Kap Seol
Os sul-coreanos costumam rememorar as tragédias de sua história moderna por meio de datas. A Guerra da Coreia é conhecida como "6.25" (referência a 25 de junho de 1950, dia em que eclodiu); o Levante de Gwangju é "5.18" (18 de maio de 1980, quando teve início uma revolta popular de dez dias, antes de ser sufocada em sangue pelos militares).
Esse tipo de abreviação numérica existe em outras partes do Leste Asiático — "6.4" para o massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989 e "3.11" para o Grande Terremoto do Leste do Japão em 2011 —, mas em nenhum lugar ela está tão profundamente enraizada na memória coletiva quanto na Coreia do Sul.
Cada par de dígitos separado por um ponto sintetiza — e até oculta — a memória de mortes em massa e a história por trás delas. Cerca de três milhões de civis foram mortos na guerra que os sul-coreanos chamam de "6.25". O número de civis abatidos por balas do governo em Gwangju ou na Praça da Paz Celestial permanece objeto de disputa, enquanto o impacto total da radiação de Fukushima pode levar muitas outras décadas para ser conhecido.
Para muitos sul-coreanos, "4.3" é mais uma dessas memórias numéricas — a mais antiga de todas, anterior e sobrevivente tanto ao "6.25" quanto à própria fundação da república. A data refere-se a 3 de abril de 1948, momento em que protestos na ilha de Jeju desencadearam uma campanha de contrainsurgência de brutalidade e rapidez extraordinárias. Ao longo dos seis anos seguintes, entre 25.000 e 30.000 civis foram mortos — um em cada dez habitantes da ilha. A maior e mais bela ilha da Coreia do Sul foi, no sentido exato e original da palavra, dizimada.
Hallan
Cada par de dígitos separado por um ponto sintetiza — e até oculta — a memória de mortes em massa e a história por trás delas. Cerca de três milhões de civis foram mortos na guerra que os sul-coreanos chamam de "6.25". O número de civis abatidos por balas do governo em Gwangju ou na Praça da Paz Celestial permanece objeto de disputa, enquanto o impacto total da radiação de Fukushima pode levar muitas outras décadas para ser conhecido.
Para muitos sul-coreanos, "4.3" é mais uma dessas memórias numéricas — a mais antiga de todas, anterior e sobrevivente tanto ao "6.25" quanto à própria fundação da república. A data refere-se a 3 de abril de 1948, momento em que protestos na ilha de Jeju desencadearam uma campanha de contrainsurgência de brutalidade e rapidez extraordinárias. Ao longo dos seis anos seguintes, entre 25.000 e 30.000 civis foram mortos — um em cada dez habitantes da ilha. A maior e mais bela ilha da Coreia do Sul foi, no sentido exato e original da palavra, dizimada.
Hallan
Durante mais de quatro décadas de ditadura, da década de 1950 até o final da década de 1980, o massacre permaneceu praticamente desconhecido no continente sul-coreano. Todos os anos, uma nova leva de recém-casados e turistas desembarcava no aeroporto de Jeju — construído sobre uma vala comum de vítimas — para desfrutar de uma ilha subtropical de paisagens deslumbrantes, onde a neve do inverno ainda cobre as palmeiras. Somente após a restauração da democracia, na década de 1990, as valas comuns foram escavadas e uma investigação oficial foi iniciada.
Somente após a restauração da democracia, na década de 1990, as valas comuns foram escavadas e uma investigação oficial foi iniciada.
O massacre de 3 de abril (conhecido como "4.3") ganhou a atenção de um público mais amplo de língua inglesa no início de 2025, quando a obra We Do Not Part, de Han Kang, foi publicada em inglês logo após ela receber o Prêmio Nobel de Literatura. Han é uma cronista da dor, capaz de lançar luz sobre as dimensões universais de traumas pessoais enraizados na história, por meio do sofrimento de protagonistas individuais. Quase invariavelmente, sua obra retrata a angústia individual impregnada pelas repercussões da violência histórica — desde o massacre de 3 de abril em We Do Not Part e a Revolta de Gwangju em Human Acts até os ecos mais indiretos da Guerra do Vietnã em The Vegetarian.
