20 de junho de 2026

O agronegócio brasileiro busca vingança

O poderoso lobby do agronegócio brasileiro aprovou uma série de projetos de lei no mês passado, numa campanha legislativa de grande impacto. O mais impactante deles tornaria o desmatamento da Amazônia — drasticamente reduzido durante o governo Lula — praticamente impossível de ser monitorado e punido.

Tyler Antonio Lynch

Jacobin

Os esforços do governo Lula para combater a extração ilegal de madeira reduziram o desmatamento na Amazônia pela metade. Uma série de novos projetos de lei vingativos do poderoso lobby do agronegócio brasileiro desmantelariam essa repressão bem-sucedida. (Nelson Almeida / AFP via Getty Images)

A centralidade da agricultura para o capital mundial não pode ser subestimada. Na década que antecedeu 2025, o valor das exportações agrícolas mundiais aumentou 34%, atingindo quase US$ 2,3 trilhões, superando as commodities de metais e minerais e ficando atrás apenas dos combustíveis fósseis. Esse enorme motor material de produção é apenas o lado tangível do agronegócio, que controla cada vez mais circuitos enormes de capital financeiro especulativo. A crescente economia verde conferiu ainda mais importância à agricultura em larga escala. Com os sistemas agroalimentares respondendo por um terço das emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana, o agrocapital tem um impacto desproporcional na trajetória da transição climática global.

Não surpreende, portanto, que em países dependentes de commodities — cerca de 80% das economias em desenvolvimento, segundo estimativas da ONU — o agrocapital desfrute de considerável poder fiscal e político. O Brasil é um desses países. Os produtos agrícolas representam 43% das exportações do Brasil, com soja, carne bovina e café liderando um mercado de commodities que movimenta US$ 169 bilhões. Essa riqueza também é extremamente concentrada. Apenas 10% dos latifundiários controlam 73% da área rural brasileira, com os 50% menores produtores concentrados em apenas 2% do território. Esse controle desigual dos recursos produtivos do país sustenta o domínio duradouro das classes latifundiárias sobre o Estado.

Consequentemente, o agronegócio brasileiro exerce o maior e mais poderoso lobby em um cenário político dominado por grupos de interesse consolidados. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que conta com 342 membros nas duas casas do Congresso brasileiro, é apenas a ponta de lança de um complexo nacional que representa os interesses de latifundiários e empresas agropecuárias, independentemente do partido no poder. Trata-se da chamada bancada ruralista.

Em maio, o lobby agiu com uma velocidade impressionante para aprovar um conjunto de projetos de lei que destroem as proteções ambientais e sociais do Brasil. Tratava-se de um ataque coordenado aos alicerces das frágeis vitórias ambientais do presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, uma campanha legislativa de choque e intimidação. Projetos de lei foram levados à votação em plenário sem revisão por comissões. Leis foram derrubadas apenas para serem ressuscitadas e votadas horas depois. Os projetos, o momento escolhido, os espectadores presentes — tudo foi cuidadosamente planejado para obter o máximo efeito.

O que os jornalistas chamam de “Semana do Agro” não é um fato consumado. Os projetos precisam ser aprovados pelo Senado antes de se tornarem lei, e ainda existe a possibilidade de Lula exercer seu poder de veto presidencial. Independentemente do resultado final, as consequências nunca foram tão claras. Para que serve a natureza e quem pode desfrutar de seus frutos?

Os projetos de lei

A magnitude da ofensiva jurídica do agronegócio pode ser percebida nas leis propostas. Entre elas, estão propostas para reduzir em meio milhão de hectares a reserva ecológica Jamanxim, na Amazônia; conceder ao Ministério da Agricultura o controle sobre quais animais entram na lista de espécies ameaçadas de extinção; retirar a proteção de 40% das áreas florestais no estado do Pará e de áreas de vegetação nativa em todo o país; restringir a capacidade do governo de monitorar riscos de criminalidade no financiamento rural; e, mais importante, neutralizar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA), dificultando sua capacidade de combater o desmatamento ilegal por meio de imagens de satélite.

Sob a gestão revitalizada do IBAMA, o desmatamento caiu 50% nos últimos três anos, com "megaoperações" contra madeireiros ilegais gerando multas sem precedentes e apreensões de madeira ilegal.

Para completar o quadro, temos a aprovação do Supremo Tribunal Federal para a construção de uma ferrovia em território indígena e as tentativas contínuas do lobby de usar fundos sociais e rendas do petróleo para reestruturar as dívidas dos agricultores, e começamos a perceber a dimensão dessa tempestade de reações do setor agrícola.

No entanto, surpreendentemente pouco foi criado com essa enxurrada de projetos de lei. A vingança é o grito de guerra: desfazer o que o setor percebe como violações de suas liberdades de produção e expansão irrestritas.

Considere a decisão, aprovada pela Câmara dos Deputados em 21 de maio, de conceder ao Ministério da Agricultura controle quase total sobre a lista de espécies ameaçadas e invasoras — um poder usurpado do Ministério do Meio Ambiente. Tratava-se de uma punição pela decisão deste último de classificar a tilápia, um peixe comum na aquicultura, como espécie invasora — uma medida que o ministério fez questão de enfatizar que ainda não restringia seu cultivo. A perspectiva de iminentes repressões estaduais contra a tilápia mergulhou os produtores de carne em um pânico moral. “É um absurdo. É irritante”, exclamou o presidente da FPA. Sob pressão de grupos de pressão, o Ministério do Meio Ambiente suspendeu, em dezembro, toda a sua lista de espécies protegidas: todas as 444. O projeto de lei do mês passado foi apresentado ao Congresso para garantir que esse tipo de susto nunca mais aconteça.

A vingança também alimentou o que ameaça ser a lei mais consequente aprovada em maio: o assassinato do IBAMA, órgão de fiscalização ambiental do Brasil. Essa agência tem sido o principal instrumento do considerável sucesso do terceiro governo Lula no combate ao desmatamento da Amazônia desde 2022. Sob o comando desse IBAMA revigorado, o desmatamento caiu 50% nos últimos três anos, com “megaoperações” contra madeireiros ilegais gerando multas sem precedentes e apreensões de madeira ilegal.

Essas conquistas se baseiam em dois pilares agora diretamente ameaçados. O primeiro é o uso de imagens de satélite pelo IBAMA para monitorar remotamente o desmatamento, sem a necessidade de fiscais visitarem fisicamente áreas rurais isoladas e frequentemente hostis. A segunda é a capacidade do IBAMA de impor embargos preventivos a propriedades sob investigação por crimes ambientais, bloqueando seu acesso a mercados e crédito — uma medida considerada crucial no combate a um setor criminoso rápido e furtivo. Ambos os poderes, insiste o agronegócio, colocam os agricultores em risco injusto de punições. Histórias de horror de produtores azarados que cortam seus caquizeiros apenas para serem identificados como desmatadores ilegais via satélite ajudaram o agronegócio a se apresentar como defensor dos humildes agricultores assediados por tecnocratas distantes e sem rosto.

Na realidade, há motivações menos benevolentes em jogo. Com essa lei, o agronegócio visa nada menos que dinamitar um dos pilares da proteção ambiental no Brasil. Restringir o IBAMA a inspeções físicas é semelhante, como disse um funcionário, a fiscalizar infrações de trânsito com policiais escondidos no mato. Quanto à proposta de notificar os proprietários de terras antes que o IBAMA implemente bloqueios preventivos à chegada de sua madeira ou soja potencialmente ilegais ao mercado, há um motivo pelo qual os criminosos geralmente não são avisados, de forma educada, sobre a iminência de ações judiciais.

A satisfação moral de derrotar a ala ambientalista da esquerda brasileira é apenas um bônus adicional.

Caso seja aprovada, essa lei poderá bloquear cerca de 70% das atividades de monitoramento do IBAMA. A destruição da Amazônia, que já está em pleno andamento, seria praticamente legalizada. O Brasil cambaleia, lamentou o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, à beira de uma “regressão inimaginável”. Na semana passada, ele alertou que isso pode ter um “impacto na governança ambiental no Brasil em proporções nunca antes vistas”.
Crises no setor agrícola

Quem está por trás dessa onda de leis? E qual é a sua principal motivação?

O agronegócio brasileiro não é um bloco monolítico, e as diversas divisões internas são essenciais para entender as queixas que alimentam sua política. Existem lacunas significativas entre os interesses e as prioridades de corporações multinacionais como a Bunge e a Amaggi e os dos pequenos e médios agricultores que povoam o coração agrícola do Brasil. Em paralelo a esses grupos, encontram-se os clãs oligárquicos, cujo domínio quase feudal do norte e nordeste do Brasil esconde laços estreitos com o agronegócio financeirizado. E abaixo de todos esses, estão os grileiros, garimpeiros ilegais e outros criminosos extrativistas que se infiltraram no lobby rural para promover seus interesses mútuos em enfraquecer as proteções ambientais e expandir a fronteira extrativista da Amazônia.

Os membros da bancada ruralista podem, portanto, ser classificados em diversos eixos com base no tamanho de suas propriedades rurais, no grau de integração com os mercados globais e na legalidade de seus empreendimentos. O que une esse grupo frequentemente heterogêneo, “de um mero conjunto de interesses setoriais a um movimento cada vez mais assertivo que busca a hegemonia no cenário nacional”, como afirma Fernando Rugitsky, é a queixa comum contra o modelo de governança ambiental do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula e a habilidade da família Bolsonaro em usar essa queixa para contestar o poder no mais alto nível.

Esse “agrobolsonarismo” é a principal força motriz da ofensiva jurídica do mês passado. Embora seja defendido pelos oligarcas e grandes latifundiários que compõem as fileiras da FPA no Congresso, a força motriz do movimento reside, sem dúvida, nos pequenos e médios agricultores. Suas queixas não são totalmente infundadas: pressionados desconfortavelmente entre os dois principais defensores do lulismo — os gigantes da produção de commodities e os trabalhadores pobres —, os pequenos proprietários rurais lutam para sobreviver. Este era um terreno fértil para o populismo reacionário de Jair Bolsonaro, que incorporou a celebração do empreendedor independente ao repertório habitual de temas conservadores: mais armas, menos regulamentação, desprezo generalizado pelos pobres sem lei. Impulsionados pela vitória de Bolsonaro, os agricultores descontentes provaram ser plenamente capazes de defender seus interesses mesmo após sua destituição.

Os anos desde a eleição de Lula apenas reforçaram a sensação de crise no setor agrícola. Cerca de 8,2% das propriedades rurais estavam inadimplentes no final de 2025, com as taxas de insolvência aumentando trimestre a trimestre por dois anos consecutivos. Em meio a uma tempestade perfeita de tarifas americanas, aumento dos custos de produção e uma série de desastres climáticos alarmantes, muitos agricultores terão sorte se conseguirem pelo menos empatar após a colheita deste ano. Essa crise de rentabilidade é o contexto imanente da ofensiva legislativa da FPA.

O setor agrícola brasileiro há muito tempo vê a proteção ambiental como um fardo: árvores protegidas às custas do agricultor. Ao desmantelar as proteções ecológicas, a bancada ruralista busca remover quaisquer entraves ao alcance e à intensidade da produção agrícola. A satisfação moral de derrotar a ala ambientalista da esquerda brasileira é apenas um bônus adicional.

O lobby do agronegócio também defendeu um resgate estatal direto para seus membros. A resposta preferida da bancada ruralista à crise da dívida não envolve apenas o aumento drástico dos subsídios estatais disponíveis aos agricultores, mas também a obtenção desse alívio da dívida a partir de fundos sociais e das rendas do petróleo, que dispararam durante a guerra com o Irã. É um lembrete contundente da relação persistente entre a destruição da Terra e a destruição de seus pobres.

