17 de abril de 2026

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, 30 anos após um massacre

Trinta anos após o massacre de Eldorado do Carajás, os pobres sem-terra do Brasil ainda se encontram sob o jugo da oligarquia rural mais poderosa e descarada da América Latina.

Tyler Antonio Lynch


Membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) protestam na rodovia PA-50 na véspera do vigésimo sétimo aniversário do massacre de Eldorado dos Carajás, em 16 de abril de 2023. (Nelson Almeida / AFP via Getty Images)

Nesta sexta-feira, os trabalhadores rurais sem-terra do Brasil marcham em massa em Salvador, um rio vermelho que serpenteia pela BR-324. Eles ocupam fazendas em Madalena e Darcinópolis, onde há apenas três anos uma centena de trabalhadores viviam em condições de escravidão moderna. E no Pará, três mil trabalhadores rurais sem-terra se deslocam para ocupar um trecho da rodovia a cerca de nove quilômetros da cidade de Eldorado do Carajás.

Eles erguem faixas, cruzes de madeira e bandeiras vermelhas em mastros. “Se ficarmos em silêncio”, diz uma placa, “as pedras gritarão”. Eles não se calam: choram, tocam tambores, cantam. Suas vozes ecoam na Índia, na Indonésia, na África do Sul, onde camponeses e trabalhadores rurais sem-terra também se unem em solidariedade aos seus compatriotas brasileiros.

Essa onda fenomenal de atividade política marca o trigésimo aniversário do massacre de Eldorado do Carajás, quando a polícia militar brasileira abriu fogo contra uma manifestação pacífica liderada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), matando 21 ativistas sem-terra e ferindo mais de 60. Trata-se de uma atrocidade na história da luta operária global, comparável a Peterloo, Ciénaga e Marikana — uma lista que atesta o terrível poder do Estado contra os pobres que protestam.

Os manifestantes em Salvador invocam o legado do massacre como denúncia e desafio. “Trinta anos de impunidade”, proclamam as faixas, “mas também de resistência”. Impunidade e resistência continuam a definir a luta dos pobres sem-terra do Brasil por reforma agrária contra a oligarquia rural mais poderosa da América Latina. Carajás permanece um símbolo para a extrema-direita brasileira, uma expressão extrema da violência necessária para manter um dos sistemas de posse de terras mais desiguais do mundo. Ao mesmo tempo, Carajás reafirma a tenacidade e o orgulho do movimento que sobreviveu a ele.

O massacre de Eldorado do Carajás permanece lamentavelmente pouco reconhecido no Brasil e ainda mais no resto do mundo. Contudo, ele pontua uma história viva, e ao revisitarmos essa atrocidade à luz do presente, podemos traçar o longo arco da luta dos sem-terra em nossa época.

O Massacre da PA-150

O massacre de Eldorado do Carajás ocorreu na rodovia PA-150, no estado do Pará, no extremo norte do Brasil. O simples fato de o MST estar ativo no Pará já é surpreendente. O enorme estado, duas vezes maior que a França, há muito tempo é o feudo de um grupo de famílias oligárquicas cuja hostilidade à reforma agrária é reforçada pela polícia e pelos tribunais — bem como por intimidação, sequestros, ataques incendiários e assassinatos. “Eles agem como um Estado dentro do Estado”, diz um observador da violência rural. “É difícil imaginar qualquer área da administração pública onde eles não tenham influência.”

A pobreza extrema do Pará é o produto direto das riquezas extraídas diariamente de suas florestas e terras. Desde que a ditadura militar brasileira abriu a Amazônia para a exploração mineral na década de 1970, o Pará gerou bilhões em valor para as indústrias de mineração e agronegócio. Esses setores extrativistas atraíram simultaneamente dezenas de milhares de trabalhadores sem terra para trabalhos precários em minas e grandes plantações, e expulsaram aqueles que já habitavam a região, à medida que a terra se concentrava em ainda menos mãos. A falta de terras tornou-se endêmica sob a sombra de latifúndios do tamanho de pequenos Estados-nação.

Carajás permanece um símbolo para a extrema-direita brasileira, uma expressão extrema da violência necessária para manter um dos sistemas de posse de terras mais desiguais do mundo.

O MST começou a se mobilizar no Pará em 1989, contando com sua disciplina e organização para resistir ao poder coercitivo dos latifundiários. Contudo, sua estratégia era deliberadamente confrontativa, visando, por meio de ocupações de terras em larga escala, arrancar concessões da liderança estadual e dos ministérios do governo. No Pará, pode-se argumentar que eles exageraram em suas ações. Após pressionar com sucesso o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), órgão estatal brasileiro responsável pela reforma agrária, a comprar uma fazenda produtiva para assentamento, o MST agiu rapidamente para ocupar uma extensa fazenda chamada Macaxeira.

A ocupação de Macaxeira representou um desafio flagrante à oligarquia rural do Pará e uma demonstração do desprezo do MST pela abordagem gradualista do INCRA em relação à reforma agrária. Quando cerca de 1.500 famílias sem-terra decidiram ocupar a rodovia PA-150 para forçar as autoridades a negociar, o Estado interveio nos planos do MST pela força das armas. O governador Almir Gabriel ordenou à Polícia Militar que desobstruísse a rodovia “custe o que custar”. Havia pouca chance de a operação transcorrer pacificamente. Latifundiários locais haviam fornecido às autoridades listas de líderes do MST para serem eliminados, e quando a polícia chegou, eles já haviam removido seus distintivos. O cenário estava armado para um massacre. “Desde o início, a intenção era dar ao MST uma lição que jamais esqueceriam”, disse um jornalista local.

Pouco depois das 16h do dia 17 de abril de 1996, 155 policiais militares chegaram ao bloqueio do MST, cercando os ativistas sem-terra por ambos os lados. Imediatamente, começou um confronto. Apesar do número de sem-terras, não havia igualdade de forças. A polícia lançou gás lacrimogêneo contra a multidão e disparou metralhadoras para o ar; os sem-terra revidaram com paus e pedras. Isso deu carta branca para o massacre. Em poucos minutos, a polícia abriu fogo contra a multidão.

A polícia não se limitou a alvejar a multidão de camponeses, incluindo mulheres e crianças, com tiros à distância. O massacre em Carajás foi prolongado e pessoal. A polícia perseguiu os feridos e sangrando até o mato às margens da rodovia para executá-los. Dos dezenove homens mortos durante o massacre (dois outros morreriam mais tarde em decorrência dos ferimentos), sete foram baleados à queima-roupa na cabeça. Mas alguns policiais não se contentaram com o eficiente extermínio dos camponeses a tiros. Eles se apoderaram das ferramentas agrícolas que encontraram e começaram a massacrar suas vítimas. Doze dos cadáveres foram encontrados retalhados com foices e facões.

O depoimento das testemunhas descreve uma cena de caos frenético. “Metralharam um rapaz de 22 anos que estava ao meu lado”, disse “Garoto” da Conceição. “Eu o vi cair. Todos começaram a correr. Havia muito sangue. Muitos mortos. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.” Mesmo assim, a polícia prosseguiu metodicamente, isolando líderes conhecidos, que foram capturados, torturados e executados. Entre eles estava o organizador de 18 anos, Oziel Alves Pereira, que foi forçado a gritar “Viva o MST!” enquanto era espancado até a morte. “Quando vi as fotos do cadáver dele, não o reconheci”, disse Eva Gomes da Silva. “Eles sabiam que ele era um líder e queriam que ele sofresse por isso.” Treze dos dezenove mortos confirmados eram líderes do MST, reforçando as acusações de que os assassinatos foram direcionados.

Treze dos dezenove mortos confirmados eram líderes do MST, reforçando as acusações de que os assassinatos foram direcionados.

A matança não terminou na rodovia. A polícia executou sumariamente pelo menos um homem ferido a caminho do hospital e percorreu os hospitais da cidade vizinha de Curianópolis na noite seguinte, caminhando de leito em leito em busca de outros manifestantes. “A polícia simplesmente entrou e matou um homem a tiros, assim, sem mais nem menos”, relatou Gomes da Silva. Os médicos logo passaram a ter medo de tratar os feridos, muitos dos quais convivem com balas alojadas nos membros até hoje.

Para a Polícia Militar, essa vigorosa dispersão dos protestos foi um sucesso estrondoso. Eles finalizaram sua campanha de terror percorrendo o acampamento, saqueando os cadáveres em busca de objetos de valor. Um policial reivindicou uma panela para seu casamento. “Eles começaram a aplaudir quando entraram no ônibus”, lembrou um professor local. “Pareciam soldados voltando de uma guerra contra um país inimigo.” Longe de estarem em guerra contra inimigos estrangeiros, muitos desses policiais eram filhos de trabalhadores rurais sem-terra.

O número oficial de mortos é quase certamente uma subestimação. “Tenho certeza de que mais de dezenove pessoas foram mortas [no local]”, disse um sobrevivente a jornalistas. “Colocaram uma pilha de corpos em um caminhão e a outra em uma van. Os que estavam no caminhão reapareceram, mas os da van nunca mais foram vistos.” Relatos de crianças assassinadas a golpes de facão, além do número incomumente alto de líderes assassinados nas estatísticas oficiais, corroboram a ideia de que a verdadeira dimensão do massacre de Eldorado do Carajás nunca foi totalmente reconhecida.

"Canalhas e Vagabundos"

“Missão cumprida”, disse o Coronel Pantoja às suas tropas assim que os tiros cessaram, “e ninguém viu nada”. Ele estava enganado em ambos os casos. O massacre foi filmado por uma equipe de TV local e rapidamente ganhou repercussão internacional. O presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, interrompeu a guerra contra o MST para denunciar o massacre como “uma vergonha para o país”. Portugal, França e Alemanha registraram preocupações formais junto a Brasília, e até o Vaticano condenou o massacre.

A narrativa predominante sustenta que a genuína onda de indignação que se seguiu ao massacre de Carajás acabou por beneficiar o MST. Uma série de reformas de fato acelerou as expropriações de terras e reprimiu a resistência no judiciário. Contudo, os organizadores no Pará estavam menos otimistas. "Pode ter afetado o comportamento do governo federal, mas o governo estadual aqui no Pará não mudou", relatou um observador. "Os latifundiários continuam a gozar de total impunidade."

