30 de outubro de 2026

Quarto ato

O retorno de Lula.

Mario Sergio Conti

Sidecar


O segundo turno da eleição presidencial no Brasil, realizado no domingo, 25 de outubro, trouxe diversos resultados históricos. Mais de 128 milhões de pessoas votaram, e a soma de abstenções, votos nulos e votos em branco atingiu um patamar recorde de baixa. Pela primeira vez, um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno venceu o segundo, garantindo a Lula um quarto mandato sem precedentes. Para além desses marcos, o resultado representa não apenas uma reviravolta dramática no cenário interno — um retorno que poucos previram —, mas também uma mudança significativa na política regional: o Brasil, ao menos por ora, freou o avanço da extrema-direita na América Latina (como visto na Argentina e em El Salvador) e da direita de modo mais amplo (em países como Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Venezuela).

Os candidatos apresentavam um contraste marcante. Lula, hoje com 81 anos, nasceu na extrema pobreza e começou a trabalhar aos 12 anos, formando-se mais tarde como metalúrgico. Sindicalista militante, foi preso durante a ditadura por seu papel na liderança de greves, antes de fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, deve sua carreira política ao pai, o capitão reformado do Exército e ex-presidente Jair Bolsonaro. "Empreendedor" formado em instituições privadas — embora sem empresas — e advogado com poucos clientes (entre eles, um policial militar acusado de matar uma menina de cinco anos), Flávio foi eleito para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aos 21 anos. Sua ascensão política foi marcada por controvérsias: ele concedeu uma medalha oficial a um ex-policial militar que se tornou matador de aluguel, e seu gabinete parlamentar empregava a mãe desse assassino. Após a eleição de seu pai para a presidência em 2019, Flávio Bolsonaro foi eleito para o Senado, embora seja mais conhecido por transações imobiliárias suspeitas do que por qualquer realização legislativa.

A campanha de Lula no primeiro turno foi pouco expressiva. Ao contrário da eleição de 2022, na qual ele derrotou Jair Bolsonaro — que posteriormente foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e que, atualmente, cumpre prisão domiciliar —, Lula não formou uma ampla aliança com partidos de centro, concorrendo apenas sob a bandeira do PT, com o apoio de uma coalizão de legendas menores de esquerda. Sua campanha defendeu os programas sociais associados aos seus mandatos presidenciais anteriores; contudo, seu terceiro mandato carecia de uma realização marcante em torno da qual pudesse mobilizar os eleitores. A visão aparentemente otimista da cúpula do PT sobre a conjuntura social e econômica do Brasil parecia desconectada da realidade. O Bolsa Família — principal programa de transferência de renda, criado por Lula em 2003 e que beneficia quase 20 milhões de famílias de baixa renda, totalizando 50 milhões de pessoas — não sofria reajustes desde março de 2023. A recente legalização das apostas online resultou em níveis alarmantes de endividamento. Os preços dos alimentos subiam, afetando de forma mais severa as famílias mais pobres. Talvez por esses motivos, o PT não tenha incentivado manifestações de rua, limitando-se a poucos eventos realizados apenas por formalidade, embora ainda mantivesse vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, sugeriu a possibilidade de cortar gastos com saúde, educação e até mesmo Bolsa Família, embora posteriormente tenha recuado. Ele prometeu relaxar as restrições ao desmatamento na Amazônia, facilitar a exploração dos recursos minerais e alinhar o Brasil aos interesses dos Estados Unidos. Seu programa atraiu apoio das finanças, de grandes industriais e do agronegócio, enquanto Meta foi acusado de manipular algoritmos de mídia social em seu benefício. O seu apelo a grandes sectores da população resultou da sua promessa de adoptar uma linha dura em relação ao crime, adoptando o modelo de encarceramento em massa do El Salvador de Bukele. Se vencesse, prometeu perdoar o Bolsonaro mais velho e subir a rampa do Planalto de braços dados. Para marcar o fim da era Lula, ele receberia a faixa presidencial de seu pai e não do presidente cessante, como manda o protocolo.

A campanha do primeiro turno foi dominada por um grande escândalo de corrupção, com ramificações que alcançaram toda a classe política e se espalharam pelo país. O Banco Master, que teve carta branca das autoridades financeiras durante o governo de Jair Bolsonaro, operou um esquema de pirâmide financeira utilizando recursos de fundos de pensão municipais e estaduais — incluindo o do estado da Bahia, administrado pelo PT. O esquema arrecadou mais de 2 bilhões de dólares e envolveu partidos políticos, parlamentares, governadores, prefeitos, juízes, veículos de imprensa, igrejas evangélicas, advogados e funcionários do Banco Central. O proprietário do banco, Daniel Vorcaro, desembolsou 25 milhões de dólares para contratar o escritório de advocacia da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Conhecido popularmente como "Xandão", Moraes determinou a prisão de Jair Bolsonaro e gerou controvérsias ao recorrer, de forma agressiva, a ordens de censura e à perseguição de opositores políticos. Vorcaro também destinou quantias vultosas a outros três ministros do STF, além de financiar festas extravagantes para a elite política brasileira. O próprio Flávio Bolsonaro foi implicado no caso: uma gravação telefônica, na qual ele solicita a Vorcaro 24 milhões de dólares para financiar um filme sobre seu pai, veio a público no início deste ano. O escândalo do Banco Master destruiu a credibilidade do Supremo Tribunal Federal, mas não freou a ascensão constante de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto durante o período pré-eleitoral.

Até a véspera do primeiro turno, no domingo, 4 de outubro, Lula mantinha uma vantagem estreita. A noite da eleição trouxe uma surpresa: Flávio saiu na frente, com 47% dos votos contra 45% de Lula — uma diferença de 2,2 milhões de votos. O PT também sofreu uma derrota acachapante nas eleições legislativas, perdendo espaço tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados. Nenhum dos candidatos da "velha guarda" do partido conseguiu a reeleição. "A era do PT acabou", vangloriou-se Flávio Bolsonaro. Atônita, a cúpula da campanha de Lula viu-se mergulhada em desordem.

A resposta a nível popular, no entanto, foi totalmente diferente. Irromperam manifestações espontâneas, dissipando a tristeza predominante em questão de dias. Pequenas reuniões transformaram-se em assembleias e marchas que logo se espalharam por todo o país. Santos, no litoral do estado de São Paulo, oferece um exemplo vívido. A cidade abriga o maior porto da América do Sul desde o século XIX, exportando café para o mundo. Tem uma longa tradição de organização trabalhista e política de esquerda, reforçada pelo desenvolvimento da indústria petrolífera na vizinha Cubatão. Dois dias após a primeira volta, o Sindicato dos Petroleiros organizou uma discussão sobre como abordar o segundo turno. Eram esperadas cerca de 50 pessoas; em vez disso, compareceram 200, cujo número aumentou rapidamente para 500, lotando o auditório do sindicato e espalhando-se pela rua. Esta reunião ao ar livre contou com a participação de estudantes da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo criada durante o primeiro mandato de Lula, e de manifestantes liderados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes. "Antes que eu percebesse, havia 3 mil pessoas na rua", conta Kris Mackleiny, trabalhador da Petrobras que improvisou um discurso inflamado.

No mesmo dia, a antiga União Nacional dos Estudantes, que representa 6 milhões de estudantes universitários em todo o Brasil, realizou uma reunião no Rio de Janeiro. Uma grande multidão se reuniu e decidiu lançar manifestações pró-Lula por todo o país. Em quatro dias, ocorreram pelo menos 350 manifestações estudantis. Os estudantes universitários já estavam concentrados nas capitais dos estados, mas a expansão das universidades federais e escolas técnicas sob os governos petistas nas últimas décadas estendeu sua presença ao interior do Brasil e às cidades médias. ‘Trabalhador, olha aqui: estamos lutando para que seu filho possa estudar’: sem qualquer orientação da liderança nacional, esse refrão pôde ser ouvido em inúmeras reuniões. Milhares de trabalhadores aderiram ao movimento, desde operários em Barueri e Volta Redonda até balconistas em ruas movimentadas e distritos comerciais de todo o Brasil.

O ponto alto da mobilização ocorreu no domingo seguinte, 11 de outubro. Apoiadores de Lula reuniram-se em grande número ao longo da Avenida Paulista, em São Paulo — um trecho de 3 quilômetros que, há muito, é o palco tradicional de protestos e que, na última década, tornou-se cenário frequente de agitações da extrema-direita. A adesão remeteu às manifestações da década de 1980 que reivindicavam eleições diretas para a presidência. Protestos de escala e intensidade semelhantes foram registrados por todo o país, de Recife a Porto Alegre.

O chamado à mobilização partiu de "fandoms" — comunidades online —, mais do que dos esforços convencionais de partidos políticos ou sindicatos. Logo após o resultado do primeiro turno, André Janones, deputado federal e aliado de Lula, ajudou a transformar um canal no WhatsApp em um "Exército de Lula" — uma força online de massa que rapidamente alcançou mais de 10 milhões de seguidores, coordenando ações e disseminando vídeos virais e hashtags. Embora tenha sido temporariamente retirado do ar após intervenções de magistrados nomeados por Jair Bolsonaro, essa vasta rede demonstrou que o lulismo havia se tornado uma força vital no espaço digital — o mesmo espaço que fora decisivo para a vitória de Bolsonaro em 2018. A grande onda de manifestações populares estimulou, por sua vez, uma participação online ainda maior. O misto de apreensão e entusiasmo resultou em um nível excepcionalmente elevado de engajamento político.

