3 de novembro de 2026

Uma luta pelos direitos dos trabalhadores mudou os rumos no Brasil

Erika Hilton, uma das primeiras legisladoras trans do Brasil, trouxe uma nova energia para a esquerda brasileira. A deputada socialista ajudou a liderar a luta pelo estabelecimento de uma semana de trabalho de 40 horas, o que também deu um impulso vital à campanha presidencial de Lula.

Cruz Bonlarron Martínez


O debate em torno da reforma da jornada de trabalho de 40 horas semanais tornou-se um espaço fundamental para a campanha de Lula retomar o fôlego — após um início em que ficou atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno —, deslocando o foco para o que estava em jogo para a classe trabalhadora brasileira. (Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados / CC BY 3.0)

Enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva comemorava sua vitória histórica sobre o candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro no domingo, ele abraçou a deputada trans Erika Hilton e a beijou na bochecha em comemoração. O vídeo circulou nas redes sociais, com muitos usuários apontando-o como prova da aceitação da identidade trans pelo Brasil e do papel fundamental que a comunidade LGBTQ+ desempenha dentro da coalizão de Lula.

É importante notar que Hilton e outros políticos LGBTQ+ são mais do que simplesmente parte de uma coligação diversificada. Eles são a força por trás de uma legislação que reduzirá a semana de trabalho brasileira de quarenta e quatro para quarenta horas, um feito histórico que contribuiu para a vitória de Lula e ajudou a manter o fascismo sob controle.

Vida além do trabalho

Um dia de 2023, após encerrar seu turno, um auxiliar de farmácia do Rio de Janeiro chamado Rick Azevedo decidiu gravar um vídeo criticando a jornada de trabalho de seis dias a que está sujeita grande parte da classe trabalhadora brasileira, incluindo um número desproporcional de trabalhadores negros. No vídeo, ele se referiu ao 6 x 1, nome coloquial desse regime de trabalho, como uma “forma moderna de escravidão” e perguntou quando a classe trabalhadora iria fazer uma revolução para acabar com isso.

Uma legislação que reduzirá a jornada de trabalho brasileira de quarenta e quatro para quarenta horas é uma conquista histórica que contribuiu para a vitória de Lula.

Azevedo prosseguiu observando que se ele, solteiro, não tivesse tempo para fazer nada, só poderia imaginar como as coisas são ruins para outras pessoas que têm filhos. Ele encerrou o vídeo com um apelo à revolta, alertando que se trabalhadores comuns como ele não se organizassem em torno da questão, as coisas nunca mudariam. Ele originalmente arquivou o vídeo, mas depois que seu gerente o chamou para trabalhar no dia seguinte, ele decidiu postá-lo no TikTok durante seu turno.

O vídeo rapidamente se tornou viral, com milhares de interações logo após ser postado. Azevedo, que já tinha seguidores no TikTok por postagens sobre cultura pop e Beyoncé Knowles, recebeu mensagens de outras pessoas que pensavam da mesma forma. Em resposta, fundou o movimento social Vida Além do Trabalho (VAT, “Life Beyond Work”), organizando-se primeiro através de transmissões ao vivo e grupos de WhatsApp, depois através de petições para alterar a lei.

Azevedo, que passou grande parte da sua vida saltando de emprego em emprego, mas nunca encontrando tempo suficiente para terminar os estudos universitários formais, tornou-se um líder do movimento da noite para o dia. O movimento logo se espalhou para outros estados e financiou um protesto em São Paulo para se organizar em torno do assunto, chamando a atenção de Erika Hilton, uma estrela em ascensão no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Por causa de sua nova popularidade, Azevedo decidiu concorrer à Câmara Municipal do Rio em 2024 com o apoio do PSOL, popularizando ainda mais o movimento e solidificando sua aliança com Erika Hilton.

A luta no congresso

Após os protestos iniciais de 2024 e a notícia da eleição de Azevedo no Rio, as reivindicações por uma mudança na jornada de trabalho ganharam força e foram abraçadas por alguns parlamentares progressistas brasileiros. Contudo, pela legislação brasileira, uma alteração dessa natureza não poderia ser realizada por meio de um processo legislativo comum; ela exigia uma emenda à Constituição Federal.

No Brasil, uma emenda constitucional requer a assinatura de um terço dos membros de ambas as casas legislativas. Na época, isso parecia um objetivo muito difícil de alcançar, uma vez que grande parte dos parlamentares pertencia a partidos de direita e de centro-direita que, inicialmente, opunham-se à mudança.

A jornada de trabalho de trinta e seis horas enfrentou resistência de setores de centro e de direita que optaram por alinhar-se ao capital e opor-se à proposta.

Em fevereiro de 2025, Hilton conseguiu as assinaturas de 234 parlamentares para a proposta de emenda constitucional — um número bem superior ao terço necessário —, o que permitiu que a matéria fosse submetida a debate formal no Congresso. A proposta inicial era bastante ambiciosa: defendia uma jornada de trinta e seis horas distribuída ao longo de quatro dias, sem qualquer redução salarial — o que teria tornado a legislação trabalhista brasileira uma das mais progressistas da América Latina.

A jornada de trabalho de trinta e seis horas enfrentou resistência de setores de centro e de direita que optaram por alinhar-se ao capital e opor-se à proposta. O movimento liderado por Azevedo e o movimento sindical brasileiro mobilizaram-se em torno dessa pauta no dia 1º de maio; na ocasião, o presidente Lula elegeu o fim da escala de trabalho 6x1 como um dos pontos centrais de seu discurso do Dia do Trabalhador, em 2025.

Lula afirmou que tal mudança era necessária para estabelecer um equilíbrio entre a vida profissional dos trabalhadores e o seu bem-estar. Contudo, apesar da pressão, a proposta permaneceu tramitando no Congresso durante o restante de 2025. Em abril de 2026, o presidente enviou sua própria proposta ao Legislativo, visando manter o tema em evidência na mídia e continuar exercendo pressão sobre a Câmara dos Deputados.

O fim da escala 6x1

A combinação de pressão vinda de cima e de baixo surtiu efeito e, em maio, a proposta foi finalmente aprovada na Câmara dos Deputados, seguindo para o Senado. A essa altura, a reforma já havia sido alterada, passando a estabelecer uma jornada de trabalho de quarenta horas semanais com dois dias de folga, em vez da semana de quatro dias de trabalho que Hilton havia proposto inicialmente.

O momento atual significava que a reforma trabalhista seria uma peça central no debate nacional durante a eleição presidencial no Brasil. O candidato de direita Flávio Bolsonaro, que na época exercia o mandato de senador, sentiu-se compelido a apoiar a proposta de mudança constitucional, temendo perder o eleitorado da classe trabalhadora. Isso, na prática, representava admitir que a direita havia errado ao se opor à reforma trabalhista.

Após o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, parecia que a concessão feita por Bolsonaro teria sido suficiente para consolidar o apoio à sua candidatura, uma vez que ele liderava as pesquisas e seu partido de extrema-direita, o Partido Liberal, conquistou um número expressivo de cadeiras em ambas as casas do Congresso. Contudo, na mesma noite, Rick Azevedo foi eleito para o Congresso, e Erika Hilton tornou-se a deputada mais votada da história do Brasil, com 1.596.472 votos. Esse resultado demonstrou como a luta pela redução da jornada de trabalho ressoava em diversos segmentos do eleitorado brasileiro.

No dia 14 de outubro, uma semana após o primeiro turno, o Senado brasileiro aprovou, por 75 votos a 1, o fim da jornada de trabalho de quarenta e quatro horas semanais. A medida trouxe uma mudança significativa para a vida de dezesseis milhões de brasileiros que, até então, contavam com apenas um dia de folga por semana. Embora a legislação aprovada tenha sido menos ambiciosa do que a proposta original de Hilton, ela estabeleceu uma jornada de quarenta horas semanais, com dois dias de folga. Isso representa um avanço para milhões de trabalhadores, tornando o Brasil um dos poucos países da América Latina — região onde é notória a exploração de trabalhadores por parte das empresas — a adotar uma jornada de quarenta horas.

Vencendo as "guerras culturais"

O debate em torno da jornada de quarenta horas tornou-se um espaço fundamental para que a campanha de Lula recuperasse fôlego, após ter ficado atrás de Bolsonaro no primeiro turno. A discussão deslocou o foco para o que estava em jogo para a classe trabalhadora brasileira e para a possibilidade de futuras reformas. A questão forçou a direita a reconhecer que Lula e sua coalizão tinham, de fato, os interesses dos trabalhadores como prioridade.

O beijo de vitória de Lula que viralizou. (Facebook)

O debate também revelou a hipocrisia da retórica homofóbica e transfóbica da direita em torno da família, com um homem gay e uma mulher trans liderando a luta para que as famílias da classe trabalhadora possam passar mais tempo juntas, ter acesso à educação e acompanhar o crescimento de seus filhos. Agora, com Lula iniciando seu quarto (e, certamente, último) mandato, a esquerda global deve observar atentamente para aprender como retomar a narrativa das mãos da direita e conectar os interesses da classe trabalhadora às diversas formas de opressão que os trabalhadores enfrentam.

Colaborador

Cruz Bonlarron Martínez é um escritor independente e foi bolsista do programa Fulbright na Colômbia entre 2021 e 2022. Seus textos sobre política, direitos humanos e cultura na América Latina e na diáspora latino-americana foram publicados em diversos veículos, tanto nos Estados Unidos quanto internacionalmente.

2 de novembro de 2026

A UE teme o poder da China sobre o capital privado

Emmanuel Macron celebrou um novo acordo da UE para reduzir as importações de automóveis chineses, classificando-o como um golpe contra a “concorrência desleal”. O que realmente preocupa os líderes europeus é o fato de a China ter conseguido disciplinar seus capitalistas — algo que a Europa não está disposta a tentar.

Alexandra Gerasimcikova

Líderes europeus acusam, de forma recorrente, a política industrial chinesa de distorcer a concorrência e interferir no capital privado. Em vez disso, poderiam avaliar se o histórico de planejamento estratégico da China oferece lições que a UE poderia adaptar às suas próprias economias. (Ludovic Marin / Pool / AFP via Getty Images)

Para a satisfação dos líderes franceses e alemães, a União Europeia chegou a um acordo com Pequim para ajudar a amenizar o déficit comercial de € 360 bilhões do bloco em relação à China no setor de mercadorias. O presidente francês, Emmanuel Macron, celebrou o acordo firmado em outubro — que visa reduzir as importações de carros híbridos chineses e melhorar o acesso ao mercado para certos produtos europeus — como uma forma de proteger a Europa da “concorrência desleal”. Outras medidas para reequilibrar o comércio entre a UE e a China estão sendo discutidas.