Tudo isso constitui uma resposta perversa à COP30, realizada há apenas oito meses em Belém, capital do estado do Pará, na Amazônia, sob o governo do então governador Hélder Barbalho. Em um surreal teatro político, um orgulhoso Barbalho assistiu passivamente enquanto o Congresso votava para dizimar os ecossistemas de seu estado e sancionar a grilagem de terras em larga escala. O Brasil pode estar dando passos admiráveis ​​para tornar sua matriz energética mais verde, mas essa falha flagrante em proteger suas florestas de tratores e motosserras deixa um gosto amargo nas autoproclamações do Brasil como “líder climático”.

Com a promessa de uma eleição acirrada em outubro contra Flávio Bolsonaro, Lula dificilmente estará em posição de confrontar diretamente o lobby mais forte do Congresso.

Existe, de fato, um contingente crescente do setor do agronegócio que busca surfar na onda da transição verde. As multinacionais foram abaladas pela decisão da UE de proibir as importações de carne brasileira, e as cadeias de suprimentos marcadas por abusos trabalhistas e destruição ecológica parecem cada vez mais um passivo fiscal e de imagem. Para esses proprietários de terras “conscientes”, o ataque do mês passado às proteções ambientais é simplesmente arcaico. Aqueles dispostos a prestar um serviço superficial à transição climática não precisam abrir mão de lucros substanciais: tokens de carbono, títulos verdes e créditos de biodiversidade oferecem novas maneiras de extrair valor da terra com uma fração do risco reputacional. Por enquanto, no entanto, essas estratégias foram adotadas apenas por uma pequena minoria. A monocultura em larga escala para exportação — o modo de produção imposto pelos portugueses — continua sendo o padrão para os agricultores brasileiros. O açúcar deu lugar à soja, mas pouco mais mudou.

Um oceano de soja

Lula não está sem cartas na manga. O setor do agronegócio continua extremamente dependente do Estado. Sem seus créditos e subsídios, suas generosas taxas de juros e infraestrutura financiada pelo Estado — todas manifestações do tipo de ativismo governamental que seus líderes de direita dizem detestar — o setor não pode sobreviver. No entanto, o lulismo, por sua vez, depende do agronegócio e dos setores extrativistas, necessitando de suas rendas e divisas para alimentar o desenvolvimentismo estatal redistributivo do PT. Com a promessa de uma eleição acirrada contra Flávio Bolsonaro em outubro, Lula dificilmente está em posição de confrontar diretamente o lobby mais forte do Congresso.

De fato, a conciliação — e não a resistência — tem definido a relação de Lula com o agronegócio ao longo de seus doze anos no poder. Lula colocou os cofres públicos à disposição deles; os agricultores, por sua vez, têm tolerado, ainda que a contragosto, suas políticas sociais. Esse casamento instável — ampla promoção social impulsionada pelo mais regressivo dos setores econômicos — é a contradição insuperável no cerne do lulismo.

A resposta do Partido dos Trabalhadores à avalanche legislativa do mês passado tem sido, até agora, inegavelmente fraca. Aqui e ali, a bancada ambientalista conseguiu suavizar o discurso, inserir uma brecha, apontar o dedo em desaprovação — parecendo cada vez mais que foram para uma guerra de armas com uma faca. Lula ainda poderia exercer seu veto caso algum projeto de lei seja aprovado pelo Senado, como fez quando a chamada Lei da Devastação foi promulgada em julho passado. Mas isso também parece uma resposta anêmica: o veto presidencial pode ser derrubado caso a maioria absoluta das duas casas do Congresso vote por sua anulação. Um Congresso dominado pela bancada ruralista frequentemente tem a última palavra. A FPA levou menos de cinco meses para derrubar cinquenta e seis dos sessenta e três vetos de Lula contra o projeto de lei mencionado.

Se existe um caminho a seguir, ele reside nos grupos que estão na linha de frente da luta contra essa contrarrevolução agrária: os movimentos indígenas, de trabalhadores rurais sem-terra e quilombolas, que tanto contribuíram para chamar a atenção do mundo para a pilhagem da Terra. O verdadeiro poder dessas lutas populares está enraizado na demonstração prática de modos de vida e produção que sustentam este planeta e seus seres vivos. Como enfatiza Rugitsky, existe um caminho a seguir que vai além do paradigma estéril e combativo da “poupança de terras” que define a abordagem do PT à governança ambiental. Somente se esses movimentos forem fortalecidos por uma base de massas, somente se conseguirem navegar pela longa marcha através das instituições do Estado brasileiro, as futuras gerações herdarão uma Terra habitável.

A alternativa — um oceano de soja, uma paisagem lunar pisoteada por gado — é algo que dificilmente merece ser considerado.

Este trabalho foi possível graças ao apoio da Fundação Puffin.

Colaborador

Tyler Antonio Lynch é economista político e doutorando, pesquisando temas como terra, trabalho e Estado na América Latina.

O jovem Ho Chi Minh

Ho Chi Minh emergiu do mundo criado pela Era das Revoluções e exigiu que os ideais republicanos se aplicassem além da Europa.

Ian Birchall


Antes de se tornar um símbolo global do anti-imperialismo, Ho Chi Minh era um jovem que levou as promessas da Revolução Francesa ao pé da letra — e exigiu que elas chegassem aos colonizados. (Keystone-France / Gamma-Keystone via Getty Images)

Em 2 de setembro de 1945, em Hanói, o Viet Minh, liderado por Ho Chi Minh, promulgou a Declaração de Independência da República Democrática do Vietnã. Ho era pouco conhecido no Ocidente na época, mas na década de 1960 seu nome era entoado por manifestantes em todo o mundo, para quem ele se tornou um símbolo da resistência do Terceiro Mundo contra o imperialismo americano.

Em uma época anterior, ele era conhecido como Nguyen Ai Quoc, beneficiário de uma educação privilegiada que teria dito que, assim que ouviu o lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, desejou conhecer a França. Mas a lei colonial proibia os vietnamitas nativos de deixarem o país; a única maneira de chegar à Europa era trabalhando em um navio. Ele viajou primeiro para Londres e depois para Paris.

Os primeiros contatos de Nguyen ao chegar à França parecem ter sido com a esquerda sindicalista. Ele visitou a Librairie du Travail, uma livraria operária, no antigo prédio do jornal La Vie Ouvrière, um periódico sindicalista revolucionário publicado por Pierre Monatte e Alfred Rosmer, que haviam sido alguns dos internacionalistas mais consistentes desde o primeiro dia da Primeira Guerra Mundial.

Ele então se juntou ao Partido Socialista Francês (SFIO), em meio a um intenso debate para decidir se deveria ou não se filiar à recém formada Internacional Comunista, criada na sequência à Revolução Russa.

O SFIO se reuniu em um congresso em Tours, em dezembro de 1920 para a deliberação, votando a favor da filiação e se tornado o Partido Comunista Francês (PCF), com uma minoria socialista rompendo por aversão à ideia da hegemonia dos bolcheviques russos sobre a Internacional Comunista.

Nguyen falou enquanto delegado, contando à assembleia como sua terra natal era “vergonhosamente oprimida e explorada”, bem como “envenenada” pelo álcool e pelo ópio. As prisões eram mais numerosas que as escolas e a liberdade de imprensa não existia. Ele insistiu que “o Partido deveria fazer propaganda em todas as colônias”, concluindo com o apelo: “Camaradas, salvem-nos!”

Ele foi aplaudido, mas obviamente tocou em certas feridas. Ele foi interrompido duas vezes. Na primeira interrupção, Jean Longuet, neto de Karl Marx, exclamou em defesa de sua própria reputação: “Eu já intervi pela defesa dos nativos!”. Pouco depois, sob a interrupção de um delegado anônimo, Nguyen respondeu com um sonoro “Silêncio, parlamentares!”

As palavras de Nguyen tinham peso especial, uma vez que uma das condições de filiação ao partido exigia dos comunistas que expusesse os truques e esquivas de “seus” imperialistas nas colônias, apoiando não somente em palavras, mas em atos, todos movimentos de libertação colonial, exigindo a expulsão de seus próprios imperialistas das colônias, inculcando entre os trabalhadores de seus países uma atitude genuinamente fraterna aos trabalhadores das colônias e às nações oprimidas, dando continuidade a agitações permanentes entre as tropas de seus países contra qualquer opressão dos povos colonizados.

Uma forma em que o PCF tentou implementar esta nova política foi buscando relações com um grande número de pessoas colonizadas.

Estima-se que entre 1914 e 1918, algo em torno de 900,000 homens das colônias foram arrastados ao conflito europeu: mais de meio milhão de soldados, ao menos 250,000 do norte da África e muitos milhares da Indochina, além de 220,000 trabalhadores. O PCF logo fundou a Union inter-coloniale organização voltada a pessoas de origem colonial vivendo na França e em abril de 1922 lançou a publicação Le Paria, editada por Nguyen-Ai-Quoc.

A Le Paria era um tanto mal-acabada e certamente mal financiada, e sua circulação era sempre baixa. Entretanto, ela conseguiu amalgamar um grupo pequeno porém dedicado de camaradas comprometidos com a luta anti-imperialista. Grupo este que incluía não só Nguyen-Ai-Quoc, mas também um jovem norte-africano, Hadjali Abdelkader, que mais tarde seria candidato à eleição no partido em 1924.

No decurso da campanha, ele recrutou um operário fabril, Messali Hadj e, juntos, fundaram a Étoile Nord-Africaine, a primeira organização a exigir a independência argelina, de onde surgiria a FLN (Frente Nacional de Libertação) nos anos 1950.

Deste modo o Le Paria semeou ao menos algumas das sementes das duas grandes guerras de libertação que dominariam a política francesa nas duas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. Trinta e seis edições do Le Paria apareceriam entre 1922 e 1926, geralmente em folha única de grande formato, com as manchetes dispostas em alfabetos árabe e chinês.

A principal preocupação do jornal era a situação do império colonial francês. Nguyen-Ai-Quoc escreveu sobre a “crueldade inacreditável” do “funcionário sádico” da administração colonial, contrastando a barbárie da prática colonial francesa com a imagem tradicional da política republicana.

Evocando a imagem feminina de Marianne, que era vista como a personificação da República desde a Revolução Francesa, Nguyen escrevera:

Há dolorosa ironia ao observar que a civilização, simbolizada em suas diversas formas (liberdade, justiça, etc.) pela imagem gentil da mulher e estruturada por uma categoria de homens cuja reputação é de polidez perante as damas, devam fazer com que o símbolo vivo sofra o tratamento mais desprezível, e atacando-a vergonhosamente em seu comportamento, sua modéstia e sua própria vida.

Igual atenção foi dada à luta pelas liberdades políticas, principalmente a liberdade de imprensa, e também protestaram contra o serviço postal por interferir na correspondência ao Le Paria. O jornal animou diversas campanhas, em particular protestando contra a visita do imperador de Annam, Kaï Dinh à Paris.

Raramente o Le Paria colocava a exigência pela independência dos territórios coloniais. O principal impulso das demandas do jornal era pelo fim da repressão e brutalidade nas colônias, assim como pelos direitos iguais entre as populações coloniais e os cidadãos da França metropolitana.

Para este fim, encorajava-se a união entre as classes trabalhadoras da Europa e da Indochina. Num artigo do jornal diário do PCF, L’Humanité, de maio de 1922, Nguyen-Ai-Quoc reconheceu a profundidade da ignorância e preconceito que existia tanto entre os trabalhadores metropolitanos assim como entre os trabalhadores coloniais.

Após citar Lenin acerca da necessidade dos trabalhadores metropolitanos auxiliar as lutas em nações subjugadas, ele observou tristemente: “Infelizmente, há ainda muito militantes que pensam que a colônia não é nada senão um país cheio de areia sob a luz reluzente do sol, alguns coqueiros verdes e homens de cor; e só”.

