20 de agosto de 2026

A utopia é uma promessa pela qual vale a pena lutar

Karl Marx ridicularizava os utopistas por escreverem receitas para as cozinhas do futuro. Mas, em sua melhor forma, os utopistas enfatizam a esperança sem garantias — uma posição que traça um caminho intermediário entre o otimismo cego e a inércia resignada do “realismo”.

Matt McManus


Retrato de Thomas More feito por Hans Holbein, o Jovem, em 1527 (da The Frick Collection)


Resenha de Utopia for Our Century: A Manifesto of Hope, de David Albertson e Jason Blakely (Yale University Press, 2026)

A impossibilidade inquietante de uma sociedade que esteja à altura dos nossos ideais declarados pode ser dolorosa quando confrontada com as sociedades reais, que ficam tão aquém deles. É por isso que o sonho da utopia — ou "lugar nenhum" — perturba o sono de tantos pensadores há tanto tempo que pode acabar parecendo um pesadelo. Diante da hipocrisia de um mundo onde a crueldade muitas vezes parece ser o objetivo, que direito temos de imaginar que as coisas poderiam ser melhores? Como podem pessoas supostamente sábias e inteligentes sonhar com a utopia, quando a sabedoria e a inteligência apontam para a sua impossibilidade?

O novo livro de David Albertson e Jason Blakely, Utopia for Our Century: A Manifesto of Hope, apresenta uma história reflexiva daquelas almas audazes que sonharam com algo melhor. Mas, mais do que uma história, a obra busca analisar o valor político e ideológico do pensamento utópico e contestar a ideia de que se trata apenas de um desejo ingênuo. Albertson e Blakely encontram muito a admirar nos autores utópicos, vendo-os como "sonhadores virtuosos, que viveram realidades pelo menos tão sombrias e aterrorizantes quanto a nossa, mas o fizeram com uma esperança inabalável". Em seu melhor momento, os utopistas enfatizavam a esperança sem garantias — uma postura sábia que traça um caminho intermediário entre o otimismo cego e a inércia resignada de um falso "realismo".

O arquétipo deles é Thomas More, cuja obra Utopia, publicada no século XVI, batizou o conceito. Para Albertson e Blakely, More nos oferece uma visão da personalidade dos utopistas. Eles não são os otimistas ingênuos das caricaturas.

Longe de ser um pensador meramente especulativo e abstrato, More é um dos poucos grandes filósofos a ter uma carreira política pública genuína, e isso durante um período particularmente desafiador. Ele serviu como Lorde Chanceler da Inglaterra sob o comando do amoral e cruel Henrique VIII. Foi uma época tumultuada para o país. Henrique rompeu com Roma e declarou-se chefe da Igreja da Inglaterra para anular seu casamento e unir-se a outra mulher. Isso gerou forte resistência, à qual Henrique respondeu com repressão violenta. Tal repressão acabou atingindo More, um católico devoto, que foi levado a julgamento por se recusar a reconhecer a supremacia religiosa de Henrique. More manteve-se firme em suas convicções, o que levou à sua execução em 1535.

Albertson e Blakely compreendem que a trágica imersão de More na Realpolitik é parte do que inspirou sua adesão ao utopismo. Sua definição irônica de "utopia" como "nenhum lugar" não visa apenas demonstrar a natureza especulativa de seu pensamento. More chama a atenção para o fato de que nenhum lugar na Terra chega perto de concretizar a justiça, embora muitas elites governantes — que detêm o poder de mudar as coisas — afirmem preocupar-se profundamente em ser justas. Em uma passagem memorável, More descreve um diálogo entre Raphael Hythloday — o viajante que visitou Utopia — e um advogado anônimo. O advogado diz preocupar-se com a lei e a ordem, argumentando que a única maneira de preservá-las é por meio de punições brutais. Hythloday observa que Utopia é um lugar muito mais seguro, em grande parte por ser uma sociedade muito menos desigual, onde a propriedade é amplamente compartilhada e há poucos pobres. Além disso, as punições para crimes como o roubo são muito mais brandas do que na Inglaterra, refletindo ainda mais o compromisso humanista daquela sociedade. Com um "humor mordaz", Hythloday observa que realistas como o advogado encurralam os pobres em uma situação impossível: "primeiro transformando-os em ladrões e, depois, punindo-os por isso". Em vez de empreender reformas para alcançar a paz e a justiça que o advogado afirma desejar e nas quais diz acreditar, ele insiste obstinadamente na ilusão de que "a Inglaterra poderia resolver os problemas da pobreza por meio do encarceramento e da execução (infelizmente, o estratagema continua funcionando perfeitamente)".

Nesse sentido, o utopismo não é uma fantasia sobre mundos impossíveis, mas um espelho implacável que reflete o quanto falhamos em viver de acordo com os princípios que dizemos defender. Ademais, ao não se comprometerem com a justiça em nome do "realismo", as elites governantes são responsáveis ​​por gerar a própria corrupção que apontam como o maior obstáculo para melhorias. More queria expor como esse apego ideológico ao status quo, com todas as suas falhas, constituía uma das principais barreiras para tornar as coisas melhores. "A Utopia de More submete gradualmente seus contemporâneos europeus ao escrutínio do 'e se...' e ao seu poder de desmascaramento", como afirmam Albertson e Blakely. "Atitudes comuns da época em relação ao encarceramento, à propriedade privada, à educação e à assistência médica são expostas, uma a uma, como inviáveis, insustentáveis ​​e, de fato, irrealistas à luz das conquistas de Utopia." E, no entanto, em apenas alguns séculos, tudo isso mudou: “Quantas das políticas tidas como evidentes na Londres de More perduraram até o nosso século — seja a pena capital por roubo ou o direito divino dos reis? A resposta é clara: elas desapareceram.”

A pós-modernidade; ou, a lógica cultural das utopias monstruosas

Ao contrário da fama de idealistas que temos, muitos dos pensadores mais perspicazes da esquerda manifestaram profundo ceticismo em relação ao utopismo. Isso começou, naturalmente, com Karl Marx, que ficou famoso por repreender socialistas com quem discordava, rotulando-os pejorativamente de "utópicos". Em seus momentos de maior aspereza, Marx ridicularizava o utopismo, comparando-o à redação de livros de receitas para as cozinhas do futuro. Tais esquemas não passavam de uma indulgência especulativa e a-histórica (embora o próprio Marx frequentemente se permitisse tal prática). Seguindo seus passos, muitos marxistas ortodoxos insistem que o socialismo deve ser "científico"; caso contrário, não é socialismo.

Marxistas mais reflexivos adotam uma abordagem diferente. Em sua obra seminal Archaeologies of the Future, o saudoso e brilhante Fredric Jameson observa como a ficção científica utópica tem sido, muitas vezes, um gênero construtivo para que progressistas imaginem como seriam futuros melhores, visando concretizá-los. O gênero, é claro, teve início com o próprio Thomas More, a quem Jameson descreve como um satírico do poder essencialmente progressista, oferecendo um "comentário ponto a ponto, e contundente, sobre os assuntos e a situação da Inglaterra". A literatura utópica perdurou sob diversas formas, à medida que autores — de Edward Bellamy a Ursula K. Le Guin — utilizavam a ficção científica tanto para criticar o status quo quanto para formular hipóteses sobre um futuro melhor. Contudo, Jameson acaba expressando cautela quanto ao poder transformador do gênero utópico, sugerindo que ele pode ter se esgotado no século XXI pós-moderno. Ele observa como, hoje, o gênero utópico praticamente desapareceu, dando lugar a retratos sombrios do futuro, nos quais é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Um sinal revelador é que mesmo obras que começam apresentando utopias geralmente terminam por revelar que elas não são tudo aquilo que prometiam ser. O mundo de Barbie (2023), aparentemente idílico e cor-de-rosa, revela-se marcado por uma angústia existencial reprimida e por antagonismos de gênero. Séries mais recentes de Star Trek, como Picard e Discovery, pegam o futuro cosmopolita e luminoso prometido pela Federação Unida dos Planetas de Gene Roddenberry e mostram que ele dependia, secretamente, de manipulação oculta, da exploração de marginalizados e de muitas outras coisas.

Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais idealista é um realista lúcido.

Discordando de Jameson, Albertson e Blakely veem o gênero utópico como algo muito vivo, porém em situação precária. Esse é um problema grave, visto que a necessidade de utopias “construtivas” é urgente. Albertson e Blakely são muito críticos em relação ao populismo de direita e aos estragos que ele provoca, mas argumentam que grande parte disso deriva das próprias aspirações utópicas da direita (frequentemente negadas por ela mesma). Entre elas está o sonho nacionalista de um ethnos unificado, que Albertson e Blakely descrevem como um “tipo peculiar de utopia fracassada”. Os nacionalistas evocam um “espírito imaginado da nação que cria uma ilusão de unidade cultural” — uma ilusão que pretende basear-se na história real, ao mesmo tempo em que eles minimizam constantemente ou resistem de forma militante a fatos históricos que não se coadunam com os mitos patrióticos que desejam propagar. Albertson e Blakely observam, com ironia, que os nacionalistas precisam constantemente “sustentar a falsidade óbvia de que o Geist [espírito nacional] fictício permanece puro, livre de influências de culturas sobrepostas, constituintes ou vizinhas, e que jamais muda com o passar do tempo”.

Eles também identificam muitas das mesmas fantasias operando na "esperança utópica mais febril" da direita: a de que um dia poderíamos alcançar a visão "mais imaculada, geométrica e isenta de atritos do 'livre mercado'". Gerações inteiras de americanos viveram como se o mercado fosse a única utopia tolerável. Albertson e Blakely são ferozmente críticos dessa visão — e com razão —, classificando-a como uma "utopia monstruosa" por exigir pouco das pessoas e oferecer ainda menos em troca, tudo isso enquanto o sistema monetário é tratado como uma "divindade menor".

Eu iria ainda mais longe do que Albertson e Blakely, sugerindo que a concepção meritocrática do capitalismo — a ideia de que cada um será recompensado de acordo com o que merece — não é apenas uma visão utópica ruim; é a utopia mais fantasiosa e irrealista já concebida. Filósofos da Antiguidade tiveram a sabedoria de aceitar que apenas a mão muito visível e onisciente de Deus poderia recompensar as pessoas com base no que mereciam, e isso apenas em um reino perfeito além deste mundo. Apenas os conservadores americanos imaginaram um mundo tão fantástico a ponto de a mão invisível e irracional do mercado recompensar as pessoas com base no que mereciam, e nesta vida. Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais idealista parece um realista lúcido, visto que eles apenas imaginavam ser possível dar às pessoas o de que precisavam, deixando em aberto a questão do que elas mereciam.

