30 de outubro de 2026

Quarto ato

O retorno de Lula.

Mario Sergio Conti

Sidecar


O segundo turno da eleição presidencial no Brasil, realizado no domingo, 25 de outubro, trouxe diversos resultados históricos. Mais de 128 milhões de pessoas votaram, e a soma de abstenções, votos nulos e votos em branco atingiu um patamar recorde de baixa. Pela primeira vez, um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno venceu o segundo, garantindo a Lula um quarto mandato sem precedentes. Para além desses marcos, o resultado representa não apenas uma reviravolta dramática no cenário interno — um retorno que poucos previram —, mas também uma mudança significativa na política regional: o Brasil, ao menos por ora, freou o avanço da extrema-direita na América Latina (como visto na Argentina e em El Salvador) e da direita de modo mais amplo (em países como Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Venezuela).

Os candidatos apresentavam um contraste marcante. Lula, hoje com 81 anos, nasceu na extrema pobreza e começou a trabalhar aos 12 anos, formando-se mais tarde como metalúrgico. Sindicalista militante, foi preso durante a ditadura por seu papel na liderança de greves, antes de fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, deve sua carreira política ao pai, o capitão reformado do Exército e ex-presidente Jair Bolsonaro. "Empreendedor" formado em instituições privadas — embora sem empresas — e advogado com poucos clientes (entre eles, um policial militar acusado de matar uma menina de cinco anos), Flávio foi eleito para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aos 21 anos. Sua ascensão política foi marcada por controvérsias: ele concedeu uma medalha oficial a um ex-policial militar que se tornou matador de aluguel, e seu gabinete parlamentar empregava a mãe desse assassino. Após a eleição de seu pai para a presidência em 2019, Flávio Bolsonaro foi eleito para o Senado, embora seja mais conhecido por transações imobiliárias suspeitas do que por qualquer realização legislativa.

A campanha de Lula no primeiro turno foi pouco expressiva. Ao contrário da eleição de 2022, na qual ele derrotou Jair Bolsonaro — que posteriormente foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e que, atualmente, cumpre prisão domiciliar —, Lula não formou uma ampla aliança com partidos de centro, concorrendo apenas sob a bandeira do PT, com o apoio de uma coalizão de legendas menores de esquerda. Sua campanha defendeu os programas sociais associados aos seus mandatos presidenciais anteriores; contudo, seu terceiro mandato carecia de uma realização marcante em torno da qual pudesse mobilizar os eleitores. A visão aparentemente otimista da cúpula do PT sobre a conjuntura social e econômica do Brasil parecia desconectada da realidade. O Bolsa Família — principal programa de transferência de renda, criado por Lula em 2003 e que beneficia quase 20 milhões de famílias de baixa renda, totalizando 50 milhões de pessoas — não sofria reajustes desde março de 2023. A recente legalização das apostas online resultou em níveis alarmantes de endividamento. Os preços dos alimentos subiam, afetando de forma mais severa as famílias mais pobres. Talvez por esses motivos, o PT não tenha incentivado manifestações de rua, limitando-se a poucos eventos realizados apenas por formalidade, embora ainda mantivesse vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, sugeriu a possibilidade de cortar gastos com saúde, educação e até mesmo Bolsa Família, embora posteriormente tenha recuado. Ele prometeu relaxar as restrições ao desmatamento na Amazônia, facilitar a exploração dos recursos minerais e alinhar o Brasil aos interesses dos Estados Unidos. Seu programa atraiu apoio das finanças, de grandes industriais e do agronegócio, enquanto Meta foi acusado de manipular algoritmos de mídia social em seu benefício. O seu apelo a grandes sectores da população resultou da sua promessa de adoptar uma linha dura em relação ao crime, adoptando o modelo de encarceramento em massa do El Salvador de Bukele. Se vencesse, prometeu perdoar o Bolsonaro mais velho e subir a rampa do Planalto de braços dados. Para marcar o fim da era Lula, ele receberia a faixa presidencial de seu pai e não do presidente cessante, como manda o protocolo.

A campanha do primeiro turno foi dominada por um grande escândalo de corrupção, com ramificações que alcançaram toda a classe política e se espalharam pelo país. O Banco Master, que teve carta branca das autoridades financeiras durante o governo de Jair Bolsonaro, operou um esquema de pirâmide financeira utilizando recursos de fundos de pensão municipais e estaduais — incluindo o do estado da Bahia, administrado pelo PT. O esquema arrecadou mais de 2 bilhões de dólares e envolveu partidos políticos, parlamentares, governadores, prefeitos, juízes, veículos de imprensa, igrejas evangélicas, advogados e funcionários do Banco Central. O proprietário do banco, Daniel Vorcaro, desembolsou 25 milhões de dólares para contratar o escritório de advocacia da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Conhecido popularmente como "Xandão", Moraes determinou a prisão de Jair Bolsonaro e gerou controvérsias ao recorrer, de forma agressiva, a ordens de censura e à perseguição de opositores políticos. Vorcaro também destinou quantias vultosas a outros três ministros do STF, além de financiar festas extravagantes para a elite política brasileira. O próprio Flávio Bolsonaro foi implicado no caso: uma gravação telefônica, na qual ele solicita a Vorcaro 24 milhões de dólares para financiar um filme sobre seu pai, veio a público no início deste ano. O escândalo do Banco Master destruiu a credibilidade do Supremo Tribunal Federal, mas não freou a ascensão constante de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto durante o período pré-eleitoral.

Até a véspera do primeiro turno, no domingo, 4 de outubro, Lula mantinha uma vantagem estreita. A noite da eleição trouxe uma surpresa: Flávio saiu na frente, com 47% dos votos contra 45% de Lula — uma diferença de 2,2 milhões de votos. O PT também sofreu uma derrota acachapante nas eleições legislativas, perdendo espaço tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados. Nenhum dos candidatos da "velha guarda" do partido conseguiu a reeleição. "A era do PT acabou", vangloriou-se Flávio Bolsonaro. Atônita, a cúpula da campanha de Lula viu-se mergulhada em desordem.

A resposta a nível popular, no entanto, foi totalmente diferente. Irromperam manifestações espontâneas, dissipando a tristeza predominante em questão de dias. Pequenas reuniões transformaram-se em assembleias e marchas que logo se espalharam por todo o país. Santos, no litoral do estado de São Paulo, oferece um exemplo vívido. A cidade abriga o maior porto da América do Sul desde o século XIX, exportando café para o mundo. Tem uma longa tradição de organização trabalhista e política de esquerda, reforçada pelo desenvolvimento da indústria petrolífera na vizinha Cubatão. Dois dias após a primeira volta, o Sindicato dos Petroleiros organizou uma discussão sobre como abordar o segundo turno. Eram esperadas cerca de 50 pessoas; em vez disso, compareceram 200, cujo número aumentou rapidamente para 500, lotando o auditório do sindicato e espalhando-se pela rua. Esta reunião ao ar livre contou com a participação de estudantes da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo criada durante o primeiro mandato de Lula, e de manifestantes liderados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes. "Antes que eu percebesse, havia 3 mil pessoas na rua", conta Kris Mackleiny, trabalhador da Petrobras que improvisou um discurso inflamado.

No mesmo dia, a antiga União Nacional dos Estudantes, que representa 6 milhões de estudantes universitários em todo o Brasil, realizou uma reunião no Rio de Janeiro. Uma grande multidão se reuniu e decidiu lançar manifestações pró-Lula por todo o país. Em quatro dias, ocorreram pelo menos 350 manifestações estudantis. Os estudantes universitários já estavam concentrados nas capitais dos estados, mas a expansão das universidades federais e escolas técnicas sob os governos petistas nas últimas décadas estendeu sua presença ao interior do Brasil e às cidades médias. ‘Trabalhador, olha aqui: estamos lutando para que seu filho possa estudar’: sem qualquer orientação da liderança nacional, esse refrão pôde ser ouvido em inúmeras reuniões. Milhares de trabalhadores aderiram ao movimento, desde operários em Barueri e Volta Redonda até balconistas em ruas movimentadas e distritos comerciais de todo o Brasil.

O ponto alto da mobilização ocorreu no domingo seguinte, 11 de outubro. Apoiadores de Lula reuniram-se em grande número ao longo da Avenida Paulista, em São Paulo — um trecho de 3 quilômetros que, há muito, é o palco tradicional de protestos e que, na última década, tornou-se cenário frequente de agitações da extrema-direita. A adesão remeteu às manifestações da década de 1980 que reivindicavam eleições diretas para a presidência. Protestos de escala e intensidade semelhantes foram registrados por todo o país, de Recife a Porto Alegre.

O chamado à mobilização partiu de "fandoms" — comunidades online —, mais do que dos esforços convencionais de partidos políticos ou sindicatos. Logo após o resultado do primeiro turno, André Janones, deputado federal e aliado de Lula, ajudou a transformar um canal no WhatsApp em um "Exército de Lula" — uma força online de massa que rapidamente alcançou mais de 10 milhões de seguidores, coordenando ações e disseminando vídeos virais e hashtags. Embora tenha sido temporariamente retirado do ar após intervenções de magistrados nomeados por Jair Bolsonaro, essa vasta rede demonstrou que o lulismo havia se tornado uma força vital no espaço digital — o mesmo espaço que fora decisivo para a vitória de Bolsonaro em 2018. A grande onda de manifestações populares estimulou, por sua vez, uma participação online ainda maior. O misto de apreensão e entusiasmo resultou em um nível excepcionalmente elevado de engajamento político.

O que levou tantas pessoas — inclusive aquelas que, habitualmente, não se envolvem em ativismo político — a deixar de lado a letargia e entrar em ação? Não existe uma resposta definitiva, mas é possível levantar algumas hipóteses. A primeira diz respeito à democracia. Flávio Bolsonaro e seus apoiadores desafiaram, repetidamente, as instituições democráticas, manifestaram admiração por figuras autoritárias e defenderam o legado da ditadura militar brasileira. Ele e sua família passaram a simbolizar um estilo de política profundamente ameaçador. Muitos temeram o ressurgimento de perseguições contra a esquerda, sindicalistas, intelectuais e artistas. As afinidades de Bolsonaro com o "trumpismo", sua postura permissiva em relação ao porte de armas e as ameaças de retrocesso em políticas de bem-estar social e direitos trabalhistas — tudo isso contribuiu para tais preocupações. Além disso, permanecem vivas as lembranças da gestão irresponsável da pandemia de Covid-19 por parte de Bolsonaro (pai).

Esses fatores, por si só, contudo, não conseguem explicar a reviravolta dramática entre os dois turnos. A mobilização que a impulsionou não foi liderada pelo PT, amplamente visto como uma burocracia anquilosada e desconectada dos jovens. Janones é filiado ao partido ambientalista Rede, enquanto o projeto de lei que propõe a semana de trabalho de cinco dias foi apresentado por Erika Hilton, deputada transgênero do PSOL — um partido situado à esquerda do PT. Ainda assim, a derrota no primeiro turno levou o próprio Lula a agir. Ele reagiu aumentando os valores do Bolsa Família, promovendo mudanças na estrutura de sua campanha, concedendo entrevistas dinâmicas a Janones e intensificando investimentos em projetos voltados à proteção da população mais pobre. Economistas estimam que ele destinou mais de 72 bilhões de reais a benefícios sociais no período que antecedeu a eleição.

Na véspera do segundo turno, multidões determinadas se reuniram novamente ao longo da Avenida Paulista e da Avenida Atlântica, em São Paulo, ao lado da Praia de Copacabana, no Rio. A tensão aumentou, com as pesquisas prevendo uma disputa acirrada. Nas ruas, os apoiadores de Lula eram particularmente visíveis: vestidos de vermelho, carregando faixas e distribuindo panfletos. Os jovens ajudaram os idosos que não votaram no primeiro turno a chegar aos locais de votação. Filhos e netos empurravam cadeiras de rodas e ajudavam parentes doentes ou com dificuldade de locomoção. Na periferia de São Paulo, comitês locais organizaram creches para mães e avós para que pudessem votar.

