26 de junho de 2026

Descobertas críticas

Uma entrevista com Roberto Schwarz.

Roberto Schwarz

Sidecar


Nesta entrevista, Roberto Schwarz faz um amplo balanço de sua trajetória intelectual e revisita algumas das questões centrais da crítica literária marxista a partir da reedição de Os pobres na literatura brasileira. Ao refletir sobre as mudanças ocorridas desde os anos 1980, o crítico discute as transformações do capitalismo, o enfraquecimento da consciência de classe, os dilemas da esquerda e a persistência da desigualdade social no Brasil. A conversa também aborda a obra de Machado de Assis, o legado de Antonio Candido, o papel do realismo, a função social da crítica e as relações entre forma literária e processo histórico, oferecendo uma síntese madura e atual de um dos mais importantes intérpretes da literatura e da sociedade brasileiras.

Sua coletânea Os pobres na literatura brasileira foi publicada há mais de quarenta anos. Gostaríamos de perguntar sobre o contexto em que essa obra surgiu. A conjuntura mudou fundamentalmente?

A década de 1980 foi um período de relativo otimismo, marcado pelo retorno à democracia, por grandes greves que colocaram a ditadura na defensiva e pela fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Esse ímpeto da classe trabalhadora insuflou nova vida na sociedade brasileira; graças a ela, o país tornou-se mais livre, mais civilizado e menos opressor — uma dívida nem sempre reconhecida. A ideia de investigar a presença dos pobres na literatura brasileira nasceu desse novo horizonte de esquerda. Havia também os programas de pós-graduação em literatura recém-criados, cujo corpo discente era, em sua maioria, hostil ao regime. Era um coletivo promissor, e parecia o momento certo para mobilizar esse potencial estético-político a fim de movimentar o debate. O contraste com 2026 — quando a extrema-direita ameaça retornar ao poder pelas urnas — dificilmente poderia ser mais amargo.

Como a categoria dos "pobres" era compreendida na década de 1980? Ela era utilizada principalmente pelos mais abastados para descrever aqueles em posição inferior, ou era empregada pelos próprios pobres? Fazemos essa pergunta porque, no Brasil de hoje, ouve-se frequentemente dizer que, aos olhos dos pobres — pelo menos —, já não existem pobres, apenas empreendedores.

A surpresa histórica da década de 1980 foi o fato de os trabalhadores sindicalizados — especialmente os metalúrgicos — sentirem-se empoderados para confrontar os militares, o grande capital e a própria classe política, incluindo a oposição progressista ao regime. Leonel Brizola, Miguel Arraes, Almino Afonso, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros — alguns recém-chegados do exílio — foram surpreendidos pela determinação inédita desses trabalhadores em liderar a transição para a democracia e negociar seus próprios termos, sem se curvar à tutela de políticos profissionais. Esse momento, como sabemos, não perdurou; a lógica das coalizões, com os consequentes compromissos de classe, acabou inevitavelmente prevalecendo. Vale lembrar também que, naquela época, em todo o Ocidente, o peso relativo da classe trabalhadora já havia começado a diminuir. O boom industrial e o crescimento correspondente da classe trabalhadora durante a ditadura constituíram uma exceção a essa tendência. Ainda assim, colocou-se em movimento a possibilidade de uma reorientação da sociedade brasileira impulsionada pela classe trabalhadora.

Retomando sua pergunta: havia, sem dúvida, uma consciência da pobreza naquela época. É claro que os líderes sindicais já não eram pobres no sentido extremo — tipicamente brasileiro — da palavra. Viviam de forma modesta, num estilo pequeno-burguês, em pequenas casas de alvenaria e com um carro na garagem, mas mantinham vínculos com a pobreza de onde haviam saído; isso conferia um caráter especial à sua liderança. Em última análise, a pobreza era um fato social inegável, e havia a determinação de enfrentá-la por meio da ação coletiva. A meu ver, a perspectiva deles não era revolucionária, mas também não era fatalista no sentido antigo — nem individualista-meritocrática, como no espírito do atual "empreendedorismo". A sociedade era vista como um todo organizado, porém injusto, passível de transformação.

Você poderia falar sobre o seu ensaio a respeito de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis — intitulado "A pobre velha e o retratista" —, que foi incluído na coletânea? Ele ainda dialoga com o presente?

Como o título sugere, o ensaio trata não apenas da pobre velha, mas também de seu retratista e protetor, e da relação entre ambos, marcada por uma reciprocidade chocante. Ao adotar descaradamente o ponto de vista da classe dominante — em detrimento da pobre Dona Plácida —, o narrador rompeu com as convenções de objetividade e desinteresse que conferiam respeitabilidade ao romance realista. Rompeu também com o decoro patriarcal esperado nas relações de dominação no Brasil. Ao comentar a provocação de Baudelaire — "Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!" —, Benjamin observou que o poeta transformara a má-fé ostensiva, a traição de classe e a perversa autodenúncia das classes respeitáveis ​​em um recurso literário. É uma observação extremamente perspicaz, com implicações de grande alcance. Em uma linha semelhante, poderíamos dizer que Machado encenou um ato escandaloso de traição à sua própria classe no plano da forma narrativa, produzindo uma autoacusação satírica por parte das elites. Foi um movimento ousado e desestabilizador que abriu caminho para a ficção experimental, na qual não existem posições inatacáveis ​​nem valores fixos independentes da própria composição. Personagens, narradores, ideias, boas intenções, dogmas, classes, formas, registros estilísticos: nada possui valor intrínseco. Tudo se define e redefine por meio de sua constelação com outros elementos, o que, em conjunto, reconstitui a verdade da obra.

Essa dialética universalizada — a primazia do processo sobre os momentos que o constituem — é uma conquista crítica de primeira ordem, o padrão moderno insuperável até segunda ordem. Aí reside o poder cognitivo da literatura avançada: o valor nominal da moeda não conta para nada. Ao despojar seu narrador da presunção de autoridade e submetê-lo à dinâmica interna da obra — na qual ele se sustenta ou cai com base em seu desempenho, em pé de igualdade com os demais personagens e elementos do romance —, Machado radicalizava o jogo estético, não deixando nada imune ao questionamento. O juiz vai a julgamento, o narrador torna-se o narrado, a régua é medida, e todas as regras anteriores em contrário são revogadas. As certezas alcançadas por meio dessa redistribuição de autoridade lançam uma luz distinta — dotada de maior força do que a mera afirmação incontestada, o "porque eu digo que é assim". A audácia de Brás Cubas evidencia — com o brilho incomparável da grande arte — a injustiça que esmaga Dona Plácida, a qual, por sua vez, expõe sua contraparte social: um protótipo de nossos "cidadãos de bem". O que ocorre em um polo repercute com força redobrada no outro. Aqueles que hoje insistem em representações afirmativas de classe, gênero ou raça fariam bem em refletir sobre esse caminho indireto para a conquista de valor.

Dito isso, não abordei o cerne da sua pergunta, que não dizia respeito ao meu ensaio de 1983 em si, mas sim à sua relevância — ou à falta dela — em 2026. Se bem o entendo, você está fazendo o papel de advogado do diabo, questionando se o atual descrédito da análise de classe se estende também ao século passado. Nessa perspectiva, Dona Plácida não encarnaria as injustiças de classe do Brasil oitocentista; ela seria uma empreendedora fracassada, alguém que, por falta de mérito, caiu na pobreza. O absurdo dessa análise "moderna" — na qual existem indivíduos, mas não sociedades — dispensa comentários.

Uma visão geral dessa trajetória poderia ser resumida da seguinte forma. Por volta de 1880, Machado de Assis expôs — com escopo e acerbidade extraordinários — certos abismos sociais inerentes à ordem clientelista que dominava o Brasil. Um século depois, alguns críticos reconheceram a magnitude dessa conquista e buscaram retraçar as linhas gerais desses abismos. Mais uma década se passou e agora — em escala global — a vitória do capital na luta de classes estava selada, celebrada e oficialmente proclamada ("o fim da história"). As classes foram declaradas obsoletas, juntamente com suas respectivas análises. Além disso, essa vitória agora retrocedia no tempo para produzir um passado mais palatável e higienizado, do qual até mesmo a sombra da vida coletiva havia desaparecido. "Não existe essa coisa de sociedade. O que há são homens e mulheres individuais, e existem famílias." Margaret Thatcher dixit, 1987.

Uma característica marcante do seu trabalho é o lugar central que você atribui ao conflito de classes quando este se entretece na trama de uma obra — seja na ficção de Machado de Assis ou de Chico Buarque, nos ensaios de Antonio Candido, na autobiografia de Caetano Veloso ou na poesia de Oswald de Andrade e Chico Alvim. Como você vê a sua relevância crítica hoje? A evolução da sociedade contemporânea o tornou obsoleto?

Peço desculpas ao Conselheiro Acácio, mas ainda vivemos numa sociedade de classes, cujos efeitos negativos não poupam ninguém, apesar da sua constante mudança. As complexidades de como esta sociedade se reproduz, direta ou indiretamente, são de suma importância para a literatura, mesmo que não sejam imediatamente óbvias. Quando uma obra consegue captar seu ritmo e revelar alguns de seus padrões, o resultado é o auge da realização artística. Para o crítico, a convergência entre forma literária e processo social é uma bênção. Uma vez revelada a base histórica das formas literárias, o âmbito do esforço interpretativo muda. O espaço interno da obra pode agora ser explorado como um microcosmo relevante – talvez até como uma representação sem precedentes da experiência histórica.

Isto transforma uma actividade académica remota como a crítica literária numa intervenção social, conferindo um peso quase profético aos seus argumentos, embora de preferência sem perder um saudável sentido de cepticismo. A sua pergunta final, no entanto, põe tudo isto em dúvida. A meu ver, a vitória do capital na luta de classes, que continua a ser a ordem do dia, pode desafiar a justiça poética, mas não extingue o espírito crítico.

Em Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990), você também parece propor uma compreensão específica do realismo. Seria correto dizer que o realismo toma a lógica da vida social e a reconfigura como forma literária?

A comparação do narrador realista a uma câmera prestou um desserviço à discussão crítica. Em qualquer bom romance, a relação entre o narrador e o mundo que ele narra não é mecânica, mas recíproca. Entre a sociedade narrada e a substância social condensada no narrador — sua posição, sua voz, seus recursos literários — existe uma profunda correspondência, uma afinidade oculta que confere à obra tanto sua ressonância quanto sua coerência. São dois polos distintos do mesmo mundo, cada um habitando-o à sua própria maneira.

Naturalmente, a historicidade e as contradições do mundo narrado são mais imediatamente perceptíveis — e mais fáceis de discutir — do que os padrões de comportamento codificados do narrador. No entanto, essas mesmas contradições também existem dentro do narrador, de forma condensada, seja implícita ou explicitamente, e às vezes até mesmo de modo inconsciente. Sob essa perspectiva, é útil pensar no narrador simplesmente como mais um personagem, como um participante do mundo que narra, em pé de igualdade com o restante do elenco. De repente, todo o aparato da técnica narrativa — com sua terminologia intimidadora, especialidade dos professores de teoria literária — torna-se legível como comportamento humano, cujo significado social deixa de ser um mistério. Trata-se de ações, modos de agir, coisas que fazemos uns com os outros ou uns aos outros.