Até hoje, a justiça não foi feita para os mártires de Carajás. Apenas os comandantes da polícia, Coronel Pantoja e Major José Maria Pereira de Oliveira, foram condenados por crimes — e somente em 2002, após um julgamento "repleto de irregularidades". Os outros 153 policiais presentes foram absolvidos. Isso não surpreende. No Brasil, os sem-terra podem ser mortos impunemente. Dos 1.833 assassinatos relacionados a terras registrados pela Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica entre 1985 e 2024, apenas 42 pistoleiros foram condenados.

Assim, para o Movimento sem Terra, isso não é história antiga. Trinta anos depois, muitos dos sobreviventes de Carajás permanecem traumatizados e destroçados. Alguns que conseguiram terras se viram desfigurados demais para cultivá-las. Conforme o país se inclinava para a direita, Carajás passou a ser cada vez mais invocado em termos elogiosos. Em 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro optou por discursar no local do massacre, declarando: “Quem deveria ter sido preso era o MST — [aqueles] canalhas e vagabundos”. Quanto à polícia, eles apenas “reagiram para não serem mortos”.

Fruto do latifúndio

O massacre em Eldorado do Carajás não foi um incidente isolado. A violência é fruto do latifúndio tanto quanto a soja ou a carne bovina. É o corolário do gigante extrativista que leva os frutos da Amazônia para os mercados globais à custa da terra e dos trabalhadores que a cultivam. “Uma estrutura agrária baseada na extrema concentração de terras”, como afirma Ayala Ferreira, líder do MST, “exige a violência como mecanismo de [sua] manutenção”. Em todo o Brasil, mais de 350 pessoas foram mortas por disputas de terras somente na última década.

Hoje, o MST não possui a base de massa necessária para confrontar diretamente o agronegócio.

Onde se encontra hoje a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra? De certa forma, a violência desenfreada do final da década de 1990 refletia a ameaça real que o MST representava para o sistema fundiário vigente no Brasil. A força do movimento residia em uma base de massa de trabalhadores marginalizados, dispostos a suportar graves privações para reivindicar a terra. Isso não duraria. A ironia é que a luta do MST pela reforma agrária acabou sendo absorvida por seu aliado político, o Partido dos Trabalhadores (PT), que reprimiu a violência rural e distribuiu terras com mais liberalidade, mas ao custo de consolidar o latifúndio como base do sistema agrícola brasileiro. Com o crescimento da economia, que desviou os trabalhadores rurais sem-terra do campo, o MST gradualmente cessou suas ocupações em larga escala.

Hoje, o MST não possui a base de massa necessária para confrontar diretamente o agronegócio e a indústria extrativista em nível sistêmico. Em vez disso, priorizou suas práticas de agroecologia, utilizando sua infraestrutura para aliviar a fome urbana, o desemprego rural e o analfabetismo. Ao cultivar um nicho de mercado para seus produtos (o movimento é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina), o MST priorizou a autonomia e a segurança de seus dois milhões de membros em detrimento da conquista de novos territórios. Objetivos louváveis, sem dúvida, mas muito distantes de aterrorizar os latifundiários, como a organização fazia décadas atrás.

A libertação, porém, é um caminho longo e sinuoso — uma complexa interação entre entrincheiramento e expansão, militância e cooptação. Após sete anos de governo de extrema-direita e os estragos da pandemia, a própria sobrevivência do movimento é notável. O MST continua sendo o maior movimento social da América Latina e, sem dúvida, o elo mais importante entre o PT de Luiz Inácio Lula da Silva e os pobres rurais. Nos últimos anos, o MST começou a recultivar sua postura militante, buscando galvanizar a base de massas necessária para restaurar a luta pela terra à proeminência nacional.

Para seus membros, os frutos da luta são inegáveis: a terra é algo tangível. “Claro, não é muita coisa”, reflete Raimundo Gouvêa, líder do MST no Pará. “Mas é muito mais do que antes, quando não tínhamos nada — apenas os sonhos que sonhávamos, às vezes, de um pedaço de terra para trabalhar. Digo às vezes porque quase nunca conseguíamos nos dar ao luxo de sonhar.”

Esses sonhos — de terra, de trabalho digno — ecoam muito além do Brasil. Elas estão na base das lutas dos dalits da Índia, dos ocupantes ilegais da África do Sul e dos camponeses marginalizados da Colômbia às Filipinas. Essa universalidade levou a maior coalizão mundial de movimentos rurais, a Via Campesina, a declarar o dia 17 de abril como o Dia Internacional da Luta Camponesa.

Os sonhos, por si só, não podem arrancar terras dos latifundiários. Mas sua recorrência serve como prova de que uma luta travada há tanto tempo não pode agora ser abandonada. “Porque se os sonhos são eternos”, escreveu o poeta do MST, Ademar Bogo, “eterna também é a certeza da vitória”.

Hoje, essa certeza se reafirma no Brasil.

Colaborador

Tyler Antonio Lynch é economista político e doutorando, pesquisando terra, trabalho e Estado na América Latina.

A guerra com o Irã é uma vitória para a China

Em uma reunião com Xi no próximo mês, Trump estará na defensiva

Andrew P. Miller e Michael Clark

ANDREW P. MILLER é Pesquisador Sênior em Segurança Nacional e Política Internacional no Center for American Progress. Foi Subsecretário Adjunto de Estado para Assuntos Israelo-Palestinos no governo Biden e Diretor para Assuntos Militares do Egito e de Israel no Conselho de Segurança Nacional no governo Obama.

MICHAEL CLARK é Pesquisador Associado em Segurança Nacional e Política Internacional no Center for American Progress.

Foreign Affairs

Presidente dos EUA, Donald Trump, e Presidente da China, Xi Jinping, em Busan, Coreia do Sul, outubro de 2025
Evelyn Hockstein / Reuters

O presidente Donald Trump deveria se encontrar com seu homólogo chinês, Xi Jinping, no final de março, para estabilizar a relação bilateral mais importante do mundo. Mas, com o Oriente Médio em chamas, os preços da energia disparando e os corpos de militares americanos retornando aos Estados Unidos, Trump chegou à conclusão de que uma viagem a Pequim para uma reunião de alto nível não seria bem vista. Em 16 de março, ele adiou a viagem para maio. O fato de ele não ter previsto essa convergência de crises quando anunciou a cúpula — apenas oito dias antes de lançar sua guerra preferida contra o Irã — expõe a incapacidade do governo de lidar com múltiplos desafios globais, mesmo aqueles criados por ele mesmo.

O governo Trump tem mencionado uma série de objetivos para sua guerra no Irã, incluindo a mudança de regime e a destruição do programa nuclear do país. Alguns apoiadores de Trump chegaram a argumentar que bombardear o Irã ajudaria os Estados Unidos em sua competição com a China. Matt Pottinger, que atuou como vice-conselheiro de segurança nacional no primeiro mandato de Trump, afirmou em entrevista à Bloomberg que a guerra com o Irã desafia o "eixo do caos" da China, que também inclui Irã, Coreia do Norte e Rússia. O senador republicano e leal a Trump, Lindsey Graham, por sua vez, disse em entrevista à Fox News em março que as intervenções militares dos EUA no Irã e na Venezuela, países ricos em petróleo e aliados de Pequim, eram "o pesadelo da China".

A realidade, no entanto, é bem diferente. Apesar de depender de importações de energia que passam pelo Estreito de Ormuz, a China se protegeu contra uma possível interrupção no fornecimento de energia a curto prazo. Com as forças armadas dos EUA atoladas no Oriente Médio, a China tem mais liberdade de ação no Leste Asiático. Enquanto Trump se comporta de forma errática e viola o direito internacional, a China pode se apresentar como uma mediadora responsável. Mesmo que o cessar-fogo entre EUA e Irã, acordado em 7 de abril, se mantenha, os Estados Unidos prejudicaram sua reputação ao agirem de forma imprevisível, traírem seus aliados e iniciarem uma guerra que causou sérios danos à economia global.

Quando a cúpula EUA-China finalmente acontecer, Xi Jinping entrará nas negociações com considerável poder de barganha. Enquanto os Estados Unidos desperdiçavam preciosos recursos militares e políticos no Oriente Médio, a China se preparava para obter o que desejava na mesa de negociações. Um Trump em crise poderia trocar valiosos recursos americanos por ganhos comerciais de curto prazo — e um acordo desequilibrado com o maior rival dos Estados Unidos poderia comprometer a segurança e a prosperidade americanas por décadas.

ERRO NÃO FORÇADO

A guerra escolhida por Trump no Irã ocorreu às custas da proteção de segurança dos Estados Unidos no Indo-Pacífico, representando uma oportunidade para Pequim. Os Estados Unidos transferiram material bélico do Leste Asiático para o Oriente Médio, incluindo o USS Abraham Lincoln, um dos apenas cinco porta-aviões americanos em serviço ativo no mundo, e poderosos sistemas de defesa antimíssil. Muitas dessas baterias foram retiradas da Coreia do Sul, que durante anos sofreu forte pressão econômica da China em retaliação por abrigar sistemas antimísseis americanos que deveriam proteger permanentemente o país de um ataque da Coreia do Norte, parceira da China. A retomada desses ativos pelos Estados Unidos, apesar das objeções de Seul, mostrou o pouco caso que Washington faz dos sacrifícios de seu aliado — e sua disposição em desviar recursos críticos enviou uma mensagem a todos os parceiros americanos na Ásia de que a região não é uma prioridade. Mesmo que os Estados Unidos transfiram recursos-chave de volta para o Indo-Pacífico assim que a guerra terminar, estabeleceram um precedente de que esses recursos podem ser retirados a qualquer momento, e levará anos para que as forças armadas americanas substituam as munições que implantaram contra o Irã. As dúvidas levantadas sobre a capacidade de permanência dos EUA já enfraqueceram a dissuasão contra a Coreia do Norte e a China.

A guerra no Irã também proporcionou à China uma demonstração prática das capacidades militares dos Estados Unidos, que Pequim agora pode usar para aprimorar e adaptar suas próprias táticas. Simplesmente observando, as forças armadas chinesas obtiveram um vasto conjunto de informações sobre o armamento americano, os ciclos de tomada de decisão e o uso de inteligência artificial, que podem ser utilizadas em futuros conflitos em Taiwan ou em outros lugares. Por exemplo, a China provavelmente aprendeu muito sobre a maneira como os Estados Unidos interceptam mísseis de cruzeiro e balísticos. Em um conflito com os Estados Unidos, a China poderia ajustar a densidade dos ataques para sobrecarregar as defesas americanas ou modificar a sequência dos ataques para explorar as janelas de recarga.

