Organizadores costumam dizer que toda a política se resume a uma batalha entre o poder financeiro organizado e as pessoas organizadas. Candidatos com os maiores orçamentos de campanha tendem a vencer, mas aqueles que se recusam a aceitar doações de interesses corporativos podem prevalecer se seus apoiadores estiverem bem organizados, inspirados e agirem de forma estratégica. Da mesma forma, grandes empregadores podem gastar quantias vultosas para impedir a sindicalização, mas os trabalhadores podem sair vitoriosos em campanhas de organização sindical se souberem como mobilizar a categoria para que permaneçam unidos e não se deixem intimidar.
O mesmo ocorre no beisebol. Equipes situadas em grandes mercados e com folhas salariais elevadas possuem uma vantagem clara na contratação de jogadores talentosos que exigem salários astronômicos; contudo, times aguerridos e resilientes, mesmo com menos estrelas, por vezes conseguem conquistar campeonatos. Desde 2000, mais de 80% das equipes que chegaram à World Series (a final da liga) figuravam na metade superior em termos de folha salarial. Os cinco times com as maiores folhas salariais (num total de trinta) representam cerca de 38% de todos os finalistas da World Series e quase metade (48%) de todos os seus campeões.
Mas este ano é uma exceção: os finalistas da World Series — Milwaukee Brewers e Tampa Bay Rays — estão entre as equipes com menor poder financeiro no beisebol. Milwaukee representa o menor mercado da Major League Baseball, tanto em termos populacionais quanto de audiência televisiva, e ocupa a 19ª posição em folha salarial (US$ 143,5 milhões). Tampa Bay está na 25ª posição em tamanho de mercado e na 26ª em folha salarial (US$ 98,3 milhões).
As equipes que mais investem são o New York Mets (US$ 346,8 milhões) e o Los Angeles Dodgers (US$ 338 milhões). Apesar dessa disparidade, os Brewers superaram os Dodgers — vencendo a série de quatro jogos na decisão da Liga Nacional — e garantiram sua vaga na World Series, frustrando as esperanças de Los Angeles de conquistar três títulos consecutivos. Brewers e Rays venceram suas respectivas ligas combinando um arremesso sólido, um estilo de jogo ágil e inteligente — conhecido como "small ball" — e contando com técnicos que souberam extrair o máximo de seus elencos, mesmo sem a presença de muitas superestrelas altamente remuneradas.
Durante a primeira metade do século XX, tanto na política quanto no beisebol, os "desfavorecidos" de Milwaukee frequentemente desafiaram as probabilidades e saíram vitoriosos. E, de fato, essas duas histórias estão entrelaçadas de maneiras que nem sempre são devidamente reconhecidas.
Os "Socialistas do Esgoto" de Milwaukee
No início do século XX, os socialistas de Milwaukee chegaram ao poder ao formar uma aliança com o movimento trabalhista da cidade. A cultura local foi fortemente moldada por imigrantes alemães, cujos clubes de atletismo e ginástica difundiam o ideal de "mente sã em corpo são". Um desses espaços, o Turner Hall — construído em 1883, próximo ao centro da cidade —, servia como ponto de encontro para radicais e socialistas de Milwaukee. O local oferecia aos seus membros um espaço para socializar, ouvir música, beber cerveja e discutir política. Foi lá que, em 1898, Eugene Debs proferiu seu primeiro discurso como socialista; ele voltaria a falar no Turner Hall em muitas outras ocasiões. (O local permanece, até hoje, um espaço popular para reuniões e apresentações, contando, inclusive, com um ginásio no subsolo.)
Um dos membros do Turner Hall era Victor Berger, um imigrante judeu austríaco que liderou a ascensão do Partido Socialista ao poder local. Berger era professor, editor de dois jornais (um em alemão e outro em inglês) e um organizador habilidoso. Ele e Debs ajudaram a fundar o Partido Socialista da América (SP, na sigla em inglês) em 1901. Berger transformou a seção de Milwaukee em uma formidável máquina política. Ele conquistou o apoio dos sindicatos — incluindo as influentes seções locais dos trabalhadores de cervejarias — e da maior parte dos imigrantes alemães e poloneses. O Partido Socialista promovia carnavais, piqueniques, corais e até escolas dominicais, conduzindo suas campanhas em inglês, alemão e polonês.
Durante a primeira metade do século XX, tanto na política quanto no beisebol, as classes menos favorecidas de Milwaukee frequentemente superaram as expectativas. Essas duas trajetórias estão entrelaçadas de maneiras que raramente são reconhecidas.
Em 1910, os eleitores de Milwaukee elegeram Berger para representar a cidade em Washington, tornando-o o primeiro congressista socialista do país. Ele perdeu seu mandato em 1912, mas foi eleito novamente em 1918 e, mais uma vez, em uma eleição suplementar realizada em 1919. Em ambas as ocasiões, a Câmara dos Representantes recusou-se a empossá-lo devido à sua oposição à Primeira Guerra Mundial. Ele retornou ao Congresso em 1922, cumpriu três mandatos e perdeu sua cadeira em 1928.
Berger apresentou projetos de lei que propunham pensões por velhice, a estatização do setor de radiodifusão, a abolição do trabalho infantil, autonomia administrativa para o Distrito de Colúmbia e um sistema de obras públicas para oferecer amparo aos desempregados. Ele também propôs resoluções para a retirada de tropas federais da fronteira com o México, a abolição do Senado (que, na época, ainda não era eleito diretamente pelos eleitores e era apelidado de “clube dos milionários”), o sufrágio feminino e a estatização das ferrovias.
