Um guia de políticas para evitar uma crise política
James A. Davidson e Matthew J. Slaughter
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| Raven Jiang |
A era da inteligência artificial que desponta traz grandes promessas para a economia mundial e para os Estados Unidos. Assim como tantos outros países, os Estados Unidos enfrentaram décadas de crescimento lento na produtividade do trabalho. A produtividade — a quantidade de bens e serviços produzidos por trabalhador — é o indicador mais importante do sucesso econômico geral de um país. O crescimento lento da produtividade resultou em um aumento modesto da renda média, o que, por sua vez, alimentou grande parte da turbulência política observada em todo o mundo na última geração. Nos Estados Unidos, o crescimento lento da produtividade contribuiu para a crescente polarização política e para o que muitos consideram o declínio gradual do sonho americano.
Os Estados Unidos precisam promover um renascimento da produtividade. E a IA parece ser o catalisador perfeito. Em 2024, a produtividade dos EUA no setor empresarial não agrícola cresceu 3%, o aumento mais rápido registrado em décadas, excluindo-se anos de recessão ou pandemia. Um estudo da McKinsey publicado em 2025 estimou que, até 2030, agentes e robôs impulsionados por IA poderiam gerar entre US$ 2,9 trilhões e US$ 6,4 trilhões em novo valor econômico anual para os Estados Unidos — um ganho de produtividade equivalente a uma faixa de 9% a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2025 — e US$ 28,7 trilhões para o mundo como um todo.
A IA está pronta para impulsionar esse tipo de renascimento, pois estimula tanto o investimento de capital quanto a inovação — as duas formas pelas quais os países podem aumentar sua produtividade de maneira consistente. Os Estados Unidos e um número crescente de outros países estão testemunhando um aumento expressivo nos investimentos de capital em infraestrutura de IA, incluindo chips de computador, centros de dados e sistemas elétricos. Segundo o Federal Reserve Bank de St. Louis, os investimentos relacionados à IA representaram cerca de 39% do crescimento total do PIB dos EUA em 2025. Esse número deve aumentar em 2026. De acordo com o Financial Times, as quatro maiores empresas americanas de hiperescala (hyperscalers) em IA e computação em nuvem — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — planejam elevar seus gastos conjuntos de capital em IA para US$ 725 bilhões em 2026, um aumento de 77% em relação aos cerca de US$ 410 bilhões gastos coletivamente no ano anterior. A inovação — outra forma de aumentar a produtividade — envolve a descoberta de novos produtos e serviços, bem como de métodos mais eficientes para produzir os já existentes. Diariamente, empresas utilizam a IA para identificar e aproveitar ganhos de eficiência e automatizar tarefas rotineiras. Por exemplo, o AlphaFold — programa de IA desenvolvido pela DeepMind, cujos cientistas conquistaram o Prêmio Nobel de Química de 2024 — acelerou drasticamente a descoberta e a análise de proteínas necessárias para o desenvolvimento de medicamentos revolucionários e outros avanços na área médica.
No entanto, apesar de todo esse potencial econômico, a IA também cria um grande risco político: a possível eliminação de empregos em um ritmo mais acelerado e em uma escala mais ampla do que a assistência governamental existente consegue razoavelmente suprir. Esse dilema não é novidade. A inovação quase sempre reduziu a demanda por mão de obra em certos bens e serviços. Às vezes, essa inovação não resultou na perda generalizada de empregos existentes, mas sim no desaparecimento de tarefas antigas e na criação de novas funções e competências dentro dessas ocupações. No início da década de 1980, por exemplo, cerca de 16,5 milhões de americanos trabalhavam em operações de escritório e suporte administrativo. Apesar de todas as inovações em tecnologia da informação que automatizaram tarefas de secretariado — como fazer anotações de ditados e tirar cópias —, praticamente o mesmo número de americanos trabalha nesse setor hoje. Eles apenas realizam tarefas diferentes.
Por vezes, a inovação reduz permanentemente a demanda por certos empregos: artesãos que fabricavam carroças puxadas por cavalos quando o automóvel foi inventado, datilógrafos no início da era dos computadores pessoais, trabalhadores em linhas de montagem automatizadas com robôs e outros investimentos em capital. Essa destruição é uma característica fundamental do crescimento da produtividade. De fato, a eliminação de empregos e empresas existentes — e, por vezes, de setores inteiros — é uma condição necessária para a criação de novos empregos, rendas mais altas e maior riqueza.
