19 de outubro de 2026

A reação racista e desequilibrada aos protestos escolares na França

Donald Trump e J. D. Vance classificaram os protestos na França como obra de invasores muçulmanos e do Terceiro Mundo. Ignorando as raízes do movimento — que teve início com manifestações de estudantes do ensino médio —, eles utilizam episódios de violência para pintar um cenário sombrio de conflito racial.

Marlon Ettinger


Um carro queima durante protestos estudantis em Paris, na França, no dia 17 de outubro. (Carl Court/Getty Images)

Após protestos e distúrbios tomarem conta da França neste fim de semana — em meio à intensificação de um movimento social desencadeado por bloqueios realizados por estudantes do ensino médio —, setores de direita ao redor do mundo reagiram com uma narrativa abertamente racista. Eles retratam os protestos como obra de "invasores muçulmanos" que, em uma aliança traiçoeira com elementos de esquerda — descritos como parte de uma mobilização artificial —, estariam tentando incendiar o país.

“A França está em chamas!”, reagiu Donald Trump. “A imigração de pessoas de um mundo completamente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu esse país que já foi grandioso. Fechem as fronteiras e retomem o controle, antes que seja tarde demais!”

“Liberais ocidentais importaram o terceiro mundo para a França e outros países em nome da diversidade e da compaixão. Ignoraram questões fundamentais de assimilação e compatibilidade. Avisaram-nos de que isso levaria a essa situação, mas eles não ouviram”, publicou JD Vance, vice-presidente de Trump, em reação a um vídeo que mostrava a torre da prefeitura de Limoges desabando em meio às chamas. “Rezo para que a França — um país lindo, com um povo incrível — ponha fim a essa loucura antes que mais de seus monumentos sejam consumidos pelo fogo. E espero que os americanos estejam prestando atenção. Esse é o futuro que os democratas no Congresso desejam para o seu país.”

Essa narrativa ignora as demandas populares — como o custo de vida fora de controle na França, a degradação do sistema escolar e a revolta legítima e explosiva diante da violência letal exercida pela polícia contra estudantes do ensino médio no início do mês. Desde o início do movimento, a reação internacional tem adotado uma postura oficial que substitui essas preocupações reais por um discurso racista, desconectado da realidade e focado apenas em incitar ressentimentos.

“O que está acontecendo na França nada mais é do que uma migração em massa fora de controle”, publicou Trump no início deste mês — em uma conta oficial do governo — no momento em que o movimento ganhava as manchetes ao redor do mundo. “Não se trata de escolas; trata-se do Islã querendo tomar conta de um país que já foi grandioso!”

“A Europa abriu suas fronteiras e não conseguiu enfrentar o islamismo radical”, comentou, na ocasião, o senador pelo Texas, Ted Cruz. “AOC, Mamdani, El-Sayed e Talarico querem nos levar nessa mesma direção.”

“Precisamos reconhecer que os protestos pró-Palestina são, fundamentalmente, protestos contra o Ocidente. Suas ambições vão muito além de erradicar Israel, ‘do rio ao mar’”, declarou, em tom pomposo, o bilionário do setor de fundos de investimento Bill Ackman. Ele respondia à presidente de um *think tank* sediado em Berlim, que descreveu um vídeo — no qual manifestantes gritavam “Somos todos filhos de Gaza” — como o início de uma “Revolução Islâmica na Europa”. “No Irã, foram necessários cerca de dois anos para passar desse estágio ao caos completo e ao estabelecimento da República Islâmica”, escreveu Maral Salmassi, presidente do Instituto Zera. “Vimos o mesmo simbolismo, as mesmas bandeiras e ouvimos exatamente os mesmos slogans. Preparem-se.”

A Fox News repercutiu e amplificou esse tema logo no início, publicando, em 9 de outubro, uma investigação que tentava deslegitimar o movimento estudantil, retratando-o como uma conspiração global entre comunistas e islamistas.

“Uma rede transnacional de 50 grupos mobiliza-se em torno de protestos estudantis; apenas um terço deles são grupos de jovens”, dizia o subtítulo sensacionalista da matéria, que alegava ter descoberto uma operação de alcance mundial, composta por “organizações comunistas e socialistas de extrema-esquerda” que estariam usando os “intensos protestos estudantis” para promover uma “agenda política e ideológica”.

Racistas histéricos na França, impulsionados por veículos de mídia norte-americanos de extrema-direita dedicados a disseminar propaganda racista, também se manifestaram logo de início.

“É preciso ser cego para não ver o que está acontecendo aqui”, disse Thaïs d’Escufon, ex-porta-voz do grupo nacionalista branco francês Génération Identitaire — que já foi dissolvido —, à apresentadora da One America News, Chanel Rion, descrevendo os protestos estudantis como “distúrbios étnicos”.

“Eles só mostram imagens de estudantes da burguesia, do centro de Paris, mas, na verdade, a maior parte dos protestos ocorre em cidades ou áreas que passam por um intenso processo de ‘substituição’”, explicou d’Escufon, utilizando o termo “substituição” para se referir a áreas com uma proporção menor de pessoas brancas.

“É difícil ver essas imagens... Você olha para isso e não parece Paris”, comentou Rion, após exibir imagens aéreas de uma multidão de manifestantes na Place de la Nation, em Paris, ao final de uma marcha. “Parece Mogadíscio... E, ainda assim, veja a foto que a BBC usou. Eles fazem parecer que se trata apenas de estudantes franceses nativos, insatisfeitos com a falta de lousas nas salas de aula.”

A investigação da Fox também reforçou a tese de que a mídia teria suavizado a imagem do movimento, retratando-o apenas como “estudantes protestando contra a deterioração das condições escolares”.

Na realidade, segundo a Fox, o movimento “faz parte de uma ampla infraestrutura que envolve sindicatos, ativistas comunistas, partidos políticos de extrema-esquerda e organizações midiáticas internacionais... que organizam manifestações, convocam greves, mobilizam apoiadores e difundem esses distúrbios pelo mundo”.

A investigação da Fox sustenta que, das cinquenta organizações envolvidas no movimento, apenas quinze são, de fato, grupos estudantis — entre eles, movimentos de juventude comunista e uma associação de estudantes muçulmanos.

Ao destacar as organizações comunistas e muçulmanas, a Fox conclui que existe uma “aliança ‘vermelho-verde’ entre esquerdistas e muçulmanos”.

“O ‘vermelho’ comunista e o ‘verde’ islâmico não têm nada em comum, exceto um inimigo compartilhado: o Ocidente capitalista, livre e de matriz judaico-cristã, liderado pelos Estados Unidos”, afirmou à Fox Mike Gonzalez, pesquisador sênior da Heritage Foundation. “O objetivo deles é nos desmantelar.”

O fascista britânico Tommy Robinson também atacou o movimento, utilizando argumentos semelhantes.

A mensagem ecoa uma narrativa perniciosa presente na mídia francesa, que tem buscado retratar qualquer forma de organização política por parte de muçulmanos franceses como um evidente "cavalo de Troia" para o islamismo.

“Os ‘estudantes franceses’ estão destruindo Paris novamente agora”, brincou ele na semana passada, sobre um vídeo que mostra a polícia francesa passando por um carro em chamas.

Na última quarta-feira, Robinson atacou Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis pelo partido La France Insoumise, em uma publicação que trazia um vídeo de Bagayoko anunciando restrições à venda de álcool nas imediações da estação de trem da cidade, entre as 19h e as 6h.

“Bally Bagayoko fez história em março de 2026 ao se tornar o primeiro prefeito negro e muçulmano de Saint-Denis”, escreveu Robinson. “Ele se juntou aos tumultos dos invasores na semana passada. Hoje, anunciou a proibição de álcool. Acorda, porra, França.”

Um "cavalo de Troia"

A mensagem ecoa uma narrativa perniciosa presente na mídia francesa, que tem buscado retratar qualquer forma de organização política por parte de muçulmanos franceses como um evidente "cavalo de Troia" para o islamismo.

“Por trás das reivindicações sobre a situação precária das escolas de ensino médio, a organização Étudiants musulmans de France (EMF) e seus aliados promovem sua batalha contra a ‘islamofobia de Estado’”, diz um subtítulo em uma reportagem da revista Le Point, que alega que “redes islamistas” estariam tentando ampliar o movimento. O artigo aponta para uma organização estudantil muçulmana que, segundo um relatório governamental do ano passado — conforme alega a publicação —, seria o braço juvenil da Irmandade Muçulmana.

Ao acusar organizações como a EMF de “aproveitar-se” dos protestos, o artigo afirma que as publicações da entidade “dizem muito” sobre sua estratégia.

Um dos exemplos que surgiram no início do mês é uma declaração em apoio à luta dos estudantes do ensino médio “por um ambiente de aprendizagem decente e digno”. O comunicado da EMF manifesta-se, ainda, contra a austeridade governamental nos serviços públicos — incluindo as universidades —, contra uma lei que aumenta as taxas para estudantes estrangeiros, contra medidas do governo que cancelam subsídios de aluguel para esses mesmos estudantes, contra “parcerias universitárias com empresas genocidas e ecocidas”, contra o sistema de admissão universitária — descrito como seletivo e “racista” — e contra a repressão governamental aos protestos.

A publicação Le Point também aponta para o AJ+ — braço da Al Jazeera nas redes sociais, financiado pelo Catar — como um vetor de propagação dessa narrativa, destacando o conteúdo viral que expõe as condições precárias nas escolas e a violência policial.

“A maioria deles retoma o tema da violência policial, sem mencionar uma palavra sobre a [violência] dos manifestantes, e acusa a ‘grande mídia’ de mentir a respeito da ‘violência’ nas marchas”, diz o artigo do Le Point.

Uma resposta liberal

Protestos massivos durante o fim de semana, reunindo pelo menos meio milhão de pessoas, descambaram para a violência. Em Paris, a polícia teria perdido o controle da situação, enquanto militantes do *black bloc* e vândalos aproveitaram o caos para saquear alguns dos bairros mais sofisticados da cidade.

Vídeos — como o da torre do sino em Limoges sendo consumida pelas chamas — viralizaram, servindo como exemplos da destruição provocada por “bárbaros” do Terceiro Mundo contra a “França Eterna”.

“Espero que o mundo esteja prestando atenção aos distúrbios na França”, disse Tim Kennedy, soldado e lutador de MMA conhecido pelo público. “Não há bandeiras francesas sendo exibidas nesses protestos. Essa é a consequência da imigração em massa.”

A alegação de que não havia bandeiras francesas nos protestos é uma mentira deslavada. Vi várias delas ao longo de vários dias. Contudo, a postagem é representativa do endurecimento da narrativa que começou a ser construída no início do mês.

Liberais pró-europeus também se juntaram ao coro de lamentações e condenações.

A alegação de que não havia bandeiras francesas nos protestos é uma mentira deslavada.

“A Polônia não repetirá os erros de outros países europeus, nem pagará por eles”, anunciou o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, sem fazer referência direta aos protestos na França. “Estamos defendendo firmemente a fronteira contra a migração ilegal; temos nossa própria política de asilo (não aceitamos pedidos) e deportamos aqueles que violam a lei polonesa.”

“Vídeos e imagens chocantes estão surgindo da França”, publicou o húngaro Péter Magyar. “Diante dessa destruição sem sentido e dessa violência injustificada, talvez agora fique claro para todos por que a Hungria defende a abordagem mais rigorosa possível em relação à migração, e por que não enfraqueceremos a proteção de nossas fronteiras nem nossa política de imigração sob qualquer tipo de pressão.”