Embora nenhuma das propostas de Berger tenha ganhado muita força no Congresso, seus correligionários em Milwaukee constituíam uma força dominante na vida cívica da cidade. Em 1912, cerca de 1.200 membros do Partido Socialista ocupavam cargos públicos em 340 cidades e municípios por todos os Estados Unidos, incluindo prefeitos socialistas em Schenectady e Berkeley; mais tarde, socialistas conquistariam a prefeitura de Minneapolis (1916) e de Reading (1927). Contudo, o sucesso mais duradouro dos socialistas ocorreu em Milwaukee. Entre 1910 e 1960, Milwaukee foi governada, por quase quarenta anos, por três prefeitos socialistas — Emil Seidel (1910–1912), Daniel Hoan (1916–1940) e Frank Zeidler (1948–1960) —, contando também com diversos representantes na câmara municipal e no conselho escolar.
“Os trabalhadores de nossa cidade são seu ativo mais valioso”, afirmou Seidel, entalhador e líder sindical, em seu discurso de posse. Durante seu mandato de dois anos, a cidade adotou a jornada de oito horas para os funcionários municipais e elevou o salário mínimo da categoria de US$ 1,75 para US$ 2,00 por dia. Em 1910, a cidade passou a adicionar cloro à água proveniente do lago, o que reduziu drasticamente a incidência de febre tifoide. Alguns anos mais tarde, após um grande surto de diarreia, a cidade parou de misturar esgoto bruto à água potável.
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| Prefeito de Milwaukee, Daniel Hoan, por volta de 1930 (San Francisco Examiner / CC BY 4.0) |
Enfrentando a oposição do setor empresarial de Milwaukee, Seidel perdeu a eleição de 1912. Naquele ano, ele foi o candidato a vice-presidente pelo Partido Socialista (SP), na chapa encabeçada por Debs. Eles obtiveram 6% dos votos em nível nacional, 8,4% em Wisconsin e 27% no Condado de Milwaukee.
Em 1916, os socialistas de Milwaukee protagonizaram um retorno expressivo, elegendo o procurador municipal Daniel Webster Hoan para o cargo. Hoan permaneceu como prefeito até 1940. Seus críticos, a princípio, ridicularizavam-nos chamando-os de “socialistas de esgoto” (sewer socialists), uma vez que o foco do grupo estava na resolução de problemas práticos, e não em ideias marxistas revolucionárias. Em 1936, a revista Time estampou Hoan em sua capa, elogiando Milwaukee como “uma das cidades mais bem administradas dos Estados Unidos”.
Os eleitores de Milwaukee continuaram reelegendo Hoan, pois ele conduzia administrações eficientes e humanizadas, demonstrando ser possível expandir os serviços públicos e, ao mesmo tempo, manter o equilíbrio das contas municipais. Os socialistas ampliaram a educação pública para os filhos da classe trabalhadora — incluindo a oferta de livros didáticos gratuitos, merenda escolar e programas de assistência odontológica e médica —, criaram um programa de educação para adultos voltado aos trabalhadores, expandiram as bibliotecas públicas e os parques infantis, e melhoraram os salários dos professores.
Em 1923, o socialista Charles Whitnall — que fora tesoureiro municipal e fundador do Commonwealth Mutual Savings Bank, voltado aos trabalhadores — elaborou um plano diretor para uma rede de belos parques. Ele também protegeu a orla de Milwaukee, às margens do Lago Michigan, contra o avanço imobiliário, garantindo que a classe trabalhadora tivesse acesso às praias e a outras áreas de lazer. Como resultado, Milwaukee passou a contar com o melhor sistema de parques municipais do país. Ainda em 1923, os socialistas construíram o Garden Homes, o primeiro projeto de habitação pública financiado por uma prefeitura nos Estados Unidos. Além disso, implementaram um sistema de ônibus públicos para substituir os bondes que circulavam pelo centro das vias, causando acidentes e ferindo pedestres.
Sob a gestão de Hoan, os socialistas adotaram regulamentações e inspeções rigorosas em fábricas e edifícios, contiveram a brutalidade policial contra trabalhadores em greve, melhoraram as condições de trabalho dos policiais de base e promoveram a criação de mercados públicos. Eles davam preferência a empresas que reconheciam sindicatos na contratação de serviços municipais, abrangendo desde trabalhos de impressão até o ferrageamento de cavalos. Hoan defendeu uma lei que permitia ao prefeito fechar qualquer fábrica caso o empregador se recusasse a negociar com os trabalhadores. Os socialistas obrigaram a empresa privada de bondes da cidade a pavimentar as vias, reduzir as tarifas, melhorar o serviço e pagar taxas ao município em contrapartida ao seu monopólio. Eles abriram uma pedreira municipal para fornecer brita para obras viárias, construíram um sistema de abastecimento de água público e criaram uma infraestrutura de saneamento pioneira.