A utopia é possível hoje?

Em contrapartida, Albertson e Blakely veem com mais simpatia as utopias de esquerda, mas acreditam que elas permanecem limitadas por certas restrições fundamentais. Eles demonstram certa simpatia pelo liberalismo, ao mesmo tempo em que destacam como o "liberalismo do pós-guerra estagnou" devido a uma regressão ao "libertarismo de direita, por vezes chamado de neoliberalismo". Essa regressão ao neoliberalismo "traiu os ideais originais da tradição [liberal]" de alcançar liberdade, igualdade e solidariedade para todos. Albertson e Blakely também criticam a tradição marxista por não reconhecer que as verdadeiras revoluções nunca começam na esfera econômica. Em vez disso, precisamos de uma transição de valores, buscando padrões éticos mais elevados. Eles não detalham exatamente o que isso implicaria, mas suas referências elogiosas a cristãos humanistas e de esquerda — como o próprio More, Martin Luther King Jr. e o falecido Alasdair MacIntyre — oferecem muitas pistas.

O que torna a posição de Albertson e Blakely interessante é a defesa de uma visão utópica que seja, simultaneamente, liberal, anticapitalista e profundamente espiritual. Desnecessário dizer que essa é uma combinação difícil de alcançar — embora se possa perguntar: de que serve uma visão utópica sem ambição? Infelizmente, os autores não se esforçam muito para detalhar essa ideia, mesmo apresentando exemplos comoventes nas trajetórias de More e King. Aqui, meus instintos marxistas entram em cena, levando-me a suspeitar que atos individuais de graça simplesmente não serão suficientes. A ausência de uma teoria clara sobre o poder — algo que complementasse as condenações veementes à injustiça e a crítica às camisas de força ideológicas — constitui uma limitação real da visão deles.

Ainda assim, Albertson e Blakely merecem reconhecimento pela força e pela ousadia — até mesmo pela audácia — de sua visão. Eles certamente têm razão ao afirmar que uma forma de utopismo pode ser mais realista do que a adesão irrefletida a um status quo que não funciona. Afinal, fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes não é sinal de sabedoria. É loucura.

Colaborador

Matt McManus é professor assistente no Spelman College. Ele é autor de The Political Right and Equality e The Political Theory of Liberal Socialism, entre outros livros.

Verdes alemães apostam o futuro em maiores gastos com armamentos

No auge de seu radicalismo, na década de 1980, os Verdes alemães representavam uma voz pacifista e ecológica. Agora, o partido apoia o aumento dos gastos militares não apenas como estratégia de defesa, mas como peça-chave para a recuperação econômica da Alemanha.

Ewald Engelen


Onde as elites alemãs antes apresentavam a transição verde como o caminho para a criação de empregos, agora apostam na produção de armamentos. Deixando de lado o pacifismo, os Verdes alemães passaram a apoiar essa indústria ecologicamente destrutiva. (Kay Nietfeld / Picture Alliance via Getty Images)

Segundo o famoso modelo da "lata de lixo" da tomada de decisões políticas, não há muita racionalidade na política. Criado na década de 1970, esse modelo rejeita a ideia de que as escolhas coletivas são resultado de profissionais da política buscando intencionalmente soluções ideais para problemas bem definidos. Em vez disso, ele retrata essas escolhas como o produto de disputas entre diferentes facções de elites que tentam convencer os cidadãos — e umas às outras — de que a "solução" que defendem pode, no mínimo, superar as de seus concorrentes ao responder a qualquer questão que surja.

Meio século depois, esse modelo ainda explica muitos fenômenos políticos marcantes e persistentes.

Primeiro, o fato de que políticas públicas nunca desaparecem de fato, mas reaparecem repetidamente, como zumbis — ou, mantendo a metáfora, reaparecem como se fossem expelidas por uma lata de lixo transbordante. Segundo, que as políticas podem ser constantemente adaptadas às mudanças nos ventos políticos, sendo rebatizadas e reformuladas. Terceiro, que, no fim das contas, nada parece ser realmente resolvido. Em última análise, o sucesso de uma facção da elite em promover a "solução" de sua preferência não depende de ela realmente resolver algo, mas sim de sua capacidade de identificar, incessantemente, problemas sobre os quais possa, ao menos, alegar estar agindo.

A metáfora da "lata de lixo" parece particularmente apropriada em momentos de mudanças fundamentais nas políticas públicas, como o que vivemos hoje. Na Europa, questões de sustentabilidade e aquecimento global foram repentinamente substituídas por um discurso centrado em guerra, defesa, segurança e geopolítica — inclusive por parte das mesmas elites que, há poucos anos, apresentavam-se como as grandes defensoras da causa climática.

Veja-se o relatório mais recente sobre defesa e política industrial, elaborado pelo braço de assessoria política do Partido Verde da Alemanha. Esse documento, que trata da defesa como motor de inovação, visa ajudar o partido a dar sua própria nuance sutil à Zeitenwende — ou "virada histórica" ​​— anunciada pelo então chanceler Olaf Scholz em fevereiro de 2022.

Abrindo a torneira

Em resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia, em 27 de fevereiro de 2022, a maioria do Bundestag alemão decidiu abandonar o pacifismo constitucional do país, estabelecido no pós-guerra, e transformá-lo na maior e mais letal máquina de combate da Europa. Um objetivo que, à luz da história europeia do século XX, deveria causar arrepios em qualquer pessoa com um mínimo de senso histórico.

Alcançar essa meta significou, primeiramente, abandonar a insistência ordoliberal da Alemanha em orçamentos equilibrados (a regra do "zero preto"). Três anos depois, após manobras parlamentares escandalosas, seguiu-se o abandono do "freio da dívida" — uma norma constitucional que obrigava o governo federal a manter a dívida pública alemã total nos níveis de 2009, algo comparável ao teto da dívida dos EUA.

A torneira foi aberta: os gastos com defesa saltaram de US$ 56 bilhões em 2022 para US$ 67 bilhões em 2023 e US$ 88 bilhões em 2024. O governo federal pretende elevar esse valor para US$ 152 bilhões em 2029; nessa altura, a Alemanha deverá ser capaz de resistir a qualquer ataque russo sem a ajuda dos EUA. Isso, é claro, desde que a Rússia se atenha ao roteiro de uma guerra estritamente convencional.

O Partido Verde alemão há muito esqueceu sua herança pacifista (o manifesto de fundação do partido, em 1980, pregava a não violência e a dissolução tanto da OTAN quanto do Pacto de Varsóvia). No entanto, embora este relatório recente tome como certa a necessidade de enfrentar a ameaça russa, seu foco real está em outro lugar.

O verdadeiro foco aqui é o declínio industrial e a depressão econômica. Como resumem os primeiros parágrafos do documento, a economia alemã atravessa uma situação crítica: seu núcleo industrial perde 15 mil empregos por mês, sua famosa Mittelstand (a espinha dorsal manufatureira da Alemanha, composta por pequenas empresas familiares) vê milhares de negócios fecharem as portas todos os anos, e seu PIB permanece estagnado há quatro anos. Tudo isso está criando as condições materiais para vitórias potencialmente expressivas do partido nacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD) nas três eleições estaduais de setembro. Na Saxônia-Anhalt, um estado da antiga Alemanha Oriental, espera-se que a AfD conquiste mais de 40% dos votos; enquanto isso, até mesmo em Berlim — há muito um reduto progressista —, o partido parece estar prestes a se tornar uma das maiores forças políticas, registrando 17% nas pesquisas.

Como garantir que o enorme aumento nos gastos com defesa não encha apenas os cofres das fabricantes de armas americanas, mas beneficie também o eleitor alemão comum? Como transformá-lo em uma política industrial "inteligente" 2.0 para a própria Alemanha? Essa é a questão central que o relatório tenta abordar.

É aqui que fica evidente a origem do relatório como uma espécie de "cesto de lixo" de ideias. Ele associa intrinsecamente as preocupações com a segurança geopolítica à política industrial, numa tentativa de atrair também aqueles que ainda não estão convencidos de que o aumento nos gastos com defesa compensa os custos inevitáveis ​​nas áreas de seguridade social, política ambiental e infraestrutura pública.

A mensagem implícita do relatório é: mesmo que você não esteja convencido de que os russos estão chegando e os americanos estão indo embora, você pode muito bem nos apoiar — nós, os Verdes —, pois garantiremos que o aumento dos gastos com defesa beneficie, no final das contas, a todos nós.

É, mais uma vez, a teoria econômica neoliberal do "efeito gotejamento" (trickle-down economics).

Ou, nas palavras do próprio relatório:

A história mostra que o aumento dos gastos com defesa pode desencadear ondas de inovação: o GPS, os primórdios da internet e a ciência moderna dos materiais surgiram, todos, de financiamentos para pesquisas militares. Ainda não está claro se efeitos de transbordamento semelhantes ocorrerão hoje. Mais dinheiro, por si só, não basta. Tudo depende de como ele é utilizado.

A retórica da inovação

Não é difícil perceber, nisso, uma repetição do argumento extremamente popular de Mariana Mazzucato sobre o Estado empreendedor. Em seu livro de 2011, ela utiliza exemplos de desdobramentos civis (spin-offs) de projetos de defesa dos EUA para refutar a alegação neoliberal de que apenas os mercados são inovadores, enquanto o Estado sempre freia o crescimento. Embora a ideia seja verdadeira em tese, pode-se questionar se a escolha de seus exemplos foi das mais felizes. Afinal, tratava-se de partes integrantes de pacotes de defesa que trouxeram morte e destruição a civis em todo o Sul Global — algo que os benefícios ambivalentes da internet e do smartphone mal conseguiram compensar, se é que compensaram de fato. Além disso, um raciocínio que emula o de Mazzucato serve cada vez mais como uma fachada para que antigos progressistas de toda a União Europeia apoiem uma corrida armamentista que não tornará o mundo mais seguro, mas deixará os cidadãos muito mais pobres.

O cerne da questão é a afirmação de que, embora mais dinheiro certamente não baste, o problema reside fundamentalmente na forma como ele é gasto. É nesse ponto que o relatório ganha corpo e passa a soar como um texto típico de consultoria. O documento é repleto de termos como "transbordamento" (spillover), "ecossistemas", "agentes de inovação", "startups", "integradores de sistemas", "ciclos de retroalimentação", "tecnologias de duplo uso", "multiplicadores estratégicos" e outros, sem esquecer os inevitáveis ​​elogios à inteligência artificial.

