2 de junho de 2026

Gaza foi o último prego no caixão do atlanticismo liberal

Desde o fim da Guerra Fria, os liberais europeus e norte-americanos afirmam defender uma “ordem internacional baseada em regras”. Muitas vezes uma ficção, até mesmo o fingimento desapareceu agora sob os escombros de Gaza.

Entrevista com
Gilbert Achcar

Jacobin

A ordem internacional liberal não morreu quando Donald Trump voltou à Casa Branca. Ao apoiar o genocídio israelense em Gaza, Joe Biden já havia desferido um golpe fatal. (Omar Al-Qataa / AFP via Getty Images)

Entrevista por
Trümmer auf Trümmer

Trümmer auf Trümmer é uma coletânea em alemão que reúne perspectivas críticas sobre o chamado Staatsräson, que serviu para justificar o apoio contínuo do Estado alemão a Israel, bem como sua repressão ao movimento pró-Palestina.

Entre outros temas, aborda a instrumentalização racista da memória do Holocausto, a história das relações germano-israelenses e o papel desempenhado pela esquerda alemã nesse contexto. Nesta entrevista com os editores do livro, o especialista em relações internacionais Gilbert Achcar explica por que o genocídio de Israel em Gaza representa um divisor de águas histórico, destruindo ilusões do atlantismo liberal.

Trümmer auf Trümmer

Em Israel e na maioria dos países ocidentais, palestinos e críticos da política israelense são frequentemente comparados aos nazistas. Desde outubro de 2023, essas comparações têm sido cada vez mais usadas para justificar as ações genocidas de Israel, por exemplo, por Benjamin Netanyahu, quando descreveu o Hamas como “os novos nazistas” em uma coletiva de imprensa com o ex-chanceler alemão Olaf Scholz. Já ​​em 2019, o Bundestag alemão empregou essa manobra retórica em uma resolução contra o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), proclamando que o boicote a produtos israelenses lembrava “a fase mais sombria da história alemã”. Qual é a linhagem histórica dessa narrativa? Em que medida ela é resultado do que você chama de “guerra de narrativas árabe-israelense”?

Gilbert Achcar

A nazificação da rejeição dos árabes e muçulmanos palestinos ao movimento de colonização sionista e ao Estado de Israel que este fundou é uma estratégia de propaganda muito antiga. Historicamente, foi facilitada pelo papel nefasto de Haj Amin al-Husseini. Ele era grão-mufti da Palestina e foi nomeado para o cargo por um alto comissário britânico extremamente pró-sionista. O fato de ter viajado entre Berlim e Roma em 1941, trabalhando com os nazistas e os fascistas italianos, tornou-o uma figura muito apropriada para essa propaganda e contribuiu significativamente para o seu sucesso.

Desde a sua origem, o movimento sionista tem buscado consistentemente retratar os árabes não apenas como adversários, mas como afiliados ideológicos — ou mesmo aliados — do nazismo. Dentro dessa narrativa, a Guerra Árabe-Israelense de 1948, que se seguiu à proclamação do Estado de Israel, é frequentemente abstraída da realidade concomitante da Nakba: o deslocamento em larga escala e a limpeza étnica da população palestina — um ato que se enquadra nos critérios de crime de guerra e crime contra a humanidade, segundo o direito internacional. O fato de ter sido uma limpeza étnica é praticamente indiscutível: até mesmo alguém como o renomado historiador Benny Morris, que passou de pós-sionista a sionista fervoroso, reconheceu que o ocorrido foi uma limpeza étnica. Ele a justifica de alguma forma, mas não se furta a reconhecer o fato. Assim, a guerra de 1948 pôde ser apresentada, de certa forma, como a última batalha da Segunda Guerra Mundial, a última batalha contra o nazismo ou seus aliados.

Aqui podemos ver onde reside a justificativa para a limpeza étnica dos palestinos: "ou nós fizemos isso com eles, ou eles continuariam o Holocausto contra nós". Essa é a lógica, e podemos ver como essa lógica segue uma linha direta até o dia 7 de outubro de 2023, que foi imediatamente enquadrado como "o pior assassinato de judeus desde o Holocausto". Essa forma de enquadrar o evento foi extremamente difundida. De Israel a todos os tipos de governos ocidentais, ouvimos a mesma coisa: este foi o pior massacre de judeus desde o Holocausto. O que isso significa? Significa colocar o que aconteceu em 7 de outubro em continuidade com o Holocausto. Essa é a mesma lógica da nazificação que vem ocorrendo desde a década de 1940.

Situar o dia 7 de outubro — independentemente das atrocidades cometidas naquele dia — em um continuum que remonta ao Holocausto é uma visão muito distorcida da história. Para os palestinos e a maioria das pessoas no Sul Global, esse continuum representa uma longa tradição de lutas anticoloniais. As lutas anticoloniais não são imunes a atrocidades. Houve vários eventos desse tipo na história, em Angola, na Argélia e em outros países, onde massacres brutais foram cometidos em algum momento pelos habitantes locais contra os colonizadores brancos. Não há justificativa para massacres de civis, mas entendemos como eles podem ser uma reação à opressão colonial acumulada, à usurpação de terras e ao racismo.

Dependendo da sequência histórica em que você situa o dia 7 de outubro, chegará a dois resultados muito diferentes. Por um lado, a nazificação do Hamas e, além do Hamas, dos habitantes de Gaza, senão de todos os palestinos, porque muitos dos apoiadores mais fervorosos de Israel mal fazem distinção entre o povo de Gaza, os palestinos em geral e o Hamas. A outra sequência histórica permite superar essa perspectiva de "mal absoluto" e compreender — sem justificar — como pessoas tão oprimidas, que viveram por tantos anos em uma prisão a céu aberto, sofrendo todo tipo de práticas sádicas impostas a elas em relação à sua vida, incluindo bombardeios periódicos, sem falar que a maioria dos habitantes de Gaza são refugiados de 1948 e, portanto, vítimas diretas de limpeza étnica, como pessoas assim recorrem a tais ações, mesmo que — repito — não seja necessário aprovar o que fizeram.

Na minha opinião, o dia 7 de outubro foi um enorme erro de cálculo, que, na verdade, causou muito mais mal do que bem aos palestinos. Causou muito mais danos aos palestinos do que aos israelenses, pois foi usado pela coalizão de extrema direita israelense para lançar uma guerra genocida com o objetivo de completar a limpeza étnica da Palestina em Gaza e, ao mesmo tempo, como podemos ver, também avançando na mesma direção na Cisjordânia, onde a violência de colonos e militares contra a população aumentou tremendamente e continua aumentando desde outubro de 2023. Tudo isso faz parte da guerra de narrativas que sempre foi um elemento crucial deste conflito nacional, étnico e colonial.

Não há nada de novo a esse respeito, exceto que o dia 7 de outubro tornou a situação mais aguda do que antes. A estratégia violenta do Hamas é inadequada e imprópria para a luta dos palestinos. A Intifada de 1988 foi um levante popular não violento, com o simples ato de atirar pedras contra o exército de ocupação. É importante ressaltar que as mulheres puderam participar dessas manifestações, algo que a propaganda sionista não conseguiu nazificar. Não se podia dizer que civis não violentos que protestavam contra um exército de ocupação eram semelhantes aos nazistas; isso seria completamente absurdo. Isso demonstra o tipo de luta apropriado para um povo que enfrenta um inimigo militarmente muito mais forte.

É muito mais eficiente recorrer à luta não violenta e usar a superioridade moral contra a superioridade física do opressor. A quantidade de violência infligida aos palestinos desde a virada do século, desde o colapso dos Acordos de Oslo, foi tamanha que as tentativas de reviver uma luta popular não violenta foram sempre e facilmente sufocadas por grupos como o Hamas. Nesse sentido, o Hamas desempenhou um papel muito negativo para a luta palestina, na minha opinião. Posso entender a origem do Hamas como uma reação a uma longa opressão. Mas isso não o torna melhor. Não é o que os palestinos realmente precisam.

Sempre que as potências ocidentais atacam alguém, a nazificação surge imediatamente. Essa ferramenta de propaganda se baseia em uma perspectiva eurocêntrica.

Voltando à "nazificação", ela faz parte de uma estratégia mais ampla, enraizada no uso do nazismo como o epítome do mal absoluto. Sabemos o quão amplamente isso foi empregado em diversos contextos. Mesmo dentro de Israel, facções políticas se compararam mutuamente a Adolf Hitler, como arma retórica. Na política do Oriente Médio, Israel e seus aliados ocidentais rotularam repetidamente como "nazistas", ou simpatizantes nazistas, aqueles que se opuseram à dominação ocidental: uma figura após a outra foi submetida a essa estratégia de deslegitimação. Gamal Abdel Nasser, o líder egípcio anticolonial e anti-imperialista, foi comparado a Hitler. Yasser Arafat foi comparado a Hitler. Saddam Hussein — um ditador terrível por si só — também foi comparado a Hitler para justificar a invasão e ocupação do Iraque liderada pelos EUA em 2003. Slobodan Milošević, na Europa, foi comparado a Hitler. Sempre que as potências ocidentais atacam alguém, a nazificação surge imediatamente. Esse artifício de propaganda se baseia em uma perspectiva eurocêntrica, no sentido de que as potências europeias sempre projetam sua própria história no resto do mundo. Na verdade, a maior parte do mundo não gira em torno da história da Europa. O trauma colonial, que é uma das condições históricas do nazismo e do Holocausto, se seguirmos Hannah Arendt em sua análise do totalitarismo, tem um impacto muito maior na humanidade do que o próprio nazismo.

Trümmer auf Trümmer

Nesse arcabouço ideológico, em que, como você disse, o nazismo representa o mal absoluto, qualquer crítica a Israel equivale a uma relativização do Holocausto. Consequentemente, houve tentativas de criminalizar termos como “genocídio” e “apartheid”.

Gilbert Achcar

O nazismo foi um mal absoluto, no sentido de que o extermínio sistemático e industrializado de toda uma população pelos nazistas é mais perverso do que qualquer outro genocídio que conhecemos, anterior ou posterior a ele. Outros genocídios do século XX foram perpetrados com meios de destruição muito menos sofisticados — o genocídio armênio, o genocídio ruandês, Darfur, e assim por diante. Nesse sentido, eu não hesitaria em dizer que o pior genocídio desde o genocídio nazista dos judeus é o que temos testemunhado em Gaza desde outubro de 2023. Porque, como descrevo em meu novo livro, A Catástrofe de Gaza: O Genocídio em Perspectiva Histórica Mundial, trata-se do primeiro genocídio perpetrado por um Estado industrializado e altamente militarizado, apoiado pelo Ocidente, desde 1945.

