10 de setembro de 2026

Argumentos a favor de permitir a entrada da China

Empresas americanas precisam de mais capital estrangeiro e know-how

Brian Deese


O CEO da Ford Motor Company em Romulus, Michigan, em fevereiro de 2023
Rebecca Cook / Reuters

A política industrial voltou a estar em voga nos Estados Unidos. À medida que cadeias de suprimentos globais frágeis e uma base industrial enfraquecida apresentam riscos crescentes para a economia e a segurança nacional, formuladores de políticas de ambos os partidos têm adotado esforços vigorosos para reconstruir a capacidade industrial do país. Com intervenções como a Lei CHIPS e Ciência de 2022, Washington assumiu compromissos históricos para fortalecer a base tecnológica e manufatureira dos EUA, a qual se torna cada vez mais importante para o sucesso econômico e a capacidade de defesa do país. Como diretor do Conselho Econômico Nacional do presidente Joe Biden, ajudei a conceber e impulsionar essa mudança.

Iniciativas para revitalizar a capacidade interna são uma resposta necessária a perigos reais. No entanto, líderes americanos buscam, cada vez mais, apoiar a indústria nacional de maneiras contraproducentes. Em particular, eles têm demonstrado crescente hostilidade em relação ao investimento estrangeiro.

Muitos formuladores de políticas temem que investidores estrangeiros possam roubar dados sensíveis ou obter uma influência perigosa sobre empresas americanas ou infraestruturas críticas. Essa aversão é mais acentuada em relação à China, mas também se volta para aliados e parceiros. Ela se aplica não apenas a casos de propriedade estrangeira de empresas dos EUA, mas também a joint ventures, ao licenciamento de propriedade intelectual estrangeira e a outros arranjos nos quais uma empresa estrangeira compartilha seu conhecimento ou recursos. Stephen Miran, presidente do Conselho de Consultores Econômicos do presidente, sugeriu a imposição de taxas sobre a posse estrangeira de ativos dos EUA, incluindo aqueles pertencentes a aliados. Os senadores Tammy Baldwin e Josh Hawley apresentaram um projeto de lei bipartidário no Congresso americano que tributaria diretamente as entradas de capital estrangeiro.

Nos níveis federal, estadual e local, as autoridades estão tomando medidas para excluir o capital global dos Estados Unidos e impedir que empresas americanas aproveitem os avanços mais recentes em armazenamento de dados, processamento de minerais críticos e fabricação de chips. Essa é uma estratégia preocupante e, em última análise, contraproducente. Naturalmente, o governo dos EUA deve mitigar os riscos do investimento estrangeiro. Contudo, atualmente, seu regime de análise e controle é excessivamente rigoroso. Os Estados Unidos estão minando sua própria política industrial ao privar-se das ferramentas necessárias para competir globalmente em setores cruciais.

O que o país precisa é de uma nova estrutura para incentivar, de forma seletiva, o investimento estrangeiro, alinhando-o às suas ambições industriais. O conjunto de instrumentos de política atualmente à disposição do governo dos EUA não foi concebido para essa tarefa. Washington dispõe de um mecanismo sofisticado para rejeitar investimentos estrangeiros, mas de poucos meios para viabilizá-los. Um sistema aprimorado acolheria capital e know-how estrangeiros, ao mesmo tempo em que garantiria transparência, protegeria dados dos EUA e asseguraria que americanos mantivessem o controle das empresas quando isso fosse essencial. O fato é que a fronteira do conhecimento em muitos setores situa-se fora dos Estados Unidos. O governo federal precisa aprimorar sua capacidade de avaliar os riscos e benefícios do investimento estrangeiro para tirar proveito dessa expertise.

A MAIOR FORMA DE ELOGIO

Ao longo de sua história, os Estados Unidos utilizaram conhecimentos e ferramentas estrangeiros em seu próprio benefício. Na virada do século XIX, por exemplo, a prontidão militar do país dependia de uma indústria nacional de pólvora ainda incipiente. Washington não podia mais depender de seu único fornecedor estrangeiro, a Grã-Bretanha — contra a qual acabara de travar uma revolução. Com o apoio de um investimento francês significativo, o químico Éleuthère Irénée du Pont trouxe para os Estados Unidos a expertise francesa em técnicas avançadas de manufatura, fundando em 1802 uma empresa que rapidamente se tornaria a maior fornecedora de explosivos para o governo americano. A empresa, DuPont, permaneceu no centro da inovação na produção de produtos químicos e materiais nos EUA por séculos.

O conhecimento estrangeiro também se mostrou inestimável em casos mais recentes. No início da década de 1980, quando as montadoras americanas estavam ficando para trás em relação às suas concorrentes japonesas, a General Motors e a Toyota reabriram, em parceria, uma fábrica da GM que havia sido fechada em Fremont, na Califórnia. Ao implementar sistemas de manufatura japoneses de última geração, as empresas transformaram uma fábrica fracassada na unidade de montagem de automóveis mais produtiva dos Estados Unidos em apenas dois anos — mantendo, em grande parte, a mesma mão de obra americana. Os métodos que a GM adotou da Toyota são hoje padrão em toda a indústria automobilística dos EUA.

A Lei CHIPS and Science foi concebida para replicar esses e outros sucessos, mas no setor de semicondutores. Os legisladores americanos compreenderam que a criação de uma indústria nacional de chips exigiria investimento e expertise de empresas como a sul-coreana Samsung e a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. Com base na lei de 2022, Washington concedeu subsídios e garantias de empréstimo a empresas — tanto nacionais quanto estrangeiras — para a construção de fábricas de semicondutores nos Estados Unidos e para o treinamento de trabalhadores americanos na fabricação de chips, um processo cuja maestria é notoriamente difícil de alcançar. A lei também financiou o Centro Nacional de Tecnologia de Semicondutores, que facilita a transferência de tecnologia e a pesquisa e o desenvolvimento compartilhados entre fabricantes de chips nacionais e estrangeiros que operam nos Estados Unidos. As empresas que aceitaram recursos do governo americano foram proibidas de expandir sua capacidade de produção de chips avançados na China.

Os Estados Unidos estão minando sua própria política industrial. Se os esforços para incentivar investimentos estrangeiros de aliados e parceiros dos EUA se mostraram, por vezes, controversos, a decisão sobre como tratar os investimentos provenientes da China — a maior rival dos Estados Unidos — tem sido extremamente explosiva. Mais do que qualquer outro governo na história, Pequim tem utilizado de forma agressiva os instrumentos da estratégia econômica estatal. O roubo de propriedade intelectual e os enormes subsídios à indústria nacional chinesa, somados à prolongada complacência de Washington, esvaziaram a capacidade manufatureira em grande parte do mundo e criaram dependências em relação à China no que diz respeito a muitas tecnologias críticas. Nesse contexto, é fácil concluir que os Estados Unidos devem barrar os investimentos chineses. O analista Oren Cass, por exemplo, argumentou recentemente que permitir que empresas chinesas invistam nos Estados Unidos seria "um erro não forçado de proporções históricas mundiais", pois isso concederia a Pequim uma influência econômica perigosa.

Mas, se os Estados Unidos quiserem produzir bens mais avançados, precisam permanecer abertos ao investimento estrangeiro, inclusive o proveniente da China. De fato, a própria China seguiu a mesma estratégia a partir da década de 1980, atraindo empresas americanas com mão de obra barata, impostos baixos e acesso ao seu vasto mercado interno. Grande parte da expertise chinesa pode ser atribuída a empresas estrangeiras que instalaram fábricas no país — conhecimento que as empresas chinesas utilizaram posteriormente para superar a concorrência estrangeira. Em 2018, por exemplo, a China convenceu a Tesla a estabelecer instalações de produção em Xangai, oferecendo terrenos baratos, empréstimos estatais com juros baixos, incentivos fiscais e permissão para deter a propriedade integral da fábrica. As montadoras chinesas absorveram o que precisavam da Tesla e aplicaram essas lições para impulsionar o setor nacional de veículos elétricos.

A China está agora na vanguarda de muitas tecnologias críticas, incluindo veículos elétricos e armazenamento de energia. Obter acesso a esse conhecimento por meio de investimento estrangeiro é, em muitos casos, a única maneira de os Estados Unidos recuperarem o atraso.

GANHO DE CAPITAL INTELECTUAL

Empresas chinesas já operam nos Estados Unidos em casos específicos. Em 2023, a Ford anunciou a construção de uma fábrica multibilionária em Marshall, Michigan, destinada a produzir baterias para carros elétricos utilizando tecnologia e know-how licenciados pela maior fabricante de baterias da China, a CATL. A Ford detém a propriedade integral da instalação, mas mantém um acordo de longo prazo que lhe permite treinar seus trabalhadores nos principais processos tecnológicos da CATL. Com o tempo, a Ford poderá utilizar a expertise adquirida com a CATL para projetar e produzir suas próprias baterias, sem depender de licenças chinesas.

O que a Ford está fazendo em Michigan serve de modelo para uma estratégia industrial ambiciosa: incentivar investimentos, colaborar com empresas estrangeiras quando necessário e aprender na prática. A parceria foi viabilizada por um acordo inovador de compartilhamento de propriedade intelectual com a CATL, que envolvia licenciamento, mas não a participação estrangeira na propriedade da instalação. Em muitos outros casos, porém, diretrizes presidenciais e regulamentações onerosas dificultam acordos que teriam potencial semelhante para fortalecer a base industrial americana. Presidentes dos EUA de ambos os partidos têm utilizado a autoridade conferida pela Lei de Produção de Defesa (Defense Production Act) para bloquear grandes investimentos estrangeiros diretos, receando que tecnologias e dados sensíveis dos EUA caiam em mãos erradas. O Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS) — órgão governamental que analisa transações capazes de ameaçar a segurança nacional — tornou-se um sistema sobrecarregado, de difícil navegação e excessivamente cauteloso. Quando o comitê identifica alguma preocupação em relação ao investimento proposto por uma empresa estrangeira, as partes envolvidas frequentemente não conseguem negociar uma solução dentro do prazo legal, acabando por ter de reiniciar o processo do zero. Em 2024, os requerentes retiraram e reapresentaram quase um quarto de todas as notificações. O número de submissões caiu, pois o processo demorado desestimula as empresas a sequer tentarem.

Em outros casos, o problema é a total ausência de regulamentação. O CFIUS, por exemplo, geralmente analisa apenas transações nas quais entidades estrangeiras buscam adquirir participação em uma empresa americana. Se uma empresa estrangeira quiser, digamos, licenciar o uso de seus equipamentos, não existe um processo formal de análise pelo qual ela possa obter aprovação. Esse tipo de acordo situa-se em uma zona cinzenta, vulnerável a ataques políticos. O Congresso passou anos ameaçando impedir que a fábrica de veículos elétricos da Ford em Michigan recebesse um crédito fiscal e investigou a instalação por riscos à segurança nacional — em parte, justamente porque a fábrica não estava sujeita a nenhum processo de análise.