De fato, as exportações chinesas representam um desafio para as indústrias europeias — que já enfrentam dificuldades — de diversas maneiras. Seus gigantes industriais lutam cada vez mais para manter lucros exorbitantes e preservar o domínio em seus mercados tradicionais, incluindo a China, onde os consumidores estão optando, cada vez mais, por produtos chineses mais baratos.

A reestruturação histórica da Volkswagen é um exemplo disso. Em vez de ampliar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento para produzir carros elétricos menores e mais acessíveis, a Volkswagen continuou a explorar ao máximo seu antigo modelo de negócios, distribuindo € 20 bilhões aos acionistas nos últimos três anos. Agora, com uma queda de 9,5% no lucro — que recuou para € 3,5 bilhões no segundo trimestre de 2026 —, a montadora rompeu seus acordos coletivos com os sindicatos e anunciou o fechamento de quatro fábricas na Alemanha, além do corte de cem mil postos de trabalho em todo o mundo. Paralelamente, a Volkswagen pretende elevar sua margem de lucro operacional de cerca de 4% para expressivos 8% a 10% até 2030, justificando a meta com base nas expectativas de retorno dos investidores.

Os gigantes industriais europeus enfrentam dificuldades crescentes para manter lucros exorbitantes e dominar seus mercados tradicionais, inclusive na China.

Contudo, o alarmismo em torno do superávit comercial da China com a UE — e de seus subsídios supostamente “desleais” — tende a ocultar o desconforto da Europa com a economia política chinesa.

Veja o caso do chanceler alemão Friedrich Merz, por exemplo, que afirma que a China “combina, deliberadamente, seu dinamismo de mercado com intervenção estatal, excesso de capacidade produtiva, precificação agressiva, uma moeda subvalorizada e exportações fortemente subsidiadas”. Por trás das acusações de concorrência desleal feitas por Merz, reside o verdadeiro problema: o sistema chinês envolve um nível de intervenção política na economia que os líderes europeus não estão dispostos a aplicar ao capital em seus próprios países.

Empresas estatais

O primeiro ponto a ser observado, ao tentar compreender o sistema chinês, é o papel fundamental das empresas estatais em sua economia. Desde a abertura de sua economia ao capital privado e aos mercados globais, a partir de 1978, a China manteve uma sólida rede de empresas estatais. Embora a participação dessas empresas na produção industrial tenha diminuído nas últimas décadas, elas representam 62% do total de ativos de empresas estatais em todo o mundo. A Europa vem em seguida, com apenas 14%, após décadas de privatizações que reduziram substancialmente a propriedade pública.

A força das empresas estatais reside em sua capacidade de operar sem ter a lucratividade como objetivo central. Isso não significa que sejam deficitárias, mas sim que podem priorizar investimentos de longo prazo e de alta intensidade de capital, nos quais os retornos são baixos e incertos.

Com uma liderança nomeada pelo Partido Comunista da China (PCC), essas empresas são centrais para a estratégia industrial do país, constituindo o que se denomina “a força vital da economia nacional” em setores como energia, transporte e finanças. Elas também contribuem para a estabilidade do emprego, mantendo postos de trabalho durante períodos de retração econômica — em vez de realizar demissões em massa —, o que exerce um efeito estabilizador sobre o emprego em setores correlatos. Além disso, as empresas estatais formam um grande número de engenheiros que, posteriormente, passam a integrar empresas privadas dos setores industrial e tecnológico. Segundo a Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC, na sigla em inglês), as empresas estatais detêm mais de 70% dos ativos em setores estrategicamente importantes.

O sistema chinês envolve um nível de intervenção política na economia que os líderes europeus não estão dispostos a aplicar ao capital em seus próprios países.

Isso torna as empresas estatais uma poderosa ferramenta de política industrial — especialmente quando se trata de gigantes como a State Grid Corporation, a terceira maior empresa do mundo em receita, que fornece um insumo econômico essencial: a eletricidade. Graças a robustos investimentos públicos em transmissão e geração — orientados por objetivos políticos, e não apenas pela lucratividade —, a China alcançou a maior taxa de eletrificação do mundo. Paralelamente, o país conquistou uma liderança global em tecnologias limpas, produzindo energia renovável que impulsiona, cada vez mais, o seu desenvolvimento industrial. Após concentrar-se em um crescimento da manufatura e da indústria pesada altamente dependente do carvão, a China detém hoje uma vantagem significativa para expandir setores que demandam grande quantidade de energia elétrica — como a inteligência artificial e a robótica —, que constituem as próximas fronteiras da “competitividade” global.

Essa potência asiática, fortemente voltada à eletrificação, contrasta drasticamente com a dependência da Europa em relação ao investimento privado e à rentabilidade de mercado para impulsionar a implementação de energia renovável. A Europa teria capacidade de ampliar o financiamento público para um sistema de energia renovável — por exemplo, por meio do Banco Europeu de Investimento e do Banco Central Europeu. Contudo, interpretações conservadoras sobre os mandatos dessas instituições, somadas ao receio de que o investimento público possa “deslocar” (ou inibir) o capital privado, impediram que o setor público desempenhasse um papel mais ativo na descarbonização. Paralelamente, os interesses das empresas de combustíveis fósseis continuam a moldar o mercado energético europeu.

O problema reside no fato de que o plano de transição ecológica da União Europeia, o “Pacto Ecológico” (Green Deal), foi concebido, desde o início, com o objetivo de tornar a transição lucrativa para o capital privado, em vez de focar no planejamento de investimentos estratégicos de longo prazo. Como essa expectativa não se concretizou na escala desejada, as políticas ambientais têm sido progressivamente revertidas em todo o bloco. Isso fica evidente na atual agenda de desregulamentação da UE, que visa “reduzir a burocracia” para as empresas — o que, na prática, significa o desmantelamento de direitos trabalhistas e de proteções ambientais.

Como resultado, os preços da eletricidade para a indústria europeia são duas vezes mais altos do que nos Estados Unidos — e 50% superiores aos da China. A taxa de eletrificação na Europa tem permanecido praticamente estagnada na última década, o que, sem surpresa, reflete-se no lento avanço da mobilidade elétrica e da descarbonização de setores industriais, como o siderúrgico. Pior ainda: algumas indústrias europeias chegam a recusar subsídios destinados a investimentos “verdes” por considerá-los pouco rentáveis.

Economia público-privada

A segunda grande diferença é a relação entre os setores público e privado na China e na UE.

Na China, as empresas públicas e privadas não operam simplesmente em paralelo. Profundamente ligados através de clusters industriais, podem partilhar os benefícios dos mandatos políticos das empresas públicas e o seu acesso ao financiamento barato dos bancos públicos. As empresas privadas são parte integrante da economia de mercado socialista do país. De acordo com números citados por Xi Jinping em 2018, a economia privada representou 60% do PIB e proporcionou mais de 80% do emprego urbano.

Ao mesmo tempo, o Estado mantém um grau considerável de controlo sobre o capital privado. O acesso ao mercado continua restrito em alguns setores, como o financeiro, as telecomunicações ou os cuidados de saúde. Recentemente, a China também lançou uma campanha histórica de recuperação fiscal sobre as suas empresas. Um dos seus maiores conglomerados agrícolas, por exemplo, deveria reembolsar uma quantia equivalente a 120% dos seus lucros de 2025.

Impensável nas economias ocidentais de hoje, muitas empresas privadas chinesas, especialmente as grandes, têm unidades do PCC nas suas estruturas que ajudam a alinhar os negócios com as prioridades partidárias e os objectivos nacionais. Remontam a 1994, quando o direito das sociedades introduziu a ambição de estabelecer unidades do PCC para servirem como uma “fortaleza combatente na economia não pública”. Parecem estar concentrados em sectores onde as empresas públicas estão mais presentes, desde a indústria transformadora e financeira até ao imobiliário e à alta tecnologia.

As empresas privadas estão ligadas às empresas públicas através de clusters industriais e zonas económicas especiais, criados em 1980 como locais de teste para mercados com capital privado e estrangeiro. Com um apoio estatal significativo, estas zonas reúnem recursos públicos e privados para colher os benefícios de cadeias de abastecimento integradas, instituições de investigação conjuntas e trabalhadores qualificados. As empresas públicas também constroem infra-estruturas de apoio — redes eléctricas ou interligações ferroviárias de alta velocidade — o que aumenta as suas hipóteses de aumentar as economias de escala e reduzir os custos de produção. Hoje, o governo continua a adoptar este modelo como forma de desenvolver clusters estratégicos para além da indústria transformadora da década de 2000, em direcção a zonas de desenvolvimento de alta tecnologia.

Um exemplo é a Grande Área da Baía (Greater Bay Area), um aglomerado urbano que inclui Shenzhen — a primeira zona econômica especial da China, estabelecida em 1980 e que hoje abriga empresas como a gigante de eletrônicos de consumo Huawei e a fabricante de automóveis BYD. Em 2017, os governos nacional e provinciais de Guangdong, Macau e Hong Kong lançaram um plano de desenvolvimento para transformar a região — anteriormente focada em exportações e manufatura de baixo custo — em um polo global de inovação e tecnologia, com o objetivo adicional de promover um bom padrão de vida e a conservação ecológica. Embora ainda em fase de desenvolvimento, a Grande Área da Baía tornou-se um centro fundamental para os setores de veículos elétricos, inteligência artificial e robótica humanoide. Segundo o professor Cai Huajie, da Universidade Normal de Fujian, o produto econômico total da região atingiu 14,79 trilhões de yuans (cerca de 2,21 trilhões de dólares) em 2024, aproximando-se do patamar da região de Nova York, a maior economia metropolitana do mundo.

Subsídios estatais com um planejamento

Quando a CATL — hoje uma das principais fabricantes de baterias do mundo — iniciou suas operações em Ningde, em 2011, autoridades provinciais e locais ajudaram a desenvolver uma cadeia de suprimentos composta por fabricantes de componentes para apoiar o negócio, que hoje engloba mais de noventa empresas. Por sua vez, a CATL contribuiu para a criação de um dos maiores polos de fabricação de baterias do mundo, o qual moldou a economia da cidade.

