19 de junho de 2026

Tweedledee

Adeus Starmer?

Tariq Ali



Dada a oportunidade, os eleitores de Makerfield não hesitaram. Eles votaram para se livrar de Keir Starmer e, de quebra, deram um chute no traseiro de Nigel Farage. Com um comparecimento às urnas de pouco menos de 59% — alto para uma eleição suplementar inglesa —, o candidato do Partido Trabalhista (Labour), Andy Burnham, obteve 55% (quase 25.000 votos), em comparação com 35% do Reform (15.696 votos) e 7% (3.111 votos) do Restore, o partido apoiado pelos Tories (Conservadores) criado para estragar os planos do Reform. Burnham, um ex-parlamentar blairista, belicista da Guerra do Iraque e ex-secretário de Saúde do governo Brown — que deixou o gabinete paralelo de Corbyn para construir sua própria base política como prefeito de Greater Manchester —, foi ajudado a conquistar a cadeira de Makerfield pelo deputado em exercício, Josh Simons, ele próprio uma criatura da facção Labour Together, que primeiro mirou em Corbyn e depois promoveu Starmer. Esta facção pareceu — temporariamente — ter ido longe demais ao impor sua eminência parda, o bajulador de Epstein, Peter Mandelson, como embaixador da Grã-Bretanha na corte de Donald Trump. Mas um Burnham agradecido oferecerá a Simons e seus amigos acesso contínuo ao número 10 de Downing Street.

Não havia nada que recomendasse Starmer. Um fracasso político, ele foi colocado no cargo após a derrota de Corbyn em 2019, vindo de uma carreira jurídica — na Irlanda do Norte e no Serviço de Promotoria da Coroa (Crown Prosecution Service) — marcada pela subserviência aos que estavam no poder. Essa história sórdida foi contada em um ataque contundente e eficaz por Oliver Eagleton em The Starmer Project (2022) e, mais tarde, em detalhes minuciosos por Gabriel Pogrund e Patrick Maguire em Get In (2025) e por Paul Holden em The Fraud (2025). Nas eleições de julho de 2024, uma direita dividida — Conservadores (Tories): 24%; Reform: 14% — entregou a Starmer uma maioria com apenas 34% dos votos. Seus conselheiros, liderados por Morgan McSweeney, um protegido de Mandelson, orientaram o novo líder a bajular Farage em público e a competir com suas políticas. Isso foi feito por meio de uma oportunidade de foto na Câmara dos Comuns, quando o Primeiro-Ministro caminhou até Farage e apertou sua mão, tornando-se, assim, um estranho para muitos em seu próprio partido.

Seguiram-se expulsões da ala esquerda do Partido Trabalhista, ataques aos auxílios infantis e ao abono de combustível para pensionistas, além de uma retórica ao estilo Farage sobre imigrantes (“Ilha de Estranhos”), tudo isso embrulhado em orçamentos de austeridade. Em consonância com o governo conservador anterior, uma mulher não branca, Shabana Mahmood, foi nomeada secretária do Interior para forçar a aprovação de políticas profundamente reacionárias sobre raça e liberdades civis.

A imprensa liberal, entusiasmada com o expurgo da esquerda, apoiou Starmer com entusiasmo. E Starmer apoiou com entusiasmo o genocídio israelense desencadeado em Gaza. O primeiro-ministro trabalhista deu seu respaldo a medidas israelenses como o corte de água, eletricidade, alimentos e medicamentos para o povo palestino. Se Starmer se opunha aos ataques a mulheres e crianças, ele guardou isso para si mesmo. Os aparatos de Estado e o monitoramento da RAF (Força Aérea Real) foram empregados para ajudar ativamente no genocídio. A servilidade abjeta de Starmer ao ultraconservador Board of Deputies (Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos) foi copiada fielmente pelos membros do gabinete Cooper, Lammy, Streeting e pelos mais de 100 parlamentares trabalhistas impostos aos partidos locais pela gangue de Mandelson.

Para se ter uma ideia do nível dos implantados por Mandelson: até mesmo os trabalhistas leais Robin Cook e Clare Short renunciaram ao gabinete de Blair quando este levou o país à guerra no Iraque contra a vontade da maioria de seus cidadãos, respaldado pelas mentiras intermináveis de seu diretor de comunicação, Alastair Campbell (e pelo latido de cães de guerra como Burnham). Nem um único parlamentar trabalhista renunciou ao governo de Starmer por causa da Palestina ou do uso de bases militares dos EUA no Reino Unido para atacar o Irã. Pelo contrário: os corbynistas expulsos — John McDonnell e cia. — se desonraram ao voltar rastejando para a bancada do Partido Trabalhista no Parlamento.

Starmer garantiu que não houvesse qualquer opção de escolha, em nenhum nível, entre os partidos de centro-extremo no parlamento — Trabalhistas, Conservadores (Tories) e Democratas Liberais (Lib Dems). Enquanto a economia britânica estagnava e a popularidade dos Trabalhistas despencava para os atuais 18%, os Verdes decolaram a partir de julho de 2025 para atingir 16% nesta primavera. Somados às esperanças passageiras em uma nova vertente corbynista, eles revelaram um eleitorado substancial à esquerda dos Trabalhistas. Após decifrarem os sinais dos grupos de discussão (focus groups), os homens de McSweeney guiaram Starmer a uma série de semi-recuos a partir do segundo semestre de 2025: abono de combustível, auxílios infantis e identidades digitais anti-imigrantes. Nada disso adiantou. Somadas à sua postura engessada e à sua incapacidade de se defender no Parlamento, suas idas e vindas só aumentaram o desprezo por Starmer no país como um todo. Ele vai cair. Há boatos de que Burnham pode lhe oferecer um cargo no gabinete. Posso recomendar o Ministério da Inverdade.

O novo rapaz do Norte se sairá melhor na economia e incomodará "os mercados"? Improvável. Ele fará alguma mudança nas políticas externa e de defesa do Reino Unido? Todos os indícios são negativos. Vale lembrar também que os partidos social-democratas estão afundando na maior parte da Europa Ocidental. O Partido Trabalhista (Labour) não está sozinho e os motivos são os mesmos: capitulação total aos mercados e às políticas dos EUA no Oriente Médio e em outros lugares. A vitória de Burnham em uma eleição suplementar no Norte da Inglaterra não deve ser interpretada de forma errada. A próxima mudança de liderança do Partido Trabalhista não pressagia nenhuma mudança real para o país ou para a sua posição no mundo.

O Juneteenth é sobre liberdade

Hoje, ao celebrarmos o Juneteenth, devemos lembrar não apenas a luta contra a escravidão, mas também a luta pela liberdade radical durante a Reconstrução — sufocada pelas forças reacionárias da propriedade e da supremacia branca.

Dale Kretz

Jacobin

Um grupo de ex-escravizados em um asilo municipal, por volta de 1900. (Coleção Bettmann / Getty Images)

“É curioso como as pessoas sempre querem saber sobre a Guerra”, refletiu Felix Haywood sobre essa fixação central da memória americana. Haywood havia nascido escravo cerca de quinze anos antes da Guerra Civil, perto de San Antonio, Texas. “A guerra não foi tão boa quanto as pessoas imaginam”, disse ele ao seu entrevistador, um membro do Federal Writer’s Project que coletava depoimentos de ex-escravos sobreviventes no final da década de 1930. “Às vezes, você nem sabia que estava acontecendo. Foi o fim dela que fez a diferença.”

O Juneteenth marca o dia — 19 de junho de 1865 — em que os escravizados do leste do Texas finalmente receberam a notícia de sua liberdade, bem como a liberdade de outros 250 mil no estado. Dois meses haviam se passado desde a rendição das forças de Robert E. Lee em Appomattox e dois anos e meio desde a Proclamação de Emancipação do presidente Abraham Lincoln, que declarou todos os escravos ainda mantidos em áreas controladas pelos Confederados “livres para sempre” e prometeu ao governo federal o reconhecimento e a manutenção de sua liberdade.

O Juneteenth é amplamente celebrado todos os anos desde que o general americano Gordon Granger fez o anúncio pela primeira vez a uma multidão de espectadores negros e brancos em Galveston, em junho de 1865. Permanece como uma das correntes mais poderosas da memória emancipacionista nos Estados Unidos — uma contra-manifestação à propaganda nociva da Causa Perdida.

Por sua própria natureza, as comemorações tendem a simplificar os eventos, a despojar-se das complexidades carregadas do passado em busca de algo mais útil, senão festivo. O Juneteenth merece ser celebrado. Mas as circunstâncias do Juneteenth original também merecem nossa plena apreciação, pois nessa história desconcertante de emancipação no Texas podemos vislumbrar contornos proféticos do próprio significado de liberdade nos Estados Unidos pós-escravidão — mas longe de serem pós-raciais.

“A aleluia se desencadeou”

O relato de Felix Haywood sobre o isolado centro-sul do Texas revela menos sobre a Guerra Civil em si do que sobre a guerra que foi a escravidão nos Estados Unidos. Ele e outros no rancho descobriram que a vida “seguia exatamente como sempre fora antes da guerra”. Trabalho, culto, açoites — tudo aplicado como de costume.

Mas a agitação da guerra no leste trans-Mississippi infiltrou-se no Texas de outras maneiras, mais sutis. De tempos em tempos, Haywood recordou, “alguém aparecia e tentava nos convencer a fugir para o Norte e sermos livres. Costumávamos rir disso”, ele riu, pois “não havia motivo para fugir para o Norte. Tudo o que tínhamos que fazer era caminhar, mas caminhar para o Sul, e seríamos livres assim que cruzássemos o Rio Grande. No México, você podia ser livre”, independentemente da cor da sua pele. Embora Haywood e sua família nunca tenham fugido para o sul, eles conheciam centenas de pessoas que o fizeram.

O Texas serviu como um farol de um tipo muito diferente. Do censo de 1860 até 19 de junho de 1865, a população escravizada do Texas quase dobrou. Durante a guerra, mais de 150.000 pessoas escravizadas foram realocadas à força para a relativa segurança do Texas, a fronteira da Confederação escravista. Arrancados dos estados vizinhos de Arkansas, Louisiana e Mississippi, entre outros, esses homens e mulheres escravizados eram a retaguarda da migração forçada em massa ocorrida nas seis décadas anteriores à Guerra Civil, uma corrente comercial que arrastou mais de um milhão de homens, mulheres e crianças escravizados para o reino do algodão do baixo vale do Mississippi.

Felix Haywood, 92 anos, c. 1937. (Biblioteca do Congresso)

À medida que a guerra se desenrolava no Sul, os proprietários de escravos fugitivos que se refugiaram com seus escravizados rumo ao oeste, para o Texas, apenas adiaram o que se tornava inevitável, já que as ações conjuntas dos escravizados e do Exército dos Estados Unidos enfraqueciam a escravidão a cada passo. Historiadores estimam que meio milhão de pessoas escravizadas fugiram de seus campos de trabalho nas plantações durante a guerra; aqueles que permaneceram se engajaram no que W. E. B. Du Bois chamou de “greve geral”.

Após ouvir o relato pouco empolgante de Haywood sobre a guerra na remota San Antonio, seu entrevistador sentiu-se compelido a perguntar como o ex-escravo sabia que “o fim da guerra havia chegado”.