DILIGÊNCIA PRÉVIA

Para incentivar as empresas americanas a buscar parcerias estratégicas no exterior, o governo dos EUA deve reduzir a burocracia e deixar de rejeitar investimentos de forma automática. Ele deve tratar o capital proveniente de aliados próximos de maneira diferente do capital oriundo de países que suscitam preocupação, como China, Irã e Rússia. Deve também desenvolver novos sistemas para analisar e autorizar novos modelos de investimento e parceria estrangeiros.

No que diz respeito a aliados e parceiros, o CFIUS deveria simplificar seu processo. Para reduzir o número de empresas americanas e investidores estrangeiros que precisam solicitar aprovação, o comitê deveria ampliar sua lista de países cujas empresas estão isentas dessa exigência — atualmente restrita a Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido — para incluir Japão, Coreia do Sul e países da Europa. Negócios de baixo risco, como investimentos em empresas de software cuja única tecnologia crítica seja a criptografia padrão, deveriam ser isentos de notificação, e deveria haver aprovação mais rápida para investidores previamente avaliados.

Mais importante ainda, o CFIUS deveria mudar a forma como avalia os negócios que analisa. Deveria, por exemplo, analisar as transações com base na possibilidade real de um adversário estrangeiro explorar o investimento para prejudicar os Estados Unidos, em vez de se fixar na nacionalidade do investidor e em suas conexões comerciais. O comitê também precisa alterar seu cálculo de risco. Atualmente, o órgão só pode aprovar investimentos estrangeiros em empresas americanas se certificar que não há preocupações de segurança pendentes. Isso significa que mesmo um negócio que beneficiaria a segurança nacional como um todo não pode ser aprovado se persistirem dúvidas sobre qualquer componente do acordo. Se a resolução dessas dúvidas for inviável, o negócio é totalmente descartado. Em outras palavras, o CFIUS leva em conta apenas o risco, não a oportunidade. O Congresso deveria substituir esse critério por um que permita ao comitê aprovar investimentos que, no cômputo geral, atendam aos interesses da segurança nacional.

As empresas americanas precisam de mais opções para estabelecer parcerias com empresas estrangeiras.

Para investimentos de maior risco, como os realizados por empresas chinesas, o governo dos EUA deveria adotar um modelo semelhante ao programa de Propriedade, Controle ou Influência Estrangeira do Departamento de Defesa, que monitora o controle estrangeiro sobre contratadas do setor de defesa. Essa estrutura permite que setores críticos dos EUA se beneficiem de investimentos estrangeiros, ao mesmo tempo em que protege o país contra o acesso estrangeiro a segredos americanos e a influência estrangeira em setores-chave. Veja-se o caso da BAE Systems. A empresa de defesa é integralmente controlada por uma matriz britânica; no entanto, emprega cerca de 35.000 americanos, gera perto de US$ 13,6 bilhões em vendas anuais, figura entre os maiores fornecedores do Pentágono e está profundamente envolvida em projetos sigilosos. Esse arranjo é possível porque, sob as normas de FOCI, um acordo especial restringe o controle da matriz sobre a BAE Systems. A empresa conta com um conselho administrativo independente nos EUA, composto majoritariamente por diretores americanos com credenciais de segurança, além de barreiras de isolamento (firewalls) que protegem tecnologias, produtos e programas da matriz estrangeira. Tal estrutura proporciona aos Estados Unidos mais uma grande contratada competindo por projetos do Pentágono, a manutenção de dezenas de milhares de empregos na indústria nacional e acesso a tecnologia e capital britânicos. A matriz britânica, por sua vez, obtém lucros no maior mercado de defesa do mundo. Ao mesmo tempo, o risco de vazamentos permanece relativamente baixo.

Hoje, o regime FOCI aplica-se apenas a empresas que fazem negócios com o governo dos EUA em contratos classificados. No entanto, um sistema baseado neste programa também deve ser utilizado para avaliar o risco e a oportunidade de investimentos estrangeiros em empresas que não necessitam de autorizações de segurança, mas que podem representar riscos para a segurança nacional, tais como aquelas que fabricam chips avançados, baterias, drones ou software crítico. O Departamento de Comércio, que já começou a negociar acordos com empresas de semicondutores semelhantes aos que o Pentágono alcança com empreiteiros de defesa sob o FOCI, poderia supervisionar imediatamente um sistema expandido sob as autoridades existentes (algumas das quais foram concedidas pela Lei CHIPS). Mas o Congresso deveria codificar a autoridade do departamento para rever e solicitar ajustes em acordos que envolvam adversários estrangeiros. Na prática, uma empresa que contemplasse uma aquisição, joint venture ou acordo de licenciamento apresentaria uma proposta ao Departamento de Comércio, que poderia acrescentar salvaguardas ao negócio antes de emitir a sua aprovação.

O objetivo é dar às empresas americanas mais opções para firmar parcerias com empresas estrangeiras, com medidas de segurança ajustadas ao risco específico apresentado pelo investimento. Quando o risco é a fuga de informação sensível, um novo sistema baseado no FOCI poderá permitir a propriedade estrangeira, desde que o acesso da empresa-mãe a tecnologia, dados e decisões quotidianas sensíveis seja cortado através de conselhos de procuração, acordos de segurança e diretores americanos autorizados. Quando a empresa estrangeira detém a experiência de que os Estados Unidos necessitam, mas está sediada na China ou noutro país preocupante, o modelo certo pode ser o da fábrica da Ford no Michigan, onde uma empresa americana mantém o controlo operacional, mas beneficia do engenho estrangeiro. Sob tal sistema, o governo deixaria de rejeitar acordos por defeito, mas agiria como um solucionador criativo de problemas.

NAYSAYER NÃO MAIS

Estabelecer novos caminhos para aprovar o investimento estrangeiro não será fácil. A política de bloqueio destas transacções está bem enraizada em ambas as partes. Os reguladores têm tanto medo de aprovar um acordo que divulgue tecnologia sensível ou entregue aos adversários o controlo sobre uma empresa importante que erram ao restringir o acesso ao conhecimento, ao dinheiro e à capacidade de produção do estrangeiro.

A forma de acalmar esses receios e atrair investimento estrangeiro produtivo é executar negócios estrangeiros com competência. A administração Trump tem tratado os anúncios de grandes investimentos estrangeiros como um fim em si mesmo, mas tem demonstrado pouca vontade de construir um processo que incentive acordos seguros com empresas estrangeiras. Os democratas deveriam abraçar a abertura ao investimento estrangeiro, mas melhorar a aplicação prática dessa filosofia, defendendo uma legislação que institucionalize um método melhor e mais transparente para avaliar acordos. Com um sistema que aprove o tipo certo de parcerias, os Estados Unidos podem ganhar a experiência de que necessita desesperadamente para revitalizar a sua capacidade industrial. Da pólvora da Du Pont às fábricas de semicondutores do Arizona, os Estados Unidos sempre se tornaram mais fortes, não por se isolarem do know-how mundial, mas por tornarem seu esse conhecimento.

Brian Deese é pesquisador de inovação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Ele atuou como diretor do Conselho Econômico Nacional de 2021 a 2023.

9 de setembro de 2026

A denúncia de Joe Sacco sobre a cegueira do Ocidente em relação a Gaza

Amplamente reconhecido como um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos, Joe Sacco tem concentrado grande parte de seu trabalho na Palestina. Ele conversou com a Jacobin sobre a cumplicidade do Ocidente nos crimes de Israel e sobre por que é dever dos jornalistas abordar essa questão.

Entrevista com
Joe Sacco


Um novo livro do cartunista Joe Sacco e do escritor Chris Hedges, Requiem for Gaza, baseia-se em dezenas de relatos de palestinos sobre a sobrevivência a um genocídio. (Philippe Huguen / AFP via Getty Images)

Entrevista realizada por
Elias Feroz

Joe Sacco é amplamente reconhecido como um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos. Ele ganhou notoriedade com Palestina (publicada originalmente entre 1993 e 1995), obra que ofereceu um retrato contundente da vida palestina sob a ocupação israelense. Em 2009, lançou Notas de Rodapé em Gaza e, em 2024, War on Gaza (Guerra em Gaza), uma coletânea de quadrinhos que aborda a destruição da Faixa de Gaza por Israel. Hoje, as ruas que o jornalista e cartunista outrora retratou com tamanha riqueza de detalhes já não existem mais.

Agora, mais de três décadas após a publicação inicial de Palestina, Sacco volta sua atenção para Gaza. No ano passado, acompanhado de seu colega Chris Hedges, ele viajou ao Cairo para entrevistar refugiados sobreviventes do genocídio. O novo livro da dupla, Requiem for Gaza (Réquiem para Gaza), combina os desenhos e o trabalho de reportagem de Sacco com a prosa e as entrevistas de Hedges para documentar as vivências dos habitantes de Gaza.

Sacco conversou com Elias Feroz sobre Requiem for Gaza em uma entrevista para a Jacobin. Ele reflete sobre a falha de grande parte da mídia ocidental em apoiar seus colegas palestinos — muitos dos quais foram mortos enquanto noticiavam o genocídio. A conversa também abordou a memória histórica, o engajamento de Sacco com a causa palestina ao longo de décadas e os motivos que o levaram a retornar ao jornalismo diante da destruição de Gaza.

Elias Feroz

Você e Chris Hedges dedicam explicitamente este livro aos jornalistas palestinos, um grupo que tem sido alvo de ataques e morto como nunca antes na guerra em Gaza. Se considerarmos um "réquiem" como uma elegia aos mortos, este livro é também o seu réquiem pessoal pelos colegas mortos e silenciados?

Joe Sacco

O livro é um réquiem para toda Gaza e para a sociedade de Gaza. Mas sim, considero esses jornalistas meus colegas, e é por isso que a dedicatória é para eles. Eles demonstraram enorme integridade, sofreram imensamente, foram mortos em grande número e viram suas famílias serem mortas também.

Fala-se muito sobre como os jornalistas estrangeiros não conseguem entrar em Gaza. Como jornalista estrangeiro, quero ir lá e ver as coisas com meus próprios olhos. Mas isso não deve, de forma alguma, diminuir o trabalho incrível que esses jornalistas realizaram, sob circunstâncias que considero sem precedentes. Tenho enorme admiração por eles. Eles fizeram um trabalho incrível enquanto eram retratados como apoiadores do Hamas e submetidos a todo tipo de difamação. Parte da dedicatória é também uma espécie de crítica contundente a muitos repórteres ocidentais que não defenderam seus colegas, que aderiram a essas difamações — incluindo algumas das próprias organizações que empregavam, ou haviam empregado, esses jornalistas palestinos.

Elias Feroz

Chris também levanta um ponto muito interessante sobre a proibição de acesso da mídia estrangeira a Gaza, afirmando: “A suposição de que, se repórteres ocidentais estivessem em Gaza, a cobertura melhoraria, é ridícula. Acredite em mim: não melhoraria.” Isso desafia diretamente um viés profundamente arraigado — quase colonial — no Ocidente, que sugere que o jornalismo ocidental é inerentemente superior ou mais “objetivo” do que o trabalho de jornalistas palestinos locais. Qual é a sua experiência? Você já enfrentou críticas ou ceticismo de editores da grande mídia ou de leitores que questionaram a credibilidade do seu trabalho simplesmente porque você prioriza os relatos crus de fontes palestinas?