Liberais americanos ineficientes, embora condenem a caracterização abertamente racista — e reconheçam que os estudantes que protestam formam “uma coalizão extremamente diversa” —, acabaram flertando com essa narrativa. Thomas Chatterton Williams, em um artigo na revista The Atlantic intitulado “A violência que varre a França nunca foi, de fato, sobre as escolas”, descarta qualquer conteúdo substantivo nos protestos após analisar cinco vídeos que viralizaram nas redes sociais.

“Grande parte dos protestos estudantis tornou-se um exercício de ressentimento niilista... sob o pretexto de uma reforma escolar”, escreve Williams, referindo-se a vídeos que mostram atos de violência, danos ao patrimônio ou estudantes reunidos e gritando — conteúdos frequentemente provenientes de contas agregadoras nas redes sociais que promovem uma narrativa anti-imigrante, retratando a imigração árabe e africana na Europa como um “cavalo de Troia” para o islamismo.

“A violência não se limitou a um lado só”, admite Williams, em um tom conciliador, ao traçar paralelos entre estudantes que fazem declarações contra a polícia — ou cantam músicas de rap com referências de mau gosto ao terrorismo — e os ferimentos graves e desfigurantes causados ​​pela polícia a esses mesmos estudantes. “Um policial disparou uma granada de gás lacrimogêneo contra a cabeça de um adolescente, arrancando a maior parte de seus dentes. Mais recentemente, um jovem de 15 anos perdeu a mão depois que um policial disparou uma granada de efeito moral.”

No fim das contas, a França está “à mercê dos manifestantes”, argumenta Williams. “Os franceses protestam demais” e, “nos últimos anos, a cultura de protesto na França tem sido tolerada e glorificada a ponto de beirar a insanidade”.

“Algumas dessas reivindicações podem até ser válidas”, pondera Williams, “mas a violência que se espalha pela França tem pouco a ver com preocupações pedagógicas”.

O direito ao protesto

O ministro francês Sébastien Lecornu apresentou um argumento semelhante na quinta-feira, ao afirmar que o movimento social “já não é um movimento de estudantes do ensino médio”, mas sim um “movimento de violência urbana, cuja intensidade aumentou ainda mais nos últimos dias”.

Em um discurso na noite de domingo, o presidente Emmanuel Macron atribuiu a violência da noite anterior a “agitadores de grupos dissidentes de extrema-esquerda, aos quais se juntaram inúmeros delinquentes”; por sua vez, Lecornu denunciou o suposto “papel importante” de Jean-Luc Mélenchon — candidato presidencial pelo partido La France Insoumise — e de sua legenda no fomento a esses atos.

Embora o governo francês não tenha adotado as mesmas teorias grotescamente racistas defendidas pela extrema-direita nos Estados Unidos, no Reino Unido e na própria França, ele compartilha com esses grupos a narrativa de que este movimento social seria fruto de forças externas e ilegítimas, que estariam tentando instrumentalizar as reivindicações dos estudantes do ensino médio.

Esse ponto foi enfatizado de maneira contundente em uma reportagem do jornal *Le Canard enchaîné*, publicada na quarta-feira, a qual revelou que Lecornu teria orientado pessoalmente o ministro do Interior a avaliar a possibilidade de processar Mélenchon por “incitação à rebelião”. Lecornu acabou recuando, temendo as consequências que a prisão de Mélenchon poderia acarretar para o movimento.

O periódico informou que, nas últimas três semanas, quase sete mil pessoas foram detidas — 86% delas com idades entre 14 e 18 anos. Durante o fim de semana, as autoridades realizaram cerca de duas mil prisões adicionais.

“O objetivo dessa tática é intimidar os estudantes e seus pais, para que o levante seja interrompido o mais rapidamente possível”, declarou um chefe de polícia ao Le Canard.

O governo continua temeroso diante desse movimento social, justamente porque ele não se trata de uma conspiração estrangeira, de uma ação de “invasores” imigrantes ou de um complô “islamo-esquerdista”. Figuras racistas influentes continuarão a propagar essa ideia, pois ela serve como um artifício conveniente para deslegitimar as reivindicações das massas; contudo, isso não altera a realidade dos fatos. Foi o governo de Macron quem trouxe a violência para as ruas da França. Uma notícia divulgada na manhã de segunda-feira, informando que Macron rejeitou o pedido de demissão do ministro do Interior, Laurent Nuñez, envia uma mensagem clara: ele apoia a atuação da polícia — a despeito dos apelos por diálogo, feitos apenas por formalidade, e da condenação protocolar da violência, ocorridos na noite anterior.

Os estudantes franceses apresentam reivindicações legítimas, e muitos deles estão determinados a continuar os protestos até que o governo lhes dê uma resposta.

Colaborador

Marlon Ettinger é autor de Zemmour and Gaullism e coapresentador do Flep24, podcast dedicado às eleições legislativas francesas de 2024.

Quão revolucionário, de fato, foi o cristianismo?

Em meio a um interesse renovado pela religião em todo o espectro político, o historiador da Antiguidade Tim Whitmarsh argumenta, em seu novo livro Rome’s Age of Revolution, que o sucesso do cristianismo dependeu da infraestrutura física e cultural do Império.

October 19, 2026

Molly Judd

Jacobin

Detalhe de um mosaico romano representando o deus grego Dioniso, que diversos textos pagãos associam a Jesus Cristo. (Museu Arqueológico da Antiga Corinto)

Resenha
Rome’s Age of Revolution: Augustus, Empire, and the Making of Christianity
Tim Whitmarsh
Bodley Head, 2026

No livro de Atos dos Apóstolos, os seguidores de Jesus Cristo são descritos, por diversas vezes, como pertencentes ao “Caminho”. No léxico cristão moderno, essa expressão é frequentemente compreendida como uma trajetória espiritual, e não física. Percorre-se o Caminho ao transitar de uma vida sem Cristo para uma vida com Ele. Ao retornar aos textos originais em grego antigo, o classicista Tim Whitmarsh ressalta que o termo que fundamenta a ideia de “Caminho” — hodos — pode, de fato, referir-se a uma trajetória espiritual, mas também — e com maior frequência — designa uma via física, ou uma jornada realizada ao longo dela.

Paulo e outros missionários cristãos primitivos empreendiam uma jornada espiritual, mas também realizavam o que Whitmarsh denomina uma “viagem por estradas” — no sentido literal —, percorrendo territórios que hoje correspondem à Turquia, Síria, Grécia e outras regiões, com o objetivo de converter todos aqueles que estivessem dispostos a ouvir. Essas viagens ocorriam em um mundo romano cuja rede viária fora drasticamente reorganizada e expandida sob o governo de Augusto, facilitando o deslocamento por todo o Império. A nova obra de Whitmarsh, Rome’s Age of Revolution: Augustus, Empire, and the Making of Christianity, questiona o quão revolucionária a religião cristã realmente foi. Para isso, o autor situa os textos originais no contexto em que surgiram — um cenário que, inclusive, favoreceu o seu sucesso: o Império Romano e a miríade de culturas que ele abarcava.

O debate sobre a influência do cristianismo costuma polarizar-se em extremos. De um lado, encontram-se os “novos ateus” dos anos 2000 — entre eles o falecido Christopher Hitchens (autor de Deus Não É Grande) e Richard Dawkins (autor de Deus, um Delírio* —, que viam a religião como um veneno a ser erradicado por meio da razão. Do outro, figuram autores como Tom Holland, cuja obra Dominion sustenta que o cristianismo rompeu com o mundo antigo e moldou as concepções ocidentais de moralidade, compaixão e dignidade humana — teses que ele tem levado a um público vasto por meio do podcast The Rest Is History.

Whitmarsh faz algo que nenhum desses dois grupos consegue realizar. Ele não se posiciona contra a crença cristã; Ele argumenta contra a ideia de uma singularidade cristã, utilizando a filologia — e não a polêmica — como sua ferramenta. Ao ler os textos em suas línguas originais, ele demonstra que grande parte do que parece distintivo na narrativa cristã deriva de tropos culturais que já circulavam no Império Romano, e que essa narrativa se propagou por meio da infraestrutura fornecida pelo próprio Império. Ao localizar a revolução em Roma, e não na Igreja, ele chega perto de desmantelar a tese de Holland — de que o cristianismo teria sido revolucionário —, sem precisar, contudo, refutar a fé em si: se as estradas, os idiomas e o fluxo constante de pessoas tornaram o cristianismo possível, então foi o Império, e não a nova religião, que transformou o mundo. Ele não é propriamente anticristão; é, antes, contrário ao excepcionalismo.

Ele desenvolve essa argumentação por meio de dois conceitos. O primeiro é o que ele chama de “redemoinho” (swirl) — o movimento sem precedentes de pessoas, mercadorias e ideias por todo o Império, o que permitiu que uma religião fundamentada nas culturas judaica, grega e romana pudesse florescer. O segundo conceito é o de “paradoxo”: a ideia de que a ordem romana, ao se estender por territórios tão vastos, tendia a provocar o seu oposto — como ocorreu no surgimento do cristianismo. É no conceito de “redemoinho” que Whitmarsh se mostra mais brilhante; seu domínio das línguas antigas permite que ele remonte às fontes originais.

O nascimento de um menino

Há cerca de dois mil anos, um biógrafo relatou a história de um menino cujo nascimento foi precedido por um presságio que anunciava que a natureza estava grávida de um rei; em seguida, os líderes da cidade, temendo perder o poder, ordenaram que todos os recém-nascidos do sexo masculino fossem mortos. Seria compreensível pensar que se trata da história do nascimento de Jesus, dada a semelhança com o massacre dos inocentes ordenado por Herodes. Na verdade, esse relato não provém dos Evangelhos, mas de Suetônio — e o menino em questão era Augusto.

Encontramos relatos semelhantes na poesia da época. A Quarta Écloga de Virgílio, composta por volta de 40 a.C., profetiza uma era de ouro inaugurada pelo nascimento de um menino, que chegaria no momento em que Virgo (a “virgem”, evocando Astreia, deusa da justiça) retornasse. Whitmarsh não sugere uma ligação direta entre Virgílio e os Evangelhos; ele propõe, antes, que o poema pode ser um elemento dentro de um contexto mais amplo de representações sobre o nascimento de um salvador, que circulavam no mundo romano — representações das quais os escritores cristãos viriam a se valer, mais tarde, de forma independente. Em uma análise mais especulativa, ele remonta a narrativa de nascimento presente no poema a fontes ainda mais antigas: as histórias sobre o nascimento de Alexandre, o Grande, e as escrituras judaicas.

Nas escrituras judaicas, Isaías prediz que um período de prosperidade seria precedido por um sinal: uma mulher conceberia e daria à luz um filho chamado Emanuel (7:14). Ao examinar o texto original em hebraico, Whitmarsh aponta que o termo usado para descrever a mulher é almah, que, de modo geral, refere-se a uma jovem em idade fértil, e não especificamente a uma virgem. No Antigo Testamento em grego, esse termo foi traduzido como parthenos — palavra que pode significar “virgem” e que, mais tarde, Mateus utiliza ao citar Isaías em seu relato sobre o nascimento de Jesus. Whitmarsh vai além, questionando se Virgílio (que sabia ler em grego) poderia ter tido contato com versões dessa tradição judaica, bem como com narrativas sobre o nascimento de Alexandre, o Grande. Ao reunir esses fios, Whitmarsh sugere que a narrativa cristã do nascimento virginal surgiu, em parte, por meio desse trânsito entre idiomas: escrituras judaicas traduzidas para o grego, reinterpretadas por autores cristãos e lidas no contexto da mesma efervescente cultura de língua grega em que o próprio Virgílio viveu. Sob essa ótica, a relação entre Virgílio e Mateus não é tanto de causa e efeito, mas, sim, a de dois autores que, de forma independente, recorrem a um mesmo repertório de material greco-judaico — a virgo de Virgílio, que já carregava os múltiplos significados associados a Astreia e à justiça, acaba, nesse processo, absorvendo potencialmente mais uma ressonância. É um exemplo notável desse dinamismo cultural em pleno funcionamento.