“Como sabíamos?”, perguntou o liberto, incrédulo. “De repente, irrompeu um grito de aleluia... Soldados, de repente, estavam por toda parte — vindo em grupos, cruzando, caminhando e cavalgando. Todos cantavam. Estávamos todos caminhando sobre nuvens douradas.” Haywood recitou um dos hinos ouvidos naquele dia:

União para sempre,
Viva, rapazes, viva!

Embora eu possa ser pobre,
nunca serei um escravo —
Gritando o grito de guerra da liberdade.

Até aquele ponto da entrevista, o relato de Haywood sobre a Guerra Civil era distante, até mesmo desdenhoso. Mas o anúncio da liberdade — do Juneteenth — marcou para sempre sua memória. "Todo mundo ficou eufórico", exclamou ele de repente. "Todos nos sentíamos heróis, e ninguém nos havia feito assim, a não ser nós mesmos. Éramos livres. Assim, de repente." Imediatamente, os antigos escravos do Texas "começaram a se movimentar. Pareciam querer se aproximar da liberdade, para saber o que ela significava — como se fosse um lugar ou uma cidade."

O desembarque das forças americanas no porto de Galveston, em junho de 1865, reforçou o que os ex-escravizados já sabiam — e o que os historiadores estão apenas começando a compreender plenamente: a liberdade não dependia simplesmente de declarações, leis e emendas na distante Washington, mas da força das armas. O anúncio do Juneteenth exigiu a aplicação da lei pelos 1.800 soldados federais designados para o estado, para que a liberdade se tornasse significativa para os libertos do Texas.

O significado da liberdade

Embora os negros tivessem cultivado por muito tempo suas próprias concepções sobre o que a liberdade poderia implicar, em junho de 1865 a própria legalidade e a justificativa de seu novo status estavam longe de ser certas. Mal haviam se passado duas semanas desde a rendição da divisão do general confederado Edmund Kirby Smith em Galveston, embora os combates não tivessem desaparecido, mas sim se transformado em uma guerra de guerrilha desenfreada e terrorismo contra os negros.

Lincoln havia sido assassinado dois meses antes do anúncio do Juneteenth, sendo sucedido pela personificação do unionismo racista e reacionário, Andrew Johnson. A Décima Terceira Emenda, que aboliu formalmente a servidão involuntária, havia sido aprovada por ambas as casas do Congresso em janeiro, mas ainda estava em processo de ratificação pelos estados. Jornais no Texas previam que a escravidão sobreviveria no estado por pelo menos mais dez anos, graças à voracidade dos industriais do norte pelo algodão.

Ao entrar em cena, o anúncio oficial de 19 de junho pode não ter resolvido a questão da emancipação, mas continha as linhas gerais de uma nova ordem. A declaração do General Granger informava “o povo do Texas que, de acordo com uma proclamação do Executivo dos Estados Unidos, todos os escravos estão livres. Isso implica uma igualdade absoluta de direitos pessoais e direitos de propriedade entre antigos senhores e escravos.”

Ordem Geral nº 3 de 19 de junho de 1865, emitida pelo General Gordon Granger para fazer cumprir a Proclamação de Emancipação de 1º de janeiro de 1863, no Departamento do Texas.

Mas, à medida que o exército de libertação se transformava em um exército de ocupação — e um exército imperfeitamente dedicado a proteger os direitos e as vidas dos negros sulistas — comandantes como Granger enfatizavam que a liberdade vinha com muitas condições. “Os libertos são aconselhados a permanecerem tranquilamente em suas casas atuais e a trabalharem por um salário. Eles são informados de que não lhes será permitido se reunirem em postos militares e que não serão sustentados na ociosidade, seja lá ou em qualquer outro lugar.” Em outras palavras: trabalhem para seus antigos patrões e não se reúnam, especialmente em lugares que, para usar a expressão de Haywood, estejam “mais próximos da liberdade”.

Cumprindo a ameaça implícita da proclamação de 19 de junho, o prefeito de Galveston, com a aprovação tácita do chefe da polícia militar, prendeu refugiados e fugitivos negros e os devolveu a seus donos. Outros foram forçados a trabalhar para o exército.

“Com a proclamação da liberdade, veio uma lição prática sobre seus deveres”, relatou o Galveston Daily News em 22 de junho. “Na manhã de segunda-feira, uma guarda de soldados federais vasculhou as ruas”, reunindo todos os libertos “soltos” que conseguiam encontrar, para irem ao campo cortar lenha, tripular barcos a vapor ou auxiliar em qualquer trabalho necessário para o exército. Um pânico logo tomou conta da nova classe assim recrutada”, ironizou o repórter, “mas a agilidade dos soldados brancos e o argumento persuasivo e incisivo da baioneta os fizeram perceber sua obrigação de apoiar o governo que lhes havia concedido a liberdade.”

A nova ordem seria baseada no trabalho assalariado. Mas, devido à grave escassez de dinheiro em todo o Sul pós-Guerra Civil, muitos fazendeiros não conseguiam pagar salários; o sistema de parceria agrícola surgiu, então, como um meio-termo entre a escravidão assalariada e a escravidão propriamente dita. Os agricultores negros arrendavam suas terras de fazendeiros brancos e pagavam por elas com uma parte da colheita, geralmente de um quarto a metade.

Os empregadores tinham liberdade para rescindir os contratos por praticamente qualquer "infração", confiscando toda a colheita e expulsando a família negra de parceiros agrícolas de suas terras, expondo-os às leis de vadiagem e à perseguição do sistema de arrendamento de condenados, o que foi apropriadamente chamado de "escravidão com outro nome". Tal era o tão alardeado ideal de liberdade contratual.

O sistema de parceria agrícola surgiu como um meio-termo entre a escravidão assalariada e a escravidão propriamente dita.

Levou um tempo para que as notícias da emancipação chegassem aos texanos negros nas partes mais remotas do estado — e ainda mais tempo para que fossem assimiladas por seus senhores. Susan Merritt, escravizada no nordeste do Texas, calculou que devia ser setembro quando soube da notícia. Como Merritt recordou em sua própria entrevista durante a época da Grande Depressão, um dia, enquanto ela e outras pessoas colhiam algodão, um estranho chegou à casa a cavalo — “um homem do governo”, com um “livro grande e um monte de papéis” — e exigiu saber por que o fazendeiro não havia entregado a propriedade de seus trabalhadores. Foi desse homem — provavelmente um funcionário do Freedmen’s Bureau, uma agência federal criada para supervisionar a transição para a liberdade e as relações de mercado — que Merritt soube pela primeira vez que estava livre.

No entanto, ela e outras pessoas ainda foram obrigadas a trabalhar para seu antigo senhor por “vários meses depois disso”. As frequentes ameaças de fuzilamento de desertores sem dúvida mantiveram muitos na fazenda. A relativa impotência do Exército dos EUA e do Freedmen’s Bureau encorajou os fazendeiros. Os libertos se viram como inquilinos precários, presos a contratos de trabalho que se assemelhavam mais à servidão por dívida do que à liberdade que tanto almejavam.

À medida que o Freedmen’s Bureau começava a se estabelecer no Texas naquele outono, circularam relatos de que seus funcionários planejavam consultar fazendeiros locais treinados na “gestão” de trabalhadores negros — algo bem diferente da missão original da agência. A carta original previa a distribuição de centenas de milhares de acres de terra que haviam sido abandonados ou confiscados de fazendeiros rebeldes ao longo da guerra.

Na primavera de 1865, o Freedmen’s Bureau controlava aproximadamente 900.000 acres de “terras do governo”, o suficiente para quase 23.000 propriedades rurais para negros. Além disso, o General William Tecumseh Sherman havia emitido a Ordem de Campo nº 15 em janeiro, providenciando o loteamento de cerca de 485.000 acres para libertos nas Ilhas Costeiras e na região costeira da Carolina do Sul em lotes de 40 acres, terras nas quais o general havia ordenado que “nenhuma pessoa branca... teria permissão para residir”.

Mas a contrarrevolução chegou em outubro de 1865. O presidente Johnson revogou sumariamente a ordem de Sherman e ordenou ao chefe do Departamento de Libertos que desestatizasse as terras do governo, devolvendo-as aos fazendeiros rebeldes que Johnson havia perdoado em massa recentemente.

No Sul emancipado, portanto, a desapropriação de terras dos negros caminhou lado a lado com a imposição coercitiva de trabalho "livre". Ao mesmo tempo, capitalistas do Norte e funcionários federais conspiraram para impedir a ampla propriedade de terras por negros — justamente aquilo que os libertos consideravam, quase universalmente, a condição essencial para a liberdade em uma sociedade pós-escravidão. Um liberto de sessenta anos do Vale do Mississippi comentou com um jornalista do Norte logo após a guerra: "De que adianta ser livre se você não tem terra suficiente para ser enterrado?"

Da Reconstrução às Leis de Jim Crow

Os protestos liderados por negros durante os últimos meses de 1865 foram generalizados, embora em pequena escala e geralmente em resposta a confrontos específicos que os incitavam. Um ex-proprietário de escravos reclamou ao jornal Waco Register que, embora vários de seus colegas fazendeiros se dignassem a assinar contratos com seus novos empregados negros, ele estimava que três quartos dos libertos em sua região “aguardavam o Natal como o alvorecer do milênio, quando carne e pão chegariam como algo natural”.

Muitas famílias negras, de fato, recusaram-se a assinar os contratos abomináveis ​​para a temporada que se aproximava, aguardando a promessa de redistribuição de terras. Entre os sulistas brancos, especialmente da classe dos fazendeiros, espalharam-se rumores febris sobre uma iminente revolução nos moldes da haitiana. O medo generalizado no inverno de 1865-66 logo recebeu um nome: o Medo da Insurreição de Natal. Mas, no fim, provou ser apenas isso mesmo. Promessas quebradas, os libertos, a contragosto, assinaram contratos de trabalho.

Libertos votando em Nova Orleans (1867). (Biblioteca Pública de Nova York)

Os libertos do Texas tinham muitos motivos para temer, pois cerca de trinta e oito mil ex-confederados retornaram com sede de vingança. Além de saquear o tesouro em Austin, os rebeldes do estado confederado falido assediaram, brutalizaram e mataram libertos à vontade. Como Du Bois observou em "Reconstrução Negra", o terrorismo antigovernamental e anti-negro generalizado em todo o Sul era talvez pior no Texas. O simples fato de ser livre era motivo para retaliação branca. O Exército de ocupação dos EUA, por sua vez, não tinha capacidade nem vontade de tornar a liberdade negra significativa. De qualquer forma, o retorno à paz em 1871 e a rápida desmobilização do exército representaram um desastre para os ex-escravizados.

No crepúsculo da escravidão, portanto, um novo sistema de dependência e precariedade acolheu os libertos no Texas e em todo o Sul emancipado — vastamente diferente dos sonhos de liberdade dos antigos escravizados. Por sua vez, os senhores de escravos que se tornaram empregadores queixavam-se rotineiramente da obstinação percebida em seus trabalhadores negros — ou seja, da resistência destes em se tornarem meros instrumentos da vontade de seus patrões. Reclamavam que “o trabalho é incompatível com suas ideias de liberdade”. Ameaças e ordens vindas de cima pareciam ter pouco efeito sobre eles. Um fazendeiro, em uma carta ao Dallas Daily Herald, zombou dizendo que “eles não acreditam em nada do que lhes dizemos ou do que lemos em jornais que seja contrário às suas ideias de liberdade”. Era em parte uma questão de confiança, mas sobretudo uma questão de luta política e convicção que os mantinha em conflito com seus exploradores.