Joe Sacco

Acho que essa é uma crítica típica: “Por que você está focando em fontes palestinas? E quanto ao outro lado?” Eu respondo dizendo que cresci conhecendo o outro lado, vendo tudo através de um filtro israelense.

Crescendo nos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980, as únicas vozes que eu ouvia eram as de israelenses e de pessoas que apoiavam Israel. Tanto que eu via os palestinos simplesmente como terroristas. Com o tempo, precisei questionar essa ideia. E fiz isso depois de já ter me formado em jornalismo. Tive realmente que questionar toda a noção de jornalismo: o jornalismo ao estilo americano, o jornalismo “objetivo”. Frequentemente falamos sobre como jornalistas estrangeiros não conseguem entrar em Gaza. Como jornalista estrangeiro, quero ir lá e ver as coisas com meus próprios olhos. Mas isso não deve diminuir o trabalho incrível realizado pelos jornalistas palestinos.

Minhas primeiras tentativas de falar sobre a situação palestina visavam dar voz aos palestinos, porque, na época, eu simplesmente não via essas vozes. E jamais pedirei desculpas pela abordagem que adotei, que foi: vamos ver o que os palestinos têm a dizer. Não vou retratá-los como anjos, mas quero ouvir o que eles têm a dizer. E acho que isso continua válido. O interessante agora é que aprendemos algo sobre a experiência palestina de várias maneiras, apesar da mídia ocidental. Muitas vozes palestinas têm chegado ao público sem filtros em plataformas como o TikTok e outras redes sociais — o que talvez explique por que essas plataformas estão sendo compradas por pessoas como Larry Ellison, para silenciar esse tipo de conteúdo.

Elias Feroz

Qual você acha que é a diferença fundamental entre a cobertura jornalística ocidental convencional e as suas próprias experiências in loco? E por que o retrato apresentado ao público é tão drasticamente diferente da realidade que você encontra? É simplesmente porque não querem mostrar as perspectivas palestinas ou existe outra razão também?

Joe Sacco

Acho que a maioria dos repórteres ocidentais se identifica com os interesses ocidentais. No fim das contas, somos moldados pela cultura em que crescemos. Isso vale para qualquer pessoa, em qualquer lugar. Acho que os repórteres ocidentais muitas vezes têm muita dificuldade em sair dessa estrutura de pensamento.

Eles veem o governo dos EUA e o modo americano de fazer as coisas como parte do projeto mais amplo do Iluminismo: algo em que acreditam e que subscrevem. E, no fundo, veem o modo americano como a maneira correta. É uma forma um tanto fundamental — até simplista — de colocar a questão, mas acho que é, em geral, o que acontece. Acredito que a armadilha para os jornalistas é que eles se veem como objetivos. Eles vão a um lugar no Oriente Médio acreditando que podem ser objetivos. A diferença, no meu caso, é que reconheço que não posso ser objetivo. Sou fruto da minha formação. A maioria dos repórteres ocidentais... vê o modo americano como a maneira correta.

Há coisas que aprendi, coisas que preciso desaprender e coisas que aprendi e que precisam ser questionadas. Por isso, tento, na medida do possível, compreender o que o chamado "outro" está vivenciando e simplesmente ouvir o que ele tem a dizer. Para mim, não se trata sequer de "dar voz" a eles. Sempre achei essa ideia um tanto inútil. Acho que eles já têm voz. A questão é se temos ouvidos para escutar. É isso que tenho tentado fazer: ouvir e, depois, passar para o papel o que ouvi.

Elias Feroz

No livro, Chris distingue dois tipos de correspondentes de guerra: há uma pequena minoria que corre riscos reais para documentar a realidade crua in loco, a qual quase sempre contradiz as narrativas oficiais. Mas ele também descreve uma massa de jornalistas que, voluntariamente, vende propaganda militar encenada como se fosse notícia. Será que esse segundo grupo evidencia os enormes obstáculos estruturais do jornalismo convencional?

Joe Sacco

Acredito que sim. E o Chris tem uma noção melhor disso do que eu, pois foi chefe da sucursal do New York Times no Oriente Médio e também atuou como chefe de sucursal em outras partes do mundo. Portanto, ele fez parte desse meio e viu tudo de perto.

Já conheci muitos jornalistas, mas, devido ao que faço e à forma como conduzo meu trabalho, nunca cheguei a conviver com esse grupo da mesma maneira. Quando encontro jornalistas — mesmo aqueles que trabalham para grandes veículos —, muitas vezes percebo que eles sabem o que está acontecendo. São pessoas inteligentes. Mas acho que, no fim das contas, eles precisam prestar contas aos seus editores — as pessoas que dão as cartas em Londres e Washington — sobre o que é noticiado. E os editores, assim como os proprietários das empresas que detêm os jornais, seguem uma linha editorial e têm um ponto de vista específico. Acho que os jornalistas sabem até onde podem ir ao contar às pessoas o que realmente está acontecendo.

Muitas vezes, eles sabem que precisam apresentar o outro lado da história, em parte até para tentar amenizar um pouco as coisas. Mas não sinto que precise participar desse jogo, e sei que o Chris também não.

Elias Feroz

Como jornalista independente que utiliza os quadrinhos, você trabalha fora desse sistema. Acredita que isso lhe confere a vantagem suprema: a liberdade de contornar essas amarras institucionais sem ter de levar em conta as percepções confortáveis ​​de terceiros?

Joe Sacco

É verdade. Mas, quando comecei, não planejei isso detalhadamente. Eu simplesmente não tinha dinheiro. E, quando não se tem dinheiro, é preciso encontrar formas alternativas de fazer a reportagem. Muitas vezes, você precisa alugar um lugar de moradores locais. Você não vai ficar em um hotel se o seu dinheiro estiver prestes a acabar em cinco ou seis dias. Então, você precisa encontrar outros meios de estar presente no local. E isso coloca você em maior contato com as pessoas nas ruas. De certa forma, a maneira como comecei — sem um planejamento rigoroso, de forma orgânica — moldou a minha forma de relatar os fatos, porque era aquilo que eu estava vendo.

Não foi uma questão de atribuição profissional ou mesmo de habilidade, pois, no início, ninguém falaria comigo se eu fosse apenas um cartunista. Eu não conversaria com políticos ou generais. Quando comecei, tudo se resumia a cafés, bares e a morar com alguém ou alugar um quarto na casa de outra pessoa. Você obtém uma perspectiva diferente quando não está naquele ambiente jornalístico restrito e elitizado, naquele espaço mais confortável.

Elias Feroz

Você passou a se interessar por entrevistar políticos ou figuras militares mais tarde?

Joe Sacco

Mais tarde na carreira, quando ganhei mais confiança no que fazia, cheguei a entrevistar generais, coronéis e alguns políticos. Mas nunca desenvolvi um gosto real por isso. Gosto de conviver com pessoas comuns porque, no fim das contas, percebo que o que me interessa é como as decisões tomadas nas capitais do mundo afetam os seres humanos.

Gosto de conviver com pessoas comuns porque, no fim das contas, percebo que o que me interessa é como as decisões tomadas nas capitais do mundo afetam os seres humanos. Afinal, as decisões tomadas até mesmo aqui, internamente, me afetam pessoalmente. Nós somos as pessoas atropeladas por esses tomadores de decisão, por seus grandes planos e pelo desejo deles de manter o poder. Por isso, tenho afinidade com essa perspectiva também. Sinto que esse é o meu ponto forte.

Não preciso conviver com os poderosos. Eu simplesmente não me sentiria confortável fazendo isso agora. Se você tivesse me encontrado no início dos meus vinte anos e me dado bastante acesso, talvez não estivéssemos tendo esta conversa. Não posso afirmar que tenho qualquer superioridade moral em tudo isso. Acho que, de forma orgânica, as coisas simplesmente aconteceram como aconteceram.

Elias Feroz

Para o seu livro mais recente, você e Chris entrevistaram palestinos que conseguiram fugir de Gaza para o Egito. Ambos conhecem bem a região e visitaram Gaza anos atrás: Chris, na época, como correspondente do New York Times, firmemente inserido no jornalismo tradicional da grande mídia, enquanto você estabelecia sua própria forma de jornalismo por meio dos quadrinhos. Como esses dois mundos contrastantes moldaram a colaboração neste livro, e onde vocês encontraram os pontos em comum mais fortes?

Joe Sacco

Chris e eu nos conhecemos na Bósnia, na parte de trás de um jipe ​​blindado. Eu era cartunista, fazendo o meu trabalho, e ele era o chefe da sucursal do Times em Sarajevo na época, durante o final da Guerra da Bósnia. Havia, portanto, uma certa distância entre nós em alguns aspectos, mas nos demos bem logo de cara porque conversamos sobre livros, basicamente, durante aquele longo trajeto de carro até uma cidade no leste da Bósnia chamada Goražde. A partir dali, nos tornamos amigos. E então começamos a colaborar. Ele havia passado muito tempo no Oriente Médio e em Gaza.

Em certo momento, fizemos uma matéria para a Harper’s Magazine na qual ele cuidava do texto e eu fazia as ilustrações. Mais tarde, fizemos um livro chamado Days of Destruction, Days of Revolt. Aquilo também foi uma espécie de fusão das nossas formas de trabalhar; fazemos as entrevistas juntos. Na maioria das vezes, ele conduz as entrevistas, e eu faço intervenções ou pergunto coisas que acho que ele pode ter deixado passar — ​​o que não acontece com frequência.

Ele respeita muito o que eu faço, e vice-versa. Então, se há uma história que parece combinar particularmente bem com o meu estilo, ele diz: "Você deveria assumir essa. Ela tem um potencial visual incrível". No caso do livro sobre Gaza, houve uma história em que pensei: "Preciso focar nesta aqui". E ele imediatamente me incentivou a seguir em frente. Não invadimos o espaço um do outro. E mesmo na estruturação do livro, ele escreveu, por exemplo, o final de um capítulo para fazer a transição para a minha seção. Também não ficamos interferindo no trabalho um do outro. Tudo flui de maneira muito orgânica. 

Elias Feroz

No livro, Chris critica duramente o New York Times pela cobertura que faz de Gaza. Considerando que se trata de seu antigo empregador, você e Chris percebem alguma melhora real ou mudança estrutural na maneira como grandes veículos, a exemplo do Times, noticiam a situação em Gaza hoje, ou consideram que os vieses fundamentais e as restrições editoriais permanecem os mesmos?

Joe Sacco

Acho que ambas as coisas são, de certa forma, verdadeiras. Os vieses fundamentais permaneceram os mesmos, mas acredito que o genocídio é tão evidente — e tantas pessoas o percebem — que o jornal não pode ignorá-lo; eles precisam lidar com a questão em algum nível.

Isso não significa que a situação estrutural tenha mudado. Eles estão reconhecendo parte do sofrimento pelo qual os palestinos estão passando. Essa é a minha interpretação. O Chris pode ter uma interpretação diferente.