O mesmo vale para a lista de recomendações. Elas variam desde a inclusão da "segurança" como requisito fundamental em programas nacionais de financiamento à pesquisa até o oferecimento de melhores incentivos para que acadêmicos se voltem para questões de defesa e segurança, além do direcionamento de verbas de pesquisa para projetos de defesa de "duplo uso". Propõe-se também flexibilizar os critérios de avaliação de defesa para PMEs (pequenas e médias empresas) por meio da criação de "programas de integração" (onboarding), baseados em "mapas de oferta e demanda de alta tecnologia" específicos. Oferecem-se, ainda, garantias estatais plenas para empresas privadas e esquemas de cofinanciamento nos moldes dos notórios modelos de parceria público-privada (PPP). Tudo se resume, invariavelmente, à mesma coisa: a privatização dos lucros e a socialização dos riscos e custos.

A linguagem reflete uma crença profunda naquilo que Thomas Frank, em seu livro prestes a ser lançado, The Creativity Con, identificou como uma retórica cosmética de inovação que, por si só, possui um duplo uso. Demonstrar que se sabe falar a linguagem do capital é o primeiro passo. Esse objetivo é particularmente importante para o outrora rebelde Partido Verde alemão — antigos outsiders que foram integrados ao sistema e que, agora na oposição, desejam retornar a ele o mais breve possível. Tornar-se um insider na política europeia, como é sabido, depende de três compromissos: abraçar a UE, aceitar a OTAN e falar a linguagem do capital para demonstrar crença na inviolabilidade dos direitos de propriedade liberais, a pedra angular do capitalismo.

Status de insider

Os Verdes já haviam se tornado insiders — parte do establishment — pelo menos em 1999, quando uma figura de proa do partido, Joschka Fischer, na qualidade de ministro das Relações Exteriores da Alemanha, apoiou o bombardeio ilegal da OTAN ao Kosovo e à Sérvia — ação que, segundo a Human Rights Watch, matou pelo menos quinhentas pessoas. Mais recentemente, houve a participação do partido, a partir de dezembro de 2021, na coalizão "semáforo" liderada pelo já mencionado Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata alemão, e seu apoio à Zeitenwende (mudança de era) anunciada por ele dois meses depois. Os Verdes chegaram até mesmo a governar em aliança com o centro-direita em vários estados alemães.

Essa condição de insider dos Verdes reflete-se claramente na lista de participantes do grupo de trabalho que aprovou o relatório em questão. Conforme revelou o jornal diário alemão Berliner Zeitung, entre os membros estão muitos dos maiores fabricantes de armas da Alemanha e da Europa, incluindo nomes de peso como Airbus Defence & Space, Heckler & Koch, Hensoldt AG e Safran Electronics & Defense. Isso sugere que não se trata tanto de um documento neutro de política pública, mas sim de um relatório de lobby, semelhante aos produzidos por empresas de consultoria em todo o mundo.

Quanto ao eleitor comum, ele se vê em uma Alemanha que caminha, lenta mas gradualmente, para uma escalada militar ainda maior — financiada por cortes drásticos naquilo que seria o pilar da Europa moderna: o tão prezado Estado de bem-estar social.

Pois esse é o aspecto mais marcante do relatório: aquilo que ele não menciona.

No mundo higienizado da classe profissional-gerencial que compõe os Verdes alemães, a guerra é, na pior das hipóteses, um jogo e, na melhor, um problema de gestão que pode ser resolvido com brainstorming, os incentivos certos, uma planilha e alguns cruzamentos de dados. O fato de essas armas serem projetadas e fabricadas para mutilar, matar e destruir é mascarado pela linguagem eufemística típica das consultorias.

Da mesma forma, o relatório ignora a vasta literatura que questiona qualquer alegação de que os gastos com defesa tragam benefícios econômicos. Já em 2009, os economistas políticos Robert Pollin e Heidi Garrit-Peltier haviam calculado que os ganhos de emprego gerados pelos gastos com defesa equivalem à metade daqueles gerados por cada dólar investido em saúde, educação, transporte público ou construção civil. E, naturalmente, esses dados referem-se aos Estados Unidos, país que abriga o maior setor de defesa do mundo. Isso está em consonância com a quantificação econométrica do "multiplicador" (ou seja, quanto um aumento de uma unidade nos gastos públicos acrescenta ao PIB) realizada por macroeconomistas da corrente dominante. Um metaestudo holandês indica que esse multiplicador é próximo de zero. Isso significa que um dólar ou euro adicional gasto em defesa praticamente não acrescenta nada ao PIB. É por isso que economistas se referem constantemente aos gastos com defesa como "consumo morto", e não como investimento; isso quer dizer que tais gastos não geram um retorno quantificável, ao contrário de quando os Estados "investem" em educação, saúde ou infraestrutura. E é também por isso que, sempre que você ouve políticos reclassificando esses gastos como "investimento", sabe que está sendo manipulado de uma forma que parece ter saído diretamente da cartilha do programa de guerra cognitiva da OTAN.

Aumentar os gastos com armamentos é um desperdício vergonhoso — e ambientalmente destrutivo — de recursos públicos escassos. Lamentavelmente, o Partido Verde esqueceu-se completamente disso. Dado que o partido é nominalmente de esquerda, só nos resta esperar que alguns de seus membros decepcionados revirem o lixo e encontrem o manifesto de fundação da legenda. Esse documento defendia que a paz, a distensão, a diplomacia e a dissolução da OTAN ajudariam a salvar o planeta. Os Verdes fariam bem em redescobrir isso antes que o desastre aconteça.

Colaborador

Ewald Engelen é professor de geografia financeira na Universidade de Amsterdã e articulista da revista De Groene Amsterdammer. Ele está trabalhando em um livro sobre os protestos de agricultores na Europa.

O fim do Oriente Médio americano

O Irã e o último suspiro de uma ordem fracassada

Marc Lynch

Foreign Affairs

Ben Jones

O Oriente Médio americano chegou ao fim. A ordem regional que prevaleceu desde 1991 foi uma das muitas baixas da guerra travada pelos EUA e por Israel contra o Irã. O fracasso americano e israelense em derrubar o regime de Teerã comprovou a falência de décadas de sanções e violência. A incapacidade dos Estados Unidos de proteger seus aliados do Golfo contra ataques iranianos ou de manter aberto o Estreito de Ormuz minou fatalmente o acordo fundamental de segurança que justificava sua rede de bases militares na região. Além disso, a postura cada vez mais ameaçadora de Israel e o abandono de qualquer pretensão de chegar a um entendimento com os palestinos puseram fim à missão, de décadas, de Washington de unir seus aliados árabes e Israel em uma parceria de segurança duradoura.

O objetivo principal dos Estados Unidos ao longo de três décadas e meia foi vincular seus aliados heterogêneos a uma ordem construída em torno da proteção de Israel e, simultaneamente, da contenção — inicialmente do Irã e do Iraque e, mais recentemente, do Irã e de seus aliados não estatais. Longe de representar um desvio dessa estratégia, a guerra do presidente Donald Trump levou-a à sua conclusão lógica, buscando eliminar a ameaça iraniana pela força, de uma só vez. Assim como fizeram os líderes americanos antes da invasão do Iraque em 2003 e como Israel fez em suas guerras contra o Hezbollah e o Hamas, os arquitetos desta guerra superestimaram enormemente o que o poder militar poderia alcançar, subestimaram a capacidade de adaptação dos adversários, deram como certo que os aliados seguiriam a linha traçada e ignoraram, com insensibilidade, as vidas de pessoas comuns. A aventura fracassada de Washington não foi tanto uma aberração, mas sim a expressão máxima do vício inerente à sua estratégia para o Oriente Médio.

À primeira vista, pode não parecer que a guerra tenha tido grande impacto nas alianças que sustentam a ordem americana. Diante de uma guerra inconclusiva e de um Irã fortalecido, os Estados do Golfo podem intensificar a compra de armamentos e as exigências por novas garantias de segurança, criando a ilusão de continuidade. No entanto, a velha ordem está, de fato, dando lugar a algo novo. A Crise de Suez de 1956 é lembrada hoje como o último suspiro do poder imperial britânico e francês no Oriente Médio, mas levou anos até que se chegasse a esse desfecho inevitável. A primazia americana também não desaparecerá de imediato; contudo, as dúvidas acumuladas ao longo do tempo sobre o poder e os propósitos dos EUA ultrapassaram o ponto crítico. As revelações trazidas pelo conflito envolvendo o Irã — e, anteriormente, pela guerra de Israel em Gaza — já alteraram os cálculos de aliados e adversários dos EUA. Uma nova rodada de combates ou a eleição de um presidente americano diferente não repararão essa ruptura.

Os anos que se seguem prometem mais discordâncias. Israel e Irã compartilham o interesse em manter o Oriente Médio em um estado de anarquia e violência, e os Estados Unidos dispõem de poucos meios para conter qualquer um dos dois. Israel espera expandir suas fronteiras de facto — inclusive anexando a maior parte possível da Palestina histórica — e impor sua vontade pela força em vastas áreas da região. E, partindo do princípio de que o regime iraniano não entrará em colapso tão cedo — cenário que parece altamente improvável —, um Teerã mais audacioso buscará defender e ampliar sua influência regional atolando Washington em conflitos intermináveis ​​e sem fronteiras, do tipo "zona cinzenta", nos quais o regime sempre prosperou.

No entanto, se os Estados Unidos estiverem finalmente dispostos a abandonar sua estratégia fracassada, o colapso de uma ordem vigente ainda poderá representar uma oportunidade para construir uma nova e melhor. É verdade que as condições estão longe de ser ideais. Embora a maioria dos líderes e das populações da região deseje desesperadamente uma trégua dos ataques militares e das perturbações econômicas, eles também nutrem um profundo ressentimento em relação a Washington por tê-los arrastado para um desastre. Contudo, abandonar a política de apoio a autocratas, de impunidade para aliados e de contenção militarizada de inimigos poderia permitir aos Estados Unidos interagir com a região de uma maneira mais saudável — uma abordagem que, futuramente, poderia gerar a estabilidade duradoura que Washington sempre alegou desejar.

CRACKS IN THE FOUNDATION

For many decades after World War II, American ambitions in the Middle East were defined by its global competition with the Soviet Union, which gave Washington an outsize interest in regional politics but made it wary of overt military intervention. The current Middle East order, established by the George H. W. Bush administration after the collapse of the Soviet Union and the liberation of Kuwait from Iraqi occupation in the Gulf War of 1990–91, has been defined by American primacy. Presented with a historic opportunity to secure uncontested dominance over a long-contested region, Washington made itself indispensable by setting up military bases and security arrangements to contain Iraq and Iran. Its military and political support underpinned the survival of nearly every regime in the region.