Espaços imaginativos

Whitmarsh está em terreno firme ao tratar de linguagem e traduções, mas seus argumentos tornam-se um tanto mais frágeis quando ele se volta para hipóteses mais amplas. Ele propõe que o domínio de Augusto, tanto nas esferas física quanto política, provocou uma contrarreação sob a forma de uma busca por espaços imaginativos alternativos. Observando a tendência da literatura grega do século II de olhar para cima ou para baixo — aventurando-se em novos espaços, seja por meio de narrativas sobre mergulhos em grandes profundezas oceânicas ou viagens à Lua —, Whitmarsh argumenta que esse fascínio por encontrar novos espaços, fora do controle governamental, estendeu-se também aos primeiros cristãos.

A literatura cristã primitiva transmite um senso marcante de espaço e deslocamento — seja nas viagens de Paulo, relatadas em Atos, ou nas descrições, nos Evangelhos, de lugares distantes e desconhecidos. Com o tempo, seria o deserto que passaria a dominar o cenário do imaginário cristão, como se vê na Vida de Antão. É aqui, contudo, que a precisão textual de Whitmarsh dá lugar a uma abordagem menos rigorosa. Por exemplo, a tese de que toda uma geografia imaginativa — que vai de viagens lunares aos Padres do Deserto — pode ser interpretada como uma contrarreação à ordem augustana é apenas sugerida, e não propriamente demonstrada; Rome’s Age of Revolution exige que o leitor aceite uma boa dose de inferência, em um livro que, fora isso, é extremamente cuidadoso ao expor seus fundamentos. O conceito de "paradoxo", diferentemente do de "turbilhão" (swirl), é mais difícil de sustentar com base nas fontes.

Uma abordagem ao estilo do romance

Nas seções finais do livro, Whitmarsh deixa de focar em Augusto e suas revoluções para dissecar a cultura de língua grega do Império oriental e seu papel como incubadora do cristianismo primitivo. É aqui que ele apresenta seus argumentos mais contundentes, demonstrando como o "turbilhão" e o "paradoxo" se manifestam. Ele contesta a "imagem hollywoodiana" de uma oposição estrutural e persistente entre cristãos e romanos. Execuções e perseguições, de fato, ocorreram, explica ele; contudo, os relatos de martírio exageraram e dramatizaram esses eventos, valendo-se de formas narrativas tomadas emprestadas do gênero, então emergente, do romance grego.

O cristianismo, mostra ele, pode ser levado a sério como uma força histórica sem ser tratado como uma exceção à história.

Tomemos, por exemplo, o relato de martírio A Paixão de Perpétua e Felicidade, que narra a prisão e a execução pública da jovem nobre Perpétua — que ainda amamentava seu filho — e de sua companheira cristã Felicidade, que dera à luz pouco antes da execução, ocorrida em 203 d.C. É fundamental notar que o texto foi produzido em um mundo no qual o cristianismo não estava sujeito a uma proibição direta em todo o Império. Paradoxalmente, a estabilidade da ordem romana proporcionou aos cristãos o espaço necessário para registrar histórias de perseguição e permitir que tais relatos florescessem.

Whitmarsh argumenta — contra aqueles que interpretam o relato como um testemunho ocular — que o texto se vale de estratégias emprestadas do romance grego: compaixão, tensão e, acima de tudo, erotismo. Na arena, observa ele, as mulheres são despidas e colocadas dentro de redes; a multidão recua ao ver os seios de Perpétua, que ainda produzem leite. Em seguida, elas são lançadas diante de uma “vaca feroz” — um animal escolhido, segundo o texto, por ser condizente com o sexo delas. Perpétua é arremessada pelo animal e vê-se obrigada a ajeitar suas vestes para cobrir as coxas. Mais tarde, a multidão exige que os mártires sejam levados ao centro da arena, para que “possam contemplar a espada que lhes atravessa o corpo”. O texto é permeado por insinuações e imagens de cunho sexual, que atraem o leitor e lhe permitem desfrutar do conteúdo sob o pretexto de uma homenagem ao martírio cristão.

Notes on the visual

The Greek novel is Whitmarsh’s final argumentative device, and though successful, as an art historian I am left wondering if he has neglected the visual culture in which early Christianity was operating. Rome’s Age of Revolution is primarily concerned with textual analysis, though if it does have a visual signature, it’s the cover: a detail from a Roman mosaic of Dionysus, found in a Roman villa excavated at Corinth. It’s a striking choice — the kaleidoscopic mosaic tiles presenting a literal manifestation of the swirl of which Whitmarsh writes. The content of the mosaic speaks directly to Whitmarsh’s argument: Corinth was a Greek city remade under the Roman Empire, and Dionysus was a Greek god displayed here within a Roman urban setting. Whitmarsh shows (without referencing the cover) that several pagan texts, even those written as late as the second century CE, align Dionysus with Jesus: he had a divine father and mortal mother, could turn water into wine, performed supernatural wonders, and died before coming back to life. But beyond the cover and a few brief mentions of material culture in the book, Whitmarsh excludes this visual line of enquiry. This is understandable, given he is not an art historian, but there are many times when a brief interlude may have added to his argument.

On a recent trip to Rome, a label in the Vatican Museums taught me that the Good Shepherd motif so central to early Christian iconography was modeled on the kriophoros, or ram-bearer, a figure already centuries old in Greek art and closely associated with the god Hermes. The label went further, suggesting Christians adopted this borrowed imagery partly because its familiarity let them worship somewhat covertly under Roman eyes — the same shepherd could read as Hermes to a suspicious neighbor and as Christ to a fellow believer.

It’s a tidy story but I found myself doubting it, and Whitmarsh’s dismantling of the Hollywood image of relentless persecution gave me reason to look deeper. Many scholars of early Christian art are now cautious about treating such imagery primarily as a form of disguise: Christians may instead have been adapting a visual language their neighbors already knew how to read, recasting an image associated with care and safe passage within a new theology, rather than smuggling one past the authorities. If that’s right, the Good Shepherd isn’t evidence of a persecuted religion in hiding — it’s another instance of exactly the kind of confident, opportunistic repurposing that Whitmarsh traces through Christian texts.

Whitmarsh gives us a masterclass in tracing swirl through language, translation, and narrative and a more tentative case for paradox. But the book’s real achievement is to ask how revolutionary Christianity was without taking either of the usual sides. Christianity, he shows, can be taken seriously as a historical force without being treated as an exception to history. The mosaic on the cover makes the point better than any argument: like the empire itself, it is assembled from borrowed pieces and is no less striking for it. It repays close looking, and so does this book.

Colaborador

Molly Judd é pesquisadora de doutorado em história da arte na Universidade de Cambridge e foi bolsista do programa Jill Franklin Fellowship de 2025 na British School at Rome.

18 de outubro de 2026

A economia política do restaurante

The Full English, do organizador político e chef Lewis Bassett, apresenta um relato em primeira mão de como a culinária inglesa foi moldada pela industrialização, pelo império e pelas classes sociais, sob a perspectiva de restaurantes espalhados por todo o país.

Ed Luker

Jacobin

Um organizador socialista que se tornou chef analisa o setor de restaurantes da Inglaterra em um novo livro. Ao longo do caminho, ele lança luz sobre o ecossistema do qual a produção de alimentos depende — desde a propriedade privada de grandes extensões de terra até a exploração dos trabalhadores. (Bert Hardy / Picture Post / Hulton Archive via Getty Images)

Resenha de The Full English: The Ways We Eat and Why, de Lewis Bassett (Verso Books, 2026)

A culinária inglesa não goza de boa reputação. Em 1806, Grimod de La Reynière, um pioneiro crítico gastronômico francês, escreveu que “a culinária [da Inglaterra] limita-se a frangos cozidos”. Mais de duzentos anos depois, os estereótipos sobre a comida do país pouco mudaram.

Ao observar os ícones fundamentais da culinária inglesa atual — fish and chips (peixe com batatas fritas), o assado de domingo (Sunday roast) e o café da manhã inglês completo (full English breakfast) —, é possível concordar com a observação de Grimod. Esses pratos são amontoados grosseiros de carne e carboidratos, fruto de uma cultura que, muitas vezes, pareceu mais interessada no excesso do que no refinamento culinário. Eles dificilmente sugerem o nível de técnica e a atenção a ingredientes simples e de alta qualidade que costumam ser associados à gastronomia francesa ou japonesa.

Não é apenas a culinária do país que se encontra em uma situação lamentável. Alimentos ultraprocessados ​​representam mais da metade das calorias consumidas no Reino Unido a cada ano, enquanto as taxas de obesidade permanecem substancialmente mais altas do que a média da União Europeia. Como a Inglaterra passou a se alimentar dessa maneira? Em seu primeiro livro, The Full English: The Ways We Eat and Why, o chef e escritor Lewis Bassett examina as tradições culinárias e os hábitos alimentares do país, buscando compreender a história peculiar que os moldou.

Preparando um pão de fermentação natural (sourdough) em uma padaria no norte de Londres, aprendendo a cozinhar um balti em um restaurante indiano em Birmingham, ou pescando na costa de Eastbourne: o leitor acompanha Bassett enquanto ele aprimora sua técnica e expande seu repertório de pratos “ingleses” — uma categoria que é, na verdade, muito mais multicultural do que o seu marketing sugere. De modo geral, o livro está estruturado em torno de uma série de etapas — termo que remete a stagiaire, palavra francesa para designar um estágio em uma cozinha profissional —, nas quais cada experiência e cada prato oferecem a Bassett uma nova perspectiva para investigar a sociedade inglesa. Ele não apenas transita entre diferentes restaurantes, mas também alterna papéis, passando de trabalhador a repórter e pesquisador.

Bassett começou a trabalhar em cozinhas aos dezesseis anos; inicialmente, preparava sanduíches, para depois passar a abrir ostras e fritar hambúrgueres em Melbourne, aos dezoito. Aos vinte anos, trabalhou em um restaurante de peixes em Londres, onde aprendeu a cozinhar profissionalmente. Sua outra formação foi no campo político. Durante os anos de Jeremy Corbyn, ele se envolveu com a ala esquerdista do Partido Trabalhista, dedicando-se à organização de base e a campanhas políticas, ao mesmo tempo em que concluía um doutorado na Universidade de Manchester sobre o "corbynismo" e a democracia sob o neoliberalismo. Desde então, ele tem escrito sobre política e organização para esta publicação e para outros veículos.

Cozinhar e a organização socialista tornaram-se duas formas distintas de educação. Como chef trabalhando em Londres, Bassett cozinhou para algumas das pessoas mais ricas do mundo. Como socialista, ele vive em uma sociedade na qual o acesso a uma boa alimentação, preparada com ingredientes frescos, permanece profundamente desigual. O livro situa-se no âmago das tensões que surgem quando se exerce uma atividade que se ama profundamente dentro de um setor excludente.

Após concluir seu doutorado — e durante a pandemia —, o trabalho culinário que serve de base para o livro surgiu como uma tentativa de retornar ao que Bassett chama de “o trabalho cuidadoso e físico, realizado com as mãos humanas”. O que as mãos executam, o cérebro busca compreender. The Full English utiliza o conhecimento prático da culinária como ponto de partida para uma investigação sobre o desenvolvimento singular da sociedade britânica, sua industrialização precoce e sua expansão imperial.

O luxo chega à mesa com uma aparência de naturalidade apenas porque, em outros lugares, um esforço imenso foi organizado por meio de uma intensa divisão do trabalho.