Hallan, um filme independente coreano que estreou nos EUA no Festival de Cinema Asiático de Nova York no mês passado, é uma inversão cinematográfica de We Do Not Part. O romance de Han mantém o massacre a uma distância documental, por meio de uma vida inteira de registros e recortes de jornal de uma sobrevivente, descobertos pela geração seguinte. O filme situa-se no interior do próprio evento, acompanhando uma mãe e sua filha de seis anos que fogem das matanças. A mãe da protagonista de Han registrou o que havia vivenciado, na esperança de que isso algum dia viesse à tona. O filme mostra aquilo que havia para ser lembrado, antes que a memória encontrasse um lugar para habitar. Situada na ilha de Jeju em 1948 — o segundo ano de um massacre que duraria seis anos e ocorreria apenas três anos após a libertação do domínio colonial japonês —, a obra Hallan não confere autoridade moral a nenhum dos lados armados: nem às guerrilhas de esquerda que se refugiaram nas áreas remotas do Monte Halla, nem à força policial coreana que as caçava — contando com treinamento e assessoria dos EUA e superando amplamente os oponentes em poder de fogo e efetivo.
Assim como muitos outros habitantes da ilha, a protagonista A-jin e sua filha Haeseng viram-se em meio a protestos espontâneos — motivados por dificuldades econômicas e permeados por aspirações de soberania nacional — que foram reprimidos com violência letal antes de evoluírem para um conflito fratricida e, por fim, para um massacre. À medida que a situação se desenrolava, ela se distanciava cada vez mais da população, tornando-se, ao mesmo tempo, cada vez mais letal para ela.
Greve Geral
Hallan, um filme independente coreano que estreou nos EUA no Festival de Cinema Asiático de Nova York no mês passado, é uma inversão cinematográfica de We Do Not Part. O romance de Han mantém o massacre a uma distância documental, por meio de uma vida inteira de registros e recortes de jornal de uma sobrevivente, descobertos pela geração seguinte. O filme situa-se no interior do próprio evento, acompanhando uma mãe e sua filha de seis anos que fogem das matanças. A mãe da protagonista de Han registrou o que havia vivenciado, na esperança de que isso algum dia viesse à tona. O filme mostra aquilo que havia para ser lembrado, antes que a memória encontrasse um lugar para habitar. Situada na ilha de Jeju em 1948 — o segundo ano de um massacre que duraria seis anos e ocorreria apenas três anos após a libertação do domínio colonial japonês —, a obra Hallan não confere autoridade moral a nenhum dos lados armados: nem às guerrilhas de esquerda que se refugiaram nas áreas remotas do Monte Halla, nem à força policial coreana que as caçava — contando com treinamento e assessoria dos EUA e superando amplamente os oponentes em poder de fogo e efetivo.
Assim como muitos outros habitantes da ilha, a protagonista A-jin e sua filha Haeseng viram-se em meio a protestos espontâneos — motivados por dificuldades econômicas e permeados por aspirações de soberania nacional — que foram reprimidos com violência letal antes de evoluírem para um conflito fratricida e, por fim, para um massacre. À medida que a situação se desenrolava, ela se distanciava cada vez mais da população, tornando-se, ao mesmo tempo, cada vez mais letal para ela.
Greve Geral
Em agosto de 1945, os coreanos vivenciaram tanto a sua libertação quanto a sua divisão no mesmo mês. Eles ansiavam por um Estado independente e soberano. Em vez disso, os Estados Unidos e a União Soviética dividiram a península em duas partes ao repartirem o mundo do pós-guerra.
As respectivas forças armadas desses países governaram o território que viria a ser a Coreia do Norte e a Coreia do Sul durante três anos, antes de instalarem no poder os seus respectivos protegidos: no Norte, Kim Il-Sung, um líder guerrilheiro antijaponês que não participou da Segunda Guerra Mundial após fugir do teatro de operações da Manchúria para a Rússia Soviética; no Sul, Syngman Rhee, um veterano defensor da independência e presbiteriano que havia se refugiado nos Estados Unidos.
