Entrevista com
Catarina Príncipe
Catarina Príncipe
Aldo Cordeiro Sauda
Catarina Príncipe
Aldo Cordeiro Sauda
Catarina Príncipe
Catarina Príncipe
André Singer
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| Lula da Silva conquistou um quarto mandato, mas a frente democrática brasileira encontra-se dividida por dois programas econômicos incompatíveis. (Evaristo Sa / AFP via Getty Images) |
Entrevista realizada por
Catarina Príncipe
Aldo Cordeiro Sauda
No dia 4 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, terminou o primeiro turno da eleição presidencial brasileira com quase dois pontos percentuais à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Três semanas depois, Lula reverteu o resultado e garantiu um quarto mandato no segundo turno, realizado em 25 de outubro. Nesse intervalo, manifestações lideradas pela esquerda ocuparam as ruas de centenas de cidades brasileiras. O governo também proibiu as apostas online, apoiou a jornada de trabalho de quarenta horas semanais e aumentou o valor do Bolsa Família — programa de transferência de renda para famílias pobres, criado por Lula em 2003.
Poucos analistas conhecem o projeto político de Lula tão bem quanto André Singer. Professor de Ciência Política na Universidade de São Paulo, Singer atuou como porta-voz de Lula entre 2003 e 2007, e como secretário de imprensa de 2005 a 2007. Ele desenvolveu o conceito de "lulismo" nas obras Os sentidos do lulismo (2012) e O lulismo em crise (2018); seu livro mais recente, Impasse: O Brasil diante da onda reacionária, foi lançado em agosto.
Após o segundo turno, Singer conversou com Catarina Príncipe e Aldo Cordeiro Sauda, para a Jacobin, sobre o bolsonarismo — caracterizado por ele como uma autocracia de viés fascista —, o silêncio da burguesia brasileira durante a campanha e as razões pelas quais a mobilização no segundo turno não pode ser classificada como populismo. Ele também abordou a disputa em torno da austeridade que marcará o quarto mandato de Lula.
Catarina Príncipe
Você escreveu sobre a ideia de uma “autocracia com viés fascista” para compreender os fenômenos de Donald Trump, nos Estados Unidos, e de Jair Bolsonaro, no Brasil. Poderia explicar melhor essa ideia?
André Singer
Sinceramente, não posso falar diretamente sobre o trumpismo, pois não tenho conhecimento suficiente. Portanto, falarei sobre o bolsonarismo — a experiência a partir da qual formulei a ideia de uma tendência autocrática com viés fascista. Ao estudar a presidência de Bolsonaro (2019–2022), é possível demonstrar empiricamente que ele tentou remodelar as instituições brasileiras na direção de um regime autocrático.
Um dos principais conflitos durante seu mandato girou em torno da independência da Polícia Federal. Para o público norte-americano: a Polícia Federal equivale ao FBI. Trata-se de uma força policial nacional voltada para os grandes problemas de segurança do país, uma vez que as questões cotidianas ficam a cargo dos governos estaduais.
Contudo, as grandes questões — corrupção, crime organizado, tráfico de drogas e tráfico de armas — são de competência da Polícia Federal. É por isso que uma convenção, respeitada pelos sucessivos presidentes desde o retorno à democracia na década de 1980, é tão importante: a garantia da independência da Polícia Federal. O presidente da República nomeia o diretor, mas, historicamente, os presidentes adotaram a prática de escolher diretores que mantivessem certa independência em relação a eles próprios.
Bolsonaro fez questão de romper com essa convenção, nomeando uma cúpula da Polícia Federal que servisse aos seus próprios interesses políticos. Menciono isso porque é o caso mais evidente de todos: ele tentou manipular a Polícia Federal para concentrar poder.
Por que afirmo que essa tendência autocrática possui um viés fascista? Porque identifico nela elementos em comum com o fascismo histórico. Por que não digo que é fascismo tout court (puro e simples)? Porque há muitos elementos que não correspondem.
Vou citar um desses elementos em comum: a ativação, por meio da propaganda, do inconsciente das massas. Trata-se de um tipo de publicidade que busca capturar o eleitor, o cidadão e o apoiador por meio de uma identificação inconsciente, em vez de recorrer a argumentos racionais. Isso não significa que não existam também argumentos de natureza material, interesses materiais; não estou dizendo que se trata apenas de uma técnica voltada ao inconsciente. Mas creio que isso é muito característico do fascismo, e não da direita não fascista.