Enquanto isso, a maioria do habitantes das colônias ou eram repelidos pela ideia do Bolchevismo, ou identificavam-no puramente com o nacionalismo. No que diz respeito à minoria educada, esta talvez compreendesse de que se tratava o comunismo, mas não possuía interesse em vê-lo estabelecido: “como o cão da fábula, eles preferem usar uma coleira, mas garantir seu osso”.

Por isto, Nguyen argumentou:

Da ignorância mútua de ambos os proletariados nascem os preconceitos. Para o trabalhador francês, o nativo é um ser inferior, insignificante, incapaz de compreender e muito menos de agir. Para o nativo, os franceses – sejam lá quem eles forem – são todos exploradores maldosos. Imperialismo e capitalismo não falham em tirar vantagem desta desconfiança mútua e desta hierarquia racial artificial para obstruir a propaganda e dividir forças que deveriam se unir.

E ele conclui: “frente a essas dificuldades, o que deve fazer o Partido? Intensificar a propaganda para superar-los.”

Assim o Le Paria defendeu a unidade entre os operários metropolitanos e coloniais. Em um “Apelo às Populações Coloniais” de agosto de 1922, insistia: “Perante o capitalismo e o imperialismo, nossos interesses são os mesmos. Lembremos das palavras de Karl Marx: Trabalhadores de todos os países, uni-vos”. Na edição seguinte, Max Clainville-Bloncourt reforçaria: “Irmãos nas colônias, é indispensável que vocês se dêem conta que não há salvação possível para vocês por fora da conquista do poder político na Europa pelas massas trabalhadoras”.

Esta mensagem atingiu principalmente as colônias. Sua tiragem inicial parece ter sido de 1.000, chegando até 3.000. A maioria dos exemplares foram para as colônias; de 2000 cópias, somente 500 ficaram em França, enquanto 500 foram para Madagascar, 400 para o Daomé, 200 para o Magrebe, 100 para a Oceania e 200 para a Indochina.

Dado que a distribuição era clandestina e as cópias frequentemente confiscadas pelas autoridades, é difícil saber de fato a amplitude em que o jornal era distribuído. Mas o Le Paria sem dúvida foi bem sucedido na construção de um time entusiasmado de ativistas que carregavam o jornal a despeito da pouca adesão por camadas mais amplas do PCF.

Le Paria na prática desapareceu após setembro de 1925, lançando sua última edição em abril de 1926. Aos poucos, porém continuamente, os quadros entusiasmados e corajosos que haviam construído o Le Paria se dispersaram. Nguyen-Ai-Quoc/Ho Chi Minh partiu para Moscou em 1923 e logo embarcou na linha majoritária stalinista, do comunismo oficial.

Internacionalismo minguante

O espírito do internacionalismo proletário que animou o pequeno grupo de pioneiros em torno do Le Paria desapareceu junto com Ho Chi Minh, cimentando a relação desigual da esquerda francesa com o imperialismo.

Em nenhum lugar isso ficou mais claro do que no Sudeste Asiático. A Indochina Francesa foi formada inicialmente em outubro de 1887, após a Guerra Sino-Francesa. Um dos arquitetos da colonização foi Jules Ferry, primeiro-ministro até 1885. Ferry era abertamente racista, tendo declarado à Assembleia Nacional em 1885 “Nós devemos dizer abertamente que raças superiores... têm o dever de civilizar raças inferiores”.

Sua outra conquista notável foi estabelecer a educação gratuita, compulsória e laica na França. Ainda que isto às vezes seja visto como parte da herança de esquerda, ela era integral as aspirações imperiais de Ferry. Uma vez que França deveria se tornar um grande poder imperial, necessitaria de um exército, largamente composto de camponeses com um forte senso de identidade nacional.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Indochina foi governada por uma administração colonial francesa controlada pelo governo pró-Alemanha de Vichy, que fez um acordo com o Japão em 1940. Em 1945 o Japão, por sua vez, ocupou o território. Após os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o Japão se rendeu rapidamente, tomando de surpresa os Aliados, que imaginavam que a guerra continuasse até 1946.

Inicialmente, não foi a França que reocupou o Vietnã, mas a Grã-Bretanha, então governada pelos trabalhistas. Foi decidido na conferência de Potsdam, em julho de 1945, que as forças chinesas ocupariam a parte norte da Indochina e as tropas britânicas a metade sul.

A França ainda se recuperava de quatro anos de ocupação e precisava de tempo para reorganizar suas forças armadas. Somente em outubro as tropas francesas iniciaram (por navio) sua retirada da Indochina. As forças britânicas, utilizando as tropas japonesas recém derrotadas, intervieram para garantir que a França pudesse reclamar sua colônia mais para frente. Charles De Gaulle, que encabeçou o governo provisório da França em 1945, expressou o momento pós-guerra em transmissão radiofônica, anunciando a fundação da Quarta República:

Nossos portos estão reabrindo. Nossos campos estão sendo arados. Nossas ruínas estão sendo clareadas. Quase todos que deixaram a França retornaram. Estamos recuperando nosso imperio. Estamos estabelecidos no Reno. Estamos retomando nosso lugar no mundo.

Os partidos de esquerda que dominavam o governo – comunistas, socialistas e democratas cristãos – não fizeram oposição às exaltações imperialistas de De Gaulle. De fato, até 1947, mesmo após o início de uma guerra de larga escala, ministros comunistas respeitaram a disciplina ministerial votando a favor dos créditos de guerra (ainda que deputados comunistas tenham demonstrado sua oposição se abstendo na votação).

Um representante da Indochina que visitou a França em 1946 relatou uma reunião com o líder comunista Maurice Thorez na qual declarou que o partido “não tinha a intenção de ser considerado responsável por liquidar as posições francesas na Indochina, e que [ele] desejava ardentemente ver a bandeira francesa tremulando em todos os cantos da União Francesa”.

O Partido Socialista estava igualmente disposto a preservar o império. O líder veterano Léon Blum defendeu a fórmula de reconhecer o Vietnã como “um estado livre dentro da União Francesa”, mas justificou a decisão com uma retórica muito própria ao imperialismo: “Há apenas um único meio de preservar, na Indochina, o prestígio de nossa civilização, de nossa influência política e espiritual, assim como de nossos legítimos interesses materiais, e isto seria um acordo sincero baseado na independência”.

A guerra na Indochina começou em 1946, sob o governo de Blum, em parte por ele ter fracassado em questionar o comando militar francês que tornou a guerra inevitável.

Apenas pequenas correntes à esquerda se opuseram à recolonização da Indochina. Em 22 de dezembro de 1945, o jornal independente de esquerda Franc-Tireur publicou um ataque vigoroso à política externa francesa, citando uma carta de um um soldado francês que comparava as ações francesas na Indochina ao Massacre de Oradour, uma das piores atrocidades durante a ocupação nazista da França.

Uma série de fatores levou a esquerda francesa a fracassar na oposição ao restabelecimento do Império Francês, incluindo a lealdade do Partido Comunista à Rússia, que naquele ponto não queria causar problemas desafiando o imperialismo ocidental.

Mas o principal fator foi a tradição republicana que dominava o pensamento político francês, especialmente à esquerda. Isto encorajou a noção de que o papel da França no mundo era um progressivo, trazendo a civilização e o esclarecimento aos territórios ignorantes – a chamada “missão civilizatória”

Acreditava-se que os habitantes do mundo colonial podiam e deviam aspirar a nada mais do que serem cidadãos da República Francesa. É interessante contrastar tal visão com a postura do governo britânico pós-Guerra, que aceitou a independência indiana. A França, ao contrário, se agarrou à Indochina e à Argélia até que fosse expulsa por meio de amargas e prolongadas lutas pela independência.

O restante da história é conhecido. Os franceses lutaram para manter a Indochina até serem finalmente derrotados na batalha de Dien Bien Pu em 1954. O Vietnã foi dividido, mas o papel estadunidense em inflar seu aliado sul-vietnamita levou a mais guerra. Somente em 1975 o Vietnã finalmente alcançou a independência, após três décadas de guerras que deixaram em cerca de dois milhões de mortos.A realidade poderia ter sido outra? Estas especulações são sempre complicadas. Porém, se a esquerda francesa tivesse sido verdadeira aos princípios verdadeiramente internacionalistas em 1945, aqueles pelos quais o jovem Ho Chi Minh havia lutado no início dos anos 1920, a história talvez tivesse tomado um rumo menos trágico.

Colaborador

Ian Birchall é autor de Sartre Against Stalinism e de diversos artigos e ensaios sobre a obra de Jean-Paul Sartre.

19 de junho de 2026

Tweedledee

Adeus Starmer?

Tariq Ali



Dada a oportunidade, os eleitores de Makerfield não hesitaram. Eles votaram para se livrar de Keir Starmer e, de quebra, deram um chute no traseiro de Nigel Farage. Com um comparecimento às urnas de pouco menos de 59% — alto para uma eleição suplementar inglesa —, o candidato do Partido Trabalhista (Labour), Andy Burnham, obteve 55% (quase 25.000 votos), em comparação com 35% do Reform (15.696 votos) e 7% (3.111 votos) do Restore, o partido apoiado pelos Tories (Conservadores) criado para estragar os planos do Reform. Burnham, um ex-parlamentar blairista, belicista da Guerra do Iraque e ex-secretário de Saúde do governo Brown — que deixou o gabinete paralelo de Corbyn para construir sua própria base política como prefeito de Greater Manchester —, foi ajudado a conquistar a cadeira de Makerfield pelo deputado em exercício, Josh Simons, ele próprio uma criatura da facção Labour Together, que primeiro mirou em Corbyn e depois promoveu Starmer. Esta facção pareceu — temporariamente — ter ido longe demais ao impor sua eminência parda, o bajulador de Epstein, Peter Mandelson, como embaixador da Grã-Bretanha na corte de Donald Trump. Mas um Burnham agradecido oferecerá a Simons e seus amigos acesso contínuo ao número 10 de Downing Street.

Não havia nada que recomendasse Starmer. Um fracasso político, ele foi colocado no cargo após a derrota de Corbyn em 2019, vindo de uma carreira jurídica — na Irlanda do Norte e no Serviço de Promotoria da Coroa (Crown Prosecution Service) — marcada pela subserviência aos que estavam no poder. Essa história sórdida foi contada em um ataque contundente e eficaz por Oliver Eagleton em The Starmer Project (2022) e, mais tarde, em detalhes minuciosos por Gabriel Pogrund e Patrick Maguire em Get In (2025) e por Paul Holden em The Fraud (2025). Nas eleições de julho de 2024, uma direita dividida — Conservadores (Tories): 24%; Reform: 14% — entregou a Starmer uma maioria com apenas 34% dos votos. Seus conselheiros, liderados por Morgan McSweeney, um protegido de Mandelson, orientaram o novo líder a bajular Farage em público e a competir com suas políticas. Isso foi feito por meio de uma oportunidade de foto na Câmara dos Comuns, quando o Primeiro-Ministro caminhou até Farage e apertou sua mão, tornando-se, assim, um estranho para muitos em seu próprio partido.

Seguiram-se expulsões da ala esquerda do Partido Trabalhista, ataques aos auxílios infantis e ao abono de combustível para pensionistas, além de uma retórica ao estilo Farage sobre imigrantes (“Ilha de Estranhos”), tudo isso embrulhado em orçamentos de austeridade. Em consonância com o governo conservador anterior, uma mulher não branca, Shabana Mahmood, foi nomeada secretária do Interior para forçar a aprovação de políticas profundamente reacionárias sobre raça e liberdades civis.

