14 de março de 2026

O não dito

O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho.

James Wham

Sidecar


Perto do final de 1975, começaram a surgir relatos no Diário de Pernambuco sobre uma "perna cabeluda" fantasmagórica, desincorporada e inteiramente senciente. Ela foi avistada pela primeira vez no bairro de Tiúma, em uma rua conhecida por atividades paranormais, como uma projeção nas paredes de uma das casas (a de número treze, se você puder acreditar). Um garotinho avistou a perna cabeluda e saiu correndo aos gritos, atraindo padres, pastores e, por fim, a polícia. Os avistamentos logo se espalharam para outras casas, com o poltergeist funcionando como um pequeno cinema itinerante. Dois meses depois, um homem local relatou ter encontrado sua esposa na cama com a perna cabeluda, compartilhando um cigarro pós-coito. Ele afirmou que ela saltou dos lençóis e o atacou. Depois disso, os relatos se multiplicaram — histórias de terror eram transmitidas no rádio, contadas em bares e em reuniões de negócios. Recife não falava de outra coisa. A perna cabeluda logo se tornou responsável por espancamentos, torturas, desaparecimentos, mutilações, assassinatos e todo tipo de outros crimes — crimes quase fantásticos demais para se acreditar.

O Agente Secreto abre em 1977, durante o que o filme chama de "um período de grande pirraça". Em entrevista à New Yorker, seu diretor, Kleber Mendonça Filho, explicou que referir-se ao período da ditadura militar brasileira dessa forma foi, em si, uma espécie de travessura — uma versão satírica daqueles letreiros que aparecem antes dos créditos em Casablanca ou Star Wars. "É uma palavra maravilhosa, um tanto antiga", diz ele sobre o termo pirraça. "Geralmente significa alguém provocando outra pessoa de má fé. Alguém que tem o poder de pregar uma peça em você. E essa peça pode passar dos limites." Em seu filme, a perna cabeluda vai parar no estômago de um tubarão morto. O delegado local é alertado e ordena a um de seus capangas que jogue a "maldita coisa" de volta ao oceano. Na noite seguinte, em um interlúdio ao estilo "filme B", assistimos à perna cabeluda emergir da água — como um pula-pula zumbi maligno — para aterrorizar os banhistas.

É um floreio artístico que conecta o mito local ao cinema e, mais especificamente, ao fenômeno global de Tubarão – um filme que ainda lota cinemas em Recife um ano após seu lançamento. Fernando, um menino de nove anos – a mesma idade que Mendonça tinha em 1977 – sonha em ver Tubarão, mas seu pai, Marcelo (Wagner Moura), não o deixa. Ele é muito novo; só o pôster já lhe dá pesadelos. Fernando mora com seu avô, Alexandre, que trabalha como projecionista no Cinema São Luiz. Sua mãe está morta e Marcelo está foragido. Só descobrimos o motivo perto do final do filme, quando ele é entrevistado por Elza, uma líder da resistência, na cabine de projeção do cinema de Alexandre.

O filme começa com Marcelo a caminho de Recife em um Fusca amarelo brilhante, parando em um posto de gasolina isolado onde encontra um cadáver em decomposição, sendo revistado pela polícia – completamente desinteressada no corpo – e seguindo viagem; ele chega a um esconderijo administrado por um anarco-comunista charmoso e decrépito com um gato de duas cabeças, conhece outros dissidentes e fugitivos, alguns fugindo da Guerra Civil Angolana; descobrimos que seu nome verdadeiro é Armando Solimões, que ele é um ex-professor na lista negra e que há uma recompensa por sua cabeça – e então corta para o presente, onde uma estudante universitária chamada Flávia está ouvindo as gravações de seu depoimento.

O Cinema São Luiz teve um papel de destaque no filme anterior de Mendonça, Pictures of Ghosts (2023), um ensaio-memória sobre sua cidade natal e seus cinemas. “Encontrei a essência de O Agente Secreto fazendo Pictures of Ghosts”, diz ele, “o poder das coisas que sobrevivem e são preservadas em arquivos. Porque o arquivo é a prova de vida de alguém. Quando você ouve uma voz gravada em 1977, aquela pessoa estava viva em 77... Provavelmente, a sensação mais forte de viagem no tempo que já senti foi fazendo filmes e trabalhando com arquivos.”’

Graças à rede de resistência, Marcelo consegue um emprego no cartório de identidade de Recife, onde passa a maior parte do tempo procurando informações sobre sua mãe, sobre quem sabe muito pouco. Era uma época em que pessoas desapareciam e nunca eram encontradas. Alguns anos antes, a oeste de Pernambuco, às margens do rio Araguaia, um grupo de cerca de cem guerrilheiros comunistas se opôs ao Exército brasileiro; pelo menos sessenta foram torturados e assassinados. Devido a uma Lei de Anistia de 1979, aprovada pela junta militar, nenhum ex-militar jamais foi condenado criminalmente, e somente em 2008, quando Carlos Brilhante Ustra foi declarado torturador por um tribunal civil em São Paulo, seus crimes foram oficialmente reconhecidos. (Ele morreu em liberdade aos 83 anos.) Foi apenas em 2012 que a então presidente Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade para investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante os anos da ditadura. Quando Dilma sofreu impeachment em 2016, Jair Bolsonaro fez questão de elogiar Ustra antes de votar, chamando-o de “o temor de Dilma Rousseff”.

A própria Dilma foi presa e torturada durante esses anos. Em 2011, uma fotografia sua foi descoberta nos arquivos de São Paulo, tirada em novembro de 1970, quando ela era membro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Ela havia suportado meses na prisão e semanas de tortura e agora se encontrava diante de um tribunal militar. Na foto, ela está sentada, curvada e entediada, enquanto dois generais do Exército a observam, cobrindo os rostos como se estivessem envergonhados – como se o futuro pudesse, de alguma forma, vê-los. “Tortura é algo complexo”, disse ela ao Brasil de Fato em 2020. “Acho que todos que passaram pela prisão sempre carregarão essa marca. Não gosto de assistir a filmes com tortura, por exemplo. Não é que eu não goste. Eu simplesmente não assisto.” "Não quero ver isso."

Nesse sentido, o thriller policial carnavalesco de Mendonça é ideal para assistir: o diretor disse que queria "subestimar grosseiramente, quase de forma poética", a crueldade da ditadura. Mas ainda há vislumbres de horror. Um dos interlúdios mais marcantes do filme mostra Marcelo sendo abordado pelo chefe de polícia corrupto Euclides e seus capangas. "Queremos te mostrar uma coisa", diz Euclides. Marcelo concorda, e eles o levam até um alfaiate próximo para encontrar Hans (Udo Kier, em seu último papel), um suposto nazista e vítima frequente do assédio de Euclides. "Mostre suas cicatrizes", diz ele, e, assim como Marcelo, Hans obedece. Ele levanta a camisa e Euclides quase geme de excitação.

Bolsonaro gostava de levantar a camisa para a imprensa e exibir suas facadas, frequentemente durante suas muitas internações por Covid-19. Era uma espécie de exibicionismo machista, o mesmo que excita Euclides, que vê Hans como um companheiro de farda que lutou por seu país e conquistou seu lugar no exército. Mendonça afirmou que Hans foi inspirado por um refugiado romeno, amigo e alfaiate de seu pai, e pela herança judaica da cidade (Recife foi o local da primeira comunidade judaica organizada do Brasil, no século XVII). Ao final da cena, revela-se que Hans é um sobrevivente do Holocausto, forçado a aceitar o título de nazista para permanecer nas boas graças de Euclides. Seu personagem revela a natureza peculiar da identidade sob o fascismo. No Brasil de 1977, Hans vive sob uma identidade falsa, assim como Marcelo, e como Josef Mengele, que escapou, como tantos outros nazistas, para a América do Sul pelas rotas de fuga (ele se afogaria em São Paulo dois anos depois).

Mendonça afirmou que via no regime Bolsonaro uma imitação do nazismo, em sua retórica e ideologia, mas também “de uma forma fetichista”. (Sobre o tema dos arquivos: Bolsonaro, após uma visita ao Museu do Holocausto em Jerusalém, disse que os crimes do Holocausto poderiam ser “perdoados, mas não esquecidos”; porém, sobre o passado enterrado de seu próprio país, disse: “Só um cachorro procura ossos”). Poucas semanas após o impeachment de Dilma em 2016, o filme Aquarius, de Mendonça, foi exibido em Cannes; no tapete vermelho, o diretor segurava cartazes expressando apoio a Dilma e afirmando que o Brasil não era mais uma democracia. Quando saiu do teatro duas horas depois, foi recebido por uma “tempestade de críticas”; recebeu ameaças de morte e seus filmes, sujeitos aos caprichos do governo do país, foram impedidos de concorrer ao Oscar. Este ano, Mendonça está indicado a quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme, que, caso vença, será recebido por sua esposa.

Uma forma de tortura que se tornou infame durante a ditadura foi o pau de arara, ou poleiro de papagaio, onde a vítima era amarrada a uma vara que percorria a parte interna dos cotovelos e a parte de trás dos joelhos. Originalmente, era chamada de "balanço de Boger", em homenagem ao nazista que popularizou a técnica em Auschwitz. A proeminência de telefones públicos laranja brilhantes no filme pode aludir indiretamente a outra forma de tortura, onde estudantes eram pendurados em público, encharcados e depois eletrocutados com telefones de corda – geralmente em seus genitais. E talvez o Fusca amarelo que nos introduz ao filme faça alusão à famosa fotografia de Carlos Marighella, outro guerrilheiro dissidente, morto dentro do mesmo carro após ser assassinado pela polícia. (Moura estreou na direção com Marighella em 2019; o governo Bolsonaro proibiu a distribuição do filme no Brasil.) A realidade existe em todas essas imagens, por mais sutis que sejam, porque existe em seus referentes – isto é, no arquivo, a “prova de vida”.

Quando os arquivos militares foram abertos para fins legais em 1979, um grupo de advogados começou a contrabandear os documentos para uma sala repleta de fotocopiadoras alugadas, publicando eventualmente Brasil: Nunca Mais (1985), que detalha 1.843 casos de tortura. A história existe em tais milagres. Um ex-policial testemunhou em 2012 que foi responsável por se desfazer de pelo menos dez corpos durante a ditadura, alegando que levou os cadáveres para uma plantação de cana-de-açúcar e os queimou na fornalha da destilaria – porém, sem provas, suas palavras não passam de fumaça. O Agente Secreto nasceu do arquivo, da história material disponível a Mendonça durante sua pesquisa. O que seria do filme sem ela? As histórias da perna cabeluda surgiram numa época em que os censores do governo patrulhavam as gráficas, com alguns jornais reduzidos a publicar poesia ou receitas de bolo nas primeiras páginas. Essas histórias começaram como uma piada, claro, uma travessura, mas a perna cabeluda logo se tornou uma metonímia para a violência estatal não reconhecida – uma forma de dizer o que não é dito.