A China também se beneficiou da guerra de maneiras menos tangíveis. Durante semanas, o Irã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz, causando a maior interrupção nas exportações de petróleo da história e devastando a economia global. Trump, por sua vez, pediu à China e a outros países que enviassem navios de guerra para manter o estreito “aberto e seguro” — convidando, na prática, Pequim a desempenhar o papel que busca, o de provedora responsável da estabilidade global, enquanto os Estados Unidos se mostram incapazes de lidar com as consequências de sua própria decisão unilateral de atacar o Irã.

Para capitalizar sobre o caos, Pequim provavelmente se posicionará como mediadora, uma função que já exerceu anteriormente em disputas entre o Irã e a Arábia Saudita e entre o Camboja e a Tailândia. De fato, segundo o The New York Times, a China ajudou a persuadir o Irã a aceitar o cessar-fogo de 7 de abril. E enquanto os Estados Unidos estão distraídos, a China correrá em direção a seus objetivos nacionais — reduzindo a dependência do resto do mundo para suas necessidades energéticas e tecnológicas, a fim de aumentar seu poder de barganha, especialmente em relação aos Estados Unidos.

ISOLAMENTO PARA DOMINAR

Sem dúvida, a guerra no Irã causou alguns problemas para a China. Seu setor manufatureiro foi afetado pelo aumento dos preços da energia, e os agricultores chineses tiveram que lidar com preços mais altos de fertilizantes durante a época de plantio da primavera. (Grande parte da ureia mundial, um ingrediente de fertilizantes, é transportada pelo Estreito de Ormuz.)

Mas a economia da China é resiliente e seu fornecimento de energia é relativamente seguro. Pequim trabalhou durante anos para se proteger de choques de preços e da volatilidade nos mercados globais de petróleo, desenvolvendo fontes de energia renovável e uma enorme capacidade excedente em usinas a carvão. Desde 2008, as energias renováveis ​​mais que dobraram como participação na matriz energética da China e agora fornecem mais de um terço da energia do país. De fato, a China responde por um terço da capacidade total mundial de energia eólica e solar. Os fabricantes chineses de baterias e veículos elétricos viram suas avaliações de mercado dispararem desde o início da guerra, o que os investidores consideram um catalisador para uma adoção mais ampla de energia limpa. Como a China já domina a fabricação de baterias, painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos, a guerra provavelmente aumentará a adoção global da tecnologia do país como uma proteção contra choques energéticos atuais e futuros.

A China responde por um terço da capacidade total mundial de energia eólica e solar.

Embora a China não possa rivalizar com os Estados Unidos em termos de capacidade de produção de petróleo, seus estoques gigantescos, estimados atualmente em 1,4 bilhão de barris, superam em muito a Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA, que está esgotada. Para a China, isso pode servir como uma reserva para mais de seis meses de interrupção total no Estreito de Ormuz. E mesmo que o fornecimento de energia da China seja ainda mais afetado, o país tem outras opções, como comprar mais petróleo russo. De acordo com o Financial Times, vários navios pagaram pedágios ao Irã em yuan chinês para atravessar o estreito — um sucesso para Pequim, que vem tentando fortalecer a posição internacional de sua moeda. Uma interrupção de curto prazo no Estreito de Ormuz, portanto, está longe de ser um cenário catastrófico para Pequim.

Nos Estados Unidos, o aumento da produção de petróleo pode ajudar a proteger o país das piores consequências de uma escassez global de energia, mas os consumidores americanos ainda estão expostos às oscilações do mercado internacional de petróleo. Devido à natureza global do mercado petrolífero, uma redução na oferta de petróleo em qualquer lugar do mundo significa um aumento nos preços em todos os lugares, inclusive nos Estados Unidos. E, diferentemente da liderança chinesa, o governo Trump buscou sabotar a transição interna para fontes de energia alternativas, deixando as famílias americanas à mercê das flutuações de preços.

Por ora, os consumidores americanos parecem ter sido mais afetados pelo aumento dos custos de transporte e pela inflação geral do que seus pares chineses. Como a China vem passando por um ciclo prejudicial de deflação, preços mais altos de energia podem até mesmo contribuir para o aumento, elevando o preço dos bens de consumo.

DE OLHO NO OBJETIVO PRINCIPAL?

A intervenção militar dos EUA no Irã, assim como a da Venezuela, não ajudará os Estados Unidos em sua competição com a China, isolando Pequim desses dois supostos parceiros. A China é a amiga dos bons momentos por excelência. É altamente transacional e não sacrificará seus interesses fundamentais para salvar Teerã ou Caracas. Se o objetivo é enfraquecer Pequim, as operações dos EUA no Irã e na Venezuela, consequentemente, produzem um retorno insignificante, senão nulo, servindo apenas para esgotar os recursos dos EUA, prejudicar a reputação dos Estados Unidos e aumentar os preços dos combustíveis.

Na verdade, o militarismo impulsivo de Trump enfraqueceu a posição dos Estados Unidos em relação à China. Desencadeou ataques iranianos contra países do Golfo, criando um abismo entre Washington e alguns de seus parceiros mais próximos na região. É improvável que esses governos abandonem completamente os Estados Unidos nos próximos anos. Mas, à medida que a confiabilidade dos EUA se deteriora, os países do Golfo irão cada vez mais explorar as relações entre as superpotências. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, já aumentaram sua cooperação com as forças armadas chinesas desde o primeiro mandato de Trump, mesmo abrigando bases americanas.

A China não precisa substituir os Estados Unidos como provedora de segurança para se beneficiar do deterioramento das relações de Washington com as capitais do Golfo. Basta que Pequim seja um parceiro previsível. Assim que a situação no Irã e nos países do Golfo se acalmar, Pequim provavelmente entrará em cena com contratos de reconstrução para portos ou instalações de energia danificados e investimentos de longo prazo em infraestrutura. O resultado provável é um Oriente Médio mais transacional, menos dependente dos Estados Unidos e mais disposto a trabalhar com a China. Em resumo, Pequim pode conseguir o que os Estados Unidos há muito buscam: influência significativa no Oriente Médio a um custo administrável.

UM PORTO EM MEIO À TEMPESTADE

Apesar do discurso "América em primeiro lugar" de Trump, a guerra impulsiva com o Irã foi uma aula magistral de como colocar os Estados Unidos em último lugar. Devido à sua arrogância, os Estados Unidos se encontram em mais um atoleiro sem uma estratégia de saída. O governo Trump trocou a segurança nacional por uma demonstração de força militar de curto prazo e agora está pedindo ao público americano que pague a conta. O verdadeiro vencedor deste conflito evitável não será Washington nem Teerã; será Pequim.

Como Zongyuan Zoe Liu observou astutamente na revista Foreign Affairs, a China preza pela estabilidade e não quer assumir todos os papéis que os Estados Unidos desempenharam por décadas, como o de policial do Oriente Médio. Ainda assim, a China tem mais a ganhar do que a perder com esta guerra. À medida que os Estados Unidos se distraem, alienam seus aliados e criam lacunas na liderança global, Pequim pode melhorar sua posição relativa simplesmente por permanecer o ator mais previsível em um mundo cada vez mais imprevisível.

Antes da cúpula Trump-Xi remarcada, a China provavelmente está armando uma armadilha para o governo Trump. Segundo a Bloomberg, Xi pode usar a promessa de comprar 500 aviões da Boeing como uma vitória econômica de grande repercussão para Trump, que está ávido por qualquer coisa que possa apresentar como uma vitória. Em troca, Xi poderia obter uma importante concessão de Trump, como o afrouxamento das restrições à exportação de tecnologias americanas avançadas, incluindo chips de IA e turbinas a jato. Tal acordo seria catastrófico para os Estados Unidos. A China ganharia as ferramentas para ser mais autossuficiente a longo prazo; os Estados Unidos lucrariam rapidamente. A China poderia até mesmo renegar o pedido de aviões, que levaria anos para ser concluído.

Enquanto os Estados Unidos aceleram seu próprio declínio, a China acelera sua autossuficiência tecnológica, fortalece seu poderio militar e moderniza sua política industrial. Seu objetivo final é a chamada revitalização nacional. Quando Trump finalmente chegar a Pequim, ele representará os Estados Unidos a partir de uma posição de fraqueza autoimposta. Ele enfrentará um adversário formidável em Xi, que passou anos se preparando para este exato momento de excesso de zelo dos EUA. É hora de os Estados Unidos pararem de lutar as guerras que a China quer que eles lutem e, em vez disso, voltarem sua atenção para seu maior rival: a China.

27 de março de 2026

Normcore

Jürgen Habermas (1929–2026).

Thomas Meaney



O cortejo fúnebre de Jürgen Habermas foi realizado, apropriadamente, no que ainda se considera a esfera pública alemã – os jornais nacionais onde ele se consagrou há mais de 70 anos. Um artigo após o outro, ao longo do longo cortejo, declarava ser o fim de uma era, que cabia a toda pessoa racional assumir a bandeira do “projeto inacabado” da modernidade e que os fiéis deveriam dar continuidade ao “processo de aprendizagem” da humanidade. “Ele foi uma fonte incansável de normas políticas de longo alcance”, declarou Charles Taylor. “Seu pensamento era político até nas questões mais abstratas”, escreveu Rahel Jaeggi. A prosa de Habermas, assegurou Gustav Seibt aos leitores do Süddeutsche Zeitung, podia ser “brilhante, até mesmo concisa”. Eva Illouz agradeceu a Habermas por proteger a Europa de Foucault. O Chanceler da República Federal, Friedrich Merz, afirmou que Habermas “foi um dos pensadores mais importantes do nosso tempo” e que “seu rigor analítico moldou o discurso democrático na Alemanha”. Talvez a única nota dissonante tenha sido emitida no jornal Die Zeit pelo filósofo chinês Tsuo-Yu Cheng, que observou que Habermas havia sido uma febre na China na década de 1980, mas que já não era lido por lá. Essa solenidade contrastava fortemente com os rumores da esquerda anglo-saxônica, para quem Habermas parecia figurar como uma presença vagamente lembrada dos programas de estudo universitários, e, afinal, ele não teria sido membro da Juventude Hitlerista e estaria errado sobre Gaza?