O universo dos restaurantes gourmet depende de um sistema, em grande parte oculto, composto por equipes amplas e altamente especializadas. Por trás de uma refeição digna de estrela Michelin, encontram-se chefs realizando tarefas minuciosas e repetitivas em ritmo acelerado: removendo, com pinças, fragmentos de casca da carne de caranguejo; fatiando maçãs em lâminas finíssimas com o auxílio de um mandolim; ou coordenando dezenas de preparações no auge do serviço. O refinamento associado à haute cuisine pode obscurecer as condições necessárias para produzi-la. O luxo chega à mesa com uma aparência de naturalidade apenas porque, em outros lugares, um esforço imenso foi organizado por meio de uma intensa divisão do trabalho.

Essa mesma tensão entre refinamento e condições materiais pode ser observada em algo tão cotidiano quanto o pão. O pão de fermentação natural (sourdough) é frequentemente apresentado como um retorno a uma forma de alimentação mais antiga e autêntica; contudo, esse pão — altamente padronizado e elaborado a partir de ingredientes rigorosamente controlados — é, na verdade, um produto da abundância moderna. Na Inglaterra pré-industrial, o pão era, por necessidade, algo bem mais heterogêneo: feito com os grãos ou substitutos que estivessem disponíveis — chegando, por vezes, a incluir ervilhas — e fermentado com cerveja, em vez de utilizar o fermento natural (levain) empregado hoje.

A industrialização tornou a alimentação mais uniforme e previsível; essa padronização do consumo, por sua vez, ajudou a despertar, na classe média, um desejo crescente pelo artesanal e pelo feito à mão. O que parece ser uma rejeição aos alimentos industriais é, em parte, uma de suas consequências — uma que existe para consumidores dispostos a pagar para sentir que estão optando por ficar de fora.

Os hábitos alimentares ingleses foram transformados, de maneira incomumente precoce, pela urbanização e pela industrialização. Por meio do desapossamento e da concentração de terras, a Inglaterra perdeu grande parte de sua população camponesa antes de outros países europeus. Já em meados do século XIX, o país encontrava-se fortemente urbanizado, com um grande contingente populacional que comprava pão em vez de produzi-lo por conta própria. Os pratos consumidos pelas pessoas eram moldados pelos novos ritmos da vida industrial. Paralelamente, o poder naval e comercial britânico inaugurou novos sistemas de comércio e consumo. O paladar inglês emergiu dessa “insistência peculiar da modernidade”, como define Bassett: simultaneamente industrial, urbana e imperial.

As seções posteriores de The Full English expandem o foco para além da cozinha, abordando questões de classe, migração e identidade nacional. O Balti — um curry de origem paquistanesa — serve como ponto de partida para refletir sobre a “anglicização” da culinária sul-asiática e as histórias coloniais que a sustentam; a culinária italiana, por sua vez, aparece vinculada à ascensão de uma nova classe média na década de 1990 e às políticas culturais do New Labour.

Em outros pontos, a linguagem das dietas e da otimização penetra na cozinha por meio de alternativas alimentares, como o Huel, e de aplicativos de contagem de calorias, transformando o ato de comer em mais uma atividade sujeita a medição e disciplina. Talvez este seja o aspecto menos surpreendente da obra: a crítica à autogestão neoliberal já é bastante conhecida, ainda que os exemplos apresentados sejam, por si só, reveladores. Mais instigante é a forma como esses exemplos se acumulam, compondo uma história de como o paladar inglês foi moldado pelo império, pela formação de classes e pela evolução das noções de aspiração.

As investigações presentes no livro tornam-se politicamente mais urgentes quando se voltam para a questão da terra. A Grã-Bretanha permanece dependente da importação de alimentos, ao passo que choques como guerras, interrupções no comércio e a alta dos preços evidenciaram a fragilidade do sistema alimentar. Contudo, vastas extensões do território rural continuam concentradas nas mãos de uma aristocracia latifundiária — cujas propriedades, inclusive, conseguem captar verbas públicas destinadas à preservação do patrimônio ou a projetos de agricultura voltada à conservação da natureza. Justo no momento em que questões como segurança alimentar e produção agrícola tornam-se cada vez mais difíceis de ignorar, a própria propriedade da terra é, com frequência, tratada como um tema que escapa ao debate político. A gestão ambiental de projetos ligados ao patrimônio pode, portanto, ser uma forma de modernizar a imagem de riquezas herdadas, sem alterar a estrutura que as sustenta. Questões mais radicais — como quem deveria ser proprietário da terra, o que ela deveria produzir e se a agricultura deveria ser organizada em função das necessidades nacionais, em vez do retorno de mercado — permanecem, em grande medida, fora do debate considerado aceitável.

A tensão entre luxo, trabalho e pobreza permeia o livro. Há algo quase itinerante na forma como a obra transita entre cozinhas, fazendas e pescarias — como se o próprio ato de trabalhar desse origem ao argumento, e estivéssemos ouvindo Bassett falar enquanto ele prepara os ingredientes. Cozinhar não é tratado nem como puro prazer, nem apenas como exploração. É uma atividade que exige técnica, é exaustiva, coletiva e, frequentemente, mal remunerada; ao mesmo tempo, pode resultar em criações extraordinárias que permanecem inacessíveis a grande parte da população. O problema político central reside no acesso a uma boa alimentação e na sua distribuição. Por que o refinamento, a abundância e o prazer deveriam ficar restritos àqueles que podem pagar por eles?

É por meio dessa indagação que The Full English utiliza a comida para levantar questões de maior alcance político. Para muitos socialistas da geração de Bassett, a derrota do "corbynismo" deixou em aberto o destino das energias políticas e dos hábitos intelectuais. Uma das respostas propostas aqui é o retorno ao trabalho — ao aprendizado prático e ao mundo material —, produzindo conhecimento a partir dessas vivências.

Há uma tradição de esquerda mais antiga por trás disso: a autoeducação de trabalhadores industriais — ou o exemplo de E. P. Thompson, que lecionava para adultos fora do ambiente universitário —, na qual a compreensão política surge da imersão em uma vida construída em torno de outros trabalhadores. The Full English insere-se, ainda que de forma flexível, nessa tradição. A obra transforma a experiência do trabalho em uma maneira de contar histórias sobre a nação e utiliza a comida como um meio de questionar para quem a Grã-Bretanha está organizada.

Colaborador

Ed Luker é escritor e crítico cultural radicado em Londres. Atualmente, ele escreve seu primeiro romance: uma comédia sombria sobre um empresário do setor de tecnologia megalomaníaco.

17 de outubro de 2026

Fim de mandato

Sobre os protestos na França.

Martin Barnay

Sidecar


A França tem uma longa história de jovens interferindo na política. O gaullismo, que surgiu impulsionado por um movimento juvenil, acabou naufragando por causa de outro. Em novembro de 1940, milhares de estudantes marcharam sob o Arco do Triunfo gritando “Vive de Gaulle”, num momento em que o general e seu movimento, a França Livre, contavam com o apoio de apenas uma pequena minoria. Em maio de 1968, uma revolta estudantil desencadeou uma crise social da qual a autoridade de de Gaulle jamais se recuperou. Menos de um ano depois, após perder um referendo, ele deixou o poder. Agora, uma nova rebelião juvenil ameaça deflagrar uma crise de legitimidade para a combalida presidência de Emmanuel Macron, justamente quando ele se aproxima dos seus últimos meses no cargo.

A agitação começou em meados de setembro em uma escola de ensino médio nos subúrbios a sudeste de Paris, onde eclodiram manifestações de alunos e professores devido à falta de funcionários e à deterioração das condições no local. Os protestos logo se espalharam pelo restante do país. No início de outubro, cerca de um terço das escolas de ensino médio (lycées) já havia sido afetado por interrupções ou fechamentos preventivos. Pais, estudantes universitários e sindicalistas passaram a apoiar o movimento, com manifestações ocorrendo em todas as principais cidades da França. A resposta do governo foi a repressão. Bloqueios em escolas — por vezes acompanhados por barricadas em chamas — foram enfrentados por contingentes de forças de segurança equipadas com blindados e por prisões em massa. Na segunda semana de outubro, quase sete mil pessoas haviam sido detidas pela polícia — 86% delas menores de idade —, um número que supera o total registrado ao longo de dez meses pelo movimento dos "coletes amarelos" (gilets jaunes). A polícia recorreu ao mesmo arsenal de granadas de efeito moral e de dispersão (contendo projéteis de borracha ou esferas) que foi utilizado contra as manifestações de 2018-2019, com resultados semelhantes. Um jovem de quinze anos perdeu uma das mãos em Lens; outro adolescente ficou cego de um olho em Tours. Eles passam a integrar a triste lista dos mutilés — manifestantes que sofreram mutilações decorrentes da atuação das forças de segurança pública sob o governo Macron.

A proibição do uso de telefones celulares no ensino médio, implementada no início do ano, parece ter servido como um catalisador. Contudo, as causas do descontentamento são muitas. Uma onda de calor, ocorrida em pleno período de exames em junho passado, evidenciou o estado precário de muitas instalações escolares. O Parcoursup, plataforma de admissão universitária introduzida em 2018, continua sendo motivo de ressentimento entre os alunos, que o veem como um instrumento de competição implacável — classificando os candidatos com base no desempenho acadêmico e deixando muitos na incerteza das listas de espera. Um fator mais estrutural da crise é a perda de atratividade da própria carreira docente. Os professores, em sua maioria funcionários públicos, têm visto seus rendimentos estagnados devido a longos períodos de congelamento salarial no setor público. No geral, a França não gasta um valor excepcionalmente baixo com o ensino médio; as desigualdades decorrem, na verdade, da forma como os recursos são distribuídos. Escolas situadas em subúrbios mais pobres e áreas periurbanas encontram-se em desvantagem em relação àquelas localizadas em centros urbanos mais abastados, ao passo que o setor privado — fortemente subsidiado — atende, de forma desproporcional, a famílias com maior poder aquisitivo. Em Seine-Saint-Denis, um dos primeiros redutos do movimento, estima-se que, ao chegar ao momento de prestar o baccalauréat (exame de conclusão do ensino médio), um aluno possa ter perdido o equivalente a quase um ano letivo inteiro, simplesmente porque os professores ausentes não foram substituídos. Tais queixas ganharam, ainda, um contorno geracional mais amplo, refletido em cartazes que remetem aos protestos da "Geração Z" — fenômeno observado desde o Nepal e o Marrocos até Madagascar.

O precedente mais revelador para a crise atual talvez seja a revolta dos estudantes do ensino médio (lycées) no outono de 1990 — outro levante que teve início nos subúrbios mais pobres de Paris. O estopim imediato foi o estupro de uma jovem de quinze anos dentro de sua escola em Saint-Ouen, em um cenário de crescente violência nas instituições de ensino. Professores e alunos relataram agressões, extorsões e a entrada de pessoas de fora nas escolas — locais que, segundo eles, haviam sido abandonados pelo Estado. As reivindicações iniciais por “segurança e limpeza” expandiram-se para incluir questões como a superlotação das salas de aula e a infraestrutura em ruínas. O movimento perdurou durante o feriado de Todos os Santos (Toussaint), culminando em manifestações que reuniram cerca de 300 mil pessoas por toda a França no dia 12 de novembro. Após minimizar, a princípio, a mobilização, o governo socialista de Michel Rocard anunciou um pacote de emergência no valor de 4,5 bilhões de francos. Assombrado pela morte de Malik Oussekine — um jovem estudante de origem argelina espancado até a morte por uma unidade policial motorizada durante um protesto contra reformas universitárias, quatro anos antes —, o governo orientou a tropa de choque a agir com moderação, tolerando uma desordem considerável para evitar o risco de uma nova morte. Nesse aspecto, o contraste com a resposta de Macron é gritante.