No entanto, a destruição criativa também prejudica alguns trabalhadores e comunidades, podendo desencadear resistência política. Essa dinâmica tem se verificado pelo menos desde a Revolução Industrial, quando os luditas — trabalhadores têxteis britânicos qualificados que protestavam contra a invenção e a implementação de novas máquinas — invadiam fábricas e destruíam teares mecânicos e máquinas de tricô. Séculos mais tarde, a enxurrada de exportações chinesas de baixo custo para os Estados Unidos reduziu a demanda por muitos produtos fabricados no país, prejudicando milhares de fabricantes americanos e devastando muitas comunidades.
Hoje, acumulam-se evidências de que a IA está reduzindo a demanda por mão de obra em diversos setores, provocando um "choque da IA" semelhante ao "choque da China" do início do século XXI. Contudo, enquanto o choque da China restringiu-se principalmente a trabalhadores mais velhos em alguns setores, o choque da IA que se avizinha pode vir a ser muito maior e mais destrutivo. Ele afeta predominantemente os jovens em vez dos mais velhos, os trabalhadores com maior nível de escolaridade em vez dos menos escolarizados, e uma gama completa de setores em vez de concentrar-se principalmente na indústria manufatureira. Além disso, devido ao ritmo vertiginoso da inovação, os efeitos do choque da IA estão se propagando muito mais rapidamente do que ocorreu com o choque da China.
A IA está criando um grande perigo político.
Se a abrangência e a velocidade do choque causado pela IA superarem a capacidade dos formuladores de políticas de encontrar soluções que atenuem seus efeitos negativos, as repercussões poderão ser graves. Países que não instituírem mecanismos adequados de apoio ao mercado de trabalho para os trabalhadores deslocados correm o risco de perder os ganhos de produtividade da inteligência artificial, caso cedam à pressão pública para aprovar leis e regulamentações que sufoquem ou até mesmo revertam a disseminação da tecnologia. Podem enfrentar turbulências políticas decorrentes de novas e mais acentuadas divisões sociais. E podem ficar permanentemente atrás de países que consigam mitigar o choque da IA e, assim, colher todos os seus benefícios.
Algumas empresas adotaram medidas louváveis para ajudar os trabalhadores afetados: Jamie Dimon, CEO e presidente do conselho do JPMorgan Chase, e Dan Schulman, CEO da Verizon, anunciaram programas para auxiliar funcionários cujos empregos foram ou serão eliminados devido à IA. No entanto, soluções do setor privado são insuficientes para lidar com os efeitos da IA em toda a economia. Uma resposta eficaz ao choque da IA exige investimentos públicos significativos agora. Os Estados Unidos estão singularmente despreparados para tal empreitada. Suas políticas de mercado de trabalho, obsoletas, têm foco restrito e financiamento inadequado. Sem novas fontes de receita tributária para apoiar e requalificar os trabalhadores deslocados, o país simplesmente não conseguirá lidar com a magnitude do choque.
Duas novas políticas podem impedir que os Estados Unidos repitam os erros do "choque da China": créditos fiscais para incentivar o treinamento em novas habilidades e seguros contra perda salarial para estimular a recolocação profissional. Esses novos gastos fiscais deveriam ser financiados por um novo imposto sobre a remuneração atrelada a ações (equity-related compensation); isso distribuiria de forma mais justa os ganhos extraordinários decorrentes do aumento de produtividade esperado com a IA, repartindo-os entre os executivos das empresas que mais se beneficiarão financeiramente dos efeitos disruptivos da tecnologia e os trabalhadores mais duramente atingidos por ela. O boom da IA certamente transformará a economia dos EUA de maneiras que nenhum economista consegue prever totalmente. Contudo, essas políticas garantirão que os ganhos sejam compartilhados de forma mais ampla entre empresas inovadoras, seus trabalhadores e comunidades por toda a América.
GRAUS DE DIFICULDADE
Considere as seguintes manchetes do final de 2025. Em outubro, a Amazon anunciou a eliminação de 14.000 empregos, além de planos para novos cortes. Um mês depois, a Verizon eliminou mais de 13.000 postos de trabalho — cerca de 13% de sua força de trabalho, na maior rodada de demissões de sua história. Segundo a empresa de executive coaching Challenger, Gray & Christmas, os cortes de vagas anunciados em todos os Estados Unidos em 2025 totalizaram 1,2 milhão — um aumento de 58% em relação ao ano anterior e o maior número registrado, excluindo-se o período da pandemia de COVID-19, desde o ponto mais crítico da Grande Recessão, em 2009.
