação à China, incluindo seus empreendedores, universidades e mercados de capitais — os mais profundos e robustos do mundo. Contudo, esses mercados priorizam a eficiência, e não a resiliência ou a segurança. O desafio, portanto, consiste em transformar capital em capacidade e canalizar investimentos para os setores que sustentam a força nacional moderna e a vitalidade econômica: computação avançada, biotecnologia, robótica, minerais críticos, precursores farmacêuticos, manufatura avançada e a infraestrutura fundamental do setor elétrico. A solução reside em uma iniciativa nacional ambiciosa de investimento estratégico, tendo como peça central um Fundo de Investimento Estratégico federal.

PAIS FUNDADORES

Desde a sua fundação, os Estados Unidos trataram as finanças como um instrumento de soberania. Em seu Relatório sobre Manufaturas apresentado ao Congresso em 1791, Hamilton argumentou que a independência econômica era indissociável da independência política. A jovem república, segundo ele, deveria utilizar o crédito público para fomentar a indústria produtiva e fortalecer a nação. Hamilton idealizou um modelo pragmático de capitalismo impulsionado pelo Estado, no qual empréstimos e subsídios estimulavam indústrias nascentes, tarifas protegiam setores estratégicos e instituições públicas canalizavam capital para objetivos nacionais de longo prazo. Sempre que os Estados Unidos enfrentaram desafios existenciais, seus líderes recorreram à lógica de Hamilton.

Quando os mercados de crédito paralisaram durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, a Reconstruction Finance Corporation (RFC), criada em 1932, supriu essa lacuna e atuou como investidora estratégica, financiando bancos, serviços de utilidade pública, habitação e manufatura, gerando retornos e restaurando a confiança nos mercados americanos. Sua subsidiária voltada para o esforço de guerra, a Defense Plant Corporation (DPC), construiu mais de 2.000 fábricas e estaleiros — posteriormente transferidos para operadores privados —, lançando as bases para a hegemonia americana no pós-guerra nos setores siderúrgico, de aviação e químico.

A DPC encerrou suas atividades com o fim da guerra e a RFC foi desativada em 1957; no entanto, com seus balanços independentes e gestão empresarial profissional, elas serviram de modelo para o que poderia ser um aparato responsável de investimento público. Elas demonstraram que o capital público aplicado de forma eficaz pode ser utilizado para investir em indústrias importantes que o capital privado não tem disposição ou capacidade de financiar sozinho.

Washington não deve tentar copiar integralmente a cartilha de Pequim apoiada pelo Estado.

Durante a Guerra Fria, Washington criou uma rede de novas instituições que aliava a ambição científica a objetivos estratégicos, na busca por vantagens sobre a União Soviética. A criação da DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), da NASA, da Comissão de Energia Atômica e dos laboratórios nacionais refletia a compreensão, por parte de Washington, de que a competição geopolítica exigia investimentos públicos contínuos.

A estratégia funcionou. As primeiras aquisições de semicondutores para os setores de defesa e espacial geraram a demanda que, com o tempo, tornou a produção dessa tecnologia mais barata e eficiente. O programa Minuteman, da Força Aérea dos EUA, e as missões Apollo, da NASA, adquiriram milhares de chips em um momento em que não havia compradores do setor privado. À medida que a demanda governamental aumentava e os custos caíam, consolidou-se um ecossistema comercial norte-americano de semicondutores. A Fairchild foi fundada em 1957, seguida pela Intel e pela AMD na década de 1960, e pela Micron na década de 1970. Empresas de tecnologia já estabelecidas, como a Texas Instruments e a Motorola, expandiram suas operações de semicondutores para incluir aplicações militares e comerciais.

No entanto, em meados da década de 1970, o consenso político e econômico mais amplo, que apoiava uma atuação federal abrangente no desenvolvimento industrial, começou a enfraquecer. A inflação, os choques energéticos e a consequente pressão fiscal minaram a confiança pública na capacidade do governo de desempenhar um papel construtivo na economia. Firmou-se em Washington um novo consenso de que os mercados — mais ágeis e disciplinados do que as burocracias públicas — eram a única ferramenta eficaz para a alocação de capital.

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, o papel de Washington restringiu-se de investidor a regulador. Se antes o governo ajudava a construir indústrias, passou a limitar-se a definir as regras da concorrência de mercado por meio de legislações antitruste e normas de transparência. Agências como os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e a DARPA mantiveram sua relevância durante a liberalização de mercado da era Reagan e o período de disciplina fiscal e integração global da administração Clinton; contudo, os elos de ligação entre pesquisa, financiamento e produção sofreram atrofia. Foi apenas nas três primeiras décadas do século XXI que essa conexão começou a ser restabelecida.

INVESTMENT WITH CHINESE CHARACTERISTICS

A generation after the first China shock hollowed out America’s manufacturing base, a second one is underway. In the twenty-first century, Beijing has made technological leadership a national project, mobilizing finance, procurement, and policy to pursue commanding positions in frontier industries.

China has built a comprehensive system of state-guided investment that blends central strategy with decentralized experimentation. Provinces, cities, and national ministries have created more than 1,700 “guidance funds,” raising nearly $700 billion in capital. With the support of government-provided land and permits, these professionally managed, profit-seeking vehicles direct equity into priority sectors. The approach has generated immense duplication and waste, but it has also produced national champions able to globally dominate their industries, such as the battery manufacturer CATL, the solar technology producer LONGi, the drone producer DJI, and telecommunications giant Huawei. At the same time, China is converting the knowledge generated in the manufacture of these products into gains at the innovation frontier, including in industries the United States has traditionally dominated, such as biotechnology.

The Chinese system extends beyond financing supply. It also creates demand. National and municipal authorities have created new markets through a blend of subsidies, procurement, and regulation. Take Shenzhen’s promotion of electric vehicles. By mandating the electrification of its bus and taxi fleets, the city gave BYD, then an emerging EV maker, guaranteed demand, stable cash flow, and real-world feedback that private markets could not provide on their own. An industrial EV commons soon bloomed. Battery and electronics suppliers clustered around BYD, city and grid companies built charging and testing infrastructure, and local universities produced a steady pipeline of EV engineers and technicians. BYD has since surpassed Tesla in global unit sales, and China has overtaken Japan as the world’s largest auto exporter.

Beijing has embraced a lesson the United States, during its competition with the Soviet Union, understood well: technological leadership depends not only on invention, but also on industrial power. China has adapted that logic to its own political system, replacing the U.S. public investment–private enterprise partnership with its party-state capitalist model.

BRAWN DRAIN

For much of the twentieth century, the United States, blessed with vast natural resources, built the world’s most formidable industrial base, its “arsenal of democracy.” But recent crises have exposed how thin the nation’s capacity to build has become. The world relies on Taiwan for production of the most advanced chips, a single and fragile point of failure. In pharmaceuticals, nearly 700 U.S.-approved medicines, including critical drugs such as antibiotics, depend on at least one chemical produced solely in China. China also dominates rare-earth and graphite refining, essential for the magnets and batteries that power defense and clean energy systems. A scarcity of American dry docks limits naval readiness, and a dependence on imported power transformers has slowed upgrades to the national power grid and left it vulnerable to prolonged outages.

While China builds tightly clustered ecosystems where suppliers, materials, and manufacturing move seamlessly from design to mass production, the United States has allowed its “electric tech stack”—the linked supply chains for critical minerals, batteries, power electronics, and chips—to drift offshore, weakening industrial learning and depth.

MIT’s Task Force on Production in the Innovation Economy has demonstrated that in complex, high-value industries, innovation depends on proximity between design and production. When manufacturing migrates abroad, the feedback loops between engineers and factory floors break down and innovation suffers. Reindustrialization, done right, is a precondition for renewing the United States’ inventive edge and the foundation of its strategic strength.

