Omer Bartov
The New York Review
Em algum momento do início de 1983, perto do fim do meu período como pós-graduando na Universidade de Oxford, encontrei-me com o historiador militar Michael Howard, que havia servido como oficial durante a Segunda Guerra Mundial e lutado na campanha da Itália. Enquanto eu acompanhava esse acadêmico distinto e algo reservado em direção à entrada do All Souls College — onde ele era membro do corpo docente —, ele percebeu meu desconforto ao caminhar pelo gramado impecável. Com um sorriso discreto, murmurou: "Eles atirariam em você se fizesse isso por conta própria".
Naquela altura, Howard já havia lido grande parte da minha tese de doutorado sobre os crimes de guerra cometidos pela Wehrmacht (as forças armadas alemãs) contra tropas do Exército Vermelho e civis soviéticos. Nela, utilizei documentos do exército alemão para demonstrar que unidades de combate regulares — influenciadas por uma combinação de intensa doutrinação, ordens do alto-comando, disciplina brutal e combates ferozes no front — haviam matado civis e prisioneiros de guerra em uma escala sem precedentes. A quantidade de crimes que descrevi, disse-me ele, havia causado espanto.
Howard explicou que, durante grande parte da campanha da Itália, seu batalhão havia lutado contra a mesma unidade alemã. Quando capturavam um dos oficiais alemães, convidavam-no para o refeitório e compartilhavam uma dose de conhaque antes de enviá-lo a um campo de prisioneiros de guerra. Eles esperavam o mesmo tratamento por parte dos alemães.
Fiquei surpreso ao saber que Howard, um dos mais eminentes historiadores militares de sua época, não tinha conhecimento das atrocidades ocorridas na Frente Oriental. No entanto, naquele momento, poucos estudiosos no Reino Unido ou nos Estados Unidos pareciam compreender que, na Europa, a Segunda Guerra Mundial havia sido travada como dois conflitos muito distintos. Na Europa Ocidental, os combates eram bastante convencionais, apesar da ferocidade frequente. A guerra na Europa Oriental, por outro lado, era exatamente aquilo que Adolf Hitler ordenara que seus generais realizassem: uma Vernichtungskrieg, ou guerra de aniquilação, contra inimigos considerados sub-humanos, destinados ao extermínio ou à escravidão.
Durante a guerra, americanos e europeus acompanhavam atentamente as notícias diárias que documentavam os combates na Frente Oriental — e com razão. Durante grande parte do conflito, a maior parte das forças armadas alemãs lutava no Leste, onde também sofreu suas maiores derrotas e a maioria de suas baixas. É difícil imaginar que os Aliados Ocidentais pudessem ter libertado a Europa de Hitler e de seus colaboradores sem o avanço implacável do Exército Vermelho em direção a Berlim — um esforço que cobrou um preço altíssimo: as forças armadas soviéticas perderam cerca de 11 milhões de homens e mulheres.
No entanto, mal haviam cessado os combates, quando começaram a ganhar forma memórias nacionais divergentes sobre a Frente Oriental. Na União Soviética, a guerra tornou-se um evento fundador que unia uma sociedade vasta e complexa. A memória coletiva do conflito continua a desempenhar esse papel até hoje: as comemorações oficiais enfatizavam o sacrifício e o heroísmo dos cidadãos soviéticos comuns em prol da liberdade mundial. Com o início da Guerra Fria, contudo, britânicos e americanos passaram a ver a União Soviética essencialmente como o equivalente à Alemanha Nazista — um regime totalitário substituindo outro. No início da década de 1950, a guerra passou a ser lembrada cada vez mais como uma luta das forças da democracia contra a tirania, e a "aliança profana" dos Estados Unidos com a URSS — agora uma adversária ferrenha — como um mal necessário.
A maioria das narrativas populares sobre a guerra nos Estados Unidos concentrava-se nas frentes onde o Exército americano havia atuado; a guerra no Leste, onde a maior parte da Wehrmacht foi destruída, recebia relativamente pouca atenção. Os títulos atribuídos, em 1978, a uma notável série documental de televisão (uma coprodução americano-soviética em vinte partes sobre a Frente Oriental) refletiam essas perspectivas divergentes. Codirigida pelo respeitado cineasta soviético de origem judaica Roman Karmen, narrada por Burt Lancaster e produzida em colaboração entre o americano Fred Weiner e a agência soviética Sovinfilm, a série foi lançada na Rússia como A Grande Guerra Patriótica e na Alemanha como A Guerra Inesquecível, sendo distribuída nos EUA sob o título A Guerra Desconhecida.
Mudanças significativas na memória do Holocausto também remodelaram o legado da Frente Oriental nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Para além das histórias de soldados americanos e britânicos corajosos libertando prisioneiros — geralmente não identificados — de campos de concentração, a Shoah — o genocídio nazista dos judeus — praticamente não figurava nas primeiras comemorações da "boa guerra"; a própria denominação do conflito ressaltava uma luta justa contra a tirania, sem fazer referência direta aos crimes nazistas. A partir de meados da década de 1970, e atingindo seu auge no início do século XXI, consolidou-se no Ocidente a percepção de que o Holocausto representava — nas palavras do historiador Dan Diner — o "colapso da civilização", passando a ser visto como o evento mais importante da Segunda Guerra Mundial.
Essa mudança de ênfase, por vezes, teve o efeito de isolar o assassinato sistemático dos judeus das condições históricas que o moldaram. Na memória popular, o assassinato em massa de outros grupos pelos nazistas passou para um segundo plano: as baixas soviéticas — entre 26 e 27 milhões, incluindo soldados e civis — raramente eram contabilizadas entre as vítimas do regime de Hitler (geralmente citado como seis milhões de judeus ou 11 milhões de judeus e "outros"). Além disso, ao analisarem a ideologia nazista, os historiadores ocidentais tendiam a subestimar o grau de entrelaçamento do antissemitismo tanto com o anticomunismo do regime quanto com seus planos expansionistas em direção ao Leste. Consequentemente, muitos deles minimizaram ou ignoraram a alegação — incessantemente repetida pela propaganda nazista, bem como pelo alto comando da Wehrmacht e pelos generais em campo — de que combater o "judeu-bolchevismo" era a missão fundamental da guerra.
Estudos mais recentes têm buscado corrigir algumas dessas simplificações excessivas, situando o genocídio dos judeus no contexto mais amplo das ambições geopolíticas nazistas na Frente Oriental e de sua obsessão pelo "judeu-bolchevismo".1 O esforço mais recente para retificar essa perspectiva é um estudo abrangente realizado por Jochen Hellbeck, historiador da Universidade Rutgers nascido na Alemanha. World Enemy No. 1 visa reorientar de forma decisiva a compreensão do leitor comum sobre a Segunda Guerra Mundial — bem como sobre o Holocausto — para a Frente Oriental e para a campanha anticomunista assassina que a Wehrmacht travou naquela região. A "cruzada contra o judeu-bolchevismo" dos nazistas, enfatiza Hellbeck, foi nada menos que "a força motriz do conflito". E, assim como foi a União Soviética que finalmente derrotou os exércitos de Hitler, argumenta ele, foi a guerra na URSS que se tornou "o laboratório para a política alemã de assassinato em massa".
O colapso militar da Alemanha ao final da Primeira Guerra Mundial chocou profundamente a nação. Os comandantes do exército Erich Ludendorff e Paul von Hindenburg (que foi presidente da Alemanha de 1925 a 1934) tentaram se eximir da responsabilidade por seus fracassos apontando judeus e socialistas como os líderes dos "criminosos de novembro" que, supostamente, haviam apunhalado o exército pelas costas ao provocar agitação na população alemã e incitar o derrotismo nas fileiras militares, levando ao armistício de 1918.
Esse mito, conhecido na Alemanha como Dolchstosslegende (a lenda da punhalada nas costas), circulava em meios de extrema-direita. Pouco tempo depois, foi adotado pelo então nascente Partido Nazista, que se valeu de uma forma política de antissemitismo já consolidada — a qual atribuía os sofrimentos decorrentes da rápida modernização à recente emancipação dos judeus e legitimava preconceitos seculares ao invocar um racismo "científico" que definia os judeus como uma ameaça biológica imutável. A associação entre judeus e socialistas ganhou um peso particularmente letal, pois não apenas vinculava os judeus a uma ideologia política que buscava subverter a ordem social, mas também oferecia uma explicação para a derrota do Império Alemão.