A votação eletrônica permitiu que a apuração fosse concluída em apenas algumas horas, período durante o qual os candidatos alternaram a liderança por diversas vezes. Contudo, o resultado final foi decisivo: Lula obteve 64,2 milhões de votos (51,8%) — cerca de 10,4 milhões a mais do que no primeiro turno e 4 milhões a mais que seu adversário, que conquistou 60 milhões (48,2%). Flávio recusou-se a reconhecer a derrota, alegando fraude eleitoral após a extensão do horário de votação em algumas cidades, medida tomada porque a escassez de ônibus públicos impediu que os eleitores chegassem aos locais de votação. No entanto, essa votação ocorrida após o horário previsto totalizou apenas 34 mil votos, o que representa não mais que 0,27% do eleitorado nos municípios afetados.

Sete minutos após o anúncio do resultado, o juiz Moraes determinou a apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro, sob a justificativa de que ele poderia fugir do país para evitar responder a acusações de corrupção e lavagem de dinheiro. Não está claro por que nenhuma medida nesse sentido foi tomada enquanto ele ainda era candidato. Apesar de ter afirmado que permaneceria no Brasil, Flávio atravessou a fronteira rumo à Argentina, governada por Javier Milei, e, posteriormente, viajou para Miami, onde a administração Trump lhe concedeu permissão para permanecer. Ao chegar, declarou-se o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil — uma afirmação que, em menos de meia hora, foi alterada para “líder do Brasil”. A extrema-direita internacional mobilizou-se para proteger seu protegido, embora Trump, até o momento, tenha evitado reconhecê-lo — nos moldes do que ocorreu com Juan Guaidó — como chefe de Estado legítimo.

O resultado não é apenas uma vitória pessoal de Lula. Ele demonstra a capacidade de uma coalizão ampla e improvisada — composta por trabalhadores e jovens — de defender um projeto político que eles consideravam estar sob ameaça. Os desafios que Lula, o PT e o povo brasileiro enfrentam são imensos: melhorar os padrões de vida, ampliar a igualdade social e promover o desenvolvimento, tudo isso em um cenário de crise econômica, turbulência política, obstrução por parte de um Legislativo dominado pela direita e um imperialismo norte-americano cada vez mais agressivo. Os mercados financeiros manifestaram prontamente seu descontentamento com o resultado eleitoral: a Bolsa de Valores de São Paulo despencou 14% na segunda-feira, e o real sofreu sua queda mais acentuada em décadas. O movimento popular que ajudou a garantir a vitória de Lula não atenuou os conflitos políticos no Brasil. Pelo contrário, ele marca uma nova etapa na luta pela democracia, pelos direitos sociais, pelas prioridades econômicas e pelos rumos futuros do país. Mas, agora, há uma diferença fundamental em relação ao passado recente: existe esperança.

Uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato prejudicará o Partido Republicano, mas o trumpismo perdurará

O Partido Republicano parece caminhar para derrotas em novembro. Mas o trumpismo sobreviverá às eleições de meio de mandato e até mesmo à própria presidência de Donald Trump. Derrotá-lo exigirá uma política de esquerda que dialogue com as dificuldades econômicas da classe trabalhadora.

Joseph G. Peschek

Jacobin

O trumpismo funde pseudopopulismo, nacionalismo e autoritarismo ao capitalismo predatório. Seu objetivo é o domínio duradouro. Para minar esse objetivo, a esquerda precisa compreender o que o torna singular. (Kent Nishimura / AFP via Getty Images)

Observadores de todo o espectro político preveem que os democratas conquistarão avanços significativos nas próximas eleições de meio de mandato — tanto na Câmara quanto no Senado, e em outras esferas. Há bons motivos para acreditar nessas previsões. Nos Estados Unidos, as eleições que não coincidem com a disputa presidencial estão cada vez mais “nacionalizadas”; isso significa que a avaliação da política nacional e do desempenho do presidente exerce uma influência decisiva nas escolhas para outros cargos. Além disso, o presidente Donald Trump — que adotou uma postura cruel e errática, ao mesmo tempo em que presidia uma economia fraca e uma guerra impopular contra o Irã — não preparou o terreno para o sucesso dos republicanos.

Com taxas de inflação elevadas, salários estagnados e custos de crédito altos, as questões econômicas estão no centro do dilema atual do Partido Republicano. Em uma pesquisa recente realizada pelo Washington Post, ABC News e Ipsos, a taxa de aprovação da gestão econômica de Trump é de apenas 28%. Para cada pessoa que avaliou a situação econômica como boa, três a consideraram “não muito boa” ou “ruim”. Quarenta e oito por cento dos entrevistados afirmaram estar em uma situação financeira pior do que quando Trump assumiu o cargo em 2025 — o maior índice registrado em pesquisas do Post-ABC sobre qualquer presidente desde 1986. Em outros temas, 65% disseram que foi um erro realizar uma ação militar contra o Irã, e 68% desaprovaram a forma como Trump lidou com os aliados dos EUA. Um dado revelador: 56% afirmaram que Trump foi longe demais na deportação de imigrantes sem documentação — um aumento em relação aos 48% registrados em abril de 2025.

Independentemente do que aconteça em novembro, Trump permanecerá no cargo por mais dois anos, e a vertente política que ele representa não desaparecerá quando ele deixar o poder. Quem espera que uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato — seguida pela saída de Trump em 2029 — restaure a “antiga normalidade” (e que essa normalidade seja suficiente para impedir um novo ressurgimento da extrema-direita), precisa rever seus conceitos. Na verdade, é preciso encarar a força política que foi desencadeada na vida americana — cujos reflexos, sem dúvida, serão sentidos por gerações.

Quem espera que uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato e a saída de Trump em 2029 restaurem a antiga normalidade — e que essa antiga normalidade seja suficiente para impedir um novo ressurgimento da extrema-direita — precisa repensar.

Em meu novo livro, Class, Power and the State in the Trump Era: A Critical Analysis (De Gruyter Brill, 2026), busco traçar um panorama inicial do trumpismo. A seguir, valho-me dessa obra para descrever do que o trumpismo é composto, como ele se transformou entre os dois mandatos de Trump e o que isso significa para a esquerda.

Excesso autoritário

Um aspecto inconfundível do trumpismo é o autoritarismo descarado. Essa dimensão está plenamente evidente neste momento, à medida que Trump trabalha de forma empenhada para minar a confiança no sistema eleitoral. Em setembro, a Suprema Corte barrou sua tentativa de utilizar o Serviço Postal dos EUA para restringir o voto por correspondência. Desde então, o governo tem se dedicado a “apresentar, de forma sistemática, alegações falsas e sem fundamento, em um esforço para semear dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral descentralizado do país”, conforme apontou uma análise do New York Times.

Por exemplo, como parte da grande campanha mentirosa de Trump sobre o voto ilegal, o Departamento de Justiça alegou, sem provas, que vinte mil pessoas nos cadernos eleitorais da Califórnia eram “prováveis ​​não-cidadãos”. O departamento então acusou vinte e oito residentes da Califórnia, todos imigrantes legais, de violarem as leis eleitorais federais. Apesar da campanha de desinformação de Trump, a maioria dos americanos está confiante de que as eleições intercalares serão conduzidas de forma justa, embora sete em cada dez não tenham confiança de que Trump aceitará os resultados se os republicanos perderem.

As últimas semanas trouxeram uma repressão intensificada contra aqueles que Trump considera inimigos. Mais notavelmente, funcionários do Departamento de Segurança Interna invadiram a casa da congressista Ilhan Omar, em Washington, a representante somali-americana do Quinto Distrito de Minnesota, apreendendo o seu telefone, passaporte e outros documentos. Há muito que Trump demonstra uma fixação por Omar, a quem chamou de “lixo”, e pelos somalis-americanos, que residem em grande número no Minnesota, especialmente na área das Twin Cities. Vários dias antes do ataque, Trump escreveu no Truth Social: "O outrora grande estado de Minnesota está sendo tomado por imigrantes somalis. Há violência, assassinato e caos em todo o estado. O povo de Minnesota deve revidar". De acordo com vários relatórios, aqueles que estão familiarizados com a investigação acreditam que o seu objetivo é revogar a cidadania de Omar e, eventualmente, deportá-la.

No meu livro, caracterizo o trumpismo como uma forma distinta de política de direita, misturando (pseudo-)populismo, nacionalismo e autoritarismo com políticas económicas e sociais pró-capitalistas desinibidas, até mesmo predatórias ou patrimoniais. Embora estas formas políticas tenham existido em vários formatos ao longo da história política americana, combinaram-se de novas formas na era Trump. O trumpismo marcou um afastamento do consenso ideológico republicano anterior a 2016 e sinalizou a chegada de uma forma alternativa de política de direita, que também se desenvolveu noutros países. O objectivo do movimento MAGA é enfraquecer as forças rivais e estabelecer a hegemonia na política americana com base num bloco nacional-conservador reconfigurado que goza do apoio popular e da elite. O ataque ao sistema eleitoral e a rusga à casa de Omar fazem sentido sob esta luz. Um movimento empenhado em dominar a política americana tem todos os motivos para desacreditar as eleições que poderiam testar o seu poder e para punir as pessoas que trata como inimigas.

A evolução do trumpismo

Se estas características eram claramente evidentes na primeira presidência de Trump, só aprofundaram o seu domínio depois de ele ter deixado o cargo em 2021 e durante a sua segunda presidência. De 2021 a 2025, entre os dois mandatos de Trump, o trumpismo passou por quatro mudanças importantes. Primeiro, a visão política reaccionária de Trump tornou-se mais radical, marcada por um compromisso incessante com a mentira das eleições roubadas de 2020, intensificando o autoritarismo, os votos de retribuição e a retórica histérica sobre a ameaça do socialismo, do comunismo e da “esquerda radical”.

Em segundo lugar, a campanha de Trump trabalhou com grupos de reflexão de direita para elaborar planos para uma segunda administração Trump. O objectivo era ir além dos objectivos conservadores tradicionais, como o corte de impostos e a redução da despesa, para um ataque generalizado ao Estado administrativo que daria ao presidente o controlo total sobre o poder executivo. Como disse Russell Vought, agora diretor do orçamento de Trump, em 2023: “O primeiro dia do presidente será uma bola de demolição para o estado administrativo”. O plano mais conhecido para uma segunda administração Trump foi o Projecto 2025 da Heritage Foundation, lançado em 2023, do qual Vought foi um dos principais arquitectos.

De 2021 a 2025, entre os dois mandatos de Trump, o trumpismo passou por quatro mudanças importantes.

Em terceiro lugar, Trump e o movimento MAGA alinharam-se estreitamente às preocupações da cultura e do pensamento político de direita — como o nacionalismo cristão, a cruzada contra o "wokeísmo", o "pronatalismo" e receios quanto a uma "erosão civilizacional", que bebem da teoria da "grande substituição" defendida pela extrema-direita. Esse tipo de pensamento é comum entre figuras ligadas à segunda fase do trumpismo, como JD Vance, Pete Hegseth e Stephen Miller.

Em quarto lugar, após deixar o cargo em 2021, Trump abandonou quase por completo o pseudopopulismo econômico voltado para a classe trabalhadora, que fora um elemento central de sua campanha de 2016. A campanha de Trump em 2024 buscou abertamente o apoio de Wall Street, do Vale do Silício e de outros setores do mundo corporativo — incluindo as indústrias de petróleo e gás, tabaco e criptomoedas (sendo que, anteriormente, ele havia classificado estas últimas como um golpe).

Trump prometeu reduzir as alíquotas de imposto corporativo, diminuir regulamentações — inclusive as ambientais — e apoiar a extração de combustíveis fósseis. Em maio de 2026, perguntaram a Trump se a "situação financeira dos americanos" o motivava a buscar um acordo com o Irã. "Nem um pouco", respondeu ele. "Não penso na situação financeira dos americanos. Não penso em ninguém. Penso em uma única coisa: não podemos permitir que o Irã tenha uma arma nuclear. É só isso." E acrescentou: "Todo americano entende".

Uma oportunidade para a esquerda

Mas nem todo americano entende. A guerra com o Irão é impopular, especialmente no contexto das dificuldades económicas internas dos americanos. Essas dificuldades são em grande parte causadas pelo próprio presidente.