CAPITAL CONSTRAINTS

The United States commands the world’s most sophisticated capital markets, but they are optimized for fields in which revenue can be easily underwritten and risk can be diversified, where feedback is quick and failure is relatively inexpensive. The investments required for American reindustrialization, however, do not necessarily fit that mold. Three main financial hurdles stand in the way.

First, some strategic industrial sectors depend on conditions that private markets cannot reliably provide or price. Nuclear plants, semiconductor fabs, shipyards, transformer factories, and rare-earth refineries require considerable upfront capital, decades-long horizons for return on investment, policy stability, and confidence in long-term demand. A shift in tariffs, procurement rules, grid standards, or commodity prices can erase returns overnight. The rational response for investors is to wait and see before committing to large outlays of capital. From each investor’s standpoint, that caution is prudent, but at the societal level, it leads to underinvestment. Government policy can change that equation. When the state provides some certainty with long-term offtake contracts, stable regulations, or guaranteed price floors, it gives investors the predictability they need, and private capital follows.

Next, research by the Production in the Innovation Economy Task Force has shown that the United States faces a financing gap in the “scale up” stage between venture funding and public markets, when promising technologies must move from prototype to production. Large multinationals can draw on internal cash flow to bridge that gap, but both main-street manufacturers (the majority of American manufacturing) and advanced-manufacturing startups cannot. The local banks that once financed smaller regional producers have disappeared, and venture investors tend to avoid factory capital, which they see as asset heavy and too slow to yield venture-level returns. The result is a structural shortfall in financing that can carry companies through the long, risky, and capital-intensive scale-up phase.

Finally, markets fail to value positive externalities, the spillovers that result when private investments create social or strategic benefits that cannot be fully captured by the investor. Strategic physical industries, including advanced manufacturing, clean energy, semiconductors, and robotics, create learning-by-doing, supplier networks, and engineering capabilities that strengthen the broader manufacturing ecosystem but do not always generate financial returns for a single firm.



At a rare-earth magnet manufacturing facility in Sumter, South Carolina, July 2026
Sam Wolfe / Reuters

The course of American manufacturing illustrates this dynamic. Once production ecosystems fragment, they are exceedingly hard to rebuild. U.S. shipbuilding, for example, collapsed after the 1980s, when government subsidies were withdrawn, erasing supplier depth and design expertise. From the 1980s onward, the offshoring of U.S. transformer or machine-tool manufacturing reduced procurement costs for downstream firms in the short run but wiped out the domestic base of engineers and component makers. Each firm’s offshoring decision might have made sense in isolation, but collectively they weakened the nation’s process knowledge and with it its productive core.

Geopolitics compounds these market failures. Chinese state-backed interventions into these industries crowd American and allied producers out of markets, even when those producers are technological leaders. As one innovative U.S. manufacturing CEO told me, raising U.S. capital for his first-of-a-kind technology was a series of near-death experiences—one that was quickly undercut by a flood of copycat Chinese competitors propped up by state subsidies, free land, and guaranteed buyers.

Yet the hurdle for American industry is as much a fragmented state at home as it is a subsidized rival abroad. In sectors such as nuclear energy or mineral processing, the hindrance is often not just a lack of capital but the prohibitive “soft costs” and uncertainty of a disjointed permitting and regulatory landscape, as well. Navigating this bureaucracy exhausts years of capital, creating no tangible value along the way. And inconsistent and slow government procurement fails to provide the stable demand necessary for firms to reach scale.

Washington’s public investment, then, must be paired with a new policy approach. It does not need to match Beijing dollar for dollar. But it must correct a structural imbalance between its financial depth and its productive capacity that markets alone cannot.

CONNECT THE DOTS

The United States still operates the world’s most powerful early-stage innovation system. DARPA, the national laboratories, and the Defense Innovation Unit continue to support breakthrough technologies. The Defense Production Act and the Office of Strategic Capital provide targeted loans and guarantees in critical security areas. But without a shared framework to coordinate the core instruments of economic statecraft, individual investments are blunted by procedural friction and institutional misalignment.

Because the United States lacks such a framework dictating which industries are strategically vital and what baseline domestic or allied capacity is required, federal action has been reactive and crisis driven. The first Trump administration used emergency authorities to secure personal protective equipment and medical supplies under COVID; the Biden administration made targeted interventions to sustain munitions and solid-rocket-motor production after Russia’s invasion of Ukraine; and both the Biden and second Trump administrations invoked the Defense Production Act to support rare-earth processing and permanent magnet capacity as Chinese export threats mounted. As long as Washington lacks a comprehensive strategy, actions will remain episodic and narrow, vulnerable to reversal across administrations.

Even where priorities are clear, the United States lacks an institution capable of synchronizing investment, demand-side commitments, regulation, and trade policy behind shared objectives. Previous administrations have assembled deals by combining authorities across different agencies. In recent years, rare-earth and battery-materials investments have moved forward without appropriated long-term procurement or market-stabilization mechanisms; CHIPS Act incentives have been negotiated project by project with uneven integration of trade defenses or downstream demand; and efforts to rebuild shipbuilding and transformer capacity continue to run up against onerous federal, state, and local permitting and regulatory processes.

A América deve melhorar na produção daquilo que projeta.

The United States also lacks a permanent public investor embedded in capital markets that can partner directly with private funds, banks, and institutional investors. Strategic investments are negotiated agency by agency through bespoke programs that sit outside normal deal flow, limiting the government’s ability to price risk, mobilize large pools of private capital, or scale proven structures across sectors. Without a professional, repeatable coinvestment platform, public support too often serves as a substitute for private finance rather than as a catalyst for it.

Finally, the United States has no institutional vehicle to align its strategic investments with allies. Instead, administrations have in recent years shoehorned ad hoc investment “funds” into trade deals with allies such as Japan and South Korea. Without a way to coordinate investment, shared procurement, and trade and industrial policy, allies fragment markets and duplicate subsidies; they cannot provide the scale and staying power needed to compete with China’s state-backed system.

Several allied governments have already begun addressing these institutional gaps. In 2024, the United Kingdom launched a $37 billion National Wealth Fund to “crowd in” private capital for strategic infrastructure and energy security. That same year, Australia launched Future Made in Australia, a $16 billion initiative anchored by $9.5 billion in production tax credits for hydrogen and critical mineral refining, paired with a centralized investment-coordination framework. The United States should work with—and learn from—these and other allies.

HOW TO MAKE IT IN AMERICA

Throughout its history, the United States built institutions that channeled capital toward a national strategy. Resurrecting that tradition today would mean establishing a new kind of public investor: a U.S. Strategic Investment Fund (SIF), a federally chartered, market-facing public investor with its own balance sheet, designed to invest alongside private capital in strategically critical industries, both mature and emerging, where markets alone have proven insufficient.

The SIF would launch with $50 billion—comparable to the CHIPS and Science Act but with a broader mandate—and scale over time as it proves its ability to invest prudently and mobilize private capital. The fund would deploy a variety of securities to partner with companies, with a primary focus on attractive financing and credit guarantees, as well as convertible debt and other equity-like securities for investment flexibility and upside for taxpayers. An initial capitalization of $50 billion would be large enough to support a diversified portfolio yet limited enough to allow Congress to evaluate the model before any expansion. Loans and guarantees would stretch each public dollar and crowd in private capital, and convertible and equity-like instruments could give taxpayers a share of upside when investments succeed.

The fund would build on recent initiatives to invest in American industrial competitiveness at home and abroad, including the Pentagon’s Office of Strategic Capital and Economic Defense Unit, the Department of Energy’s Loan Programs Office, the Development Finance Corporation, and the CHIPS and Science Act, as well as ad hoc capital interventions from Departments of Commerce and Energy. Rather than replace these efforts, it would effectively unite the nation’s investment, trade, procurement, and regulatory tools within a single framework of economic statecraft.