Na visão de Hitler e de seus seguidores, para garantir que a Alemanha não sofresse novamente uma punhalada nas costas, era preciso lidar com os inimigos internos antes de se voltar contra os externos: os comunistas e os judeus. A ameaça "judeu-bolchevique" tornou-se um elemento central da ideologia nazista, aparecendo nos escritos e discursos de Hitler tanto antes quanto depois de sua ascensão ao poder. A distinção entre os dois alvos nunca foi clara. Embora a Alemanha pós-1933 adotasse uma *Judenpolitik* (políticas de boicote econômico, afastamento do serviço público, definição e segregação racial, confisco de bens e emigração forçada, voltadas especificamente para os judeus), as primeiras vítimas — como argumenta o historiador alemão Peter Longerich em seu estudo de 1988 sobre o extermínio dos judeus (publicado em inglês em 2010) — foram os comunistas, os socialistas e os sindicalistas, que foram presos e assassinados em grande número. (Vale ressaltar que os comunistas judeus sofreram abusos ainda mais brutais do que seus camaradas "arianos".)
Os nazistas perseguiram severamente os judeus desde o momento em que assumiram o poder. Em 1935, promulgaram e aplicaram leis raciais discriminatórias. Em 1938, ocorreu a devastadora Kristallnacht, ou Noite dos Cristais. Posteriormente, encarceraram dezenas de milhares de judeus em campos de concentração para forçá-los a deixar o país.
Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, cerca de metade da população judaica do Reich já havia emigrado. Em seguida, os alemães invadiram a Polônia, submetendo mais dois milhões de judeus ao seu domínio. Os planos para expulsar os judeus da Polônia fracassaram, pois, àquela altura, não havia para onde eles pudessem ir; assim, os nazistas os forçaram a entrar em guetos superlotados a ponto de se tornarem armadilhas mortais.
Estudos mais recentes têm buscado corrigir algumas dessas simplificações excessivas, situando o genocídio dos judeus no contexto mais amplo das ambições geopolíticas nazistas na Frente Oriental e de sua obsessão pelo "judeu-bolchevismo".1 O esforço mais recente para retificar essa perspectiva é um estudo abrangente realizado por Jochen Hellbeck, historiador da Universidade Rutgers nascido na Alemanha. World Enemy No. 1 visa reorientar de forma decisiva a compreensão do leitor comum sobre a Segunda Guerra Mundial — bem como sobre o Holocausto — para a Frente Oriental e para a campanha anticomunista assassina que a Wehrmacht travou naquela região. A "cruzada contra o judeu-bolchevismo" dos nazistas, enfatiza Hellbeck, foi nada menos que "a força motriz do conflito". E, assim como foi a União Soviética que finalmente derrotou os exércitos de Hitler, argumenta ele, foi a guerra na URSS que se tornou "o laboratório para a política alemã de assassinato em massa".
O colapso militar da Alemanha ao final da Primeira Guerra Mundial chocou profundamente a nação. Os comandantes do exército Erich Ludendorff e Paul von Hindenburg (que foi presidente da Alemanha de 1925 a 1934) tentaram se eximir da responsabilidade por seus fracassos apontando judeus e socialistas como os líderes dos "criminosos de novembro" que, supostamente, haviam apunhalado o exército pelas costas ao provocar agitação na população alemã e incitar o derrotismo nas fileiras militares, levando ao armistício de 1918.
Esse mito, conhecido na Alemanha como Dolchstosslegende (a lenda da punhalada nas costas), circulava em meios de extrema-direita. Pouco tempo depois, foi adotado pelo então nascente Partido Nazista, que se valeu de uma forma política de antissemitismo já consolidada — a qual atribuía os sofrimentos decorrentes da rápida modernização à recente emancipação dos judeus e legitimava preconceitos seculares ao invocar um racismo "científico" que definia os judeus como uma ameaça biológica imutável. A associação entre judeus e socialistas ganhou um peso particularmente letal, pois não apenas vinculava os judeus a uma ideologia política que buscava subverter a ordem social, mas também oferecia uma explicação para a derrota do Império Alemão.
Na visão de Hitler e de seus seguidores, para garantir que a Alemanha não sofresse novamente uma punhalada nas costas, era preciso lidar com os inimigos internos antes de se voltar contra os externos: os comunistas e os judeus. A ameaça "judeu-bolchevique" tornou-se um elemento central da ideologia nazista, aparecendo nos escritos e discursos de Hitler tanto antes quanto depois de sua ascensão ao poder. A distinção entre os dois alvos nunca foi clara. Embora a Alemanha pós-1933 adotasse uma *Judenpolitik* (políticas de boicote econômico, afastamento do serviço público, definição e segregação racial, confisco de bens e emigração forçada, voltadas especificamente para os judeus), as primeiras vítimas — como argumenta o historiador alemão Peter Longerich em seu estudo de 1988 sobre o extermínio dos judeus (publicado em inglês em 2010) — foram os comunistas, os socialistas e os sindicalistas, que foram presos e assassinados em grande número. (Vale ressaltar que os comunistas judeus sofreram abusos ainda mais brutais do que seus camaradas "arianos".)
Os nazistas perseguiram severamente os judeus desde o momento em que assumiram o poder. Em 1935, promulgaram e aplicaram leis raciais discriminatórias. Em 1938, ocorreu a devastadora Kristallnacht, ou Noite dos Cristais. Posteriormente, encarceraram dezenas de milhares de judeus em campos de concentração para forçá-los a deixar o país.
Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, cerca de metade da população judaica do Reich já havia emigrado. Em seguida, os alemães invadiram a Polônia, submetendo mais dois milhões de judeus ao seu domínio. Os planos para expulsar os judeus da Polônia fracassaram, pois, àquela altura, não havia para onde eles pudessem ir; assim, os nazistas os forçaram a entrar em guetos superlotados a ponto de se tornarem armadilhas mortais.
Como sabemos pelos trabalhos de Christopher Browning, alguns oficiais nazistas queriam deixar os judeus encarcerados nos guetos morrerem de "causas naturais", enquanto outros preferiam colocá-los para trabalhar em prol do Reich. Estes últimos prevaleceram temporariamente; ainda assim, centenas de milhares de judeus pereceram nos guetos devido à fome e a epidemias. Contudo, nenhuma decisão havia sido tomada, até então, para assassiná-los a todos. Ainda se cogitava transferi-los para algum lugar, chegando-se a mencionar até mesmo Madagascar.
Então, em 22 de junho de 1941, mais de três milhões de soldados alemães e das forças do Eixo lançaram a Operação Barbarossa, um ataque surpresa à URSS. Sendo a maior campanha militar da história, ela confirmou que o tratado de não agressão de Josef Stalin com Hitler — o pacto Molotov-Ribbentrop, que permitiu a Hitler conquistar a Polônia e, em seguida, voltar-se para o Ocidente e derrotar a França — havia sido, para o líder soviético, uma medida conveniente, porém míope. Stalin o assinara para ganhar tempo e se preparar para a guerra. Mas a não agressão sempre fora incompatível com os princípios ideológicos centrais do nazismo, que pregava a criação de Lebensraum — "espaço vital" — para os alemães no Leste e via o bolchevismo como um inimigo mortal.