Existem distinções entre o narrador, o mundo narrado e o mundo histórico, mas elas não são absolutas, e cabe ao crítico explorá-las. Visto de outro ângulo, uma vez que o narrador é destronado — despido de sua autoridade oitocentista —, entramos no domínio do romance experimental, sem um centro fixo — ou melhor, sem qualquer ponto de vista privilegiado. Nessa ausência, as perspectivas começam a se dobrar umas sobre as outras, sem uma hierarquia convencional; elas validam e invalidam umas às outras até que — se é que isso acontece — deem origem a algo semelhante a uma verdade interna. Isso pode ser altamente heterodoxo; descobrir seu significado histórico é a tarefa do crítico.

Could you speak more about your sense of the enduring task of the critic?

A luminous discussion of these questions can be found in Antonio Candido’s essay on Aluísio Azevedo’s O Cortiço (1890). Candido’s characterization of the novel’s narrator is closely grounded in the text, but it is enriched by the critic’s own historical experience and intellectual independence. The narrator is revealed as xenophobic, racist and resentful, steeped in scientistic prejudice and disdainful of workers, in keeping with the prevailing culture of a slave society. Beneath the progressive veneer of the frank, fearless naturalist writer Candido reveals a much more dubious social figure – one rife with obscurantist traits, yet highly representative.

The surprise of this analysis, however, is that these lamentable features of the narrator do not diminish the novel; instead, they contribute to its power. The narrator’s convictions, or theses, are refuted in practice by the unbridled capitalist accumulation that drives the plot; this exposes the self-serving emptiness of his beliefs, or rather reconstitutes them as class prejudice – in other words, as ideology. Stripped of its conventional authority by the inner logic of the novel, which always has the last word, the narrative voice itself comes to figure as a problematic part of the reality itself, reshaped by the gravitational pull of the plot. Racism, chauvinism, scientism and contempt for labour are not supressed, but rather repurposed by – and made to serve – class exploitation. Here we see the deliberate as well as inadvertent complexity of realist literature in motion.

The critical findings are considerable: a brutal regime of capital accumulation within a post-colonial context; the intellectual unease generated by naturalism’s racial determinism in a profoundly mixed society such as Brazil; the displacement of racial conflict by class exploitation as the dominant social logic; and the transformation of a conservative, xenophobic and pseudo-radical novel, blind to social injustice, into a highly illuminating work, thanks to the critic’s intervention. To appreciate the originality of this, one need only ask how often literary criticism has yielded new knowledge not only about literature itself, but about the world beyond it.

The interview was conducted by Grupo de Trabalho Literatura e Sociedade. It will appear in the forthcoming Os Pobres na Literatura Ontem e Hoje, which takes up the project of Schwarz’s original collection.

O capitalismo contemporâneo é brutalmente competitivo

Defensores das teorias do "capitalismo político" e do "capital monopolista" argumentam que o capitalismo está estagnado, cada vez mais improdutivo e dominado pela busca de rendas (rent-seeking). Trata-se de diagnósticos equivocados que colocam a estratégia socialista no caminho errado.

Stephen Maher e Scott Aquanno


Trabalhadores preparam pacotes para envio em um centro de distribuição da Amazon na Cyber ​​Monday, em Robbinsville, Nova Jersey, na segunda-feira, 1º de dezembro de 2025. (Michael Nagle / Bloomberg via Getty Images)

Vivemos atualmente sob a forma mais agressiva de capitalismo da história. A circulação global de capitais força os Estados e os trabalhadores neles residentes a competir por investimentos e empregos — o que gera uma desigualdade galopante e corrói as proteções trabalhistas e ambientais. Paralelamente, os investimentos estão em alta, os gastos com P&D crescem, o desenvolvimento tecnológico avança rapidamente e os lucros atingiram patamares históricos. Esse cenário desafia argumentos de longa data segundo os quais a ascensão do setor financeiro estaria "esvaziando" a produção, minando a competitividade e conduzindo ao declínio econômico. Contradiz também, de forma contundente, teorias como as do "capitalismo político", "capitalismo monopolista" e outras formas de rentismo, que retratam o capitalismo como um sistema estagnado, cada vez mais improdutivo ou em uma fase decadente e "tardia".

Em uma série de artigos recentes, contestamos essas interpretações, argumentando que a concentração de capital, a financeirização e o papel crescente do Estado serviram para intensificar o que Anwar Shaikh denomina "concorrência real". Tais argumentos suscitaram respostas de Dylan Riley — que, juntamente com Robert Brenner, desenvolveu a teoria do "capitalismo político" — e de John Bellamy Foster e Brett Clark, editores da Monthly Review e principais expoentes da teoria do capitalismo monopolista. Riley sustenta que o investimento produtivo vem sendo substituído pela acumulação rentista, garantida pelo acesso privilegiado ao Estado, ao passo que Foster e Clark afirmam que a contínua concentração empresarial consolidou ainda mais o capitalismo monopolista.

Ambos os argumentos falham em seu propósito. Riley desvincula a renda (ou o rendimento) das dinâmicas competitivas de produção e distribuição, confundindo corrupção com o surgimento de um novo regime de acumulação. Já Foster e Clark tratam a ausência dos indicadores esperados de monopólio como algo irrelevante, estendendo o conceito de monopólio a ponto de torná-lo, na prática, infalsificável. Apesar de suas divergências, ambos têm dificuldade em conciliar as teorias da estagnação com a realidade de uma acumulação altamente lucrativa e intensamente competitiva — a qual, defendemos, constitui a causa principal das crises sociais, ecológicas e políticas que se desenrolam ao nosso redor.

Capitalismo político

Em um artigo recente na Sidecar, Dylan Riley reiterou seu argumento de que estamos testemunhando a ascensão do que ele e Robert Brenner chamaram de "capitalismo político". Nesse regime, segundo eles, a extração de renda por meio do controle do Estado está superando o investimento produtivo como o principal meio pelo qual a classe dominante acumula riqueza.

Os capitalistas, escreveu Riley, "prefeririam obter lucros por meio da busca de renda (rent-seeking) e da extração política, sem arriscar sua riqueza em investimentos incertos". Além disso, a situação chegou a tal ponto que "a ameaça mais óbvia ao capitalismo hoje não provém da classe trabalhadora, mas, paradoxalmente, dos capitalistas que, com sucesso crescente, descobriram como lucrar por meio da pilhagem em vez do investimento produtivo". Essas observações ecoam as afirmações abrangentes que Brenner e Riley fizeram em outros textos: a de que, "sob o capitalismo político, o poder político bruto — e não o investimento produtivo — é o principal determinante da taxa de retorno".

A concentração de capital, a financeirização e o papel crescente do Estado têm servido para intensificar o que Anwar Shaikh denomina "concorrência real".

Riley iniciou seu artigo na Sidecar insistindo, acertadamente, que a análise deve se concentrar nas "leis de movimento" do sistema. No entanto, como argumentamos em uma crítica publicada na Jacobin, sua própria análise parece desconectada de tal fundamento. A renda que os capitalistas supostamente extraem precisa vir de algum lugar. Assim como o lucro e os juros, a renda é uma reivindicação sobre um montante finito de mais-valia. Ela deriva do controle sobre alguma condição de produção ou circulação que confere a certos capitalistas o poder de se apropriar de riqueza produzida em outro lugar — uma vantagem que não pode ser eliminada pela concorrência. Se o acesso a essa condição estivesse disponível a todos os capitalistas, a renda desapareceria, uma vez que não conferiria mais uma vantagem exclusiva.

Por ser uma reivindicação sobre uma mais-valia finita, a renda não pode se expandir indefinidamente. Na medida em que é deduzida do lucro, ela não pode crescer a ponto de eliminar o incentivo ao investimento produtivo — o que minaria a própria fonte da renda, bem como a reprodução de todo o sistema. A "extração" pode enriquecer capitalistas específicos, mas simplesmente não pode substituir o investimento produtivo como base geral da acumulação. Como resultado, argumentamos que "a análise de Riley sugere, na prática, que o capitalismo está sendo substituído por alguma forma de 'neofeudalismo', à medida que a acumulação de riqueza por meio da 'pilhagem' mina a concorrência e leva à suspensão das 'leis de movimento' do capitalismo".

Em uma discussão um tanto intrigante sobre a renda, feita em resposta às nossas críticas, Riley tenta contornar esse limite à extração separando a captura de renda da dinâmica de acumulação — argumentando que "existem muitas formas de renda que nada têm a ver com mercados e, portanto, não dependem de monopólios". Mas é difícil ver como isso seria possível. O exemplo que ele oferece — contratos governamentais concedidos a aliados políticos de Trump — dificilmente esclarece a questão. Se o acesso privilegiado ao poder estatal confere a certos capitalistas vantagens indisponíveis a outros, permitindo-lhes extrair riqueza da economia produtiva (como afirma Riley), isso parece se enquadrar perfeitamente na definição de monopólio.

Além disso, os contratos estatais têm sido cruciais para a competitividade e a lucratividade das corporações multinacionais dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Deve-se entender tudo isso simplesmente como "renda"? De fato, os gastos estatais desempenham, há muito tempo, um papel central na teoria do capital monopolista. Como argumentamos, se abandonarmos a conexão estabelecida por Karl Marx entre renda e monopólio — como Riley tenta fazer —, o conceito de renda torna-se tão amplo que “o lucro, enquanto categoria distinta, tende a desaparecer completamente na renda”. Como se para comprovar nosso argumento, Riley acaba chegando a uma definição que poderia abarcar praticamente qualquer política fiscal ou monetária estatal.

O argumento de Riley obscurece o fato de que o Estado não constitui uma fonte autônoma de valor, mas redistribui a riqueza produzida em outros âmbitos. Assim, ele não consegue escapar dos limites à expansão da renda que identificamos. Se a renda, a pilhagem e os valores de ativos inflados politicamente não representam reivindicações sobre a mais-valia, então sobre o que incidem? Se são vistos como fontes de riqueza independentes da produção, o argumento abandona a teoria do valor de Marx e transita para um terreno mais próximo do marginalismo neoclássico. Se, contudo, constituem reivindicações sobre a mais-valia, então as questões permanecem exatamente aquelas que levantamos: como o excedente é produzido, como é distribuído e por que essas formas de apropriação poderiam ser compreendidas como um novo regime de acumulação.

Em sua resposta, Riley salta de exemplos vívidos de corrupção política e enriquecimento pessoal da família Trump para uma afirmação muito mais ampla sobre o “capitalismo político”, no qual toda a economia é dominada por um “setor extrativo” indefinido e de contornos imprecisos. Assim como no artigo original da *Sidecar*, ele não identifica em que consiste esse “setor improdutivo, predatório e extrativo”, nem apresenta qualquer evidência de sua relevância econômica global. Apontar casos de corrupção flagrante é, naturalmente, muito diferente de demonstrar que a extração estatal constitui um regime ou uma lógica de acumulação inteiramente novos. No máximo, portanto, Riley identificou um conjunto específico de empresas que lucram por meio de conexões políticas corruptas, do tipo relatado diariamente em notícias como as que ele cita.