Subsídios estatais e medidas protecionistas, que blindaram a produção nacional de baterias contra a concorrência estrangeira, certamente desempenharam um papel na ascensão da CATL. Contudo, diferentemente de governos ocidentais — que relutam em utilizar subsídios como uma ferramenta estratégica e com prazo determinado dentro de um plano industrial de longo prazo —, a China ajusta esses incentivos à medida que os setores amadurecem. Em 2018, a China eliminou o limite de participação acionária estrangeira em fabricantes de veículos de nova energia; com isso, os veículos produzidos por empresas estrangeiras passaram, gradualmente, a ter acesso aos mesmos subsídios ao consumidor que os modelos nacionais. Os subsídios foram reduzidos, e os incentivos diretos à compra para os consumidores foram eliminados ao final de 2022. A CATL intensificou seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento para se adaptar a um ambiente menos protecionista. Quando a demanda por veículos elétricos desacelerou em 2023, a CATL reduziu os preços de suas baterias, auxiliando as montadoras a impulsionar as vendas e a garantir sua própria participação no mercado.

Naturalmente, o Estado possui um papel muito mais expressivo nessa economia mista. Isso significa que a produção e as vendas do setor privado estão, na prática, integradas a uma forma de planejamento público que vai além dos simples “sinais de mercado” — especialmente em setores nos quais a China compete com empresas estrangeiras.

Por exemplo, após o crescimento gradual de empresas como a BYD, o governo lançou, em 2009, o projeto-piloto “Dez Cidades, Mil Veículos”, com o objetivo de introduzir, anualmente, pelo menos mil veículos elétricos no sistema de transporte público de dez cidades. A BYD, hoje a maior fabricante de veículos elétricos do mundo em volume de vendas, foi uma das fornecedoras de ônibus elétricos para o projeto. Em Shenzhen, essa iniciativa permitiu que a cidade alcançasse, até 2017, a eletrificação total (100%) de sua frota.

Essa abordagem foi, agora, estendida ao setor de robótica. O plano de aplicação "Robot+", desenvolvido em 2023 por dezesseis órgãos governamentais e pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, promove o uso inovador de robôs nos setores de manufatura, saúde, cuidados a idosos, entre outros. De modo semelhante, o plano "AI+" da China para 2025 apoia a adoção de inteligência artificial por empresas estatais para finalidades como a detecção de fadiga na aviação, monitoramento da saúde, operação de linhas de transmissão da State Grid e outras aplicações.

Financiamento e fundos de investimento compartilhado

Os benefícios do ecossistema público-privado da China também ficam evidentes no que diz respeito ao financiamento. O robusto sistema bancário público chinês e seus empréstimos a baixo custo são apenas uma parte da história. A outra diz respeito ao capital acionário: na China, empresas nas quais o setor público detém mais de um quarto das ações representam quase metade da capitalização de mercado. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), esse índice é de apenas 2%.

Tanto o capital público quanto o privado são utilizados ativamente em investimentos em participações acionárias. A China criou milhares de "fundos de orientação governamental" para reunir recursos provenientes de governos, bancos públicos e empresas — tanto públicas quanto privadas. Esses fundos oferecem capital de longo prazo — um "capital paciente" — e, ao mesmo tempo, servem como um meio de gerar retornos, compartilhando os elevados riscos dos investimentos. Um dos maiores exemplos é o Fundo Nacional de Investimento na Indústria de Circuitos Integrados, criado para ajudar a China a alcançar a autossuficiência em semicondutores.

Aprender com os êxitos do "socialismo com características de mercado" da China não significa que a Europa deva imitar as políticas industriais chinesas ou tentar vencer a corrida pela dominância no mercado global.

Em comparação com o modelo europeu de mitigação de riscos — que consiste, em grande parte, em empréstimos e garantias —, a escala da participação acionária do setor público chinês é impressionante. Segundo dados da OCDE, em 2023, o setor público da China detinha cerca de US$ 3,5 trilhões em ações de empresas listadas em bolsa; 79% desse montante pertenciam a governos nacionais e locais. Na Europa, o setor público detinha US$ 1,3 trilhão, sendo que cerca de metade desse valor pertencia a governos. Nos Estados Unidos, o montante era de US$ 1,6 trilhão, com a maior parte das ações pertencendo a fundos de pensão públicos e fundos soberanos estrangeiros.

Longe de ampliar os gastos públicos conjuntos e estratégicos, a União Europeia caminha na direção oposta. Enquanto ocorrem as negociações para o próximo orçamento plurianual (2028–2034), diversos países — incluindo a Alemanha — exigem cortes drásticos, em nome da austeridade. Tais medidas poderiam reduzir o valor real do orçamento em 10% em relação ao atual. E, à medida que o "Pacto Ecológico" (Green Deal) perde força, os gastos militares — em vez de investimentos em uma economia produtiva — crescem de forma perigosa.

O que isso significa para a Europa?

Aprender com os sucessos do “socialismo com características de mercado” da China não significa que a Europa deva imitar as políticas industriais chinesas e tentar vencer a corrida pela dominância no mercado global. A escala massiva de produção e de uso de recursos que tal competição exigiria traria, inevitavelmente, uma série de consequências destrutivas para os trabalhadores e para o planeta.

Os atuais líderes europeus já estão demonstrando como seria essa corrida. Após retornar da China, Merz sugeriu que, em vez de buscar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional, “precisamos, simplesmente, fazer um pouco mais agora”. Os trabalhadores estão cada vez mais pressionados, com o aumento das jornadas de trabalho por toda a Europa, somado a cortes de austeridade em pensões, auxílios-desemprego e serviços públicos. Contudo, como Mariana Mazzucato demonstrou em seu estudo sobre as trezentas maiores empresas não financeiras de capital aberto na Europa, os custos com a mão de obra não são o problema da economia europeia. O verdadeiro problema reside na falta de reinvestimento dos lucros corporativos, em um sistema elétrico inadequado para a descarbonização e na ausência de propriedade pública.

A onda de greves e protestos em massa por toda a Europa — motivada pelo colapso dos sistemas escolares, pela escassez de moradias e pelo custo de vida insuportável — é uma consequência previsível da abordagem equivocada da União Europeia. Trabalhadores, de todas as idades, exigem investimentos socialmente necessários que a busca pela “competitividade” simplesmente não consegue proporcionar.

Em vez de sacrificar as conquistas da negociação coletiva — pelas quais a classe trabalhadora lutou durante séculos —, a Europa deveria ir além do protecionismo do tipo “feito na Europa” e começar a fomentar suas indústrias; acima de tudo, contendo o grande capital e direcionando-o para investimentos produtivos. Com essa abordagem estratégica, a Europa também poderia aproveitar oportunidades de cooperação mutuamente benéfica com a China em tecnologias essenciais para uma economia de baixo carbono.

Surgem fissuras na atual obsessão pela competitividade, em um cenário de colapso dos investimentos públicos. A esquerda pode aproveitar este momento para defender uma economia socializada, baseada na propriedade pública, na participação dos trabalhadores nas decisões e nas necessidades reais das pessoas — e não em dividendos, mercados de exportação ou na fabricação de produtos totalmente desnecessários, como chaleiras equipadas com inteligência artificial ou carros voadores. Nesse sentido, a economia política da China pode oferecer lições úteis, embora a Europa deva trilhar seu próprio caminho.

Colaborador

Alexandra Gerasimcikova trabalha como gerente de projetos nas áreas de energia, comércio e clima no escritório da Fundação Rosa Luxemburgo em Bruxelas.

1 de novembro de 2026

Depois de virada incrível, Lula terá que cumprir as promessas feitas à multidão da Paulista

Construir programa que atenda às amplas maiorias e isole a extrema direita será o grande desafio do presidente

Como será impossível honrar os compromissos sem aumentar o investimento do Estado, veremos cenas emocionantes

André Singer
Professor titular do Departamento de Ciência Política da USP. Autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo" e "Impasse: o Brasil Diante da Onda Reacionária"


[RESUMO] Três fatores devem ser considerados, sustenta o autor, para compreender a virada de Lula no segundo turno das eleições: o freio de arrumação na campanha que reconheceu as dificuldades econômicas do eleitorado, a tomada espontânea das ruas por jovens estudantes e trabalhadores e o exército digital de André Janones. O problema, agora, será honrar os compromissos assumidos em meio à contrariedade do mercado financeiro com o aumento dos gastos públicos.

*

Coube ao Brasil, cujo fundo conservador nunca deve ser subestimado, a proeza de frear, no segundo turno da eleição presidencial de 2026, a onda reacionária que se espalhava pela América Latina. Se a próxima terça-feira (3) confirmar as pesquisas, Donald Trump perderá a maioria na Câmara e no Senado. Então, de Sul a Norte, a democracia no continente ganhará um tempo para articular alternativas ao autocratismo.

O busílis será conjugar os difíceis problemas políticos e econômicos, duas faces da mesma moeda, para chegar a um programa que atenda às amplas maiorias, isolando a extrema direita. Aqui, onde a barbárie é sempre um dado para a maioria da população, a tarefa é, necessariamente, dupla: defender a liberdade e conquistar o acesso do povo, no seu conjunto, aos benefícios da modernidade.


Mesmo sendo dispensável repetir, convém frisar que a extrema direita seguirá a sua viagem rumo ao modelo distópico que projeta e que a batalha vencida no último domingo (25) será uma de muitas que virão. O resultado do primeiro turno, quando o projeto bolsonarista ficou dois pontos percentuais acima do lulista, mesmo com um candidato fraco, isolado e cheio de acusações bastante plausíveis, mostra que Lula (PT) precisará orientar o quarto mandato no sentido da extensa mobilização que permitiu a sua vitória no final.

Convém, de maneira breve, observar alguns dados. Dos 47% de votos válidos em Flávio Bolsonaro (PL) em 4 de outubro, apenas um núcleo duro disposto a seguir a orientação do seu pai apertou 22 por razões ideológicas. Segundo um cálculo do Datafolha, durante o governo de Jair, o bolsonarismo raiz equivalia a cerca de 12% do eleitorado. Afastado do poder, condenado e preso por tentativa de golpe, é pouco provável que o ex-capitão tenha aumentado o contingente fiel ao seu clã.

Os demais escolheram a oposição por estarem insatisfeitos com o governo. O Datafolha fechado três dias antes daquele pleito indicava que 41% consideravam o governo ruim ou péssimo, contra 35% que o achavam bom ou ótimo. Eis a explicação, simples, para a diferença resultante no escrutínio inicial, que quase recoloca a democracia no pelourinho.

Estudos de comportamento eleitoral há muito verificam que o cidadão médio avalia um mandato, sobretudo, de acordo com o mercado laboral e os preços. A existência de empregos ou alternativas autônomas de trabalho, bem como a obtenção de renda capaz de suprir as necessidades da sua família, constituem os itens básicos levados em conta na hora de votar.

De acordo com as estatísticas disponíveis, o crescimento do PIB promovido por Lula 3 produziu um número de empregos satisfatório. A renda, contudo, que também aumentou, parece ter sido drenada por dois fatores ausentes nos governos Lula 1 e 2.