A assinatura de Trump, One Big Beautiful Bill Act, promulgada em Julho de 2025, foi considerada “a legislação fiscal e orçamental mais regressiva da história americana moderna” pelos estudiosos de Yale, Patrick Sullivan e Jacob Hacker. As pressões inflacionistas que pressionam a classe trabalhadora resultam em grande parte das políticas equivocadas de Trump, incluindo a guerra contra o Irão, que fez subir o preço do petróleo e dos produtos derivados do petróleo; tarifas generalizadas, que aumentaram os preços dos bens importados e dos factores de produção utilizados na produção nacional; e medidas anti-imigração e deportação que levaram à escassez de mão-de-obra na construção, agricultura, processamento de carne e outros sectores.

Portanto, existem condições para um repúdio em grande escala a Trump e ao movimento MAGA, que são cada vez mais autoritários e até fascistas. Já em 1921, mais de um ano antes da Marcha sobre Roma, Antonio Gramsci teorizou o apelo interclassista e psicologicamente intenso do fascismo, observando que o fascismo “tornou-se um desencadeamento de forças elementares que não podem ser contidas dentro do sistema burguês de governação económica e política”. O desafio para a esquerda é construir uma política que possa controlar, redireccionar e desenergizar estas “forças elementares” para evitar uma maior deriva em direcção ao autoritarismo e ao fascismo, algo que o liberalismo centrista e corporativo tem sido incapaz de fazer.

O que isso significa para a política após as eleições de meio de mandato? Em primeiro lugar, a esquerda precisa de iniciativas educativas para contrapor os ataques de cunho macarthista — vindos da direita — a ideias progressistas e socialistas, permitindo que estas sejam debatidas de forma racional e sem estigmas. Em segundo lugar, é preciso aproveitar o êxito do trabalho eleitoral realizado pelos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America) e outros grupos — como se viu na campanha de Zohran Mamdani, em Nova York, e em outros locais. Em terceiro lugar, são necessários planos econômicos populistas progressistas que atendam aos interesses da classe trabalhadora e desmascarem o pseudopopulismo de direita. As propostas da economista Isabella Weber sobre controles estratégicos de preços — já discutidas na revista Jacobin — constituem um ponto de partida que merece ser considerado. Avanços da esquerda nessas frentes ajudarão a combater não apenas o que resta da presidência de Trump (ou uma eventual "versão 2.0" dela), mas também o "trumpismo" — uma vertente cada vez mais nociva da política capitalista de direita e antidemocrática.

Colaborador

Joseph G. Peschek é professor emérito de ciência política na Hamline University. Ele é o autor de Class, Power and the State in the Trump Era: A Critical Analysis.

28 de outubro de 2026

Israel pode mudar após suas eleições, mas não muito

A campanha eleitoral em Israel refletiu o amplo apoio, no espectro político dominante, à limpeza étnica dos palestinos. É improvável que o impasse eleitoral entre governo e oposição desacelere a radicalização da sociedade israelense.

Gilbert Achcar

Jacobin

Após as eleições em Israel, o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot talvez precise contar com o apoio de partidos árabes para formar uma coalizão. Contudo, é improvável que até mesmo a oposição recue em relação à guerra de Israel contra o Irã e aos esforços para anexar Gaza. (Yonatan Sindel / Pool / AFP via Getty Images)

Eleitores judeus e árabes com cidadania israelense compareceram em massa aos locais de votação na terça-feira, 27 de outubro, para as eleições ao parlamento de Israel, o Knesset. Estas foram as primeiras eleições desde a formação, em 2022, do governo mais reacionário da história do Estado sionista. Nos últimos quatro anos, essa coalizão de extrema-direita reuniu o partido Likud, de Benjamin Netanyahu, e grupos neonazistas liderados por Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, juntamente com partidos religiosos ultraortodoxos.

Como as pesquisas haviam previsto, o bloco governista, liderado pelo atual primeiro-ministro Netanyahu, e a aliança de oposição, liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Gadi Eisenkot, terminaram a disputa em um cenário que, segundo estimativas atuais, configura um empate. Pode levar alguns dias até que os resultados definitivos sejam anunciados e várias semanas de negociações e articulações entre as facções do Knesset até que se defina a composição do próximo gabinete.

Como tem sido amplamente ressaltado, a característica mais marcante destas eleições recentes é o fato de serem as primeiras realizadas desde que a operação liderada pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023, desencadeou a guerra genocida lançada pelo exército israelense contra Gaza — um conflito que provocou o deslocamento de seus habitantes e a destruição generalizada de suas edificações. Esse processo tem sido acompanhado por uma escalada perigosa e sem precedentes da violência perpetrada por colonos sionistas contra a população palestina na Cisjordânia; trata-se, claramente, de uma campanha gradual de limpeza étnica, semelhante àquela observada em grande parte da Palestina durante a Nakba de 1948 e, mais recentemente, na Faixa de Gaza.

Estas novas eleições ocorreram, ainda, em um momento de tensão acentuada na sociedade israelense, dividida entre apoiadores da coalizão governista e a oposição sionista. A tensão já atingia seu ápice antes de 7 de outubro, manifestando-se, à época, por meio de grandes manifestações da oposição centradas em questões judiciais. A operação liderada pelo Hamas uniu, temporariamente, a maior parte da sociedade judaica israelense em torno do ódio aos palestinos — especialmente os de Gaza, mas também todos os demais, incluindo aqueles que possuem cidadania israelense. Em outras palavras, o ódio racista sionista atingiu seu auge na sociedade judaica israelense nos últimos três anos, e, até o momento, não houve uma diminuição significativa desse sentimento.

Consequentemente, nenhuma das principais questões que permeiam este novo ciclo eleitoral afeta, de fato, o consenso sionista reacionário que se consolidou recentemente. A questão palestina, definitivamente, não está no centro desse debate. Na verdade, ela está quase totalmente ausente das discussões entre Netanyahu e seus oponentes — limitando-se, basicamente, a acusações mútuas em que cada lado alega que o outro está servindo aos interesses do Hamas. Todos os partidos sionistas, da extrema-direita ao que resta da “esquerda” sionista, declaram sua rejeição até mesmo à criação de um Estado palestino residual — tal como a atual Autoridade Palestina em Ramallah — ou, na melhor das hipóteses, condicionam essa possibilidade a um controle mais rígido e severo sobre a população palestina, tornando-a muito menos “soberana” do que eram, inclusive, os antigos bantustões da África do Sul na época do apartheid.

Diante dessa situação deplorável, um número de eleitores judeus — provavelmente superior ao de todas as eleições anteriores — declarou a intenção de votar em um dos dois blocos árabes. Os mais “moderados” apoiaram a “Lista Unida”, que é liderada conjuntamente por um islâmico de direita e um líder judeu sionista. Judeus mais progressistas, que anseiam por uma coexistência pacífica com o povo palestino, optaram, por sua vez, pela “Lista Conjunta”. Um resultado expressivo para esta última — conforme previsto por pesquisas e aparentemente confirmado pelas estimativas atuais de votação — representaria o melhor desfecho possível para as eleições em curso.

Contudo, o fato de judeus progressistas terem votado nessa lista é, antes de tudo, uma evidência de sua incapacidade de formar uma organização política predominantemente judaica que se oponha ao consenso sionista. Tal oposição rejeitaria o princípio de um “Estado judeu” e abraçaria a demanda por um “Estado para todos os seus cidadãos”, defendida por partidos árabes progressistas de oposição. Além disso, ela exigiria a retirada do exército de ocupação e dos colonos sionistas de todos os territórios ocupados em 1967, bem como apoiaria o direito de retorno dos refugiados palestinos — ou uma compensação —, como parte do direito inalienável do povo palestino à autodeterminação.

Mansour Abbas, líder da “Lista Conjunta”, busca firmar um acordo com a oposição sionista, semelhante àquele que estabeleceu ao participar — sem ocupar um ministério — do governo de 2021–2022, liderado por Naftali Bennett (um líder sionista de extrema-direita e rival de Netanyahu) e Yair Lapid (descrito pela mídia como “moderado”, embora adote posições ainda mais radicais que as de Netanyahu em questões como a eliminação do Hamas ou ataques ao Irã). Atualmente, o principal nome da oposição sionista é Eisenkot, um homem que supervisionou pessoalmente, no Líbano, a implementação da doutrina militar que ele mesmo formulou — a qual preconiza a destruição total de áreas onde forças inimigas estejam presentes, sem poupar civis, constituindo, portanto, uma violação flagrante do direito internacional.

Mansour Abbas busca cooperar com Eisenkot, contornando a recusa deste último em formar alianças com um partido árabe, por meio de condições como a exigência de que declarem o Hamas como uma organização “terrorista”. Essa exigência é particularmente difícil de ser aceita por Abbas, visto que ele próprio provém da mesma Irmandade Muçulmana da qual o Hamas se originou. Assim, Abbas tentou superar esse obstáculo incluindo um oficial de polícia judeu sionista no topo de sua lista, na esperança de que Eisenkot pudesse aceitá-lo como ministro em um futuro governo, caso ele conseguisse obter uma maioria parlamentar com o apoio da Lista Conjunta.

A Lista Conjunta, por sua vez, anunciou sua disposição de oferecer o que chamou de “rede de segurança” em votações no Knesset para a oposição a Netanyahu e sua atual coalizão, desde que a oposição se comprometesse a atender às demandas urgentes relacionadas às condições de vida dos palestinos dentro de Israel e expressasse apoio à criação de um Estado palestino. Contudo, o consenso existente entre a coalizão governista e a oposição sionista — que rejeita a formação de um Estado palestino — torna a proposta da Lista Conjunta inviável, caso ela mantenha sua condição. Isso seria, aliás, perfeitamente natural, visto que nenhum palestino que se oponha ao sionismo deveria oferecer qualquer tipo de apoio a partidos sionistas hostis ao seu povo — seja dentro das fronteiras do Estado sionista ou, com ainda mais razão, fora delas.

Um governo liderado por Eisenkot certamente não se desviaria do consenso sionista no que diz respeito aos esforços contínuos para eliminar o Hamas e controlar Gaza, bem como aos ataques ao Irã — em cooperação com os Estados Unidos — e ao Hezbollah, no Líbano. O que poderia diferenciar um governo sob a liderança de Eisenkot do atual — além da controvérsia em torno do recrutamento militar de estudantes judeus ultraortodoxos — é a postura diante das transgressões cometidas por colonos sionistas extremistas, incitados por Ben-Gvir e Smotrich a atacar palestinos na Cisjordânia. O próprio Netanyahu, inclusive, manifestou certo descontentamento com as ações desses fanáticos, dado o prejuízo adicional que elas causam à imagem de Israel no cenário internacional.

O objetivo de Eisenkot, contudo, é a manutenção do controle do Estado sionista sobre a maior parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, visando a uma eventual anexação desses territórios. As áreas restantes ficariam abertas à implementação do chamado plano de paz de Donald Trump — uma medida que o próprio Netanyahu seria forçado a aceitar, caso Trump retomasse essa ideia conforme seu capricho, após seu foco atual no Irã e na Ucrânia.

Dito isso, caso nenhum dos dois grandes blocos consiga estabelecer uma aliança majoritária no Knesset, não se pode descartar uma reconfiguração do cenário político sionista: Netanyahu poderia romper com seus dois aliados constrangedores, Ben-Gvir e Smotrich, a fim de abrir caminho para a formação de um “governo de unidade nacional” entre ele e os atuais partidos de oposição — com todos os quais, aliás, ele já compartilhou o poder em um passado recente. Antes de chegar a tal compromisso, contudo, ele certamente se esforçará para atrair, a partir do bloco de oposição, aqueles que estão mais à direita e, portanto, mais dispostos a colaborar com sua atual coalizão de extrema-direita.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia e China From Kosovo to Ukraine and Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

O preço da China

O caminho verde de Pequim para acabar com a predominância do dólar

Zongyuan Zoe Liu

Foreign Affairs

Nathalie Lees

Em 1971, quando o sistema monetário internacional estava à beira do colapso, o secretário do Tesouro dos EUA, John Connally, disse a um grupo de ministros das Finanças europeus — que estavam preocupados — que o dólar era “nossa moeda, mas um problema de vocês”. O dólar havia se tornado a moeda de reserva oficial daquele sistema em 1944, sob o acordo de Bretton Woods, deixando os signatários sujeitos aos caprichos da política monetária dos EUA. Mesmo após o colapso de Bretton Woods e a adoção de regimes de câmbio flutuante por muitas moedas, o dólar continuou a predominar. No último meio século, o poder da moeda norte-americana apenas se expandiu, à medida que mais países se integraram à economia global e, consequentemente, passaram a depender do dólar. A China, que depende de um crescimento impulsionado pelas exportações, é o principal exemplo disso.

