A derrocada do Partido Republicano rumo ao caos não foi obra de Donald Trump. Após conter com sucesso o movimento trabalhista, a classe capitalista tornou-se desorganizada demais para frear o monstro que ela mesma criou.
Entrevista com
Paul Heideman
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| As elites empresariais destruíram Joe McCarthy em dois anos. Elas tentaram fazer o mesmo com Trump após o 6 de janeiro, mas recuaram já em março. O que mudou? (Aaron Schwartz / AFP via Getty Images) |
Entrevista conduzida por
Micah Uetricht
Todos os dias, milhões de americanos levantam da cama, acompanham o noticiário e fazem a si mesmos uma pergunta simples: como diabos o Partido Republicano perdeu o juízo de forma tão espetacular? O partido saiu completamente dos trilhos, sem demonstrar qualquer preocupação com a estabilidade político-econômica básica, com a realidade empírica — aquilo que vemos com nossos próprios olhos — ou com os princípios fundamentais da decência humana. Na última década, Donald Trump remodelou o Partido Republicano à sua própria imagem, criando um tipo de governo personalista de "homem forte" sem precedentes exatos na história americana.
No entanto, Paul Heideman argumenta que o estado deplorável e assustador do atual Partido Republicano não pode ser atribuído apenas a um homem estranho e terrível. Trata-se, na verdade, do resultado de várias características do sistema político dos EUA, algumas antigas e outras mais recentes. O livro de Heideman, Rogue Elephant: How Republicans Went from the Party of Business to the Party of Chaos, sustenta que o sistema partidário fraco dos Estados Unidos desempenhou um papel fundamental na criação das condições para a atual desordem e nas formas específicas que essa desordem assumiu.
Para o podcast The Dig, da Jacobin Radio, o apresentador convidado e editor da Jacobin, Micah Uetricht, conversou com Paul Heideman sobre temas como: por que o setor empresarial conseguiu destruir Joseph McCarthy, mas não Trump; o modelo de "partido de serviços" que transformou ambas as legendas em redes de arrecadação de fundos; a reformulação da Câmara dos Representantes por Newt Gingrich com foco no dinheiro; a influência da indústria do tabaco no processo de impeachment de Bill Clinton; a revolta do Tea Party contra o resgate financeiro; e por que é improvável que a futura disputa pela sucessão de Trump torne o partido menos caótico. Você pode ouvir o episódio
aqui.
Micah Uetricht
Você começa este livro comparando o senador Joseph McCarthy — que, obviamente, dá nome ao macarthismo — com Donald Trump. E o ponto central dessa comparação é que ambas as figuras, dentro do Partido Republicano, praticam um tipo de política reacionária e desvairada que, em muitos aspectos, situa-se bem à direita, mas que é excessivamente errática e caótica para o grande empresariado — segmento que, tipicamente, consideramos a base de apoio fundamental do Partido Republicano.
Paul Heideman
Trump e McCarthy têm muito em comum, pois ambos — como você mencionou — praticaram esse estilo demagógico de política de extrema-direita. Ao fazerem isso, acabaram ameaçando alguns dos interesses fundamentais do capital americano. No caso de McCarthy, isso se manifestou principalmente de duas formas. Em primeiro lugar, entre os anticomunistas mais sofisticados e os planejadores estatais dos Estados Unidos, sempre houve receio quanto aos métodos de McCarthy e a sensação de que ele poderia ir longe demais, chegando a desacreditar a própria causa anticomunista.
Não é que eles considerassem o anticomunismo algo ruim; muito pelo contrário. O receio era de que McCarthy pudesse prejudicar o anticomunismo ao exagerar na dose. Essa preocupação se intensificou drasticamente quando McCarthy começou a atacar o Exército — afinal, estávamos no início da década de 1950. Era o período em que o grande império americano do pós-guerra estava sendo consolidado, logo após a Segunda Guerra Mundial e no início da Guerra da Coreia.
Assim, atacar o Exército naquele momento e mergulhá-lo em um caos burocrático — consequência direta dessas investidas — foi algo que ultrapassou todos os limites para grande parte da elite empresarial americana, levando-a a se organizar contra ele. A famosa frase de Joseph Welch [“O senhor não tem decência, afinal?”], é claro, gerou um grande momento dramático, mas grande parte da ação real ocorria nos bastidores, em grupos como o Comitê para o Desenvolvimento Econômico (Committee for Economic Development) e o Conselho Empresarial (Business Council). Essas organizações, compostas essencialmente por CEOs americanos, entraram em ação contra McCarthy e começaram a mobilizar outros líderes empresariais para se oporem a ele, pressionando a Casa Blanca a repudiar McCarthy de fato. Dwight D. Eisenhower e McCarthy nunca foram próximos, mas esses grupos pressionaram a Casa Branca a adotar uma postura muito mais ativa contra as ações de McCarthy e a organizar, no Senado, a moção de censura que acabaria selando seu destino, deixando-o politicamente isolado e sem influência após sua aprovação.
No caso de Trump, o setor empresarial sempre lhe foi, em grande parte, hostil. Nas três eleições que disputou, recursos do empresariado fluíram massivamente para os Democratas, justamente pela oposição a Trump. Isso atingiu o auge ao final de seu primeiro mandato, logo após os eventos de 6 de janeiro, quando empresas responsáveis por cerca de um quarto do PIB americano anunciaram um boicote ao Partido Republicano em resposta àquele episódio. Houve, portanto, essa tentativa de discipliná-lo, mas o que chama a atenção — especialmente em comparação com o caso McCarthy — é a rapidez com que tudo isso desmoronou. Já em março de 2021, o boicote estava perdendo força; empresas começaram a emitir comunicados dizendo: "Bem, não temos um boicote generalizado a quem nega o resultado das eleições", e assim por diante.
E, muito rapidamente, elas praticamente retomaram a normalidade nas relações com o Partido Republicano sob a presidência de Joe Biden. Trata-se, portanto, de uma comparação que levanta a questão sobre o que mudou entre essas duas épocas: o momento em que o setor empresarial conseguiu disciplinar com sucesso um demagogo de direita, na década de 1950, e aquele em que realmente fracassou ao tentar fazer o mesmo, setenta anos depois.
Micah Uetricht
Vamos entrar nos detalhes do que o setor empresarial fez durante o governo Trump e como isso mudou ao longo do tempo. Mas, ao ouvir sua explicação — de que, após os eventos de 6 de janeiro, uma parcela enorme do capital americano tentou se mobilizar contra Trump e acabou fracassando a longo prazo —, percebemos uma realidade que nos faz cair na real; é algo que, provavelmente, muitos socialistas nem sequer imaginariam ser possível. Se uma parcela tão grande do capital quisesse que algo acontecesse, presumiríamos que eles fariam isso acontecer. E, no entanto, neste caso — no caso dessas duas presidências —, não foi isso o que ocorreu.
Paul Heideman
Acredito que um dos principais argumentos do meu livro é que a relação entre capital e política é, muitas vezes, mais complexa do que imaginamos na esquerda. Frequentemente, operamos com um tipo de modelo mental derivado do Manifesto Comunista: "o Estado é o comitê executivo da burguesia". Mas, na realidade, o grau de consenso entre os membros da burguesia, a capacidade de agirem de forma coordenada e todos esses aspectos variam consideravelmente ao longo da história, tanto dentro de um mesmo país quanto entre diferentes nações. Acho que isso é fundamental para entender o que aconteceu com o Partido Republicano e para compreender algumas das mudanças no nível de organização do capital nos Estados Unidos.
Micah Uetricht
A abordagem que você traz tem uma ênfase diferente daquela encontrada em muitos livros publicados nos últimos anos sobre a trajetória da direita. Houve muitas publicações recentes sobre a história intelectual do Partido Republicano (GOP) e da direita: como as ideias de pensadores de direita cada vez mais radicais ganharam espaço na corrente principal do partido, a adesão aberta à supremacia branca, ao nacionalismo branco, ao nacionalismo cristão, à xenofobia, e tudo mais. E o seu livro, decididamente, não trata disso.
Paul Heideman
Parte da razão é, como você disse, que esse tema já foi bastante explorado. Há muita discussão sobre a história intelectual e cultural da direita americana, e grande parte desse material é muito interessante. Mas o que eu achava que realmente faltava era uma análise do Partido Republicano enquanto instituição. Como ela opera enquanto instituição — como entidade burocrática e organizacional — e como se relaciona com outras instituições da vida americana, a exemplo das principais organizações de grupos empresariais, como a Business Roundtable e a Câmara de Comércio?
Parecia-me haver uma lacuna real na nossa compreensão da evolução da direita. O Partido Republicano pode ser considerado a instituição mais importante da direita americana. E, enquanto partido, achei que ele ainda não era muito bem compreendido, pois essa ênfase nas ideias não revela, de fato, o que está acontecendo com o partido em si. Algumas das figuras mais importantes do partido não são relevantes necessariamente por suas ideias. Newt Gingrich, por exemplo, certamente se via como um intelectual, mas, se analisarmos seu impacto no Partido Republicano, veremos que ele não é de ordem intelectual, e sim organizacional.
A força do Partido Republicano escondida no caos
Miquéias Uetricht
Um dos principais paradoxos da situação atual do Partido Republicano parece ser — como indica o subtítulo do seu livro — a transição de "partido dos negócios" para "partido do caos". De fato, há muito caos dentro do Partido Republicano. Vemos isso diariamente, e frequentemente observamos uma reação de júbilo por parte de liberais e esquerdistas ao testemunharem esse caos — uma alegria em ver um partido que causou tantos horrores, tanto internamente quanto no exterior, sendo dilacerado por essas disputas internas, pois presumem que isso é um mau presságio para o futuro do partido. Mas, para dizer o óbvio, esse caos não afundou o Partido Republicano (GOP). Os republicanos estão no comando agora. Então, como devemos interpretar o fato de que esse partido é tão caótico e, ainda assim, permanece no poder?
Paul Heideman
Há alguns aspectos a considerar. As divisões internas do partido, creio eu, tiveram consequências significativas ao longo da última década e meia, digamos assim. Por exemplo, as insurreições do Tea Party em várias campanhas para o Senado certamente custaram ao Partido Republicano o controle da Casa em certos momentos durante o governo Obama, pois lançaram candidatos que eram verdadeiros lunáticos para diversos cargos, contrariando a vontade da maior parte da liderança e dos quadros do partido. Portanto, acredito que o caos teve seus custos em certos momentos.
É justamente porque o capital tem sido tão dominante na história americana que ele não precisou ser tão organizado quanto o capital em outros lugares.
O que considero extraordinário, desde mais ou menos 2018, é a medida em que a personalidade autoritária de Donald Trump conseguiu superar grande parte desse caos, mantendo-o contido e, pelo menos em certa medida, direcionado conforme a sua vontade. Ao transformar a legenda no "partido de Trump", ele o manteve vivo e o fortaleceu em vários momentos. Por exemplo, Trump certamente se beneficiou em 2024 — assim como em 2016 — de sua imagem de empresário bem-sucedido e tudo o mais; acredito que isso realmente ajudou o Partido Republicano como um todo nas eleições. Acredito, sim, que há aspectos do caos no partido que o enfraquecem; no entanto, penso que, especialmente na era Trump, eles conseguiram manter a coesão e controlar a confusão a ponto de tornar o partido muito, muito mais forte. Acredito que, assim que Trump sair de cena — o que, de uma forma ou de outra, acontecerá em breve —, veremos esse caos transbordar de maneiras muito mais destrutivas para as perspectivas eleitorais do partido. Acho que podemos ver um retorno à dinâmica do Tea Party, com a vitória em primárias de candidatos que simplesmente não têm a menor chance em uma eleição geral.
Micah Uetricht
Então, os dois fatores principais que seu livro aborda ao traçar o colapso do Partido Republicano são o enfraquecimento do partido — num contexto de sistema partidário já fragilizado — e a desorganização do capital americano, sobre a qual você acabou de falar. O que partidos políticos mais fortes em outras partes do mundo conseguem fazer que os partidos dos EUA não conseguem?
Paul Heideman
Talvez a maneira mais concreta de pensar nisso seja considerar que, nos Estados Unidos, os partidos não controlam diretamente quem aparece na cédula eleitoral sob sua legenda. E essa é, talvez, a principal função dos partidos políticos: produzir candidatos para disputar cargos. O fato de esse processo ocorrer nos EUA por meio do sistema de primárias significa que algo como a vitória de Zohran Mamdani pode acontecer, mesmo que a maior parte da cúpula do Partido Democrata em Nova York não quisesse de jeito nenhum que isso ocorresse. Da mesma forma, com a vitória de Trump em 2016: o Partido Republicano não queria que Trump vencesse, mas, devido à estrutura institucional da política americana, eles não tinham poder real para impedir isso.