O que levou tantas pessoas — inclusive aquelas que, habitualmente, não se envolvem em ativismo político — a deixar de lado a letargia e entrar em ação? Não existe uma resposta definitiva, mas é possível levantar algumas hipóteses. A primeira diz respeito à democracia. Flávio Bolsonaro e seus apoiadores desafiaram, repetidamente, as instituições democráticas, manifestaram admiração por figuras autoritárias e defenderam o legado da ditadura militar brasileira. Ele e sua família passaram a simbolizar um estilo de política profundamente ameaçador. Muitos temeram o ressurgimento de perseguições contra a esquerda, sindicalistas, intelectuais e artistas. As afinidades de Bolsonaro com o "trumpismo", sua postura permissiva em relação ao porte de armas e as ameaças de retrocesso em políticas de bem-estar social e direitos trabalhistas — tudo isso contribuiu para tais preocupações. Além disso, permanecem vivas as lembranças da gestão irresponsável da pandemia de Covid-19 por parte de Bolsonaro (pai).

Esses fatores, por si só, contudo, não conseguem explicar a reviravolta dramática entre os dois turnos. A mobilização que a impulsionou não foi liderada pelo PT, amplamente visto como uma burocracia anquilosada e desconectada dos jovens. Janones é filiado ao partido ambientalista Rede, enquanto o projeto de lei que propõe a semana de trabalho de cinco dias foi apresentado por Erika Hilton, deputada transgênero do PSOL — um partido situado à esquerda do PT. Ainda assim, a derrota no primeiro turno levou o próprio Lula a agir. Ele reagiu aumentando os valores do Bolsa Família, promovendo mudanças na estrutura de sua campanha, concedendo entrevistas dinâmicas a Janones e intensificando investimentos em projetos voltados à proteção da população mais pobre. Economistas estimam que ele destinou mais de 72 bilhões de reais a benefícios sociais no período que antecedeu a eleição.

Na véspera do segundo turno, multidões determinadas se reuniram novamente ao longo da Avenida Paulista e da Avenida Atlântica, em São Paulo, ao lado da Praia de Copacabana, no Rio. A tensão aumentou, com as pesquisas prevendo uma disputa acirrada. Nas ruas, os apoiadores de Lula eram particularmente visíveis: vestidos de vermelho, carregando faixas e distribuindo panfletos. Os jovens ajudaram os idosos que não votaram no primeiro turno a chegar aos locais de votação. Filhos e netos empurravam cadeiras de rodas e ajudavam parentes doentes ou com dificuldade de locomoção. Na periferia de São Paulo, comitês locais organizaram creches para mães e avós para que pudessem votar.

A votação eletrônica permitiu que a apuração fosse concluída em apenas algumas horas, período durante o qual os candidatos alternaram a liderança por diversas vezes. Contudo, o resultado final foi decisivo: Lula obteve 64,2 milhões de votos (51,8%) — cerca de 10,4 milhões a mais do que no primeiro turno e 4 milhões a mais que seu adversário, que conquistou 60 milhões (48,2%). Flávio recusou-se a reconhecer a derrota, alegando fraude eleitoral após a extensão do horário de votação em algumas cidades, medida tomada porque a escassez de ônibus públicos impediu que os eleitores chegassem aos locais de votação. No entanto, essa votação ocorrida após o horário previsto totalizou apenas 34 mil votos, o que representa não mais que 0,27% do eleitorado nos municípios afetados.

Sete minutos após o anúncio do resultado, o juiz Moraes determinou a apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro, sob a justificativa de que ele poderia fugir do país para evitar responder a acusações de corrupção e lavagem de dinheiro. Não está claro por que nenhuma medida nesse sentido foi tomada enquanto ele ainda era candidato. Apesar de ter afirmado que permaneceria no Brasil, Flávio atravessou a fronteira rumo à Argentina, governada por Javier Milei, e, posteriormente, viajou para Miami, onde a administração Trump lhe concedeu permissão para permanecer. Ao chegar, declarou-se o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil — uma afirmação que, em menos de meia hora, foi alterada para “líder do Brasil”. A extrema-direita internacional mobilizou-se para proteger seu protegido, embora Trump, até o momento, tenha evitado reconhecê-lo — nos moldes do que ocorreu com Juan Guaidó — como chefe de Estado legítimo.

O resultado não é apenas uma vitória pessoal de Lula. Ele demonstra a capacidade de uma coalizão ampla e improvisada — composta por trabalhadores e jovens — de defender um projeto político que eles consideravam estar sob ameaça. Os desafios que Lula, o PT e o povo brasileiro enfrentam são imensos: melhorar os padrões de vida, ampliar a igualdade social e promover o desenvolvimento, tudo isso em um cenário de crise econômica, turbulência política, obstrução por parte de um Legislativo dominado pela direita e um imperialismo norte-americano cada vez mais agressivo. Os mercados financeiros manifestaram prontamente seu descontentamento com o resultado eleitoral: a Bolsa de Valores de São Paulo despencou 14% na segunda-feira, e o real sofreu sua queda mais acentuada em décadas. O movimento popular que ajudou a garantir a vitória de Lula não atenuou os conflitos políticos no Brasil. Pelo contrário, ele marca uma nova etapa na luta pela democracia, pelos direitos sociais, pelas prioridades econômicas e pelos rumos futuros do país. Mas, agora, há uma diferença fundamental em relação ao passado recente: existe esperança.

Uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato prejudicará o Partido Republicano, mas o trumpismo perdurará

O Partido Republicano parece caminhar para derrotas em novembro. Mas o trumpismo sobreviverá às eleições de meio de mandato e até mesmo à própria presidência de Donald Trump. Derrotá-lo exigirá uma política de esquerda que dialogue com as dificuldades econômicas da classe trabalhadora.

Joseph G. Peschek

Jacobin

O trumpismo funde pseudopopulismo, nacionalismo e autoritarismo ao capitalismo predatório. Seu objetivo é o domínio duradouro. Para minar esse objetivo, a esquerda precisa compreender o que o torna singular. (Kent Nishimura / AFP via Getty Images)

Observadores de todo o espectro político preveem que os democratas conquistarão avanços significativos nas próximas eleições de meio de mandato — tanto na Câmara quanto no Senado, e em outras esferas. Há bons motivos para acreditar nessas previsões. Nos Estados Unidos, as eleições que não coincidem com a disputa presidencial estão cada vez mais “nacionalizadas”; isso significa que a avaliação da política nacional e do desempenho do presidente exerce uma influência decisiva nas escolhas para outros cargos. Além disso, o presidente Donald Trump — que adotou uma postura cruel e errática, ao mesmo tempo em que presidia uma economia fraca e uma guerra impopular contra o Irã — não preparou o terreno para o sucesso dos republicanos.

Com taxas de inflação elevadas, salários estagnados e custos de crédito altos, as questões econômicas estão no centro do dilema atual do Partido Republicano. Em uma pesquisa recente realizada pelo Washington Post, ABC News e Ipsos, a taxa de aprovação da gestão econômica de Trump é de apenas 28%. Para cada pessoa que avaliou a situação econômica como boa, três a consideraram “não muito boa” ou “ruim”. Quarenta e oito por cento dos entrevistados afirmaram estar em uma situação financeira pior do que quando Trump assumiu o cargo em 2025 — o maior índice registrado em pesquisas do Post-ABC sobre qualquer presidente desde 1986. Em outros temas, 65% disseram que foi um erro realizar uma ação militar contra o Irã, e 68% desaprovaram a forma como Trump lidou com os aliados dos EUA. Um dado revelador: 56% afirmaram que Trump foi longe demais na deportação de imigrantes sem documentação — um aumento em relação aos 48% registrados em abril de 2025.

Independentemente do que aconteça em novembro, Trump permanecerá no cargo por mais dois anos, e a vertente política que ele representa não desaparecerá quando ele deixar o poder. Quem espera que uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato — seguida pela saída de Trump em 2029 — restaure a “antiga normalidade” (e que essa normalidade seja suficiente para impedir um novo ressurgimento da extrema-direita), precisa rever seus conceitos. Na verdade, é preciso encarar a força política que foi desencadeada na vida americana — cujos reflexos, sem dúvida, serão sentidos por gerações.

Quem espera que uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato e a saída de Trump em 2029 restaurem a antiga normalidade — e que essa antiga normalidade seja suficiente para impedir um novo ressurgimento da extrema-direita — precisa repensar.

Em meu novo livro, Class, Power and the State in the Trump Era: A Critical Analysis (De Gruyter Brill, 2026), busco traçar um panorama inicial do trumpismo. A seguir, valho-me dessa obra para descrever do que o trumpismo é composto, como ele se transformou entre os dois mandatos de Trump e o que isso significa para a esquerda.

Excesso autoritário

Um aspecto inconfundível do trumpismo é o autoritarismo descarado. Essa dimensão está plenamente evidente neste momento, à medida que Trump trabalha de forma empenhada para minar a confiança no sistema eleitoral. Em setembro, a Suprema Corte barrou sua tentativa de utilizar o Serviço Postal dos EUA para restringir o voto por correspondência. Desde então, o governo tem se dedicado a “apresentar, de forma sistemática, alegações falsas e sem fundamento, em um esforço para semear dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral descentralizado do país”, conforme apontou uma análise do New York Times.

Por exemplo, como parte da grande campanha mentirosa de Trump sobre o voto ilegal, o Departamento de Justiça alegou, sem provas, que vinte mil pessoas nos cadernos eleitorais da Califórnia eram “prováveis ​​não-cidadãos”. O departamento então acusou vinte e oito residentes da Califórnia, todos imigrantes legais, de violarem as leis eleitorais federais. Apesar da campanha de desinformação de Trump, a maioria dos americanos está confiante de que as eleições intercalares serão conduzidas de forma justa, embora sete em cada dez não tenham confiança de que Trump aceitará os resultados se os republicanos perderem.

As últimas semanas trouxeram uma repressão intensificada contra aqueles que Trump considera inimigos. Mais notavelmente, funcionários do Departamento de Segurança Interna invadiram a casa da congressista Ilhan Omar, em Washington, a representante somali-americana do Quinto Distrito de Minnesota, apreendendo o seu telefone, passaporte e outros documentos. Há muito que Trump demonstra uma fixação por Omar, a quem chamou de “lixo”, e pelos somalis-americanos, que residem em grande número no Minnesota, especialmente na área das Twin Cities. Vários dias antes do ataque, Trump escreveu no Truth Social: "O outrora grande estado de Minnesota está sendo tomado por imigrantes somalis. Há violência, assassinato e caos em todo o estado. O povo de Minnesota deve revidar". De acordo com vários relatórios, aqueles que estão familiarizados com a investigação acreditam que o seu objetivo é revogar a cidadania de Omar e, eventualmente, deportá-la.