As respectivas forças armadas desses países governaram o território que viria a ser a Coreia do Norte e a Coreia do Sul durante três anos, antes de instalarem no poder os seus respectivos protegidos: no Norte, Kim Il-Sung, um líder guerrilheiro antijaponês que não participou da Segunda Guerra Mundial após fugir do teatro de operações da Manchúria para a Rússia Soviética; no Sul, Syngman Rhee, um veterano defensor da independência e presbiteriano que havia se refugiado nos Estados Unidos.
No Sul, a vida dos trabalhadores deteriorou-se em muitos aspectos, tornando-se, em alguns casos, ainda mais difícil do que nos tempos coloniais.
No Sul, as condições de vida dos trabalhadores deterioraram-se em muitos aspectos, tornando-se, em alguns casos, ainda mais difíceis do que no período colonial. A má gestão econômica por parte do governo militar dos EUA fez disparar os preços do arroz, ao mesmo tempo que o retorno de dezenas de milhares de coreanos do exterior sobrecarregava um mercado de trabalho já fragilizado.
Os Comitês Populares — órgãos autônomos que haviam surgido em todo o país para preencher o vácuo administrativo deixado pela retirada japonesa — entraram em conflito com o governo militar dos EUA. Em vez de desmantelar o Estado colonial, as autoridades de ocupação aproveitaram em grande parte o seu aparato administrativo, mantendo nos cargos os mesmos burocratas e policiais coreanos que haviam servido sob o domínio japonês.
Na ilha de Jeju, esse descontentamento culminou em protestos em massa em 1º de março de 1947, data que marcava o aniversário da campanha nacional contra o domínio japonês ocorrida em 1919. Durante a manifestação, um policial montado atropelou uma criança, o que inflamou ainda mais os manifestantes. A polícia então abriu fogo contra a multidão, matando seis civis.
Menos de duas semanas depois, em 10 de março, grande parte da ilha paralisou suas atividades quando os trabalhadores deflagraram uma greve geral, à qual aderiram até mesmo policiais locais e funcionários públicos de baixo escalão. O governo militar dos EUA reprimiu rapidamente a greve, trazendo funcionários do continente para substituir grande parte da burocracia da ilha e mobilizando tropas policiais e de segurança adicionais. Recorreu também a organizações juvenis de extrema-direita vindas do continente para aterrorizar os habitantes da ilha.
Pegando em armas
No Sul, as condições de vida dos trabalhadores deterioraram-se em muitos aspectos, tornando-se, em alguns casos, ainda mais difíceis do que no período colonial. A má gestão econômica por parte do governo militar dos EUA fez disparar os preços do arroz, ao mesmo tempo que o retorno de dezenas de milhares de coreanos do exterior sobrecarregava um mercado de trabalho já fragilizado.
Os Comitês Populares — órgãos autônomos que haviam surgido em todo o país para preencher o vácuo administrativo deixado pela retirada japonesa — entraram em conflito com o governo militar dos EUA. Em vez de desmantelar o Estado colonial, as autoridades de ocupação aproveitaram em grande parte o seu aparato administrativo, mantendo nos cargos os mesmos burocratas e policiais coreanos que haviam servido sob o domínio japonês.
Na ilha de Jeju, esse descontentamento culminou em protestos em massa em 1º de março de 1947, data que marcava o aniversário da campanha nacional contra o domínio japonês ocorrida em 1919. Durante a manifestação, um policial montado atropelou uma criança, o que inflamou ainda mais os manifestantes. A polícia então abriu fogo contra a multidão, matando seis civis.
Menos de duas semanas depois, em 10 de março, grande parte da ilha paralisou suas atividades quando os trabalhadores deflagraram uma greve geral, à qual aderiram até mesmo policiais locais e funcionários públicos de baixo escalão. O governo militar dos EUA reprimiu rapidamente a greve, trazendo funcionários do continente para substituir grande parte da burocracia da ilha e mobilizando tropas policiais e de segurança adicionais. Recorreu também a organizações juvenis de extrema-direita vindas do continente para aterrorizar os habitantes da ilha.
Pegando em armas
Em abril de 1948, os comunistas da ilha passaram a acreditar que o momento era propício para um levante armado. Pode ter sido uma decisão precipitada. A greve geral havia terminado em derrota, e grande parte de sua rede clandestina fora destruída no processo.