Essa é uma dimensão fundamental da fraqueza partidária nos Estados Unidos. Se compararmos com o Partido Trabalhista (Labour Party) no Reino Unido, vemos que o partido, como instituição, decide quem concorrerá em qual distrito eleitoral, quem disputará onde, certo? É impossível alguém concorrer pela legenda do Partido Trabalhista contra a vontade da liderança do partido. Existem eleições internas para a liderança, mas, uma vez definida a direção, ela acaba controlando quem concorre onde. O partido é quem decide.
Nos Estados Unidos, o partido não decide. Na verdade, a legislação estadual na maioria dos estados determina que, para cargos em nível estadual, os partidos devem realizar primárias. Isso significa que o partido, como instituição, não controla essa função básica de decidir quem o representará em uma eleição. Isso explica, em parte, por que os partidos são mais fracos e significa que eles são vulneráveis a insurgências de uma maneira muito mais acentuada do que os partidos em outras partes do mundo.
Micah Uetricht
Para continuar com o exemplo do Partido Trabalhista: obviamente, houve a candidatura de Jeremy Corbyn a primeiro-ministro pelo partido. Mas, após o fracasso dessa tentativa, a nova liderança partidária assumiu o comando e, essencialmente, expurgou Corbyn e o "corbynismo" da legenda. Isso não aconteceu com Bernie Sanders. Na verdade, o movimento dele parece continuar crescendo de várias maneiras mesmo após as derrotas, e não há muito que a liderança do Partido Democrata possa fazer a esse respeito.
Paul Heideman
Exatamente. Mesmo que quisessem expurgar completamente os apoiadores de Sanders do partido, não teriam como fazê-lo, pois não podem impedir alguém de concorrer utilizando a legenda partidária. E, se essa pessoa fizer um bom trabalho de organização, pode acabar vencendo. Isso torna os partidos americanos mais "gelatinosos" — creio que se possa dizer assim — do que os partidos em outros lugares. As fronteiras não são rígidas. Eles estão sempre vulneráveis à entrada de pessoas que lançam diferentes tipos de campanhas; e acho que isso é fundamental para entender também o que ocorreu no Partido Republicano nas últimas décadas: o surgimento de insurgentes dentro do partido desafiando a liderança, sem que esta disponha de recursos organizacionais internos capazes de detê-los.
A estratégia insurgente na política americana
Micah Uetricht
Você é alguém que milita na esquerda há muito tempo e participou desses debates sobre o que a esquerda deveria fazer dentro do Partido Democrata. É sensato fazermos isso ou não? Esses debates parecem mais resolvidos neste momento. A esquerda agora optou por essa espécie de estratégia insurgente dentro do partido — que mantém sua independência em relação à legenda e à sua liderança, mas atua majoritariamente no interior da própria estrutura partidária. Fico pensando se essa porosidade, característica geral dos partidos políticos americanos à qual você se refere, é justamente a razão pela qual essa estratégia faz sentido neste momento.
Paul Heideman
Acho que você tem toda razão, e acredito que esses dois fatos estão profundamente interligados. O sistema de primárias nos Estados Unidos gera partidos fracos e, ao mesmo tempo, cria um sistema partidário robusto, no qual as duas legendas estão extraordinariamente consolidadas em suas posições. No Reino Unido, o sistema partidário está, de certa forma, em processo de desintegração. Isso não acontece de jeito nenhum nos Estados Unidos, apesar de muitas previsões de que algo assim ocorreria. Uma das razões para isso é simples: se você quer desafiar a liderança do Partido Democrata, tem uma escolha a fazer: atuar como um terceiro partido ou agir dentro do próprio partido? Qual dessas opções parece oferecer mais chances de sucesso? Na última década, a conclusão ficou bastante clara: é possível obter um sucesso enorme ao desafiar o partido a partir de dentro.
Os insurgentes do Partido Republicano enfrentaram a mesma escolha e chegaram a uma conclusão semelhante durante a maior parte do século passado: se você quer levar o Partido Republicano mais para a direita, o caminho é disputar as primárias republicanas. Se você deseja um novo polo de direita na política americana, a estratégia é concorrer nas primárias do Partido Republicano e tentar puxar a legenda para mais à direita. Outro fator nessa equação é que os Estados Unidos possuem uma série de leis que tornam quase impossível concorrer como um terceiro partido. Vejamos, por exemplo, as restrições de acesso à cédula eleitoral: nos Estados Unidos, para ter seu nome incluído na cédula, é preciso, em alguns lugares, coletar assinaturas equivalentes a cerca de 5% do eleitorado de uma região. Na maioria dos outros países democráticos, leis desse tipo são consideradas autoritárias. Elas são explicitamente proibidas pela União Europeia.
Além dessas leis de acesso à cédula, há o fato de que as eleições nos Estados Unidos são financiadas por recursos privados; isso significa que, se você quiser arrecadar fundos para concorrer a um cargo — e quiser fazê-lo como candidato de um terceiro partido —, boa sorte! Os recursos disponíveis para quem disputa as primárias do Partido Democrata — em termos de arrecadação de fundos e tudo o mais — são imensos; basta pensar em ferramentas como o ActBlue e no acesso a plataformas de arrecadação desse tipo.
Os mecanismos que permitem a candidatos insurgentes superar as vantagens do grande capital estão, eles próprios, parcialmente vinculados à disputa das primárias do Partido Democrata. Acredito, de fato, que a fragilidade dos partidos americanos — e a força correspondente do sistema partidário americano — exerce uma influência decisiva no que levou a esquerda americana, na última década, a optar majoritariamente (como você mencionou) pelo caminho de realizar campanhas insurgentes dentro do Partido Democrata.
A ascensão do sistema partidário moderno
Micah Uetricht
Outro elemento desse sistema partidário fraco — e da crescente fragilidade de ambos os partidos — é, na verdade, o próprio processo pelo qual os partidos passaram a ter coerência ideológica; algo que não ocorria durante a maior parte da história política americana. Isso está relacionado ao realinhamento partidário, que ganha força real na era do New Deal. Você poderia falar sobre o desenvolvimento da coerência ideológica nos partidos Republicano e Democrata e por que isso é importante para entender o Partido Republicano de hoje?
Paul Heideman
Durante a maior parte da história americana, os partidos políticos não foram, de fato, organizações coesas que promoviam uma visão de mundo ideológica específica. Em vez disso, eram coalizões de diferentes elites regionais que se uniam por interesses comuns e na tentativa de encontrar um programa compartilhado, mas sem estarem vinculadas a qualquer visão de mundo mais abrangente.
Uma grande exceção a isso é, naturalmente, o Partido Republicano da época da Guerra Civil, unido por uma visão ideológica antiescravagista e de defesa do trabalho livre. No entanto, após o partido abandonar a Reconstrução, ele se afasta dessa postura, e observa-se um retorno a uma política mais desprovida de ideologia. Por volta de 1900, muitos observadores da política americana comentavam: "Os partidos não acreditam realmente em nada". Max Weber, o cientista social prussiano, observava do outro lado do Atlântico e dizia: "Nos Estados Unidos, os partidos são apenas bandos de caçadores de cargos. São apenas gangues rivais. Não é como se estivessem unidos por diferentes interpretações da Constituição, grandes visões ideológicas ou algo do gênero". Esse padrão perdurou até o New Deal. Ao mesmo tempo, os partidos eram incrivelmente fortes do ponto de vista organizacional durante a maior parte do século XIX e início do século XX.
Votar, no final do século XIX, era uma espécie de mistura entre o Carnaval (Mardi Gras) e uma briga de gangues: os partidos organizavam desfiles gigantescos para levar as pessoas às urnas. As taxas de participação nas eleições desses anos ultrapassavam 70% ou 80%. Portanto, os partidos eram extremamente fortes organizacionalmente, embora ideologicamente indistintos. O New Deal inicia um processo de transformação desse cenário, com a criação de um polo social-democrata na política americana. Ao mesmo tempo, essa configuração já nasceu com uma deformação congênita, pois, embora os Democratas representassem a social-democracia nos Estados Unidos — sendo vistos pelos socialistas europeus como um modelo a seguir, com o New Deal —, o partido era também o partido das leis de segregação racial conhecidas como Jim Crow. Assim, ao longo da década de 1930, ficou cada vez mais claro que o Partido Democrata havia se tornado uma amálgama instável que unia os setores mais progressistas do país — os liberais do Norte, ou seja, a ala mais à esquerda da política convencional — aos mais reacionários: os Dixiecrats do Sul segregacionista.
Dessa forma, os trinta anos seguintes foram marcados, dentro do Partido Democrata, por tentativas de resolver essa contradição inerente à coalizão, ou de preservá-la e estabilizá-la. Esse ciclo chega ao fim, basicamente, na década de 1960, com a aprovação da Lei de Direitos de Voto (Voting Rights Act), que derrubou o sistema Jim Crow no Sul e, simultaneamente, desencadeou o processo de realinhamento do eleitorado branco sulista.
Um processo paralelo também ocorria no Partido Republicano naquela época. Havia uma ala significativa do partido que era, de fato, bastante liberal em certos aspectos — uma tradição que remontava a Theodore Roosevelt e aos progressistas do movimento Bull Moose. Assim, republicanos do Oeste, nas décadas de 1910 e 1920, frequentemente defendiam pautas bastante progressistas. Mais tarde, surgiram figuras como Earl Warren — governador da Califórnia e, posteriormente, presidente da Suprema Corte (a "Corte Warren") — e Thomas Dewey, governador de Nova York. Eram republicanos liberais que apoiavam as instituições criadas pelo New Deal, defendendo a posição de que, embora não desejassem uma grande expansão daquelas políticas, também não queriam revertê-las.
Depois de 1994, de repente, nada mais favorece os Democratas e tudo favorece os Republicanos.
E, da década de 1930 à de 1960, essa é a disputa que ocorre dentro do Partido Republicano: "Somos o partido que busca reverter o New Deal?" ou "Somos o partido que apenas quer impedir que ele cresça ainda mais?". De certa forma, a vitória de Barry Goldwater nos anos 1960 marca o triunfo da ala que defendia a reversão. Richard Nixon representa uma espécie de interregno nesse processo, mas essa ala acaba vencendo de fato — e essa vitória é, naturalmente, consolidada quando Ronald Reagan conquista a presidência na década de 1980.
Em 1932, cerca de 70% dos negros americanos votaram em Herbert Hoover. Por quê? Porque ele era republicano. Era o partido de Abraham Lincoln. Era em quem os negros americanos do Norte — onde podiam votar — vinham depositando seus votos desde a Guerra Civil. Em 1936, dois terços dos negros americanos votaram em Franklin Delano Roosevelt. Essa é uma das maiores mudanças de voto na história dos Estados Unidos. E acontece em quatro anos, com uma rapidez extraordinária. Por quê? Porque o New Deal trouxe enormes benefícios para os negros americanos.
A consolidação dos dois partidos
Micah Uetricht
Como se desenrola essa consolidação da coerência dos dois partidos após a conclusão do processo de realinhamento, no final da década de 1960? E qual é a relação disso com a fragilidade partidária — tema recorrente em seu livro — da qual a década de 1970 é um período-chave?
Paul Heideman
Bem, em ambos os partidos existem pessoas que o cientista político Sam Rosenfeld chama de "polarizadores": aqueles que dizem "Não, não, não, queremos que os partidos sejam coerentes. Essa é a luta que estamos travando". E isso ocorre nos dois partidos, embora de maneiras diferentes. No Partido Democrata, uma grande batalha é travada contra o critério de antiguidade no Congresso, pois esses democratas do Sul governam verdadeiras ditaduras de partido único; consequentemente, eles acumulam a maior antiguidade, já que praticamente nunca perdem uma eleição. Os liberais do Norte que desejavam aprovar legislação sobre direitos civis perceberam que, para isso, precisavam remover os Dixiecrats (democratas conservadores do Sul) dos cargos de liderança. E, para tanto, tinham de acabar com o critério de antiguidade.
A luta para eliminar o princípio da antiguidade foi intensa nas décadas de 1950 e 1960, resultando na sua substituição por uma liderança parlamentar mais forte. Hoje, a composição das comissões depende das decisões da liderança do Congresso — ou seja, do que o líder da maioria ou o líder da minoria realmente deseja. Pode-se dizer que isso fortalece a liderança partidária, e foi exatamente assim que a mudança foi percebida na época. No entanto, na década de 1970, esse processo coincidiu com um aumento vertiginoso nos custos das campanhas, à medida que estas passaram a adotar a publicidade em rádio e televisão como principal meio de divulgação.
Antes da década de 1970, o elemento mais importante das campanhas era o capital humano: voluntários e militantes partidários. Eram eles que garantiam as vitórias eleitorais. A partir da década de 1970, o foco mudou para a publicidade, acarretando um aumento colossal nos custos. O dinheiro passou a ser o recurso mais importante. Essa mudança, somada à abordagem mais aberta na escolha das lideranças partidárias, criou um cenário que se consolidou plenamente na década de 1990. Gingrich foi o pioneiro nessa transformação, estabelecendo que quem arrecadasse mais recursos se tornaria, na prática, o líder do partido.