A imprensa liberal, entusiasmada com o expurgo da esquerda, apoiou Starmer com entusiasmo. E Starmer apoiou com entusiasmo o genocídio israelense desencadeado em Gaza. O primeiro-ministro trabalhista deu seu respaldo a medidas israelenses como o corte de água, eletricidade, alimentos e medicamentos para o povo palestino. Se Starmer se opunha aos ataques a mulheres e crianças, ele guardou isso para si mesmo. Os aparatos de Estado e o monitoramento da RAF (Força Aérea Real) foram empregados para ajudar ativamente no genocídio. A servilidade abjeta de Starmer ao ultraconservador Board of Deputies (Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos) foi copiada fielmente pelos membros do gabinete Cooper, Lammy, Streeting e pelos mais de 100 parlamentares trabalhistas impostos aos partidos locais pela gangue de Mandelson.

Para se ter uma ideia do nível dos implantados por Mandelson: até mesmo os trabalhistas leais Robin Cook e Clare Short renunciaram ao gabinete de Blair quando este levou o país à guerra no Iraque contra a vontade da maioria de seus cidadãos, respaldado pelas mentiras intermináveis de seu diretor de comunicação, Alastair Campbell (e pelo latido de cães de guerra como Burnham). Nem um único parlamentar trabalhista renunciou ao governo de Starmer por causa da Palestina ou do uso de bases militares dos EUA no Reino Unido para atacar o Irã. Pelo contrário: os corbynistas expulsos — John McDonnell e cia. — se desonraram ao voltar rastejando para a bancada do Partido Trabalhista no Parlamento.

Starmer garantiu que não houvesse qualquer opção de escolha, em nenhum nível, entre os partidos de centro-extremo no parlamento — Trabalhistas, Conservadores (Tories) e Democratas Liberais (Lib Dems). Enquanto a economia britânica estagnava e a popularidade dos Trabalhistas despencava para os atuais 18%, os Verdes decolaram a partir de julho de 2025 para atingir 16% nesta primavera. Somados às esperanças passageiras em uma nova vertente corbynista, eles revelaram um eleitorado substancial à esquerda dos Trabalhistas. Após decifrarem os sinais dos grupos de discussão (focus groups), os homens de McSweeney guiaram Starmer a uma série de semi-recuos a partir do segundo semestre de 2025: abono de combustível, auxílios infantis e identidades digitais anti-imigrantes. Nada disso adiantou. Somadas à sua postura engessada e à sua incapacidade de se defender no Parlamento, suas idas e vindas só aumentaram o desprezo por Starmer no país como um todo. Ele vai cair. Há boatos de que Burnham pode lhe oferecer um cargo no gabinete. Posso recomendar o Ministério da Inverdade.

O novo rapaz do Norte se sairá melhor na economia e incomodará "os mercados"? Improvável. Ele fará alguma mudança nas políticas externa e de defesa do Reino Unido? Todos os indícios são negativos. Vale lembrar também que os partidos social-democratas estão afundando na maior parte da Europa Ocidental. O Partido Trabalhista (Labour) não está sozinho e os motivos são os mesmos: capitulação total aos mercados e às políticas dos EUA no Oriente Médio e em outros lugares. A vitória de Burnham em uma eleição suplementar no Norte da Inglaterra não deve ser interpretada de forma errada. A próxima mudança de liderança do Partido Trabalhista não pressagia nenhuma mudança real para o país ou para a sua posição no mundo.

O Juneteenth é sobre liberdade

Hoje, ao celebrarmos o Juneteenth, devemos lembrar não apenas a luta contra a escravidão, mas também a luta pela liberdade radical durante a Reconstrução — sufocada pelas forças reacionárias da propriedade e da supremacia branca.

Dale Kretz

Jacobin

Um grupo de ex-escravizados em um asilo municipal, por volta de 1900. (Coleção Bettmann / Getty Images)

“É curioso como as pessoas sempre querem saber sobre a Guerra”, refletiu Felix Haywood sobre essa fixação central da memória americana. Haywood havia nascido escravo cerca de quinze anos antes da Guerra Civil, perto de San Antonio, Texas. “A guerra não foi tão boa quanto as pessoas imaginam”, disse ele ao seu entrevistador, um membro do Federal Writer’s Project que coletava depoimentos de ex-escravos sobreviventes no final da década de 1930. “Às vezes, você nem sabia que estava acontecendo. Foi o fim dela que fez a diferença.”

O Juneteenth marca o dia — 19 de junho de 1865 — em que os escravizados do leste do Texas finalmente receberam a notícia de sua liberdade, bem como a liberdade de outros 250 mil no estado. Dois meses haviam se passado desde a rendição das forças de Robert E. Lee em Appomattox e dois anos e meio desde a Proclamação de Emancipação do presidente Abraham Lincoln, que declarou todos os escravos ainda mantidos em áreas controladas pelos Confederados “livres para sempre” e prometeu ao governo federal o reconhecimento e a manutenção de sua liberdade.

O Juneteenth é amplamente celebrado todos os anos desde que o general americano Gordon Granger fez o anúncio pela primeira vez a uma multidão de espectadores negros e brancos em Galveston, em junho de 1865. Permanece como uma das correntes mais poderosas da memória emancipacionista nos Estados Unidos — uma contra-manifestação à propaganda nociva da Causa Perdida.

Por sua própria natureza, as comemorações tendem a simplificar os eventos, a despojar-se das complexidades carregadas do passado em busca de algo mais útil, senão festivo. O Juneteenth merece ser celebrado. Mas as circunstâncias do Juneteenth original também merecem nossa plena apreciação, pois nessa história desconcertante de emancipação no Texas podemos vislumbrar contornos proféticos do próprio significado de liberdade nos Estados Unidos pós-escravidão — mas longe de serem pós-raciais.

“A aleluia se desencadeou”

O relato de Felix Haywood sobre o isolado centro-sul do Texas revela menos sobre a Guerra Civil em si do que sobre a guerra que foi a escravidão nos Estados Unidos. Ele e outros no rancho descobriram que a vida “seguia exatamente como sempre fora antes da guerra”. Trabalho, culto, açoites — tudo aplicado como de costume.

Mas a agitação da guerra no leste trans-Mississippi infiltrou-se no Texas de outras maneiras, mais sutis. De tempos em tempos, Haywood recordou, “alguém aparecia e tentava nos convencer a fugir para o Norte e sermos livres. Costumávamos rir disso”, ele riu, pois “não havia motivo para fugir para o Norte. Tudo o que tínhamos que fazer era caminhar, mas caminhar para o Sul, e seríamos livres assim que cruzássemos o Rio Grande. No México, você podia ser livre”, independentemente da cor da sua pele. Embora Haywood e sua família nunca tenham fugido para o sul, eles conheciam centenas de pessoas que o fizeram.

O Texas serviu como um farol de um tipo muito diferente. Do censo de 1860 até 19 de junho de 1865, a população escravizada do Texas quase dobrou. Durante a guerra, mais de 150.000 pessoas escravizadas foram realocadas à força para a relativa segurança do Texas, a fronteira da Confederação escravista. Arrancados dos estados vizinhos de Arkansas, Louisiana e Mississippi, entre outros, esses homens e mulheres escravizados eram a retaguarda da migração forçada em massa ocorrida nas seis décadas anteriores à Guerra Civil, uma corrente comercial que arrastou mais de um milhão de homens, mulheres e crianças escravizados para o reino do algodão do baixo vale do Mississippi.

Felix Haywood, 92 anos, c. 1937. (Biblioteca do Congresso)

À medida que a guerra se desenrolava no Sul, os proprietários de escravos fugitivos que se refugiaram com seus escravizados rumo ao oeste, para o Texas, apenas adiaram o que se tornava inevitável, já que as ações conjuntas dos escravizados e do Exército dos Estados Unidos enfraqueciam a escravidão a cada passo. Historiadores estimam que meio milhão de pessoas escravizadas fugiram de seus campos de trabalho nas plantações durante a guerra; aqueles que permaneceram se engajaram no que W. E. B. Du Bois chamou de “greve geral”.

Após ouvir o relato pouco empolgante de Haywood sobre a guerra na remota San Antonio, seu entrevistador sentiu-se compelido a perguntar como o ex-escravo sabia que “o fim da guerra havia chegado”.

“Como sabíamos?”, perguntou o liberto, incrédulo. “De repente, irrompeu um grito de aleluia... Soldados, de repente, estavam por toda parte — vindo em grupos, cruzando, caminhando e cavalgando. Todos cantavam. Estávamos todos caminhando sobre nuvens douradas.” Haywood recitou um dos hinos ouvidos naquele dia:

União para sempre,
Viva, rapazes, viva!

Embora eu possa ser pobre,
nunca serei um escravo —
Gritando o grito de guerra da liberdade.

Até aquele ponto da entrevista, o relato de Haywood sobre a Guerra Civil era distante, até mesmo desdenhoso. Mas o anúncio da liberdade — do Juneteenth — marcou para sempre sua memória. "Todo mundo ficou eufórico", exclamou ele de repente. "Todos nos sentíamos heróis, e ninguém nos havia feito assim, a não ser nós mesmos. Éramos livres. Assim, de repente." Imediatamente, os antigos escravos do Texas "começaram a se movimentar. Pareciam querer se aproximar da liberdade, para saber o que ela significava — como se fosse um lugar ou uma cidade."

O desembarque das forças americanas no porto de Galveston, em junho de 1865, reforçou o que os ex-escravizados já sabiam — e o que os historiadores estão apenas começando a compreender plenamente: a liberdade não dependia simplesmente de declarações, leis e emendas na distante Washington, mas da força das armas. O anúncio do Juneteenth exigiu a aplicação da lei pelos 1.800 soldados federais designados para o estado, para que a liberdade se tornasse significativa para os libertos do Texas.

O significado da liberdade

Embora os negros tivessem cultivado por muito tempo suas próprias concepções sobre o que a liberdade poderia implicar, em junho de 1865 a própria legalidade e a justificativa de seu novo status estavam longe de ser certas. Mal haviam se passado duas semanas desde a rendição da divisão do general confederado Edmund Kirby Smith em Galveston, embora os combates não tivessem desaparecido, mas sim se transformado em uma guerra de guerrilha desenfreada e terrorismo contra os negros.

Lincoln havia sido assassinado dois meses antes do anúncio do Juneteenth, sendo sucedido pela personificação do unionismo racista e reacionário, Andrew Johnson. A Décima Terceira Emenda, que aboliu formalmente a servidão involuntária, havia sido aprovada por ambas as casas do Congresso em janeiro, mas ainda estava em processo de ratificação pelos estados. Jornais no Texas previam que a escravidão sobreviveria no estado por pelo menos mais dez anos, graças à voracidade dos industriais do norte pelo algodão.

Ao entrar em cena, o anúncio oficial de 19 de junho pode não ter resolvido a questão da emancipação, mas continha as linhas gerais de uma nova ordem. A declaração do General Granger informava “o povo do Texas que, de acordo com uma proclamação do Executivo dos Estados Unidos, todos os escravos estão livres. Isso implica uma igualdade absoluta de direitos pessoais e direitos de propriedade entre antigos senhores e escravos.”

Ordem Geral nº 3 de 19 de junho de 1865, emitida pelo General Gordon Granger para fazer cumprir a Proclamação de Emancipação de 1º de janeiro de 1863, no Departamento do Texas.

Mas, à medida que o exército de libertação se transformava em um exército de ocupação — e um exército imperfeitamente dedicado a proteger os direitos e as vidas dos negros sulistas — comandantes como Granger enfatizavam que a liberdade vinha com muitas condições. “Os libertos são aconselhados a permanecerem tranquilamente em suas casas atuais e a trabalharem por um salário. Eles são informados de que não lhes será permitido se reunirem em postos militares e que não serão sustentados na ociosidade, seja lá ou em qualquer outro lugar.” Em outras palavras: trabalhem para seus antigos patrões e não se reúnam, especialmente em lugares que, para usar a expressão de Haywood, estejam “mais próximos da liberdade”.