A mãe de Mendonça era historiadora. Ele se lembra com carinho de quando ela trazia fitas de entrevistas para casa; ele ouvia tantas vozes estranhas. "Ela não era cineasta, mas suas entrevistas eram muito parecidas com filmes." Após a morte dela, as fitas ganharam uma nova dimensão — onde a única voz que importava era a de um amor perdido. Ao final de O Agente Secreto, Flávia, a estudante, encontra-se com Fernando, agora adulto, para falar sobre o pai dele, cuja voz ela vem ouvindo por tantos dias, semanas, meses. O choque é que Fernando diz que mal se lembra dele. Ele olha para trás, para aquele tempo, para a "pirraça" de 1977, e quase não tem recordações do pai. Mas ele se lembra de Tubarão.

Defenda Cuba dos esforços dos EUA para destruí-la

Os esforços de Donald Trump para bloquear o fornecimento de combustível a Cuba visam criar o caos. Agora, mais do que nunca, Cuba precisa de solidariedade internacional prática para resistir à intimidação imperialista dos EUA.

Helen Yaffe

Jacobin

Durante anos, o establishment americano culpou o socialismo, a incompetência e a má gestão pelos problemas econômicos de Cuba. (Yamil Lage / AFP via Getty Images)

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado, Marco Rubio, buscam uma mudança de regime em Cuba até o final de 2026. Suas ações expõem a hipocrisia da política americana em relação a Cuba ao longo de décadas — alegando defender os direitos humanos enquanto impõem um bloqueio que nega aos cubanos o acesso a recursos vitais.

Trump apoia abertamente o retorno da antiga elite cubana e chegou a sugerir uma “tomada amigável” de poder em Cuba pelos Estados Unidos. Depois de anos em que o establishment americano atribuiu os problemas econômicos da ilha ao socialismo, à incompetência e à má gestão, Trump hoje se vangloria abertamente de que o embargo americano significa que “não há petróleo, não há dinheiro, não há nada”. Se Cuba fosse realmente um Estado falido, como afirmam Trump e seu antecessor, Joe Biden, a guerra econômica americana seria desnecessária. Essa agressão renovada revela uma grande potência em declínio, perdendo sua hegemonia, assolada por contradições e crises internas, e desesperada para esmagar todos os desafios e alternativas a fim de preservar sua dominância.

Ordem executiva

Em 29 de janeiro, Trump assinou uma ordem executiva alegando que Cuba constitui “uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional e à política externa dos EUA, e autorizando tarifas sobre produtos de países que vendem ou fornecem petróleo a Cuba. Isso ocorreu após a apreensão, em dezembro de 2025, de petroleiros carregados com petróleo venezuelano e, em 3 de janeiro, o sequestro violento do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

Em resposta à ameaça de tarifas de Washington, o México e outros países suspenderam os embarques de petróleo para Cuba. A ordem executiva de Trump baseou-se em diversas leis, incluindo a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), que a Suprema Corte dos EUA decidiu, em 20 de fevereiro, que não pode ser usada para impor tarifas. No entanto, isso faz pouca diferença: Trump pode usar outras leis para autorizar as medidas. De qualquer forma, nenhuma tarifa havia sido cobrada, mas a mera ameaça já havia efetivamente interrompido as entregas de petróleo a Cuba.

A ordem executiva de Trump teve um impacto imediato na ilha, que depende de combustível importado para gerar metade de suas necessidades de eletricidade. Em duas semanas, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos alertou que serviços essenciais estavam em risco:

Unidades de terapia intensiva e salas de emergência estão comprometidas, assim como a produção, distribuição e armazenamento de vacinas, hemoderivados e outros medicamentos sensíveis à temperatura. Em Cuba, mais de 80% dos equipamentos de bombeamento de água dependem de eletricidade, e os cortes de energia estão prejudicando o acesso à água potável, saneamento básico e higiene.

A escassez de combustível interrompeu o sistema de racionamento e a cesta básica de alimentos regulamentada, além de afetar redes de proteção social — merenda escolar, maternidades e casas de repouso —, com os grupos mais vulneráveis ​​sendo desproporcionalmente impactados.

Os hospitais cubanos já cancelaram atendimentos não urgentes, enquanto as ambulâncias sofrem com a falta de combustível. Muitas escolas, faculdades e universidades também tiveram que fechar. O transporte público e privado, bem como o transporte de mercadorias, foram drasticamente reduzidos. Os locais de trabalho, sejam estatais, privados ou cooperativas, diminuíram drasticamente suas atividades. A escassez de combustível interrompeu a produção, a refrigeração e o transporte de alimentos, levando à falta de produtos, aumento de preços e longas filas para bens básicos. A coleta de lixo entrou em colapso, aumentando os riscos sanitários. Os constantes apagões tornam o cotidiano extremamente difícil. Algumas companhias aéreas internacionais cancelaram voos devido à falta de combustível de aviação em Cuba, e diversos governos desaconselharam todas as viagens, exceto as essenciais, reduzindo ainda mais a receita do turismo cubano.

A renovada agressão contra Cuba revela uma grande potência em declínio, perdendo sua hegemonia, assolada por contradições e crises internas.

Mark Weisbrot, coautor de um estudo recente publicado no Lancet Global Health que calculou que as sanções unilaterais causam mais de meio milhão de mortes em todo o mundo a cada ano, escreveu sobre o bloqueio de petróleo de Trump: “Neste momento, podemos ver em tempo real como essas mortes acontecem... O colapso das importações de petróleo teve efeitos imediatos e que ameaçam vidas.”

Em fevereiro, Trump disse a repórteres que Rubio estava envolvido em negociações de alto nível com autoridades cubanas. Os líderes cubanos negaram isso, e uma reportagem do Drop Site News sugeriu que Rubio estava mentindo para poder alegar posteriormente que as negociações fracassaram devido à intransigência cubana e, em seguida, pressionar por uma mudança de regime. Rubio não se contentará com o chamado modelo venezuelano de apenas remover o presidente em Cuba.

Então, em 13 de março, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel anunciou que, juntamente com Raúl Castro, estava conduzindo negociações com representantes do governo dos EUA “com o objetivo de encontrar soluções por meio do diálogo”. Ele reiterou a posição histórica do governo revolucionário: que Cuba participaria apenas “com base na igualdade e no respeito pelos sistemas políticos de ambos os Estados, e pela soberania e autodeterminação do nosso Governo”. Isso ocorreu após o anúncio, no dia anterior, de que cinquenta e um prisioneiros seriam libertados, com a mediação do Vaticano.

Economic Warfare, Aimed at Regime Change

Recent measures compound hardships resulting from nearly seven decades of economic warfare. The US “embargo” on Cuba is the longest and most extensive system of unliteral sanctions in modern history. This is not merely a legal or bilateral issue between the two countries but a blockade that obstructs Cuba’s interactions with the rest of the world, violates human rights, and hinders development.

Most Cubans on the island have spent their entire lives enduring shortages caused by decisions taken in Washington to garner votes in Miami. In 2025, Cuba’s annual report to the United Nations put the cumulative cost of the US blockade at over US$170 billion. Costs are rising year after year, reaching $7.6 billion from March 2024 to February 2025 alone.

The objective of US policy was long ago set out in a 1960 memorandum by US diplomat Lester Mallory titled “The Decline and Fall of Castro,” which proposed economic warfare “to bring about hunger, desperation and overthrow of government.” Sanctions are part of this tool kit.

During his first administration, Trump adopted a policy of “maximum pressure” against Cuba, introducing more than 240 new sanctions and coercive measures to cut the country off from global trade and the international financial system. This coincided with the COVID-19 pandemic and hit Cuba hard: electricity blackouts returned, goods and medicines became scarce, inflation and emigration soared, foreign investors fled, and international reserves were drained. Life was already extremely tough for Cubans before Trump returned to office in 2025, with Rubio — his career built on hard-line opposition to Cuban socialism — as the new secretary of state.

Can Cuba Survive?

“Cuba is on the brink of collapse,” the mainstream media proclaims in unison. Yet decades of research and lived experience in Cuba counsel skepticism toward such headlines. The demise of Cuban socialism has been foretold more times than the assassination of Fidel Castro was attempted. As I wrote in a book on how revolutionary Cuba survived the collapse of the Soviet-led bloc, this revolution wrote the rulebook on resilience.

Beyond the assertion of national sovereignty, it argued, the creation of an alternative model of development was key to this. One chapter examined the Energy Revolution of 2006, which launched Cuba’s shift to a renewable energy matrix. Faced with today’s onslaught on the oil supply, this shift is proving vital.

Already in 2024, the Cuban government announced plans to install ninety-two solar panel parks by 2028 with credit and technology from China. These will have an installed generation capacity of two gigawatts daily. Half of the planned parks are already installed, contributing around one gigawatt hours daily, around 20 percent of Cuba’s electricity needs. Another 30 percent is derived from domestically produced fossil fuels.

O fim do socialismo cubano foi previsto mais vezes do que as tentativas de assassinato de Fidel Castro.

There remain serious obstacles, however: investments and construction are hindered by Trump’s oil blockade; the photovoltaics need to be connected to the national grid; there is a lack of storage capacity for the energy produced, so it only contributes during daylight; and while electric vehicles have entered Cuba in recent years, most of the transport fleet is fuel-dependent. If Trump and Rubio’s oil blockade remains unbroken, how long can Cuban socialism, and indeed, the Cuban people survive?

The World Needs Cuba

This is no mathematical calculation or intellectual puzzle; it is a human crisis that should concern us all. But what would we lose if Trump achieved what twelve of his predecessors failed to do — the destruction of Cuban socialism?

For any of its flaws, Cuba has demonstrated that after centuries of colonialism and imperialist domination, a subjugated people can take control of their land and resources and chart their own path in development, international relations, and values. The historic commitments to sovereignty and social justice by Cuban revolutionaries link the nineteenth-century wars of independence with the 1959 Revolution, the adoption of socialism, and the struggle against imperialism and underdevelopment. They also underpin Cuba’s symbolism for the Global South.

Leftists who criticize the Cuban system are mistaken to dismiss the remarkable gains the Revolution brought to the Cuban masses — in education, health care, housing, sports, culture, participative democracy, science, and economic and social justice — while also making bold strides in confronting racism, sexism, and class oppression.