As forças de Hitler estavam determinadas a pôr essa ideologia em prática. No auge da ofensiva, no final de 1942, os alemães ocupavam cerca de um milhão de milhas quadradas de território soviético, área que abrigava mais de 40% da população soviética do pré-guerra. Naquele momento, a Wehrmacht sitiava Leningrado, onde um milhão de cidadãos acabariam morrendo, a maioria de fome. O exército alemão conduzia uma "política de fome" — conceito detalhado pelo historiador Christian Gerlach — ao confiscar alimentos e gado dos habitantes da Bielorrússia (a região mais pobre sob seu controle) para abastecer suas próprias tropas, ao mesmo tempo em que realizava operações brutais contra guerrilheiros, devastando a terra por uma geração. Deportava um grande número de civis da Ucrânia para trabalho forçado na Alemanha. E estava em processo de arrasar Stalingrado, local onde, mais tarde, sofreria sua maior derrota. Muitos cidadãos soviéticos — se não a maioria —, unidos contra um inimigo comum, deixaram de lado as lembranças da brutalidade de seu próprio regime. Hellbeck cita uma piada que circulava na Ucrânia em 1942: “O que Hitler conseguiu realizar em apenas um ano que Stalin não conseguiu em vinte e quatro? Fazer com que passássemos a gostar do domínio soviético”.
Foi algumas semanas após a invasão da URSS, no final de junho, que o assassinato em massa de judeus teve início. Quatro Einsatzgruppen (grupos operacionais) — compostos por membros da SS e policiais — avançavam na retaguarda das tropas militares; inicialmente, fuzilavam sobretudo homens judeus e, posteriormente, passavam a assassinar comunidades inteiras, desde os Estados Bálticos até a Ucrânia. Isso ocorria, por vezes, em massacres de grandes proporções, como o extermínio de mais de 23.000 judeus em Kamianets-Podilskyi, no final de agosto; de até 12.000 judeus em Stanyslaviv, em meados de outubro; e de 33.000 judeus em Babyn Yar, nos arredores de Kiev, no final de setembro. As ordens para a invasão agrupavam explicitamente bolcheviques, comissários do Exército Vermelho, guerrilheiros (partisans) e judeus, determinando que todos fossem mortos assim que avistados.
Naquela época, ainda se discutia na SS a possibilidade de, futuramente, expulsar os judeus para além do Lebensraum (espaço vital) que a Alemanha pretendia conquistar a leste dos Montes Urais. No entanto, após uma série de derrotas catastróficas, o Exército Vermelho finalmente conteve a ofensiva da Wehrmacht e lançou um contra-ataque às portas de Moscou, no início de dezembro de 1941. A partir desse momento, a Alemanha não podia mais planejar a expulsão dos milhões de judeus sob seu domínio para as profundezas da União Soviética — nem para qualquer outro lugar fora dos territórios que controlava —, uma vez que os mares estavam sob firme controle britânico e americano.
A associação nazista entre judeus e bolcheviques intensificou-se à medida que o contra-ataque soviético causava perdas devastadoras ao exército alemão. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, proferiu seu notório discurso sobre a "guerra total" em fevereiro de 1943, reiterando que o "objetivo do bolchevismo é a revolução mundial judaica" e anunciando que o país adotaria "as medidas mais radicais".
O discurso foi feito após o desastre alemão na Batalha de Stalingrado, evento que marcou o início da longa e sangrenta marcha do Exército Vermelho em direção ao Ocidente, culminando na tomada de Berlim. Na Europa e na América do Norte, costuma-se considerar o Dia D como o ponto de virada da guerra. Na realidade, foi Stalingrado. Mesmo após o desembarque dos Aliados Ocidentais na Normandia, entre junho e dezembro de 1944, a Wehrmacht perdeu dez vezes mais soldados combatendo o Exército Vermelho do que enfrentando as forças anglo-americanas na Europa Ocidental. Muito antes disso, a liderança nazista havia alertado os alemães sobre o destino que poderiam esperar em caso de derrota. “Atrás das divisões soviéticas que avançam rapidamente”, bradava Goebbels em seu discurso, “já vemos os esquadrões da morte judaicos e, atrás deles, a anarquia total e a fome para milhões.” A propaganda nazista havia aperfeiçoado a arte da projeção: a Wehrmacht, em retirada, adotou uma política de terra arrasada que devastou vastas extensões do território soviético. As tropas soviéticas jamais adotaram uma política de genocídio e escravização na Alemanha remotamente comparável àquela praticada pelos alemães na URSS. No entanto, brutalizadas por anos de guerra e pela ruína de sua própria terra, elas cometeram atos de violência em massa contra cidadãos alemães, especialmente estupros coletivos em escala sem precedentes.
O momento exato da decisão de executar a Solução Final — a resolução do regime nazista de assassinar todos os judeus da Europa — permanece objeto de disputa. Teria sido tomada na “euforia da vitória” sobre a URSS, no outono de 1941, como argumentou Browning? Ou teria ocorrido, como sugere Gerlach, apenas depois de Hitler declarar guerra aos EUA, na sequência do ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro — ato que lançou a Alemanha justamente no tipo de guerra mundial que, segundo a lógica do Führer, exigia o extermínio dos judeus? A Conferência de Wannsee, de 20 de janeiro de 1942 — ocasião em que altos funcionários foram informados sobre uma “solução final para a questão judaica” —, indicava de fato uma decisão recente tomada pela cúpula, ou tratava-se apenas de uma tentativa de coordenar as ações de órgãos estatais após a política já ter sido implementada? Sabe-se que a construção de campos de extermínio havia começado no outono de 1941, em território anteriormente polonês, mas há indícios de que esses campos pudessem ter sido concebidos originalmente apenas para resolver “problemas” locais relacionados a grandes populações de judeus.
Em uma reunião no verão de 1941, Hitler instruiu Heinrich Himmler a tratar os judeus "como guerrilheiros", fazendo exatamente a analogia que constava nas ordens para a Operação Barbarossa. Tratava-se de uma mudança drástica: passava-se da perseguição violenta, do confinamento em guetos e do trabalho forçado para o extermínio sistemático de homens, mulheres e crianças. Ao final de 1941, os alemães haviam assassinado quase 100% dos judeus detidos em áreas anteriormente sob domínio soviético, e entre 15% e 25% dos judeus — em sua maioria homens — em áreas anteriormente sob domínio polonês. Como afirma Hellbeck: "O assassinato em massa de todos os judeus — jovens e idosos, homens e mulheres — começou com o assassinato dos judeus soviéticos" e, em seguida, "expandiu-se", primeiro para as "periferias ocidentais ocupadas do Estado soviético" e depois espalhando-se ainda mais para o oeste. Não podemos afirmar o que teria acontecido caso Hitler tivesse decidido não invadir seu antigo aliado, mas podemos dizer que a guerra no Leste e a crescente ferocidade do Holocausto estavam intrinsecamente ligadas.
A memória popular tende a separar o Holocausto da guerra alemã contra a União Soviética, mas, para o regime nazista, ambos eram faces de uma mesma empreitada. Em 20 de novembro de 1941, o general Erich von Manstein, comandante do 11º Exército, instruiu suas tropas dizendo que "o povo alemão trava uma batalha de vida ou morte contra o sistema bolchevique". "Essa batalha", enfatizou ele, é travada "não apenas de maneira convencional, segundo as regras da guerra europeia". As tropas deveriam compreender que "o judaísmo é o elo entre o inimigo na retaguarda e os remanescentes do Exército Vermelho e da liderança vermelha que ainda resistem". Portanto, "o sistema judaico-bolchevique deve ser erradicado de uma vez por todas".
Manstein não estava sozinho nessa postura. O general Walter von Reichenau, comandante do 6º Exército, dirigiu-se às suas tropas em 10 de outubro de 1941, lembrando-as de que "o objetivo essencial da campanha contra o sistema judaico-bolchevique é a destruição completa de seus instrumentos de poder e a erradicação da influência asiática na esfera cultural europeia". A missão das tropas, insistiu ele, deveria “ir além da tradição militar convencional e unilateral”, uma vez que, no Leste, o soldado é “portador de uma concepção racial inexorável e o vingador de todas as bestialidades cometidas contra os alemães e raças afins”. Os soldados precisavam ter “plena compreensão da necessidade de uma punição severa, porém justa, da subumanidade judaica”. De fato, como o comandante do 47º Corpo Panzer lembrou às suas tropas na véspera da invasão: “Nunca esquecemos que foi o bolchevismo que apunhalou nosso exército pelas costas durante a [Primeira] Guerra Mundial e que carrega a culpa por todas as desgraças que nosso povo sofreu”. Agora, como disse às suas tropas o general Erich Hoepner, comandante do Grupo Panzer 4, chegara o momento de empreender “a defesa da cultura europeia contra a onda moscovita-asiática, o rechaço do bolchevismo judaico”.
