Robert A. Pape
Foreign Affairs
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| Um porta-aviões da Marinha dos EUA no Golfo do Panamá, na Cidade do Panamá, Panamá, março de 2026 Enea Lebrun / Reuters |
Na noite de 17 de janeiro de 1991, telespectadores de todo o mundo assistiram a algo que nunca haviam visto antes. Tendo como pano de fundo um céu escuro iluminado por fogo antiaéreo, bombas americanas guiadas com precisão atingiam janelas, dutos de ventilação e bunkers de comando em Bagdá. A CNN transmitiu a Guerra do Golfo ao vivo. Para milhões de pessoas, as imagens pareciam anunciar a chegada de uma nova era.
Para entender a importância daquelas imagens, é preciso lembrar o quão ameaçador o Iraque parecia antes do início da guerra. O ditador iraquiano Saddam Hussein comandava quase um milhão de homens armados. Seu exército havia sobrevivido a oito anos de uma guerra brutal contra o Irã e possuía uma das maiores forças de tanques do mundo. A invasão do Kuwait pelo Iraque despertou o temor de que Saddam logo voltasse suas forças contra a Arábia Saudita, tornando potencialmente seu país uma potência hegemônica do petróleo no Golfo Pérsico e colocando um quarto do suprimento global de petróleo sob seu controle direto.
Poucos americanos esperavam uma vitória fácil. O fiasco da Guerra do Vietnã ainda projetava uma sombra longa. "A sua é uma sociedade que não consegue aceitar 10 mil mortos", disse Saddam ao embaixador dos EUA no Kuwait, uma semana antes de invadir o país vizinho. Muitos analistas temiam que ele pudesse estar certo, e o Senado autorizou o uso da força por uma margem estreita. O Pentágono preparou-se para baixas pesadas, enviando milhares de sacos para cadáveres à região. A expectativa não era de uma nova Segunda Guerra Mundial. Era de um novo Vietnã.
O que se seguiu chocou quase todos. Após cinco semanas de ataques aéreos, as forças terrestres da coalizão libertaram o Kuwait em cerca de 100 horas. O exército iraquiano desmoronou. Mais de 300 mil soldados iraquianos no Kuwait foram derrotados, capturados ou forçados a fugir. As mortes de americanos em combate totalizaram 147 — um número surpreendentemente baixo, dadas as preocupações existentes antes do início da guerra. Uma potência importante, que parecia formidável apenas alguns meses antes, havia sido derrotada com espantosa facilidade.
O significado do triunfo americano estendeu-se muito além do campo de batalha, ressaltando a posição extraordinária dos Estados Unidos. Com a desintegração da União Soviética, Washington não enfrentava nenhum adversário de peso e ocupava o centro das redes globais de finanças, tecnologia e alianças. O país ostentava capacidades militares avançadas que nenhuma outra potência conseguia igualar. Os Estados Unidos haviam se tornado algo incomum na história moderna: um Estado único sem um concorrente à altura. A Operação Tempestade no Deserto transformou medidas abstratas do poder americano em uma experiência concreta. Governos, investidores e cidadãos comuns em todo o mundo passaram a compartilhar uma mesma imagem do que a dominância militar americana significava na prática.
A maioria das guerras cai no esquecimento histórico. Poucas dividem a história em um "antes" e um "depois". Para o mundo do pós-Guerra Fria, a Guerra do Golfo foi um desses momentos. O conflito resultou na libertação do Kuwait e inaugurou a era subsequente — frequentemente chamada de era da unipolaridade dos EUA —, na qual o poder militar americano, sem rivais, sustentava a globalização, a prosperidade crescente e uma estabilidade relativa.
No entanto, essa era chegou ao fim. Os Estados Unidos já não desfrutam do tipo de vantagem militar que possuíam em 1991. Graças à globalização, os sistemas necessários para conduzir uma guerra de precisão deixaram de ser exclusividade de um punhado de grandes potências: tornaram-se acessíveis a uma gama de atores capazes de enfrentar Estados muito mais fortes.