Em abril de 1948, os comunistas da ilha passaram a acreditar que o momento era propício para um levante armado.
No entanto, eles acreditavam que as condições, tanto em Jeju quanto em toda a península, haviam se tornado críticas o suficiente para justificar o recurso às armas. Reacionários de extrema-direita aterrorizavam a ilha, e uma eleição marcada para o mês seguinte ameaçava estabelecer um Estado sul-coreano separado, transformando o que fora prometido como uma divisão apenas temporária em uma permanente.
Em 3 de abril de 1948, cerca de 350 guerrilheiros comunistas se levantaram, atacando doze delegacias de polícia e os quartéis de grupos de extrema-direita vindos do continente. O combate sangrento escalou para um ciclo vicioso de retaliação brutal, com a violência assumindo cada vez mais a forma de vingança pessoal. Embora as forças estatais e as milícias de extrema-direita tenham sido responsáveis pela esmagadora maioria dos atos de violência, guerrilheiros de esquerda também cometeram atrocidades, incluindo o assassinato de famílias de policiais e soldados — cujos parentes e camaradas frequentemente respondiam com ataques de retaliação contra as famílias dos guerrilheiros.
Contudo, a insurgência poderia ter terminado em um estágio inicial. Durante o mês de maio, cerca de dez dias antes das eleições nacionais, o governo militar dos EUA e o grupo guerrilheiro iniciaram um diálogo sobre um possível cessar-fogo. No entanto, terroristas de extrema-direita incendiaram uma aldeia e culparam os guerrilheiros pelo fogo, a fim de inviabilizar as negociações.
Em resposta, o governo militar dos EUA realizou uma operação de varredura em larga escala contra os insurgentes, que revidaram na mesma moeda. Por meio de uma combinação de coerção e persuasão, os guerrilheiros forçaram milhares de moradores a deixar suas aldeias e se refugiar nas profundezas do Monte Halla, conseguindo assim impedir a realização das eleições em Jeju.
Esvaziando o mar
Em 3 de abril de 1948, cerca de 350 guerrilheiros comunistas se levantaram, atacando doze delegacias de polícia e os quartéis de grupos de extrema-direita vindos do continente. O combate sangrento escalou para um ciclo vicioso de retaliação brutal, com a violência assumindo cada vez mais a forma de vingança pessoal. Embora as forças estatais e as milícias de extrema-direita tenham sido responsáveis pela esmagadora maioria dos atos de violência, guerrilheiros de esquerda também cometeram atrocidades, incluindo o assassinato de famílias de policiais e soldados — cujos parentes e camaradas frequentemente respondiam com ataques de retaliação contra as famílias dos guerrilheiros.
Contudo, a insurgência poderia ter terminado em um estágio inicial. Durante o mês de maio, cerca de dez dias antes das eleições nacionais, o governo militar dos EUA e o grupo guerrilheiro iniciaram um diálogo sobre um possível cessar-fogo. No entanto, terroristas de extrema-direita incendiaram uma aldeia e culparam os guerrilheiros pelo fogo, a fim de inviabilizar as negociações.
Em resposta, o governo militar dos EUA realizou uma operação de varredura em larga escala contra os insurgentes, que revidaram na mesma moeda. Por meio de uma combinação de coerção e persuasão, os guerrilheiros forçaram milhares de moradores a deixar suas aldeias e se refugiar nas profundezas do Monte Halla, conseguindo assim impedir a realização das eleições em Jeju.
Esvaziando o mar
O impasse ainda poderia ter sido resolvido se o governo militar dos EUA não tivesse rotulado Jeju como uma "ilha vermelha" e passado a tratar grande parte de sua população como comunistas ou simpatizantes do comunismo. Em outubro de 1948, buscando aniquilar unidades guerrilheiras já enfraquecidas, os militares dos EUA ordenaram que qualquer pessoa encontrada fora de uma zona costeira de cinco quilômetros fosse tratada como guerrilheira, independentemente de idade ou sexo. Muitos, incluindo crianças e idosos, foram sumariamente executados, enquanto outros foram detidos e levados a tribunais militares que ofereciam pouca ou nenhuma garantia de devido processo legal.