Diante da possibilidade de que, um dia, Washington torne o dólar um problema para a China, Pequim está elaborando sua própria solução. Em um discurso proferido em janeiro de 2024, o líder chinês Xi Jinping tornou esse esforço explícito, orientando altos funcionários provinciais e ministeriais a acelerar a transformação da China em uma “potência financeira de destaque”. Uma moeda forte, especificou ele, seria um dos pilares fundamentais desse poder. Quando a Qiushi — principal publicação do Partido Comunista Chinês — divulgou a íntegra do discurso em 2026, o padrão almejado por Xi tornou-se mais claro: para que uma moeda seja considerada “forte”, ela precisa ser amplamente utilizada no comércio internacional, em investimentos e nos mercados cambiais, além de ser reconhecida como uma moeda de reserva global.

O apelo de Xi é o episódio mais recente em uma longa história de esforços, por parte de grandes potências, para reduzir sua dependência do sistema financeiro global centrado no dólar. Em 1965, o ministro das Finanças da França, Valéry Giscard d’Estaing, cunhou a famosa expressão “privilégio exorbitante” para descrever as vantagens desproporcionais que o domínio do dólar confere aos Estados Unidos; naquele mesmo ano, a França começou a converter, de forma incisiva, uma parcela substancial de suas reservas em dólares em ouro, contribuindo para o colapso do sistema de Bretton Woods. Em 1999, o governo japonês divulgou um relatório sobre como promover uma maior utilização internacional do iene. Naquele mesmo ano, o lançamento do euro proporcionou à Europa o que viria a se tornar a segunda moeda internacional mais importante do mundo, conferindo-lhe maior autonomia monetária — ainda que o Banco Central Europeu tenha evitado, com cautela, qualquer sinalização de que pudesse desafiar o dólar.

O que distingue a ambição de Xi é o fato de a China — ao contrário da Europa ou do Japão — possuir o peso econômico, a capacidade militar e a vontade política para rivalizar com o poder geopolítico dos Estados Unidos. Desde a época em que Londres comandava um império global, a moeda de outro país não apresentava uma chance real de competir com o dólar. Uma transição financeira global — de In God We Trust para “Onde o Partido Lidera, Nós Seguimos” — já não pode ser descartada como mera fantasia.

A internacionalização do renminbi proporcionaria à China um certo grau de sobrevivência financeira, caso os Estados Unidos decidissem, em algum momento, utilizar o dólar como uma arma punitiva — tal como fizeram contra a Rússia após a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022. Os Estados Unidos controlam tanto a oferta da moeda de reserva global dominante quanto muitos dos pontos críticos da infraestrutura financeira por meio dos quais ela circula. Washington, se assim desejasse, poderia restringir severamente o acesso da China à liquidez em dólares, tornando proibitivo o custo de realizar transações com instituições chinesas — por exemplo, por meio do indiciamento ou da imposição de sanções a um grande banco chinês. Qualquer medida desse tipo causaria um choque no sistema financeiro chinês, elevaria os custos das transações comerciais e desferiria um duro golpe na competitividade do setor exportador da China, que responde por cerca de um quinto do seu PIB.

A capacidade de sobrevivência, contudo, é apenas um pré-requisito para uma dissuasão crível. Para impedir que os Estados Unidos utilizem o dólar como arma, Pequim necessita de uma capacidade de "segundo ataque" no âmbito financeiro. É preciso que o país seja capaz de redirecionar uma parcela substancial do comércio e das finanças globais para uma rede baseada no renminbi. A durabilidade dessa mudança depende de uma demanda global sólida por um ativo de referência precificado em renminbi. Para a China, a fonte mais provável de tal ativo reside em seu domínio sobre a economia verde.

Xi não deseja, necessariamente, que o renminbi substitua o dólar. Em seu discurso de 2024, ele defendeu a força, não a hegemonia. Ocupar uma respeitável segunda posição — ou até mesmo uma terceira posição relevante — seria suficiente para quebrar o monopólio efetivo do dólar e limitar a capacidade dos Estados Unidos de impor sanções financeiras de forma unilateral, poupando, ao mesmo tempo, a China do esforço e do custo de sustentar a supremacia monetária. Na perspectiva de Pequim, a missão é estabelecer o renminbi como a Pepsi em relação à Coca-Cola: nunca o líder de mercado, mas uma alternativa útil em momentos de necessidade e mais do que capaz de manter sob controle o ator dominante.

O SEGUNDO LUGAR É O MELHOR

A aceitação quase universal do dólar americano beneficia, possivelmente, a China mais do que qualquer outro país. A economia chinesa depende de exportações, e os produtos chineses — precificados e financiados em dólares — conseguem encontrar compradores prontos em praticamente qualquer lugar. Os lucros obtidos podem, então, ser investidos em quase qualquer parte e convertidos em recursos líquidos com rapidez. Isso é conveniente para Pequim: a China desfruta dos benefícios da liquidez global sem arcar com o ônus de sustentá-la. Para preservar o sistema global baseado no dólar, os Estados Unidos precisam tolerar a posse, por parte de estrangeiros, de um volume crescente de ativos denominados em dólares, à medida que os países realizam cada vez mais transações nessa moeda. Os mercados americanos ficam expostos à volatilidade internacional, e investidores estrangeiros exercem certa influência sobre as corporações dos EUA. O Federal Reserve, emissor do dólar, atua como garantidor do sistema, expandindo seu balanço em períodos de estresse financeiro — momentos em que governos e empresas privadas acumulam dólares para assegurar o pagamento de suas dívidas e a compra de mercadorias. Essa abertura e exposição representaram pouca ameaça à economia americana, uma vez que os acionistas estrangeiros, de modo geral, buscaram operar dentro das normas empresariais dos EUA, em vez de tentar alterá-las; além disso, os bancos americanos obtiveram lucros expressivos ao intermediar os fluxos globais de capital por meio de Nova York e Londres.

Os líderes chineses não têm qualquer interesse em fazer esse tipo de concessão. Manter um sistema global baseado no renminbi seria fundamentalmente incompatível com o modelo econômico chinês, conduzido pelo Estado. Para que o renminbi desempenhasse as mesmas funções que o dólar, a China precisaria criar canais financeiros amplos e de mão dupla, permitindo que detentores estrangeiros da moeda reinvestissem esses recursos na economia chinesa. O consequente influxo de capital transformaria, de forma estrutural, os mercados financeiros domésticos da China. Seria impraticável para Pequim restringir os investidores estrangeiros a um grupo limitado de ativos autorizados, como ocorre atualmente. Uma vez que investidores estrangeiros tivessem amplo acesso aos mercados chineses, eles explorariam as distorções geradas pela repressão financeira e pela alocação de capital orientada por critérios políticos. Tal concorrência minaria um dos mecanismos mais eficazes de Pequim para garantir a lealdade da classe empresarial chinesa: o controle sobre quem tem acesso ao capital, sob quais condições e para quais finalidades.

Para muitos cidadãos chineses ricos, incluindo alguns membros do próprio Partido Comunista, o dólar constitui uma forma indispensável de seguro contra riscos políticos. Rivalidades políticas internas podem levar ao confisco de bens ou até mesmo à prisão, com pouca observância do devido processo legal. Depósitos em dólar no exterior e estruturas corporativas estrangeiras permitem que as elites diversifiquem seu patrimônio entre diferentes moedas e jurisdições. O controle de uma empresa listada no exterior — especialmente nos Estados Unidos — oferece aos chineses abastados muito mais do que prestígio e acesso ao capital global; as obrigações de transparência, os deveres para com os acionistas e a visibilidade internacional — elementos que escapam ao controle do Partido — podem conferir aos executivos chineses um poder de barganha contra exigências arbitrárias de autoridades em seu país de origem. Embora tais restrições não consigam impedir a interferência de autoridades de alto escalão decididas a perseguir seus alvos, elas podem elevar o custo dessa interferência, retardar sua execução e abrir espaço para negociações. O sistema baseado no dólar serve como um refúgio para as elites chinesas que caem em desgraça; e, como a posição de ninguém é totalmente garantida, poucos desejam ver esse refúgio desaparecer.

USE OU PERCA

A China está perfeitamente disposta a continuar vivendo em um mundo que gira em torno do dólar. No entanto, não pode tolerar a instrumentalização do dólar como arma, e o renminbi ainda tem um longo caminho a percorrer antes de se tornar forte o suficiente para neutralizar essa ameaça. Para que mais países e empresas adotem o renminbi, é preciso, antes de tudo, uma infraestrutura financeira global que viabilize seu uso. A China já lançou as bases ao facilitar o uso da moeda entre empresas em mais de cem países e em uma gama crescente de mercados de commodities, permitindo a liquidação de transações, a obtenção de financiamento para comércio e investimentos, e a proteção contra riscos (hedge). Nesse contexto, a abrangência é muito mais importante do que a profundidade. Mesmo volumes diários modestos de transações em renminbi são suficientes para manter operacionais os canais de pagamento, preservar relações financeiras e sustentar a expertise jurídica e administrativa necessária para operar um sistema financeiro alternativo.

Pequim necessita de uma capacidade financeira de "segundo ataque" (capacidade de resposta).

Como a força econômica relativa da China reside no fluxo de bens manufaturados — o país respondeu por 20% das exportações globais de manufaturados em 2025 —, Pequim concentrou seus esforços na construção de uma rede de pagamentos que facilite os fluxos comerciais gerados por sua máquina industrial. Em 2005, Zhou Xiaochuan, então governador do Banco do Povo da China (PBOC), incentivou publicamente o uso — que já vinha crescendo — de moedas locais entre os parceiros comerciais do país. Em 2009, o PBOC lançou um programa-piloto para a liquidação de transações transfronteiriças em renminbi, seguido, em 2015, pela criação do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS, na sigla em inglês) — a espinha dorsal da rede internacional de renminbi da China. O CIPS começou com 195 participantes em 50 países; em junho de 2026, contava com 1.829 participantes e era capaz de processar pagamentos para mais de 5.200 instituições bancárias em 191 países. Contudo, o CIPS permanece muito menor do que os sistemas de pagamentos de atacado, já consolidados, que sustentam o dólar e o euro. Em 2025, o Clearing House Interbank Payments System, sediado nos EUA, processou um volume de pagamentos internacionais cerca de 19 vezes maior do que o CIPS, enquanto o sistema europeu de liquidação bruta em tempo real, denominado T2, processou um volume aproximadamente 14 vezes superior.

No entanto, os pagamentos, por si só, são uma medida enganosa do poder de uma moeda. Uma transação internacional envolve muito mais do que a transferência de valor econômico; ela requer um conjunto de serviços financeiros que se desdobra em cinco etapas interligadas: precificação, financiamento, transferência de risco, pagamento e reinvestimento. O dólar domina o comércio e as finanças internacionais porque é a moeda padrão em todas essas etapas, sendo que sua força em cada uma delas reforça sua posição nas demais. Para que o renminbi suplante o dólar, ele precisaria se tornar competitivo em todas as fases do ciclo de transação, e não apenas nos pagamentos.

Os líderes chineses reconhecem que a influência dos centros financeiros de Londres, Nova York e Tóquio não reside apenas na capacidade de movimentar dinheiro, mas também na aptidão de suas instituições para criar crédito, definir preços, oferecer seguros para remessas e reciclar poupanças. É por isso que as empresas estatais chinesas estão impulsionando a expansão da rede do renminbi. Ao denominar faturas, contratos e financiamentos de projetos no exterior em renminbi, essas empresas criam uma base de demanda recorrente pela moeda — uma base em torno da qual bancos, seguradoras e outras instituições financeiras chinesas podem desenvolver linhas de negócios competitivas sob controle chinês. Para fortalecer essa base, o Partido Comunista estabeleceu um plano de ação que orienta as empresas estatais a priorizar a liquidação em renminbi, em vez de dólares, sempre que negociarem com fornecedores e clientes estrangeiros. Essa estratégia já está fomentando uma rede regional para o uso do renminbi no Sudeste Asiático. Em 2024, os pagamentos em renminbi envolvendo economias da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) cresceram 19%, sendo que dois terços dessas transações ocorreram entre os próprios países da ASEAN.

