12 de outubro de 2026

Robert Kramer é o grande cineasta esquecido da Nova Esquerda

Os filmes de Robert Kramer retrataram a Nova Esquerda a partir de dentro, desde o seu início promissor até o seu doloroso desmantelamento. Ele caiu no esquecimento, em grande parte, porque sua obra era de difícil acesso. Nesta nova era de volatilidade política, ele merece ser redescoberto.

Whitney Strub


Poucos cineastas da década de 1960 foram tão admirados tanto por radicais quanto por críticos quanto Robert Kramer. (IMDb)

Quando o filme The Edge (1968), de Robert Kramer, chegou a Los Angeles, seu anúncio no jornal Free Press lançava uma pergunta provocativa: "Devemos matar o presidente?" E, embora Lyndon Johnson tenha sobrevivido ao aspirante a assassino alienado daquele filme, a obra seguinte de Kramer não deixou dúvidas sobre sua posição. Ice, filmado no início de 1969 e lançado no final de 1970, imaginava uma insurreição armada de esquerda na cidade de Nova York, adotando o estilo documental impactante de A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo, e trazendo a guerra para dentro da "Big Apple". Ver os revolucionários de Kramer circulando pelo Grand Central Terminal, pelo Aeroporto JFK, pela Universidade de Nova York e por outros locais reconhecíveis, enquanto tentam criar uma Frente de Libertação Nacional tipicamente americana, é uma visão inquietantemente fascinante em 2026. É impossível não pensar em Luigi Mangione, ou em Elias Rodriguez, ou talvez no 6 de janeiro, ou na morte do sonho revolucionário dos anos 60.

Kramer, nascido em 1939 e falecido em 1999, foi, quase indiscutivelmente, o cineasta fundamental da Nova Esquerda americana. Ele desempenhou um papel central na formação do Newsreel — o coletivo de documentários de agitprop que forjou a estética da Nova Esquerda — e suas conexões políticas abrangiam desde o Students for a Democratic Society (SDS) e o Weather Underground até comunas armadas em Vermont e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Enquanto seu contemporâneo mais próximo, Haskell Wexler, filmava o caos da Convenção Nacional Democrata de 1968, Kramer era preso no local por tentar espalhar esferas com pontas nas vias para dificultar a ação policial — fato que contribuiu para incluí-lo na lista de subversivos perigosos monitorados pelo FBI. Seus filmes, de caráter resolutamente independente, retrataram a Nova Esquerda a partir de seu interior e constituem seu legado cinematográfico mais coeso.

No entanto, Kramer permanece um tanto desconhecido. Ele é mais lembrado na França, onde o grupo da Cahiers du Cinéma o acolheu logo cedo, destacando-o na capa de outubro de 1968 entre os "quatro americanos" (Quatre Américains) na vanguarda do cinema independente dos EUA, ao lado de John Cassavetes, Andy Warhol e Shirley Clarke. Kramer mudou-se para lá no final da década de 1970, permaneceu no país até sua morte e sempre manteve visibilidade na cultura cinematográfica nacional. Em sua terra natal, no entanto, ele é, no máximo, um diretor cult, conhecido quase exclusivamente por aquele tipo de cinéfilo que frequenta cinemas de repertório e as seções de filmes obscuros do Letterboxd.

Os filmes de Kramer, resolutamente independentes, retrataram a Nova Esquerda a partir de dentro e oferecem o seu legado cinematográfico mais coeso.

É tentador atribuir a quase invisibilidade de Kramer à repressão política — da qual, naturalmente, houve muita. No entanto, após passar vários anos pesquisando sua vida e obra para meu novo livro, Films That Explode Like Grenades: Robert Kramer and the Search for a Radical Cinema, cheguei a uma conclusão um tanto mais materialista: Kramer caiu no esquecimento nos Estados Unidos porque, durante várias décadas, praticamente nenhuma de suas obras estava facilmente acessível ao público.

O mercado de home video das décadas de 1980 e 1990 o ignorou quase por completo e, mesmo agora, na era do streaming e dos torrents, muitas de suas obras continuam difíceis de encontrar. Mas tenho a esperança de que estejamos prestes a vivenciar um renascimento de Kramer. À medida que as contradições da política americana se acirram e suas tensões internas se intensificam, as explorações de Kramer sobre o radicalismo raramente pareceram tão pertinentes.

The Making of a Radical

Robert Kramer grew up on Park Avenue in Midtown Manhattan, the only child of a highly accomplished physician father and an equally respected textile designer and art collector mother, both from families that had fled Eastern Europe in the Jewish diaspora. His father, Milton, was among the first doctors dispatched to Hiroshima after the atomic bomb. He never discussed the horrors he witnessed, and Robert grew up in a cocoon of affluence and alienation.

He attended Swarthmore, graduating in 1961 just before the New Left arrived en masse there. Consequently, instead of joining its early organizing, he spent his postcollegiate years as an aspiring novelist, laboring on a gargantuan modernist tome that his friends found ponderous. He was accepted into Stanford’s doctoral history program and promptly quit. His major romantic relationship, with ceramics artist Jane Doubilet, often seemed driven by inertia and ennui, and after they married unhappily, they traveled on family money to avoid confronting their mutual dissatisfaction. While they were in South America in 1965, his father died from a cerebral hemorrhage at age fifty-eight.

Only then did Kramer plunge into both film and the Left, using both as a springboard out of his malaise. His childhood friend Peter Gessner, son of film studies pioneer Robert Gessner, was working in a small production unit headed by blacklisted Hollywood exiles when they received footage smuggled out of Venezuela by revolutionaries with the Armed Forces of National Liberation (FALN). Gessner invited Kramer to collaborate. The resulting half-hour short, FALN (1965), was a straightforward, inauspicious debut — except for the arresting fact that it endorsed revolutionary violence against a US-backed puppet state.

By that point, Kramer had found SDS. The flagship New Left organization was attempting to move beyond its largely white college campus base by organizing in black urban areas and forging what a strategy document called “an interracial movement of the poor” premised on new forms of grassroots solidarity. Lead planners Carl Wittman and Tom Hayden decamped for Newark, New Jersey, and their presence and the proximity to media-capital New York made the city the flash point of the national project.

Kramer was too much of an individualist to be a strong community organizer, but he was nevertheless a photogenic, charismatic, and commanding speaker. When the documentary Troublemakers (1966) chronicled the Newark Community Union Project (NCUP), Hayden appeared as a clear leader, but Kramer brought the on-screen cool in his sporadic appearances, waving a cigarette as he cast doubt on working within existing systems, clearly thinking of the armed FALN as he declared, “My whole life has been spent trying to figure out how stinking the political system is, and I don’t really understand how all of a sudden we’re going to step in and change it.” NCUP primarily focused on block-level organizing, but Kramer appeared as a hip radical ready for revolution. One acquaintance from this era recalled him as “how all of us imagined On the Road to look, always in shades and leather jackets, looking like an angry bohemian.”

Kramer era individualista demais para ser um organizador comunitário de peso, mas, ainda assim, era um orador fotogênico, carismático e de presença marcante.

He didn’t last long in Newark and was gone before the city erupted in the infamous June 1967 rebellion. But Troublemakers made an impression, catching the New Left at the transitional moment when it was beginning to hypothesize about the limitations of participatory democracy and warm to the idea of more radical intervention, with Kramer as the film’s avatar of this pivot. Stokely Carmichael, then the chairman of the Student Nonviolent Coordinating Committee (SNCC), endorsed the film, and underground film impresario Jonas Mekas called it the “only American film I know that preaches revolution.” While he had been peripheral to NCUP itself, Kramer was suddenly at the center of New Left film culture.

The Cinema of Accelerationism

Troublemakers’ directors, Robert Machover and Norman Fruchter, became his crew for a minimalist feature, In the Country (1967). The film tells the story of a couple who burns out from left organizing, retreats to a country house, and engages in sustained recriminations as their own romantic relationship disintegrates. Beholden to European art-house style, it was a bold if indulgent directorial debut (also introducing actor William Devane to the screen) which went largely unseen but served as a useful laboratory for The Edge.

Kramer’s second feature, in which a young leftist announces his plan to kill LBJ and his friends mostly shrug, was another dissection of what he saw as the catatonia and paralysis of the Left, intended as an internal autocritique. Presidential assassination provided an alluring hook, but The Edge steadfastly refused thrills, instead confronting a movement that Kramer found frozen. While a voracious reader, devouring works by Frantz Fanon, Malcolm X, Régis Debray, and other radical theorists of the day, Kramer was undeniably susceptible to romantic adventurist views and constantly judged the US New Left against the revolutionary anti-colonial movements then sweeping the Global South, finding it insufficiently committed. Nothing short of revolution could end the war in Vietnam or upend the hollow hypocrisies of American daily life. With no real rising action or climax, The Edge’s allegorization of Kramer’s dissatisfaction surely frustrated anyone seeking a political thriller, but it was precisely the coiled, unresolved tensions that led to Kramer’s adoption by Cahiers. No less than French New Wave pioneer Jacques Rivette listed it as his favorite film of the year.

For all that buildup, it was Newsreel and Ice that catapulted Kramer to the forefront of international radical film. Newsreel, formed in early 1968 by an ad hoc group of leftist and experimental filmmakers, immediately became the de facto documentary wing of the New Left. It produced visceral shorts on the student occupation of Columbia University, antiwar protests, the Black Panther Party, and more. Kramer himself traveled to North Vietnam with an SDS delegation to pick up three released prisoners of war and make a film featuring Ho Chi Minh. When the leader fell ill, Kramer’s team instead shot at village schools and self-defense trainings. When they returned home, US customs confiscated their footage, releasing it only after the Newsreel team challenged them in court. The resulting film, People’s War (1969), became an immediate staple of US anti-imperialist cinema, a paean to the perseverance of the Vietnamese people.

Ice indexou as correntes radicais de 1969 quando o SDS implodiu e a política democrática de massas deu lugar a táticas vanguardistas.

Newsreel’s choppy, grainy-16mm style deliberately contrasted with the sanitized polish of the mass media. Kramer frequently served as an always-quotable spokesman, telling Film Quarterly that Newsreel sought to “make films that unnerve, that shake assumptions, that threaten, that do not soft-sell, but hopefully (an impossible ideal) explode like grenades in peoples’ faces, or open minds up like a good can opener.” They didn’t seek dialogue or debate, Kramer explained. “We strive for confrontation,” he said. “We prefer disgust/violent disagreement/painful recognition/jolts — all these to slow liberal head-nodding.”

That is what he attempted with Ice, a film whose lasting impact stems partly from its bewildering contradictions. It is unambiguously a work in support of revolution. Opening with a communiqué from the National Committee of Independent Revolutionary Organizations, it tracks the efforts of “urban white people whose task must be armed struggle” to join a vanguard that includes the Black People’s Army and Mexican Revolutionary Front. Its frenetic handheld camera (manned by Machover from Troublemakers and Kramer’s previous two films) brings a restless nervous energy, occasionally released through prison breaks, assassinations, and the storming of an upper-middle-class apartment tower to force its residents at gunpoint to watch Newsreel-like propaganda.

Yet for all that, Kramer withholds the sort of stirring spectacle central to left cinema since Sergei Eisenstein first toyed with montage; violence in Ice (which includes the castration of Kramer’s own translator character) is neither cathartic nor triumphant but rather crude and brutal. If the plot charts rising action, the affect retains the eerie flatness of The Edge, with characters committed to insurrection but wholly unable to relate to one another, leaving Ice, true to its title, frozen in a revolutionary limbo, trapped between the thrill of insurrection and the existential abyss of capitalist personal alienation. For all the charge-the-barricades bravado of his public statements, Kramer proved more dialectical than didactic behind the camera, refusing the satisfying pleasures of more triumphalist agitprop while forcing the viewer to grapple with the film’s deliberate unresolvedness, which is precisely what gives Ice its unsettling staying power.

This also allowed Kramer to maintain two simultaneous positions: more than any other film, Ice indexed the radical currents of 1969 as SDS imploded and mass democratic politics gave way to the vanguardist tactics of the Weather Underground, some of whose explosions echoed scenes from the film (indeed, some cast members joined the group). Yet as much as Kramer himself supported the Weather Underground, including a brief affair with leader Bernardine Dohrn at the height of her fame on the FBI’s Most Wanted list, Ice also predicted its failure. For Kramer, this stemmed more from the icy social relations of the Left than the swerve to doomed ultraleftism per se, but it nonetheless renders the film a uniquely haunted and haunting artifact of a moment that was somehow both the height and nadir of the New Left’s revolutionary strain.