No meu livro, caracterizo o trumpismo como uma forma distinta de política de direita, misturando (pseudo-)populismo, nacionalismo e autoritarismo com políticas económicas e sociais pró-capitalistas desinibidas, até mesmo predatórias ou patrimoniais. Embora estas formas políticas tenham existido em vários formatos ao longo da história política americana, combinaram-se de novas formas na era Trump. O trumpismo marcou um afastamento do consenso ideológico republicano anterior a 2016 e sinalizou a chegada de uma forma alternativa de política de direita, que também se desenvolveu noutros países. O objectivo do movimento MAGA é enfraquecer as forças rivais e estabelecer a hegemonia na política americana com base num bloco nacional-conservador reconfigurado que goza do apoio popular e da elite. O ataque ao sistema eleitoral e a rusga à casa de Omar fazem sentido sob esta luz. Um movimento empenhado em dominar a política americana tem todos os motivos para desacreditar as eleições que poderiam testar o seu poder e para punir as pessoas que trata como inimigas.

A evolução do trumpismo

Se estas características eram claramente evidentes na primeira presidência de Trump, só aprofundaram o seu domínio depois de ele ter deixado o cargo em 2021 e durante a sua segunda presidência. De 2021 a 2025, entre os dois mandatos de Trump, o trumpismo passou por quatro mudanças importantes. Primeiro, a visão política reaccionária de Trump tornou-se mais radical, marcada por um compromisso incessante com a mentira das eleições roubadas de 2020, intensificando o autoritarismo, os votos de retribuição e a retórica histérica sobre a ameaça do socialismo, do comunismo e da “esquerda radical”.

Em segundo lugar, a campanha de Trump trabalhou com grupos de reflexão de direita para elaborar planos para uma segunda administração Trump. O objectivo era ir além dos objectivos conservadores tradicionais, como o corte de impostos e a redução da despesa, para um ataque generalizado ao Estado administrativo que daria ao presidente o controlo total sobre o poder executivo. Como disse Russell Vought, agora diretor do orçamento de Trump, em 2023: “O primeiro dia do presidente será uma bola de demolição para o estado administrativo”. O plano mais conhecido para uma segunda administração Trump foi o Projecto 2025 da Heritage Foundation, lançado em 2023, do qual Vought foi um dos principais arquitectos.

De 2021 a 2025, entre os dois mandatos de Trump, o trumpismo passou por quatro mudanças importantes.

Em terceiro lugar, Trump e o movimento MAGA alinharam-se estreitamente às preocupações da cultura e do pensamento político de direita — como o nacionalismo cristão, a cruzada contra o "wokeísmo", o "pronatalismo" e receios quanto a uma "erosão civilizacional", que bebem da teoria da "grande substituição" defendida pela extrema-direita. Esse tipo de pensamento é comum entre figuras ligadas à segunda fase do trumpismo, como JD Vance, Pete Hegseth e Stephen Miller.

Em quarto lugar, após deixar o cargo em 2021, Trump abandonou quase por completo o pseudopopulismo econômico voltado para a classe trabalhadora, que fora um elemento central de sua campanha de 2016. A campanha de Trump em 2024 buscou abertamente o apoio de Wall Street, do Vale do Silício e de outros setores do mundo corporativo — incluindo as indústrias de petróleo e gás, tabaco e criptomoedas (sendo que, anteriormente, ele havia classificado estas últimas como um golpe).

Trump prometeu reduzir as alíquotas de imposto corporativo, diminuir regulamentações — inclusive as ambientais — e apoiar a extração de combustíveis fósseis. Em maio de 2026, perguntaram a Trump se a "situação financeira dos americanos" o motivava a buscar um acordo com o Irã. "Nem um pouco", respondeu ele. "Não penso na situação financeira dos americanos. Não penso em ninguém. Penso em uma única coisa: não podemos permitir que o Irã tenha uma arma nuclear. É só isso." E acrescentou: "Todo americano entende".

Uma oportunidade para a esquerda

Mas nem todo americano entende. A guerra com o Irão é impopular, especialmente no contexto das dificuldades económicas internas dos americanos. Essas dificuldades são em grande parte causadas pelo próprio presidente.

A assinatura de Trump, One Big Beautiful Bill Act, promulgada em Julho de 2025, foi considerada “a legislação fiscal e orçamental mais regressiva da história americana moderna” pelos estudiosos de Yale, Patrick Sullivan e Jacob Hacker. As pressões inflacionistas que pressionam a classe trabalhadora resultam em grande parte das políticas equivocadas de Trump, incluindo a guerra contra o Irão, que fez subir o preço do petróleo e dos produtos derivados do petróleo; tarifas generalizadas, que aumentaram os preços dos bens importados e dos factores de produção utilizados na produção nacional; e medidas anti-imigração e deportação que levaram à escassez de mão-de-obra na construção, agricultura, processamento de carne e outros sectores.

Portanto, existem condições para um repúdio em grande escala a Trump e ao movimento MAGA, que são cada vez mais autoritários e até fascistas. Já em 1921, mais de um ano antes da Marcha sobre Roma, Antonio Gramsci teorizou o apelo interclassista e psicologicamente intenso do fascismo, observando que o fascismo “tornou-se um desencadeamento de forças elementares que não podem ser contidas dentro do sistema burguês de governação económica e política”. O desafio para a esquerda é construir uma política que possa controlar, redireccionar e desenergizar estas “forças elementares” para evitar uma maior deriva em direcção ao autoritarismo e ao fascismo, algo que o liberalismo centrista e corporativo tem sido incapaz de fazer.

O que isso significa para a política após as eleições de meio de mandato? Em primeiro lugar, a esquerda precisa de iniciativas educativas para contrapor os ataques de cunho macarthista — vindos da direita — a ideias progressistas e socialistas, permitindo que estas sejam debatidas de forma racional e sem estigmas. Em segundo lugar, é preciso aproveitar o êxito do trabalho eleitoral realizado pelos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America) e outros grupos — como se viu na campanha de Zohran Mamdani, em Nova York, e em outros locais. Em terceiro lugar, são necessários planos econômicos populistas progressistas que atendam aos interesses da classe trabalhadora e desmascarem o pseudopopulismo de direita. As propostas da economista Isabella Weber sobre controles estratégicos de preços — já discutidas na revista Jacobin — constituem um ponto de partida que merece ser considerado. Avanços da esquerda nessas frentes ajudarão a combater não apenas o que resta da presidência de Trump (ou uma eventual "versão 2.0" dela), mas também o "trumpismo" — uma vertente cada vez mais nociva da política capitalista de direita e antidemocrática.

Colaborador

Joseph G. Peschek é professor emérito de ciência política na Hamline University. Ele é o autor de Class, Power and the State in the Trump Era: A Critical Analysis.

28 de outubro de 2026

Israel pode mudar após suas eleições, mas não muito

A campanha eleitoral em Israel refletiu o amplo apoio, no espectro político dominante, à limpeza étnica dos palestinos. É improvável que o impasse eleitoral entre governo e oposição desacelere a radicalização da sociedade israelense.

Gilbert Achcar

Jacobin

Após as eleições em Israel, o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot talvez precise contar com o apoio de partidos árabes para formar uma coalizão. Contudo, é improvável que até mesmo a oposição recue em relação à guerra de Israel contra o Irã e aos esforços para anexar Gaza. (Yonatan Sindel / Pool / AFP via Getty Images)

Eleitores judeus e árabes com cidadania israelense compareceram em massa aos locais de votação na terça-feira, 27 de outubro, para as eleições ao parlamento de Israel, o Knesset. Estas foram as primeiras eleições desde a formação, em 2022, do governo mais reacionário da história do Estado sionista. Nos últimos quatro anos, essa coalizão de extrema-direita reuniu o partido Likud, de Benjamin Netanyahu, e grupos neonazistas liderados por Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, juntamente com partidos religiosos ultraortodoxos.

Como as pesquisas haviam previsto, o bloco governista, liderado pelo atual primeiro-ministro Netanyahu, e a aliança de oposição, liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Gadi Eisenkot, terminaram a disputa em um cenário que, segundo estimativas atuais, configura um empate. Pode levar alguns dias até que os resultados definitivos sejam anunciados e várias semanas de negociações e articulações entre as facções do Knesset até que se defina a composição do próximo gabinete.

Como tem sido amplamente ressaltado, a característica mais marcante destas eleições recentes é o fato de serem as primeiras realizadas desde que a operação liderada pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023, desencadeou a guerra genocida lançada pelo exército israelense contra Gaza — um conflito que provocou o deslocamento de seus habitantes e a destruição generalizada de suas edificações. Esse processo tem sido acompanhado por uma escalada perigosa e sem precedentes da violência perpetrada por colonos sionistas contra a população palestina na Cisjordânia; trata-se, claramente, de uma campanha gradual de limpeza étnica, semelhante àquela observada em grande parte da Palestina durante a Nakba de 1948 e, mais recentemente, na Faixa de Gaza.

Estas novas eleições ocorreram, ainda, em um momento de tensão acentuada na sociedade israelense, dividida entre apoiadores da coalizão governista e a oposição sionista. A tensão já atingia seu ápice antes de 7 de outubro, manifestando-se, à época, por meio de grandes manifestações da oposição centradas em questões judiciais. A operação liderada pelo Hamas uniu, temporariamente, a maior parte da sociedade judaica israelense em torno do ódio aos palestinos — especialmente os de Gaza, mas também todos os demais, incluindo aqueles que possuem cidadania israelense. Em outras palavras, o ódio racista sionista atingiu seu auge na sociedade judaica israelense nos últimos três anos, e, até o momento, não houve uma diminuição significativa desse sentimento.