Elias Feroz

No atual discurso político e midiático em torno de Israel e Palestina, há um debate intenso sobre o contexto histórico e sobre quando esse conflito realmente começou. As narrativas dominantes frequentemente focam excessivamente em eventos imediatos, tratando as décadas passadas como se tivessem perdido a validade. No livro, há uma passagem marcante sobre como Lewis Lapham, editor da Harper’s Magazine, cortou suas entrevistas com sobreviventes dos massacres de 1956 por considerá-las "história irrelevante". Você ficou furioso e retornou a Khan Yunis e Rafah, o que culminou no seu livro Notas de Rodapé em Gaza. Olhando para trás, como essa rejeição editorial moldou sua compreensão de como a mídia dominante usa a arma da "irrelevância" para controlar a cronologia de um conflito?

Joe Sacco

Se você não entende a história, não entende por que as coisas acontecem. Historicamente, pouca coisa surge do nada. Existe uma continuidade de eventos.

Às vezes, uma geração inteira pode ser ignorada, e então o fio da história é retomado. No caso da Palestina, isso é muito claro. Você pode pegar, digamos, os anos 2000. Duas ou três vezes, Israel interveio e "aparou a grama" — como eles diziam eufemisticamente —, matando centenas, ou até milhares de pessoas, em campanhas de bombardeio que duravam semanas. Claramente, as pessoas em Gaza têm sido contidas, frustradas, oprimidas e controladas de todas as formas possíveis.

Curiosamente, apesar de tudo isso, uma sociedade vibrante conseguiu se desenvolver lá.

Nesse caso, eu queria focar no que aconteceu em 1956 nas cidades de Khan Yunis e Rafah. Não vejo a história como algo irrelevante. Vejo-a como um alicerce fundamental para a situação em que estamos hoje. Para entender a fúria, a frustração, a raiva — tudo isso —, é preciso entender o que aconteceu com aquele povo. Isso, é claro, não diminui em nada a importância do que aconteceu em 7 de outubro. De forma alguma. Mas é preciso observar certos aspectos. Se você não entende a história, não entende por que as coisas acontecem.

Durante a Grande Marcha do Retorno, em 2018 e 2019, por exemplo, palestinos se aproximaram pacificamente do chamado muro de segurança [construído por Israel] e foram alvejados a tiros. Ao longo de vários meses, algumas centenas foram mortos. Muitos ficaram gravemente feridos. Atiradores de elite israelenses disparavam contra as pernas e os joelhos das pessoas, resultando em um grande número de amputações. Esse tipo de acontecimento não recebeu muita atenção da grande mídia. Fico indignado quando pessoas como Thomas Friedman, do New York Times, perguntam: "Onde está o Gandhi palestino?"

Vemos pessoas tentando encontrar uma maneira pacífica de chamar a atenção do mundo, dizendo: "Esse confinamento a que somos submetidos como povo não pode continuar. Essa opressão não pode continuar", mas o Ocidente dá de ombros. É preciso compreender todos esses aspectos.

Vou dar outro exemplo de algo que considerei muito importante, mas que foi cortado daquela matéria da Harper’s. Entrevistamos [Abdel Aziz] Al-Rantisi, um dos fundadores do Hamas. Isso aconteceu na Cidade de Gaza, em 2000 ou 2001. Ele nos falou sobre o massacre de 1956 em Khan Yunis e sobre como seu tio havia sido morto quando ele próprio era um menino de oito ou nove anos. Ele descreveu como se lembrava dos gritos de lamento. Parecia que ele ia chorar só de pensar no que havia acontecido e disse: "Naquele momento, plantaram o ódio em nossos corações". É preciso entender como um fato leva ao outro. Não se pode isolar os acontecimentos históricos.

Elias Feroz

Para Requiem for Gaza, você e Chris entrevistaram vinte e nove famílias no Cairo que haviam acabado de fugir de Gaza. De que maneira o caráter imediato e recente do trauma delas afetou o processo de entrevista, em comparação com a pesquisa histórica realizada para Footnotes in Gaza? E como vocês escolheram as pessoas que entrevistariam?

Joe Sacco

Algumas semanas antes de partirmos para o nosso livro atual, ficamos pensando: "Quem vamos entrevistar? Como vamos fazer isso?". Tínhamos uma tradutora chamada Ruba, e ela ajudou a organizar quem entrevistaríamos. Você faz um contato, a pessoa conversa com você e, então, indica outra pessoa. Mais uma vez, tudo aconteceu de forma orgânica.

Algumas pessoas têm receio de falar, mas muitas querem conversar. A diferença é que, quando se fala de algo ocorrido há cinquenta anos, é natural que as lembranças comecem a se apagar. Ainda assim, as pessoas se lembravam muito bem de certos episódios marcantes. Havia o desafio de lidar com diversos episódios históricos que competiam entre si na memória das pessoas. Quando eu estava produzindo o livro sobre 1956 e entrevistando moradores de Gaza, às vezes me perguntavam: "Por que você não fala sobre o que está acontecendo agora?".

Já no livro atual, as lembranças dos nossos entrevistados estavam muito vivas. Muitas das pessoas com quem conversamos ainda tinham familiares em Gaza. Elas deixavam os celulares sobre a mesa, pois recebiam ligações dos parentes — aguardando notícias. Estavam sempre na expectativa e preocupadas com seus entes queridos. Dava para perceber a angústia real que sentiam por saber que outras pessoas haviam ficado para trás.

Elias Feroz

Existe um argumento muito difundido no discurso político ocidental sugerindo que os países árabes vizinhos deveriam simplesmente absorver a população de Gaza para resolver a crise humanitária. Seu livro desmonta completamente esse equívoco. As famílias que conseguiram fugir para o Egito não têm status legal, nem direito ao trabalho, nem seguro de saúde, e seus filhos são impedidos de frequentar escolas: não lhes é oferecido futuro algum. Quando você esteve no Cairo, chegou a conversar com os refugiados sobre o que pensavam a respeito dessas supostas soluções?

Joe Sacco

Não me lembro de ter feito essa pergunta específica, mas você tem razão. As pessoas viviam em um grande limbo no Egito. A situação era extremamente desconfortável. Elas não estavam sendo bombardeadas. Não estavam passando fome daquela maneira específica. Mas muitas pessoas estavam ficando sem dinheiro. E, quando o dinheiro acaba, você tende a fazer coisas que normalmente não faria.

Quanto a esse discurso sobre absorver os palestinos, tenho certeza de que ouviremos muito mais sobre isso no futuro, pois, neste momento, não vejo Gaza sendo reconstruída. Seria necessária uma grande mudança política — tanto na política dos EUA quanto na de Israel — para permitir a reconstrução de Gaza. Não sei o que acontecerá com as pessoas de lá. Já analisei outros conflitos, massacres e genocídios, mas raramente vi uma situação em que o Ocidente estivesse tão diretamente envolvido no que está acontecendo.

Muitas pessoas em Gaza provavelmente diriam: "Apenas me tirem daqui". Depois do genocídio, depois de viver em tendas, convivendo com cobras e doenças e em condições de fome ou quase inanição por tanto tempo, você só quer manter seus filhos em segurança. Acho que pode muito bem ser esse o plano: fazer com que as pessoas deixem Gaza "voluntariamente". Em outras palavras, isso seria, com certeza, uma limpeza étnica.

Sei que o Egito resiste muito a absorver palestinos. Na visão deles, já absorveram muitos. Mas é possível imaginar algum tipo de acordo, assim como Donald Trump conseguiu fazer com que países como El Salvador aceitassem detentos sob custódia do ICE (agência de imigração dos EUA) vindos de outros países, ou como está fazendo com a Libéria para receber pessoas. Poderia-se imaginar acordos semelhantes sendo feitos com outros Estados. Quem sabe o que eles podem tentar articular?

Elias Feroz

Sua carreira e sua identidade como pioneiro do jornalismo em quadrinhos estão profundamente ligadas à Palestina. Você percorreu as ruas de Gaza décadas atrás para seus livros e, agora, a Gaza que você conheceu — juntamente com muitos dos lugares e talvez até algumas das pessoas que você desenhou — literalmente não existe mais. Olhando para trás, o quanto a Palestina moldou você, não apenas como jornalista, mas como ser humano? E o que significa para você, emocionalmente, saber que seus livros deixaram de ser reportagens contemporâneas para se tornar um arquivo vital e trágico de um mundo que foi fisicamente apagado?

Joe Sacco

A Palestina me transformou desde o início. Eu teria ficado feliz em seguir em frente e deixar o assunto para trás se, por exemplo, os Acordos de Oslo tivessem evoluído para uma solução de dois Estados que, embora talvez não fosse particularmente justa, fosse pelo menos viável e aceitável para as pessoas envolvidas. Nesse caso, eu provavelmente teria seguido outro caminho.

As ruas por onde andei, as pessoas que conheci, toda uma sociedade e todo um modo de vida estão sendo apagados diante dos nossos olhos.

Mas, para mim, a questão continua sendo significativa porque o Ocidente está profundamente envolvido. Analisei outros conflitos, massacres e genocídios, mas raramente vi uma situação em que o Ocidente estivesse tão diretamente implicado no que está acontecendo. No caso da Palestina, os Estados Unidos apoiam as políticas de Israel há décadas — desde a Guerra dos Seis Dias, quando passaram a ver Israel, essencialmente, como parte de um projeto imperial maior. A situação se deteriorou com o tempo, especialmente com o genocídio. Nosso envolvimento vai muito além do simples fornecimento de armas e cobertura diplomática. Basicamente, abandonamos muitos dos princípios e instituições que construímos após a Segunda Guerra Mundial para permitir que isso continuasse. O Tribunal Penal Internacional, as Nações Unidas e todas essas instituições foram criados para impedir que algo assim acontecesse, ou pelo menos para atenuar a situação de alguma forma. Ver o fracasso total dessas instituições tem sido muito difícil. Para mim, trata-se também de uma questão moral fundamental. Se você não consegue reconhecer que um genocídio está ocorrendo, então, honestamente, não sei o que dizer.

Mas você tem razão: meu trabalho entrou, de certa forma, na esfera do arquivo. E há uma grande tristeza nisso, porque você percebe que as ruas por onde andei, as pessoas que conheci, toda uma sociedade e todo um modo de vida estão sendo apagados diante dos nossos olhos. Isso deveria ser motivo de profunda reflexão para qualquer pessoa civilizada — ou para qualquer um que se considere civilizado. Então, sim, isso me afetou. Obviamente, tenho uma ligação mais profunda com essa questão do que a maioria das pessoas. Passei grande parte da minha carreira refletindo sobre isso e retratando essa realidade. Não é fácil observar o que está acontecendo sob essa perspectiva.

Há algum tempo eu queria me afastar do jornalismo. Queria me dedicar a outros trabalhos criativos. Sentia que, de certa forma, já tinha feito o suficiente. Mas então aconteceu o que estamos vendo em Gaza, e você precisa vestir novamente a "roupa de jornalista" e voltar ao trabalho, porque essa é uma questão moral profunda. Sinto a obrigação de refletir sobre isso e de relatar os fatos. Talvez eu consiga fazer isso, até certo ponto, melhor do que outras pessoas no Ocidente, simplesmente por ter a experiência necessária — assim como o Chris. Tenho certeza de que ele sente o mesmo. Não é que eu esteja ansioso para voltar a isso; é que sinto a obrigação de fazê-lo. É um dever.