Nascido em 1929, no extremo oeste da Renânia, Habermas fazia parte da geração de alemães que se sentiram salvos pelo Exército dos EUA quando este libertou sua cidade. Ele havia pertencido à Juventude Alemã (Deutsches Jungvolk), mas, como os biógrafos fazem questão de salientar, desde o início considerou o nazismo repugnante. Seu pai, Ernst, no entanto, era um político oportunista que havia se filiado ao Partido Nazista; ele conduziu seu processo de desnazificação sem problemas graças ao seu bom inglês. Entre os materiais de leitura que impôs ao jovem Jürgen estavam os primeiros escritores do ordoliberalismo alemão, Wilhelm Röpke e Walter Eucken. O jovem Habermas aspirava a ser jornalista antes de optar pela carreira de filósofo. Ele lançou-se ao debate aos vinte e quatro anos, com um ataque lendário a Heidegger no jornal FAZ, no qual destacou não apenas a falta de originalidade e a dissimulação do ex-nazista de sessenta e três anos, mas também como este havia conseguido cooptar toda a tradição filosófica alemã em nome da "psicose do irracionalismo". Como um inspetor sanitário intelectual, Habermas manteve, ao longo de sua vida, o olhar atento a qualquer indício de influência dos dois principais pensadores da direita alemã: Heidegger e Carl Schmitt. Ele monitorava o cenário político em busca de sinais de seu ressurgimento na forma de antiracionalismo ou realismo geopolítico.

Por vezes, esquece-se que Habermas, inicialmente, se posicionava consideravelmente à esquerda de seus colegas mais velhos, Max Horkheimer e Theodor Adorno, no Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. Foi aluno de Wolfgang Abendroth, um dos poucos marxistas atuantes em uma universidade alemã na década de 1950. Sua maior afinidade filosófica com alguém associado à Escola de Frankfurt era Herbert Marcuse. Stefan Müller-Doohm, em sua biografia, cita uma carta divertida de Nova York na qual Habermas brinca com um amigo dizendo que acabara de conhecer a "terrível reacionária" Hannah Arendt. De fato, até romper com o movimento estudantil em junho de 1967, Habermas foi muito mais veemente do que seus colegas mais experientes em sua oposição tanto à Guerra do Vietnã quanto aos rumos da sociedade da Alemanha Ocidental. Horkheimer considerava exageradas as constantes acusações de fascismo de Habermas e temia ter em mãos um radical irresponsável, cuja ideia de "revolução" exigia social-democracia com a plena participação de todos os cidadãos alemães (melhor não tentar isso novamente!). Eles acabaram se reconciliando, mas Habermas sempre se manteve mais próximo de Adorno – embora tenha sido o pensamento de Adorno que passou por uma revisão mais completa no programa de Habermas. Em seus escritos da maturidade, preservar o "mundo da vida" significava aprimorar as condições para a democratização e a racionalidade comunicativa, que ele privilegiava em detrimento da busca de Adorno por uma consciência não capitalista.

É fundamental ressaltar o quão distante a Escola de Frankfurt da década de 1960 estava do marxismo do período entre guerras. O "marxismo ocidental" de Frankfurt orgulhava-se de preservar o que considerava estar vivo na tradição – seu método e estilo dialéticos – enquanto descartava sua análise histórica, a qual culpava tanto pelos perigos do aventureirismo, desde a Ação de Março de 1921 até a Fração do Exército Vermelho, quanto pelo quietismo político de uma esquerda que esperava passivamente que a história se desenrolasse a seu favor. O que sempre diferenciaria Habermas de figuras como John Rawls era seu engajamento incessante com o marxismo, até sua última palestra em Frankfurt, em 2019. Ele revisava regularmente a literatura marxista ao seu redor, mantinha correspondência com Hobsbawm e jamais deixou de enxergar a sociedade pela ótica da luta de classes. Seu primeiro livro importante, A Transformação Estrutural da Esfera Pública (1962), foi uma obra de marxismo trágico: o capitalismo burguês do século XVIII, que deu origem aos leitores de jornais na Inglaterra e na Holanda, parecia prometer as liberdades de expressão e pensamento que produziriam uma nova sociedade, mas, em vez disso, resultou no capitalismo consumindo a própria opinião pública. Em Crise de Legitimidade (1973), Habermas argumentou que o capitalismo, sob o qual os proprietários do capital estão constantemente subvertendo as condições que possibilitam sua própria acumulação, era inerentemente propenso a crises. O Estado keynesiano, ao atenuar as consequências dos choques econômicos, não apenas transferiu as crises de volta para a esfera política, mas também deixou os cidadãos, voltados para a satisfação privada, gravemente despreparados para a batalha política. O que Habermas não previu foi como os interesses capitalistas se reagrupariam na década de 1980 e persuadiriam os Estados a não mais se preocuparem em proteger a população. A crítica mais influente de Habermas, Nancy Fraser, reformulou seu pensamento para a ordem pós-Bretton Woods, mostrando como os neoliberais conseguiram superar a crise de legitimação da década de 1980 ao reapropriarem-se da linguagem da liberdade. Isso era hegemonia pura e simples – “a face discursiva da dominação”.

Ninguém na Europa com a estatura de Habermas se deixou levar tão fervorosamente pela virada linguística e pelo pragmatismo americano. Ele chegou ao ponto de recontar a história da humanidade desde o Neolítico, atentando para como as estruturas comunicativas influenciaram a mudança histórica tanto quanto, ou até mais do que, o modo de produção. Sua obra-prima, A Teoria da Ação Comunicativa (1981), marcou o ponto intermediário entre o jovem marxista reabilitador e crítico mordaz da Alemanha de Adenauer e o Habermas posterior, que se tornou um tribuno da União Europeia. Na década de 1980, sua principal atuação como intelectual público foi na Historikerstreit (Disputa dos Historiadores) contra historiadores de direita como Ernst Nolte e Andreas Hillgruber, que desejavam relativizar o passado alemão comparando os crimes nazistas aos de Stalin. Os artigos contundentes de Habermas desse período, escritos em sua prosa mais eficaz, argumentavam em favor da singularidade histórica do Judeucídio. Para muitos comentaristas, essa parecia ser a posição progressista. Mas, com o tempo, o argumento da singularidade acabou facilitando, em vez de dificultar, a atuação da indústria da memória alemã. O efeito foi o de consolidar o tabu de comparar o extermínio de alemães a qualquer outra coisa.

Mais intrigante ainda é o histórico de Habermas em relação às guerras travadas pelo Ocidente desde o fim da Guerra Fria. Ele considerava 1989 um triunfo praticamente inevitável do capitalismo democrático liberal sobre seus inimigos no Oriente. Apoiou a Primeira Guerra do Golfo como uma ação um tanto turbulenta, mas necessária para a formação de uma esfera jurídica internacional. Mas havia também uma razão mais direta: “Pelo menos em relação a Israel – isto é, o cenário catastrófico de um Israel cercado por todo o mundo árabe e ameaçado com os tipos mais terríveis de armas – a autorização para sanções militares contra o Iraque era justificada”. O bombardeio da Sérvia também foi uma intervenção bem-vinda, não apenas por ter sido realizado de boa-fé para evitar um genocídio, mas também por ter fortalecido ainda mais a parceria euro-americana. A falta de autorização das Nações Unidas só viria a incomodar Habermas durante a segunda Guerra do Iraque, quando o núcleo franco-alemão da União Europeia deixou de ver seus interesses alinhados aos de Washington. Ele demorou muito para perceber que a União não era um farol de racionalidade humana que pudesse "ajudar outros países a emergir do século XIX".

Foi somente com a guerra na Ucrânia que a visão de Habermas sobre os Estados Unidos como o ápice da civilização entrou em conflito direto com sua antiga aversão ao nacionalismo. Quando políticos alemães começaram a exibir réplicas de tanques Leopard 2 em suas mesas, ele observou que "Somos todos ucranianos" era um raciocínio fútil. Ele não havia dedicado sua vida política ao pós-nacionalismo apenas para ver a Alemanha se renacionalizar por procuração só porque ucranianos lutavam bravamente no campo de batalha. A Ucrânia, para esse velho hegeliano, ainda estava em um estágio anterior da história.

Justo. O que não foi dito, no entanto, e permaneceu fora do escopo da discussão, foi que outro Estado etnonacional anacrônico tinha carta branca: Israel. Quando Habermas foi coautor de uma resposta a acadêmicos americanos, incluindo Nancy Fraser, que haviam denunciado a guerra de Israel, a contradição ficou evidente. “Apesar de toda a preocupação com o destino da população palestina”, escreveram Habermas e seus coautores, “os padrões de julgamento falham completamente quando intenções genocidas são atribuídas às ações de Israel”. Grande preocupação com os judeus alemães ficou evidente na carta; nenhuma com seus concidadãos muçulmanos. Inicialmente, inclinei-me a ler a declaração de Habermas com certa generosidade. Se nos baseássemos apenas na distorcida esfera pública alemã – e Habermas sempre teve um enorme apetite por jornais e televisão – seria, de fato, difícil obter uma visão clara da invasão israelense. Mas Habermas tinha um longo histórico de ser deliberadamente indiferente a Israel. Em 2012, ele repreendeu Günter Grass por ousar escrever um poema sobre como as armas nucleares israelenses colocavam em risco a paz regional. Habermas acreditava que questionar a lealdade alemã a Israel constituiria um retrocesso às camadas mais sombrias do passado alemão. O pai da esfera pública era tão inflexível nesse ponto que se recusou a assinar uma carta condenando a revogação do convite feito a Fraser para lecionar na Universidade de Colônia.

Seria preciso recuar bastante para encontrar os primeiros vestígios do sionismo radical de Habermas. Em seu quinquagésimo aniversário, em 1979, ele afirmou ter notado o desconforto de Marcuse quando Gershom Scholem, recém-chegado de Jerusalém, se revelou a estrela do evento. "Era uma vantagem não ser judeu ao conhecer Scholem", recordou Habermas. "Você não se enquadrava na categoria de intelectuais que cometeram o grande erro de optar por uma assimilação excessivamente confiante." Aparentemente, nunca lhe ocorreu que Marcuse pudesse ter outros motivos para se manter taciturno à margem da consolidação inicial do hipersionismo alemão. Não há dúvida de que Habermas era um defensor da liberdade e do debate aberto, mas ele os favorecia em bases especialmente escolhidas.