Essa se tornou uma das primeiras operações de "terra arrasada" sob a lógica emergente da Doutrina Truman de 1947, cujo objetivo declarado era conter a expansão comunista soviética. Os generais de Harry Truman na Coreia do Sul e seus subordinados coreanos pareciam adotar sua própria interpretação da famosa metáfora de Mao Tsé-Tung sobre a guerra de guerrilha: "O guerrilheiro deve mover-se entre o povo como o peixe nada no mar".
Os militares dos EUA ordenaram que qualquer pessoa encontrada fora de uma zona costeira de cinco quilômetros fosse tratada como guerrilheira, independentemente de idade ou sexo.
Para aniquilar uma força guerrilheira que nunca ultrapassou trezentos combatentes em seu auge, o governo militar dos EUA e o governo sul-coreano subsequente mobilizaram uma força heterogênea de cinco mil soldados, policiais e paramilitares de extrema-direita, acabando por exterminar cerca de 10% da população de Jeju — como se estivessem drenando o mar para capturar alguns peixes.
Em Hallan, A-jin e Haeseng veem-se presas na orla da zona costeira de cinco quilômetros. A sogra de A-jin foi executada, juntamente com outros idosos da aldeia, por soldados motivados por cotas de mortes que lhes haviam sido impostas. Mais tarde, enquanto procura por Haeseng após a morte de sua avó, A-jin encontra um grupo de guerrilheiros que esconde a verdade sobre a morte de seu marido: eles o haviam executado sumariamente por ter abandonado o esconderijo do grupo.
A ideia de um "mundo melhor", pregada pelos guerrilheiros, já não exerce qualquer atrativo sobre A-jin. Sua visão de um "mundo melhor" tornou-se muito mais modesta, embora não menos inalcançável: um mundo onde sua filha possa aprender a ler e escrever para que, um dia, possa registrar, com suas próprias palavras, o que elas suportaram em 1948.
Em sua estreia em longas-metragens, a diretora e roteirista Ha Myung-mi entrelaça tristeza, desespero, tensão e coragem à beleza deslumbrante do fim do verão em Jeju. Kim Hyang-gi, mais conhecida internacionalmente por seu papel na cultuada série Along With Gods, interpreta a jovem mãe com uma mistura de força e vulnerabilidade.
As duas protagonistas são personagens compostas, criadas a partir de 4.3 and Women — uma coleção de cinco volumes com entrevistas de mulheres sobreviventes, publicada por um instituto de pesquisa sem fins lucrativos sediado em Jeju —, segundo a diretora Ha. Espectadores de língua inglesa que não falam coreano não são os únicos a depender de legendas: Hallan é tão rico no dialeto local de Jeju que até mesmo falantes nativos de coreano precisaram de legendas quando o filme estreou em Seul, no ano passado.
Nomeando o 4.3
Em Hallan, A-jin e Haeseng veem-se presas na orla da zona costeira de cinco quilômetros. A sogra de A-jin foi executada, juntamente com outros idosos da aldeia, por soldados motivados por cotas de mortes que lhes haviam sido impostas. Mais tarde, enquanto procura por Haeseng após a morte de sua avó, A-jin encontra um grupo de guerrilheiros que esconde a verdade sobre a morte de seu marido: eles o haviam executado sumariamente por ter abandonado o esconderijo do grupo.
A ideia de um "mundo melhor", pregada pelos guerrilheiros, já não exerce qualquer atrativo sobre A-jin. Sua visão de um "mundo melhor" tornou-se muito mais modesta, embora não menos inalcançável: um mundo onde sua filha possa aprender a ler e escrever para que, um dia, possa registrar, com suas próprias palavras, o que elas suportaram em 1948.
Em sua estreia em longas-metragens, a diretora e roteirista Ha Myung-mi entrelaça tristeza, desespero, tensão e coragem à beleza deslumbrante do fim do verão em Jeju. Kim Hyang-gi, mais conhecida internacionalmente por seu papel na cultuada série Along With Gods, interpreta a jovem mãe com uma mistura de força e vulnerabilidade.