This is what inspires people across the Global South, where some 85 percent of the world’s population live. Cuba is a small island that defied an empire and brought its own version of socialism to the western hemisphere, forged through its own revolutionary process, not imposed from outside. Emerging from the ragtag Rebel Army, the Cuban Revolutionary Armed Forces humiliated the United States at the Bay of Pigs in 1961.

Cuba has been a permanent thorn in the side of US imperialism: supporting national liberation and guerrilla movements around the Global South and punching above its weight in geopolitical terms. This was the small country that sent 400,000 soldiers to Angola to defend it from the invading forces of apartheid South Africa. It has consistently contested US hegemony in the Americas and imperialism worldwide, sending military and medical personnel to what President George W. Bush once called “any dark corner of the world.”

In turn, Cuba has survived relentless aggression from the world’s dominant power, whether through overt and covert military actions; sabotage and terrorism by US authorities and allied exiles; economic warfare; or international isolation. It has undermined Cuba by promoting dangerous emigration, including by unaccompanied minors (Operation Peter Pan, 1960–62) but also Cuban doctors (the Cuban Medical Professional Parole Program, 2006–17) while obstructing remittances, family visits, and visas. This is topped off by lucrative funding for regime-change programs.

Not least in this context, the Cuban Revolution has achieved a great deal. It has demonstrated to the Global South the benefits of welfare-centered development under a socialist planned economy with a participative democracy. The revolutionary state improved development indicators to rich-country levels within one generation.

Its free, universal public health care system achieved the highest ratio of doctors per person in the world. It slashed infant mortality, raised life expectancy, and eliminated diseases. Its universal public education system is free for all, including at the highest levels, elevating Cubans to among the most literate and cultured people in the world. It invested in art, culture, and sporta, endorsing them as human rights. It invested in science and technology for social development.

Cuba demonstrou ao Sul Global os benefícios do desenvolvimento centrado no bem-estar social, sob uma economia socialista planificada com democracia participativa.

It created a unique state-funded, state-owned biotechnology sector producing the world’s first meningitis B vaccine, the first therapeutic lung cancer vaccine, a treatment for diabetic foot ulcers that reduces the need for amputations by over 70 percent, and the only COVID-19 vaccines created in Latin America and the Caribbean. Even now, it is trialing promising new drugs for Alzheimer’s disease. Cuba is world-leading in sustainable development and agroecology and has a unique long-term state plan to confront climate change, known as Tarea Vida.

A 2022 study by Jason Hickel and Dylan Sullivan found that between 1990 and 2019 neoliberal policies caused 15.63 million excess deaths worldwide from malnutrition that could have been prevented with Cuba-style policies, including 35,000 in the United States. In a world where 1.1 billion people live in acute multidimensional poverty, two billion lack clean drinking water, and 3.5 billion lack sanitation, Cuban socialism offers a viable alternative.

This force of example is the only sense in which it poses “an unusual and extraordinary threat” to the United States. As Fidel Castro warned before the Bay of Pigs invasion, Cuba would not be forgiven for carrying out “a socialist revolution right under the nose of the United States!”

Revolutionary Cuba has also mobilized the world’s largest international humanitarian assistance program, from health care professionals to technical specialists and construction workers. Guatemalan researcher Henry Morales calculated that between 1999 and 2015, Cuba’s overseas development aid equaled 6.6 percent of its GDP, compared to the European average of 0.39 percent and 0.17 percent from the United States. Since 1960, over 600,000 Cuban medical professionals have served in 180+ countries, saving and improving millions of lives, especially in underserved populations in the poorest countries.

The US government is actively sabotaging Cuban medical internationalism with lies, manipulations, and threats against recipient countries. Under pressure from Trump, some governments have sent Cuban medics home, directly harming their own citizens who are left without health care. Regime change would not only devastate Cuba but hurt millions of people around the world who rely on Cuban assistance.


Rejeite os apelos para que Cuba faça um acordo

Este governo Trump demonstrou total desprezo pelo direito internacional. Realizou execuções extrajudiciais no Caribe e no Oceano Pacífico, sequestrou petroleiros, raptou tripulações e confiscou o petróleo. Sequestrou o presidente da Venezuela e sua esposa e ameaçou invadir, inclusive seus próprios aliados da OTAN, ao mesmo tempo que reviveu e expandiu a Doutrina Monroe e violou os direitos humanos e a autodeterminação nacional.

Nesse contexto, os apelos para que Cuba “faça um acordo” com Trump equivalem a ameaças veladas contra sua soberania. Em vez de oferecer conselhos à ilha sitiada, intelectuais e analistas deveriam exigir responsabilidade do governo dos EUA por seus crimes. Acadêmicos não devem legitimar a ideia de que Trump tem o direito de promover uma mudança de regime, como faz a nova iniciativa acadêmica da Universidade Internacional da Flórida, que busca “conduzir Cuba rumo à liberdade e à democracia, apoiando a transição”.

Uma petição online recente, “Acadêmicos em Solidariedade com Cuba”, condena a política de asfixia do governo dos EUA e defende o direito de Cuba à autodeterminação e ao desenvolvimento socialista. Exortamos acadêmicos e estudantes do mundo todo a assiná-la. Além de petições, precisamos de ações concretas para defender Cuba. Organismos internacionais como a ONU, o BRICS, a UE, o G77 e a China devem se opor à intimidação de Trump enviando combustível e outros bens essenciais para Cuba. Mas não podemos esperar por eles.

Podemos doar fundos e recursos agora. A organização Let Cuba Live! está comprando painéis solares; a Saving Lives Campaign e a Global Health Partners estão adquirindo equipamentos médicos; e o Projeto Hatuey fornece medicamentos contra o câncer para crianças cubanas. Podemos apoiar ou participar da Caravana Nuestra América para Cuba, liderada pela Progressive International, que incentiva pessoas do mundo todo a viajarem para Havana por terra, ar e mar para uma mobilização em massa no dia 21 de março. Seja o que for que façamos, precisamos agir agora. Cuba demonstrou uma solidariedade sem precedentes com o mundo. Agora o mundo precisa se solidarizar com Cuba.

Colaborador

Helen Yaffe é professora de economia política latino-americana na Universidade de Glasgow. Ela é autora de We Are Cuba! How a Revolutionary People Have Survived in a Post-Soviet World e Che Guevara: The Economics of Revolution. Ela é coapresentadora do podcast Cuba Analysis.

11 de março de 2026

O que revela a condenação dos assassinos de Marielle Franco

Os assassinos da vereadora socialista do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foram recentemente condenados, expondo os profundos laços entre a direita brasileira e as milícias violentas. O caso demonstra que as instituições democráticas ainda podem responsabilizar os autores de atos de violência da extrema direita.

Alex MacArthur


O assassinato da vereadora socialista Marielle Franco em 2018 expôs as profundas ligações entre a extrema-direita brasileira e as redes criminosas infiltradas no Estado. (Mídia NINJA)

Por volta das 21h30 do dia 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, um Chevrolet Cobalt prata parou ao lado do carro onde estavam a vereadora Marielle Franco, seu motorista Anderson Gomes e seu assessor de imprensa. Franco acabara de moderar uma mesa-redonda sobre mulheres negras e mudanças estruturais e estava voltando para casa quando o veículo emparelhou com o dela e um assassino armado com uma submetralhadora disparou uma rajada precisa de treze tiros, atingindo Franco e Gomes várias vezes e matando-os antes de fugir em alta velocidade.

Em uma cidade acostumada a derramamento de sangue em público, a natureza do crime ficou imediatamente clara para muitos: não se tratava de um assalto ou de um acerto de contas entre gangues que deu errado, mas de um assassinato político. Franco, com 38 anos na época de sua morte, havia se tornado uma das figuras mais proeminentes da Câmara Municipal, representando o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Uma defensora ferrenha da esquerda e dos direitos dos moradores negros, LGBTQ+ e das favelas, ela presidiu a Comissão de Defesa das Mulheres da cidade e desempenhou um papel importante no monitoramento e na denúncia de violentas operações policiais, muitas delas ordenadas pelo governo estadual de direita. Ela cresceu na favela da Maré, uma região pobre, filha de pais que chegaram à cidade com poucos recursos e a incentivaram a trabalhar duro. Aos onze anos, começou a trabalhar para ajudar no sustento da família e, mais tarde, ganhou uma bolsa de estudos para a universidade, onde escreveu sobre as políticas policiais do estado.

Assim como a ascensão de Franco personificou a promessa da democracia brasileira, sua morte expôs seus limites. Ela foi assassinada por ter se tornado uma das opositoras mais visíveis das milícias do Rio e uma das defensoras mais incisivas dos moradores marginalizados das favelas. Mais do que contrabando de armas, assassinatos por encomenda ou mesmo tráfico de drogas, as milícias — máfias paramilitares de direita compostas em grande parte por ex-militares e policiais que alegavam combater o crime — lucravam enormemente com a grilagem de terras e a especulação imobiliária nas favelas do Rio. Antes de ser eleita, Franco havia trabalhado com o deputado estadual Marcelo Freixo em uma comissão parlamentar de inquérito sobre as milícias, que levou à acusação de milicianos e políticos alinhados a elas. Franco representava tudo o que a direita detestava: uma socialista implacável disposta a expor autoridades corruptas, ela representava uma ameaça material real.
“Marielle era uma mulher negra pobre que desafiava os interesses das milícias. Que mensagem mais forte poderia ser enviada?”, questionou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ao término da longa investigação em 25 de fevereiro. A sentença do tribunal condenou os irmãos Brazão, políticos estaduais que ordenaram os assassinatos, a 76 anos de prisão, além da condenação anterior dos dois ex-policiais que os executaram.

O caso demorou tanto para ser resolvido, em parte, porque autoridades ligadas às milícias nos mais altos escalões do poder, encorajadas durante o mandato do então presidente de extrema direita Jair Bolsonaro — que se recusou a condenar o assassinato e cuja família mantém laços com as milícias — trabalharam para obstruir a justiça. A conspiração para obstruir a justiça se estendeu por todo o estado. A destruição de provas e o desvio de pistas foram posteriormente comprovados como orquestrados pelo então chefe de polícia do Rio, Rivaldo Barbosa, que recebeu uma sentença de 18 anos.