O que não há em comum com o fascismo? Por exemplo, não existe um partido político organizado em milícias, como ocorreu no fascismo italiano e, posteriormente, no nazismo alemão. Também não há uma retórica belicista, no sentido de guerra externa: o bolsonarismo apresenta um nacionalismo bastante peculiar, de submissão aos Estados Unidos — algo difícil de compreender. Contudo, não há nele uma retórica de confronto com outros países ou de expansão territorial, elementos centrais do fascismo histórico.
Ao analisar a presidência de Bolsonaro (2019–2022), é possível demonstrar empiricamente que ele buscou reconfigurar as instituições brasileiras na direção de um regime autocrático.
Como existem elementos em comum, mas também muitos outros que não estão presentes, propus uma forma de compreender o fenômeno bolsonarista. Estamos diante de uma tendência autocrática — isso é um fato comprovado — aliada a uma tendência fascista que ainda precisamos examinar. Paralelamente, há um problema teórico mais amplo: o conceito de fascismo não está bem definido.
Por mais estranho que possa parecer, esse é o desafio que precisamos enfrentar: chegar a um conceito de fascismo que nos permita compreender a conjuntura atual. Naturalmente, nosso interesse é compreender a história, mas sempre com o olhar voltado para o presente e para o futuro.
Catarina Príncipe
Em uma entrevista, ouvi você fazer uma distinção entre o fascismo vindo de baixo e o fascismo vindo de cima. Qual classe essa autocracia de viés fascista mobiliza mais?
André Singer
O pensamento de inspiração marxista já esclareceu as características do fascismo histórico, e uma delas se destaca: o fascismo é um movimento que vem de baixo, não de cima. Leon Trotsky foi o primeiro a trazer essa contribuição, em seus escritos sobre a Alemanha, e ela continua válida; trata-se de uma distinção fundamental.
O bolsonarismo apresenta essa característica: ele vem de baixo; não é um movimento da classe dominante. Ele atrai os estratos médios, mas se espalha rapidamente para camadas populares intermediárias, que constituem a sua espinha dorsal. Portanto, no Brasil de hoje, a extrema-direita penetra a partir de baixo.
Catarina Príncipe
Como você analisa a relação entre a classe dominante e a política, dada a existência do que você chama de duas coalizões transclassistas: a “confederação” bolsonarista e a “concertação” lulista? Qual é a composição dessas duas coalizões?
André Singer
Chamo uma de “confederação” — por uma certa analogia com o caso norte-americano do século XIX — e a outra de “concertação”, por analogia com o Chile pós-Augusto Pinochet. Desenvolvi essas duas hipóteses para compreender a eleição de 2022. Portanto, responderei tendo 2022 em mente e, na sequência, abordarei brevemente as mudanças para 2026.
A ideia da “confederação” é que se formou uma coalizão entre empresários do agronegócio e do setor de serviços nas cidades. A eles juntaram-se certas denominações evangélicas, que representam uma espécie de “Cinturão Bíblico” (Bible Belt) brasileiro. Essas denominações compõem cerca de 30% do eleitorado brasileiro, e o bolsonarismo obteve, reiteradamente, 70% dos votos desse segmento.
Na eleição de 2022, o conjunto das forças de segurança — desde as Forças Armadas até as polícias estaduais — integrou-se a esses dois componentes: os empresários e o “Cinturão Bíblico” evangélico. Trata-se de um contingente expressivo. Além de todos os profissionais formalmente vinculados à segurança, o Brasil conta com um enorme contingente de agentes de segurança privada, uma vez que a segurança pública não dá conta da gravíssima questão da criminalidade.
Esses três eixos da “confederação” — por assim dizer — formaram um vasto corredor pelo interior do país. Ele se estende do norte do Rio Grande do Sul até o sul da região Norte, atravessando o interior de São Paulo e de Minas Gerais, os estados mais industrializados do Brasil. Esse corredor alinhou-se ao bolsonarismo, o que explica, em grande medida, sua expressiva força eleitoral. Ademais, o “Cinturão Bíblico” evangélico confere ao bolsonarismo uma base de apoio muito sólida nas grandes regiões metropolitanas brasileiras.