Houve, para começar, uma onda inflacionária mundial na saída da pandemia que foi agravada pelas guerras que se sucedem desde então. A inflação causou um persistente aumento do custo de vida, em particular dos alimentos. Sobre ele, no Brasil, houve um pico de endividamento, resultante de dívidas acumuladas a taxas de juros exorbitantes. A necessidade de exercer mais de uma atividade remunerada para pagar as contas se expandiu.

Ao aperto financeiro, se somou uma epidemia de bets que agravou a situação, já bastante difícil. Por isso, havia a sensação de que "estava na hora de mudar", carreando apoio a Flávio, que jogou parado até que, nos debates finais, foi obrigado a recuar sob a pressão de Lula. As dificuldades decorrentes do custo de vida têm se constituído em óbice para muitos governos ao redor do planeta, independentemente da cor ideológica. Trump deverá perder na semana que vem pelo mesmo motivo.

Em resumo, o preço da carne, que lembrava a promessa lulista de trazer a picanha com cerveja de volta para a mesa do trabalhador, o pico de inadimplência, que atingiu 84 milhões de pessoas em agosto, e a epidemia das bets —30 milhões fizeram ao menos uma aposta no primeiro semestre de 2026— quase levam a democracia de roldão.

Como explicar a incrível virada ocorrida nas três semanas que separam o primeiro do segundo turno? A minha hipótese é que três fatores se interligaram para produzir a mudança que deixou a extrema direita local e internacional boquiaberta. De forma sucinta, aí vão.

Para começar, Lula percebeu, na primeira quinzena de setembro, que havia uma desconexão entre o modo pelo qual tinha estruturado a campanha e a realidade do eleitorado. Antes do primeiro turno, portanto, deu um freio de arrumação. Transformou o que era uma exposição burocrática de realizações em uma série vibrante de decisões.

A sexta-feira, 11 de setembro, uma noite fria e chuvosa de Porto Alegre, foi o momento em que o presidente, que havia adotado o uso do chapéu como marca registrada, reconheceu, em comício, que o café e a carne estavam caros.

Quarenta e oito horas depois, de volta a Brasília, em uma live com militantes, explicou que, na comparação com os tempos de Jair Bolsonaro, havia diminuído o ritmo em que os alimentos subiam de preço, mas outra coisa era fazê-los cair. "O fato concreto é que a gente não conseguiu reduzir o preço estratosférico que estava no governo passado", afirmou o chefe de Estado, tirando, simbolicamente, o chapéu para o eleitor.

No mês e meio seguinte, arregaçou as mangas e tomou, em média, uma resolução importante por semana. Evitou mexer diretamente nos preços, mas colocou à disposição da base da pirâmide social e dos chamados "pobres intermediários" uma série de benefícios compensatórios. O símbolo dessa postura foi a difícil decisão de banir as apostas em defesa da economia popular. Para tanto, abriu mão de arrecadação, comprou briga com empresas, clubes de futebol e mesmo apostadores contumazes.

O resultado foi que o choque do primeiro turno encontrou outro mandato em curso. O Bolsa Família havia sido reajustado em 15%. As bets, completamente proibidas. O Estado havia decidido comprar dívidas com dois a quatro anos de atraso, cobrando-as com deságio de até 90% (Desenrola 3), e assinado uma proposta para que as canetas emagrecedoras fossem liberadas para uso no SUS (Sistema Único de Saúde).

O segundo fator foi que o movimento social percebeu a novidade, por vias nem sempre óbvias. Como gostava de dizer um antigo professor meu, correntes livres e subterrâneas do psiquismo coletivo se sintonizaram. Enquanto, em Brasília, os czares da campanha tentavam compreender o ocorrido, jovens estudantes e trabalhadores (desconfio que os dois ao mesmo tempo) começaram, de maneira espontânea, a encher as ruas do país como se tivessem entendido o sentido da mudança operada por Lula.

Salvo melhor juízo, Niterói foi onde tudo começou, nos dias em que Flávio se sentava em uma cadeira presidencial imaginária e iniciava a montagem do seu ministério. De lá, o movimento cruzou a baía de Guanabara e, em seguida, reapareceu no Rio de Janeiro. São Paulo respondeu, como em 2013, e as manifestações que pareciam dizer "nós não vamos entregar o nosso futuro à família Bolsonaro" pipocaram até culminar na avenida Paulista em 11 de outubro, um domingo, com uma multidão comparável ao 13 de março de 2016.

Uma década depois de a direita fazer o que o Datafolha mediu como a maior manifestação política da cidade de São Paulo (cerca de 500 mil pessoas) para pedir o impeachment de Dilma Rousseff (PT), a esquerda respondia com um ato que poderia ser traduzido como "ditadura nunca mais". O tamanho pareceu equivalente ao olhar impressionista deste observador. Uma pena que o Datafolha tenha desistido de realizar a mensuração e não tenhamos meios técnicos de comparar.

Seja como for, o presidente jogou uma quinta marcha e, junto com o trunfo decisivo de terminar com a escala 6x1, dialogando diretamente com as ruas, resolveu acrescentar ao rol de decisões que vinha tomando havia um mês a gratuidade da tarifa de transporte nos fins de semana. Veja-se que até o velho MPL (Movimento Passe Livre) foi resgatado nesta jornada democrática.

Muitos têm destacado o caráter eleitoreiro das medidas. É certo que foram tomadas às vésperas das urnas se instalarem com o intuito de influenciá-las. O meu argumento é que dialogavam com as necessidades da população, mudando de maneira concentrada o caráter do mandato na direção de enfrentar a insatisfação realmente existente.

Mesmo as medidas voltadas para os MEIs (microempreendedores individuais), anistiando dívidas, facilitando a sua vida operacional e prometendo um auxílio de R$ 5.000, finalmente vieram desafogar o grupo que tem de 2 a 5 salários mínimos de renda familiar mensal. Em outras palavras, os "swing voters" nacionais.

O terceiro fator foi o exército de André Janones. Por ser jejuno em redes sociais, prefiro deixar o assunto para os especialistas. Observei, porém, o efeito mobilizador dos milhões de internautas atingido pelos comandos emitidos a partir do "general".

Assim, depois de passar por dezenas de cidades do interior, as manifestações concluíram na mesma avenida Paulista às vésperas do segundo turno. O paulistaço de 24 de outubro repetiu —ou aumentou— o público do 11 de outubro. Por meio daquela conexão, a dobradinha governo popular-ruas mobilizadas chegou até os rincões deste território continental, com Lula crescendo em todos os lugares e obtendo 10 milhões de votos a mais no fim das contas.

Em suma, reunidos, os três fatores levaram o segundo colocado no primeiro turno a vencer um adversário que recebeu o apoio de candidatos derrotados, de direita.

O jornalista Pedro Doria, do canal Meio, criou uma boa imagem usando dados agregados. Comparando com 2022, viu que dois municípios seriam reveladores do que teria ocorrido no segundo turno. Enquanto Balsas, no sul do Maranhão, onde o agronegócio cresceu, se afastou de Lula no primeiro turno e continuou, grosso modo, longe no segundo, Osasco, na Grande São Paulo, se distanciou no primeiro, mas voltou para o petista no segundo. Faz sentido, pois na região metropolitana deve haver uma concentração de "swing voters".

O problema agora será dar sequência aos compromissos assumidos perante a avenida Paulista, mobilizada pela terceira vez na noite do domingo da vitória. Consciente do ocorrido, o mercado, que não tem voto, mas tem dinheiro, mandou o seu recado na segunda-feira (26): se houver aumento dos gastos públicos, como ficou implícito, iremos embora.

Como será impossível cumprir as promessas feitas sem aumentar o investimento do Estado, veremos cenas emocionantes nos próximos capítulos.

31 de outubro de 2026

Lula 4 dá fôlego à democracia, mas extrema direita não foi embora com Flávio

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

Rodrigo Nunes
Professor da Universidade de Essex e da PUC-Rio. Autor de "Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição" e "Nem Vertical Nem Horizontal: uma Teoria da Organização"

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

*

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

Embora o salto à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados daquele dia não deveria ser surpresa.

Lula segura Bandeira Nacional e a Constituição de 1988 durante caminhada com apoiadores na avenida Paulista, em São Paulo, na véspera do 2º turno da eleição - Danilo Verpa/Folhapress

Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se pôde observar nas três últimas eleições, com a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.

Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas mãos da extrema direita.

Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.

Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar esse cenário: haveria uma revolução de extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em expansão no interior do Brasil.

Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo, aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.

Revolução cultural, finalmente, no crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital midiático.

Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.

Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a torna menos urgente para quem adere a ela.

Revolução ou Aceleração?

Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de coisas.

Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de 2008.

A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais que reformataram o mundo em que vivemos.

O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela economia da atenção que fez crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e do ódio.

Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo mundo que se formava.

Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às circunstâncias, de esforço e salvação individuais.

Durante um tempo, os desejos despertados por essa reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro desta última, a situação mudou no mundo todo.

No Brasil, o fim do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se realinhou à extrema direita.

A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se traduzisse na vida de muita gente.

Também a promoção do empreendedorismo popular, parte importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.

Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria trabalhar.

É possível compreender essa mudança de vento global examinando a transformação do imaginário em torno dessa figura-chave de nosso tempo, o empreendedor.

As condições econômicas pós-2008 —explosão do subemprego, aceleração da concentração de renda, inflação de ativos financeiros— fizeram com que desaparecesse a perspectiva de uma progressão linear entre poupança e investimento em formação, por um lado, e a mobilidade social, pelo outro.

Com isso, a ética protestante do êxito mediante o trabalho duro sofreu uma inflexão. Quando o sonho da casa própria ou de ter filhos se torna tão distante que não há um caminho natural até ele, cresce a busca por atalhos: soluções mágicas como bets, criptomoedas ou o sonho de virar coach ou influencer, caminhos que elegem um caso de sucesso em cada dezena ou centena de milhar.

Até o otimismo de nossos tempos tem um quê de desesperado. Isso implica que, se é essencial à esquerda saber ouvir as aspirações dos que querem brilhar, ela não pode contentar-se com acolhê-las em seus próprios termos, sem questionar as (im)possibilidades estruturais de sua realização ou articular a necessidade de uma outra economia, sustentável e mais igualitária, onde outros tipos de sonho encontrem outras condições de se realizar.

Em boa medida, a guinada à extrema direita no mundo todo pode ser entendida como aquilo que acontece com os desejos despertados pelo neoliberalismo quando suas promessas de boa vida se tornam cada vez mais difíceis de realizar: eles azedam.

Trata-se de uma política para "um tempo de expectativas decrescentes", potencializado pelo espectro da crise ambiental, quando perceber o mundo como um jogo de soma zero se torna cada vez mais natural.