Cada vez mais, as empresas apontam a IA como o motivo de tais demissões. Em junho de 2025, o CEO da Amazon, Andy Jassy, alertou que a empresa esperava "reduzir nossa força de trabalho corporativa total à medida que obtivermos ganhos de eficiência com o uso extensivo de IA" nos próximos anos. Em novembro, Enrique Lores, então líder da HP, explicou um corte de aproximadamente 5.000 vagas como parte do esforço da empresa para incorporar a IA "em tudo o que fazemos".
Este ano trouxe mais do mesmo. Em janeiro, o CEO do Bank of America, Brian Moynihan, previu cortes de pessoal à medida que a empresa busca a "excelência operacional e a aplicação de novas tecnologias, incluindo IA". No mês seguinte, a empresa de serviços financeiros Block anunciou que demitiria quase 40% de sua força de trabalho — mais de 4.000 funcionários — devido à adoção de "ferramentas de inteligência" baseadas em IA. Em abril, a Meta anunciou planos de demitir cerca de 8.000 funcionários — 10% de sua força de trabalho — e cancelar 6.000 vagas em aberto, ao mesmo tempo em que ampliava seus investimentos em IA. No mesmo dia, Moynihan revelou que a IA já havia eliminado 1.000 empregos no Bank of America. Em maio, o CEO e presidente da Cloudflare justificou a eliminação de 1.100 empregos — não como uma medida de "corte de custos" ou "avaliação de desempenho individual", mas como um esforço para definir "como uma empresa de alto crescimento e classe mundial opera e cria valor na era da IA com capacidade de ação autônoma (agentic AI)". Nem todas essas demissões recentes podem ser atribuídas exclusivamente à IA, mas a eficiência dos funcionários está no cerne de muitas decisões de implementar a tecnologia.
A questão não é se a IA trará uma onda de ganhos de produtividade; ela trará.
Embora o volume crescente de demissões relacionadas à IA indique que esse choque emergente afeta diversos tipos de trabalhadores, ele parece atingir de forma desproporcional os jovens e aqueles com maior nível de escolaridade, em todos os setores. Um dos estudos acadêmicos mais conclusivos até o momento, realizado pelo Stanford Digital Economy Lab, analisou registros mensais de folha de pagamento de milhões de pessoas em dezenas de milhares de empresas, abrangendo o período desde os meses anteriores ao lançamento público inicial do ChatGPT, da OpenAI, em novembro de 2022, até julho de 2025. Com base em dados da ADP — a maior fornecedora de software de folha de pagamento dos Estados Unidos —, os pesquisadores constataram que trabalhadores entre 22 e 25 anos em ocupações mais expostas à IA, como desenvolvedores de software e representantes de atendimento ao cliente, sofreram uma queda de 6% no nível de emprego. "Em contrapartida, as tendências de emprego para trabalhadores mais experientes nas mesmas ocupações, e para trabalhadores de todas as idades em ocupações menos expostas — como auxiliares de enfermagem —, permaneceram estáveis ou continuaram a crescer", apontou o estudo. O "choque da China" colocou trabalhadores americanos de colarinho azul e com menor nível de escolaridade em concorrência direta com centenas de milhões de trabalhadores chineses de baixos salários. Em contrapartida, um estudo do Federal Reserve Bank de Nova York concluiu que os aumentos recentes no desemprego geral dos EUA concentraram-se "entre recém-graduados e trabalhadores de colarinho branco". Em toda a economia americana, a taxa de desemprego de recém-graduados supera a da força de trabalho como um todo. Em março de 2026, a taxa de desemprego entre recém-graduados situava-se em cerca de 5,6%, em comparação com 4,2% para a população geral. Talvez as vítimas iniciais mais notáveis da pressão exercida pela IA sobre o mercado de trabalho de colarinho branco sejam os engenheiros de software — particularmente os recém-graduados em áreas STEM que enfrentam dificuldades para conseguir empregos de nível inicial, à medida que a capacidade da IA de escrever e editar código de computador melhora a cada dia.