Para 2026, houve uma mudança: em decorrência da tentativa de golpe fracassada, as Forças Armadas recuaram. Eles foram muito importantes porque Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, passou pela academia militar junto com os homens que, por coincidência, compunham o alto-comando quando ele assumiu o cargo. Ele os trouxe para o governo e, assim, as Forças Armadas ficaram profundamente comprometidas com a gestão de Bolsonaro.
Esse já não é mais o caso. Não se vê nenhum nome de destaque das Forças Armadas na campanha de seu filho, Flávio Bolsonaro. Sabe-se, contudo, que as forças policiais apoiaram essa candidatura de forma discreta — diferentemente do apoio explícito que deram ao governo de Jair Bolsonaro.
Eu chamo isso de "confederação" — termo que, embora não tenha relação com a escravidão, guarda uma semelhança: a de ter dividido o Brasil. O movimento uniu o interior, como se estivesse em oposição às grandes cidades — ainda que, vale ressaltar, as denominações evangélicas também exerçam influência nos grandes centros urbanos.
Nota-se, ainda, um certo preconceito contra o Nordeste, sustentado por uma ideologia subjacente de que um Brasil "mais moderno" estaria melhor se estivesse livre de um Brasil "mais atrasado". É uma espécie de ideologia implícita, que se manifesta com maior ou menor intensidade em diferentes momentos.
Quanto à concertación: o termo me veio à mente porque, para construir a coalizão que lhe deu sustentação, o presidente Lula firmou uma aliança com setores do antigo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Até 2018, o PSDB fora o principal rival do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula. O atual vice-presidente, Geraldo Alckmin, liderou os setores dispostos a integrar essa aliança. O PSDB, como um todo, encolheu, tornando-se um partido pequeno, e manteve-se neutro: não apoiou Lula nem em 2022, nem agora.
Contudo, a aliança com Alckmin representou uma união com antigos setores do PSDB dispostos a compor uma frente democrática. Assim, tal como ocorreu no Chile, dois grandes adversários se uniram: no Chile, o Partido Socialista e o Partido Democrata Cristão; no Brasil, o PT e o PSDB.
Paralelamente a essa coalizão partidária, houve uma importante coalizão de classes. O lulismo, como todos sabem, representa a base da pirâmide social brasileira. Mas a aliança com essa facção do PSDB também trouxe o que chamo de burguesia cosmopolita — o setor mais moderno da burguesia brasileira —, que apoiou o presidente Lula no segundo turno de 2022, e não no primeiro. Isso foi muito importante tanto para a sua vitória quanto para o futuro do governo.
Assim como no Chile, os dois grandes adversários se uniram: no Chile, o Partido Socialista e o Partido Democrata Cristão; no Brasil, o PT e o PSDB.
Nesta eleição de 2026, esse setor da burguesia não se manifestou; manteve-se neutro, não apoiando nem Flávio Bolsonaro nem o presidente Lula. João Moreira Salles — fundador da revista Piauí, cineasta de destaque e herdeiro de uma das maiores famílias do setor bancário brasileiro — escreveu um artigo muito contundente sobre a importância desse silêncio.
A consequência desse silêncio foi a aceitação, praticamente até o último minuto, de uma vitória de Flávio Bolsonaro. Um movimento extraordinário reverteu esse cenário no segundo turno deste ano. Para concluir, por ora: o setor cosmopolita da burguesia brasileira, que permaneceu em silêncio, já não está explicitamente presente na concertación.
Catarina Príncipe
Você define o populismo latino-americano como um fenômeno de massas: em certas circunstâncias, as classes assumem a forma de multidões com pouca ou nenhuma organização de classe, conectando diretamente as pessoas ao líder. Foi esse tipo de populismo que garantiu a vitória de Lula? E como podemos reconectar essa expressão da multidão a uma organização de classe mais sólida?
André Singer
Acredito que o conceito de populismo não se aplica à vitória no segundo turno. É uma questão muito interessante — e que vai me dar trabalho, pois precisarei desenvolver algo mais sofisticado para explicar o fenômeno.
Mas, à primeira vista, creio que presenciamos uma explosão social — chamemos assim — que não apresentava as características do populismo. Foi um movimento mais organizado e mais consciente de seus objetivos do que o fenômeno populista pressupõe.
Para ser claro, minha referência teórica é a definição clássica de Ernesto Laclau, de 1978 — e não a do chamado "segundo Laclau". É uma definição útil para pensar o populismo na América Latina e, naturalmente, também no Brasil.