Em 1925, a cidade construiu a estação de tratamento de água e esgoto de Jones Island — uma das primeiras instalações desse tipo, que permanece em operação até hoje. Desde o início, Milwaukee passou a reciclar o lodo resultante do tratamento de esgoto, transformando-o em "Milorganite" (abreviação de Milwaukee Organic Nitrogen), um fertilizante utilizado em parques, campos de golfe e gramados por todo o país. Atualmente, a estação é administrada pelo Milwaukee Metropolitan Sewerage District. A unidade comercializa cerca de 47 mil toneladas de Milorganite por ano, gerando uma receita anual superior a 12 milhões de dólares para a cidade — transformando o que seria um custo de gestão de resíduos em uma importante fonte de receita.
Os socialistas expandiram a educação pública para os filhos da classe trabalhadora da cidade, criaram um programa de educação para adultos voltado aos trabalhadores, ampliaram as bibliotecas públicas e os parques infantis, e melhoraram os salários dos professores.
Em 1932, os eleitores escolheram o advogado trabalhista socialista Max Raskin — tio-avô de Jamie Raskin, atualmente um congressista progressista de Maryland — para o cargo de procurador municipal. Aliado próximo de Hoan, Raskin foi atacado por um jornal conservador por se recusar a processar “agitadores comunistas” — termo usado para se referir a grevistas e manifestantes. Raskin exigiu que seus procuradores municipais adjuntos encerrassem qualquer atividade na advocacia privada, prática que, até então, servia como fonte de corrupção e conflitos de interesse.
Zeidler, o terceiro prefeito socialista, foi eleito em 1948. Era uma figura popular que compartilhava os valores progressistas de seus antecessores socialistas; contudo, àquela altura, o setor empresarial já havia conquistado maior influência. Um grande empregador, inclusive, chegou a ameaçar demitir funcionários que votassem em Zeidler.
Durante seus doze anos como prefeito, a cidade dobrou de tamanho geográfico ao incorporar áreas vizinhas. Em 1957, a revista Fortune classificou Milwaukee como uma das duas grandes cidades mais bem administradas do país. Durante seu mandato, a população negra de Milwaukee quase triplicou, atingindo 8% do total de habitantes em 1960. Entre outras medidas, Zeidler defendeu a construção de habitações públicas racialmente integradas. Seus adversários políticos tentaram usar seu firme apoio ao movimento pelos direitos civis contra ele, chegando a espalhar boatos falsos de que ele teria instalado outdoors no Sul do país incentivando afro-americanos a se mudarem para Milwaukee, a fim de aproveitar os programas sociais progressistas da cidade.
A ascensão do setor empresarial e o declínio de Milwaukee
Após a saída de Zeidler, a cidade foi governada por diversos prefeitos alinhados aos interesses empresariais. Esse período coincidiu com um declínio acentuado de Milwaukee a partir da década de 1960, fazendo com que a cidade caísse da 11ª para a 31ª posição entre as maiores do país. Sua população encolheu de 741 mil habitantes em 1960 para cerca de 562 mil atualmente — dos quais 23% vivem abaixo da linha da pobreza. Os bancos incentivaram a migração da população branca para os subúrbios ao adotar a prática de redlining (discriminação territorial) nos bairros de Milwaukee. Hoje, a região de Milwaukee é uma das mais segregadas racialmente em todo o país.
A economia de Milwaukee nunca se recuperou da drástica queda no número de empregos e na população. A A. O. Smith, gigante fabricante de aquecedores de água, caldeiras e chassis automotivos — fundada em 1874 —, ainda mantém sua sede global em Milwaukee; no entanto, suas unidades fabris estão localizadas hoje no sul dos Estados Unidos, bem como na China, no México, na Índia e na Turquia. Antigamente, cerca de oito mil funcionários sindicalizados trabalhavam em sua fábrica, situada na zona noroeste da cidade. Após permanecer abandonado por muitos anos, o local hoje abriga um parque industrial, mas o número de trabalhadores representa apenas uma pequena fração do antigo quadro de funcionários da A. O. Smith.
Milwaukee já foi o reduto de gigantes do setor cervejeiro, como Pabst, Schlitz (que se promovia com o slogan “a cerveja que tornou Milwaukee famosa”), Blatz e Miller. Em 1905, Milwaukee contava com 3.809 trabalhadores no setor cervejeiro, distribuídos por apenas oito grandes empresas. O auge ocorreu em 1953, quando a cidade reunia mais de 7.100 trabalhadores sindicalizados na indústria cervejeira. Atualmente, um conglomerado chamado Molson Coors domina o setor local, empregando cerca de 1.200 pessoas em Milwaukee, entre sua principal fábrica da Miller e seus escritórios corporativos. Embora existam diversas cervejarias artesanais espalhadas pela região, o volume de produção por trabalhador nelas é relativamente pequeno, se comparado ao das grandes fábricas que, no passado, tinham Milwaukee como base.
Bill Veeck, o proprietário radical no beisebol
A classe trabalhadora de Milwaukee abraçou tanto o beisebol quanto o socialismo. A cidade abrigava equipes de ligas menores, times patrocinados por empresas, além de agremiações semiprofissionais e amadoras. Milwaukee foi um verdadeiro celeiro de talentos, especialmente durante a primeira metade do século XX. Desde 1900, pelo menos sessenta e três nativos de Milwaukee atuaram nas ligas principais (a Major League Baseball), incluindo estrelas como Al Simmons (nascido Aloysius Szymanski) e Tony Kubek — ambos de ascendência polonesa —, bem como Ken Keltner e Harvey Kuenn — ambos oriundos de famílias de origem alemã pertencentes à classe trabalhadora. Outros duzentos jogadores que chegaram às ligas principais vieram de outras partes do estado de Wisconsin.