No entanto, os efeitos não se restringem apenas aos aspirantes a programadores. O estudo do Federal Reserve de St. Louis concluiu que "mesmo trabalhadores com alta qualificação em áreas anteriormente estáveis não estão imunes a perturbações econômicas". Em muitos setores que antes resistiam a choques, profissionais cujas tarefas principais podem ser amplamente — se não totalmente — codificadas por um conjunto de regras e processos (e, portanto, automatizadas pela IA) estão agora sob ameaça: analistas de consultoria, contadores e atuários do setor financeiro, bem como advogados associados e assistentes jurídicos. Essa redução na demanda por mão de obra jovem diminui a probabilidade de que profissionais em início de carreira adquiram as habilidades diferenciadas que costumam impulsionar suas perspectivas profissionais futuras.
Em alguns setores — particularmente naqueles que dependem do chamado conhecimento tácito, em vez do conhecimento codificável, e onde aptidões como julgamento e inteligência emocional são fundamentais —, a IA está potencializando o trabalho, e não o automatizando. Um exemplo é a área da saúde. O New York Times noticiou que a Mayo Clinic ampliou sua equipe de radiologia em mais de 50%, mesmo implementando centenas de modelos de IA para auxiliar na análise de imagens, o que permitiu aos médicos concentrarem-se mais na tomada de decisões complexas e no atendimento aos pacientes. A IA também está impulsionando a criação de ocupações totalmente novas e, futuramente, poderá até dar origem a novos setores industriais.
Com o tempo, a IA deverá elevar a produtividade, a renda e o padrão de vida geral nos Estados Unidos. No entanto, embora a IA já comece a complementar a força de trabalho existente, é provável que a velocidade e a escala iniciais da eliminação de empregos superem a velocidade e a escala de sua criação. Além disso, os danos causados podem ser exponenciais. Uma das razões para isso é a velocidade impressionante com que a qualidade das ferramentas de IA vem evoluindo. Desde o lançamento do ChatGPT, no final de 2022, houve uma explosão no número de soluções de IA disponíveis e uma melhoria exponencial em sua qualidade — tudo isso a um custo reduzido para qualquer empresa ou indivíduo com acesso à internet. Apenas nos meses de março e abril deste ano, pelo menos dez novos modelos foram lançados pelas principais empresas do setor de IA.
A história oferece poucos exemplos — se é que oferece algum — de uma inovação tão extraordinária adotada com tamanha rapidez. Uma pesquisa do Departamento do Censo dos EUA, publicada em 2024, revelou que, 60 anos após a instalação do primeiro robô industrial no país, em 1961, apenas 12% das fábricas do setor manufatureiro utilizavam robôs. Outro estudo constatou que, em 1997 — uma geração após o surgimento dos computadores pessoais —, apenas 49,8% dos adultos empregados os utilizavam. Segundo um estudo do Federal Reserve de St. Louis de novembro de 2025 sobre a adoção de IA, 54,6% dos adultos norte-americanos já utilizavam a tecnologia — apenas três anos após o lançamento público do ChatGPT.
Líderes empresariais já se preparam para o impacto crescente da revolução da IA. Quarenta e um por cento de cerca de 10.000 executivos globais consultados em uma pesquisa de 2024 do Fórum Econômico Mundial afirmaram esperar que a IA reduzisse suas equipes de trabalho até 2030. Eles certamente estão cientes do consenso acadêmico emergente sobre os efeitos da IA no mercado de trabalho. Utilizando uma metodologia inovadora que modelou 32.000 habilidades distintas no mercado de trabalho dos EUA, uma equipe de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) calculou que 12% do total de salários pagos no país correspondem a tarefas tecnicamente automatizáveis pelos sistemas de IA atuais — descrevendo os impactos iniciais em funções ligadas à tecnologia, como a programação, como "apenas a ponta do iceberg". O estudo da McKinsey concluiu que as tecnologias atuais, incluindo agentes de IA, "poderiam, em teoria, automatizar atividades que representam cerca de 57% das horas de trabalho nos EUA hoje" — ou seja, "a maior parte do trabalho atualmente realizado por pessoas nos Estados Unidos".