A liderança de Nancy Pelosi à frente dos democratas na Câmara baseou-se, em grande parte, em seu sucesso extraordinário na arrecadação de fundos. Ela angariou e redistribuiu quantias vultosas de dinheiro por todo o partido. Assim, o esforço para criar um partido mais coeso — eliminando o critério de antiguidade e afastando os Dixiecrats — interagiu com as novas dinâmicas de financiamento de campanha, resultando em uma situação em que o dinheiro passou a ditar as regras dentro do partido.
Na verdade, o partido como instituição autônoma, capaz de tomar suas próprias decisões, acabou enfraquecido. Isso porque, agora, o que acontece é simplesmente o que os financiadores decidem. Aquele que recebe o dinheiro deles é quem se torna o líder. No Partido Republicano, observa-se uma dinâmica muito diferente, porém análoga: após a derrota de Goldwater, houve uma grande disputa interna sobre qual rumo o partido deveria tomar.
Parte dessa disputa girou em torno de quem assumiria a presidência do Comitê Nacional Republicano. Acabaram indicando um candidato de consenso cuja visão era: "Olha, a função do partido não é tomar partido em disputas ideológicas internas". A função é prestar serviços a quem quer que fosse o candidato escolhido ao final. Esse modelo ficou conhecido como "modelo de serviço" na política.
Essa indicação surgiu, portanto, de um impasse no partido. Goldwater havia sido derrotado. Havia muitos republicanos liberais e moderados que queriam se livrar de Goldwater, mas não tinham força suficiente para expulsar a ala de direita do partido. Assim, surgiu essa concepção de partido voltado à prestação de serviços, o que, novamente, enfraqueceu a legenda. O partido deixou de decidir questões de políticas públicas, de estratégia política ou algo do gênero; passou a apenas prestar serviços aos candidatos. Os Democratas acabaram copiando esse modelo dos Republicanos, e ambos os partidos adotaram esse formato de "partido de serviços" — modelo que prevalece até hoje, no qual os partidos funcionam como redes de prestadores de serviços de campanha e canais por onde flui o dinheiro.
É isso que o partido, enquanto instituição, realmente é hoje. Ele não toma decisões sobre políticas públicas ou estratégia política.
Partidos como coadjuvantes
Miquéias Uetricht
Você tem um subtítulo em um de seus capítulos chamado “Partes como Bit Players”, que é uma frase surpreendente para se pensar. A ideia de que os próprios partidos importam cada vez menos neste momento é provavelmente contra-intuitiva para muitas pessoas.
Mas isto é, em muitos aspectos, resultado da inundação de muito dinheiro na política, certo? A maioria das pessoas que ouvem este podcast compreendem o efeito distorcido do muito dinheiro na política ao nível mais básico, que muito dinheiro e interesses especiais podem gastar o seu dinheiro à vontade para que a sua vontade seja promulgada através de legislação e aplicação, ou da falta dela, em vez do que beneficia o bem comum.
E isso é verdade, mas também a história que você está contando aqui é aquela em que instituições com muito dinheiro, como os super PACs, vêm essencialmente para suplantar o próprio partido. Depois, as lideranças partidárias são cada vez mais aquelas que conseguem obter mais dinheiro, e aquelas que conseguem angariar quantias significativas são aquelas que conseguem posições de liderança nos partidos.
E mesmo candidatos disruptivos como Trump, que conseguem angariar grandes quantias de dinheiro, podem essencialmente mostrar o dedo para as elites partidárias. Isso está correto?
Paulo Heideman
Sim, e as eleições de 2024 são, na verdade, um exemplo perfeito disso. As eleições de 2024 foram a primeira vez que a campanha de um grande partido foi financiada principalmente por super PACs, e não através do comité de candidatos registado na Comissão Eleitoral Federal e associado ao partido.
A maior parte do dinheiro de Trump não passou pelo seu comité oficial de candidatos. Fluiu através de super PACs como o super PAC de Elon Musk ou vários outros grupos. E então a maior parte do dinheiro nem vai para a festa agora. Agora a maior parte do dinheiro também vai para fora do partido.
E assim, no que diz respeito às questões sobre a estratégia de campanha, o partido cada vez mais não tem uma palavra a dizer sobre isso. Elon Musk gasta US$ 250 milhões; ele pode decidir qual será o principal foco geográfico, de relações públicas e publicitários da campanha.
Então, sim, escrevi essa seção antes das eleições, mas os partidos estão cada vez mais se tornando pequenos atores.
Por que o capital americano nunca precisou se organizar
Micah Uetricht
Vamos falar sobre a desorganização das grandes empresas. Dado o poder da classe capitalista americana como um todo, os níveis recordes de desigualdade econômica, a deterioração do estado de bem-estar social americano, os ataques ao movimento operário que praticamente o deixaram à beira da morte, tudo o que sabemos sobre o poder corporativo e a fragilidade da classe trabalhadora nos Estados Unidos hoje, eu sempre presumi que seria natural que o capital fosse capaz de se organizar e defender seus próprios interesses.
Mas, na verdade, segundo você, esse não é o caso ao longo da história americana do pós-guerra até os dias atuais. De fato, há apenas alguns momentos nesse período, principalmente na década de 1970, em que o capital de fato se organiza para se defender e lutar por seus direitos como classe, e você afirma que isso sempre ocorreu em resposta à organização dos trabalhadores.
Então, explique essa situação aparentemente paradoxal de poder corporativo e desigualdade econômica sem precedentes com uma organização capitalista frágil.
Paul Heideman
Acho que a melhor maneira de entender isso é que, justamente por o capital ter sido tão dominante na história americana, ele não precisou se organizar tanto quanto o capital em outros lugares.
Nos Estados Unidos, como os ouvintes sabem, os movimentos de esquerda geralmente foram mais fracos, os sindicatos foram mais fracos e menores do que em outros lugares. Os Estados Unidos nunca produziram um partido socialista eleitoralmente viável, ao contrário da maior parte do resto da Europa Ocidental. Tudo isso significa que o capital nos Estados Unidos não enfrentou a mesma escala de desafios que em outros lugares e, por isso, não precisou se organizar na mesma escala.
Eles —
Micah Uetricht
Vida fácil demais.
Paul Heideman
Eles tiveram vida fácil demais. Exatamente. Não foram submetidos a uma disciplina. É um pouco como um monopolista no mercado. Monopolistas não enfrentam a disciplina da concorrência e, por isso, podem se dar ao luxo de desperdiçar recursos de várias formas e de agir com indolência.
O capital americano funciona de maneira muito semelhante. Ele não enfrenta a concorrência política de uma classe trabalhadora altamente organizada e combativa, exceto em alguns momentos muito específicos. Assim, remontando ao início do século XX, a fraqueza do movimento trabalhista americano permitiu que o capital obtivesse o que queria — na maior parte das vezes — sem precisar, de fato, de uma organização robusta.
Eles conseguem derrotar os trabalhadores e obter as políticas que desejam sem precisar daquelas grandes organizações de classe — do tipo que surgiu com força na Europa Ocidental após a Segunda Guerra Mundial, quando partidos socialistas ou trabalhistas estavam, no mínimo, prestes a assumir o poder em grande parte da região.
Havia movimentos trabalhistas muito, muito maiores do que nos Estados Unidos. Naqueles países, o capital precisava definir quais seriam suas demandas coletivas de classe para enfrentar o trabalho organizado. Não se tratava do que empresas individuais queriam aqui ou ali, mas de como organizar a classe como um todo para garantir a vitória em batalhas que, na época, eram quase existenciais.
Nos Estados Unidos, na maior parte do tempo, o capital não enfrentou desafios dessa magnitude; consequentemente, sua organização tendeu a ser mais setorial e fragmentada. As empresas frequentemente focavam mais em seus interesses restritos — como firmas ou indústrias individuais — do que em interesses de classe. Concentravam-se no que podiam obter para si mesmas, e não naquilo em que todas concordavam ser necessário em relação à classe trabalhadora.
Micah Uetricht
Sabe, no meu trabalho editorial na Jacobin, muitas vezes acabo me sentindo um marxista particularmente vulgar, porque a conclusão de muitas análises acaba sendo algo como: "É, como não temos uma classe trabalhadora organizada, é por isso que tal coisa ruim — o 'XYZ' — está acontecendo". Então, quando cheguei a essa parte do livro, pensei: "Ah, lá vamos nós de novo..."
Na verdade, a fraqueza do movimento sindical americano acabou gerando, de certa forma, uma fraqueza na própria classe capitalista americana — especificamente na sua capacidade de se mobilizar e defender seus interesses enquanto classe. Podemos, de fato, atribuir essa fraqueza à fragilidade do movimento sindical organizado. É mais uma conta que se pode debitar na conta da fraqueza do movimento sindical.
Paul Heideman
Se quiséssemos resumir o livro à sua essência, diríamos que o excepcionalismo americano e a fraqueza da classe trabalhadora americana são os principais responsáveis pela insanidade do Partido Republicano hoje.
Micah Uetricht
Exato. O que essa falta de organização da classe capitalista significa para o capitalismo americano a longo prazo?
Certamente isso deve ter algum efeito negativo na geração de lucros dos capitalistas e na configuração da economia como um todo. Se outros países apresentam uma mobilização mais coesa da classe empresarial em defesa de seus interesses, o que eles estão conseguindo para seus capitalistas que os capitalistas americanos não conseguem, justamente por não se mobilizarem da mesma maneira?
Paul Heideman
Acho que, para entender isso, é útil analisar os Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele período, existiam várias organizações empresariais de destaque. Havia o Comitê para o Desenvolvimento Econômico (Committee for Economic Development), que mencionei anteriormente. Havia também a Associação Nacional de Fabricantes (National Association of Manufacturers) e a Câmara de Comércio.
Basicamente, o Comitê para o Desenvolvimento Econômico reunia alguns dos CEOs de muitas das maiores e mais lucrativas corporações dos Estados Unidos — aquelas grandes empresas multinacionais que estavam surgindo ou alcançando novos patamares após a Segunda Guerra Mundial. Eram empresas que pensavam: “Certo, o New Deal já está estabelecido. Não queremos que ele avance mais, mas também não achamos que valha a pena a briga para tentar revertê-lo. Acreditamos que isso poderia gerar caos e confusão, e realmente nos custar mais do que valeria a pena. Por isso, não queremos isso de jeito nenhum”.
Agora, com Trump, é cada um por si. Todas as empresas estão tentando fechar seus próprios acordos, em vez de organizar qualquer tipo de agenda comum.Assim, eles representavam a ala moderada do capital. A Câmara de Comércio e a Associação Nacional de Fabricantes estavam interligadas à John Birch Society naquela época; eram elas que diziam: "Não, o New Deal é comunismo. Precisamos revertê-lo. E, na verdade, o Comitê de Desenvolvimento Econômico — vocês provavelmente também são comunistas se não quiserem revertê-lo".
E o Comitê de Desenvolvimento Econômico tinha grande poder político naqueles anos. Portanto, repito: não é que o capital carecesse de influência. A questão é que essa influência não representava o capital como classe, mas sim, em grande parte, as maiores e mais poderosas empresas — e os interesses delas.
Na Europa, o capital é organizado, mas seu poder é mais limitado, pois precisa enfrentar um movimento trabalhista muito forte e movimentos socialistas eleitorais poderosos. Por isso, eles precisam se organizar para, de certa forma, conseguir se manter à tona.
Nos Estados Unidos, o capital é tão dominante que consegue prosperar muito bem sem qualquer perspectiva que abranja a classe como um todo; às vezes, isso significa que alguns pequenos capitalistas acabam perdendo. Assim, no pós-Segunda Guerra Mundial — quando o livre-comércio estava em plena ascensão nos EUA e o grande capital o apoiava entusiasticamente —, muitos pequenos e médios capitalistas saíram prejudicados.
Esse fator, aliás, foi uma força importante na campanha de Goldwater. A campanha de Goldwater representou uma explosão de protecionismo por parte de pequenas e médias empresas que estavam rompendo com o consenso em torno do livre-comércio. Nesse sentido, a ausência de uma perspectiva de classe unificada significa que os segmentos menos poderosos do capital podem acabar sendo mais prejudicados aqui do que em outros lugares, justamente porque não existe um movimento de classe tentando criar uma agenda política consensual.
Em vez disso, são frequentemente os grandes capitalistas que definem a agenda.
Gingrich constrói a máquina de arrecadação
Micah Uetricht
Você afirma no livro que a revolução republicana de Newt Gingrich foi, em muitos aspectos, mais importante do que a transformação do partido sob Ronald Reagan. E, de fato, Gingrich travou uma espécie de guerra contra Reagan.
Ele insistia que Reagan não era nem de longe conservador o suficiente. Gingrich é uma figura frequentemente mencionada em relatos recentes sobre o partido e sua trajetória, mas geralmente para descrever como ele ajudou a criar um Partido Republicano (GOP) mais belicoso — retoricamente mais reacionário e mais abertamente obstrucionista.