Após o assassinato de Marielle Franco, a pergunta “Quem mandou matar Marielle?” tornou-se um grito de guerra no Brasil e no mundo. A resposta final, obtida por meio de um acordo de delação premiada com um dos assassinos, expôs muito mais do que a depravação dos irmãos Brazão. Revelou uma rede subterrânea coordenada de políticos influentes de direita, policiais e paramilitares — semelhante à conspiração para derrubar o governo que posteriormente levou à prisão de Bolsonaro. À medida que a extrema direita consolida o poder e ameaça as instituições democráticas em todo o mundo, o assassinato de Franco deve servir como um alerta contundente: a violência política que espreita por trás da retórica da extrema direita deve ser levada a sério.

Embora o caminho para a justiça tenha sido tortuoso e árduo, a investigação federal e o julgamento do caso pelo Supremo Tribunal Federal, apesar da forte resistência da direita, também demonstraram que as instituições brasileiras continuam capazes de defender a democracia. “Hoje, o sistema judiciário brasileiro honrou a memória de Marielle e Anderson”, disse Anielle Franco, irmã de Marielle e ministra da Igualdade Racial no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “O Brasil inicia um novo capítulo histórico no enfrentamento da violência política baseada em gênero e raça. A impunidade não pode fazer parte da nossa democracia.”

Colaborador

Alex MacArthur é pesquisador e escritor freelancer, atualmente cursando mestrado em história econômica e social na Universidade de Cambridge.

10 de março de 2026

Em pé de guerra

A estratégia regional de Israel.

Ilan Pappé

Sidecar


Eis um paradoxo. Enquanto as bolsas de valores do mundo inteiro reagem com nervosismo ao ataque ao Irã, a Bolsa de Valores de Tel Aviv está em plena expansão. Eis outro: enquanto milhões de pessoas na região temem a operação militar israelense-americana e suas consequências, a sociedade israelense está em festa. Segundo as últimas pesquisas, 93% da população judaica apoia a guerra. Escrevendo no jornal Yedioth Ahronoth, um jornalista captura o clima de euforia:

Enquanto nos livramos do monstruoso polvo iraniano, caminho pela rua, as lojas estão abertas, os entregadores da Wolt correm para entregar sushi, shawarma e bolos de chocolate superfaturados aos cidadãos israelenses, as pessoas correm no parque e, em casa, tenho eletricidade, água quente e internet. O estúdio de Pilates está aberto e a bolsa de valores israelense está batendo recordes. E neste exato momento, sobre minha cabeça, nas terras baixas, caças da Força Aérea decolam para mais uma missão... Eles destroem com precisão impossível mais uma casa de um oficial de patente média da Guarda Revolucionária... 
É assim que se parece a guerra mais crítica desde a fundação do Estado? É assim que se parece porque o Estado de Israel é um milagre inexplicável.

Ele prossegue sugerindo que Israel deve agradecer à grande liderança de Netanyahu, juntamente com as qualidades excepcionais de seu povo e a ajuda divina. No Israel Hayom, outro jornalista proeminente oferece mais um elogio chauvinista ao primeiro-ministro de Israel. Até mesmo os detratores de Netanyahu devem admitir que ele possui "paciência, astúcia, determinação e foco inabalável" em sua constante destruição do inimigo – guerra total contra o Hamas, depois contra o Hezbollah, agora contra o Irã – e na contenção das tentativas insensatas de Trump de negociar com os aiatolás e elaborar um plano de paz para Gaza.

A estratégia certamente parece ser uma campanha de choque e pavor após a outra. O Irã está atualmente na mira, mas a mensagem é dirigida a todos os estados do Oriente Médio: não ousem desafiar a ambição de Israel pela hegemonia regional ou pela limpeza étnica da Palestina. Alcançar o primeiro objetivo daria a Israel a imunidade necessária para o segundo: corrigir o erro que o historiador Benny Morris lamentou ao criticar Ben Gurion por não ter expulsado todos os palestinos em 1948. Como disse Bezalel Smotrich aos membros palestinos do Knesset em 2021, "vocês estão aqui porque Ben Gurion não terminou o trabalho". Aos olhos do governo e da elite política em geral, parece ter chegado o momento de concluir essa tarefa.

Isso marca uma ruptura com a estratégia sionista pré-estatal e com a política regional israelense, que se baseava em operações secretas combinadas com criptodiplomacia. Frequentemente me perguntam se a guerra atual visa implementar o que é conhecido como Plano Yinon. Oded Yinon foi conselheiro de Sharon e, em 1982, foi coautor de um artigo que delineava uma estratégia de dividir para governar o mundo árabe. O sectarismo serve bem a Israel, argumentava ele, e deveria ser promovido. Isso ocorreu na época em que Sharon buscava semear a divisão nas fileiras da resistência palestina, inclusive incentivando forças islamistas em Gaza. Quando isso falhou, Sharon lançou um ataque direto à OLP no Líbano, o que foi amplamente criticado em Israel como um erro estratégico. As notícias recentes sobre uma tentativa de facilitar uma invasão terrestre curda a partir do Iraque para complementar o bombardeio aéreo do Irã podem parecer confirmar que essas táticas ainda estão em operação. Mas não é o caso. A antiga estratégia era muito menos dramática: a intervenção clandestina na política interna de outros Estados não é uma política da qual se alardeie; Nem se baseia em arrastar a região para uma guerra.

Evidentemente, este não é mais o modus operandi do Estado de Israel. Ironicamente, o melhor esquema interpretativo aqui pode ser aquele que os orientalistas tipicamente aplicam – nem sempre com muita precisão – à República Islâmica: que se trata de um poder que não age segundo uma abordagem racional e humanista “ocidental” da política, mas sim segundo uma ideologia fanática. Aqueles que definem a atual estratégia israelense são explícitos quanto às suas raízes nos ensinamentos do sionismo messiânico e à sua visão da guerra atual como cumprimento divino. Netanyahu pode ser menos ideológico do que seus aliados e estar mais preocupado com sua própria sobrevivência política, mas não há dúvida de que ele aceita sua glorificação como gênio estratégico e mensageiro de Deus. Para esse grupo, a própria sociedade israelense precisa se tornar muito mais teocrática. Ainda não é, lamenta Smotrich, o “Estado dos Cohanim”, mas está a caminho de ser governado por uma versão bíblica rigorosa da lei haláchica: “O Estado de Israel, a nação do povo judeu, se Deus quiser, voltará a funcionar como nos dias do Rei Davi e do Rei Salomão”. Grande parte da legislação interna do governo dedica-se a alcançar esse objetivo. Em segundo lugar, há a necessidade de resolver a questão palestina. Gaza é o modelo. Smotrich afirma novamente: “Não há meias medidas. Rafah, Deir al-Balah, Nuseirat – destruição total. ‘Apagarás a memória de Amaleque de debaixo dos céus. Não há lugar para eles debaixo dos céus’”.

Em outubro de 2024, Smotrich declarou que “uma vez por geração, surge uma rara oportunidade de mudar a história, de alterar o equilíbrio de poder no mundo e de remodelar o futuro”. Em breve, teremos que tomar decisões cruciais que levarão a um Oriente Médio novo e melhor. Para a maioria dos comentaristas políticos ocidentais, proclamações messiânicas – a menos que sejam feitas por islamitas – soam irrelevantes para a política. Mas essas não são declarações vazias. Essa é uma visão de mundo que agora domina tanto os meios políticos quanto os militares, e que serve de base para grande parte da euforia atual e do apoio incondicional da mídia. A guerra contra o Irã também é apoiada por aqueles com uma abordagem mais secular – e supostamente mais racional – da política, no Mossad e na academia, bem como pelos únicos políticos que podem potencialmente derrotar Netanyahu nas eleições de outubro, Avigdor Liberman e Naftali Bennett. A justificativa é que Israel teve que agir porque enfrentava uma ameaça existencial – uma alegação tão plausível quanto as justificativas de Colin Powell à ONU para a invasão do Iraque. Ainda mais absurdo é o argumento de que um Estado que viola sistematicamente os direitos dos palestinos está travando uma guerra em nome dos direitos humanos.

Do ponto de vista econômico, apesar da exuberância do mercado de ações israelense, o rumo do Estado de Israel é altamente questionável. Custa muito dinheiro – dois bilhões de NIS por dia em despesas diretas e de cinco a seis bilhões indiretamente – e exigirá uma ajuda financeira americana contínua e significativa. A lógica do governo é que isso será compensado pelos dividendos econômicos: lucros exorbitantes com a venda de armas, agora que armamentos israelenses de ponta estão sendo exibidos no campo de batalha, sem mencionar a perspectiva das reservas de petróleo iranianas e maior acesso às dos Estados do Golfo, à medida que estes percebem que precisam da proteção de Israel. Contudo, não há garantia de que isso compensará a pressão financeira; o mesmo se aplica ao dinheiro gasto em assentamentos e na promoção do judaísmo messiânico em detrimento da saúde e de outras prioridades sociais.

Há ainda outros motivos pelos quais Israel terá dificuldades em levar adiante sua estratégia a longo prazo. Campanhas como essa, no passado, foram abandonadas assim que enfrentaram dificuldades. A perda de vidas americanas, a pressão de outros países da região, a opinião pública nos EUA, a potencial resiliência do regime iraniano e a contínua resistência dos palestinos podem alterar o equilíbrio de poder. Uma invasão do Líbano, a julgar pelas tentativas anteriores, não beneficiará ninguém. Muito depende da coalizão global que fortalece as guerras de Israel: a indústria armamentista, as corporações multinacionais, os líderes megalomaníacos de estados poderosos, os lobbies sionistas cristãos e judeus, os governos tímidos do hemisfério norte, bem como os regimes árabes corruptos do Oriente Médio. O que é certo é que, antes que esse fiasco termine, Israel infligirá muito sofrimento – aos iranianos, aos libaneses e aos palestinos.

9 de março de 2026

As guerras no Oriente Médio ainda giram em torno do petróleo e do império.

Gilbert Achcar explica como o petróleo, o poder dos EUA e as rivalidades regionais moldaram décadas de conflito no Oriente Médio — e por que o confronto com o Irã se encaixa em um longo padrão imperial.

Uma entrevista com
Gilbert Achcar


Incêndio deflagra no depósito de petróleo de Shahran, em Teerã, Irã, após ataques dos EUA e de Israel em 8 de março de 2026. (Hassan Ghaedi / Anadolu via Getty Images)

Entrevistado por
Bashir Abu-Manneh

Por que o Oriente Médio tem sido tão constantemente assolado por guerras? Em entrevista ao editor colaborador da revista Jacobin, Bashir Abu-Manneh, o economista político Gilbert Achcar argumenta que a resposta reside, sobretudo, na posição central da região na economia global do petróleo e nas estratégias das grandes potências que buscam controlá-la. Achcar discute a lógica da intervenção dos EUA, os limites da aliança EUA-Israel, a estratégia do Irã no conflito atual e as consequências regionais da doutrina imperial em evolução de Washington.