As duas protagonistas são personagens compostas, criadas a partir de 4.3 and Women — uma coleção de cinco volumes com entrevistas de mulheres sobreviventes, publicada por um instituto de pesquisa sem fins lucrativos sediado em Jeju —, segundo a diretora Ha. Espectadores de língua inglesa que não falam coreano não são os únicos a depender de legendas: Hallan é tão rico no dialeto local de Jeju que até mesmo falantes nativos de coreano precisaram de legendas quando o filme estreou em Seul, no ano passado.
Nomeando o 4.3
Ativistas e estudiosos de Jeju dedicam-se há mais de cinco décadas a uma campanha para trazer à luz a verdade sobre o "4.3". Uma de suas grandes conquistas foi unir os habitantes da ilha em torno da memória das atrocidades, em vez de dividi-los sobre quem deveria ser responsabilizado.
Ativistas e estudiosos de Jeju dedicam-se há mais de cinco décadas a uma campanha para trazer à luz a verdade sobre o "4.3".
Famílias enlutadas de guerrilheiros e de policiais e soldados locais reconciliaram-se, superando o passado em que responsabilizavam uns aos outros pelas mortes de seus entes queridos. Hoje, eles prestam homenagens juntos aos túmulos das famílias um do outro todos os anos — um ritual significativo na Coreia do Sul, onde visitas regulares aos túmulos dos antepassados continuam sendo uma parte importante da memória.
No entanto, os habitantes da ilha de Jeju ainda se referem ao evento simplesmente como "4.3". Qualquer rótulo disponível é insuficiente para definir o que aconteceu. Não foi um "incidente" — palavra pequena demais para captar a dimensão das matanças. Não foi um "levante", pois apenas uma fração da população participou diretamente. Também não se tratou de uma "insurgência" convencional, dada a organização limitada do movimento. Contudo, nem mesmo o termo "massacre" consegue abarcar totalmente o que realmente ocorreu.
Do "4.3" à Guerra da Coreia, grande parte da primeira década do pós-guerra foi marcada por alguns dos anos mais sangrentos e turbulentos da história moderna do país — anos que muitos coreanos recordam por meio de uma série de datas. O que fica mais claro para muitos deles é que a violência poderia ter sido muito menos devastadora e prolongada se o futuro da Coreia tivesse sido deixado inteiramente nas mãos dos coreanos, sem a intervenção desenfreada dos EUA que teve início em Jeju.
Colaborador
Kap Seol é um escritor e pesquisador coreano radicado em Nova York. Seus textos foram publicados no Labor Notes, In These Times, Business Insider e outros veículos. Em 2019, uma reportagem investigativa de sua autoria para o jornal independente sul-coreano Kyunghyang revelou um impostor que alegava falsamente ser um especialista em inteligência militar dos EUA, designado para a cidade sul-coreana de Gwangju durante um levante popular em 1980.
No entanto, os habitantes da ilha de Jeju ainda se referem ao evento simplesmente como "4.3". Qualquer rótulo disponível é insuficiente para definir o que aconteceu. Não foi um "incidente" — palavra pequena demais para captar a dimensão das matanças. Não foi um "levante", pois apenas uma fração da população participou diretamente. Também não se tratou de uma "insurgência" convencional, dada a organização limitada do movimento. Contudo, nem mesmo o termo "massacre" consegue abarcar totalmente o que realmente ocorreu.
Do "4.3" à Guerra da Coreia, grande parte da primeira década do pós-guerra foi marcada por alguns dos anos mais sangrentos e turbulentos da história moderna do país — anos que muitos coreanos recordam por meio de uma série de datas. O que fica mais claro para muitos deles é que a violência poderia ter sido muito menos devastadora e prolongada se o futuro da Coreia tivesse sido deixado inteiramente nas mãos dos coreanos, sem a intervenção desenfreada dos EUA que teve início em Jeju.
Colaborador
Kap Seol é um escritor e pesquisador coreano radicado em Nova York. Seus textos foram publicados no Labor Notes, In These Times, Business Insider e outros veículos. Em 2019, uma reportagem investigativa de sua autoria para o jornal independente sul-coreano Kyunghyang revelou um impostor que alegava falsamente ser um especialista em inteligência militar dos EUA, designado para a cidade sul-coreana de Gwangju durante um levante popular em 1980.