15 de março de 2026

Irã pode ser o fim da "doutrina Donroe" de Trump, diz professor

Para Afshin Matin-Asgari, sobrevivência do regime dos aiatolás à tentativa de derrubar governo é derrota para EUA e Israel

Acadêmico iraniano considera, porém, que república islâmica terá de mudar, mesmo resistindo a ataques

Patrícia Campos Mello

Folha de S.Paulo

O conflito no Irã pode ser a primeira grande derrota da "Doutrina Donroe" e inibir novas "aventuras imperialistas" do presidente Donald Trump no mundo, na visão do iraniano Afshin Matin-Asgari, professor de História do Oriente Médio na California State University e autor do recém-lançado "Axis of Empire: a History of Iran-US Relations" (eixo do império: uma história das relações Irã-Estados Unidos).

O iraniano Afshin Matin-Asgari, professor de História do Oriente Médio da Universidade Estadual da Califórnia - J. Emilio Flores/Divulgação

Para ele, a simples sobrevivência do regime muda a dinâmica geopolítica. "A República Islâmica foi capaz de se defender e não ser derrubada pela maior superpotência do mundo, aliada a Israel, a máquina militar mais eficiente da região", diz Asgari, que participou da oposição ao xá Reza Pahlavi e da Revolução Islâmica em 1979, mas tornou-se crítico do regime dos aiatolás.

Trump manifestou a expectativa de que o conflito no Irã tivesse final parecido com a intervenção na Venezuela, onde Delcy Rodríguez, flexível às demandas americanas, tomou o lugar de Nicolás Maduro. Ele também pensou no sírio Ahmed al-Sharaa, que assumiu após a queda de Bashar al-Assad e se aproximou dos EUA. Como o sr. acha que vai evoluir o conflito no Irã?

É muito difícil prever, mas ficou claro que não é como a Venezuela. Não vai ser fácil. Mataram o líder supremo do regime, mas isso não pareceu mudar nada. O lado iraniano estava preparado para continuar mesmo com a liderança dizimada. Eles têm uma estratégia para aumentar o custo da guerra, interromper o fluxo de petróleo, infligir danos aos EUA e seus aliados do golfo Pérsico a ponto de forçar os EUA a ceder e sair. Há uma resistência no Congresso, e a maioria do público americano é contra esta guerra. Isso pode parar Trump. Ele pode estar à procura de uma estratégia de saída, mas não parece ter uma.

Os objetivos de Israel e dos EUA para esta guerra são diferentes. O sr. acredita que, mesmo se Trump declarar missão cumprida, Tel Aviv vá continuar atacando?

Todo mundo sabe que o manual de Israel é bombardear quem quer que seja seu alvo. Agora é o Líbano e o Irã, já foi Gaza e a Síria. Eles não se importam com o dano que infligem e não têm que lidar com as consequências caóticas. Mas, se os EUA se retirarem, não está claro quais objetivos Israel pode alcançar. Se Trump for pressionado a parar, não acho provável que Israel continue sozinho. Se fizerem isso, qual é o objetivo? Eles não podem derrubar o regime apenas com bombardeio aéreo. Poderiam apenas enfraquecê-lo.

O sr. aponta que, antes da eclosão da guerra, estava claro que o regime iraniano tinha que mudar, dada a crise político-econômica e os protestos. O que a intervenção dos EUA e de Israel muda nessa equação?

No Irã, tem havido luta e resistência contra a República Islâmica com organizações da sociedade civil, sindicatos, estudantes. As mulheres iranianas conquistaram algumas vitórias, como na prática reverter os códigos de vestimenta obrigatórios. Então, há uma pressão tremenda de baixo por mudança. Mas os problemas no país se acumularam, a economia está à beira do colapso, há escassez de eletricidade e de água. Para além desta guerra, a República Islâmica enfrenta desafios enormes e não pode continuar para sempre sem mudanças, matando pessoas em protestos.

Isso não vai acontecer, porém, enquanto EUA e Israel estão bombardeando as cidades e pessoas. Sob essas condições, se você sair às ruas e protestar, o governo vai atirar em você, vai dizer que você está ajudando o inimigo. Há um potencial realista para mudança pacífica vinda de baixo, mas a guerra tem que parar.

Existe a possibilidade de o nacionalismo ganhar força por causa da guerra e enfraquecer o movimento reformista dentro do Irã?

Sim, é bem possível. Algo assim aconteceu depois da última guerra de junho [os ataques de Israel e EUA contra instalações nucleares no Irã em 2025]. Temporariamente, havia uma sensação de ‘nosso país foi invadido, todos ficamos juntos, saímos disso inteiros’. Algo assim pode acontecer. Mas uma boa porcentagem da população pode ter chegado a um ponto de total impaciência com o regime. O país parece estar muito dividido, o que é perigoso. Poderia funcionar para fortalecer sentimentos nacionalistas. Também poderia preparar o terreno para conflito social e até guerra civil no futuro.

Há grupos de oposição exilados que teriam legitimidade para eventualmente assumir o poder? Até Trump diz que o filho do xá Reza Pahlavi não conta com apoio interno.

Esta ala monarquista está endossando a campanha de bombardeio de seu país. Não acho que isso vá terminar bem para eles. Eu os vejo cada vez mais isolados. No próprio Irã, não há apoio institucional para a monarquia.

O regime tem sido muito eficaz em não permitir que nenhum tipo de oposição organizada se forme. As pessoas são constantemente jogadas na prisão, executadas, eliminadas, suprimidas. Há as chamadas facções reformistas do próprio regime, e elas também foram expurgadas, até as que eram levemente críticas ao regime. Mas há uma convergência significativa de dissidentes e semioposicionistas que pediriam algum tipo de transição gradual e abertura do sistema. Nem todo mundo pede a derrubada imediata e violenta do regime. Se eles tiverem alguma presença no processo político, isso pode ser um avanço.

Diante da alta dos preços de combustíveis que pressiona a inflação e pode afetar as eleições de meio de mandato, Trump está sob pressão para declarar missão cumprida. Ele tem maneiras de sair da guerra?

Não importa o que aconteça, Trump vai declarar vitória completa e total, tenha alguma correlação com a verdade ou não. Acho que ele poderia dizer: impusemos uma derrota ao Irã, destruímos as bases de mísseis, eles nunca poderão fabricar uma bomba atômica, vencemos e agora estamos saindo.

É importante destacar que o resultado desta guerra tem um impacto significativo no que os EUA querem fazer globalmente. Eles pensaram que tinham sido muito bem-sucedidos na Venezuela, e Trump colocou outros países na mira. No meio desta guerra, ele estava falando sobre intervenção em Cuba. Se a guerra tivesse sido bem-sucedida, ele poderia nem ter esperado o fim para intervir. Teriam invadido Cuba. Mas agora vai pensar duas vezes. O Irã se tornou um grande teste para a doutrina Donroe, um teste para Donald Trump como o valentão do mundo. Um fracasso no Irã pode inibir outras aventuras imperialistas.

O Irã vai tentar mostrar que ele não foi bem-sucedido?

O Irã conseguiu interromper o fluxo de petróleo, desestabilizar os mercados de energia mundiais, e tudo isso é doloroso para os EUA e o mundo. O objetivo da República Islâmica não é derrotar os EUA ou Israel. Eles nunca poderiam fazer isso. Mas podem aumentar o custo desta guerra, até que o outro lado diga "ok, chega, estamos saindo." Isso seria uma vitória para o lado iraniano e uma derrota para Trump e Israel porque não conseguiram derrubar o regime. E eles se isolaram. O mundo inteiro é contra esta guerra. O Irã se tornou o lugar onde a Doutrina Donroe e a fúria imperialista de Donald Trump foram por água abaixo.

Quais são os custos para a população iraniana?

O povo iraniano está pagando o preço da guerra. Meu irmão mora no Irã, e não tive notícias dele até agora. Sei que ele está sendo bombardeado. Mora em uma pequena ilha no golfo Pérsico. A internet foi cortada, ele mora lá com seus dois filhos. Não tive notícias deles. Eles estão vivos? Não sei. Aqueles de nós que vivemos fora do Irã têm parentes lá. Podemos ver que os EUA atingiram uma escola de meninas e mataram crianças. Israel está atacando o Líbano novamente. Um milhão de pessoas foram deslocadas, centenas foram mortas.

O sr. vê uma mudança no padrão das relações EUA-Irã?

Se os EUA se virem obrigados a sair da guerra, vejo um importante ponto de inflexão não apenas para o Irã, mas para o mundo. A República Islâmica foi capaz de se defender e não ser derrubada pela maior superpotência do mundo, aliada a Israel, a máquina militar mais eficiente da região. Uma República Islâmica sobrevivente poderia reivindicar uma tremenda vitória política. Seria uma grande derrota para os EUA.

Raio-x | Afshin Matin-Asgari, 70

É professor de História do Oriente Médio na California State University. Nascido em Teerã, mudou-se para os EUA após o ensino médio. Matin-Asgari retornou ao Irã em 1978, para participar da revolução que derrubou o xá Reza Pahlavi, mas não apoiou o regime islâmico e voltou para os EUA. Tem doutorado em história do Oriente Médio pela Universidade da Califórnia em Los Angeles e é autor de "Axis of Empire: a history of US-Iran relations".

14 de março de 2026

O não dito

O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho.

James Wham

Sidecar


Perto do final de 1975, começaram a surgir relatos no Diário de Pernambuco sobre uma "perna cabeluda" fantasmagórica, desincorporada e inteiramente senciente. Ela foi avistada pela primeira vez no bairro de Tiúma, em uma rua conhecida por atividades paranormais, como uma projeção nas paredes de uma das casas (a de número treze, se você puder acreditar). Um garotinho avistou a perna cabeluda e saiu correndo aos gritos, atraindo padres, pastores e, por fim, a polícia. Os avistamentos logo se espalharam para outras casas, com o poltergeist funcionando como um pequeno cinema itinerante. Dois meses depois, um homem local relatou ter encontrado sua esposa na cama com a perna cabeluda, compartilhando um cigarro pós-coito. Ele afirmou que ela saltou dos lençóis e o atacou. Depois disso, os relatos se multiplicaram — histórias de terror eram transmitidas no rádio, contadas em bares e em reuniões de negócios. Recife não falava de outra coisa. A perna cabeluda logo se tornou responsável por espancamentos, torturas, desaparecimentos, mutilações, assassinatos e todo tipo de outros crimes — crimes quase fantásticos demais para se acreditar.