O CUSTO DE ENTRADA

Pequim concluiu, em grande parte, a primeira fase de sua estratégia — estabelecendo uma base nos pagamentos — e agora está expandindo sua atuação para as etapas anteriores (precificação, financiamento e transferência de risco) e, de forma cautelosa, para as etapas posteriores (reinvestimento). Somente recentemente Pequim começou a compreender o quanto a moeda utilizada na precificação de mercadorias influencia as etapas subsequentes do ciclo de transação. Historicamente, a China contentou-se em precificar os bens que importa e exporta, em sua maioria, em dólares. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), apenas 6,5% das exportações da China foram faturadas em renminbi em 2023. Estatísticas do governo chinês indicam que quase 30% do comércio de bens da China é liquidado em renminbi; contudo, grande parte disso é, na verdade, uma transação em dólares disfarçada de transação em renminbi: os exportadores chineses emitem faturas em dólares, os compradores obtêm financiamento em dólares e têm suas contas debitadas nessa moeda, sendo os recursos convertidos para renminbi apenas pouco antes de chegarem à China continental.
O governo busca reverter esse padrão promovendo o que chama de “preços China”: preços de referência denominados em renminbi, listados em bolsas locais para as principais commodities importadas pelo país. Uma maior autonomia na formação de preços significa que as empresas chinesas podem adquirir insumos e gerenciar sua exposição às oscilações de preços nos mercados globais sem precisar recorrer ao dólar. Isso também confere às autoridades chinesas maior influência sobre os preços de referência usados ​​para definir os termos de contratos de fornecimento para a entrega física dessas commodities. Esse poder de influência é vital para a China, uma vez que o fluxo constante de insumos é essencial para o bom funcionamento de seu aparato industrial.

A autonomia na formação de preços é particularmente importante no caso de minerais críticos, que abastecem as indústrias voltadas à transição ecológica — setores que, na visão de Xi, são fundamentais para o futuro econômico da China. O país produz mais de 80% das baterias do mundo e consome mais de 75% do lítio, 70% do cobalto e cerca de 60% do níquel produzidos globalmente. Contudo, a posição da China nos mercados mundiais de cada um desses minerais ainda não reflete seu domínio na produção e no consumo. Até o momento, a China avançou mais no setor de lítio: mais de 90% das negociações globais de contratos futuros de carbonato de lítio ocorrem na Bolsa de Futuros de Guangzhou, onde os contratos são denominados em renminbi. Em julho, a bolsa passou a permitir que operadores estrangeiros negociassem diretamente contratos futuros de carbonato de lítio, anunciando, com grande alarde, a entrada de várias “empresas líderes” internacionais no mercado. A China está, agora, em condições de se tornar — talvez pela primeira vez na história moderna — o principal centro financeiro para uma commodity de relevância global. O níquel e o cobalto, por outro lado, permanecem atrelados a preços de referência em dólar, definidos em Londres e Chicago. Embora a China seja a maior consumidora desses dois minerais, ela ainda não atua como a referência financeira para seus respectivos mercados. É justamente esse tipo de descompasso que a iniciativa de promover os “preços China” pretende corrigir.

Contagem de notas em um banco em Bangcoc, janeiro de 2023. Athit Perawongmetha / Reuters

A etapa de financiamento da estratégia de Pequim para o renminbi está ganhando força. Em 2023, o governo chinês orientou as instituições financeiras do país a expandir suas operações de financiamento em renminbi no exterior. Instituições financeiras com apoio estatal, como o Export-Import Bank of China, ampliaram a concessão de empréstimos em renminbi para projetos de infraestrutura e comércio no exterior; paralelamente, bancos comerciais têm ofertado, de forma crescente, financiamento ao comércio nessa mesma moeda. Entre 2023 e meados de 2026, as instituições financeiras chinesas mais do que dobraram o volume de empréstimos em renminbi para tomadores estrangeiros, passando de 1,3 trilhão para 2,9 trilhões de yuans (US$ 428 bilhões). O Banco do Povo da China (PBOC), por sua vez, estabeleceu acordos de swap cambial com 32 bancos centrais e autoridades monetárias estrangeiras — incluindo os da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, bem como o Banco Central Europeu. Em seus estágios iniciais, logo após a crise financeira global, essas linhas de swap tinham um caráter majoritariamente simbólico e eram pouco utilizadas; contudo, nos últimos anos, algumas passaram a oferecer suporte direto a atividades comerciais. Em 2025, empresas turcas tomaram empréstimos de quatro bilhões de yuans (US$ 557 milhões) para pagar fornecedores chineses, utilizando um mecanismo lastreado por uma linha de swap do PBOC — um montante 70% superior ao registrado no ano anterior. Esse esforço para transformar o renminbi em uma moeda de financiamento começa a ganhar força: em maio de 2026, a moeda chinesa representava 7% do valor das mensagens de financiamento comercial no SWIFT — a principal plataforma global para a troca de instruções de pagamento. Esse índice, que era de 5,1% dois anos antes, foi suficiente para superar o euro e assumir a segunda posição, embora o dólar permaneça muito à frente, com uma participação de 82,5%.
Pequim também tomou medidas — ainda que modestas — para ampliar a presença do renminbi nos mercados de seguros e resseguros. Em 2025, o Bank of China, um banco estatal, e a PICC, uma seguradora estatal de ramos elementares (danos e responsabilidades), estabeleceram novas condições que permitem que prêmios e indenizações referentes ao transporte de cargas sejam liquidados em renminbi. Essas condições também definem Xangai como o foro preferencial para arbitragem, integrando um esforço mais amplo para reduzir a dependência do mercado de seguros marítimos em relação à liquidação em dólares e ao direito comercial inglês — que, por muito tempo, constituíram a base padrão para contratos de transporte internacional e seguros marítimos.

A etapa final do ciclo de transações — o reinvestimento — fecha o circuito pelo qual mercadorias e valor circulam na economia global. Os recebedores dos pagamentos precisam decidir o que fazer com os recursos: mantê-los em uma conta de curto prazo, investi-los em ativos de longo prazo ou convertê-los para outra moeda. Um ecossistema monetário robusto só se torna sustentável em larga escala quando os agentes estão dispostos a manter e reinvestir seus saldos, em vez de convertê-los rotineiramente.

A China não vê qualquer problema em viver em um mundo que gira em torno do dólar.

Na última década, Pequim ofereceu aos detentores estrangeiros de renminbi mais opções para reinvestir seus saldos. Os programas *Stock Connect* e *Bond Connect* — cujas versões iniciais surgiram, respectivamente, em 2014 e 2017 — foram ampliados, permitindo que um leque muito mais vasto de investidores fora da China utilize o renminbi para adquirir ações e títulos emitidos na China continental. Antes desses programas, o acesso direto aos mercados chineses era limitado por exigências de licenciamento e cotas; em 2013, apenas cerca de 228 grandes investidores institucionais possuíam essas cotas, enquanto hoje esse número chega a aproximadamente 1.000 investidores. Em 2025, as negociações realizadas por estrangeiros por meio do *Stock Connect* atingiram uma média de 212 bilhões de yuans (US$ 29,5 bilhões) por dia, ao passo que, no *Bond Connect*, a média foi de 39 bilhões de yuans (US$ 5,4 bilhões) diários. Também houve uma expansão nos instrumentos disponíveis para a gestão dos riscos associados a esses investimentos. O Swap Connect, lançado em 2023, permite que investidores estrangeiros realizem operações de hedge (proteção) contra oscilações nas taxas de juros do renminbi no mercado interno chinês.

O acesso aos mercados financeiros da China já não é o maior obstáculo enfrentado pelos investidores estrangeiros; contudo, persiste a preocupação de que os controles de capital — imprevisíveis e impostos por Pequim — possam, um dia, deixar seus recursos retidos no país. Uma pesquisa realizada em 2023 pela Insurance Asset Management Association of China (Associação de Gestão de Ativos de Seguros da China) em parceria com a J.P. Morgan Asset Management revelou que cerca de dois terços dos diretores de investimentos de seguradoras sediadas fora da China apontam os controles sobre o fluxo de capital — de entrada e saída do país — como uma das suas principais preocupações ao investir no mercado chinês. Apesar de o acesso estar mais amplo do que nunca, os investidores estrangeiros continuam relutantes em manter ativos chineses em grande escala. Em março de 2026, eles detinham apenas 3,2 trilhões de yuans (US$ 448 bilhões), o equivalente a 1,6% do mercado de títulos chinês — um contraste expressivo em relação aos cerca de US$ 15,5 trilhões (27%) que compõem o mercado de títulos dos Estados Unidos. Os dados sobre reservas cambiais registrados junto ao FMI revelam uma disparidade ainda maior: no primeiro trimestre de 2026, o renminbi representava pouco menos de 2% das reservas cambiais globais, enquanto o dólar respondia por 57%. Sem um volume muito mais expressivo de ativos denominados em renminbi que possam ser livremente comprados e vendidos por estrangeiros, a moeda chinesa dificilmente chegará perto de substituir o dólar.

PADRÃO VERDE

Para que a China exerça um poder monetário que se aproxime do dos Estados Unidos, o renminbi precisa dominar o comércio de um bem que a China controle e do qual o restante do mundo não consiga abrir mão facilmente. No sistema baseado no dólar, o comércio global de petróleo desempenha esse papel há muito tempo — daí o termo “petrodólar”. Em um sistema em que o renminbi ganha protagonismo, o elemento central de sustentação poderia ser composto por minerais críticos, equipamentos de energia limpa e infraestrutura elétrica — componentes fundamentais para a tecnologia de energia verde. Se a China consolidar seu domínio sobre esse ecossistema industrial, utilizando sua escala e vantagens de custo para impedir que concorrentes a alcancem, ela poderá obter poder de negociação suficiente para precificar essas exportações essenciais — e de difícil substituição — em renminbi. Isso criaria a base para um “yuan verde”, que, com o tempo, poderia substituir o petrodólar.

Ao longo de décadas, a China montou, de forma metódica, as cadeias de suprimentos que a tornaram a principal produtora mundial de tecnologias e equipamentos de energia verde. Pequim está, agora, prestes a assumir uma posição de comando em um conjunto de bens dos quais o mundo decidiu que não pode prescindir. A estratégia chinesa baseia-se na integração vertical de praticamente toda a cadeia de suprimentos de energia limpa. O país é o maior refinador de 19 dos 20 minerais estratégicos relacionados à energia monitorados pela Agência Internacional de Energia, detendo uma participação média de 70% no mercado. A China responde por cerca de 85% da capacidade global de fabricação de painéis solares e fornece 78% da capacidade de turbinas eólicas instaladas em todo o mundo. Em 2025, o país produziu cerca de 70% dos veículos elétricos do planeta.

Após garantir, de forma decisiva, a vantagem de quem chega primeiro ao mercado, Pequim está consolidando sua posição, utilizando economias de escala para superar potenciais rivais e promover padrões técnicos baseados em tecnologias pertencentes a empresas chinesas. A economia de energia verde é mais dispersa do que o sistema de combustíveis fósseis que pretende substituir — e, portanto, mais difícil de controlar. Contudo, a China já começa a transformar sua liderança em participação de mercado em vantagens estruturais, capazes de excluir concorrentes e consolidar seu domínio.

Até pouco tempo atrás, Pequim concentrava-se mais em ampliar sua liderança industrial no setor de energia verde do que em converter essa vantagem em poder financeiro. Mas isso está começando a mudar. A proliferação de mandatos de investimento neutros em carbono criou, de forma não intencional, um setor de finanças verdes quase feito sob medida para a China. Em 2022, Pequim publicou seus “Princípios para Títulos Verdes” (Green Bond Principles), que exigem que os emissores desses títulos destinem 100% dos recursos captados a projetos verdes elegíveis.