To create a coherent strategic finance strategy, a cabinet-level Strategic Investment Council would coordinate investments with federal procurement, targeted tariffs, tax incentives, regulatory processes, credit programs, and other policy tools. Chaired by the Treasury Department, the council would include the heads of the Departments of Commerce, Defense, Energy, and State, as well as the U.S. Trade Representative. Its central task would be to align the nation’s policy and investment levers.

The council would also organize multiyear purchasing commitments from the Department of Defense and other major agencies for critical assets such as shipbuilding, grid transformers, and long-duration energy storage, providing the predictable demand and cash flows private investors need to underwrite projects that would be otherwise unfinanceable. And it would assist priority projects by streamlining permitting and resolving interagency bottlenecks.


A BYD electric vehicle at the Beijing International Automotive Exhibition in Beijing, April 2026
Xiaoyu Yin / Reuters

The SIF would be governed by a professional board of independent directors drawn from finance, industry, and labor, with a minority of ex officio members from Treasury, Commerce, Defense, and Energy providing oversight. In the spirit of the RFC, an experienced private-sector chief executive would be confirmed by the Senate and serve a fixed term, accountable to Congress and the public. The goal would be to build in as many guardrails against abuse as possible.

To maintain focus, the SIF would lead a systematic and transparent process to identify the sectors that require a baseline of manufacturing capacity in the United States and among trusted allies. It would seek to answer the questions facing American reindustrialization posed by the economic historian Chris Miller, including: whether a given product could be monopolized and used for geopolitical leverage; whether U.S. manufacturing capacity is ready to withstand a crisis; and whether preserving today’s manufacturing ecosystem in a given sector is necessary to develop tomorrow’s.

The fund’s investment approach would recognize that different sectors require different kinds of support. For capital-intensive industries such as shipbuilding and basic battery cells, which are essentially mature and competitively undifferentiated, and in which scale, learning curves, and foreign subsidies define competitiveness, the SIF would help reestablish a base level of foundational capacity. It could pursue joint ventures with trusted and cutting-edge allied firms and pair investment with policy tools: targeted tariffs to counter distortions, multiyear procurement and offtake agreements to create predictable demand, guarantees to unlock private financing, and time-limited tax credits to move plants down the cost curve. Once U.S. capacity grows, the fund could then step back as commercial capital takes over.

Innovation-led sectors, such as advanced robotics, next-generation nuclear power, energy storage, biotech, and advanced materials, present a different challenge. In these industries, firms can differentiate themselves through technological innovation, but many remain stuck in the chasm between prototype and production. Here, flexible public capital has the highest leverage. The SIF would bridge the scale-up gap by providing attractive financing, coordinating demand signals, and helping commercially viable technologies reach production scale in the United States.

The fund’s reach would not stop at U.S. firms. Taking cues from the CHIPS Act’s funding of the Taiwanese semiconductor fab TSMC and the Korean electronics company Samsung, the SIF could support trusted foreign partners building industrial capacity in the United States through joint ventures, the construction of new facilities, and technology partnerships. Such investments would accelerate the transfer of cutting-edge know-how, diversify supply chains, and embed allied firms in the U.S. industrial base, particularly for industries such as shipbuilding, where foreign producers (often with the help of subsidies) have driven scale and cost efficiencies. Finally, the SIF would serve as a platform for allied investment coordination. By aligning resources and policies in areas of common interest, allies could approach China’s scale without replicating its model.

FUND-AMENTAL DISAGREEMENTS

Opponents of a sovereign investment fund might object on the grounds that it could become a tool of corruption through which presidents could reward cronies or enrich themselves. Their concern is valid. A public investor empowered to direct large sums toward individual firms could become a vehicle for favoritism. But that risk is not unique to a strategic investment fund; it is in the nature of executive power itself. Any institution with real financial power can be steered toward self-dealing or political reward if a president chooses to do so. The fund’s design, then, should prioritize managing that risk by structuring it to preserve as much political independence as possible. Leadership would serve under a majority-independent board, separating political direction from day-to-day investment decisions. A professional staff would operate under published criteria. Every transaction would be disclosed, audited, and bound by portfolio-level return targets that enforce financial discipline.

Others might frame public investment in emerging technology and strategically important but not yet profitable industries as a potential boondoggle that could cost taxpayers billions. The price of rebuilding national capacity, they would argue, outweighs the hard-to-quantify benefits. For more than a decade after Solyndra, the solar panel company subsidized by the Obama administration, fell into bankruptcy, this fear of failure has chilled public investment. But today’s geopolitical environment demands a different mindset. Competing with China requires accepting that some unsuccessful ventures will be inevitable. As with any fund, some investments will fail. Any given investment may be criticized in isolation, but if decisions are made by an independent board and guided by transparent criteria, they can withstand partisan swings. Broad bipartisan support for the fund’s creation and continued existence will be essential.

Still others opposed to government intervention in markets might criticize the SIF for picking winners and crowding out private investment. Indeed, industrial policy requires humility, and markets remain the best engine for allocating capital and determining which firms succeed. But the fund would specifically target sectors that private investors have proved unable to finance, investing across those sectors in ways that seek to preserve competition and market discipline. Crucially, the fund’s capital would be structured largely as risk-absorbing financing designed to unlock private investment, not replace it. By offering flexible terms and sending stable demand signals, the fund would in fact lower risks that currently deter institutional investors from entering strategic industries.

Those more amenable to public strategic finance in principle might point out that several mechanisms to encourage reindustrialization already exist: tax credits, which mobilize private investment in sectors such as renewable energy, and tariffs, which protect domestic industries from foreign distortion. Both are valuable instruments, but neither supplies the transaction-level coordination or tailored risk-sharing that difficult projects often require. Tax credits lower expected costs across a market but are not always sufficient to convince investors to assume the risks that come with first-of-a-kind technology: uncertain demand, permitting delays, inadequate infrastructure, or absence of financing. Tariffs can counter foreign distortion and create breathing room, but on their own, they cannot create the scale or technological edge needed for long-term competitiveness. And if they are overused, they can shelter domestic incumbents without spurring new investment or innovation.

These instruments would still play an important complementary role to the SIF. Tax credits would continue to create marketwide incentives for investment and allow the fund to operate more selectively and patiently, intervening only at the adventurous margin where private capital remains hesitant despite available incentives. Targeted tariffs, particularly against China, would counter unfair practices and level the playing field for domestic industries. The fund would then lower the cost of building new capacity and help firms innovate and compete. Used together, they address both sides of the problem, countering subsidies while rebuilding the productive strength to compete globally.

REVOLUÇÃO REINDUSTRIAL

Há mais de dois séculos, os Estados Unidos moldam suas instituições financeiras para atender às demandas estratégicas de cada época. O Departamento do Tesouro, sob a gestão de Hamilton, construiu o crédito nacional da jovem república. A RFC (Reconstruction Finance Corporation) desenvolveu a capacidade industrial em meio ao ponto mais baixo da economia do país. As agências de inovação consolidaram a liderança tecnológica americana no pós-Segunda Guerra Mundial. Cada momento exigiu o mesmo exercício de imaginação: tratar o capital como um instrumento a serviço de um propósito nacional e do poder industrial.

Essa capacidade de imaginar é urgentemente necessária hoje. A ascensão da China forçou Washington a responder se democracias abertas e orientadas pelo mercado ainda conseguem mobilizar capital para atender a objetivos nacionais. Os Estados Unidos ainda detêm os mercados mais profundos e os empreendedores mais competentes do mundo. O que lhes falta são instrumentos modernos para alinhá-los a metas nacionais de longo prazo. Um fundo de investimento estratégico garantiria que o futuro não fosse apenas imaginado na América, mas também realizado na América.

Jake Sullivan é Professor Kissinger de Prática de Arte de Governar e Ordem Mundial na Harvard Kennedy School. Ele atuou como Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA de 2021 a 2025.

A socialista Francesca Hong pode ser a próxima governadora de Wisconsin

Atualmente liderando as pesquisas em um importante estado decisivo, a socialista democrática Francesca Hong tem boas chances de se tornar a próxima governadora de Wisconsin — e a primeira governadora socialista da história dos EUA. Conversamos com ela sobre sua campanha.