OS JOVENS E OS INQUIETOS
A questão não é se a IA trará uma bonança de produtividade; ela trará. A questão é se os Estados Unidos conseguirão concretizar plenamente esses ganhos futuros, navegando pelas perturbações iniciais nos mercados de trabalho e mitigando as tensões sobre as estruturas econômicas e políticas do país. O registro histórico é inequívoco: a resistência à inovação surge quando o ritmo e a abrangência da destruição criativa superam o ritmo e a abrangência da resposta política do governo.
Até o momento, o maior choque de destruição criativa para o sistema econômico global do pós-Segunda Guerra Mundial foi a explosão das exportações chinesas intensivas em mão de obra, resultante do boom de produtividade iniciado na China no início da década de 1980. Estudos demonstraram que, da década de 1990 até a primeira década do século XXI, as importações norte-americanas de produtos chineses eliminaram mais de um milhão de empregos na indústria dos EUA; muitas dessas perdas concentraram-se entre trabalhadores industriais mais velhos, em um pequeno número de estados que antes possuíam economias industriais prósperas, como Ohio e Pensilvânia.
Está bem documentado o fato de que Washington e os governos locais fizeram muito pouco para enfrentar os custos econômicos, culturais e sociais do "choque da China". Eles presumiram, erroneamente, que os benefícios — maiores, porém difusos, como bens de consumo mais baratos e oportunidades de exportação ampliadas — superariam, aos olhos dos trabalhadores deslocados, os danos profundos e concentrados decorrentes da perda de empregos. O principal mecanismo de defesa política dos EUA contra o choque da China foi o programa Trade Adjustment Assistance (TAA — Assistência ao Ajuste Comercial), criado pela Lei de Expansão do Comércio de 1962 como parte dos esforços daquela legislação para liberalizar o comércio norte-americano no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT). O TAA visava oferecer seguro-desemprego ampliado, assistência na busca de emprego e requalificação profissional aos trabalhadores cujas empresas haviam sido prejudicadas pelo aumento das importações. No entanto, o TAA foi prejudicado por sua estrutura complexa, burocracia excessiva e financiamento inadequado: em 2005, seu gasto total foi de 845 milhões de dólares, apenas 0,03% do total dos gastos federais.
O terreno é fértil para uma reação negativa contra a IA.
As consequências sociais dessa negligência foram devastadoras. Os trabalhadores mais afetados pela contração do mercado de trabalho industrial apresentavam uma probabilidade muito maior de sofrer o que os economistas Anne Case e Angus Deaton descreveram como "mortes por desespero" — suicídio, overdose de drogas e intoxicação alcoólica —, cujo aumento explosivo contribuiu para a queda na expectativa de vida de certos grupos de americanos nas últimas duas décadas. As consequências políticas foram igualmente sísmicas. Donald Trump foi eleito e reeleito presidente em grande parte devido à sua rejeição contundente da globalização e à sua disposição de dar voz às queixas das vítimas do chamado "choque da China". Em seu primeiro mandato, ele iniciou uma guerra comercial contra a China e buscou implementar restrições à imigração. No segundo, instituiu um regime tarifário global abrangente e caótico, além de uma campanha de deportação em massa voltada principalmente para imigrantes que trabalhavam ilegalmente em empregos de baixa remuneração nos Estados Unidos.
Essas ondas de choque continuam a definir a política americana hoje, apesar de duas realidades importantes e pouco reconhecidas. As pressões econômicas exercidas pela China sobre os empregos industriais de menor qualificação diminuíram consideravelmente; além disso, para o país como um todo, tais pressões foram compensadas pela queda nos preços de bens de consumo e insumos industriais, bem como pelo crescimento de setores nos quais os Estados Unidos mantêm uma vantagem comparativa em relação ao resto do mundo. Em 2024, a renda mediana das famílias americanas era de US$ 83.730 — um valor 18,6% superior, em termos ajustados pela inflação, ao registrado em 2001, ano em que a China ingressou na Organização Mundial do Comércio —, e a taxa de desemprego agregado permanece próxima de mínimas históricas. No entanto, essas realidades econômicas não atenuaram a reação política contrária à globalização.