No crepúsculo da escravidão, um novo sistema de dependência e precariedade acolheu os libertos no Texas e em todo o Sul emancipado — vastamente diferente dos sonhos de liberdade dos antigos escravizados.

No crepúsculo da escravidão, um novo sistema de dependência e precariedade acolheu os libertos no Texas e em todo o Sul emancipado — vastamente diferente dos sonhos de liberdade dos antigos escravizados.
Após o fim da Reconstrução, essa grande experiência de democracia birracial, os trabalhadores negros canalizaram seus esforços de organização para várias associações, como a Aliança dos Agricultores Negros, formada no Condado de Houston, Texas, em 1886. Em seguida, veio a ascensão do Partido Populista no início da década de 1890, que dependia — especialmente nos antigos estados escravistas — da mobilização dos eleitores negros. O Texas, em particular, testemunhou um aumento do apoio negro ao Partido Populista e logo se tornou um bastião populista.

O Partido Populista era o único partido político birracial significativo que existia. Era também o único partido que atendia às necessidades de centenas de milhares de meeiros negros no Sul desfavorecido.

Nas palavras de C. Vann Woodward, o Populismo ofereceu aos negros e brancos da classe trabalhadora “um igualitarismo na miséria e na pobreza, a afinidade de uma queixa comum e de um opressor comum”. Sob uma ameaça sem precedentes, os dois partidos estabelecidos conspiraram para incitar o ódio racial e a demonização do Partido Populista até a sua destruição. E conseguiram. Em meados da década de 1890, o Partido Democrata adotou cinicamente alguns pontos da plataforma Populista, cooptou alguns de seus líderes e relegou os eleitores negros ao esquecimento eleitoral do Sul cada vez mais marginalizado.

O que o Juneteenth significa hoje

“Sabíamos que a liberdade estava ao nosso alcance”, recordou Felix Haywood no final da década de 1930, “mas não sabíamos o que viria com ela. Pensávamos que iríamos ficar ricos como os brancos. Pensávamos que seríamos mais ricos do que os brancos, porque éramos mais fortes e sabíamos trabalhar... Mas não foi assim. Logo descobrimos que a liberdade podia orgulhar as pessoas, mas não as enriquecia.”

O Juneteenth merece ser celebrado pela promessa de acabar com a escravidão, mas sua história também nos lembra da “contrarrevolução da propriedade” travada contra a revolução que foi a Guerra Civil Americana — um conflito que, em última análise, libertou quatro milhões de negros que antes eram legalmente considerados propriedade, um conflito no qual mais de 140.000 homens anteriormente escravizados se alistaram e inúmeros outros homens e mulheres negros dedicaram-se com afinco.

Celebração do Dia da Emancipação em Richmond, Virgínia, por volta de 1905. (Bibliotecas da VCU)

É comum dizer hoje em dia que a Guerra Civil está inacabada. Afinal, podemos facilmente apontar para as batalhas onipresentes em torno dos chamados monumentos da Guerra Civil (melhor compreendidos como monumentos à segregação racial que simplesmente adotam a iconografia da guerra). Mas o legado mais duradouro da Guerra Civil não é simbólico ou cultural, mas substancial e econômico. Não só o sistema de parceria agrícola prevaleceu até a década de 1960, como a formulação particular de liberdade imposta aos negros no Sul emancipado pode ser considerada um pesadelo para os vivos, para usar a expressão de Marx.

Ao longo do último ano da pandemia, líderes políticos de ambos os lados do espectro político falaram e agiram como Gordon Grangers modernos, brandindo a liberdade de trabalhar e a ameaça de que “não seremos sustentados na ociosidade”. Os parcos cheques de estímulo, que mal davam para algumas semanas de subsistência para a maioria das famílias, cumpriram essa ameaça. O mesmo aconteceu com os ataques descarados dos conservadores aos benefícios de desemprego, que eles denunciaram veementemente como desincentivos ao trabalho. Como os antigos proprietários de escravos, eles revelaram uma crença arraigada na preguiça natural da classe trabalhadora e uma oposição implacável a uma visão diferente de liberdade. Para esse fim, também, dedicaram-se à austeridade e a políticas econômicas antidistributivas, a incapacitar o Estado de bem-estar social enquanto fortaleciam o punitivo — e a usá-lo contra protestos liderados por negros por algo mais próximo da promessa de “igualdade absoluta”.

“Foi o fim que fez a diferença”, disse Felix Haywood sobre a guerra. Neste Juneteenth, vamos lembrar como a escravidão terminou e como a liberdade permaneceu — e permanece — ilusória. E que ninguém pode nos libertar, a não ser nós mesmos.

Colaborador

Dale Kretz é historiador, organizador e autor de Administering Freedom: The State of Emancipation after the Freedmen’s Bureau. Ele trabalha como representante sindical em Los Angeles.

As raízes da era dourada da austeridade americana

O projeto de lei "One Big Beautiful Bill" de Donald Trump não é apenas um ataque moderno ao SNAP e ao Medicaid — é o ressurgimento de uma estratégia de 150 anos. Das pensões da Guerra Civil aos modernos programas de assistência social, as elites políticas há muito moralizam contra a necessidade enquanto racionam o atendimento.

Dale Kretz

Jacobin

Retrato do vigésimo quarto presidente dos EUA, Grover Cleveland. (Arquivos Nacionais / Newsmakers via Getty Images)

O estado de bem-estar social americano sempre foi imperfeito porque sempre foi incompleto — condicionado à comprovação de renda em vez de universal, estigmatizado em vez de celebrado. A austeridade não é apenas uma questão de cortes orçamentários ou caprichos políticos, mas uma característica intrínseca desse sistema, que depende do cuidadoso racionamento da assistência pública.

Programas como a Previdência Social e o Medicare — frequentemente chamados de “benefícios sociais”, um termo que tecnicamente se refere à elegibilidade legal, mas que é usado com frequência para denotar excesso ou privilégio imerecido — têm se mostrado mais resilientes diante das ameaças constantes de cortes de verbas e privatização. Sua durabilidade decorre, em parte, de noções culturais sobre a suposta “dignidade” de seus beneficiários e, em parte, do grande número de americanos que dependem deles e os têm em alta consideração.

A outra vertente desse sistema de duas vias atravessa uma população igualmente numerosa, mas considerada por muitos como desigualmente merecedora: os americanos de baixa renda que dependem do Medicaid e de programas de assistência alimentar, como o Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). Esses programas são alvos de medidas de austeridade há muito tempo, não necessariamente por meio de cortes drásticos de verbas que ganham manchetes, mas por meio de erosão administrativa constante e difamação retórica. O Medicaid atualmente atende cerca de quarenta milhões de pessoas, uma fração daquelas que não podem arcar com os custos exorbitantes da assistência médica.

A recém-aprovada Lei de Orçamento Único e Abrangente (One Big Beautiful Bill Act - OBBBA) representa a mais recente e extrema manifestação dessa lógica política, projetando o habitual desprezo pelos pobres em uma escala nunca vista em décadas. Estima-se que a lei fará com que dezessete milhões de americanos percam sua cobertura de saúde pelo Medicaid e milhões percam seu auxílio-alimentação pelo SNAP (Programa de Assistência Nutricional Suplementar). Esses cortes devastadores liberam verbas para um orçamento do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) que deverá triplicar de tamanho, chegando a US$ 170 bilhões. O Escritório de Orçamento do Congresso prevê que a lei reduzirá os gastos com o Medicaid em US$ 800 bilhões e aumentará o déficit nacional para US$ 3,3 trilhões em dez anos.

Cortes a conta-gotas como punição

Por mais grosseiro que pareça, o OBBBA não vai prejudicar o Medicaid e o SNAP com algo tão direto quanto um corte de verbas. Em vez disso, o projeto de lei republicano vai expurgar os cadastros por meio do instrumento insidioso da burocracia, aumentando os já pesados ​​encargos administrativos impostos aos requerentes que se dignam a participar do programa. O resultado é o mesmo: menos participantes, menos beneficiários, um programa de combate à pobreza debilitado, miséria generalizada e uma redistribuição de recursos para os ricos.

Esses encargos vêm na forma de requisitos de elegibilidade de trabalho criativamente cruéis. Tais requisitos têm sido usados ​​há muito tempo para elevar o limite de renda na entrada de todas as agências de assistência social americanas. De fato, como foram incorporados às próprias organizações, os detratores já têm um mecanismo pré-fabricado ao seu alcance para reduzir o número de beneficiários.

O OBBBA introduzirá uma série de encargos administrativos nos programas Medicaid e SNAP. A lei exige que os indivíduos — e não os estados — apresentem solicitações de inscrição em planos subsidiados pela Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act), incluindo documentos de cidadania e renda. Ela acaba com a inscrição automática de crianças em idade escolar nos programas de merenda escolar gratuita do SNAP (Programa de Assistência Nutricional Suplementar). Ela obriga os beneficiários a comprovarem sua elegibilidade duas vezes por ano, em vez de uma. Ela impõe exigências de trabalho aos beneficiários de auxílio-alimentação considerados aptos para o trabalho, com idades entre sessenta e sessenta e quatro anos. E ela elimina o compartilhamento de informações entre as agências que coordenam a cobertura dos programas de combate à pobreza.

Estima-se que o projeto de lei fará com que 17 milhões de americanos percam sua cobertura de saúde pelo Medicaid e milhões percam sua assistência alimentar pelo SNAP.

A Lei de Benefício Único e Bonita (OBBBA) está repleta de tais fardos. Eles servem tanto para sufocar quanto para encobrir: para tornar praticamente impossível para a maioria dos beneficiários elegíveis manter seus benefícios e para obscurecer os danos resultantes, apresentando as mudanças como um esforço ético para separar os verdadeiramente merecedores e econômicos dos fraudulentos e preguiçosos.

Em vez de atacar o Medicaid ou o SNAP diretamente, o governo Trump mira em seus supostos infratores. Insiste, aliás, que a OBBBA salva esses programas para os “verdadeiramente necessitados”. Uma página oficial da Casa Branca com equívocos comuns assegura aos americanos que “não haverá cortes no Medicaid”. O projeto de lei, afirma, na verdade

protege e fortalece o Medicaid para aqueles que dependem dele — gestantes, crianças, idosos, pessoas com deficiência e famílias de baixa renda — ao mesmo tempo que elimina o desperdício, a fraude e o abuso. A Lei de Benefício Único e Bonita remove imigrantes ilegais, impõe requisitos de trabalho e protege o Medicaid para os verdadeiramente vulneráveis.

A austeridade, é claro, não é novidade. Tampouco se trata do ataque reacionário aos programas de bem-estar social do país, já fragilizados. Nem, aliás, da busca por bodes expiatórios entre minorias raciais e imigrantes como justificativa para seu desmantelamento. Mas, embora a maioria dos acadêmicos e jornalistas atribua as origens da reação política à oposição da Nova Direita à Grande Sociedade, a estratégia remonta ainda mais longe — às próprias origens do Estado de bem-estar social americano. Esse drama se desenrolou na primeira Era Dourada, sob o governo de outro presidente muito criticado, que cumpriu mandatos não consecutivos.