Entrevista com
Francesca Hong


Filha de pais coreanos que imigraram para os Estados Unidos na década de 1980, Francesca Hong cresceu em Wisconsin. Se eleita governadora, ela passará a fazer parte da rica história socialista de seu estado natal. (Sara Stathas / The Washington Post via Getty Images)

Entrevista realizada por
Raina Lipsitz

Os habitantes de Wisconsin têm uma decisão de grande importância a tomar nas primárias democratas para o governo do estado, em 11 de agosto: eleger ou não a primeira governadora socialista da história do estado, Francesca Hong.

Membro da organização Socialistas Democráticos da América (DSA) e tendo abandonado a faculdade, Hong — que, antes de ser eleita para a legislatura estadual em 2020, trabalhou como lavadora de pratos, cozinheira de linha, bartender e chef — é a favorita na disputa. Muitos eleitores permanecem indecisos, embora esse número pareça ter diminuído significativamente nos últimos dias. Ela conta com o apoio de várias organizações progressistas e sindicatos em todo o estado. Além disso, parece estar trabalhando mais intensamente do que seus oponentes; nenhum deles gerou tanto entusiasmo, reuniu tantos voluntários em todo o estado ou recebeu tanto dinheiro de doadores de Wisconsin.

Filha de pais coreanos que imigraram para os Estados Unidos na década de 1980, Hong cresceu em Wisconsin. Se vencer, ela passará a fazer parte da rica história socialista de seu estado natal. Entre 1905 e 1945, a legislatura de Wisconsin aprovou mais de quinhentas leis de autoria de socialistas, e os eleitores do estado enviaram um socialista ao Congresso e elegeram prefeitos socialistas. Em 2011, quando Hong estava na casa dos vinte anos, o governador republicano conservador Scott Walker desmantelou serviços estatais e conduziu o estado bruscamente para a direita, privando dezenas de milhares de trabalhadores de direitos de negociação coletiva que possuíam há muito tempo, enfraquecendo sindicatos por meio de uma lei de "direito ao trabalho" e cortando drasticamente a verba destinada a escolas e governos locais. Os pais de Hong eram servidores públicos, e sua família participou de protestos em massa contra a Act 10 — a lei de 2011 defendida por Walker que retirou da maioria dos servidores públicos o direito à negociação coletiva.

Vivemos agora o que Hong chama de "momento de movimento". Socialistas democráticos venceram inúmeras disputas em todo o país. Em junho, o capítulo da DSA na cidade de Nova York — do qual faço parte — venceu nove das dez disputas que apoiou, incluindo duas primárias para o Congresso. No oeste de Nova York, o advogado de Buffalo Adam Bojak, apoiado pela DSA, conquistou uma cadeira na Assembleia Estadual; já Maurice "Mo" Brown, membro da DSA e legislador do condado de Syracuse, derrotou um dos democratas com mais tempo de mandato no centro de Nova York, garantindo uma vaga na legislatura estadual. O adversário de Brown e grupos aliados gastaram cinco vezes mais do que ele na campanha.

A socialista democrática Melat Kiros derrotou uma deputada que estava no cargo há quinze mandatos nas primárias de um distrito que inclui Denver, no Colorado; o socialista democrático Chris Rabb venceu as primárias para uma vaga na Câmara em Filadélfia; e a socialista democrática Janeese Lewis George está prestes a se tornar prefeita de Washington, D.C.

Alguns temem que lançar uma socialista democrática como Hong em um estado politicamente dividido como Wisconsin entregue a disputa pelo governo a Tom Tiffany, o provável candidato republicano. Mas, ultimamente, parece que concorrer como socialista democrática — e obter o apoio da DSA — pode ajudar os candidatos mais do que prejudicá-los. Hong recebeu o apoio de vários núcleos da DSA em Wisconsin, incluindo os de Madison, Milwaukee e do nordeste do estado.

A cúpula do Partido Democrata está profundamente preocupada com esses acontecimentos. Seus candidatos preferidos não estão conseguindo empolgar o eleitorado, e altos dirigentes e consultores democratas estão em pânico. Há poucas semanas, desesperados para barrar Hong, eles instavam candidatos e eleitores a se unirem em torno da vice-governadora Sara Rodriguez. Desde então, Rodriguez desistiu da disputa em meio a um escândalo envolvendo a má gestão financeira de seu ex-coordenador de campanha, e o chefe do Executivo do Condado de Milwaukee, David Crowley (também conhecido como "Dirt McGirk") — que havia desistido para apoiar Rodriguez — retornou à corrida com a bênção do governador Tony Evers. Agora que o establishment está se alinhando a Crowley, ele vem ganhando terreno nas pesquisas, mas ainda está atrás de Hong.

Se eleita, Hong prometeu implementar creches universais e licença remunerada, taxar os ricos para financiar melhor as escolas públicas, reduzir os custos de saúde e expandir o Medicaid, oferecer merenda escolar gratuita para alunos de todo o estado, criar um banco público estadual e estabelecer uma moratória na construção de centros de dados. Assim como seu antecessor Scott Walker, ela poderia transformar o estado nas próximas décadas — desta vez, de uma maneira que poderia devolver o poder a milhões de trabalhadores em Wisconsin e além.

Raina Lipsitz, colaboradora da Jacobin, conversou recentemente com Hong sobre essas possibilidades. A entrevista foi editada para fins de concisão e clareza.

Raina Lipsitz

Você está cumprindo seu terceiro mandato como legisladora estadual. O que fez você querer se candidatar a governador?

Francesca Hong

Este é um momento histórico para o nosso estado. É um momento de movimento e um momento em que cada vez mais pessoas da classe trabalhadora estão a perceber que a economia está fortemente manipulada contra nós. Precisamos de um governo que esteja disposto a fazer do governo uma força do bem, para ajudar as pessoas a obterem um controlo mais democrático da economia.

Raina Lipsitz

Eu moro em Nova York. Estive envolvido na campanha de Zohran Mamdani para prefeito e lembro-me de quando Zohran começou a concorrer, ele fez este vídeo em que perguntava aos apoiadores de Donald Trump no Bronx: "O que fez vocês votarem em Trump? Por que você está frustrado?" Eu sei que você fez uma divulgação semelhante.

O que você acha que é importante entender sobre as pessoas que votaram em Trump e onde você vê áreas de consenso entre você, como socialista, e as pessoas que apoiaram o presidente?

Francesca Hong

Acho que as pessoas estão se sentindo prejudicadas pelo governo e, com razão, frustradas. Estamos a encontrar pontos em comum sobre o aumento dos salários, a tributação dos ultra-ricos, a falar com proprietários de pequenas empresas que sabem que as megacorporações estão a obter incentivos fiscais e créditos enquanto lutamos para manter as nossas ruas principais abertas. Somos a única campanha que apoia uma moratória na construção de data centers; muitas pessoas apoiam esta posição, e penso que tem muito a ver com a sensação de que estão a perder o controlo das suas comunidades. A Big Tech e a vigilância estão chegando para arruinar seu modo de vida. Isto tem muito a ver com pessoas que querem fazer parte de uma grande mudança.

Raina Lipsitz

Fale-me sobre a campanha que você construiu.

Francesca Hong

Nossa campanha é impulsionada pela comunidade e pela mobilização de base. Criamos uma comunidade incrível de voluntários que trazem alegria ao processo. As pessoas estão organizando encontros para crianças brincarem, festas dançantes e conversando sobre a importância de sair para votar em 11 de agosto e 3 de novembro, e de exigir mais do governo.

A classe trabalhadora é a maioria; deveríamos ter uma voz mais ativa no governo e ser nós a moldar as políticas públicas.