O "choque da China" implicou uma reorganização das redes globais de suprimentos, cujo ritmo foi ditado pela lenta tramitação — ao longo de anos — dos acordos da Organização Mundial do Comércio e pelas decisões de empresas multinacionais. Segundo um estudo de referência dos economistas David Autor, David Dorn e Gordon Hanson, esse fenômeno provocou a perda de cerca de 1,5 milhão de empregos na indústria manufatureira dos EUA entre 1990 e 2007, afetando, em média, cerca de 7.500 trabalhadores do setor a cada mês. As evidências sugerem que o impacto da IA pode já ser de magnitude semelhante, com potencial para crescer muito mais. Em uma economia americana que conta com dois milhões de empregos para desenvolvedores de software e três milhões apenas no setor de atendimento ao cliente, o número de postos de trabalho ameaçados pela IA pode superar vastamente o número de empregos perdidos devido ao choque da China. Além disso, a infraestrutura digital da IA é muito mais fácil de construir do que a infraestrutura física das redes globais de suprimentos — ou de inovações anteriores que marcaram época, como as ferrovias ou a rede elétrica. O choque da IA pode acabar sendo a disrupção tecnológica mais rápida da história da humanidade.
O terreno já é fértil para um movimento político impulsionado pela reação negativa à revolução da IA. Trabalhadores mais jovens e com maior nível de escolaridade em todo o mundo já expressam profunda insatisfação com os sistemas econômicos, políticos e sociais em que estão chegando à vida adulta. A visão de mundo da Geração Z — cética em relação às elites, ao capitalismo e às Big Techs — foi profundamente moldada pelo pessimismo diante da estagnação salarial, da concentração de riqueza, da escassez de oportunidades e da crescente desconfiança nas instituições e em seus líderes.
Essa geração entra na arena política em um momento em que a idade mediana do comprador do primeiro imóvel é de 40 anos — contra 32 em 2000 e 28 em 1991; as mensalidades de planos de saúde de qualidade estão disparando; e o custo anual da graduação nas principais universidades aproxima-se de 100 mil dólares. Não surpreende, portanto, que a maioria dos jovens americanos hoje acredite que o capitalismo não oferece oportunidades justas de sucesso, ou que apenas 16% dos americanos com menos de 30 anos acreditem que a democracia esteja funcionando bem para eles. Consequentemente, eles apoiam candidatos que abordam essas preocupações: Abigail Spanberger e Mikie Sherrill — ambas com campanhas focadas na acessibilidade de custos — conquistaram vitórias nas disputas para o governo da Virgínia e de Nova Jersey impulsionadas pelo voto jovem; e Zohran Mamdani, um socialista democrático, mobilizou eleitores jovens com uma mensagem semelhante em sua trajetória rumo à prefeitura de Nova York.
Em muitos países desenvolvidos, grande parte da Geração Z encara a transição para a vida adulta como uma maratona de competições aparentemente intermináveis: para ingressar em escolas de ensino fundamental, médio e universidades de elite; para conseguir estágios e contratações em empresas globais altamente seletivas; e, finalmente, para obter empregos permanentes nessas mesmas empresas e iniciar suas carreiras. Se a IA eliminar um número excessivo desses empregos cobiçados, o sentimento de traição entre jovens profissionais altamente qualificados poderá ecoar a indignação dos trabalhadores industriais mais velhos e com menor escolaridade durante o chamado "choque da China". À medida que a idade se torna mais uma linha de fratura na política americana, novas batalhas em torno da Previdência Social (Social Security) e do Medicare podem dividir ainda mais um país já polarizado.
DESAPRENDER A PROGRAMAR
Os formuladores de políticas que presumem que os americanos abraçarão a IA sem questionamentos — incluindo as perturbações no mercado de trabalho que ela traz — terão um choque de realidade. De fato, antes mesmo de começar para valer, a transição para a IA já é impopular. Uma pesquisa do instituto Marist de setembro de 2025 revelou que cerca de 67% de todos os americanos acreditam que a IA eliminará mais empregos do que criará, e uma pesquisa da Universidade Quinnipiac de março de 2026 constatou que 81% dos jovens americanos acreditam que ela reduzirá as oportunidades de trabalho. A reação negativa contra os centros de dados é a primeira onda de uma crescente maré de descontentamento. O investimento nesses centros — que fornecem a infraestrutura computacional necessária para a ampla implementação da IA — tem impulsionado cada vez mais o crescimento econômico dos EUA. Isso, no entanto, não impediu a proliferação de protestos acalorados contra essas instalações nem as propostas de moratória em sua construção, que vêm sendo debatidas em legislativos estaduais e câmaras municipais por todo o país.