Por que digo que essa explosão é mais consciente e organizada? Mais consciente porque tinha, antes de tudo, o objetivo de barrar a extrema-direita. Flávio Bolsonaro venceu [o primeiro turno] por 2 pontos percentuais e, imediatamente, começou a montar seu governo e a dizer que alteraria a Constituição. Esse foi um erro tático, até mesmo do ponto de vista dele próprio: o impacto foi tamanho que os setores democráticos da sociedade brasileira começaram, de imediato, a se manifestar e a se organizar.
Esse é um dos lados do fenômeno. O outro é a percepção de que o presidente Lula precisava de um quarto mandato, uma vez que o próprio governo começou a mudar durante a campanha. Não é algo evidente, mas o presidente Lula alterou a dinâmica da campanha em meados de setembro, sem alarde: ele começou a adotar medidas concretas.
Um episódio, em particular, parece-me revelador. No dia 11 de setembro, durante um comício em Porto Alegre, ele disse: “Sei que vocês estão achando os produtos caros no supermercado” — referindo-se ao café e à carne bovina. Isso é muito significativo, pois, até então, o governo não havia abordado diretamente as necessidades materiais da população.
A partir de então, o presidente não apenas abordou essas necessidades, como começou a tomar medidas concretas. Por exemplo, ele aumentou o benefício do Bolsa Família — que o governo não reajustava há quatro anos — e proibiu as apostas online, as chamadas “bets”. Vale lembrar que o Brasil atravessa uma tripla crise: uma crise no custo de vida, uma crise de endividamento das famílias e, somado a isso, uma epidemia de apostas.
As pessoas passaram a apostar desenfreadamente, em parte para obter uma renda extra com a qual pudessem quitar suas dívidas. Como as empresas de apostas estruturam seus jogos de modo que a grande maioria dos apostadores perca, as pessoas acabaram ficando em uma situação ainda pior. O presidente Lula enfrentou grande resistência a essa proibição. Primeiro, porque muitas empresas estão envolvidas e já existiam contratos jurídicos de longo prazo; segundo, porque os clubes de futebol — extremamente populares e importantes no Brasil — dependiam, em certa medida, do patrocínio dessas companhias.
Outra decisão de grande relevância foi a transição do regime de seis dias de trabalho por um de folga (6x1) para o de cinco dias por dois (5x2), reduzindo a jornada semanal de quarenta e quatro para quarenta horas — provavelmente a maior conquista trabalhista desde a Constituição de 1988. O Congresso aprovou a medida, mas todos sabem que a iniciativa partiu do presidente e que ele se empenhou pessoalmente nela. Do ponto de vista estrutural, essa mudança é, naturalmente, ainda mais significativa do que a proibição das apostas. Contudo, a proibição carrega um valor simbólico, já que o presidente a defendeu ainda durante a campanha — um ato de ousadia e coragem em defesa da economia popular.
Paralelamente, o governo adotou medidas para reestruturar as dívidas das classes populares, além de outras iniciativas, como a gratuidade no transporte público aos fins de semana — uma medida que dialoga diretamente com os jovens que foram às ruas. O que quero dizer é que tudo isso não se resume a retórica populista; trata-se de ações concretas. É o que chamo de uma mudança no caráter do governo.
Por fim, vale ressaltar que os segmentos que foram às ruas não estão totalmente desorganizados. As manifestações ocorreram em centenas de cidades, mas as maiores — e sem precedentes — concentraram-se em São Paulo, a maior metrópole do país. Tenho comparado as duas manifestações de outubro em São Paulo, nos dias 11 e 24, com a grande manifestação de direita pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em março de 2016. Não ocorria uma manifestação desse tipo há pelo menos dez anos.
A esquerda liderou esses atos, embora eles não fossem compostos apenas por pessoas de esquerda. Formou-se uma frente democrática, que incluiu setores de centro e, possivelmente, até uma direita democrática: individualmente, as pessoas podem ter saído às ruas para defender a democracia. Contudo, a liderança coube claramente à esquerda; trata-se, possivelmente, das maiores manifestações de esquerda na história do Brasil.
Não é algo evidente, mas o presidente Lula alterou a dinâmica da campanha em meados de setembro, sem alarde: ele começou a adotar medidas concretas.
A esquerda brasileira conta com organizações: o PT, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), além de entidades estudantis, associações culturais, sindicatos, associações de moradores e movimentos populares — com destaque para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). No centro-esquerda, há o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Em suma, o Brasil possui uma estrutura organizacional, e ela se mobilizou. Portanto, sob essas duas perspectivas, eu não classificaria o ocorrido como um fenômeno populista; tratou-se de algo diferente.