Cumprindo a ameaça implícita da proclamação de 19 de junho, o prefeito de Galveston, com a aprovação tácita do chefe da polícia militar, prendeu refugiados e fugitivos negros e os devolveu a seus donos. Outros foram forçados a trabalhar para o exército.

“Com a proclamação da liberdade, veio uma lição prática sobre seus deveres”, relatou o Galveston Daily News em 22 de junho. “Na manhã de segunda-feira, uma guarda de soldados federais vasculhou as ruas”, reunindo todos os libertos “soltos” que conseguiam encontrar, para irem ao campo cortar lenha, tripular barcos a vapor ou auxiliar em qualquer trabalho necessário para o exército. Um pânico logo tomou conta da nova classe assim recrutada”, ironizou o repórter, “mas a agilidade dos soldados brancos e o argumento persuasivo e incisivo da baioneta os fizeram perceber sua obrigação de apoiar o governo que lhes havia concedido a liberdade.”

A nova ordem seria baseada no trabalho assalariado. Mas, devido à grave escassez de dinheiro em todo o Sul pós-Guerra Civil, muitos fazendeiros não conseguiam pagar salários; o sistema de parceria agrícola surgiu, então, como um meio-termo entre a escravidão assalariada e a escravidão propriamente dita. Os agricultores negros arrendavam suas terras de fazendeiros brancos e pagavam por elas com uma parte da colheita, geralmente de um quarto a metade.

Os empregadores tinham liberdade para rescindir os contratos por praticamente qualquer "infração", confiscando toda a colheita e expulsando a família negra de parceiros agrícolas de suas terras, expondo-os às leis de vadiagem e à perseguição do sistema de arrendamento de condenados, o que foi apropriadamente chamado de "escravidão com outro nome". Tal era o tão alardeado ideal de liberdade contratual.

O sistema de parceria agrícola surgiu como um meio-termo entre a escravidão assalariada e a escravidão propriamente dita.

Levou um tempo para que as notícias da emancipação chegassem aos texanos negros nas partes mais remotas do estado — e ainda mais tempo para que fossem assimiladas por seus senhores. Susan Merritt, escravizada no nordeste do Texas, calculou que devia ser setembro quando soube da notícia. Como Merritt recordou em sua própria entrevista durante a época da Grande Depressão, um dia, enquanto ela e outras pessoas colhiam algodão, um estranho chegou à casa a cavalo — “um homem do governo”, com um “livro grande e um monte de papéis” — e exigiu saber por que o fazendeiro não havia entregado a propriedade de seus trabalhadores. Foi desse homem — provavelmente um funcionário do Freedmen’s Bureau, uma agência federal criada para supervisionar a transição para a liberdade e as relações de mercado — que Merritt soube pela primeira vez que estava livre.

No entanto, ela e outras pessoas ainda foram obrigadas a trabalhar para seu antigo senhor por “vários meses depois disso”. As frequentes ameaças de fuzilamento de desertores sem dúvida mantiveram muitos na fazenda. A relativa impotência do Exército dos EUA e do Freedmen’s Bureau encorajou os fazendeiros. Os libertos se viram como inquilinos precários, presos a contratos de trabalho que se assemelhavam mais à servidão por dívida do que à liberdade que tanto almejavam.

À medida que o Freedmen’s Bureau começava a se estabelecer no Texas naquele outono, circularam relatos de que seus funcionários planejavam consultar fazendeiros locais treinados na “gestão” de trabalhadores negros — algo bem diferente da missão original da agência. A carta original previa a distribuição de centenas de milhares de acres de terra que haviam sido abandonados ou confiscados de fazendeiros rebeldes ao longo da guerra.

Na primavera de 1865, o Freedmen’s Bureau controlava aproximadamente 900.000 acres de “terras do governo”, o suficiente para quase 23.000 propriedades rurais para negros. Além disso, o General William Tecumseh Sherman havia emitido a Ordem de Campo nº 15 em janeiro, providenciando o loteamento de cerca de 485.000 acres para libertos nas Ilhas Costeiras e na região costeira da Carolina do Sul em lotes de 40 acres, terras nas quais o general havia ordenado que “nenhuma pessoa branca... teria permissão para residir”.

Mas a contrarrevolução chegou em outubro de 1865. O presidente Johnson revogou sumariamente a ordem de Sherman e ordenou ao chefe do Departamento de Libertos que desestatizasse as terras do governo, devolvendo-as aos fazendeiros rebeldes que Johnson havia perdoado em massa recentemente.

No Sul emancipado, portanto, a desapropriação de terras dos negros caminhou lado a lado com a imposição coercitiva de trabalho "livre". Ao mesmo tempo, capitalistas do Norte e funcionários federais conspiraram para impedir a ampla propriedade de terras por negros — justamente aquilo que os libertos consideravam, quase universalmente, a condição essencial para a liberdade em uma sociedade pós-escravidão. Um liberto de sessenta anos do Vale do Mississippi comentou com um jornalista do Norte logo após a guerra: "De que adianta ser livre se você não tem terra suficiente para ser enterrado?"

Da Reconstrução às Leis de Jim Crow

Os protestos liderados por negros durante os últimos meses de 1865 foram generalizados, embora em pequena escala e geralmente em resposta a confrontos específicos que os incitavam. Um ex-proprietário de escravos reclamou ao jornal Waco Register que, embora vários de seus colegas fazendeiros se dignassem a assinar contratos com seus novos empregados negros, ele estimava que três quartos dos libertos em sua região “aguardavam o Natal como o alvorecer do milênio, quando carne e pão chegariam como algo natural”.

Muitas famílias negras, de fato, recusaram-se a assinar os contratos abomináveis ​​para a temporada que se aproximava, aguardando a promessa de redistribuição de terras. Entre os sulistas brancos, especialmente da classe dos fazendeiros, espalharam-se rumores febris sobre uma iminente revolução nos moldes da haitiana. O medo generalizado no inverno de 1865-66 logo recebeu um nome: o Medo da Insurreição de Natal. Mas, no fim, provou ser apenas isso mesmo. Promessas quebradas, os libertos, a contragosto, assinaram contratos de trabalho.

Libertos votando em Nova Orleans (1867). (Biblioteca Pública de Nova York)

Os libertos do Texas tinham muitos motivos para temer, pois cerca de trinta e oito mil ex-confederados retornaram com sede de vingança. Além de saquear o tesouro em Austin, os rebeldes do estado confederado falido assediaram, brutalizaram e mataram libertos à vontade. Como Du Bois observou em "Reconstrução Negra", o terrorismo antigovernamental e anti-negro generalizado em todo o Sul era talvez pior no Texas. O simples fato de ser livre era motivo para retaliação branca. O Exército de ocupação dos EUA, por sua vez, não tinha capacidade nem vontade de tornar a liberdade negra significativa. De qualquer forma, o retorno à paz em 1871 e a rápida desmobilização do exército representaram um desastre para os ex-escravizados.

No crepúsculo da escravidão, portanto, um novo sistema de dependência e precariedade acolheu os libertos no Texas e em todo o Sul emancipado — vastamente diferente dos sonhos de liberdade dos antigos escravizados. Por sua vez, os senhores de escravos que se tornaram empregadores queixavam-se rotineiramente da obstinação percebida em seus trabalhadores negros — ou seja, da resistência destes em se tornarem meros instrumentos da vontade de seus patrões. Reclamavam que “o trabalho é incompatível com suas ideias de liberdade”. Ameaças e ordens vindas de cima pareciam ter pouco efeito sobre eles. Um fazendeiro, em uma carta ao Dallas Daily Herald, zombou dizendo que “eles não acreditam em nada do que lhes dizemos ou do que lemos em jornais que seja contrário às suas ideias de liberdade”. Era em parte uma questão de confiança, mas sobretudo uma questão de luta política e convicção que os mantinha em conflito com seus exploradores.

No crepúsculo da escravidão, um novo sistema de dependência e precariedade acolheu os libertos no Texas e em todo o Sul emancipado — vastamente diferente dos sonhos de liberdade dos antigos escravizados.

No crepúsculo da escravidão, um novo sistema de dependência e precariedade acolheu os libertos no Texas e em todo o Sul emancipado — vastamente diferente dos sonhos de liberdade dos antigos escravizados.
Após o fim da Reconstrução, essa grande experiência de democracia birracial, os trabalhadores negros canalizaram seus esforços de organização para várias associações, como a Aliança dos Agricultores Negros, formada no Condado de Houston, Texas, em 1886. Em seguida, veio a ascensão do Partido Populista no início da década de 1890, que dependia — especialmente nos antigos estados escravistas — da mobilização dos eleitores negros. O Texas, em particular, testemunhou um aumento do apoio negro ao Partido Populista e logo se tornou um bastião populista.

O Partido Populista era o único partido político birracial significativo que existia. Era também o único partido que atendia às necessidades de centenas de milhares de meeiros negros no Sul desfavorecido.

Nas palavras de C. Vann Woodward, o Populismo ofereceu aos negros e brancos da classe trabalhadora “um igualitarismo na miséria e na pobreza, a afinidade de uma queixa comum e de um opressor comum”. Sob uma ameaça sem precedentes, os dois partidos estabelecidos conspiraram para incitar o ódio racial e a demonização do Partido Populista até a sua destruição. E conseguiram. Em meados da década de 1890, o Partido Democrata adotou cinicamente alguns pontos da plataforma Populista, cooptou alguns de seus líderes e relegou os eleitores negros ao esquecimento eleitoral do Sul cada vez mais marginalizado.

O que o Juneteenth significa hoje

“Sabíamos que a liberdade estava ao nosso alcance”, recordou Felix Haywood no final da década de 1930, “mas não sabíamos o que viria com ela. Pensávamos que iríamos ficar ricos como os brancos. Pensávamos que seríamos mais ricos do que os brancos, porque éramos mais fortes e sabíamos trabalhar... Mas não foi assim. Logo descobrimos que a liberdade podia orgulhar as pessoas, mas não as enriquecia.”

O Juneteenth merece ser celebrado pela promessa de acabar com a escravidão, mas sua história também nos lembra da “contrarrevolução da propriedade” travada contra a revolução que foi a Guerra Civil Americana — um conflito que, em última análise, libertou quatro milhões de negros que antes eram legalmente considerados propriedade, um conflito no qual mais de 140.000 homens anteriormente escravizados se alistaram e inúmeros outros homens e mulheres negros dedicaram-se com afinco.

Celebração do Dia da Emancipação em Richmond, Virgínia, por volta de 1905. (Bibliotecas da VCU)

É comum dizer hoje em dia que a Guerra Civil está inacabada. Afinal, podemos facilmente apontar para as batalhas onipresentes em torno dos chamados monumentos da Guerra Civil (melhor compreendidos como monumentos à segregação racial que simplesmente adotam a iconografia da guerra). Mas o legado mais duradouro da Guerra Civil não é simbólico ou cultural, mas substancial e econômico. Não só o sistema de parceria agrícola prevaleceu até a década de 1960, como a formulação particular de liberdade imposta aos negros no Sul emancipado pode ser considerada um pesadelo para os vivos, para usar a expressão de Marx.

Ao longo do último ano da pandemia, líderes políticos de ambos os lados do espectro político falaram e agiram como Gordon Grangers modernos, brandindo a liberdade de trabalhar e a ameaça de que “não seremos sustentados na ociosidade”. Os parcos cheques de estímulo, que mal davam para algumas semanas de subsistência para a maioria das famílias, cumpriram essa ameaça. O mesmo aconteceu com os ataques descarados dos conservadores aos benefícios de desemprego, que eles denunciaram veementemente como desincentivos ao trabalho. Como os antigos proprietários de escravos, eles revelaram uma crença arraigada na preguiça natural da classe trabalhadora e uma oposição implacável a uma visão diferente de liberdade. Para esse fim, também, dedicaram-se à austeridade e a políticas econômicas antidistributivas, a incapacitar o Estado de bem-estar social enquanto fortaleciam o punitivo — e a usá-lo contra protestos liderados por negros por algo mais próximo da promessa de “igualdade absoluta”.