O poder do grande capital na política é um desafio. Arrecadar fundos é sempre um desafio. Mas temos orgulho de contar com o maior número de doações individuais e de doadores únicos. Acho que isso demonstra que esta é uma oportunidade para a maioria, e não apenas para quem tem dinheiro.

A classe trabalhadora é a maioria; deveríamos ter uma voz mais ativa no governo e ser nós a moldar as políticas públicas. A maioria dos trabalhadores aqui em Wisconsin quer se sentir segura e ter condições financeiras de viver com dignidade. Ninguém deveria ser pobre demais para viver em nosso estado. Bons salários, escolas públicas de qualidade, creches gratuitas, assistência médica de qualidade — especialmente nas áreas rurais —: é isso que a maioria deseja.

Raina Lipsitz

Seus adversários certamente gastarão mais do que você. Mas qual é a maior dificuldade em fazer uma mensagem como a sua ganhar força?

Francesca Hong

Acho que ela está ganhando força, sim. Questões como assistência médica, educação pública e redução de custos — precisamos construir condições de vida acessíveis de forma permanente. Deveríamos tentar algo novo. E acho que as pessoas se prendem a rótulos em vez de soluções. As pessoas são complexas e multifacetadas. Incomoda-me muito ver gente criticando trabalhadores — que vivem sob um sistema que não os atende — por causa de em quem votaram no passado. Converso com eleitores de Trump [que concordam que] faz mais sentido que todos tenham acesso à saúde e que milionários e bilionários não paguem alíquotas de impostos mais baixas do que a classe trabalhadora.

Raina Lipsitz

O que você considera estar em jogo neste momento, nesta eleição?

Francesca Hong

Volto sempre à ideia de transformar o governo em uma força para o bem. Dezesseis anos de governo republicano e de complacência democrata levaram à disfunção e à falta de financiamento de serviços públicos e órgãos estatais. Precisamos garantir que o Estado esteja presente quando você precisar, com programas de proteção social que facilitem a sua vida. Quando temos políticos que não agem em prol da classe trabalhadora, o resultado é que cada um fica por conta própria.

O que está mais em jogo é conquistar a maioria democrata em todas as instâncias do Legislativo estadual — o chamado "trifecta" —, para que possamos trabalhar juntos e transformar nossos valores democráticos em lei. Educação pública, saúde e partilha de receitas estão entre as minhas principais prioridades, pois acredito que é nessas áreas que podemos realizar investimentos robustos para transformar, o mais rapidamente possível, as condições materiais de vida das pessoas.

Raina Lipsitz

Você vê Minnesota como um modelo? Quando eles tinham o controle democrata de todas as esferas de poder (trifecta), realizaram muitas coisas rapidamente. Como você replicaria esse sucesso em Wisconsin?

Francesca Hong

É ótimo observar o que funcionou e o que não funcionou com uma maioria apertada em Minnesota. Queremos manter a maioria quando a conquistarmos, e isso exigirá que todo o legislativo estadual, o poder executivo e todas as nossas agências estaduais trabalhem de forma coletiva.

Quero ver mais investimentos na agricultura. Tanto Minnesota quanto Wisconsin têm uma forte tradição agrícola, e nossos agricultores estão enfrentando grandes dificuldades. Gostaria de garantir que agências como o Departamento de Agricultura, Comércio e Proteção ao Consumidor e o Departamento de Recursos Naturais recebam recursos para ajudar as pessoas a acessar programas estaduais de apoio — especialmente agora que Trump está impondo tarifas e elevando os preços dos combustíveis, enquanto o dinheiro dos nossos impostos é gasto em guerras intermináveis. Wisconsin pode garantir que, independentemente do CEP, as pessoas tenham apoio e oportunidades para enfrentar qualquer nível de crise causado pelo governo federal.

Raina Lipsitz

Apenas quatorze estados dos EUA são governados por mulheres. A questão de gênero tem sido um fator na sua campanha?

Francesca Hong

Muitas pessoas com quem converso estão muito animadas com a possibilidade de eleger nossa primeira governadora. Àqueles que talvez estejam céticos, peço que observem a nossa realidade: só tivemos governadores homens e um legislativo dominado por homens. Talvez seja hora de eleger uma mulher.

Raina Lipsitz

Como o fato de ser filha de imigrantes influenciou sua atuação política?

Francesca Hong

Meus pais vieram para cá em busca de educação. Naquela época, a Coreia também passava por uma grande instabilidade política. Levo muito a sério o papel de servidora pública. Priorizo ​​o sacrifício, o serviço ao próximo e a comunidade. Além disso, fui proprietária de um restaurante por sete anos e continuo trabalhando no setor de serviços. Acredito que o lavador de pratos é uma das pessoas mais importantes em um restaurante.

Em Wisconsin, cuidamos dos nossos vizinhos. Esses são os nossos valores.

Raina Lipsitz

A deputada Alexandria Ocasio-Cortez ficou famosa por ter trabalhado como bartender antes de ser eleita para o Congresso. Você mencionou ter trabalhado como lavadora de pratos e cozinheira de linha. Que habilidades você trouxe desses trabalhos para a campanha?

Francesca Hong

Trabalhar de forma colaborativa significa entender que cada função no restaurante é importante e contribui para o sucesso de um bom serviço. No movimento de uma noite de sexta-feira, todos desempenham um papel fundamental: desde o recepcionista — a primeira pessoa que o cliente vê — até o cozinheiro da linha de produção, que apaga as luzes ao final do expediente. Já trabalhei com muitos chefs que talvez tivessem o ego inflado, e acredito que é importante deixar isso de lado, especialmente na atuação governamental.

Ser uma socialista democrática significa que meus valores estão fundamentados na democracia, na justiça e nos direitos humanos.

Aprendi a me destacar pelo esforço e pela garra. Como não frequentei escola de gastronomia, precisei demonstrar aos chefs com quem trabalhava minha ética profissional, minha disposição para aprender e minha capacidade de ouvir atentamente as pessoas ao meu redor. Acredito que os profissionais do setor de serviços têm uma fibra diferente; nos restaurantes, vemos o melhor e o pior da humanidade, bem como a maneira como as pessoas tratam umas às outras. Aprendi muito sobre a importância de tratar as pessoas com respeito e de valorizar quem elas são.

Raina Lipsitz

Você mencionou que as pessoas são mais do que seus rótulos. As pessoas se apegam ao rótulo de socialista democrático. Por que você usa esse termo? Por que não se candidatar simplesmente como progressista? O que é importante para você em se definir dessa forma?

Francesca Hong

A palavra “democrático”. Ser socialista democrático significa que meus valores estão enraizados na democracia, na justiça e nos direitos humanos. É por isso que tenho me manifestado na organização de grupos, tenho me manifestado sobre os direitos dos palestinos e tenho lutado por uma tributação justa, tributando os ultrarricos e as megacorporações. Quero que todos tenham voz no que molda suas vidas. Os números mostram que, especialmente os jovens, apoiam as políticas socialistas democráticas. Bernie Sanders venceu em 71 dos 72 condados aqui em Wisconsin em 2016.

Trata-se mais de soluções do que de rótulos. Quando converso com as pessoas durante a campanha, volto sempre à questão das escolas públicas totalmente financiadas. Eu me refiro aos três Ps, coisas populares em nosso estado que têm raízes ou políticas socialistas: o Green Bay Packers, escolas públicas e buracos nas ruas. O Packers é um time de futebol americano que pertence ao governo; temos a obrigação constitucional de garantir que todas as crianças tenham uma educação pública sólida e de qualidade. E os buracos nas ruas — todo mundo pensa em buracos nas ruas. Eles os veem. Eles dirigem nas estradas que todos nós pagamos, e precisamos dar mais dinheiro aos nossos governos locais para que possamos ajudá-los a consertar as estradas, e isso vem da redistribuição de renda, e isso exige que as pessoas paguem sua justa parcela de impostos.

Raina Lipsitz

Quando você se juntou à DSA e quando começou a se considerar uma socialista democrática?