De fato, a questão do Irã exemplifica essa mudança de cenário. Enquanto a Guerra do Golfo demonstrou a dominância americana, os confrontos atuais em torno do Estreito de Ormuz revelam as limitações dos EUA. Uma nova era se anuncia, na qual as premissas do período pós-Guerra Fria são subvertidas. Os Estados Unidos não são mais capazes de dobrar outros à sua vontade por meio do uso da força a baixo custo. Longe de garantir estabilidade e previsibilidade, o poder americano tornou-se uma fonte de volatilidade. Potências mais fracas aprenderam as vantagens do desafio e da ruptura, e dispõem de meios para impor custos elevados aos Estados Unidos e aos seus aliados e parceiros. A era que se avizinha será marcada por crises mais frequentes, custos mais altos para proteger o comércio global e uma competição crescente pelo controle de pontos estratégicos de estrangulamento do fluxo mundial. As regras de poder que regiam a era pós-Guerra Fria perderam a validade, e uma ordem internacional mais perigosa nos aguarda.
GRANDES EXPECTATIVAS
Grandes vitórias militares raramente criam novas ordens internacionais. Guerras podem terminar com fronteiras alteradas, mas tendem a deixar intacta a estrutura mais ampla da política mundial. A Guerra do Golfo de 1991 foi diferente porque transformou as expectativas globais. O abismo colossal entre o que os analistas previam antes da guerra e a forma como os Estados Unidos conquistaram uma vitória decisiva e rápida convenceu governos, mercados e sociedades de que uma nova realidade havia surgido.
Essa realidade baseava-se em quatro premissas: os Estados Unidos podiam impor resultados militares sem esforço; Washington detinha uma superioridade inigualável na gestão de escaladas — a capacidade de derrotar grandes ameaças de forma rápida e pouco custosa; o poder americano garantia o fluxo de mercadorias pelas artérias comerciais do mundo; e a resistência ao poder americano era, em última análise, inútil.
Essas premissas reforçavam-se mutuamente. Como a superioridade militar americana parecia avassaladora, os aliados reduziram seus próprios encargos de defesa e aprofundaram sua dependência de Washington. Como o poder americano desencorajava outros atores de arriscar confrontos e escaladas, os investidores desconsideravam o risco geopolítico. Como o comércio marítimo parecia seguro, as empresas estendiam suas cadeias de suprimentos por continentes e minimizavam seus estoques internos. Como o poder americano parecia inigualável e implacável, a maioria dos Estados buscava acomodar-se aos Estados Unidos em vez de resistir a eles.
A ordem do pós-Guerra Fria baseava-se menos na capacidade de coerção de Washington do que na força de sua credibilidade. Os Estados não precisavam experimentar diretamente o poder militar americano; bastava acreditar nele. Os Estados Unidos derrotaram o Iraque de forma tão rápida e pouco custosa que qualquer resistência futura parecia irracional. Apenas um punhado de "Estados párias" e atores — como a Coreia do Norte, o Irã e os piratas somalis — ousava ignorar o que todos podiam ver. Em 1990, a Força Aérea dos EUA batizou ambiciosamente sua nova doutrina de "Poder Global, Alcance Global". A Guerra do Golfo de 1991 transformou isso em uma realidade que poucos podiam ignorar.
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| Um soldado iraquiano perto de Basra, Iraque, março de 1991 Reuters / Richard Ellis |
A aparente invencibilidade do poder americano, anunciada pela Guerra do Golfo, teve consequências imediatas na Europa. Durante a Guerra Fria, os governos da Europa Ocidental mantiveram grandes forças militares porque a ameaça da União Soviética assim o exigia. Após 1991, os países europeus cortaram drasticamente os orçamentos de defesa enquanto integravam cada vez mais suas economias. Eles assinaram o Tratado de Maastricht em 1992, lançando as bases para uma moeda comum e a eliminação de fronteiras entre os Estados-membros da UE. Países anteriormente comunistas disputavam a entrada em instituições ocidentais. A OTAN, que contava com 16 membros em 1991, expandiu-se para o leste, incorporando, com o tempo, grande parte do território que antes pertencia ao Pacto de Varsóvia. Países que, poucos anos antes, temiam a OTAN, agora buscavam proteção na ordem liderada pelos EUA. Ao final da década, a preeminência americana já não era objeto de debate, mas um fato consumado.