Aldo Cordeiro Sauda
Neste ano, observou-se um movimento pendular por parte da ala cosmopolita da burguesia em direção à candidatura de extrema-direita — o oposto do apoio que essa mesma ala conferiu à eleição de Lula em 2022. No plano internacional, a política externa dos EUA apresenta um movimento pendular análogo: simpatia por Lula sob a gestão de Joe Biden em 2022, e apoio explícito ao bolsonarismo sob a gestão de Trump em 2026. Até que ponto a guinada da classe dominante brasileira em direção ao bolsonarismo expressa uma mera deferência a Washington?
André Singer
André Singer
Pelo que entendo, o setor que chamo de cosmopolita — no caso americano, as grandes empresas de tecnologia — apoiou Biden em 2020. Em 2024, não ficou muito claro para mim qual era a postura deles, mas também não pareciam apoiar Trump, com exceção de Elon Musk.
Contudo, quando Trump assumiu o cargo, todos eles estavam presentes. No caso brasileiro, parece plausível que uma conversão da burguesia cosmopolita americana à extrema-direita tenha influenciado a burguesia brasileira. Até o último momento, havia uma certa expectativa de que esse setor pudesse se manifestar a favor do presidente Lula.
Esse setor comprometeu-se com a democracia em 2022, em um movimento mais amplo do que o simples apoio ao presidente Lula. Em agosto de 2022, durante uma manifestação em São Paulo, esses líderes empresariais divulgaram uma carta. Eles afirmaram que não aceitariam, sob nenhuma circunstância, a recusa em reconhecer o resultado eleitoral — exatamente o que a Casa Branca declarou.
Essas duas posições foram fundamentais para evitar que a maior parte das Forças Armadas aderisse ao golpe, uma vez que os militares sabiam que não poderiam governar sem esse apoio. Portanto, veja bem: trata-se de um fenômeno brasileiro. Uma conexão com uma transformação ocorrida nos Estados Unidos é uma hipótese possível.
Catarina Príncipe
A nossa interpretação é a de que a burguesia cosmopolita brasileira está mantendo uma postura neutra no momento, devido à mudança política nos Estados Unidos — a transição de Biden para Trump. Por ocasião da tentativa de golpe, a administração Biden foi fundamental para impedir que ela avançasse. Agora, com Trump, pode haver uma tentativa de intervenção direta na política brasileira.
Portanto, uma parcela da burguesia cosmopolita prefere não se posicionar neste momento, evitando assim um atrito tanto com a política dos EUA quanto com uma eventual vitória de Bolsonaro. Não se trata, propriamente, de um espelhamento direto entre diferentes frações da burguesia.
André Singer
Aproveito a sua interpretação para acrescentar um elemento que torna a questão ainda mais complexa. O principal ponto de divergência entre esse setor da burguesia brasileira e o terceiro governo Lula é o déficit fiscal. Esse segmento exige um corte expressivo nos gastos públicos — que, na visão deles, deveria recair sobre os benefícios previdenciários — e defende o desvinculamento desses benefícios em relação ao salário mínimo. Como a Constituição brasileira estabelece essa vinculação, qualquer aumento real do salário mínimo acaba elevando, automaticamente, o valor de todos os benefícios.
Outro alvo é o piso constitucional para saúde e educação: a Constituição brasileira determina que uma parcela específica da receita tributária anual seja destinada a essas áreas, sendo vedada a redução desse montante. O objetivo da burguesia é remover esse piso da Constituição, permitindo, assim, a redução desses gastos.
Estamos, portanto, diante de um problema gravíssimo: de um lado, o sistema previdenciário e o conjunto dos aposentados; de outro, as duas principais políticas sociais que constituem o núcleo social da Constituição de 1988 — a saúde e a educação. Esse é o cerne do problema. Resta saber se existe, também, uma certa cautela ou o desejo de alinhar-se à burguesia cosmopolita norte-americana.
Aldo Cordeiro Sauda
A soberania nacional ocupou o centro das atenções na campanha, talvez pela primeira vez desde o retorno à democracia. Que papel essa questão desempenhou na reviravolta do segundo turno contra Flávio Bolsonaro?