Laurent Nuñez, seu ministro do Interior, escolheu inicialmente o termo “violências urbanas” para descrever a agitação deste mês de setembro — uma expressão habitualmente associada a distúrbios nos subúrbios (banlieues). Essa caracterização tornou-se mais difícil de sustentar à medida que o movimento alcançou o Louis-le-Grand e o Henri-IV, liceus de prestígio situados no refinado 5º arrondissement e que ocupam o topo da hierarquia acadêmica francesa. A Sciences Po e a École Normale Supérieure foram bloqueadas; as instituições Assas e Mines Paris tiveram suas atividades interrompidas; e até mesmo o notadamente pacato Institut Catholique foi fechado por manifestantes — algo que, segundo o jornal Le Monde, não ocorria há muito tempo. O governo levou quase duas semanas para apresentar algo que se assemelhasse a uma resposta política: reuniões com organizações estudantis, a promessa de alocar 3.000 professores para suprir ausências nas escolas mais afetadas e uma nova plataforma online para coletar o feedback dos estudantes. É improvável que essa consulta desperte muito mais confiança do que os cahiers de doléances (cadernos de queixas) elaborados durante a crise dos “coletes amarelos” — registros de reivindicações públicas cujo nome remetia ao descontentamento camponês sob o Ancien Régime.

Caso a agitação persista, o ministro da Educação, Edouard Geffray, é o bode expiatório mais provável. Ex-chefe de gabinete do centrista François Bayrou, Geffray não é um estranho na Rue de Grenelle [sede do Ministério da Educação]. Ele ocupa cargos de alto escalão na pasta desde 2017, representando, portanto, um nível incomum de continuidade administrativa em um ministério que viu passar oito titulares durante os dez anos de Macron no poder. Contudo, Macron e seu primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, têm poucas cartas na manga, e a crise surge justamente no momento em que se iniciam as negociações para o próximo orçamento. Nuñez encontra-se em uma posição particularmente vulnerável devido à polêmica em torno da repressão policial aos protestos estudantis. Ele já estava sob pressão por conta de um escândalo recente envolvendo Rima Hassan, do partido La France Insoumise (LFI) — detida sob a suspeita de "apologia ao terrorismo" por comentários pró-Palestina feitos em redes sociais. Na ocasião, Nuñez foi flagrado em vídeo afirmando, falsamente, a jornalistas que drogas teriam sido encontradas entre os pertences da eurodeputada, que nasceu na Palestina. Hassan apresentou uma queixa contra ele por violação do sigilo de investigação. Em uma administração menos desgastada, o episódio teria sido, possivelmente, motivo suficiente para forçar sua renúncia. Mas Macron se apega aos poucos auxiliares de confiança que lhe restam, a apenas seis meses da eleição presidencial.

A convergência de lutas é o que mais preocupa o governo. Muitos dos que estão nas ruas são jovens demais para votar, mas a revolta estudantil pode se tornar um ponto de convergência para reivindicações que vão muito além da educação — sobretudo o custo de vida e os preços dos combustíveis. Os ministros esperam, claramente, que o recesso escolar, que começa esta semana, interrompa o ímpeto do movimento. No entanto, uma convocação para novos protestos no dia 17 de outubro — que circulou amplamente, surgindo no TikTok e ganhando força em outras plataformas — trouxe à tona o fantasma dos "coletes amarelos" (gilets jaunes), cujo levante contra o aumento dos impostos sobre combustíveis, em novembro de 2018, resultou em meses de confrontos violentos no centro de Paris. O governo acompanhará de perto o setor de transporte rodoviário de cargas, já que os caminhoneiros foram, na época, um dos principais protagonistas daquele movimento. O primeiro-ministro Lecornu determinou a liberação de dez milhões de barris de diesel das reservas estratégicas; segundo o governo, a medida deve reduzir o preço do combustível nas bombas em cerca de quinze centavos por litro.

Em todas as frentes, a presidência de Macron caminha, com dificuldade, para o seu fim. Sua década no poder foi marcada por crises sucessivas — desde os "coletes amarelos" até os protestos em massa contra a reforma da previdência e o impasse parlamentar que se seguiu à sua decisão de dissolver a Assembleia Nacional em 2024. Eleito sob a promessa de superar as divisões partidárias, Macron acabou presidindo um distanciamento cada vez maior entre o establishment político e grande parte do eleitorado. No cenário internacional, o presidente mantém uma postura hiperativa, embora com pouca capacidade aparente de influenciar o curso dos acontecimentos. A Ucrânia é o exemplo mais claro: Paris mantém um apoio firme a Kiev e uma linha dura em relação a Moscou, mesmo enquanto Washington pressiona pela retomada de negociações. O mercado de títulos públicos representa um problema ainda mais grave. O rendimento da dívida soberana francesa de dez anos aproximou-se de 5% — o patamar mais alto em quase vinte e cinco anos —, ampliando significativamente o diferencial (spread) em relação aos títulos alemães. A imprensa financeira anglo-americana já se refere à França como o "novo doente" da zona do euro. Ao final do segundo trimestre, a dívida pública atingia 119% do PIB. O grupo de Macron argumenta que o presidente, que manteve sua postura de “o que for preciso” diante da crise da Covid, também teve de lidar com os choques energéticos provocados pelas guerras na Ucrânia e no Irã. Contudo, suas políticas favoráveis ​​ao setor empresarial também tiveram seu papel. O Tribunal de Contas (Cour des Comptes) estima que os cortes em impostos e contribuições para a seguridade social, implementados desde 2018, representavam um custo para as finanças públicas de cerca de € 62 bilhões por ano em 2023 — o equivalente a 2,2 pontos percentuais do PIB, ou aproximadamente metade do déficit estrutural daquele período. O rombo fiscal é, portanto, em parte, resultado de escolhas políticas deliberadas para reduzir a tributação sobre as empresas e as contribuições patronais, mesmo em um cenário em que os gastos públicos foram contidos, o acesso ao seguro-desemprego foi restringido e a idade de aposentadoria, elevada. Para grande parte da população, as exigências de sacrifício que decorrem desse quadro soam vazias, vindas de um governo cuja generosidade para com o setor empresarial raramente veio acompanhada de contrapartidas.

A incerteza sobre como o BCE poderia reagir a um novo aumento nos custos de endividamento da França intensificou a tensão. A Bloomberg levantou questões sobre até onde Christine Lagarde, presidente do Banco, poderia ir para socorrer seu país natal sem atrair acusações de favoritismo. A própria Lagarde insistiu, esta semana, que a solução para os problemas de dívida da França reside em Paris, e não em Frankfurt. Caso ela renuncie antes do fim de seu mandato — algo que ela sugeriu ser possível —, é improvável que seu sucessor (Klaas Knot, ex-chefe do banco central holandês, está entre os nomes cogitados) adote uma postura mais flexível. Por mais alarmistas que sejam os alertas dos mercados financeiros, seu impacto político é real. Eles deixam ao governo pouca margem de manobra para apaziguar a opinião pública.

A sete meses da eleição presidencial, a campanha encontra os principais blocos políticos em diferentes estágios de desorganização. O Rassemblement National (RN) lidera as pesquisas com uma ampla vantagem — o levantamento mais recente da Odoxa aponta Marine Le Pen com 37% das intenções de voto, contra 18% de Jean-Luc Mélenchon e 17% de Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro de Macron e provável representante do centro-direita. Contudo, grande parte do drama até agora tem origem no próprio RN. Le Pen voltou a estar legalmente apta a concorrer, após a redução, em grau de recurso, da sanção que a impedia de disputar eleições; por outro lado, Jordan Bardella — visto há tempos como o "plano B" do partido — viu sua posição enfraquecida pela revelação de mensagens antissemitas que teriam sido escritas por ele no início de sua trajetória política. O fato de o material ter partido de pessoas próximas a Bardella alimentou suspeitas de um acerto de contas interno. Embora o episódio não tenha, até o momento, retirado Le Pen da liderança, ele complica um dos pilares da estratégia do RN: Bardella é um ativo importante, não apenas por ser uma figura jovem, mas por representar, dentro do partido, uma voz liberal e favorável ao mercado, o que transmite maior tranquilidade. Le Pen continua a apoiá-lo; ele estava ao seu lado quando ela apresentou seu plano orçamentário este mês: 140 bilhões de euros em economias líquidas até 2032 e uma "regra de ouro" constitucional que exige reduções anuais no déficit — uma medida destinada a dissipar as preocupações dos investidores. Uma pequena ironia para um partido que defende a "preferência nacional", visto que mais da metade da dívida pública francesa está nas mãos de estrangeiros.

A direita tradicional e o centro macronista, por outro lado, enfrentam dificuldades para encontrar um sucessor para o atual presidente, que está constitucionalmente impedido de buscar um terceiro mandato consecutivo. Assim como em 2022, os nomes apresentados ainda não despertaram um entusiasmo à altura de suas ambições. Philippe é o candidato preferido de uma parte considerável do círculo próximo a Macron. Protegido de Alain Juppé — um pilar do centro-direita pró-europeu na França —, ele cultivou uma imagem de neutralidade tranquilizadora. Bruno Retailleau, líder da ala mais à direita do partido *Les Républicains*, pode vir a apoiá-lo. Contudo, a relação de Philippe com Macron permanece tensa desde sua saída do cargo de primeiro-ministro, em 2020. Uma vitória de Philippe em 2027 poderia frustrar as esperanças do próprio Macron de retornar ao Palácio do Eliseu cinco anos mais tarde. Afinal, em 2032, o presidente terá apenas 54 anos e estará constitucionalmente livre para concorrer novamente.

No centro-esquerda, a situação não é muito mais promissora. Uma chamada "primária social-democrata" — organizada pelo Partido Socialista, pelo movimento *Place Publique* (de Raphaël Glucksmann) e pela agremiação menor *Gauche républicaine et socialiste* — terminou, no dia 11 de outubro, com uma vitória decisiva de Glucksmann, que obteve 66% dos votos. No entanto, apenas 140 mil pessoas se registraram para participar, um número bem inferior aos mais de dois milhões que participaram da primária socialista de 2017. Pessoas sem filiação partidária — a grande maioria dos participantes — tiveram de pagar 15 euros para registrar seu voto online; além disso, os programas dos candidatos ainda não estavam disponíveis na plataforma na véspera da abertura da votação. A votação foi interrompida pelo que os organizadores chamaram de “ciberataque”, o que os obrigou a prorrogar o prazo em um dia. Toda a iniciativa visava, em grande parte, posicionar Glucksmann como um desafiante crível a Mélenchon pela liderança da esquerda. Se ele tem alguma chance de obter sucesso, isso já é outra história.

Glucksmann, filho do filósofo neoconservador André Glucksmann, cresceu no pequeno círculo da “semi-intelligentsia” parisiense, muito afeita à mídia. Após apoiar a candidatura de Nicolas Sarkozy em 2007, passou quatro anos como assessor do presidente georgiano Mikheil Saakashvili, um fervoroso defensor do alinhamento com o Ocidente. Atualmente eurodeputado, eleito por uma lista apoiada pelos socialistas, Glucksmann tornou a defesa e a política externa sua especialidade; ele defende o rearmamento, o aumento do apoio militar à Ucrânia e uma postura mais rígida em relação à Rússia e a outros inimigos do Ocidente. Apesar da atenção lisonjeira da mídia, pesquisas recentes para o primeiro turno indicam que ele conta com cerca de 9% das intenções de voto. Além disso, ele não demonstrou nada que se assemelhe àquela energia ao estilo “Rastignac” que impulsionou a campanha de Macron em 2017. François Hollande, por sua vez, optou por não participar das primárias e permanece observando à margem. Uma eventual entrada tardia do ex-presidente na disputa correria o risco de dividir ainda mais um campo socialista já bastante enfraquecido.