Até o final de 2025, os fundos dedicados a investimentos sustentáveis ​​somavam US$ 4,13 trilhões em todo o mundo, e a previsão era de que os ativos geridos com base em critérios de sustentabilidade atingissem US$ 40 trilhões até 2030. Paralelamente, as entidades chinesas já contabilizavam 47,2 trilhões de yuans (US$ 6,7 trilhões) em empréstimos e títulos verdes em circulação — um montante que supera, de longe, o de qualquer outro país —, embora restrito, em grande parte, ao sistema doméstico em renminbi. Em 2024, as instituições estrangeiras detinham apenas 3,2 bilhões de yuans (US$ 445 milhões) do mercado chinês de títulos verdes, que totaliza 2,2 trilhões de yuans (US$ 306 bilhões) — uma parcela ínfima de 0,15%.

É provável que essa participação estrangeira, atualmente reduzida, aumente. As autoridades chinesas estão trabalhando para transformar parte do vasto volume de dívida verde do país — termo que abrange empréstimos e títulos emitidos para projetos com impacto ambiental positivo, originalmente voltados para investidores locais — em valores mobiliários negociáveis. O objetivo é permitir que investidores estrangeiros os incluam em seus portfólios, em conformidade com os mandatos internacionais de sustentabilidade. A meta é criar uma ampla classe de ativos denominados em renminbi que sejam acessíveis a investidores internacionais, vinculados a projetos verdes e integrados ao ecossistema mais amplo do renminbi, no que diz respeito à precificação, liquidação e outros serviços financeiros.

Cerca de 17% do mercado chinês de títulos verdes já passou por uma triagem baseada em critérios técnicos alinhados às estruturas de finanças verdes europeias. Isso torna esses títulos mais facilmente reconhecíveis para investidores estrangeiros e provedores de índices, facilitando sua inclusão em portfólios internacionais. O Ministério das Finanças começou a emitir títulos soberanos verdes denominados em renminbi fora da China. A primeira emissão captou seis bilhões de yuans (US$ 834 milhões) em Londres, em abril de 2025, seguida por uma segunda emissão, também de seis bilhões de yuans, em Hong Kong, em maio passado — ocasião em que a demanda superou a oferta em dez vezes. Embora essas emissões sejam pequenas se comparadas ao mercado interno chinês, elas estabelecem referências de precificação que facilitam, para outras entidades, a emissão de dívida verde denominada em renminbi no futuro. A emissão realizada pelo Paquistão, em maio, de um "Panda bond" verde no valor de 1,75 bilhão de yuans (US$ 258 milhões) — termo utilizado para dívidas denominadas em renminbi emitidas na China por tomadores estrangeiros — oferece um vislumbre de um futuro no qual entidades estrangeiras captarão recursos rotineiramente em renminbi, na China, para financiar seu desenvolvimento sustentável.

Washington deveria avaliar se o petrodólar ainda cumpre sua finalidade.

É assim que o domínio industrial começa a se transformar em poder financeiro. O governo chinês não tem planos formais para criar um "yuan verde", mas os elementos que comporiam tal sistema já começam a surgir. O ativo de referência para um yuan verde não seria a tecnologia verde em si, mas um conjunto crescente de instrumentos financeiros denominados em renminbi, vinculados à economia verde. Os títulos verdes (*green bonds*) formariam o núcleo negociável dessa economia, conectando a vantagem industrial da China à crescente demanda global por ativos sustentáveis.

Grande parte do mundo estabeleceu prazos para a substituição de combustíveis fósseis que não poderão ser cumpridos sem a economia verde da China. Mesmo que a vontade política de combater as mudanças climáticas diminua, a dependência global de energia importada criou vulnerabilidades geopolíticas que, provavelmente, continuarão a sustentar a demanda por fontes renováveis ​​— as quais praticamente qualquer país pode implementar para gerar mais energia internamente. Para nações e empresas que buscam ingressar na economia verde, aceitar financiamento em renminbi e adotar padrões técnicos chineses pode, com o tempo, tornar-se parte do "preço de entrada" habitual. O resultado seria um ciclo autossustentável de bens e finanças verdes, em grande parte denominados em renminbi.

Para Washington, a perspectiva de um yuan verde não deveria soar como um alarme sobre uma iminente supremacia do renminbi. Em vez disso, deveria suscitar uma questão mais profunda: será que o petrodólar já não cumpre mais sua finalidade? E qual classe de ativos, tecnologia ou sistema industrial poderia sustentar o poder do dólar como moeda no futuro? O dólar apoia-se em muito mais do que apenas na capacidade dos Estados Unidos de garantir os fluxos globais de energia e em seus laços com os principais países produtores de petróleo; contudo, seria um erro, por parte dos formuladores de políticas, considerar essa supremacia como algo permanente.

DE OLHO NO TRONO

Pequim não está tramando para destronar o dólar; o Partido Comunista, quase certamente, não deseja a abertura financeira que tal vitória exigiria. Independentemente de o yuan verde vir a se tornar realidade ou não, o valor mais imediato de um renminbi internacionalizado para o Partido reside no seu potencial de dissuadir os setores mais hostis à China em Washington — impedindo-os de transformar a atual dependência chinesa em relação ao dólar em uma arma geopolítica. À medida que o sistema chinês baseado no renminbi se fortalece, aumenta também a capacidade de Pequim de resistir ao impacto de eventuais sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos. Por sua vez, a ameaça de Washington de aplicar tais sanções perderá parte de sua eficácia. Essa mudança na dinâmica de poder econômico provavelmente tornará Pequim mais disposta a desafiar Washington — algo que, talvez, ela já esteja fazendo. Em maio, a China emitiu sua primeira ordem de bloqueio, instruindo empresas no país a não cumprirem sanções norte-americanas impostas a cinco refinarias de petróleo chinesas, acusadas de serem grandes compradoras de petróleo iraniano.

Se o reinado do "Rei Dólar" chegar ao fim, provavelmente não será porque a China usurpou o trono, mas sim porque os Estados Unidos o entregaram. Washington precisa se dar conta de que o ativo estratégico que sustentará a próxima ordem monetária talvez não seja o barril de petróleo, mas sim um ecossistema industrial. O perigo reside no fato de que os mercados financeiros podem oferecer poucos sinais de alerta de que tal transição está em curso. Os mercados podem passar longos períodos ignorando evidências crescentes de mudança, até que um catalisador — como um impasse político em torno do aumento do limite da dívida dos EUA — force, finalmente, um ajuste nos modelos e provoque oscilações bruscas nos preços. As autoridades americanas relutam em planejar cenários para a erosão da dominância do dólar, por receio de que isso sinalize ao mercado que tal declínio é inevitável. Contudo, a insistência em apontar para gráficos de preços como prova da resiliência do dólar sugere que as lições da última crise financeira talvez já tenham sido esquecidas. Os Estados Unidos precisam elaborar planos de contingência antes que o "privilégio exorbitante" do dólar esteja visivelmente desgastado e que se tornem claros os sinais de busca por proteção contra ele. A essa altura, pode ser impossível conter os danos.

Zongyuan Zoe Liu é pesquisadora sênior (Maurice R. Greenberg Senior Fellow) em Estudos sobre a China no Council on Foreign Relations e pesquisadora sênior no Institute for Global Politics da School of International and Public Affairs da Universidade Columbia. É autora de Sovereign Funds: How the Communist Party of China Finances Its Global Ambitions.

26 de outubro de 2026

A vitória surpreendente de Lula é um raio de esperança em um mundo sombrio

A vitória de Lula sobre a extrema-direita no Brasil não apenas garante ao presidente brasileiro um lugar definitivo na história da democracia global, como também oferece lições valiosas para socialistas em todo o planeta.

Hugo Albuquerque


Lula voltou a alcançar as massas. Mas este quarto mandato exige governar de uma maneira diferente. (Alexandre Schneider / Getty Images)

Após uma reviravolta impressionante e inspiradora, impulsionada por uma mobilização em massa do povo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva venceu sua quarta eleição presidencial. Esse feito marca uma mudança sem precedentes na história política brasileira: nunca antes um candidato que estava atrás no primeiro turno conseguiu reverter o cenário e sair vitorioso.

A eleição — que colocou Lula frente a frente com Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (atualmente preso por uma tentativa de golpe de Estado após sua derrota nas eleições de 2022) — foi marcada por uma interferência inaceitável da administração Trump, com gigantes da tecnologia, como a Meta, agindo de forma descarada em favor da extrema-direita. Tudo isso ocorreu em um contexto no qual outras intervenções de Trump na região haviam sido bem-sucedidas, resultando na eleição de presidentes de extrema-direita — notadamente na Colômbia —, o que criou a percepção de uma onda trumpista invencível por toda a América Latina.

Depois de ter ficado atrás por cerca de dois milhões de votos no dia 4 de outubro, Lula conquistou mais de dez milhões de novos votos no dia 25 de outubro, enquanto Flávio Bolsonaro obteve pouco mais de três milhões e meio de votos a mais do que no primeiro turno. Lula ampliou sua votação em praticamente todos os municípios brasileiros, após ter sido dado como derrotado há apenas três semanas. O que mudou em um período tão curto oferece uma lição para socialistas em todo o mundo.
Como se constrói uma vitória

Embora as manifestações pró-Lula tenham começado logo após a derrota no primeiro turno — impulsionadas, em grande parte, por organizações estudantis —, a campanha do Partido dos Trabalhadores buscou se conectar com uma nova geração de esquerda. Paralelamente, ocorreu uma verdadeira reviravolta na estratégia de comunicação do partido, impulsionada pela chegada do deputado federal André Janones, recém-reeleito pelo partido de centro-esquerda Rede.

Lula, aos oitenta anos, convidou uma geração inteiramente nova de parlamentares recém-eleitos para Brasília logo após o primeiro turno da votação. Apesar do avanço da extrema-direita em detrimento da direita tradicional e do centro nas eleições legislativas — realizadas simultaneamente ao primeiro turno da disputa presidencial —, a esquerda conquistou espaço no Congresso Nacional, trazendo figuras jovens com grande habilidade em redes sociais e comunicação, o que injetou um novo ânimo à campanha.

Entre esses nomes em ascensão estão a deputada Ana Elisa, de 21 anos — natural de Minas Gerais, estado que é um termômetro político fundamental no Brasil; Erika Hilton, mulher trans reeleita com uma votação recorde; Jones Manoel, comunista de Pernambuco (estado natal de Lula); e Guilherme Cortez, deputado que se identifica como twink. Todos eles representam uma geração de jovens que conta com milhões de seguidores da "Geração Z" no Brasil; são estrelas das redes sociais, mesmo com os algoritmos das plataformas favorecendo conteúdos de direita.

Contudo, a figura mais notável da campanha foi Janones, de 42 anos. Ele criou um grupo no WhatsApp chamado "Exército de Lula", que reuniu mais de dez milhões de seguidores e serviu como base para um trabalho organizado e disciplinado de agitação e propaganda. Em apenas três semanas, quase um em cada dez eleitores brasileiros aderiu a esse grupo. Embora frequentemente menosprezado pela velha elite intelectual de esquerda, Janones sempre gozou de popularidade junto às massas. Agora, tornou-se uma verdadeira celebridade. Partindo do pressuposto de que o algoritmo da Meta era tendencioso contra a esquerda, Janones orquestrou grandes campanhas nas redes sociais — como, por exemplo, incentivar apoiadores de Lula a postarem fotos no Instagram vestindo a camisa da seleção brasileira de futebol, uma peça que já foi símbolo de unidade, mas que acabou sendo apropriada pela extrema-direita. A iniciativa contou com a adesão de inúmeros apoiadores de Lula e ganhou grande repercussão nas redes sociais na véspera da manifestação — que acabou fracassando — organizada por Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista, um ponto central da cidade de São Paulo.

A estratégia foi um sucesso: Janones ressignificou, de forma lúdica, o vocabulário militar da extrema-direita, passando a se referir aos seus seguidores — o "Exército de Lula" — como "soldados". Indo além da questão dos algoritmos, essa jogada de Janones subverteu a semiótica dos últimos anos, período em que a família Bolsonaro mobilizou sua vasta base utilizando terminologia militar — uma abordagem, aliás, bastante natural, visto que Bolsonaro e muitos de seus principais articuladores de bastidores são, ou foram, militares.