Tudo isso é verdade, e você aborda esse ponto no livro. Mas você também escreve que
[o] final da década de 1990 foi um momento crucial em que o Partido Republicano rompeu violentamente com as preferências da maioria das grandes empresas ao travar sua longa guerra contra Bill Clinton. Naquele momento, o partido não estava apenas se tornando mais conservador. Pelo contrário, sua estratégia de guerra partidária conservadora contra um presidente que, com astúcia, havia construído uma enorme coalizão empresarial em torno de sua administração apontava para uma nova relação entre o Partido Republicano e muitas das salas de diretoria das grandes corporações americanas.
O papel do grande capital é central nessa transformação, e Newt Gingrich desempenhou um papel fundamental ao mudar a forma como o grande capital influenciava a política dentro do Partido Republicano.
Você poderia falar sobre as iniciativas que ele implementou enquanto ocupava o cargo de presidente da Câmara na década de 1990?
Paul Heideman
Como você disse, Gingrich chega ao Congresso muito ambicioso. Ele quer se destacar e vê dois caminhos possíveis. Primeiro, ele lança uma campanha contra os Democratas, acusando-os constantemente de violações éticas e coisas do gênero; ele não os desafiava tanto diretamente em questões de políticas públicas, mas travava essa guerra baseada em argumentos como "eles estão trapaceando", "não estão agindo corretamente", e coisas desse tipo.
E sua popularidade cresce com isso. Ao mesmo tempo, ele critica duramente a administração Reagan por não ser suficientemente de direita, por não confrontar a URSS com a firmeza necessária e por não reduzir o Estado de bem-estar social na medida desejada. Então, na verdade, sob a perspectiva de Gingrich, o grande problema em relação a Reagan é que nunca houve uma "Revolução Reagan", certo?
Gingrich diria que não houve revolução. Na verdade, ainda precisamos que essa revolução aconteça. Mas o ponto realmente decisivo para ele é que ele compreende a nova importância do dinheiro na política de uma maneira que quase ninguém mais compreendia. Assim, em meados e no final da década de 1980, Gingrich constrói uma rede de arrecadação de fundos dentro do Partido Republicano que opera à parte da estrutura oficial do partido.
Ele utiliza um PAC (comitê de ação política) sob seu controle para isso; trata-se, basicamente, de conectar políticos republicanos a potenciais financiadores de todo o país. Essa estrutura torna-se fundamental para os republicanos eleitos para o Congresso em 1988, 1990 e 1992. Todos eles passam a depender fortemente dessa redistribuição de recursos, que é canalizada por Gingrich e ocorre por meio de seu PAC de diversas formas.
Alguns cientistas políticos chamam isso de uma versão paralela — ou "na sombra" — do Comitê Nacional Republicano do Congresso. Essa era a escala de sua atuação. Gingrich percebeu que, se conseguisse se tornar a figura central pela qual o dinheiro fluía, poderia conquistar a liderança. E foi isso que o impulsionou à liderança da bancada republicana na Câmara.
De fato, Gingrich agia como um insurgente nesse aspecto, visto que os Democratas haviam controlado a Câmara por cinquenta anos. Os republicanos na Câmara estavam acostumados a ser minoria. Eles não tinham o hábito de travar batalhas intensas, afinal, qual seria o sentido disso? Por isso, a ascensão de Gingrich foi marcada por disputas e impulsionada, do início ao fim, pelo dinheiro.
Então, quando Gingrich conquista a maioria na Câmara em 1994, durante a "Revolução Republicana", ele institucionaliza esse modelo de arrecadação de fundos em todo o partido. A partir de então, todos os deputados republicanos são obrigados a arrecadar fundos; eles precisam cumprir determinadas cotas. Além disso, a liderança e a participação em comissões da Câmara passam a exigir o cumprimento de metas de arrecadação.
Assim, no final da década de 1990, já existiam valores definidos para integrar diversas comissões. Se você quisesse uma vaga cobiçada em uma comissão da Câmara, precisava arrecadar centenas de milhares de dólares e redistribuí-los pelo partido. Gingrich realmente reestrutura toda a bancada republicana da Câmara em torno da arrecadação de fundos.
Isso impulsiona sua liderança e transforma completamente o partido. O modelo é rapidamente copiado pelos Democratas e, posteriormente, também pelos Republicanos e Democratas no Senado. Na prática, isso representa uma transformação profunda na forma como o partido operava.
Micah Uetricht
Você descreve um ciclo na história recente do Partido Republicano: um grupo de radicais — com uma atitude reacionária de "botar tudo abaixo" — ganha destaque, trava uma guerra bem-sucedida contra as elites partidárias estabelecidas e assume a liderança do partido, apenas para acabar sendo desafiado por um novo grupo de radicais que entra em cena e reinicia todo o ciclo.
Obviamente, Gingrich não foi o primeiro radical de direita no cenário político americano, mas ele obteve enorme sucesso ao conquistar a liderança e transformar o partido de maneiras fundamentais. Podemos, então, atribuir a ele o início desses ciclos de desafios à liderança partidária vindos da direita — ciclos que deram origem ao partido do caos que temos hoje?
Paul Heideman
É, acho que sim. Acredito que ele seja, mais do que qualquer outra pessoa, o tipo de indivíduo que inaugura essa dinâmica. E, quanto aos representantes na Câmara que eram muito próximos de Gingrich, existe uma fama específica — pense na "turma de 1994". Os deputados de primeiro mandato de 1994 — como eram chamados aqueles que chegaram na esteira da revolução de Gingrich — ficaram conhecidos por serem incontroláveis dentro da Câmara.
Há um livro excelente sobre eles que detalha toda aquela loucura e conta como muitos deles rapidamente se voltaram contra o próprio Gingrich, não hesitando em lhe dar uma "facada nas costas". Portanto, considero que Gingrich foi quem desencadeou esse padrão; além disso, acredito que o modelo de arrecadação de fundos que ele implementou acabou viabilizando a sua própria deposição.
Porque a lógica era: muito bem, Gingrich é o presidente da Câmara, mas, se você consegue arrecadar dinheiro, pode desafiar Newt Gingrich. E, de certa forma, foi isso que Tom DeLay fez. Embora DeLay tenha acabado trabalhando com Gingrich, ele não era um dos aliados de confiança de Gingrich; não era a pessoa que Gingrich queria ao seu lado.
Ele ascendeu na Câmara graças à sua grande capacidade de arrecadar fundos, forçando Gingrich a aceitá-lo como parte de sua equipe de liderança.
Micah Uetricht
Você tem uma parte muito interessante no livro sobre o processo de impeachment de Bill Clinton. Antes de chegarmos a esse ponto: do momento em que Gingrich assumiu a liderança na Câmara até o impeachment, como você descreveria as conquistas dele no partido — tanto em relação ao grande capital e à necessidade desse tipo de arrecadação quanto à relação do partido com o capital enquanto classe?
Paul Heideman
Acho que Gingrich conquistou bastante coisa nesse sentido. Só de ganhar a Câmara, ele fez com que as empresas ficassem livres para doar muito mais dinheiro para os republicanos. Quando os democratas tinham sempre o controle da Câmara, as empresas precisavam doar uma boa quantia a eles porque eles seriam os ocupantes dos cargos, e é a eles que você quer ter acesso.
Agora que os republicanos mandavam no pedaço, o dinheiro podia realmente começar a fluir para eles de forma massiva. E a agenda de Gingrich na Câmara era algo que tinha um enorme apoio do setor empresarial. Coisas como a reforma do bem-estar social, que os empregadores de baixos salários de todo o país usseram e adoraram, porque basicamente empurrou para o mercado de trabalho muitas mulheres pobres que a assistência social permitia manter fora dele em diferentes graus.
Isso era adorado pelas empresas. A guerra contra a reforma da saúde de Bill Clinton — que hoje já não é tão lembrada, mas que na verdade era muito mais radical do que o Obamacare —, o setor empresarial apoiou essa guerra com muita, muita força. E Gingrich foi um líder importante nisso.
Na verdade, até mesmo as paralisações do governo (government shutdowns) promovidas por Gingrich para tentar forçar cortes no orçamento e austeridade em 1995 e início de 1996 tiveram o apoio das empresas, muito embora paralisações governamentais possam ser bastante caóticas e onerosas para os negócios. Mas se você ler a revista da Câmara de Comércio durante e após as paralisações, eles diziam coisas como: “Os republicanos travaram uma grande luta quanto a isso. É realmente importante que eles tenham tomado essa posição, mesmo tendo perdido.”
Uma lição da primeira administração Trump é que Trump é o único que sai vivo. A carreira de todos os outros é destruída por isso.
O setor empresarial apoiava fortemente a agenda de Gingrich. No entanto, o fato de Gingrich ter perdido a disputa em torno da paralisação do governo — e de Clinton ter saído vencedor — acabou por manchar consideravelmente a sua imagem. Sua reputação nacional sofreu um grande desgaste, pois ele passou a ser visto como alguém que pretendia cortar a rede de proteção social e abandonar idosos e crianças à própria sorte.
Gingrich saiu prejudicado com isso. Paralelamente, ao iniciar 1996 e seu segundo mandato, Clinton deslocou-se significativamente para a direita e adotou uma série de políticas extremamente favoráveis ao setor empresarial — desde a reforma das telecomunicações, que flexibilizou as regras de propriedade (o que explica a existência de canais como a Fox News hoje), até o apoio irrestrito ao livre comércio e à globalização.
Embora Gingrich tivesse realizado ações muito apreciadas pelo empresariado, ele perdeu uma batalha fundamental; ao mesmo tempo, Clinton movia-se para a direita e conquistava um enorme apoio do setor empresarial com essa postura. Assim, a disputa em torno do impeachment de Clinton, em seu segundo mandato, ocorreu num momento em que o empresariado estava muito satisfeito com a administração Clinton, vendo-a como uma aliada confiável de sua agenda.
Em seu segundo mandato, Clinton chegou a discutir a privatização da Previdência Social — uma medida extremamente vantajosa para o setor de serviços financeiros, que passaria a administrar todas essas contas e a cobrar taxas por elas. De fato, o setor empresarial adorava Bill Clinton durante seu segundo mandato; por isso, via com certa apreensão a iniciativa republicana de promover seu impeachment.
Processos de impeachment já haviam sido iniciados contra Richard Nixon, e Andrew Johnson chegou a sofrer o impeachment. A tentativa de destituir Bill Clinton não parecia ter a mesma magnitude, e o empresariado não estava convencido de que valesse a pena. Se analisarmos a imprensa especializada da época, veremos comentários como: "Isso vai atrapalhar outras pautas de nosso interesse. Não conseguiremos aprovar nossa agenda. Tudo vai desacelerar e se complicar".
E foi exatamente isso o que aconteceu. Quando o processo de impeachment contra Clinton começou, seu apoio à privatização da Previdência Social desapareceu, pois ele precisava da defesa dos democratas progressistas — que, como ele sabia, não apoiariam tal medida de forma alguma. Portanto, o setor empresarial estava absolutamente certo quanto ao efeito do impeachment em sua agenda.
Micah Uetricht
Esta é a origem do meme que às vezes circula na esquerda de que a Monica Lewinsky salvou o país da privatização da Previdência Social.Paul Heideman
Exatamente.
A indústria do tabaco e o impeachment de Clinton
Micah Uetricht
Você faz um argumento na sua seção sobre o impeachment que eu nunca tinha ouvido antes, mas que se encaixa perfeitamente na sua tese mais ampla: a de que o capital, como classe, é incapaz de impor sua vontade na política, mas que indústrias individuais — ou, às vezes, até empresas específicas dentro da classe capitalista — conseguem promover suas pautas e aprová-las.
Você constrói esse argumento destacando a centralidade da indústria do tabaco no processo de impeachment. Então, explique esse caso: o que a Big Tobacco [a grande indústria do tabaco] teve a ver com o impeachment de Clinton?
Paul Heideman
Antes dos anos 1990, a indústria do tabaco era bipartidária e doava tanto para democratas quanto para republicanos.
Havia muitos democratas do Sul que representavam distritos produtores de tabaco. Não era uma indústria fortemente partidarizada. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que era um setor gigantesco. Algumas das maiores empresas do país eram companhias de tabaco.
Portanto, era realmente uma indústria enorme nos anos 1990. O que Clinton fez para irritá-los foi permitir que a Food and Drug Administration (FDA) [agência reguladora de alimentos e remédios dos EUA] classificasse a nicotina como uma droga que precisava de regulação sob sua tutela. Antes disso, a nicotina não era regulada como tal. E o Surgeon General [a máxima autoridade de saúde pública] de Clinton — que, na verdade, havia sido nomeado por George H. W. Bush — fez uma forte pressão nesse sentido, mostrando a Clinton todos aqueles documentos e pesquisas que comprovavam o conhecimento da indústria sobre o poder viciante da nicotina, bem como os esforços para promovê-la entre crianças, coisas desse tipo. Quando Clinton leu aquilo, disse: “Eu queria matá-los. Eu só queria matar as empresas de tabaco.”