Podemos ver como Israel está aplicando sistematicamente meios sofisticados de destruição contra uma pequena população, com pleno conhecimento de que está matando muito mais civis do que membros do Hamas, muito mais não combatentes, incluindo uma maioria de mulheres e crianças. Eles sabem o que estão fazendo e continuam fazendo com um nível de sadismo prolongado que não víamos desde 1945. Todo o Ocidente chamou o que aconteceu na Bósnia, em Srebrenica, de genocídio. No entanto, recusa-se a reconhecer o caráter genocida do que está acontecendo em Gaza, embora seja muito mais óbvio. Pior ainda, como você mencionou, tenta criminalizar o próprio fato de chamar o que está acontecendo em Gaza de genocídio. Se você chama isso de genocídio, é rotulado de “antissemita” e, de alguma forma, isso significa que você está inserido na narrativa da nazificação, já que imediatamente traz à memória a pior versão do antissemitismo na história.

Trümmer auf Trümmer

Desde 7 de outubro, o Estado alemão vem conduzindo uma campanha de repressão sem precedentes contra palestinos e seus aliados, em nome do combate ao que é chamado de “antissemitismo relacionado a Israel” e “antissemitismo importado”. A ideia de um antissemitismo especificamente árabe não é nova nem exclusivamente alemã — por que surgiu e em que contexto?

Gilbert Achcar

O conceito de “novo antissemitismo” foi cunhado por Bernard Lewis, um estudioso de estudos islâmicos e do Oriente Médio, também conhecido por negar o genocídio armênio. Edward Said descreveu Lewis como um orientalista por excelência. Na década de 1980, Lewis argumentou que o antissemitismo europeu estava desaparecendo e se tornava apenas residual, enquanto um novo antissemitismo surgia — um que, segundo ele, estava enraizado não no preconceito cristão ou racial, mas na oposição política a Israel. Esse novo antissemitismo, de acordo com Lewis, estava intimamente ligado ao que ele chamou de “conflito israelo-palestino” e se expressava cada vez mais em críticas ao sionismo e à política israelense, particularmente no mundo árabe e muçulmano.

O Holocausto traz lições universais. Se você restringir seu significado histórico a uma questão que diz respeito apenas aos judeus, você menospreza sua importância histórica e tira lições erradas.

Ora, isso é tão perverso quanto o artifício da nazificação, no sentido de que o “novo antissemitismo” estabelece uma continuidade com o antigo antissemitismo e, portanto, coloca a oposição política a Israel em continuidade com a história europeia, quando, na realidade, está bastante desconectada dela. Até mesmo Bernard Lewis reconheceu que, enquanto o antissemitismo foi a causa do que aconteceu na Europa, no Oriente Médio ele é o resultado do “conflito israelo-palestino”. Ele admitiu que o que chamou de “novo antissemitismo” foi uma reação à criação do Estado de Israel. E isso faz uma enorme diferença, porque uma maioria dominante que ataca uma minoria por razões puramente racistas, como ocorreu na Alemanha sob o regime nazista, é radicalmente diferente de um povo oprimido que reage à sua opressão demonstrando ódio ao opressor.

Esse ódio ao opressor pode, em alguns casos, levar a uma essencialização do inimigo — como não traçar uma distinção clara entre sionista e judeu. Mas devo dizer que essa distinção é, na verdade, bem compreendida na região árabe, especialmente pelos palestinos, pois há muitos judeus que apoiam sua causa. No próprio movimento de solidariedade à Palestina nos Estados Unidos, muitos jovens judeus americanos estão envolvidos, e esses fatos facilitam a percepção da diferença entre sionista e judeu. Nem todo judeu é sionista, e nem todo sionista é judeu, pois é sabido que alguns dos sionistas e apoiadores de Israel mais fanáticos são cristãos, os chamados sionistas cristãos. Eles representam uma parte fundamental da base do movimento neofascista nos Estados Unidos.

A ideia de um “novo antissemitismo” tornou-se um mantra usado por governos ocidentais posteriormente, especialmente após 7 de outubro. É uma maneira conveniente de criminalizar críticas a Israel, o que está inscrito na definição de antissemitismo adotada pela Associação Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Mesmo o autor dessa definição se distanciou dela, reconhecendo que era um rascunho frágil e apressado. Mas, ainda assim, foi adotada por diversos governos numa tentativa de impô-la às instituições acadêmicas e ao público em geral. Isso representou uma tentativa de sufocar o debate, de impedir a liberdade acadêmica, a liberdade de expressão e a liberdade de criticar o Estado de Israel, a liberdade de criticar uma das guerras mais brutais que vimos em décadas.

É ainda mais perverso no sentido de que os governos ocidentais que usam esse tipo de artifício — e o governo alemão é obviamente um dos mais proeminentes — o aplicam a pessoas que contestam um governo de extrema-direita que tem muito mais em comum com o nazismo do que com qualquer entidade palestina. O governo israelense engloba todo o espectro das forças de extrema-direita: é abertamente racista, abertamente anexionista, abertamente expansionista — mais do que qualquer governo israelense anterior. Essas forças têm muito mais em comum com os nazistas do que com o Hamas, devido à sua posição estrutural como invasores, ocupantes e perpetradores. Estão perpetrando um genocídio. E quando governos como o alemão toleram o genocídio e condenam aqueles que o criticam, é realmente repugnante. É moralmente nojento e demonstra o quanto o chamado filosemitismo pode, na verdade, consistir em antissemitismo invertido: pessoas que têm um complexo de culpa e tentam esconder seu antissemitismo latente adotando uma postura filosemita. Não é preciso ser Sigmund Freud para entender esse mecanismo, e ele é, de fato, bastante perverso.

A islamofobia é a principal forma de racismo e xenofobia na Europa atual, desempenhando um papel semelhante ao do antissemitismo no final do século XIX e na primeira metade do século XX.

Isso também significa que a Alemanha, que se vangloria de ter realizado um trabalho radical de memória para extirpar seu passado nazista, na verdade tirou lições erradas, porque as lições corretas da catástrofe nazista são precisamente aquelas que muitos daqueles que lutaram contra o nazismo, incluindo importantes pensadores judeus, defenderam, contrapondo o legado étnico, racista e genocida dos nazistas com um humanismo universal. A lição correta a ser extraída do genocídio nazista não é "Nie Wieder" (nunca mais) de danos apenas aos judeus, mas "Nie Wieder" (nunca mais) de ocupação, opressão e genocídio contra qualquer povo.

O Holocausto traz lições universais. Se você restringir seu significado histórico a uma questão que diz respeito apenas aos judeus, você menospreza sua importância histórica e tira lições erradas. A Alemanha é, depois dos Estados Unidos, o segundo maior fornecedor de armas para o Estado de Israel, portanto, está diretamente envolvida na guerra genocida em curso. Se a única lição que os governantes alemães conseguem extrair do passado nazista os leva a participar de um novo genocídio perpetrado por um Estado que se declara judeu, isso é absolutamente trágico. Esse fracasso lamentável é consequência da construção ideológica de um Estado que esteve sob regime de direita durante a Guerra Fria, com muitos ex-nazistas em suas instituições após 1945. Essas pessoas não são capazes de extrair lições universais de caráter progressista. São reacionárias, e as únicas lições que conseguem extrair do passado nazista são lições equivocadas, confinadas à mesma perspectiva etnocêntrica e limitada, levando, portanto, a uma transição do antissemitismo para o filosemitismo, com toda a ambiguidade inerente a esse suposto filosemitismo. A situação se torna ainda mais ultrajante quando o atual Estado alemão ataca judeus alemães por suas críticas a Israel. Eles não têm vergonha.

Trümmer auf Trümmer

Em paralelo à popularização do conceito de um novo antissemitismo, a década de 2000 também testemunhou o surgimento da ideia de que a segurança de Israel é a razão de Estado da Alemanha – o chamado Staatsräson, que desde então tem sido cada vez mais imposto por meio de medidas autoritárias. Poderia falar sobre a origem dessa ideia e sobre as relações germano-israelenses? Qual foi o papel de Israel na Alemanha Ocidental do pós-guerra?

Gilbert Achcar

Isso remonta ao governo muito conservador da Alemanha Ocidental após 1945. Konrad Adenauer fez algumas declarações bastante ambíguas sobre os judeus. Como sabemos que havia muitos ex-nazistas nas instituições estatais – Hannah Arendt, em seu livro "Eichmann em Jerusalém", evocou um caso famoso, mas havia muitos outros –, é possível compreender como funcionava a mentalidade dessas pessoas.

Não devemos esquecer que, nos oito anos entre 1933 e 1941 — o ano em que os nazistas começaram a implementar o extermínio sistemático dos judeus, a chamada Solução Final —, eles não estavam perpetrando um genocídio contra os judeus alemães. Estavam implementando uma limpeza étnica, tornando a Alemanha “judenrein” (“livre de judeus”) por meio da expulsão e deportação dos judeus alemães, uma questão na qual encontraram um ponto em comum com o movimento sionista, interessado em atrair judeus para a Palestina. Essa convergência de interesses se traduziu no famoso Acordo de Haavara de 1933 entre as autoridades nazistas e o movimento sionista alemão, que visava forçar os judeus alemães a migrar para a Palestina, o único destino onde lhes era permitido levar consigo algum capital. Após 1945, a Alemanha não tinha mais população judaica, devido, em primeiro lugar, às deportações e, em seguida, ao genocídio. Assim, uma grande parte dos judeus alemães acabou na Palestina por causa do Acordo de Haavara.

Assim, quando o Estado da Alemanha Ocidental começou a apoiar o novo Estado de Israel, foi, de certa forma, uma retomada da colaboração anterior, de 1933-1941, visto que Bonn reduziu as vítimas judias do nazismo ao Estado criado pelo movimento sionista. Apoiou o Estado de Israel em benefício de suas próprias indústrias militares. Em vez de as reparações irem diretamente às vítimas, foram para o Estado que fingia representá-las, embora o sionismo fosse contestado por muitas das vítimas judias do nazismo, sem falar no fato de que o próprio Estado sionista foi construído sobre a limpeza étnica e a ocupação. Da mesma forma, o governo da Alemanha Ocidental obteve seu visto para o clube ocidental durante a Guerra Fria. Viu em seu apoio ao Estado sionista uma maneira de se reabilitar da opróbrio do genocídio nazista e de obter um visto para a entrada da Alemanha na OTAN e a permissão para se rearmar. Tudo estava interligado. O primeiro a estudar esse processo a fundo foi um acadêmico israelense que mais tarde se mudou para Viena, Frank Stern, e o estudo mais recente e completo sobre o mesmo tema é o livro do meu ex-aluno de doutorado, Daniel Marwecki.

Trümmer auf Trümmer

Em um de seus artigos, você argumenta que a ideologia atlanticista conseguiu se apresentar como uma força contrária tanto ao comunismo soviético quanto ao fascismo, identificando o primeiro com o totalitarismo e reduzindo o segundo ao nazismo. Você afirma ainda que a máscara liberal do atlanticismo caiu nos últimos anos. Onde você situa o atlanticismo hoje e qual o papel de Gaza nesse contexto?