A extrema-direita brasileira, pela primeira vez, acuada

Mesmo após sua derrota em 2022, a extrema-direita permaneceu uma força poderosa nas redes sociais, impulsionada por uma combinação de comunicação eficaz e tratamento privilegiado por parte das empresas controladoras dessas plataformas. Durante o governo Lula, as publicações do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira alcançaram um engajamento superior ao de estrelas pop globais. Esse recurso foi utilizado para conduzir uma campanha de oposição suja, porém altamente eficaz, contra o terceiro mandato de Lula.

Enquanto Lula parecia atolado em uma série de equívocos políticos após seu retorno triunfal à presidência em 2022 — liderando uma complexa coalizão de "Frente Ampla" —, seus oponentes pareciam invencíveis nas redes sociais, estabelecendo uma conexão efetiva com o povo brasileiro. Evidentemente, as críticas da extrema-direita tinham pouca relação com os problemas enfrentados pelo terceiro governo Lula; na verdade, os aliados de Bolsonaro aproveitaram a relativa impopularidade da gestão para promover sua própria agenda de desmantelamento da democracia brasileira.

Após derrotar Bolsonaro em 2022 — uma vitória que ecoou seu próprio retorno político, tal como ocorrera em sua trajetória como presidente nos anos 2000 —, Lula parecia preso em um cenário de "eterno retorno" (como no filme Feitiço do Tempo), no qual cada crise governamental era amplificada por uma agitação em massa promovida pela extrema-direita. Curiosamente, esse estado de estagnação só chegou ao fim nas últimas três semanas. A estratégia de Janones trouxe um novo fôlego, resgatando milhões de ativistas de um abatimento potencialmente fatal — dada a ameaça de um retorno iminente do fascismo, conforme observou o veterano jornalista Luiz Carlos Azenha. A maratona de transmissões ao vivo de Janones, que durou 24 horas antes das eleições, foi precedida por uma live que acumulou milhões de visualizações e contou com depoimentos de diversos artistas brasileiros, revelando, talvez, o que há de melhor em Lula e no Brasil. A partir desse momento, a direita perdeu seu confortável monopólio sobre a comunicação.

Lula voltou a alcançar as massas, pela primeira vez desde seu retorno à presidência. Contudo, este quarto mandato exige uma nova forma de governar. Será necessária uma abordagem mais próxima à de seus dois primeiros mandatos — período em que Lula conseguia ditar os termos do debate nacional —, mas agora com a necessidade de um diálogo mais intenso e uma atuação mais direta junto às massas de brasileiros que garantiram sua vitória eleitoral. Tudo isso ocorre em um mundo que está, literalmente, em chamas. A economia será um desafio, e Lula terá de enfrentar uma burguesia que deseja um capitalismo ainda mais selvagem do que qualquer coisa já vista anteriormente, inclusive no Brasil.

Para aqueles que, no dia 25 de outubro, viram Flávio Bolsonaro agir como se já fosse presidente, a vitória surpreendente de Lula representou um alívio histórico. Para quem vivenciou as últimas semanas no Brasil — participando de manifestações multitudinárias, sem precedentes na história eleitoral do país, e sentindo uma indignação crescente a cada debate entre Lula e Flávio, bem como diante da arrogância cruel e desenfreada do líder de direita —, a palavra de ordem é, finalmente, esperança.

Colaborador

Hugo Albuquerque é o editor da Jacobin Brasil.

24 de outubro de 2026

Hyman Minsky foi um crítico contundente do capitalismo

O economista Hyman Minsky faleceu há exatos 30 anos. Mais conhecido por sua teoria da instabilidade financeira, Minsky desenvolveu uma visão do capitalismo e de suas mutações que era muito mais radical do que muitos daqueles que citam sua obra conseguem perceber.

Riccardo Bellofiore

Jacobin

Hyman Minsky compreendia que a instabilidade financeira é gerada pelas formas em constante transformação do capitalismo. Estabilizar o sistema sem alterar sua estrutura apenas abrirá caminho para a próxima crise. (Pontificador / CC BY-SA 4.0 [levemente recortada])

Trinta anos após a morte de Hyman Minsky, seu nome é mais conhecido do que sua economia política. Sempre que os preços dos ativos despencam, a alavancagem torna-se subitamente relevante, ou um boom financeiro transforma-se em pânico, alguém anuncia um novo “momento Minsky”.

A expressão tornou-se uma forma abreviada de descrever o ponto em que uma expansão especulativa já não consegue sustentar-se. O financiamento de proteção (hedge finance) transforma-se em financiamento especulativo, este evolui para o financiamento tipo Ponzi, e uma estrutura que parecia estável descobre, de repente, que nem todos conseguem tornar-se líquidos ao mesmo tempo. Essa fama póstuma acabou por restringir nossa compreensão do legado de Minsky.

Ele não foi, primordialmente, um profeta de colapsos. Foi, antes, um teórico de um capitalismo que altera sua forma institucional — e das maneiras pelas quais a própria instabilidade financeira contribui para produzir essas mudanças. Ele foi, também, um crítico severo do keynesianismo. É esse o Minsky que vale a pena recordar hoje.

Marx, Schumpeter, Keynes e Minsky

Minsky estudou com Joseph Schumpeter em Harvard. Ele leu a obra de John Maynard Keynes como um teórico de uma economia de produção monetária e foi influenciado, indiretamente, por Karl Marx.

Minsky caracterizou Schumpeter e Keynes como economistas marxistas que eram conservadores e pró-capitalismo. Eles foram os “grandes dissidentes”: economistas que compreendiam que o capitalismo não pode ser analisado, primeiramente, em termos “reais” para, só depois, receber a introdução da moeda. A moeda está presente desde o início. Mais do que isso: a moeda não é apenas o elemento mais importante; ela é o único elemento.

Minsky caracterizou Schumpeter e Keynes como economistas marxistas que eram conservadores e pró-capitalismo.

O circuito do capital, segundo Marx, tem início com o dinheiro adiantado como financiamento à produção, destinado à compra de força de trabalho e meios de produção. Schumpeter conferiu maior nitidez a esse aspecto monetário: o crédito bancário cria poder de compra ex nihilo (do nada) e confere aos empreendedores o controle sobre recursos antes mesmo que os resultados de suas decisões sejam conhecidos. Keynes demonstrou como o investimento depende de expectativas a respeito de um futuro incognoscível.

Minsky integrou essas perspectivas ao concentrar-se na interdependência dos balanços patrimoniais, que conectam o dinheiro de hoje ao dinheiro incerto de amanhã. Marx ajuda a identificar um ponto que Minsky deixa relativamente pouco explorado: o financiamento da produção confere às empresas o controle não apenas sobre “recursos”, mas sobre a força de trabalho viva — isto é, seres humanos vistos pelo capital meramente como portadores da capacidade de trabalhar.

O processo de valorização é um processo monetário; trata-se de um processo em que o dinheiro gera mais dinheiro, na forma de riqueza abstrata. A teoria monetária não diz respeito a uma esfera financeira isolada: ela constitui uma teoria da produção capitalista como um todo. O financiamento não se torna relevante apenas após a produção de valor; ele ajuda a determinar, de antemão, quem terá o poder de organizar a produção, quais tecnologias serão adotadas, como o trabalho será estruturado e quais futuros se tornarão economicamente possíveis.

A estabilidade é desestabilizadora

O capitalismo é uma economia monetária construída sobre promessas a respeito de um futuro incerto. As empresas investem hoje porque esperam fluxos de caixa futuros. Para isso, contraem dívidas que implicam pagamentos contratuais, independentemente de essas expectativas se concretizarem ou não. A mesma lógica aplica-se, de formas diferentes, às famílias e às instituições financeiras.

Uma unidade financeiramente robusta consegue arcar com os juros e o principal a partir de suas receitas de caixa esperadas. Minsky denominou isso de "financiamento protegido" (hedge finance). Uma unidade especulativa consegue pagar os juros, mas precisa refinanciar a dívida para cobrir o principal. Uma unidade "Ponzi" não consegue sequer arcar com os encargos financeiros correntes sem recorrer a novos empréstimos, ganhos de capital ou refinanciamento.

O ponto crucial é que a fragilidade é gerada dentro da própria expansão. Após uma crise, credores e devedores tornam-se cautelosos. À medida que a prosperidade perdura, os riscos do passado são validados. Práticas antes consideradas perigosas passam a parecer seguras, e as instituições financeiras competem criando formas de contornar as restrições existentes.

O capitalismo é uma economia monetária construída sobre promessas a respeito de um futuro incerto. As empresas investem hoje porque esperam fluxos de caixa futuros.

Uma tranquilidade prolongada — ou uma onda tecnológica que gera retornos esperados excepcionais — reduz, de forma endógena, as margens de segurança anteriormente consideradas prudentes. É a isso que Minsky se referia ao afirmar que a estabilidade é desestabilizadora. Sua teoria não se resume, simplesmente, a uma "exuberância irracional". Práticas financeiras bem-sucedidas alteram as instituições e as convenções por meio das quais o sistema financeiro opera.

A versão canônica desse argumento apresenta um problema. Minsky frequentemente descrevia o período de expansão (boom) como um cenário no qual empresas não financeiras aumentam progressivamente sua alavancagem para financiar investimentos. Isso faz sentido para uma empresa individual, mas não pode ser simplesmente generalizado para o conjunto das empresas.

É aqui que se torna relevante a influência de Michał Kalecki sobre o próprio Minsky. Os gastos com investimento geram lucros. Quando uma empresa toma empréstimos e realiza gastos, outra empresa obtém receita. Portanto, a tentativa de empresas individuais de aumentar seu endividamento não implica, necessariamente, que o setor corporativo como um todo deva tornar-se cada vez mais endividado.

Isso não é motivo para descartar Minsky. É, contudo, uma razão para interpretar sua "Hipótese da Instabilidade Financeira" como uma tendência — uma tendência que, com frequência, é neutralizada por contratendências (tal como ocorre, por exemplo, com a lei da queda da taxa de lucro em Marx). A pressão em direção à fragilidade pode ser deslocada.

Foi exatamente isso que ocorreu nas décadas que antecederam 2007. As empresas não financeiras nem sempre foram o elo mais frágil do sistema. A alavancagem migrou para os intermediários financeiros e para as famílias. O endividamento das famílias, especialmente por meio de hipotecas, tornou-se central para a expansão.

O mercado de hipotecas subprime configurava, quase por definição, um esquema Ponzi: sua viabilidade dependia da valorização contínua dos imóveis e da possibilidade de refinanciamento. O “momento Minsky” de 2007, portanto, não representou apenas o fim de um episódio especulativo; tratou-se do colapso de uma etapa do capitalismo.

Há, ainda, um outro aspecto da obra de Kalecki que merece destaque. Seu argumento de 1943 sobre as barreiras políticas ao pleno emprego pode ser interpretado, em essência, como uma teoria do valor-trabalho dissimulada. O pleno emprego permanente altera a correlação de forças no processo produtivo: os trabalhadores passam a temer menos a demissão, a disciplina no ambiente de trabalho enfraquece, as reivindicações salariais ganham força e o capital passa a resistir a políticas que, contudo, poderiam permanecer perfeitamente compatíveis com a lucratividade agregada.

Dessa forma, Kalecki reintroduz o conflito em torno da extração e da distribuição da mais-valia no cerne da teoria macroeconômica da demanda efetiva. Ao fazê-lo, ele antecipa o que viria a ocorrer entre o final da década de 1960 e o início da de 1970: uma crise na relação capital-trabalho.

De um capitalismo a outro

Minsky desenvolveu uma teoria segundo a qual o capitalismo se desenrola em etapas, distinguindo entre capitalismo comercial, industrial, financeiro, gerencial e, finalmente, o capitalismo dos gestores de capital (ou "capitalismo de gestores financeiros"). Cada forma de capitalismo desenvolve suas próprias instituições financeiras, relações de poder e fontes características de instabilidade. Assim como em Marx e Schumpeter, a desestabilização de uma etapa dá origem à seguinte.

O capitalismo é um sistema evolutivo que transforma continuamente as condições institucionais de sua própria reprodução. No capitalismo comercial, o sistema financeiro estava vinculado ao comércio e ao capital de giro. O capitalismo industrial ampliou significativamente a necessidade de financiar investimentos fixos de longa duração e, com isso, a importância dos bancos de investimento e dos mercados de valores mobiliários. O capitalismo financeiro concentrou poder nas mãos de financistas, grandes acionistas e corporações cada vez maiores.