Depois que ele deu o sinal verde para a FDA classificar a nicotina como um agente químico viciante, eles também passaram a querer matá-lo. Se você observar as doações da indústria do tabaco a partir de 1994, de repente nada mais vai para os democratas e tudo passa a ir para os republicanos.
Ocorre essa mudança drástica. Assim, no segundo mandato de Bill Clinton, se a pergunta for quem no meio empresarial estava realmente insatisfeito com o desempenho dele, a resposta é a indústria do tabaco. E se você examinar mais de perto os desdobramentos do processo de impeachment, de repente vê as pegadas e as impressões digitais do tabaco por toda parte.
Kenneth Starr, o promotor especial que investigou Clinton, estava trabalhando na defesa de empresas de tabaco como advogado ao mesmo tempo em que atuava como promotor especial. Ele estava ativamente representando companhias do setor em processos judiciais. Vários outros advogados que trabalharam na investigação do escândalo Monica Lewinsky também representavam ativamente clientes da indústria do tabaco na época.
A pessoa que mais pressionou por isso na Câmara dos Deputados foi Tom DeLay, deputado pelo Texas. DeLay era um dos maiores receptores de dinheiro do tabaco no Congresso naquele período. E, talvez o mais importante, a decisão de nomear Ken Starr foi tomada por juízes designados para um painel por senadores da Carolina do Norte.
Houve um almoço com os senadores republicanos da Carolina do Norte no dia anterior à reunião desse painel crucial para nomear o promotor independente, no qual fica bastante evidente que eles estavam dizendo: “Queremos nomear alguém que vá para cima do Clinton.”
Então, você vê a indústria do tabaco em absolutamente todos os cantos do processo de impeachment. Eles estavam financiando as pessoas que realmente perseguiam Clinton e eram, também, a fração do capital americano que, pelo menos no final dos anos 1990, tinha mais motivos para querer ver Clinton fora do cargo.
Micah Uetricht
Entendo o que você está dizendo sobre o tabaco ser uma das maiores indústrias dos Estados Unidos, mas não é como se o tabaco fosse uma Wall Street.
Não é como se a indústria do tabaco estivesse no coração do funcionamento de todo o sistema financeiro americano. Se você é alguém de Wall Street totalmente satisfeito com o que Bill Clinton está fazendo por você e pelo restante do setor financeiro, deve ter ficado arrancando os cabelos ao ver esse tipo de indústria capitalista decadente e secundária ateando fogo na boa fase que vocês tinham — tanto para o seu setor quanto para grande parte do resto da classe capitalista.
Você simplesmente pensa: “Por que isso está acontecendo? E por que não conseguimos impedir que aconteça?”
Paul Heideman
Sim, acho que o sentimento deles era exatamente esse. Na imprensa de negócios, alguns diziam coisas como: “Bom, isso é péssimo para nós” e “Esse circo é uma distração completa do trabalho importante que queremos realizar, como privatizar a Previdência Social e garantir o livre comércio com a China.”
Mas, desde os anos 1970, a capacidade do capital de agir como classe e produzir esse tipo de consciência e ação unificada em defesa de seus interesses comuns caiu drasticamente. Assim, você se depara com uma situação em que há muitas empresas com um interesse difuso para que o impeachment não aconteça, e um grupo específico de empresas com um interesse muito intenso e concentrado para que ele ocorra.
E, quando não há instituições bem desenvolvidas que promovam a ação coletiva, esse interesse concentrado e intenso vai vencer o interesse difuso e generalizado todas as vezes.
Micah Uetricht
É um exemplo do que pode acontecer quando se enfrenta uma indústria como a do tabaco e, em vez de liquidá-la, causa-se a ela um dano realmente severo.
E, enquanto digo isso, penso em quais outras indústrias seriam candidatas ideais para tentarmos liquidar de forma semelhante hoje em dia, como a indústria de combustíveis fósseis. Ou...
Paul Heideman
Criptomoedas.
Micah Uetricht
Ou criptomoedas. Especialmente no contexto deste sistema frágil, em que o capital não consegue agir como uma classe, você fica essencialmente vulnerável a qualquer tipo de indústria que se sinta ofendida pelos ataques que sofre e que seja capaz de infligir danos significativos a quem quer que a tenha prejudicado.
E isso não parece sustentável. Não dá para continuar fazendo isso *ad infinitum* em todo o sistema político e na economia. É uma situação realmente caótica.
Paul Heideman
Infelizmente, há um longo histórico nos Estados Unidos de empresas ou setores industriais específicos conseguindo moldar a política americana de maneiras decisivas — desde a forma como as mineradoras de prata assumiram o controle do Partido Populista na década de 1890 e reduziram um programa econômico populista radical a nada mais do que a cunhagem livre de prata, o que, naturalmente, seria um enorme benefício para os mineradores de prata.
Então, sim, é desanimador ver o grau de dominância que o capital frequentemente exerceu na história americana e como isso permitiu que até mesmo pequenas frações dele impusessem suas agendas de maneira avassaladora.
George W. Bush, o Construtor do Partido
Micah Uetricht
Você apresenta um argumento sobre o nosso primeiro presidente republicano do século XXI que não costumamos ouvir neste podcast: o de que George W. Bush é subestimado, pelo menos como construtor do partido.
Você defende a ideia de que, embora vejamos "W" como aquele sujeito desajeitado cujos manipuladores — como Dick Cheney — eram quem realmente comandava o espetáculo, na verdade ele é subestimado pelo que conseguiu realizar dentro do Partido Republicano, pelo menos no início de seu governo; ...como ele conseguiu trazer algumas dessas forças — as forças do tipo "gingrichiano" — para a sua coalizão, sem permitir que os extremistas tomassem conta de tudo, e também como alcançou uma espécie de modus vivendi real com o capital — algo que, certamente no período de que acabamos de falar (a administração Clinton), não estava acontecendo dentro do Partido Republicano.
Então, apresente esse argumento sobre George W. Bush como o verdadeiro construtor do Partido Republicano.
Paul Heideman
Para entender isso, acho útil pensar no que estava acontecendo com o Partido Republicano na década de 1990. Por um lado, houve o fracasso real do "gingrichismo". Gingrich acabou sendo muito prejudicial ao Partido Republicano; Bob Dole adotou grande parte da agenda de Gingrich em 1996 e perdeu a eleição.
Após o fiasco do impeachment, o Partido Republicano ficou com a imagem de ser fanático, moralista e pouco sintonizado com o que a maioria dos americanos considerava os problemas mais importantes. E George W. Bush passou a ser visto como uma alternativa a tudo isso. O slogan de sua campanha, "Conservadorismo Compassivo", foi criado justamente para sinalizar que aquele já não era mais o Partido Republicano de Newt Gingrich.
Ele havia sido um governador bem-sucedido no Texas, frequentemente trabalhando de forma bipartidária com os Democratas. Ele havia rejeitado a xenofobia que começava a surgir no Partido Republicano naquela época. E, de fato, quando foi reeleito no Texas — acho que em 1998 —, ele conquistou a maioria dos votos dos latinos no estado.
Assim, muitos líderes do Partido Republicano observam isso e pensam: "Esse cara pode ser o futuro do partido. Ele nos permite renovar nossa imagem e consegue conquistar o voto latino" — especialmente após a onda de xenofobia republicana ter afastado esse eleitorado. Ao mesmo tempo, porém, Bush é um cristão evangélico que fala a língua da direita republicana; ele se sente muito à vontade para discutir temas como o aborto e questões afins com esse grupo.
Dessa forma, Bush consegue promover uma união entre duas alas do partido: a ala moderada e ligada ao mundo corporativo, representada por seu pai, e a ala de Gingrich — com a qual a primeira estivera em conflito aberto durante grande parte da década de 1990. Ele consegue uni-las de uma maneira que parece bem-sucedida e duradoura. Durante seu primeiro mandato, figuras como Karl Rove falavam em uma maioria republicana permanente baseada no modelo Bush — prevendo trinta anos de domínio republicano alicerçado na política de George W. Bush. Acredito, portanto, que Bush realmente consegue criar essa unidade partidária; além disso, após o 11 de setembro, o projeto de imperialismo americano consolida ainda mais essa coesão, visto que ambas as alas do partido concordavam plenamente quanto à necessidade de invadir o Afeganistão, o Iraque, etc.
Bush realmente alcança um feito impressionante no início dos anos 2000 ao costurar esse tipo de acordo de paz dentro do partido. Simultaneamente, ele traz o setor empresarial de volta para o lado republicano — superando o distanciamento ocorrido no final dos anos 90 — com uma agenda de cortes de impostos, desregulamentação e ataques à organização dos trabalhadores, reunindo em torno de si uma coalizão corporativa gigantesca nas eleições de 2000 e 2004.
Enquanto isso, os Democratas acabam reduzidos a mendigar migalhas de grupos como os advogados de ações judiciais (trial lawyers), que representam a única fonte de grandes recursos financeiros para o partido durante boa parte desse período.
Micah Uetricht
E ele e o partido atuam, na prática, como agentes que conferem coesão à classe capitalista enquanto classe — pelo menos ao longo do primeiro mandato e também durante o segundo. Mas não existe aquele tipo de dinâmica em que se permite que setores dissidentes da classe capitalista dominem a situação, da maneira que você argumenta que a indústria do tabaco fez durante o processo de impeachment de Clinton. Eles desempenham um papel mais maduro, atuando como árbitros para a classe capitalista como um todo.
Paul Heideman
É, e há dois momentos em que se vê claramente essa dinâmica. O primeiro é o grande corte de impostos de Bush. Ele havia feito campanha prometendo um corte massivo de impostos. Havia um superávit governamental — um superávit orçamentário — na época, e a posição de Bush era: "Devemos fazer um enorme corte de impostos". Logo no início de seu governo, ele reúne vários CEOs em uma sala e diz: "Na verdade, vocês não vão ganhar nada com esse corte de impostos. Tudo vai para cortes de impostos de pessoas físicas. Nada vai para cortes de impostos de empresas". E acrescenta: "Isso vai gerar uma base de apoio popular para mim e, então, poderei cuidar da agenda de vocês". Eles respondem: "Certo, parece uma boa ideia". Ele consegue uni-los em torno disso, e é exatamente o que ele faz.
Os cortes de impostos da era Bush consistiram em reduções enormes nos impostos de renda de pessoas físicas, seguidas, nos anos seguintes, por uma série de cortes nos impostos corporativos que beneficiavam as grandes empresas. A segunda área onde isso fica evidente é a invasão do Iraque, frequentemente apontada como uma ação realizada sob pressão das empresas petrolíferas.
Foram elas que realmente pressionaram o governo a tomar essa decisão. Mas, ao examinar a fundo o processo de tomada de decisão, percebe-se algo muito semelhante. É verdade que eles reuniam as empresas de petróleo e diziam: "Certo, aqui está nossa estratégia. Do que vocês precisam nesse cenário?"
Eles buscavam alinhar-se aos interesses e ao apoio das petrolíferas. No entanto, fica muito claro que a política em si não estava sendo ditada por essas empresas. Isso se comprova ao observar o cenário mais amplo dos think tanks de política externa da época: havia um consenso real sobre a necessidade de invadir o Iraque e de remover Saddam Hussein do poder.
Portanto, parece pouco provável que o governo Bush estivesse simplesmente recebendo ordens das empresas de petróleo, visto que existia um consenso muito mais amplo na época — inclusive entre os setores mais liberais dos think tanks de política externa — sobre a necessidade de derrubar Saddam Hussein. Na verdade, houve certamente uma espécie de...
Eles buscavam ouvir as opiniões e as necessidades das empresas de petróleo, mas não agiam sob as ordens delas.
Micah Uetricht
Por que Bush conseguiu reconduzir o partido a essa forma mais tradicional de política republicana?
Paul Heideman
Acredito que, em parte, isso ocorreu porque o "Gingrichismo" e o "DeLayismo" haviam fracassado retumbantemente no final da década de 1990.
Como mencionei, o processo de impeachment foi um fracasso enorme para os republicanos. Os ganhos obtidos nas eleições de meio de mandato de 1998 — justamente no auge do impeachment — foram mínimos. Além disso, Gingrich acabou sendo forçado a deixar o cargo devido a questões éticas, e o sucessor previsto acabou renunciando depois que a revista Hustler revelou que ele também mantinha casos extraconjugais.
O Partido Republicano saiu enfraquecido de tudo isso. Assim, em certo nível, creio que essa situação acabou desacreditando grande parte da direita republicana. Ao mesmo tempo, a ala direita do Partido Republicano nunca foi muito eficiente em produzir candidatos à presidência. Eles nunca lançaram candidatos que tivessem figurado no primeiro escalão das primárias republicanas.
Assim, Bush conseguiu avançar com essa proposta. Mas acredito, de fato, que o fato de ele ser um evangélico genuíno — realmente ligado às igrejas evangélicas — permitiu que ele trouxesse esse segmento do partido para o seu lado. Além disso, como mencionei, creio que o 11 de Setembro e a subsequente reação imperialista também desempenharam um papel fundamental no sucesso de Bush em manter a unidade do partido durante seu primeiro mandato.