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| Bill Veeck, fotografado em 1944 enquanto se recuperava de ferimentos sofridos na Segunda Guerra Mundial (Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA). |
A partir de 1878, Milwaukee patrocinou diversas equipes nos primórdios do beisebol profissional; nenhuma delas durou mais do que alguns anos. Times chamados "Brewers" participaram da Western Association (1888–1891), da American Association (1891), da Western League (1892–1899) e da American League (1900–1901). A franquia de maior longevidade — ativa de 1902 a 1952 — foi a equipe dos Brewers na American Association, uma liga de nível inferior (minor league) de elite.
Os Brewers — assim como os Milwaukee Bears, da Negro National League (1923), e as Milwaukee Chicks, da All-American Girls Professional Baseball League (1944) — jogavam no peculiar Borchert Field, um estádio de madeira de propriedade privada situado na zona norte (North Side) da cidade. Construído em 1888 para acomodar cinco mil espectadores, o estádio teve sua capacidade ampliada para dezoito mil lugares após diversas expansões.
Ironicamente, Bill Veeck — a figura mais iconoclasta do beisebol, que na época tinha apenas 27 anos — comprou os Brewers em 1941. A equipe, que disputava uma liga de nível inferior, estava falida e ocupava a última colocação na tabela; a aquisição ocorreu um ano após a derrota de Hoan em sua tentativa de reeleição. Nascido em 1914, Veeck cresceu imerso no mundo do beisebol. Seu pai era um jornalista esportivo que acabou se tornando presidente do Chicago Cubs. Após a morte do pai, Veeck abandonou a faculdade e passou a realizar trabalhos diversos para os Cubs. Ele nutria uma admiração incomum — para um torcedor branco daquela época — pelos jogadores da Negro League.
A classe trabalhadora de Milwaukee abraçou tanto o beisebol quanto o socialismo.
Veeck reuniu um grupo de investidores para adquirir os Brewers, uma equipe em dificuldades que competia na American Association (nível Triple-A). Ele foi o último proprietário a comprar uma franquia de beisebol sem possuir uma fortuna pessoal independente. Durante as cinco temporadas em que esteve à frente dos Brewers, Veeck revolucionou o esporte.
Veeck era, ao mesmo tempo, um empresário astuto e um reformador radical. Ele votou em Norman Thomas — candidato presidencial de longa data pelo Partido Socialista — mesmo depois de Thomas ter falecido. “Prefiro votar em um homem morto que tenha classe do que em dois sujeitos vivos que não valem nada”, disse ele mais tarde.
Veeck adorava sentar nas arquibancadas e passar o tempo com os torcedores da classe trabalhadora. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele lotou o Borchert Field ao marcar os jogos dos Brewers para o período da manhã, permitindo que os operários que trabalhavam no turno da noite em fábricas ligadas ao esforço de guerra pudessem comparecer às partidas. Ele também servia café da manhã — flocos de milho — durante os jogos. Além disso, criou dias de entrada gratuita para taxistas e garçons.
Em Milwaukee, Veeck começou a distribuir prêmios promocionais — bonés, um barril de pregos, garrafas de refrigerante, pizza e até animais (perus, gansos, porcos, lagostas e coelhos) — para atrair torcedores ao estádio. Veeck modernizou e higienizou os banheiros do local, com o objetivo específico de tornar o estádio mais acolhedor para o público feminino — um segmento que, na época, era muito pouco atendido. No Dia das Mães, ele presenteava as torcedoras com orquídeas. Chegou até a realizar casamentos na base principal (home plate) do campo.
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| Satchel Paige em 1947 (ACME Newspictures) |
Jornalistas esportivos o apelidaram de “o [P. T.] Barnum do beisebol”. Mas ele não era apenas um homem de espetáculos. Apesar de contar com um orçamento extremamente limitado, ele levou os Brewers do último lugar, em 1941, à segunda colocação em 1942, seguidos por três títulos consecutivos da American Association entre 1943 e 1945; o público nos jogos dos Brewers quebrou recordes nas ligas menores. Veeck utilizou estratégias promocionais semelhantes quando comprou o Cleveland Indians, em 1946. Ele também foi proprietário do St. Louis Browns (1951–1953) e comprou o Chicago White Sox (1959–1961, 1975–1981).
Ao longo de sua vida, Veeck foi um fervoroso antirracista. Quando adquiriu os Brewers, ele herdou as instalações de treinamento de pré-temporada da equipe em Ocala, na Flórida. Durante uma partida, Veeck decidiu sentar-se na seção das arquibancadas destinada a pessoas negras. A polícia local apareceu, informou que ele não poderia estar ali e ordenou que se retirasse, ameaçando prendê-lo por violar as leis de segregação racial — conhecidas como leis “Jim Crow” — da Flórida. Ele avisou ao prefeito da cidade que, caso fosse preso, transferiria o lucrativo programa de treinamento de pré-temporada da equipe para fora de Ocala. Não o prenderam, mas, ainda assim, ele mudou os Brewers de local.