Se as condições não parecem poder mudar, a não ser para pior, e redistribuir a renda concentrada no topo não parece possível, só resta a quem está na base da pirâmide competir entre si —empurrando para fora do jogo minorias, imigrantes, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda.

É por conta desta continuidade com o atual estado de coisas que, sem menosprezar a força galvanizante da extrema direita, parece mais adequado falar não em revolução, mas em instrumentalização e aceleração da desintegração social produzida por 50 anos de neoliberalismo, incluindo as já quase duas décadas de sua sobrevida zumbi pós-2008.

Alimentando-se das forças liberadas por essa desintegração, a extrema direita as direciona na direção do colapso: da democracia e do universalismo liberais, da legalidade, da capacidade estatal, do meio ambiente e até mesmo da soberania indivisível —como se vê no avanço de atores soberanos não estatais como milícias e narcotráfico, que tinham um representante direto nessas eleições em Flávio Bolsonaro, agora foragido das investigações criminais que pesam sobre ele.

Emancipação em Tempos de Expectativas Decrescentes

Pensar o ascenso da extrema direita como continuação e aceleração de tendências existentes também nos ajuda a entender todas as vantagens estruturais que ela aparenta possuir.

Vantagens do ponto de vista da mensagem, que está em continuidade com o momento histórico de horizontes reduzidos, a gramática moral dominante e a experiência vivida de muita gente; e vantagens do ponto de vista organizacional, já que ela se acha mais capilarizada no tecido social e encontra nas plataformas digitais um terreno mais favorável ao tipo de política que propõe.

Vantagem, finalmente e sobretudo, porque, apesar do discurso antissistema, sua prática está em perfeita continuidade com os interesses de elites domésticas e globais que decidiram pisar no acelerador da concentração de riqueza às custas da democracia, do meio ambiente e da imensa maioria da população mundial.

Mais do que qualquer coisa, a quarta vitória de Lula significa comprar tempo. Tempo para a democracia, afastando o risco de tomada do Judiciário que um Executivo e Legislativo em mãos bolsonaristas representava.

Tempo para o meio ambiente, diante do fato de que mais quatro anos de um Bolsonaro na Presidência certamente poria a Amazônia numa trajetória irreversível de savanização, com um impacto fortíssimo sobre o aquecimento global.

Tempo para serviços públicos como saúde e educação, afastando por ora a ameaça de cortes e privatização. Tempo para proteger as instituições e a vida pública da infiltração cada vez maior pelo crime organizado.

Mas é preciso ter sobre essa vitória a clareza que faltou em 2022: por ora, estamos apenas comprando tempo. Lula 3 foi um governo de normalização, o que não deixava de ser bem-vindo após quase dez anos de anormalidade constante; mas, em um mundo em que a tendência natural das coisas favorece a extrema direita, agir como se estivéssemos em tempos normais é um grande erro.

Quando as coisas vão longe demais em uma direção, as medidas capazes de realmente corrigir seu curso não podem deixar de parecer radicais.

Por isso, será indispensável manter ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno para garantir que Lula 4 tenha não apenas a chance de existir, mas de fazer o que é preciso para começar a reverter o cenário em que a aceleração da desintegração opera e a extrema direita cresce.

Isso significa sustentar tanto a mobilização popular quanto a ousadia que o governo federal assumiu na reta final das eleições, quando uma série de medidas até então tidas como impossíveis subitamente se tornaram imparáveis —com a proibição das bets, o reajuste do Bolsa Família, a redução da jornada de trabalho e a PEC da Tarifa Zero.

A estas precisarão se somar, o quanto antes, a regulação das big techs e o combate ao sequestro do orçamento por emendas parlamentares nada transparentes.

Acima de tudo, a esquerda será obrigada a enfrentar a questão fundamental que o sucesso da extrema direita em capitalizar em cima da desintegração traz à tona: o que significa articular um projeto emancipatório em tempos de expectativas decrescentes?

Como podem os desejos, as esperanças e as aspirações atualmente depositados na extrema direita serem transformados e redirecionados para uma alternativa à altura do desafio de combater a desigualdade em um mundo que se aproxima perigosamente do colapso ambiental?

A vitória improvável sobre o bolsonarismo, Donald Trump, o crime organizado e o Vale do Silício tornou-se uma fonte de esperança e entusiasmo ao redor do mundo —uma espécie de equivalente, na política eleitoral, ao que foi o Vietnã.

A impressionante mobilização que tornou isso possível virou um caso de estudo sobre como vencer a extrema direita nas urnas, além de ter posto uma pulga atrás da orelha da maioria de direita no Congresso, que certamente viu ali a possível emergência de uma força capaz de reorganizar a correlação de forças pós-eleições.

Contudo, é preciso lembrar que foi preciso uma figura do porte de Lula para bater o bolsonarismo em 2022 e 2026 —o que significa que a preparação para 2030, quando ele já não poderá se candidatar, começa desde já.

Mas é preciso estar atento para não confundir estratégia eleitoral com estratégia política. Uma coisa, evidentemente importante, é construir candidaturas fortes para a Presidência e o Legislativo nas próximas eleições.

Nomes novos que despontaram com força neste último ciclo, como Érika Hilton e Ana Elisa, não só oferecem esperança como apontam alguns caminhos.

Outra coisa, condição imprescindível para o sucesso da primeira, é compor uma base social em condições não apenas de eleger tais candidaturas, mas de emparedar aqueles que tentarão emparedar o governo, gerando a demanda e as oportunidades para que este consiga ir além.

Isso não se fará apenas com mais influenciadores de esquerda, como muitos pareceram concluir após o primeiro turno, mas também com organização analógica e o esforço para elaborar um programa capaz de atualizar o lulismo para condições muito diferentes.

Neste sentido, há uma lição muito forte a se aprender com este segundo turno. Iniciativas vindas de fora do quartel-general de campanha, tais como o Exército do Lula e o projeto Revelando, foram decisivas nesta virada.

Elas, por sua vez, não teriam produzido os mesmos efeitos sem a tenacidade de milhões de pessoas que dedicaram seu tempo, dentro e fora das redes, para correr atrás de um resultado improvável.

Não foi o PT, nem foi Lula, mas sim a ecologia que se constituiu em torno deles que venceu a eleição.

Se Lula, com esse triunfo, inscreveu seu nome em definitivo nas páginas da história brasileira, é a sua imagem nessa reta final que oferece a lição mais potente para o que virá agora: a de um indivíduo extraordinário, de trajetória extraordinária, mas que precisou de um povo extraordinário para carregá-lo até a linha de chegada.

30 de outubro de 2026

Quarto ato

O retorno de Lula.

Mario Sergio Conti

Sidecar


O segundo turno da eleição presidencial no Brasil, realizado no domingo, 25 de outubro, trouxe diversos resultados históricos. Mais de 128 milhões de pessoas votaram, e a soma de abstenções, votos nulos e votos em branco atingiu um patamar recorde de baixa. Pela primeira vez, um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno venceu o segundo, garantindo a Lula um quarto mandato sem precedentes. Para além desses marcos, o resultado representa não apenas uma reviravolta dramática no cenário interno — um retorno que poucos previram —, mas também uma mudança significativa na política regional: o Brasil, ao menos por ora, freou o avanço da extrema-direita na América Latina (como visto na Argentina e em El Salvador) e da direita de modo mais amplo (em países como Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Venezuela).

Os candidatos apresentavam um contraste marcante. Lula, hoje com 81 anos, nasceu na extrema pobreza e começou a trabalhar aos 12 anos, formando-se mais tarde como metalúrgico. Sindicalista militante, foi preso durante a ditadura por seu papel na liderança de greves, antes de fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, deve sua carreira política ao pai, o capitão reformado do Exército e ex-presidente Jair Bolsonaro. "Empreendedor" formado em instituições privadas — embora sem empresas — e advogado com poucos clientes (entre eles, um policial militar acusado de matar uma menina de cinco anos), Flávio foi eleito para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aos 21 anos. Sua ascensão política foi marcada por controvérsias: ele concedeu uma medalha oficial a um ex-policial militar que se tornou matador de aluguel, e seu gabinete parlamentar empregava a mãe desse assassino. Após a eleição de seu pai para a presidência em 2019, Flávio Bolsonaro foi eleito para o Senado, embora seja mais conhecido por transações imobiliárias suspeitas do que por qualquer realização legislativa.

A campanha de Lula no primeiro turno foi pouco expressiva. Ao contrário da eleição de 2022, na qual ele derrotou Jair Bolsonaro — que posteriormente foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e que, atualmente, cumpre prisão domiciliar —, Lula não formou uma ampla aliança com partidos de centro, concorrendo apenas sob a bandeira do PT, com o apoio de uma coalizão de legendas menores de esquerda. Sua campanha defendeu os programas sociais associados aos seus mandatos presidenciais anteriores; contudo, seu terceiro mandato carecia de uma realização marcante em torno da qual pudesse mobilizar os eleitores. A visão aparentemente otimista da cúpula do PT sobre a conjuntura social e econômica do Brasil parecia desconectada da realidade. O Bolsa Família — principal programa de transferência de renda, criado por Lula em 2003 e que beneficia quase 20 milhões de famílias de baixa renda, totalizando 50 milhões de pessoas — não sofria reajustes desde março de 2023. A recente legalização das apostas online resultou em níveis alarmantes de endividamento. Os preços dos alimentos subiam, afetando de forma mais severa as famílias mais pobres. Talvez por esses motivos, o PT não tenha incentivado manifestações de rua, limitando-se a poucos eventos realizados apenas por formalidade, embora ainda mantivesse vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, sugeriu a possibilidade de cortar gastos com saúde, educação e até mesmo Bolsa Família, embora posteriormente tenha recuado. Ele prometeu relaxar as restrições ao desmatamento na Amazônia, facilitar a exploração dos recursos minerais e alinhar o Brasil aos interesses dos Estados Unidos. Seu programa atraiu apoio das finanças, de grandes industriais e do agronegócio, enquanto Meta foi acusado de manipular algoritmos de mídia social em seu benefício. O seu apelo a grandes sectores da população resultou da sua promessa de adoptar uma linha dura em relação ao crime, adoptando o modelo de encarceramento em massa do El Salvador de Bukele. Se vencesse, prometeu perdoar o Bolsonaro mais velho e subir a rampa do Planalto de braços dados. Para marcar o fim da era Lula, ele receberia a faixa presidencial de seu pai e não do presidente cessante, como manda o protocolo.