Essas citações provêm de documentos alemães que utilizei em minha dissertação e que foram posteriormente publicados em meu livro Hitler’s Army, lançado há trinta e cinco anos. O que era novidade na época tornou-se um fato histórico aceito nas duas décadas seguintes. Contudo, a historiografia acadêmica é uma coisa, e a percepção pública, outra; a conexão entre a guerra da Alemanha no Leste e o desencadeamento do Holocausto permanece desconhecida em grande parte do Ocidente.
O conhecimento sobre a guerra, enquanto ela acontecia, dependia naturalmente do local onde se vivia. O genocídio dos judeus permaneceu oculto nas páginas secundárias dos jornais e raramente era mencionado nos cinejornais, mesmo depois que a informação se tornou amplamente disponível. Isso ocorreu até mesmo com a imprensa em língua hebraica na Palestina.
No período imediatamente posterior à Grande Guerra Patriótica, escreve Hellbeck, os cidadãos soviéticos “tiveram acesso a informações mais detalhadas sobre o assassinato em massa de judeus pelos alemães do que o público em qualquer outro lugar do mundo”. Mas as autoridades soviéticas sempre se mostraram ambivalentes em relação a destacar que a fúria genocida dos nazistas contra os judeus excedia sua brutalidade contra outros grupos sob sua ocupação. (“Em nenhum momento durante a guerra”, segundo Hellbeck, “o genocídio dos judeus foi manchete nacional na mídia soviética.”) Embora os líderes soviéticos tenham incluído o Holocausto na categoria geral de tragédia soviética, muitos judeus soviéticos reagiram a esse apagamento do genocídio recuperando sua identidade judaica, inclusive demonstrando maior simpatia pelo sionismo e pelo recém-criado Estado de Israel. Milhares de pessoas, por exemplo, aplaudiram Golda Meir, a primeira embaixadora de Israel na União Soviética, durante sua visita à Sinagoga Coral de Moscou no Rosh Hashaná de 1948. O Stalin, já idoso e cada vez mais paranoico, reagiu com suspeita vingativa, empreendendo uma campanha antissemita que só foi interrompida com sua morte em 1953.
Nas décadas imediatamente posteriores à guerra, as representações ocidentais da Segunda Guerra Mundial, em filmes, documentários e romances populares, apresentavam duas características marcantes. A primeira era a glorificação de heróis nacionais e a demonização do inimigo. (Filmes e obras de ficção populares da Alemanha Ocidental, por exemplo, frequentemente retratavam soldados alemães como jovens inocentes vítimas de alguns nazistas cruéis que os enviavam para morrer em uma guerra que nunca quiseram lutar.) A segunda era a estrita separação entre a guerra e o Holocausto. Os primeiros documentários sobre os horrores dos campos de concentração nazistas, como Noite e Neblina (1956), de Alain Resnais, retratavam um “universo concentracionista” isolado, para usar a expressão do sobrevivente francês David Rousset, cujos prisioneiros eram um grupo internacional de combatentes da resistência, e não judeus. Na verdade, enquanto os primeiros eram deportados pelo que faziam, os últimos eram encarcerados por quem eram e sofriam uma taxa de mortalidade muito maior.
Talvez a partir de A Guerra Contra os Judeus, de Lucy Dawidowicz — um best-seller de 1975 que apresentou o Holocausto como o principal objetivo dos nazistas, predeterminado anos antes de ocorrer — essa separação começou a ruir.² O genocídio dos judeus logo assumiu um lugar mais central na compreensão popular da guerra, especialmente após a exibição da minissérie Holocausto, da NBC, em 1978, que chocou o público — tanto nos EUA quanto na Alemanha — ao enfatizar que tanto as vítimas quanto os perpetradores eram vizinhos e famílias comuns. Nessa representação, o contexto político do genocídio — as fantasias nazistas de conquista mundial e sua brutal campanha contra o inimigo no leste — desapareceu de vista, e logo a violência do Holocausto passou a ser vista como singularmente motivada pelo ódio racial, um evento único que não se comparava a nenhum outro massacre na história. Uma visão popular se consolidou, especialmente entre judeus israelenses e americanos, de que o Holocausto só poderia ser explicado como o ápice de séculos de antissemitismo, aquele “ódio mais antigo”, como o historiador Robert Wistrich o chamou em seu livro homônimo de 1991. Muitos estudiosos rejeitaram essa explicação posteriormente, considerando-a simplista e a-histórica, mas em diversos contextos públicos ela permanece tão firmemente estabelecida que qualquer outra interpretação parece escandalosa, senão antissemita.
Ao mesmo tempo, historiadores revisionistas recentes que veem a “aliança profana” com a URSS como um grave erro dos Aliados Ocidentais — por exemplo, Sean McMeekin em A Guerra de Stalin (2021) — tendem a ter suas próprias razões para minimizar a contribuição soviética para o fim do Holocausto: afinal, se admitirmos que o Exército Vermelho foi essencial para derrotar os nazistas e libertar os campos de concentração, também teríamos que admitir que, ao rejeitar uma aliança com Stalin, os Aliados teriam concordado com o genocídio. Felizmente, nas últimas quatro décadas, as tendências historiográficas têm se movido na direção oposta. Livros como Stalingrado: O Cerco Fatídico, 1942-1943, de Antony Beevor (1998), e Um Mundo em Armas: Uma História Global da Segunda Guerra Mundial, de Gerhard Weinberg (1994), ajudaram gradualmente a convencer os leitores com inclinação histórica a reconhecer o sacrifício da União Soviética e a centralidade do Exército Vermelho na vitória da guerra, embora a Frente Ocidental ainda ocupe um lugar de maior destaque no imaginário popular.
Mesmo na Alemanha, onde a Frente Oriental era considerada "a guerra inesquecível", as tentativas de associar o Holocausto aos demais crimes da Wehrmacht enfrentaram grandes obstáculos e resistência. Em 1985, a *Historikerstreit* (controvérsia dos historiadores) colocou em confronto acadêmicos conservadores alemães, como Ernst Nolte — que argumentava que a única diferença entre os crimes soviéticos e os nazistas residia na invenção alemã das câmaras de gás —, e liberais como o filósofo Jürgen Habermas, que rejeitava a tentativa de relativizar o Holocausto e de retratar os crimes nazistas meramente como respostas ou imitações daqueles cometidos pelos soviéticos. Os alemães também persistiam na crença de que, embora a SS e a Gestapo fossem responsáveis pelo Holocausto, a Wehrmacht havia agido de forma honrosa, sobretudo ao defender o Reich da ofensiva bolchevique. Em 1999, a exposição itinerante "Crimes da Wehrmacht" — visitada por quase um milhão de alemães e austríacos nos quatro anos anteriores — foi encerrada em meio a uma onda de indignação pública, após se constatar que algumas das mais de mil fotografias exibidas estavam com legendas incorretas, apresentando crimes soviéticos como se fossem crimes do exército alemão. De fato, associar o Holocausto à guerra no Leste continua sendo uma tarefa difícil na Alemanha; tendo aceitado a responsabilidade pela Solução Final, os alemães ainda acham extremamente difícil admitir que soldados comuns — e não apenas a Gestapo e a SS — participaram de assassinatos em massa.
Então, em 22 de junho de 1941, mais de três milhões de soldados alemães e das forças do Eixo lançaram a Operação Barbarossa, um ataque surpresa à URSS. Sendo a maior campanha militar da história, ela confirmou que o tratado de não agressão de Josef Stalin com Hitler — o pacto Molotov-Ribbentrop, que permitiu a Hitler conquistar a Polônia e, em seguida, voltar-se para o Ocidente e derrotar a França — havia sido, para o líder soviético, uma medida conveniente, porém míope. Stalin o assinara para ganhar tempo e se preparar para a guerra. Mas a não agressão sempre fora incompatível com os princípios ideológicos centrais do nazismo, que pregava a criação de Lebensraum — "espaço vital" — para os alemães no Leste e via o bolchevismo como um inimigo mortal.