O Agente Secreto abre em 1977, durante o que o filme chama de "um período de grande pirraça". Em entrevista à New Yorker, seu diretor, Kleber Mendonça Filho, explicou que referir-se ao período da ditadura militar brasileira dessa forma foi, em si, uma espécie de travessura — uma versão satírica daqueles letreiros que aparecem antes dos créditos em Casablanca ou Star Wars. "É uma palavra maravilhosa, um tanto antiga", diz ele sobre o termo pirraça. "Geralmente significa alguém provocando outra pessoa de má fé. Alguém que tem o poder de pregar uma peça em você. E essa peça pode passar dos limites." Em seu filme, a perna cabeluda vai parar no estômago de um tubarão morto. O delegado local é alertado e ordena a um de seus capangas que jogue a "maldita coisa" de volta ao oceano. Na noite seguinte, em um interlúdio ao estilo "filme B", assistimos à perna cabeluda emergir da água — como um pula-pula zumbi maligno — para aterrorizar os banhistas.

É um floreio artístico que conecta o mito local ao cinema e, mais especificamente, ao fenômeno global de Tubarão – um filme que ainda lota cinemas em Recife um ano após seu lançamento. Fernando, um menino de nove anos – a mesma idade que Mendonça tinha em 1977 – sonha em ver Tubarão, mas seu pai, Marcelo (Wagner Moura), não o deixa. Ele é muito novo; só o pôster já lhe dá pesadelos. Fernando mora com seu avô, Alexandre, que trabalha como projecionista no Cinema São Luiz. Sua mãe está morta e Marcelo está foragido. Só descobrimos o motivo perto do final do filme, quando ele é entrevistado por Elza, uma líder da resistência, na cabine de projeção do cinema de Alexandre.

O filme começa com Marcelo a caminho de Recife em um Fusca amarelo brilhante, parando em um posto de gasolina isolado onde encontra um cadáver em decomposição, sendo revistado pela polícia – completamente desinteressada no corpo – e seguindo viagem; ele chega a um esconderijo administrado por um anarco-comunista charmoso e decrépito com um gato de duas cabeças, conhece outros dissidentes e fugitivos, alguns fugindo da Guerra Civil Angolana; descobrimos que seu nome verdadeiro é Armando Solimões, que ele é um ex-professor na lista negra e que há uma recompensa por sua cabeça – e então corta para o presente, onde uma estudante universitária chamada Flávia está ouvindo as gravações de seu depoimento.

O Cinema São Luiz teve um papel de destaque no filme anterior de Mendonça, Pictures of Ghosts (2023), um ensaio-memória sobre sua cidade natal e seus cinemas. “Encontrei a essência de O Agente Secreto fazendo Pictures of Ghosts”, diz ele, “o poder das coisas que sobrevivem e são preservadas em arquivos. Porque o arquivo é a prova de vida de alguém. Quando você ouve uma voz gravada em 1977, aquela pessoa estava viva em 77... Provavelmente, a sensação mais forte de viagem no tempo que já senti foi fazendo filmes e trabalhando com arquivos.”’

Graças à rede de resistência, Marcelo consegue um emprego no cartório de identidade de Recife, onde passa a maior parte do tempo procurando informações sobre sua mãe, sobre quem sabe muito pouco. Era uma época em que pessoas desapareciam e nunca eram encontradas. Alguns anos antes, a oeste de Pernambuco, às margens do rio Araguaia, um grupo de cerca de cem guerrilheiros comunistas se opôs ao Exército brasileiro; pelo menos sessenta foram torturados e assassinados. Devido a uma Lei de Anistia de 1979, aprovada pela junta militar, nenhum ex-militar jamais foi condenado criminalmente, e somente em 2008, quando Carlos Brilhante Ustra foi declarado torturador por um tribunal civil em São Paulo, seus crimes foram oficialmente reconhecidos. (Ele morreu em liberdade aos 83 anos.) Foi apenas em 2012 que a então presidente Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade para investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante os anos da ditadura. Quando Dilma sofreu impeachment em 2016, Jair Bolsonaro fez questão de elogiar Ustra antes de votar, chamando-o de “o temor de Dilma Rousseff”.

A própria Dilma foi presa e torturada durante esses anos. Em 2011, uma fotografia sua foi descoberta nos arquivos de São Paulo, tirada em novembro de 1970, quando ela era membro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Ela havia suportado meses na prisão e semanas de tortura e agora se encontrava diante de um tribunal militar. Na foto, ela está sentada, curvada e entediada, enquanto dois generais do Exército a observam, cobrindo os rostos como se estivessem envergonhados – como se o futuro pudesse, de alguma forma, vê-los. “Tortura é algo complexo”, disse ela ao Brasil de Fato em 2020. “Acho que todos que passaram pela prisão sempre carregarão essa marca. Não gosto de assistir a filmes com tortura, por exemplo. Não é que eu não goste. Eu simplesmente não assisto.” "Não quero ver isso."

Nesse sentido, o thriller policial carnavalesco de Mendonça é ideal para assistir: o diretor disse que queria "subestimar grosseiramente, quase de forma poética", a crueldade da ditadura. Mas ainda há vislumbres de horror. Um dos interlúdios mais marcantes do filme mostra Marcelo sendo abordado pelo chefe de polícia corrupto Euclides e seus capangas. "Queremos te mostrar uma coisa", diz Euclides. Marcelo concorda, e eles o levam até um alfaiate próximo para encontrar Hans (Udo Kier, em seu último papel), um suposto nazista e vítima frequente do assédio de Euclides. "Mostre suas cicatrizes", diz ele, e, assim como Marcelo, Hans obedece. Ele levanta a camisa e Euclides quase geme de excitação.

Bolsonaro gostava de levantar a camisa para a imprensa e exibir suas facadas, frequentemente durante suas muitas internações por Covid-19. Era uma espécie de exibicionismo machista, o mesmo que excita Euclides, que vê Hans como um companheiro de farda que lutou por seu país e conquistou seu lugar no exército. Mendonça afirmou que Hans foi inspirado por um refugiado romeno, amigo e alfaiate de seu pai, e pela herança judaica da cidade (Recife foi o local da primeira comunidade judaica organizada do Brasil, no século XVII). Ao final da cena, revela-se que Hans é um sobrevivente do Holocausto, forçado a aceitar o título de nazista para permanecer nas boas graças de Euclides. Seu personagem revela a natureza peculiar da identidade sob o fascismo. No Brasil de 1977, Hans vive sob uma identidade falsa, assim como Marcelo, e como Josef Mengele, que escapou, como tantos outros nazistas, para a América do Sul pelas rotas de fuga (ele se afogaria em São Paulo dois anos depois).

Mendonça afirmou que via no regime Bolsonaro uma imitação do nazismo, em sua retórica e ideologia, mas também “de uma forma fetichista”. (Sobre o tema dos arquivos: Bolsonaro, após uma visita ao Museu do Holocausto em Jerusalém, disse que os crimes do Holocausto poderiam ser “perdoados, mas não esquecidos”; porém, sobre o passado enterrado de seu próprio país, disse: “Só um cachorro procura ossos”). Poucas semanas após o impeachment de Dilma em 2016, o filme Aquarius, de Mendonça, foi exibido em Cannes; no tapete vermelho, o diretor segurava cartazes expressando apoio a Dilma e afirmando que o Brasil não era mais uma democracia. Quando saiu do teatro duas horas depois, foi recebido por uma “tempestade de críticas”; recebeu ameaças de morte e seus filmes, sujeitos aos caprichos do governo do país, foram impedidos de concorrer ao Oscar. Este ano, Mendonça está indicado a quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme, que, caso vença, será recebido por sua esposa.

Uma forma de tortura que se tornou infame durante a ditadura foi o pau de arara, ou poleiro de papagaio, onde a vítima era amarrada a uma vara que percorria a parte interna dos cotovelos e a parte de trás dos joelhos. Originalmente, era chamada de "balanço de Boger", em homenagem ao nazista que popularizou a técnica em Auschwitz. A proeminência de telefones públicos laranja brilhantes no filme pode aludir indiretamente a outra forma de tortura, onde estudantes eram pendurados em público, encharcados e depois eletrocutados com telefones de corda – geralmente em seus genitais. E talvez o Fusca amarelo que nos introduz ao filme faça alusão à famosa fotografia de Carlos Marighella, outro guerrilheiro dissidente, morto dentro do mesmo carro após ser assassinado pela polícia. (Moura estreou na direção com Marighella em 2019; o governo Bolsonaro proibiu a distribuição do filme no Brasil.) A realidade existe em todas essas imagens, por mais sutis que sejam, porque existe em seus referentes – isto é, no arquivo, a “prova de vida”.

Quando os arquivos militares foram abertos para fins legais em 1979, um grupo de advogados começou a contrabandear os documentos para uma sala repleta de fotocopiadoras alugadas, publicando eventualmente Brasil: Nunca Mais (1985), que detalha 1.843 casos de tortura. A história existe em tais milagres. Um ex-policial testemunhou em 2012 que foi responsável por se desfazer de pelo menos dez corpos durante a ditadura, alegando que levou os cadáveres para uma plantação de cana-de-açúcar e os queimou na fornalha da destilaria – porém, sem provas, suas palavras não passam de fumaça. O Agente Secreto nasceu do arquivo, da história material disponível a Mendonça durante sua pesquisa. O que seria do filme sem ela? As histórias da perna cabeluda surgiram numa época em que os censores do governo patrulhavam as gráficas, com alguns jornais reduzidos a publicar poesia ou receitas de bolo nas primeiras páginas. Essas histórias começaram como uma piada, claro, uma travessura, mas a perna cabeluda logo se tornou uma metonímia para a violência estatal não reconhecida – uma forma de dizer o que não é dito.

A mãe de Mendonça era historiadora. Ele se lembra com carinho de quando ela trazia fitas de entrevistas para casa; ele ouvia tantas vozes estranhas. "Ela não era cineasta, mas suas entrevistas eram muito parecidas com filmes." Após a morte dela, as fitas ganharam uma nova dimensão — onde a única voz que importava era a de um amor perdido. Ao final de O Agente Secreto, Flávia, a estudante, encontra-se com Fernando, agora adulto, para falar sobre o pai dele, cuja voz ela vem ouvindo por tantos dias, semanas, meses. O choque é que Fernando diz que mal se lembra dele. Ele olha para trás, para aquele tempo, para a "pirraça" de 1977, e quase não tem recordações do pai. Mas ele se lembra de Tubarão.

Defenda Cuba dos esforços dos EUA para destruí-la

Os esforços de Donald Trump para bloquear o fornecimento de combustível a Cuba visam criar o caos. Agora, mais do que nunca, Cuba precisa de solidariedade internacional prática para resistir à intimidação imperialista dos EUA.