Até mesmo os futuros rivais de Washington assimilaram as lições de Bagdá. Enquanto a Guerra do Golfo se desenrolava, oficiais chineses a estudavam obsessivamente porque, em muitos aspectos, as forças armadas do Iraque se assemelhavam ao Exército de Libertação Popular. Pequim concluiu que os exércitos de massa da era industrial eram perigosamente vulneráveis à guerra de precisão. Nas décadas seguintes, a China reduziu drasticamente o efetivo de tropas — de quase 3,5 milhões de militares em 1990 para dois milhões uma década depois —, modernizou sistemas de comando, expandiu suas forças de mísseis e investiu pesadamente em tecnologias da informação. O irônico é que muitas das capacidades que hoje desafiam a predominância militar americana no Leste Asiático originaram-se do esforço chinês para entender por que o exército iraquiano havia colapsado tão rapidamente em 1991.
A confiança no poder americano influenciou tanto as decisões econômicas quanto as militares, impulsionando uma das maiores expansões da interdependência econômica na história moderna. Mercadorias, capital, energia e informação cruzavam fronteiras com velocidade sem precedentes. O comércio, como proporção da produção global, saltou de cerca de 38% em 1990 para aproximadamente 60% duas décadas mais tarde. As indústrias adotaram o modelo de produção *just-in-time*. As cadeias de suprimentos estendiam-se por continentes, pois as empresas partiam cada vez mais do pressuposto de que guerras entre grandes potências eram improváveis e que eventuais interrupções no comércio marítimo seriam apenas temporárias.
Por trás do otimismo daquela época, havia uma premissa mais profunda: os fundamentos estratégicos do sistema internacional haviam se tornado excepcionalmente seguros. E isso se baseava firmemente na realidade concreta da supremacia militar americana. Em 1998, a secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, descreveu os Estados Unidos como a "nação indispensável", sintetizando uma convicção amplamente compartilhada de que a estabilidade internacional dependia, em última análise, do poder americano.
Essa convicção manteve grande parte de sua força mesmo durante a Guerra do Iraque, em 2003, que não afetou os mercados globais de maneira significativa. Conflitos eclodiram e crises surgiram, mas episódios graves de instabilidade pareciam ser a exceção, e não a regra. Líderes políticos, empresas e cidadãos comuns ao redor do mundo pautavam suas expectativas na crença de que grandes perturbações capazes de afetar os mercados e a política globais seriam, no fim das contas, contidas. Assim como o Reino Unido do século XIX após a Batalha de Trafalgar, em 1805, os Estados Unidos exerciam influência muito além do alcance direto de suas forças militares, pois outras nações já haviam aceitado que Washington não poderia ser desafiado. O mundo não se tornou pacífico após 1991; tornou-se previsível.
AS SEMENTES DE SUA PRÓPRIA QUEDA
Ironicamente, o próprio sucesso da ordem do pós-Guerra Fria levou ao desmantelamento dessa ordem. A revolução tecnológica seguinte na arte da guerra foi, ela própria, produto da transformação econômica da era pós-Guerra Fria.
Toda grande revolução militar baseou-se em mudanças econômicas prévias. Grandes potências não ascendem simplesmente por possuírem exércitos ou marinhas superiores, mas porque suas economias geram a riqueza, a tecnologia e a capacidade industrial necessárias para sustentar essas forças ao longo do tempo. A primeira revolução da precisão, demonstrada sobre Bagdá em 1991, dependeu de capacidades disponíveis apenas para um pequeno grupo de Estados avançados. Munições guiadas com precisão, navegação por satélite, comunicações seguras, sensores infravermelhos e processadores avançados exigiam ecossistemas industriais que poucos países possuíam. A Guerra do Golfo revelou essas capacidades ao mundo, mas as tecnologias subjacentes permaneceram concentradas nos Estados Unidos e entre seus aliados mais próximos.
Nas três décadas seguintes, a globalização transformou esses recursos militares escassos em produtos comerciais de massa. A indústria de semicondutores tornou-se uma das maiores e mais geograficamente dispersas do mundo. As receitas globais do setor de chips ultrapassaram US$ 790 bilhões em 2025 e aproximam-se de US$ 1 trilhão anuais, impulsionadas em grande parte pela demanda por smartphones, computação em nuvem e inteligência artificial. As mesmas cadeias de suprimentos que produzem processadores avançados para mercados comerciais também abastecem a fabricação de componentes usados em câmeras, sistemas de navegação e dispositivos de computação de borda (edge computing) — pequenos computadores que processam dados localmente, em vez de em servidores remotos na nuvem.