After the Revolutionary Dream

Ice took over a year to emerge on-screen, mostly due to internal debates over its politics at Newsreel, which ultimately declined to distribute it. Thus a film that predicted the Weather Underground instead appeared to follow it. Even so, when it reached the public in 1970, it caused a stir at Cannes, was widely seen and debated on the US left, and helped spur Cahiers into a militant theoretical frenzy that lasted the next half-decade. Robert Kramer had become the face of radical American film.

It took Kramer a half-decade to complete another film, during which he spent time in Vermont with the Red Clover Collective, an armed commune that failed to inspire an Ice-like uprising. After the collapse of SDS and the COINTELPRO-led attack on black radicalism, the early-’70s left spun in numerous directions of varying impact. On one side was the flowering of gay liberation, women’s liberation, the American Indian Movement, black feminism, and other voices that had previously been marginalized even within radical circles; on the other was the excesses and embarrassments of such fringe sectarian organizations as the Symbionese Liberation Army, which soured public opinion on radical politics.

The Vermont commune scene contained all of these tendencies. Kramer was adjacent to a women-led Free Garage auto repair collective, the “underground railroad” to Canada for draft resisters, and the regional electoral organizing out of which Bernie Sanders’s early political career emerged. His main interest at the time, though, remained revolution, which he and many others still considered imminent. Red Clover stockpiled guns, pamphleteered at local high schools, staged agitprop street theater, and only slowly, painfully began to reckon with the undeniable fact that they had miscalculated.

This was devastating for Kramer, and Milestones, codirected with Newsreel comrade John Douglas, arrived in 1975 as an attempt to make sense of the new context, with a sweeping overview of life after what they saw as “The Movement” (a unity that many of those marginalized groups had long questioned). Following dozens of former New Leftists as they struggle to locate foundations for new forms of resistance, Milestones’s three hours constitute one of the most searching examinations of the very conditions of possibility for a US Left seen on-screen in the 1970s. The film, a narrative feature shot in often improvised semidocumentary fashion, breathtakingly captured the natural beauty of America, from New Mexico and Colorado to Vermont, but coupled these observations with ruminations on the nation’s history of racial exploitation and annihilation. The title came from a prison poem by Ho Chi Minh, and as always, Kramer offered fewer answers than open-ended inquiries. But the film’s colorful humanism, somewhat akin to Alain Tanner’s contemporaneous Swiss-French meditation on the reverberations of the 1960s, Jonah Who Will Be 25 in the Year 2000 (1976), marked a departure for him, surely informed by his codirector Douglas. American audiences mostly ignored Milestones, but it was one of the most celebrated films of the 1970s by French critics.

Os legados e os desdobramentos da Nova Esquerda revelaram-se um fio condutor recorrente na obra de Kramer.

If Kramer saw the spirit of 1968 slipping away at home, he thought he spied it elsewhere. The Portuguese Carnation Revolution, overthrowing the world’s longest-running fascist regime, began in 1974, and when he took Milestones to Cannes the next year, he stopped over and found the atmosphere electrifying. With friend Phil Spinelli, he returned with a camera and almost no budget. Their resulting Scenes from the Class Struggle in Portugal goes in search of that initial euphoria — and instead finds the revolution already being supplanted by incipient neoliberalism. Kramer then ventured to Angola, which had recently succeeded in its own anti-colonial struggle against Portugal, hoping to make a film — but he soon contracted malaria and returned home. Back in San Francisco, where he spent most of the ’70s, he lowered his sights, beginning work on a book of photojournalism with a tiny leftist press.

The late ’70s proved a crushing disappointment for Kramer, personally and politically. The ’60s dream appeared dead, and his work went ignored in the United States, even despite such champions as New York Times critic Vincent Canby. He flirted with a Hollywood deal, then with working in a crew capacity for Jean-Luc Godard and Francis Ford Coppola, but nothing coalesced. Instead, he moved to Paris with his partner Erika and their daughter Keja, and began making smaller, art-house-oriented works, plugged into an exile network that included other itinerant filmmakers like Chris Marker and Raúl Ruiz.

Some of Kramer’s adventures landed, such as the raw, startling Notre nazi (1984), an on-set documentary about the making of an experimental film starring a murderous former SS officer. Others didn’t, as when his one mainstream crossover attempt, the postapocalyptic sci-fi flick Diesel (1985), deservedly flopped. But the legacies and afterlives of the New Left proved a recurring through line of Kramer’s work. One example was the father/son drama Doc’s Kingdom (1987) that united Ice star Paul McIsaac with a young Vincent Gallo on the Portuguese coast. Another was Route One/USA (1989), a four-hour trip down the eastern seaboard from Maine to Key West on the brink of the 1988 presidential election, which finds a nation haunted by many things, including the merely spectral vestiges of a vibrant, hopeful, popular left.

By the time a sudden meningitis infection took Kramer’s life just after he turned sixty, he had long since abandoned the incendiary politics of his youth, but he never stopped interrogating their ramifications, or, for that matter, the nature of political cinema. The last feature-length film he completed, Walk the Walk (1996), took its title from an old Black Panther slogan: “If you talk the talk, you’d better walk the walk,” as Kramer remembered it. He had his flaws, and in my book Films That Explode Like Grenades Robert Kramer and the Search for a Radical Cinema, I’m unsparing about them. But for whatever critiques we can and should mount — and Kramer, who loved contradictions, very much also embodied them — no other artist holds as strong a claim to being the emblematic filmmaker of the US New Left.

Colaborador

Whitney Strub é autora de Perversion for Profit: The Politics of Pornography and the Rise of the New Right. Ele ensina história na Rutgers University-Newark e é um orgulhoso membro da Rutgers AAUP-AFT e dos Socialistas Democráticos da América do Norte de Nova Jersey.

7 de outubro de 2026

O que vem depois da hiperpolítica?

Os argumentos apresentados em Hyperpolitics, de Anton Jäger — obra que surgiu inicialmente na Jacobin —, suscitaram debates em todo o espectro político. Aqui, o autor responde aos críticos e explora como uma “estratégia de paciência” poderia ajudar a esquerda a superar seu impasse hiperpolítico.

Anton Jäger


A esquerda tornou-se politicamente mais ativa sem se tornar mais poderosa. Em artigo para a Jacobin, Anton Jäger defende os argumentos que apresentou em Hyperpolitics e questiona o que a esquerda atual pode aprender com os partidos socialistas e comunistas do século passado. (Frederic J. Brown / AFP via Getty Images)

Antes do final deste ano, os Estados Unidos terão quebrado dois recordes políticos. Segundo estimativas dos próprios organizadores, o "No Kings Day", em 28 de março, foi o maior protesto de um único dia na história recente dos EUA. Simultaneamente, nenhum presidente americano conseguiu enriquecer tanto durante o mandato quanto Donald Trump — prevê-se que 2026 seja o ano mais lucrativo de sua carreira até o momento.

O conceito de "hiperpolítica" é uma tentativa de explicar esses fenômenos concomitantes. Ele descreve um processo de repolitização sem reinstitucionalização que permeou todas as camadas da sociedade na esteira da crise de 2008-2009. Essa onda de atividade política tem sido organizacionalmente desigual, de difícil comparação com precedentes históricos e — o que é mais preocupante — não garante qualquer efeito sobre as relações de poder entre elites e massas.

Em sua formulação atual, a ideia surgiu primeiramente neste veículo, onde suscitou um debate animado. Publicada posteriormente em formato de monografia, a obra Hyperpolitics também gerou reações diversas — tanto críticas quanto elogiosas — por parte de autores de todo o espectro político. Até mesmo as interpretações equivocadas mostraram-se produtivas.

Uma das razões para retomar essas críticas é que as discussões desencadeadas pelo livro não são de interesse meramente acadêmico. Pelo contrário, elas revestem-se de importância estratégica para a esquerda, visto que a obra culmina em uma questão fundamental: o que pode facilitar a reconstrução do poder de classe no novo século e o que mantém a esquerda aprisionada no atoleiro da hiperpolítica?

Generalidade e abstração

Hyperpolitics começou com uma observação anedótica que, posteriormente, serviu de base para uma teoria mais ampla. O livro buscou oferecer uma descrição, explicação e avaliação gerais de um problema geral, em um nível de generalidade adequado. O risco, naturalmente, é que tal generalização beire outra coisa: o abstracionismo — ou seja, um trabalho que examina o terreno social a tamanha distância que não tem nada de interessante a dizer sobre o nível meso ou micro.

É essa generalidade percebida em Hyperpolitics que tem incomodado um subgrupo de leitores. Não sendo nem um trabalho rigoroso de ciências sociais nem pura crítica cultural, o livro lhes parece algo indefinido, que não se enquadra em categoria alguma. "Se você não gosta dos meus princípios, tenho outros" talvez fosse a resposta marxiana mais convincente para isso; contudo, receio que o livro tenha de permanecer, antes de tudo, uma obra de divulgação. Caminhoneiros de longa distância não usam os mesmos mapas que trilheiros rurais. Em vez disso, Hyperpolitics oferece uma teoria geral sobre uma tendência geral — com todas as vantagens e desvantagens que a generalidade implica.

Para os críticos, essa queixa está frequentemente ligada a outra questão: a disposição de recorrer a ideias tanto de autores de direita quanto de esquerda. Uma resposta simples a essa acusação poderia ser aquela dada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss quando questionado sobre sua dependência de Jean-Jacques Rousseau: "Por menos que eu me sinta atraído por seu pensamento político, a beleza de sua prosa me deslumbra... Ele diz em cinco palavras o que a mim levaria quinze".

No entanto, essa resposta é superficial. Existe uma razão mais profunda pela qual a direita se mostra uma analista mais capaz da podridão burguesa do que a esquerda: os reacionários frequentemente têm uma percepção mais aguçada dos custos do progresso capitalista do que os esquerdistas liberais. Os próprios Karl Marx e Friedrich Engels preferiam os escritos de um arquir-reacionário como Honoré de Balzac para retratar o século XIX a optar pelos tratados piedosos da literatura proletária. Como o próprio Engels afirmou, “o fato de Balzac ter sido compelido a contrariar suas próprias simpatias de classe e preconceitos políticos” e de ter “descrito os nobres como pessoas que não mereciam destino melhor... considero uma de suas maiores qualidades”. A esquerda, dogmaticamente atrelada ao liberalismo, é frequentemente incapaz do tipo de curiosidade que Marx e Engels viam justamente como uma virtude intelectual.

Vantagem assimétrica

Uma crítica diferente é que o livro não oferece explicação sobre por que a extrema-direita aparentemente se saiu melhor do que a esquerda nesta nova fase hiperpolítica. De onde vem essa vantagem assimétrica? Vale a pena reiterar aqui três fatos que o livro já aborda, mas não aprofunda: dois estruturais e um mais contingente.

Primeiro, a sociedade de mercado confere à direita várias vantagens básicas, como observou Ralph Miliband em sua análise da “concorrência imperfeita” das democracias liberais. A primeira dessas vantagens é ideológica. Marx certa vez contrastou o “Partido do Progresso” com o “Partido da Ordem”: o primeiro tentava modificar os arranjos sociais existentes, escreveu ele, enquanto o segundo apenas queria estabilizá-los e consolidá-los. Preservar o status quo e garantir as relações de propriedade existentes constituem um parâmetro de sucesso muito menos exigente.

Um segundo fator relacionado é a disponibilidade de financiamento privado. Seja gasto em astroturfing (falsa mobilização popular) à moda antiga ou na contratação de influenciadores digitais, o dinheiro continua sendo uma ferramenta eficaz de mobilização para a direita, mas é escasso para a esquerda (a menos que contemos certos filantropos liberais que buscam moldar um socialismo favorável ao mercado). Na falta de patrocinadores naturais no Estado ou nos círculos capitalistas, os projetos de esquerda também geralmente tiveram de recorrer a doações dispersas e financeiramente mais modestas. A disponibilidade de dinheiro privado confere à direita uma capacidade de mobilização inigualável. A isso, podemos acrescentar a assimetria de poder na sociedade como um todo, como observou Perry Anderson:

Estruturalmente, devido ao seu menor contingente e aos seus maiores recursos, praticamente todas as classes dominantes desfrutam de uma vantagem sobre os dominados em sua capacidade de ação coletiva. Suas linhas internas de comunicação são mais compactas; sua riqueza oferece um meio de poder polivalente, conversível em inúmeras formas de dominação; seus sistemas de inteligência examinam o cenário político de uma posição mais elevada. Mais numerosas e dispersas, menos equipadas materialmente e menos armadas culturalmente, as classes subordinadas tendem sempre — na expressão do sociólogo Michael Mann — a ser “superadas organizacionalmente”.