“Foi o fim que fez a diferença”, disse Felix Haywood sobre a guerra. Neste Juneteenth, vamos lembrar como a escravidão terminou e como a liberdade permaneceu — e permanece — ilusória. E que ninguém pode nos libertar, a não ser nós mesmos.

Colaborador

Dale Kretz é historiador, organizador e autor de Administering Freedom: The State of Emancipation after the Freedmen’s Bureau. Ele trabalha como representante sindical em Los Angeles.

As raízes da era dourada da austeridade americana

O projeto de lei "One Big Beautiful Bill" de Donald Trump não é apenas um ataque moderno ao SNAP e ao Medicaid — é o ressurgimento de uma estratégia de 150 anos. Das pensões da Guerra Civil aos modernos programas de assistência social, as elites políticas há muito moralizam contra a necessidade enquanto racionam o atendimento.

Dale Kretz

Jacobin

Retrato do vigésimo quarto presidente dos EUA, Grover Cleveland. (Arquivos Nacionais / Newsmakers via Getty Images)

O estado de bem-estar social americano sempre foi imperfeito porque sempre foi incompleto — condicionado à comprovação de renda em vez de universal, estigmatizado em vez de celebrado. A austeridade não é apenas uma questão de cortes orçamentários ou caprichos políticos, mas uma característica intrínseca desse sistema, que depende do cuidadoso racionamento da assistência pública.

Programas como a Previdência Social e o Medicare — frequentemente chamados de “benefícios sociais”, um termo que tecnicamente se refere à elegibilidade legal, mas que é usado com frequência para denotar excesso ou privilégio imerecido — têm se mostrado mais resilientes diante das ameaças constantes de cortes de verbas e privatização. Sua durabilidade decorre, em parte, de noções culturais sobre a suposta “dignidade” de seus beneficiários e, em parte, do grande número de americanos que dependem deles e os têm em alta consideração.

A outra vertente desse sistema de duas vias atravessa uma população igualmente numerosa, mas considerada por muitos como desigualmente merecedora: os americanos de baixa renda que dependem do Medicaid e de programas de assistência alimentar, como o Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). Esses programas são alvos de medidas de austeridade há muito tempo, não necessariamente por meio de cortes drásticos de verbas que ganham manchetes, mas por meio de erosão administrativa constante e difamação retórica. O Medicaid atualmente atende cerca de quarenta milhões de pessoas, uma fração daquelas que não podem arcar com os custos exorbitantes da assistência médica.

A recém-aprovada Lei de Orçamento Único e Abrangente (One Big Beautiful Bill Act - OBBBA) representa a mais recente e extrema manifestação dessa lógica política, projetando o habitual desprezo pelos pobres em uma escala nunca vista em décadas. Estima-se que a lei fará com que dezessete milhões de americanos percam sua cobertura de saúde pelo Medicaid e milhões percam seu auxílio-alimentação pelo SNAP (Programa de Assistência Nutricional Suplementar). Esses cortes devastadores liberam verbas para um orçamento do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) que deverá triplicar de tamanho, chegando a US$ 170 bilhões. O Escritório de Orçamento do Congresso prevê que a lei reduzirá os gastos com o Medicaid em US$ 800 bilhões e aumentará o déficit nacional para US$ 3,3 trilhões em dez anos.

Cortes a conta-gotas como punição

Por mais grosseiro que pareça, o OBBBA não vai prejudicar o Medicaid e o SNAP com algo tão direto quanto um corte de verbas. Em vez disso, o projeto de lei republicano vai expurgar os cadastros por meio do instrumento insidioso da burocracia, aumentando os já pesados ​​encargos administrativos impostos aos requerentes que se dignam a participar do programa. O resultado é o mesmo: menos participantes, menos beneficiários, um programa de combate à pobreza debilitado, miséria generalizada e uma redistribuição de recursos para os ricos.

Esses encargos vêm na forma de requisitos de elegibilidade de trabalho criativamente cruéis. Tais requisitos têm sido usados ​​há muito tempo para elevar o limite de renda na entrada de todas as agências de assistência social americanas. De fato, como foram incorporados às próprias organizações, os detratores já têm um mecanismo pré-fabricado ao seu alcance para reduzir o número de beneficiários.

O OBBBA introduzirá uma série de encargos administrativos nos programas Medicaid e SNAP. A lei exige que os indivíduos — e não os estados — apresentem solicitações de inscrição em planos subsidiados pela Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act), incluindo documentos de cidadania e renda. Ela acaba com a inscrição automática de crianças em idade escolar nos programas de merenda escolar gratuita do SNAP (Programa de Assistência Nutricional Suplementar). Ela obriga os beneficiários a comprovarem sua elegibilidade duas vezes por ano, em vez de uma. Ela impõe exigências de trabalho aos beneficiários de auxílio-alimentação considerados aptos para o trabalho, com idades entre sessenta e sessenta e quatro anos. E ela elimina o compartilhamento de informações entre as agências que coordenam a cobertura dos programas de combate à pobreza.

Estima-se que o projeto de lei fará com que 17 milhões de americanos percam sua cobertura de saúde pelo Medicaid e milhões percam sua assistência alimentar pelo SNAP.

A Lei de Benefício Único e Bonita (OBBBA) está repleta de tais fardos. Eles servem tanto para sufocar quanto para encobrir: para tornar praticamente impossível para a maioria dos beneficiários elegíveis manter seus benefícios e para obscurecer os danos resultantes, apresentando as mudanças como um esforço ético para separar os verdadeiramente merecedores e econômicos dos fraudulentos e preguiçosos.

Em vez de atacar o Medicaid ou o SNAP diretamente, o governo Trump mira em seus supostos infratores. Insiste, aliás, que a OBBBA salva esses programas para os “verdadeiramente necessitados”. Uma página oficial da Casa Branca com equívocos comuns assegura aos americanos que “não haverá cortes no Medicaid”. O projeto de lei, afirma, na verdade

protege e fortalece o Medicaid para aqueles que dependem dele — gestantes, crianças, idosos, pessoas com deficiência e famílias de baixa renda — ao mesmo tempo que elimina o desperdício, a fraude e o abuso. A Lei de Benefício Único e Bonita remove imigrantes ilegais, impõe requisitos de trabalho e protege o Medicaid para os verdadeiramente vulneráveis.

A austeridade, é claro, não é novidade. Tampouco se trata do ataque reacionário aos programas de bem-estar social do país, já fragilizados. Nem, aliás, da busca por bodes expiatórios entre minorias raciais e imigrantes como justificativa para seu desmantelamento. Mas, embora a maioria dos acadêmicos e jornalistas atribua as origens da reação política à oposição da Nova Direita à Grande Sociedade, a estratégia remonta ainda mais longe — às próprias origens do Estado de bem-estar social americano. Esse drama se desenrolou na primeira Era Dourada, sob o governo de outro presidente muito criticado, que cumpriu mandatos não consecutivos.

Do estado de guerra ao estado de bem-estar social

O moderno Estado de bem-estar social americano é convencionalmente visto como um fenômeno pós-Segunda Guerra Mundial, com importantes antecedentes na era do New Deal — sobretudo a Lei da Seguridade Social de 1935. Contudo, suas origens podem ser rastreadas até a Guerra Civil e a Reconstrução, quando o governo federal não apenas confiscou, liquidou ou nacionalizou a propriedade privada dos rebeldes e esmagou o regime escravista, mas, ao fazê-lo, expandiu sua capacidade administrativa central. Parte integrante desse projeto de construção do Estado foi o Escritório de Pensões dos EUA, que oferecia estipêndios mensais a veteranos da União elegíveis e seus dependentes.

Entre aqueles com direito a benefícios junto ao governo federal estavam os 184.000 veteranos das Tropas Coloridas dos EUA — 144.000 dos quais haviam sido escravizados — bem como seus herdeiros legítimos: viúvas, filhos órfãos, mães e pais.

Desde seus modestos começos em 1862, o sistema de pensões da Guerra Civil cresceu exponencialmente nas décadas seguintes. Em seu auge, em 1893, o país contava com quase um milhão de pensionistas inscritos. Os gastos com pensões dispararam para US$ 157 milhões em 1893 (cerca de US$ 5,6 bilhões hoje), consumindo mais de 40% do orçamento federal. Na virada do século, três quartos de todos os veteranos da União sobreviventes recebiam pensão. Em meados da década de 1910, os gastos acumulados com pensões rivalizavam com as despesas totais da Guerra Civil. Por quase vinte anos após a Guerra Civil, o sistema de pensões construído pelos republicanos funcionou como um tema tabu na política americana do pós-Reconstrução, de forma semelhante à Previdência Social de hoje. As pensões sindicais eram tão fundamentais para a identidade política dos Estados Unidos na era da Reconstrução que os legisladores republicanos santificaram os pagamentos de pensões na Décima Quarta Emenda, a carta magna da cidadania americana por direito de nascimento. (A quarta seção diz: “A validade da dívida pública dos Estados Unidos, autorizada por lei, incluindo dívidas contraídas para o pagamento de pensões e gratificações por serviços prestados na repressão de insurreições ou rebeliões, não será questionada.”)

Os candidatos a pensão eram submetidos a extensos testes de capacidade financeira, incluindo exames físicos. Eram examinados por médicos credenciados pelo governo federal, que lhes atribuíam uma classificação de invalidez. Essas classificações eram avaliadas juntamente com provas documentais — registros militares, depoimentos, etc. — e os pedidos de pensão eram negados ou concedidos em valores variáveis. Em 1890, havia mais de 119 faixas salariais fixas, classificadas de acordo com o grau de invalidez física. Os exames médicos desafiaram todos os esforços de padronização e se mostraram notoriamente inconsistentes.

Ainda assim, durante as duas décadas seguintes à guerra, os candidatos e políticos democratas raramente se opuseram publicamente ao crescente tamanho e à “generosidade” do sistema de pensões. Isso até meados da década de 1880, quando o Departamento de Pensões se tornou um foco de controvérsia política e polarizou o cenário eleitoral. A política de pensões influenciou a eleição e a destituição de presidentes americanos.

A instrumentalização do bem-estar social

Os críticos da Era Dourada em relação ao Departamento de Pensões opunham-se à expansão aparentemente imparável da agência, que, em sua visão, drenava os cofres do Tesouro e incentivava a miséria. Argumentavam que ela criava uma nação de dependentes, pervertendo a ética de trabalho de seus beneficiários e subsidiando fraudes e corrupção. O porta-voz da cruzada anti-pensões foi o democrata Grover Cleveland, presidente de 1885 a 1889 e novamente de 1893 a 1897. Cleveland fez campanha prometendo reformar o sistema de pensões para garantir sua pureza, jurando limitar estritamente os benefícios federais aos mais merecedores.

Em 1887, o Congresso aprovou a Lei de Pensões para Dependentes, que teria simplificado e expandido o sistema de pensões, concedendo uma pensão fixa a todos que tivessem trabalhado por noventa dias. Após reverenciar a importância essencial de conceder pensões a “beneficiários merecedores” — como políticos de todo o espectro político ainda fazem hoje — Cleveland reclamou amargamente em sua mensagem de veto que os soldados e famílias da União já haviam sido compensados ​​com generosos salários militares e que as listas de pensionistas atuais já estavam repletas de casos duvidosos.

A nação, insistiu ele, não podia se dar ao luxo de adicionar mais nomes à lista de beneficiários. Tal “liberalidade” para com os manifestamente indignos era, em sua visão, um insulto ao patriotismo americano, bem como um fardo para o Tesouro. Isso, argumentou o presidente, “estimularia a fraqueza e a pretensa incapacidade para o trabalho”, dando “prêmio à desonestidade e à mendacidade”.