Elias Feroz

Você está trabalhando atualmente em outro projeto nessa linha?

Joe Sacco

Estou trabalhando em algo que remete aos meus tempos de quadrinhos underground. O projeto aborda algumas das mesmas questões que sempre me interessaram, mas de uma maneira totalmente diferente; não se trata de jornalismo. Basicamente, estou retomando coisas em que pensei enquanto fazia jornalismo — coisas que eu não conseguia expressar plenamente por meio do jornalismo, justamente por serem mais uma questão de intuição ou sentimento visceral. Quando você faz jornalismo, concentra-se nos fatos, em apurar a história corretamente e em tudo o que isso envolve. Mas você também reflete profundamente sobre a natureza humana e outros aspectos que não se encaixam necessariamente na estrutura jornalística. Agora, estou me voltando para algumas dessas ideias que não pude abordar diretamente em reportagens. É algo mais próximo de um ensaio, com elementos de humor ácido e sátira.

Colaboradores

Joe Sacco é cartunista e jornalista.

Elias Feroz é escritor freelancer. Entre outros temas, concentra-se no racismo, no antissemitismo e na islamofobia, bem como na política e na cultura da memória.

7 de setembro de 2026

A distensão emergente entre os EUA e a China

Uma Pequim confiante e uma Washington pragmática podem se entender.

Da Wei

Foreign Affairs

O líder chinês Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump, em Pequim, em maio de 2026.
Evan Vucci / Reuters

Quando o líder chinês Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump, se reuniram em Pequim, em maio, concordaram que seus dois países deveriam construir uma relação construtiva de estabilidade estratégica. Embora muitos observadores em Washington tenham reagido com ceticismo a essa nova estrutura, descartando-a como palavras vazias, ela marca a primeira vez em mais de uma década que a China e os Estados Unidos estabelecem um consenso sobre como definir a relação — um consenso amplamente reconhecido pelos líderes de ambos os lados. A estabilidade estratégica não se refere à distensão nuclear; em vez disso, sugere um novo equilíbrio no qual ambos os lados podem evitar uma maior deterioração da relação e até mesmo ampliar a cooperação onde os interesses convergem.

Os líderes em Pequim não esperam que essa nova estrutura resolva a maioria das divergências entre a China e os Estados Unidos ou que impeça o surgimento de novos atritos. Em junho, por exemplo, o Departamento de Defesa dos EUA incluiu mais empresas chinesas — incluindo gigantes do setor privado como Alibaba, Baidu e BYD — em sua lista de firmas envolvidas em atividades de fusão civil-militar, proibindo o Pentágono de contratar serviços delas. Em retaliação, a China incluiu dez entidades dos EUA em sua lista de controle de exportação de itens de dupla utilização, o que impede qualquer empresa de fornecer a elas itens com potencial para uso tanto militar quanto civil. No entanto, Pequim espera que um consenso construído em torno da estabilidade estratégica possa ajudar a China e os Estados Unidos a gerir suas diferenças de forma mais eficaz e a evitar os piores cenários: um conflito militar ou uma nova Guerra Fria. Até agora, os atritos contínuos não comprometeram o consenso geral estabelecido em maio. Ao manter as sanções e contramedidas relativamente limitadas, Pequim e Washington evitaram uma escalada perigosa e mantiveram a relação avançando.

O objetivo da nova estrutura diplomática entre Pequim e Washington é pragmático. Visa estabelecer uma base mínima para as relações sino-americanas, em vez de tentar alcançar um improvável grande acordo que resolvesse todos os conflitos. Também representa uma mudança na abordagem de Pequim ao lidar com os Estados Unidos. Ao contrário do passado, quando a China rejeitava estruturas americanas focadas na competição, agora ela está disposta a reconhecer que a natureza fundamental das relações sino-americanas é competitiva. Afinal, aliados ou parceiros não definiriam a estabilidade estratégica como o objetivo principal de sua relação; apenas concorrentes, ou mesmo adversários, precisam fazê-lo. A disposição de Pequim em aceitar uma formulação para gerir — em vez de excluir — a concorrência demonstra que o país está ganhando confiança e passando a se ver, cada vez mais, em pé de igualdade com Washington. A adoção dessa postura confiante pode levar a China a agir com maior comedimento em suas relações com os Estados Unidos — o que, por sua vez, poderia trazer um grau adicional de tranquilidade ao relacionamento.

Parece agora plausível que as relações bilaterais tenham superado um momento crítico e entrado em uma fase de maior estabilidade. Embora persistam desafios fundamentais capazes de provocar novas turbulências, é bem provável que o auge das tensões dos últimos oito anos esteja ficando para trás. A próxima cúpula de líderes, prevista para o final de setembro em Washington — quando Xi e Trump devem se reunir —, representa uma oportunidade para fazer a relação avançar ainda mais. Os dois líderes podem agora incorporar medidas mais concretas para sustentar essa nova estrutura de estabilidade estratégica, incluindo ações para reduzir atritos econômicos, ampliar a comunicação entre as forças militares, aprimorar mecanismos de gestão de crises, expandir o intercâmbio entre cidadãos e oferecer garantias a respeito de Taiwan, atenuando assim tensões que poderiam escalar para um conflito militar potencialmente catastrófico. Considerando a probabilidade de novos encontros entre Xi e Trump nos próximos meses, essa nova estrutura oferece a primeira oportunidade em anos de lançar as bases para uma estabilidade duradoura nas relações bilaterais.

ALÉM DA COMPETIÇÃO ESTRATÉGICA

Por muito tempo, líderes tanto em Pequim quanto em Washington buscaram definir a relação bilateral em termos de algum tipo de parceria. Em 1997, quando o líder chinês Jiang Zemin visitou os Estados Unidos, Pequim e Washington anunciaram o objetivo de estabelecer "uma parceria estratégica construtiva voltada para o século XXI". Em 2005, o governo de George W. Bush instou a China a "tornar-se uma parte interessada responsável" (responsible stakeholder) no sistema internacional; o líder chinês Hu Jintao respondeu, em 2006, que os dois países não eram apenas partes interessadas, mas que "também deveriam ser parceiros construtivos". No entanto, entre 2009 — quando o presidente Barack Obama e Hu concordaram em "desenvolver de forma constante uma parceria" para enfrentar desafios comuns — e a cúpula entre Trump e Xi no início deste ano, os líderes dos dois países não conseguiram chegar a um novo consenso sobre como definir a relação.

Os Estados Unidos deixaram de encarar a relação como uma parceria antes mesmo da China. Durante o primeiro mandato de Trump, os EUA começaram a definir as relações sino-americanas em termos de "competição estratégica". Inicialmente, a China tentou aceitar o elemento competitivo nas relações bilaterais. Pequim reconhecia que certa competição era inevitável, ao mesmo tempo que esperava que a relação pudesse permanecer positiva em termos gerais. Contudo, à medida que as relações sino-americanas se deterioravam drasticamente no último ano do primeiro mandato de Trump e continuavam a piorar durante o governo Biden, Pequim passou a ver a "competição estratégica" como uma narrativa concebida para impedir a ascensão da China. O governo chinês considerava que a abordagem americana ameaçava suas perspectivas de desenvolvimento, o que levou Pequim a rejeitar o conceito com mais firmeza. Em julho de 2022, durante uma conversa telefônica com o presidente Joe Biden, Xi disse ao seu homólogo que era um erro fazer da competição a característica definidora da relação.

Para formuladores de políticas e analistas na China, a estrutura da competição estratégica transformava todas as interações sino-americanas em algo semelhante à disputa da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Eles viam ações dos EUA, como os controles de exportação de semicondutores, como manifestações concretas de que os Estados Unidos tentavam conter a China, minar seu sistema político e restringir seu desenvolvimento. Embora as declarações oficiais de Washington abordassem os laços bilaterais em termos de cooperação, competição e confronto, na prática, a competição e o confronto anularam qualquer potencial de cooperação.

Após quase uma década em que a China rejeitou e criticou a competição estratégica, a transição para uma relação de estabilidade estratégica construtiva reflete uma reavaliação, por parte de Pequim, das posições e papéis de ambos os países no sistema internacional, bem como das novas realidades das relações sino-americanas. A China encara as relações bilaterais a partir de uma posição de maior igualdade e com mais confiança, mostrando-se menos receosa de que a competição possa comprometer suas perspectivas de desenvolvimento nacional. Em vez disso, Pequim acredita que a competição pode ser gerida de forma eficaz, sem representar uma ameaça existencial.

MAIS DE UM HOMEM

O sucesso da estabilidade estratégica como base de uma nova fase nas relações EUA-China depende de estar enraizada nas vontades e agendas pessoais de Trump e Xi ou de surgir de forças estruturais que são mais poderosas do que qualquer líder individual. Muitos observadores, tanto em Pequim como em Washington, vêem o consenso emergente como um resultado contingente dos interesses dos dois homens actualmente no comando. Trump, por exemplo, assumiu a responsabilidade de mudar a direção da política dos EUA. A sua mudança inesperada no sentido de abraçar uma relação mais estável com a China coincide com outras mudanças inesperadas na sua agenda para o segundo mandato, incluindo a adopção de uma atitude fria e até hostil para com os aliados europeus e o lançamento de uma guerra contra o Irão, apesar de frequentemente condenar o envolvimento militar dos EUA no exterior.

Mas estas mudanças também obscurecem factores estruturais mais duradouros na relação EUA-China que empurraram os dois países para uma maior estabilidade e que tornam mais provável que o novo quadro diplomático possa sobreviver. A actual reaproximação é a quarta vez nos últimos oito anos que um período de tensão entre a China e os Estados Unidos deu lugar ao anúncio de algum tipo de Estado estável.

A fricção contínua não atrapalhou o consenso estabelecido em maio.

Depois de a China e os Estados Unidos se confrontarem agressivamente em matéria de comércio e tecnologia, culminando na guerra comercial em 2018, os dois países alcançaram a Fase Um do acordo comercial, em Janeiro de 2020, que estabilizou os laços. A pandemia de COVID-19, que eclodiu logo depois, inflamou gravemente as tensões, levando a relação ao seu ponto mais baixo desde antes da primeira visita do presidente dos EUA, Richard Nixon, à China, em 1972. Em novembro de 2022, Biden e Xi reuniram-se em Bali e anunciaram que queriam restabelecer as relações EUA-China, mas poucos meses depois, em fevereiro de 2023, surgiram recriminações sobre um objeto chinês flutuando sobre os Estados Unidos – descrito por Pequim como um objeto civil. dirigível meteorológico e por Washington como balão espião - interrompeu tais esforços. Em novembro daquele ano, Biden e Xi suavizaram os laços pela terceira vez na cimeira de São Francisco. Isto definiu o teor das relações até Abril de 2025, quando as chamadas tarifas do Dia da Libertação de Trump geraram uma nova guerra comercial. Ao longo deste período, os Estados Unidos passaram por três mandatos presidenciais diferentes, sob administrações Democratas e Republicanas, mas as relações EUA-China voltaram repetidamente a um estado estável.