Cada forma de capitalismo desenvolve suas próprias instituições financeiras, relações de poder e fontes características de instabilidade.

Em 1929, a Grande Quebra desencadeou um colapso do capitalismo que só foi superado com a Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, na fase do capitalismo gerencial, os balanços patrimoniais do setor privado apresentavam-se relativamente sólidos. Grandes déficits governamentais sustentavam os lucros agregados e o nível de emprego. As grandes corporações podiam depender, em larga medida, de financiamento interno, e os gestores conquistaram uma autonomia considerável em relação aos acionistas e banqueiros.

As instituições que, inicialmente, estabilizaram o capitalismo gerencial acabaram por transformá-lo — e, simultaneamente, desestabilizá-lo. Gestores profissionais de recursos, atuando em fundos de pensão, fundos mútuos e outros investidores institucionais, passaram a controlar os títulos corporativos. O critério de sucesso tornou-se a valorização dos ativos sob gestão. O resultado foi o surgimento do "capitalismo de gestores de recursos" (money manager capitalism).

Não se tratava apenas de o setor financeiro desempenhar um papel maior na economia; o sistema financeiro transformou a própria produção. A gestão corporativa tornou-se cada vez mais sensível à avaliação de mercado das ações; processos como aquisições alavancadas (leveraged buyouts), fusões, terceirização, redução de estrutura (downsizing) e compressão de custos reorganizaram as empresas. Corporações verticalmente integradas deram lugar a redes e cadeias produtivas, ao passo que o emprego tornou-se menos seguro e mais precário.

Denominei essa fase de "subsunção real do trabalho ao capital financeiro" — e qualquer semelhança com a terminologia marxiana não é mera coincidência. A chamada financeirização não deve ser concebida como uma esfera parasitária que paira sobre uma "economia real" separada. Os critérios financeiros penetram na esfera produtiva, uma vez que as taxas de retorno exigidas são transmitidas ao processo de trabalho por meio de reestruturações, terceirizações, intensificação do ritmo de trabalho e precarização do emprego.

Esse processo pode, ainda, atuar como um impulso para acelerar a inovação e elevar a força produtiva do trabalho. Esse regime produz, simultaneamente, trabalhadores traumatizados, poupadores com comportamento maníaco-depressivo — inseridos nos mercados financeiros por meio de planos de previdência e patrimônio — e consumidores endividados.

A conexão entre esses dois últimos grupos estabelece um ciclo que vincula a política monetária à inflação de ativos financeiros. A valorização aparente da poupança acumulada incentiva a redução da poupança gerada a partir da renda corrente, a qual pode, inclusive, tornar-se negativa. A alta nos preços dos ativos pôde, por um certo tempo, compensar parcialmente o fraco crescimento dos salários, uma vez que as famílias recorriam ao endividamento tendo como lastro seu patrimônio imobiliário e financeiro.

Essa configuração constituiu uma forma de "keynesianismo privatizado". Em vez de o Estado sustentar diretamente a demanda por meio de gastos públicos, o endividamento privado e a inflação de ativos assumiram grande parte dessa função. Os bancos centrais sustentaram o mecanismo ao fornecer liquidez repetidamente e proteger os mercados financeiros de um colapso, passando a atuar, cada vez mais, como credores de primeira instância.

O resultado pôde ser dinâmico por um certo período. O próprio sistema financeiro tornou-se uma contratendência à estagnação. Não se tratava de uma forma de capitalismo estagnacionista nem de um capitalismo baseado no laissez-faire: era um capitalismo fortemente orientado por decisões políticas. Contudo, ele gerou dinamismo ao criar, mais uma vez, as condições para uma transformação mais ampla — e para uma crise.

A estabilidade aparente da "Grande Moderação" permitiu que a alavancagem aumentasse em outras partes do sistema. As margens de segurança pareciam ter melhorado, uma vez que o valor das garantias continuava a subir. Quando os preços dos imóveis pararam de crescer, toda a estrutura inverteu-se. É por isso que classificar 2007 como um "momento Minsky" não capta a essência da questão. Tratou-se, na verdade, do ápice do que L. Randall Wray e Eric Tymoigne denominaram "meio século de Minsky".

O que vem depois?

Aquilo que é geralmente referido como a “crise de 2008”, associada ao Lehman Brothers, começou na verdade no ano anterior com a quebra do subprime. Tinha sido antecipado pelo colapso das pontocom no início da década. Durante alguns meses, o “neoliberalismo” parecia estar morto: e estava, nessa forma. Os bancos foram resgatados, os défices explodiram e os bancos centrais abandonaram qualquer pretensão de que os mercados financeiros pudessem ser deixados entregues a si próprios.

Mas o que se seguiu não foi um novo acordo progressista. Foi um interlúdio zombie: a estrutura financeira privada foi resgatada enquanto a austeridade era imposta a grande parte da população. Entretanto, a crise ecológica obscureceu cada vez mais o horizonte. A pandemia e a crise sanitária quebraram finalmente o padrão político-económico herdado do interregno pós-2007.

O que é comumente chamado de “crise de 2008”, associada ao Lehman Brothers, teve início, na verdade, no ano anterior, com o colapso do mercado de subprime.

Após 2020, a política fiscal ativa retornou em uma escala que havia sido descartada por décadas. Governos registraram déficits enormes, e o Estado passou a oferecer garantias, subsídios, políticas industriais, investimentos em infraestrutura e apoio a aportes em áreas verdes e digitais. Chamar isso de “retorno do Estado”, contudo, é enganoso, uma vez que o Estado nunca foi embora. O que mudou foi a forma de intervenção.

Eu descreveria o regime que efetivamente se materializou como uma segunda geração de “keynesianismo privatizado”. A primeira geração, que vigorou aproximadamente entre 1987 e 2007, sustentava a demanda por meio de endividamento privado, inflação de ativos e garantias oferecidas pelos bancos centrais. A segunda sustenta a demanda de maneira muito mais direta, por meio de déficits públicos e do balanço patrimonial do Estado.

Persiste, no entanto, uma assimetria fundamental: a demanda é sustentada pelo setor público, ao passo que os critérios que regem a alocação de recursos, a produção e o mercado de trabalho permanecem sob controle privado e orientados para uma lógica de lucratividade imediatista — do tipo “entrar, lucrar e sair”. O risco é socializado, enquanto os retornos permanecem privados.

A política industrial subsidia corporações estratégicas, plataformas digitais, complexos industrial-militares e cadeias produtivas reorganizadas, sem qualquer controle público e democrático efetivo. O nível de emprego pode aumentar sem que se revertam as relações de trabalho fragmentadas e precárias. O dinheiro público garante, cada vez mais, a lucratividade futura de investimentos privados.

Um crítico do keynesianismo

O Minsky mais surpreendente é, contudo, o Minsky político. Ele era keynesiano, mas não acreditava que o keynesianismo do pós-guerra tivesse concretizado o potencial radical de Keynes. Seu ponto de partida era o famoso apelo de Keynes por uma “socialização do investimento de certa forma abrangente”. Keynes concluiu que a política monetária, por si só, não seria capaz de garantir investimento privado suficiente para assegurar o pleno emprego.

Mas ele impôs, de imediato, um limite a esse argumento. O defeito fundamental do capitalismo, sustentava ele, dizia respeito ao volume, e não à direção, do emprego. Uma vez que os recursos estivessem plenamente empregados, até mesmo o Keynes que defendia a socialização do investimento escrevia que o mercado os alocava de maneira razoavelmente satisfatória e que a teoria neoclássica mantinha uma validade restrita a certos contextos.

Minsky, assim como Joan Robinson antes dele, formulou uma questão muito mais incisiva: pleno emprego para quê? Uma vez que a política keynesiana demonstrou que o pleno emprego era politicamente possível, a composição do emprego e da produção não poderia mais ser tratada como uma questão secundária. A pergunta não era apenas se todos poderiam ser integrados ao trabalho, mas o que essas pessoas estariam produzindo, sob quais condições e para quem.

Minsky era keynesiano, mas não acreditava que o keynesianismo do pós-guerra tivesse concretizado o potencial radical de Keynes.

O mesmo problema perpassa a crítica posterior ao keynesianismo militar, ao desperdício organizado e ao consumo privado induzido (nesse ponto, Minsky alinha-se a Paul Baran e Paul Sweezy). O "grande governo" e o "grande sistema financeiro" poderiam evitar um novo grande colapso. Contudo, ao fazê-lo, acabariam por estabilizar uma forma conservadora de capitalismo, alicerçada em lucros elevados, grandes corporações, gastos militares, investimento privado induzido e um consumo privado em constante expansão.

A resposta de Minsky não se resumia a "mais Keynes". Ele recorreu, em vez disso, a Franklin Delano Roosevelt e ao *New Deal*, numa espécie de idealização à esquerda desse período. Embora o *New Deal* pudesse carecer da teoria da demanda efetiva de Keynes, ele possuía algo que o keynesianismo do pós-guerra havia perdido: a reforma estrutural — uma bandeira que seria suicida deixar nas mãos da direita. O *New Deal* reformou o sistema financeiro, criou instituições para combater a deflação por dívidas e promoveu a geração direta de empregos voltados a atender necessidades sociais.

Minsky buscava combinar a demanda efetiva keynesiana com as reformas estruturais do *New Deal*. É por isso que sua proposta de "empregador de última instância" não deve ser reduzida a um mero mecanismo técnico de garantia de emprego. Ele almejava o pleno emprego, mas defendia também a criação de empregos no setor público para produzir bens e serviços que estivessem além do critério imediato de lucratividade privada. Ele defendia que os gastos deveriam ser direcionados a objetivos específicos.

A questão central é que a própria composição da produção deve tornar-se um tema político. Em certos momentos, Minsky foi ainda mais longe: ele argumentou que o controle sobre os comitês financeiros das grandes corporações poderia abrir caminho para um socialismo descentralizado ou para um capitalismo intervencionista e orientado.

Para além da estabilização de uma economia instável

É aqui que a obra de Minsky permanece incompleta. Se o sistema financeiro determina quais empresas obtêm poder de compra antes mesmo de a produção começar, então ele já exerce uma espécie de planejamento social privado (como apontou Schumpeter). Ele confere a certos agentes a possibilidade de contratar força de trabalho, mobilizar recursos produtivos, introduzir tecnologias e definir a configuração material de um futuro que ainda não chegou.

No capitalismo, a riqueza não se resume à possibilidade de consumir mais; ela representa poder sobre os rumos do futuro (como observou Keynes). É por isso que a socialização do investimento levanta, em última análise, uma questão mais ampla: a socialização do uso da capacidade produtiva. Em certo sentido, isso aponta para a possibilidade de uma economia baseada na produção social.

Isso não significa defender uma economia de comando burocrática. Significa, antes, recusar a ideia de que a lucratividade privada seja o único mecanismo capaz de decidir o que é produzido, como é produzido e para quem. Implica, também, levar a sério a organização do trabalho: uma decisão democrática sobre o que produzir torna-se incompleta se os trabalhadores permanecerem subordinados dentro do próprio processo produtivo.

A crise ecológica torna esse argumento ainda mais contundente. É possível refinanciar dívidas e reestruturar balanços financeiros, mas um ecossistema destruído não pode ser simplesmente "rolado" para um período futuro. Da mesma forma, não é possível restaurar a força de trabalho viva que já foi consumida e desgastada. A irreversibilidade material do uso dos trabalhadores e da natureza não pode ser anulada por meio de um rearranjo de obrigações monetárias.

O "Minsky" que volta à moda a cada nova crise — associado, muitas vezes, apenas aos episódios de pânico financeiro — é uma versão limitada. O Minsky mais radical compreendia que a instabilidade financeira — e, de forma mais ampla, a insustentabilidade dos processos capitalistas, mesmo quando estes se mostram temporariamente estáveis ​​— decorre das formas em constante mutação do próprio capitalismo. Tentar estabilizar o capitalismo sem alterar sua estrutura pode, na verdade, apenas preparar o terreno para a próxima crise.

Colaborador

Riccardo Bellofiore é um economista político de orientação marxista que lecionou na Universidade de Bérgamo. Entre suas obras, destaca-se Smith Ricardo Marx Sraffa: Il lavoro nella riflessione economico-politica.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...