Helen Yaffe

Jacobin

Durante anos, o establishment americano culpou o socialismo, a incompetência e a má gestão pelos problemas econômicos de Cuba. (Yamil Lage / AFP via Getty Images)

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado, Marco Rubio, buscam uma mudança de regime em Cuba até o final de 2026. Suas ações expõem a hipocrisia da política americana em relação a Cuba ao longo de décadas — alegando defender os direitos humanos enquanto impõem um bloqueio que nega aos cubanos o acesso a recursos vitais.

Trump apoia abertamente o retorno da antiga elite cubana e chegou a sugerir uma “tomada amigável” de poder em Cuba pelos Estados Unidos. Depois de anos em que o establishment americano atribuiu os problemas econômicos da ilha ao socialismo, à incompetência e à má gestão, Trump hoje se vangloria abertamente de que o embargo americano significa que “não há petróleo, não há dinheiro, não há nada”. Se Cuba fosse realmente um Estado falido, como afirmam Trump e seu antecessor, Joe Biden, a guerra econômica americana seria desnecessária. Essa agressão renovada revela uma grande potência em declínio, perdendo sua hegemonia, assolada por contradições e crises internas, e desesperada para esmagar todos os desafios e alternativas a fim de preservar sua dominância.

Ordem executiva

Em 29 de janeiro, Trump assinou uma ordem executiva alegando que Cuba constitui “uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional e à política externa dos EUA, e autorizando tarifas sobre produtos de países que vendem ou fornecem petróleo a Cuba. Isso ocorreu após a apreensão, em dezembro de 2025, de petroleiros carregados com petróleo venezuelano e, em 3 de janeiro, o sequestro violento do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

Em resposta à ameaça de tarifas de Washington, o México e outros países suspenderam os embarques de petróleo para Cuba. A ordem executiva de Trump baseou-se em diversas leis, incluindo a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), que a Suprema Corte dos EUA decidiu, em 20 de fevereiro, que não pode ser usada para impor tarifas. No entanto, isso faz pouca diferença: Trump pode usar outras leis para autorizar as medidas. De qualquer forma, nenhuma tarifa havia sido cobrada, mas a mera ameaça já havia efetivamente interrompido as entregas de petróleo a Cuba.

A ordem executiva de Trump teve um impacto imediato na ilha, que depende de combustível importado para gerar metade de suas necessidades de eletricidade. Em duas semanas, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos alertou que serviços essenciais estavam em risco:

Unidades de terapia intensiva e salas de emergência estão comprometidas, assim como a produção, distribuição e armazenamento de vacinas, hemoderivados e outros medicamentos sensíveis à temperatura. Em Cuba, mais de 80% dos equipamentos de bombeamento de água dependem de eletricidade, e os cortes de energia estão prejudicando o acesso à água potável, saneamento básico e higiene.

A escassez de combustível interrompeu o sistema de racionamento e a cesta básica de alimentos regulamentada, além de afetar redes de proteção social — merenda escolar, maternidades e casas de repouso —, com os grupos mais vulneráveis ​​sendo desproporcionalmente impactados.

Os hospitais cubanos já cancelaram atendimentos não urgentes, enquanto as ambulâncias sofrem com a falta de combustível. Muitas escolas, faculdades e universidades também tiveram que fechar. O transporte público e privado, bem como o transporte de mercadorias, foram drasticamente reduzidos. Os locais de trabalho, sejam estatais, privados ou cooperativas, diminuíram drasticamente suas atividades. A escassez de combustível interrompeu a produção, a refrigeração e o transporte de alimentos, levando à falta de produtos, aumento de preços e longas filas para bens básicos. A coleta de lixo entrou em colapso, aumentando os riscos sanitários. Os constantes apagões tornam o cotidiano extremamente difícil. Algumas companhias aéreas internacionais cancelaram voos devido à falta de combustível de aviação em Cuba, e diversos governos desaconselharam todas as viagens, exceto as essenciais, reduzindo ainda mais a receita do turismo cubano.

A renovada agressão contra Cuba revela uma grande potência em declínio, perdendo sua hegemonia, assolada por contradições e crises internas.

Mark Weisbrot, coautor de um estudo recente publicado no Lancet Global Health que calculou que as sanções unilaterais causam mais de meio milhão de mortes em todo o mundo a cada ano, escreveu sobre o bloqueio de petróleo de Trump: “Neste momento, podemos ver em tempo real como essas mortes acontecem... O colapso das importações de petróleo teve efeitos imediatos e que ameaçam vidas.”

Em fevereiro, Trump disse a repórteres que Rubio estava envolvido em negociações de alto nível com autoridades cubanas. Os líderes cubanos negaram isso, e uma reportagem do Drop Site News sugeriu que Rubio estava mentindo para poder alegar posteriormente que as negociações fracassaram devido à intransigência cubana e, em seguida, pressionar por uma mudança de regime. Rubio não se contentará com o chamado modelo venezuelano de apenas remover o presidente em Cuba.

Então, em 13 de março, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel anunciou que, juntamente com Raúl Castro, estava conduzindo negociações com representantes do governo dos EUA “com o objetivo de encontrar soluções por meio do diálogo”. Ele reiterou a posição histórica do governo revolucionário: que Cuba participaria apenas “com base na igualdade e no respeito pelos sistemas políticos de ambos os Estados, e pela soberania e autodeterminação do nosso Governo”. Isso ocorreu após o anúncio, no dia anterior, de que cinquenta e um prisioneiros seriam libertados, com a mediação do Vaticano.

Economic Warfare, Aimed at Regime Change

Recent measures compound hardships resulting from nearly seven decades of economic warfare. The US “embargo” on Cuba is the longest and most extensive system of unliteral sanctions in modern history. This is not merely a legal or bilateral issue between the two countries but a blockade that obstructs Cuba’s interactions with the rest of the world, violates human rights, and hinders development.

Most Cubans on the island have spent their entire lives enduring shortages caused by decisions taken in Washington to garner votes in Miami. In 2025, Cuba’s annual report to the United Nations put the cumulative cost of the US blockade at over US$170 billion. Costs are rising year after year, reaching $7.6 billion from March 2024 to February 2025 alone.

The objective of US policy was long ago set out in a 1960 memorandum by US diplomat Lester Mallory titled “The Decline and Fall of Castro,” which proposed economic warfare “to bring about hunger, desperation and overthrow of government.” Sanctions are part of this tool kit.

During his first administration, Trump adopted a policy of “maximum pressure” against Cuba, introducing more than 240 new sanctions and coercive measures to cut the country off from global trade and the international financial system. This coincided with the COVID-19 pandemic and hit Cuba hard: electricity blackouts returned, goods and medicines became scarce, inflation and emigration soared, foreign investors fled, and international reserves were drained. Life was already extremely tough for Cubans before Trump returned to office in 2025, with Rubio — his career built on hard-line opposition to Cuban socialism — as the new secretary of state.

Can Cuba Survive?

“Cuba is on the brink of collapse,” the mainstream media proclaims in unison. Yet decades of research and lived experience in Cuba counsel skepticism toward such headlines. The demise of Cuban socialism has been foretold more times than the assassination of Fidel Castro was attempted. As I wrote in a book on how revolutionary Cuba survived the collapse of the Soviet-led bloc, this revolution wrote the rulebook on resilience.

Beyond the assertion of national sovereignty, it argued, the creation of an alternative model of development was key to this. One chapter examined the Energy Revolution of 2006, which launched Cuba’s shift to a renewable energy matrix. Faced with today’s onslaught on the oil supply, this shift is proving vital.

Already in 2024, the Cuban government announced plans to install ninety-two solar panel parks by 2028 with credit and technology from China. These will have an installed generation capacity of two gigawatts daily. Half of the planned parks are already installed, contributing around one gigawatt hours daily, around 20 percent of Cuba’s electricity needs. Another 30 percent is derived from domestically produced fossil fuels.

O fim do socialismo cubano foi previsto mais vezes do que as tentativas de assassinato de Fidel Castro.

There remain serious obstacles, however: investments and construction are hindered by Trump’s oil blockade; the photovoltaics need to be connected to the national grid; there is a lack of storage capacity for the energy produced, so it only contributes during daylight; and while electric vehicles have entered Cuba in recent years, most of the transport fleet is fuel-dependent. If Trump and Rubio’s oil blockade remains unbroken, how long can Cuban socialism, and indeed, the Cuban people survive?

The World Needs Cuba

This is no mathematical calculation or intellectual puzzle; it is a human crisis that should concern us all. But what would we lose if Trump achieved what twelve of his predecessors failed to do — the destruction of Cuban socialism?

For any of its flaws, Cuba has demonstrated that after centuries of colonialism and imperialist domination, a subjugated people can take control of their land and resources and chart their own path in development, international relations, and values. The historic commitments to sovereignty and social justice by Cuban revolutionaries link the nineteenth-century wars of independence with the 1959 Revolution, the adoption of socialism, and the struggle against imperialism and underdevelopment. They also underpin Cuba’s symbolism for the Global South.

Leftists who criticize the Cuban system are mistaken to dismiss the remarkable gains the Revolution brought to the Cuban masses — in education, health care, housing, sports, culture, participative democracy, science, and economic and social justice — while also making bold strides in confronting racism, sexism, and class oppression.

This is what inspires people across the Global South, where some 85 percent of the world’s population live. Cuba is a small island that defied an empire and brought its own version of socialism to the western hemisphere, forged through its own revolutionary process, not imposed from outside. Emerging from the ragtag Rebel Army, the Cuban Revolutionary Armed Forces humiliated the United States at the Bay of Pigs in 1961.

Cuba has been a permanent thorn in the side of US imperialism: supporting national liberation and guerrilla movements around the Global South and punching above its weight in geopolitical terms. This was the small country that sent 400,000 soldiers to Angola to defend it from the invading forces of apartheid South Africa. It has consistently contested US hegemony in the Americas and imperialism worldwide, sending military and medical personnel to what President George W. Bush once called “any dark corner of the world.”

In turn, Cuba has survived relentless aggression from the world’s dominant power, whether through overt and covert military actions; sabotage and terrorism by US authorities and allied exiles; economic warfare; or international isolation. It has undermined Cuba by promoting dangerous emigration, including by unaccompanied minors (Operation Peter Pan, 1960–62) but also Cuban doctors (the Cuban Medical Professional Parole Program, 2006–17) while obstructing remittances, family visits, and visas. This is topped off by lucrative funding for regime-change programs.