No entanto, um terceiro fator, mais contingente, também deve ser mencionado. Nas fileiras da extrema-direita, inaugurou-se um debate muito mais ousado sobre a crise do liberalismo, com alguns setores da direita adotando uma posição conscientemente “pós-liberal”. Em contrapartida, a esquerda atual mantém uma afinidade sociológica com o liberalismo — em razão dos grupos sociais que a compõem e de sua recente academização —, o que tem retardado uma ruptura ideológica com ele. De todo modo, essa assimetria antecede a era hiperpolítica.

Compromissos e renúncias

Um aspecto diferente da tese — que o livro não chega a teorizar — diz respeito às correlações entre seus dois eixos analíticos: o político e o institucional. Como observaram os críticos, dificilmente se pode afirmar que eles evoluam de forma independente. Jasper Bernes, por exemplo, argumentou de maneira convincente que, ao longo do século XX, a institucionalização frequentemente ocorreu à custa da despolitização, ao passo que a repolitização muitas vezes corroeu estruturas institucionais existentes. Em suma, ele apresenta um dilema entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, ambas de matriz weberiana: institucionalizar pode tornar a política de esquerda mais duradoura, porém potencialmente menos revolucionária; por outro lado, uma política de curta duração pode ser libidinalmente gratificante, mas revela-se incapaz de derrubar as estruturas de poder vigentes.

Na década de 1970, o movimento trabalhista foi atropelado pela contrarrevolução neoliberal porque privilegiou a esfera institucional em detrimento da política e não conseguiu oferecer um desafio convincente ao recuo do capital em relação ao pacto do pós-guerra.

Trata-se de dilemas complexos; dois estudos de caso podem ilustrar o porquê. A campanha de Mao Tsé-Tung contra a burocracia do partido utilizou a politização de choque para promover a desinstitucionalização, mas acabou inaugurando um período de despolitização mais tarde naquele século. Inversamente, a reação dos partidos comunistas francês e italiano ao longo ciclo de 1968 em seus respectivos países — uma sequência que eles encaravam como uma revolta anti-institucional de consequências políticas perigosas — provavelmente acelerou a esclerose dessas agremiações enquanto partidos de massa na década de 1980. Isso também os tornou particularmente vulneráveis ​​à ofensiva neoliberal.

Como demonstra Bernes, essas oscilações podem, portanto, ser mutuamente co-constitutivas. Na década de 1970, o movimento operário foi facilmente subjugado pela contrarrevolução neoliberal justamente por privilegiar a esfera institucional em detrimento da política, mostrando-se incapaz de oferecer um desafio convincente à retirada do capital do pacto do pós-guerra.

Daí o desafio geral proposto pelo livro: reinstitucionalizar adequadamente a energia liberada pelo momento hiperpolítico.

Na visão de Bernes, tal reinstitucionalização poderia ser encarada sob uma perspectiva comunitária ou baseada em interesses. No primeiro caso, o declínio da vida cívica desde a década de 1990 nos confronta com uma tarefa que é pré-política, e não política. "O que Jäger talvez esteja propondo", observa ele, "é uma política de taverna sem a organização sindical no local de trabalho." Essa leitura valida a intuição de Bernes de que, "pelo menos na minha experiência, os meios de esquerda preservam formas de vida social e convivência que estão desaparecendo rapidamente em outros lugares". A tarefa primordial seria, então, reconstruir "um senso de pertencimento, comunidade e, em muitos casos, a satisfação de necessidades materiais reais". Em uma perspectiva tocquevilliana, isso permitiria a reinstitucionalização sem a repolitização — oferecendo, por exemplo, um antídoto para a nossa epidemia contemporânea de solidão ou oportunidades de socialização.

No entanto, até mesmo clubes de boliche exigem recursos, e é pouco provável que os membros permaneçam em um sindicato se este for incapaz de lhes oferecer qualquer aumento salarial. “Se tais instituições não conseguem melhorar as condições materiais da vasta maioria de forma duradoura”, indaga Bernes, “que sucesso podem reivindicar?” Na era da longa estagnação, é de fato mais difícil reconstruir instituições prometendo benefícios diretos aos membros. Contudo, como disse Vladimir Lenin, não existe situação impossível: os últimos dez anos demonstraram que uma esquerda desprovida de um movimento trabalhista robusto é capaz de se colocar no mapa político, mas geralmente carece das alavancas necessárias para impor mudanças políticas claras à sociedade. Como observou Sam Gindin, as chances de conquistas materiais para os trabalhadores podem ser menores hoje, “mas o que mais você faria da sua vida?”

Reinstitucionalização

Afinal, a hiperpolítica é apenas uma tendência entre outras, e há claros sinais de que a reinstitucionalização já está em curso. A esquerda ocidental — se é que a colagem heterogênea de organizações e subculturas atualmente agrupadas sob esse rótulo pode ser considerada uma força unitária — encontra-se em uma situação contraditória em 2026. Muitas de suas causas contam com crescente apoio popular, mas não existe força institucional correspondente capaz de traduzir essas causas em concessões diretas por parte do capital. Desde 2008, o consenso político da era neoliberal sofreu uma clara fragmentação, mas isso pouco contribuiu para aumentar o poder dos trabalhadores ou da esquerda enquanto tal; a maioria dos movimentos sociais surgidos na década de 2010 mostrou-se incapaz de reverter essas tendências.

Essa retomada desigual estimulou duas tendências de esquerda concorrentes, embora não necessariamente irreconciliáveis. A primeira é o que poderíamos chamar de "imediatismo". Essa vertente insiste na ideia de que as novas energias geradas pelas plataformas online podem servir de base para o retorno da política de massas, organizada em torno de respostas a diversos fenômenos virais da internet — capazes de repolitizar uma massa atomizada e presa às telas — e voltada para uma ofensiva insurrecional contra o Estado capitalista.

Essa proposta goza de grande aceitação entre alguns pequenos grupos pós-trotskistas, bem como entre comunistas de esquerda e anarquistas, cujas concepções políticas nunca pressupuseram a existência de um movimento operário solidamente organizado. Muitas dessas propostas não são exatamente novas e remetem à crítica feita por Alexander Herzen ao radical russo Mikhail Bakunin, a quem se atribuía a tendência de "confundir o segundo mês de gravidez com o nono".

Uma segunda tendência reconhece, ao menos, a necessidade de reinstitucionalização, mas busca personalizá-la: trata-se do populismo de esquerda proposto, sobretudo, por Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, que buscavam oferecer uma variante de esquerda para o personalismo de liderança. A influência dessas ideias é visível no "partido gasoso" construído por Jean-Luc Mélenchon ou nas movimentações em torno do *Your Party* de Jeremy Corbyn. O que une ambas as abordagens é o desejo de conjurar magicamente uma forma de política que a esquerda levou décadas para construir no final do século XIX e início do XX, mas sem o correspondente poder de classe.

Como seria, na prática, uma reinstitucionalização mais lenta? Em contraposição à impaciência da "hiperpolítica", muitos têm defendido um retorno à "estratégia da paciência" original de Karl Kautsky, formulada antes da Primeira Guerra Mundial. Na visão de Kautsky, a institucionalização e a politização desenvolvem-se em duas linhas temporais sobrepostas: uma de longo prazo e outra de curto prazo. Quanto à primeira, agentes institucionais claros — cooperativas, sindicatos, partidos — podem ser acionados em momentos de acirramento da tensão de classe, mas, fora desses períodos, precisam aguardar o momento certo, mantendo-se nas trincheiras. Tal abordagem equilibraria espontaneidade e organização. Ela também parece útil em nossa época de crescente politização desprovida de peso institucional correspondente.

Naturalmente, a defesa dessa abordagem neokautskista deve ser estritamente condicionada. O próprio Kautsky acabou se tornando um fura-greve antibolchevique, demonstrando que apelos contra a impaciência podem facilmente descambar para uma acomodação reformista. A institucionalização, como vemos aqui, não é de forma alguma intrinsecamente revolucionária. Como apontou Bernes, ela pode até ter sido a razão pela qual não se alcançou um avanço revolucionário no país e na época de Kautsky: as lideranças do movimento operário buscavam conter a base por considerarem que a construção de instituições no âmbito do capitalismo era mais importante do que rupturas políticas com o sistema. A fossilização foi a consequência mais provável.

Manipulação genética

Poucos desses dinossauros institucionais sobrevivem hoje, como Bernes também observa. Existem alguns partidos de massa que resistiram à era glacial pós-política e ao degelo hiperpolítico — pode-se pensar no Partido Comunista da Grécia —, mas eles despertam interesse principalmente como curiosidades históricas.

Todos concordam que não se pode clonar um dinossauro. No entanto, como os cientistas sabem, a manipulação genética também não é impossível, embora seja necessário compreender o material com o qual se trabalha. Como observou Dylan Riley, a tarefa da esquerda contemporânea é a "criação de um novo príncipe moderno adaptado à era das redes sociais, da viralização e da inteligência artificial, além da onipresente indústria cultural", que não sucumbisse imediatamente à nova liquidez.

Aqui, a trajetória recente do Partido dos Trabalhadores da Bélgica (PTB/PVDA) merece, no mínimo, uma menção. O PTB é modelado com base em um partido de quadros maoista. Ele mantém a previsível proibição "marxista-leninista" de facções, um modelo de filiação em múltiplos níveis e números recordes nas redes sociais belgas.

Contudo, de forma singular entre os partidos belgas e europeus, o PTB obteve sucesso mensurável na ampliação de sua base nos últimos anos. Estabeleceu laços mais estreitos com o movimento sindical belga, que ainda é multitudinário. Enxerga seu papel parlamentar como o de um tribuno popular, e não como o de um candidato ao poder. Também barrou as tentativas de vários governos de concluir a reestruturação neoliberal da sociedade belga — processo já finalizado há muito tempo nos países vizinhos. Apesar de todas as suas patologias, o partido prova que a paciência compensa. (É historicamente revelador, claro, que o PTB ficaria horrorizado com a ideia de ser rotulado como "kautskista", o que atesta o século de mudanças que ficou para trás.)

O kautskismo dos Socialistas Democráticos da América (DSA) é algo completamente diferente. Oficialmente, o DSA nem sequer é um partido, mas sim uma "organização socialista", como seus membros não cansam de ressaltar. Como Joe Todd observou em um estudo comparativo entre ambos, o PTB e o DSA também apresentam diferenças radicais, ainda que sejam frequentemente citados em conjunto. Ao contrário da estrutura de poder mais centralizada do PTB, a organização da DSA é distribuída de forma informal entre seus capítulos e grupos internos (caucuses). Essa ausência de centralismo rígido também significa que a organização enfrenta maior dificuldade para traçar uma linha divisória entre o debate interno e a comunicação externa. Diferentemente do PTB, seu modelo de adesão é horizontal, e não hierarquizado, o que facilita o ingresso de novos membros. Sua liderança também é relativamente flexível, e seus grupos internos desfrutam de um grau de autonomia muito maior do que as seções locais do PTB. Muito provavelmente, o histórico antistalinista da DSA é o responsável por essa relativa falta de centralismo.

Tanto o PTB quanto a DSA registraram um crescimento significativo na última década, tanto em número de membros quanto em influência na sociedade em geral. No entanto, a questão fundamental — como sempre — é a de Lênin: quem lidera quem? Isso é particularmente importante para a perspectiva de uma eventual candidatura presidencial de Alexandria Ocasio-Cortez. A DSA acabará servindo como veículo de campanha para membros do Congresso de esquerda que almejam carreiras no DNC, ou atuará como uma força disciplinadora para legisladores que utilizam o Partido Democrata como mera plataforma, mas mantêm sua independência política? Ainda não há um veredito sobre essa questão, mas vale a pena explicitar os riscos de ambos os modelos.

Como qualquer obra de ciências sociais, Hyperpolitics não é um manual de autoajuda nem um horóscopo para o nosso futuro político. Tudo o que se pode fazer é apontar tendências e probabilidades; não existe uma lei férrea que decrete a persistência ou o desaparecimento repentino da "hiperpolítica" nos dias de hoje. A reinstitucionalização é um processo difícil, especialmente no atual cenário econômico, em que o crescimento se concentra no topo da pirâmide social e os concorrentes do programa social da esquerda dispõem de grandes recursos financeiros e estão confortavelmente estabelecidos no poder. Ainda assim, a corrida pela reinstitucionalização já começou; o objetivo principal de Hyperpolitics foi justamente esclarecer a diferença entre vias de escape e becos sem saída.