Para colher todos os benefícios de produtividade e ganhos geopolíticos da IA, e evitar uma reação negativa mais ampla que poderia limitar seriamente esses ganhos, o governo dos EUA precisará conceber novas formas de apoiar os trabalhadores. Créditos fiscais para incentivar o treinamento em novas habilidades e seguros contra perda salarial para estimular a recolocação profissional são políticas simples e abrangentes o suficiente para fortalecer competências e rendas, ajudar os trabalhadores a lidar com a perda de empregos relacionada à IA e, assim, evitar mais um momento de ruptura política. Para financiar essas políticas, o governo federal deveria instituir um imposto sobre a folha de pagamento incidente sobre a remuneração em ações (ou participação acionária) das empresas.
A maioria dos funcionários recebe pelo trabalho realizado integralmente em dinheiro, valor que pode ser imediatamente tributado pelo governo federal. No entanto, alguns — particularmente os executivos mais bem pagos do país — recebem a maior parte de sua remuneração na forma de incentivos acionários, como ações da empresa ou opções de compra dessas ações. Em geral, a remuneração em ações não é tributada no momento de sua concessão nem à medida que seu valor aumenta ao longo do tempo. Segundo o Economic Policy Institute, a remuneração em ações tem sido o principal fator de desigualdade salarial entre CEOs americanos e seus trabalhadores comuns; essa disparidade passou de uma proporção de 21 para 1 em 1965 para 281 para 1 em 2024.
Seja de forma explícita ou implícita, os mercados atualmente recompensam as empresas que oferecem remuneração em ações. Segundo a legislação dos EUA, empresas de capital aberto devem divulgar seus resultados financeiros em conformidade com os Princípios Contábeis Geralmente Aceitos (GAAP). No entanto, a maioria das empresas também divulga resultados "pro forma", que excluem a remuneração baseada em ações. Acadêmicos e observadores do mercado criticam frequentemente essa prática, pois os resultados pro forma superestimam a lucratividade corporativa ao excluir o custo da remuneração em ações. Contudo, como os investidores toleram essa convenção, as empresas continuam a adotá-la. Essa prática beneficia enormemente os executivos — cuja remuneração provém principalmente de ações — e prejudica os trabalhadores que recebem em dinheiro.
O impacto da IA pode já ser tão grande quanto o impacto da ascensão da China na economia global.
Um novo imposto de 25% sobre a folha de pagamento, incidente sobre empresas de capital aberto e grandes empresas privadas quando estas concedem remuneração em ações, geraria pelo menos US$ 100 bilhões em receita anual sem penalizar indevidamente a inovação em IA. Tal medida vincularia a arrecadação tributária à valorização das ações das empresas que mais se beneficiam do aumento de produtividade impulsionado pela IA, permitindo, ao mesmo tempo, que executivos recebam pacotes de remuneração compatíveis com as forças de mercado. O aumento de receitas e a redução de custos dessas empresas, viabilizados pela implementação bem-sucedida da IA, compensariam parte — ou até mesmo a totalidade — do custo do imposto ao longo do tempo. A nova receita tributária anual de US$ 100 bilhões equivaleria a apenas 0,16% do valor de mercado das ações das empresas da lista Fortune 500 em maio de 2026 e a cerca de 10% do total de US$ 1 trilhão em recompras de ações realizadas nos EUA em 2025.
Ao contrário de um imposto sobre grandes fortunas — que pode ser inconstitucional e sufocar inovações extraordinárias como a IA —, um imposto sobre a folha de pagamento incidente sobre a remuneração em ações alinharia os interesses econômicos de todas as partes envolvidas com a inteligência artificial: empresas que buscam inovar e crescer; o governo federal, interessado em impulsionar a produtividade geral dos EUA e o padrão de vida médio; e os trabalhadores, que necessitam de apoio para enfrentar a transição provocada pela IA.
A nova receita financiaria tanto os créditos tributários para incentivar a requalificação quanto o seguro contra perda salarial para estimular a recolocação profissional. Para amenizar o impacto de possíveis demissões em massa de trabalhadores de colarinho-branco, o governo federal criaria um novo e substancial crédito tributário que trabalhadores elegíveis — ou seus empregadores — poderiam utilizar para investir no desenvolvimento de novas habilidades. O governo não criaria seus próprios programas de requalificação e, portanto, não precisaria prever quais habilidades teriam maior demanda; o treinamento — incluindo cursos online, aulas presenciais em faculdades e universidades e programas internos elaborados por empresas — abordaria justamente as competências que viessem a se mostrar complementares à IA.