Mélenchon, por outro lado, tem conseguido, até o momento, evitar grande parte das turbulências internas que afetam seus concorrentes. Uma investigação judicial, que durou oito anos, sobre os assistentes do LFI no Parlamento Europeu foi encerrada nesta primavera sem a formalização de qualquer acusação. Paralelamente, os protestos estudantis colocam Mélenchon em um terreno favorável, com a juventude urbana — um segmento que ele muito contribuiu para politizar — no centro dos acontecimentos. As pesquisas atuais indicam que ele está ligeiramente à frente de Philippe na disputa pelo segundo lugar, o que abre a possibilidade de um segundo turno entre o líder do LFI e Le Pen. A perspectiva de uma agitação social mais ampla neste outono poderia, à primeira vista, ser vantajosa para Mélenchon. Contudo, uma campanha marcada por confrontos com a polícia o obrigaria a dedicar grande parte de seu tempo a discussões sobre violência e ordem pública, em vez de realizar os grandes comícios e as intensas ações de educação política que foram a marca registrada de suas campanhas presidenciais anteriores. O RN entra na disputa com o dobro do apoio de seus rivais mais próximos, enquanto os partidos que governaram a França durante a maior parte da Quinta República encontram-se fragmentados ou em declínio. Quem quer que vença em 2027 herdará as mesmas restrições fiscais, somadas a uma população cada vez menos disposta a arcar com os custos decorrentes delas.

15 de outubro de 2026

Memória obstinada

Patricio Guzmán (1941–2026).

Tony Wood

Sidecar


Houve uma pungência sombria no momento da morte do cineasta chileno Patricio Guzmán, em 15 de setembro. Mais conhecido por A Batalha do Chile (1975-79), a sua trilogia que narra o triunfo e o fim agonizante do governo de Salvador Allende, Guzmán morreu poucos dias após o aniversário do golpe de Estado de 1973 liderado por Augusto Pinochet – e pouco depois de o governo de extrema-direita de José Antonio Kast ter cancelado uma comemoração deste ataque traumático ao regime democrático. Guzmán passou a sua carreira documentando as cicatrizes deixadas pela ditadura de Pinochet, na esperança de que a memória histórica pudesse funcionar como um baluarte contra futuras guinadas para o autoritarismo. Com a eleição, no ano passado, de Kast, um apoiador declarado de Pinochet, e no meio de um ressurgimento mais amplo da extrema direita em toda a América Latina, esse projeto parece ter encalhado. No entanto, se os filmes de Guzmán constituem um registo de perdas para a esquerda, também fornecem testemunho da riqueza e da intensidade das lutas populares.

Nascido em Santiago em 1941, Guzmán formou-se inicialmente no Chile e, posteriormente, em uma escola de cinema em Madri. Ao retornar ao seu país, integrou a unidade de documentários da produtora cinematográfica nacional e realizou seu primeiro longa-metragem em 1972. El primer año (O Primeiro Ano) retrata as fases iniciais do governo Allende — desde a reação de pânico da burguesia e a onda de ocupações de terras pelos indígenas mapuches até a nacionalização do cobre, principal produto de exportação do país, promovida por Allende. Alguns elementos característicos do estilo de Guzmán já estavam presentes ali: planos longos, foco cerrado nos rostos e a ênfase nas falas dos entrevistados, que servem tanto para a exposição dos fatos quanto para a análise. Logo em seguida, veio La respuesta de octubre (A Resposta de Outubro, 1972), que aborda a greve patronal destinada a intensificar a pressão sobre Allende. Em um cenário no qual um embargo comercial imposto pelos Estados Unidos — Nixon, como é sabido, prometera "fazer a economia gritar" — tornava impossível a aquisição de película, Guzmán conseguiu dar início ao seu projeto seguinte graças ao cineasta francês Chris Marker, que, admirador de El primer año, doou rolos de filme virgem.

Ao lado de uma equipe de cinco pessoas, Guzmán percorreu as ruas de Santiago em 1973, munido de uma câmera Éclair de 16 mm e um gravador Nagra, registrando o clima cada vez mais tenso enquanto Allende tentava manter seu rumo e a direita se preparava para derrubá-lo do poder. As imagens captadas por Guzmán deram origem a A Batalha do Chile: as duas primeiras partes abordam, respectivamente, A Insurreição da Burguesia (1975) e o desenrolar do Golpe de Estado (1976). A terceira parte, Poder Popular (1979), volta o foco para a ascensão da militância da classe trabalhadora durante esse mesmo período. O estilo visual e o ritmo de montagem do filme situam-no claramente nas tendências do "Terceiro Cinema" das décadas de 1960 e 1970 — exemplificadas por documentários como A Hora dos Fornos (1968), de Fernando Solanas e Octavio Getino —, embora a abordagem de Guzmán seja menos didática, ainda que seus compromissos políticos sejam evidentes. A Batalha do Chile é, sem dúvida, uma das obras mais notáveis ​​do cinema político já realizadas, além de constituir um documento inigualável de seu contexto. Mesmo após repetidas visualizações, a obra mantém sua intensidade e imediatismo — em parte graças ao espaço que Guzmán concede aos seus entrevistados (incluindo aqueles ligados à direita), mas também devido à proximidade da câmera em relação aos acontecimentos, situando-se no nível do solo. Um preço alto foi pago por isso: ao final da primeira parte, vemos um soldado, do outro lado da rua, apontando seu fuzil para a câmera; instantes depois, a imagem tomba em direção ao solo. Acabamos de presenciar o momento em que o cinegrafista, Leonardo Henrichsen, foi morto, em 29 de junho de 1973.

Pouco depois do golpe de 11 de setembro, Guzmán foi preso e mantido no Estádio Nacional, juntamente com milhares de outras pessoas. Ao contrário de muitos outros, ele foi libertado após duas semanas e conseguiu deixar o país. O material filmado por ele seguiu um caminho mais sinuoso: contrabandeado por seu tio para dentro da embaixada da Suécia, foi levado a Valparaíso na mala diplomática e, de lá, seguiu de barco até Estocolmo, onde Guzmán recuperou os rolos de filme. Ele os levou para Cuba, onde, com quatro de seus coprodutores, montou a obra A Batalha do Chile, sob os auspícios do ICAIC, o instituto de cinema cubano. (O quinto coprodutor, Jorge Müller, foi sequestrado e assassinado pelos serviços de segurança chilenos em 1974.)

Lançado sob aclamação internacional imediata, o filme contribuiu de forma fundamental para uma maior conscientização, fora do Chile, sobre os crimes da ditadura. Dentro do país, naturalmente, não havia possibilidade de exibi-lo enquanto Pinochet estivesse no poder. Contudo, mesmo após o ditador deixar o cargo em 1990 — tendo sido derrotado em um plebiscito em 1988 —, os termos tácitos da "transição pactuada" chilena impuseram limites rígidos a críticas ao antigo regime. De forma sintomática, A Batalha do Chile foi exibido pouquíssimas vezes no próprio país; sua primeira exibição na televisão chilena ocorreu apenas em setembro de 2021.

A maior parte da produção posterior de Guzmán lidou com a questão da memória histórica no Chile — ou, melhor dizendo, com a solidez de uma amnésia histórica muito bem preservada. Embora tenha vivido na França desde que deixou o Chile, em 1973, até o fim de sua vida, a partir do final da década de 1990, Guzmán retornou frequentemente à sua terra natal para realizar filmes. Quase todos eles giram em torno da ruptura traumática de 1973, revisitando aquele desastre ou explorando suas consequências. Em Memória Obstinada (1997), ele reencontra vários militantes da Unidade Popular que havia entrevistado em A Batalha do Chile e exibe o filme para um grupo de estudantes atuais — muitos dos quais ficam visivelmente chocados com o que veem. Igualmente marcante é o uso de imagens de protestos e da repressão estatal, registradas na década de 1980 por Pablo Salas, um documentarista cuja trajetória é, de certa forma, o espelho inverso da de Guzmán: enquanto Guzmán filmou a ascensão da ditadura antes de partir em 1973, Salas começou a trabalhar apenas na década de 1980, testemunhando, assim, o fim do regime.

Nos anos 2000, Guzmán realizou um filme sobre a prisão de Pinochet em Londres, em 1998 (O Caso Pinochet, 2004), além de um documentário biográfico sobre Allende (2004). Na década de 2010, seguiu-se uma trilogia na qual a paisagem chilena serve como ponto de partida para explorar a história do país. Nostalgia da Luz (2010) nos leva ao Deserto do Atacama, onde observatórios permitem que cientistas sondem as profundezas do universo, enquanto familiares de desaparecidos buscam, no solo árido, os restos mortais de seus entes queridos. O Botão de Pérola (2015) concentra-se no extremo sul do país, narrando o genocídio — ocorrido no século XIX — dos povos nômades do mar (Kawésqar, Yaghan e Selk’nam), bem como as brutalidades do regime de Pinochet, que descartava inúmeros corpos de suas vítimas lançando-os de helicópteros ao mar. Em A Cordilheira dos Sonhos (2019), ele compara a ditadura a um evento sísmico, convocando a imensidão silenciosa dos Andes — que, segundo uma estimativa, ocupa 80% da superfície do Chile — para testemunhar os horrores do passado.

Esses filmes possuem um tom meditativo e, muitas vezes, lírico, sendo visualmente muito impactantes; contudo, também são marcados por um distanciamento inquietante em relação ao seu objeto — algo que se torna literal por meio do uso recorrente de imagens aéreas captadas por drones. Em A Cordilheira dos Sonhos, Guzmán menciona sua crescente incompreensão em relação ao seu próprio país. Ele também aponta para a longa sombra de 1973, confessando que, desde o dia do golpe, sente “uma angústia oculta... como se algo tivesse se desprendido sob meus pés, como [em] um terremoto”. Embora, tecnicamente, não fosse um exilado — ele deixou o Chile, inicialmente, com um visto de turista —, Guzmán vivenciou, de fato, a condição de desenraizamento típica do exílio; seus retornos frequentes ao Chile talvez tenham agravado, em vez de reparar, essa ruptura.

Ainda assim, uma sensação de energia renovada e esperança perpassa o último filme de Guzmán, Meu País Imaginário (2022), que aborda o estallido social — a explosão social — que rompeu as fronteiras da política chilena entre 2019 e 2020. Desencadeados por um aumento nas tarifas de transporte, os protestos rapidamente escalaram para uma rejeição generalizada à ordem estabelecida no pós-ditadura; como dizia o slogan dos manifestantes: “não são 30 pesos, são 30 anos”. Em vez de tentar um retrato sistemático, Guzmán conversa com diversas figuras da base do movimento, acolhendo com empatia suas vertentes feministas e de apoio aos povos indígenas. O filme nutre-se claramente do otimismo daquele momento, retratando a ascensão iniciada em 2019, passando pelas vitórias da esquerda no plebiscito constitucional de 2020 e nas eleições para a convenção constitucional em 2021, culminando na chegada de Gabriel Boric à presidência, no final daquele ano. À época, o retorno da esquerda socialista ao poder, após quase cinquenta anos, parecia encerrar um ciclo de imobilismo e, ao mesmo tempo, abrir caminho para uma mudança transformadora. Olhar hoje para trás, diante da frustração dessas esperanças — após a derrota de uma proposta de constituição altamente progressista em 2022 e a vitória de Kast em 2025 —, torna a experiência de assistir ao filme algo amargo.