Um smartphone moderno contém mais poder computacional do que muitos sistemas militares possuíam durante a Guerra do Golfo, além de câmeras que antes eram reservadas para satélites de inteligência. Os mercados civis criaram enormes economias de escala para unidades de medição inercial miniaturizadas (dispositivos que rastreiam localização, velocidade e direção), receptores GPS, baterias de lítio e sensores ópticos — tecnologias que, anteriormente, teriam exigido financiamento estatal.
Os confrontos de hoje nas imediações do Estreito de Ormuz revelam as limitações dos Estados Unidos.
A inteligência artificial acelerou ainda mais esse processo. Grandes modelos de linguagem, sistemas de visão computacional e softwares de código aberto oferecem capacidades que, anteriormente, exigiam instituições especializadas. Investimentos privados maciços transformaram softwares avançados em produtos disponíveis globalmente; só as receitas de semicondutores relacionados à IA ultrapassaram US$ 200 bilhões em 2025. De forma mais ampla, capacidades que antes exigiam programas militares bilionários agora podem contar com componentes adquiridos por meio de canais comerciais comuns. Pequenos drones montados com componentes eletrônicos do mercado comercial podem agora gerar efeitos antes associados a armas sofisticadas fabricadas apenas por Estados.
O drone iraniano Shahed-136 ilustra essa transformação. Em vez de depender de tecnologia militar cara e altamente especializada, ele combina chips de navegação, unidades de medição inercial, receptores de satélite, módulos de comunicação, processadores e softwares disponíveis comercialmente — muitos originalmente projetados para eletrônicos de consumo — com uma estrutura e um motor simples. O resultado é uma arma de precisão montada, em grande parte, a partir de componentes viabilizados pelas mesmas cadeias de suprimentos comerciais globais que impulsionam a economia digital. A questão não é que o Shahed seja tecnologicamente sofisticado. A questão é que ele não é.
A mesma economia global que recompensou a eficiência também recompensou a acessibilidade. As empresas competiam reduzindo custos, expandindo a produção e distribuindo tecnologia em mercados internacionais. Cada melhoria que tornava os smartphones mais baratos, as baterias mais eficientes e os processadores mais potentes aumentava, simultaneamente, as capacidades disponíveis para Estados mais fracos e até mesmo para atores não estatais.
No entanto, a mesma globalização que gerou prosperidade extraordinária também criou sistemas interconectados nos quais perturbações locais produziam consequências globais. Sistemas altamente otimizados são frequentemente frágeis: uma interrupção em uma região gera repercussões a milhares de quilômetros de distância. A escassez de semicondutores durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, afetou a produção de automóveis em vários continentes. E, em 2024 e 2025, os Houthis do Iêmen — alinhados ao Irã — realizaram inúmeros ataques a navios que transitavam pelo Mar Vermelho (rota que leva ao Canal de Suez e conecta a Europa à Ásia) como parte de seu confronto mais amplo com Israel. Os militantes não conseguiam derrotar seus adversários, muito mais poderosos, em batalhas convencionais, mas podiam utilizar a guerra de precisão para impor custos enormes à economia global. Grandes empresas de transporte marítimo tiveram de desviar embarcações para a rota do Cabo da Boa Esperança devido aos altos custos decorrentes da incerteza, incluindo o aumento do tempo de trânsito e a elevação das taxas de seguro.
A globalização ajudou a levar os instrumentos da guerra de precisão para além do monopólio dos Estados avançados. Em meados da década de 2020, a disseminação de capacidades de precisão começava a inverter essa relação e a tornar as grandes potências vulneráveis a adversários muito mais fracos. Nesse sentido, o sucesso da ordem do pós-Guerra Fria continha uma contradição inesperada: as forças econômicas que fortaleceram o sistema produziram, gradualmente, muitas das tecnologias que tornariam sua manutenção cada vez mais custosa.