As forças de Hitler estavam determinadas a pôr essa ideologia em prática. No auge da ofensiva, no final de 1942, os alemães ocupavam cerca de um milhão de milhas quadradas de território soviético, área que abrigava mais de 40% da população soviética do pré-guerra. Naquele momento, a Wehrmacht sitiava Leningrado, onde um milhão de cidadãos acabariam morrendo, a maioria de fome. O exército alemão conduzia uma "política de fome" — conceito detalhado pelo historiador Christian Gerlach — ao confiscar alimentos e gado dos habitantes da Bielorrússia (a região mais pobre sob seu controle) para abastecer suas próprias tropas, ao mesmo tempo em que realizava operações brutais contra guerrilheiros, devastando a terra por uma geração. Deportava um grande número de civis da Ucrânia para trabalho forçado na Alemanha. E estava em processo de arrasar Stalingrado, local onde, mais tarde, sofreria sua maior derrota. Muitos cidadãos soviéticos — se não a maioria —, unidos contra um inimigo comum, deixaram de lado as lembranças da brutalidade de seu próprio regime. Hellbeck cita uma piada que circulava na Ucrânia em 1942: “O que Hitler conseguiu realizar em apenas um ano que Stalin não conseguiu em vinte e quatro? Fazer com que passássemos a gostar do domínio soviético”.
Foi algumas semanas após a invasão da URSS, no final de junho, que o assassinato em massa de judeus teve início. Quatro Einsatzgruppen (grupos operacionais) — compostos por membros da SS e policiais — avançavam na retaguarda das tropas militares; inicialmente, fuzilavam sobretudo homens judeus e, posteriormente, passavam a assassinar comunidades inteiras, desde os Estados Bálticos até a Ucrânia. Isso ocorria, por vezes, em massacres de grandes proporções, como o extermínio de mais de 23.000 judeus em Kamianets-Podilskyi, no final de agosto; de até 12.000 judeus em Stanyslaviv, em meados de outubro; e de 33.000 judeus em Babyn Yar, nos arredores de Kiev, no final de setembro. As ordens para a invasão agrupavam explicitamente bolcheviques, comissários do Exército Vermelho, guerrilheiros (partisans) e judeus, determinando que todos fossem mortos assim que avistados.
Naquela época, ainda se discutia na SS a possibilidade de, futuramente, expulsar os judeus para além do Lebensraum (espaço vital) que a Alemanha pretendia conquistar a leste dos Montes Urais. No entanto, após uma série de derrotas catastróficas, o Exército Vermelho finalmente conteve a ofensiva da Wehrmacht e lançou um contra-ataque às portas de Moscou, no início de dezembro de 1941. A partir desse momento, a Alemanha não podia mais planejar a expulsão dos milhões de judeus sob seu domínio para as profundezas da União Soviética — nem para qualquer outro lugar fora dos territórios que controlava —, uma vez que os mares estavam sob firme controle britânico e americano.
A associação nazista entre judeus e bolcheviques intensificou-se à medida que o contra-ataque soviético causava perdas devastadoras ao exército alemão. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, proferiu seu notório discurso sobre a "guerra total" em fevereiro de 1943, reiterando que o "objetivo do bolchevismo é a revolução mundial judaica" e anunciando que o país adotaria "as medidas mais radicais".
O discurso foi feito após o desastre alemão na Batalha de Stalingrado, evento que marcou o início da longa e sangrenta marcha do Exército Vermelho em direção ao Ocidente, culminando na tomada de Berlim. Na Europa e na América do Norte, costuma-se considerar o Dia D como o ponto de virada da guerra. Na realidade, foi Stalingrado. Mesmo após o desembarque dos Aliados Ocidentais na Normandia, entre junho e dezembro de 1944, a Wehrmacht perdeu dez vezes mais soldados combatendo o Exército Vermelho do que enfrentando as forças anglo-americanas na Europa Ocidental. Muito antes disso, a liderança nazista havia alertado os alemães sobre o destino que poderiam esperar em caso de derrota. “Atrás das divisões soviéticas que avançam rapidamente”, bradava Goebbels em seu discurso, “já vemos os esquadrões da morte judaicos e, atrás deles, a anarquia total e a fome para milhões.” A propaganda nazista havia aperfeiçoado a arte da projeção: a Wehrmacht, em retirada, adotou uma política de terra arrasada que devastou vastas extensões do território soviético. As tropas soviéticas jamais adotaram uma política de genocídio e escravização na Alemanha remotamente comparável àquela praticada pelos alemães na URSS. No entanto, brutalizadas por anos de guerra e pela ruína de sua própria terra, elas cometeram atos de violência em massa contra cidadãos alemães, especialmente estupros coletivos em escala sem precedentes.
O momento exato da decisão de executar a Solução Final — a resolução do regime nazista de assassinar todos os judeus da Europa — permanece objeto de disputa. Teria sido tomada na “euforia da vitória” sobre a URSS, no outono de 1941, como argumentou Browning? Ou teria ocorrido, como sugere Gerlach, apenas depois de Hitler declarar guerra aos EUA, na sequência do ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro — ato que lançou a Alemanha justamente no tipo de guerra mundial que, segundo a lógica do Führer, exigia o extermínio dos judeus? A Conferência de Wannsee, de 20 de janeiro de 1942 — ocasião em que altos funcionários foram informados sobre uma “solução final para a questão judaica” —, indicava de fato uma decisão recente tomada pela cúpula, ou tratava-se apenas de uma tentativa de coordenar as ações de órgãos estatais após a política já ter sido implementada? Sabe-se que a construção de campos de extermínio havia começado no outono de 1941, em território anteriormente polonês, mas há indícios de que esses campos pudessem ter sido concebidos originalmente apenas para resolver “problemas” locais relacionados a grandes populações de judeus.
Em uma reunião no verão de 1941, Hitler instruiu Heinrich Himmler a tratar os judeus "como guerrilheiros", fazendo exatamente a analogia que constava nas ordens para a Operação Barbarossa. Tratava-se de uma mudança drástica: passava-se da perseguição violenta, do confinamento em guetos e do trabalho forçado para o extermínio sistemático de homens, mulheres e crianças. Ao final de 1941, os alemães haviam assassinado quase 100% dos judeus detidos em áreas anteriormente sob domínio soviético, e entre 15% e 25% dos judeus — em sua maioria homens — em áreas anteriormente sob domínio polonês. Como afirma Hellbeck: "O assassinato em massa de todos os judeus — jovens e idosos, homens e mulheres — começou com o assassinato dos judeus soviéticos" e, em seguida, "expandiu-se", primeiro para as "periferias ocidentais ocupadas do Estado soviético" e depois espalhando-se ainda mais para o oeste. Não podemos afirmar o que teria acontecido caso Hitler tivesse decidido não invadir seu antigo aliado, mas podemos dizer que a guerra no Leste e a crescente ferocidade do Holocausto estavam intrinsecamente ligadas.
A memória popular tende a separar o Holocausto da guerra alemã contra a União Soviética, mas, para o regime nazista, ambos eram faces de uma mesma empreitada. Em 20 de novembro de 1941, o general Erich von Manstein, comandante do 11º Exército, instruiu suas tropas dizendo que "o povo alemão trava uma batalha de vida ou morte contra o sistema bolchevique". "Essa batalha", enfatizou ele, é travada "não apenas de maneira convencional, segundo as regras da guerra europeia". As tropas deveriam compreender que "o judaísmo é o elo entre o inimigo na retaguarda e os remanescentes do Exército Vermelho e da liderança vermelha que ainda resistem". Portanto, "o sistema judaico-bolchevique deve ser erradicado de uma vez por todas".