Os filmes de Guzmán deram contribuições fundamentais à memória histórica da queda de Allende; A Batalha do Chile permanecerá como um recurso essencial para os chilenos que buscam reconstruir a sucessão implacável de acontecimentos e a atmosfera do início da década de 1970. Contudo, no presente — um cenário em que o estigma associado à ditadura claramente diminuiu, o passado já não serve como um alerta e a brutalidade do regime tornou-se, cada vez mais, uma abstração para as gerações que não a vivenciaram —, talvez não seja esse o aspecto da obra de Guzmán que se mostrará mais valioso para o público do futuro. Em Poder Popular, a terceira parte de A Batalha do Chile, deparamo-nos com um movimento operário rico e vibrante, dotado de uma coerência e militância que lhe permitiram organizar uma defesa corajosa de Allende, ao mesmo tempo em que criticava e contestava o seu governo sempre que sentia necessidade. Esse movimento era, naturalmente, aquilo que a ditadura visava esmagar; a sua ausência, hoje, é uma medida do que foi perdido. Mas pode ser, também, uma medida daquilo que os chilenos poderão voltar a construir. Guzmán captou a força e o sentimento dessa experiência coletiva — esse vislumbre de uma liberdade por vir — como ninguém mais. Por volta da metade de Poder Popular, a câmera acompanha, durante um minuto e meio, um homem que puxa um carrinho de madeira de cabo longo por uma rua de Santiago. O carrinho está abarrotado de objetos variados, mas o homem avança em ritmo acelerado — não tanto correndo, mas deslizando —, com os pés tocando o chão apenas o suficiente para manter o impulso para a frente. Parece, quase, que ele está voando.

O historiador Eric Hobsbawm foi um "polímata comunista"

Emile Chabal, autor de uma nova biografia do historiador Eric Hobsbawm — figura imensamente popular e influente —, explica como as raízes centro-europeias de Hobsbawm o diferenciaram na Grã-Bretanha, e por que ele manteve sua fidelidade ao comunismo ao longo das devastações de seu século.

Entrevista com
Emile Chabal


Eric Hobsbawm chegou a Londres ainda adolescente, um cidadão britânico que nunca morou na Grã-Bretanha. Ele adquiriu rapidamente hábitos intelectuais britânicos, mas seu senso de classe se formou em outro lugar e seu trabalho manteve um pé no continente por toda a vida. (BBC/YouTube)

Entrevista por
Michael Schapira

A vida de Eric Hobsbawm começou exatamente quando o “longo século XIX” chegava ao fim. Nascido em Alexandria, no Egito, e formado durante a juventude na “Viena Vermelha” e na Berlim da era de Weimar, ele alcançou a maturidade intelectual em Cambridge, no período entre guerras, e em Londres, no pós-guerra. Sua tetralogia das “Eras” garantiu-lhe um lugar consolidado em ementas de cursos e nas estantes daquilo que ele chamou, em A Era das Revoluções, de “o cidadão inteligente e instruído, que não está apenas curioso sobre o passado, mas deseja compreender como e por que o mundo se tornou o que é hoje e para onde ele está caminhando”. E ele foi — de forma paradoxal para alguém que alcançou tamanha popularidade — um comunista convicto que, para o bem ou para o mal (dependendo de a quem se pergunte), vinculou-se a uma visão específica de um futuro melhor, ao mesmo tempo em que testemunhava uma época que ele batizou de “era dos extremos”.

No entanto, apesar de ser, como define seu biógrafo Emile Chabal, um “polímata comunista, com um alcance notável sobre o panorama teórico e empírico da história moderna”, Hobsbawm — ao contrário de muitos de seus pares no continente europeu — “raramente figura no cânone do pensamento de esquerda ou marxista”. Por que isso acontece é uma das questões que impulsionam a fascinante e abrangente nova história intelectual de Chabal, intitulada The Age of Hobsbawm (A Era de Hobsbawm).

Chabal é professor de história contemporânea na Universidade de Edimburgo; o lançamento de seu livro o levou a St Andrews, na Escócia, para um evento com o autor em nossa livraria independente local. É uma prova do apelo duradouro de Hobsbawm o fato de que, mesmo hoje — em uma cidade dominada por entusiastas do golfe e estudantes de elite —, um público composto por marxistas convictos desde a década de 1970, autodidatas de esquerda e estudantes de pós-graduação curiosos tenha comparecido para uma discussão vibrante sobre a teoria e a política da esquerda no século XX, bem como suas perspectivas nos dias atuais. O que se segue é um desdobramento da conversa que tivemos naquela noite, servindo também como uma introdução ao mundo e ao legado de Hobsbawm.

Michael Schapira

Você menciona no prefácio que, inicialmente, pretendia “escrever uma história do marxismo francês no pós-guerra, que captasse parte da riqueza e da complexidade da política radical na França”. Mas logo percebeu que poderia “alcançar os mesmos objetivos examinando Hobsbawm mais de perto”. Hobsbawm tinha fortes conexões com a vida intelectual francesa e com o eurocomunismo de modo geral; contudo, tanto ele quanto o marxismo britânico possuem um caráter bem distinto de suas variantes francesas. Em que sentido Hobsbawm atendeu às suas aspirações iniciais, e de que maneira o deslocamento do foco para ele abriu novos caminhos para explorar a política radical do pós-guerra?

Emile Chabal

Quando comecei a trabalhar sobre Hobsbawm, no final de 2012, eu era um pesquisador em pós-doutorado recém-formado. Havia passado os cinco anos anteriores estudando a história e a política francesas contemporâneas; por isso, era talvez inevitável que conceitos franceses — como o de “intelectual” e a ideia sartriana de engajamento — estivessem tão presentes em minha mente.

Você tem razão, no entanto: o marxismo britânico do pós-guerra tem um caráter bem diferente de sua contraparte francesa (ou continental). Era menos abstrato, menos ideológico e menos explicitamente filosófico. O que torna Hobsbawm interessante é o fato de ele ter transitado entre as tradições intelectuais britânica e da Europa continental muito mais do que outros de seus contemporâneos marxistas britânicos.

O que torna Hobsbawm interessante é o fato de ele ter transitado entre as tradições intelectuais britânica e da Europa continental muito mais do que outros de seus contemporâneos marxistas britânicos.

Como estudante, no final da década de 1930, ele foi profundamente moldado pelo ambiente peculiar de Cambridge, mas também se via como parte integrante de um movimento comunista global, cuja base estava em Paris. Após a Segunda Guerra Mundial, ao buscar consolidar seu nome como historiador, ele continuou a transitar entre a Grã-Bretanha e a Europa continental, em um esforço para encontrar interlocutores e mentores valiosos.

À medida que fui aprendendo mais sobre o incessante vai e vem de Hobsbawm entre o Reino Unido e o continente europeu, senti-me grato por ter me dedicado aos estudos sobre a França em uma fase anterior de minha trajetória; isso me proporcionou uma perspectiva única sobre sua formação intelectual e sua identidade. E isso também me ajudou a superar a divisão — muitas vezes bastante estéril — entre as histórias intelectuais da política radical no mundo anglófono e na Europa continental.

Michael Schapira

Perto do fim da vida, Hobsbawm voltou-se para seus anos de formação em Viena e na Berlim da era de Weimar, descrevendo sua experiência como a de uma geração cuja visão de mundo estava desaparecendo. Contudo, ele também desenvolveu hábitos mentais e comportamentais que refletiam claramente seu período em Cambridge, tornando-se reconhecidamente britânico em muitos aspectos de sua escrita e de seu trabalho.

Isso me lembrou o excelente perfil traçado por Owen Hatherley sobre os imigrantes da Europa Central que chegaram à Grã-Bretanha na mesma época que Hobsbawm e que, nas palavras de Walter Gropius, ficaram chocados com o “mundo inartístico e carregado de sentimentalismo” que os recebeu. Pode ser uma simplificação injusta, mas será que Hobsbawm manteve, de fato, esse “efeito de estranhamento” — como diz Hatherley —, ou será que aspectos de sua biografia e personalidade o tornaram particularmente apto para a vida cultural e política britânica?

Emile Chabal

Acredito ser importante enfatizar que Hobsbawm não era um emigrante ou refugiado da Europa Central. Ele seguiu uma trajetória semelhante (no seu caso, de Viena para Berlim e, depois, para Londres, em meados da década de 1930) e, certamente, considerava Londres, em 1933, desesperadoramente entediante em comparação com Berlim. Contudo, ele era um cidadão britânico e falante nativo de inglês. Ao chegar a Londres, ele estava, no papel, voltando para “casa”, ainda que nunca tivesse vivido no Reino Unido. Ele era, portanto, um outsider — alguém de fora, mas não um estrangeiro.

Seria mais preciso, então, entender o jovem Hobsbawm passando por um processo muito rápido de aculturação e assimilação após sua chegada a Londres — e, como era apenas um adolescente, ele descobriu que o sistema escolar era uma excelente via para se tornar britânico. Inevitavelmente, isso significou que algumas de suas características mais tipicamente britânicas — sua agilidade intelectual, seu compromisso com a concisão, sua facilidade com a retórica autodepreciativa e com o debate — foram forjadas durante seus anos finais de ensino médio em Londres e como estudante em Cambridge. Esses traços intelectuais permaneceram facilmente reconhecíveis pelo resto de sua vida.

Quando Hobsbawm chegou a Londres, ele estava “voltando para casa”, mesmo sem nunca ter vivido no Reino Unido. Ele era um outsider, não um estrangeiro.

Por outro lado, contudo, ele não era nada britânico. É notável, por exemplo, o quão pouco desconforto de classe ele parece ter sentido. A maioria dos intelectuais britânicos de esquerda de sua geração — fossem comunistas ou não — nutria ressentimento, ou até mesmo raiva, em relação às amarras do sistema de classes britânico; mas as coordenadas de classe de Hobsbawm situavam-se em outro lugar: no universo burguês da Europa Central. Fundamentalmente, ele não vivenciou o período crucial entre o final da infância e o início da adolescência, fase em que o sistema de classes britânico é incutido de forma mais agressiva, tanto por meio da escola quanto da sociedade em geral.

Ao chegar, ele pôde simplesmente transcender os preconceitos de classe ao se destacar academicamente — tanto na escola quanto, mais tarde, na universidade. Isso o tornava notavelmente tolerante a manifestações de preconceito de classe no sistema de ensino superior da Grã-Bretanha. Se ele não gostava da *High Table* em Cambridge, era porque achava as pessoas entediantes, e não porque aquilo fosse uma expressão de desigualdade de classe!

Michael Schapira

Hobsbawm é um caso atípico pelo seu compromisso com o comunismo — especialmente em sua vertente leninista, orientada pelo partido. Enquanto muitos aproveitaram o ano de 1956 para abandonar de vez a causa ou seguir um novo rumo (incluindo aqueles que viriam a fundar periódicos influentes, como a New Left Review), Hobsbawm manteve-se fiel ao seu caminho, na medida de suas possibilidades.

Isso fica mais evidente em sua entrevista à BBC, em 1994, com Michael Ignatieff, na qual ele defende o que Ignatieff considera uma posição indefensável: o apoio às aspirações do comunismo, mesmo após os acontecimentos do século XX.

Você acha que isso ajuda a explicar por que ele nunca encontrou, de fato, um lugar no cânone do pensamento marxista? E como isso se concilia com sua ascensão ao status de intelectual célebre e autor de best-sellers?