Gilbert Achcar

O que chamo de atlanticismo liberal é uma referência ao momento da Aliança Atlântica durante a Segunda Guerra Mundial — originalmente uma aliança antinazista e antifascista, que também era, ao mesmo tempo, antitotalitária, embora aliada à União Soviética até 1945. O principal arquiteto dessa concepção de uma “ordem liberal baseada em regras”, e das Nações Unidas como sua personificação, foi Franklin Delano Roosevelt, um verdadeiro liberal, um progressista. Mas ele morreu em 1945 e foi sucedido por seu vice-presidente, Harry Truman, que representava a ala direita do Partido Democrata. Roosevelt o escolheu para compor a chapa como vice-presidente para abranger todo o espectro político do partido. Truman era um defensor ferrenho da Guerra Fria. Ele basicamente iniciou a Guerra Fria.

Portanto, desde o início, a “ordem internacional liberal baseada em regras” nasceu morta, viciada pela Guerra Fria. E a Guerra Fria levou os Estados Unidos, em particular, mesmo tendo sido o padrinho das Nações Unidas, a se comportarem como um estado pária em suas relações com a ONU. A ponto de, até Ronald Reagan, os Estados Unidos considerarem a ONU como inimiga, após tê-la utilizado por um tempo, quando os países ocidentais detinham a maioria na organização. Desde a década de 1960, quando a maior parte do Sul Global se descolonizou e a composição da maioria na Assembleia Geral da ONU mudou, a mudança de atitude dos Estados Unidos tornou-se evidente. O país passou a encarar a ONU de maneira cada vez mais hostil. Os Estados Unidos têm sido um dos principais violadores das normas do direito internacional.

Existe um paralelo óbvio entre a forma como a administração dos EUA se aproveitou do 11 de setembro e a forma como o governo de extrema-direita de Israel se aproveitou do 7 de outubro para concretizar planos premeditados.

Essa ordem liberal atlanticista era, sem dúvida, falha, mas ainda havia alguma credibilidade na alegação ideológica de "Somos democratas, o farol da liberdade, contra o totalitarismo comunista". Isso apesar de a OTAN ter, desde o início, entre seus membros, uma ditadura quase fascista em Portugal. Houve também uma tentativa de reviver o liberalismo atlanticista no final da Guerra Fria. Com o fim da União Soviética, vimos uma onda de liberais clamando por um novo cosmopolitismo, com tentativas de reviver algum tipo de ordem liberal global baseada em regras, que se desfez rapidamente. A ocupação do Iraque em 2003, liderada pelo governo Bush, foi um momento crucial nesse sentido. Existe um paralelo óbvio entre a forma como a administração dos EUA se aproveitou do 11 de setembro e a forma como o governo de extrema-direita de Israel se aproveitou do 7 de outubro para concretizar planos premeditados.

Durante a década de 1990, os Estados Unidos se comportaram de tal maneira que o mundo passou rapidamente, em poucos anos, da Guerra Fria para o que eu chamo de Nova Guerra Fria. Publiquei um livro com esse título, analisando essa Nova Guerra Fria tripolar que começou na virada do século, entre o bloco ocidental liderado pelos EUA, a Rússia e a China. A tentativa pós-Guerra Fria de reviver a “ordem liberal internacional” fracassou, culminando na guerra de Gaza, que revelou da forma mais flagrante a hipocrisia e o duplo padrão daqueles que condenam categoricamente a invasão russa da Ucrânia, mas ao mesmo tempo defendem a invasão israelense de Gaza.

O ataque de Israel a Gaza foi a primeira guerra em que os Estados Unidos se envolveram completamente ao lado de Israel. De todas as guerras de Israel, esta é a primeira que pode ser descrita com precisão como uma guerra conjunta com os Estados Unidos, que forneceram, por meio de pontes aéreas e transporte marítimo, a maior parte das bombas usadas na destruição de Gaza. Esse fato, somado ao fato de que governos ocidentais apoiaram essa guerra a ponto de se oporem a um cessar-fogo por vários meses — Berlim, Paris e Londres se opuseram a um cessar-fogo em Gaza — demonstra sua flagrante cumplicidade com o que estava acontecendo. Esse foi o golpe final no caixão do liberalismo atlantic.

O golpe final não veio quando Donald Trump voltou à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025. A ordem liberal já estava morta sob Joe Biden e sua posição sobre Gaza.

Trümmer auf Trümmer

O segundo mandato de Trump está desmantelando o bloco atlanticista, e as relações entre a Europa e os Estados Unidos se deterioraram a tal ponto que mal se pode falar em unidade. Simultaneamente, todos os estados ocidentais estão testemunhando a ascensão da extrema-direita, que apoia amplamente Israel. Como você avalia esses desenvolvimentos no Ocidente?

Gilbert Achcar

O golpe final não foi o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025. A ordem liberal já estava morta sob Joe Biden e sua posição sobre Gaza. Essa morte abriu caminho para uma mudança global rumo à era do neofascismo, uma onda global de forças de extrema-direita.

A grande diferença em relação à onda fascista do século passado é que os Estados Unidos não são mais um baluarte contra o extremismo de direita, mas, ao contrário, seu epicentro. O país apoia o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) na Alemanha, o regime de Viktor Orbán na Hungria e todos os tipos de forças de extrema-direita na Europa e no mundo. O ímpeto político ocidental deslocou-se do liberalismo para o neofascismo. Os governos liberais da Europa Ocidental estão, por sua vez, a inclinar-se cada vez mais para a direita, adaptando-se ao discurso da extrema-direita, e, consequentemente, encontram-se em declínio. Entramos numa era histórica muito perigosa.

Um tema comum a estas forças, pelo menos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, é a islamofobia. Este é o verdadeiro “novo antissemitismo”, no sentido de que a islamofobia é a principal forma de racismo e xenofobia na Europa atual, desempenhando um papel semelhante ao do antissemitismo no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Qualquer pessoa verdadeiramente antirracista, antifascista e antinazista deveria ser capaz de compreender este facto óbvio.

Trümmer auf Trümmer: Zur Kritik der deutschen Staatsräson conta com contribuições de Bue Rübner Hansen, Leandros Fischer, Sami Khatib, Jewish Currents, Gerhard Hanloser, Emily Dische-Becker, Anna Younes, Alexander Gorski, 3ezwa, Nahed Samour, AK Beau Séjour e Alberto Toscano. Foi publicado em maio de 2026 pela Die Buchmacherei.

Colaboradores

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

Trümmer auf Trümmer é uma coletânea em língua alemã que reúne perspectivas críticas sobre a suposta responsabilidade do Estado alemão em apoiar Israel.

29 de maio de 2026

Ângulos de Visão

Marx vs. Weber

Dylan Riley

Sidecar


Qual a relação entre as interpretações de Marx e Weber sobre o capitalismo? Rios de tinta já foram derramados na tentativa de sintetizar ou contrapor os dois grandes analistas do capitalismo. A discussão gira em torno de uma série de contrastes já bastante explorados: mercados ou produção, classes ou estamentos e, claro, o mais familiar de todos, a conduta de vida determinada pela religião versus a força propulsora das relações de propriedade. Em sua grande maioria, essas diferenças são apresentadas como substantivas: uma disputa teórica entre explicações causais alternativas. Mas, de alguma forma, isso não capta a essência da questão.

O contraste entre os dois não reside principalmente em suas afirmações sobre as origens do capitalismo. Nenhum dos dois, no fim das contas, foi capaz de oferecer uma explicação geral convincente. Isso não significa que suas obras sejam dispensáveis, pois ambos possuíam uma virtude lamentavelmente rara – a capacidade de transmitir o quão surpreendente e estranho é o capitalismo como sistema de produção e troca, e, assim, transformar em um problema a ser resolvido o que tem sido o contexto da existência humana por algumas centenas de anos. Suas falhas explicativas devem, portanto, ser consideradas entre as mais frutíferas da história das ciências humanas.

Em todo caso, a questão principal reside em outro lugar, em seus pontos de vista ou perspectivas. Lukács talvez tenha compreendido isso melhor. Em sua explicação, Weber tipificou o ponto de vista da burguesia, no sentido de que sua análise do capitalismo mostrou exatamente até onde se poderia ir – e acabou sendo muito longe – partindo da perspectiva da empresa. Em que condições os proprietários poderiam calcular seus lucros esperados com o maior grau de precisão? O ponto de partida de Marx foi diferente. Ele começou perguntando em que condições os valores de uso geralmente se apresentariam como mercadorias. No entanto, os dois chegaram a uma conclusão semelhante. Uma condição prévia – seria errado dizer “causa”, dadas as inúmeras maneiras pelas quais o resultado foi alcançado – do capitalismo é o trabalho assalariado. Para Weber, isso se devia ao fato de que somente o trabalho assalariado permitia o cálculo preciso do custo da força de trabalho. Para Marx, o trabalho assalariado servia como uma abreviação para todo o sistema de relações de propriedade em que uma classe detém o monopólio social sobre a propriedade dos principais meios de produção, enquanto outra classe não possui nada além de sua capacidade de trabalho.

O que se segue é que a diferença essencial entre Marx e Weber reside em seus respectivos "ângulos de visão". Marx abordava o capitalismo a partir da perspectiva do trabalho assalariado, Weber a partir da perspectiva dos proprietários do capital. É nesse sentido conceitual-epistemológico, e não biográfico, que Weber era um burguês e Marx um pensador proletário. Uma lição geral está contida aqui: os pontos de vista são conquistas político-epistemológicas, não expressões imediatas do ser social. Não são atitudes ou opiniões, mas perspectivas conscientemente determinadas que revelam ao cegar e cegam ao revelar.

A aposta de Lukács era que os dois poderiam ser sintetizados em termos marxistas, por meio das categorias de imediatismo e mediação. Weber, segundo Lukács, havia compreendido a experiência imediata do capitalismo para todos os seus agentes sociais. Mas a capacidade de elevar essa experiência à reflexão consciente dependia da posição de classe a partir da qual o processo de mediação se desenrolava. A burguesia podia tomar consciência de sua própria posição social sem alcançar uma consciência do caráter historicamente específico do capitalismo como estrutura de classe. De fato, quanto mais progredia na clarificação de seus interesses, mais o mundo lhe parecia uma estrutura dada dentro da qual a ação individual se desenrolava. Para a burguesia, a conquista da consciência de classe, portanto, impunha obstáculos à compreensão da história. O proletariado, por outro lado, não podia chegar a uma compreensão adequada de seus interesses sem compreender a história como história das estruturas de classe; assim, para a classe trabalhadora, havia uma relação íntima entre compreensão histórica e consciência de classe.