Em 1947, o Cleveland Indians, de Veeck, contratou Larry Doby, o primeiro jogador negro da American League. No ano seguinte, ele trouxe Satchel Paige — estrela das Negro Leagues, que na época tinha quarenta e dois anos — para se tornar o primeiro arremessador negro da liga. Aquela equipe conquistou a World Series de 1948. Veeck tornou-se membro da seção local da NAACP e apareceu, ao lado de Doby e Paige, em um cartaz criado para recrutar novos integrantes para a organização de direitos civis, que trazia a frase: “A NAACP joga a bola para você”. Quando era proprietário do White Sox, ele cancelou as reservas da equipe para o treinamento de primavera no hotel McAllister, em Miami, após o estabelecimento se recusar a hospedar jogadores negros, transferindo todo o time para outro hotel. Em 1970, ele testemunhou em um tribunal federal a favor de Curt Flood, jogador negro do Cardinals, que movia uma ação contra a Major League Baseball para anular a "cláusula de reserva" — uma espécie de servidão por contrato aplicada ao beisebol.
Veeck era, ao mesmo tempo, um empresário astuto e um reformador radical. Ele chegou a votar no candidato presidencial do Partido Socialista, Norman Thomas, mesmo depois de o candidato já ter falecido.
Veeck também manifestava suas convicções socialistas no que diz respeito ao aspecto comercial do beisebol. Em reuniões com outros proprietários e em declarações públicas, ele defendia que as equipes ricas, situadas em grandes mercados, deveriam compartilhar suas receitas com times de mercados menores, a fim de equilibrar as condições de disputa e promover um equilíbrio competitivo. Ele argumentava que, quando seu modesto St. Louis Browns enfrentava o próspero New York Yankees, sua equipe tinha direito a 50% da receita que os Yankees obtinham com transmissões televisivas locais, observando: "Nós somos metade do espetáculo. Eles não conseguem realizar a partida sem nós".
Os demais proprietários detestavam Veeck e suas ideias. Tom Yawkey, dono do Boston Red Sox, chegou a chamar Veeck de "aquele maldito socialista".
A corporativização chega ao Beisebol
Depois que Veeck vendeu os Brewers, a equipe permaneceu em Milwaukee como uma franquia de liga menor. No final da década de 1940, o Greater Milwaukee Committee — um grupo com apoio corporativo — pressionou pela construção de um novo estádio financiado com recursos públicos, tendo como objetivo explícito atrair uma franquia da liga principal para a cidade. O plano apresentava certos elementos que remetiam ao foco dos socialistas em obras públicas e infraestrutura de lazer, mas, na prática, não visava, de forma alguma, atender à classe trabalhadora da cidade.
O County Stadium foi inaugurado em abril de 1953, tornando-se o primeiro grande estádio de beisebol nos Estados Unidos financiado inteiramente com verbas públicas. O novo estádio atraiu os Boston Braves para Milwaukee. Em 1952, os Brewers — então na liga menor — haviam levado 195.839 torcedores ao Borchert Field. Na temporada seguinte, os Braves atraíram 1,8 milhão de torcedores ao County Stadium. Para aumentar a receita, o estádio também passou a ser utilizado para partidas de futebol americano do Green Bay Packers, cerimônias religiosas, shows, patinação no gelo e outros eventos de grande porte.
Ao longo de sua vida, Veeck foi um fervoroso antirracista.
Em 1957, os Braves, que contavam com estrelas como Hank Aaron, Warren Spahn e Eddie Mathews, conquistaram o título da Liga Nacional e derrotaram os Yankees na World Series. Naquela temporada, o público no County Stadium atingiu 2,2 milhões de pessoas — o maior número entre as dezesseis equipes da liga principal. Na temporada seguinte, os Braves enfrentaram os Yankees novamente na World Series, mas perderam quatro das sete partidas disputadas.
O desempenho da equipe em campo e o público presente nos estádios entraram em declínio constante a partir de então. Em 1965, apenas 555.584 torcedores compareceram aos jogos, enquanto os Braves caíram para a quinta colocação na Liga Nacional e Milwaukee sofria com a perda de empregos e a redução de sua população. No ano seguinte, a equipe mudou-se para Atlanta.
Em 1970, como parte da expansão da MLB, o concessionário de automóveis Bud Selig reuniu um grupo de investidores e convenceu os demais proprietários a aprovar a criação de uma nova equipe da liga principal em Milwaukee. Ele adquiriu os Seattle Pilots — que estavam falidos —, transferiu a franquia para Milwaukee e batizou o novo time de Brewers, em homenagem à equipe das ligas menores que ele costumava assistir durante sua juventude.
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| O Milwaukee Braves joga no County Stadium em setembro de 1960. (Robert Jahnke / CC BY 2.0) |
A partir do final da década de 1980, Selig ameaçou levar a equipe para fora de Milwaukee caso o governo estadual não construísse um estádio moderno com teto retrátil. Ele argumentava que o antigo County Stadium não conseguia gerar a receita necessária para manter a equipe competitiva — como, por exemplo, por meio da venda de camarotes de luxo. Em 1995, com o apoio de líderes empresariais locais, os políticos atenderam ao pedido, instituindo um imposto regional sobre vendas de 0,1% em cinco condados de Wisconsin, além de destinar verbas do estado, do condado e da cidade.
Assim como seu antecessor, o novo estádio foi construído com recursos públicos. Embora líderes empresariais e cívicos o chamassem de "parceria público-privada", tratava-se, na verdade, de uma forma de "capitalismo de compadrio". Os contribuintes pagaram pelo estádio, mas, conforme os termos do contrato de locação, não tinham direito a uma parcela dos lucros dos Brewers. O setor público desembolsou US$ 609 milhões para cobrir os custos de construção, os juros de empréstimos e a manutenção. A Lynde and Harry Bradley Foundation, sediada em Milwaukee e conhecida por suas atividades filantrópicas alinhadas à direita, concedeu um empréstimo de US$ 20 milhões.