Consequentemente, nenhuma das principais questões que permeiam este novo ciclo eleitoral afeta, de fato, o consenso sionista reacionário que se consolidou recentemente. A questão palestina, definitivamente, não está no centro desse debate. Na verdade, ela está quase totalmente ausente das discussões entre Netanyahu e seus oponentes — limitando-se, basicamente, a acusações mútuas em que cada lado alega que o outro está servindo aos interesses do Hamas. Todos os partidos sionistas, da extrema-direita ao que resta da “esquerda” sionista, declaram sua rejeição até mesmo à criação de um Estado palestino residual — tal como a atual Autoridade Palestina em Ramallah — ou, na melhor das hipóteses, condicionam essa possibilidade a um controle mais rígido e severo sobre a população palestina, tornando-a muito menos “soberana” do que eram, inclusive, os antigos bantustões da África do Sul na época do apartheid.

Diante dessa situação deplorável, um número de eleitores judeus — provavelmente superior ao de todas as eleições anteriores — declarou a intenção de votar em um dos dois blocos árabes. Os mais “moderados” apoiaram a “Lista Unida”, que é liderada conjuntamente por um islâmico de direita e um líder judeu sionista. Judeus mais progressistas, que anseiam por uma coexistência pacífica com o povo palestino, optaram, por sua vez, pela “Lista Conjunta”. Um resultado expressivo para esta última — conforme previsto por pesquisas e aparentemente confirmado pelas estimativas atuais de votação — representaria o melhor desfecho possível para as eleições em curso.

Contudo, o fato de judeus progressistas terem votado nessa lista é, antes de tudo, uma evidência de sua incapacidade de formar uma organização política predominantemente judaica que se oponha ao consenso sionista. Tal oposição rejeitaria o princípio de um “Estado judeu” e abraçaria a demanda por um “Estado para todos os seus cidadãos”, defendida por partidos árabes progressistas de oposição. Além disso, ela exigiria a retirada do exército de ocupação e dos colonos sionistas de todos os territórios ocupados em 1967, bem como apoiaria o direito de retorno dos refugiados palestinos — ou uma compensação —, como parte do direito inalienável do povo palestino à autodeterminação.

Mansour Abbas, líder da “Lista Conjunta”, busca firmar um acordo com a oposição sionista, semelhante àquele que estabeleceu ao participar — sem ocupar um ministério — do governo de 2021–2022, liderado por Naftali Bennett (um líder sionista de extrema-direita e rival de Netanyahu) e Yair Lapid (descrito pela mídia como “moderado”, embora adote posições ainda mais radicais que as de Netanyahu em questões como a eliminação do Hamas ou ataques ao Irã). Atualmente, o principal nome da oposição sionista é Eisenkot, um homem que supervisionou pessoalmente, no Líbano, a implementação da doutrina militar que ele mesmo formulou — a qual preconiza a destruição total de áreas onde forças inimigas estejam presentes, sem poupar civis, constituindo, portanto, uma violação flagrante do direito internacional.

Mansour Abbas busca cooperar com Eisenkot, contornando a recusa deste último em formar alianças com um partido árabe, por meio de condições como a exigência de que declarem o Hamas como uma organização “terrorista”. Essa exigência é particularmente difícil de ser aceita por Abbas, visto que ele próprio provém da mesma Irmandade Muçulmana da qual o Hamas se originou. Assim, Abbas tentou superar esse obstáculo incluindo um oficial de polícia judeu sionista no topo de sua lista, na esperança de que Eisenkot pudesse aceitá-lo como ministro em um futuro governo, caso ele conseguisse obter uma maioria parlamentar com o apoio da Lista Conjunta.

A Lista Conjunta, por sua vez, anunciou sua disposição de oferecer o que chamou de “rede de segurança” em votações no Knesset para a oposição a Netanyahu e sua atual coalizão, desde que a oposição se comprometesse a atender às demandas urgentes relacionadas às condições de vida dos palestinos dentro de Israel e expressasse apoio à criação de um Estado palestino. Contudo, o consenso existente entre a coalizão governista e a oposição sionista — que rejeita a formação de um Estado palestino — torna a proposta da Lista Conjunta inviável, caso ela mantenha sua condição. Isso seria, aliás, perfeitamente natural, visto que nenhum palestino que se oponha ao sionismo deveria oferecer qualquer tipo de apoio a partidos sionistas hostis ao seu povo — seja dentro das fronteiras do Estado sionista ou, com ainda mais razão, fora delas.

Um governo liderado por Eisenkot certamente não se desviaria do consenso sionista no que diz respeito aos esforços contínuos para eliminar o Hamas e controlar Gaza, bem como aos ataques ao Irã — em cooperação com os Estados Unidos — e ao Hezbollah, no Líbano. O que poderia diferenciar um governo sob a liderança de Eisenkot do atual — além da controvérsia em torno do recrutamento militar de estudantes judeus ultraortodoxos — é a postura diante das transgressões cometidas por colonos sionistas extremistas, incitados por Ben-Gvir e Smotrich a atacar palestinos na Cisjordânia. O próprio Netanyahu, inclusive, manifestou certo descontentamento com as ações desses fanáticos, dado o prejuízo adicional que elas causam à imagem de Israel no cenário internacional.

O objetivo de Eisenkot, contudo, é a manutenção do controle do Estado sionista sobre a maior parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, visando a uma eventual anexação desses territórios. As áreas restantes ficariam abertas à implementação do chamado plano de paz de Donald Trump — uma medida que o próprio Netanyahu seria forçado a aceitar, caso Trump retomasse essa ideia conforme seu capricho, após seu foco atual no Irã e na Ucrânia.

Dito isso, caso nenhum dos dois grandes blocos consiga estabelecer uma aliança majoritária no Knesset, não se pode descartar uma reconfiguração do cenário político sionista: Netanyahu poderia romper com seus dois aliados constrangedores, Ben-Gvir e Smotrich, a fim de abrir caminho para a formação de um “governo de unidade nacional” entre ele e os atuais partidos de oposição — com todos os quais, aliás, ele já compartilhou o poder em um passado recente. Antes de chegar a tal compromisso, contudo, ele certamente se esforçará para atrair, a partir do bloco de oposição, aqueles que estão mais à direita e, portanto, mais dispostos a colaborar com sua atual coalizão de extrema-direita.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia e China From Kosovo to Ukraine and Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

O preço da China

O caminho verde de Pequim para acabar com a predominância do dólar

Zongyuan Zoe Liu

Foreign Affairs

Nathalie Lees

Em 1971, quando o sistema monetário internacional estava à beira do colapso, o secretário do Tesouro dos EUA, John Connally, disse a um grupo de ministros das Finanças europeus — que estavam preocupados — que o dólar era “nossa moeda, mas um problema de vocês”. O dólar havia se tornado a moeda de reserva oficial daquele sistema em 1944, sob o acordo de Bretton Woods, deixando os signatários sujeitos aos caprichos da política monetária dos EUA. Mesmo após o colapso de Bretton Woods e a adoção de regimes de câmbio flutuante por muitas moedas, o dólar continuou a predominar. No último meio século, o poder da moeda norte-americana apenas se expandiu, à medida que mais países se integraram à economia global e, consequentemente, passaram a depender do dólar. A China, que depende de um crescimento impulsionado pelas exportações, é o principal exemplo disso.

Diante da possibilidade de que, um dia, Washington torne o dólar um problema para a China, Pequim está elaborando sua própria solução. Em um discurso proferido em janeiro de 2024, o líder chinês Xi Jinping tornou esse esforço explícito, orientando altos funcionários provinciais e ministeriais a acelerar a transformação da China em uma “potência financeira de destaque”. Uma moeda forte, especificou ele, seria um dos pilares fundamentais desse poder. Quando a Qiushi — principal publicação do Partido Comunista Chinês — divulgou a íntegra do discurso em 2026, o padrão almejado por Xi tornou-se mais claro: para que uma moeda seja considerada “forte”, ela precisa ser amplamente utilizada no comércio internacional, em investimentos e nos mercados cambiais, além de ser reconhecida como uma moeda de reserva global.

O apelo de Xi é o episódio mais recente em uma longa história de esforços, por parte de grandes potências, para reduzir sua dependência do sistema financeiro global centrado no dólar. Em 1965, o ministro das Finanças da França, Valéry Giscard d’Estaing, cunhou a famosa expressão “privilégio exorbitante” para descrever as vantagens desproporcionais que o domínio do dólar confere aos Estados Unidos; naquele mesmo ano, a França começou a converter, de forma incisiva, uma parcela substancial de suas reservas em dólares em ouro, contribuindo para o colapso do sistema de Bretton Woods. Em 1999, o governo japonês divulgou um relatório sobre como promover uma maior utilização internacional do iene. Naquele mesmo ano, o lançamento do euro proporcionou à Europa o que viria a se tornar a segunda moeda internacional mais importante do mundo, conferindo-lhe maior autonomia monetária — ainda que o Banco Central Europeu tenha evitado, com cautela, qualquer sinalização de que pudesse desafiar o dólar.

O que distingue a ambição de Xi é o fato de a China — ao contrário da Europa ou do Japão — possuir o peso econômico, a capacidade militar e a vontade política para rivalizar com o poder geopolítico dos Estados Unidos. Desde a época em que Londres comandava um império global, a moeda de outro país não apresentava uma chance real de competir com o dólar. Uma transição financeira global — de In God We Trust para “Onde o Partido Lidera, Nós Seguimos” — já não pode ser descartada como mera fantasia.

A internacionalização do renminbi proporcionaria à China um certo grau de sobrevivência financeira, caso os Estados Unidos decidissem, em algum momento, utilizar o dólar como uma arma punitiva — tal como fizeram contra a Rússia após a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022. Os Estados Unidos controlam tanto a oferta da moeda de reserva global dominante quanto muitos dos pontos críticos da infraestrutura financeira por meio dos quais ela circula. Washington, se assim desejasse, poderia restringir severamente o acesso da China à liquidez em dólares, tornando proibitivo o custo de realizar transações com instituições chinesas — por exemplo, por meio do indiciamento ou da imposição de sanções a um grande banco chinês. Qualquer medida desse tipo causaria um choque no sistema financeiro chinês, elevaria os custos das transações comerciais e desferiria um duro golpe na competitividade do setor exportador da China, que responde por cerca de um quinto do seu PIB.