Francesca Hong

Eu nem sabia o que era organização comunitária como termo; eu tinha lido um pouco de Saul Alinsky. Para mim, o rótulo “organização comunitária” fazia mais sentido. É construir relacionamentos. Quando me juntei à DSA em 2020, foi porque as causas pelas quais eles lutavam e discutiam eram coisas com as quais me identifico quando se trata de aumento de salários, justiça racial e luta pelos direitos da classe trabalhadora, e não pelos interesses dos oligarcas.

Ser membro da DSA e participar do trabalho de organização comunitária que ela realiza é muito importante. Veja o trabalho que a DSA faz na prática. Essa é uma parte fundamental da nossa campanha. Já batemos em dezenas de milhares de portas e tivemos milhares de conversas, e às vezes o mensageiro é mais importante do que a mensagem em si. E ter pessoas com diferentes posicionamentos políticos falando sobre creches gratuitas, moratória para data centers e financiamento integral das nossas escolas públicas — quando você ouve isso do seu vizinho, em vez de um político, o impacto é diferente.

Raina Lipsitz

Wisconsin tem uma rica história socialista, mas também tem um histórico como laboratório para a extrema-direita. Como você planeja reverter os danos estruturais que políticos como Scott Walker causaram à rede de proteção social e às instituições públicas? E como fazer isso de uma forma que não apenas reverta o dano causado, mas também consolide essas conquistas para que não possam ser desfeitas na próxima eleição?

Francesca Hong

Considere a Lei 10 [a lei Scott Walker, que restringiu severamente os direitos de negociação coletiva no setor público]. Não basta apenas revogar a Lei 10. Deveria estar na constituição estadual que todos têm o direito de negociar coletivamente ou se sindicalizar. Portanto, garantir isso significa levar a questão ao povo, por meio de um referendo, e perguntar. Se estiver em nossa constituição, será muito mais difícil revogar. Ainda temos uma proibição do aborto em nossos códigos constitucionais, que deveríamos ter revogado há muito tempo.

Não basta apenas revogar a Lei 10. Deveria estar na constituição estadual que todos têm o direito de negociar coletivamente.

E então, a questão do financiamento. É importante que esses programas que apresentei — sou o autor principal do programa Licença Remunerada para Todos, e o funcionamento do programa é muito semelhante ao seguro-desemprego, começando a se autofinanciar. [Hong apresentou um projeto de lei que expandiria a lei de licença familiar e médica de Wisconsin e estabeleceria um programa de seguro de licença familiar e médica. Assim como o programa de seguro-desemprego do estado, ele seria financiado por impostos corporativos, o que significa que as contribuições da folha de pagamento de empregadores e funcionários participantes cobririam os custos do programa.] Eles sabem que podem contar com ele quando precisarem, e acaba sendo um programa que se autofinancia e também garante que as pessoas tenham de doze a quatorze semanas de licença familiar ou médica remunerada.

Reverter danos estruturais exige construir algo novo e duradouro; isso deve ocorrer por meio de financiamento, legislação e da nossa Constituição, mas também através de uma mudança na cultura e na narrativa sobre por que merecemos essas coisas.

Raina Lipsitz

Existe muito receio em relação à viabilidade eleitoral. Muita gente diz coisas como: "Gosto muito do que você diz, mas preciso apoiar quem tem chances de vencer no outono". Como você lida com esses receios?

Francesca Hong

A pessoa com maior viabilidade eleitoral é aquela que conquista mais votos. Quando as pessoas temem que seus vizinhos não votem da mesma forma que elas — por receio de um candidato em quem gostariam de votar, mas sobre o qual têm dúvidas —, acabamos nunca elegendo o candidato que queremos. É por isso que a organização é tão importante: ela serve tanto para comunicar quanto para demonstrar a força de um movimento. Mostramos isso por meio das pesquisas, do número de voluntários e da cobertura da imprensa. Mas também mostramos que as políticas pelas quais lutamos têm grande apelo entre republicanos, independentes e moderados; existe uma oportunidade de construir uma coalizão forte o suficiente para vencer.

Estamos na disputa para ganhar. Eu não teria entrado na corrida eleitoral se não acreditasse que poderia vencer.

E estou enfrentando um candidato que é um traidor que nega o resultado das eleições, um protetor de pedófilos, alguém que apoia o desmantelamento da assistência médica para os americanos, a retirada de alimentos das nossas crianças e a proibição do aborto em todo o país. Mas quero que as pessoas saibam: mesmo que não votem em mim nas primárias ou na eleição geral, quero que tenham acesso a uma boa assistência médica e a escolas de qualidade.

Quanto à questão da viabilidade eleitoral... é possível combater esse medo quando vemos a comunidade se fortalecer e as pessoas falando em esperança.

Raina Lipsitz

Tenho pensado em um discurso que Zohran Mamdani fez antes das eleições primárias, há um ano. Ele disse: "Acabou o tempo das vitórias morais". As pessoas ficaram entusiasmadas ao ouvir alguém dizer: "Tenho a responsabilidade, perante vocês, de vencer". Você pensa sobre isso? Vê a situação nesses termos?

Francesca Hong

Estamos concorrendo para vencer. Eu não teria entrado na disputa se não achasse que poderia ganhar. Estamos concorrendo para construir poder para a classe trabalhadora e para entregar resultados aos habitantes de Wisconsin. Trata-se de políticas que melhorarão vidas e facilitarão o cotidiano de todos em nosso estado.

Acho que os democratas não falam o suficiente sobre poder. Não podemos ter medo dele. Precisamos retomá-lo, e esta é a oportunidade para Wisconsin fazer isso: conquistar a "trifecta" (o controle do governo estadual e de ambas as casas legislativas) e agir com urgência para responder a um momento de crise e caos. Ouço muito sobre combater Trump, mas isso também deve significar lutar pelo povo de Wisconsin, garantindo que o governo ofereça o necessário para que as pessoas possam cuidar de si mesmas — em um momento em que o governo não se importa com você, e Trump não se importa com você. Quero que você possa cuidar de si mesmo, de seus entes queridos e de sua comunidade. Trata-se de liberdade e poder, e isso significa que os democratas precisam vencer.

Wisconsin é um estado termômetro. O que acontece em Wisconsin reflete o que acontece no país. E, assim como no caso do prefeito Mamdani, estamos vendo vitórias eleitorais de socialistas democráticos e progressistas em todo o estado. Acredito que, se conseguirmos fazer isso em nível estadual, mudaremos a política em todo o país.

Colaboradores

Francesca Hong é socialista democrática e membro da Assembleia Estadual de Wisconsin, representando o 76º distrito. Atualmente, ela é candidata a governadora.

Raina Lipsitz é pesquisadora sênior do Whirlwind Institute, um centro de estratégia para mudanças sociais. Ela é autora do livro The Rise of a New Left: How Young Radicals Are Shaping the Future of American Politics.

27 de julho de 2026

Socialistas não são ingênuos quanto à natureza humana

Críticos do socialismo frequentemente alegam que ele se baseia em uma visão excessivamente otimista da natureza humana. A verdade é que os socialistas buscam um sistema que se proteja contra tendências à ganância e à dominação.

Matt McManus


José Clemente Orozco, La Katharsis, mural de afrescos, 1934, Palacio de Bellas Artes, Cidade do México.

Há muito tempo, muitos criticam a esquerda por sua suposta ingenuidade em relação à natureza humana. Para esses críticos, a esquerda acredita que os seres humanos são bons por natureza. É claro que esquerdistas de todas as vertentes reconhecem a existência de muitos males no mundo — caso contrário, não seriam de esquerda. No entanto, segundo a crítica, eles se recusam a atribuir esses males à natureza humana, preferindo culpar instituições e culturas falhas. Bastaria eliminar essas fontes sociais de corrupção humana para que o domínio de classe e a competitividade egoísta dessem lugar à nossa benevolência natural. Alguns projetam esperanças ainda mais grandiosas, imaginando uma humanidade futura que opere em um nível intelectual e estético muito superior ao atual.