To legitimize its role as something more than predatory domination, Washington launched the Arab-Israeli peace process in hopes of integrating its Arab allies and Israel into a common security framework. The result was a region divided between an American-led bloc that included Israel, Turkey, and almost every Arab state, and an opposing, less formal bloc that included Iran, Syria under the Assad dynasty, and nonstate actors such as Hamas, Hezbollah, and the Houthis. This structure remained remarkably unchanged through three decades of dramatic changes in global, regional, and American politics.

In the American telling, this order has provided a degree of stability while protecting core U.S. interests such as the oil trade, Israeli security, and counterterrorism. And in many ways, that has been true. Israel has not faced a state-level threat or fought a war against a peer competitor since 1973, which perhaps led it to underestimate the challenge of attacking Iran. Arab countries have worked with Israel against their common enemies despite the lack of a just solution to the Israeli-Palestinian conflict. For the most part, oil has flowed consistently at reasonable prices. No rival great power has seriously challenged American primacy—not even China, which has been content to sit back and take advantage of the economic opportunities made possible by the American provision of security.


For most people, the U.S. order meant only violence and deprivation.

For Washington, the strategic benefits accrued from this order seemed to justify the costs of the wars required to sustain it. But the price was much higher for those who live in the region. The past 35 years have seen Israel enter numerous smaller wars against its much weaker neighbors, the Israeli-Palestinian peace process completely fall apart, Hamas attack Israel on October 7, and Israel subsequently embark on the destruction of Gaza. In Iraq, the United States inflicted a dozen years of punishing sanctions, intermittent bombing, and failed regime change and counterproliferation efforts, followed by the disastrous 2003 invasion and occupation, all at tremendous human cost. Under American stewardship, catastrophic wars have shattered Lebanon, Libya, Sudan, Syria, and Yemen.

The regional order rested on American security guarantees not only to Arab states but also, critically, to the autocrats who sat atop them. Keeping democratic aspirations at bay was as vital to this bargain as protection against Iranian military attack. For a brief moment during the 2010–11 Arab uprisings, the drive for change seemed unstoppable, but otherwise the arrangement worked. Nearly all regimes within the American alliance system held on to power; most tightened their grip in the protests’ wake. American support for neoliberal economic reforms encouraged those regimes to pursue privatization schemes that turbocharged elite corruption while impoverishing the majority of the population. And Washington’s campaign against terrorism encouraged its allies to embrace intrusive forms of surveillance and repress potential opposition in the name of security. Although the wealthy Gulf oil states and small slivers of Arab elites flourished within this system, for most people the American order meant only violence, hopelessness, and deprivation. By nearly every economic, political, and developmental indicator, the Middle East under American domination has performed far worse than any other region.

Ironically, American security guarantees encouraged allies to disregard Washington’s policy interests. Most felt safe from external invasion or attack, creating a moral hazard: they could pursue their own ideological and political projects without fear of meaningful consequences. Washington’s preoccupation with its own domestic politics, inattention to the region’s nuances, and inflated fears of Chinese and Russian advances all made the United States an easy mark for manipulative local powers. As a result, it repeatedly failed over the decades to meaningfully restrain Israel or to prevent Arab allies from adopting policies that undermined stated U.S. goals. Those ostensible allies shrugged off criticism of their destructive interventions in Libya, Sudan, Syria, and Yemen. Nearly all actively opposed the 2015 nuclear agreement with Iran, which the Obama administration hoped would help stabilize the region. And in 2017, the blockade of Qatar led by the United Arab Emirates (UAE) and Saudi Arabia badly undermined the united front against Iran that Trump’s “maximum pressure” campaign required.


The 2010–11 uprisings pushed Arab governments into new forms of interventionism, in part because they lost confidence in the United States’ ability and willingness to respond to what they considered to be urgent threats. Autocratic allies that already feared potential coups and popular revolts now saw them as imminent realities as they faced down challenges from Iranian-backed Shiite groups, Islamist and jihadist movements, and young liberal democratic activists. Watching the lightning-fast spread of the protests, these regimes learned that the threat at home could begin anywhere, even beyond their borders. And when they saw the overthrow of Egypt’s Hosni Mubarak in 2011, they concluded that they could not count on the United States to save them from internal challenges. If they wanted to ensure their own survival, they would have to go out and contain the danger themselves. Their meddling repeatedly yielded devastating outcomes, however, contributing to a military coup in Egypt and several civil wars.


Ships in the Strait of Hormuz, August 2026Reuters

The order encouraged Iran and Israel to pursue destabilizing policies, too, but each in different ways. The Iranian regime took external hostility as a given and designed its survival strategy accordingly. The government was largely unbothered by U.S. and international sanctions that immiserated the public while strengthening the regime insiders who controlled black markets. Over the decades, Iran assembled and armed a network of nonstate allies that thrived in the wreckage of American, Israeli, and Saudi wars. With its access to American and European military technology cut off, Iran invested in low-cost production, developing drones and cheap ballistic missiles that could counter its rivals’ technologically sophisticated and extremely expensive systems. Like most others in the region, Iran’s leaders were swift to crush protests, fearful that a hidden foreign hand lay behind what were in fact authentic eruptions of popular discontent.

Israel, for its part, enjoyed the most ironclad of American security guarantees. Although it is a democracy, at least for Jewish citizens, the country’s prime ministers have often fallen into a trap akin to the one ensnaring the United States’ autocratic allies. Israel’s military superiority and confidence in American support enabled its leaders to prioritize maintaining their governing coalitions and fending off domestic political threats over seriously addressing the Palestinian issue or easing regional instability. But when the October 7 attacks shattered that complacency, Israel’s response was to go all-in on military escalation. It displayed ever greater excess in its use of force across the region and entrenched its military occupation in the Gaza Strip, in the West Bank, and even in parts of Lebanon and Syria.

Part of the reason the American order lasted as long as it did was that the security bargains at its core were never truly tested. The region’s leaders complained endlessly of feeling abandoned but never behaved as if abandonment were a significant possibility. For years, interstate war was not a particularly salient threat, either. Israel bombed Gaza and Lebanon with some frequency, but no Arab state aligned with the United States was overly worried about an Israeli attack. Iran loomed larger among their concerns, but even a direct Iranian attack seemed extremely unlikely. Indirect attacks by Iranian proxies only reinforced the core belief that American military primacy was so obvious and overwhelming that Iran would not challenge it. That confidence began to waver in 2019, when the United States did not respond to an attack on Saudi oil refineries attributed to Iran, and again when Houthi drone strikes hit the UAE in 2022. The regional security architecture remained intact, but cracks were beginning to show.

At the same time, the United States was trying to institutionalize its Middle East order by brokering open military and political cooperation between its Arab allies and Israel. The goal was not new. Fostering an anti-Iranian coalition under American leadership had been an objective of every American government since 1991. Trump diverged from his predecessors, however, in pushing it forward without tying steps toward Arab-Israeli normalization to progress on the Palestinian issue. In 2020, his administration brokered the Abraham Accords between Israel and, originally, Bahrain and the UAE. Morocco joined soon after, and Sudan signed an initial agreement that has not been formalized. But when the Biden administration tried to cajole Saudi Arabia into signing on, it misjudged the importance of the Palestinian cause to the Saudi public and the rising competitiveness between Riyadh and Abu Dhabi. It failed to see the growing popular hostility to normalization—or to anticipate the looming catastrophe in Gaza.
ONE-TWO PUNCH

The United States’ regional order has been shaken up before, including during the disastrous 2003 invasion of Iraq and the popular uprisings of 2011, but it has always reconstituted itself. U.S. policymakers were as trapped by the structure they designed as were the regional powers embedded in it. Every president since Bill Clinton came to office vowing to reduce American involvement in the Middle East, and every president has found himself dragged back into the same policies and the same wars.

The dual crisis of Israel’s destruction of Gaza and the U.S.-Israeli war in Iran may seem like just another episode in this cycle. But in truth, these events together have dealt a death blow to the American Middle East. American support for Israel’s assault on Gaza, particularly under President Joe Biden, swept away any residual moral authority the United States could claim. Trump’s debacle in Iran has shattered the illusion of American military omnipotence. Both incidents have demonstrated to Arab states their lack of meaningful influence within the regional order and the diminishing returns of American security guarantees.

American officials under Biden and Trump failed to appreciate the seismic effects of the Israeli war in Gaza. They shared a view that regional leaders’ opinions were the only ones that mattered, that those leaders had long forgotten about the Palestinians, and that they were eager for closer relations with a capable Israel and for the stronger security guarantees the United States offered as incentives. Few things better exemplified this myopia than Biden’s quixotic pursuit of brokering a normalization of relations between Israel and Saudi Arabia even after the rising death toll in Gaza had rendered such cooperation politically toxic among the Arab publics that Riyadh aspired to lead.



The full effects of the disaster in Iran will take time to materialize.

Washington’s unceasing push for Arab cooperation with Israel created further divides. As one of the first two signatories of the Abraham Accords, the UAE continued working with Israel during the Israeli campaign in Gaza and as Israel carried out military strikes in Iraq, Lebanon, Syria, Yemen, and even Qatar. During the war with Iran, according to The Wall Street Journal, the UAE has coordinated with Israel and the United States to launch strikes on Iranian targets. Saudi Arabia, meanwhile, has watched the Emirati-Israeli alignment with unease. Riyadh and Abu Dhabi were already at loggerheads over Syria, with Saudi Arabia backing the post-Assad regime and the UAE sharing Israel’s hostility to it, and Yemen, where Saudi Arabia had just driven out Emirati proxies. Saudi Arabia complained that the UAE was promoting secessionist movements that undermined regional stability, and it broadly saw a partnership between Israel and the UAE as a threat to its own regional leadership. The rift greatly complicated any chance Washington may have had of lining up the region’s heavyweights behind its campaign to defeat Iran.

If the war in Gaza left the future of American regional leadership in doubt, the war with Iran was confirmation of the end of the order. Gulf leaders were furious that the United States and Israel started the war without consulting them, while knowing they opposed it, and in the middle of Omani-brokered negotiations with Iran. A war they had no say in exposed them to direct Iranian retaliation. Although American missile defense systems protected the Gulf from the worst of the barrage, enough Iranian strikes got through to do substantial harm and to disrupt the patina of stability on which the region’s social and economic model rested. Iran targeted all Gulf states, including friendlier ones such as Oman and Qatar, but focused its fire on those that had signed the Abraham Accords: Bahrain and, even more so, the UAE. Within a few weeks, Iran managed to damage, destroy, or render irrelevant large parts of the archipelago of military bases that had underwritten American primacy in the Middle East.