Colaborador

Anton Jäger é pesquisador de pós-doutorado na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, e coautor de The Populist Moment: The Left After the Great Recession.

O que torna alguém marxista?

O marxismo é uma teoria social sobre como o mundo funciona e como mudá-lo. Qualquer pessoa comprometida em compreender e transformar o mundo deveria ser marxista.

Entrevista com
Vivek Chibber

Jacobin

O marxismo não é uma doutrina — até mesmo Karl Marx disse: "Eu não sou marxista". Em vez disso, trata-se de um conjunto de proposições e hipóteses sobre como o mundo realmente funciona, as quais qualquer pessoa que deseje mudá-lo deveria adotar. (Manfred Brückels / CC BY-SA 3.0)

Entrevista realizada por
Melissa Naschek

É famosa a declaração de Karl Marx de que ele não era marxista. No entanto, sua obra teórica deu origem a diversas vertentes de pesquisa, movimentos políticos e debates acalorados. Seria possível identificar um conjunto de ideias unificadoras que constituem o marxismo?

Neste episódio mais recente do podcast Confronting Capitalism, da Jacobin Radio, Vivek Chibber e Melissa Naschek examinam os fundamentos da obra de Marx e explicam como o marxismo se desenvolveu — e também se degenerou — ao longo do último século.

O programa Confronting Capitalism with Vivek Chibber é produzido pela Catalyst: A Journal of Theory and Strategy e publicado pela Jacobin. Você pode ouvir o episódio completo aqui.

Melissa Naschek

Em nosso podcast e em seus trabalhos acadêmicos, você apresenta consistentemente uma perspectiva marxista sobre política, teoria e economia, mas, às vezes, também critica aspectos do marxismo. Em que sentido você se considera marxista?

Vivek Chibber

O marxismo é uma teoria social sobre como o mundo funciona, e é a teoria que tem sido utilizada e mobilizada pelo movimento socialista. Portanto, do ponto de vista analítico, socialismo e marxismo são coisas diferentes.

Isso significa que, tecnicamente — como disse certa vez o marxista austríaco Rudolf Hilferding —, é possível reconhecer a força teórica do marxismo independentemente do seu alinhamento político; você pode considerar o marxismo a teoria mais adequada e esclarecedora sem ser socialista, pois são coisas distintas. Mas, na minha visão, essa não é a melhor maneira de compreender essa relação. A forma como eu colocaria a questão é que os marxistas são um tipo específico de socialista.

É tecnicamente verdade que alguém pode ser de direita e afirmar que o marxismo é a teoria que melhor explica o mundo, decidindo, então, utilizá-lo para tentar estabilizar o capitalismo.

Melissa Naschek

Fala-se muito sobre como figuras como Steve Bannon são influenciadas pelo marxismo.

Vivek Chibber

Isso é tecnicamente verdade, mas acredito que contraria o espírito do que o marxismo deve ser: a teoria que ajuda a esclarecer e orientar o movimento socialista.

Socialistas são aqueles que aderem a uma certa compreensão de como o capitalismo funciona, de como a história evoluiu e de quais são as condições que podem permitir uma sociedade mais humana e mais justa — aquilo que chamamos de socialismo.

O marxismo pode estar certo ou errado. Você pode ser socialista e dizer: "Bem, acho que o marxismo está, na verdade, majoritariamente equivocado". E também pode ser um socialista que adere a ele. A razão pela qual ainda aderi ao marxismo é que me considero socialista. Além disso, acredito que, quaisquer que sejam suas falhas, o marxismo continua sendo a teoria mais esclarecedora e útil para promover um projeto amplamente social-democrata e socialista.

Melissa Naschek

Então, quais ideias estão no cerne do marxismo?

Vivek Chibber

Essa é uma pergunta interessante, porque nunca houve consenso sobre isso. Percebo que, nas redes sociais, existe uma convicção enorme de que existe algo chamado "marxismo" — algo que teria estas quatro leis ou aqueles cinco componentes — e que ou você é marxista, ou não é. Mas, sempre que se tenta definir o marxismo dessa maneira restrita, facilmente encontramos pessoas universalmente reconhecidas como parte do panteão marxista que, no entanto, não aderem a um ou outro dos princípios tidos como essenciais à teoria marxista. Portanto, não é uma pergunta fácil de responder: o que está, afinal, no cerne do marxismo?

Alguns poderiam apontar a teoria do valor-trabalho; os mais ambiciosos e pretensiosos talvez citassem a dialética ou algo do gênero. Contudo, em qualquer momento da história do marxismo, se observássemos as figuras de vanguarda da política socialista que se autodenominam marxistas, encontraríamos profundas divergências sobre questões que poderíamos considerar essenciais ao marxismo — seja a teoria do valor, a filosofia, ou mesmo o materialismo, entre outras coisas. Assim, não é uma pergunta simples. Mas também não quero me esquivar dela.

Melissa Naschek

Vou fazer você responder a essa pergunta.

Vivek Chibber

Justo. Antes de mais nada, o marxismo não é uma doutrina. Ao contrário da Bíblia ou de uma religião, ele não possui dogmas centrais que precisem ser obrigatoriamente seguidos e que tenham sido definidos por uma autoridade central.

Na verdade, a autoridade central do marxismo era Karl Marx; quando ele viu a maneira como sua teoria estava sendo mobilizada e apresentada por outras pessoas, disse a famosa frase, já no fim da vida: "Tudo o que sei é que não sou marxista". E o que ele queria dizer com isso era que a teoria nunca teve a intenção de ser uma doutrina.

O marxismo é o que se chama de programa de pesquisa — um conjunto de proposições e hipóteses sobre o funcionamento do mundo que devem ser avaliadas com base em seus próprios méritos epistemológicos; isto é, se as evidências as sustentam ou não. Portanto, tentar cristalizá-lo em uma doutrina é uma insensatez.

Ao mesmo tempo, não se quer que ele seja tão abrangente ou vasto a ponto de tudo valer — de qualquer coisa poder ser considerada marxismo. Assim, a meu ver, busca-se uma definição de marxismo que o torne identificável, que lhe confira um núcleo, uma essência, mas que também permita divergências e debates suficientes em seu interior, para que não se perca todo o tempo excomungando pessoas por saírem da ortodoxia.

Então, vejamos o que Marx tentava fazer ao desenvolver sua teoria.

O que ele buscava demonstrar era que a raiz da injustiça neste mundo — a qual nos motiva a tentar construir um mundo melhor — residia na própria estrutura da sociedade moderna. E essa estrutura, segundo Marx, era a estrutura de classes. A ideia era que a estrutura de classes gera um conjunto de restrições e impõe uma série de compulsões às pessoas, levando-as a agir de determinadas maneiras — maneiras que tornam impossível uma ordem social humana e justa. E, como essa ordem é impossível, é preciso mudar a estrutura social e colocar em seu lugar uma nova que, no mínimo, crie a possibilidade de tipos de relações sociais, instituições e comportamentos compatíveis com o florescimento humano.

Melissa Naschek

Uma das ideias que realmente me marcou quando li O Capital, Volume I, pela primeira vez, foi a forma como Marx descreve o capitalista como mera personificação do capitalismo. O ponto central é que esse sistema não é impulsionado apenas por atores individuais com suas próprias intenções; ele é movido por atores que desempenham um papel em uma ordem social. Portanto, é a própria ordem social que precisa ser examinada, compreendida e combatida, e não apenas esses indivíduos. Essa é uma ideia realmente profunda.

Vivek Chibber

Muito verdade. Socialistas e marxistas aceitam muito bem a ideia de que os trabalhadores estão presos à sua situação — forçados a sair e vender sua força de trabalho todos os dias por não terem outra escolha. Isso é absolutamente verdadeiro. Mas Marx também apresentava um argumento mais profundo: o de que os capitalistas também estão presos à sua situação, pois precisam competir no mercado e tentar extrair trabalho excedente de seus funcionários para obter lucro.

Assim, para Marx, os capitalistas não são menos prisioneiros do mercado do que os trabalhadores. E isso é profundo porque significa que não se pode melhorar o capitalismo simplesmente pedindo aos capitalistas que sejam melhores. Se quiserem continuar sendo capitalistas, terão de fazer o que fazem. Para mudar a forma como o trabalho é realizado — a maneira como as pessoas ganham a vida —, é preciso, na verdade, alterar as pressões e as restrições que recaem sobre os capitalistas; trata-se de restrições e pressões inerentes à classe social.

Melissa Naschek

Certo. E quando falávamos sobre essa ideia de que as forças sociais são as principais responsáveis ​​— acima e além dos indivíduos —, as pessoas contestavam dizendo: "Bom, o Jeff Bezos, por exemplo, é mau". E eu tentava explicar que talvez ele seja, ou talvez não. Na verdade, isso é irrelevante.

Vivek Chibber

Recentemente, Susan Neiman defendeu que os socialistas deveriam usar a palavra "mau". Eu, na verdade, não concordo com isso. Mas, se você quiser, tudo bem. Não considero "mau" um termo moral; acho que é um termo religioso. Os socialistas devem ser morais e precisam ser motivados por questões morais. Você pode até dizer que o Bezos é mau, mas ele não faz o que faz simplesmente por ser mau. Se você tirasse o Jeff Bezos do pedestal e colocasse outra pessoa no lugar dele, essa pessoa faria mais ou menos as mesmas coisas, porque é isso que é preciso para ter sucesso no setor de negócios em que ele atua.

Ao ver a maneira como sua teoria estava sendo mobilizada, Karl Marx proferiu a famosa frase, já no final da vida: "Tudo o que sei é que não sou marxista".

Então, o primeiro componente do marxismo — seu fundamento principal — é que a estrutura de classes do capitalismo é o que lhe confere o que Marx chamava de suas "leis de movimento", ou seja, sua macrodinâmica. O que impulsiona essa estrutura de classes é o fato de que um grupo de pessoas não é apenas mais rico do que outro; ele obtém sua renda e riqueza explorando esse outro grupo.

Muitas outras teorias utilizam o termo "classe", mas, nelas, a classe está tipicamente associada à renda. Há pessoas ricas em uma classe, pessoas pobres abaixo delas em outra classe e, ainda, aquelas situadas no meio; é possível identificá-las com base em faixas de renda.

Melissa Naschek

Exato. Algumas dessas teorias equiparam classe a uma espécie de status cultural, a um conjunto de... sabe, morar em determinado lugar...

Vivek Chibber

Gostos.

Melissa Naschek

Sim, exatamente.

Vivek Chibber

Mas, para Marx, o que diferenciava as classes não era o nível de renda auferido, e sim o que as pessoas precisavam fazer para obter essa renda. Portanto, o segundo componente é que a classe se define quando um grupo de pessoas explora o outro; com isso, ele queria dizer que elas obtêm sua renda extraindo trabalho do outro grupo.

Ora, o fato de os ricos extraírem trabalho dos pobres cria um vínculo específico entre eles: os pobres são pobres devido ao que os ricos lhes fazem, e os ricos são ricos devido ao que fazem aos pobres. Pense no que isso significa: se os trabalhadores quiserem melhorar sua situação — obter salários mais altos, melhores condições de trabalho, moradia melhor —, eles precisam descobrir como obter mais de seus empregadores, pois é daí que vem o dinheiro.

Por outro lado, para obter lucro, os empregadores precisam tentar conceder o mínimo possível aos seus funcionários. Marx chegou a essa visão de classe porque o movimento operário, por meio de experiências difíceis, constatou que, ao tentar melhorar a condição de sua base — os trabalhadores —, deparava-se repetidamente com a resistência dos empregadores, dos capitalistas. Dessas lições árduas surgiu um conceito de classe no qual ela não representa apenas desigualdade, mas um tipo de relação social que une as pessoas de tal forma que a melhoria da situação de uma ocorre às custas da outra. Isso é chamado de exploração.

Daí deriva o terceiro componente: se quisermos que a maioria das pessoas no capitalismo — os trabalhadores — tenha uma vida melhor, é preciso encontrar meios de superar a resistência e a negação desses direitos por parte de seus empregadores, dos "Jeff Bezos" do mundo. Como fazer isso? Para tanto, Marx desenvolveu uma teoria política sobre como pessoas comuns podem melhorar sua situação de trabalho: organizando-se como classe. Como elas fazem isso? Identificam o que têm em comum — sua situação econômica —, reconhecem o que as separa do outro lado — o fato de estarem sendo exploradas por ele — e buscam criar organizações e instituições que lhes permitam lutar melhor contra seus empregadores. Esse processo de criar organizações, utilizá-las na luta e alterar a correlação de forças entre ricos e pobres é chamado de luta de classes.