Not least in this context, the Cuban Revolution has achieved a great deal. It has demonstrated to the Global South the benefits of welfare-centered development under a socialist planned economy with a participative democracy. The revolutionary state improved development indicators to rich-country levels within one generation.

Its free, universal public health care system achieved the highest ratio of doctors per person in the world. It slashed infant mortality, raised life expectancy, and eliminated diseases. Its universal public education system is free for all, including at the highest levels, elevating Cubans to among the most literate and cultured people in the world. It invested in art, culture, and sporta, endorsing them as human rights. It invested in science and technology for social development.

Cuba demonstrou ao Sul Global os benefícios do desenvolvimento centrado no bem-estar social, sob uma economia socialista planificada com democracia participativa.

It created a unique state-funded, state-owned biotechnology sector producing the world’s first meningitis B vaccine, the first therapeutic lung cancer vaccine, a treatment for diabetic foot ulcers that reduces the need for amputations by over 70 percent, and the only COVID-19 vaccines created in Latin America and the Caribbean. Even now, it is trialing promising new drugs for Alzheimer’s disease. Cuba is world-leading in sustainable development and agroecology and has a unique long-term state plan to confront climate change, known as Tarea Vida.

A 2022 study by Jason Hickel and Dylan Sullivan found that between 1990 and 2019 neoliberal policies caused 15.63 million excess deaths worldwide from malnutrition that could have been prevented with Cuba-style policies, including 35,000 in the United States. In a world where 1.1 billion people live in acute multidimensional poverty, two billion lack clean drinking water, and 3.5 billion lack sanitation, Cuban socialism offers a viable alternative.

This force of example is the only sense in which it poses “an unusual and extraordinary threat” to the United States. As Fidel Castro warned before the Bay of Pigs invasion, Cuba would not be forgiven for carrying out “a socialist revolution right under the nose of the United States!”

Revolutionary Cuba has also mobilized the world’s largest international humanitarian assistance program, from health care professionals to technical specialists and construction workers. Guatemalan researcher Henry Morales calculated that between 1999 and 2015, Cuba’s overseas development aid equaled 6.6 percent of its GDP, compared to the European average of 0.39 percent and 0.17 percent from the United States. Since 1960, over 600,000 Cuban medical professionals have served in 180+ countries, saving and improving millions of lives, especially in underserved populations in the poorest countries.

The US government is actively sabotaging Cuban medical internationalism with lies, manipulations, and threats against recipient countries. Under pressure from Trump, some governments have sent Cuban medics home, directly harming their own citizens who are left without health care. Regime change would not only devastate Cuba but hurt millions of people around the world who rely on Cuban assistance.


Rejeite os apelos para que Cuba faça um acordo

Este governo Trump demonstrou total desprezo pelo direito internacional. Realizou execuções extrajudiciais no Caribe e no Oceano Pacífico, sequestrou petroleiros, raptou tripulações e confiscou o petróleo. Sequestrou o presidente da Venezuela e sua esposa e ameaçou invadir, inclusive seus próprios aliados da OTAN, ao mesmo tempo que reviveu e expandiu a Doutrina Monroe e violou os direitos humanos e a autodeterminação nacional.

Nesse contexto, os apelos para que Cuba “faça um acordo” com Trump equivalem a ameaças veladas contra sua soberania. Em vez de oferecer conselhos à ilha sitiada, intelectuais e analistas deveriam exigir responsabilidade do governo dos EUA por seus crimes. Acadêmicos não devem legitimar a ideia de que Trump tem o direito de promover uma mudança de regime, como faz a nova iniciativa acadêmica da Universidade Internacional da Flórida, que busca “conduzir Cuba rumo à liberdade e à democracia, apoiando a transição”.

Uma petição online recente, “Acadêmicos em Solidariedade com Cuba”, condena a política de asfixia do governo dos EUA e defende o direito de Cuba à autodeterminação e ao desenvolvimento socialista. Exortamos acadêmicos e estudantes do mundo todo a assiná-la. Além de petições, precisamos de ações concretas para defender Cuba. Organismos internacionais como a ONU, o BRICS, a UE, o G77 e a China devem se opor à intimidação de Trump enviando combustível e outros bens essenciais para Cuba. Mas não podemos esperar por eles.

Podemos doar fundos e recursos agora. A organização Let Cuba Live! está comprando painéis solares; a Saving Lives Campaign e a Global Health Partners estão adquirindo equipamentos médicos; e o Projeto Hatuey fornece medicamentos contra o câncer para crianças cubanas. Podemos apoiar ou participar da Caravana Nuestra América para Cuba, liderada pela Progressive International, que incentiva pessoas do mundo todo a viajarem para Havana por terra, ar e mar para uma mobilização em massa no dia 21 de março. Seja o que for que façamos, precisamos agir agora. Cuba demonstrou uma solidariedade sem precedentes com o mundo. Agora o mundo precisa se solidarizar com Cuba.

Colaborador

Helen Yaffe é professora de economia política latino-americana na Universidade de Glasgow. Ela é autora de We Are Cuba! How a Revolutionary People Have Survived in a Post-Soviet World e Che Guevara: The Economics of Revolution. Ela é coapresentadora do podcast Cuba Analysis.

11 de março de 2026

O que revela a condenação dos assassinos de Marielle Franco

Os assassinos da vereadora socialista do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foram recentemente condenados, expondo os profundos laços entre a direita brasileira e as milícias violentas. O caso demonstra que as instituições democráticas ainda podem responsabilizar os autores de atos de violência da extrema direita.

Alex MacArthur


O assassinato da vereadora socialista Marielle Franco em 2018 expôs as profundas ligações entre a extrema-direita brasileira e as redes criminosas infiltradas no Estado. (Mídia NINJA)

Por volta das 21h30 do dia 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, um Chevrolet Cobalt prata parou ao lado do carro onde estavam a vereadora Marielle Franco, seu motorista Anderson Gomes e seu assessor de imprensa. Franco acabara de moderar uma mesa-redonda sobre mulheres negras e mudanças estruturais e estava voltando para casa quando o veículo emparelhou com o dela e um assassino armado com uma submetralhadora disparou uma rajada precisa de treze tiros, atingindo Franco e Gomes várias vezes e matando-os antes de fugir em alta velocidade.

Em uma cidade acostumada a derramamento de sangue em público, a natureza do crime ficou imediatamente clara para muitos: não se tratava de um assalto ou de um acerto de contas entre gangues que deu errado, mas de um assassinato político. Franco, com 38 anos na época de sua morte, havia se tornado uma das figuras mais proeminentes da Câmara Municipal, representando o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Uma defensora ferrenha da esquerda e dos direitos dos moradores negros, LGBTQ+ e das favelas, ela presidiu a Comissão de Defesa das Mulheres da cidade e desempenhou um papel importante no monitoramento e na denúncia de violentas operações policiais, muitas delas ordenadas pelo governo estadual de direita. Ela cresceu na favela da Maré, uma região pobre, filha de pais que chegaram à cidade com poucos recursos e a incentivaram a trabalhar duro. Aos onze anos, começou a trabalhar para ajudar no sustento da família e, mais tarde, ganhou uma bolsa de estudos para a universidade, onde escreveu sobre as políticas policiais do estado.

Assim como a ascensão de Franco personificou a promessa da democracia brasileira, sua morte expôs seus limites. Ela foi assassinada por ter se tornado uma das opositoras mais visíveis das milícias do Rio e uma das defensoras mais incisivas dos moradores marginalizados das favelas. Mais do que contrabando de armas, assassinatos por encomenda ou mesmo tráfico de drogas, as milícias — máfias paramilitares de direita compostas em grande parte por ex-militares e policiais que alegavam combater o crime — lucravam enormemente com a grilagem de terras e a especulação imobiliária nas favelas do Rio. Antes de ser eleita, Franco havia trabalhado com o deputado estadual Marcelo Freixo em uma comissão parlamentar de inquérito sobre as milícias, que levou à acusação de milicianos e políticos alinhados a elas. Franco representava tudo o que a direita detestava: uma socialista implacável disposta a expor autoridades corruptas, ela representava uma ameaça material real.
“Marielle era uma mulher negra pobre que desafiava os interesses das milícias. Que mensagem mais forte poderia ser enviada?”, questionou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ao término da longa investigação em 25 de fevereiro. A sentença do tribunal condenou os irmãos Brazão, políticos estaduais que ordenaram os assassinatos, a 76 anos de prisão, além da condenação anterior dos dois ex-policiais que os executaram.

O caso demorou tanto para ser resolvido, em parte, porque autoridades ligadas às milícias nos mais altos escalões do poder, encorajadas durante o mandato do então presidente de extrema direita Jair Bolsonaro — que se recusou a condenar o assassinato e cuja família mantém laços com as milícias — trabalharam para obstruir a justiça. A conspiração para obstruir a justiça se estendeu por todo o estado. A destruição de provas e o desvio de pistas foram posteriormente comprovados como orquestrados pelo então chefe de polícia do Rio, Rivaldo Barbosa, que recebeu uma sentença de 18 anos.

Após o assassinato de Marielle Franco, a pergunta “Quem mandou matar Marielle?” tornou-se um grito de guerra no Brasil e no mundo. A resposta final, obtida por meio de um acordo de delação premiada com um dos assassinos, expôs muito mais do que a depravação dos irmãos Brazão. Revelou uma rede subterrânea coordenada de políticos influentes de direita, policiais e paramilitares — semelhante à conspiração para derrubar o governo que posteriormente levou à prisão de Bolsonaro. À medida que a extrema direita consolida o poder e ameaça as instituições democráticas em todo o mundo, o assassinato de Franco deve servir como um alerta contundente: a violência política que espreita por trás da retórica da extrema direita deve ser levada a sério.

Embora o caminho para a justiça tenha sido tortuoso e árduo, a investigação federal e o julgamento do caso pelo Supremo Tribunal Federal, apesar da forte resistência da direita, também demonstraram que as instituições brasileiras continuam capazes de defender a democracia. “Hoje, o sistema judiciário brasileiro honrou a memória de Marielle e Anderson”, disse Anielle Franco, irmã de Marielle e ministra da Igualdade Racial no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “O Brasil inicia um novo capítulo histórico no enfrentamento da violência política baseada em gênero e raça. A impunidade não pode fazer parte da nossa democracia.”

Colaborador

Alex MacArthur é pesquisador e escritor freelancer, atualmente cursando mestrado em história econômica e social na Universidade de Cambridge.

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