Gulf allies’ confidence in Washington eroded further when the U.S.-Israeli campaign proved unable to dislodge the Iranian regime. For decades, advocates of bombing Iran argued that such an attack might be messy but would ultimately remove the Iranian threat. Yet the United States and Israel, with all their military might, simply failed. On top of that, the United States sat by helplessly as Iran closed the Strait of Hormuz, endangering the entire Gulf economy. Once again, Gulf leaders were shocked not just by American disregard for their preferences but also by the revelation of American impotence. And their shock turned to anger when the United States bombed Iranian water storage facilities and Israel struck Iranian oil depots. Washington was gambling with its partners’ futures; had Tehran responded by striking Gulf water facilities or nuclear power sites, the resulting cycle of escalation could have ended with Gulf states’ facing economic catastrophe and enough environmental destruction to render them uninhabitable.

What the Gulf took away from all this was that American security guarantees, the heart of the regional bargain, were no longer reliable. The region had already learned in 2011 that Washington could not protect it from domestic threats. If Washington could not even be counted on to consult its allies, defeat its adversaries, or protect its partners from the fallout of its regional misadventures, then what good were its promises? The fundamental bargain the United States offered has crumbled, and it will not be easily rebuilt.
THIS TIME IS DIFFERENT

It has become commonplace to refer to the Iran war as Washington’s Suez moment. There are indeed similarities between today’s catastrophe and the failed British-French-Israeli scheme to take the Suez Canal from Egypt in 1956, which delivered a stunning political victory to Egyptian President Gamal Abdel Nasser. Suez became a shorthand for the demise of the European empires and the passage from a multipolar world to the bipolar Cold War–era system. But the Suez crisis did not immediately end the British and French empires in the Middle East. France would continue its war to hold on to Algeria for another six years, and the United Kingdom remained the dominant power in the Gulf for a decade and a half, fighting insurgencies in Oman and present-day Yemen before finally withdrawing from the region in 1971. It takes time for events to play out fully.

The full effects of the U.S. disaster in Iran will similarly take time to materialize. In the short term, the American-led regional order is not going anywhere. The United States may retreat from the military bases Iran destroyed, but it will still play a major role in regional defense. Gulf states are unlikely to break from Washington right away. Fearful for their future and seeing no obvious alternatives, they may even enhance their ties—as Saudi Arabia tried to do by finalizing a long-sought nuclear agreement, only to have Trump change its terms the next day, leaving the deal in limbo. They are also unlikely to pose any military threat to Israel or move closer than necessary to Iran. The U.S. rift with Israel, although real and likely generational in scale, will not soon fracture that alliance. Arab states, too, will maintain working relations with Israel and continue to avail themselves of Israeli military and surveillance technology.

The small adjustments that regional actors begin to make may not look like much at first, either. Countries have always pursued their own agendas, including at the peak of American primacy. Even the most dependent of the United States’ allies have mastered the arts of foot-dragging, leash-slipping, and lobbying Washington. They will continue to engage in local rivalries, prioritize the survival of their regimes, and try to ensure their security. Sometimes that will mean working with Washington; sometimes it will not.

Yet what looks like short-term continuity should not be mistaken for long-term sustainability. By the time of the Suez crisis, the dissolution of the European empires was inevitable—not because of one policy fiasco, but because of the rise of nationalism and anticolonialism as well as the economic and political exhaustion of the European imperial model. The United States’ Middle East order, too, had been decaying for years as policy and political failures accumulated, culminating in the loss of shared purpose and the military impotence revealed by the latest crises.


Washington will be tempted to stand by the policies that have defined its Middle East approach for decades, leaning on its relationships with the brutal, insecure, and repressive leaders who populate the landscape it designed. If American leaders stick to the same path, they should expect the same result: a region beset by constant instability, economic and political failure, and repeated eruptions of violent conflict. These conflicts may only occasionally draw in American military forces, but the chaos will consistently demand attention and pointlessly consume resources. The forever wars will continue.


Walking past an anti-U.S. billboard in Tehran, Iran, August 2026Majid Asgaripour / West Asia News Agency / Reuters

That outcome may seem acceptable to American policymakers who have become accustomed to managing conflicts and maintaining relationships with bad actors. But Washington cannot stave off a transition to a new regional order by simply pretending that nothing has changed. Arab allies that have lost faith in the United States will increasingly exercise their autonomy. At times, that could mean pursuing diplomacy with Iran and expanding relations with China and Russia against American wishes. At others, it might mean meddling in Libya, Sudan, and the Horn of Africa or reigniting violent conflict in Iraq, Lebanon, Syria, and Yemen.

Forces largely beyond American control will shape this emergent order. For one, Israel is determined to carry on with military interventionism regardless of American preferences. It continued its war with Hezbollah in defiance of the U.S.-Iranian memorandum of understanding reached in June, and it indicated no willingness to withdraw its military from southern Lebanon. Israeli officials insist that the country will maintain a troop presence in Syria as well. And with no serious domestic pressure to adopt more dovish policies, there is little standing in the way of Israel’s annexation of the West Bank and its complete destruction of Gaza.

Iran, like Israel, has every incentive to pursue policies that perpetuate instability. Incessant conflict helps the regime shift blame for hard times and justify its strategy of resistance to the Iranian public. And Iran has retained the ability to stir up violence. Although the country has been badly damaged by war, the regime remains intact, and its regional power has grown. Iran has demonstrated its ability to effectively control the Strait of Hormuz and to strike American allies in the region, and setbacks to allies such as Hezbollah are unlikely to permanently end Tehran’s ability to project power through proxies. American pressure on weak governments in Iraq and Lebanon to disarm pro-Iranian militias could trigger additional conflict in which Iranian allies would hold the upper hand.

Regional alignments will drift further away from the anti-Iranian coalition that American officials envision. Instead of relying on American protection, many Gulf states could pursue side deals with Iran to keep themselves off Tehran’s target list. And instead of following Washington’s lead, regional politics will likely revolve around a deepening competition for primacy between the Emiratis and the Saudis. Before the Iran war began at the end of February, Riyadh had started to mobilize a coalition that included Egypt, Pakistan, Qatar, and Turkey to counter the U.S.-backed Emirati-Israeli alliance. This contest will resume after the fighting simmers down, likely destabilizing already beleaguered states, stretching across the wider region, and generating endless new crises that a distracted Washington will struggle to navigate.

Finally, most regimes will face ever greater pressures from below as the fallout of the Iran war ripples through the region’s struggling economies. It is not only countries whose infrastructure has been damaged by Iranian strikes that will feel those effects. In Egypt, for example, steep hikes in fuel and food prices and enormous losses of Suez Canal revenues as the war disrupts global shipping are compounding existing fiscal and unemployment crises. Many countries already hurt by cuts in U.S. aid may lose another critical source of external investment as the wealthy Gulf states grapple with their own economic problems. Domestic grievances and outrage over Gaza make for a potent mix, and a wave of protest comparable to the uprisings of 15 years ago could again be on the horizon.
LAST CHANCE

The violent demise of the old regional order could disrupt or even foreclose any attempt to establish a functional new one. But this moment could also be an opportunity for the United States to recast the core bargains that have produced such destructive results. Getting a new Middle East policy right requires rethinking the decision to prioritize relations with autocratic and lawless allies in the name of pragmatism. For decades, Washington assumed that it did not need to worry much about Arab public opinion because it could count on Arab rulers to crush any dissent. It similarly assumed that mouthing empty words about supporting a two-state solution, all while Israel continued its creeping annexation of Palestinian lands and avoided genuine peace negotiations, would be enough to keep its Arab allies on board. That meant the United States never considered adopting policies that would command the consent, or even the support, of the peoples of the region. And it meant Washington could never seriously engage in the promotion of democracy or the defense of human rights, because its strategy depended on their absence.

The Trump administration, contemptuous of democracy and the rule of law at home and abroad, is not going to change that. It is difficult to imagine Trump, who vacillates wildly between strategies, designing a new regional order of any kind. But his successor will have a real chance to break with the status quo and craft a more coherent and more effective Middle East strategy. That starts with renouncing the use of military intervention as a first resort and ending the practice of diplomacy by airstrike. Washington’s priority should be defense, not offense. One way to make that intention clear is to forgo the restoration of damaged or destroyed U.S. military bases across the Gulf and focus instead on investments in intelligence sharing, missile defense systems for Gulf partners, and the preservation of freedom of navigation through the Strait of Hormuz.


The United States must pursue stability in the Middle East through diplomacy and collective defense, not militarized containment. The Iran fiasco has thoroughly exposed the hollowness of hawkish calls for war and promises of decisive action. It is time for Washington to commit to a diplomatic process that can bring Iran into the regional security system as an invested partner. The Gulf states may be open to such an approach despite their fury over Iran’s latest attacks; after all, Saudi Arabia and Iran reached a rapprochement in 2023 after an earlier bout of Iranian aggression. The Obama administration evoked a similar vision when it was negotiating the 2015 Iran nuclear deal, and even Vice President JD Vance has spoken of a willingness to “fundamentally transform” the U.S. relationship with Iran following a new agreement. The aspiration is there, but a new administration will have to demonstrate quickly and decisively that it intends to see it through.


Washington struggles to conceive of a Middle East it does not dominate.

The reset in U.S. policy must also extend to the way Washington treats its allies. This includes Israel. Conditions are ripe for a rethinking of the U.S.-Israeli relationship: according to a Quinnipiac poll released in June, nearly two-thirds of Democrats and more than half of independents think the United States is too supportive of Israel. In mid-July, more than half the Democrats in the House of Representatives voted for a bill to cut off U.S. military aid to Israel. The next administration should use this momentum to put the kind of pressure on Israel that U.S. governments have long shied away from. Washington need not abandon its ally, but it should demand that Israel respect human rights within all the territories it controls, stop the creeping annexation of the West Bank, and end its destabilizing interventions in Lebanon and Syria.

More broadly, stability at the regional level requires that the United States recommit to international human rights norms, oppose secessionist movements in countries such as Syria and Yemen, deter partners’ military interventions and proxy wars in places such as Sudan and Libya, and stop urging the Iraqi and Lebanese governments to disarm the Iraqi militias and Hezbollah before they are fully prepared to do so. Stability at the domestic level requires democratic change. For the United States, that means encouraging reform, including human rights protections, and calling off the bargain that has allowed autocratic allies to get away with grievous repression. This message will not be welcome in Cairo, in Riyadh, or indeed in many other capitals. But no real transformation of the regional order will be possible without addressing the pathologies of its regimes.