A estrutura analítica de Riley tende a retratar o Estado como um instrumento direto de uma oligarquia dominante restrita. No entanto, organizar o poder de uma classe dominante — cujos membros competem entre si e se preocupam primordialmente com seus próprios resultados financeiros, em vez de com uma estabilidade sistêmica ampla — exige que o Estado mantenha certa distância de capitalistas individuais; é o que teóricos marxistas do Estado chamam de "autonomia relativa". O Estado age de maneira capitalista não porque os capitalistas assim o determinam, mas em decorrência de imperativos estruturais. Precisamos de uma teoria mais sofisticada, que não trate o Estado meramente como corrupto ou capturado por interesses privados, mas sim como um Estado capitalista com funções sistêmicas de apoio à acumulação, garantia de legitimidade e exercício de coerção.

Tal teoria esclarece tanto as possibilidades quanto os limites das reformas. Também nos ajuda a compreender como o Estado passou a expressar uma reação conservadora que fundiu a indignação dos trabalhadores com os custos de uma globalização (altamente lucrativa) a receios quanto à imigração e à erosão do patriarcado. Se o capital tivesse prevalecido, Kamala Harris — e não Trump — seria a presidente. A crise política que deu origem a Trump — e que suas ações caóticas no cargo apenas exacerbaram — decorre, em parte, do fato de que o capital não controla o Estado diretamente.

Há outros problemas fundamentais na noção de capitalismo político. Essa estrutura baseia-se na premissa de que a estagnação eliminou as oportunidades de investimento produtivo. Para Brenner e Riley, a crise da década de 1970 jamais foi superada, o que os obriga a tentar justificar — ou minimizar — o boom dos anos 1990, a recuperação pós-2008 e os atuais lucros recordes, bem como os elevados gastos em P&D e os investimentos em larga escala. Contudo, Riley admite que as Big Techs — tipicamente o alvo central das análises sobre "tecnofeudalismo" e capitalismo rentista — são competitivas, investem pesadamente, são tecnologicamente dinâmicas e não auferem rendas de monopólio. Se isso é verdade, parece restar pouco da tese de que "condições de soma zero" implicam que a acumulação só pode ocorrer por meio da extração.

Apontar casos de corrupção flagrante é, naturalmente, muito diferente de demonstrar que a extração estatal constitui um regime ou uma lógica de acumulação inteiramente novos.

Riley retruca que devemos considerar as taxas de crescimento fora do setor de tecnologia. Mas o que isso revela se a teoria só consegue se sustentar ao deixar de lado o setor mais dinâmico da economia? Devemos também ignorar os grandes investimentos em defesa, energia e logística? Mesmo que haja certo excesso de investimento, levando à desvalorização e à concentração de mercado — ou até mesmo a uma possível crise —, isso reflete a dinâmica normal do desenvolvimento tecnológico no capitalismo. Certamente, não indica um sistema esgotado e estagnado.

Capitalismo monopolista

John Bellamy Foster e Brett Clark, em artigo na nova edição da Monthly Review, responderam às críticas que fizemos à teoria do capital monopolista ao avançarem na direção oposta. Enquanto Riley tenta desvincular a renda do monopólio — acabando por adotar uma definição de renda excessivamente ampla —, Foster e Clark propõem uma definição expansiva de monopólio que, na prática, é infalsificável. Ao fazerem isso, eles confirmam nosso argumento central: diante de uma realidade que não se encaixa na teoria, os teóricos do capital monopolista ampliaram a definição de monopólio para acomodar os fatos. Demonstramos que a noção de concorrência real de Shaikh captura a dinâmica do capitalismo corporativo contemporâneo muito melhor do que o conceito de "capital monopolista".

Como mostramos, a teoria do capital monopolista está estreitamente ligada às teorias convencionais de "concorrência imperfeita", nas quais os mercados reais são avaliados em relação ao ideal de "concorrência perfeita" imaginado nos manuais de economia neoclássica. No cerne dessas teorias está a "teoria quantitativa da concorrência", segundo a qual a intensidade da concorrência é vista como resultado direto do número de empresas em um mercado. A concorrência situa-se em um espectro que tem, em um polo, a concorrência perfeita — caracterizada por inúmeras pequenas empresas — e, no outro, o monopólio perfeito — caracterizado por um único vendedor. À medida que os mercados passam a ser dominados por um número menor de empresas maiores, por meio de processos de concentração e centralização, a narrativa sustenta que o capitalismo deixa sua "fase competitiva" e entra em uma "fase monopolista". Na ausência da disciplina concorrencial, o resultado é baixo investimento, estagnação, preços elevados e superlucros.

Em nosso artigo para a Review of Radical Political Economics (RRPE), analisamos o caso da Amazon, frequentemente citada como exemplo emblemático de empresa monopolista. Teóricos do "tecnofeudalismo", por exemplo, sustentam que a Amazon e outras empresas de tecnologia extraem rendas monopolistas substanciais em virtude de seu controle sobre propriedade intelectual, plataformas e dados pessoais. Assim como no caso do "capitalismo político", a capacidade das empresas de tecnologia de extrair renda dependeria da posse de poder de monopólio: o controle sobre algo que confere uma vantagem de mercado que não pode ser eliminada pela concorrência. Caso contrário, lucros acima da média atrairiam investimentos de outros capitalistas, intensificando a concorrência e fazendo com que os lucros retornassem à média social.

Esse processo, pelo qual a taxa de lucro é equalizada concorrencialmente, é central para a teoria da concorrência real. Sob essa ótica, a concorrência não depende do número de empresas em um setor ou de seu porte, mas sim da mobilidade do capital. Grandes corporações, providas pelo grande capital financeiro do poder de fogo necessário sempre que preciso, estão mais bem equipadas para romper barreiras que protegem mercados geradores de retornos acima da média. Nessa perspectiva, a concorrência não é necessariamente enfraquecida à medida que as empresas crescem; pelo contrário, a concentração e a centralização amplificam a força da concorrência, uma vez que a "guerra entre empresas" passa a ocorrer em maior escala.

Como demonstramos, a Amazon precisa competir para atrair vendedores — reduzindo o tempo de rotação do capital e oferecendo acesso ampliado a mercados — e para atrair clientes, oferecendo preços baixos e entregas extremamente rápidas. Consequentemente, a empresa é compelida a maximizar a eficiência, intensificar o ritmo de trabalho, explorar a mão de obra e acelerar a circulação de mercadorias. Um ponto crucial é que também demonstramos que a Amazon não tem obtido, de forma persistente, lucros acima da média. Em nosso artigo recente para a Socialist Register, mostramos que o mesmo ocorre com as outras principais empresas de tecnologia. Em suma, não há evidências de que barreiras à mobilidade do capital tenham suspendido a equalização competitiva das taxas de lucro, como exigem as teorias do tecnofeudalismo ou do capital monopolista.

Foster e Clark não abordam essas evidências, nem nossa análise mais ampla sobre o desenvolvimento da Amazon ou os argumentos específicos dos teóricos do monopólio que criticamos. Em vez disso, eles saltam repetidamente da existência de corporações gigantes para a conclusão de que elas detêm poder de monopólio. Foster e Clark deslocam o foco das taxas de lucro para afirmações genéricas sobre o porte das empresas, concentração, centralidade de plataforma e planejamento estratégico, citando dados sobre concentração corporativa compilados por Foster, Robert W. McChesney e R. Jamil Jonna em 2011. No entanto, tal abordagem pressupõe justamente aquilo que precisa ser demonstrado. A existência de grandes empresas é, obviamente, um fato incontestável; o que questionamos é a afirmação de que a concentração equivale, por definição, a monopólio.

A existência de grandes empresas, naturalmente, não está em questão; o que contestamos é a afirmação de que a concentração equivale inerentemente a monopólio.

Para sustentar esse argumento, Foster e Clark deixam de lado as evidências empíricas para interpretar o que Marx realmente pensava, alegando que ele endossava a teoria quantitativa da concorrência. No entanto, a única passagem do Volume I de O Capital que eles citam foi retirada de seu contexto. A teoria da concorrência de Marx é desenvolvida ao longo dos três volumes de O Capital, e é somente no Volume III que ele examina plenamente o seu funcionamento em todo o sistema. Mesmo a passagem citada por Foster e Clark refere-se a uma situação específica no processo de desenvolvimento capitalista, na qual pequenos capitais — incapazes de atingir a escala mínima de investimento, que é crescente — são excluídos de setores transformados pela indústria moderna e se aglomeram em esferas onde ela penetrou apenas parcialmente. "Aqui", escreve Marx, "a concorrência grassa em proporção direta ao número e em proporção inversa à magnitude dos capitais rivais".

A palavra "aqui" é importante. Como observa Howard Botwinick, Marx está descrevendo a rivalidade desesperada entre numerosos pequenos capitais confinados a uma esfera econômica cada vez mais restrita, e não enunciando uma lei geral. Com o estabelecimento da indústria moderna, contudo, a concorrência passa a operar cada vez mais por meio da escala, do desenvolvimento tecnológico, do aumento da produtividade e da capacidade de ingressar em novos mercados — tudo isso facilitado pelo acesso ao crédito. Apenas algumas frases depois, Marx identifica a tendência mais ampla: "Na medida em que se desenvolvem a produção e a acumulação capitalistas, desenvolvem-se também as duas alavancas mais poderosas da centralização: a concorrência e o crédito". Em outras palavras, a concorrência e o crédito desenvolvem-se paralelamente à acumulação, ao mesmo tempo em que impulsionam a concentração e a centralização.

Foster e Clark nos criticam por não reconhecermos que a rivalidade persiste no capitalismo monopolista — uma característica daquilo que eles denominam "monopólio real". Mas essa é precisamente a questão abordada em nosso artigo na RRPE. Como apontamos, essas teorias reconhecem a rivalidade oligopolística dentro de um sistema de conluio, fixação de preços, estagnação e lucros extraordinários. Contudo, isso não corresponde à realidade do capitalismo moderno. É em resposta a essa realidade que uma nova geração de teóricos do monopólio — de Lina Khan aos defensores do tecnofeudalismo — expandiu o conceito de monopólio para abarcar a própria concorrência. Assim, Khan apresenta a Amazon, de forma célebre, como um "paradoxo": por um lado, é uma empresa gigante que opera em um mercado concentrado, mas, por outro, adota um comportamento aparentemente competitivo. A solução delas é tornar a teoria quantitativa verdadeira por definição: grandes empresas são consideradas monopólios, quer aumentem ou reduzam preços, expandam ou estagnem, invistam ou não. Se abandonarmos a teoria quantitativa, no entanto, o paradoxo também desaparece: a explicação mais simples é que essas empresas estão competindo, exatamente como a teoria da concorrência real preveria.

A resposta de Foster e Clarke confirma em grande parte essa tendência, chegando a creditar Khan como um teórico do "monopólio real". Elas reconhecem que empresas monopolistas competem para reduzir custos e expandir vendas, podendo até investir em escala enorme. Mas é difícil perceber como tal comportamento de "monopólio" pode ser distinguido da concorrência. Como argumentam, lucros elevados contam como evidência de rendas de monopólio, enquanto lucros baixos são atribuídos a uma estratégia de monopólio de longo prazo; o subinvestimento confirma a estagnação do monopólio, e o alto investimento confirma a consolidação do monopólio. Qualquer resultado corrobora a teoria. A distinção decisiva que Foster e Clarke estabelecem entre concorrência real e "monopólio real" é que as empresas monopolistas evitam a redução de preços. No entanto, elas não abordam as evidências que apresentamos de que a concorrência de preços está, de fato, ocorrendo. Tampouco confrontam as implicações de sua própria afirmação: se as empresas estivessem praticando preços de monopólio, deveriam obter lucros acima da média — mas, como demonstramos, isso não acontece.