Nota bene: muitas das objeções feitas a Lukács, por exemplo, a de que o proletariado frequentemente não tem consciência de classe, são em grande parte irrelevantes. A questão não é que uma posição de classe proletária vá, por meio de algum processo biográfico, gerar uma compreensão da história, mas sim que, para o proletariado agir como classe, ele precisa alcançar tal compreensão: uma questão completamente diferente. Em vez de superar Hegel em sua própria interpretação, isso talvez seja melhor compreendido como uma brilhante, e ainda em grande parte inexplorada, adaptação de Weber.

21 de maio de 2026

Os pilares em ruínas da paz global

Guerra, império e o poder esquecido das Nações Unidas

Thant Myint-U

Foreign Affairs

Logotipo das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York, setembro de 2025
Jeenah Moon / Reuters

A longa paz das últimas oito décadas se baseou em duas convicções revolucionárias: a de que as guerras de agressão são intoleráveis ​​e a de que os impérios devem acabar. O primeiro princípio emergiu da carnificina de duas guerras mundiais, que juntas mataram cem milhões de pessoas. O segundo veio de séculos de subjugação colonial e da luta pela autodeterminação na Ásia, África e América Latina. A Carta das Nações Unidas, assinada em São Francisco em junho de 1945, deu forma política a ambas as convicções.

Desde então, o mundo evitou uma guerra catastrófica entre grandes potências. Ainda mais notável, os impérios europeus globais foram desmantelados e substituídos por um novo sistema de quase 200 estados soberanos. Ambas as conquistas se combinaram para possibilitar avanços extraordinários no bem-estar humano. Certamente, o mundo testemunhou muitos conflitos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, incluindo guerras brutais de descolonização, e o crescimento econômico acelerado veio acompanhado de profundas desigualdades e destruição ambiental. Mas permanece indiscutível que, para bilhões de pessoas, os últimos 80 anos foram um período de paz e crescente prosperidade.

Essa era está chegando ao fim. As convicções gêmeas de não haver guerra e não haver impérios, os pilares da longa paz, estão ruindo rapidamente. Os sintomas são claros. Guerras interestatais e civis proliferaram nos últimos anos, causando sofrimento imensurável a centenas de milhões de pessoas. As próprias grandes potências lançaram guerras de agressão, incluindo a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra conjunta EUA-Israel contra o Irã. As potências nucleares estão modernizando e expandindo seus arsenais, os acordos de controle de armas estratégicas expiraram, instalações nucleares sofreram ataques militares diretos nos últimos anos e Estados grandes e pequenos estão se armando em um ritmo sem precedentes desde a década de 1980. Na Ucrânia, Palestina, Sudão e agora no Irã, a diplomacia aparece apenas em sua forma mais anêmica ou improvisada. E, à medida que o conflito se espalha, a atuação das Nações Unidas para a manutenção da paz está ausente.

A explicação padrão para a crise em curso é o colapso da chamada ordem internacional liberal ou baseada em regras, um arranjo pós-Guerra Fria atrelado à supremacia militar e financeira americana. O afastamento de Washington de alianças e instituições multilaterais como a OTAN e a Organização Mundial do Comércio significa que essa ordem está, de fato, se desintegrando. Mas essa análise confunde duas coisas muito diferentes. A ordem internacional liberal não foi o que produziu a paz duradoura. Em vez disso, e de forma significativa, minou as duas convicções em que a paz realmente se baseava.

O verdadeiro desastre é o abandono das convicções gêmeas de não haver guerra e não haver império por parte de Estados e cidadãos, causado não pela retirada americana, mas pela erosão da liderança moral internacional e da memória coletiva que outrora as sustentavam. Trata-se de uma crise de imaginação produzida por uma amnésia composta, não apenas da guerra e do império, mas também dos extraordinários sucessos na busca pela paz alcançados por uma ONU anterior. Recuperar essa história perdida e reconstruir a política (e somente então, as instituições) que outrora colocaram essas duas convicções no centro do pensamento global são os primeiros passos essenciais rumo a uma nova ordem global pacífica.

Essa história perdida importa ainda mais porque o mundo que está emergindo, no qual nenhuma potência consegue organizar a política internacional em torno de suas próprias preferências, assemelha-se mais ao mundo da ONU anterior (de aproximadamente 1955 a 1990) do que ao das últimas três décadas e meia de supremacia americana. A recente guerra entre os EUA e Israel contra o Irã pode ser um prenúncio de futuros conflitos, uma guerra interestatal na qual um ou mais lados precisarão do que hoje é frequentemente chamado de "saída". No passado, foi precisamente quando as partes beligerantes se aproximavam da exaustão ou temiam uma escalada, mas não conseguiam encontrar uma saída fácil, que os secretários-gerais da ONU se mostraram indispensáveis, repetidas vezes, criando não apenas uma saída qualquer, mas uma que salvaguardasse a paz futura, reforçando o tabu contra guerras de agressão e o imperativo de que a era dos impérios não deve retornar.

As Nações Unidas podem ser reconstruídas. O que se faz necessário não é tanto uma solução institucional (por mais importante que seja a reforma na composição do Conselho de Segurança, por exemplo), mas sim a restauração das duas convicções: por meio de uma liderança política disposta a defendê-las, um novo secretário-geral da ONU que as demonstre na prática e uma opinião pública global que exija, mais uma vez, um mundo sem guerras nem impérios. As iniciativas de paz da ONU no passado foram possíveis não porque as instituições fossem perfeitas — elas nunca foram —, mas porque as convicções que animavam essas instituições estavam politicamente vivas, defendidas e promovidas por Estados e povos determinados a mantê-las no centro das relações internacionais.

A WORLD REMADE

The United Nations was not born as a liberal project. It was first conceived as a muscular continuation of the wartime alliance, a collective security mechanism that would crush future aggression, with U.S. and Soviet bomber planes operating jointly from air bases circling the globe. But other, more expansive visions of the UN imagined it as an organization that would include the voices of smaller states working together toward a better world. The charter represented a compromise. By the time of its signing 81 years ago, Washington and Moscow were already beginning to eye each other as adversaries and wanted to make sure that the UN would above all prevent a third world war. The five permanent members of the Security Council—China, France, the Soviet Union, the United Kingdom, and the United States—were each given a veto to make sure that the organization could never become an alliance against any of them. They hoped that by keeping everyone within the same system, even at the cost of paralysis, there would be no repeat of the dynamics that led to the downfall of that earlier, ill-fated attempt at an international peace organization, the League of Nations.

The Security Council was soon deadlocked, failing for example, to prevent war in Korea. But the UN as a whole soon flourished as secretaries-general spread their wings to become the world’s mediators in chief. During the Suez crisis of 1956, the Swedish secretary-general Dag Hammarskjold deployed the UN’s first peacekeeping force, practically overnight, as a way of providing France, Israel, and the United Kingdom a face-saving egress from their ignominious invasion of Egypt. The UN as an instrument of the first conviction, on the inadmissibility of wars of aggression, was made real. Governments began instinctively to turn to the head of the UN in times of crisis, for instance, in 1958 in Lebanon, where Hammarskjold’s observer force helped create the conditions for an American withdrawal. The secretary-general may have lacked an army, but he had the moral authority of a global and impartial mediator.

At the same moment, the conviction that empires must end was coming to life. Representatives of the newly independent states of Asia and Africa arrived in New York in waves, many of them fresh from victory in decades-long struggles for independence, and transformed the UN into humanity’s first universal institution. They embraced the charter with a fervor its Western authors had not anticipated and insisted that its language of sovereign equality and human dignity applied to all peoples. Many worked with civil rights leaders in the United States; they challenged racial hierarchy wherever it persisted. In doing so, they activated the latent radicalism embedded in the charter’s founding language, turning principles into political demands. In 1960, the UN General Assembly, led by the “Afro-Asian” bloc, overcame long-standing Western opposition and passed the landmark Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples, placing the UN unequivocally on the side of those fighting against empire. At the same time, these new states vigorously backed Algeria’s war of independence against the French.

But their vision went deeper than the end of formal empire. Sovereignty, in their view, could not mean simply a European flag coming down and a new one going up. It had to mean genuine freedom from political interference and external economic domination. A world of truly sovereign equals, they argued, was the only stable foundation for lasting peace. They anchored their postimperial vision within a UN framework, preventing international anarchy and forging the global system that exists today.

A TRULY UNIVERSAL MANDATE

The new states in Asia and Africa, countries such as Ghana, India, and Indonesia, working closely in New York with neutral states such as Ireland, Sweden, and Yugoslavia, saw no reason why this new world of sovereign equals should be held hostage by superpower rivalry. They opposed the very logic of the Cold War and worried that the Americans and the Russians, left to their own devices, would sooner or later take the rest of the world down with them. In their view, given the threat of atomic annihilation, only a new era of peace and global cooperation grounded in sovereign equality could follow the age of empire. Together, they invested the UN with a moral authority that did not flow from any great power, a mandate that would prove decisive in the decades ahead.

During the Cuban missile crisis in 1962, the Burmese UN secretary-general U Thant provided the vital off-ramp. Through a series of public and private messages to U.S. President John F. Kennedy and Soviet leader Nikita Khrushchev, as well as a personal mission to Cuban President Fidel Castro in Havana at the height of the crisis, he positioned himself, without any authorization from the Security Council, as the impartial mediator essential for de-escalation. (Thant was my grandfather and the subject of my recent book, The Peacemaker: U Thant and the Forgotten Quest for a Just World.) For Khrushchev and Castro, being able to respond positively to an appeal for peace from a UN secretary-general rather than an ultimatum from Washington proved indispensable. Kennedy, on more than one occasion, pushed back against aides calling for military action by arguing that the United States had to wait for “U Thant’s diplomacy.” When needed most, the UN generated the time and space required for the great powers to walk themselves back from the brink.

There were many more mediation triumphs to come, from Cyprus to Indonesia. In 1965, when India and Pakistan went to war over Kashmir, Thant flew to both capitals. Accepting UN mediation implied no weakness. The secretary-general was under no illusion that he could stop a war in full flow. Instead, he cultivated the trust of both leaders, crafted a cease-fire formula, then judged exactly when a degree of Security Council pressure would prove most helpful. After three weeks, when battlefield options became limited, a UN peace option was ready and waiting, including the immediate deployment of military observers to prevent renewed clashes. The war came to an end.

As paredes estruturais do longo trecho estão cedendo rapidamente.

A different kind of test came in the Congo, which had become independent in 1960 but where, within days, the former colonial power, Belgium, launched what it called a humanitarian intervention and hived off a mineral-rich southern region, Katanga, under a white supremacist regime. White supremacist forces soon participated in the overthrow and eventual killing of Congo’s elected prime minister, Patrice Lumumba. Thant pushed for a military solution, mobilizing an Indian-led UN force of Africans, Asians, Swedes, and Irish troops that routed the white supremacist forces in early 1963. In this case, tough UN action put the organization’s increasingly spirited stance against empire into practice.