E é quando esse projeto começa a desmoronar — propriamente entre 2005 e 2006 — que se observa essa unidade começar a se fragmentar.
A Insurgência do Tea Party
Micah Uetricht
Bush obteve êxitos ao longo de dois mandatos, mas a situação começou a se deteriorar no segundo, especialmente à medida que os Estados Unidos perdiam a guerra no Iraque. Então, surgiu a crise financeira de 2007–2008, e a combinação desses dois fatores, em particular, parece ter desacreditado o Partido Republicano.
Um fato marcante é que, em 2008, Barack Obama — um talento político geracional — foi eleito. No entanto, sob a ótica do Partido Republicano (GOP), isso marca o início da era do Tea Party. Fale, então, sobre o ressurgimento do caos no partido durante esse período.
Paul Heideman
O primeiro passo nesse processo é o debate sobre a reforma da imigração dentro do Partido Republicano.
George W. Bush quer promover uma expansão dos programas de trabalhadores convidados — uma medida bastante favorável às grandes empresas —, combinada com algum tipo de caminho para a cidadania para imigrantes sem documentos que vivem nos Estados Unidos. Isso desencadeia uma reação furiosa da ala direita republicana, que se recusa terminantemente a qualquer concessão na reforma da imigração e defende apenas uma agenda draconiana focada exclusivamente na repressão e no controle de fronteiras.
O partido realmente se divide em torno dessa questão, e Bush acaba não conseguindo aprovar a reforma da imigração. Ele havia chegado ao poder no Partido Republicano como uma espécie de antídoto para a xenofobia republicana, mas mostra-se incapaz de contê-la. Na verdade, acredito haver fortes indícios de que o 11 de Setembro — e a militarização e a abordagem de segurança dada à questão da imigração — contribuíram para o ressurgimento da xenofobia republicana.
Se observarmos o Caucus de Reforma da Imigração da Câmara — criado no final da década de 1990 por Tom Tancredo, o grande líder da política anti-imigração no partido naquela época —, vemos que, antes do 11 de Setembro, ele contava com cerca de doze membros; dois anos depois, esse número saltava para aproximadamente sessenta.
Assim, acredito que, de certa forma, o sucesso de Bush no militarismo e em questões afins acabou prejudicando sua agenda de imigração. Observa-se uma grande divisão no partido naquele momento, e essa divisão se aprofunda ainda mais com a chegada da crise financeira. Quando a crise financeira realmente explode, no outono de 2008, e surge a necessidade do pacote de resgate financeiro, os republicanos, inesperadamente, votam contra a proposta de resgate bancário de George W. Bush. Logo após essa rejeição, o mercado de ações sofre uma quebra monumental. Há uma enorme pressão do setor empresarial americano para que o resgate seja aprovado. George W. Bush liga pessoalmente para cada membro da bancada do Texas na Câmara pedindo que votem a favor do projeto, mas nenhum deles muda o voto.
É, talvez, o exemplo máximo de um presidente em fim de mandato sem força política (lame-duck). Por fim, eles conseguem aprovar o projeto. A medida cruza a linha de chegada com dificuldade, dependendo principalmente dos votos democratas. A maioria dos republicanos ainda vota contra a medida, e isso é um sinal de que aquele tipo de republicanismo baseado no consenso corporativo, que Bush havia consolidado em seu primeiro mandato, morreu.
Agora, temos uma maioria do Partido Republicano votando para levar Wall Street à ruína da maneira mais brutal, justamente no seu momento de maior crise.
Micah Uetricht
Este é o momento em que os irmãos Koch [Charles e David] realmente intervêm com enormes quantias de dinheiro que estão dispostos a gastar contra o conservadorismo ao estilo de George W. Bush e para alimentar a raiva face ao resgate e à ajuda aos proprietários de casas em 2008. Este é um momento chave. A essa altura, eles já estão envolvidos na política há muitos anos, mas foi nessa época que os Koch realmente intervieram e ajudaram a financiar um Tea Party que, já ouvi você argumentar antes, tinha esse elemento de astroturfing, no sentido de que havia dinheiro dos irmãos Koch por trás disso.
Mas também havia um caráter genuinamente popular no que estava acontecendo. Eles são capazes de capitalizar isso e realmente criar o Tea Party logo perto do início da presidência de Obama.
Paulo Heideman
Sim. Portanto, os irmãos Koch estiveram realmente envolvidos na política do Partido Libertário e em grupos de reflexão antes deste momento.
Na década de 2000, durante a presidência de George W. Bush, eles começaram a jogar lado a lado com o Partido Republicano, para se envolverem com algum financiamento republicano. E logo após 2008, eles emergem como o locus desta rede de financiadores, vários tipos de multimilionários e sectores dos ultra-ricos que estão todos a pressionar por uma política republicana muito mais combativa que não se comprometerá com os Democratas, que irá regressar a uma espécie de Gingrich, estilo de política que queima tudo.
Estabelecem-se muito rapidamente na escala da Câmara de Comércio e do Comité Nacional Republicano do Congresso em termos de angariação de fundos. Estão a angariar quantias absolutamente enormes de dinheiro e, claro, são possibilitados em tudo isto pelas decisões Citizens United v. FEC e SpeechNow v.
E isto se torna a base para esta insurgência dentro do Partido Republicano. O ano de 2010 assiste a um número recorde de desafios primários no Partido Republicano, uma vez que todos estes candidatos do Tea Party desafiam os republicanos na Câmara e no Senado, muitas vezes apoiados por aspectos da rede Koch.
E ao mesmo tempo que isto acontece, os republicanos do establishment estão a responder com uma rede própria de super PAC, ancorada por Karl Rove e o seu grupo, American Crossroads, que procura angariar enormes quantias de dinheiro e gastá-las em nome da continuidade da agenda republicana de George W. Bush. Assim, de 2010 a 2016, o Partido Republicano é basicamente consumido por uma guerra civil entre estes dois grupos, enquanto a ala do Tea Party e a ala de Karl Rove estão ambas em conflito. O que é extraordinário nisso tudo é que ambos operam principalmente através destes super PACs que são institucionalmente separados do próprio partido.
Portanto, a batalha sobre o futuro do partido acontece em grande parte fora do partido e não dentro dele.
Micah Uetricht
Conversamos anteriormente sobre como Gingrich ajudou a desencadear esses ciclos de radicais que entravam no partido, declaravam guerra à liderança partidária, a destituíam e, então, viam o ciclo se repetir indefinidamente.
Esse foi um elemento central do que acontecia no Partido Republicano naqueles anos. Eu vivenciei isso, então me lembro bem. Mas, ao ler seu livro, eu havia me esquecido de todas as batalhas em torno de quem seria o presidente da Câmara — aqueles desafios insurgentes incríveis vindos da direita que chocaram tanta gente.
No entanto, tanto a enorme quantidade de dinheiro por trás desses desafios da direita quanto a energia genuína da base direitista realmente remodelaram o cenário do Partido Republicano naqueles anos e, ao que parece, prepararam o terreno para o que viria após a era Obama: a ascensão de Donald Trump.
Paul Heideman
Naqueles anos, John Boehner era o líder dos republicanos na Câmara, por exemplo. Ele era um aliado de Gingrich; foi um dos insurgentes de Gingrich na década de 1990. Agora, ele representava o establishment e servia de alvo — uma espécie de "piñata" — para todos os insurgentes do Tea Party, que o viam como o exemplo máximo de republicano vendido e inoperante, alguém que não queria realmente combater os Democratas.
Por isso, eles pressionavam por paralisações do governo e travavam batalhas sobre o "abismo fiscal". Eles contestavam sua indicação para a presidência da Câmara quando os republicanos reconquistavam a maioria, e assim por diante. Então, sim, esse é o momento em que aquela primeira geração de insurgentes se vê superada à direita por uma nova geração, que os enxerga como o novo establishment a ser derrubado.
E isso não se manifesta apenas na política interna da Câmara, mas também em todas aquelas eleições primárias que, em muitos casos, resultam na vitória de candidatos republicanos sem qualquer chance de vencer a eleição geral. O Tea Party provavelmente custou aos republicanos o controle do Senado — pelo menos no início do governo Obama —, ao lançar nomes como Christine O’Donnell, de Delaware; ela é aquela mulher que estrelou um anúncio de campanha começando por explicar por que não era uma bruxa.
Micah Uetricht
“Eu não sou uma bruxa. Eu sou você.”
Paul Heideman
É.
Micah Uetricht
Nunca vou esquecer aquele anúncio.
Paul Heideman
É excelente.
O que os Democratas não conseguiram enxergar
Micah Uetricht
Olhando em retrospecto, como você avalia a forma como o Partido Democrata compreendia o que estava acontecendo naquele período? Parece tão evidente que não havia disposição para lidar com o que era, claramente, uma realidade qualitativamente nova na política de direita que eles enfrentavam.
E, em vez de tentarem algo novo para fazer um contraponto eficaz, eles basicamente insistiram ainda mais em estratégias antigas. Pode-se dizer que, é claro, essa continua sendo a estratégia do Partido Democrata hoje em dia. Mas seu livro trata do Partido Republicano (GOP); então, como os democratas entendiam a situação enquanto ela se desenrolava naquela época?
Paul Heideman
Acho que uma mudança que se pode apontar no Partido Democrata, de lá para cá, é que, naquela época, figuras como Obama realmente acreditavam que poderiam encontrar um terreno comum para cooperar com o Partido Republicano e que, de certa forma, seria possível convencê-los a mudar de postura. Sempre me lembro de quando Obama foi ao retiro dos republicanos da Câmara, lá por 2009 ou talvez início de 2010 — aquele evento em que os republicanos da Câmara se reuniam para discutir estratégia.
Obama foi lá, discursou para eles e passou uma hora respondendo a perguntas improvisadas. E, se você assistir — dá para ver no YouTube —, é incrível: ele é tão articulado e hábil; eles tentam atacá-lo, mas não têm nada. Não conseguem desferir um único golpe nele.
É como assistir a Muhammad Ali. Eles não acertam um único soco. É uma das coisas mais impressionantes que já vi um político fazer. Impressionante do ponto de vista pessoal. Mas, politicamente, aquilo refletia a crença de que, se ele fosse lá, conversasse com eles, apresentasse argumentos razoáveis e mostrasse como... Parte do que ele dizia era: "Olhem, vocês estão rejeitando todos esses projetos de lei. Se trabalharem comigo nessas questões, posso incluir benefícios para seus distritos nesses projetos. Podemos oferecer coisas a vocês. Podemos encontrar um meio-termo. Podemos trabalhar juntos". E nenhum deles aceitou a proposta. Veja, por exemplo, o pacote de estímulo econômico de Obama, que eles encheram de cortes de impostos.
Se você observar o caso das tarifas na Suprema Corte, verá que são todas empresas das quais nunca ouviu falar, pois são elas que não têm força para conseguir um acordo individual com Trump.Um terço do projeto de lei consistia em cortes de impostos — algo que a maioria dos economistas da época considerava uma forma pouco eficiente de gastar aquele dinheiro, levando em conta o estímulo econômico que se obteria com isso. No entanto, ele incluiu muitos cortes de impostos justamente para atrair votos republicanos. E acabou não conseguindo um único voto republicano sequer.
Da mesma forma, no caso do Obamacare, fizeram-se várias concessões na esperança de obter algum apoio republicano. O plano baseava-se na proposta de Mitt Romney em Massachusetts e estava muito longe de uma proposta de "Medicare para Todos". Mesmo assim, os republicanos não votaram a favor. Acredito, portanto, que os Democratas não conseguiram enxergar o que estava acontecendo na política republicana nem compreender que não havia qualquer chance de obter apoio republicano para o que quer que Obama propusesse.
E acho que o Partido Democrata, pelo menos, aprendeu essa lição hoje em dia. Hakeem Jeffries pode não ser um líder brilhante, mas não creio que ele espere obter apoio republicano para qualquer medida tomada pelos Democratas quando estes detêm a maioria.
Micah Uetricht
Ao analisarmos o resgate financeiro após a crise e o pacote de estímulo de Obama, vemos medidas que eram realmente essenciais para o funcionamento do capitalismo americano e para a sua posição no sistema financeiro global.
E a reação da direita a essas medidas acaba comprovando a tese central do seu livro, não é? Ou seja, que essas ações tomadas em benefício da classe capitalista como um todo provocam uma reação extremamente virulenta por parte do Tea Party e de seus representantes eleitos no Congresso; eles deixam claro que não aceitarão tais medidas, por mais essenciais que sejam para o funcionamento do capitalismo americano.