O único indicador que Foster e Clark apresentam em defesa da tese do capitalismo monopolista é a inflação. No entanto, a inflação não é uma medida de monopólio nem um índice direto da estrutura de mercado. Os preços podem subir devido à demanda e à criação de crédito, aos salários e à luta de classes, a interrupções na oferta e choques cambiais, à política fiscal e monetária e a inúmeros outros fatores. O poder de mercado pode permitir que as empresas mantenham margens de lucro (markups) mais elevadas e, consequentemente, um nível de preços mais alto, mas não consegue explicar uma inflação persistente, a menos que essas próprias margens continuem a aumentar. Portanto, a persistência da inflação não demonstra o desaparecimento da concorrência de preços. O argumento de Foster e Clark falha no nível mais básico: a inflação, por si só, não nos diz se as empresas detêm poder de monopólio, coordenam preços ou permanecem sujeitas à concorrência.

Foster e Clark encerram com uma longa citação de um ensaio de 1981 de Paul Sweezy, a qual, segundo eles, "expõe uma teoria do monopólio real". Contudo, essa passagem estabelece expectativas muito mais definidas do que o conceito elástico de Foster e Clark sugere. A teoria do capital monopolista, escreve Sweezy, confronta-se com as "realidades" do capitalismo maduro: "sobreacumulação e estagnação, capacidade produtiva ociosa e subinvestimento, lucros excedentes e subconsumo". É difícil conciliar isso com o reconhecimento, por parte de Foster e Clark, de que as empresas de tecnologia apresentam investimentos maciços, rápido desenvolvimento tecnológico, expansão da capacidade, reestruturação dos processos de trabalho e ausência de superlucros monopolistas consistentes.

As evidências, portanto, contradizem as tendências identificadas por Sweezy de forma muito mais direta do que Foster e Clark admitem. Em vez de um capitalismo monopolista maduro que escapa à disciplina da concorrência — como Sweezy e Paul Baran teriam esperado —, a Amazon exemplifica a concorrência intensificada prevista por Marx e Shaikh.

Concorrência e lucros

O grande valor político da teoria da concorrência real reside na clareza que ela proporciona sobre a luta por uma alternativa ao capitalismo que seja mais sustentável e democrática. Ao ler a resposta de Foster e Clark, pergunta-se por que é tão importante fazer malabarismos teóricos para fundamentar nossa análise no "capital monopolista". Argumentamos que tratar o mau funcionamento do capitalismo — em vez de seu funcionamento rotineiro — como o problema central pode apontar para uma política restrita de revitalização do capitalismo, em vez de construir as capacidades necessárias para superá-lo. Isso não significa que todo teórico ou agente que tenha invocado o conceito de monopólio — de Che Guevara e Vladimir Lenin a Sweezy e Foster — seja reformista. O problema é que, ao obscurecer o papel central da concorrência como motor da acumulação de capital, da exploração do trabalho e da destruição ambiental, a estrutura teórica do capital monopolista também pode obscurecer a importância fundamental, para a estratégia socialista, de romper com a concorrência.

A Amazon é prejudicial aos trabalhadores não por ser um monopólio, mas por ser uma empresa capitalista implacavelmente competitiva.

A própria resposta de Foster e Clark reflete essa ambiguidade. Por um lado, eles insistem que o monopólio é indissociável do próprio capitalismo e que as políticas anticapitalistas e antimonopolistas estão intrinsecamente ligadas. Por outro lado, apresentam medidas antitruste que intensificariam a concorrência como potencialmente benéficas para os trabalhadores. No entanto, a Amazon já é ferozmente competitiva. Seus preços baixos e entregas rápidas são alcançados por meio de uma pressão implacável para reduzir custos, acelerar a circulação, disciplinar fornecedores e intensificar o trabalho. A Amazon é prejudicial aos trabalhadores não por ser um monopólio, mas por ser uma empresa capitalista implacavelmente competitiva. A automação, a vigilância e a disciplina no trabalho são mais bem compreendidas como armas na luta belicosa entre capitalistas por lucros do que como consequências do poder monopolista. E, como Paul Burkett — colaborador ocasional de Foster — demonstrou de forma contundente, esses mesmos imperativos competitivos impulsionam a destruição ambiental.

Isso ressalta a necessidade de uma transformação sistêmica. A questão, nesse sentido, não é se devemos buscar reformas, mas sim que tipo de reformas deve ser priorizado e por quê. Para os socialistas, a resposta a essas perguntas depende da capacidade de integrar essas ações a uma luta mais ampla para transferir poder aos trabalhadores, construir capacidades democráticas e abrir caminho para além da disciplina do mercado capitalista. Como escreveram Leo Panitch e Sam Gindin, devemos "nos libertar da noção de que é apenas por meio da competitividade que podemos enfrentar o desenvolvimento de nossas capacidades produtivas". De fato, "aceitar a concorrência como objetivo... é desistir do projeto socialista antes mesmo de começar". Isso significa revitalizar e transformar o movimento trabalhista como eixo central de uma política de classe mais ampla e, não menos importante, imaginar e construir instituições capazes de ampliar o controle democrático sobre os investimentos. À medida que a crise climática se acelera, a falha de investidores e estados capitalistas em promover uma transição verde torna mais evidente do que nunca a necessidade de alocar recursos de acordo com as necessidades sociais e ecológicas, em vez de seguir imperativos competitivos de mercado.

Colaboradores

Stephen Maher é professor assistente de economia na SUNY Cortland e coeditor da Socialist Register. É coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock, com Scott Aquanno, e autor de Corporate Capitalism and the Integral State: General Electric and a Century of American Power.

Scott Aquanno é professor assistente de ciência política na Ontario Tech University. É coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock, com Stephen Maher, e autor de Crisis of Risk: Subprime Debt and US Financial Power from 1944 to Present.

25 de junho de 2026

A liberdade americana foi construída sobre uma conquista incessante

Os Pais Fundadores fizeram da expansão a pré-condição da liberdade americana. Devemos encontrar uma alternativa.

Greg Grandin

Jacobin

Ilustração de Marie Mohanna

A Declaração de Independência de 1776 foi, entre outras coisas, a resposta dos colonos à Proclamação Real de 1763. A declaração, redigida por Thomas Jefferson, fez apenas uma referência indireta aos esforços de Londres para dividir a América do Norte, queixando-se de que o Rei George III incitara "os habitantes de nossas fronteiras, os impiedosos selvagens indígenas", a fazer guerra contra os colonos. No entanto, dois anos antes, em um de seus primeiros escritos políticos, Jefferson havia condenado claramente a tentativa da Coroa de restringir a migração. "A América foi conquistada", escreveu Jefferson em A Summary View of the Rights of British America, por seus colonos,

à custa de indivíduos, e não do público britânico. O próprio sangue deles foi derramado na aquisição de terras para o assentamento, suas próprias fortunas foram gastas para tornar esse assentamento viável; por si mesmos lutaram, por si mesmos conquistaram e apenas por si mesmos têm o direito de possuí-las.

A Summary View sintetiza um argumento — particularmente popular entre os rebeldes da Virgínia nos anos que antecederam a Revolução Americana — de que o ideal de liberdade moderna, fundamentado nos direitos de propriedade, remonta a séculos atrás, à Alemanha saxônica. Foi lá, nos primeiros séculos do milênio, que homens livres se autogovernaram pela primeira vez como iguais, detendo terras "por direito absoluto", nas palavras de Jefferson. Quando senhores do Velho Mundo tentaram restringir seus direitos, esses precursores saxões da liberdade americana fugiram, primeiro para a Grã-Bretanha e depois para o Novo Mundo.

Dos saxões para a Grã-Bretanha, dos britânicos para a América, dos americanos para o oeste. Se Benjamin Franklin, no início da década de 1750, havia fornecido uma argumentação convincente de economia política para justificar a expansão em direção às terras selvagens, Jefferson agora oferecia aos colonos uma história moral, juntamente com uma analogia útil para expressar suas queixas. Assim como os senhores normandos, após a invasão das Ilhas Britânicas em 1066, pisotearam os direitos dos homens livres saxões e impuseram o "jugo" do feudalismo sobre seus pescoços, George III também estava violando os direitos de seus descendentes virginianos.

Era uma "lei universal", disse Jefferson — uma lei que a "natureza" havia "concedido a todos os homens" —, que conferia a seus "ancestrais" o direito de deixar seu país de origem e partir "em busca de novas moradias e para estabelecer ali novas sociedades". Para Jefferson, a capacidade de migrar não era apenas um exercício de direitos naturais, mas a própria fonte dos direitos — ou, pelo menos, a condição historicamente necessária para eles. A liberdade tornava-se possível graças ao direito de colonizar, permitindo que homens livres, quando sua liberdade estivesse ameaçada, partissem em busca de terras livres e levassem consigo a tocha da liberdade de um lugar para outro. Nossos "ancestrais saxões", escreveu Jefferson, "deixaram suas terras selvagens e florestas natais no norte da Europa" e "tomaram posse da ilha da Grã-Bretanha". Ao fazê-lo, nenhum príncipe alemão ousou reivindicar "superioridade" sobre eles. Com base em que lei, então, a Coroa ousava reivindicar superioridade sobre os colonos que povoavam "as terras selvagens da América"?

A Revolução Americana respondeu: nenhuma. As hostilidades entre a Grã-Bretanha e seus antigos súditos coloniais terminaram formalmente em 1783, com a assinatura do Tratado de Paris; o documento, ao estabelecer os termos da derrota de Londres, fixou a fronteira ocidental da nova república no rio Mississippi. A nova nação surgiu no mundo com o dobro de seu tamanho original. No primeiro artigo do tratado, o rei George reconheceu a independência das treze colônias originais e, no segundo, cedeu-lhes o território situado entre as Montanhas Allegheny e o Mississippi. Em seguida, os Estados Unidos avançaram rapidamente — como se não tivessem peso, nas palavras de Octavio Paz — em direção ao Oeste. "Os números aumentam enquanto escrevemos", disse Jefferson em 1786, referindo-se aos colonos que se dirigiam ao Kentucky.

Quando um europeu certa vez insistiu com Benjamin Franklin que os americanos morriam jovens, Franklin respondeu que “os filhos dos primeiros colonos ainda não morreram!”

O futuro presidente estava ali para corrigir uma opinião europeia então em voga, segundo a qual o Novo Mundo não era pródigo, mas sim degenerativo. Dizia-se que seu solo era pobre, seus animais, raquíticos, e sua gente — tanto os nativos quanto os europeus ali estabelecidos — carecia de vitalidade, mal conseguindo reunir forças para se reproduzir. Jefferson e outros rebatiam tais argumentos ressaltando o vigor, a abundância e a fertilidade da América, evidenciados pelas altas taxas de natalidade e baixas taxas de mortalidade. Esse otimismo se refletiria mais tarde na ideia de que a natureza era ilimitada e de que a fronteira serviria como um lugar de perpétuo renascimento. Certa vez, quando um europeu insistiu junto a Benjamin Franklin que os americanos morriam jovens, Franklin respondeu: "Os filhos dos primeiros colonos ainda não morreram!"