Manstein não estava sozinho nessa postura. O general Walter von Reichenau, comandante do 6º Exército, dirigiu-se às suas tropas em 10 de outubro de 1941, lembrando-as de que "o objetivo essencial da campanha contra o sistema judaico-bolchevique é a destruição completa de seus instrumentos de poder e a erradicação da influência asiática na esfera cultural europeia". A missão das tropas, insistiu ele, deveria “ir além da tradição militar convencional e unilateral”, uma vez que, no Leste, o soldado é “portador de uma concepção racial inexorável e o vingador de todas as bestialidades cometidas contra os alemães e raças afins”. Os soldados precisavam ter “plena compreensão da necessidade de uma punição severa, porém justa, da subumanidade judaica”. De fato, como o comandante do 47º Corpo Panzer lembrou às suas tropas na véspera da invasão: “Nunca esquecemos que foi o bolchevismo que apunhalou nosso exército pelas costas durante a [Primeira] Guerra Mundial e que carrega a culpa por todas as desgraças que nosso povo sofreu”. Agora, como disse às suas tropas o general Erich Hoepner, comandante do Grupo Panzer 4, chegara o momento de empreender “a defesa da cultura europeia contra a onda moscovita-asiática, o rechaço do bolchevismo judaico”.
Essas citações provêm de documentos alemães que utilizei em minha dissertação e que foram posteriormente publicados em meu livro Hitler’s Army, lançado há trinta e cinco anos. O que era novidade na época tornou-se um fato histórico aceito nas duas décadas seguintes. Contudo, a historiografia acadêmica é uma coisa, e a percepção pública, outra; a conexão entre a guerra da Alemanha no Leste e o desencadeamento do Holocausto permanece desconhecida em grande parte do Ocidente.
O conhecimento sobre a guerra, enquanto ela acontecia, dependia naturalmente do local onde se vivia. O genocídio dos judeus permaneceu oculto nas páginas secundárias dos jornais e raramente era mencionado nos cinejornais, mesmo depois que a informação se tornou amplamente disponível. Isso ocorreu até mesmo com a imprensa em língua hebraica na Palestina.
No período imediatamente posterior à Grande Guerra Patriótica, escreve Hellbeck, os cidadãos soviéticos “tiveram acesso a informações mais detalhadas sobre o assassinato em massa de judeus pelos alemães do que o público em qualquer outro lugar do mundo”. Mas as autoridades soviéticas sempre se mostraram ambivalentes em relação a destacar que a fúria genocida dos nazistas contra os judeus excedia sua brutalidade contra outros grupos sob sua ocupação. (“Em nenhum momento durante a guerra”, segundo Hellbeck, “o genocídio dos judeus foi manchete nacional na mídia soviética.”) Embora os líderes soviéticos tenham incluído o Holocausto na categoria geral de tragédia soviética, muitos judeus soviéticos reagiram a esse apagamento do genocídio recuperando sua identidade judaica, inclusive demonstrando maior simpatia pelo sionismo e pelo recém-criado Estado de Israel. Milhares de pessoas, por exemplo, aplaudiram Golda Meir, a primeira embaixadora de Israel na União Soviética, durante sua visita à Sinagoga Coral de Moscou no Rosh Hashaná de 1948. O Stalin, já idoso e cada vez mais paranoico, reagiu com suspeita vingativa, empreendendo uma campanha antissemita que só foi interrompida com sua morte em 1953.
Nas décadas imediatamente posteriores à guerra, as representações ocidentais da Segunda Guerra Mundial, em filmes, documentários e romances populares, apresentavam duas características marcantes. A primeira era a glorificação de heróis nacionais e a demonização do inimigo. (Filmes e obras de ficção populares da Alemanha Ocidental, por exemplo, frequentemente retratavam soldados alemães como jovens inocentes vítimas de alguns nazistas cruéis que os enviavam para morrer em uma guerra que nunca quiseram lutar.) A segunda era a estrita separação entre a guerra e o Holocausto. Os primeiros documentários sobre os horrores dos campos de concentração nazistas, como Noite e Neblina (1956), de Alain Resnais, retratavam um “universo concentracionista” isolado, para usar a expressão do sobrevivente francês David Rousset, cujos prisioneiros eram um grupo internacional de combatentes da resistência, e não judeus. Na verdade, enquanto os primeiros eram deportados pelo que faziam, os últimos eram encarcerados por quem eram e sofriam uma taxa de mortalidade muito maior.
Talvez a partir de A Guerra Contra os Judeus, de Lucy Dawidowicz — um best-seller de 1975 que apresentou o Holocausto como o principal objetivo dos nazistas, predeterminado anos antes de ocorrer — essa separação começou a ruir.² O genocídio dos judeus logo assumiu um lugar mais central na compreensão popular da guerra, especialmente após a exibição da minissérie Holocausto, da NBC, em 1978, que chocou o público — tanto nos EUA quanto na Alemanha — ao enfatizar que tanto as vítimas quanto os perpetradores eram vizinhos e famílias comuns. Nessa representação, o contexto político do genocídio — as fantasias nazistas de conquista mundial e sua brutal campanha contra o inimigo no leste — desapareceu de vista, e logo a violência do Holocausto passou a ser vista como singularmente motivada pelo ódio racial, um evento único que não se comparava a nenhum outro massacre na história. Uma visão popular se consolidou, especialmente entre judeus israelenses e americanos, de que o Holocausto só poderia ser explicado como o ápice de séculos de antissemitismo, aquele “ódio mais antigo”, como o historiador Robert Wistrich o chamou em seu livro homônimo de 1991. Muitos estudiosos rejeitaram essa explicação posteriormente, considerando-a simplista e a-histórica, mas em diversos contextos públicos ela permanece tão firmemente estabelecida que qualquer outra interpretação parece escandalosa, senão antissemita.
Ao mesmo tempo, historiadores revisionistas recentes que veem a “aliança profana” com a URSS como um grave erro dos Aliados Ocidentais — por exemplo, Sean McMeekin em A Guerra de Stalin (2021) — tendem a ter suas próprias razões para minimizar a contribuição soviética para o fim do Holocausto: afinal, se admitirmos que o Exército Vermelho foi essencial para derrotar os nazistas e libertar os campos de concentração, também teríamos que admitir que, ao rejeitar uma aliança com Stalin, os Aliados teriam concordado com o genocídio. Felizmente, nas últimas quatro décadas, as tendências historiográficas têm se movido na direção oposta. Livros como Stalingrado: O Cerco Fatídico, 1942-1943, de Antony Beevor (1998), e Um Mundo em Armas: Uma História Global da Segunda Guerra Mundial, de Gerhard Weinberg (1994), ajudaram gradualmente a convencer os leitores com inclinação histórica a reconhecer o sacrifício da União Soviética e a centralidade do Exército Vermelho na vitória da guerra, embora a Frente Ocidental ainda ocupe um lugar de maior destaque no imaginário popular.
Mesmo na Alemanha, onde a Frente Oriental era considerada "a guerra inesquecível", as tentativas de associar o Holocausto aos demais crimes da Wehrmacht enfrentaram grandes obstáculos e resistência. Em 1985, a *Historikerstreit* (controvérsia dos historiadores) colocou em confronto acadêmicos conservadores alemães, como Ernst Nolte — que argumentava que a única diferença entre os crimes soviéticos e os nazistas residia na invenção alemã das câmaras de gás —, e liberais como o filósofo Jürgen Habermas, que rejeitava a tentativa de relativizar o Holocausto e de retratar os crimes nazistas meramente como respostas ou imitações daqueles cometidos pelos soviéticos. Os alemães também persistiam na crença de que, embora a SS e a Gestapo fossem responsáveis pelo Holocausto, a Wehrmacht havia agido de forma honrosa, sobretudo ao defender o Reich da ofensiva bolchevique. Em 1999, a exposição itinerante "Crimes da Wehrmacht" — visitada por quase um milhão de alemães e austríacos nos quatro anos anteriores — foi encerrada em meio a uma onda de indignação pública, após se constatar que algumas das mais de mil fotografias exibidas estavam com legendas incorretas, apresentando crimes soviéticos como se fossem crimes do exército alemão. De fato, associar o Holocausto à guerra no Leste continua sendo uma tarefa difícil na Alemanha; tendo aceitado a responsabilidade pela Solução Final, os alemães ainda acham extremamente difícil admitir que soldados comuns — e não apenas a Gestapo e a SS — participaram de assassinatos em massa.