Paul Heideman
É aqui que começamos a ver também uma divisão no setor empresarial. A Business Roundtable, a Câmara de Comércio e as grandes organizações empresariais apoiam totalmente o pacote de estímulo econômico; elas defendem que a medida é realmente necessária e precisa ser aprovada. Já a rede Koch é totalmente contra. Esse cenário reflete parte do que está acontecendo no Partido Republicano: uma espécie de fragmentação do setor empresarial.
No entanto, ao analisar o restante da agenda de Obama, observa-se um padrão semelhante. O Obamacare, por exemplo, conta com o apoio da Business Roundtable, enquanto a Câmara de Comércio se opõe firmemente à medida. Para compreender essa postura, é preciso entender as transformações pelas quais a Câmara de Comércio passou nas últimas décadas.
Na década de 1990, a Câmara de Comércio adotou um novo modelo de negócios: em vez de buscar um consenso entre seus membros ou elaborar uma agenda que agradasse a todas as empresas associadas, passou a oferecer seus serviços a companhias que, caso atuassem diretamente no lobby por determinado projeto de lei ou posição, poderiam sofrer danos à sua imagem pública.
A Câmara de Comércio assumia esse papel, oferecendo uma espécie de proteção à reputação dessas empresas. Foi basicamente o que ocorreu com o Obamacare: a Câmara de Comércio travou uma batalha contra a política, e revelou-se que, para isso, havia recebido vultosas doações de algumas das seguradoras de saúde que se opunham à reforma.
Trump quer que a presidência seja como o programa O Aprendiz, onde as pessoas precisam vir e competir para conquistar o seu favor.
Eles não representavam, de forma alguma, uma posição consensual do empresariado americano. A Business Roundtable representava algo semelhante. O que acontece, então, com a reforma financeira de Obama e a Lei Dodd-Frank é que Wall Street se posiciona totalmente contra essa legislação, o que aproxima novamente os republicanos de uma postura empresarial mais convencional.
Em sua campanha contra a Dodd-Frank, eles conseguem se reaproximar de alguns setores do grande empresariado que haviam afastado, sobretudo durante o período dos resgates financeiros. Assim, a ofensiva republicana contra a agenda política de Obama reflete tanto as divisões no meio empresarial — e como elas se manifestam no Partido Republicano — quanto uma oportunidade para os republicanos reconstruírem pontes em diversos aspectos.
A Última Cartada do Establishment
Micah Uetricht
Em retrospecto, especialmente considerando tudo o que discutimos até agora, a campanha presidencial de 2012 e a decisão do partido de lançar Mitt Romney como candidato à presidência parecem absurdamente insensatas. Ele era, claramente, um candidato de uma era passada da política republicana, incapaz de enfrentar o desafio de lidar com o estado de espírito de grande parte da base do partido.
E ele era um candidato do capital em um partido que, basicamente, já não agia mais sob as ordens do capital enquanto classe.
Paul Heideman
A indicação de Romney reflete parte do que mencionei anteriormente: a ala direita do Partido Republicano nunca foi muito boa em produzir candidatos à presidência.
Em 2012, eles não tinham realmente um candidato forte. Não havia um bom candidato do Tea Party para a presidência. Então, surge Romney, que contava com enorme apoio do setor empresarial; na eleição geral, o empresariado apoia Romney de forma maciça. Eles praticamente não apoiam Obama em grande número.
Com exceção de algumas empresas e setores — como a tecnologia, que realmente permaneceu com Obama —, a classe empresarial, no geral, opta por Romney. Eles perdem, em parte, porque Obama havia construído uma máquina de arrecadação de fundos incrível, capaz de mobilizar uma enorme quantidade de pequenos doadores em 2012. Assim, o apoio do empresariado a Romney não se traduz em vitória eleitoral.
Ao mesmo tempo, sua derrota abre as portas para a direita republicana, pois representa um descrédito decisivo do establishment republicano. Eles realmente esperavam vencer aquela eleição. Ficou famosa a cena em que Paul Ryan teve de explicar aos filhos, que choravam, que eles não se mudariam para Washington, D.C., afinal.
Os republicanos realmente achavam que a vitória em 2012 estava garantida. E, quando perdem, aquilo marca, de certa forma, a última cartada do establishment republicano.
Trump atravessa a porta aberta
Micah Uetricht
Diante de tudo o que discutimos, agora que chegamos a 2016, Trump e sua vitória naquele ano já não parecem tão estranhos.
Parece ser o desfecho de tudo o que vínhamos debatendo até então. Como Donald Trump se insere nesse tipo de disputa entre facções dentro do partido e tira proveito de grande parte dela?
Paul Heideman
Trump surge como alguém que não pertence a nenhum dos dois lados. Ele não é, de forma alguma, um adepto do Tea Party.
Na verdade, ele é conhecido por se opor a cortes na Previdência Social (Social Security) e no Medicare. Ele se apresenta, essencialmente, como um moderado na economia, alguém que não pretende cortar gastos orçamentários. Ao mesmo tempo, ele está longe de pertencer ao establishment. Ele baseia sua campanha em uma xenofobia desenfreada e em uma política anti-imigração que o establishment — especialmente após 2012 — vinha tentando descartar.
Eles viam essa xenofobia como um ponto fraco do Partido Republicano e diziam: "Precisamos voltar à linha de George W. Bush e tentar ser mais favoráveis aos latinos". Assim, ele pega ambos os lados de surpresa, justamente por não pertencer a nenhum deles. E, ao mesmo tempo, revela-se que havia um público considerável — entre os eleitores das primárias republicanas — receptivo a essa combinação de moderação econômica com uma política de guerra cultural extremamente intensa.
Havia um grande público para esse tipo de política. E, como os republicanos estavam presos a uma guerra de trincheiras interna, a base eleitoral do partido já não dava ouvidos às orientações vindas da elite republicana, tamanha era a divisão partidária.
Já não existia qualquer consenso dentro do partido. Portanto, quando Trump entra em cena, ele consegue contornar essa disputa, e ambos os lados acreditam que ele jogará a seu favor. Jeb Bush pensa: "Ele vai dividir os votos da extrema-direita com Ted Cruz, e isso será ótimo para mim. Vai facilitar minha vitória nas primárias". Ted Cruz diz: "Trump vai mobilizar todos esses eleitores e tornar essas questões de 'guerra cultural' mais evidentes nesta eleição, mas, no fim das contas, esses eleitores virão até mim, porque sou eu quem consegue abordá-las com mais eficácia. Consigo fazer isso melhor do que Trump; portanto, na verdade, é vantajoso para mim que ele esteja na disputa".
Assim, ambos os lados pensavam: "Não queremos realmente gastar muito tempo atacando Trump, pois acreditamos que a presença dele na corrida eleitoral jogará a nosso favor". Foi isso que permitiu a vitória de Trump. Sem a divisão partidária ocorrida na década de 2010 e a disputa entre facções que havia se instalado, não creio que teria havido oportunidade para Trump entrar na disputa e vencer da maneira como acabou conseguindo.
Portanto, acredito que Trump é, em grande medida, um produto das divisões do partido, mesmo não estando associado a nenhum dos lados dessas divergências.
Micah Uetricht
Você poderia falar sobre sua tese a respeito da fragilidade do Partido Republicano e da falta de uma organização efetiva por parte do capital, e como esses fatores se manifestaram durante a candidatura dele e, posteriormente, em seus dois mandatos como presidente?
Paul Heideman
Trump tem condições de financiar a própria campanha nas primárias. Assim, embora praticamente todo o setor empresarial se oponha a ele nessa fase, ele consegue arrecadar tanto dinheiro com recursos próprios que isso não o prejudica muito. E, depois que ele vence, o empresariado realmente abandona o Partido Republicano.
Muitos financiadores republicanos tradicionais — alguns dos maiores doadores do partido — recusam-se a abrir a carteira para Trump. Em agosto de 2016, ele já está tendo que demitir funcionários da campanha; ela está à beira do colapso. Por fim, ele consegue convencer alguns bilionários republicanos-chave — como os Mercer, uma família riquíssima do setor financeiro de Long Island — a financiar sua campanha de forma expressiva.
Eles conseguem fazer com que a campanha se arraste até o final do outono. Mas, basicamente, todos operam sob a premissa de que Trump perderá em 2016. A ideia é que será um desastre e que o partido seguirá em frente depois disso. Essa é a premissa de todos.
A equipe de campanha de Trump lhe dizia: "Olha, você vai perder esta eleição". Como resultado, em novembro de 2016, Trump não tinha um discurso de vitória preparado no dia da eleição; teve que escrever um na hora. Na verdade, ele estava tentando abastecer o avião para ir a Monte Carlo com Melania Trump logo após a derrota.
Ele havia concebido sua corrida eleitoral como aquilo que chamava de "o maior infomercial da história do mundo". Ele pensava: "Isso vai ser apenas uma ótima oportunidade para apresentar minha marca e fazer algo depois de O Aprendiz", basicamente.
Micah Uetricht
O que, de certa forma, acabou se confirmando.
Ele também acabou ganhando a presidência.
Paul Heideman
É, exatamente. Então ele ganha a presidência — o que é uma verdadeira surpresa —, e isso leva a uma situação em que o establishment republicano entra em cena dizendo: "Certo, temos que trabalhar com ele. Talvez consigamos contê-lo". E, durante a maior parte de seu primeiro mandato, eles conseguem conter Trump de várias maneiras.
Quer dizer, a rotatividade de pessoal em sua primeira administração é extraordinária; todas essas pessoas pedem demissão sucessivamente, o que gera uma paralisia burocrática e impede que muita coisa seja realizada. As coisas que eles conseguem concretizar são, basicamente, propostas políticas republicanas tradicionais, como cortes de impostos e uma política externa mais agressiva em relação à Rússia.
Se você analisar apenas as medidas adotadas no primeiro mandato de Trump, em muitos aspectos ele se parece com um primeiro mandato republicano genérico; mas isso ocorre justamente porque ele estava limitado por todas essas restrições. No entanto, paralelamente a isso, Trump vai remodelando o partido de forma constante, e as pessoas que se opõem a ele — que não o apoiam — acabam sendo afastadas.
E esse processo continua ao longo dos oito anos seguintes, chegando até os dias de hoje. De fato, em 2024, ele já havia assumido o controle total do partido, a ponto de não restar mais nenhuma oposição organizada. Houve tentativas de lançar as campanhas de Ron DeSantis e Nikki Haley nas primárias de 2024, mas, uma vez que eles perderam — e perderam feio —, não sobrou mais nada.
Micah Uetricht
É quase como se Trump tivesse compreendido a fragilidade do partido — sua infraestrutura, sua liderança e todos os aspectos que discutimos no início desta conversa — e percebido intuitivamente que poderia impor sua vontade sobre ele; que, na verdade, não havia ali nenhuma figura de autoridade ou sensatez disposta a intervir. Ele simplesmente teve a audácia de fazer isso e, obviamente, obteve sucesso.
Paul Heideman
Acredito que ele é favorecido por sua presença na mídia e por seu status de figura carismática em diversos ambientes midiáticos, além da imagem de empresário bem-sucedido. Tudo isso contribui para esse "culto a Trump" dentro do partido, resultando em uma situação na qual, em 2020, o partido sequer elabora um programa oficial para a eleição.
Eles simplesmente dizem: "No que Trump disser, nisso nós acreditamos". E, em 2024, quando Trump diz: "Vocês precisam retirar a pauta pró-vida do programa", os republicanos a retiram. Algo que teria sido inimaginável durante os anos Bush — o Partido Republicano abandonar a pauta do aborto.
Mas, em 2024, Trump dá a ordem e ela é cumprida.
Cada empresa por si
Micah Uetricht
O que as grandes empresas fizeram em 2020? Parece que o capital realmente migrou, em muitos aspectos, para o Partido Democrata, após testemunhar o pesadelo do primeiro mandato de Trump e saber que ele não seria um defensor eficaz dos interesses do setor. Eles se voltaram para os Democratas.
É isso mesmo?
Paul Heideman
Sim, é isso mesmo. Houve uma migração em massa para o Partido Democrata em 2020, abrangendo desde o setor financeiro até praticamente qualquer outro setor que se queira analisar. Trump teve muito pouco apoio do setor empresarial, e isso se repete em 2024. Trump conta com pouquíssimo apoio do empresariado em 2024.
Os Democratas arrecadaram mais fundos do que os Republicanos em 2016, 2020 e 2024. O que realmente difere em 2024 é que Trump pode contar com o financiamento de alguns bilionários de extrema-direita com ideologias muito fortes. Elon Musk, a família Uihlein e alguns outros doam quantias de dinheiro simplesmente incríveis.
Elon Musk doa 250 milhões de dólares. Portanto, o apoio empresarial a Trump em 2024 diminuiu consideravelmente. Ele se restringiu bastante em comparação com alguém como George W. Bush, que desfrutava de um apoio empresarial muito amplo. Mas esse apoio é extremamente profundo. Essas pessoas estão dispostas a gastar em um nível praticamente sem precedentes na política americana, o que permite a Trump manter uma operação de campanha robusta o suficiente para vencer em 2024 — combinado, é claro, com as fragilidades da administração Biden e da campanha de Kamala Harris.