É apropriado que uma linha traçada ao longo do meio do Mississippi tenha servido, por um breve período, como a fronteira ocidental dos Estados Unidos, pois o rio transmite uma ilusão de imutabilidade quando, na verdade, está em constante fluxo, em um estado perpétuo de criação. Era "o rio mais sinuoso do mundo", escreveu mais tarde Mark Twain, dando "saltos prodigiosos ao cortar estreitos istmos de terra e, assim, endireitando e encurtando a si mesmo". Os diplomatas americanos aproveitaram essa mutabilidade para defender uma interpretação mais liberal do Tratado de Paris. Os britânicos ainda controlavam o Canadá, mas era a Espanha — que, nas décadas de 1780 e 1790, controlava a maior parte das terras a oeste do Mississippi, bem como a Flórida — que se interpunha no caminho da nova nação.

Jefferson, então Secretário de Estado, e seus diplomatas começaram a exigir de Madri o direito de os navios americanos atracarem na margem oeste do Mississippi (que, segundo o Tratado de Paris, era território espanhol), uma vez que, naquela época anterior à navegação a vapor, navegar em zigue-zague de uma margem à outra era a melhor maneira de subir o rio. "É", disse ele, "um princípio que estabelece que o direito a uma coisa confere o direito aos meios sem os quais ela não poderia ser utilizada; isto é, os meios acompanham a finalidade". Tal princípio, afirmou Jefferson à Espanha, não passava de "razão natural", o "senso comum da humanidade". As autoridades espanholas reconheceram nessa reivindicação de direito de passagem um pretexto para outras ambições. Os Estados Unidos trabalhavam, então, para revisar os termos do Tratado de Paris, pleiteando a liberdade de utilizar e — implicitamente — de colonizar e administrar todos os rios navegáveis ​​que desaguavam no Mississippi, bem como todas as vias terrestres que conectavam os afluentes navegáveis. Tratava-se de uma vasta extensão territorial, visto que a bacia do Mississippi — o quarto maior sistema fluvial do mundo — estende-se por mais de um milhão de milhas quadradas. James Madison, na qualidade de Secretário de Estado de Jefferson, também pressionaria pelo acesso a todas as vias navegáveis ​​da Flórida. "A livre comunicação com o mar", insistia Madison, "é algo tão natural, tão razoável e tão essencial que, inevitavelmente, terá de se concretizar".

Onde iriam parar essas exigências?, quis saber o governador espanhol de Nova Orleães, o barão de Carondelet. Em breve, advertiu Carondelet, os Estados Unidos usariam o pretexto da “livre navegação” para dominar “o rico comércio de peles do Missouri e, com o tempo, a posse das ricas minas das províncias do interior do próprio Reino do México”. A Espanha, em resposta, tentou implementar uma política de contenção. “Temos que descobrir uma maneira de contê-los”, disse um dos seus governadores coloniais sobre os colonos anglo-americanos. “Temos que conter os americanos dentro dos seus limites”, escreveu outro.

Mas os Estados Unidos eram incontroláveis. Nada, escreveu Carondelet, poderia impedir o seu “modo de crescimento”. Os colonos estavam “multiplicando-se no silêncio da paz” que veio depois da Revolução Americana, disse o barão, e, tendo invadido o Vale do Ohio e o Kentucky, resistiram a “toda autoridade”. Quando eles “se cansam de um lugar, eles se mudam para outro”.

Os Estados Unidos eram irrefreáveis. Nada, escreveu Carondelet, poderia conter seu "modo de crescimento".

Muito além de qualquer definição abrangente relacionada ao Mississippi, uma infinidade de indivíduos e instituições — veteranos que receberam terras como recompensa por terem lutado na Guerra dos Sete Anos, especuladores, colonos que haviam comprado terras da Espanha ou da França, empresas imobiliárias e muitos dos treze estados originais — reivindicavam territórios a oeste. Com base em suas antigas cartas coloniais, a Geórgia, a Carolina do Norte, a Carolina do Sul e a Virgínia, por exemplo, alegavam que seus territórios se estendiam até o Pacífico. "As terras de um mar a outro" era como a carta da Virgínia, concedida no início do século XVII, definia seu território. "Todo aquele espaço", dizia a carta.

Os Estados Unidos utilizaram essas diversas reivindicações — de maneiras variadas, conforme as circunstâncias — para avançar. Em outras palavras, os Estados Unidos conquistaram a independência da Grã-Bretanha em uma guerra revolucionária travada, entre outros motivos, para negar à Grã-Bretanha o direito de estabelecer uma fronteira a oeste; depois, uma vez reconhecida a independência pelo Tratado de Paris — que estabelecia uma fronteira ocidental —, os Estados Unidos invocaram concessões anteriores feitas pela própria Grã-Bretanha para ultrapassar essa fronteira. O que fazer com todo aquele espaço?
Imensidão e virtude

Benjamin Franklin tinha uma ideia: na década de 1750, ele havia esboçado uma economia política rudimentar que apresentava as terras abundantes, acessíveis e férteis do continente como uma válvula de escape — uma forma de garantir que as famílias pudessem crescer, os salários permanecessem altos, a demanda acompanhasse a oferta e a produção agrícola se harmonizasse com a manufatura urbana. Na década de 1770, Thomas Jefferson ofereceu aos colonos uma filosofia moral histórica, afirmando que o movimento deles em direção ao oeste não era apenas fruto da liberdade, mas a própria fonte dela. Finalmente, na década de 1780, James Madison apresentou uma teoria política.

Quando os Estados Unidos começaram a redigir uma constituição em 1787, muitos delegados, apesar das exaltações de Franklin e Jefferson ao crescimento, preocupavam-se com a dimensão territorial. Eles temiam os vícios que acompanham a imensidão. O Império Espanhol era vasto; vastos também eram o despotismo e a corrupção espanhóis. A filosofia política vigente na época — herdada tanto dos antigos, como Aristóteles e Cícero, quanto dos modernos, como Nicolau Maquiavel, Jean-Jacques Rousseau e Montesquieu — sustentava que as repúblicas eram flores delicadas que só podiam ser cultivadas em pequenos jardins. "É da natureza de uma república possuir um território pequeno; caso contrário, dificilmente poderá subsistir", ensinou Montesquieu em sua obra de 1748, O Espírito das Leis. "Em uma grande república, o bem comum é sacrificado a mil considerações." A definição de "bem comum" dependia da perspectiva, mas a maioria dos republicanos o definia como algo maior do que a soma dos interesses individuais. O que os republicanos chamavam de virtude podia estar associado à cultura, religião, sangue, cor da pele, idioma ou coragem guerreira; contudo, em todos os casos, tratava-se de um valor transcendente, situado acima das ambições e paixões pessoais. De fato, como escreveu Montesquieu, a virtude estava constantemente ameaçada por essas ambições e paixões, sendo "sacrificada a mil considerações". É por isso que muitos filósofos anteriores a Madison acreditavam que a imensidão e a virtude eram contraditórias. As repúblicas não podiam ser, ao mesmo tempo, grandes e boas, ambiciosas (em tamanho) e virtuosas. Um território vasto demais implicava excesso de ambições e paixões, excesso de "considerações".

Os Estados Unidos conquistaram a independência da Grã-Bretanha numa guerra revolucionária que foi travada para negar à Grã-Bretanha o direito de estabelecer uma fronteira ocidental.

Para Madison, as limitações de tamanho propostas por Montesquieu eram inviáveis. Os Estados Unidos já eram extensos e continuavam a crescer. Além disso, havia uma infinidade de ideias aparentemente inconciliáveis ​​— defendidas por comerciantes, agricultores e proprietários de escravos — sobre como definir a virtude. Madison concebeu uma maneira de harmonizar essas visões, propondo uma revisão em duas etapas da teoria republicana vigente, uma solução tão simples quanto elegante. Primeiramente, ele argumentou que as "mil considerações" de Montesquieu não ameaçavam o bem comum; elas *eram* o próprio bem comum. O *Federalista nº 10*, de Madison, publicado em novembro de 1787, apresentava uma visão de sociedade notavelmente moderna, rejeitando a concepção de republicanismo que, em nome da virtude, buscava suprimir o que ele chamava de "diversidade". Em vez disso, Madison propôs um ideal que definia a virtude como a própria diversidade — isto é, a infinidade de impulsos, opiniões, desejos, talentos, pensamentos, ambições e capacidades da sociedade que geram riqueza, ou "propriedade". E proteger essa diversidade geradora de riqueza constituía o "primeiro objetivo" do governo, sua obrigação primordial.

Ao mesmo tempo, Madison reconhecia que a riqueza poderia corromper a virtude ao dividir a sociedade em facções antagônicas: "aqueles que possuem e aqueles que nada têm". Outros participantes da elaboração da Constituição também reconheciam o desafio que a riqueza representava para o bem-estar geral. "Os ricos tentarão estabelecer seu domínio e escravizar o restante da população", pensava Gouverneur Morris, representante da Pensilvânia na Convenção Constitucional. "Sempre fizeram isso", dizia ele, "e sempre farão". No entanto, as soluções que propunham eram complexas e de difícil implementação: confiscar propriedades a cada geração para impedir a formação de uma aristocracia; criar uma Câmara dos Comuns e uma Câmara dos Lordes, servindo uma de contrapeso à outra; ou garantir uma distribuição equitativa de terras entre todas as famílias. Jefferson chegou a cogitar brevemente a ideia de "subdividir" a propriedade para evitar o surgimento de uma classe de trabalhadores assalariados empobrecidos.

Madison apresentou uma solução mais simples, que constituía a segunda etapa de sua revisão das ideias de Montesquieu: "Ampliar a esfera". Na época da redação da Constituição, a palavra "esfera" era utilizada para descrever diversas questões ligadas à política, incluindo o tamanho da população de uma nação, o número de pessoas com direito a voto e a extensão de suas relações comerciais. No entanto, no *Federalista nº 10*, Madison empregou o termo para se referir à dimensão bruta, ao território e ao espaço físico. Não apenas uma república grande, mas uma república em constante expansão, diluiria a ameaça de conflitos políticos e do faccionalismo. Cidadãos dispersos por um vasto território teriam menos probabilidade de se unir em torno de um "interesse ou paixão comum", de se tornarem "unidos e impulsionados" por objetivos compartilhados, ou de "descobrir sua própria força e agir em uníssono". A expansão fragmentaria a sociedade "em uma variedade maior de interesses e paixões, que serviriam de contrapeso uns aos outros". Isso impediria a concentração de poder, tornando desnecessária a intervenção governamental — seja para regular a riqueza concentrada ou para reprimir movimentos organizados em oposição a ela. "Amplie a esfera", escreveu Madison, "e você abarcará uma variedade maior de partidos e interesses", dificultando que uma maioria turbulenta ou uma minoria tirânica se unisse "para violar os direitos de outros cidadãos".