Washington’s attitude toward its creation, however, began to sour. Thant’s framing of the war in Vietnam not as a Cold War “domino” but as a fight for self-determination, together with his multiyear efforts without any Security Council mandate to broker talks between the United States and North Vietnam, provoked fury in Washington. From 1967 onward, his attempts to seek a peace in the Middle East that included Israel’s full withdrawal from the occupied territories also fueled perceptions that the world body was biased against the Jewish state.

Starting in the late 1960s, the UN, overriding Western objections, supported liberation movements against colonial and white supremacist regimes across southern Africa. The UN also pushed for a reshaping of the global economy, an effort culminating in the 1974 Declaration for a New International Economic Order, which demanded fairer terms for trade, technology transfers, and control over natural resources, a vision of global economic relations that could power growth while reducing inequalities.

Em reunião do Conselho de Segurança da ONU, Nova Iorque, abril de 2026
Eduardo Munoz / Reuters

But by then, a very different view of the future was consolidating in Washington and other Western capitals, one in which the Soviet Union was defeated and economic globalization was anchored in Western markets and in which an independent and assertive UN had little place. And in the former colonial world, the tide had turned. The generation of postcolonial internationalists, such as Indian Prime Minister Jawaharlal Nehru, Ghanaian President Kwame Nkrumah, and Indonesian President Sukarno, had passed from the world stage. From Jakarta to Accra to Santiago, right-wing military coups (often with U.S. backing) ousted some of the governments most committed to a postimperial vision.

As American hostility swelled and developing-world leadership waned in the 1980s, this earlier version of the UN, now hidden from view, not only survived but also matured. Drawing on decades of shared experience, the Peruvian secretary-general Javier Pérez de Cuéllar and his team of mediators labored patiently to build the framework that in 1988 finally brought the Iran-Iraq war to a close. Over these years, they brokered complex settlements in Afghanistan, Cambodia, El Salvador, Mozambique, Namibia, and elsewhere, setting the stage for an end to the Cold War.

By the early 1990s, the UN had safeguarded the long peace through over a dozen peacemaking interventions and through its consolidation of the postimperial system of sovereign nation-states. It had helped the world avoid a disastrous alternative: ever-bloodier struggles for independence, fueled by the arbitrary borders left by colonial powers, that could have led to an unimaginable conflagration, even nuclear war. The UN’s success was not the work of any single power or ideology but the twin convictions of no war and no empire, realized through the labors of the first institution representing all the peoples of the world.

NEW WORLD ORDER

Over the following years, however, the UN was reshaped again, this time by the end of the Cold War and the emergence of the United States as the sole superpower. The so-called liberal international order that followed the collapse of the Soviet Union was built around Washington’s unchallenged economic and military supremacy. The UN reached new heights but often as an uncomfortable adjunct of the new dispensation.

Interstate mediation gave way to interventions in civil wars. The “Third World” vision of a new international economic order with a fairer global trading system at its core was swapped for development aid and poverty reduction targets set by the agendas of Western donors. Sovereignty became conditional, subject to override in the name of human rights and humanitarian need, with armed operations, for example in Haiti, Somalia, and the former Yugoslavia, setting new precedents.

The problem was not the ambition: ending civil wars and advancing human rights are entirely consistent with the UN Charter’s founding principles. But in prior decades, the newly independent states had fiercely defended the UN’s principle of nonintervention as the institutional embodiment of the conviction against empire. The increasing number of Security Council-authorized interventions after the Cold War, from Somalia in 1992 to Libya in 2011, even when occasioned by atrocities or widespread violations of human rights, risked turning the organization into a mechanism for projecting American power rather than upholding universal principles. In the process, the conviction against empire that once defined the UN began to erode. The U.S. invasion of Iraq in 2003 dealt a direct blow to the conviction against wars of aggression. By the time Russia invaded Ukraine, the twin convictions were already crumbling. The once highly visible role of secretaries-general as mediator between states had all but disappeared.

And now, the post–Cold War liberal international order is itself disappearing. The United States has turned its back on alliances that were the linchpins of that order. That order was also never designed to accommodate the rise of non-Western powers, above all China. Amid these swirling currents, the UN has been left rudderless and now faces acute financial pressure, its past record of peacemaking success almost entirely forgotten.

PAST CAN BE PROLOGUE

What is needed now is the restoration of the original twin convictions to the heart of global politics. The principles of no war and no empire are not idealistic aspirations, but the load-bearing walls of the only period of truly global peace humanity has ever built. They require urgent, determined, and articulate defense. What’s important is not multilateralism, which is value-free and can serve any agenda, but the ideas served by global cooperation. Reform of the UN matters, but it is secondary: institutions can only reflect the politics that animate them.

The current moment underscores the urgency of making these ideas operational again. For that to happen, three things are required. First, a mix of governments from across all regions must be willing to work at the highest levels to champion the dual convictions and insist that they guide international responses to conflict and crisis.

Second, the next secretary-general, who is to be selected in the coming months, must have the courage and creativity to insert himself or herself into the most dangerous conflicts, demonstrating through bold action that principled peacemaking remains possible. To be sure, the successes of past secretaries-general were never purely personal. They depended on the willingness of great powers to grant at least minimal room to maneuver and leaders from other states, big and small, to invest genuine political capital in the organization. Failures may be more numerous than successes. But energetic efforts by the next secretary-general to defuse and end conflicts can begin to shift what states believe is achievable and what publics can imagine.

Third, and most fundamentally, governments and publics must recover the memory of the disasters of war and empire and of what the early UN achieved. Without that, even the most determined efforts at renewal will be impossible.

Histórias de confrontos entre heróis e vilões são mais envolventes do que aquelas de mediação e compromisso.

There was a time when every person sitting around the UN Security Council table had direct experience of total war or colonial humiliation. They needed no reminders of the horrors of both. What should have followed the passing of that generation was cultural transmission, the stories a society tells about itself, that kept the twin convictions alive. But the transmission failed. World War II, for example, is routinely celebrated in the West as a historic triumph but seldom remembered as an overwhelming calamity in which ascendant powers and waning empires flung the world into a maelstrom of unprecedented carnage. In much Western publishing, media, and elite education, early UN history, particularly the pivotal role played by non-Western states in shaping the postcolonial world, has been entirely overlooked, often in favor of narratives framed around the United States’ contest with the Soviet Union. The deeper problem is cultural: stories of the clash of heroes and villains are more compelling than those of mediation and compromise. Even in the global South, many have only absorbed a version of the past from which their own most important chapters had been air-brushed from view. The early UN was memory-holed so successfully that in the mid-1990s, transcribers working on John F. Kennedy’s audiotapes from the Cuban missile crisis garbled references to the “U Thant initiative” as “the attack thing.”

War is, of course, not distant from everyone today. Millions around the world have had their lives destroyed in recent conflicts. But those most affected are rarely in the rich countries where the decisions that matter most are made. An exception are the men and women of the United States who served in Iraq and Afghanistan and their families, many of whom have made clear their desire never to see their country fight a war of choice again. But this desire is orphaned from the story of the very institution created by their own country that once prevented and might again prevent the kinds of wars they oppose.

Across the world, the desire for a world free of war and empire exists, waiting to be mobilized and given fresh political voice. These convictions remain the surest basis on which to build a new peace architecture for the rest of the twenty-first century. Recovering that memory and renewing global leadership is the most urgent task in international politics today.

THANT MYINT-U é pesquisador sênior da Fundação das Nações Unidas e autor de Peacemaker: U Thant and the Forgotten Quest for a Just World (Pacificador: U Thant e a Busca Esquecida por um Mundo Justo).

20 de maio de 2026

A acusação contra Raúl Castro é um pretexto para a guerra

Washington passou décadas protegendo terroristas cubanos exilados, ao mesmo tempo que criminalizava a resposta de Cuba a eles. A acusação contra Raúl Castro é o capítulo mais recente dessa história — e um pretexto para algo muito pior.

Nicholas Greven


O ex-presidente cubano Raúl Castro na província de Pinar del Río, Cuba, em 26 de julho de 2017. (Adalberto Roque / AFP via Getty Images)

A violência, incluindo o terrorismo, contra Cuba tem sido tolerada em Washington há muito tempo; a resposta de Cuba a ela, não. Esse duplo padrão está mais uma vez em plena evidência, enquanto o governo Trump se prepara para indiciar o ex-presidente cubano Raúl Castro pelo abate de dois aviões há trinta anos — mesmo enquanto os militares dos EUA explodem regularmente barcos no Caribe e no Pacífico Leste, matando quase 200 pessoas impunemente.

O abate de dois Cessnas pertencentes ao grupo Irmãos ao Resgate, com sede em Miami, em 1996, não foi um ato repentino ou sem contexto. Foi precedido por repetidas provocações e incursões, inúmeros avisos e a recusa do governo dos EUA em conter um grupo político que buscava abertamente o confronto.

Apresentada em Miami e Washington como uma busca há muito esperada por responsabilização pelas mortes de quatro homens, a acusação pendente se baseia em fundamentos já conhecidos: indignação seletiva, amnésia histórica e excepcionalismo jurídico.

De missões de resgate à provocação

A organização Irmãos ao Resgate foi fundada por José Basulto, veterano da fracassada invasão da Baía dos Porcos e colaborador da CIA com um histórico de ações violentas contra Cuba. Em 1961, Basulto esteve envolvido em um plano para bombardear uma base de mísseis em Havana. Um ano depois, ele ajudou a posicionar um barco armado com um canhão de 20 mm na costa de Havana e disparou contra o Hotel Hornedo de Rosita, onde acreditava que Fidel Castro estaria jantando, segundo a revista The Atlantic.

"Fui treinado como terrorista pelos Estados Unidos", disse Basulto.

O relato a seguir se baseia em grande parte no livro Back Channel to Cuba, de William M. LeoGrande e Peter Kornbluh, que documentam as trocas diplomáticas e os eventos que levaram ao ataque da organização Irmãos ao Resgate.

O grupo Brothers to the Rescue começou em 1991 realizando missões de busca e resgate de jangadeiros cubanos. Mas, após um acordo de imigração de 1994 reduzir drasticamente o fluxo de migrantes através do Estreito da Flórida, o grupo mudou o foco do trabalho de resgate para a provocação declarada. “Eles começaram... a executar uma agenda política de assédio e ameaça ao governo cubano”, lembrou Richard Nuccio, então conselheiro especial da Casa Branca para Cuba. Os pilotos do Brothers to the Rescue violaram repetidamente o espaço aéreo cubano, lançando medalhões religiosos e panfletos antigovernamentais sobre Havana, incluindo um, documentado por LeoGrande e Kornbluh, que incitava os cubanos a “Mudar as Coisas Agora”.