A campanha do primeiro turno foi dominada por um grande escândalo de corrupção, com ramificações que alcançaram toda a classe política e se espalharam pelo país. O Banco Master, que teve carta branca das autoridades financeiras durante o governo de Jair Bolsonaro, operou um esquema de pirâmide financeira utilizando recursos de fundos de pensão municipais e estaduais — incluindo o do estado da Bahia, administrado pelo PT. O esquema arrecadou mais de 2 bilhões de dólares e envolveu partidos políticos, parlamentares, governadores, prefeitos, juízes, veículos de imprensa, igrejas evangélicas, advogados e funcionários do Banco Central. O proprietário do banco, Daniel Vorcaro, desembolsou 25 milhões de dólares para contratar o escritório de advocacia da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Conhecido popularmente como "Xandão", Moraes determinou a prisão de Jair Bolsonaro e gerou controvérsias ao recorrer, de forma agressiva, a ordens de censura e à perseguição de opositores políticos. Vorcaro também destinou quantias vultosas a outros três ministros do STF, além de financiar festas extravagantes para a elite política brasileira. O próprio Flávio Bolsonaro foi implicado no caso: uma gravação telefônica, na qual ele solicita a Vorcaro 24 milhões de dólares para financiar um filme sobre seu pai, veio a público no início deste ano. O escândalo do Banco Master destruiu a credibilidade do Supremo Tribunal Federal, mas não freou a ascensão constante de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto durante o período pré-eleitoral.

Até a véspera do primeiro turno, no domingo, 4 de outubro, Lula mantinha uma vantagem estreita. A noite da eleição trouxe uma surpresa: Flávio saiu na frente, com 47% dos votos contra 45% de Lula — uma diferença de 2,2 milhões de votos. O PT também sofreu uma derrota acachapante nas eleições legislativas, perdendo espaço tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados. Nenhum dos candidatos da "velha guarda" do partido conseguiu a reeleição. "A era do PT acabou", vangloriou-se Flávio Bolsonaro. Atônita, a cúpula da campanha de Lula viu-se mergulhada em desordem.

A resposta a nível popular, no entanto, foi totalmente diferente. Irromperam manifestações espontâneas, dissipando a tristeza predominante em questão de dias. Pequenas reuniões transformaram-se em assembleias e marchas que logo se espalharam por todo o país. Santos, no litoral do estado de São Paulo, oferece um exemplo vívido. A cidade abriga o maior porto da América do Sul desde o século XIX, exportando café para o mundo. Tem uma longa tradição de organização trabalhista e política de esquerda, reforçada pelo desenvolvimento da indústria petrolífera na vizinha Cubatão. Dois dias após a primeira volta, o Sindicato dos Petroleiros organizou uma discussão sobre como abordar o segundo turno. Eram esperadas cerca de 50 pessoas; em vez disso, compareceram 200, cujo número aumentou rapidamente para 500, lotando o auditório do sindicato e espalhando-se pela rua. Esta reunião ao ar livre contou com a participação de estudantes da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo criada durante o primeiro mandato de Lula, e de manifestantes liderados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes. "Antes que eu percebesse, havia 3 mil pessoas na rua", conta Kris Mackleiny, trabalhador da Petrobras que improvisou um discurso inflamado.

No mesmo dia, a antiga União Nacional dos Estudantes, que representa 6 milhões de estudantes universitários em todo o Brasil, realizou uma reunião no Rio de Janeiro. Uma grande multidão se reuniu e decidiu lançar manifestações pró-Lula por todo o país. Em quatro dias, ocorreram pelo menos 350 manifestações estudantis. Os estudantes universitários já estavam concentrados nas capitais dos estados, mas a expansão das universidades federais e escolas técnicas sob os governos petistas nas últimas décadas estendeu sua presença ao interior do Brasil e às cidades médias. ‘Trabalhador, olha aqui: estamos lutando para que seu filho possa estudar’: sem qualquer orientação da liderança nacional, esse refrão pôde ser ouvido em inúmeras reuniões. Milhares de trabalhadores aderiram ao movimento, desde operários em Barueri e Volta Redonda até balconistas em ruas movimentadas e distritos comerciais de todo o Brasil.

O ponto alto da mobilização ocorreu no domingo seguinte, 11 de outubro. Apoiadores de Lula reuniram-se em grande número ao longo da Avenida Paulista, em São Paulo — um trecho de 3 quilômetros que, há muito, é o palco tradicional de protestos e que, na última década, tornou-se cenário frequente de agitações da extrema-direita. A adesão remeteu às manifestações da década de 1980 que reivindicavam eleições diretas para a presidência. Protestos de escala e intensidade semelhantes foram registrados por todo o país, de Recife a Porto Alegre.

O chamado à mobilização partiu de "fandoms" — comunidades online —, mais do que dos esforços convencionais de partidos políticos ou sindicatos. Logo após o resultado do primeiro turno, André Janones, deputado federal e aliado de Lula, ajudou a transformar um canal no WhatsApp em um "Exército de Lula" — uma força online de massa que rapidamente alcançou mais de 10 milhões de seguidores, coordenando ações e disseminando vídeos virais e hashtags. Embora tenha sido temporariamente retirado do ar após intervenções de magistrados nomeados por Jair Bolsonaro, essa vasta rede demonstrou que o lulismo havia se tornado uma força vital no espaço digital — o mesmo espaço que fora decisivo para a vitória de Bolsonaro em 2018. A grande onda de manifestações populares estimulou, por sua vez, uma participação online ainda maior. O misto de apreensão e entusiasmo resultou em um nível excepcionalmente elevado de engajamento político.

O que levou tantas pessoas — inclusive aquelas que, habitualmente, não se envolvem em ativismo político — a deixar de lado a letargia e entrar em ação? Não existe uma resposta definitiva, mas é possível levantar algumas hipóteses. A primeira diz respeito à democracia. Flávio Bolsonaro e seus apoiadores desafiaram, repetidamente, as instituições democráticas, manifestaram admiração por figuras autoritárias e defenderam o legado da ditadura militar brasileira. Ele e sua família passaram a simbolizar um estilo de política profundamente ameaçador. Muitos temeram o ressurgimento de perseguições contra a esquerda, sindicalistas, intelectuais e artistas. As afinidades de Bolsonaro com o "trumpismo", sua postura permissiva em relação ao porte de armas e as ameaças de retrocesso em políticas de bem-estar social e direitos trabalhistas — tudo isso contribuiu para tais preocupações. Além disso, permanecem vivas as lembranças da gestão irresponsável da pandemia de Covid-19 por parte de Bolsonaro (pai).

Esses fatores, por si só, contudo, não conseguem explicar a reviravolta dramática entre os dois turnos. A mobilização que a impulsionou não foi liderada pelo PT, amplamente visto como uma burocracia anquilosada e desconectada dos jovens. Janones é filiado ao partido ambientalista Rede, enquanto o projeto de lei que propõe a semana de trabalho de cinco dias foi apresentado por Erika Hilton, deputada transgênero do PSOL — um partido situado à esquerda do PT. Ainda assim, a derrota no primeiro turno levou o próprio Lula a agir. Ele reagiu aumentando os valores do Bolsa Família, promovendo mudanças na estrutura de sua campanha, concedendo entrevistas dinâmicas a Janones e intensificando investimentos em projetos voltados à proteção da população mais pobre. Economistas estimam que ele destinou mais de 72 bilhões de reais a benefícios sociais no período que antecedeu a eleição.

Na véspera do segundo turno, multidões determinadas se reuniram novamente ao longo da Avenida Paulista e da Avenida Atlântica, em São Paulo, ao lado da Praia de Copacabana, no Rio. A tensão aumentou, com as pesquisas prevendo uma disputa acirrada. Nas ruas, os apoiadores de Lula eram particularmente visíveis: vestidos de vermelho, carregando faixas e distribuindo panfletos. Os jovens ajudaram os idosos que não votaram no primeiro turno a chegar aos locais de votação. Filhos e netos empurravam cadeiras de rodas e ajudavam parentes doentes ou com dificuldade de locomoção. Na periferia de São Paulo, comitês locais organizaram creches para mães e avós para que pudessem votar.

A votação eletrônica permitiu que a apuração fosse concluída em apenas algumas horas, período durante o qual os candidatos alternaram a liderança por diversas vezes. Contudo, o resultado final foi decisivo: Lula obteve 64,2 milhões de votos (51,8%) — cerca de 10,4 milhões a mais do que no primeiro turno e 4 milhões a mais que seu adversário, que conquistou 60 milhões (48,2%). Flávio recusou-se a reconhecer a derrota, alegando fraude eleitoral após a extensão do horário de votação em algumas cidades, medida tomada porque a escassez de ônibus públicos impediu que os eleitores chegassem aos locais de votação. No entanto, essa votação ocorrida após o horário previsto totalizou apenas 34 mil votos, o que representa não mais que 0,27% do eleitorado nos municípios afetados.

Sete minutos após o anúncio do resultado, o juiz Moraes determinou a apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro, sob a justificativa de que ele poderia fugir do país para evitar responder a acusações de corrupção e lavagem de dinheiro. Não está claro por que nenhuma medida nesse sentido foi tomada enquanto ele ainda era candidato. Apesar de ter afirmado que permaneceria no Brasil, Flávio atravessou a fronteira rumo à Argentina, governada por Javier Milei, e, posteriormente, viajou para Miami, onde a administração Trump lhe concedeu permissão para permanecer. Ao chegar, declarou-se o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil — uma afirmação que, em menos de meia hora, foi alterada para “líder do Brasil”. A extrema-direita internacional mobilizou-se para proteger seu protegido, embora Trump, até o momento, tenha evitado reconhecê-lo — nos moldes do que ocorreu com Juan Guaidó — como chefe de Estado legítimo.

O resultado não é apenas uma vitória pessoal de Lula. Ele demonstra a capacidade de uma coalizão ampla e improvisada — composta por trabalhadores e jovens — de defender um projeto político que eles consideravam estar sob ameaça. Os desafios que Lula, o PT e o povo brasileiro enfrentam são imensos: melhorar os padrões de vida, ampliar a igualdade social e promover o desenvolvimento, tudo isso em um cenário de crise econômica, turbulência política, obstrução por parte de um Legislativo dominado pela direita e um imperialismo norte-americano cada vez mais agressivo. Os mercados financeiros manifestaram prontamente seu descontentamento com o resultado eleitoral: a Bolsa de Valores de São Paulo despencou 14% na segunda-feira, e o real sofreu sua queda mais acentuada em décadas. O movimento popular que ajudou a garantir a vitória de Lula não atenuou os conflitos políticos no Brasil. Pelo contrário, ele marca uma nova etapa na luta pela democracia, pelos direitos sociais, pelas prioridades econômicas e pelos rumos futuros do país. Mas, agora, há uma diferença fundamental em relação ao passado recente: existe esperança.

Uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato prejudicará o Partido Republicano, mas o trumpismo perdurará

O Partido Republicano parece caminhar para derrotas em novembro. Mas o trumpismo sobreviverá às eleições de meio de mandato e até mesmo à própria presidência de Donald Trump. Derrotá-lo exigirá uma política de esquerda que dialogue com as dificuldades econômicas da classe trabalhadora.

Joseph G. Peschek

Jacobin

O trumpismo funde pseudopopulismo, nacionalismo e autoritarismo ao capitalismo predatório. Seu objetivo é o domínio duradouro. Para minar esse objetivo, a esquerda precisa compreender o que o torna singular. (Kent Nishimura / AFP via Getty Images)

Observadores de todo o espectro político preveem que os democratas conquistarão avanços significativos nas próximas eleições de meio de mandato — tanto na Câmara quanto no Senado, e em outras esferas. Há bons motivos para acreditar nessas previsões. Nos Estados Unidos, as eleições que não coincidem com a disputa presidencial estão cada vez mais “nacionalizadas”; isso significa que a avaliação da política nacional e do desempenho do presidente exerce uma influência decisiva nas escolhas para outros cargos. Além disso, o presidente Donald Trump — que adotou uma postura cruel e errática, ao mesmo tempo em que presidia uma economia fraca e uma guerra impopular contra o Irã — não preparou o terreno para o sucesso dos republicanos.

Com taxas de inflação elevadas, salários estagnados e custos de crédito altos, as questões econômicas estão no centro do dilema atual do Partido Republicano. Em uma pesquisa recente realizada pelo Washington Post, ABC News e Ipsos, a taxa de aprovação da gestão econômica de Trump é de apenas 28%. Para cada pessoa que avaliou a situação econômica como boa, três a consideraram “não muito boa” ou “ruim”. Quarenta e oito por cento dos entrevistados afirmaram estar em uma situação financeira pior do que quando Trump assumiu o cargo em 2025 — o maior índice registrado em pesquisas do Post-ABC sobre qualquer presidente desde 1986. Em outros temas, 65% disseram que foi um erro realizar uma ação militar contra o Irã, e 68% desaprovaram a forma como Trump lidou com os aliados dos EUA. Um dado revelador: 56% afirmaram que Trump foi longe demais na deportação de imigrantes sem documentação — um aumento em relação aos 48% registrados em abril de 2025.

Independentemente do que aconteça em novembro, Trump permanecerá no cargo por mais dois anos, e a vertente política que ele representa não desaparecerá quando ele deixar o poder. Quem espera que uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato — seguida pela saída de Trump em 2029 — restaure a “antiga normalidade” (e que essa normalidade seja suficiente para impedir um novo ressurgimento da extrema-direita), precisa rever seus conceitos. Na verdade, é preciso encarar a força política que foi desencadeada na vida americana — cujos reflexos, sem dúvida, serão sentidos por gerações.

Quem espera que uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato e a saída de Trump em 2029 restaurem a antiga normalidade — e que essa antiga normalidade seja suficiente para impedir um novo ressurgimento da extrema-direita — precisa repensar.

Em meu novo livro, Class, Power and the State in the Trump Era: A Critical Analysis (De Gruyter Brill, 2026), busco traçar um panorama inicial do trumpismo. A seguir, valho-me dessa obra para descrever do que o trumpismo é composto, como ele se transformou entre os dois mandatos de Trump e o que isso significa para a esquerda.

Excesso autoritário

Um aspecto inconfundível do trumpismo é o autoritarismo descarado. Essa dimensão está plenamente evidente neste momento, à medida que Trump trabalha de forma empenhada para minar a confiança no sistema eleitoral. Em setembro, a Suprema Corte barrou sua tentativa de utilizar o Serviço Postal dos EUA para restringir o voto por correspondência. Desde então, o governo tem se dedicado a “apresentar, de forma sistemática, alegações falsas e sem fundamento, em um esforço para semear dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral descentralizado do país”, conforme apontou uma análise do New York Times.

Por exemplo, como parte da grande campanha mentirosa de Trump sobre o voto ilegal, o Departamento de Justiça alegou, sem provas, que vinte mil pessoas nos cadernos eleitorais da Califórnia eram “prováveis ​​não-cidadãos”. O departamento então acusou vinte e oito residentes da Califórnia, todos imigrantes legais, de violarem as leis eleitorais federais. Apesar da campanha de desinformação de Trump, a maioria dos americanos está confiante de que as eleições intercalares serão conduzidas de forma justa, embora sete em cada dez não tenham confiança de que Trump aceitará os resultados se os republicanos perderem.

As últimas semanas trouxeram uma repressão intensificada contra aqueles que Trump considera inimigos. Mais notavelmente, funcionários do Departamento de Segurança Interna invadiram a casa da congressista Ilhan Omar, em Washington, a representante somali-americana do Quinto Distrito de Minnesota, apreendendo o seu telefone, passaporte e outros documentos. Há muito que Trump demonstra uma fixação por Omar, a quem chamou de “lixo”, e pelos somalis-americanos, que residem em grande número no Minnesota, especialmente na área das Twin Cities. Vários dias antes do ataque, Trump escreveu no Truth Social: "O outrora grande estado de Minnesota está sendo tomado por imigrantes somalis. Há violência, assassinato e caos em todo o estado. O povo de Minnesota deve revidar". De acordo com vários relatórios, aqueles que estão familiarizados com a investigação acreditam que o seu objetivo é revogar a cidadania de Omar e, eventualmente, deportá-la.

No meu livro, caracterizo o trumpismo como uma forma distinta de política de direita, misturando (pseudo-)populismo, nacionalismo e autoritarismo com políticas económicas e sociais pró-capitalistas desinibidas, até mesmo predatórias ou patrimoniais. Embora estas formas políticas tenham existido em vários formatos ao longo da história política americana, combinaram-se de novas formas na era Trump. O trumpismo marcou um afastamento do consenso ideológico republicano anterior a 2016 e sinalizou a chegada de uma forma alternativa de política de direita, que também se desenvolveu noutros países. O objectivo do movimento MAGA é enfraquecer as forças rivais e estabelecer a hegemonia na política americana com base num bloco nacional-conservador reconfigurado que goza do apoio popular e da elite. O ataque ao sistema eleitoral e a rusga à casa de Omar fazem sentido sob esta luz. Um movimento empenhado em dominar a política americana tem todos os motivos para desacreditar as eleições que poderiam testar o seu poder e para punir as pessoas que trata como inimigas.

A evolução do trumpismo

Se estas características eram claramente evidentes na primeira presidência de Trump, só aprofundaram o seu domínio depois de ele ter deixado o cargo em 2021 e durante a sua segunda presidência. De 2021 a 2025, entre os dois mandatos de Trump, o trumpismo passou por quatro mudanças importantes. Primeiro, a visão política reaccionária de Trump tornou-se mais radical, marcada por um compromisso incessante com a mentira das eleições roubadas de 2020, intensificando o autoritarismo, os votos de retribuição e a retórica histérica sobre a ameaça do socialismo, do comunismo e da “esquerda radical”.

Em segundo lugar, a campanha de Trump trabalhou com grupos de reflexão de direita para elaborar planos para uma segunda administração Trump. O objectivo era ir além dos objectivos conservadores tradicionais, como o corte de impostos e a redução da despesa, para um ataque generalizado ao Estado administrativo que daria ao presidente o controlo total sobre o poder executivo. Como disse Russell Vought, agora diretor do orçamento de Trump, em 2023: “O primeiro dia do presidente será uma bola de demolição para o estado administrativo”. O plano mais conhecido para uma segunda administração Trump foi o Projecto 2025 da Heritage Foundation, lançado em 2023, do qual Vought foi um dos principais arquitectos.

De 2021 a 2025, entre os dois mandatos de Trump, o trumpismo passou por quatro mudanças importantes.

Em terceiro lugar, Trump e o movimento MAGA alinharam-se estreitamente às preocupações da cultura e do pensamento político de direita — como o nacionalismo cristão, a cruzada contra o "wokeísmo", o "pronatalismo" e receios quanto a uma "erosão civilizacional", que bebem da teoria da "grande substituição" defendida pela extrema-direita. Esse tipo de pensamento é comum entre figuras ligadas à segunda fase do trumpismo, como JD Vance, Pete Hegseth e Stephen Miller.

Em quarto lugar, após deixar o cargo em 2021, Trump abandonou quase por completo o pseudopopulismo econômico voltado para a classe trabalhadora, que fora um elemento central de sua campanha de 2016. A campanha de Trump em 2024 buscou abertamente o apoio de Wall Street, do Vale do Silício e de outros setores do mundo corporativo — incluindo as indústrias de petróleo e gás, tabaco e criptomoedas (sendo que, anteriormente, ele havia classificado estas últimas como um golpe).

Trump prometeu reduzir as alíquotas de imposto corporativo, diminuir regulamentações — inclusive as ambientais — e apoiar a extração de combustíveis fósseis. Em maio de 2026, perguntaram a Trump se a "situação financeira dos americanos" o motivava a buscar um acordo com o Irã. "Nem um pouco", respondeu ele. "Não penso na situação financeira dos americanos. Não penso em ninguém. Penso em uma única coisa: não podemos permitir que o Irã tenha uma arma nuclear. É só isso." E acrescentou: "Todo americano entende".

Uma oportunidade para a esquerda

Mas nem todo americano entende. A guerra com o Irão é impopular, especialmente no contexto das dificuldades económicas internas dos americanos. Essas dificuldades são em grande parte causadas pelo próprio presidente.

A assinatura de Trump, One Big Beautiful Bill Act, promulgada em Julho de 2025, foi considerada “a legislação fiscal e orçamental mais regressiva da história americana moderna” pelos estudiosos de Yale, Patrick Sullivan e Jacob Hacker. As pressões inflacionistas que pressionam a classe trabalhadora resultam em grande parte das políticas equivocadas de Trump, incluindo a guerra contra o Irão, que fez subir o preço do petróleo e dos produtos derivados do petróleo; tarifas generalizadas, que aumentaram os preços dos bens importados e dos factores de produção utilizados na produção nacional; e medidas anti-imigração e deportação que levaram à escassez de mão-de-obra na construção, agricultura, processamento de carne e outros sectores.

Portanto, existem condições para um repúdio em grande escala a Trump e ao movimento MAGA, que são cada vez mais autoritários e até fascistas. Já em 1921, mais de um ano antes da Marcha sobre Roma, Antonio Gramsci teorizou o apelo interclassista e psicologicamente intenso do fascismo, observando que o fascismo “tornou-se um desencadeamento de forças elementares que não podem ser contidas dentro do sistema burguês de governação económica e política”. O desafio para a esquerda é construir uma política que possa controlar, redireccionar e desenergizar estas “forças elementares” para evitar uma maior deriva em direcção ao autoritarismo e ao fascismo, algo que o liberalismo centrista e corporativo tem sido incapaz de fazer.