Bashir Abu-Manneh

É impossível falar do Oriente Médio sem falar de guerra. Provavelmente, é a região mais afetada por guerras no período pós-1945. Somente na última década e meia, muitas revoltas árabes degeneraram em prolongadas guerras civis. Sem mencionar a guerra sem fim de Israel contra os palestinos. Por que você acha que a guerra é tão prevalente na região?

Gilbert Achcar

Não há dúvida de que o Oriente Médio e o Norte da África (MENA) são, entre todas as regiões do mundo, as que testemunharam o maior número de conflitos armados desde 1945, com um número impressionante de guerras interestatais e intervenções estrangeiras. Esta última categoria aumentou exponencialmente após o colapso da URSS, quando os Estados Unidos se sentiram livres para intervir na região a partir da guerra de 1991 contra o Iraque. A Rússia seguiu o exemplo sob Vladimir Putin, a começar pela sua intervenção para apoiar o regime sírio em 2015.

A razão para esta prevalência da guerra é simples: é o que é frequentemente referido na região como a “maldição do petróleo”, o facto de o Golfo e os países vizinhos serem conhecidos desde a véspera da Segunda Guerra Mundial por possuírem as maiores reservas de petróleo do mundo, de um tipo particularmente rentável devido à relativa facilidade de extração.

O petróleo, ou mais precisamente os hidrocarbonetos, incluindo o gás natural, têm estado no centro da política do Médio Oriente e Norte de África desde o fim da guerra. O enorme interesse do imperialismo estadunidense na região, sustentado pelas grandes petrolíferas americanas, foi exemplificado pela famosa escala de Franklin Delano Roosevelt no Mar Vermelho em fevereiro de 1945, a caminho de regresso da crucial Conferência de Yalta, onde os Aliados discutiram a configuração do mundo pós-guerra. Aquele encontro a bordo do USS Quincy com o Rei Abdul Aziz, fundador do reino saudita, foi seguido pela construção de uma base da Força Aérea dos EUA em Dhahran, no coração dos principais campos de petróleo sauditas explorados pela então dominada pelos EUA, a Aramco (originalmente, Arabian American Oil Company), e estrategicamente localizada para fins da Guerra Fria.

Certa vez, chamei o reino saudita de o verdadeiro quinquagésimo primeiro estado da União Americana, um status de fato que detinha antes mesmo do nascimento do Estado de Israel. O reino e toda a região do Golfo têm sido e continuam sendo o centro da estratégia imperialista dos EUA no Hemisfério Oriental, apesar das inúmeras tentativas de burlar o senso comum explicando que “não se trata de petróleo” ou “não se trata apenas de petróleo”. Comentando a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, questionou em suas memórias por que “é politicamente inconveniente reconhecer o que todos sabem: a Guerra do Iraque é em grande parte sobre petróleo”.

A razão para essa prevalência de guerras é simples: é o que costuma ser chamado na região de "maldição do petróleo".

É claro que, para Washington, o petróleo não se resume apenas — ou sequer é sua principal preocupação — ao acesso dos EUA ao petróleo iraquiano ou do Golfo. Trata-se de controlar a enorme quantidade de dinheiro petrolífero retido pelos países do Golfo (seus fundos soberanos detêm mais de US$ 3 trilhões em ativos, quase 40% do total mundial mantido nesses fundos) e de se beneficiar de seu considerável poder de compra, especialmente no financiamento do complexo militar-industrial dos EUA. Trata-se também de controlar o acesso de outros países aos hidrocarbonetos do Golfo. Como David Harvey bem observou certa vez, “quem controla o Oriente Médio controla a torneira global do petróleo e quem controla a torneira global do petróleo pode controlar a economia global, pelo menos no futuro próximo”.

Isso também demonstra o quão equivocados estavam muitos que acreditaram que o aumento da produção de hidrocarbonetos de xisto nos Estados Unidos, combinado com a ascensão do poder da China, significava que o Oriente Médio havia perdido sua importância para Washington. Grande parte desse tipo de comentário ilusório foi direcionado ao famoso “pivô para a Ásia” do governo Obama. O que esses comentários ignoraram completamente é que controlar a “torneira de petróleo” do Golfo é crucial para a estratégia dos EUA em relação à China, cujas importações de petróleo provêm, em cerca de metade, do Golfo. As parcerias em curso entre as principais empresas de IA dos EUA e os estados árabes do Golfo – que levam à construção de centros de dados com alto consumo de energia, aproveitando a abundância de dinheiro e energia barata desses estados – adicionam um elemento importante à relevância geral da região para os Estados Unidos.

Por último, mas não menos importante, no caso específico do governo Trump, os consideráveis ​​interesses das famílias Trump, Kushner e Witkoff nos estados árabes do Golfo elevam o interesse de Washington na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA) em geral, e no Golfo em particular, a um ápice histórico, o que se traduziu em Donald Trump intervindo militarmente na região mais do que em qualquer outra parte do mundo.

Bashir Abu-Manneh

De fato, Trump se insere em uma longa linhagem de presidentes dos EUA que usam a força militar no Oriente Médio como parte central da estratégia americana. Quais são as causas imediatas e os objetivos políticos de longo prazo do ataque dos EUA ao Irã? O que explica a política da administração Trump em relação ao Irã?

Gilbert Achcar

Desde que a revolução iraniana de 1979 derrubou o regime do xá, Teerã, um importante aliado regional dos EUA, tornou-se um espinho incômodo no flanco dos Estados Unidos. As relações entre os dois países, no entanto, passaram por fases contrastantes: por mais estranho que pareça, houve fases de cooperação entre Washington e Teerã após 1979. Na década de 1980, os Estados Unidos e Israel apoiaram o esforço de guerra do Irã contra o Iraque no que ficou conhecido como o caso Irã-Contras. Naquela época, era do interesse deles prolongar a guerra entre o que consideravam dois estados rebeldes que ameaçavam seus interesses. Posteriormente, o Irã apoiou a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, por meio da conivência de seus aliados iraquianos com Washington.

Paradoxalmente, os militares dos EUA levaram consigo esses aliados e os instalaram no poder. O resultado foi que o Irã se tornou o principal beneficiário da invasão, eventualmente conquistando mais influência sobre o Iraque do que os Estados Unidos — uma das razões pelas quais o Iraque é considerado um grande fiasco na história imperial dos EUA, comparável ao Vietnã.

Tanto os Estados Unidos quanto Israel — não apenas o governo de Netanyahu, mas toda a elite sionista no poder — querem pôr fim ao programa nuclear do Irã.

O acordo nuclear que o governo Obama concluiu com Teerã em 2015 não impediu o Irã de expandir ainda mais sua influência regional, impulsionada pela intervenção na Síria ao lado do regime de Bashar al-Assad a partir de 2013 e pela tomada do norte do Iêmen pelos houthis em 2014. Nessa expansão regional, Teerã explorou tanto o ressentimento anti-Israel e anti-EUA quanto a lealdade sectária xiita. Essa é a principal crítica dirigida por Trump, Benjamin Netanyahu e as principais monarquias do Golfo a Obama, a quem todos criticam por ter concluído o acordo nuclear em um momento em que a expansão do poder regional de Teerã estava a todo vapor, sem dar a devida atenção à contenção dessa expansão. Pelo contrário, o acordo melhorou a situação econômica do Irã, facilitando, assim, sua política regional.

Considerando todos os motivos que mencionamos, fica claro o forte raciocínio por trás da política de Trump em relação ao Irã. Por meio do ataque atual, ele espera alcançar o domínio sobre aquele país, o que completaria e ampliaria enormemente o domínio dos EUA sobre o Golfo, bem como sobre toda a região do Oriente Médio e Norte da África.

Bashir Abu-Manneh

Esta guerra parece ser a realização de um sonho para Netanyahu. Os objetivos e metas de guerra dos EUA são os mesmos que os de Israel ou existem divergências significativas?

Gilbert Achcar

Há convergências e divergências, sem dúvida. As convergências são óbvias: tanto os Estados Unidos quanto Israel — não apenas o governo de Netanyahu, mas toda a elite sionista no poder — querem acabar com o programa nuclear do Irã. Israel vê essa questão como uma ameaça existencial, que coloca em risco seu status atual como o único Estado com armas nucleares na região. Washington vê a futura posse de armas nucleares pelo Irã, não tão hipotética assim, como um grande fator de dissuasão, já que Teerã poderia ameaçar bombardear campos de petróleo árabes vizinhos, provocando um desastre para os interesses dos EUA e para a economia global. Tanto Washington quanto Israel têm um claro interesse em reduzir a influência regional do Irã.

Há também divergências, embora não sejam tão óbvias quanto as convergências. De modo geral, raramente houve uma sobreposição total entre os objetivos de Israel e os dos Estados Unidos. Considere a primeira grande guerra israelense a serviço dos interesses americanos: a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, na qual Israel infligiu um duro golpe aos dois estados árabes que então se opunham radicalmente ao imperialismo americano — o Egito, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, e a Síria, sob a liderança da ala esquerda do partido nacionalista árabe Baath. Israel aproveitou a oportunidade da guerra de 1967 para completar a tomada de toda a Palestina sob mandato britânico, do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo, principalmente às custas da monarquia jordaniana — um aliado fiel dos EUA que governava a Cisjordânia desde sua anexação em 1949. Certamente, isso não era algo que Washington desejasse.

Na ofensiva contínua contra o Irã, a divergência torna-se cada vez mais visível a cada vez que Netanyahu defende uma “mudança de regime” e apoia a restauração da monarquia sob Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, enquanto Trump rejeita este último, assim como fez com a líder da oposição venezuelana de direita, María Corina Machado, após o sequestro de Nicolás Maduro. Compare a posição de Netanyahu com a declaração franca de Trump à Fox News em 6 de março: “Vai funcionar muito facilmente. Vai funcionar como funcionou na Venezuela. Temos uma líder maravilhosa lá. Ela está fazendo um trabalho fantástico. E vai funcionar como na Venezuela”, disse ele, referindo-se à presidente interina Delcy Rodríguez.

Trump também disse estar aberto à possibilidade de ter um líder religioso no Irã. “Bem, talvez sim, quer dizer, depende de quem seja a pessoa. Não me importo com líderes religiosos. Lido com muitos líderes religiosos e eles são fantásticos”, afirmou. Questionado se insistia na necessidade de um Estado democrático, Trump disse à CNN: “Não, estou dizendo que precisa haver um líder justo e imparcial. Que faça um ótimo trabalho. Que trate bem os Estados Unidos e Israel, e que trate bem os outros países do Oriente Médio — todos eles são nossos parceiros.”