Essas três ideias constituíam o compromisso fundamental de Marx e aquilo que toda a tradição marxista buscou explicar e desenvolver: a classe é a base da sociedade moderna; a classe se mantém nessa posição por meio do processo de exploração; e, para superar essa situação e construir uma sociedade melhor — ou até mesmo um capitalismo melhor —, é preciso organizar as pessoas como classe. Não como raça, nem como gênero, mas como classe, pois raça e gênero não são a mesma coisa que classe.

Melissa Naschek

Então, o que você está dizendo é que não se pode ser realmente marxista a menos que se coloque a classe social no centro da análise.

Vivek Chibber

Exatamente. E aqui reside a ironia e a profunda tragédia da esquerda atual. A característica definidora do marxismo — a centralidade da classe — é justamente o que a esquerda de hoje encara como um crime ou um sinal de estupidez. A menos que você aceite a centralidade da classe, não pode ser marxista. Na verdade, a meu ver, você não pode sequer ser socialista. É algo lamentável que isso precise ser debatido.

Pois bem, Marx construiu, a partir disso, uma certa economia política ou teoria econômica — conhecida como sua teoria do valor-trabalho —, na qual tentou demonstrar como os capitalistas extraem trabalho dos trabalhadores; como os salários são determinados; como os preços são fixados no capitalismo; e como os capitalistas, enquanto classe, repartem o excedente extraído do trabalho, passando assim a ter um interesse coletivo — um interesse comum — em extrair esse trabalho dos trabalhadores. Era isso que sua teoria econômica buscava explicar.

Houve muitos debates no âmbito do marxismo sobre a sustentabilidade da teoria do valor-trabalho. Pessoas com credenciais marxistas impecáveis ​​consideraram que a versão restrita dessa teoria não se sustenta. Ora, você pode perguntar: "Certo, então é possível ser marxista mesmo achando que a teoria do valor-trabalho está equivocada?"

A meu ver, para ter uma visão de mundo distintamente marxista, é preciso considerar que a classe é fundamental, que a exploração é o eixo central da questão de classe e que a saída para isso se dá por meio da luta de classes. É possível manter essa visão mesmo sem aderir à teoria do valor-trabalho. Esse é apenas um exemplo.

Para Marx, os capitalistas não são menos prisioneiros do mercado do que os trabalhadores.

Na minha opinião, a teoria do valor não deveria ser uma das características ou critérios definidores e decisivos para determinar se alguém é ou não marxista. Você pode aceitá-lo ou rejeitá-lo razoavelmente, respeitando a sociologia subjacente que Marx tentou desenvolver e que todos os marxistas tentaram desenvolver. Se olharmos para a história do marxismo, encontraremos muitas divergências – sobre a teoria dos valores, sobre a dialética, sobre a teoria da história. Mas todas as pessoas que estão a ter estes debates concordam que a classe é central, que a luta de classes é central e que a exploração é o que define a classe.

Isto mostra-lhe indutivamente que as pessoas que se consideram - e que eram consideradas pelo mundo - como marxistas tinham a teoria de classes como núcleo comum e podiam legitimamente discordar sobre outras coisas.

Na minha opinião, é isto que me permite chamar-me marxista, embora pense, por exemplo, que a teoria do valor pode muito bem estar errada; embora eu tenha criticado publicamente o materialismo histórico ortodoxo como provavelmente insustentável (penso que uma versão mais fraca dele é sustentável, mas a ortodoxa não é). Também tenho uma visão bastante obscura do que é chamado de dialética. Não é que esteja errado, mas é bastante trivial. Sendo esse o caso, penso que é perfeitamente consistente ter essas opiniões e ainda ser marxista. As pessoas são livres para discordar disso, mas você terá dificuldades se decidir que qualquer um desses outros fenômenos é central para o marxismo. O que você descobrirá é que as pessoas que você ama como marxistas não conseguem se classificar.

Rosa Luxemburgo, que foi uma revolucionária impecável, seguiu uma teoria chamada subconsumismo, que defendia a visão de que o capitalismo sofre de uma falta crónica de procura efectiva. Ela foi duramente criticada por Nikolai Bukharin e outros marxistas nesta questão, porque insistiam que Marx rejeitava categoricamente o subconsumismo. Ok, qual deles é então o marxista aceitável? Você gostaria de excomungar um deles?

Paul Sweezy é o maior marxista americano do século XX. Ele defendia a opinião de que o capitalismo entrou numa fase chamada capital monopolista. Agora, se mantivermos a opinião de que a concorrência acabou e as empresas podem monopolizar sectores e dissuadir efectivamente a entrada, também defenderemos a opinião de que o capital não pode entrar e sair de sectores que procuram a taxa de lucro mais elevada. Isto significa, tecnicamente falando, que a lei do valor deixou de ser válida. Se você acha que a lei do valor é central para a teoria do valor-trabalho, então você está dizendo que alguém como Sweezy, Hilferding ou Vladimir Lenin não é mais marxista. Você gostaria de dizer isso? Simplesmente não faz sentido.

Portanto, penso que ter uma compreensão muito estreita disto vai contra tanto a história do que tem sido o marxismo como o seu espírito. Prefiro ter uma visão mais ampla do assunto, mas penso que manter a centralidade da classe ainda dá ao marxismo uma base reconhecível que o torna distinto de outras teorias e que lhe dá, penso eu, a possibilidade de ser também falsificável. E é isso que você quer que uma teoria seja.

O marxismo depois de marx

Melissa Naschek

Como aqueles importantes marxistas do século XX começaram a desenvolver — e, de certa forma, a modificar — as ideias originais que Karl Marx e Friedrich Engels formularam no século XIX?

Vivek Chibber

Acredito que todos eles levaram a sério a ideia de que precisamos compreender que o problema fundamental para a justiça social é o capitalismo e que, portanto, devemos entender como esse sistema econômico funciona. E, como as obras de Marx não ofereciam respostas para tudo, eles tiveram de pegar sua estrutura teórica e desenvolvê-la, levando-a a novos horizontes dentro da teoria, utilizando suas capacidades da melhor maneira possível. E fizeram isso em uma época marcada por intensos debates e discussões sobre essas questões.

Eles também tiveram a segurança necessária para afirmar que certos aspectos da teoria de Marx poderiam, de fato, estar equivocados. Rosa Luxemburgo declarou claramente que Marx havia se enganado na forma como desenvolveu os esquemas de reprodução no segundo volume de O Capital, e que ela tentaria corrigi-lo. Hoje, há muitos marxistas que ficariam chocados com essa ideia. É uma tradição peculiar do marxismo. A palavra "revisionista" é usada como um xingamento. Trata-se de uma visão fundamentalmente religiosa, segundo a qual revisar uma teoria implica ser excomungado. Isso revela uma rejeição absoluta à ideia de que o marxismo é uma ciência social. A noção de que uma ciência não pode ser revisada acaba transformando-a em religião.

Ao analisarmos os avanços ou revisões reais ocorridos no marxismo durante o século XX, percebemos que as contribuições mais produtivas surgiram quando o movimento operário estava extremamente ativo e havia uma cultura profunda e vibrante na esquerda. Isso conferia às pessoas a confiança de saber que, embora os fundamentos da teoria estivessem corretos, elas também tinham liberdade para pensar em como fortalecê-la — reconhecendo a existência de pontos fracos na teoria e sem receio de criticá-los.

Melissa Naschek

Você pode dar um exemplo de um dos debates de que está falando?

Vivek Chibber

Sim. O debate em torno da compreensão de Rosa Luxemburgo sobre o imperialismo — ou da de Hilferding — girava em torno da questão de saber se o capitalismo consegue se sustentar com base em suas próprias dinâmicas internas ou se necessita de fontes externas de demanda e de estímulo. Alguém como Luxemburgo afirma que não consegue, e ela é criticada por pessoas que dizem que ela está totalmente equivocada. Mas elas não a criticam dizendo: "Você está indo contra as palavras de Marx e, portanto, deve ser excomungada". Houve um debate muito saudável no início do século XX sobre o que os esquemas de reprodução, presentes no Volume II de O Capital, realmente provam ou deixam de provar.

Da mesma forma, o debate sobre o capital monopolista: quando a Nova Esquerda e aquela geração de economistas surgiram, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, eles criticaram de forma muito eficaz a teoria que, na época, predominava na economia marxista — uma teoria herdada de Lênin. A teoria do capital monopolista sustentava que o capitalismo concorrencial havia chegado ao fim no início do século XX. O capitalismo concorrencial teria se transformado em capital monopolista, um sistema no qual — e é aqui que a coisa fica imprecisa — ou se dizia que a era da concorrência havia acabado e grandes conglomerados controlavam os mercados (caso em que a concorrência estaria praticamente extinta), ou se apresentava aquele argumento — a meu ver, absurdo — sobre a existência de algo chamado "concorrência monopolística". Acho que isso é, essencialmente, um oxímoro, uma espécie de argumento forçado.

Essa teoria do capitalismo monopolista, que antes era a teoria dominante e hegemônica, foi duramente criticada por uma geração emergente de economistas marxistas, de modo que, já na década de 1980, ela havia se tornado uma teoria minoritária.

Será que um desses lados não é marxista? Um lado é marxista e o outro não? Ninguém dizia que Paul Sweezy não era marxista. Não o chamavam de revisionista. Diziam que a análise estava equivocada, e Sweezy dizia o mesmo a respeito deles. Acho isso perfeitamente válido. Creio que vocês têm um bom debate em mãos. Ambos os lados concordaram que o capitalismo é o problema, que a estrutura de classe gera aquilo que estamos analisando e que, para alcançar uma sociedade melhor, é preciso mudar essa estrutura de classe. No entanto, discordaram quanto às macrodinâmicas dessa estrutura, aos fatores que a impulsionam e aos tipos de restrições que o capital e o trabalho enfrentam hoje. Trata-se, simplesmente, de um debate científico saudável.

Melissa Naschek

Então, estamos rindo da ideia de que alguns tratam o marxismo como uma religião, mas por que você acha importante que o marxismo seja algo vivo, pulsante e em evolução?

Vivek Chibber

Bem, no momento em que ele deixa de fazer uma autocrítica real, ele morre; isso porque a realidade muda a tal ponto que simplesmente repetir uma teoria de 150 anos atrás, por meio da memorização mecânica, não permitirá que você compreenda as formas ou as particularidades do capitalismo atual. Afinal, embora ainda seja capitalismo, ele é diferente do capitalismo do século XIX. Portanto, é preciso ser capaz de extrair as consequências da teoria a partir de uma realidade que — pelo menos na superfície — difere da realidade do século XIX. A essência, porém, permanece a mesma.

A menos que você aceite a centralidade da classe, não pode ser marxista. A meu ver, não pode sequer ser socialista.

Mas é preciso demonstrar empiricamente que, embora as formas fenomênicas possam parecer diferentes das do século XIX, as estruturas causais subjacentes do mundo permanecem as mesmas: a busca pelo lucro, a ameaça da concorrência e o imperativo de produzir para que o capital migre de um setor para outro em busca da maior taxa de retorno; como isso, por sua vez, impõe restrições às empresas; como as restrições impostas às empresas limitam os trabalhadores; e como as limitações enfrentadas pelos trabalhadores criam as condições sob as quais eles precisam tentar se organizar. É isso que a teoria busca fazer.

Se você não conseguir expandir a teoria para esses novos domínios empíricos e fenômenos, ela se reduz essencialmente a uma religião ou doutrina — algo que pode até atrair certas subculturas de estudantes e acadêmicos americanos, mas que não terá relevância alguma para lidar com o mundo tal como as pessoas o vivenciam.

O estado do marxismo moderno

Melissa Naschek

Como você definiria o marxismo moderno?

Vivek Chibber

Essa é uma boa pergunta. Não é fácil respondê-la, pois o fato é que, com o declínio do movimento operário e a degeneração da cultura acadêmica e intelectual, o marxismo está — se não morto — sobrevivendo apenas por aparelhos nos dias de hoje.

Nos últimos quinze ou vinte anos, não houve muita produção teórica relevante no âmbito do marxismo. No entanto, se eu fosse descrever o que restou dessa tradição marxista, diria que — ironicamente, e apesar de ser mais difícil encontrar marxistas na academia ou no meio intelectual atualmente — a teoria está muito mais sólida do que há cem anos.