TUDO SE DESFAZ
As armas de precisão pareciam resolver um dos problemas mais antigos da história militar. As grandes potências não precisavam mais conquistar territórios para alcançar objetivos estratégicos. O poder aéreo poderia substituir o poder terrestre. A tecnologia poderia substituir a massa. A lição que muitos observadores tiraram de 1991 era simples: se os Estados Unidos conseguissem identificar alvos, poderiam neutralizar a resistência sem ocupar vastas extensões de território.
O conflito com o Irã expôs, agora, os limites dessa premissa. E também sinalizou a chegada de uma segunda revolução na guerra de precisão. Se a imagem emblemática de janeiro de 1991 foi a de uma bomba guiada a laser entrando em um duto de ventilação em Bagdá, a imagem emblemática do conflito com o Irã é a de um pequeno drone descartável — montado com componentes eletrônicos comerciais e lançado por uma equipe móvel em algum ponto da costa sul iraniana — voando em direção a alvos no Golfo.
A disseminação de novas tecnologias disponibilizou drones de baixo custo, mísseis de cruzeiro, sensores comerciais e equipes de lançamento móveis. O objetivo do Irã nunca foi derrotar frontalmente o poder naval americano em combates navais tradicionais, navio contra navio. Tratava-se de convencer os agentes comerciais de que o poder naval americano já não podia garantir sua segurança absoluta.
Isso se mostrou suficiente. Nas semanas seguintes ao início do conflito, os navios-tanque continuaram a transitar pelo Golfo, mas os prêmios de seguro dispararam e o tráfego diminuiu à medida que a incerteza se espalhava pelos mercados de energia. Em crises anteriores, tanto no Estreito de Ormuz quanto no Mar Vermelho, os prêmios de risco de guerra chegaram a múltiplos de seus níveis habituais, e as empresas de navegação desviaram suas embarcações por rotas que contornavam a África — percorrendo milhares de milhas a mais — em vez de aceitar os riscos crescentes. As economias modernas não precisam apenas de petróleo; elas precisam de petróleo entregue no prazo, em grande escala e sob condições previsíveis. Uma vez perdida a confiança, uma via navegável pode permanecer fisicamente aberta, mas tornar-se estrategicamente pouco confiável.
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| Embarcações no Estreito de Ormuz, junho de 2026 Reuters |
A resposta americana à tentativa do Irã de fechar o Estreito de Ormuz seguiu a lógica tradicional das grandes potências. Em conjunto com Israel, os Estados Unidos atacaram instalações de radar, baterias de mísseis, bases de drones e áreas de lançamento no sul do Irã, destruindo milhares de alvos. No entanto, sistemas de reposição surgiram rapidamente. O Irã conseguia dispersar, ocultar e reconstruir seus lançadores móveis mais depressa do que eles podiam ser eliminados. O que inicialmente parecia ser um problema marítimo transformou-se gradualmente em um problema territorial. Os Estados Unidos podiam destruir alguns lançadores, mas não conseguiam controlar milhares de quilômetros quadrados de território. A derrubada de um helicóptero Apache americano pelo Irã, em junho, ilustrou o dilema dos EUA. Com um drone Shahed custando 20 mil dólares, o Irã destruiu um ativo militar avançado avaliado em 35 milhões de dólares. Nem mesmo a força militar mais poderosa do planeta consegue eliminar a ameaça representada por drones baratos.
O desafio contínuo do Irã aos Estados Unidos representa mais do que um sucesso tático. Cada vez mais, o Irã trata diferentes teatros de operações como componentes de um único sistema estratégico. O país apoia as atividades do Hezbollah no Líbano, de milícias alinhadas ao Irã no Iraque e dos Houthis no Iêmen, além de ter realizado ataques contra bases americanas e infraestruturas críticas em países vizinhos do Golfo. O resultado é uma esfera de influência iraniana em ascensão, construída não por meio de conquistas territoriais, mas através de uma desestabilização persistente. A segunda revolução da precisão torna possível essa desestabilização generalizada e tenaz.