Independentemente da posição de cada um nos debates da época (especialmente o debate sobre a escravidão) ou da compreensão filosófica sobre a relação do republicanismo com a terra, o comércio, as finanças e o trabalho, havia um consenso quanto aos aspectos práticos. Todos queriam remover a Espanha da região do Mississippi; todos desejavam ter capacidade para pacificar povos indígenas hostis e reprimir revoltas das camadas mais pobres; e todos queriam que a Grã-Bretanha deixasse de obstruir seu comércio. Todos buscavam "espaço suficiente" — como diria Thomas Jefferson em seu discurso de posse de 1801 — para se protegerem da "devastação exterminadora" da Europa.

A expansão tornou-se a resposta para todas as perguntas e a solução para todos os problemas — inclusive, e principalmente, para aqueles causados ​​pela própria expansão.

Colaborador

Greg Grandin é professor de história na Universidade Yale. É autor de sete livros, incluindo The End of the Myth: From the Frontier to the Border Wall in the Mind of America — vencedor do Prêmio Pulitzer — e Empire's Workshop: Latin America, the United States, and the Making of an Imperial Republic, relançado em uma nova edição atualizada em brochura em 2021.

Lula pode acabar impedindo o filho de Bolsonaro de chegar ao poder

Durante boa parte do ano, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente do Brasil, parecia estar ganhando terreno sobre Lula na corrida para as próximas eleições gerais. No entanto, uma combinação de políticas redistributivas e incompetência da direita devolveu a liderança ao atual ocupante do cargo.

Alex MacArthur


Ao interferir na política e nas questões de segurança interna do Brasil, Washington deu a Lula argumentos para retomar uma campanha poderosa baseada na soberania. (Evaristo Sa / AFP via Getty Images)

No domingo, 21 de junho, Abelardo de la Espriella — um outsider de extrema-direita que defende uma linha dura contra o crime — conquistou uma vitória apertada nas eleições da Colômbia, obtendo 49,7% dos votos contra 48,7% do esquerdista Iván Cepeda. O país parece pronto para virar as costas para o único governo de esquerda que, possivelmente, já elegeu. Esse resultado marca a mais recente guinada à direita em uma onda que varre a América Latina, impulsionando nomes como Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Daniel Noboa no Equador, Rodrigo Paz na Bolívia e, neste mês, a provável vencedora no Peru, Keiko Fujimori — filha do ditador Alberto Fujimori.

Durante meses, parecia que essa mesma onda também atingiria o Brasil, que elege seu líder em outubro. Disputando a eleição contra Flávio Bolsonaro — filho e herdeiro político do ex-presidente preso Jair Bolsonaro —, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores e aos 80 anos de idade, viu sua vantagem, antes expressiva, derreter: caiu de dois dígitos no final de 2025 para 7 pontos, depois para 5 e, em março, chegou a um empate técnico. Em abril, uma pesquisa do Datafolha colocou Flávio ligeiramente à frente pela primeira vez.

No entanto, no último mês, a sorte de Lula mudou, em grande parte devido a uma série de intervenções desajeitadas de Washington, que tem buscado exercer maior influência na América Latina. Em 28 de maio, dois dias depois de os irmãos Bolsonaro terem sido recebidos na Casa Blanca, o Departamento de Estado tomou medidas para classificar as duas maiores organizações criminosas do Brasil — o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho — como "organizações terroristas estrangeiras"; essa é a mesma designação usada para justificar dezenas de ataques extrajudiciais contra supostos traficantes de drogas venezuelanos e colombianos no Caribe. Ao passar por cima do Estado brasileiro em uma questão de segurança interna — e fazê-lo a pedido expresso do principal rival eleitoral do atual presidente —, Washington deu a Lula os argumentos necessários para retomar uma campanha poderosa baseada na defesa da soberania nacional.

Trata-se de uma estratégia retórica conhecida e que, para Lula, sempre rende bons frutos. No verão passado, quando Donald Trump tentou prejudicar o processo contra Jair Bolsonaro impondo tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, a popularidade de Lula disparou, superando sua taxa de rejeição pela primeira vez desde o final de 2024, à medida que ele mobilizava eleitores contra o que muitos brasileiros consideram um imperialismo americano moderno.

A narrativa de que a família Bolsonaro atua a mando de Washington ganhou ainda mais força na semana passada, quando o Supremo Tribunal condenou Eduardo Bolsonaro — que reside nos EUA — à revelia a quatro anos e dois meses de prisão por fazer lobby junto aos Estados Unidos para que impusessem sanções a juízes de seu próprio país devido ao processo contra seu pai. A posição de Lula, no entanto, fortaleceu-se de forma ainda mais dramática quando, quatro dias depois, a autoridade comercial dos EUA apontou o Pix — sistema estatal brasileiro de pagamentos instantâneos — como uma prática desleal que prejudicava as empresas americanas de cartão de crédito, sugerindo a imposição de tarifas de 25% como resposta.

A medida não poderia ter sido mais comprometedora para Flávio. O Pix, lançado durante o governo de seu pai, Jair, é um elemento muito apreciado da infraestrutura nacional: gratuito, instantâneo e utilizado diariamente por dezenas de milhões de pessoas. O sistema é tão popular que, no início de 2025, uma onda de desinformação de extrema-direita — alegando que o governo Lula pretendia taxá-lo — fez com que a popularidade do presidente caísse para o nível mais baixo de seu mandato.

As tentativas de Washington de pressionar Brasília não apenas deram a Lula uma arma nacionalista contra seus oponentes, como também ofereceram ao poderoso setor conservador do agronegócio brasileiro mais um motivo para se aproximar da China. Apenas um dia depois de os Estados Unidos anunciarem sua mais recente ameaça tarifária, a agência alfandegária chinesa reconheceu todo o território brasileiro como livre de doenças bovinas, suspendendo restrições que vigoravam desde o início dos anos 2000. A recompensa é significativa, visto que o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e a China já compra cerca de metade do volume exportado pelo país. Enquanto Washington optava pelo "porrete", Pequim — que naquele exato momento recebia o chanceler Mauro Vieira para um "diálogo estratégico" — oferecia a "cenoura".

Seria um erro, contudo, atribuir a recuperação de Lula apenas aos equívocos de Washington. Seu melhor mês no cargo também deve muito a um novo escândalo envolvendo seu principal rival. Em meados de maio, o Intercept publicou mensagens vazadas indicando que Flávio havia solicitado cerca de US$ 24 milhões a Daniel Vorcaro — o banqueiro hoje preso por trás do Banco Master, que faliu — para financiar um filme elogioso sobre seu pai.

As fontes mais sólidas de aprovação, no entanto, podem ser inteiramente internas. A reforma do imposto de renda que Lula sancionou em novembro e que entrou em vigor em janeiro isenta cerca de 15 milhões de brasileiros de parte ou de todo o imposto de renda, ao mesmo tempo em que aumenta a conta para apenas cerca de 141 mil dos contribuintes de maior renda. Essa é apenas uma das muitas mudanças concretas e populares de política implementadas durante seu mandato.

As pesquisas mais recentes agora parecem indicar uma liderança confortável para Lula, pela primeira vez em uma disputa que vinha sendo acirrada. Ainda assim, restam quatro meses, e trata-se de uma competição que já sofreu reviravoltas anteriormente. O que se pode dizer, por ora, é que as tentativas de Washington de intimidar o Brasil e impulsionar seu candidato preferido saíram, até o momento, pela culatra — isso, é claro, se é que tais tentativas foram deliberadas desde o início. Questionado recentemente se era admirador do presidente brasileiro, Trump respondeu: "Não penso nele, para ser sincero. Na verdade, não penso nele. Estou pouco me lixando".

Colaborador

Alex MacArthur é pesquisador e redator freelancer, atualmente cursando mestrado em história econômica e social na Universidade de Cambridge.

Contornos provisórios

Sobre o Líbano.

Nasser Elamine




Ao longo da guerra entre os EUA/Israel e o Irã, o Líbano revelou-se o obstáculo mais difícil de superar para um acordo duradouro. Durante todo o conflito, o país foi o principal palco de disputa entre Israel e Irã pela definição de suas posições na ordem regional. Após a entrada do Hezbollah na guerra, em 2 de março, Israel iniciou uma incursão aérea e terrestre brutal no sul do Líbano, que deixou mais de 4.000 mortos e provocou o deslocamento de mais de um milhão de pessoas — quase um quinto da população. A campanha israelense concentrou-se na destruição de infraestrutura civil e na expansão de sua ocupação: a chamada "zona de segurança", cuja extensão é estimada atualmente em cerca de 608 quilômetros quadrados.

Netanyahu considera a vitória no Líbano necessária para impedir que o Irã reconstrua o Hezbollah e, ​​com isso, restaure um pilar fundamental de sua capacidade de dissuasão. Teerã, por sua vez, insistiu que a interrupção da ofensiva contra o Líbano fosse uma condição para encerrar a guerra regional. Isso parecia ter sido ratificado com a assinatura do Memorando de Entendimento em 14 de junho, encerrando oficialmente os combates em todas as frentes. No entanto, os ataques israelenses continuaram até que um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah fosse acordado em 19 de junho — sob a supervisão de Teerã, Washington e Doha —, o qual permanece em vigor até o momento em que este texto é escrito.

Netanyahu, que passou décadas pressionando administrações dos EUA a se unirem a Israel em um ataque ao Irã, certamente sabia que dispunha de uma janela de oportunidade restrita para desferir um golpe decisivo antes que surgissem conflitos de interesse. Trump vinha sofrendo crescente pressão interna para encerrar uma guerra que abalou os mercados globais, elevou os preços dos combustíveis e desgastou seus índices de aprovação. Tensões no próprio Líbano complicaram ainda mais a situação. A coalizão de Nawaf Salam, que assumiu o poder em fevereiro de 2025, fez do desarmamento do Hezbollah o ponto central de seu programa. Sob orientação do presidente Joseph Aoun, o governo iniciou negociações diretas com Israel na tentativa de contornar a influência iraniana e garantir o apoio dos EUA. O Hezbollah, por sua vez, entrou na guerra buscando a retirada israelense do sul e a restauração de seu prestígio interno e regional; o desarmamento não era uma concessão que o grupo estivesse disposto a considerar.

O Memorando de Entendimento acordado em Islamabad foi amplamente visto em Israel como um fracasso histórico. Isso ocorre não apenas porque o acordo impôs restrições significativas às operações militares israelenses no Líbano e expôs a crescente divergência entre Washington e Tel Aviv. Ele também simboliza a falha de Israel em consolidar as conquistas dos últimos três anos e em converter a dominância militar em vantagem política. Antes de fevereiro, Israel vinha avançando na remodelação do Oriente Médio como sua própria esfera de influência — o núcleo estratégico do conceito de "Grande Israel" — e projetando poder sem encontrar resistência; seu alcance estendia-se muito além do Levante, com ataques ao Ansarullah no Iêmen, bombardeios ao Catar e a deflagração de hostilidades contra o Irã em junho de 2025, culminando em um ataque dos EUA a instalações nucleares iranianas. A República Islâmica forçou Israel a suportar golpes severos e a recorrer aos sistemas de defesa antimísseis dos EUA e da Europa durante a "Guerra dos Doze Dias"; contudo, saiu do conflito aparentemente mais frágil do que nunca. A região parecia estar entrando em uma era de hegemonia israelense, o que implicaria liberdade de ação em toda a região, normalização de relações com os Estados árabes e, futuramente, uma redução da dependência financeira e militar em relação aos EUA.