Melissa Naschek

Como assim?

Vivek Chibber

A lógica econômica subjacente à teoria foi explicada de forma muito, muito mais clara do que na época de Lênin, Luxemburgo e Hilferding. E acredito que o mesmo possa ser dito sobre os fundamentos normativos da teoria — isto é, seus compromissos morais e sua visão de justiça e injustiça. O tipo de visão que ela propõe para uma sociedade mais humana é infinitamente mais claro hoje do que era até mesmo na década de 1950.

Muitos marxistas de gerações anteriores levaram a sério a própria relutância de Marx em desenvolver uma teoria moral. Marx apresentava uma contradição: embora negasse estar desenvolvendo fundamentos morais, seus argumentos eram profundamente morais. E, nas duas gerações seguintes, pessoas da geração de Lênin e Karl Kautsky repetiam essa mesma visão. Foi preciso que surgisse a Nova Esquerda para identificar isso como uma contradição.

Após as experiências terríveis do stalinismo e de Pol Pot, percebeu-se a necessidade de uma compreensão muito clara sobre quais são as linhas morais que nos recusamos a cruzar e qual é o fundamento moral a partir do qual criticamos o capitalismo.

Então, se dizemos que os capitalistas exploram o trabalho, observe a palavra "explorar". É uma palavra profundamente carregada de sentido moral. Marx não disse simplesmente que os capitalistas empregam mão de obra; ele disse que eles exploram o trabalho. Não há como apresentar uma definição moralmente neutra para a palavra "explorar".

Melissa Naschek

Mesmo fora dos círculos marxistas, "explorar" não é uma palavra positiva.

Vivek Chibber

Exato. Explorar alguém significa tirar vantagem dessa pessoa ou tratá-la, de alguma forma, injustamente. Se usamos essa palavra, precisamos deixar claro o que torna a relação de emprego uma relação de exploração. Esse aspecto não foi desenvolvido pelos filósofos marxistas até as décadas de 1960 e 1970, mas foi abordado pela Nova Esquerda. E acredito que essa tenha sido uma linha de investigação muito frutífera. Também acho que temos uma compreensão muito, muito mais clara da teoria do Estado. O livro que as pessoas utilizaram por muito tempo foi O Estado e a Revolução, de Lênin — que, francamente, é um livro péssimo. A argumentação é muito fraca. Ele não apresenta uma teoria real sobre o que é o Estado nem sobre o que o caracteriza como um Estado burguês.

Melissa Naschek

Certamente não uma teoria coerente.

Vivek Chibber

Não. Portanto, há muitos e muitos aspectos do marxismo que, a meu ver, foram desenvolvidos e explicados de forma muito mais sólida — e assentados sobre bases mais firmes — ao longo dos últimos quarenta anos do que anteriormente. Aquele foi o último momento em que uma geração de intelectuais realmente talentosos se voltou para o marxismo. Isso deixou de acontecer durante a sua trajetória e também durante a maior parte da minha.

Assim, encontramo-nos nesta situação peculiar: acredito que a teoria esteja, de fato, em bases muito mais sólidas do que estava, digamos, em 1960; no entanto, a evolução das universidades, dos partidos políticos e dos sindicatos nas últimas quatro décadas acabou por esvaziar a intelectualidade de esquerda. Existe, sim, uma intelectualidade de esquerda, mas muito pouco dela é marxista. E a maior parte dessa intelectualidade de esquerda, na verdade, difama a tradição marxista e mina ativamente os fundamentos daquilo que tem sido a essência do movimento socialista há 120 anos: a política de classe.

Os muitos críticos de Marx

Melissa Naschek

Acho que é bastante óbvio por que liberais e conservadores são tão críticos em relação ao marxismo. Se você não tem certeza do motivo, pode conferir qualquer um dos nossos quarenta e nove episódios anteriores, e isso lhe dará uma noção. Mas por que pessoas de esquerda também participam de tentativas de denegrir o marxismo?

Vivek Chibber

É porque elas percebem, corretamente, que a política de classe e a centralidade da classe estão no cerne do marxismo. E a esquerda atual dedica-se obstinadamente a minar a política de classe e a substituí-la por vários tipos de política identitária. E, na minha opinião, por esse motivo, ela não merece ser chamada de esquerda. Ela é a ala esquerda do neoliberalismo. Não é uma esquerda de fato. Não se pode ser de esquerda ou radical se não se coloca o capitalismo no centro da sua política. E isso significa colocar a classe no centro da sua política. Isso tem sido verdade desde o surgimento da esquerda moderna. Eles colocavam a classe no centro de sua política. A contribuição histórica desta esquerda atual é ter sido a primeira a não apenas questionar isso, mas a rejeitá-lo violentamente. E ela entrará para a história como motivo de piada por esse motivo.

Melissa Naschek

Bem, espero que um dia eu possa rir disso. Há muitas críticas diferentes que pessoas de esquerda, em particular, fazem ao marxismo. Uma delas que eu queria levantar é a crítica de que o marxismo é determinista. Então, quero lhe perguntar: o marxismo é determinista? E, se for, isso é algo ruim?

Vivek Chibber

É claro que é determinista. E não só não há problema nisso, como é essencial para qualquer teoria social viável, pois as teorias sociais tratam essencialmente de causalidade. É isso que as teorias sociais fazem. Você tenta entender o que gera outra coisa. E então tenta fazer uma generalização sobre isso: que, em certas circunstâncias, quando se tem A, também se terá B. É isso que as teorias fazem. O marxismo afirma que, enquanto existirem estruturas de classe capitalistas, haverá certos tipos de resultados sociais. Esses resultados sociais incluem a exploração e todo tipo de injustiça ou desfecho iníquo. Trata-se de uma afirmação determinista. Esse é o que chamo de determinismo em nível macro. No entanto, uma sociedade capitalista apresentará certos tipos de instituições e resultados sociais específicos. Isso significa que tal lógica também se aplica em nível micro.

Se você trabalha em uma fábrica ou em um restaurante, os marxistas argumentam que a relação de emprego gerará certos comportamentos naquele ambiente específico, e não apenas na sociedade como um todo. É por isso que, ao tentar organizar trabalhadores em um centro de distribuição da Amazon ou no setor de transportes da UPS — tratando-se de uma empresa ou de um armazém individual —, você encontra os mesmos tipos de interesses e processos de classe que são teorizados em nível macro.

Melissa Naschek

Isso nos remete ao início da nossa conversa, quando falamos sobre a ideia de que os atores são compelidos pelas relações sociais.

Vivek Chibber

É fato que, ao passar do nível macro para o micro, a análise se torna menos determinística. Isso ocorre porque, no nível individual, as pessoas podem estar dispostas a fazer todo tipo de sacrifício, a agir contra os interesses de sua classe e a desafiar essas coerções. Mas também sabemos que essas pessoas são exceções. E é por isso que, ao agregar indivíduos, o poder preditivo da teoria aumenta.

No entanto, isso não significa que ela não tenha capacidade preditiva no nível micro. Se fosse assim, chegaríamos a uma situação estranha: afirmar que "as leis macro do capitalismo são determinísticas, mas, veja bem, se você tentar organizar sua fábrica ou seu sindicato, isso não vai funcionar porque é algo do nível micro". Isso realmente não faz sentido. Faz sentido dizer que a análise é menos determinística no nível micro, mas ainda assim ela permanece altamente probabilística.

No contexto da política de identidade, as pessoas adoram falar sobre contingência. Mas, se o mundo fosse regido pela contingência, por que se opor ao racismo? Por que se opor ao patriarcado? Se você afirma que as relações sociais patriarcais geram um tipo específico de injustiça, você rejeitou o determinismo marxista, mas aceitou outro em seu lugar. Trata-se, portanto, de um artifício retórico desenvolvido por essa chamada intelectualidade radical.

A verdade é que qualquer pessoa com um programa social concreto e identificável — qualquer um que possua uma teoria social de justiça e injustiça que vincule as injustiças a instituições e estruturas sociais — está operando com base em algum grau de determinismo causal ou, no mínimo, em uma teoria altamente probabilística que não é nem mais nem menos determinística do que a teoria de classe. Ao se oporem ao marxismo, essas pessoas não estão realmente rejeitando o determinismo; elas estão apenas rejeitando a ideia de que a classe social é o fator explicativo. E, como eu disse, essa é a marca registrada da esquerda contemporânea.

Melissa Naschek

Essa também é uma maneira muito desonesta de atacar outra ideia. Por que não dizer simplesmente: "Bem, eu discordo da ideia de que a classe social é o fator determinante fundamental"? Por que não dizer: "Na verdade, eu acredito nesta outra coisa"?

Vivek Chibber

É. Isso faz parte da confusão geral que se instalou na teoria social nos últimos trinta anos.

Veja, se o capitalismo não possui propriedades determinísticas, por que você é anticapitalista? Por que se opor ao capitalismo se você não acredita que ele seja a causa das injustiças que tenta combater?

Não dá para se dizer anticapitalista a menos que se acredite que o sistema possui propriedades causais muito fortes, identificáveis ​​e de alta probabilidade. O mesmo vale para quem é feminista ou antirracista. Não se pode ser um "guerreiro da justiça social" e, ao mesmo tempo, defender a ideia de contingência.

O declínio do marxismo

Melissa Naschek

Você disse que o marxismo está sobrevivendo por aparelhos. E, no entanto, estávamos falando sobre como ele floresceu, se desenvolveu e cresceu durante o século XX. O que aconteceu nesse intervalo?

Vivek Chibber

Bem, ele não floresceu durante todo o século XX. Na verdade, existem dois períodos em que se vê a teoria marxista se desenvolvendo de forma séria. Um deles ocorreu nas décadas seguintes à — digamos — primeira revolução russa de 1905; foi de 1905 até o início da década de 1930, quando entrou em declínio real. Depois, houve uma retomada entre meados da década de 1960 e meados da década de 1980, seguida por um declínio gradual. E, por volta de 2015, o sistema entrou em queda livre. Por quê? Se você parar para pensar um pouco, a resposta é óbvia.

O marxismo é uma teoria social que exige estudo sério, reflexão séria e análise séria. Trata-se, portanto, de um conjunto de ideias que tende a circular principalmente entre acadêmicos profissionais — ou, poderíamos dizer, intelectuais um tanto distantes da organização cotidiana. Assim, mesmo figuras como Lênin, Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo, embora profundamente envolvidos na política de sua época, dedicavam a maior parte de seu tempo à leitura, à escrita e a reuniões — e não ao chão de fábrica ou ao trabalho de organização propriamente dito.

A simples repetição de uma teoria de há 150 anos não nos permitirá compreender as particularidades do capitalismo de hoje.

Havia um elo que os conectava aos organizadores; eles estavam imbuídos dessa cultura, mas não eram, eles próprios, organizadores do chão de fábrica. Havia também figuras daquela época, como György Lukács ou Karl Korsch, que eram essencialmente apenas intelectuais. Todas essas pessoas tinham algo em comum: passavam grande parte do tempo lendo, refletindo, estudando e debatendo. Algumas estavam nas universidades, outras não, mas todas estavam institucionalmente afastadas do ativismo cotidiano.

Também na década de 1960, havia pessoas que integravam partidos comunistas, atuavam em institutos de pesquisa ligados a sindicatos ou — pela primeira vez na história — estavam nas universidades. As décadas de 1960 e 1970 marcaram o momento em que o marxismo se enraizou de fato nas universidades em larga escala. Em ambos os períodos, ele foi desenvolvido por pessoas que poderíamos chamar de intelectuais profissionais. Isso implica um determinado ambiente de classe. Tratava-se de indivíduos de origem e ambiente de classe média; portanto, ao assumirem o marxismo, eles estavam, na verdade, saindo da cultura de sua própria classe.

O que os levava a romper com essa cultura de classe? O crescimento explosivo do movimento operário. Tanto no início do século XX quanto nas décadas de 1960 e 1970, o traço comum foram as grandes convulsões sociais: movimentos operários, movimentos anticoloniais e o movimento antirracista — este último concentrado principalmente na classe trabalhadora, especificamente na classe trabalhadora negra e parda. Aquele foi, também, o último momento em que se viu uma explosão de ativismo trabalhista no mundo capitalista desenvolvido.