Autoridades cubanas utilizaram todos os meios de comunicação disponíveis para deixar claro que sua paciência havia se esgotado.

Basulto foi transparente quanto ao propósito dos voos. Após um sobrevoo de Havana em 1995, ele declarou: “Queremos confronto”. A missão, disse ele, tinha como objetivo mostrar que “o regime não é invulnerável”.

O governo cubano alertou repetidamente Washington de que os voos eram ilegais e perigosos. Autoridades cubanas apresentaram protestos diplomáticos, enviaram evidências à Administração Federal de Aviação (FAA) e deixaram claro que, se as incursões continuassem, Cuba poderia abater os aviões. Autoridades americanas sabiam que o perigo era real. Em um e-mail de janeiro de 1996, obtido pelo Arquivo de Segurança Nacional, a funcionária da FAA, Cecilia Capestany, informou seus superiores que “um dia desses os cubanos vão abater um desses aviões”.

Mesmo assim, Washington não conseguiu impedir os voos. Autoridades cubanas utilizaram todos os meios de comunicação disponíveis: notas diplomáticas, briefings militares, intermediários e contatos informais para deixar claro que sua paciência havia se esgotado.

Em 24 de fevereiro de 1996, três Cessnas da organização Irmãos ao Resgate decolaram da Flórida após apresentarem um plano de voo falso, alegando que estavam procurando por jangadeiros no mar. Na realidade, a missão tinha como objetivo penetrar o espaço aéreo cubano.

À medida que as aeronaves se aproximavam da ilha, os controladores cubanos imediatamente as advertiram para não cruzarem seu espaço aéreo. "Vocês correm perigo ao penetrar por esse lado", responderam.

"Estamos prontos para isso", respondeu Basulto, conforme documentado pelo Arquivo de Segurança Nacional. "É nosso direito como cubanos livres."

Pouco depois, caças cubanos abateram duas das aeronaves, matando os quatro homens a bordo. O avião de Basulto conseguiu retornar a Miami.

Transformando uma tragédia em arma

A queda dos aviões da Irmãos ao Resgate não foi usada apenas para demonizar Cuba. Também remodelou a política dos EUA por décadas.

Antes do incidente, o governo Clinton vinha explorando cautelosamente aberturas limitadas com Havana. Mas, após o abate dos aviões, os linha-dura no Congresso aproveitaram o momento. Dentro da Casa Branca, alguns funcionários alertaram contra uma reação exagerada. A organização Brothers to the Rescue havia “brincado com fogo”, disse Nuccio à assessora sênior Sandy Berger. “Eles conseguiram exatamente o que esperavam.”

O alerta foi ignorado. Bill Clinton rapidamente apoiou a Lei Helms-Burton, que codificou o embargo americano em lei e, por meio de seu Título III, expandiu seu alcance extraterritorial, permitindo que cidadãos americanos processassem empresas estrangeiras acusadas de “tráfico” de bens nacionalizados após a Revolução Cubana. Clinton e todos os presidentes subsequentes suspenderam o Título III por mais de duas décadas, até que Donald Trump ativou a disposição em 2019, desencadeando dezenas de processos que resultaram em um êxodo de investimentos estrangeiros da ilha.

O que falta na acusação do Departamento de Justiça é o longo histórico de extremistas violentos baseados na Flórida que têm Cuba como alvo, um histórico que persiste até os dias atuais.

O abate do avião da Brothers to the Rescue também se tornou central para o processo contra Gerardo Hernández, um dos Cinco Cubanos, um grupo de agentes enviados disfarçados ao sul da Flórida para monitorar organizações terroristas ligadas a ataques contra civis em Cuba. Em 1998, autoridades cubanas entregaram ao FBI extensa documentação detalhando dezenas de planos terroristas financiados pelos EUA. O FBI respondeu prendendo os agentes que haviam se infiltrado nas redes terroristas. Hernández foi condenado em 2001, em um julgamento altamente controverso, por acusações de conspiração relacionadas ao abate do avião da Brothers to the Rescue, apesar de não haver provas de que ele tenha participado, ordenado ou tido conhecimento prévio da decisão de derrubar a aeronave.

Quase três décadas depois, o mesmo incidente está sendo mais uma vez usado como arma para atacar Castro, desprovido do contexto mais amplo em que ocorreu. O que falta na acusação do Departamento de Justiça é o longo histórico de extremistas violentos baseados na Flórida que têm Cuba como alvo e que persiste até os dias atuais.

Terrorismo na Flórida e décadas de impunidade

Em 25 de fevereiro de 2026, uma embarcação registrada na Flórida, com dez homens armados a bordo, trocou tiros com a guarda costeira cubana a uma milha da costa norte de Cuba. Segundo o Ministério do Interior de Cuba, os homens abriram fogo primeiro, ferindo um comandante cubano. Após o tiroteio, cinco dos homens foram mortos e a embarcação foi apreendida, juntamente com mais de 12.000 cartuchos de munição, rifles de precisão, coquetéis Molotov, coletes à prova de balas e equipamentos de visão noturna. Todos os dez homens a bordo eram, segundo relatos, residentes nos Estados Unidos nascidos em Cuba.

O incidente foi o episódio mais recente de uma campanha de décadas de ataques armados, sabotagem e terrorismo dirigidos a Cuba a partir de solo americano, frequentemente com impunidade e, por vezes, com proteção política tácita em Miami e Washington.

O exemplo mais infame é o voo 455 da Cubana de Aviación. Acredita-se amplamente que Orlando Bosch e Luis Posada Carriles tenham planejado o atentado de 1976 contra o avião comercial, que explodiu na costa de Barbados, matando todas as 73 pessoas a bordo. Na época, foi o ato de terrorismo aéreo mais letal do hemisfério ocidental. Entre as vítimas estavam crianças e todos os membros da equipe nacional de esgrima de Cuba.

O FBI posteriormente descreveu a organização de Bosch, a Coordenação das Organizações Revolucionárias Unidas (CORU), como uma “organização guarda-chuva terrorista anticastrista”, enquanto o ex-procurador-geral dos EUA, Dick Thornburgh, chamou Bosch de “terrorista impenitente”. Posada Carriles esteve envolvido em uma longa série de operações violentas que se estenderam por décadas, incluindo uma campanha de atentados a bomba em 1997 contra hotéis em Havana, que matou um turista italiano e feriu vários outros.

Longe de processar Bosch e Posada Carriles, os Estados Unidos acabaram protegendo ambos. Em 1990, o presidente George H. W. Bush permitiu que Bosch permanecesse no país, apesar de uma decisão do Departamento de Justiça de 1989 que buscava deportá-lo, citando “provas substanciais sobre suas atividades terroristas passadas e presentes”. Posada Carriles, por sua vez, fugiu de uma prisão venezuelana enquanto aguardava julgamento pelo atentado ao voo da Cubana e reapareceu posteriormente na América Central durante o escândalo Irã-Contras (veja os registros desclassificados sobre Posada Carriles no Arquivo de Segurança Nacional). Após entrar ilegalmente nos Estados Unidos em 2005, Posada Carriles foi protegido da extradição para a Venezuela e Cuba e nunca foi julgado nos Estados Unidos pelo atentado ao voo da Cubana.

Tanto Posada Carriles quanto Bosch viveram livremente em Miami até suas mortes.

Miami é o epicentro do duplo padrão que norteia a política dos EUA em relação a Cuba. Os linha-dura cubano-americanos que dominam a política da cidade há muito defendem a violência, o terrorismo e a punição coletiva contra Cuba em nome da “liberdade” e dos “direitos humanos”. Não surpreendentemente, a atual pressão para indiciar Castro surgiu três meses depois que linha-dura cubano-americanos da Flórida instaram o Departamento de Justiça a fazer exatamente isso.

“Esta foi uma decisão que planejei há muito tempo”, disse o deputado Mario Díaz-Balart (republicano da Flórida) ao USA Today. “E pensei que este seria o presidente que faria isso.”

Cuba em julgamento, Washington acima da lei

A hipocrisia não termina no Estreito da Flórida. Desde a virada do século, os Estados Unidos bombardearam alvos em diversos países sem declarações de guerra, sem autorização da ONU e, muitas vezes, com pouca consideração pelas vítimas civis. Mais recentemente, no Caribe e no Pacífico, os Estados Unidos realizaram ataques militares com um nível de impunidade que faz com que as ações de Cuba em 1996 pareçam moderadas em comparação.

Enquanto Washington e Miami preparam acusações contra um homem de 94 anos por um incidente ocorrido há três décadas, o governo Trump passou os últimos meses executando pessoas em barcos em águas internacionais sem qualquer responsabilização. Desde setembro de 2025, os Estados Unidos lançaram quase sessenta ataques militares contra embarcações no Caribe e no Pacífico, no âmbito da Operação Southern Spear, alegando ter como alvo “narcotraficantes” e “organizações terroristas”.

A acusação pendente serve aos objetivos da atual política externa, que visam transformar acusações criminais frágeis em um pretexto legal para mudança de regime e possível intervenção militar.

As operações mataram pelo menos 193 pessoas, em parte devido a táticas como aeronaves militares disfarçadas e ataques “duplos” a embarcações já incapacitadas, visando sobreviventes após um ataque inicial. Quase nenhuma evidência foi apresentada ao público. Imagens de satélite são classificadas. Interceptações são ocultadas. Nem mesmo os nomes dos mortos são divulgados. As vítimas do poder de fogo dos EUA raramente recebem a dignidade do reconhecimento público.

Essas execuções extrajudiciais refletem um duplo padrão familiar na política externa dos EUA: a violência dos próprios Estados Unidos é legítima, enquanto a violência de seus adversários não o é, mesmo em casos de legítima defesa.

Reempacotando a mudança de regime como justiça

A acusação pendente não é simplesmente um meio de acertar contas antigas; em vez disso, serve aos objetivos atuais da política externa, que visam transformar acusações criminais frágeis em um pretexto legal para a mudança de regime e, possivelmente, para uma intervenção militar.

Segundo a NBC News, Trump “está cada vez mais frustrado com a capacidade do governo cubano de se manter no poder” e tem “pressionado seus assessores” sobre por que o colapso ainda não aconteceu, apesar das sanções extraterritoriais sem precedentes e do bloqueio do petróleo que está causando uma crise humanitária. Embora autoridades do governo acreditem que o governo cubano cairá antes do final do ano, Trump “considera esse prazo insuficiente”.

Com a escalada da guerra econômica não conseguindo provocar o colapso do governo cubano, o Departamento de Defesa está elaborando planos para uma possível ação militar contra Cuba.