As pensões sindicais eram tão fundamentais para a identidade política dos Estados Unidos durante a era da Reconstrução que os legisladores republicanos santificaram os pagamentos de pensões na Décima Quarta Emenda.

Durante seu primeiro mandato, Cleveland vetou centenas de projetos de lei sobre pensões — desde grandes iniciativas reformistas, como a lei de 1887, até pedidos individuais de pensões que já haviam recebido aprovação do Congresso. Além de sufocar todas as iniciativas legislativas, Cleveland nomeou um comissário para o Departamento de Pensões com o mandato de expurgar os cadastros. O comissário John C. Black expandiu a recém-criada Divisão de Exames Especiais e ordenou que seus agentes investigassem todos os pedidos de pensão em busca de indícios de ilegitimidade, a fim de incutir “um respeito saudável pelo poder do Governo nas mentes das classes criminosas”. Somente em 1887, os examinadores de Black investigaram mais de 31.000 pedidos, encaminhando os casos “suspeitos” ao Departamento de Justiça para processo criminal.

O ataque interno de Cleveland aos cadastros de pensões provocou uma resposta organizada do grupo cívico mais poderoso do país. O Grande Exército da República (GAR, na sigla em inglês), uma organização de veteranos com cerca de 400.000 membros, mobilizou-se para destituir Cleveland nas eleições de 1888, que o GAR transformou em um referendo sobre o Departamento de Pensões. Acadêmicos atribuem a eleição do republicano Benjamin Harrison, a aprovação da Lei de Pensões para Dependentes e Invalidezes de 1890 e a subsequente expansão do número de pensionistas, em grande parte, aos esforços do GAR.

Reação e retração

O aumento drástico no número de pensionistas provocou enorme oposição pública, alimentada por políticos e veículos de comunicação democratas. Ecoando a mensagem de veto de Cleveland em 1887, o New York Times alardeou que, "em vez de salvar os veteranos da humilhação da pobreza", o projeto de lei na verdade "ofereceria um grande prêmio para a pobreza profissional, e o número de indignos que receberão seus benefícios será tão grande que lançará descrédito sobre todos que compartilharem com eles". “Nada explica nossa tolerância aos gastos atuais e futuros com pensões”, bradou outro detrator, “a não ser o socialismo de um tipo extremo e perigoso”.

Cleveland surfou nessa onda de volta à Casa Branca em 1893. “As lições do paternalismo devem ser desaprendidas”, zombou ele em seu segundo discurso de posse. Embora todos os patriotas devam apoiar o governo, “suas funções não incluem o apoio ao povo” (ênfase adicionada).

Incapaz de abolir o Departamento de Pensões por completo, Cleveland trabalhou para corroê-lo por dentro. Como fizera em seu primeiro mandato, nomeou um executor como comissário do departamento e ordenou que ele reexaminasse sistematicamente as solicitações. O comissário William Lochren imediatamente reverteu uma decisão de seu antecessor que permitia que classificações de invalidez menores fossem agregadas em uma única classificação composta, em vez de considerar a classificação mais alta como a invalidez principal.

Após essa sutil, porém significativa, mudança de política, Lochren instruiu um corpo de vinte investigadores especiais a examinar as pensões concedidas sob a Lei de Invalidez de 1890. Ele também introduziu “investigações de credibilidade” destinadas a desacreditar testemunhas que depusessem sobre a invalidez de um requerente.

“Sem a contenção das investigações de exame especiais”, alertou o zeloso comissário de Cleveland em seu relatório anual de 1895, “a fraude floresceria e o profissional desonesto e o requerente desonesto liderariam de longe o sucesso no estabelecimento de pedidos de pensão”.

Tanto Donald Trump quanto Grover Cleveland empregaram a retórica da idoneidade e da eficiência, do combate à fraude e à corrupção, como justificativas para suas medidas de austeridade.

O gabinete de Lochren conduziu mais de 40.000 investigações no primeiro ano de seu mandato. O jornal The Bee, voltado para a população negra e com sede em Washington, D.C., previu que mais de 150.000 pensionistas perderiam seus benefícios devido às decisões do comissário. O The Bee também temia que, antes do término de seu mandato, Lochren promovesse uma “limpeza geral” de todos os funcionários simpáticos ao gabinete.

Teste de renda como autossabotagem

A hostilidade dogmática de Cleveland ao sistema de bem-estar social provou ser uma crítica persistente, em grande parte devido ao seu aparente compromisso com a prudência financeira e a aparente neutralidade racial. Seus esforços práticos para corroer o estado de bem-estar social estabeleceram, de forma semelhante, um modelo duradouro — um que combina elogios indiretos com destruição dissimulada.

Embora raramente fossem explicitamente visados ​​pelos críticos do Departamento de Pensões, os pensionistas negros se viram na linha de frente de todos os esforços conservadores para reformar a organização. Os requerentes negros tinham muito menos probabilidade de serem admitidos nos programas de pensão do que seus pares brancos no Norte. Uma vez admitidos, recebiam pensões menores. Os candidatos negros tinham muito mais probabilidade de serem submetidos a investigações especiais, que não raro resultavam em expulsão do cadastro, além de multas e prisão. Isso era especialmente verdadeiro durante os expurgos calculados sob a presidência de Cleveland, quando milhares de requerentes negros foram excluídos do único programa federal inclusivo nos primórdios da segregação racial.

Inúmeras razões explicam esses resultados racialmente desiguais — principalmente o teste de renda invasivo usado para determinar os níveis de invalidez e a semiprivatização dessa tarefa por meio de contratos com médicos civis. Esse arranjo frequentemente beneficiava os requerentes brancos do Norte, enquanto produzia ironias cruéis em muitos consultórios do Sul, onde ex-médicos confederados — e, em alguns casos, ex-proprietários de escravos — avaliavam a capacidade laboral de ex-escravos em nome do governo federal.

Desde o início, o Departamento de Pensões havia sido uma experiência de cidadania civil — fundamentada na propriedade e em contratos — em vez de cidadania social, fundamentada nos direitos universais conferidos pela condição de membro do Estado-nação. Assim, o regime de bem-estar social liberal que emergiu baseava-se na verificação de recursos como forma de adequar os benefícios de maneira restrita e limitar seu alcance.

Quando Cleveland deixou o cargo, amargurado e sitiado por todos os lados, um movimento popular fomentava a inquietação entre as classes agrária e industrial. O Partido Populista tornou-se o veículo político dessa indignação fundamentada, canalizando as frustrações das classes produtoras contra a classe proprietária. Pela primeira vez desde a década de 1850, o duopólio partidário enfrentava uma ameaça vinda de baixo.

As semelhanças entre Grover Cleveland e Donald Trump vão além do fato superficial de seus mandatos não serem consecutivos — ou, aliás, de suas características físicas. Ambos empregaram a retórica da dignidade e da eficiência, do combate à fraude e à corrupção, como justificativas para suas medidas de austeridade. Ambos utilizaram tropas federais para disciplinar a classe trabalhadora: Cleveland enviou o Exército dos EUA para esmagar a Greve de Pullman em Chicago, em 1894; Trump, mais de um século depois, mobilizou fuzileiros navais e unidades da Guarda Nacional federalizada para a cidade de Los Angeles — desta vez não para quebrar uma greve, mas para realizar batidas de imigração em larga escala que visavam trabalhadores indocumentados e enviaram uma mensagem intimidatória aos líderes sindicais. E ambos fizeram isso em nome do não-intervencionismo econômico e de um governo pequeno que serve apenas aos “verdadeiramente dignos”.

Programas de assistência social baseados em critérios de renda têm surgido historicamente de acordos bipartidários, mas o problema não é o acordo em si — é o equilíbrio de poder que o produz. Sem uma classe trabalhadora forte e organizada para exigir resultados justos, esses programas são concebidos para serem restritos, condicionados e vulneráveis ​​desde o início.

A ironia histórica deveria ser clara: os programas de assistência social que dependem da comprovação de renda são corroídos pela própria comprovação de renda. Isso inclui programas que fizeram imenso bem a milhões de pessoas, como o Medicaid e o SNAP. A comprovação de renda garante que os mais explorados da sociedade sejam também os mais vulneráveis ​​ao Estado. Ela oferece aos legisladores oportunistas um mecanismo pronto para reduzir os gastos com assistência social. Tudo o que eles precisam fazer é alcançar por trás do véu burocrático e girar o botão da economia sacrificial para a direita.

Nosso Estado de bem-estar social moraliza contra a necessidade. Ele não está quebrado — está funcionando exatamente como foi projetado. Compreender essa história e a maldade essencial da comprovação de renda exige uma compreensão paralela da possibilidade de um Estado de bem-estar social mais democrático e universal.

Colaborador

Dale Kretz é historiador, organizador e autor de Administering Freedom: The State of Emancipation after the Freedmen's Bureau. Ele trabalha como representante sindical em Los Angeles.

A Copa do Mundo está expondo a parceria nefasta da FIFA com o poder

A FIFA, entidade máxima do futebol, sequer defende jogadores, árbitros e torcedores que estão sendo assediados pelas autoridades americanas. Não é surpresa que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, também tenha se oferecido para ajudar a encobrir o genocídio israelense em Gaza.

Andy Storey

Jacobin

O presidente da Argentina, Javier Milei, o ex-primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, participam da reunião inaugural do "Conselho da Paz", organizado por Donald Trump em Washington, D.C., em 19 de fevereiro de 2026. (Saul Loeb / AFP via Getty Images)

A Copa do Mundo já evidenciou o quão péssimos os Estados Unidos são como coanfitriões. O principal árbitro da África, Omar Artan, da Somália, teve seu visto negado para entrar nos Estados Unidos, assim como o chefe da Autoridade Palestina do Futebol.

Os jogadores do Irã estão baseados no México, só têm permissão para entrar nos Estados Unidos nos dias das partidas e precisam sair imediatamente depois. Vários membros da delegação iraniana tiveram a entrada negada, e a cota de ingressos para os torcedores iranianos foi revogada.

Um jogador iraquiano foi detido por agentes de imigração e interrogado por sete horas na chegada. Os jogadores do Uzbequistão, África do Sul e Senegal também foram assediados e tiveram suas viagens atrasadas. Torcedores marroquinos tiveram seus vistos negados em massa sem nenhuma explicação, enquanto as taxas de rejeição de vistos para cidadãos de muitos outros países são excepcionalmente altas.

Para aqueles que conseguem o visto, os caros depósitos de "caução" muitas vezes impedem a viagem. Tudo isso se soma aos preços exorbitantes dos ingressos para os jogos e à exploração descarada nos preços do transporte nos dias das partidas, bem como de comidas e bebidas dentro dos estádios (isso se aplica especialmente aos Estados Unidos, mas os mexicanos também estão revoltados com isso).

O termo "sportswashing" refere-se à tentativa de clubes e países de usar o esporte para maquiar sua reputação. O governo Trump vai na contramão dessa tendência, não buscando suavizar sua imagem nem um pouco e ostentando orgulhosamente sua crueldade.

Como observou Dave Braneck, Donald Trump é "indiferente à construção de legitimidade global ou à dissimulação de violações de direitos humanos em seu próprio país". Apesar disso, ele é bajulado por Gianni Infantino, presidente da FIFA, a entidade máxima do futebol mundial. Mais notoriamente, Infantino presenteou Trump com um absurdo "prêmio da paz" da FIFA no ano passado (uma consolação por não ter recebido o Prêmio Nobel).

Cumplicidade

O apoio de Infantino a Trump inclui uma promessa de 75 milhões de dólares da FIFA ao Conselho de Paz do presidente para a “reconstrução” de Gaza. O dinheiro destina-se ostensivamente a apoiar infra-estruturas de futebol, incluindo um estádio com capacidade para vinte mil lugares a ser construído sobre os escombros e ossos de Gaza. O conselho de Trump é amplamente visto como um meio de facilitar a limpeza étnica dos palestinianos e como uma legitimação de facto do genocídio de Israel.