New American policies would not create a stable, peaceful Middle East overnight. At first, they would win little public applause from a region that has grown accustomed to American hypocrisy and abuse. Later on, the rise of more democratically responsive governments in the region would likely cause considerable headaches as ambitious politicians competed to condemn and denounce the United States. But in the long run, a Middle East populated by regimes that are less willing to follow Washington’s lead on unpopular policies or to suppress public opposition would likely be more stable than the region of today. Washington struggles to conceive of a Middle East it does not dominate and to imagine real alternatives to the present regional order no matter how badly it has failed. But that order is ending, and this may be U.S. leaders’ last chance to change course. If they cannot, they will watch the American Middle East fade away like the European empires that came before.

Marc Lynch é professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade George Washington e autor de America’s Middle East: The Ruination of a Region.

19 de agosto de 2026

No Peru, Keiko Fujimori promete ordem, não reconciliação

Keiko Fujimori tornou-se presidente do Peru após mais um segundo turno eleitoral acirrado. Enquanto em disputas anteriores ela evitava abordar diretamente o histórico autoritário de seu pai, desta vez ela capitalizou a imagem dele de líder de mão forte.

Rebecca Jarman

A nova presidente do Peru, Keiko Fujimori, tem sido frequentemente chamada, de forma eufemística, de populista. Na prática, isso significa combinar reformas de livre mercado com a ampliação dos poderes dos militares e ataques a proteções legais. (Connie France / AFP via Getty Images)

As seções eleitorais haviam aberto há pouco tempo quando Keiko Fujimori chegou ao cemitério acompanhada de sua irmã mais nova e de suas filhas adolescentes. Vestidas de forma coordenada — com blusas brancas impecáveis ​​e calças jeans —, elas atravessaram o gramado, cada uma carregando um maço de rosas e cravos. As mulheres mais velhas ajoelharam-se diante do túmulo da mãe e colocaram as flores, de um tom rosa-suave, em um vaso. Com as cabeças baixas, permaneceram ali por alguns instantes. Depois, de mãos dadas, caminharam mais vinte passos por entre as lápides. Para seu pai, Alberto — presidente do Peru entre 1990 e 2000 —, Keiko levara um arranjo nas cores nacionais: vermelho e branco. Ela conduziu a família em oração antes de se voltar para os repórteres e sorrir. Mais tarde naquele dia, ela votou na eleição presidencial em que, na quarta tentativa, conquistou o cargo mais alto do país.

A visita de Keiko aos túmulos de seus pais foi uma espécie de resposta tardia aos críticos de Alberto Fujimori, que zombavam de um presidente sem antepassados ​​enterrados em solo peruano. Fujimori era apenas filho de imigrantes japoneses quando surgiu no cenário político, sendo eleito pela primeira vez em 1990. Seu sobrenome não tinha precedentes nem significado anterior. Pouco depois de chegar ao Peru, na década de 1930, o pai de Alberto adotara um novo nome. Fujimori pode ser traduzido livremente como "bosque de glicínias". Foi uma escolha apropriada. Ele abriria uma floricultura no país que o acolheu — negócio onde Alberto trabalhou na adolescência, entregando esculturas florais espetaculares de bicicleta nas mansões modernistas de Lima. De origens humildes, Fujimori ascendeu longe e rápido. E caiu ainda mais fundo, sendo condenado em 2009 a vinte e cinco anos de prisão por violações dos direitos humanos e corrupção.

Agora, os restos mortais de Fujimori repousam nas profundezas da terra andina. Ainda assim, a linhagem de Keiko certamente permanece controversa. Por duas gerações, os peruanos acompanharam os enredos complexos de dramáticas disputas familiares, começando pelo conflito entre seu pai, Alberto, e sua mãe, Susana Higuchi — que também pertencia à comunidade japonesa. O conflito, amplamente divulgado, surgiu em 1992, quando Higuchi acusou a família do marido de desviar doações de caridade enviadas do Japão. Keiko surgiu na vida pública durante o divórcio conturbado de seus pais: quando ela tinha apenas dezenove anos, seu pai, então presidente, convidou-a para substituir a mãe no papel de primeira-dama. Empresária bem-sucedida e duas vezes deputada, Higuchi chegou a aspirar à presidência, mas suas ambições foram frustradas por uma campanha de vingança orquestrada pelo ex-marido para impedir sua candidatura. Ela reagiu alegando ter sido torturada por ordem de Fujimori. A relação tumultuada entre Susana e Keiko sempre foi alvo de especulações. Essas desavenças não jogaram a seu favor; o Peru é uma nação conservadora que valoriza a integridade e a discrição, especialmente entre a elite e as pessoas influentes.

Alberto Fujimori faleceu em 2024, aos 86 anos, pouco depois de ser libertado da prisão por razões humanitárias. Sua morte proporcionou a Keiko novas possibilidades em sua mais recente campanha presidencial, incluindo a chance de reescrever a história da família destacando uma reconciliação entre seus pais no leito de morte de Higuchi. Gestos de conciliação semelhantes foram, segundo a narrativa construída por Keiko, estendidos a outros membros da família. No funeral de Fujimori, Keiko abraçou seu irmão Kenji, visivelmente abalado, a quem ela havia expulsado de seu partido, o Fuerza Popular, em 2018, após ele se recusar a apoiar a tentativa dela de promover o impeachment do então presidente Pedro Pablo Kuczynski. Em contrapartida, Kenji havia conseguido o perdão presidencial de Kuczynski para o pai (embora a medida tenha sido prontamente anulada pela Suprema Corte, adiando a libertação em mais seis anos). Keiko justificou sua oposição a Kenji afirmando que Fujimori deveria ser plenamente absolvido pelo Judiciário, e não simplesmente anistiado pelo Executivo. Críticos apontaram que ela priorizava interesses políticos em vez de realmente tentar libertar o pai, que estava com a saúde debilitada. Em 2022, Keiko anunciou o fim de seu casamento de dezoito anos, ressaltando, porém, que a separação foi amigável. Em fevereiro deste ano, a própria filha de Keiko criticou suas posições contrárias ao aborto para mais de quatrocentos mil seguidores no Instagram. Keiko atribuiu a publicação a um debate político saudável, e não a tensões familiares.

A mensagem de unidade de Keiko não é apenas uma questão de âmbito privado. A primeira mulher eleita presidente do Peru também prometeu unir uma nação polarizada. As quatro eleições anteriores dividiram os votos quase exatamente ao meio: em todas as vezes que Keiko perdeu, foi por uma margem mínima. Por fim, ela também venceu a disputa por pouco, depois que os votos de emigrantes peruanos penderam a balança a seu favor. Internamente, sua base concentra-se ao longo da costa urbana do Pacífico, vinda de cidades industriais como Chimbote, Chiclayo e Trujillo. No segundo turno, ela conquistou votos conservadores na região metropolitana de Lima que haviam ido para o extravagante ex-prefeito Rafael López Aliaga, um magnata dos negócios e membro do Opus Dei. Já os distritos rurais dos Andes e da Amazônia apoiaram o esquerdista Roberto Sánchez. Candidatando-se pelo partido Juntos por el Perú, Sánchez fez campanha pela reformulação da Constituição, promoveu o desenvolvimento liderado pelo Estado e a reforma policial, além de prometer justiça para as vítimas da repressão estatal durante a luta armada das décadas de 1980 e 1990. Em um nível mais simbólico, a candidatura de Sánchez representou uma reivindicação em favor de seu aliado, Pedro Castillo — presidente por dezesseis meses antes de seu impeachment em 2022 e que atualmente cumpre pena de onze anos de prisão por tentar fechar o Congresso. No final, o programa de esquerda de Sánchez foi superado pela agenda de Keiko — favorável ao mercado e a um Estado forte —, que defendia uma linha dura na segurança pública e a expansão do Exército, ao mesmo tempo em que minimizava os legados sociais do conflito civil.

Peru com ordem?

A unidade, nesse sentido, não significa uma verdadeira reconciliação nacional, mas sim a consolidação de uma coalizão populista de direita em torno do sobrenome Fujimori. De fato, é a postura firme de Keiko em relação ao crime que mobiliza seus apoiadores; alguns deles aplaudem a cruzada violenta de seu pai contra o grupo armado maoista Sendero Luminoso, que resultou na quase total aniquilação do grupo e pôs fim ao conflito interno. Enquanto em suas campanhas presidenciais anteriores Keiko havia evitado associar-se ao legado do pai, nesta tentativa ela capitalizou a reputação dele como um líder de mão forte. Essa estratégia ressoou especialmente entre os moradores de comunidades urbanas informais. As taxas de criminalidade no Peru dispararam nos últimos meses, tornando-se uma grande fonte de medo. A violência de gangues atingiu níveis sem precedentes em todo o país. Bairros de baixa renda são assolados por roubos de rua e extorsões. Desde 2019, a taxa de homicídios subiu de 7,4 para 10,7 por 100 mil habitantes. Concorrendo sob o slogan "Perú con orden" (Peru com Ordem), Keiko priorizou a segurança pública e comprometeu-se a desmantelar as redes criminosas transnacionais que operam em território peruano. Suas políticas de segurança preveem o envio de militares para áreas com altos índices de criminalidade, a ampliação da capacidade prisional, a reforma do sistema penitenciário e o reforço do policiamento nas fronteiras internacionais. Defensora das forças de defesa nacional, ela também busca fortalecer as agências de inteligência do país, aumentar a autonomia dos militares em relação ao Judiciário e retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Tais tendências autoritárias sugerem que, ao menos no que diz respeito ao combate ao crime, um eventual governo de Keiko daria continuidade à política interna de Fujimori.

Ainda assim, Keiko assume um governo de natureza muito diferente. Em 1990, seu pai obteve uma vitória esmagadora. Dois anos depois, ele fechou o Congresso e suspendeu a Constituição antes de instituir uma assembleia constituinte unicameral, projetada para concentrar poder no Executivo. Keiko não conta com tal mandato. Este ano marca o retorno de um Legislativo bicameral, após sua dissolução pelo pai dela. O Fuerza Popular não detém maioria absoluta nem na Câmara dos Deputados nem no recém-criado Senado. Para governar de forma eficaz, Keiko será obrigada a formar coalizões multipartidárias. Suas propostas legislativas passarão por um escrutínio redobrado. Ela será pressionada a dialogar por um eleitorado exausto e desesperado para superar uma década de governos paralisados. O Peru teve dez presidentes em igual número de anos. A maioria deles renunciou, foi destituída ou acabou presa. Alguns, como Pedro Pablo Kuczynski (presidente no final da década de 2010) e, posteriormente, Castillo, caíram em decorrência de manobras de Keiko para utilizar os poderes do Congresso em prol de sua própria agenda. Esse uso do Congresso como arma é um reflexo de um sistema político que permite que as ambições de líderes individualistas se consolidem em organizações partidárias. Contudo, Keiko também não está imune a essas maquinações. Ela já foi vítima do sistema anteriormente, tendo passado dezesseis meses na prisão durante uma investigação por corrupção que acabou arquivada, mas que ainda pode ser retomada. Assim, ela terá incentivos para negociar.