Esse fenômeno retirou intelectuais e acadêmicos de classe média de seu ambiente habitual e, de certa forma, os humanizou. Conferiu-lhes uma espécie de humanidade que acadêmicos normalmente não possuem. No fundo, acadêmicos não passam de burocratas glorificados. Basicamente, são burocratas que publicam artigos irrelevantes — coisas que ninguém jamais lerá — visando à promoção e à ascensão na carreira, sem qualquer reflexão real sobre como isso se conecta ao mundo ao seu redor.

Melissa Naschek

Isso me chama a atenção de modo particular; é algo que sempre me atraiu no marxismo. Aquela máxima de que o objetivo da teoria não é explicar o mundo, mas transformá-lo. Trata-se de uma teoria que não visa apenas apresentar ideias de forma abstrata, mas fornecer, de fato, informações que os organizadores possam utilizar. Isso pode parecer óbvio, mas, na realidade, a maior parte da produção teórica não se preocupa com esse aspecto.

Vivek Chibber

Não, e não há recompensa específica no meio acadêmico por realizar trabalhos socialmente relevantes. Assim, a maioria dos acadêmicos e jornalistas está inserida nesse ambiente de classe média, e sua motivação fundamental é a ascensão profissional — exatamente como ocorre com alguém que trabalha em uma seguradora, em uma imobiliária ou algo do gênero.

O que esses dois períodos tinham em comum, no entanto, era o fato de serem épocas de convulsão social; muitas pessoas de classe média foram atraídas para fora da cultura de sua classe e voltaram-se para o mundo. Além disso — caso tivessem a sorte de integrar ou conviver com organizações políticas, como partidos comunistas, sindicatos e partidos socialistas —, elas eram moldadas pela cultura dessas instituições a buscar tornar suas ideias relevantes para a realidade. Isso lhes dava a motivação para realmente questionar essas ideias e refletir profundamente sobre elas. Havia um número suficiente de pessoas nesse convívio para que pudessem estimular e cobrar umas às outras. Por fim, como havia tantos pensadores marxistas, o marxismo acabou se tornando algo relativamente comum, parte do debate principal.

Hoje, a maioria dos intelectuais e acadêmicos evita o marxismo por dois motivos: um é que ele não ajuda muito na carreira, e o outro é que causa certo constrangimento. Você se sente como um "ponto fora da curva"; a menos que tenha muita autoconfiança, uma comunidade ao seu redor ou esteja vinculado a uma organização ou algo semelhante, é difícil ser esse elemento destoante no ambiente. Assim, você acaba sendo assimilado aos poucos — e isso traz vantagens, pois a progressão na carreira acadêmica é melhor para quem não é marxista.

Foi por todos esses motivos que se observou um enorme florescimento da teoria marxista nesses dois períodos. Quando os movimentos trabalhistas perdem força e as instituições políticas, sindicatos e partidos são desmantelados, os acadêmicos são reabsorvidos pelo seu mundo de ascensão profissional e de desprezo geral pelos trabalhadores — sentimento comum à maioria das pessoas de classe média, certo? Foi isso o que se viu nas décadas de 1940, 1950 e 1960. E, a partir da década de 1990, o mesmo padrão se repetiu. Na década de 1990, as instituições acadêmicas e intelectuais já eram diferentes do que haviam sido nos anos 1950, pois não eram mais totalmente dominadas por homens brancos. Agora, essas instituições também contavam com a presença de mulheres e pessoas não brancas; elas começaram a perceber que não recebiam as mesmas vantagens que os homens brancos obtinham e passaram a desenvolver teorias e análises sociais fundamentalmente voltadas para suas experiências de discriminação, de barreiras invisíveis à ascensão profissional (o chamado "teto de vidro"), entre outras questões. Isso acabou se tornando o novo radicalismo.

Esse novo radicalismo era aquele em que o maior pecado não é a exploração. Não é a forma como os pobres são reduzidos a pó. O maior pecado passou a ser a discriminação, a apropriação cultural ou a falta de tratamento com o mesmo respeito dispensado a outros nesses ambientes de classe média. E qualquer pessoa que tente trazer a questão de classe para esse ambiente — para essa análise —, tentando redirecionar a atenção para aqueles que não conseguem suprir suas necessidades básicas e não possuem seguridade social ou emprego estável, é vista como uma ameaça a essa versão de radicalismo. Esse radicalismo está fixado, de forma quase exclusiva, nas dificuldades enfrentadas pelas classes profissionais cujas ambições e possibilidades de ascensão social estão sendo frustradas. É isso que se torna o novo radicalismo.

A ironia dessa mudança de foco, afastando-se da questão de classe, não reside no fato de ter colocado raça ou gênero acima da classe social. A ironia está em ter associado raça e gênero a um segmento específico dessas comunidades — um segmento de classe privilegiada. Portanto, não se trata de menosprezar o antirracismo em favor de uma política de classe; trata-se de constatar que a política de identidade transformou a política racial na visão de mundo de negros e pardos ricos, das classes profissionais e empresariais dentro das comunidades negra, latina e asiática.

Melissa Naschek

E seus interesses de classe específicos.

Vivek Chibber

O marxismo sempre foi antirracista. Sempre. O marxismo sempre combateu as relações de gênero patriarcais. Mas ele as conceituava e abordava de uma maneira que colocava em primeiro plano e promovia os interesses de pessoas de cor e mulheres pertencentes à classe trabalhadora. Isso significa que se tratava de uma perspectiva de classe sobre as identidades sociais.

O que a política de identidade fez foi reduzir raça, gênero e sexualidade à forma como essas questões eram vivenciadas por profissionais em ascensão social — tanto na academia quanto nas chamadas classes profissionais. Portanto, não se trata de ter substituído classe por raça. O que ocorreu foi a introdução de uma versão de raça que interessa apenas às elites. Introduziu-se uma versão de política de gênero que interessa apenas a mulheres profissionais e mulheres ricas. E isso significa que, para combater de fato e com mais eficácia a opressão de raça e gênero, é preciso abordá-las da maneira como a classe trabalhadora as vivencia. E a discriminação é apenas um pequeno componente daquilo que essas pessoas vivenciam.

Para as populações oprimidas — seja você mulher, pessoa de cor ou integrante de qualquer outro grupo —, a luta fundamental continua sendo por moradia, assistência médica, empregos, creches e coisas do gênero; questões que, para as classes profissionais, nunca foram problemas, pois elas já dispõem de tudo isso. Assim, elas concentram-se obsessivamente nos obstáculos a uma maior ascensão social, em vez de focarem em como a sua situação de classe, na verdade, agrava a sua situação de gênero e raça em comparação com aqueles que estão em ascensão social.

Isso não ocorria nas décadas de 1950 e 1960 — e não poderia ocorrer —, pois essas pessoas estavam sistematicamente excluídas de tais instituições sociais. É por isso que, hoje, o radicalismo não só é amplamente inútil para os trabalhadores, como estes também desprezam os radicais; afinal, os radicais passam a maior parte do tempo destilando desprezo pelas "massas ignaras" e querem manter a atenção voltada exclusivamente para as agruras daquilo que chamamos de classe profissional-gerencial. Essa é a essência da política de identidade. O que torna isso uma novidade hoje é o fato de ter ocupado o espaço de análise radical que antes pertencia a socialistas e marxistas. Enquanto essa forma de radicalismo for a que vemos na esquerda, a esquerda continuará sendo marginal, inútil e amplamente desprezada.

Colaborador

Vivek Chibber é professor de sociologia na Universidade de Nova York. Ele é editor da Catalyst: A Journal of Theory and Strategy.

Melissa Naschek é membro da Democratic Socialists of America.

5 de outubro de 2026

Lula corre o risco de perder a presidência do Brasil

Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula no primeiro turno da eleição presidencial brasileira, favorecido pela intervenção dos EUA e pela cautela excessiva do Partido dos Trabalhadores. Para vencer o segundo turno, Lula precisa dar aos trabalhadores um motivo para ter esperança.

Aldo Cordeiro Sauda

Jacobin

A pressão dos EUA sobre o Supremo Tribunal Federal do Brasil transformou a campanha presidencial em uma disputa sobre corrupção no Judiciário — terreno favorito da extrema-direita. Para vencer o segundo turno contra Flávio Bolsonaro, Lula precisa apresentar argumentos mais convincentes aos trabalhadores brasileiros. (Sergio Lima e Evaristo SA / AFP)

O primeiro turno das eleições no Brasil desferiu um duro golpe no Partido dos Trabalhadores (PT) e, de forma mais ampla, na causa da democracia na América Latina. Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva terminou cerca de seis milhões de votos à frente de Jair Bolsonaro no primeiro turno, uma margem que caiu para cerca de dois milhões no segundo turno. Desta vez, Flávio Bolsonaro terminou 2,2 milhões de votos à frente de Lula, uma vantagem de três pontos percentuais.

Isso torna o segundo turno, em 25 de outubro, especialmente difícil para Lula e para a esquerda brasileira. Os candidatos que ficaram atrás dos dois primeiros colocados — e que, juntos, somaram cerca de seis milhões de votos (aproximadamente 6%) — pertencem todos à extrema-direita. Eles apoiaram o governo de Jair Bolsonaro e se opuseram ao de Lula; portanto, é provável que se forme uma frente ampla contra ele no segundo turno. Existe uma chance real de que a família Bolsonaro retorne à presidência.

A ascensão da direita

A mesma dinâmica marcou as disputas legislativas. No Senado, o Partido Liberal (PL) — legenda de extrema-direita de Bolsonaro — saltou de quinze para vinte e oito cadeiras, enquanto o PT manteve-se estagnado com nove (de um total de oitenta e uma). As expectativas de uma maior presença feminina no Congresso também não se concretizaram.

As disputas pelos governos estaduais seguiram um padrão semelhante. Sergio Moro, o senador de extrema-direita que prendeu Lula na esteira do golpe parlamentar e judicial contra Dilma Rousseff, conquistou o governo do Paraná logo no primeiro turno. A extrema-direita também obteve vitórias diretas em estados ricos, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Na Câmara dos Deputados, o PT teve um desempenho particularmente ruim no estado de São Paulo, onde figuras veteranas do partido, como Paulo Teixeira, Nabil Bonduki e José Dirceu, não conseguiram se eleger. A candidata mais votada do PT no estado, Luana Zaratini, obteve 230 mil votos, enquanto o candidato mais votado do PL, Luciano Pavanato, recebeu três milhões. Em âmbito nacional, os partidos de esquerda com representação parlamentar — PT, PSOL, Rede e PCdoB — cresceram de 88 para 96 ​​deputados. No entanto, foram superados pelo PL de Bolsonaro, que saltou de 99 para 120 (de um total de 513).

O movimento que agora parte de cima pode ser mais perigoso do que aquele que vem de baixo.

Quando Bolsonaro foi eleito pela primeira vez, em 2018, o sentimento geral era de revolta. A extrema direita chegou ao poder impulsionada por um movimento entusiasta vindo da base, que tomou as ruas. Isso não aconteceu com Flávio neste ano. Apesar do sucesso eleitoral do PL e da força do bolsonarismo nas urnas, as ruas mostram-se mornas. As promessas soam menos como um plano para virar tudo de cabeça para baixo — como na campanha anterior — e mais como uma proposta para retomar o trabalho inacabado da direita, especialmente a anistia para a família e a revanche contra o Supremo Tribunal Federal. O movimento que agora parte do topo pode ser mais perigoso do que aquele que vinha da base.

Interferência americana

Ao contrário do que se esperava, a intervenção dos EUA não se manifestou por meio de intromissões ruidosas de Donald Trump e seus aliados. Ela parece ter ocorrido, na verdade, por meio de uma pressão eficaz e discreta sobre a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal, que se tornou o centro do debate político.

Isso se mostrou particularmente prejudicial. Em vez de debater questões de políticas públicas e programas de governo, a campanha girou em torno da corrupção — terreno favorito da extrema direita. E, desta vez, o debate concentrou-se mais no Supremo do que na presidência.

A primeira medida de Washington após a prisão de Jair Bolsonaro foi aplicar a Lei Magnitsky, impondo sanções ao magistrado responsável pelo caso, Alexandre de Moraes, como punição por ele ter mirado o principal aliado de Trump no continente. A pressão sobre o sistema judiciário brasileiro continuou desde então, de forma menos visível, porém mais agressiva.

A própria conduta do tribunal o tornou um alvo fácil. Seus ministros têm um histórico de proteção aos interesses da burguesia, e a linha divisória entre assuntos públicos e privados é mal definida: é comum que ministros se tornem advogados multimilionários após deixarem o cargo.