A única peça que falta é um pretexto legal. A acusação de “narcoterrorismo” usada para justificar o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, não pode ser facilmente aplicada a Cuba. Por décadas, a “posição consensual” dentro da comunidade de inteligência dos EUA tem sido a de que Cuba não patrocina o terrorismo. Enquanto isso, o Departamento de Estado há muito considera Cuba um parceiro fundamental dos EUA na cooperação antidrogas.

A acusação contra Castro parece fornecer uma justificativa, ainda que frágil, para a ação militar. Longe de ser o ápice de uma longa busca por responsabilização, o caso parece lançar as bases legais para uma nova fase, mais violenta, no cerco de Washington a Cuba.

Esta reportagem foi publicada em colaboração com o Belly of the Beast, um veículo de mídia independente que cobre Cuba e as relações EUA-Cuba.

Colaborador

Nicholas Greven possui mestrado em Estudos Latino-Americanos e Caribenhos pela Universidade de Indiana em Bloomington. Atualmente, cursa Direito na Faculdade de Direito da Universidade da Cidade de Nova York.

19 de maio de 2026

O argumento contra o dinheiro

Os economistas muitas vezes consideram o dinheiro como algo garantido, ignorando o papel que ele desempenha na restrição da distribuição de recursos. Um novo livro dos economistas J. W. Mason e Arjun Jayadev propõe-se a derrubar as premissas dogmáticas da profissão.

Mona Ali


Against Money visa colocar os conceitos econômicos em seu devido lugar e mostrar que o dinheiro não é natural nem neutro. (Michael Nagle / Bloomberg via Getty Images)

Resenha de Against Money, de J. W. Mason e Arjun Jayadev (University of Chicago Press, 2026)

É um clichê dizer que dinheiro não compra felicidade, embora ninguém negue que a sua falta possa causar muita infelicidade. Talvez surpreendentemente, os economistas dedicam muito pouco tempo a pensar sobre o dinheiro, muito menos sobre o poder que ele pode exercer sobre nós e sobre as nossas relações. Quanto mais se reflete sobre essa omissão, mais estranha ela se torna. Quem não conhece amigos e familiares cujos relacionamentos foram prejudicados por disputas sobre dinheiro?

Em Payback: Debt and the Shadow Side of Wealth, a romancista Margaret Atwood narra uma história assustadora em que o pai do naturalista Ernest Thompson Seton recebeu um presente estranho em seu aniversário de 21 anos. Ao atingir a maioridade, o pai de Seton lhe entregou uma conta referente ao custo total de sua criação, incluindo as despesas do parto, tudo meticulosamente catalogado pelo pai em preparação para aquele momento. Depois de pagar a conta, Seton nunca mais falou com o pai. É difícil ler essa história sem sentir uma mistura de repulsa e tristeza indiretas — embora seja em vão encontrar uma explicação para essa atitude na economia convencional.

Essa anedota é mencionada, por meio de David Graeber, em Against Money, uma análise e crítica brilhante sobre o dinheiro feita por J. W. Mason e Arjun Jayadev, professores de economia da City University of New York e da Azim Premji University, respectivamente.

O objetivo declarado de Against Money é recolocar o dinheiro em seu devido lugar. Nesse processo, Mason e Jayadev também colocam muitos outros conceitos econômicos em seus devidos lugares. O dinheiro, demonstram eles, não é natural nem neutro. É, antes, uma instituição social distinta ou uma tecnologia de coordenação, com sua própria motivação ou lógica.

O caso contra o dinheiro

Como sistema de registro de obrigações — a visão de Mason e Jayadev é uma visão de crédito do dinheiro — o dinheiro não é apenas um lubrificante social. Como John Maynard Keynes sabia, e os autores nos lembram, o custo de manter dinheiro (a taxa de juros) influencia o crescimento econômico e o emprego. Se as taxas são altas e o custo do empréstimo é proibitivo, as empresas têm menos probabilidade de investir, reduzindo o emprego e o consumo. Um maior acesso ao dinheiro, possibilitado por taxas de juros mais baixas, reduz o custo do empréstimo e facilita a expansão da capacidade produtiva de uma economia.

Os efeitos do dinheiro fácil sobre a capacidade produtiva são claros se observarmos a China, onde as baixas taxas de juros contribuíram para um boom na indústria e nas exportações. (As taxas são ainda mais baixas no Japão e na zona do euro, mas não tiveram o mesmo efeito.) O superávit comercial da China tornou-se uma fonte de grande tensão geopolítica com os Estados Unidos.

Podemos simplesmente somar o valor total de sapatos e arranha-céus em agregados monetários como o PIB?

No Ocidente, a proeza manufatureira da China é uma obsessão de especialistas que não se cansam de lamentar o que chamam de "excesso de produção" do país. Isso se manifesta na forma de um excedente extraordinário de bens manufaturados que é exportado. Mas se adotarmos uma perspectiva global sobre o que esses especialistas chamam de "supercapacidade" chinesa, surge uma história diferente. Sem dúvida, os perigos do excesso de concorrência nas indústrias chinesas merecem atenção, assim como seus efeitos indiretos no resto do mundo, mas em economias com escassez de energia, por exemplo, a "superprodução" chinesa de painéis solares, baterias e veículos elétricos gerou expansão econômica por meio das importações.

Pensando através do dinheiro

A principal maneira pela qual a maioria das pessoas entende a atividade econômica hoje é através de uma lente monetária. Isso traz consigo uma série de pressupostos, muitas vezes não questionados. Por exemplo, dentro da macroeconomia — a parte da disciplina que se ocupa da economia como um todo — conceitos como “capital”, “produção real” e “taxa de juros real” são prontamente empregados, mas pouca atenção é dada ao fato de que eles não se referem a “coisas” reais no mundo.

Mason e Jayadev, é claro, não são os primeiros a questionar as premissas não contestadas da economia. Outros já questionaram o PIB por não capturar o valor criado desproporcionalmente na esfera doméstica pelas mulheres, por exemplo. Mas Mason e Jayadev vão direto ao ponto: argumentam que conceitos monetários como o PIB real são inerentemente falhos. Isso porque a economia convencional trata o dinheiro como pouco mais que um instrumento para medir a produção de coisas díspares em diferentes setores.

Mas há poucos motivos para acreditar que essa abordagem faça sentido. Podemos simplesmente somar o valor total de sapatos e arranha-céus em agregados monetários como o PIB? Ao refletir sobre essa abordagem, ela parece bastante peculiar. O PIB é medido como a soma total dos gastos reais (e estimados) na economia doméstica. É por isso que as importações são subtraídas do PIB. Mas a soma dos pagamentos monetários em uma economia (uma comunidade de pagamentos distinta) não pode ser comparada de forma justa aos pagamentos monetários feitos em outra economia, ou mesmo ao longo do tempo no mesmo país. A forma como indivíduos ou governos gastam, apontam Mason e Jayadev, varia no espaço e no tempo.

A inadequação de medidas como o PIB real tem implicações importantes para a nossa compreensão da economia como um ecossistema complexo e idiossincrático. Em vez de comparar os arranjos econômicos da China com os dos Estados Unidos em simples expressões monetárias, seria mais produtivo tentar entender como cada economia funciona — ou não funciona — em sua singularidade ou, como Mason e Jayadev sugerem corajosamente, com base em “quantidades diretamente observáveis ​​com suas próprias unidades naturais”.

Existem outros problemas técnicos com noções como o PIB real, e o livro "Contra o Dinheiro" dedica bastante espaço à exploração dessas questões minuciosas. A questão principal é relativamente simples: quando usado como instrumento de medição, "o dinheiro não mede nada além de si mesmo". Esta é uma mensagem simples, mas suas consequências para a disciplina são devastadoras.

Felizmente, Mason e Jayadev não nos levam a uma jornada intelectual apenas para nos deixar à deriva. Em vez de se basearem no PIB real, eles nos asseguram que ainda podemos nos virar com o PIB nominal ao comparar a renda nacional entre países. A diferença entre as duas medidas é que o PIB nominal contabiliza o valor total de todos os bens e serviços em uma economia usando os preços de mercado correntes, enquanto o PIB real considera os preços em um ano-base arbitrário e ajusta-se à inflação.

Da mesma forma, conceitos como produtividade do trabalho — o PIB produzido por uma hora de trabalho — ainda têm valor, embora devam ser usados ​​com ressalvas. Paul Krugman acaba de apontar que todo o debate sobre o declínio da produtividade europeia se baseia em premissas falhas. Se a produtividade europeia for medida (como deveria ser) em relação à produtividade dos EUA a preços correntes, não se observa nenhuma tendência.

Os Estados são como empreendedores?

O dinheiro, escrevem os autores, tem sido tanto mal compreendido quanto mal utilizado pela macroeconomia moderna. Graças aos estudos pós-keynesianos e marxistas, a visão do dinheiro endógeno — a compreensão de que os bancos criam empréstimos do nada — contribuiu muito para o avanço da compreensão do funcionamento da criação de dinheiro público e privado. O fato de o dinheiro poder ser criado ex nihilo desfaz a ideia de que ele seja semelhante a uma mercadoria escassa como o ouro. Em vez disso, é mais apropriado pensar no dinheiro como crédito — contratos de empréstimo que podem ser restritivos ou generosos. Em regimes capitalistas, há abundância de crédito em condições facilitadas para empreendedores e corporações. O crédito é muito mais caro para o público em geral. Sob o socialismo democrático, o crédito pode ser reorganizado para servir ao bem comum, em vez das atividades especulativas dos financistas.

Embora Keynes tenha fornecido alguns dos alicerces para essa visão do papel radical que o crédito desempenha, ele não foi longe o suficiente. Essa é uma das questões que Mason e Jayadev abordam em Contra o Dinheiro. Como é possível que o grande mestre da teoria macroeconômica tenha compreendido, com tanta perspicácia, que as baixas taxas de juros são a “melhor cura para o endividamento excessivo”, mas tenha falhado completamente em perceber o papel que o dinheiro poderia desempenhar como crédito ou passivo em sua obra-prima, A Teoria Geral? Em vez disso, Keynes descreveu a demanda por manter dinheiro em espécie simplesmente como “preferência pela liquidez”, o que necessariamente envolve uma troca. (O custo de oportunidade de manter dinheiro em espécie são os juros que poderiam ser recebidos se o dinheiro estivesse em uma conta bancária. Quanto maior a taxa de juros, maior o custo de oportunidade da liquidez.)

Essa visão faz sentido se considerarmos a mentalidade de um empreendedor que busca maximizar os retornos — a ideia é que o retorno sobre o investimento deve ser maior do que a receita gerada por um depósito bancário equivalente ao investimento inicial. Mas os Estados-nação não são empreendedores que visam a maximização do lucro; e, diferentemente dos indivíduos, os governos podem simplesmente criar dinheiro para gerar investimento público.