Resta saber qual será a interpretação de Keiko sobre a liberdade democrática em um sentido mais amplo. Em 28 de julho, centenas de homens e mulheres viajaram de todo o país até o centro de Lima para protestar contra a sua posse. Entre eles estavam familiares de pessoas mortas durante as amplas manifestações contra Dina Boluarte — vice-presidente de Castillo, que assumiu o poder com o apoio do Fuerza Popular após a destituição dele. Nos meses turbulentos que se seguiram à sua ascensão, Boluarte mobilizou as forças armadas para dispersar protestos em cidades do sul, resultando na morte de pelo menos quarenta e nove civis. Os manifestantes acusam Keiko de ser conivente com a violência estatal ao proteger os responsáveis ​​pelas mortes, encarando sua eleição como um sinal de que o Peru endossa uma cultura de impunidade. Este grupo pró-Castillo une forças com as famílias de pessoas assassinadas ou desaparecidas pelos esquadrões da morte militares supervisionados por Alberto Fujimori na década de 1990. Marchando ao lado de estudantes, socialistas e sindicatos, eles resgataram um ritual icônico de lavagem de bandeiras, utilizado para denunciar a corrupção durante o último ano de mandato do presidente. No passado, Keiko ignorou em grande parte essa articulação popular do movimento antifujimorista. Isso pode mudar, à medida que ela também se propõe a "limpar" o Peru.

Colaborador

Rebecca Jarman é professora de humanidades na Universidade de Leeds e autora de Representing the Barrios: Culture, Politics, and Urban Poverty in Twentieth-Century Caracas.

O movimento pela independência de Porto Rico ganha força

Desde o século XIX, a escolha entre a independência e a incorporação aos EUA tem sido uma questão central na política porto-riquenha. O apoio ao Partido Independentista de Porto Rico, de orientação esquerdista, vem crescendo rapidamente entre a juventude do país.

Cruz Bonlarron Martínez


Obstinate Star, a obra de Rafael Bernabe sobre o movimento de independência de Porto Rico, pode servir como uma ferramenta fundamental para os setores da esquerda dos EUA que desejam compreender a política porto-riquenha para além da instrumentalização simbólica e ocasional da ilha pelas elites do Partido Democrata. (Alejandro Granadillo / Anadolu via Getty Images)

Resenha de Obstinate Star: A History of the Puerto Rico Independence Movement, de Rafael Bernabe (Haymarket Books, 2025)

Em um discurso recente na cidade de Nashville, a ex-candidata democrata à presidência Kamala Harris falou sobre a necessidade de "revisitar" várias questões relacionadas ao sistema político dos EUA: o Colégio Eleitoral, a Suprema Corte e a concessão de status de estado a Porto Rico e Washington, D.C. Embora a mídia americana tenha se apressado em destacar seus comentários sobre o Colégio Eleitoral e a Corte, a menção a Porto Rico foi tratada como algo secundário.

A defesa da transformação de Porto Rico em estado da União tornou-se um tema recorrente no discurso democrata convencional. No entanto, essa pauta deve-se mais a fantasias liberais brancas de um imperialismo multicultural do que aos desejos reais do povo porto-riquenho por uma mudança de status político. De fato, o movimento pela estadualidade de Porto Rico está muito mais alinhado ao Partido Republicano do que aos seus rivais democratas. A atual governadora da ilha, Jenniffer González — defensora da estadualidade —, é uma republicana fervorosa e apoiadora de Trump.

Se os consultores democratas que assessoram Harris tivessem dedicado algum tempo para pesquisar a política porto-riquenha contemporânea, teriam percebido que o movimento pela independência está ganhando força entre a juventude do país. O candidato independentista Juan Dalmau fez história ao conquistar quase 31% dos votos na eleição para governador de 2024.

A escolha entre independência ou incorporação à metrópole colonial tem sido a característica definidora da política porto-riquenha desde o século XIX. Esse é o debate que o sociólogo Rafael Bernabe — ex-senador porto-riquenho pelo Movimento Vitória Cidadã (Movimiento Victoria Ciudadana) — examina em Obstinate Star: A History of the Puerto Rico Independence Movement. Bernabe narra a trajetória dos homens e mulheres que mantiveram vivo o sonho da independência de Porto Rico ao longo dos últimos duzentos anos, concentrando-se no papel desempenhado pela classe trabalhadora do país dentro do movimento.

Uma nação americana

Embora frequentemente excluídas das discussões sobre as campanhas de independência latino-americanas lideradas por Simón Bolívar e José de San Martín, as colônias espanholas no Caribe insular — Cuba e Porto Rico — forneceram soldados para ambos os lados do conflito. Um desses soldados, cuja vida é abordada por Bernabe, é Antonio Valero, um oficial porto-riquenho do exército espanhol que participou das negociações de independência do México e decidiu integrar as forças armadas da nação recém-independente.

A escolha entre a independência e a incorporação à metrópole colonial tem sido a característica definidora da política porto-riquenha desde o século XIX.

No entanto, pouco depois da independência, os ideais republicanos de Valero o colocaram em conflito com Agustín de Iturbide, que havia se coroado Imperador do México, levando-o a fugir para a Grã-Colômbia, onde se alistou no exército e lutou pela independência do Peru. Valero nunca deixou de sonhar em libertar sua terra natal e tentou convencer Bolívar a libertar as colônias espanholas restantes no Caribe. Esse plano quase se concretizou em 1827, mas foi abandonado devido às possíveis ameaças que a continuidade da guerra poderia representar para a independência recém-conquistada da Grã-Colômbia.

Em Obstinate Star, Bernabe demonstra que o sonho da independência de Porto Rico não morreu com a invasão de Cuba e Porto Rico abandonada por Bolívar; em vez disso, reconfigurou-se como parte de uma identidade antilhana cosmopolita, promovida por uma nova geração de intelectuais patriotas cubanos e porto-riquenhos.

As duas principais figuras porto-riquenhas dessa nova geração foram Ramón Emeterio Betances e Eugenio María de Hostos; ambos se tornariam defensores fundamentais da independência de Porto Rico no final do século XIX e os arquitetos intelectuais da nação porto-riquenha. Ambos aparecem com destaque na obra de Bernabe: como apoiadores-chave da Revolta de Lares contra o domínio colonial espanhol em 1868, eles vincularam a luta pela independência de Porto Rico ao movimento revolucionário cubano e a outras lutas de libertação na América Latina e na Europa.

O livro também destaca como o movimento de independência se adaptou às mudanças de cenário após a Guerra Hispano-Americana, quando a ilha se tornou uma colônia dos EUA em 1898, enfatizando as conexões e os confrontos entre setores do movimento e o crescente movimento trabalhista na ilha. Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, essas conexões e divergências manifestaram-se de forma mais acentuada na política eclética de Pedro Albizu Campos e do Partido Nacionalista de Porto Rico.

Albizu Campos defendia um nacionalismo populista militante que buscava conectar Porto Rico aos movimentos sociais contemporâneos da América Latina, reunindo defensores da independência de todas as ideologias, desde nacionalistas conservadores até comunistas. Bernabe faz questão de ressaltar as contradições ideológicas dentro do Partido Nacionalista e os esforços do grupo para conquistar a classe trabalhadora, então ligada ao Partido Socialista, que apoiava a integração plena aos EUA (statehood). 

Porto Rico e a esquerda dos EUA

Obstinate Star também destaca a forte relação entre o Partido Nacionalista e a esquerda dos EUA nesse período. O autor concentra-se, em particular, nos vínculos que ligavam Albizu Campos ao Partido Comunista dos EUA e ao deputado de esquerda por Nova York, Vito Marcantonio. Ele prossegue analisando os anos que se seguiram à fundação do Estado Livre Associado em 1952 e mostra como a experiência da Revolução Cubana de 1959 revitalizou o movimento de independência.

Obstinate Star também enfatiza a forte relação entre o Partido Nacionalista e a esquerda dos EUA nesse período.

O Movimento Pró-Independência (MPI), assim como o Movimento 26 de Julho em Cuba, caminhou para a adoção aberta do marxismo-leninismo e acabou se transformando no novo Partido Socialista Porto-Riquenho. O movimento de independência de Porto Rico seguiu um caminho semelhante ao de muitas forças de esquerda ao redor do mundo entre as décadas de 1960 e 1980, tornando-se cada vez mais radicalizado.

Durante esses anos, surgiram muitas pequenas organizações armadas que realizaram ações contra o colonialismo dos EUA, como o atentado a bomba à Base Aérea Muñiz, em 1981, e o assalto à Wells Fargo, em 1983 — na época, o maior roubo a banco da história dos EUA. O relato de Bernabe evita romantizar esses eventos, situando-os no contexto das condições históricas e políticas mais amplas em que ocorreram e detalhando minuciosamente muitos dos debates complexos que se desenrolaram na esquerda daquela época.

No mesmo período, a diáspora porto-riquenha nos Estados Unidos buscou identificar-se com o movimento de independência da ilha. Para alguns, isso significava integrar a seção da diáspora do Partido Socialista Porto-Riquenho e ver-se como parte de uma nação dividida. Bernabe argumenta que essa abordagem frequentemente levava a priorizar a luta pela independência em detrimento do apoio a outros movimentos nos EUA. Uma perspectiva diferente surgiu com a organização El Comité, que nasceu de lutas contra a gentrificação e defendia que os porto-riquenhos nos EUA se organizassem como uma nacionalidade oprimida dentro da classe trabalhadora multinacional norte-americana, em vez de como parte de uma nação dividida.

O debate entre essas duas posições gerou uma polarização que persiste até hoje entre setores da esquerda porto-riquenha. De um lado, estão aqueles que enfatizam a necessidade de focar principalmente na independência; de outro, aqueles que buscam se organizar dentro da esquerda dos EUA, deixando a questão da independência para os porto-riquenhos que ainda vivem na ilha. Esse é um debate que a esquerda contemporânea dos EUA deveria estudar ao tentar dialogar com a diáspora porto-riquenha.

Além da tokenização

Embora Porto Rico continue sendo uma das colônias mais antigas do mundo, seu movimento de independência possui uma história rica que perdura até hoje, refletida no sucesso eleitoral do Partido Independentista Porto-Riquenho e na crescente popularidade do astro pop independentista Bad Bunny. Bernabe demonstra que o movimento independentista não é um bloco monolítico, mas sim uma força heterogênea composta por ativistas de diversas ideologias e origens.