A capacidade de sobrevivência, contudo, é apenas um pré-requisito para uma dissuasão crível. Para impedir que os Estados Unidos utilizem o dólar como arma, Pequim necessita de uma capacidade de "segundo ataque" no âmbito financeiro. É preciso que o país seja capaz de redirecionar uma parcela substancial do comércio e das finanças globais para uma rede baseada no renminbi. A durabilidade dessa mudança depende de uma demanda global sólida por um ativo de referência precificado em renminbi. Para a China, a fonte mais provável de tal ativo reside em seu domínio sobre a economia verde.

Xi não deseja, necessariamente, que o renminbi substitua o dólar. Em seu discurso de 2024, ele defendeu a força, não a hegemonia. Ocupar uma respeitável segunda posição — ou até mesmo uma terceira posição relevante — seria suficiente para quebrar o monopólio efetivo do dólar e limitar a capacidade dos Estados Unidos de impor sanções financeiras de forma unilateral, poupando, ao mesmo tempo, a China do esforço e do custo de sustentar a supremacia monetária. Na perspectiva de Pequim, a missão é estabelecer o renminbi como a Pepsi em relação à Coca-Cola: nunca o líder de mercado, mas uma alternativa útil em momentos de necessidade e mais do que capaz de manter sob controle o ator dominante.

O SEGUNDO LUGAR É O MELHOR

A aceitação quase universal do dólar americano beneficia, possivelmente, a China mais do que qualquer outro país. A economia chinesa depende de exportações, e os produtos chineses — precificados e financiados em dólares — conseguem encontrar compradores prontos em praticamente qualquer lugar. Os lucros obtidos podem, então, ser investidos em quase qualquer parte e convertidos em recursos líquidos com rapidez. Isso é conveniente para Pequim: a China desfruta dos benefícios da liquidez global sem arcar com o ônus de sustentá-la. Para preservar o sistema global baseado no dólar, os Estados Unidos precisam tolerar a posse, por parte de estrangeiros, de um volume crescente de ativos denominados em dólares, à medida que os países realizam cada vez mais transações nessa moeda. Os mercados americanos ficam expostos à volatilidade internacional, e investidores estrangeiros exercem certa influência sobre as corporações dos EUA. O Federal Reserve, emissor do dólar, atua como garantidor do sistema, expandindo seu balanço em períodos de estresse financeiro — momentos em que governos e empresas privadas acumulam dólares para assegurar o pagamento de suas dívidas e a compra de mercadorias. Essa abertura e exposição representaram pouca ameaça à economia americana, uma vez que os acionistas estrangeiros, de modo geral, buscaram operar dentro das normas empresariais dos EUA, em vez de tentar alterá-las; além disso, os bancos americanos obtiveram lucros expressivos ao intermediar os fluxos globais de capital por meio de Nova York e Londres.

Os líderes chineses não têm qualquer interesse em fazer esse tipo de concessão. Manter um sistema global baseado no renminbi seria fundamentalmente incompatível com o modelo econômico chinês, conduzido pelo Estado. Para que o renminbi desempenhasse as mesmas funções que o dólar, a China precisaria criar canais financeiros amplos e de mão dupla, permitindo que detentores estrangeiros da moeda reinvestissem esses recursos na economia chinesa. O consequente influxo de capital transformaria, de forma estrutural, os mercados financeiros domésticos da China. Seria impraticável para Pequim restringir os investidores estrangeiros a um grupo limitado de ativos autorizados, como ocorre atualmente. Uma vez que investidores estrangeiros tivessem amplo acesso aos mercados chineses, eles explorariam as distorções geradas pela repressão financeira e pela alocação de capital orientada por critérios políticos. Tal concorrência minaria um dos mecanismos mais eficazes de Pequim para garantir a lealdade da classe empresarial chinesa: o controle sobre quem tem acesso ao capital, sob quais condições e para quais finalidades.

Para muitos cidadãos chineses ricos, incluindo alguns membros do próprio Partido Comunista, o dólar constitui uma forma indispensável de seguro contra riscos políticos. Rivalidades políticas internas podem levar ao confisco de bens ou até mesmo à prisão, com pouca observância do devido processo legal. Depósitos em dólar no exterior e estruturas corporativas estrangeiras permitem que as elites diversifiquem seu patrimônio entre diferentes moedas e jurisdições. O controle de uma empresa listada no exterior — especialmente nos Estados Unidos — oferece aos chineses abastados muito mais do que prestígio e acesso ao capital global; as obrigações de transparência, os deveres para com os acionistas e a visibilidade internacional — elementos que escapam ao controle do Partido — podem conferir aos executivos chineses um poder de barganha contra exigências arbitrárias de autoridades em seu país de origem. Embora tais restrições não consigam impedir a interferência de autoridades de alto escalão decididas a perseguir seus alvos, elas podem elevar o custo dessa interferência, retardar sua execução e abrir espaço para negociações. O sistema baseado no dólar serve como um refúgio para as elites chinesas que caem em desgraça; e, como a posição de ninguém é totalmente garantida, poucos desejam ver esse refúgio desaparecer.

USE OU PERCA

A China está perfeitamente disposta a continuar vivendo em um mundo que gira em torno do dólar. No entanto, não pode tolerar a instrumentalização do dólar como arma, e o renminbi ainda tem um longo caminho a percorrer antes de se tornar forte o suficiente para neutralizar essa ameaça. Para que mais países e empresas adotem o renminbi, é preciso, antes de tudo, uma infraestrutura financeira global que viabilize seu uso. A China já lançou as bases ao facilitar o uso da moeda entre empresas em mais de cem países e em uma gama crescente de mercados de commodities, permitindo a liquidação de transações, a obtenção de financiamento para comércio e investimentos, e a proteção contra riscos (hedge). Nesse contexto, a abrangência é muito mais importante do que a profundidade. Mesmo volumes diários modestos de transações em renminbi são suficientes para manter operacionais os canais de pagamento, preservar relações financeiras e sustentar a expertise jurídica e administrativa necessária para operar um sistema financeiro alternativo.

Pequim necessita de uma capacidade financeira de "segundo ataque" (capacidade de resposta).

Como a força econômica relativa da China reside no fluxo de bens manufaturados — o país respondeu por 20% das exportações globais de manufaturados em 2025 —, Pequim concentrou seus esforços na construção de uma rede de pagamentos que facilite os fluxos comerciais gerados por sua máquina industrial. Em 2005, Zhou Xiaochuan, então governador do Banco do Povo da China (PBOC), incentivou publicamente o uso — que já vinha crescendo — de moedas locais entre os parceiros comerciais do país. Em 2009, o PBOC lançou um programa-piloto para a liquidação de transações transfronteiriças em renminbi, seguido, em 2015, pela criação do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS, na sigla em inglês) — a espinha dorsal da rede internacional de renminbi da China. O CIPS começou com 195 participantes em 50 países; em junho de 2026, contava com 1.829 participantes e era capaz de processar pagamentos para mais de 5.200 instituições bancárias em 191 países. Contudo, o CIPS permanece muito menor do que os sistemas de pagamentos de atacado, já consolidados, que sustentam o dólar e o euro. Em 2025, o Clearing House Interbank Payments System, sediado nos EUA, processou um volume de pagamentos internacionais cerca de 19 vezes maior do que o CIPS, enquanto o sistema europeu de liquidação bruta em tempo real, denominado T2, processou um volume aproximadamente 14 vezes superior.

No entanto, os pagamentos, por si só, são uma medida enganosa do poder de uma moeda. Uma transação internacional envolve muito mais do que a transferência de valor econômico; ela requer um conjunto de serviços financeiros que se desdobra em cinco etapas interligadas: precificação, financiamento, transferência de risco, pagamento e reinvestimento. O dólar domina o comércio e as finanças internacionais porque é a moeda padrão em todas essas etapas, sendo que sua força em cada uma delas reforça sua posição nas demais. Para que o renminbi suplante o dólar, ele precisaria se tornar competitivo em todas as fases do ciclo de transação, e não apenas nos pagamentos.

Os líderes chineses reconhecem que a influência dos centros financeiros de Londres, Nova York e Tóquio não reside apenas na capacidade de movimentar dinheiro, mas também na aptidão de suas instituições para criar crédito, definir preços, oferecer seguros para remessas e reciclar poupanças. É por isso que as empresas estatais chinesas estão impulsionando a expansão da rede do renminbi. Ao denominar faturas, contratos e financiamentos de projetos no exterior em renminbi, essas empresas criam uma base de demanda recorrente pela moeda — uma base em torno da qual bancos, seguradoras e outras instituições financeiras chinesas podem desenvolver linhas de negócios competitivas sob controle chinês. Para fortalecer essa base, o Partido Comunista estabeleceu um plano de ação que orienta as empresas estatais a priorizar a liquidação em renminbi, em vez de dólares, sempre que negociarem com fornecedores e clientes estrangeiros. Essa estratégia já está fomentando uma rede regional para o uso do renminbi no Sudeste Asiático. Em 2024, os pagamentos em renminbi envolvendo economias da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) cresceram 19%, sendo que dois terços dessas transações ocorreram entre os próprios países da ASEAN.