Fatores estruturais independentes da opinião de qualquer líder individual incentivam a estabilidade no relacionamento. Isto inclui o custo proibitivo da dissociação económica total e as consequências catastróficas de potenciais conflitos militares. Dito de outra forma, desde o início do segundo mandato de Trump, tornou-se claro para ambos os lados que a relação bilateral é simplesmente grande demais para falhar. Os dois lados ocupam posições tão importantes nos assuntos globais e internacionais, cada um com poder suficiente para causar enormes danos, que nenhum deles quer ver o outro tornar-se um inimigo. Os intensos confrontos entre a China e os Estados Unidos sobre tarifas e terras raras em 2025 revelaram que cada lado poderia explorar as vulnerabilidades do outro, lembrando a ambos que os dois países são altamente interdependentes e precisam de agir com prudência num confronto económico. Além disso, enquanto potências nucleares, Pequim e Washington estão cientes de que não podem permitir-se a perspectiva de uma relação em constante deterioração que aumente o risco de conflito militar.

Se as relações entre os EUA e a China voltarem a ficar mais voláteis após a posse do próximo presidente americano, a resiliência dessa relação será posta à prova. No entanto, é pouco provável que as forças estruturais em jogo tenham mudado. Portanto, mesmo que futuros líderes americanos anunciem uma nova abordagem para a relação sino-americana, é provável que, no final, cheguem às mesmas conclusões que seus antecessores e busquem a estabilidade.

EMBARAÇADOS COM A CHINA

Outros críticos argumentam que o consenso sobre estabilidade estratégica é, no máximo, uma trégua temporária. Em sua visão, ambos os lados aproveitarão esse tempo para corrigir suas fraquezas, buscar novas fontes de influência e preparar-se para um confronto futuro. Os Estados Unidos poderiam encontrar fornecedores alternativos para as terras raras de que necessitam, por exemplo, e a China poderia encontrar novas fontes de semicondutores ou desenvolver seus próprios chips avançados.

Mas, apesar das intensas fricções comerciais e geopolíticas, as cadeias de suprimentos globais mostraram-se mais resilientes — e mais profundamente interligadas — do que a maioria dos observadores previa. As restrições dos EUA à tecnologia chinesa fragmentaram as cadeias de suprimentos globais, mas não as romperam. As tentativas de desviar a produção da China apenas dispersaram as empresas chinesas por uma gama mais ampla de países e parceiros, mantendo, ao mesmo tempo, seu papel insubstituível na maioria das cadeias de suprimentos. Em 2023, por exemplo, enquanto o governo Biden buscava limitar a dependência das cadeias de suprimentos de baterias dos EUA em relação à China, empresas chinesas como a CATL na verdade ampliaram sua participação de mercado ao aumentar a produção e as redes de fornecimento na Ásia e na Europa; além disso, a CATL licenciou sua tecnologia para a Ford produzir baterias em solo americano. Mesmo que a China e os Estados Unidos sanem suas vulnerabilidades em chips e terras raras, respectivamente, as conexões mais amplas entre os dois países garantem a permanência de outras áreas de interdependência.

O rápido desenvolvimento de tecnologias como a inteligência artificial tornará particularmente difícil para os Estados Unidos ou para a China eliminar as fontes de influência do outro. Novas tecnologias criam novas vulnerabilidades. Com a possibilidade de uma inteligência artificial geral no horizonte, é pouco provável que as fricções na relação sino-americana se concentrem nos mesmos campos ou se manifestem da mesma forma que hoje. A probabilidade de a China ou os Estados Unidos criarem o que os romances de artes marciais chinesas chamam de "camisa de ferro" — um regime de treinamento que torna alguém imune a lâminas e balas — é muito baixa. À medida que ambos os países adquirem capacidades tecnológicas mais potentes, velozes e menos previsíveis, o que é necessário para preservar a estabilidade provavelmente mudará. Tentativas de qualquer um dos lados de obter uma vantagem avassaladora ou garantir segurança absoluta poderiam, em vez disso, aumentar a insegurança do outro e intensificar a competição bilateral, forçando, por fim, ambos os países a aceitar certa vulnerabilidade mútua e um equilíbrio estratégico diferente. Os dois países já estão percebendo que terão de gerir os enormes desafios que a IA apresenta, especialmente os riscos de segurança, seja por meio de ações conjuntas ou de esforços paralelos.

As relações entre os EUA e a China se estabilizaram quatro vezes nos últimos oito anos; isso também significa que, sob a perspectiva oposta, a relação degenerou repetidamente em confronto. Com cada choque sucessivo gerando novas queixas e hostilidade, instalou-se um cansaço palpável em ambos os lados. Reduzir as ambições ao objetivo limitado da estabilidade permite atenuar a volatilidade, alcançar progressos tangíveis e lidar com a realidade da interdependência de maneiras mais produtivas.

O ORIENTE ESTÁ EM ASCENSÃO

Uma das mudanças mais significativas subjacentes à aceitação da estabilidade estratégica é a crescente confiança da China. Quando o primeiro governo Trump começou a pressionar por um maior desacoplamento (decoupling), em 2018, muitos formuladores de políticas e cidadãos chineses temiam que a escalada das tensões com os Estados Unidos prejudicasse o progresso do país e encerrasse a perspectiva de a China se tornar uma nação mais forte e próspera. Na China contemporânea, o desenvolvimento está atrelado à abertura: quanto maior a cooperação internacional, mais rápido avança o desenvolvimento tecnológico. A adoção da competição estratégica pelos Estados Unidos desafiou essa premissa básica. A eclosão da pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia, que afastaram ainda mais os países e os dividiram em blocos, intensificaram as preocupações tanto de tomadores de decisão quanto de cidadãos comuns.

No entanto, após oito anos de guerras comerciais e tecnológicas intermitentes com os Estados Unidos, os fundamentos econômicos da China permaneceram estáveis. Embora o mercado imobiliário enfrente dificuldades e as indústrias tradicionais estejam em crise, os setores de alta tecnologia avançaram a passos largos, e o setor manufatureiro — particularmente a manufatura avançada — fortaleceu-se. A impossibilidade de obter semicondutores dos Estados Unidos forçou a China a fortalecer sua própria indústria de chips. A visão predominante na China atualmente é a de que as restrições do governo americano aos setores de alta tecnologia impulsionaram o país rumo a um caminho melhor, marcado por maior autossuficiência e inovação, tornando as políticas de contenção de Washington ineficazes e, em última análise, contraproducentes.

Fatores estruturais impulsionaram os dois países em direção a uma maior estabilidade.

Os êxitos da China vêm se acumulando. No início de 2025, a empresa chinesa DeepSeek lançou um modelo de linguagem de grande porte (Large Language Model) que alcançou um desempenho quase equivalente ao dos modelos de IA de ponta dos EUA, a uma fração do custo. Em abril daquele ano, a China retaliou com sucesso as tarifas impostas por Trump, forçando Washington a retornar à mesa de negociações. Nessas negociações e em conversas posteriores, o domínio chinês sobre as terras raras conferiu ao país um ponto de estrangulamento nas cadeias de suprimentos dos EUA. Tais episódios elevaram a confiança da China e fizeram com que seus formuladores de políticas e estrategistas se preocupassem menos em abordar a competição como parte da relação do país com os Estados Unidos.

Comentaristas ocidentais frequentemente acreditam que uma China confiante se tornará mais assertiva. Ocorre justamente o contrário. Quando os líderes chineses acreditam que podem gerir seu ambiente externo e que os interesses fundamentais e as perspectivas de desenvolvimento do país não estão ameaçados, eles mostram-se mais dispostos a exercer moderação, participar de consultas e concentrar-se na resolução de problemas internos. Na década de 1990 e na primeira década do século XXI, por exemplo, à medida que a economia chinesa crescia rapidamente, o país deixou de lado as disputas no Mar do Sul da China com seus vizinhos. Foi somente após a política de "pivô para a Ásia" do governo Obama — quando Pequim sentiu que os Estados Unidos estavam unindo países da região contra a China — que o país adotou uma postura mais dura na resolução de disputas no Mar do Sul da China.

Em 2026, uma China mais confiante não tirou proveito das dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos na guerra contra o Irã; em vez disso, promoveu discretamente negociações de paz nos bastidores. Da mesma forma, agora que a China está menos preocupada com a possibilidade de os Estados Unidos terem a intenção ou a capacidade de bloquear suas perspectivas de desenvolvimento, ela está mais disposta a aceitar uma competição delimitada com os EUA. A partir de uma posição de confiança, Pequim pode interagir com os Estados Unidos de maneira pragmática, abordando questões específicas uma a uma, em busca de políticas concretas para gerir um nível inevitável de competição.

UM NOVO PILAR DE SUSTENTAÇÃO

O requisito fundamental da nova estrutura de estabilidade estratégica é a manutenção da paz. Isso exige que as forças armadas da China e dos EUA estabeleçam medidas mais maduras para evitar crises, gerenciá-las e promover a confiança mútua. Ambos os lados podem reduzir a probabilidade de conflito a baixo custo, estabelecendo intercâmbios militares regulares e aprimorando e ampliando os protocolos existentes para encontros no mar e no ar. Podem também coordenar ações em questões relacionadas ao espaço sideral, como a prevenção de colisões em órbita baixa da Terra, a regulamentação do tráfego espacial e a construção de confiança em torno de suas respectivas intenções estratégicas. Abordar preocupações em áreas politicamente mais sensíveis, como armas nucleares e a aplicação militar da inteligência artificial, exigirá uma abordagem mais gradual. Embora o governo Trump tenha demonstrado maior interesse em discutir o controle de armas nucleares com a China, Pequim considera que negociações formais são prematuras devido à enorme disparidade entre as capacidades nucleares dos EUA e da China.

O progresso não precisa se restringir aos líderes de alto escalão. O aumento dos intercâmbios em todos os níveis entre a China e os Estados Unidos é outra maneira de baixo custo para consolidar uma estrutura de estabilidade estratégica. Os Estados Unidos e a China poderiam ampliar as oportunidades de interação flexibilizando restrições de vistos, revisando e reduzindo sanções, revogando proibições de entrada ou saída e limitando outras restrições de viagem para instituições e cidadãos, além de permitir que mais veículos de comunicação do outro lado operem em seus territórios. Trump poderia aproveitar a oportunidade para lembrar explicitamente aos estudantes chineses que eles são bem-vindos para estudar nos Estados Unidos, e Pequim poderia formular políticas mais claras para orientar acadêmicos e estudantes sobre os limites de pesquisas aceitáveis ​​na China, garantindo abertura, segurança e liberdade acadêmica para quaisquer estudos que extrapolem esses limites.

Taiwan continua sendo um ponto crítico perigoso que pode comprometer o progresso rumo a uma relação de estabilidade estratégica. Taiwan é a única questão capaz de desencadear um conflito militar deliberado entre a China e os Estados Unidos, e a pressão está aumentando. A permanência do Partido Democrático Progressista — mais favorável à independência — no governo da ilha, combinada com o forte desejo de Pequim de promover a unificação nacional e a incerteza sobre qual política os EUA adotarão em relação a Taiwan, tem acirrado as tensões entre todas as partes. Um novo equilíbrio só poderá surgir por meio de um arranjo no qual nenhuma das partes fique totalmente satisfeita, mas todas consigam conviver com o resultado.