Emile Chabal

Dando continuidade à pergunta anterior, pode-se argumentar que o compromisso de Hobsbawm com o comunismo era mais um traço de sua personalidade decididamente "não britânico". Em vez de adotar uma postura pragmática em relação ao futuro da esquerda — afastando-se do Partido Comunista após 1956 —, ele manteve sua adesão a uma ideia política; trata-se, precisamente, do tipo de "dogmatismo" que muitos na Grã-Bretanha viam (e ainda veem) como uma patologia da política da Europa continental. É por isso, creio eu, que muitas de suas entrevistas na década de 1990 — incluindo a famosa conversa com Ignatieff — foram tão desconfortáveis. Ele e Ignatieff falavam sem se entender: Hobsbawm tentava explicar seu profundo compromisso com um ideal, uma utopia futura, algo que o transcendia, enquanto Ignatieff insistia para que ele fizesse um julgamento moralista.

Em vez de adotar uma postura pragmática, afastando-se do Partido Comunista após 1956, ele manteve sua adesão a uma ideia política.

É interessante refletir sobre como o comunismo de Hobsbawm pode ter influenciado a recepção de sua obra e seu sucesso junto ao grande público. Na verdade, não creio que seu comunismo seja o motivo de ele ter sido, de certa forma, deixado de lado no "cânone" marxista. Acredito que isso tenha muito mais a ver com o fato de ele sempre ter se apresentado como “historiador”, e não como “teórico”. No livro, procuro argumentar que Hobsbawm era um pensador bastante sério e que possuía uma sólida base teórica; contudo, alguns podem discordar, justamente porque ele se esforçou tanto para minimizar suas credenciais teóricas.

O que é inquestionável é que ele foi um fenômeno editorial de grande público, e isso pode, muito provavelmente, estar relacionado ao seu comunismo. Paradoxalmente, no entanto, isso provavelmente não ocorre porque as pessoas viam seus escritos como dogmaticamente comunistas — um leitor iniciante de A Era dos Extremos poderia, inclusive, nem perceber que ele era marxista! —, mas sim porque sua abordagem comunista da história conferia uma base poderosa ao seu trabalho. Muitos se sentiram atraídos pelos textos de Hobsbawm por terem a sensação de que, neles, a história está em movimento; isso decorre, em grande medida, de sua filosofia da história subjacente.

Michael Schapira

Há capítulos extensos dedicados ao trabalho de Hobsbawm como crítico (por exemplo, de jazz, tema sobre o qual ele escrevia uma coluna regular) e às suas viagens pelo mundo. Essas inclusões ampliaram imensamente o projeto, incorporando entrevistas com personalidades de diversas partes do globo e revelando um vasto acervo de textos que muitos talvez não considerem centrais em sua obra. Em que momento esses elementos se tornaram uma parte importante do seu projeto?

Emile Chabal

Sim, tenho orgulho desses capítulos no livro! Tanto na minha análise de Hobsbawm como crítico cultural quanto na seção dedicada às suas viagens, busquei ampliar o escopo da história intelectual para abarcar diferentes gêneros de escrita. Para mim, era fundamental demonstrar que Hobsbawm foi tanto jornalista quanto acadêmico — e que essas duas identidades se reforçavam mutuamente.

Hobsbawm foi tanto jornalista quanto acadêmico — e essas duas identidades se reforçavam mutuamente.
Considerando que ele foi um acadêmico durante toda a vida e, inequivocamente, um historiador profissional, pode parecer estranho colocar seus textos jornalísticos e acadêmicos no mesmo patamar; contudo, basta observar sua bibliografia: ele publicou centenas de artigos de opinião, ensaios e resenhas jornalísticas. Esse material constitui uma parte expressiva de sua obra publicada. Nas páginas de publicações como New Statesman, Rinascita ou Times Literary Supplement, é possível vê-lo comentando a atualidade e desenvolvendo novas ideias (sobre o papel da cultura na sociedade, por exemplo). Creio que foi o trabalho que realizei na bibliografia online completa de Eric Hobsbawm, entre 2019 e 2020, que me fez compreender, de fato, a relevância desses escritos — muitas vezes vistos como efêmeros.

Michael Schapira

Nos capítulos dedicados às suas viagens, há descrições de como Hobsbawm recorria extensamente a entrevistas e conversas — por vezes, de maneiras metodologicamente questionáveis. Ao final do seu livro, consta uma longa lista de entrevistas que você realizou com historiadores, ativistas, políticos e outras pessoas, ao longo de vários anos e em diversos locais. O que o inspirou a ir além da pesquisa de arquivo tradicional e embarcar neste ambicioso projeto de entrevistas?

Emile Chabal

Sempre quis que o livro tivesse um caráter global, refletindo, assim, a própria dimensão global de seu objeto de estudo. Contudo, como o próprio Hobsbawm sabia muito bem, ambições globais são limitadas pelos recursos financeiros disponíveis. Foi o que aconteceu comigo: somente após receber uma importante bolsa de pesquisa, em 2017, pude realizar entrevistas na Índia, no Brasil, no Peru, no Chile, na Argentina, no México, nos Estados Unidos, na França, na Alemanha e no Reino Unido.

As entrevistas foram feitas, majoritariamente, com amigos, alunos e colegas de Hobsbawm, bem como com pessoas influenciadas por ele. Esse material foi extremamente útil para que eu pudesse situar a vida de Hobsbawm em um contexto global. Mas serviu para algo mais: ajudou-me a compreender a forma como Hobsbawm se aproximava de países estrangeiros. Ele e eu agíamos de maneira semelhante: chegávamos a uma cidade nova, munidos de uma agenda de contatos, e buscávamos pessoas interessantes com quem conversar. Dessa forma, o tempo que dediquei a entrevistar membros da intelectualidade de esquerda do século XXI me proporcionou uma perspectiva única sobre como Hobsbawm fazia, mais ou menos, a mesma coisa meio século antes.

Michael Schapira

Em nossa conversa na livraria Topping & Company, em St Andrews, um membro da plateia relembrou os grandes nomes do marxismo que compunham o currículo acadêmico em Warwick, na década de 1970. Dentre eles, Hobsbawm foi quem exerceu a influência mais duradoura.

Bernie Sanders e Jeremy Corbyn — que, pode-se argumentar, foram os grandes responsáveis ​​por injetar novo ânimo na política eleitoral de esquerda nos últimos tempos — eram, também, remanescentes de uma época em que o pensamento de esquerda não estava na moda, aproximando-se, assim, da trajetória de Hobsbawm. Por que você acha que isso acontece? Será que tem a ver com outro tema que você aborda no livro — a saber, a história da esquerda em lidar com a decepção e a derrota?

Emile Chabal

Não há dúvida de que estar à esquerda — independentemente do que se entenda por isso — envolve aceitar e racionalizar a derrota. Enzo Traverso escreveu de forma muito eloquente sobre a “melancolia de esquerda”, que faz parte da trajetória da esquerda desde a derrota da Comuna de Paris, em 1871. Hobsbawm personificava essa tradição: ele compreendia a história da esquerda como uma história marcada pela adversidade. É, em parte, por isso que ele não interpretou os inúmeros “fracassos” da esquerda ao longo de sua vida — desde o [Tratado de Não Agressão entre a Alemanha e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas] de 1939 até as derrotas esmagadoras sofridas pelo Partido Trabalhista britânico na década de 1980 — como um sinal de que deveria abandonar o barco.

Hobsbawm viu-se forçado a encarar o fracasso total de toda uma vida de engajamento político. E, ainda assim, ele continuou na luta.

Dito isso, concordo com Traverso quando ele afirma que o colapso da União Soviética, em 1991, representou um tipo de derrota mais fundamental e perturbadora do que qualquer outra ocorrida anteriormente. É possível notar isso até mesmo na correspondência privada de Hobsbawm no início da década de 1990, período em que ele foi obrigado a confrontar o fracasso total de toda uma vida de engajamento político. E, ainda assim, ele continuou na luta: publicamente, ao menos, defendeu o comunismo e recusou-se a renegar suas convicções.

Acredito que esse tipo de compromisso inabalável com um ideal político seja algo muito difícil de compreender para os ativistas de esquerda que nasceram no mundo pós-Guerra Fria. Ao olharem para Hobsbawm — ou para Sanders ou Corbyn —, eles enxergam uma certeza quanto ao futuro que eles mesmos não possuem. Alguns admiram essa certeza e desejam que ela sirva de base para uma esquerda renovada; contudo, é preciso reconhecer que ela foi produto de um conjunto muito específico de circunstâncias históricas de meados do século XX — circunstâncias que, hoje, já não existem.

Michael Schapira

Talvez possamos concluir voltando ao presente. Por sua própria admissão, Hobsbawm não era alguém que se encontraria lado a lado com operários fabris ou mineiros nas linhas de frente da luta de classes. Mas uma área em que ele atuou diretamente foi a universidade, instituição que fomentou e serviu de base para sua produção acadêmica.

No momento, você está vivenciando uma greve na Universidade de Edimburgo, que já dura várias semanas, em um cenário em que as condições no “setor de ensino superior” continuam a se deteriorar na Grã-Bretanha e em outros lugares. De que maneira o trabalho neste projeto, ao longo da última década, moldou sua compreensão sobre as continuidades e mudanças no status e na natureza da universidade nos últimos setenta anos?

Emile Chabal

Hobsbawm ingressou no sistema universitário como estudante em Cambridge, em 1936, e nele permaneceu até o fim de seu período como professor visitante — já após a aposentadoria — na New School, em Nova York, em meados da década de 1990. Ele nunca tirou licenças sabáticas prolongadas além do que era habitualmente permitido, e continuou lecionando, de uma forma ou de outra, ao longo de toda a sua carreira. Ele estava tão plenamente inserido nas estruturas institucionais do ensino superior da época quanto era possível estar. O fato de ele ter conseguido ser produtivo e bem-sucedido, dependendo da universidade tanto para o sustento financeiro quanto para a infraestrutura logística, deveria servir de consolo para nós, que hoje nos encontramos em uma situação semelhante. Hobsbawm também se cansava de corrigir trabalhos, cobrar colaboradores e lidar com a burocracia universitária!

E, ainda assim, há algo que parece diferente no século XXI. Isso pode ocorrer porque as universidades na Europa Ocidental e na América do Norte estão, agora, passando por um processo de retração, ao contrário da expansão observada nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Pode ser também porque a desvalorização salarial tornou cada vez mais difícil aspirar a uma vida confortável de classe média com um salário universitário.

Para mim, contudo, a verdadeira diferença reside no papel significativamente ampliado das instituições do setor público — como as universidades — na Europa do pós-guerra; um ponto que o próprio Hobsbawm discutiu, no final da década de 1970, em sua famosa conferência intitulada “O avanço do movimento operário foi interrompido?” (“The Forward March of Labour Halted?”). Quando Hobsbawm iniciou sua trajetória como acadêmico profissional, no final da década de 1940, as universidades eram instituições pequenas e voltadas para a elite; contudo, seu rápido crescimento transformou-as — especialmente na Europa — em componentes essenciais das economias locais e regionais. Hoje, elas são tão importantes quanto as fábricas eram no início do século XX, e o fechamento ou a falência de uma universidade acarreta o risco de efeitos tão catastróficos quanto aqueles vivenciados por muitos países europeus durante o processo de desindustrialização nas décadas de 1970 e 1980. É por isso que a atual luta em defesa do ensino superior assume um caráter existencial, de uma forma que não ocorria na época de Hobsbawm e de sua geração.

Colaboradores

Emile Chabal é professor de história contemporânea na Universidade de Edimburgo, onde se dedica à história política e intelectual europeia do século XX. Seu livro mais recente é The Age of Hobsbawm: The Life of a Revolutionary Historian.

Michael Schapira é livreiro e vive na Escócia. É autor de University in Crisis: From the Middle Ages to the University of Excellence.

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