Essa é a história do escândalo do Banco Master. Juízes e, sobretudo, seus familiares estavam ligados a contratos milionários, favores, presentes e festas ao estilo Epstein, organizadas pelo banqueiro fraudulento que estava no centro do maior crime financeiro da história do Brasil. Entre eles estava a esposa de Moraes, Viviane Moraes. Cinco dos onze ministros da Corte estavam envolvidos; no entanto, a crise girou em torno de Moraes, e a extrema-direita aproveitou a situação para atacar a figura que havia colocado Bolsonaro atrás das grades.

A questão central sobre a revelação dos acordos secretos de Viviane Moraes é como o ministro André Mendonça — um pastor evangélico de extrema-direita com laços estreitos com a direita evangélica dos EUA — obteve acesso aos documentos confidenciais. A maneira, a rapidez e o acesso de que desfrutou esse magistrado indicado por Bolsonaro sugerem fortemente a existência de interferência dos EUA no processo.

Durante uma sessão acalorada do Supremo Tribunal Federal, transmitida ao vivo pela televisão um mês antes da votação, Moraes afirmou que o relatório havia sido elaborado em um prazo de 72 horas e insistiu que tal intervalo era impossível para um documento daquela natureza. Segundo ele, os metadados comprovavam que o relatório não fora produzido pela Polícia Federal, mas sim por agentes externos — provavelmente estrangeiros —, que simplesmente entregaram o produto final à polícia.

Desta vez, o foco não recaiu sobre a ação tomada pela administração Trump, mas sim sobre as alegações de corrupção envolvendo juízes que haviam apoiado o governo Lula.

Moraes insistiu que os metadados mostravam que o inquérito policial havia sido aberto e encerrado no mesmo dia em um computador da Polícia Federal, o que significava que o relatório havia sido apenas inserido no sistema. Ele descreveu isso como evidência de uma tentativa de interferência estrangeira nas eleições brasileiras.

Mendonça também interveio durante a ofensiva contra Moraes ao destituir o chefe da Polícia Federal — nomeado por Lula e responsável por conter a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. A provável intervenção dos EUA na controvérsia em torno do Supremo Tribunal Federal alterou os termos do debate a favor da direita brasileira, ao contrário das tarifas punitivas que Trump impôs após a prisão de Bolsonaro, as quais apenas aumentaram o apoio a Lula. Desta vez, o foco não recaiu sobre a ação do governo Trump, mas sim sobre alegações de corrupção envolvendo juízes que haviam apoiado o governo Lula.

Um governo fraco

Embora o foco no Supremo Tribunal Federal certamente tenha facilitado a situação para Bolsonaro, é impossível ignorar o fato de que o terceiro governo de Lula tem sido o menos transformador de seus três mandatos. Isso se explica, em parte, pela evolução das instituições brasileiras desde o golpe contra sua sucessora, Dilma Rousseff.

O golpe contra Dilma foi, ao mesmo tempo, um golpe parlamentar e um golpe em prol do parlamento. A direita conservadora no Congresso derrubou-a para instalar uma de suas principais figuras, o vice-presidente Michel Temer, na presidência. Simultaneamente, buscou-se enfraquecer o Executivo e fortalecer o Legislativo, ao passo que o processo também conferiu maior poder ao Supremo Tribunal Federal em detrimento da Presidência.

Como resultado desses esforços, a capacidade de governar de Lula foi bastante restringida e depende muito mais do Congresso, inclusive em questões como o orçamento. Sob Bolsonaro, o Congresso passou a atuar diretamente na elaboração do orçamento e na condução dos gastos públicos de forma autônoma — algo inédito —, e essa prática perdurou no governo Lula. Segundo o cientista político André Singer, o Brasil deixou de ter um sistema presidencialista baseado em amplas coalizões parlamentares para se aproximar de um regime semipresidencialista típico do período pós-golpe.

No entanto, o enfraquecimento da Presidência não explica, por si só, o desempenho ruim do PT. O governo tem resultados modestos no que diz respeito à melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. É verdade que o desemprego está em níveis historicamente baixos e a fome recuou para os patamares observados nos primeiros governos de Lula, após ter disparado nas gestões de Temer e, sobretudo, de Bolsonaro. Contudo, embora a vida tenha praticamente retomado o ritmo anterior à pandemia, as condições continuam muito difíceis para os trabalhadores.

Na última pesquisa Quaest antes da eleição, eleitores de famílias com renda de até dois salários mínimos (cerca de US$ 620 mensais) preferiram Lula a Flávio, com 52% das intenções de voto contra 23%. Esse grupo viu sua situação melhorar com a queda da pobreza extrema após a pandemia.

No entanto, isso não bastou para compensar as perdas do PT em outros segmentos. Entre as famílias com renda de dois a cinco salários mínimos, Flávio liderava por uma margem estreita: 36% contra 35%. Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, a vantagem dele era maior: 42% contra 30%.

Embora a fome tenha diminuído, os preços dos alimentos continuaram a subir, ainda que em ritmo menos acelerado do que sob Bolsonaro. A qualidade da alimentação caiu, com maior oferta de produtos semi-industriais e preços mais altos para carnes e outros itens básicos que eram muito mais acessíveis antes da COVID-19. A disponibilidade de carne é um fator particularmente relevante: ela desempenhou um papel central na campanha de Lula em 2022.

É impossível ignorar o fato de que o terceiro governo de Lula tem sido o menos transformador de seus três mandatos.

A situação do emprego reflete um cenário semelhante. O desemprego caiu, mas o trabalho tornou-se mais difícil. O governo Temer suprimiu uma série de direitos trabalhistas, e nenhum deles foi restaurado sob a gestão de Lula. As vagas baseadas em contratos de PJ (pessoa jurídica) — que abrangem freelancers e trabalhadores autônomos — cresceram em detrimento do emprego formal, trazendo uma insegurança muito maior. Grande parte do aumento de postos de trabalho ocorreu em setores de serviços vinculados a aplicativos e plataformas digitais, onde condições precárias e a falta de proteção pioraram as condições de vida.

Dívida

A dívida é um problema específico. O endividamento da classe trabalhadora cresceu, e isto é especialmente relevante para o PT e para Lula, porque a estratégia governamental do partido tem sido expandir a capacidade das famílias de se endividarem. No que diz respeito aos transportes, por exemplo, a principal estratégia foi alargar o acesso à compra de automóveis através de crédito, em vez de investir pesadamente no transporte público.

Houve uma enorme expansão do acesso à moradia para quem ganha de um a cinco salários mínimos. Mas quase tudo veio do subsídio à habitação privada através do programa Minha Casa, Minha Vida, que ampliou o acesso ao endividar as pessoas. As universidades públicas expandiram-se, mas o maior crescimento ocorreu nas instituições privadas, através de subvenções e esquemas de financiamento que também significaram contrair mais dívidas.

Por outras palavras, os ganhos dos governos Lula e Dilma basearam-se num maior acesso a bens como carros, habitação e educação, adquiridos com o aumento da dívida das famílias. Mais de duas décadas após o lançamento de políticas que procuravam integrar a classe trabalhadora na sociedade de massas através do consumo, 80 por cento das famílias suportam agora elevados níveis de dívida.

A esquerda e os movimentos de massas

Os esforços para evitar conflitos com o Congresso, o Supremo Tribunal e a classe capitalista brasileira também tornaram mais difícil para o governo Lula cumprir as suas promessas de campanha. Embora a devastação da selva amazônica tenha sido reduzida, Lula fez da perfuração de petróleo na foz do rio Amazonas uma das suas prioridades após assumir o cargo, representando um sério risco de derrames ao longo da costa amazônica.

Seu governo também anunciou um plano que colocaria trechos estratégicos dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, com o objetivo de transformá-los em corredores de exportação de soja. Foi a mobilização dos movimentos indígenas e estudantis durante os protestos da COP30 em Belém do Pará que paralisou o projeto.

Os primeiros apoiadores deste esquema abortado incluíram Guilherme Boulos, ministro responsável pela secretaria geral da presidência e relações com os movimentos sociais, e Sônia Guajajara, ministra dos povos indígenas. Guajajara obteve 160 mil votos nas eleições de 2022; desta vez, ela recebeu apenas 54.000.

O mais revelador foi o fracasso, ou a falta de vontade, do governo em converter as lutas dos trabalhadores em mobilizações a seu favor. A reivindicação central da classe trabalhadora desde a eleição de Lula tem sido o fim do horário 6x1 (seis dias de trabalho seguidos de um dia de folga) e a redução da semana de trabalho. No entanto, o PT canalizou esta exigência para uma luta puramente parlamentar, sem greves ou protestos de rua para apoiá-la.

A mesma lógica desmobilizadora se aplica à greve dos trabalhadores de aplicativos (o breque dos aplicativos), talvez o momento mais explosivo da luta da classe trabalhadora em São Paulo nos últimos anos. Embora o governo tenha agido para impedir a greve, a única proposta que ofereceu a estes trabalhadores foi crédito para comprar bicicletas.

Política externa

No que diz respeito à política externa, o governo Lula nunca desenvolveu uma linha coerente de oposição às políticas da administração Trump. Não concretizou as ameaças de taxar diretamente produtos americanos e preferiu negociar com Washington a questão da invocação da Lei Magnitsky.

Em relação à Palestina, Lula condenou prontamente o genocídio cometido por Israel, e seu governo aderiu à ação judicial movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, no ano passado. No entanto, a administração também utilizou o Ministério dos Direitos Humanos para equilibrar sua relação com Tel Aviv. Silvio de Almeida, o ministro dos Direitos Humanos que deixou o cargo em meio a denúncias de assédio sexual, recusou-se por meses a condenar o genocídio, alegando que a questão cabia ao presidente e ao Ministério das Relações Exteriores. Sua sucessora, Macaé Evaristo, orientou o ministério para uma política de "combate ao antissemitismo" que incluía visitas a instituições judaicas, ao museu do Holocausto e a sinagogas pró-sionistas, ao mesmo tempo em que ignorava a comunidade palestina e não se posicionava contra a islamofobia.

A resposta do governo à tentativa fracassada de golpe bolsonarista também foi inadequada. O governo apoiou o Supremo Tribunal Federal, mas não buscou responsabilizar alvos importantes, como o argentino Fernando Cerimedo — ligado a redes de interferência dos EUA e de Israel na América Latina e excluído da denúncia final da Procuradoria-Geral — e a Jovem Pan, o grande veículo de comunicação que incitou a tentativa de golpe.

Vencendo o segundo turno

As medidas mais populares de Lula na reta final da eleição envolveram a mudança de posições anteriores de sua administração sobre essas questões. O governo havia tentado apenas regular o crescimento das apostas online — que afetaram duramente as famílias da classe trabalhadora, especialmente as apostas em futebol —, mas passou a defender sua proibição total. Os pagamentos do programa Bolsa Família, criado para reduzir a pobreza e a fome extrema, não haviam sido reajustados para acompanhar a inflação nos três anos anteriores; isso mudou às vésperas da votação.

Lula não conseguiu demonstrar que é ele, e não a extrema direita, quem representa a mudança.

O governo também começou a investir em saúde pública para combater a obesidade, adquirindo tratamentos como o Mounjaro, algo que não havia feito anteriormente. Essas mudanças de política impulsionaram o apoio a Lula e podem até ter impedido que Flávio Bolsonaro vencesse logo no primeiro turno.

Para ser reeleito no segundo turno, Lula precisa gerar esperança de mudança. Esse tem sido o problema central da esquerda brasileira. Bancos, grandes empresas, a maioria dos políticos e a maior parte da mídia tendem à direita; no entanto, a percepção predominante é a de que o Brasil vive sob um regime de esquerda e que o campo de Bolsonaro representa a alternativa ao status quo.

Lula não conseguiu demonstrar que é ele — e não a extrema-direita — quem representa a mudança. Isso se deve, em parte, ao fato de sua gestão não ter sido um governo de mudança.

As abstenções, os votos em branco e os votos nulos somaram 24% do eleitorado. A taxa de abstenção, isoladamente, foi de 21%, a mais alta desde 1998. Para conquistar eleitores que antes votavam na direita ou eram contrários ao sistema — e para construir uma base social própria, em vez de vê-la se abster —, o PT precisará de uma estratégia mais combativa, fundamentada na mobilização popular e social. Essa é a única maneira de derrotar a extrema-direita.

Colaborador

Aldo Cordeiro Sauda é jornalista, advogado e militante do PSOL; cobriu a Primavera Árabe a partir do Cairo e de Beirute para os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo. É doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e fundador da Contrabando Editorial.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...