Do estado de guerra ao estado de bem-estar social

O moderno Estado de bem-estar social americano é convencionalmente visto como um fenômeno pós-Segunda Guerra Mundial, com importantes antecedentes na era do New Deal — sobretudo a Lei da Seguridade Social de 1935. Contudo, suas origens podem ser rastreadas até a Guerra Civil e a Reconstrução, quando o governo federal não apenas confiscou, liquidou ou nacionalizou a propriedade privada dos rebeldes e esmagou o regime escravista, mas, ao fazê-lo, expandiu sua capacidade administrativa central. Parte integrante desse projeto de construção do Estado foi o Escritório de Pensões dos EUA, que oferecia estipêndios mensais a veteranos da União elegíveis e seus dependentes.

Entre aqueles com direito a benefícios junto ao governo federal estavam os 184.000 veteranos das Tropas Coloridas dos EUA — 144.000 dos quais haviam sido escravizados — bem como seus herdeiros legítimos: viúvas, filhos órfãos, mães e pais.

Desde seus modestos começos em 1862, o sistema de pensões da Guerra Civil cresceu exponencialmente nas décadas seguintes. Em seu auge, em 1893, o país contava com quase um milhão de pensionistas inscritos. Os gastos com pensões dispararam para US$ 157 milhões em 1893 (cerca de US$ 5,6 bilhões hoje), consumindo mais de 40% do orçamento federal. Na virada do século, três quartos de todos os veteranos da União sobreviventes recebiam pensão. Em meados da década de 1910, os gastos acumulados com pensões rivalizavam com as despesas totais da Guerra Civil. Por quase vinte anos após a Guerra Civil, o sistema de pensões construído pelos republicanos funcionou como um tema tabu na política americana do pós-Reconstrução, de forma semelhante à Previdência Social de hoje. As pensões sindicais eram tão fundamentais para a identidade política dos Estados Unidos na era da Reconstrução que os legisladores republicanos santificaram os pagamentos de pensões na Décima Quarta Emenda, a carta magna da cidadania americana por direito de nascimento. (A quarta seção diz: “A validade da dívida pública dos Estados Unidos, autorizada por lei, incluindo dívidas contraídas para o pagamento de pensões e gratificações por serviços prestados na repressão de insurreições ou rebeliões, não será questionada.”)

Os candidatos a pensão eram submetidos a extensos testes de capacidade financeira, incluindo exames físicos. Eram examinados por médicos credenciados pelo governo federal, que lhes atribuíam uma classificação de invalidez. Essas classificações eram avaliadas juntamente com provas documentais — registros militares, depoimentos, etc. — e os pedidos de pensão eram negados ou concedidos em valores variáveis. Em 1890, havia mais de 119 faixas salariais fixas, classificadas de acordo com o grau de invalidez física. Os exames médicos desafiaram todos os esforços de padronização e se mostraram notoriamente inconsistentes.

Ainda assim, durante as duas décadas seguintes à guerra, os candidatos e políticos democratas raramente se opuseram publicamente ao crescente tamanho e à “generosidade” do sistema de pensões. Isso até meados da década de 1880, quando o Departamento de Pensões se tornou um foco de controvérsia política e polarizou o cenário eleitoral. A política de pensões influenciou a eleição e a destituição de presidentes americanos.

A instrumentalização do bem-estar social

Os críticos da Era Dourada em relação ao Departamento de Pensões opunham-se à expansão aparentemente imparável da agência, que, em sua visão, drenava os cofres do Tesouro e incentivava a miséria. Argumentavam que ela criava uma nação de dependentes, pervertendo a ética de trabalho de seus beneficiários e subsidiando fraudes e corrupção. O porta-voz da cruzada anti-pensões foi o democrata Grover Cleveland, presidente de 1885 a 1889 e novamente de 1893 a 1897. Cleveland fez campanha prometendo reformar o sistema de pensões para garantir sua pureza, jurando limitar estritamente os benefícios federais aos mais merecedores.

Em 1887, o Congresso aprovou a Lei de Pensões para Dependentes, que teria simplificado e expandido o sistema de pensões, concedendo uma pensão fixa a todos que tivessem trabalhado por noventa dias. Após reverenciar a importância essencial de conceder pensões a “beneficiários merecedores” — como políticos de todo o espectro político ainda fazem hoje — Cleveland reclamou amargamente em sua mensagem de veto que os soldados e famílias da União já haviam sido compensados ​​com generosos salários militares e que as listas de pensionistas atuais já estavam repletas de casos duvidosos.

A nação, insistiu ele, não podia se dar ao luxo de adicionar mais nomes à lista de beneficiários. Tal “liberalidade” para com os manifestamente indignos era, em sua visão, um insulto ao patriotismo americano, bem como um fardo para o Tesouro. Isso, argumentou o presidente, “estimularia a fraqueza e a pretensa incapacidade para o trabalho”, dando “prêmio à desonestidade e à mendacidade”.

As pensões sindicais eram tão fundamentais para a identidade política dos Estados Unidos durante a era da Reconstrução que os legisladores republicanos santificaram os pagamentos de pensões na Décima Quarta Emenda.

Durante seu primeiro mandato, Cleveland vetou centenas de projetos de lei sobre pensões — desde grandes iniciativas reformistas, como a lei de 1887, até pedidos individuais de pensões que já haviam recebido aprovação do Congresso. Além de sufocar todas as iniciativas legislativas, Cleveland nomeou um comissário para o Departamento de Pensões com o mandato de expurgar os cadastros. O comissário John C. Black expandiu a recém-criada Divisão de Exames Especiais e ordenou que seus agentes investigassem todos os pedidos de pensão em busca de indícios de ilegitimidade, a fim de incutir “um respeito saudável pelo poder do Governo nas mentes das classes criminosas”. Somente em 1887, os examinadores de Black investigaram mais de 31.000 pedidos, encaminhando os casos “suspeitos” ao Departamento de Justiça para processo criminal.

O ataque interno de Cleveland aos cadastros de pensões provocou uma resposta organizada do grupo cívico mais poderoso do país. O Grande Exército da República (GAR, na sigla em inglês), uma organização de veteranos com cerca de 400.000 membros, mobilizou-se para destituir Cleveland nas eleições de 1888, que o GAR transformou em um referendo sobre o Departamento de Pensões. Acadêmicos atribuem a eleição do republicano Benjamin Harrison, a aprovação da Lei de Pensões para Dependentes e Invalidezes de 1890 e a subsequente expansão do número de pensionistas, em grande parte, aos esforços do GAR.

Reação e retração

O aumento drástico no número de pensionistas provocou enorme oposição pública, alimentada por políticos e veículos de comunicação democratas. Ecoando a mensagem de veto de Cleveland em 1887, o New York Times alardeou que, "em vez de salvar os veteranos da humilhação da pobreza", o projeto de lei na verdade "ofereceria um grande prêmio para a pobreza profissional, e o número de indignos que receberão seus benefícios será tão grande que lançará descrédito sobre todos que compartilharem com eles". “Nada explica nossa tolerância aos gastos atuais e futuros com pensões”, bradou outro detrator, “a não ser o socialismo de um tipo extremo e perigoso”.

Cleveland surfou nessa onda de volta à Casa Branca em 1893. “As lições do paternalismo devem ser desaprendidas”, zombou ele em seu segundo discurso de posse. Embora todos os patriotas devam apoiar o governo, “suas funções não incluem o apoio ao povo” (ênfase adicionada).

Incapaz de abolir o Departamento de Pensões por completo, Cleveland trabalhou para corroê-lo por dentro. Como fizera em seu primeiro mandato, nomeou um executor como comissário do departamento e ordenou que ele reexaminasse sistematicamente as solicitações. O comissário William Lochren imediatamente reverteu uma decisão de seu antecessor que permitia que classificações de invalidez menores fossem agregadas em uma única classificação composta, em vez de considerar a classificação mais alta como a invalidez principal.

Após essa sutil, porém significativa, mudança de política, Lochren instruiu um corpo de vinte investigadores especiais a examinar as pensões concedidas sob a Lei de Invalidez de 1890. Ele também introduziu “investigações de credibilidade” destinadas a desacreditar testemunhas que depusessem sobre a invalidez de um requerente.

“Sem a contenção das investigações de exame especiais”, alertou o zeloso comissário de Cleveland em seu relatório anual de 1895, “a fraude floresceria e o profissional desonesto e o requerente desonesto liderariam de longe o sucesso no estabelecimento de pedidos de pensão”.

Tanto Donald Trump quanto Grover Cleveland empregaram a retórica da idoneidade e da eficiência, do combate à fraude e à corrupção, como justificativas para suas medidas de austeridade.

O gabinete de Lochren conduziu mais de 40.000 investigações no primeiro ano de seu mandato. O jornal The Bee, voltado para a população negra e com sede em Washington, D.C., previu que mais de 150.000 pensionistas perderiam seus benefícios devido às decisões do comissário. O The Bee também temia que, antes do término de seu mandato, Lochren promovesse uma “limpeza geral” de todos os funcionários simpáticos ao gabinete.

Teste de renda como autossabotagem

A hostilidade dogmática de Cleveland ao sistema de bem-estar social provou ser uma crítica persistente, em grande parte devido ao seu aparente compromisso com a prudência financeira e a aparente neutralidade racial. Seus esforços práticos para corroer o estado de bem-estar social estabeleceram, de forma semelhante, um modelo duradouro — um que combina elogios indiretos com destruição dissimulada.

Embora raramente fossem explicitamente visados ​​pelos críticos do Departamento de Pensões, os pensionistas negros se viram na linha de frente de todos os esforços conservadores para reformar a organização. Os requerentes negros tinham muito menos probabilidade de serem admitidos nos programas de pensão do que seus pares brancos no Norte. Uma vez admitidos, recebiam pensões menores. Os candidatos negros tinham muito mais probabilidade de serem submetidos a investigações especiais, que não raro resultavam em expulsão do cadastro, além de multas e prisão. Isso era especialmente verdadeiro durante os expurgos calculados sob a presidência de Cleveland, quando milhares de requerentes negros foram excluídos do único programa federal inclusivo nos primórdios da segregação racial.

Inúmeras razões explicam esses resultados racialmente desiguais — principalmente o teste de renda invasivo usado para determinar os níveis de invalidez e a semiprivatização dessa tarefa por meio de contratos com médicos civis. Esse arranjo frequentemente beneficiava os requerentes brancos do Norte, enquanto produzia ironias cruéis em muitos consultórios do Sul, onde ex-médicos confederados — e, em alguns casos, ex-proprietários de escravos — avaliavam a capacidade laboral de ex-escravos em nome do governo federal.

Desde o início, o Departamento de Pensões havia sido uma experiência de cidadania civil — fundamentada na propriedade e em contratos — em vez de cidadania social, fundamentada nos direitos universais conferidos pela condição de membro do Estado-nação. Assim, o regime de bem-estar social liberal que emergiu baseava-se na verificação de recursos como forma de adequar os benefícios de maneira restrita e limitar seu alcance.

Quando Cleveland deixou o cargo, amargurado e sitiado por todos os lados, um movimento popular fomentava a inquietação entre as classes agrária e industrial. O Partido Populista tornou-se o veículo político dessa indignação fundamentada, canalizando as frustrações das classes produtoras contra a classe proprietária. Pela primeira vez desde a década de 1850, o duopólio partidário enfrentava uma ameaça vinda de baixo.