O que isso significa para a política após as eleições de meio de mandato? Em primeiro lugar, a esquerda precisa de iniciativas educativas para contrapor os ataques de cunho macarthista — vindos da direita — a ideias progressistas e socialistas, permitindo que estas sejam debatidas de forma racional e sem estigmas. Em segundo lugar, é preciso aproveitar o êxito do trabalho eleitoral realizado pelos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America) e outros grupos — como se viu na campanha de Zohran Mamdani, em Nova York, e em outros locais. Em terceiro lugar, são necessários planos econômicos populistas progressistas que atendam aos interesses da classe trabalhadora e desmascarem o pseudopopulismo de direita. As propostas da economista Isabella Weber sobre controles estratégicos de preços — já discutidas na revista Jacobin — constituem um ponto de partida que merece ser considerado. Avanços da esquerda nessas frentes ajudarão a combater não apenas o que resta da presidência de Trump (ou uma eventual "versão 2.0" dela), mas também o "trumpismo" — uma vertente cada vez mais nociva da política capitalista de direita e antidemocrática.

Colaborador

Joseph G. Peschek é professor emérito de ciência política na Hamline University. Ele é o autor de Class, Power and the State in the Trump Era: A Critical Analysis.

28 de outubro de 2026

Israel pode mudar após suas eleições, mas não muito

A campanha eleitoral em Israel refletiu o amplo apoio, no espectro político dominante, à limpeza étnica dos palestinos. É improvável que o impasse eleitoral entre governo e oposição desacelere a radicalização da sociedade israelense.

Gilbert Achcar

Jacobin

Após as eleições em Israel, o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot talvez precise contar com o apoio de partidos árabes para formar uma coalizão. Contudo, é improvável que até mesmo a oposição recue em relação à guerra de Israel contra o Irã e aos esforços para anexar Gaza. (Yonatan Sindel / Pool / AFP via Getty Images)

Eleitores judeus e árabes com cidadania israelense compareceram em massa aos locais de votação na terça-feira, 27 de outubro, para as eleições ao parlamento de Israel, o Knesset. Estas foram as primeiras eleições desde a formação, em 2022, do governo mais reacionário da história do Estado sionista. Nos últimos quatro anos, essa coalizão de extrema-direita reuniu o partido Likud, de Benjamin Netanyahu, e grupos neonazistas liderados por Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, juntamente com partidos religiosos ultraortodoxos.

Como as pesquisas haviam previsto, o bloco governista, liderado pelo atual primeiro-ministro Netanyahu, e a aliança de oposição, liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Gadi Eisenkot, terminaram a disputa em um cenário que, segundo estimativas atuais, configura um empate. Pode levar alguns dias até que os resultados definitivos sejam anunciados e várias semanas de negociações e articulações entre as facções do Knesset até que se defina a composição do próximo gabinete.

Como tem sido amplamente ressaltado, a característica mais marcante destas eleições recentes é o fato de serem as primeiras realizadas desde que a operação liderada pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023, desencadeou a guerra genocida lançada pelo exército israelense contra Gaza — um conflito que provocou o deslocamento de seus habitantes e a destruição generalizada de suas edificações. Esse processo tem sido acompanhado por uma escalada perigosa e sem precedentes da violência perpetrada por colonos sionistas contra a população palestina na Cisjordânia; trata-se, claramente, de uma campanha gradual de limpeza étnica, semelhante àquela observada em grande parte da Palestina durante a Nakba de 1948 e, mais recentemente, na Faixa de Gaza.

Estas novas eleições ocorreram, ainda, em um momento de tensão acentuada na sociedade israelense, dividida entre apoiadores da coalizão governista e a oposição sionista. A tensão já atingia seu ápice antes de 7 de outubro, manifestando-se, à época, por meio de grandes manifestações da oposição centradas em questões judiciais. A operação liderada pelo Hamas uniu, temporariamente, a maior parte da sociedade judaica israelense em torno do ódio aos palestinos — especialmente os de Gaza, mas também todos os demais, incluindo aqueles que possuem cidadania israelense. Em outras palavras, o ódio racista sionista atingiu seu auge na sociedade judaica israelense nos últimos três anos, e, até o momento, não houve uma diminuição significativa desse sentimento.

Consequentemente, nenhuma das principais questões que permeiam este novo ciclo eleitoral afeta, de fato, o consenso sionista reacionário que se consolidou recentemente. A questão palestina, definitivamente, não está no centro desse debate. Na verdade, ela está quase totalmente ausente das discussões entre Netanyahu e seus oponentes — limitando-se, basicamente, a acusações mútuas em que cada lado alega que o outro está servindo aos interesses do Hamas. Todos os partidos sionistas, da extrema-direita ao que resta da “esquerda” sionista, declaram sua rejeição até mesmo à criação de um Estado palestino residual — tal como a atual Autoridade Palestina em Ramallah — ou, na melhor das hipóteses, condicionam essa possibilidade a um controle mais rígido e severo sobre a população palestina, tornando-a muito menos “soberana” do que eram, inclusive, os antigos bantustões da África do Sul na época do apartheid.

Diante dessa situação deplorável, um número de eleitores judeus — provavelmente superior ao de todas as eleições anteriores — declarou a intenção de votar em um dos dois blocos árabes. Os mais “moderados” apoiaram a “Lista Unida”, que é liderada conjuntamente por um islâmico de direita e um líder judeu sionista. Judeus mais progressistas, que anseiam por uma coexistência pacífica com o povo palestino, optaram, por sua vez, pela “Lista Conjunta”. Um resultado expressivo para esta última — conforme previsto por pesquisas e aparentemente confirmado pelas estimativas atuais de votação — representaria o melhor desfecho possível para as eleições em curso.

Contudo, o fato de judeus progressistas terem votado nessa lista é, antes de tudo, uma evidência de sua incapacidade de formar uma organização política predominantemente judaica que se oponha ao consenso sionista. Tal oposição rejeitaria o princípio de um “Estado judeu” e abraçaria a demanda por um “Estado para todos os seus cidadãos”, defendida por partidos árabes progressistas de oposição. Além disso, ela exigiria a retirada do exército de ocupação e dos colonos sionistas de todos os territórios ocupados em 1967, bem como apoiaria o direito de retorno dos refugiados palestinos — ou uma compensação —, como parte do direito inalienável do povo palestino à autodeterminação.

Mansour Abbas, líder da “Lista Conjunta”, busca firmar um acordo com a oposição sionista, semelhante àquele que estabeleceu ao participar — sem ocupar um ministério — do governo de 2021–2022, liderado por Naftali Bennett (um líder sionista de extrema-direita e rival de Netanyahu) e Yair Lapid (descrito pela mídia como “moderado”, embora adote posições ainda mais radicais que as de Netanyahu em questões como a eliminação do Hamas ou ataques ao Irã). Atualmente, o principal nome da oposição sionista é Eisenkot, um homem que supervisionou pessoalmente, no Líbano, a implementação da doutrina militar que ele mesmo formulou — a qual preconiza a destruição total de áreas onde forças inimigas estejam presentes, sem poupar civis, constituindo, portanto, uma violação flagrante do direito internacional.

Mansour Abbas busca cooperar com Eisenkot, contornando a recusa deste último em formar alianças com um partido árabe, por meio de condições como a exigência de que declarem o Hamas como uma organização “terrorista”. Essa exigência é particularmente difícil de ser aceita por Abbas, visto que ele próprio provém da mesma Irmandade Muçulmana da qual o Hamas se originou. Assim, Abbas tentou superar esse obstáculo incluindo um oficial de polícia judeu sionista no topo de sua lista, na esperança de que Eisenkot pudesse aceitá-lo como ministro em um futuro governo, caso ele conseguisse obter uma maioria parlamentar com o apoio da Lista Conjunta.

A Lista Conjunta, por sua vez, anunciou sua disposição de oferecer o que chamou de “rede de segurança” em votações no Knesset para a oposição a Netanyahu e sua atual coalizão, desde que a oposição se comprometesse a atender às demandas urgentes relacionadas às condições de vida dos palestinos dentro de Israel e expressasse apoio à criação de um Estado palestino. Contudo, o consenso existente entre a coalizão governista e a oposição sionista — que rejeita a formação de um Estado palestino — torna a proposta da Lista Conjunta inviável, caso ela mantenha sua condição. Isso seria, aliás, perfeitamente natural, visto que nenhum palestino que se oponha ao sionismo deveria oferecer qualquer tipo de apoio a partidos sionistas hostis ao seu povo — seja dentro das fronteiras do Estado sionista ou, com ainda mais razão, fora delas.

Um governo liderado por Eisenkot certamente não se desviaria do consenso sionista no que diz respeito aos esforços contínuos para eliminar o Hamas e controlar Gaza, bem como aos ataques ao Irã — em cooperação com os Estados Unidos — e ao Hezbollah, no Líbano. O que poderia diferenciar um governo sob a liderança de Eisenkot do atual — além da controvérsia em torno do recrutamento militar de estudantes judeus ultraortodoxos — é a postura diante das transgressões cometidas por colonos sionistas extremistas, incitados por Ben-Gvir e Smotrich a atacar palestinos na Cisjordânia. O próprio Netanyahu, inclusive, manifestou certo descontentamento com as ações desses fanáticos, dado o prejuízo adicional que elas causam à imagem de Israel no cenário internacional.

O objetivo de Eisenkot, contudo, é a manutenção do controle do Estado sionista sobre a maior parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, visando a uma eventual anexação desses territórios. As áreas restantes ficariam abertas à implementação do chamado plano de paz de Donald Trump — uma medida que o próprio Netanyahu seria forçado a aceitar, caso Trump retomasse essa ideia conforme seu capricho, após seu foco atual no Irã e na Ucrânia.

Dito isso, caso nenhum dos dois grandes blocos consiga estabelecer uma aliança majoritária no Knesset, não se pode descartar uma reconfiguração do cenário político sionista: Netanyahu poderia romper com seus dois aliados constrangedores, Ben-Gvir e Smotrich, a fim de abrir caminho para a formação de um “governo de unidade nacional” entre ele e os atuais partidos de oposição — com todos os quais, aliás, ele já compartilhou o poder em um passado recente. Antes de chegar a tal compromisso, contudo, ele certamente se esforçará para atrair, a partir do bloco de oposição, aqueles que estão mais à direita e, portanto, mais dispostos a colaborar com sua atual coalizão de extrema-direita.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia e China From Kosovo to Ukraine and Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

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