O apoio de Gianni Infantino a Donald Trump inclui uma promessa de 75 milhões de dólares da FIFA ao Conselho de Paz do presidente para a “reconstrução” de Gaza.

Evitando estas questões centrais, Infantino prefere recorrer a artifícios como tentar fazer com que os dirigentes das federações de futebol israelenses e palestinas apertem as mãos num recente congresso da FIFA – o delegado palestino não aceitou nada disso. Agora ele está tentando pressionar os jovens jogadores de futebol palestinos a jogarem contra Israel em um torneio em setembro.

A legitimação de Israel pelo futebol não se limita a Infantino e Trump. Os clubes de futebol mais ricos do mundo estão perfeitamente dispostos a fazer negócios como de costume com Israel e os seus facilitadores, alguns até policiando os seus próprios funcionários e apoiantes para servir os interesses israelitas.

Um exemplo é o Arsenal, cujos jogadores acabaram de conquistar o título da Premier League inglesa pela primeira vez em vinte e dois anos. Não se sabe se Mark Bonnick se juntou às comemorações. Bonnick, um apoiador de longa data e funcionário há vinte e dois anos, foi despedido do seu emprego como gestor de equipamento do clube na véspera de Natal de 2024, por publicações nas redes sociais que protestavam contra o genocídio de Israel em Gaza.

O Arsenal admitiu que Bonnick não era culpado de anti-semitismo (ativistas anti-racistas judeus concordaram), apesar das alegações de ativistas pró-Israel, e um inquérito oficial o inocentou de má conduta. Mas a demissão persistiu, com o Arsenal alegando que ele havia desacreditado o clube. Ele está processando por demissão sem justa causa.

O caso de Bonnick é um dos muitos destacados num relatório publicado pela instituição de caridade britânica War on Want intitulado “Red Card: English Premier League sportswashing of Israel’s atrocities against the Palestinians”. Vários clubes estão incluídos nesta acusação, com especial atenção voltada para patrocinadores corporativos de diferentes clubes (e da própria liga). Esses patrocinadores incluem grandes empresas de tecnologia e empresas de serviços financeiros que negociam com Israel e, em alguns casos, trabalham diretamente com as Forças de Defesa de Israel (IDF).

Parceiros no Crime
O relatório classifica o Liverpool (com seis de seus patrocinadores considerados cúmplices de genocídio) como o pior infrator, mas o Arsenal vem logo atrás. O clube já havia atraído críticas (inclusive de alguns de seus próprios torcedores) por seus contratos de patrocínio com os governos de Ruanda e dos Emirados Árabes Unidos (EAU), ambos culpados de repressão interna e fomento de conflitos e roubo de recursos no exterior.

As camisas do Arsenal exibem o slogan “Visite Ruanda”, embora o Estado ruandês patrocine milícias terroristas na República Democrática do Congo, que cometem violência sexual e massacres em larga escala, além de roubar recursos como ouro e coltan para enviar a Ruanda. O estádio do Arsenal leva o nome da companhia aérea Emirates, embora os EAU forneçam dinheiro e armas — em troca de ouro roubado — a uma força sudanesa culpada de crimes de guerra atrozes.

O estádio do Arsenal leva o nome da companhia aérea Emirates, embora os EAU forneçam dinheiro e armas a uma força sudanesa culpada de crimes de guerra atrozes.

Embora Ruanda esteja prestes a ser substituída como patrocinadora da camisa do Arsenal na próxima temporada, essa substituição não é nada positiva. O novo patrocinador é uma empresa israelense de recursos humanos e folha de pagamento chamada Deel, que já é "parceira" de recursos humanos do Arsenal e tem sua imagem amplamente divulgada no clube. Executivos da Deel emitiram declarações expressando forte apoio às forças armadas israelenses e forneceram pessoalmente suprimentos para militares.

A Deel é mais bem-vinda no Arsenal do que uma torcedora que usava uma camiseta com a bandeira da Palestina e teve a entrada negada no estádio em outubro de 2025, a menos que removesse a peça ofensiva. Mas ela pode se considerar sortuda em comparação com um torcedor do Brighton que foi banido do estádio do seu clube por cinco anos por usar uma camiseta semelhante.

Em contraste, Tomer Hemed, treinador da base do Brighton, postou fotos suas ao lado de soldados israelenses em Gaza com a legenda: "Animais humanos não são humanos!!! Monstros! Que morram sofrendo!". Milhares de torcedores do Brighton reclamaram com o clube sobre Hemed, mas, ao contrário de Mark Bonnick no Arsenal, ele escapou de qualquer punição.

Arsenal e Brighton estão longe de ser os únicos. O Manchester City, na verdade, pertence aos Emirados Árabes Unidos, o que significa que está ainda mais envolvido em crimes apoiados pelos Emirados Árabes Unidos no Sudão e em outros lugares. Especificamente sobre a Palestina, o presidente do Manchester City, Khaldoon Al Mubarak, juntou-se ao Conselho de Paz para Gaza, mencionado anteriormente por Trump. Fazendo-lhe companhia nesse conselho está Mohammed bin Salman, tirano saudita e presidente da empresa que detém a participação majoritária no Newcastle United.

Irlanda e Israel
Entre os patrocinadores do Manchester City está a empresa de criação de sites Wix, fundada por um ex-membro da inteligência militar israelense. A empresa enviou mensagens internas aos seus funcionários, incentivando-os a "mostrar ocidentalidade" e a destacar como os israelenses, "ao contrário dos habitantes de Gaza, se parecem e vivem como europeus ou americanos". A Wix emprega cerca de quinhentas pessoas em Dublin, na Irlanda, uma das quais, Courtney Carey, foi demitida em outubro de 2023 após chamar Israel de "estado terrorista" nas redes sociais.

A Irlanda está no centro dos debates atuais sobre se o futebol deve continuar a normalizar e legitimar Israel. Dois jogos da Liga das Nações entre Irlanda e Israel estão agendados para este outono. Uma enorme onda de oposição se formou em torno da realização dessas partidas.

O governo irlandês agora afirma que é uma questão para as autoridades do futebol, depois de ter defendido anteriormente a realização dos jogos. Em contraste, em 2022, o ministro do esporte (que ainda é ministro) escreveu para todas as organizações esportivas irlandesas, instando-as a impor um boicote à Rússia e à Bielorrússia — e pensar que a decisão deveria ser tomada pelas autoridades esportivas!

A Irlanda está no centro dos debates atuais sobre se o futebol deve continuar a normalizar e legitimar Israel.

A Associação de Futebol da Irlanda (FAI), apesar dos protestos de muitos de seus membros, insiste que os jogos contra Israel devem acontecer, caso contrário, o futebol irlandês poderá sofrer sanções financeiras e esportivas. A FAI, em vez disso, organizou a realização do jogo "em casa", marcado para Dublin, em um local em um terceiro país e com portões fechados (o jogo "fora" já estava previsto para acontecer fora de Israel).

Essa mudança de local só agrava o problema. Ela isenta o governo irlandês de responsabilidade, já que agora ele pode alegar que o jogo está fora de sua jurisdição, e priva a maioria dos irlandeses da oportunidade de realizar um protesto massivo no estádio. Mais importante ainda, os jogos ainda não terminaram, e o estado de apartheid de Israel — culpado de genocídio em Gaza, bem como de ataques crescentes e assassinos contra palestinos na Cisjordânia e contra os povos do Líbano e do Irã — continua sendo tratado como um parceiro normal e legítimo.

Cultura do Racismo
O argumento a favor de um boicote total recebe apoio específico no futebol devido à natureza racista do futebol israelense, que reflete a cultura mais ampla do próprio Estado. O Maccabi Tel Aviv FC, comandado pelo recordista de gols irlandês Robbie Keane de junho de 2023 a junho de 2024, tem torcedores que rotineiramente cantam “Deixem as Forças de Defesa de Israel vencerem, foda-se os árabes”. A Fundação Hind Rajab documenta como os torcedores do Maccabi também constroem “coreografias elaboradas no estádio, ou tifos, que apresentam insígnias militares, slogans nacionalistas e retratos gigantes de soldados”.

Entre os torcedores, há um grupo radical ligado às Forças de Defesa de Israel que busca confrontos violentos em suas viagens, incluindo atos de vandalismo em geral, bem como ataques contra palestinos e muçulmanos em Atenas e Amsterdã em 2024. Em novembro de 2023, durante a gestão de Keane no clube, o time do Maccabi assistiu a um “vídeo motivacional” de funcionários do clube que também eram reservistas do exército, disparando foguetes em Gaza. A equipe aplaudiu o espetáculo.

Dez clubes de futebol israelenses são autorizados pelo Estado a operar em territórios palestinos ocupados ilegalmente.

O Maccabi Tel Aviv nem sequer é o clube mais racista de Israel — essa duvidosa honra pertence ao Beitar Jerusalém — e as ações e atitudes dos clubes israelenses são superadas pela abordagem violenta e ilegal do governo israelense em relação às terras e jogadores palestinos. Dez clubes de futebol israelenses são autorizados pelo Estado a operar em territórios palestinos ocupados ilegalmente. Desde outubro de 2023, Israel danificou ou destruiu a maioria das instalações esportivas de Gaza e matou pelo menos 565 membros da Associação de Futebolistas Palestinos.

Para citar apenas um exemplo, Imad Abu Tima, que representou a Palestina na categoria sub-20, foi assassinado pelas Forças de Defesa de Israel em 2024, juntamente com nove membros de sua família. Em dezembro de 2023, as forças israelenses transformaram o estádio Yarmouk, em Gaza, em um campo de internação onde homens, mulheres e crianças foram despidos até ficarem apenas de roupa íntima e vendados. Alguns foram obrigados a se ajoelhar em frente a um gol, cuja rede estava adornada com a bandeira de Israel. Mais tarde, tanques e tratores israelenses destruíram o campo.

Mais do que um gesto

Os críticos podem alegar que boicotar uma partida de futebol é apenas uma demonstração política simbólica. Mas o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak disse ao seu bom amigo Jeffrey Epstein que um boicote ao futebol israelense tinha “o maior potencial para mudar o destino do país”.

Ativistas na Irlanda também gostariam de ver o Estado irlandês tomar medidas mais concretas, como a implementação efetiva de um projeto de lei há muito prometido sobre os Territórios Ocupados, que proíbe a importação de bens e serviços de assentamentos israelenses ilegais — uma versão atenuada, que exclui o comércio de serviços, parece estar prestes a se tornar lei — e a proibição do sobrevoo de armamentos destinados a Israel pelo espaço aéreo irlandês.

Gestos simbólicos de indivíduos e da sociedade civil importam, mesmo quando as grandes autoridades não estão dispostas a agir. Quando o Barcelona conquistou o último título do campeonato espanhol, o prodígio Lamine Yamal, de dezoito anos, acenou com uma bandeira palestina no desfile comemorativo em um ônibus aberto.

O gesto provocou a ira do governo israelense, com o Ministro da Defesa, Israel Katz, alegando que incitava o ódio. Ele dificilmente teria se dado ao trabalho de protestar se o gesto fosse insignificante.

Um mural de Yamal foi pintado em prédios danificados pela guerra em Gaza, mostrando que a solidariedade simbólica é notada e apreciada. Esperamos que possamos ver gestos semelhantes de solidariedade — em relação a Israel, aos direitos dos migrantes ou a outras causas — por parte de jogadores de futebol na Copa do Mundo, desafiando o autoritarismo de Trump e a cumplicidade bajuladora de Infantino.

Colaborador

Andy Storey é ex-professor de economia política na University College Dublin.

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