As semelhanças entre Grover Cleveland e Donald Trump vão além do fato superficial de seus mandatos não serem consecutivos — ou, aliás, de suas características físicas. Ambos empregaram a retórica da dignidade e da eficiência, do combate à fraude e à corrupção, como justificativas para suas medidas de austeridade. Ambos utilizaram tropas federais para disciplinar a classe trabalhadora: Cleveland enviou o Exército dos EUA para esmagar a Greve de Pullman em Chicago, em 1894; Trump, mais de um século depois, mobilizou fuzileiros navais e unidades da Guarda Nacional federalizada para a cidade de Los Angeles — desta vez não para quebrar uma greve, mas para realizar batidas de imigração em larga escala que visavam trabalhadores indocumentados e enviaram uma mensagem intimidatória aos líderes sindicais. E ambos fizeram isso em nome do não-intervencionismo econômico e de um governo pequeno que serve apenas aos “verdadeiramente dignos”.

Programas de assistência social baseados em critérios de renda têm surgido historicamente de acordos bipartidários, mas o problema não é o acordo em si — é o equilíbrio de poder que o produz. Sem uma classe trabalhadora forte e organizada para exigir resultados justos, esses programas são concebidos para serem restritos, condicionados e vulneráveis ​​desde o início.

A ironia histórica deveria ser clara: os programas de assistência social que dependem da comprovação de renda são corroídos pela própria comprovação de renda. Isso inclui programas que fizeram imenso bem a milhões de pessoas, como o Medicaid e o SNAP. A comprovação de renda garante que os mais explorados da sociedade sejam também os mais vulneráveis ​​ao Estado. Ela oferece aos legisladores oportunistas um mecanismo pronto para reduzir os gastos com assistência social. Tudo o que eles precisam fazer é alcançar por trás do véu burocrático e girar o botão da economia sacrificial para a direita.

Nosso Estado de bem-estar social moraliza contra a necessidade. Ele não está quebrado — está funcionando exatamente como foi projetado. Compreender essa história e a maldade essencial da comprovação de renda exige uma compreensão paralela da possibilidade de um Estado de bem-estar social mais democrático e universal.

Colaborador

Dale Kretz é historiador, organizador e autor de Administering Freedom: The State of Emancipation after the Freedmen's Bureau. Ele trabalha como representante sindical em Los Angeles.

A Copa do Mundo está expondo a parceria nefasta da FIFA com o poder

A FIFA, entidade máxima do futebol, sequer defende jogadores, árbitros e torcedores que estão sendo assediados pelas autoridades americanas. Não é surpresa que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, também tenha se oferecido para ajudar a encobrir o genocídio israelense em Gaza.

Andy Storey

Jacobin

O presidente da Argentina, Javier Milei, o ex-primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, participam da reunião inaugural do "Conselho da Paz", organizado por Donald Trump em Washington, D.C., em 19 de fevereiro de 2026. (Saul Loeb / AFP via Getty Images)

A Copa do Mundo já evidenciou o quão péssimos os Estados Unidos são como coanfitriões. O principal árbitro da África, Omar Artan, da Somália, teve seu visto negado para entrar nos Estados Unidos, assim como o chefe da Autoridade Palestina do Futebol.

Os jogadores do Irã estão baseados no México, só têm permissão para entrar nos Estados Unidos nos dias das partidas e precisam sair imediatamente depois. Vários membros da delegação iraniana tiveram a entrada negada, e a cota de ingressos para os torcedores iranianos foi revogada.

Um jogador iraquiano foi detido por agentes de imigração e interrogado por sete horas na chegada. Os jogadores do Uzbequistão, África do Sul e Senegal também foram assediados e tiveram suas viagens atrasadas. Torcedores marroquinos tiveram seus vistos negados em massa sem nenhuma explicação, enquanto as taxas de rejeição de vistos para cidadãos de muitos outros países são excepcionalmente altas.

Para aqueles que conseguem o visto, os caros depósitos de "caução" muitas vezes impedem a viagem. Tudo isso se soma aos preços exorbitantes dos ingressos para os jogos e à exploração descarada nos preços do transporte nos dias das partidas, bem como de comidas e bebidas dentro dos estádios (isso se aplica especialmente aos Estados Unidos, mas os mexicanos também estão revoltados com isso).

O termo "sportswashing" refere-se à tentativa de clubes e países de usar o esporte para maquiar sua reputação. O governo Trump vai na contramão dessa tendência, não buscando suavizar sua imagem nem um pouco e ostentando orgulhosamente sua crueldade.

Como observou Dave Braneck, Donald Trump é "indiferente à construção de legitimidade global ou à dissimulação de violações de direitos humanos em seu próprio país". Apesar disso, ele é bajulado por Gianni Infantino, presidente da FIFA, a entidade máxima do futebol mundial. Mais notoriamente, Infantino presenteou Trump com um absurdo "prêmio da paz" da FIFA no ano passado (uma consolação por não ter recebido o Prêmio Nobel).

Cumplicidade

O apoio de Infantino a Trump inclui uma promessa de 75 milhões de dólares da FIFA ao Conselho de Paz do presidente para a “reconstrução” de Gaza. O dinheiro destina-se ostensivamente a apoiar infra-estruturas de futebol, incluindo um estádio com capacidade para vinte mil lugares a ser construído sobre os escombros e ossos de Gaza. O conselho de Trump é amplamente visto como um meio de facilitar a limpeza étnica dos palestinianos e como uma legitimação de facto do genocídio de Israel.

O apoio de Gianni Infantino a Donald Trump inclui uma promessa de 75 milhões de dólares da FIFA ao Conselho de Paz do presidente para a “reconstrução” de Gaza.

Evitando estas questões centrais, Infantino prefere recorrer a artifícios como tentar fazer com que os dirigentes das federações de futebol israelenses e palestinas apertem as mãos num recente congresso da FIFA – o delegado palestino não aceitou nada disso. Agora ele está tentando pressionar os jovens jogadores de futebol palestinos a jogarem contra Israel em um torneio em setembro.

A legitimação de Israel pelo futebol não se limita a Infantino e Trump. Os clubes de futebol mais ricos do mundo estão perfeitamente dispostos a fazer negócios como de costume com Israel e os seus facilitadores, alguns até policiando os seus próprios funcionários e apoiantes para servir os interesses israelitas.

Um exemplo é o Arsenal, cujos jogadores acabaram de conquistar o título da Premier League inglesa pela primeira vez em vinte e dois anos. Não se sabe se Mark Bonnick se juntou às comemorações. Bonnick, um apoiador de longa data e funcionário há vinte e dois anos, foi despedido do seu emprego como gestor de equipamento do clube na véspera de Natal de 2024, por publicações nas redes sociais que protestavam contra o genocídio de Israel em Gaza.

O Arsenal admitiu que Bonnick não era culpado de anti-semitismo (ativistas anti-racistas judeus concordaram), apesar das alegações de ativistas pró-Israel, e um inquérito oficial o inocentou de má conduta. Mas a demissão persistiu, com o Arsenal alegando que ele havia desacreditado o clube. Ele está processando por demissão sem justa causa.

O caso de Bonnick é um dos muitos destacados num relatório publicado pela instituição de caridade britânica War on Want intitulado “Red Card: English Premier League sportswashing of Israel’s atrocities against the Palestinians”. Vários clubes estão incluídos nesta acusação, com especial atenção voltada para patrocinadores corporativos de diferentes clubes (e da própria liga). Esses patrocinadores incluem grandes empresas de tecnologia e empresas de serviços financeiros que negociam com Israel e, em alguns casos, trabalham diretamente com as Forças de Defesa de Israel (IDF).

Parceiros no Crime
O relatório classifica o Liverpool (com seis de seus patrocinadores considerados cúmplices de genocídio) como o pior infrator, mas o Arsenal vem logo atrás. O clube já havia atraído críticas (inclusive de alguns de seus próprios torcedores) por seus contratos de patrocínio com os governos de Ruanda e dos Emirados Árabes Unidos (EAU), ambos culpados de repressão interna e fomento de conflitos e roubo de recursos no exterior.

As camisas do Arsenal exibem o slogan “Visite Ruanda”, embora o Estado ruandês patrocine milícias terroristas na República Democrática do Congo, que cometem violência sexual e massacres em larga escala, além de roubar recursos como ouro e coltan para enviar a Ruanda. O estádio do Arsenal leva o nome da companhia aérea Emirates, embora os EAU forneçam dinheiro e armas — em troca de ouro roubado — a uma força sudanesa culpada de crimes de guerra atrozes.

O estádio do Arsenal leva o nome da companhia aérea Emirates, embora os EAU forneçam dinheiro e armas a uma força sudanesa culpada de crimes de guerra atrozes.

Embora Ruanda esteja prestes a ser substituída como patrocinadora da camisa do Arsenal na próxima temporada, essa substituição não é nada positiva. O novo patrocinador é uma empresa israelense de recursos humanos e folha de pagamento chamada Deel, que já é "parceira" de recursos humanos do Arsenal e tem sua imagem amplamente divulgada no clube. Executivos da Deel emitiram declarações expressando forte apoio às forças armadas israelenses e forneceram pessoalmente suprimentos para militares.

A Deel é mais bem-vinda no Arsenal do que uma torcedora que usava uma camiseta com a bandeira da Palestina e teve a entrada negada no estádio em outubro de 2025, a menos que removesse a peça ofensiva. Mas ela pode se considerar sortuda em comparação com um torcedor do Brighton que foi banido do estádio do seu clube por cinco anos por usar uma camiseta semelhante.

Em contraste, Tomer Hemed, treinador da base do Brighton, postou fotos suas ao lado de soldados israelenses em Gaza com a legenda: "Animais humanos não são humanos!!! Monstros! Que morram sofrendo!". Milhares de torcedores do Brighton reclamaram com o clube sobre Hemed, mas, ao contrário de Mark Bonnick no Arsenal, ele escapou de qualquer punição.

Arsenal e Brighton estão longe de ser os únicos. O Manchester City, na verdade, pertence aos Emirados Árabes Unidos, o que significa que está ainda mais envolvido em crimes apoiados pelos Emirados Árabes Unidos no Sudão e em outros lugares. Especificamente sobre a Palestina, o presidente do Manchester City, Khaldoon Al Mubarak, juntou-se ao Conselho de Paz para Gaza, mencionado anteriormente por Trump. Fazendo-lhe companhia nesse conselho está Mohammed bin Salman, tirano saudita e presidente da empresa que detém a participação majoritária no Newcastle United.

Irlanda e Israel
Entre os patrocinadores do Manchester City está a empresa de criação de sites Wix, fundada por um ex-membro da inteligência militar israelense. A empresa enviou mensagens internas aos seus funcionários, incentivando-os a "mostrar ocidentalidade" e a destacar como os israelenses, "ao contrário dos habitantes de Gaza, se parecem e vivem como europeus ou americanos". A Wix emprega cerca de quinhentas pessoas em Dublin, na Irlanda, uma das quais, Courtney Carey, foi demitida em outubro de 2023 após chamar Israel de "estado terrorista" nas redes sociais.

A Irlanda está no centro dos debates atuais sobre se o futebol deve continuar a normalizar e legitimar Israel. Dois jogos da Liga das Nações entre Irlanda e Israel estão agendados para este outono. Uma enorme onda de oposição se formou em torno da realização dessas partidas.