André Singer
A ofensiva do governo Trump contra o Brasil — as tarifas e sua intervenção, direta ou indireta, nas eleições — colocou a soberania nacional em pauta. Trump justificou as primeiras tarifas alegando que o Brasil estava perseguindo seu candidato de preferência, Jair Bolsonaro.
O Brasil, hoje, não possui uma corrente nacionalista muito forte. Um nacionalismo começa a surgir agora, porque o cenário global mudou e o país enfrenta uma agressão político-econômica — chamemos assim. Portanto, o nacionalismo entrou na pauta, mas, na minha opinião — e posso estar enganado —, ele ainda não se tornou uma questão central.
Lula quer transformar a economia brasileira investindo na economia verde, em infraestrutura e em inteligência artificial (centros de dados), além de aproveitar os recursos do Brasil em metais e minerais raros. Qual é a sua margem de manobra para realizar isso, considerando o Novo Arcabouço Fiscal — a regra fiscal do governo Lula, de 2023, que limita o crescimento anual dos gastos a 70% do crescimento das receitas? Como devemos analisar a relação do seu governo com a burguesia neste quarto mandato e o novo equilíbrio de forças?
Você acredita que a burguesia tenderá a aprofundar o conflito com o PT, intensificando o movimento pendular? E, nesse contexto, o que acontece com a mobilização popular — vinda da base — que vimos no segundo turno?
André Singer
Acredito que esse seja o ponto central deste quarto mandato: qual será o desfecho desse conflito. A bolsa de valores caiu quase 14% no dia seguinte à eleição. Como venho dizendo, o mercado não tem voto, mas tem dinheiro, e sua mensagem é clara: se não cortarem os gastos públicos, nós vamos embora.
A questão do ajuste fiscal é, de fato, central, pois a burguesia exige uma austeridade rigorosa. Na minha opinião, a demanda por austeridade é a questão fundamental na política brasileira atual; contudo, ninguém a coloca abertamente — permanece um debate implícito. Isso ocorre, em parte, porque não estamos conseguindo politizar o problema, ou seja, conscientizar as classes populares e a classe trabalhadora de que é isso que está em jogo. Esse é o principal embate.
É isso que organiza a política brasileira. No meu livro recente, Impasse: O Brasil diante da onda reacionária, procurei mostrar que essa questão divide a frente democrática ao meio. É, como dizem os americanos, um "elefante na sala": todos agem como se ele não existisse. Senti que meu papel era trazê-lo à tona; obviamente, não consigo fazer isso sozinho, mas posso contribuir, de certa forma.
O conflito é imediato, pois a transformação de que o Brasil necessita — que passa pela reindustrialização — é uma tarefa gigantesca. O Brasil é um país enorme, e não se altera uma estrutura dessa magnitude sem um grande investimento.
Essa transformação não pode depender apenas de investimento público; é preciso também haver investimento privado. Mas precisamos pensar a partir dos instrumentos de que dispomos. Perry Anderson afirma que o keynesianismo já não funciona, portanto, precisamos criar novos mecanismos; contudo, enquanto não os tivermos, utilizarei os antigos. O Estado terá de induzir esse processo de desenvolvimento, embora também precise atrair outros investidores.
Existe, portanto, uma incompatibilidade entre as necessidades do país e esse corte radical nos gastos públicos, que segue na direção oposta. Esse é o ponto central. Mesmo que os termos do debate não estivessem claros, creio que as grandes manifestações em centenas de cidades brasileiras indicam que o governo deveria assumir esse compromisso. Teremos de acompanhar os acontecimentos para ver como a situação se desenrola.
Catarina Príncipe
Seu livro anterior definiu o lulismo como “combater a pobreza sem confrontar o capital”. O lulismo pode ir além de si mesmo — e ele quer isso? Existe espaço para tal hoje, dada a atual aritmética partidária no Congresso? E como a esquerda brasileira pode se organizar para forçá-lo a adotar medidas que transcendam o assistencialismo?
André Singer
Começarei pelo Congresso, o que creio ser mais simples. No Congresso que assume em 2027, a extrema-direita cresceu — não às custas da esquerda, mas de outras forças da direita. Na Câmara dos Deputados, passou de 91 para 121 deputados, num total de 513 cadeiras.
Isso é significativo: desde a redemocratização, dificilmente encontraríamos uma bancada tão grande. Contudo, ela não decide nada sozinha. O que teremos é uma negociação permanente — algo que, aliás, já ocorre: o terceiro governo Lula tem negociado constantemente com o que, no Brasil, chamamos de “Centrão”.