O CUSTO DE ENTRADA

Pequim concluiu, em grande parte, a primeira fase de sua estratégia — estabelecendo uma base nos pagamentos — e agora está expandindo sua atuação para as etapas anteriores (precificação, financiamento e transferência de risco) e, de forma cautelosa, para as etapas posteriores (reinvestimento). Somente recentemente Pequim começou a compreender o quanto a moeda utilizada na precificação de mercadorias influencia as etapas subsequentes do ciclo de transação. Historicamente, a China contentou-se em precificar os bens que importa e exporta, em sua maioria, em dólares. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), apenas 6,5% das exportações da China foram faturadas em renminbi em 2023. Estatísticas do governo chinês indicam que quase 30% do comércio de bens da China é liquidado em renminbi; contudo, grande parte disso é, na verdade, uma transação em dólares disfarçada de transação em renminbi: os exportadores chineses emitem faturas em dólares, os compradores obtêm financiamento em dólares e têm suas contas debitadas nessa moeda, sendo os recursos convertidos para renminbi apenas pouco antes de chegarem à China continental.
O governo busca reverter esse padrão promovendo o que chama de “preços China”: preços de referência denominados em renminbi, listados em bolsas locais para as principais commodities importadas pelo país. Uma maior autonomia na formação de preços significa que as empresas chinesas podem adquirir insumos e gerenciar sua exposição às oscilações de preços nos mercados globais sem precisar recorrer ao dólar. Isso também confere às autoridades chinesas maior influência sobre os preços de referência usados ​​para definir os termos de contratos de fornecimento para a entrega física dessas commodities. Esse poder de influência é vital para a China, uma vez que o fluxo constante de insumos é essencial para o bom funcionamento de seu aparato industrial.

A autonomia na formação de preços é particularmente importante no caso de minerais críticos, que abastecem as indústrias voltadas à transição ecológica — setores que, na visão de Xi, são fundamentais para o futuro econômico da China. O país produz mais de 80% das baterias do mundo e consome mais de 75% do lítio, 70% do cobalto e cerca de 60% do níquel produzidos globalmente. Contudo, a posição da China nos mercados mundiais de cada um desses minerais ainda não reflete seu domínio na produção e no consumo. Até o momento, a China avançou mais no setor de lítio: mais de 90% das negociações globais de contratos futuros de carbonato de lítio ocorrem na Bolsa de Futuros de Guangzhou, onde os contratos são denominados em renminbi. Em julho, a bolsa passou a permitir que operadores estrangeiros negociassem diretamente contratos futuros de carbonato de lítio, anunciando, com grande alarde, a entrada de várias “empresas líderes” internacionais no mercado. A China está, agora, em condições de se tornar — talvez pela primeira vez na história moderna — o principal centro financeiro para uma commodity de relevância global. O níquel e o cobalto, por outro lado, permanecem atrelados a preços de referência em dólar, definidos em Londres e Chicago. Embora a China seja a maior consumidora desses dois minerais, ela ainda não atua como a referência financeira para seus respectivos mercados. É justamente esse tipo de descompasso que a iniciativa de promover os “preços China” pretende corrigir.

Contagem de notas em um banco em Bangcoc, janeiro de 2023. Athit Perawongmetha / Reuters

A etapa de financiamento da estratégia de Pequim para o renminbi está ganhando força. Em 2023, o governo chinês orientou as instituições financeiras do país a expandir suas operações de financiamento em renminbi no exterior. Instituições financeiras com apoio estatal, como o Export-Import Bank of China, ampliaram a concessão de empréstimos em renminbi para projetos de infraestrutura e comércio no exterior; paralelamente, bancos comerciais têm ofertado, de forma crescente, financiamento ao comércio nessa mesma moeda. Entre 2023 e meados de 2026, as instituições financeiras chinesas mais do que dobraram o volume de empréstimos em renminbi para tomadores estrangeiros, passando de 1,3 trilhão para 2,9 trilhões de yuans (US$ 428 bilhões). O Banco do Povo da China (PBOC), por sua vez, estabeleceu acordos de swap cambial com 32 bancos centrais e autoridades monetárias estrangeiras — incluindo os da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, bem como o Banco Central Europeu. Em seus estágios iniciais, logo após a crise financeira global, essas linhas de swap tinham um caráter majoritariamente simbólico e eram pouco utilizadas; contudo, nos últimos anos, algumas passaram a oferecer suporte direto a atividades comerciais. Em 2025, empresas turcas tomaram empréstimos de quatro bilhões de yuans (US$ 557 milhões) para pagar fornecedores chineses, utilizando um mecanismo lastreado por uma linha de swap do PBOC — um montante 70% superior ao registrado no ano anterior. Esse esforço para transformar o renminbi em uma moeda de financiamento começa a ganhar força: em maio de 2026, a moeda chinesa representava 7% do valor das mensagens de financiamento comercial no SWIFT — a principal plataforma global para a troca de instruções de pagamento. Esse índice, que era de 5,1% dois anos antes, foi suficiente para superar o euro e assumir a segunda posição, embora o dólar permaneça muito à frente, com uma participação de 82,5%.
Pequim também tomou medidas — ainda que modestas — para ampliar a presença do renminbi nos mercados de seguros e resseguros. Em 2025, o Bank of China, um banco estatal, e a PICC, uma seguradora estatal de ramos elementares (danos e responsabilidades), estabeleceram novas condições que permitem que prêmios e indenizações referentes ao transporte de cargas sejam liquidados em renminbi. Essas condições também definem Xangai como o foro preferencial para arbitragem, integrando um esforço mais amplo para reduzir a dependência do mercado de seguros marítimos em relação à liquidação em dólares e ao direito comercial inglês — que, por muito tempo, constituíram a base padrão para contratos de transporte internacional e seguros marítimos.

A etapa final do ciclo de transações — o reinvestimento — fecha o circuito pelo qual mercadorias e valor circulam na economia global. Os recebedores dos pagamentos precisam decidir o que fazer com os recursos: mantê-los em uma conta de curto prazo, investi-los em ativos de longo prazo ou convertê-los para outra moeda. Um ecossistema monetário robusto só se torna sustentável em larga escala quando os agentes estão dispostos a manter e reinvestir seus saldos, em vez de convertê-los rotineiramente.

A China não vê qualquer problema em viver em um mundo que gira em torno do dólar.

Na última década, Pequim ofereceu aos detentores estrangeiros de renminbi mais opções para reinvestir seus saldos. Os programas *Stock Connect* e *Bond Connect* — cujas versões iniciais surgiram, respectivamente, em 2014 e 2017 — foram ampliados, permitindo que um leque muito mais vasto de investidores fora da China utilize o renminbi para adquirir ações e títulos emitidos na China continental. Antes desses programas, o acesso direto aos mercados chineses era limitado por exigências de licenciamento e cotas; em 2013, apenas cerca de 228 grandes investidores institucionais possuíam essas cotas, enquanto hoje esse número chega a aproximadamente 1.000 investidores. Em 2025, as negociações realizadas por estrangeiros por meio do *Stock Connect* atingiram uma média de 212 bilhões de yuans (US$ 29,5 bilhões) por dia, ao passo que, no *Bond Connect*, a média foi de 39 bilhões de yuans (US$ 5,4 bilhões) diários. Também houve uma expansão nos instrumentos disponíveis para a gestão dos riscos associados a esses investimentos. O Swap Connect, lançado em 2023, permite que investidores estrangeiros realizem operações de hedge (proteção) contra oscilações nas taxas de juros do renminbi no mercado interno chinês.

O acesso aos mercados financeiros da China já não é o maior obstáculo enfrentado pelos investidores estrangeiros; contudo, persiste a preocupação de que os controles de capital — imprevisíveis e impostos por Pequim — possam, um dia, deixar seus recursos retidos no país. Uma pesquisa realizada em 2023 pela Insurance Asset Management Association of China (Associação de Gestão de Ativos de Seguros da China) em parceria com a J.P. Morgan Asset Management revelou que cerca de dois terços dos diretores de investimentos de seguradoras sediadas fora da China apontam os controles sobre o fluxo de capital — de entrada e saída do país — como uma das suas principais preocupações ao investir no mercado chinês. Apesar de o acesso estar mais amplo do que nunca, os investidores estrangeiros continuam relutantes em manter ativos chineses em grande escala. Em março de 2026, eles detinham apenas 3,2 trilhões de yuans (US$ 448 bilhões), o equivalente a 1,6% do mercado de títulos chinês — um contraste expressivo em relação aos cerca de US$ 15,5 trilhões (27%) que compõem o mercado de títulos dos Estados Unidos. Os dados sobre reservas cambiais registrados junto ao FMI revelam uma disparidade ainda maior: no primeiro trimestre de 2026, o renminbi representava pouco menos de 2% das reservas cambiais globais, enquanto o dólar respondia por 57%. Sem um volume muito mais expressivo de ativos denominados em renminbi que possam ser livremente comprados e vendidos por estrangeiros, a moeda chinesa dificilmente chegará perto de substituir o dólar.

PADRÃO VERDE

Para que a China exerça um poder monetário que se aproxime do dos Estados Unidos, o renminbi precisa dominar o comércio de um bem que a China controle e do qual o restante do mundo não consiga abrir mão facilmente. No sistema baseado no dólar, o comércio global de petróleo desempenha esse papel há muito tempo — daí o termo “petrodólar”. Em um sistema em que o renminbi ganha protagonismo, o elemento central de sustentação poderia ser composto por minerais críticos, equipamentos de energia limpa e infraestrutura elétrica — componentes fundamentais para a tecnologia de energia verde. Se a China consolidar seu domínio sobre esse ecossistema industrial, utilizando sua escala e vantagens de custo para impedir que concorrentes a alcancem, ela poderá obter poder de negociação suficiente para precificar essas exportações essenciais — e de difícil substituição — em renminbi. Isso criaria a base para um “yuan verde”, que, com o tempo, poderia substituir o petrodólar.

Ao longo de décadas, a China montou, de forma metódica, as cadeias de suprimentos que a tornaram a principal produtora mundial de tecnologias e equipamentos de energia verde. Pequim está, agora, prestes a assumir uma posição de comando em um conjunto de bens dos quais o mundo decidiu que não pode prescindir. A estratégia chinesa baseia-se na integração vertical de praticamente toda a cadeia de suprimentos de energia limpa. O país é o maior refinador de 19 dos 20 minerais estratégicos relacionados à energia monitorados pela Agência Internacional de Energia, detendo uma participação média de 70% no mercado. A China responde por cerca de 85% da capacidade global de fabricação de painéis solares e fornece 78% da capacidade de turbinas eólicas instaladas em todo o mundo. Em 2025, o país produziu cerca de 70% dos veículos elétricos do planeta.