O objetivo é estabelecer uma base mínima de sustentação para as relações entre os EUA e a China. Enquanto Pequim acreditar que a integração entre os dois lados do Estreito permanece viável, não terá motivos para recorrer à força militar. Os Estados Unidos poderiam alterar sua política declarada para se alinhar mais estreitamente a Pequim, reconhecendo a soberania chinesa sobre Taiwan ou opondo-se explicitamente à independência da ilha; isso tranquilizaria Pequim quanto à viabilidade de uma unificação pacífica. Tal medida permitiria que a China e os Estados Unidos chegassem a um consenso que concretizasse o objetivo americano de uma resolução pacífica para a disputa, preservando, ao mesmo tempo, a capacidade da população de Taiwan de manter seus sistemas políticos e sociais. Ao manter viva a perspectiva de uma unificação pacífica, seria possível atender, na medida do possível, às principais preocupações de todas as três partes envolvidas.

A decisão de Washington de suspender temporariamente a venda de US$ 14 bilhões em armamentos para Taiwan — tomada durante a cúpula entre Trump e Xi, em maio — amenizou um ponto de tensão que se agravava rapidamente nas relações entre os EUA e a China. No entanto, essa decisão impõe um novo desafio à estrutura incipiente de estabilidade estratégica. Embora Pequim tenha certamente visto com bons olhos o adiamento, a pausa também elevou as expectativas em relação à futura política dos EUA para Taiwan. Caso o governo Trump venha a retomar as transferências de armas — cenário considerado provável pela maioria dos observadores em Washington —, Pequim se oporá veementemente à medida, o que poderia comprometer a estrutura de estabilidade estratégica. Esse cenário representa uma ameaça concreta e evidente que ambos os países precisarão gerenciar no período que se avizinha.

Uma relação de estabilidade estratégica não é um conceito imposto por um lado ao outro, nem algo que beneficiará Pequim em detrimento de Washington. Trata-se do resultado de esforços conjuntos de ambos os países, o que a torna uma oportunidade rara. O próximo passo é desenvolver essa estrutura básica, dar-lhe vida e torná-la sustentável. A cúpula de setembro e as demais reuniões de líderes agendadas para este ano oferecem uma oportunidade oportuna para avançar com pequenos passos rumo à consolidação dessa base de estabilidade. Alguns consideram esse objetivo modesto demais. No entanto, se duas grandes potências como a China e os Estados Unidos conseguirem manter as oscilações na relação dentro de limites administráveis ​​e evitar qualquer tipo de guerra, isso representará muito mais do que uma conquista modesta.

DA WEI é diretor do Centro de Segurança e Estratégia Internacional e professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Tsinghua.

4 de setembro de 2026

Apostas às cegas

O capitalismo e os mercados.

Dylan Riley

Sidecar


O boom de investimentos em IA — seja ele uma bolha ou não, como tendo a acreditar — é uma demonstração vívida de quão enganoso é caracterizar o capitalismo como uma "economia de mercado". Os ideólogos do sistema falam incessantemente sobre mercados. Segundo eles, os mercados transmitem informações sobre as vontades e os desejos das pessoas a produtores distantes, que então orientam suas ações de acordo com essas informações. O culto aos mercados, portanto, resume-se a uma afirmação sobre a relação entre informação e investimento. Para os entusiastas do mercado, nem mesmo o planejador central mais bem-intencionado do mundo consegue atender adequadamente às necessidades das pessoas, pois o planejamento destrói o sistema de preços — o mecanismo que transmite a informação necessária para que um planejamento racional possa ocorrer.

Deixando de lado debates complexos sobre cálculo e planejamento, considere por um momento se os mercados desempenham o papel que deveriam no capitalismo. Uma breve reflexão revela que, se o capitalismo pudesse de fato ser descrito como uma economia de mercado tout court, ele não teria nenhuma das características revolucionárias que evidentemente possuiu no passado. A característica mais óbvia do sistema é sua tendência de transformar constantemente as técnicas e a organização da produção, com o objetivo de aumentar os lucros em um ambiente competitivo. Não é nada óbvio que a IA e a expansão associada de centros de dados levarão a tal transformação radical (Umwälzung). É evidente, no entanto, que alguns atores importantes acreditam nisso — ou, pelo menos, gostariam de passar a impressão de que acreditam.

Qualquer que seja o resultado final do atual boom de investimentos, uma coisa é clara: ele não pode ser uma resposta a informações sobre as preferências existentes dos consumidores. Precisamente porque a IA generativa é uma tecnologia radicalmente nova — cujo uso ainda está sendo definido —, os investimentos e a expansão que ela impulsiona são independentes da demanda ou, na melhor das hipóteses, baseiam-se em suposições que não podem se apoiar em preços. Essa falta de resposta aos sinais do mercado é justamente o que torna esses investimentos potencialmente revolucionários.

Considere a situação em novembro de 2022, pouco antes do lançamento do ChatGPT. A demanda por IA generativa, naquele momento, era praticamente inexistente. Mas, após o lançamento, enormes volumes de investimento foram direcionados ao desenvolvimento da tecnologia. Por que todo esse investimento fluiu para um negócio cujos produtos não tinham demanda evidente? Isso ocorreu porque o ritmo do investimento capitalista é determinado por expectativas futuras de lucratividade, algo amplamente desconectado dos desejos e anseios existentes da população — para não mencionar quaisquer considerações mais amplas sobre necessidades sociais.

O sistema de oferta e demanda, na verdade, desempenha um papel subordinado no capitalismo. A característica mais marcante do capitalismo é o grau de independência do investimento em relação à demanda: o quanto ele se volta para um futuro especulativo e o quão pouco depende de informações. Em contrapartida, uma sociedade de mercado pura seria totalmente diferente daquilo que passamos a conceber como capitalismo em seu sentido clássico e dinâmico. Em tal sociedade, os produtores obteriam informações precisas sobre as demandas existentes. Isso levaria a uma divisão do trabalho altamente desenvolvida, cuja consequência última seria um declínio na concorrência, à medida que cada produtor encontrasse exatamente o nicho ao qual estivesse perfeitamente adaptado. A sociedade seria tecnologicamente conservadora, justamente porque todos os fatores de produção (particularmente o trabalho e o capital) seriam remunerados de acordo com sua contribuição produtiva. Consequentemente, a acumulação seria baixa, e haveria pouco incentivo ou oportunidade para fazer grandes apostas no futuro. Fundamentalmente, para funcionar adequadamente, uma sociedade de mercado exigiria um baixo nível de desigualdade de renda, pois somente assim a utilidade marginal do dinheiro seria equivalente, permitindo que os preços refletissem a demanda real. O grande teórico de tal sociedade é Durkheim, cujo utopismo foi tantas vezes erroneamente identificado como positivismo.

Os mercados desempenham certo papel na alocação de recursos existentes no capitalismo; mas o que realmente distingue o sistema não pode ser descrito em termos de mercados. Se o sistema de preços funcionasse como sugerem seus defensores mais fervorosos, por que haveria crescimento econômico e, em particular, por que ele assumiria a forma marcadamente descontínua que apresenta ao longo da história do capitalismo? É concebível um sistema de alocação via preços perfeitamente funcional sem qualquer crescimento; o crescimento, de fato, pareceria exigir o uso de recursos para produzir bens e serviços para os quais não há demanda atual e, portanto, depende de romper o vínculo entre oferta e demanda que o sistema de mercado deveria preservar e regular.

Historicamente, os mercados têm, na melhor das hipóteses, apenas uma conexão contingente com o crescimento. Existem inúmeros exemplos de expansão de mercado que levaram à involução econômica — sendo o tráfico de escravos africanos talvez o exemplo mais terrível e evidente. Aquele continente pagou por sua participação nos mercados globais com uma perda demográfica massiva da qual, pode-se argumentar, ainda não se recuperou. Poder-se-ia mencionar também o impacto do comércio de grãos na Alemanha a leste do rio Elba, a partir do século XVI, que levou à consolidação de controles trabalhistas repressivos nas grandes propriedades rurais, ou a penetração de comerciantes florentinos na zona rural da Toscana, que minou os prósperos mercados locais de terras no século XV.

Houve muitas sociedades de mercado no passado que não eram capitalistas, e é provável que haja outras no futuro. O ponto decisivo sobre o capitalismo é, na verdade, que se trata de uma sociedade na qual os principais meios de produção são de propriedade privada e na qual, consequentemente, as decisões de investimento são tomadas de maneira descoordenada e anárquica, com base em suposições mais ou menos cegas sobre o que o futuro pode oferecer em termos de lucros. Os próprios mercados de futuros são notoriamente especulativos. Eles não fornecem informações reais sobre o futuro, mas, na melhor das hipóteses, conferem uma aparência de racionalidade a uma atividade econômica que não passa de uma aposta. A questão, em todo caso, é que a produção orientada para a demanda existente desempenha, no máximo, um papel limitado no capitalismo.

Tudo isso aponta para um problema crucial: a notável falta de correspondência entre as necessidades humanas e o investimento capitalista. Voltemos novamente ao final de 2022. Quais eram as necessidades existentes que poderiam ter sido, pelo menos parcialmente, atendidas por um investimento de um trilhão de dólares? Inúmeros candidatos se apresentam: a transição para tecnologias verdes, a expansão de oportunidades educacionais, a melhoria do acesso à saúde... O fato de que, em vez disso, uma quantia inimaginável foi canalizada para uma tecnologia para a qual — por mais atraente que fosse — não havia demanda evidente, muito menos uma necessidade premente, deve ser considerado uma falha flagrante do capitalismo e um argumento poderoso para organizar a economia com base em princípios fundamentalmente diferentes.

Poder-se-ia responder enfatizando que é precisamente essa disposição de lançar-se em um futuro desconhecido que confere ao capitalismo seu dinamismo específico. Mas será que realmente precisamos de uma cegueira especulativa para descobrir o melhor caminho a seguir? Existem muitas outras fontes de informação — além das oportunidades de obter lucros enormes no futuro — que forneceriam um guia mais racional para a aplicação da riqueza acumulada de nossas sociedades extremamente ricas. Nunca se pergunta "quais são as coisas que não descobrimos, quais são os caminhos que não trilhamos", porque nos foi imposta uma enorme aposta em algo que ninguém disse querer e que nenhuma ciência apontou como necessário. O falso determinismo do progresso tecnológico impede que tais perguntas sejam feitas. Talvez o ponto mais importante a ter em mente seja que a história é uma árvore de ramificações infinitamente complexa, e não uma linha ascendente — e é a política que articula a sua estrutura.

2 de setembro de 2026

A disparada dos rendimentos dos títulos beneficia os ricos e aperta o restante da população

A alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro não é um veredito do mercado sobre a irresponsabilidade do governo. Trata-se de uma decisão de política econômica que transfere renda de trabalhadores e tomadores de empréstimos para detentores de títulos e instituições financeiras.