Mason e Jayadev sugerem que existem pressupostos políticos subjacentes aos pressupostos econômicos que assumimos, e parte da tarefa de "Contra o Dinheiro" é trazer à luz essas visões não questionadas. Teorizar é importante não apenas para maior clareza, mas porque os conceitos econômicos não são meramente hipotéticos. Conhecimento, como diz o ditado, é poder, e o conhecimento é manipulado pelos economistas.

Quando usado como instrumento de medição, "o dinheiro não mede nada além de si mesmo".

O conceito amplamente utilizado de produção agregada — uma medida usada para descrever como os insumos de capital e trabalho são transformados em produção — também é questionado e considerado insuficiente por Mason e Jayadev. O conceito combina formas idiossincráticas e discretas de equipamentos de capital (de fornos de pedra a escavadeiras de terraplenagem) e trabalho diferenciado (padeiros e trabalhadores da construção civil) em um PIB real medido em dólares.

Não é que economistas qualificados não entendam, por exemplo, que a função de produção agregada é “extremamente improvável de existir em nível setorial, quanto mais para a economia como um todo”, como enfatiza Jeremy Rudd em Um Guia Prático de Macroeconomia. As funções de produção agregada também pressupõem que capital e trabalho sejam perfeitamente móveis entre os setores — que máquinas, dinheiro e trabalhadores possam ser movimentados e combinados livremente.

Os economistas, no entanto, tendem a ver a “produção” de forma abstrata, dissociada das inovações sociais e tecnológicas subjacentes que geram excedente. A maioria dos economistas sérios encara as funções de produção com ceticismo. Contudo, esses conceitos falhos continuam sendo a base de poderosos exercícios de contabilidade do crescimento, que buscam prever o crescimento futuro, e servem de base para projeções do potencial produtivo de uma macroeconomia. Entretanto, há poucos motivos para acreditar que tais modelos nos digam muito sobre o que realmente impulsiona o crescimento econômico.
Uma profusão de anticonhecimento

O problema maior é que a economia é praticada amplamente, sem transparência quanto a esses saltos de fé. Praticantes da economia, de todas as vertentes, adotam acriticamente conceitos falhos e os utilizam em modelos econômicos que, por sua vez, influenciam a política econômica. O resultado é uma compreensão distorcida do mundo: uma proliferação do que Mason e Jayadev brilhantemente chamam de “anticonhecimento”.

O anticonhecimento produz hábitos intelectuais estranhos, como assumir causalidade onde não existe, de maneiras que têm consequências. Um exemplo muito discutido são os desequilíbrios globais nos fluxos comerciais entre as nações. Menciono esse exemplo porque os desequilíbrios comerciais entre os Estados Unidos e a China passaram, na última década, de uma questão de nicho para uma obsessão bipartidária que, em suas formas mais extremas, corre o risco de incitar ambas as grandes potências à guerra. As causas dessas desigualdades são frequentemente multifacetadas, mas os analistas tendem a se basear na contabilidade do PIB para explicar por que, por exemplo, a China apresenta superávits comerciais enquanto os Estados Unidos apresentam déficits comerciais.

Atualmente, o público que lê sobre economia está familiarizado com a ideia de que as diferenças entre poupança e investimento nacionais são a raiz dos desequilíbrios globais, em grande parte graças a Robert Lighthizer, ex-representante comercial de Donald Trump.

O que sustenta a narrativa defendida por Lighthizer e seus seguidores é a afirmação de que, nos Estados Unidos, há pouca poupança (em relação ao investimento) e, na China, há investimento em excesso (em relação à poupança). A solução para esses desequilíbrios seria a “consolidação fiscal” nos Estados Unidos (leia-se: cortes de gastos do governo) e a redução da participação do investimento e do consumo no PIB da China. Essa análise baseada em contabilidade é enganosamente simples. Para começar, ambos os países criam dinheiro do nada para financiar investimentos empresariais. (Como Keynes nos ensina, o gasto — que depende do acesso à liquidez e é determinado, em parte, pela taxa de juros — é fundamental.)

As contas do PIB são apenas uma cortina de fumaça superficial sobre sistemas econômicos complexos e peculiares. Se, em vez disso, compreendêssemos as duas economias a partir de uma perspectiva materialista, em oposição à usual perspectiva monetária, o terreno analítico já consolidado sobre o qual se desenrola o debate sobre os desequilíbrios globais desmoronaria rapidamente. Isso pode ser desconfortável para economistas (como eu) treinados na abordagem "de alto nível" ou "de helicóptero" para o estudo das economias, mas empolgante para aqueles que sabem como realizar trabalho de campo.

Comecemos por rejeitar o ditame econômico padrão de que a poupança impulsiona o investimento. Fazer isso abre uma porta para um cenário pós-capitalista onde o dinheiro não reina supremo, onde seu preço pode ser gerenciado e onde o planejamento e a coordenação do crédito e da política industrial ocupam maior destaque. Que novas formas de experimentação econômica isso acarretaria? Os horizontes para políticas públicas onde as métricas não são monetárias são vastos. (Tais métricas já existem: por exemplo, um plano recente para aumentar a cobertura arbórea na cidade de Nova York começa com uma meta de 30% de cobertura.)
O preço do dinheiro

O preço do dinheiro, é claro, é a taxa de juros — como Walter Bagehot e Keynes já sabiam há muito tempo. Na economia convencional, a taxa de juros é descrita como uma espécie de equilíbrio intertemporal entre gastos e poupança. No mundo real, os bancos centrais moldam as taxas de juros de curto prazo na economia. Nos Estados Unidos, as mudanças na taxa básica de juros são definidas pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Fed.

No entanto, banqueiros centrais como Jerome Powell, observam os autores, descrevem seu ajuste fino da política monetária apelando para uma taxa de juros natural, como se as variáveis ​​econômicas fossem tão imutáveis ​​quanto as estrelas no céu noturno. (Paul Volcker, responsável pelo aperto da oferta monetária nos EUA que levou ao aumento vertiginoso do desemprego no início da década de 1980, também tinha uma predileção por usar exemplos da astronomia.) Contudo, as afirmações sobre a taxa de juros natural, bem como a taxa natural de desemprego — a taxa de desemprego que não acelera a inflação, na linguagem econômica — são puramente ideológicas.

Como escreveu Anwar Shaikh em sua obra magna, Capitalismo: Competição, Conflito, Crises, o próprio Karl Marx se opôs à ideia de uma taxa de juros natural — diferentemente de Adam Smith e David Ricardo, para quem a taxa de juros era proporcional à taxa geral de lucro da economia. O apelo de Powell por um ajuste monetário preciso, tendo a taxa de juros “natural” como uma espécie de guia, une sistemas (a relação de troca intertemporal na teoria econômica ortodoxa e as condições de liquidez do mundo real) que não necessariamente se complementam.

Contra o Dinheiro se destaca ao desconstruir esse tipo de afirmação econômica ortodoxa. De certa forma, os argumentos dos autores ecoam intervenções anteriores, como as dos economistas históricos de língua alemã do final do século XIX, que expressaram desconforto com as visões desmaterializadas da economia mundial oferecidas pelos liberais clássicos britânicos. Bem diferente das abstrações de valor e preço dos grandes economistas clássicos Smith, Ricardo e até mesmo Marx, o mapeamento da economia mundial feito pelos economistas austríacos alemães era baseado em história, geografia e demografia.

Houve debates sérios na economia sobre a natureza do capital (por exemplo, as controvérsias "Cambridge, MA" versus "Cambridge, Reino Unido"). Mas a visão de Mason e Jayadev é totalmente nova e renovada graças a uma série de questões contemporâneas, como a economia da transição energética e a atual crise das commodities. É claro que a crise atual, centrada no Estreito de Ormuz bloqueado, diz respeito à escassez real de commodities — mas, devido à financeirização das commodities, levou a uma crise cambial em países como a Turquia. (Os importadores de petróleo e gás foram afetados por custos de energia muito mais altos. A disparada da inflação desestabilizou a lira, levando o banco central a usar suas reservas monetárias para defender a moeda.)

Para Mason e Jayadev, os recursos reais não são as restrições fundamentais à atividade produtiva; a capacidade de fazer promessas (monetárias) é.

Os autores nos lembram da longa luta pela soberania monetária na Turquia e até mesmo na Europa. Atualmente, enquanto o mercado de títulos públicos é duramente atingido por agentes vigilantes do mercado de títulos, o Banco da Inglaterra, envolto no manto da independência do banco central, permanece passivo, apesar das imensas e violentas consequências econômicas. Mas se os mercados financeiros limitam o horizonte político para famílias e governos (e eles não são iguais), quando regulamentados e reestruturados, o crédito pode ser uma poderosa fonte de expansão das possibilidades econômicas.

Como seria a política econômica se não fosse definida e circunscrita exclusivamente por uma mentalidade de escassez? Na teoria monetária moderna, os recursos reais são a restrição, não o dinheiro. Para Mason e Jayadev, os recursos reais não são as restrições fundamentais à atividade produtiva; a capacidade de fazer promessas (monetárias) é. A visão deles é radicalmente abrangente.

Nas páginas finais do livro, que começam com uma conversa entre Mason e Jayadev em um restaurante japonês de curry no Lower East Side de Nova York e terminam no Prospect Park, os autores nos incitam a virar as costas para o “anti-conhecimento” da economia convencional e a sair da inércia, por assim dizer. É uma proposta radical, mas que este livro nos capacitou a considerar seriamente.

É preciso coragem e habilidade para escrever sobre dinheiro em uma prosa acessível e não técnica. O uso de exemplos históricos pelos autores é brilhante. Suas incursões pela história monetária podem, por vezes, ser longas, mas, na maioria das vezes, são esclarecedoras. Bons livros nos ensinam novas maneiras de ver o mundo. E este é um desses livros. Como especialista na área, pretendo consultá-lo novamente em minhas tentativas de ensinar aos alunos como a teoria econômica é construída.

Mas Contra o Dinheiro não é apenas para economistas. Ele encontrará leitores entre historiadores, sociólogos e todos aqueles interessados ​​em analisar a economia com um olhar crítico. Este livro certamente atrairá não apenas acadêmicos e estudantes, mas também um público mais amplo, assim como aconteceu com "O Capital no Século XXI", de Thomas Piketty. Diferentemente de Piketty, que busca compreender "as estruturas profundas do capital e da desigualdade" imputando estimativas de riqueza ao longo dos séculos (com pressupostos questionáveis ​​sobre o valor tanto da terra quanto do capital), "Contra o Dinheiro" começa observando edifícios e paisagens urbanas. Em um mundo onde a economia é frequentemente mal utilizada, abordagens que partem da base da disciplina são mais necessárias do que nunca.

Colaborador

Mona Ali é professora associada de economia na Universidade Estadual de Nova York em New Paltz. Ela está escrevendo um livro sobre a instrumentalização das finanças globais.

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