A contribuição dos Brewers foi inferior a US$ 40 milhões — montante proveniente, quase em sua totalidade, da Miller Brewing Company, que pagou esse valor à equipe pelos direitos de nome (naming rights). Como resultado, o estádio foi batizado de Miller Park, nome que manteve desde sua inauguração, em 2001, até o fim da temporada de 2020. Apesar de terem investido uma quantia tão pequena no estádio, os Brewers detêm 36% da instalação, enquanto o restante pertence ao Southeast Wisconsin Professional Baseball Park District, um órgão criado pelo estado.
Em 1998, os demais proprietários da liga nomearam Selig como comissário da Major League Baseball; ele, então, transferiu sua participação financeira na equipe para um fundo fiduciário administrado por sua filha, Wendy. Em 2005, a família vendeu os Brewers para o investidor de Los Angeles, Mark Attanasio, que permanece como proprietário da equipe até hoje.
Atualmente, 22 estádios da Major League Baseball possuem contratos de direitos de nome (naming rights) com empresas. Em 2020, os Brewers alteraram o nome de seu estádio, substituindo a referência a uma empresa cervejeira pela de uma companhia de seguros. A American Family Insurance — que ocupa a 226ª posição na lista Fortune 500 e registra uma receita de US$ 19,6 bilhões — firmou um contrato de quinze anos, comprometendo-se a pagar cerca de US$ 4 milhões anuais para que o estádio passasse a se chamar American Family Field.
Os primeiros socialistas de Milwaukee certamente ficariam indignados ao saber que, embora o estádio seja um bem público, os Brewers controlam os patrocínios corporativos e os direitos de nomeação do local. Além disso, a equipe tem utilizado sua influência política para barrar iniciativas legislativas que visariam dividir, de forma equitativa, as receitas de patrocínio entre o time e o Estado. Se os socialistas ainda estivessem no comando da cidade, ou se Bill Veeck ainda fosse o proprietário da equipe, é possível que os Brewers estivessem jogando no Victor Berger Field ou no Daniel Hoan Stadium.
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| Miller Park, hoje American Family Field, em 2005 (Jeramey Jannene / CC BY 2.0) |
Em 2023, os Brewers convenceram os legisladores de Wisconsin a subsidiar reformas no American Family Field por um valor de cerca de 500 milhões de dólares. Ryan Clancy, membro da organização Democratic Socialists of America (DSA) — que atua na Legislatura do Estado de Wisconsin e foi, anteriormente, membro do Conselho de Supervisores do Condado de Milwaukee —, posicionou-se firmemente contra o uso de verbas públicas para reformas de estádios, classificando a prática como “socialismo corporativo” ou “assistencialismo para empresas”. Clancy defende que a arrecadação de impostos deveria ser direcionada a serviços locais, como transporte público, parques, segurança pública e habitação, em vez de subsidiar a equipe de Attanasio.
Attanasio pagou 223 milhões de dólares para adquirir os Brewers em 2005; em 2016, a franquia já estava avaliada em 875 milhões de dólares. Hoje, segundo a Forbes, a equipe vale 1,9 bilhão de dólares.
O beisebol tornou-se um empreendimento totalmente corporativo desde a época de Bill Veeck. Veeck dedicou toda a sua carreira ao beisebol e viveu, durante quase todo esse tempo, em dificuldades financeiras. Em contrapartida, Attanasio, o atual proprietário dos Brewers, construiu sua fortuna inicial na empresa de private equity Crescent Capital Group. Ele não apenas é dono dos Brewers, como também é o acionista majoritário do clube de futebol inglês Norwich City e coproprietário do Milwaukee Admirals, equipe da American Hockey League. Além disso, integra o conselho de administração do LA28, comitê responsável pelo planejamento dos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles. Embora não possa ser considerado progressista — e muito menos socialista —, ele é um dos poucos proprietários de equipes de beisebol que destina suas contribuições, majoritariamente, a candidatos do Partido Democrata.
Os primeiros socialistas de Milwaukee certamente ficariam indignados com o fato de que, embora o estádio seja de propriedade pública, os Brewers controlam os patrocínios corporativos e os direitos de nomeação do estádio.
Embora possua um patrimônio líquido de US$ 1,9 bilhão, Attanasio está entre os menos ricos dos trinta proprietários de equipes da MLB. O mais rico é Steve Cohen, dono dos Mets e magnata de fundos de hedge de Wall Street, com um patrimônio líquido de US$ 22 bilhões. Em segundo lugar está Edward Rogers III, proprietário do Toronto Blue Jays, com uma fortuna de US$ 11 bilhões, segundo a Forbes. Ele herdou o império de telecomunicações e mídia fundado por seu pai, que inclui a Rogers Wireless, a Rogers Cable (a maior operadora de TV a cabo do Canadá), quarenta e seis estações de rádio, setenta revistas — voltadas tanto ao público geral quanto a setores específicos — e os Blue Jays.