A questão central é que, enquanto Netanyahu e toda a elite sionista do poder veriam com bons olhos o colapso do Estado iraniano, o que se encaixaria perfeitamente em seu projeto de longa data de fragmentar o ambiente regional, o colapso e a fragmentação do Estado iraniano, cuja população, em quase metade, é composta por minorias étnicas, seriam um desastre para os interesses regionais dos EUA. Isso porque desestabilizaria enormemente toda a região, começando pelos aliados mais próximos de Washington. Este último grupo certamente apoia o objetivo dos EUA no ataque contra o Irã, mas, igualmente, rejeita o objetivo de Israel — sem mencionar que, sendo todos estados despóticos, só podem ressentir-se da hipócrita defesa da “democracia” por Netanyahu no Irã.

Sob o governo Trump, em seu segundo mandato, os Estados Unidos adotaram uma versão modernizada da "diplomacia das canhoneiras" do século XIX.

Para entender o que chamei de “doutrina imperial antiga-nova” de Trump, é preciso ter em mente as lições do Iraque, que Trump observou atentamente. O desmantelamento do Estado iraquiano por Washington, após a ocupação do país em 2003, levou a um caos que facilitou a dominação do Irã sobre a maioria árabe xiita e a disseminação da insurgência anti-EUA entre os árabes sunitas, que mais tarde se transformou no Estado Islâmico do Iraque e da Síria. A conclusão foi que, em vez de “mudança de regime” — defendida pelos neoconservadores que dominaram o Departamento de Defesa durante o primeiro mandato de George W. Bush e que contavam com o apoio de Donald Rumsfeld e Dick Cheney — os Estados Unidos deveriam impor sua vontade aos regimes existentes, tal como se apresentam, independentemente de suas características.

Poderíamos dizer que os Estados Unidos, sob o segundo mandato de Trump, adotaram uma versão modernizada da "diplomacia das canhoneiras" do século XIX, quando as grandes potências impunham sua vontade sobre os Estados mais fracos ameaçando bombardeá-los ou, de fato, bombardeando-os caso resistissem. Naquela época, não havia preocupação com a natureza dos governos — apenas a vontade descarada de impor grosseiramente interesses imperialistas a países mais fracos.

Bashir Abu-Manneh

Muitos opositores estadunidenses do ataque conjunto EUA-Israel ao Irã, tanto na esquerda quanto na direita e na extrema-direita, o consideram injustificado, especialmente porque o Irã não representa uma ameaça iminente aos Estados Unidos. Para justificá-lo, recorrem à ideia de que os EUA estão fazendo o jogo de Israel. A guerra, mais uma vez, traz à tona a questão de se Israel e seu lobby determinam e distorcem a política externa americana no Oriente Médio. Qual a sua opinião sobre a aliança EUA-Israel e suas causas subjacentes, tanto historicamente quanto na atualidade?

Gilbert Achcar

Bem, pelo que expliquei sobre as divergências entre Washington e Israel, deve ficar claro que o rabo de Israel não está abanando o pitbull americano. Os dois países têm interesses convergentes em criticar o Irã, como estão fazendo atualmente em conjunto, mas não compartilham os mesmos objetivos. Quanto à declaração muito comentada de Marco Rubio dizendo,

Sabíamos que haveria uma ação israelense, sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas e sabíamos que, se não os atacássemos preventivamente antes que lançassem esses ataques, sofreríamos baixas ainda maiores,

a verdade é que essa declaração foi amplamente mal interpretada.

Para entender essa afirmação, é preciso considerar que um elemento central da nova doutrina Trump de “mudança de comportamento por um regime” em vez de “mudança de regime” — nas palavras acertadas do presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, comentando o ato de pirataria dos EUA na Venezuela — é a eliminação dos líderes do regime considerados um obstáculo à mudança de comportamento. Como não era possível nem útil sequestrar o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, a única opção restante era assassiná-lo, uma arte na qual Israel e seu Mossad, o equivalente israelense da CIA, se tornaram especialistas renomados. Washington, portanto, confiou em seu parceiro menor para executar essa tarefa. Sabemos, por meio de uma investigação conduzida pelo Financial Times, que Israel identificou uma oportunidade particularmente favorável no sábado.

Quando a CIA e Israel determinaram que Khamenei realizaria uma reunião na manhã de sábado em seus escritórios perto da Rua Pasteur, a oportunidade de assassiná-lo, juntamente com grande parte da alta cúpula do Irã, tornou-se especialmente oportuna.

Os militares dos EUA abriram caminho para que caças israelenses bombardeassem o complexo de Khamenei, lançando ciberataques que "interromperam, degradaram e cegaram a capacidade do Irã de ver, comunicar e responder", segundo o General Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA.

Agora, ao afirmarem que o rabo de Israel abana o pitbull americano, conservadores — como John Mearsheimer, Stephen Walt e a ala do movimento MAGA representada por Tucker Carlson — tentam obscurecer a realidade do imperialismo americano e atribuir seus fracassos ao lobby israelense, se não aos "judeus", como no caso de Carlson.

A "relação especial" de Washington com o Estado sionista se deve ao fato de considerar este último como um guardião dos interesses regionais dos EUA.

O famoso best-seller de 2007 de Mearsheimer e Walt abordou a questão da fracassada invasão americana do Iraque, como se o governo de George W. Bush, repleto de membros do Projeto para um Novo Século Americano que haviam pressionado Bill Clinton a favor da invasão, precisasse do lobby israelense para aproveitar a oportunidade oferecida pelos ataques de 11 de setembro de 2001 e invadir o Iraque. Isso em um momento em que o Iraque estava completamente exausto após oito anos de guerra com o Irã, seguidos por doze anos de um embargo debilitante e criminoso imposto pelos EUA. Na verdade, Israel teria preferido que os Estados Unidos atacassem o Irã naquela época. Certamente, Israel ressentia-se do fato de Washington ter enviado aliados de Teerã para o seu território e os ter instalado no poder em Bagdá.

A “relação especial” de Washington com o Estado sionista se deve ao fato de o considerar um guardião dos interesses regionais dos EUA — um aliado militar altamente eficiente, capaz de compensar quando a intervenção americana é impedida por fatores internos, ou de complementá-la de forma eficaz, como visto agora no ataque conjunto contra o Irã, bem como no ataque anterior, em junho passado. Qualquer ajuda militar concedida por Washington a Israel é insignificante em comparação com o gigantesco orçamento militar americano, e certamente é um investimento de excelente custo-benefício se comparado ao efeito marginal da mesma quantia se adicionada aos gastos do Pentágono. Por vezes, um fator ideológico pode fortalecer o apoio de Washington a Israel, como foi o caso de Joe Biden, certamente o presidente americano mais genuinamente e firmemente sionista de todos os tempos, e orgulhoso disso.

Bashir Abu-Manneh

Em sua resposta à agressão israelense-americana, o Irã está fazendo o que sempre disse que faria: atacar os interesses dos EUA na região, inclusive nos países do Golfo. Quais são os objetivos do Irã nesta guerra, e o regime impopular do Irã sobreviverá?

Gilbert Achcar

Os objetivos do Irã ao espalhar a guerra por toda a região são muito claros e, de fato, foram declarados em forma de ameaça muito antes do início do ataque. Essa é, na verdade, a única carta militar do Irã para enfrentar o ataque: além de bombardear Israel e as forças americanas dentro de seu alcance, busca criar uma perturbação tão grande nos estados do Golfo e em suas exportações de petróleo que exerça uma pressão significativa sobre a economia global e sobre esses estados, levando-os, por sua vez, a pressionar Washington para interromper o ataque o mais rápido possível.

É bem possível que os levantes populares contra o governo recomecem após o fim da guerra, mas é difícil imaginar que as pessoas sairiam às ruas de Teerã sob os bombardeios.

Quanto à sobrevivência do governo iraniano, não vejo, no momento, nenhuma perspectiva crível de queda. O levante popular contra o governo pode muito bem recomeçar após o fim da guerra, mas é difícil imaginar que as pessoas sairiam às ruas de Teerã sob os bombardeios. E mesmo que isso acontecesse, não existe nenhuma força de oposição organizada no Irã capaz de derrubar a República Islâmica. Diante do levante que começou no final do ano passado e se tornou o maior que o Irã já testemunhou desde a revolta que derrubou o xá em 1979, o regime teocrático demonstrou que não hesitará em matar milhares e milhares de pessoas para garantir sua sobrevivência. O único cenário alternativo seria uma divisão das forças armadas iranianas — como entre o exército regular e a Guarda Revolucionária, a espinha dorsal armada do governo — levando a uma guerra civil semelhante à da Síria. Mas esse é precisamente o pesadelo de Washington, embora seja o sonho de Israel.

Isso explica a insistência de Trump em desejar uma mudança interna, chegando a cogitar cooperar com "líderes religiosos" que sejam favoráveis ​​aos interesses dos EUA. Por ora, o regime iraniano parece ter optado por continuar o confronto, elegendo Mojtaba, filho de Khamenei, como novo Líder Supremo. Se Trump conseguirá o que deseja ou se o regime iraniano manterá sua posição, é uma incógnita no momento, embora os indícios iniciais apontem para a segunda opção.

Bashir Abu-Manneh

E quanto ao seu próprio país, o Líbano? Israel não parou de bombardeá-lo desde 7 de outubro, e o Hezbollah está severamente enfraquecido, tanto militar quanto politicamente, tendo perdido grande parte do apoio popular que tinha quando lutou contra Israel em 2006, especialmente depois de intervir ao lado do brutal regime de Assad. Para onde está indo o Hezbollah?

Gilbert Achcar

Israel vê o Hezbollah exclusivamente como um representante de Teerã. Mas o Hezbollah também é um partido de massas que defende a mesma mistura ideológica de Teerã: antissionismo, oposição à hegemonia dos EUA, sectarismo xiita e fundamentalismo islâmico. Isso significa que, assim como em seu ataque para destruir o Hamas, Israel está tentando eliminar o Hezbollah por meio de uma combinação de ataques diretos, incluindo a decapitação do movimento no outono de 2024, com a estratégia de contrainsurgência testada e comprovada chamada "drenar o mar" — ou seja, atacar a base popular que apoia o inimigo para levá-la a se desvincular dele e, eventualmente, se voltar contra ele.