Após garantir, de forma decisiva, a vantagem de quem chega primeiro ao mercado, Pequim está consolidando sua posição, utilizando economias de escala para superar potenciais rivais e promover padrões técnicos baseados em tecnologias pertencentes a empresas chinesas. A economia de energia verde é mais dispersa do que o sistema de combustíveis fósseis que pretende substituir — e, portanto, mais difícil de controlar. Contudo, a China já começa a transformar sua liderança em participação de mercado em vantagens estruturais, capazes de excluir concorrentes e consolidar seu domínio.

Até pouco tempo atrás, Pequim concentrava-se mais em ampliar sua liderança industrial no setor de energia verde do que em converter essa vantagem em poder financeiro. Mas isso está começando a mudar. A proliferação de mandatos de investimento neutros em carbono criou, de forma não intencional, um setor de finanças verdes quase feito sob medida para a China. Em 2022, Pequim publicou seus “Princípios para Títulos Verdes” (Green Bond Principles), que exigem que os emissores desses títulos destinem 100% dos recursos captados a projetos verdes elegíveis.

Até o final de 2025, os fundos dedicados a investimentos sustentáveis ​​somavam US$ 4,13 trilhões em todo o mundo, e a previsão era de que os ativos geridos com base em critérios de sustentabilidade atingissem US$ 40 trilhões até 2030. Paralelamente, as entidades chinesas já contabilizavam 47,2 trilhões de yuans (US$ 6,7 trilhões) em empréstimos e títulos verdes em circulação — um montante que supera, de longe, o de qualquer outro país —, embora restrito, em grande parte, ao sistema doméstico em renminbi. Em 2024, as instituições estrangeiras detinham apenas 3,2 bilhões de yuans (US$ 445 milhões) do mercado chinês de títulos verdes, que totaliza 2,2 trilhões de yuans (US$ 306 bilhões) — uma parcela ínfima de 0,15%.

É provável que essa participação estrangeira, atualmente reduzida, aumente. As autoridades chinesas estão trabalhando para transformar parte do vasto volume de dívida verde do país — termo que abrange empréstimos e títulos emitidos para projetos com impacto ambiental positivo, originalmente voltados para investidores locais — em valores mobiliários negociáveis. O objetivo é permitir que investidores estrangeiros os incluam em seus portfólios, em conformidade com os mandatos internacionais de sustentabilidade. A meta é criar uma ampla classe de ativos denominados em renminbi que sejam acessíveis a investidores internacionais, vinculados a projetos verdes e integrados ao ecossistema mais amplo do renminbi, no que diz respeito à precificação, liquidação e outros serviços financeiros.

Cerca de 17% do mercado chinês de títulos verdes já passou por uma triagem baseada em critérios técnicos alinhados às estruturas de finanças verdes europeias. Isso torna esses títulos mais facilmente reconhecíveis para investidores estrangeiros e provedores de índices, facilitando sua inclusão em portfólios internacionais. O Ministério das Finanças começou a emitir títulos soberanos verdes denominados em renminbi fora da China. A primeira emissão captou seis bilhões de yuans (US$ 834 milhões) em Londres, em abril de 2025, seguida por uma segunda emissão, também de seis bilhões de yuans, em Hong Kong, em maio passado — ocasião em que a demanda superou a oferta em dez vezes. Embora essas emissões sejam pequenas se comparadas ao mercado interno chinês, elas estabelecem referências de precificação que facilitam, para outras entidades, a emissão de dívida verde denominada em renminbi no futuro. A emissão realizada pelo Paquistão, em maio, de um "Panda bond" verde no valor de 1,75 bilhão de yuans (US$ 258 milhões) — termo utilizado para dívidas denominadas em renminbi emitidas na China por tomadores estrangeiros — oferece um vislumbre de um futuro no qual entidades estrangeiras captarão recursos rotineiramente em renminbi, na China, para financiar seu desenvolvimento sustentável.

Washington deveria avaliar se o petrodólar ainda cumpre sua finalidade.

É assim que o domínio industrial começa a se transformar em poder financeiro. O governo chinês não tem planos formais para criar um "yuan verde", mas os elementos que comporiam tal sistema já começam a surgir. O ativo de referência para um yuan verde não seria a tecnologia verde em si, mas um conjunto crescente de instrumentos financeiros denominados em renminbi, vinculados à economia verde. Os títulos verdes (*green bonds*) formariam o núcleo negociável dessa economia, conectando a vantagem industrial da China à crescente demanda global por ativos sustentáveis.

Grande parte do mundo estabeleceu prazos para a substituição de combustíveis fósseis que não poderão ser cumpridos sem a economia verde da China. Mesmo que a vontade política de combater as mudanças climáticas diminua, a dependência global de energia importada criou vulnerabilidades geopolíticas que, provavelmente, continuarão a sustentar a demanda por fontes renováveis ​​— as quais praticamente qualquer país pode implementar para gerar mais energia internamente. Para nações e empresas que buscam ingressar na economia verde, aceitar financiamento em renminbi e adotar padrões técnicos chineses pode, com o tempo, tornar-se parte do "preço de entrada" habitual. O resultado seria um ciclo autossustentável de bens e finanças verdes, em grande parte denominados em renminbi.

Para Washington, a perspectiva de um yuan verde não deveria soar como um alarme sobre uma iminente supremacia do renminbi. Em vez disso, deveria suscitar uma questão mais profunda: será que o petrodólar já não cumpre mais sua finalidade? E qual classe de ativos, tecnologia ou sistema industrial poderia sustentar o poder do dólar como moeda no futuro? O dólar apoia-se em muito mais do que apenas na capacidade dos Estados Unidos de garantir os fluxos globais de energia e em seus laços com os principais países produtores de petróleo; contudo, seria um erro, por parte dos formuladores de políticas, considerar essa supremacia como algo permanente.

DE OLHO NO TRONO

Pequim não está tramando para destronar o dólar; o Partido Comunista, quase certamente, não deseja a abertura financeira que tal vitória exigiria. Independentemente de o yuan verde vir a se tornar realidade ou não, o valor mais imediato de um renminbi internacionalizado para o Partido reside no seu potencial de dissuadir os setores mais hostis à China em Washington — impedindo-os de transformar a atual dependência chinesa em relação ao dólar em uma arma geopolítica. À medida que o sistema chinês baseado no renminbi se fortalece, aumenta também a capacidade de Pequim de resistir ao impacto de eventuais sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos. Por sua vez, a ameaça de Washington de aplicar tais sanções perderá parte de sua eficácia. Essa mudança na dinâmica de poder econômico provavelmente tornará Pequim mais disposta a desafiar Washington — algo que, talvez, ela já esteja fazendo. Em maio, a China emitiu sua primeira ordem de bloqueio, instruindo empresas no país a não cumprirem sanções norte-americanas impostas a cinco refinarias de petróleo chinesas, acusadas de serem grandes compradoras de petróleo iraniano.

Se o reinado do "Rei Dólar" chegar ao fim, provavelmente não será porque a China usurpou o trono, mas sim porque os Estados Unidos o entregaram. Washington precisa se dar conta de que o ativo estratégico que sustentará a próxima ordem monetária talvez não seja o barril de petróleo, mas sim um ecossistema industrial. O perigo reside no fato de que os mercados financeiros podem oferecer poucos sinais de alerta de que tal transição está em curso. Os mercados podem passar longos períodos ignorando evidências crescentes de mudança, até que um catalisador — como um impasse político em torno do aumento do limite da dívida dos EUA — force, finalmente, um ajuste nos modelos e provoque oscilações bruscas nos preços. As autoridades americanas relutam em planejar cenários para a erosão da dominância do dólar, por receio de que isso sinalize ao mercado que tal declínio é inevitável. Contudo, a insistência em apontar para gráficos de preços como prova da resiliência do dólar sugere que as lições da última crise financeira talvez já tenham sido esquecidas. Os Estados Unidos precisam elaborar planos de contingência antes que o "privilégio exorbitante" do dólar esteja visivelmente desgastado e que se tornem claros os sinais de busca por proteção contra ele. A essa altura, pode ser impossível conter os danos.

Zongyuan Zoe Liu é pesquisadora sênior (Maurice R. Greenberg Senior Fellow) em Estudos sobre a China no Council on Foreign Relations e pesquisadora sênior no Institute for Global Politics da School of International and Public Affairs da Universidade Columbia. É autora de Sovereign Funds: How the Communist Party of China Finances Its Global Ambitions.

Catadora, sapateiro, bens comuns

Restabelecendo o humano com John Berger.

Peter Linebaugh

Boston Review

John Berger recolhendo feno em Quincy, a vila francesa para a qual se mudou em 1973. Imagem cortesia de Nikos Papastergiadis

Conheci a obra de John Berger no início da década de 1980, um período que, para mim, foi marcado por perdas: a deterioração da saúde dos meus pais, a perda do meu emprego no departamento de história da Universidade de Rochester e o fim do meu relacionamento — minha companheira deixou-me por um violinista. Chame de crise de meia-idade, chame de "fundo do poço": fosse o que fosse, senti o peso dessas reviravoltas. Berger entrou na minha vida com E os nossos rostos, meu coração, breves como fotos — um livro de ensaios, sem narrativa e com título em letras minúsculas, que trazia uma ternura, uma sabedoria e uma fusão de poesia e prosa que me inspiram até hoje. Sua sensibilidade não era fruto de uma diluição da paixão pela justiça, nem de uma aspiração lírica à beleza. Rostos enrugam, corações falham e fotografias amarelam. Essa noção de um presente efêmero, presente em toda a obra de Berger, é a razão pela qual a história espreita por trás de tudo o que ele escreve. Independentemente do que tenha acontecido em minha vida — e houve, sim, coisas belas —, eu, como jovem historiador, estava determinado a contribuir para o crescente corpo teórico do materialismo histórico e sua vertente correlata e vibrante: a "história vista de baixo".