Hellbeck, que já havia escrito sobre a Batalha de Stalingrado e a vida íntima dos cidadãos soviéticos nos primeiros anos do regime, baseia seu livro — ricamente documentado — não apenas nas fontes alemãs citadas por mim e por outros anos atrás, mas também em um vasto acervo de materiais soviéticos. Esse material inclui diretrizes políticas e militares até então desconhecidas, reportagens jornalísticas, escritos pessoais, fotografias, transcrições de entrevistas da época da guerra, centenas de cartas de soldados do Exército Vermelho e, não menos importante, uma vasta coleção de entrevistas com soldados e cidadãos soviéticos, realizadas durante a guerra sob a liderança do historiador moscovita Isaak Izrailevich Mints. O objetivo de Hellbeck é reorientar firmemente a compreensão do público em geral sobre o Holocausto, situando-o no contexto da história da guerra no Leste. A Alemanha nazista, insiste ele mais uma vez, travava uma guerra genocida contra o que imaginava ser um sistema bolchevique governado e controlado pelos judeus, cujo objetivo era a dominação mundial.
Até o início da Operação Barbarossa, argumenta ele, “a violência alemã contra os judeus manteve-se em menor escala em comparação com o assassinato em massa de poloneses étnicos”. Antes de junho de 1941, o “mau-trato aos judeus era alimentado pelo ódio racial, e não por um cálculo político; a expulsão, e não o aniquilamento, era o seu objetivo final”. Por outro lado, após a invasão, judeus e bolcheviques tornaram-se sinônimos como alvos de aniquilamento total. A resistência comunista ao nazismo na Europa ocupada — que só foi retomada depois que Hitler rompeu seu pacto com Stalin — foi igualmente associada aos judeus, assim como estes foram redefinidos, nas palavras de Hellbeck, como “inimigos político-raciais que precisavam ser destruídos”, em vez de “estranhos raciais que poderiam simplesmente ser expulsos do solo germânico”. Definir judeus como bolcheviques determinava que eles deveriam ser assassinados onde quer que fossem encontrados, mesmo que parecessem europeus totalmente assimilados, cujo mau-trato havia provocado, inicialmente, certo desconforto.
Não é de surpreender, portanto, argumenta Hellbeck, que, a partir do verão de 1941, encontremos oficiais da SS classificando invariavelmente aqueles que haviam “eliminado” como “bolcheviques, judeus e elementos antissociais”, ou como “funcionários, agentes, sabotadores e judeus”. O Holocausto, sugere ele, evoluiu e se disseminou não a partir de uma “única ordem vinda do alto em 1941”, mas sim da “violência cumulativa do ataque da Alemanha ao sistema soviético, da propaganda antibolchevique virulenta que remontava à década de 1920 e do fracasso em alcançar a vitória rápida que Hitler havia previsto”.
Hellbeck também nos lembra que a Alemanha “mirou em milhões de cidadãos soviéticos não judeus” — tipicamente referidos como “bolcheviques” —, o que levou à morte de 15 milhões de civis (dos quais 2,6 milhões eram judeus). Os planos para a colonização do pós-guerra na União Soviética, observa ele, “previam a extinção” de outras “dezenas de milhões de cidadãos soviéticos”, em grande parte pela fome. Nesse sentido, o genocídio dos judeus, o massacre de outros civis soviéticos e o assassinato de mais de três milhões de prisioneiros de guerra do Exército Vermelho foram todos consequências da mesma cosmovisão genocida.
Embora eu concorde com a maior parte do argumento de Hellbeck, algumas ressalvas se fazem necessárias. World Enemy No. 1 poderia ter reconhecido mais explicitamente que a Alemanha manteve uma aliança com a União Soviética entre 1939 e 1941, com consequências significativas para o curso da guerra; que Hitler também desejava, paralelamente, expandir-se para o Ocidente e esmagar a França, uma antiga inimiga da Alemanha; que o Generalplan Ost — destinado a criar Lebensraum (espaço vital) para os alemães na Europa Oriental e na Rússia Ocidental — foi concebido de forma independente e antes da “Solução Final” para a questão judaica; e que os nazistas tentaram ou planejaram matar todos os judeus que pudessem capturar, onde quer que estivessem, inclusive na Palestina.
Devemos ter em mente que, mesmo antes da invasão da União Soviética, a violência contra os dois milhões de judeus na Polônia ocupada pelos alemães já estava se intensificando e se alastrando para as regiões ocupadas da Europa (Sul, Norte e Ocidente) e para o Norte da África, condenando os judeus dessas áreas à limpeza étnica, à escravização ou ao assassinato em massa. Os alemães alimentavam o antissemitismo local independentemente da luta contra o bolchevismo; ironicamente, se a Alemanha não tivesse atacado a URSS, o restante da Europa provavelmente teria permanecido sob ocupação alemã por décadas, selando o destino dos judeus nessas regiões. Em outras palavras, embora o ataque aos bolcheviques fosse uma parte fundamental da cosmovisão de Hitler, o mesmo valia para sua obsessão pelos judeus.
Além disso, é preciso ressaltar que as raízes do antissemitismo — mesmo em sua forma moderna, que evoluiu no último terço do século XIX — são anteriores ao bolchevismo, ainda que os judeus tenham passado a ser associados aos socialistas (e, posteriormente, aos comunistas) quase tão logo esses movimentos políticos surgiram. Os regimes comunistas na URSS, na Polônia, na Hungria e em muitos outros países tampouco foram isentos desse preconceito; contudo, embora tal sentimento pudesse assumir contornos assassinos, nunca chegou a ser genocida. Outra vertente do sentimento antijudaico (que talvez esteja novamente em ascensão hoje) era anticapitalista, retratando os judeus como plutocratas que controlavam as finanças e, consequentemente, a política do Ocidente — embora valha notar que os nazistas nunca tiveram dificuldade em pintar o "judeu eterno" simultaneamente como revolucionário e como bilionário ávido por dinheiro.
Pode-se argumentar também que World Enemy No. 1 dedica pouca atenção aos crimes do regime de Stalin na década de 1930: desde a campanha de coletivização genocida na Ucrânia — que ceifou milhões de vidas — até o Grande Expurgo, que culminou na execução de até mais um milhão de cidadãos soviéticos (incluindo antigos colaboradores próximos de Stalin) e decapitou a liderança do Exército Vermelho. O pacto de 1939 entre Hitler e Stalin não apenas garantiu que o Exército Vermelho não fosse mobilizado contra a Wehrmacht, como também dividiu a Polônia entre as duas tiranias, permitindo que a Alemanha primeiro destruísse a Polônia ocidental e, em seguida, conquistasse os Países Baixos, a Bélgica, a França, a Noruega, a Grécia e a Sérvia, sem qualquer ameaça ao seu flanco oriental. Paralelamente, o pacto facilitou a tomada e a subjugação do Leste Europeu por nazistas e soviéticos, incluindo a imposição do domínio comunista sobre o leste da Polônia (hoje Ucrânia Ocidental) e os Estados Bálticos, resultando em assassinatos e deportações em massa de inimigos políticos e sociais — reais ou imaginários — do regime soviético. Essa "revolução vinda de fora", como a denominou Jan T. Gross, é lembrada até hoje nessas regiões como um grande trauma nacional, embora tenda a ofuscar a memória da colaboração local no Holocausto durante a ocupação alemã subsequente. Há muito negacionismo e apagamento histórico para todos os lados.
No entanto, Hellbeck prestou um serviço importante ao nos recordar o contexto ideológico, demográfico e histórico em que o Holocausto ocorreu. Logo no início de World Enemy No. 1, o autor ressalta com que frequência a nossa memória da violência nazista obscurece a hostilidade antissoviética que a impulsionou. Quando o teólogo Martin Niemöller escreveu seu famoso texto sobre a cumplicidade do silêncio e o custo da indiferença, ele tinha em mente o sacrifício de dezenas de milhares de comunistas alemães — as primeiras vítimas do regime de Hitler. O texto começa com “Primeiro vieram buscar os comunistas, mas eu não era comunista — então não disse nada” e termina com “Depois vieram buscar a mim, mas já não restava ninguém que pudesse me defender”.