O governo irlandês agora afirma que é uma questão para as autoridades do futebol, depois de ter defendido anteriormente a realização dos jogos. Em contraste, em 2022, o ministro do esporte (que ainda é ministro) escreveu para todas as organizações esportivas irlandesas, instando-as a impor um boicote à Rússia e à Bielorrússia — e pensar que a decisão deveria ser tomada pelas autoridades esportivas!

A Irlanda está no centro dos debates atuais sobre se o futebol deve continuar a normalizar e legitimar Israel.

A Associação de Futebol da Irlanda (FAI), apesar dos protestos de muitos de seus membros, insiste que os jogos contra Israel devem acontecer, caso contrário, o futebol irlandês poderá sofrer sanções financeiras e esportivas. A FAI, em vez disso, organizou a realização do jogo "em casa", marcado para Dublin, em um local em um terceiro país e com portões fechados (o jogo "fora" já estava previsto para acontecer fora de Israel).

Essa mudança de local só agrava o problema. Ela isenta o governo irlandês de responsabilidade, já que agora ele pode alegar que o jogo está fora de sua jurisdição, e priva a maioria dos irlandeses da oportunidade de realizar um protesto massivo no estádio. Mais importante ainda, os jogos ainda não terminaram, e o estado de apartheid de Israel — culpado de genocídio em Gaza, bem como de ataques crescentes e assassinos contra palestinos na Cisjordânia e contra os povos do Líbano e do Irã — continua sendo tratado como um parceiro normal e legítimo.

Cultura do Racismo
O argumento a favor de um boicote total recebe apoio específico no futebol devido à natureza racista do futebol israelense, que reflete a cultura mais ampla do próprio Estado. O Maccabi Tel Aviv FC, comandado pelo recordista de gols irlandês Robbie Keane de junho de 2023 a junho de 2024, tem torcedores que rotineiramente cantam “Deixem as Forças de Defesa de Israel vencerem, foda-se os árabes”. A Fundação Hind Rajab documenta como os torcedores do Maccabi também constroem “coreografias elaboradas no estádio, ou tifos, que apresentam insígnias militares, slogans nacionalistas e retratos gigantes de soldados”.

Entre os torcedores, há um grupo radical ligado às Forças de Defesa de Israel que busca confrontos violentos em suas viagens, incluindo atos de vandalismo em geral, bem como ataques contra palestinos e muçulmanos em Atenas e Amsterdã em 2024. Em novembro de 2023, durante a gestão de Keane no clube, o time do Maccabi assistiu a um “vídeo motivacional” de funcionários do clube que também eram reservistas do exército, disparando foguetes em Gaza. A equipe aplaudiu o espetáculo.

Dez clubes de futebol israelenses são autorizados pelo Estado a operar em territórios palestinos ocupados ilegalmente.

O Maccabi Tel Aviv nem sequer é o clube mais racista de Israel — essa duvidosa honra pertence ao Beitar Jerusalém — e as ações e atitudes dos clubes israelenses são superadas pela abordagem violenta e ilegal do governo israelense em relação às terras e jogadores palestinos. Dez clubes de futebol israelenses são autorizados pelo Estado a operar em territórios palestinos ocupados ilegalmente. Desde outubro de 2023, Israel danificou ou destruiu a maioria das instalações esportivas de Gaza e matou pelo menos 565 membros da Associação de Futebolistas Palestinos.

Para citar apenas um exemplo, Imad Abu Tima, que representou a Palestina na categoria sub-20, foi assassinado pelas Forças de Defesa de Israel em 2024, juntamente com nove membros de sua família. Em dezembro de 2023, as forças israelenses transformaram o estádio Yarmouk, em Gaza, em um campo de internação onde homens, mulheres e crianças foram despidos até ficarem apenas de roupa íntima e vendados. Alguns foram obrigados a se ajoelhar em frente a um gol, cuja rede estava adornada com a bandeira de Israel. Mais tarde, tanques e tratores israelenses destruíram o campo.

Mais do que um gesto

Os críticos podem alegar que boicotar uma partida de futebol é apenas uma demonstração política simbólica. Mas o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak disse ao seu bom amigo Jeffrey Epstein que um boicote ao futebol israelense tinha “o maior potencial para mudar o destino do país”.

Ativistas na Irlanda também gostariam de ver o Estado irlandês tomar medidas mais concretas, como a implementação efetiva de um projeto de lei há muito prometido sobre os Territórios Ocupados, que proíbe a importação de bens e serviços de assentamentos israelenses ilegais — uma versão atenuada, que exclui o comércio de serviços, parece estar prestes a se tornar lei — e a proibição do sobrevoo de armamentos destinados a Israel pelo espaço aéreo irlandês.

Gestos simbólicos de indivíduos e da sociedade civil importam, mesmo quando as grandes autoridades não estão dispostas a agir. Quando o Barcelona conquistou o último título do campeonato espanhol, o prodígio Lamine Yamal, de dezoito anos, acenou com uma bandeira palestina no desfile comemorativo em um ônibus aberto.

O gesto provocou a ira do governo israelense, com o Ministro da Defesa, Israel Katz, alegando que incitava o ódio. Ele dificilmente teria se dado ao trabalho de protestar se o gesto fosse insignificante.

Um mural de Yamal foi pintado em prédios danificados pela guerra em Gaza, mostrando que a solidariedade simbólica é notada e apreciada. Esperamos que possamos ver gestos semelhantes de solidariedade — em relação a Israel, aos direitos dos migrantes ou a outras causas — por parte de jogadores de futebol na Copa do Mundo, desafiando o autoritarismo de Trump e a cumplicidade bajuladora de Infantino.

Colaborador

Andy Storey é ex-professor de economia política na University College Dublin.

Quando um cessar-fogo é, na verdade, um impasse

O equilíbrio com o Irã é o melhor que os Estados Unidos podem conseguir

Hussein Banai


O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em Palm Beach, Flórida, dezembro de 2025
Jonathan Ernest/Reuters

Um impasse é o resultado diplomático menos desejável. Não resolve nada, não satisfaz ninguém e é considerado uma vitória apenas pela parte mais fraca, para quem a sobrevivência já é uma conquista. Mas é nessa condição que a guerra entre o Irã e os Estados Unidos se estabeleceu e, após 107 dias de hostilidades, foi formalizada por ambos os lados. Em 17 de junho, Teerã e Washington assinaram um acordo que reabre o Estreito de Ormuz e encerra o bloqueio naval americano, sem, no entanto, abordar as disputas subjacentes entre os dois países. O acordo oferece a Teerã um alívio genuíno: Washington suspenderá imediatamente as sanções ao petróleo iraniano, começará a liberar fundos iranianos congelados e se comprometerá com um pacote de reconstrução no valor de pelo menos US$ 300 bilhões. Mas todas as questões difíceis sobre o programa nuclear do Irã, seu programa de mísseis e sua rede de aliados foram adiadas para um futuro indeterminado.

Para o presidente dos EUA, Donald Trump, este não é um bom resultado. Quando Trump lançou a guerra contra o Irã no final de fevereiro, prometeu aos americanos que acabaria com o programa nuclear do país, desmantelaria sua capacidade de mísseis e talvez destruísse a própria República Islâmica. Falhou em todas as suas promessas. Na verdade, a guerra mostrou que Teerã é mais resiliente do que muitos analistas previam. O regime suportou meses de sofrimento — incluindo o assassinato de quase toda a sua cúpula — e emergiu intacto. Ao fechar o Estreito de Ormuz e disparar os preços da energia, Teerã provou até mesmo que possui uma ferramenta que pode usar para coagir outros governos, inclusive Washington. Afinal, o aumento dos preços da gasolina foi um dos fatores que levaram Trump a encerrar o conflito.

Ainda assim, este resultado não precisa ser uma derrota para os Estados Unidos. Washington obteve alguns sucessos táticos durante a guerra e cedeu relativamente pouco. No geral, o acordo representa, em grande parte, um retorno ao status quo pré-guerra. Sim, as autoridades americanas ainda precisam lidar com as aspirações nucleares, os mísseis e os grupos armados aliados do Irã. Mas os Estados Unidos conseguiram fazer isso nos últimos 20 anos sem recorrer ao conflito. Podem fazê-lo mais uma vez.

PROMETE MUITO, ENTREGA DE MENORES

Desde o momento em que começou a bombardear o Irã, os Estados Unidos se colocaram em uma posição difícil ao definir a vitória em termos maximalistas. Ao anunciar a guerra, Trump declarou que Washington não apenas eliminaria o programa nuclear iraniano, como também “destruiria seus mísseis e arrasaria sua indústria de mísseis”. As tropas americanas “aniquilariam” a marinha iraniana e “garantiriam que os grupos terroristas apoiados pelo regime não pudessem mais desestabilizar a região ou o mundo”. Ele conclamou os iranianos a irem às ruas para derrubar seu governo. Em outras palavras, o presidente estabeleceu objetivos extraordinariamente ambiciosos.

Não surpreendentemente, Trump fracassou. Os Estados Unidos e Israel eliminaram rapidamente quase todos os principais funcionários do Irã, incluindo o Líder Supremo Ali Khamenei. Mas Teerã os substituiu prontamente e continuou lutando. Washington alegou ter destruído grande parte da capacidade industrial militar do Irã. Mas Teerã intensificou seus ataques com mísseis contra bases americanas na região, contra a infraestrutura de petróleo e gás de países árabes vizinhos e contra alvos militares e civis dentro de Israel. Mais importante, as autoridades iranianas perceberam que poderiam fechar o Estreito de Ormuz, criando escassez de energia em todo o mundo e pressionando as autoridades americanas.

Por fim, Trump cedeu à realidade e firmou um cessar-fogo com o Irã. Inicialmente, as hostilidades persistiram, em vez de cessarem completamente, com Israel concentrando seus ataques em posições do Hezbollah no Líbano, desafiando a insistência de Teerã de que o cessar-fogo também se estendesse aos israelenses. Os militares americanos e a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã também atacaram esporadicamente as posições uns dos outros ao redor do Estreito de Ormuz. Durante todo esse tempo, Washington se recusou a recuar de suas exigências maximalistas como parte das negociações de paz. Logo, os Estados Unidos recorreram ao bloqueio ao Irã na esperança de forçá-lo a ceder. Mas a pressão falhou novamente e, no início de junho, a comunidade de inteligência dos EUA determinou que o regime poderia resistir indefinidamente. O governo Trump, portanto, não teve outra opção senão aceitar um acordo que pusesse fim a todos os combates para reabrir o Estreito de Ormuz.

O presidente tentou vender o novo cessar-fogo como uma vitória, argumentando que o isolamento contínuo do Irã e a crescente vulnerabilidade a ataques americanos (os Estados Unidos, de fato, enfraqueceram substancialmente as defesas iranianas) acabariam por forçar o país a se render. Mas Teerã também tem fortes argumentos para alegar vitória, e sua narrativa é mais simples e condizente com os fatos. Como os líderes iranianos corretamente apontam, o regime sobreviveu a um bombardeio de várias semanas por dois oponentes mais poderosos. Manteve centenas de quilos de urânio enriquecido e conserva a capacidade de enriquecer mais. Mais importante ainda, demonstrou que pode dominar a rota mais importante do mundo para o petróleo.