A versão israelense dessa estratégia é conhecida como Doutrina Dahiya, em referência aos subúrbios do sul de Beirute (dahiya significa subúrbio em árabe), densamente povoados por uma maioria xiita, que foram alvos de intensos ataques e em grande parte destruídos durante a ofensiva israelense contra o Hezbollah em 2006, juntamente com outras áreas libanesas pró-Hezbollah de maioria xiita. É isso que Israel está infligindo novamente ao Líbano, de forma ainda mais brutal do que em 2006 ou 2024, com a intenção de forçar as forças governamentais libanesas a coagir o Hezbollah a se desarmar. É difícil prever como tudo isso terminará, já que depende muito do resultado da ofensiva em curso contra o Irã.

Permita-me um último comentário a esse respeito. Em sua guerra genocida contra Gaza, apresentada como um ataque ao Hamas, assim como em seu ataque assassino ao Líbano, visando o Hezbollah, Israel, por uma das amargas ironias de sua história, está agindo de maneira bastante semelhante ao que geralmente é visto como um exemplo inicial da estratégia de "drenar o mar": a brutal repressão, pelo Império Romano, no século II d.C., da revolta judaica contra ele, liderada por Simon bar Kokhba.

É como se o Estado sionista estivesse ansioso para imitar todos os opressores históricos dos judeus, da antiguidade ao século XX, infligindo tratamento semelhante aos povos do Oriente Médio. A "imitação darwiniana" dos antissemitas pelos sionistas, prevista pelo fundador do sionismo político, Theodor Herzl, é verdadeiramente completa.

Colaboradores

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

Bashir Abu-Manneh leciona na Escola de Estudos Clássicos, Inglês e História da Universidade de Kent e é editor colaborador da revista Jacobin.

6 de março de 2026

Será que a China vai exagerar?

Como a confiança de Pequim pode abalar a cúpula Trump-Xi

Thomas J. Christensen


O presidente chinês Xi Jinping observa após chegar para a sessão de abertura da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC) no Grande Salão do Povo, em Pequim, China, em 4 de março de 2026.
Maxim Shemetov / Reuters

Thomas J. Christensen é professor titular da Cátedra James T. Shotwell de Relações Internacionais na Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Columbia e detentor da Cátedra Pritzker no Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos. De 2006 a 2008, atuou como Subsecretário Adjunto de Estado dos EUA para Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico.

No final deste mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem agendada uma visita à China para uma importante cúpula com o líder chinês Xi Jinping, a primeira de até quatro reuniões entre os dois líderes em 2026. A cúpula planejada, com duração de três dias, ocorre logo após as discussões que os líderes mantiveram em outubro de 2025, à margem do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em Busan, Coreia do Sul, onde chegaram a uma trégua frágil para acalmar as crescentes tensões econômicas na relação sino-americana. Trump e Xi concordaram em suspender, por um ano, muitas das medidas drásticas que seus países haviam imposto ou ameaçado impor um ao outro nos meses anteriores. Os Estados Unidos recuaram da ameaça de tarifas altíssimas e suspenderam uma grande expansão da lista de empresas chinesas no Departamento de Comércio dos EUA, que limita seu acesso a negócios americanos por motivos de segurança nacional ou política externa. A China, por sua vez, reverteu sua recusa em comprar produtos agrícolas dos EUA e suspendeu as amplas restrições às exportações de minerais críticos dos quais os Estados Unidos e muitas outras economias industrializadas dependem. O acordo deixou os dois países bastante próximos do ponto de partida anterior ao início do conflito econômico no início de 2025.

Capitais estrangeiros e os mercados de ações globais receberam bem o resultado, pois a alternativa de uma escalada ainda maior teria sido muito pior. Mas as negociações deixaram intocadas questões econômicas de importância crucial — incluindo as tarifas de transbordo que os Estados Unidos ameaçaram impor aos países que importam produtos intermediários da China para uso nos produtos finais que exportam para os Estados Unidos. Também não houve acordos de longo prazo sobre as restrições às exportações de elementos de terras raras da China ou de semicondutores de alta tecnologia dos Estados Unidos. Além disso, a durabilidade da trégua está ameaçada por atritos persistentes em outras áreas da competição sino-americana, incluindo a tendência de cada país de empregar sanções econômicas como meio de coerção em questões não econômicas e de reagir com veemência sempre que tais sanções lhes são impostas.

Mas talvez o fator mais significativo que moldará os próximos encontros entre Trump e Xi seja a percepção de Pequim sobre seu próprio aparente sucesso em 2025 em responder às ameaças americanas com contra-ameaças resolutas. O processo de escalada e desescalada que levou à trégua de Busan reforçou a confiança das elites chinesas sobre o crescente poder e influência do país. Muitos especialistas chineses acreditam que Pequim, ao contrário de outras capitais sujeitas às ameaças de Trump, conseguiu encurralar Washington e que esse resultado sinalizou a chegada da China como uma potência global em pé de igualdade com os Estados Unidos. O proeminente estudioso chinês de relações internacionais, Jin Canrong, declarou que o resultado da cúpula de Busan demonstrou que a China e os Estados Unidos se tornaram “grandes potências iguais”. Afinal, mesmo antes da reunião, Trump havia aumentado a autoconfiança de Pequim ao se referir nas redes sociais às iminentes negociações como uma reunião do “G-2” — um termo que as autoridades americanas evitavam usar há muito tempo porque não queriam tratar a China como uma grande potência par e porque os aliados e parceiros dos EUA temiam que tal estrutura permitisse que Pequim e Washington tomassem decisões que afetassem os interesses desses países sem a presença deles. O cientista político Zheng Yongnian escreveu que a adoção da linguagem do G-2 por Trump, pouco antes da cúpula, “reconheceu implicitamente o status global crucial da China” — em outras palavras, sua ascensão como par dos Estados Unidos. Alguns especialistas americanos também alimentaram essa percepção. Rush Doshi, ex-funcionário do governo Biden, classificou o que aconteceu em Busan como uma “demonstração inequívoca de que a China agora pode encarar os Estados Unidos como um verdadeiro par”.

Essas conclusões são exageradas. A China é, sem dúvida, uma grande potência e há muito tempo possui a capacidade de causar grandes problemas aos Estados Unidos e seus parceiros, tanto militar quanto economicamente. Essa influência só aumenta à medida que o poder militar, econômico e tecnológico da China continua a crescer — uma trajetória que deve ser levada a sério. Mas a China ainda não é um par global dos Estados Unidos. O fato de os esforços americanos para coagir a China no início de 2025 terem sido mal concebidos e, portanto, não terem produzido muitos resultados positivos, não significa que a China possa igualar os Estados Unidos em poder nacional abrangente. Qualquer percepção contrária por parte da China poderia levar Pequim a adotar políticas assertivas e potencialmente desestabilizadoras na Ásia.

AINDA NO TOPO

Os Estados Unidos desfrutam de diversas vantagens sobre a China. Entre elas, destaca-se a incomparável rede de mais de 60 aliados e parceiros de segurança de Washington, que inclui quase todas as economias avançadas do mundo. Os parceiros de segurança da China, por sua vez, são principalmente estados pária. A Rússia está debilitada por sua guerra de desgaste, em grande parte malsucedida, na Ucrânia; o Irã foi severamente enfraquecido por turbulências internas, sanções econômicas e ataques militares dos Estados Unidos e de Israel; e uma Coreia do Norte imprevisível, porém assertiva, causa mais problemas para a política externa de Pequim — especificamente suas relações com o Japão e a Coreia do Sul — do que oferece soluções para os desafios estratégicos da China.

A China modernizou suas forças armadas e desenvolveu capacidades militares notáveis ​​que poderiam ser mobilizadas em um potencial conflito no Pacífico Ocidental, mas ainda se iguala aos Estados Unidos apenas em avaliações de potencial conflito em áreas próximas na região da Ásia-Pacífico. Relatórios de exercícios militares em que as forças chinesas derrotam as forças armadas americanas, por exemplo, são sempre baseados em cenários perto de Taiwan, bem na fronteira da China, e não em Porto Rico, Groenlândia ou no Oriente Médio. Apesar de sua impressionante modernização militar, a China carece da projeção de poder convencional necessária para desafiar a supremacia americana ou de seus aliados em qualquer lugar fora de seu entorno imediato.

Em termos econômicos, também, os Estados Unidos têm mais influência sobre a China do que o contrário. A China detém o monopólio de terras raras e ingredientes farmacêuticos ativos, o que representa sérios problemas para os Estados Unidos. Mas agora que essa realidade foi trazida à atenção de todos, os formuladores de políticas em vários países sabem que devem agir para garantir que os monopólios da cadeia de suprimentos de Pequim não se tornem um ativo permanente da China. Além disso, como observou recentemente o cientista político Victor Cha na revista Foreign Affairs, a economia chinesa continua dependente de insumos industriais dos Estados Unidos e de seus aliados e parceiros regionais. Apesar dos esforços significativos para diversificar seu fornecimento de energia, Pequim ainda depende de importações marítimas do Oriente Médio, da África ou da América Latina para a maior parte de suas necessidades de petróleo. E como a demanda interna por bens manufaturados na China permanece fraca, o acesso do país aos mercados de exportação é cada vez mais importante para garantir o crescimento contínuo. O superávit comercial da China disparou para níveis históricos para qualquer país, aproximando-se de US$ 1 trilhão em 2024 e ultrapassando esse valor em 2025. É duvidoso que os mercados estrangeiros continuem absorvendo produtos chineses nesse ritmo, mas, enquanto Pequim não conseguir consolidar sua economia no consumo interno, permanecerá dependente dos mercados externos para o crescimento futuro.

Há ainda o equivalente nuclear da alavancagem econômica dos EUA: a dependência das instituições financeiras estrangeiras do acesso ao dólar americano. Na improvável, mas possível, hipótese de Washington aplicar sanções financeiras abrangentes contra os grandes bancos estatais e empresas chinesas, essas instituições teriam muita dificuldade em operar internacionalmente. Apesar das tentativas da China de se proteger contra essa vulnerabilidade por meio da internacionalização do renminbi, o dólar permanecerá a moeda de reserva mundial muito depois de o domínio chinês sobre terras raras e ingredientes farmacêuticos — sua principal arma econômica — ser quebrado. Como quase todos os países, a China ainda depende fortemente da capacidade de realizar transações financeiras em dólares americanos e provavelmente continuará dependendo por muitos anos.

DE VOLTA AO FUTURO?