Obstinate Star pode servir como uma ferramenta fundamental para integrantes da esquerda norte-americana que desejam compreender melhor a política porto-riquenha contemporânea, indo além do sucesso de Bad Bunny e da instrumentalização ocasional da ilha por elites do Partido Democrata. A obra também oferece um recurso valioso para pessoas na ilha e em outros países da América Latina que buscam entender como — apesar da situação colonial do país — o movimento independentista porto-riquenho tem refletido tendências políticas mais amplas em toda a região, tudo isso sob a perspectiva de um historiador com experiência direta no movimento.

Colaboradores

Cruz Bonlarron Martínez é escritor independente e foi bolsista do programa Fulbright na Colômbia entre 2021 e 2022. Seus textos sobre política, direitos humanos e cultura na América Latina e na diáspora latino-americana foram publicados em diversos veículos dos EUA e do exterior.

Como é o multilateralismo após o declínio dos EUA

A atual crise na ordem mundial não se resume ao fato de Donald Trump ignorar as instituições multilaterais. Os EUA há muito descumprem as regras; a verdadeira mudança é que Washington está perdendo a capacidade de ditar as normas aos outros Estados.

Juliano Fiori

As pesadas tarifas dos EUA sobre as exportações brasileiras são mais um sinal da disposição de Washington de punir seus adversários políticos. No entanto, resistir a tais medidas exigirá mais do que apelos ao espírito do multilateralismo. (Ricardo Stuckert / Handout / Anadolu via Getty Images)

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, reagiu com uma postura de desafio justificado à recente confirmação de que o governo dos Estados Unidos imporia uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. Entre os "atos, políticas e práticas" que o Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos considerou "irrazoáveis ​​ou discriminatórios" e passíveis de investigação formal, foram citados os serviços brasileiros de pagamento eletrônico. O governo Trump tem criticado frequentemente o Pix, um mecanismo de pagamento instantâneo mantido por bancos brasileiros sem a intermediação de empresas norte-americanas como Visa e Mastercard. No entanto, a imposição dessas tarifas também faz parte de um número crescente de medidas destinadas a minar o governo Lula antes das eleições de outubro, num momento em que os Estados Unidos buscam acesso privilegiado às abundantes reservas brasileiras de elementos de terras raras. Um porta-voz do presidente brasileiro questionou a legitimidade da investigação, afirmando que ela "não se baseava em regras de comércio multilateral".

No entanto, há um problema maior. Embora os governos nacionais ainda invoquem tais regras em defesa de sua soberania, as condições que permitiram a expansão do multilateralismo no século XX já não existem. Embora o desrespeito flagrante da administração Trump às normas e instituições internacionais possa ser intuitivamente visto como prova disso, esse não é o indicador mais importante: afinal, é prerrogativa de uma potência hegemônica contornar regras universais enquanto fiscaliza a adesão de outros a elas. Mais relevante é a aparente incapacidade dos Estados Unidos de reformular essas regras em consonância com sua própria geoestratégia em evolução. E, à medida que Washington se afastou do multilateralismo, sua preeminência global no exercício da coerção também diminuiu. Dada a ausência efetiva dos Estados Unidos nas instituições multilaterais existentes, as tentativas de conferir-lhes novos significados — sobretudo por parte de Estados revisionistas como a China e a Rússia — têm sido utilizadas para minar a própria hegemonia americana. Contudo, à medida que Donald Trump aponta novos alvos ao redor do mundo, tanto adversários de ocasião quanto rivais sistêmicos também reagem na mesma moeda.

Guerra econômica

Particularmente reveladoras, nesse sentido, são as mudanças na condução da guerra econômica. O dólar americano tem sido a moeda de referência global desde o Acordo de Bretton Woods, de 1944, conferindo a Washington um controle singular sobre os fluxos internacionais de capital e de mercadorias. Por meio da imposição de diversas formas de "bloqueio" — desde sanções e tarifas até cercos marítimos —, os Estados Unidos condicionaram as relações econômicas de uma maneira que, por algum tempo, serviu para gerar um sistema de consentimento ao seu poder imperial. No entanto, tais medidas forçaram reações que, em última análise, contribuíram para a erosão de sua hegemonia global. Sob a pressão das sanções americanas, por exemplo, a Rússia, o Irã e a Venezuela adotaram estratégias de desdolarização, liquidando transações comerciais em outras moedas, especialmente o yuan. Contudo, como observou recentemente o historiador Nicholas Mulder, muitos Estados reagiram à crescente coerção de Washington desenvolvendo "não apenas rotas de evasão, mas também suas próprias contra-armas econômicas".

A ameaça de tarifas recíprocas tem sido o recurso mais comum entre os Estados alvo da coerção econômica da segunda administração Trump. A consequência mais drástica dessa abordagem foi o embargo comercial mútuo, de ​​facto, mantido entre os Estados Unidos e a China durante um mês em meados de 2025, depois que o presidente chinês, Xi Jinping, respondeu repetidamente à escalada tarifária de Trump. Em resposta ao recente anúncio de tarifas sobre as exportações brasileiras, o porta-voz de Lula invocou a Lei de Reciprocidade Econômica do Brasil, que permite ao governo responder de forma proporcional a medidas de outros Estados que prejudiquem sua competitividade. Ainda assim, ele reafirmou o compromisso do governo com o multilateralismo, prometendo buscar reparação por meio do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

No entanto, se as medidas de proteção comercial recuperaram a legitimidade internacional como meio de defesa da soberania nacional, o uso de barreiras físicas ao comércio como "contra-arma" econômica trouxe consigo a ameaça de consequências mais imediatas e generalizadas. Durante décadas, analistas de segurança energética e estrategistas de política externa estudaram a possibilidade de o Irã bloquear efetivamente o Estreito de Ormuz. A concretização dessa possibilidade — e a imposição, pelo Irã, de uma taxa de passagem para navios que cruzassem o estreito — deveria ter causado menos surpresa do que a decisão de curta duração de Trump de fazer o mesmo. No entanto, as ações defensivas do Irã, em resposta à guerra deflagrada contra ele pelos Estados Unidos e por Israel, são muito mais notáveis ​​por suas implicações sistêmicas.

Em sua aclamada análise da Grande Depressão, o historiador Charles Kindleberger argumentou que a estabilidade da economia mundial dependia da existência de um único Estado hegemônico capaz de liderar por meio do fornecimento de bens públicos internacionais. Em 1973, quando The World in Depression foi publicado, os Estados Unidos já haviam consolidado há muito tempo sua hegemonia global, apresentando a proteção à liberdade de navegação como um desses bens públicos, ao mesmo tempo em que exerciam sua prerrogativa hegemônica de controlar o fluxo comercial através de vias navegáveis ​​internacionais. Se o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã e sua solicitação para que aliados Houthis fechassem o Estreito de Bab el-Mandeb representam um desafio direto à liberdade de navegação, a incapacidade dos Estados Unidos de garantir a observância desse princípio é mais um indício do colapso de sua hegemonia.

Em um mundo pós-ordem hegemônica dos Estados Unidos, as instituições multilaterais — especialmente as das Nações Unidas — estão perdendo relevância política. Elas se tornam menos eficazes na imposição de limites aos interesses nacionais. Tais instituições, de modo geral, foram viabilizadas e sustentadas no âmbito do sistema de consentimento da hegemonia americana. Embora continuem a servir como espaços de contestação defensiva contra imposições imperiais e a hipocrisia, é provável que o domínio das grandes potências gere respostas mais diretas e coercitivas. Contudo, para as potências médias em particular, o multilateralismo oferece a oportunidade de exercerem sua própria influência relativa na construção de iniciativas coletivas que protejam melhor seus interesses. De fato, as potências médias desempenharam um papel fundamental na definição de muitas instituições da ONU.

Potências médias

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em janeiro deste ano, o primeiro-ministro canadense Mark Carney conclamou as potências médias a "construir uma nova ordem que abranja nossos valores, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos diversos Estados". No entanto, apesar de toda a sua postura moral, foi o reconhecimento da influência limitada de seu país — e, consequentemente, de seu interesse em unir forças com outros em posição semelhante — que motivou Carney a assumir a liderança na promoção de coalizões de potências médias. De fato, ele deixou claro que a defesa desses valores não era sua preocupação primordial alguns meses depois, quando anunciou seu apoio ao bombardeio do Irã pelos EUA e por Israel.

Na ausência da consolidação de uma nova ordem hegemônica global, surgirão novas modalidades de engajamento multilateral. É provável que formações regionais e de blocos — já em ascensão no primeiro quarto do século XXI — desempenhem um papel de maior destaque. Contudo, até o momento, o impacto global das iniciativas das potências médias tem sido limitado. O atual governo dos EUA parece empenhado em conter a influência desses países. Em meados de julho, o subsecretário de Defesa para Política dos EUA, Elbridge Colby, publicou uma sequência de mensagens na rede social X sobre a estratégia coletiva entre potências médias, argumentando que ela se baseava em "uma compreensão equivocada das relações internacionais". "'Potências médias' não possuem uma base coerente para o alinhamento", acrescentou ele.

No entanto, a convergência estratégica das potências médias não será determinada primordialmente pelas inclinações ideológicas de seus governos. Em vez disso, essas potências serão compelidas a cultivar inovações diplomáticas — mesmo quando a formação de coalizões não for viável ou preferível — em decorrência de sua posição em relação às potências imperiais. A postura de Lula, ao projetar o Brasil como mediador internacional, é um exemplo revelador. Em consonância com a própria tradição de política externa brasileira, o papel do país — ao lado da Turquia — em negociações anteriores sobre o programa nuclear iraniano demonstrou disposição para desempenhar essa função sistêmica em meio a sinais iniciais de um relativo declínio americano. As ofertas de Lula para mediar negociações de paz entre Ucrânia e Rússia, bem como entre Venezuela e Estados Unidos, servem como exemplos mais recentes. Ainda assim, tal diplomacia não oferecerá defesa imediata contra a coerção exercida pela administração Trump. Medidas econômicas de contrapartida, explorando a rivalidade da China com os Estados Unidos, tornar-se-ão, então, cada vez mais centrais para os esforços brasileiros de afirmar a soberania nacional.

O fim da ordem não implica necessariamente o fim do multilateralismo. As grandes transformações estruturais do nosso tempo gerarão novos canais de cooperação internacional, fundamentados em interesses comuns. A medida em que esses canais de cooperação poderão limitar a predominância das grandes potências dependerá do investimento subsequente das potências médias na sua expansão.

Este ensaio integra o projeto After Order, do Alameda, que explora a disputa pela soberania em um mundo fragmentado.

Colaborador

Juliano Fiori é diretor do instituto de pesquisa Alameda. Ele está trabalhando em um livro sobre a economia política das reivindicações contemporâneas de soberania. Vive no Rio de Janeiro.

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