Mark Walter, o maior acionista dos Dodgers, ocupa a terceira posição, com um patrimônio líquido estimado entre US$ 7 bilhões e US$ 13 bilhões. Walter é cofundador e CEO do conglomerado financeiro Guggenheim Partners. No ano passado, ele adquiriu uma participação majoritária na equipe de basquete Los Angeles Lakers e, apenas quatorze meses depois, vendeu-a para o ex-CEO da Disney, Bob Iger, e para o fundador da Thrive Capital, Joshua Kushner (irmão mais novo de Jared), por um valor de mercado de US$ 12,5 bilhões — US$ 2,5 bilhões a mais do que a avaliação da equipe na época em que ele a comprou. Walter também é coproprietário do Los Angeles Sparks, da WNBA, e um grande investidor no clube de futebol inglês Chelsea.
Os Brewers conquistaram seu primeiro título de liga (pennant) apenas em 1982, quando ainda integravam a Liga Americana, perdendo a World Series para o St. Louis Cardinals em uma série de sete jogos. A equipe passou para a Liga Nacional em 1998. Este ano, o time finalmente conquistou outro título de liga, liderando a MLB com 103 vitórias.
Uma abordagem inesperada
Debates sobre o socialismo estão agitando tanto o beisebol quanto a política. Por volta de 1993, as disparidades de receita e de folha salarial na MLB (Major League Baseball) tornaram-se insustentáveis. As franquias de mercados menores tinham dificuldade em acompanhar a escalada dos salários dos jogadores nos mercados maiores: a receita dos Yankees com televisão e rádio era de 47 milhões de dólares, enquanto a dos Brewers era de apenas 5,5 milhões de dólares.
Foi somente na década de 1990 — após uma greve da Associação de Jogadores da Major League Baseball (MLBPA) — que os magnatas do beisebol adotaram uma versão do plano de compartilhamento de receitas proposto décadas antes por Bill Veeck (embora sem lhe dar o devido crédito). O proprietário dos Yankees, George Steinbrenner, foi um dos que resistiram ferozmente a qualquer proposta de redistribuição de receitas. “Sou um cara caridoso”, disse ele. “Mas não gosto da ideia de um Estado socialista. Os Yankees não deveriam ser punidos pelo seu sucesso.”
Em janeiro de 1994, os proprietários aprovaram um plano para reunir receitas provenientes de transmissões locais e da venda de ingressos, visando auxiliar os clubes de mercados menores. Contudo, condicionaram esse plano à aceitação, por parte do sindicato dos jogadores, de um teto salarial. A MLBPA rejeitou o acordo, interpretando-o como uma forma de conter os ganhos dos atletas e restringir o mercado de agentes livres. Os proprietários, por sua vez, recusaram a contraproposta do sindicato, que incluía uma “taxa de luxo” para as dezesseis equipes com as maiores folhas salariais, além da destinação de 25% de toda a receita com a venda de ingressos para um fundo a ser compartilhado com as equipes de menores folhas salariais.
O impasse resultou em uma greve de 232 dias, que levou ao cancelamento da World Series de 1994. O conflito só terminou em 1995, quando a juíza federal Sonia Sotomayor (atualmente juíza da Suprema Corte dos EUA) emitiu uma liminar contra os proprietários.
O acordo coletivo de trabalho, finalizado em 1997, desvinculou o compartilhamento de receitas da ideia de um teto salarial. Sob esse acordo histórico, clubes ricos e de grandes mercados transferiam uma parte de suas receitas locais para equipes de mercados menores; além disso, foi estabelecido um "imposto de luxo" para as equipes que gastavam valores elevados, visando financiar um fundo de compartilhamento de receitas destinado a equilibrar a disputa.
Apesar dessas reformas, ainda existe uma grande disparidade em termos de receita e folha salarial entre as trinta equipes. Tanto a NFL quanto a NBA adotam fórmulas muito mais progressivas para promover o equilíbrio competitivo. As regras da MLB não obrigam as equipes a investir suas receitas adicionais na folha salarial. Em média, os times destinam cerca de metade de sua receita total aos salários, mas a variação é drástica. Os Mets, por exemplo, alocam cerca de 90% de sua receita para os salários dos jogadores, enquanto os Marlins gastam apenas 26% de sua receita de US$ 317 milhões com a folha salarial.
Torcedores de alguns mercados menores acusam suas equipes de tratar o compartilhamento de receitas como uma fonte de lucro, em vez de utilizá-lo para promover o equilíbrio competitivo. Entre as equipes de mercados menores, os Brewers são os que mais investem, destinando 41% de sua receita aos salários dos atletas. Contudo, essas equipes têm dificuldade em manter seus melhores jogadores, pois não conseguem igualar as ofertas salariais feitas pelos clubes mais ricos. Os jogadores mais valorizados não vão atuar em Milwaukee, Pittsburgh, Miami ou Tampa Bay.
Atualmente, os proprietários das equipes de beisebol e o sindicato dos jogadores estão em meio a negociações para o próximo acordo coletivo de trabalho. Sob a gestão do atual comissário Rob Manfred, os proprietários estão mais inflexíveis do que nunca quanto à necessidade de o sindicato aceitar um teto salarial. Observadores atentos acreditam que esse impasse pode levar os proprietários a decretar um lockout (paralisação das atividades).