Micah Uetricht
Qual é a explicação para os magnatas da tecnologia que o apoiam, tendo em vista tudo o que discutimos? Por que ele consegue conquistar esse segmento do capital — alguns dos capitalistas contemporâneos mais importantes dos EUA? O que explica a adesão deles à sua agenda?
Paul Heideman
Acredito que haja alguns fatores. Primeiro, sempre existiu um setor do capital tecnológico alinhado à extrema-direita, que abraçou diversas ideologias sobre o fim da democracia, a ascensão de "reis-filósofos" e todo esse tipo de absurdo. Sempre houve um segmento da tecnologia engajado nessa política, e eles rapidamente se voltaram para Trump.
Além disso — e vale a pena lembrar —, houve aquela onda de ativismo trabalhista e de ativismo no ambiente de trabalho, de modo geral, no setor de tecnologia entre o final da década de 2010 e o início da de 2020; acredito que isso levou muitos executivos do setor a pensar: "É, precisamos colocar esse pessoal sob controle".
Micah Uetricht
Marc Andreessen. Ele vive falando sobre isso. Ele ficou chocado com o fato de seus funcionários estarem fazendo exigências a ele.
Paul Heideman
Exatamente. E acho que isso levou várias pessoas a, de certa forma, abraçarem Trump e essa nova política reacionária também. E então, a terceira vertente aí é composta por pessoas como Mark Zuckerberg, que na verdade não eram muito ideológicas e, de fato, haviam sido Democratas durante grande parte da década anterior.
Mas, uma vez que Trump vence em 2024, acho que um grande setor do capital tecnológico — e do capital de forma mais ampla — decide: "Ok, a maneira de lidar com isso é fechar acordos individuais com Trump, em vez de tentar enfrentá-lo, organizar uma oposição a ele ou algo do gênero. Em vez disso, vamos fazer acordos individuais".
E eles percebem que, na verdade, se você simplesmente bajular Trump e lhe oferecer algo chamativo, ele estará disposto a fazer grandes favores para a sua empresa. Vimos isso acontecer repetidamente. Todos fazem fila para prestar vassalagem, financiar a cerimônia de posse e falar sobre como Donald Trump é um grande presidente e um grande líder.
Em troca, eles recebem várias formas de favores clientelistas da Casa Branca — trocas de favores que configuram corrupção mais ou menos aberta. E acho que isso serviu para desorganizar ainda mais o capital, porque agora, com Trump, é cada um por si. Cada empresa tenta fechar seu próprio acordo com Donald Trump, em vez de organizar qualquer tipo de agenda comum.
Assim, no caso das tarifas, por exemplo, em vez de as empresas afirmarem com firmeza: "Essa agenda é terrível. Você precisa voltar atrás. Isso está nos prejudicando", todas tentam fechar acordos individuais para obter isenções para seus produtos de várias maneiras. "Ah, não, não; na verdade, as tarifas não são adequadas para o meu produto, Sr. Presidente. Acho as tarifas fantásticas no geral. São uma ótima ideia. Mas, especificamente para o meu produto, elas não funcionam muito bem; então, podemos ter uma isenção, por favor? E, a propósito, aqui está uma doação e aqui está um objeto dourado para colocar na sua mesa", ou algo do tipo. É isso que tem acontecido no mundo empresarial. Se você observar o caso da Suprema Corte envolvendo as tarifas, verá que se trata de empresas das quais nunca ouviu falar; isso ocorre porque são elas que não têm influência suficiente para conseguir um acordo individual com Trump. Portanto, para elas, a oposição direta à política é o único caminho restante.
Curiosamente, desde que as tarifas foram derrubadas, tem-se visto um número maior de grandes empresas dos Estados Unidos iniciando ações judiciais para recuperar os valores pagos em tarifas. Assim, acredito que, agora que essa política foi derrotada, está surgindo uma maior oposição do setor empresarial a ela.
O tomador de decisões
Micah Uetricht
Queria saber o que você pensa sobre o fato de que, segundo a minha leitura, Trump parece completamente desinteressado neste momento em cumprir muitas de suas principais promessas de campanha, seja baixar os preços para os consumidores ou não entrar em guerra com o Irã. Ele está muito mal avaliado em todas essas pautas. Há um movimento crescente de muitos dos seus apoiadores se sentindo traídos pelo que ele está fazendo.
Há um surgimento de figuras proeminentes na direita que estão cada vez mais dispostas a dizer que Trump está traindo muitas das promessas fundamentais que eles achavam que estavam no coração do MAGA. O que explica tudo isso? É simplesmente porque ele realmente não se importa com o que vai acontecer com o Partido Republicano depois que se for?
Ele fica feliz apenas em ouvir quem quer que esteja ao seu ouvido no último minuto e decide ir por esse caminho, sem nem pensar no cumprimento das promessas de campanha? Por que ele está agindo com tanto desprezo pelas pautas populares em que se baseou e que lhe garantiram a presidência em 2024?
Paul Heideman
Os marxistas gostam de falar sobre a autonomia relativa do Estado e a ideia de que existe uma certa distância entre o Estado e o capital. Não é uma relação direta de um para um. E acho que o Trump é um ótimo estudo de caso desse conceito, no sentido de que, quando você tem alguém que alcançou tanto poder quanto ele, com um partido totalmente subordinado a ele e que controla todos os poderes do governo, a psicologia individual dele realmente passa a ser mais importante para explicar as coisas.
E acho que, no fundo, o que o Trump ama é ser o tomador de decisões e o negociador. É disso que ele gosta. Essa é a imagem mais importante que ele tem de si mesmo. Então, algo como as tarifas permite que ele faça isso. Ele pensa: “Vou fazer essa guerra tarifária contra o mundo inteiro e aí todo mundo vai ter que vir me pedir favores, e eu vou decidir quem ganha e quem perde.”
Ele quer, de certa forma, que a presidência seja como O Aprendiz, onde as pessoas têm que vir e competir pelo favor dele. E acho que há algo semelhante com o Irã. Acho que o Benjamin Netanyahu e os israelenses disseram: “Você fez um trabalho tão incrível com a Venezuela. Pode fazer a mesma coisa com o Irã e aí você escolhe quem será a nova liderança, e eles vão ser totalmente dependentes de você. Não vai ser ótimo?”
Então, realmente acho que esse elemento da psicologia dele é importante para entender por que ele não se importa com elegibilidade, custo de vida ou qualquer uma dessas coisas. As pessoas ao redor dele — como a Susie Wiles, chefe de gabinete dele, cujo trabalho é dizer: “Bem, isso vai ser bom para as midterms?” — acho que elas têm um trabalho muito difícil, sinceramente. Então, sim, acho que entender a psicologia do Trump é importante. Por isso, sou muito resistente a uma certa corrente de pensamento que se vê na esquerda que diz: “Na verdade, o Trump está sendo muito racional sobre tudo isso e há uma lógica real por trás de tudo. Ele pode ser mau, mas não é burro.”
Eu só acho que, com tudo o que vimos no último ano e meio, é muito difícil conciliar esse argumento com a realidade. Essa guerra foi claramente lançada sem plano nenhum, é um desastre total em todos os sentidos e provavelmente vai terminar com o Trump basicamente recuando derrotado, de uma forma ou de outra.
Ele não vai chamar assim. Ele não vai falar nesses termos, mas esse parece ser o desfecho mais provável neste momento. Então, realmente acho que as tentativas de tentar “higienizar a sanidade” do Trump, como alguns chamam (sane-washing), são profundamente não convincentes neste momento.
Quem herda o partido?
Micah Uetricht
E o que você acha do movimento na direita em que pessoas como Tucker Carlson, por exemplo, estão se divergindo cada vez mais de algumas partes fundamentais do que Trump está fazendo? Algumas pessoas parecem estar tentando se posicionar para futuras disputas de liderança dentro do partido. Parece improvável que vejamos uma repetição do trumpismo sem o Trump. Ele realmente é uma figura única em uma geração.
Mas alguém vai surgir como o líder do partido depois de Trump, e parece que estamos começando a ver pessoas tentando marcar território em diferentes lados dessa disputa futura agora mesmo. Então, qual é a sua leitura sobre como essas coisas estão começando a se desenrolar, e como figuras como Carlson e outros estão marcando posição com uma espécie de abordagem trumpista, mas com algumas distinções importantes — e, de certa forma, tentando ser, no papel e em termos de agenda política, mais Trump do que o próprio Trump, ou tentando se manter fiéis ao que consideram o verdadeiro coração do MAGA?
Paul Heideman
Acho que uma lição do primeiro governo Trump é que o Trump é o único que sai vivo. A carreira de todo mundo acaba destruída. Se você repassar o primeiro governo Trump e ver quem serviu nele, todos foram escanteados agora. Nenhum deles é realmente um ator político relevante hoje em dia, com exceção de alguém como Stephen Miller, que é meio que uma rêmora grudada no tubarão.
Acho provável que vejamos algo semelhante acontecer com este governo, de que as pessoas no governo sejam "defuntos" políticos. Acho que J. D. Vance e Marco Rubio são os dois mais propensos a tentar herdar o partido. Eles são os "Donald e Eric Trump" do gabinete.
E acho que eles vão estar tão atrelados a todos os desastres do governo que vai ser muito, muito difícil para eles, assim como seria muito difícil para qualquer pessoa ligada ao governo George W. Bush sucedê-lo em 2008. Então, acho que veremos algumas brigas internas de faca amolada no Partido Republicano nos próximos anos, à medida que as pessoas tentam se posicionar.
Eu não ficaria nada surpreso se alguém como Thomas Massie fizesse uma candidatura razoavelmente credível para a indicação em 2028. Duvido que ele vença, mas acho que poderia facilmente ser um dos três principais. E se você dissesse a alguém em 2020 que Thomas Massie poderia ser um dos três principais candidatos republicanos, olhariam para você como se estivesse louco.
Mas acho que seria alguém como ele ou Carlson. E eu realmente acho que quem quer que chegue ao topo será alguém capaz de se distanciar da forma mais eficaz do governo e dos desastres que ele está criando. Acho que essa vai ser uma tendência crescente, especialmente após as eleições de meio de mandato (midterms) deste ano; veremos o domínio de Trump sobre o partido realmente começar a se fragmentar e parecer muito mais frágil do que tem sido.
Micah Uetricht
Eu entendo e concordo com tudo o que você está dizendo. Acho que eu apenas voltaria ao que mencionei antes para dizer que isso não me faz necessariamente sentir melhor ou mais confiante sobre o que o futuro político nos reserva — dado que o seu livro é todo sobre esses ciclos de brigas internas de faca amolada no partido. Tenho certeza de que, na época em que estavam acontecendo, as pessoas na esquerda ou os liberais ficavam empolgados ao ver esse tipo de briga tomar conta e achavam que isso pressagiava a ruína do Partido Republicano.
Mas aí, na verdade, essa nova geração de nomes da extrema-direita, ainda mais reacionários, assume cargos de liderança — e eles ocasionalmente vencem eleições. Especialmente se tudo isso estiver acontecendo diante de um Partido Democrata que lança alguém como Gavin Newsom como seu líder principal. Podemos ver toda essa briga feia dentro do Partido Republicano e verdadeiros embates sobre qual rumo o partido deve tomar, mas se eles estiverem enfrentando alguém no Partido Democrata que é um defensor do status quo, não há garantia de que o Partido Republicano não vá continuar dominando a política neste país.
Paul Heideman:
É. Eu realmente acho que a capacidade reduzida do Partido Republicano de construir consenso entre seus diferentes grupos internos vai tornar as coisas mais difíceis para eles do ponto de vista eleitoral, pelo menos no curto prazo.
Ao mesmo tempo, se for uma disputa entre Gavin Newsom e Tucker Carlson em 2028, acho que isso seria um verdadeiro pesadelo para a esquerda, para o país e para a civilização humana, basicamente. Mas também acho que você tem razão quando diz que veremos uma radicalização cada vez maior do Partido Republicano.
Acho que o antissemitismo escancarado vai se tornar muito mais comum no Partido Republicano. E penso que o abandono total do apego a elementos do tipo "religião civil" americana em torno de moralidade, multiculturalismo, etc., tende a se intensificar ainda mais no partido nos próximos anos. Veremos coisas que seriam inimagináveis de serem abraçadas por políticos republicanos proeminentes nos anos Bush, por exemplo.
Então, sim, não vejo fim para esse ciclo de radicalização no partido, apenas uma manifestação cada vez mais caótica e turbulenta disso no curto prazo.
Colaboradores
Paul Heideman é PhD em Estudos Americanos pela Rutgers University–Newark. Mais recentemente, ele é o autor de Rogue Elephant: How Republicans Went from the Party of Business to the Party of Chaos.
Micah Uetricht é o editor da Jacobin. Ele é o autor de Strike for America: Chicago Teachers Against Austerity e co-autor de Bigger than Bernie: How We Go from the Sanders Campaign to Democratic Socialism.