Matías Vernengo


Os "vigilantes do mercado de títulos" não são uma força externa de mercado disciplinando um governo irresponsável. A narrativa do pânico no mercado de títulos inverte a relação de causa e efeito: os rendimentos elevados refletem, em grande medida, escolhas de política — e essas escolhas têm consequências distributivas. (Melissa Sue Gerrits / Getty Images)

A recente alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de longo prazo reacendeu uma narrativa conhecida sobre irresponsabilidade fiscal. Analistas apontam para os grandes déficits federais, a crescente dívida pública e o volume de títulos do Tesouro chegando ao mercado. Sob essa ótica, rendimentos mais altos seriam a resposta do mercado ao endividamento governamental excessivo, e a política da administração Trump equivaleria a uma imprudência fiscal. Essa interpretação baseia-se em uma concepção antiga e equivocada dos mercados financeiros. Ela trata o governo e os tomadores de empréstimos privados como concorrentes por um conjunto limitado de poupança, de modo que déficits maiores necessariamente impulsionariam as taxas de juros para cima. No entanto, as taxas de juros em uma economia monetária moderna não são determinadas dessa forma. O Federal Reserve (Fed) define diretamente a taxa de juros de curto prazo (taxa básica) e exerce forte influência sobre toda a curva de rendimentos por meio de alterações na composição e no tamanho de seu balanço patrimonial, bem como por meio das expectativas em relação às taxas futuras.

A atual elevação das taxas de longo prazo é mais bem compreendida sob essa perspectiva monetária. A inflação permanece acima da meta de 2% do Fed, e o choque energético associado à guerra envolvendo o Irã reforçou os receios de persistência inflacionária. Tais receios são exagerados. Uma inflação acima de 2% não constitui, por si só, evidência de uma crise inflacionária, especialmente quando não há conflito distributivo capaz de gerar uma espiral salários-preços autossustentável. O problema mais profundo reside no compromisso do Fed com uma meta de inflação excessivamente baixa. Como os formuladores de políticas tratam até mesmo uma inflação moderada como algo que exige medidas restritivas, as taxas de curto prazo permanecem desnecessariamente elevadas, e as expectativas de taxas mais altas se propagam para os títulos de vencimento mais longo.

Os rendimentos de longo prazo também devem ser analisados ​​à luz das políticas monetárias extraordinárias adotadas após a crise financeira global. O quantitative easing (flexibilização quantitativa) reduziu deliberadamente as taxas de longo prazo ao fazer com que o Fed comprasse grandes quantidades de títulos do Tesouro. À medida que o Fed adquiria títulos de longo prazo, seus preços subiam e seus rendimentos — a taxa de juros de longo prazo — caíam. O recuo posterior em relação a essas políticas eliminou uma importante fonte de pressão de baixa sobre os rendimentos. Contudo, embora o rendimento do título do Tesouro de 10 anos pareça elevado em comparação com o período excepcional pós-2008, ele permanece modesto segundo padrões históricos de mais longo prazo. Nada nos rendimentos atuais demonstra que a dívida pública dos EUA se tornou financeiramente insustentável. De fato, a experiência desde 2008 mostra que, quando o Federal Reserve deseja influenciar as taxas dos títulos do Tesouro de longo prazo, ele dispõe dos meios para fazê-lo.

A análise recente de Adam Tooze sobre os rendimentos mais elevados dos títulos públicos oferece uma versão mais sofisticada do argumento de que o mercado de títulos gera apreensão. Ele observa corretamente que os Estados Unidos não estão à beira de um calote. Sua preocupação, na verdade, diz respeito à mudança na estrutura da demanda por títulos do Tesouro (Treasuries). Nos anos 2000, bancos centrais estrangeiros absorviam uma grande parcela das novas emissões do Tesouro. Hoje, segundo ele, investidores privados — especialmente fundos de hedge alavancados — desempenham um papel muito maior. Como essas posições podem ser desfeitas rapidamente, Tooze teme que um choque possa desencadear vendas forçadas e uma repetição da turbulência no mercado de títulos ocorrida em março de 2020.

É verdade que mercados financeiros alavancados são frágeis, e uma corrida por liquidez pode gerar desordem mesmo no mercado dos ativos em dólar mais seguros. No entanto, apesar dessa descrição sofisticada da mudança na estrutura institucional do mercado de títulos, Tooze ainda trata a demanda privada por títulos públicos como uma restrição operacional para o Tesouro. O Tesouro emite títulos, investidores privados precisam absorvê-los, e o perigo reside na possibilidade de exigirem rendimentos mais altos ou se retirarem abruptamente. Assim, o Tesouro parece, pelo menos em certa medida, refém das circunstâncias do mercado. Essa é uma concepção equivocada.

O mercado de títulos do Tesouro não é um mercado comum, no qual o governo precisa aceitar qualquer preço necessário para atrair compradores privados que o financiem. O Tesouro e o Federal Reserve são instituições formalmente distintas, mas partes conectadas de forma simbiótica ao sistema monetário. Os bancos do Federal Reserve atuam como agentes fiscais do Tesouro. Considerando a capacidade do Fed de definir a taxa de curto prazo e comprar ativos — incluindo títulos de longo prazo — e a capacidade do Tesouro de alterar a composição de prazos da dívida, as autoridades públicas têm, em última análise, o poder de determinar a estrutura das taxas dos títulos, caso decidam utilizar plenamente suas prerrogativas. Isso não significa que acidentes financeiros sejam impossíveis. Fundos de hedge podem quebrar e mercados podem ficar temporariamente ilíquidos. Mas isso não transforma os rendimentos mais altos dos títulos em uma restrição externa imposta ao governo dos EUA. Se a desordem ameaçasse o sistema financeiro, o Fed poderia intervir, como já fez anteriormente. A questão relevante, portanto, não é se haverá compradores privados suficientes para financiar o endividamento do Tesouro a uma taxa determinada pelo mercado. A questão é por que o regime de política econômica do Tesouro e do Fed optou por tolerar — e, em aspectos importantes, gerar — taxas substancialmente mais altas.

A discussão recente de James K. Galbraith sobre a dívida federal aproxima-se consideravelmente dessa interpretação. Galbraith descarta a marca de US$ 40 trilhões da dívida como algo economicamente irrelevante e enfatiza que as obrigações dos EUA denominadas em dólares podem sempre ser pagas. Mais importante ainda, ele observa que taxas elevadas têm efeitos diferentes quando a dívida federal é grande. Elas não apenas comprimem o setor imobiliário, o investimento empresarial e o crédito ao consumidor; também geram enormes pagamentos de juros aos detentores de títulos públicos. Como diz Galbraith, pagamentos de juros mais altos "inundam os detentores de dívida com dinheiro". A consequência distributiva é clara: mais renda vai para os detentores ricos de títulos. Ele também tem razão ao afirmar que a alta nos rendimentos de longo prazo não precisa sinalizar perda de confiança no governo. Quando as taxas de curto prazo sobem e a expectativa é de que permaneçam altas, o preço dos títulos de longo prazo existentes (com cupons baixos) cai, e os rendimentos de longo prazo aumentam. Não há necessidade de invocar pânico fiscal.

Isso muda a forma como devemos entender a alta dos rendimentos. Os "vigilantes do mercado de títulos" (bond vigilantes) não são uma força externa de mercado disciplinando um governo irresponsável. A narrativa do pânico no mercado de títulos inverte a relação de causalidade. Taxas elevadas refletem, em grande medida, escolhas de política econômica, e essas escolhas têm consequências distributivas. Durante grande parte do período pós-crise financeira global, os proprietários de ativos financeiros seguros enfrentaram retornos excepcionalmente baixos. Taxas básicas baixas e a flexibilização quantitativa (quantitative easing) comprimiram os rendimentos, reduziram a receita de juros de títulos públicos e geraram queixas incessantes sobre repressão financeira. O novo regime inverte esse cenário. Uma vez estabelecido, no entanto, o regime de taxas mais altas restaura fluxos substanciais de receita de juros para credores e detentores de riqueza financeira.

Scott Bessent, um homem oriundo das entranhas de Wall Street, não está sendo derrotado por seus antigos amigos. Galbraith aponta a ironia de Bessent recomprar títulos de longo prazo com rendimentos mais baixos enquanto financia essas compras emitindo dívida de curto prazo com rendimentos mais altos, e pergunta de forma ácida: "Por que, afinal, um servidor público — que supostamente não trabalha para os detentores de títulos — iria querer fazer isso?" A questão é, precisamente, quem se beneficia do regime de taxas de juros mantido pelo Tesouro e pelo Federal Reserve. Os vencedores são os rentistas. Os detentores de títulos do Tesouro recebem pagamentos de juros maiores. As instituições financeiras voltam a obter retornos substanciais sobre ativos seguros, e as famílias ricas ganham um fluxo de renda garantido pelo governo federal. Trabalhadores, tomadores de empréstimos e devedores enfrentam o outro lado da política monetária restritiva. Os custos refletem-se em prestações de financiamento imobiliário e taxas de crédito mais elevadas, demanda agregada mais fraca, crescimento mais lento e um mercado de trabalho menos aquecido.

Há uma ironia adicional. O Fed eleva as taxas, a conta de juros do governo aumenta como consequência e esse custo mais elevado com juros é então citado como prova de que os déficits estão fora de controle e de que os gastos sociais precisam ser cortados. Um problema fiscal criado, em parte, pelo regime monetário torna-se a justificativa para a austeridade. A narrativa convencional inverte a sequência de causa e efeito. Em vez de reconhecer os pagamentos de juros mais altos como resultado de uma decisão política que transfere renda para os credores, ela apresenta a conta de juros elevada resultante como evidência de que os gastos do governo estão fora de controle.

O perigo maior é político, não financeiro. As interpretações convencionais sobre os rendimentos mais altos dos títulos não passam de argumentos retóricos em prol do ajuste fiscal. Tooze tem razão ao afirmar que estruturas financeiras alavancadas podem sofrer um desmonte, e Galbraith tem razão ao dizer que não existe uma crise de solvência federal significativa e que taxas elevadas enriquecem os detentores de títulos. No entanto, nem a fragilidade financeira nem a necessidade fiscal explicam o regime atual. O governo não é simplesmente vítima de taxas geradas pelo mercado. O sistema Tesouro-Fed tem capacidade de influenciar essas taxas e optou por um regime no qual elas permanecem mais altas do que no passado recente.

Não se trata do "Choque Volcker", mas há uma semelhança de natureza entre ambos. A inflação está longe dos níveis da década de 1970 e os sindicatos estão consideravelmente mais fracos, mas isso não impediu o surgimento de um regime de política macroeconômica que mantém taxas mais elevadas e exerce nova pressão sobre os gastos sociais — tudo isso em nome de princípios de política econômica sensatos. A verdadeira questão não são os "vigilantes dos títulos" (bond vigilantes), mas sim a vingança dos rentistas.

Colaborador

Matías Vernengo é professor de economia na Universidade Bucknell e ex-gerente sênior de pesquisa do Banco Central da Argentina. É coeditor da Review of Keynesian Economics e coeditor-chefe do The New Palgrave Dictionary of Economics.

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