Durante décadas, uma tradução das palavras de Niemöller permaneceu perto da saída das galerias principais do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, inaugurado em 1993. No entanto, nesta versão, como aponta Hellbeck, os comunistas foram “apagados dos registros” em favor de uma alternativa mais branda, como se para evitar o constrangimento de admitir a importância central do comunismo na luta contra os nazistas. “Primeiro”, começa o texto, “vieram buscar os socialistas”.
—Este é o primeiro de dois artigos.
1 Veja, por exemplo, Paul A. Hanebrink, A Specter Haunting Europe: The Myth of Judeo-Bolshevism (Harvard University Press, 2018), resenhado nestas páginas por Christopher R. Browning, 21 de fevereiro de 2019.
2 Arno Mayer apresentou o argumento exatamente oposto em Why Did the Heavens Not Darken? (1988), afirmando que o nazismo estava principalmente focado em uma guerra ideológica contra o bolchevismo e que o Holocausto foi um mero produto dessa obsessão. Ambos os estudos foram descartados por serem considerados tendenciosos demais.
Não é de surpreender, portanto, argumenta Hellbeck, que, a partir do verão de 1941, encontremos oficiais da SS classificando invariavelmente aqueles que haviam “eliminado” como “bolcheviques, judeus e elementos antissociais”, ou como “funcionários, agentes, sabotadores e judeus”. O Holocausto, sugere ele, evoluiu e se disseminou não a partir de uma “única ordem vinda do alto em 1941”, mas sim da “violência cumulativa do ataque da Alemanha ao sistema soviético, da propaganda antibolchevique virulenta que remontava à década de 1920 e do fracasso em alcançar a vitória rápida que Hitler havia previsto”.
Hellbeck também nos lembra que a Alemanha “mirou em milhões de cidadãos soviéticos não judeus” — tipicamente referidos como “bolcheviques” —, o que levou à morte de 15 milhões de civis (dos quais 2,6 milhões eram judeus). Os planos para a colonização do pós-guerra na União Soviética, observa ele, “previam a extinção” de outras “dezenas de milhões de cidadãos soviéticos”, em grande parte pela fome. Nesse sentido, o genocídio dos judeus, o massacre de outros civis soviéticos e o assassinato de mais de três milhões de prisioneiros de guerra do Exército Vermelho foram todos consequências da mesma cosmovisão genocida.
Embora eu concorde com a maior parte do argumento de Hellbeck, algumas ressalvas se fazem necessárias. World Enemy No. 1 poderia ter reconhecido mais explicitamente que a Alemanha manteve uma aliança com a União Soviética entre 1939 e 1941, com consequências significativas para o curso da guerra; que Hitler também desejava, paralelamente, expandir-se para o Ocidente e esmagar a França, uma antiga inimiga da Alemanha; que o Generalplan Ost — destinado a criar Lebensraum (espaço vital) para os alemães na Europa Oriental e na Rússia Ocidental — foi concebido de forma independente e antes da “Solução Final” para a questão judaica; e que os nazistas tentaram ou planejaram matar todos os judeus que pudessem capturar, onde quer que estivessem, inclusive na Palestina.
Devemos ter em mente que, mesmo antes da invasão da União Soviética, a violência contra os dois milhões de judeus na Polônia ocupada pelos alemães já estava se intensificando e se alastrando para as regiões ocupadas da Europa (Sul, Norte e Ocidente) e para o Norte da África, condenando os judeus dessas áreas à limpeza étnica, à escravização ou ao assassinato em massa. Os alemães alimentavam o antissemitismo local independentemente da luta contra o bolchevismo; ironicamente, se a Alemanha não tivesse atacado a URSS, o restante da Europa provavelmente teria permanecido sob ocupação alemã por décadas, selando o destino dos judeus nessas regiões. Em outras palavras, embora o ataque aos bolcheviques fosse uma parte fundamental da cosmovisão de Hitler, o mesmo valia para sua obsessão pelos judeus.
Além disso, é preciso ressaltar que as raízes do antissemitismo — mesmo em sua forma moderna, que evoluiu no último terço do século XIX — são anteriores ao bolchevismo, ainda que os judeus tenham passado a ser associados aos socialistas (e, posteriormente, aos comunistas) quase tão logo esses movimentos políticos surgiram. Os regimes comunistas na URSS, na Polônia, na Hungria e em muitos outros países tampouco foram isentos desse preconceito; contudo, embora tal sentimento pudesse assumir contornos assassinos, nunca chegou a ser genocida. Outra vertente do sentimento antijudaico (que talvez esteja novamente em ascensão hoje) era anticapitalista, retratando os judeus como plutocratas que controlavam as finanças e, consequentemente, a política do Ocidente — embora valha notar que os nazistas nunca tiveram dificuldade em pintar o "judeu eterno" simultaneamente como revolucionário e como bilionário ávido por dinheiro.
Pode-se argumentar também que World Enemy No. 1 dedica pouca atenção aos crimes do regime de Stalin na década de 1930: desde a campanha de coletivização genocida na Ucrânia — que ceifou milhões de vidas — até o Grande Expurgo, que culminou na execução de até mais um milhão de cidadãos soviéticos (incluindo antigos colaboradores próximos de Stalin) e decapitou a liderança do Exército Vermelho. O pacto de 1939 entre Hitler e Stalin não apenas garantiu que o Exército Vermelho não fosse mobilizado contra a Wehrmacht, como também dividiu a Polônia entre as duas tiranias, permitindo que a Alemanha primeiro destruísse a Polônia ocidental e, em seguida, conquistasse os Países Baixos, a Bélgica, a França, a Noruega, a Grécia e a Sérvia, sem qualquer ameaça ao seu flanco oriental. Paralelamente, o pacto facilitou a tomada e a subjugação do Leste Europeu por nazistas e soviéticos, incluindo a imposição do domínio comunista sobre o leste da Polônia (hoje Ucrânia Ocidental) e os Estados Bálticos, resultando em assassinatos e deportações em massa de inimigos políticos e sociais — reais ou imaginários — do regime soviético. Essa "revolução vinda de fora", como a denominou Jan T. Gross, é lembrada até hoje nessas regiões como um grande trauma nacional, embora tenda a ofuscar a memória da colaboração local no Holocausto durante a ocupação alemã subsequente. Há muito negacionismo e apagamento histórico para todos os lados.
No entanto, Hellbeck prestou um serviço importante ao nos recordar o contexto ideológico, demográfico e histórico em que o Holocausto ocorreu. Logo no início de World Enemy No. 1, o autor ressalta com que frequência a nossa memória da violência nazista obscurece a hostilidade antissoviética que a impulsionou. Quando o teólogo Martin Niemöller escreveu seu famoso texto sobre a cumplicidade do silêncio e o custo da indiferença, ele tinha em mente o sacrifício de dezenas de milhares de comunistas alemães — as primeiras vítimas do regime de Hitler. O texto começa com “Primeiro vieram buscar os comunistas, mas eu não era comunista — então não disse nada” e termina com “Depois vieram buscar a mim, mas já não restava ninguém que pudesse me defender”.
Durante décadas, uma tradução das palavras de Niemöller permaneceu perto da saída das galerias principais do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, inaugurado em 1993. No entanto, nesta versão, como aponta Hellbeck, os comunistas foram “apagados dos registros” em favor de uma alternativa mais branda, como se para evitar o constrangimento de admitir a importância central do comunismo na luta contra os nazistas. “Primeiro”, começa o texto, “vieram buscar os socialistas”.
—Este é o primeiro de dois artigos.
1 Veja, por exemplo, Paul A. Hanebrink, A Specter Haunting Europe: The Myth of Judeo-Bolshevism (Harvard University Press, 2018), resenhado nestas páginas por Christopher R. Browning, 21 de fevereiro de 2019.
2 Arno Mayer apresentou o argumento exatamente oposto em Why Did the Heavens Not Darken? (1988), afirmando que o nazismo estava principalmente focado em uma guerra ideológica contra o bolchevismo e que o Holocausto foi um mero produto dessa obsessão. Ambos os estudos foram descartados por serem considerados tendenciosos demais.