No Líbano, por sua vez, o Hezbollah fora forçado a recuar após sofrer uma derrota devastadora pelas mãos de Israel no final de 2024, a qual eliminou a maior parte da alta cúpula militar do grupo, incluindo Hassan Nasrallah e seu segundo no comando, Hashem Safieddine. Enfraquecido, o grupo concordou com um cessar-fogo em novembro que permitiu a Israel manter presença militar ao norte da "Linha Azul", aguardando uma retirada gradual; nos quinze meses seguintes, as Forças de Defesa de Israel (FDI) realizaram uma série de ataques que deixaram pelo menos 500 libaneses mortos. Paralelamente, o governo Salam instruiu o exército libanês a desmantelar a infraestrutura do Hezbollah ao sul do rio Litani. Partindo da premissa de que a queda de Assad na Síria representava o fim da influência regional do Irã, o governo alinhou-se aos EUA; enviados americanos tornaram-se presenças frequentes em Beirute. O gabinete de Salam (com exceção dos ministros xiitas), juntamente com a maioria da classe política libanesa, passou a isolar politicamente o Hezbollah, responsabilizando-o integralmente pela destruição e ocupação do sul do Líbano por parte de Israel.

No entanto, o Hezbollah passou o último ano reconstruindo suas capacidades militares, reorganizando sua estrutura de liderança e voltando sua estratégia de combate para táticas de guerrilha. O objetivo não era mais manter posições contra um adversário tecnicamente superior, mas sim dificultar o estabelecimento de bases por parte de Israel. Drones guiados por cabos de fibra óptica — inspirados em desenvolvimentos na Ucrânia — ofereceram um meio de escapar dos dispositivos de guerra eletrônica e de interferência de sinal (jamming), avaliados em bilhões de dólares, das forças israelenses.

Israel intensificou sua ofensiva à medida que as negociações entre EUA e Irã avançavam. Incomodado com a notícia de um cessar-fogo em 8 de abril e ciente de que o tempo estava se esgotando, Israel lançou uma ofensiva brutal contra 150 locais no Líbano, matando 303 pessoas e ferindo outras 1.105. Em 14 de abril, Washington sediou as primeiras negociações diretas entre Israel e o Líbano, com o objetivo de desvincular as frentes iraniana e libanesa. Um cessar-fogo entrou em vigor alguns dias depois, mas, na prática, limitou-se a excluir Beirute dos ataques — uma situação que Israel aproveitou para impor uma nova dinâmica no campo de batalha: qualquer ataque a seus assentamentos no norte provocaria um ataque à capital libanesa; o Irã prometeu atacar o norte de Israel em resposta. Apesar do cessar-fogo formal, no final de maio, Israel bombardeou infraestruturas no sul do Líbano e realizou incursões terrestres ao norte da "zona de segurança". Frustrado com os ataques de drones do Hezbollah, que haviam matado pelo menos 11 soldados israelenses, Israel tentou, em 7 de junho, desafiar o Irã (testando se Teerã estava blefando) ao atacar um prédio nos subúrbios ao sul de Beirute, matando duas pessoas. O Irã retaliou imediatamente, minando as já frágeis negociações entre Líbano e Israel e reforçando a unidade das frentes de combate.

As ambições regionais de Israel foram efetivamente interrompidas por enquanto. Sua aposta de que o regime iraniano e o Hezbollah cederiam sob a pressão do conflito e da crescente oposição interna não se concretizou. Em vez disso, o Irã emergiu em uma posição estratégica mais forte, a qual agora tenta capitalizar nas negociações na Suíça. A inclusão do Líbano no Memorando de Entendimento (MOU) — segundo o qual os signatários devem "garantir" a soberania e a integridade territorial do país — é um indicador do poder de barganha de Teerã. No entanto, a redação do documento não chega a exigir explicitamente uma retirada israelense. Netanyahu deixou claro que Israel não tem intenção de se retirar de sua "zona de segurança" antes de ter "garantido a segurança" de seus assentamentos no norte. As Forças de Defesa de Israel (FDI) continuaram a realizar ataques após o acordo de Islamabad, deslocando habitantes do sul que haviam começado a retornar às suas aldeias e matando dezenas de civis. O Irã, plenamente ciente da capacidade de Israel de minar a diplomacia, respondeu primeiro adiando as negociações com os EUA previstas para 19 de junho e, em seguida, fechando o Estreito de Ormuz quando Israel violou outro cessar-fogo acordado em 20 de junho. Poucas horas depois, Tel Aviv finalmente concordou com mais um cessar-fogo.

Israel agora planeja aproveitar as negociações em curso com o governo libanês para legitimar sua presença no sul. Eles concordaram em estabelecer "zonas-piloto" onde o exército libanês, sob supervisão dos EUA, ficará encarregado de desmantelar a infraestrutura militar do Hezbollah — embora as forças armadas libanesas, mal equipadas e pouco preparadas, não consigam fazê-lo sem pelo menos um acordo implícito do próprio grupo. No entanto, os planos de Israel podem ser complicados por um mecanismo de prevenção de conflitos acordado entre o Irã e os EUA no último fim de semana, que supostamente inclui a participação do Catar e do Paquistão, mas não de Israel. Os detalhes de como tal mecanismo funcionaria na prática ainda não foram revelados, mas espera-se que Israel tenha de informar o grupo de monitoramento sobre qualquer possível atividade militar. É provável que o país rejeite essa estrutura e pressione os EUA para que não avancem com ela, ao mesmo tempo em que busca, potencialmente, arranjos alternativos com o governo libanês.

Nos próximos meses, Israel buscará qualquer oportunidade para minar o processo de negociação entre EUA e Irã e retomar as operações. Netanyahu enfrenta uma perda acentuada de popularidade entre os eleitores israelenses; a maioria deles acredita, segundo relatos, que ele não deveria concorrer nas próximas eleições gerais. A sociedade israelense vê qualquer retirada do Líbano como uma derrota; 92% acreditam que o Irã venceu a guerra, enquanto 72% não acreditam nas afirmações do primeiro-ministro de que Israel obteve ganhos significativos e eliminou uma ameaça existencial. Como indica um relatório de inteligência dos EUA, tal pressão pode muito bem levar Netanyahu a reativar a frente libanesa.

Se isso acontecer, o próximo alvo de Israel provavelmente será Ali al-Taher, uma cadeia de colinas que se estende até as encostas ocidentais de Jabal Amel, no sul do Líbano, onde ocorreram confrontos violentos nos dias que antecederam o cessar-fogo. (As Forças de Defesa de Israel divulgaram recentemente um mapa que situa a área dentro de sua zona de segurança.) O controle dessas colinas estratégicas daria ao exército israelense uma posição vantajosa sobre a cidade de Nabatieh e as terras altas de Iqlim al-Tuffah, onde Israel afirma que o Hezbollah mantém uma grande base operacional e uma infraestrutura militar profunda. A destruição dessa infraestrutura, segundo fontes israelenses, privaria o grupo da capacidade de resistir às forças terrestres de Israel. Netanyahu e outros membros de seu gabinete podem avaliar que garantir o controle de Ali al-Taher lhes permitiria apresentar a Trump um plano suficientemente convincente para derrotar o Hezbollah de forma decisiva. Tal desfecho enfraqueceria substancialmente a posição de negociação do Irã e, possivelmente, o forçaria a fazer concessões dolorosas que Trump poderia então alardear como uma vitória absoluta.

O Hezbollah, por sua vez, compreende que um fim duradouro para a guerra depende da percepção americana de que o grupo permanece militarmente invicto e de que o Irã mantenha o máximo poder de barganha durante as negociações. É por isso que o grupo tem reagido a todas as violações israelenses do cessar-fogo, ao mesmo tempo em que demonstra abertura para um acordo de segurança mútua — um acordo que sinalize disposição para recuar para o norte do rio Litani. O governo libanês, por sua vez, adotou um tom mais conciliador em relação ao Hezbollah. Provavelmente, o governo aceitou o fato — possivelmente sob orientação árabe — de que o destino da frente libanesa será decidido nas negociações entre Irã e EUA na Suíça, e não nas conversas paralelas com os israelenses.

O governo libanês tem sido amplamente criticado por iniciar negociações com Israel sem uma estratégia clara. No entanto, essa iniciativa nunca teve como foco o que Beirute poderia oferecer ou exigir de seu vizinho. Ela representou um ato de alinhamento político com os EUA, baseado no cálculo de que o Irã seria derrotado de forma abrangente ou que, pelo menos, sua capacidade de influenciar os desdobramentos regionais seria drasticamente reduzida. Ainda assim, as negociações poderiam ser benéficas para o Líbano no sentido limitado de permitir que Israel fizesse concessões potencialmente apresentáveis ​​como resultado de negociações entre dois "Estados soberanos", em vez de ordens transmitidas de Trump para Netanyahu ou consequências de uma guerra fracassada. Por sua vez, os negociadores libaneses podem tentar tirar proveito da posição central do país no acordo entre o Irã e os EUA para insistir no fim da ocupação israelense do sul, ao mesmo tempo em que restabelecem relações diplomáticas com Teerã, no âmbito de uma reconfiguração regional mais ampla.

No momento, a unidade das frentes se mantém, e com ela, uma frágil dissuasão mútua entre Israel, de um lado, e o Irã e o Hezbollah, de outro. No entanto, isso não constitui uma base para um equilíbrio de longo prazo. O desfecho do conflito no Líbano só poderá ser vislumbrado quando os contornos de uma nova ordem de segurança regional começarem a se definir. Nesse ínterim, qualquer trégua nos combates poderá ser breve.

24 de junho de 2026

7 lições e consequências da guerra do Irã

Energia verde, guerra moderna e hegemonia americana

David Wallace-Wells
Colunista de opinião

The New York Times

Ibrahim Rayintakath

Vamos supor, por enquanto, que a guerra com o Irã tenha realmente acabado — que o "memorando de entendimento" seja respeitado, que Israel cesse seus ataques ao Líbano e que o Irã abra mão do controle militar sobre o Estreito de Ormuz. Talvez seja uma aposta arriscada. Mas, se ela terminou, que tipo de guerra foi essa?

O conflito começou como um exercício relativamente familiar do poder aéreo americano e israelense — mais amplo e direcionado a um adversário muito mais sério, porém não tão diferente dos ataques remotos que se tornaram desconfortavelmente comuns na história militar recente dos EUA. Entre a segunda posse do presidente Trump e os disparos iniciais da Operação *Epic Fury* no final de fevereiro, os Estados Unidos realizaram ataques militares contra sete países — incluindo os ataques ao Irã durante a "Guerra dos Doze Dias", em junho de 2025, mas excluindo as dezenas de ataques ilegais e, em sua maioria, inexplicados contra embarcações no Caribe, que mataram mais de 200 pessoas. Entre 11 de setembro de 2001 e o início da guerra com o Irã, os Estados Unidos conduziram campanhas de bombardeio contra 10 países e pelo menos 20 daquilo que o Brennan Center for Justice chama de "guerras secretas". Se os americanos se lembram delas, geralmente é como ações de ataque rápido, breves demonstrações de hegemonia americana. Mas na Líbia, por exemplo, os Estados Unidos realizaram mais de 5.000 missões aéreas — incluindo mais de mil voos de bombardeio — em 2011; depois, em 2015, lançaram outra campanha aérea no país, visando o Estado Islâmico (ISIL), que durou quatro anos. Bombardeamos o Iêmen quase todos os anos, há quase duas décadas.