A questão do ajuste fiscal é, de fato, central, uma vez que a burguesia exige uma austeridade rigorosa.
Para esclarecer: o “Centrão” é a direita estabelecida, a direita tradicional, por assim dizer. Ele geralmente detém a maioria no Congresso Nacional, pois o sistema eleitoral brasileiro reproduz pequenas oligarquias locais que tendem a dominar as eleições legislativas.
Trata-se de uma característica estrutural do Brasil, que deve perdurar. O presidente Lula especializou-se em negociar com esses setores. O terceiro mandato foi o mais desafiador nesse aspecto, visto que o Congresso ganhou força por meio do que chamamos de “orçamento secreto” [emendas orçamentárias que permitem aos parlamentares direcionar verbas federais sem revelar a autoria da solicitação]. Ainda assim, o presidente conseguiu aprovar suas duas propostas mais ousadas.
A primeira foi a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000 (cerca de US$ 940) mensais, compensada por uma tributação sobre aqueles que ganham mais de R$ 50.000 (cerca de US$ 9.400). A Câmara dos Deputados aprovou a medida por unanimidade. O segundo ponto foi a mudança da jornada de trabalho de 6x1 para 5x2, assunto que já discutimos. A Câmara dos Deputados já havia aprovado a medida por unanimidade, e o Senado acaba de aprová-la por uma maioria esmagadora.
Isso demonstra que esse tipo de negociação é possível. A direita tradicional faz concessões de um lado e de outro. Sua concessão à extrema-direita consiste em um esforço para reduzir as penas impostas pela Justiça a Jair Bolsonaro e a todos os condenados por participação na tentativa de golpe de 2022 — e esse esforço tende a se ampliar.
É provável que isso traga consequências reais: a extrema-direita tentará viabilizar a candidatura de Bolsonaro em 2030. Acredito que essa seja a perspectiva deles. Repito: não conseguirão isso sem o apoio da direita, mas, a depender das negociações e articulações, é algo que pode vir a acontecer.
Passo agora ao problema da esquerda. A esquerda não deve abandonar a frente democrática. O desafio central no Brasil — assim como em muitos outros países — é isolar a extrema-direita e reverter seu avanço rumo ao poder.
Em uma perspectiva de longo prazo, observamos um avanço da extrema-direita — gradual, lento, porém constante, ora mais acelerado, ora mais contido. Caso a extrema-direita chegue ao poder e se consolide globalmente, a classe trabalhadora sofrerá um retrocesso tremendo em todos os aspectos.
Nossa tarefa, portanto, é evitar esse cenário, isolando a extrema-direita e derrotando-a enquanto alternativa de poder no Brasil. Para isso, precisamos permanecer na frente democrática. Contudo, a frente democrática encontra-se dividida por dois programas econômicos incompatíveis.
Devemos lutar, de forma explícita, dentro dessa frente democrática, para que nossa posição conquiste a maioria. Estou convencido de que a democracia depende de que a maioria da população a reconheça como uma resposta aos seus problemas; caso contrário, ela não se sustentará. Essa é a contribuição mais valiosa que a esquerda pode — e deve — oferecer à defesa da democracia.
O lulismo, tal como o caracterizei, é um movimento que busca combater a pobreza — algo fundamental no Brasil — sem, contudo, confrontar o capital. Mantenho essa definição. Mas a realidade política é dinâmica. Nós, assim como todos os outros atores, estamos diante de novas situações; portanto, é inevitável que coisas novas aconteçam.
Como você sabe, não podemos prever o futuro; apenas conseguimos identificar tendências. Gostaria de concluir dizendo que o compromisso com as camadas populares está na natureza do lulismo: ele depende de uma base popular; trata-se de um movimento popular. Além disso, só o processo político dirá.
Colaboradores
André Singer é um teórico político que atuou como secretário de imprensa do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil.
Catarina Príncipe é uma ativista política de Portugal. É membro do Bloco de Esquerda, coeditora do Europe in Revolt e editora colaboradora da Jacobin.
Aldo Cordeiro Sauda é jornalista, advogado e ativista do PSOL que cobriu a Primavera Árabe do Cairo e Beirute para O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo. É doutorando em ciência política pela Universidade de São Paulo e fundador da Contrabando Editorial.