Muitos torcedores veem os conflitos trabalhistas no beisebol como uma disputa entre bilionários e milionários. Vinte e sete dos trinta proprietários de equipes da liga são bilionários. Apenas Dick Monfort, proprietário do Colorado Rockies (com uma fortuna de "apenas" US$ 700 milhões), Bruce Sherman, do Miami Marlins (US$ 500 milhões), e Bob Castellini, do Cincinnati Reds (US$ 400 milhões), situam-se abaixo desse patamar.
Por outro lado, graças ao sindicato dos jogadores e ao fim da "cláusula de reserva" na década de 1970, os salários e as condições de trabalho dos atletas melhoraram de forma expressiva. O salário médio dos jogadores é de US$ 5,34 milhões, mas esse valor é fortemente distorcido por um pequeno número de estrelas com contratos vultosos. A mediana salarial — US$ 1,4 milhão — oferece um panorama mais realista. Contudo, até mesmo esse número pode ser enganoso, já que a duração típica de uma carreira na liga principal é de apenas cinco anos. A maioria dos jogadores é milionária apenas por um curto período.
“Os trabalhadores da cervejaria de Milwaukee eram socialistas”, explicou Brower. ‘Então os Milwaukee Brewers não deveriam refletir esse legado?’
O público nos jogos da liga principal nesta temporada atingiu 71,7 milhões de pessoas, um número próximo ao recorde histórico. As trinta equipes geraram US$ 12 bilhões em receita este ano, o segundo maior valor na história do esporte. O custo médio para uma família de quatro pessoas assistir a uma partida da liga principal varia de US$ 159, no caso do Miami Marlins, a US$ 413, no Dodger Stadium, em Los Angeles. Na maioria dos estádios da liga principal, os trabalhadores responsáveis pela limpeza, pela venda de alimentos e outros produtos, e pela operação dos estacionamentos são sindicalizados — vinculados ao UNITE HERE ou ao SEIU —, mas, como se tratam de empregos sazonais, muitos desses funcionários têm dificuldade para arcar com suas despesas básicas. Os proprietários das equipes de beisebol teriam condições de reduzir os preços dos ingressos, do estacionamento e dos produtos vendidos nos estádios, além de melhorar os salários dos funcionários, sem que isso exigisse a imposição de um limite aos salários dos jogadores.
O custo para assistir a jogos de beisebol faz parte da crise de acessibilidade financeira que o país enfrenta — um sintoma, por sua vez, do aumento das disparidades de riqueza e renda. Esse é um dos motivos pelos quais o socialismo vem ganhando força. Pesquisas indicam um apoio crescente ao socialismo em detrimento do capitalismo, ao mesmo tempo em que o número de socialistas eleitos para cargos públicos dispara. O número de membros da DSA (Democratic Socialists of America) ultrapassou 120 mil este ano, um crescimento expressivo em apenas uma década.
Essas tendências refletem-se em Milwaukee. O núcleo local da DSA cresceu de 350 membros em 2025 para cerca de mil atualmente. (Madison, a capital do estado e sede da Universidade de Wisconsin, conta com um número semelhante de membros.) Esse aumento expressivo no número de integrantes em todo o estado permitiu que Francesca Hong — uma dos quatro membros da DSA na legislatura estadual — quase conquistasse a nomeação do Partido Democrata para o cargo de governadora este ano.
Alex Brower, membro da DSA de 39 anos e ex-organizador sindical, foi eleito para a Câmara Municipal de Milwaukee em 2025. Ele cresceu em Wisconsin e é um torcedor fervoroso dos Brewers. Ele está entusiasmado com o fato de sua equipe disputar a atual World Series. Mas ele também vê a Major League Baseball como um grande negócio que se preocupa mais com seus lucros do que com a vida de seus clientes (os torcedores) ou de seus funcionários, que pertencem à classe trabalhadora.
O núcleo da DSA (Democratic Socialists of America) em Milwaukee tem conduzido campanhas para municipalizar a concessionária de serviços públicos privada da cidade, restringir as ações repressivas do órgão de imigração (ICE), proteger inquilinos de proprietários de imóveis sem escrúpulos e apoiar os esforços de sindicalização dos trabalhadores. Brower gostaria, futuramente, de ver a DSA e seus aliados organizarem uma campanha para colocar os Brewers sob controle público ou comunitário — um modelo semelhante ao que rege o Green Bay Packers, equipe da mesma região.
Embora o American Family Field pertença a um órgão governamental, “os Brewers ficam com todos os benefícios, enquanto a comunidade não recebe nada”, afirmou Brower. Ele ressaltou que o código postal 53206, situado a poucos quilômetros do estádio, é uma das áreas mais pobres do estado. “Os produtos dos Brewers vendem que nem pão quente”, disse ele, ao passo que alguns dos moradores mais pobres de Milwaukee pagam impostos sobre o consumo para financiar e realizar melhorias no estádio. “O restante de nós acaba arcando com a conta — o que inclui pagar pelos policiais que controlam o trânsito nos dias de jogo, além de arcar com o desgaste das vias públicas.”
“Os trabalhadores das cervejarias de Milwaukee eram socialistas”, explicou Brower. “Então, será que os Milwaukee Brewers não deveriam refletir esse legado?”
Daniel Hoan não poderia ter dito melhor.
Colaborador
Peter Dreier leciona política no Occidental College e é coautor, com Robert Elias, de Baseball Rebels: The Players, People, and Social Movements That Shook Up the Game and Changed America e Major League Rebels: Baseball Battles Over Workers’ Rights and American Empire.



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