A maioria dessas campanhas de bombardeio produziu resultados ambíguos que poderiam ter levado à humildade uma força militar mais reflexiva. O conflito com o Irã terminou com um veredito muito mais decisivo, impondo aos Estados Unidos uma derrota real e um revés estratégico, e resolvendo-se, por ora, em um acordo repleto de concessões que o presidente jamais teria feito antes do início do conflito — e que até mesmo os defensores mais fervorosos de uma linha dura contra o Irã estão criticando abertamente como uma capitulação patética.

Nesse intervalo, testemunhamos o que parecia ser um tipo de guerra totalmente novo. Uma de suas características inéditas foi a centralidade de drones baratos e a maneira como eles viraram de cabeça para baixo a vantagem das grandes potências. Outro aspecto relevante foi a rapidez com que o conflito armado direto se transformou em um novo tipo de disputa híbrida, dominada pela pressão econômica e marcada apenas ocasionalmente por ataques efetivos. Mesmo no passado recente, sanções e guerras comerciais eram ferramentas utilizadas nas etapas iniciais de uma escalada de tensão — antes do emprego de forças militares e, tipicamente, com o objetivo de evitar um confronto aberto. No caso do Irã, a escalada seguiu uma dinâmica diferente: o conflito migrou da esfera militar para o que parecia ser um jogo de consequências mais graves, assemelhando-se a uma tomada de reféns econômica.

Aqui estão mais seis lições que essa guerra nos ensinou.

Primeiro, os mercados de petróleo e gás mostraram-se muito mais resilientes do que quase todos previam.

Há apenas um mês, o diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, classificava a guerra como "a maior crise energética da história".

No entanto, ao observar os mercados de petróleo, não se via motivo para tanto alarde. Os preços subiram, mas apenas na mesma proporção observada logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Durante muitas semanas, analistas do setor alertaram para uma enorme discrepância entre os preços dos contratos futuros de petróleo e o déficit real causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz; previam que, em breve, chegaria o momento do acerto de contas: os preços disparariam e o caos econômico se instauraria.

De fato, a guerra perturbou os mercados de petróleo e gás, e a instabilidade ainda não acabou. Na Ásia, houve consequências severas no mundo real: escassez de combustível, desaceleração das atividades industriais e redução da jornada de trabalho.

Contudo, no final das contas, não se tratou de uma crise do petróleo como a da década de 1970, muito menos de algo pior. Em grande medida, isso se deveu ao fenômeno que os analistas chamam de "destruição da demanda" — a redução do consumo motivada por preocupações com preços ou abastecimento. Esse movimento foi particularmente expressivo na China, que cortou pela metade as importações de petróleo via navios-tanque, estabilizando os mercados globais e demonstrando — como observou o colunista da Bloomberg, Javier Blas — o poder que o país exerce sobre esses mercados, quase como uma arma. O episódio também evidenciou a notável flexibilidade dos sistemas energéticos mundiais: as reservas estratégicas cumpriram seu papel, e os vultosos investimentos recentes em energias renováveis ​​ofereceram uma proteção adicional contra a escassez de combustíveis fósseis. E isso também sugere que todos aqueles operadores que pareciam tolos — apostando no retorno à normalidade e na capacidade do mercado de absorver turbulências de curto prazo — estavam certos.

A transição verde ganhou força.

Assim como ocorreu quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, as primeiras previsões apontavam para um retorno ao uso de carvão em nome da segurança energética. E, tal como naquele caso, as previsões mostraram-se excessivamente pessimistas: a retomada dos combustíveis fósseis foi mínima ou inexistente, e os picos mais marcantes no setor energético foram aqueles relacionados às exportações chinesas de painéis solares e veículos elétricos. Quem estava atento percebeu os novos riscos da dependência de combustíveis fósseis — a necessidade de importações constantes, a dependência de atores estrangeiros para o abastecimento e a forma como a instabilidade da geopolítica contemporânea gerou três choques energéticos em seis anos. (Se recuarmos ainda mais no tempo, trata-se, talvez, do 14º choque do petróleo em 60 anos.) Em 60 países, foram rapidamente implementadas 200 medidas emergenciais de economia de energia, após alguns anos de escassez de novas políticas climáticas em todo o mundo. O que, a princípio, parecia ser uma guerra entre petroestados transformou-se em um claro estímulo à implementação de alternativas energéticas em escala global. Antes da guerra, o termo "segurança energética" costumava remeter à necessidade de combustíveis fósseis; depois dela, o termo parece descrever uma consciência crescente de que fontes renováveis ​​podem oferecer um suprimento de energia muito mais seguro e confiável. Os Estados Unidos não sabem como vencer uma guerra moderna.

Não foi apenas o Secretário de Defesa Pete Hegseth, no Pentágono, que esperava que esse conflito fosse um passeio militar. Mesmo aqueles que se preocupavam com os riscos de uma guerra de escolha no Oriente Médio, no início do conflito, tendiam a enfatizar o risco de caos político interno no Irã. Poucos alertaram que as forças armadas americanas acabariam travadas em um impasse. E, no entanto, foi basicamente isso o que aconteceu: as forças dos EUA infligiram danos consideráveis ​​às forças armadas, ao programa nuclear e à infraestrutura civil do Irã, mas também sofreram o que autoridades consideraram perdas inaceitáveis, chegando a evacuar bases locais por medo de ataques com drones e mísseis. O fato de uma nova classe de drones baratos poder assustar tanto a força militar mais temida do mundo — e paralisar o fluxo de uma das vias navegáveis ​​comerciais mais críticas do planeta — foi mais um sinal de que as superpotências já não detinham uma vantagem natural inabalável (uma reviravolta irônica, dadas todas as declarações de Hegseth sobre a necessidade de liberar a capacidade natural dos EUA para o combate). Talvez os Estados Unidos aprendam essa lição agora, comprometendo-se com um novo tipo de produção militar-industrial. Mas não a aprenderam a tempo de vencer esta guerra.

No entanto, a América continua capaz de cometer crimes de guerra evidentes — e, em seguida, agir como se nada tivesse acontecido.

O ataque ocorrido logo no primeiro dia contra a escola de ensino fundamental Shajarah Tayyebeh, em Minab, permanece, possivelmente, como o evento mais marcante de toda a guerra; mais de 175 pessoas morreram em um ataque do tipo "golpe duplo" (double-tap), no qual um segundo míssil foi disparado assim que famílias e equipes de resgate chegaram ao local para socorrer as crianças mortas e feridas. O Pentágono admitiu, ainda que de forma reticente, sua responsabilidade, mas não houve um verdadeiro acerto de contas público sobre como tal ataque ocorreu ou quem foi o responsável — incluindo, talvez, algum sistema de seleção de alvos operado por inteligência artificial. Suspeito que o ataque não tenha sido resultado de uma seleção autônoma de alvos, mas temo que isso seja uma prévia de como conduziremos a guerra na era da IA ​​de modo geral: focando menos em atribuir responsabilidades do que em épocas anteriores e, em vez disso, aceitando uma grande quantidade de danos colaterais como consequência inevitável da "névoa da guerra" — uma névoa que, dizemos a nós mesmos, tornou-se ainda mais densa devido à inteligência das máquinas.

Ainda não vivemos em um mundo pós-americano, mas o prestígio dos EUA está, sem dúvida, em declínio.

Assim que a aventura militar americana estagnou em um impasse — com iranianos atacando bases na região e celebrando com vídeos estilo Lego no TikTok —, surgiu um coro de declarações afirmando que a guerra marcava o fim do poder americano.

Isso sempre foi um exagero. Nenhum outro país do mundo poderia ter travado uma guerra de escolha como essa sem enfrentar uma reação internacional muito mais severa; isso sugere não apenas que os Estados Unidos continuam sendo uma potência hegemônica intimidadora, mas que ainda são, em muitos aspectos, os árbitros da ordem internacional liberal — ordem essa que, ultimamente, eles tanto fizeram para minar. Nenhum outro país teria conseguido manter seus aliados minimamente alinhados diante de um ataque tão não provocado, especialmente um que acabou afetando toda a economia global. Ninguém mais teria conseguido convencer o resto do mundo a gerir suas reservas estratégicas de combustível para se proteger do choque causado por uma guerra americana desnecessária.

Dito isso, como até mesmo um falcão em relação ao Irã como John Podhoretz reconhece abertamente, a guerra representa, inegavelmente, um golpe na soberba americana. Parte disso deveu-se a erros táticos — como a crença de que ataques cirúrgicos poderiam alcançar objetivos estratégicos talvez tão amplos quanto uma mudança de regime. Mas parte da questão diz respeito ao poder diplomático e militar dos Estados Unidos, que parecia muito mais intimidador em janeiro do que hoje. E, embora o resto do mundo certamente se alegre com o fato de o conflito parecer ter chegado ao fim, ninguém fora de Washington classificará o acordo como uma vitória para a América.

As consequências para a proliferação nuclear são bastante ambíguas — e bastante assustadoras.

No início do conflito, a lição para as potências menores parecia óbvia: embora o desenvolvimento de uma arma nuclear fosse visto como uma ameaça aos "policiais do mundo", um programa nuclear consolidado funcionaria como uma espécie de garantia de paz e até mesmo de respeito. Nos primeiros dias da guerra, a França anunciou que modernizaria e expandiria radicalmente seu arsenal nuclear; a Polônia sugeriu que poderia iniciar seu próprio programa. O programa nuclear da Coreia do Norte parece ter conferido ao país maior poder de barganha nos últimos anos.

No entanto, à medida que o conflito se prolongava e a guerra econômica ganhava destaque, as implicações nucleares também mudaram. Em abril, o ex-presidente russo Dmitri Medvedev — atualmente vice-presidente do Conselho de Segurança do país — declarou: "O Irã testou suas armas nucleares. Chama-se Estreito de Ormuz. Seu potencial é inesgotável".

A comparação era exagerada, mas também reveladora: tratava-se de uma arma barata que podia ser efetivamente empregada — e não apenas usada como ameaça — e que se mostrara notavelmente eficaz, inclusive contra uma grande potência. Nem todos os países estão em uma posição geográfica tão favorável quanto o Irã para tirar proveito das novas regras da guerra e, no final das contas, o fechamento do estreito não sufocou a economia global como muitos previram — ou como, presumivelmente, o Irã esperava. Ainda assim, o episódio permitiu que o Irã saísse vitorioso, no balanço geral. E ensinou ao resto do mundo, talvez, que é possível alcançar um nível de autonomia real não apenas com ogivas nucleares, mas também com uma grande quantidade de drones baratos. Talvez seja até possível fazer com que os Estados Unidos paguem uma conta de reparações relativamente generosa.

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