Isso não significa que o Irã se tornou repentinamente uma grande potência ou que a República Islâmica tenha superado suas inúmeras crises de legitimidade. Sua economia e infraestrutura já estavam sob forte pressão muito antes da guerra, o que levou a protestos massivos em todo o país em janeiro, que o regime só conseguiu conter por meio de brutal repressão. Agora, a situação material do país é consideravelmente pior, graças aos bombardeios dos EUA e de Israel. Contudo, a posição geopolítica do regime melhorou, mesmo com a deterioração de sua situação interna. Ao assumir o controle do Estreito de Ormuz, Teerã adquiriu uma moeda de troca que não possuía anteriormente, o que lhe confere maior poder de negociação em questões nucleares e na busca por evitar novos ataques de Washington.

ENFRENTANDO O DESAFIO

A República Islâmica é mestre na arte do impasse. Afinal, por quase 50 anos, ela se definiu, em parte, por meio de uma competição incessante com Washington. Ao fazer isso, aprendeu a tolerar a significativa pressão dos EUA. De fato, o regime tem buscado ativamente manter as relações com os Estados Unidos em um equilíbrio desconfortável, garantindo que não haja progresso excessivo (o que comprometeria o compromisso revolucionário do regime de se opor a Washington) nem tensão excessiva (o que poderia resultar em uma invasão em grande escala). Os Estados Unidos, por outro lado, nunca se sentiram tão confortáveis ​​com essas condições. Autoridades americanas há muito exigem que o Irã abandone seu programa nuclear, desmantele seu arsenal de mísseis e elimine sua rede de grupos armados aliados — nada disso é viável se os dois lados permanecerem em impasse.

Essa assimetria torna o impasse muito mais difícil de ser aceito por Washington do que por Teerã. Os Estados Unidos simplesmente não podem tolerar a dominância regional iraniana, seja ela alcançada por meio de redes xiitas no Iraque, Líbano, Síria e Iêmen, seja por meio de uma dissuasão nuclear. Mas, como os últimos meses deixaram claro, a guerra não é a maneira correta de detê-la. Em vez disso, essas preocupações exigem instrumentos diferentes e mais direcionados.

Considere os mísseis e os grupos armados aliados do Irã. Felizmente para Washington, essas questões geram forte oposição regional e as ameaças que representam podem ser controladas pelos Estados mais expostos a elas, ou seja, Israel e as monarquias do Golfo. Israel pode manter uma dissuasão crível, e as monarquias do Golfo podem reforçar suas defesas aéreas no curto prazo, enquanto buscam, a longo prazo, uma acomodação estratégica com Teerã baseada em laços econômicos e culturais. Os Estados Unidos, por sua vez, podem aumentar a assistência de segurança americana a esses países como parte de uma estratégia de contenção. Isso permitiria a Washington administrar o impasse de uma maneira que não sobrecarregue os recursos americanos e, portanto, não coloque em risco os interesses dos Estados Unidos na região.

Os Estados Unidos não podem contar com seus parceiros para gerenciar o programa nuclear iraniano. Mas dispõem de outras ferramentas para lidar com essa ameaça. Teerã talvez nunca concorde em abandonar completamente o enriquecimento de urânio, mas o governo iraniano ainda tem incentivo para firmar um acordo que imponha limites significativos ao seu programa em troca do alívio das sanções, tão necessário. Tal acordo poderia gerar resistência entre os linha-dura iranianos, que são avessos a qualquer tipo de compromisso com Washington. Mas, desde que o acordo afirme o direito soberano do regime de enriquecer urânio, os elementos mais pragmáticos do Irã poderiam apresentá-lo como uma grande concessão obtida de uma administração americana linha-dura forçada a abandonar sua exigência maximalista de que o Irã encerrasse completamente seu programa nuclear.

Os parceiros árabes do Golfo provavelmente apoiariam tal acordo. Tendo sido atacados direta e repetidamente pelo Irã em retaliação por abrigar bases americanas e tendo sofrido as consequências econômicas do fechamento do estreito, esses países têm todos os motivos para preferir um Irã contido a um Irã que entre em guerra. De fato, a maioria das monarquias do Golfo tem pressionado ativamente pela desescalada e pela busca de acordos. Mas Israel não apoiará essa iniciativa. O país vê o Irã como uma ameaça existencial que precisa ser subjugada e, portanto, tem trabalhado para impedir o sucesso das negociações de paz. As forças armadas israelenses, por exemplo, atacaram a região de Beirute em 14 de junho, justamente quando Teerã e Washington finalizavam seu acordo. O Irã, por sua vez, se preparou para retaliar até que diplomatas americanos prometeram forçar os israelenses a cessar os ataques ao Hezbollah, permitindo a conclusão do acordo. Mas Washington deve esperar mais do mesmo daqui para frente, incluindo a possibilidade de Israel tentar reacender a guerra atacando diretamente as instalações nucleares iranianas. Para evitar tal desfecho, os Estados Unidos terão que exercer a influência que possuem sobre seu aliado — por exemplo, condicionando a venda de armas, retirando a assistência de inteligência e deixando de fornecer proteção diplomática. Ao mesmo tempo, devem oferecer garantias de segurança a Israel para que o país não se sinta obrigado a atacar o Irã.

Fazer tudo isso não será fácil, e não apenas porque Washington deseja fornecer amplo apoio ao seu parceiro israelense. Há também muitas elites da política externa americana que simplesmente se recusam a admitir que os Estados Unidos não podem derrotar o Irã e, portanto, ainda tratam o impasse atual como um intervalo antes de reiniciar a guerra e alcançar uma vitória decisiva. No entanto, a realidade é que o Irã demonstrou ser capaz de resistir a pressões extremas e impor custos significativos aos Estados Unidos, mesmo quando suas capacidades ofensivas estão gravemente comprometidas. Mesmo que Washington conseguisse reunir a determinação necessária para uma invasão terrestre prolongada, esta administração em particular não possui a visão e a disciplina que tal operação exigiria. Um conflito renovado apenas consumiria as munições e os interceptores de Washington, provocaria inflação mundial e testaria a paciência dos parceiros americanos.

É, portanto, tempo de os Estados Unidos reconhecerem a verdade: estão num impasse. Deveria parar de refletir sobre como derrotar conclusivamente o Irão e começar a descobrir como gerir pacificamente uma relação complicada e conflituosa. Esse trabalho dificilmente é glamoroso; empates nunca são. Mas é a única forma de Washington poder realmente manter Teerão sob controlo e preservar o poder dos EUA no Médio Oriente.

HUSSEIN BANAI é professor associado de Estudos Internacionais na Escola Hamilton Lugar de Estudos Globais e Internacionais da Universidade de Indiana, em Bloomington, e coautor de Repúblicas do Mito: Narrativas Nacionais e o Conflito EUA-Irã.

18 de junho de 2026

Colômbia na mira de "El Tigre"

No domingo, a Colômbia decidirá entre o Pacto Histórico, de esquerda, e o candidato de extrema-direita apoiado por Donald Trump. O país é apenas o alvo mais recente da “Doutrina Donroe”, a convicção de que a América Latina pertence a Washington para governar ou arruinar.

Emilie Teresa Smith


O candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, favorito no segundo turno das eleições colombianas deste domingo, é uma figura caricaturalmente repugnante, um advogado obscuro com um pé em Miami. Donald Trump não hesitou em apoiá-lo publicamente. (Manuel Pedraza / AFP via Getty Images)

Na segunda-feira, 8 de junho, recebi notícias terríveis da minha amiga Rosa, uma jovem ativista e fundadora de três hortas comunitárias em bairros carentes da zona norte de Bogotá. Vândalos destruíram um dos seus espaços, a Horta dos Polinizadores em Suba.

Homens enfurecidos, armados com facões, pás e machados, derrubaram pés de tomateiro e abacateiro, além de bananeiras, lavanda, arruda, couve, orégano, manjericão e muitas outras hortaliças e ervas. Chorei ao ver as fotos da terra seca e marrom onde antes eu caminhava com ela e seus amigos em meio à vegetação exuberante e emaranhada.

“Eles não tiveram medo de nada”, disse Rosa (nome fictício para preservar o anonimato). “Fizeram isso em plena luz do dia.” Senti muita pena. “É como se o bandido deles já tivesse vencido”, acrescentou.

O segundo turno das eleições na Colômbia, neste domingo, levará o país a um extremo ou outro: um festival de ódio, exclusão e violência, ou a continuação de uma experiência progressista imperfeita. Após o primeiro turno, em 31 de maio, o senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico, de esquerda, obteve 9,64 milhões de votos, e o advogado Abelardo de la Espriella, um novato na política com estética neofascista, inesperadamente ultrapassou Cepeda, com 10,31 milhões de votos. A candidata em terceiro lugar, Paloma Valencia, conservadora tradicional e originalmente apoiada pelo ex-presidente de direita Álvaro Uribe, foi eliminada.

Os resultados chocaram muitos estrategistas e ativistas do Pacto. Cepeda e sua candidata a vice-presidente, a renomada líder indígena Aida Quilcué, também senadora, lideraram as pesquisas com uma margem significativa até o dia da votação. Na manhã seguinte, todos voltaram ao trabalho: ativistas trabalhistas e climáticos, líderes afrodescendentes e indígenas, feministas, pessoas LGBTQIA+ e todos os seus aliados. A questão será se os colombianos que levaram o primeiro governo de esquerda do país ao poder conseguirão garantir o futuro de seu projeto progressista.

O candidato da extrema-direita, Abelardo de la Espriella, é uma figura caricaturalmente detestável, um exibicionista midiático com dupla cidadania colombiana e americana. Há vídeos de de la Espriella se gabando de explodir gatos com fogos de artifício. Ele é conhecido por inúmeras declarações vis, misóginas e homofóbicas. Como advogado, representou figuras duvidosas conhecidas por tráfico de drogas e violência paramilitar. Viveu grande parte de sua vida adulta em Miami. Em suas redes sociais, se apresenta como El Tigre (o Tigre). Ele tem as mesmas características de muitos de seu tipo: Nayib Bukele, de El Salvador, Javier Milei, da Argentina, e Daniel Noboa, do Equador.

O candidato do Pacto, Iván Cepeda, é um homem ponderado com ares de professor de filosofia. Durante doze anos, ele foi senador no parlamento colombiano. Seu pai, Manuel Cepeda, também foi senador. Cepeda pai foi assassinado em 1994, como parte de uma campanha de assassinatos em todo o país contra políticos de esquerda que, segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, eliminou cerca de seis mil líderes e ativistas em menos de uma década. Iván Cepeda tornou-se membro fundador e o mais persistente defensor das vítimas da violência estatal durante os últimos anos da longa e amarga guerra civil. Ele próprio foi reconhecido como vítima legalmente em um processo bem-sucedido que, em 2025, levou o ex-presidente Uribe (temporariamente) à justiça. Aida Quilcué também é vítima da violência estatal. Em 2008, soldados do governo assassinaram seu marido a tiros. Seis soldados foram posteriormente condenados pelo assassinato.

O Pacto Histórico foi formado em 2021 e, um ano depois, venceu as eleições presidenciais, levando um presidente de esquerda ao poder nacional pela primeira vez. Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, mostrou-se um presidente dinâmico e enérgico, sem medo de confrontar Donald Trump e seus aliados.