Os críticos da esquerda argumentam que essa ideia revela uma compreensão limitada da natureza humana. A verdade, dizem eles, é que somos seres falhos e pecadores desde a origem, e que é utópico imaginar que qualquer intervenção social poderia corrigir isso.

Conservadores frequentemente recorrem a esse tipo de argumento. Em seu livro Intellectuals and Society, o economista de centro-direita Thomas Sowell sustenta que a diferença fundamental entre esquerda e direita reside em um "conflito de visões". Segundo Sowell, a esquerda defende que o sofrimento humano é, em grande medida, culpa da sociedade: "A opressão, a pobreza, a injustiça e a guerra são problemas das instituições existentes — problemas cujas soluções exigem a mudança dessas instituições, o que, por sua vez, requer a mudança das ideias que as sustentam". Sowell contrapõe essa perspectiva à "visão trágica" — majoritariamente conservadora —, que reconhece que "as falhas inerentes aos seres humanos constituem o problema fundamental, e as construções sociais são apenas meios imperfeitos de tentar lidar com essas falhas; as imperfeições dessas construções são, elas próprias, produtos das limitações inerentes aos seres humanos".

Comentaristas de centro também têm feito críticas semelhantes. Em sua recente e popular publicação no Substack intitulada "On Becoming Less Left-Wing", o filósofo Dan Williams atribui sua mudança para o centro, em parte, a uma visão mais pessimista da natureza humana. Williams cita Sowell com aprovação nesse ponto e alerta que

devemos desconfiar profundamente de pessoas e movimentos que se apresentam como se estivessem livres dos instintos competitivos e egoístas da natureza humana, ou que propõem transformações sociais baseadas em nossa capacidade coletiva de escapar desses instintos. De modo mais geral, devemos encarar com ceticismo qualquer narrativa — seja da esquerda ou da direita — que apresente as motivações de um movimento político como algo enraizado em uma preocupação puramente altruísta com a justiça ou a virtude.

Talvez exista aquele tipo de esquerdista "natureba" que acredita que, se apenas nacionalizássemos a Tesla e elegêssemos Jill Stein para a Casa Branca, a paz mundial seria declarada e Boots Riley poderia começar a dirigir comédias românticas de grande apelo popular. No entanto, não há uma conexão necessária entre nutrir uma visão ingenuamente benevolente da natureza humana e apoiar ideias de esquerda. Na verdade, se você acredita — assim como eu — que somos criaturas falhas e eminentemente corruptíveis, o argumento a favor do socialismo torna-se ainda mais sólido.

O perfeccionismo e a esquerda

Um dos críticos mais sutis da esquerda nesse aspecto foi Patrick Deneen, em seu livro de estreia, Democratic Faith. Deneen e outros pós-liberais são hoje mais conhecidos por lançar críticas abrangentes ao liberalismo que, muitas vezes, não atingem o alvo. No entanto, ao contrário de sua obra mais recente e polêmica, Democratic Faith oferece um olhar paciente e cuidadoso sobre a história do pensamento político e sobre as aspirações excessivamente ambiciosas, por vezes atribuídas à busca por mais democracia e igualdade. Ele chega a descrever a obra como uma crítica "amigável" a posições de caráter progressista.

Deneen argumenta que os progressistas modernos abandonaram uma sabedoria antiga que reconhecia a natureza decaída e imperfeita — e incapaz de perfeição — dos seres humanos. Ecoando Sowell: enquanto autores clássicos, como Santo Agostinho, atribuíam as falhas sociais à natureza humana, a essência da moderna "fé democrática" passou a atribuir as falhas da natureza humana a deficiências sociais. Isso abre caminho para a ideia de que, bastando estabelecer as instituições e práticas sociais adequadas, os seres humanos poderiam ser aperfeiçoados.

Não há uma conexão necessária entre sustentar uma ideia ingenuamente benigna da natureza humana e apoiar visões de esquerda.

Deneen reconhece que filósofos como Jean-Jacques Rousseau e John Dewey não eram ingênuos ou excessivamente idealistas quanto ao futuro. Eles frequentemente apontavam as muitas maneiras pelas quais os seres humanos ficavam muito aquém do ideal em suas interações uns com os outros, chegando a demonstrar uma profunda percepção psicológica da natureza do desejo, do ressentimento e da inveja humanos. No entanto, enquanto os conservadores tendiam a aceitar esses aspectos como constantes imutáveis ​​que precisavam ser gerenciadas a cada nova geração, os progressistas acreditavam na possibilidade de progresso. Para os esquerdistas reflexivos, não se tratava apenas de progresso material ou institucional, mas também de um progresso moral transformador. A educação, instituições mais justas e a tutela proporcionada pela vida democrática tornariam, gradualmente, os seres humanos melhores do que eram. Para Deneen, isso constituía um artigo de fé, uma vez que a aspiração por uma maior perfeição humana precisava ser sempre projetada em um futuro incognoscível.

Deneen contrastou o otimismo dessa fé perfeccionista com a visão daqueles que "veem nossa condição como a de criaturas parciais, frágeis, incompletas e insuficientes" e que, por isso, desconfiavam da crença no progresso. Deneen sugeriu aos defensores da igualdade que a aceitação de nossa natureza permanentemente imperfeita poderia, ainda assim, constituir uma "ética democrática, dada a sua origem no reconhecimento da parcialidade e da fragilidade humanas". Poderia até ser uma "ética fortemente igualitária — especialmente ao enfatizar nossa insuficiência comum", mas resistiria às reivindicações igualitárias daqueles que imaginavam uma futura igualdade de fraternidade, livre da vulgaridade humana e das tentações de praticar o mal.

Deneen tem inegavelmente razão ao afirmar que alguns depositaram esperanças irreais no que a mudança socialista poderia alcançar. Ocasionalmente, pensadores de esquerda previram melhorias imensas em nossa natureza intelectual e moral que nenhum sistema social poderia produzir por si só. Um exemplo emblemático são as reflexões de Leon Trotsky, de 1924, sobre o homem comunista do futuro. Respondendo ao receio nietzschiano de que o comunismo levaria a um nivelamento de massa ao tipo de rebanho, Trotsky projetou grandes esperanças quanto ao potencial humano que o comunismo libertaria:

O invólucro no qual se encerrarão a construção cultural e a autoeducação do homem comunista desenvolverá ao máximo todos os elementos vitais da arte contemporânea. O homem tornar-se-á imensamente mais forte, mais sábio e mais sutil; seu corpo tornar-se-á mais harmonioso, seus movimentos mais rítmicos, sua voz mais musical... O tipo humano médio ascenderá às alturas de um Aristóteles, de um Goethe ou de um Marx. E, acima desse patamar, novos picos se erguerão.

Trotsky aventou a hipótese de que o homem socialista seria aperfeiçoado estética e intelectualmente. No entanto, muitos também cogitaram a possibilidade de aperfeiçoar moralmente as pessoas. Um bom exemplo dessa última tendência pode ser encontrado no livro recente de Vanessa Christina Wills, Marx’s Ethical Vision. Wills interpreta Karl Marx como alguém que (potencialmente) previu que a própria moralidade seria abolida em uma "sociedade comunista plenamente desenvolvida". Isso ocorreria porque os seres humanos teriam internalizado de tal forma as atitudes pró-sociais que qualquer comportamento inadequado estaria simplesmente fora de cogitação. Em uma sociedade comunista plenamente desenvolvida, os seres humanos "não estariam mais moralmente obrigados a agir de maneira pró-social do que estão 'moralmente obrigados' a ser primatas", escreve ela.

Discordo da leitura que Wills faz de Marx nesse ponto, mas ela reflete uma abordagem ponderada do otimismo trotskista. Nessa perspectiva, na era do comunismo, a moralidade definhará assim como o Estado. Os seres humanos tornar-se-ão tão pró-sociais que não haverá mais necessidade de uma moral explícita; faremos a coisa certa não porque é a coisa certa a fazer, mas porque jamais estaríamos inclinados a agir de outra forma.