Um crédito tributário portátil e amplamente disponível também superaria o chamado problema da "seleção adversa" que afeta a maioria dos programas de treinamento. Esses programas geralmente não elevam os rendimentos dos trabalhadores porque as empresas presumem que os participantes podem ser, de alguma forma, menos qualificados e, portanto, menos atraentes para contratação. Ao oferecer esse crédito tributário a um grande número de trabalhadores, a concorrência forçaria as empresas a oferecer requalificação relevante, sob pena de parecerem pouco atraentes no mercado de trabalho geral.
Para incentivar a recolocação de trabalhadores que perdem seus empregos devido à IA, o novo programa de seguro contra perda salarial — também criado pelo governo federal — substituiria, por um período, uma parcela dos salários perdidos pelos trabalhadores elegíveis, uma vez que estes encontrassem um novo emprego com remuneração mais baixa.
A lógica por trás do seguro contra perda salarial é simples. Trabalhadores demitidos frequentemente perdem capital específico da empresa ou do setor; por exemplo, engenheiros de software de uma grande empresa de tecnologia, dispensados porque a IA automatizou suas funções, perdem a oportunidade de adquirir experiência no uso de IA no ambiente de trabalho. Muitas vezes, esses trabalhadores só conseguem encontrar empregos com salários mais baixos — vagas que, compreensivelmente, relutam em aceitar —, agravando assim a perda de capital humano ao permanecerem desempregados. O governo pode mitigar esse risco compensando parcialmente os trabalhadores pela perda de rendimentos ao migrarem para empregos com salários menores. Um engenheiro de software, por exemplo, poderia encontrar um novo emprego na área de vendas de outra grande empresa de tecnologia ou atuar como engenheiro-chefe em uma startup de IA em estágio inicial. O seguro contra perda salarial ajudaria a amenizar o impacto da aceitação de um salário mais baixo na nova função. O seguro contra perda salarial incentiva uma recolocação mais rápida no mercado de trabalho após a perda do emprego, ao reduzir o incentivo do trabalhador para permanecer desempregado na esperança de conseguir uma vaga melhor. Além disso, faz isso sem desestimular as empresas a contratar, uma vez que o seguro não altera o salário de mercado que elas estão dispostas a pagar.
As evidências emergentes de que a IA pode substituir tarefas que exigem alto nível de talento (e, consequentemente, empregos de salários elevados) tornam o seguro contra perda salarial particularmente adequado para enfrentar os riscos do choque causado pela IA — bem como para aproveitar o seu potencial. Pesquisas dos economistas Rob Shimer e Daron Acemoglu demonstraram que o seguro contra perda salarial aumenta a produção agregada ao incentivar os trabalhadores a buscar empregos de salários altos que, embora apresentem maior risco de desemprego, oferecem também um elevado potencial de produtividade — ou seja, justamente os empregos que impulsionarão uma expansão econômica.
A relativa simplicidade dos créditos fiscais e do seguro contra perda salarial tornaria também simples o ajuste de seus critérios de elegibilidade e de seu escopo geral. Por exemplo, o governo poderia facilmente alterar ou ampliar a lista de ocupações e grupos de habilidades elegíveis para acompanhar a evolução do choque da IA.
A destruição criativa tem sido fundamental para o crescimento da economia mundial ao longo dos séculos. A inteligência artificial não é exceção a essa regra. Como tecnologia, ela traz uma promessa econômica muito necessária para trabalhadores, empresas e para o país. No entanto, se não for gerida adequadamente, sua adoção poderá desencadear uma crise política e social capaz de fazer com que o "choque da China" pareça brando em comparação. Agir com ousadia agora, antes que o choque da IA se materialize plenamente, pode evitar mais uma crise que marcaria uma era e inaugurar um renascimento da produtividade.
JAMES A. DAVIDSON é cofundador e ex-sócio-gerente da Silver Lake.
MATTHEW J. SLAUGHTER é Diretor (cargo Paul Danos Dean) e Professor de Negócios Internacionais (cátedra Earl C. Daum 1924) na Tuck School of Business do Dartmouth College. De 2005 a 2007, integrou o Conselho de Consultores Econômicos da Casa Branca.