O Irã não está destinado a se tornar a potência dominante no Oriente Médio. Sua economia permanece fraca, suas forças armadas convencionais continuam inferiores às dos Estados Unidos e de Israel, e muitos governos árabes ainda temem Teerã mais do que confiam nela. Contudo, seu sucesso operacional pode gerar oportunidades políticas. Se governos, mercados e potências externas concluírem, cada vez mais, que nenhuma decisão importante no Golfo pode ser tomada sem levar em conta as preferências iranianas, a vantagem militar do Irã se transformará gradualmente em influência política. Mercados de seguros, negociantes de energia, empresas de transporte marítimo e governos regionais reagem não apenas ao poder em si, mas às expectativas em constante mudança sobre o poder futuro. As expectativas mudam primeiro; as instituições, geralmente, vêm depois.
Resta saber se o Irã conseguirá, por fim, converter sua vantagem operacional em alguma forma de primazia regional, sobretudo porque não está claro como terminará a atual fase de conflito. No entanto, a disseminação de tecnologias de precisão inverteu o jogo. A vitória rápida e contundente dos EUA na Guerra do Golfo sugeriu que a guerra de precisão permitia às grandes potências controlar territórios disputados a um custo relativamente baixo. A guerra envolvendo o Irã, em contrapartida, sugere que a difusão da tecnologia de precisão está desafiando as grandes potências e tornando muito mais difícil controlar o espaço em disputa.
O PRÓXIMO CAMPO DE BATALHA
O que aconteceu no Estreito de Ormuz poderá ocorrer numa escala ainda maior na Ásia Oriental. O cenário convencional para um conflito sobre Taiwan pressupõe que a China bloqueie a ilha e Taiwan sofra um cerco. Mas a segunda revolução da precisão sugere uma possibilidade mais complicada: que Taiwan possa utilizar drones, baterias de mísseis móveis, sensores comerciais e inteligência artificial para perturbar e ameaçar o comércio marítimo da China.
Aproximadamente um quinto do comércio marítimo global passa pelo Estreito de Taiwan, tornando-o uma das vias navegáveis economicamente mais significativas do mundo. Apesar do extraordinário sucesso económico da China, quase 40% do seu produto interno bruto depende do comércio – e a maior parte vai por mar. Por mais que o Irão tenha optado por transformar em arma o ponto de estrangulamento do Estreito de Ormuz, Taiwan poderia fazer o mesmo.
Pense em Taiwan como uma plataforma de lançamento grande e inafundável, ostentando milhares de drones com alcance de até 750 milhas. Os principais portos marítimos da China situam-se dentro dessa faixa, incluindo o Porto de Xangai, o Porto de Ningbo-Zhoushan e o Porto de Shenzhen. O risco, portanto, não é apenas para o tráfego que passa pelo Estreito de Taiwan. Taipei poderia fazer mais para prejudicar o seu maior inimigo e poderia ameaçar continuamente as abordagens comerciais aos principais portos da China, mesmo na ausência de um bloqueio formal.
A China poderia redirecionar parte do transporte marítimo para o leste de Taiwan ou por rotas mais distantes, próximas a outros países. No entanto, assim como ocorreu com o desvio de rotas pelo Cabo da Boa Esperança durante a crise do Mar Vermelho, a questão não é se o comércio pode continuar, mas sim se ele pode prosseguir de forma previsível e a custos aceitáveis. A vantagem estratégica de Taiwan adviria de sua localização geográfica, situada nas rotas de acesso marítimo ao coração industrial da China, e da capacidade da ilha — graças à "segunda revolução da precisão" — de tornar esses acessos permanentemente arriscados.
Taiwan não precisaria afundar muitos navios para gerar consequências significativas para o Exército de Libertação Popular da China. Alguns poucos ataques bem-sucedidos com drones — ou mesmo a simples possibilidade de ataques futuros — poderiam desencadear uma sequência já conhecida: as taxas de seguro disparariam, as empresas de transporte comercial reavaliariam os riscos e o tráfego marítimo diminuiria. A perturbação econômica se propagaria em efeito cascata, mesmo que a destruição física permanecesse limitada. Dada a dependência mundial de produtos chineses, o impacto na maioria dos países seria severo e ocorreria em questão de meses, ameaçando provocar uma contração da economia global. A economia chinesa, fortemente dependente do comércio, provavelmente sofreria seu choque externo mais grave desde o início das reformas econômicas significativas na década de 1980. O país teria de enfrentar o colapso da confiança em que se baseia o comércio moderno. Importações de energia, cadeias de suprimentos industriais, indústrias exportadoras, financiamento do transporte marítimo e investimentos estrangeiros sofreriam pressões simultâneas.
As dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos durante a guerra com o Irã podem, na verdade, levar a China a reconhecer a insensatez de atacar Taiwan; a ilha poderia replicar a estratégia iraniana, gerando repercussões imensas para a China e para o mundo.
AS NOVAS REGRAS DO PODER
Conflitos futuros poderão ocorrer cada vez mais em torno dos principais pontos de estrangulamento econômico do mundo — incluindo o Estreito de Taiwan, o Mar do Sul da China, o Estreito de Malaca, o Mar Vermelho e o próprio Estreito de Ormuz. Taxas de seguro mais altas, fretes mais caros, cadeias de suprimentos duplicadas, a necessidade de manter estoques maiores e reservas estratégicas, além da pressão política pela produção doméstica, elevariam gradualmente os custos do comércio internacional. Um mundo nivelado pela globalização voltaria a apresentar irregularidades e fissuras. Como resultado, um novo conjunto de premissas e regras para o sistema global começa a surgir.
A superioridade militar americana já não garante resultados políticos a baixo custo. Os Estados Unidos mantêm um poder destrutivo inigualável. No entanto, destruir alvos e determinar resultados são coisas diferentes. Por mais que Washington consiga punir seus inimigos, tem dificuldade em compelí-los. A escalada do conflito também não favorece mais automaticamente os Estados Unidos. Armamentos de precisão, a geografia e redes dispersas permitem que atores mais fracos elevem os custos mais rapidamente do que as potências mais fortes conseguem reprimi-los. Os Estados Unidos podem escalar o conflito com poder aéreo e até utilizar tropas terrestres, mas já não detêm a dominância na escalada.
Por sua vez, a intervenção americana já não assegura estabilidade econômica na região visada. Durante três décadas, os mercados presumiram que o poder americano ajudava a reduzir riscos. Hoje, as intervenções dos EUA, ao contrário, alimentam a incerteza. A globalização gerou uma prosperidade extraordinária, mas também criou vulnerabilidades que o poder militar, por si só, não consegue eliminar facilmente. Potências mais fracas agora percebem que é possível desafiar os Estados Unidos — que a resistência já não é obviamente inútil. Esses atores não precisam derrotar os Estados Unidos para frustrá-los; basta-lhes corroer a confiança, impor custos e resistir além das expectativas de sua derrota. O objetivo já não é a vitória convencional no campo de batalha, mas sim criar poder de barganha por meio da perturbação.
Isso não significa que qualquer Estado mais fraco possa frustrar os Estados Unidos hoje, mas sim que é provável que muitos outros Estados adquiram essa capacidade à medida que as tecnologias da segunda revolução da precisão continuam a se disseminar. A geografia, os objetivos estratégicos e o acesso a sistemas de precisão de baixo custo moldarão os contornos desse novo ambiente geopolítico.
Durante a maior parte da história moderna, Estados mais fortes converteram riqueza econômica em superioridade militar e superioridade militar em influência política. A era pós-Guerra Fria parecia reforçar essa relação. No entanto, a segunda revolução da precisão sugere um padrão diferente. O sucesso econômico leva à difusão e à ampla adoção de novas tecnologias, o que beneficia atores mais fracos e lhes permite impor custos maiores a adversários mais fortes do que seriam capazes de fazer no passado. A força geopolítica de uma grande potência, como os Estados Unidos, é menos uma medida de sua capacidade de controlar outros do que um reflexo da confiança que os demais depositam nos sistemas que ela sustenta e ancora.
O Estreito de Ormuz pode vir a revelar-se apenas o começo. Se dinâmicas semelhantes surgirem em torno de Taiwan, a próxima era da política internacional será definida não pela expansão da globalização, mas pelos custos de protegê-la.
ROBERT A. PAPE é professor de Ciência Política e diretor do Projeto sobre Segurança e Ameaças da Universidade de Chicago. Ele é autor de Bombing to Win: Air Power and Coercion in War.