Durante os quatro anos do governo Petro, houve grandes conquistas: reforma da previdência e agrária, leis que tornaram permanente a gratuidade do ensino superior, proteção de bioregiões de importância crítica, especialmente na Amazônia, e o lançamento de um sólido movimento internacional para o desinvestimento em combustíveis fósseis. Por outro lado, também houve contratempos decepcionantes: melhorias na saúde pública foram emperradas pela burocracia do Congresso, e a Colômbia continua a registrar recordes de assassinatos de defensores territoriais. A promessa de "Paz Total" de Petro permanece distante, já que remanescentes das forças guerrilheiras e muitos grupos paramilitares e de narcotráfico ainda aterrorizam o interior do país.

Unindo fileiras

O Pacto me convidou para a Colômbia para monitorar as eleições como parte da Missão Unificada de Observação Internacional. Havia grandes expectativas de que a chapa Cepeda-Quilcué vencesse no primeiro turno, ultrapassando a cláusula de barreira de 50%.

Em 29 de maio, houve um coquetel para a equipe de observadores estrangeiros no subsolo de um hotel luxuoso. Cheguei atrasado. Meu táxi avançava lentamente pelas ruas congestionadas de Bogotá, enquanto o sol se punha sobre uma cidade imperfeita e repleta de lixo. Ao chegar, me deparei com uma verdadeira seleção de figuras progressistas internacionais: um líder do Podemos espanhol; membros da Câmara dos Lordes e da Câmara dos Comuns do Reino Unido; representantes do Sinn Féin, do Parlamento Europeu e do Partido Comunista de Portugal; e esquerdistas da maior parte da América Latina e do Caribe, incluindo Argentina, Uruguai, Chile, México, República Dominicana e Brasil. Todos sabiam: esta eleição na Colômbia dizia respeito a mais do que o futuro político de um único país. A faca de Trump estava afiada, retalhando a América Latina, tratando a região mais uma vez como sua para governar ou arruinar. Ele desprezava Petro e estava determinado: a Colômbia seria dele.

O que claramente aconteceu foi uma grande manipulação e influência indevida de forças externas à Colômbia.

Na tarde de 31 de maio, ao final do dia da eleição, os membros do Pacto se aglomeraram em outro quarto de hotel, um enorme. Estavam agitados, animados. Ainda não havia números, mas foi noticiado que mais colombianos do que nunca haviam votado. Fui puxado por um dos jovens e entusiasmados voluntários do Pacto através de uma multidão inacreditável, espremido entre seguranças e uma porta, recebi uma fina pulseira de identificação e fui então liberado no salão cavernoso com todos os fiéis — para esperar.

A emissora nacional de televisão RTVC estava transmitindo ao vivo. A cada poucos minutos, um gongo baixo e sombrio soava. Os analistas faziam uma pausa e o locutor anunciava os números da última apuração. De imediato, ficou claro: Cepeda não conquistaria a presidência no primeiro turno. De la Espriella estava na frente e nunca perdeu a liderança, embora nunca tenha ultrapassado os 50%. O clima no quarto do hotel permaneceu tenso, porém mais sério, determinado a não sair de cena sem uma luta árdua.

Nosso grupo de observadores declarou que houve pouca ou nenhuma violência nas seções eleitorais (uma grande melhora). Houve cerca de seiscentos incidentes menores de intimidação — compra de votos, cortes de energia e obstrução da votação. Houve irregularidades — uso indevido de cores partidárias por parte dos eleitores — mas nenhuma fraude visível de grande porte.

Com quase todos os votos apurados, Cepeda e Quilcué apareceram diante da multidão entusiasmada. Os ânimos estavam exaltados. Cepeda discursou: “É hora de fecharmos fileiras. Temos três semanas para lutar pela Colômbia.” Aida falou: “Esta é uma luta pela Mãe Terra. Por toda a vida.” A multidão aplaudiu fervorosamente e, em seguida, saiu em fila, energizada e pronta.

Na manhã seguinte, a equipe internacional de observação se reuniu com representantes do Pacto para uma análise pós-primeiro turno. Na noite da eleição, Petro (e depois Cepeda) alegaram ter havido uma fraude massiva. Nessa reunião, essa alegação foi descartada. O que ficou claro, no entanto, foi uma grande manipulação e influência indevida de forças externas à Colômbia.

Estávamos testemunhando o desenrolar de um plano meticulosamente elaborado, com raízes profundas no governo Trump. O recém-empossado senador americano por Ohio, Bernie Moreno, nascido na Colômbia e com fortes laços com a classe conservadora e abastada, estava em campo, orquestrando a postura pública de Trump.

O Pacto havia sido vítima de uma enorme campanha de desinformação nas redes sociais e em outros meios. Os alarmistas de direita praticaram todas as táticas, repetindo velhos clichês: os comunistas estão vindo para destruir o país; eles vão acabar com seus pequenos negócios; eles são ateus. A equipe de De la Espriella, seguindo o exemplo da maestria de Bukele na manipulação, havia criado dois centros de trolls. Segundo estimativas do Pacto, mais de cem mil contas falsas foram rapidamente colocadas em operação, espalhando histórias e semeando dúvidas.

“Jogamos limpo, fizemos campanha à moda antiga”, disse o senador do Pacto, Alirio Uribe:

Tínhamos equipes em todos os departamentos, comícios em todas as principais cidades. Dezenas de milhares de voluntários, jovens, líderes comunitários, ativistas. Mas, no fim, fraquejamos. Não temos os mesmos recursos que de la Espriella. A campanha dele se baseou em ódio, violência, vulgaridade e ameaças. Nós simplesmente não vamos por esse caminho.

“A Colômbia é um país que está sentindo o impacto das políticas de Trump em tempo real”, disse Ana Cristina, ativista do Pacto. “O neoliberalismo está morto. Estamos enfrentando o neofascismo. O plano deles foi claramente delineado. Simplesmente não conseguimos acreditar.”

A Doutrina Donroe

Em 2 de junho, o presidente Trump se manifestou sobre as eleições colombianas em sua plataforma Verdade Social. “Abelardo tem meu apoio total e irrestrito”, escreveu ele. Ele não menciona Cepeda pelo nome, mas chama o oponente de Abelardo de “marxista de esquerda radical”. Trump disse que estava na equipe Tigre “por causa das tremendas realizações de [de la Espriella] na vida e por seu apoio político a mim, pessoalmente”. Mais preocupante ainda, a interferência na Colômbia faz parte de um imperialismo estadunidense renovado e revigorado nas Américas.

Em setembro de 2025, os militares dos EUA iniciaram sua campanha de explodir barcos na costa da Colômbia, no Caribe e no Pacífico. Ao mesmo tempo, Trump declarou que os cartéis de drogas seriam identificados como organizações terroristas estrangeiras. Em seguida, começou a se referir ao presidente Gustavo Petro como um “líder do narcotráfico” (assim como fez com o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela). Então, em dezembro de 2025, Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional (ESN), chamando-a de “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, ou “Doutrina Donroe”.

A interferência na Colômbia faz parte de um imperialismo estadunidense renovado e revigorado nas Américas.

A Doutrina Monroe de 1823 delineava que os Estados Unidos — ainda não a potência dominante nas Américas continentais — não interfeririam nos assuntos europeus. Em contrapartida, a Europa deixaria as Américas em paz. A primeira grande alteração à doutrina, o Corolário Roosevelt de 1904, afirma que os EUA podem interferir quando e onde quiserem, nos continentes das Américas. E foi exatamente o que fizeram: uma invasão ou ocupação aqui, uma mudança de regime secreta ali, assassinatos e treinamento de assassinos, desaparecimentos, destruição de movimentos populares e de esquerda, da Guatemala ao Chile. Em quase todos os países e regiões das Américas, os EUA têm apoiado exércitos locais e oligarcas nos últimos 120 anos.

“A política americana deve se concentrar em recrutar campeões regionais que possam ajudar a criar uma estabilidade tolerável na região, mesmo além das fronteiras desses parceiros”, afirma o novo documento da Estratégia de Segurança Nacional.

Rapidamente, o plano se transformou em ação: a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente e sua esposa; o estrangulamento de Cuba; os ataques contínuos a pequenas embarcações. Os aliados de Trump na região se sentiram encorajados: Milei na Argentina (que recebeu um “pacote de apoio financeiro” de US$ 20 bilhões de Trump), Bukele em El Salvador (que apertou ainda mais seu controle sobre a pequena nação centro-americana, enviando juristas, jornalistas e ativistas de direitos humanos para o exílio e aceitando US$ 5 milhões dos Estados Unidos para receber “hostis estrangeiros” em suas megaprisões monstruosas) e Noboa no Equador (que interveio diretamente na eleição colombiana, prometendo punir o país com tarifas caso a esquerda vencesse). Entre os políticos mais recentes — também da extrema-direita — estão José Antonio Kast, do Chile, cujo pai era membro do Partido Nazista Alemão e que defende com veemência a bandeira, até recentemente desacreditada, de Augusto Pinochet, e Honduras, onde Trump — também sem pudor — interferiu no resultado da eleição presidencial de novembro passado, garantindo a vitória de seu candidato, Nasry Asfura.

Em 7 de Março de 2026, todos estes e outros, um grupo nada surpreendente de líderes latino-americanos de extrema-direita, reuniram-se na Florida com membros da equipa Trump, incluindo o Secretário da Guerra Pete Hegseth, o Secretário de Estado Marco Rubio, e o recentemente desonrado e agora reatribuído Enviado Especial Kristi Noem. Na reunião, Trump assinou o chamado Escudo das Américas, também conhecido como Coalizão Contra-Cartel das Américas. O principal objetivo declarado do escudo: combater o tráfico de drogas. Na mira do escudo estão os governos progressistas do México, da Colômbia e do Brasil.




O que torna o objectivo antidrogas declarado do Escudo mais do que uma farsa – um verdadeiro ultraje – foi o perdão de Trump a Juan Orlando Hernández em Novembro de 2025. Hernández, o antigo presidente das Honduras, foi condenado por tráfico de mais de quatrocentas toneladas de cocaína para os Estados Unidos e sentenciado a quarenta e cinco anos de prisão. Na altura, o procurador-geral Merrick Garland disse: “Como presidente das Honduras, Juan Orlando Hernández abusou do seu poder para apoiar uma das maiores e mais violentas conspirações de tráfico de droga do mundo, e o povo das Honduras e dos Estados Unidos suportou as consequências”. Isto é o que acontece com Trump no combate ao narcoterrorismo.

Um mundo a perder

Os colombianos do Pacto e de outros países estão dando tudo de si na rodada final das eleições no domingo. Eles também estão se preparando para resistir no caso de uma mudança na sorte. Eles estiveram na oposição a maior parte de suas vidas. Pela primeira vez, eles têm muito a perder.

Minha amiga e seus associados em Suba organizaram um velório para seu jardim devastado. As pessoas trouxeram velas e poemas. "Entendo a organização para combater o crime. Para combater os traficantes. Mas quem organiza uma campanha para destruir alimentos e flores?" Rosa perguntou.

“Quem é que odeia tanto esta vida?”

Colaborador

Emilie Teresa Smith é uma escritora argentina, sacerdote anglicana e co-presidente da rede global cristã Oscar Romero (SICSAL). Ela foi militante nas Forças Armadas Rebeldes da Guatemala de 1988 a 1995.

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