Socialismo para realistas

Críticos conservadores têm razão ao apontar que alguns setores da esquerda nutriram expectativas excessivas quanto às melhorias — tanto intelectuais quanto, sobretudo, morais — que o socialismo promoveria nas pessoas comuns. No entanto, seus argumentos são exagerados ao sugerir que todos, ou mesmo a maioria, dos socialistas são excessivamente ingênuos em relação à natureza humana. De fato, um dos melhores argumentos a favor do socialismo é justamente o de que, ao dissolver concentrações de poder e proteger os vulneráveis ​​contra a dominação e a exploração, ele poderia ser mais eficaz em conter as falhas inerentes à humanidade. Ele faz isso ao mesmo tempo em que impõe exigências éticas mais elevadas às instituições sociais, ainda que reconheça que os indivíduos frequentemente não estarão à altura delas.

Um dos melhores argumentos a favor do socialismo é que, ao proteger os vulneráveis ​​contra a dominação e a exploração, ele poderia ser mais eficaz em resguardar a sociedade contra as falhas persistentes da humanidade.

O pensamento do teólogo Reinhold Niebuhr oferece reflexões pertinentes a esse respeito. Tendo começado como um marxista radical, Niebuhr mais tarde aproximou-se de um liberalismo mais convencional, antes de se tornar cada vez mais crítico da política externa americana. Durante sua fase socialista, ele publicou uma obra clássica, *The Children of Light and the Children of Darkness* (Os Filhos da Luz e os Filhos das Trevas), na qual defendia com vigor a postura de esquerda de aliar o otimismo da vontade ao pessimismo do intelecto. O livro foi escrito no auge da Segunda Guerra Mundial, logo após Niebuhr e seus companheiros testemunharem as mais sombrias barbáries de que os seres humanos são capazes.

Ele reconhecia que, para combater tal barbárie, quem adotasse uma visão realista da natureza humana precisava assumir uma postura política radical. Afinal, liberais pró-capitalismo e conservadores haviam presidido a Grande Depressão e a ascensão do fascismo. Entre outras reformas, prevenir os males de que os seres humanos são capazes exigiria questionar a propriedade privada e a posse privada dos meios de produção. Niebuhr criticava duramente a "premissa dominante do pensamento liberal de que a propriedade representa, primordialmente, um poder ordenado e defensivo, a ser utilizado contra a tendência de outros de tirar vantagem do indivíduo". A realidade, porém, era que "a propriedade, assim como qualquer outra forma de poder, não pode limitar-se a uma finalidade defensiva. Se se torna suficientemente forte, transforma-se em instrumento de agressão e usurpação". Nesse aspecto, "o marxismo está mais próximo da verdade do que o liberalismo quanto à questão da propriedade", por compreender melhor os perigos que a posse privada dos meios de produção representa para todos — ainda que os marxistas, por vezes, fossem excessivamente idealistas ao supor que a socialização da propriedade poderia eliminar de vez o comportamento predatório.

Em uma época que viu surgir o primeiro trilionário do mundo, a análise de Niebuhr ressoa mais do que nunca. Um dos méritos da teoria liberal é reconhecer que o poder corrompe e que o poder absoluto corrompe absolutamente. Por isso, os liberais sempre compreenderam que a concentração de poder é perigosa e que, portanto, o poder deve ser o mais disperso possível. No entanto, com exceção dos socialistas liberais, a maioria dos liberais tem sido, na melhor das hipóteses, cautelosa ao aplicar esse raciocínio à economia. Esse é um erro muito grave, visto que é na esfera econômica que vemos com mais clareza como a concentração de riqueza leva à concentração de poder — e, consequentemente, aos comportamentos mais corruptos e dominadores de que os seres humanos são capazes. Em *Os Filhos da Luz e os Filhos das Trevas*, Niebuhr afirmou que a "capacidade humana para a justiça torna a democracia possível, mas a inclinação humana para a injustiça torna a democracia necessária". Já passou da hora de os liberais reconhecerem a percepção socialista de que a inclinação humana para a injustiça torna a democracia econômica tão necessária quanto a democracia política.

Nesse sentido, em uma sociedade socialista liberal e democrática, as pessoas estariam mais seguras do que sob o capitalismo, e as facetas mais vis da natureza humana seriam melhor contidas. Mas também acredito que o socialismo constituiria uma sociedade mais ética do que as alternativas, embora não de uma maneira irrealista ou perfeccionista.

É na esfera econômica que vemos com mais clareza como a concentração de riqueza leva à concentração de poder — e, consequentemente, aos comportamentos mais corruptos e dominadores de que os seres humanos são capazes.

No seu recente livro, Cosmic Connections, o filósofo católico Charles Taylor defende o igualitarismo, sublinhando que é mais exigente do ponto de vista ético do que as visões conservadoras e hierárquicas. Estes últimos restringem o nosso leque de obrigações éticas, ao insinuar que certos grupos privilegiados têm direito a uma preocupação especial que outros não têm. Muitos dos pensadores antiquários que Sowell e Deneen adoram referir não teriam escrúpulos em insistir que o povo ateniense pode colocar Atenas em primeiro lugar, mesmo que isso significasse escravizar o povo de Milos. Em contraste, a ética moderna exige que tratemos todos os seres humanos como iguais moralmente – uma visão tão exigente que ainda não estabelecemos sociedades que a realizem plenamente. Mas Taylor não é ingénuo ao pensar que só porque o igualitarismo é uma ética mais exigente é que temos, ou mesmo nos tornaremos, pessoas melhores. Em vez disso, ele pensa que os nossos padrões éticos – por exemplo, aqueles defendidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos – são mais elevados do que os da antiguidade e dos populistas do America First. Taylor credita às instituições igualitárias a tentativa, ainda que imperfeita, de viver de acordo com estes ambiciosos princípios universais e igualitários.

O socialismo faria um trabalho melhor ao tentar instituir o respeito por estes princípios através da extensão da democracia à esfera económica, eliminando assim certas tentações de dominação. Isso não levará necessariamente a maioria das pessoas a se tornarem versões melhores de si mesmas. O socialismo democrático não pode impedir que seu cônjuge o traia com seu melhor amigo. Mas pode garantir que, quando o processo de divórcio acontecer, você não esteja falido e que seus filhos não vejam suas próprias chances de vida prejudicadas por causa da pressão financeira resultante. Nem o socialismo democrático vai transformar o seu vizinho egoísta num bom samaritano. Mas criaria um sistema onde os seus impostos ajudariam a pagar cuidados de saúde de qualidade quando você fica doente.

Um dos méritos do socialismo democrático seria concretizar elevados padrões de justiça sem exigir perfeição moral, ou sequer grande virtude, dos cidadãos comuns. Suspeito que, com o tempo, surgiria um ethos mais solidário e que a maioria dos cidadãos consideraria edificante esse maior senso de comunidade. Mas o sistema funcionaria independentemente disso. Nesse sentido, um socialismo viável atenderia aos apelos de Deneen por uma ética igualitária que reconheça a nossa natureza falível.

Hoje, não é a esquerda que se mostra ingênua em relação ao mundo. Há evidências crescentes de que as instituições existentes enfrentam uma crise de legitimidade, com as pessoas comuns demonstrando cada vez mais desprezo pelas concentrações oligárquicas de riqueza e poder do status quo. No entanto, comentaristas de centro-direita e conservadores continuam a insistir que é ingenuidade exigir melhores serviços de saúde e salários para todos. A verdadeira ingenuidade é a ideia de que as coisas devem continuar como estão.

Colaborador

Matt McManus é professor assistente no Spelman College. Ele é autor de The Political Right and Equality e The Political Theory of Liberal Socialism, entre outros livros.

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