As vulnerabilidades remanescentes da China não devem levar os americanos à complacência. O país tem muitas maneiras de resistir a um Estados Unidos mais poderoso. Além disso, como argumentou o especialista em relações internacionais Robert Jervis, as percepções são pelo menos tão importantes quanto a realidade na política global. A percepção entre muitas elites chinesas de que Pequim prevaleceu na escalada e subsequente desescalada do conflito econômico com Washington em 2025 provavelmente terá consequências no mundo real.

A última vez que a China demonstrou excesso de confiança em seu crescente poder foi após a crise financeira de 2008, quando sua economia sofreu menos danos e se recuperou mais rapidamente do que a dos Estados Unidos e de seus aliados e parceiros. A consequente arrogância de Pequim em sua relativa força nacional gerou uma tendência negativa em sua política externa. Como descrevi em um artigo de 2011 para a revista Foreign Affairs, a adoção de uma postura arrogante e pouco cooperativa por Pequim em 2010 em relação à Índia, ao Japão, à Coreia do Sul e aos membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) dizimou a boa vontade diplomática que havia cultivado na região desde meados da década de 1990. Ao final de 2010, a China havia conseguido alienar quase todos os seus vizinhos, com exceção da Rússia.

A política externa chinesa pode estar revisitando essa tendência negativa de excesso de confiança e assertividade. Pequim impôs sanções econômicas ao Japão devido às declarações públicas da primeira-ministra Sanae Takaichi de que o Japão poderia desempenhar um papel em um conflito no Estreito de Taiwan (embora as sanções tenham apenas aumentado a popularidade interna de Takaichi). Após Trump anunciar um pacote de US$ 11 bilhões em vendas de armas americanas para Taiwan no final de 2025, as forças armadas chinesas realizaram extensos exercícios militares e posicionaram suas tropas mais perto da ilha principal de Taiwan do que no passado. A China também intensificou sua presença militar e paramilitar em áreas disputadas do Mar da China Meridional e está construindo estruturas físicas, apesar das objeções de Seul, dentro da zona econômica exclusiva da Coreia do Sul no Mar Amarelo, que separa os dois países. Em resumo, 2026 começa a se parecer muito com 2010.

As vulnerabilidades remanescentes da China não devem levar os americanos à complacência.

O potencial para aumento das tensões nas relações sino-americanas também existe na Europa, no Oriente Médio e na América Latina. É de se esperar que Pequim, confiante, reaja com firmeza a quaisquer medidas punitivas americanas contra a China devido às suas divergências nessas regiões, inspirando-se nas consequências limitadas que enfrentou por uma escalada semelhante nos meses que antecederam o cessar-fogo de Busan. Na Europa, o aumento das tensões pode ocorrer no contexto da guerra na Ucrânia. É provável que Trump fique cada vez mais frustrado com a relutância do presidente russo, Vladimir Putin, em negociar um tratado de paz de boa-fé para pôr fim à guerra. Se Trump quisesse aumentar a pressão econômica sobre Moscou, ameaçar com sanções secundárias a China — de longe o maior apoiador econômico da Rússia — seria uma estratégia lógica. É uma via que Trump já adotou com a Índia em resposta às suas compras de petróleo russo durante a guerra.

Perigos semelhantes estão presentes no Irã, cujo maior parceiro econômico, de longe, é a China. Antes dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã na semana passada, a China ainda comprava a maior parte das exportações de petróleo iranianas, embora por meio de rotas que envolviam terceiros países, como a Malásia, o que reduzia a probabilidade de sanções americanas. Pequim não quer ver uma mudança de regime em Teerã, especialmente sob pressão estrangeira, e, portanto, provavelmente fará o possível para apoiar qualquer liderança anti-americana que surja no país após a morte do Líder Supremo Ali Khamenei. É provável que também tente fornecer ao Irã bens relacionados ao setor militar, para ajudá-lo a reconstruir parte de sua capacidade militar convencional, e aconselhar Teerã sobre a melhor forma de monitorar sua sociedade e reprimir protestos contra o regime. Agora que Trump se comprometeu militarmente com algum tipo de mudança no Irã, ele poderia muito bem usar a ameaça de tarifas ou outras sanções econômicas contra a China por seu apoio ao regime iraniano. Um Xi Jinping destemido provavelmente retaliaria as ameaças econômicas dos EUA com suas próprias medidas de escalada, incluindo potencialmente restrições à exportação de terras raras e proibições de importações agrícolas.

Na América Latina, Pequim certamente não gostou da deposição de Nicolás Maduro do poder na Venezuela pelas forças armadas dos EUA, especialmente porque ocorreu um dia após uma comitiva do Ministério das Relações Exteriores da China visitá-lo em Caracas. A China mantinha estreitas relações econômicas e diplomáticas com a Venezuela de Maduro, incluindo grandes investimentos no setor petrolífero do país. Xi Jinping provavelmente se sentiu um pouco mais tranquilo com o fato de o governo Trump ter optado por não fomentar uma revolução pró-democracia na Venezuela. Mas um problema potencial que persiste para Pequim é a ideia de que a ousada ação de Washington em Caracas possa fazer parte de um esforço mais amplo para reduzir a influência chinesa na América Latina, como sugere a Estratégia de Segurança Nacional de Trump para 2025. Já no final de fevereiro, o Departamento de Estado dos EUA havia imposto proibições de viagem a autoridades chilenas que estavam elaborando um acordo para a construção de um cabo submarino de telecomunicações entre o Chile e Hong Kong. Tais ações, se continuarem, causarão atritos ainda maiores com Pequim, que tem enormes interesses econômicos em toda a América do Sul. Nos últimos 25 anos, a China substituiu os Estados Unidos como o maior parceiro comercial da região e fez enormes investimentos em infraestrutura, incluindo o desenvolvimento de um importante porto no Peru que facilita os embarques para a Ásia.

Embora uma decisão recente da Suprema Corte impeça Trump de autorizar certas tarifas punitivas sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), ele dispõe de outras ferramentas ameaçadoras — particularmente no que diz respeito à China, que o governo dos EUA já considerou culpada por uma série de violações das normas de comércio justo e da proteção da propriedade intelectual. O governo ainda poderia aumentar as tarifas sobre um grande número de importações chinesas sob autorizações existentes do Congresso, como a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao Escritório do Representante Comercial dos EUA impor penalidades a países que considere terem violado acordos comerciais, sem um alto risco de encontrar resistência nos tribunais dos EUA.

O QUE HÁ DE ERRADO EM SER CONFIANTE?

As pressões externas sobre a trégua de 2025 não são os únicos perigos à sua durabilidade; elas apenas agravam as fragilidades do próprio acordo. Em nenhum momento das declarações oficiais sobre as reuniões de Busan houve qualquer menção à complexa questão das tarifas de transbordo que Washington ameaçou impor a países terceiros que importam bens intermediários chineses para uso em produtos finais exportados para os Estados Unidos. Os Estados Unidos exerceram pressão econômica nesse sentido sobre o México, por exemplo, após o que a Cidade do México impôs tarifas de 50% sobre suas importações da China no início de janeiro para evitar tarifas americanas mais altas. Semanas depois, Trump fez ameaças coercitivas semelhantes contra o Canadá, após este ter negociado um acordo comercial com Pequim. Se essas ameaças persistirem, uma China mais confiante poderá retaliar contra os países que cederem à pressão americana, ou contra os próprios Estados Unidos. Essas contramedidas, cuja possibilidade não foi abordada pela trégua de Busan, poderiam facilmente reacender as tensões econômicas que a trégua havia temporariamente atenuado.

Problemas também podem surgir em relação às terras raras e ao fentanil. Embora Pequim tenha concordado em retomar as exportações de terras raras e endurecer as restrições à exportação de precursores de fentanil como parte do acordo de Busan, os dois países não especificaram prazos exatos nem critérios claros para o progresso. O governo Trump pode, portanto, ficar desapontado com o fluxo limitado de exportações de terras raras ou com o fluxo contínuo de precursores de fentanil da China, o que poderia levar à restauração de tarifas americanas mais altas sobre as importações chinesas.

As pressões externas sobre o acordo de 2025 não são os únicos perigos à sua durabilidade.

Pequim, por sua vez, pode ficar desapontada com o fato de Washington não estar mais disposto a vender à China semicondutores de ponta e equipamentos para fabricação de semicondutores. O governo Trump pode ter aguçado o apetite de uma China excessivamente confiante ao usar semicondutores como moeda de troca em negociações comerciais anteriores. No início de 2025, o governo Trump restringiu as exportações para a China dos chips H20 da Nvidia, que a empresa havia projetado especialmente para o mercado chinês a fim de cumprir as restrições de segurança nacional impostas anteriormente pelo governo Biden a tecnologias de semicondutores de ponta — apenas para reverter esses controles no final de 2025, aparentemente em troca da promessa de Pequim de aumentar as exportações de ímãs de terras raras para os Estados Unidos. O governo Trump, portanto, confundiu a linha divisória entre proibições de exportação relacionadas à segurança e ferramentas econômicas para obter vantagem em negociações comerciais, como tarifas. Essa distinção tornou-se ainda mais nebulosa quando, em dezembro, concordou em vender um número limitado de chips H200, muito mais avançados, para a China. Se Washington frustrar as expectativas de Pequim de mais concessões tecnológicas em negociações futuras, a China poderá estar muito menos disposta a implementar fielmente ou estender os compromissos sobre terras raras e fentanil que assumiu em Busan.

Por fim, a reunião em Busan não abordou as antigas divergências entre Pequim e Washington sobre Taiwan. A China já deixou claro que deseja discutir Taiwan durante a próxima cúpula. De acordo com o comunicado oficial chinês sobre a conversa telefônica de 4 de fevereiro entre Trump e Xi, o líder chinês enfatizou que Taiwan é “a questão mais importante nas relações China-EUA”. Xi pode pressionar Trump a revisar a redação da política oficial dos EUA sobre as relações entre os dois lados do Estreito de forma a minar o moral de Taiwan, e certamente o instará a limitar a venda de armas e outras formas de cooperação de segurança dos EUA com a ilha. Mas um novo e substancial compromisso de venda de armas dos EUA para Taiwan parece provável em 2026.

Além de todas as outras fontes potenciais de tensão entre EUA e China descritas acima, a venda de armas ou uma cooperação mais ampla dos EUA no fortalecimento da defesa de Taiwan poderia fornecer mais um incentivo para Pequim limitar as exportações de terras raras e reduzir a cooperação no combate às drogas. O que as duas partes alcançaram em 2025 foi um passo importante para redefinir as relações entre os EUA e a China, mas o que ficou sem solução pode comprometer os ganhos do acordo de Busan e agravar ainda mais as tensões bilaterais.

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