Berger também devia estar determinado. Ele nasceu em Londres há um século, no Dia de Guy Fawkes, 5 de novembro, mesmo ano em que os mineiros e estivadores lideraram a Greve Geral. Filho de pais de classe média, recebeu uma educação boa e privilegiada, serviu na Irlanda do Norte durante a Segunda Guerra Mundial e depois foi para a escola de artes em Chelsea. Tornou-se crítico de arte, pintor, poeta, romancista e ativista em nome dos zapatistas e dos palestinos. Ele ganhou o Prêmio Booker em 1972 por seu romance G. e doou parte dos ganhos em dinheiro ao Partido dos Panteras Negras britânico, observando que o dinheiro teve sua origem nas plantações de escravos no Caribe. “Quem paga?” foi básico para sua metodologia.

Berger escreve com sua própria imaginação impregnada de arte sobre a imaginação dos outros, impregnada de terra.

Assim como seu contemporâneo, o historiador E. P. Thompson, Berger foi, ao mesmo tempo, um contestador e um dissidente. Como contestador, ele absorveu parte do inconformismo protestante presente na classe trabalhadora inglesa; como dissidente, jamais se filiou ao Partido Comunista, mas também não renegou suas convicções ao aderir a uma das escolhas binárias impostas pela Guerra Fria. Em The New Reasoner — periódico fundado por Thompson que serviu de base para a "Nova Esquerda" (New Left) —, Berger escreveu, em 1958:

O artista cria visões, amplia perspectivas e desperta confiança como ninguém mais consegue. Ele é o oponente natural do oportunismo e da acomodação. E, embora qualquer movimento político liderado por artistas fosse desastroso, poucos socialistas militantes negariam que o movimento trabalhista britânico precisa ser despertado para uma visão mais confiante de seu próprio poder — e do papel histórico que ele, e somente ele, pode desempenhar na destruição do domínio da propriedade e na instauração do humano.

Destruir o domínio da propriedade e afirmar o humano: essas duas atividades permaneceriam fundamentais para Berger ao longo de toda a sua vida.

Em 1962, ele deixou a Inglaterra, estabelecendo-se, por fim, na Alta Saboia, na França, onde viveu até sua morte, em 2017. Seu foco deixou de ser o movimento operário britânico para se voltar aos camponeses e migrantes. Como aponta Tom Overton em sua nova biografia, a vida de Berger baseava-se em “um longo arco de sustentação... que começa com a ideia de uma tradição pictórica e termina na presença sentida dos incontáveis ​​camponeses mortos”. Pode-se ver isso também como uma migração da Londres metropolitana para as terras altas dos Alpes. Ou, ainda, como o reconhecimento de uma mudança fundamental na composição de classe: do movimento operário britânico — majoritariamente branco e masculino — para uma classe trabalhadora europeia profundamente transformada pela migração oriunda das antigas colônias, na era do neoliberalismo.

Berger escreve, valendo-se de sua própria imaginação — impregnada pela arte —, sobre a imaginação de outros, esta impregnada pela terra. Há, em sua escrita, uma subjetividade metafísica, bem como uma forma pura de consciência de classe — simultaneamente particular e geral, concreta e abstrata, momentânea e atemporal. Ele examina a mala de um trabalhador migrante em busca de indícios de intencionalidade; contempla a estação ferroviária, local que, ao longo dos séculos, foi palco de chegadas comoventes e partidas amargas. Qual é o significado de “lar”? Como narrador, Berger empunha a foice — símbolo da mortalidade e, ao mesmo tempo, ferramenta de colheita. Ele a afiou, como diz um personagem de seu romance Lilac and Flag (1990), “até que ela cantasse como uma cotovia”.

Gosto de pensar que as histórias de Berger guardam certa semelhança com fábulas, na medida em que trazem mensagens úteis — lições, poderíamos dizer. Assemelham-se também a parábolas, contendo uma ambiguidade feita para provocar a reflexão e o diálogo. São escritas com uma familiaridade em relação à morte; o luto não lhes é estranho. O contador de histórias, como ele mesmo definiu, é o “secretário da morte”. A história, contudo, é outra coisa — um tipo diferente de narrativa, em grande parte devido à sua relação com o arquivo e com a própria disciplina acadêmica. O distanciamento e a objetividade são virtudes na pretensão da história de ser uma ciência, sendo essenciais à sua metodologia. As emoções — incluindo o luto — são mantidas à distância; em seu lugar, ganham protagonismo as datas, a análise de classe, as forças objetivas e as estruturas de poder. A partir de certo ponto (será apenas uma questão de distanciamento temporal?), os relatos sobre os antepassados ​​transformam-se em história. Os narradores de Berger assemelham-se a profetas, recorrendo tanto aos vivos quanto aos mortos.

A vida de Berger apoiava-se em “um longo arco de sustentação... que começa como a ideia de uma tradição pictórica e termina na presença sentida dos inumeráveis ​​camponeses mortos”.

Na narrativa de Berger, existem momentos de verdade — “momentos de cume”, como ele os denomina em Another Way of Telling (1982) — que desafiam a passagem do tempo. Eles abrangem “realização, transe, sonho, paixão, decisão ética crucial, proeza, quase morte, sacrifício, luto, música”, para citar apenas alguns. Qual é o sentido da vida? Para Berger, o narrador oferece uma resposta: “Os poderosos não conseguem contar histórias: vanglórias são o oposto de histórias, e qualquer história, por mais branda que seja, precisa ser destemida; os poderosos, hoje, vivem de forma nervosa”. Aos vencedores pertencem os espólios, entre os quais se destaca a própria escrita da história. Daí a história “de cima” — branca, masculina, violenta e ligada à posse de propriedades.

A arte — a imagem, a fotografia e a pintura — ofereceu a Berger um caminho para narrar a história a partir de baixo. Foi por meio do estudo de Caravaggio, em Livorno, no pós-guerra, que ele encontrou os meios para fazê-lo. “Não existe palavra em nenhuma língua europeia tradicional que não denigra ou trate com condescendência os pobres urbanos aos quais se refere”, escreveu Berger. Mas, em Caravaggio — que pintou “a vida tal como vivenciada pelo popolaccio, o povo das vielas, os sans-culottes, o lumpemproletariado, as classes inferiores, aqueles que habitam as profundezas sociais, o submundo” —, ele aprendeu “algo sobre a engenhosidade dos despossuídos”.

Esses temas — linguagem e engenhosidade — tornaram-se também os meus. Ao escrever The London Hanged (1991), busquei contar uma história proletária da propriedade e do terror que a acompanha. Durante a pesquisa, compreendi que precisaria aprender palavras que escapavam ao léxico aceitável — escavar a linguagem estabelecida para encontrar as gírias das ruas, o jargão dos ofícios, a linguagem secreta dos ladrões — e testemunhar, em minha própria vida, as experiências que deram origem a esses termos nos locais de trabalho, nos bairros e nas prisões. E, assim como Berger, não pude abrir mão da revolução — de virar o mundo de cabeça para baixo ao destruir os fundamentos capitalistas da propriedade —, pois só isso poderia restabelecer o humano. Visto que é o regime da propriedade que cria ricos e pobres, aqueles que possuem e aqueles que nada possuem, restabelecer o humano exige tornar comuns os frutos do trabalho e os frutos da terra. O humano requer o comum, uma vez que o regime da propriedade trouxe guerra, fome, doença e destruição. Tornar as coisas comuns é a ordem do dia.

Assim como Berger, que deslocou seu foco do movimento operário britânico para os camponeses e migrantes, volto minha atenção para uma história dos bens comuns. Como Berger escreveu ao poeta turco Nâzım Hikmet sobre a arte de narrar: “Tudo depende do que sucede ao que. E a ordem mais verdadeira raramente é óbvia”.


Minha história tem origem em um processo judicial. Em 1787, Mary Houghton, de East Anglia, foi acusada de invasão de propriedade. No ano anterior, ela havia praticado a “rebusca” — a coleta de grãos deixados para trás pelos ceifeiros — em campos cujo proprietário, Lord Charles Cornwallis, havia retornado à Inglaterra pouco tempo antes, após sua derrota em Yorktown, na Guerra de Independência dos Estados Unidos. O caso foi decidido em 1788, quando quatro juízes da Corte de Apelações Comuns (Court of Common Pleas) determinaram que “ninguém possui, pelo direito consuetudinário (common law), o direito de realizar a rebusca em campos após a colheita”. Houghton foi considerada culpada, e seu marido, John, um sapateiro, pagou a multa de 35 libras e 5 xelins. Com isso, a decisão sobre o que ficou conhecido como “o grande caso da rebusca” pareceu pôr fim a esse último vestígio das terras de uso comum (commons).

Berger nunca aborda diretamente a figura do “catador” — cuja humilde atividade, uma espécie de gestão de resíduos, alimenta os filhos dos mais pobres da comunidade e cuja história, como escreve Robin D. G. Kelley, é a daqueles que estão “lá embaixo, bem lá embaixo” —, mas ele se aproxima do conceito de “bens comuns” (commons) sem, contudo, utilizar esse termo. Em The Success and Failure of Picasso (1965), ele faz referência a “relíquias” pré-feudais presentes no sistema de posse de terra baseado em clãs — em Navarra, no País Basco e na Andaluzia —, as quais preservam a memória de um tempo em que “o indivíduo estava inserido em um coletivo pequeno, espontâneo e primitivo”. O anarquismo espanhol, assim como a formação de Picasso, também estavam ligados a “relações sociais tais como existiam sob a propriedade coletiva primitiva”. Nesse contexto, a compreensão de Berger sobre os “bens comuns” remete aos estágios da história descritos por teóricos do século XVIII e por Karl Marx: comunismo primitivo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo.

Berger aborda novamente a questão dos bens comuns em seu livro seguinte, A Fortunate Man (1967), escrito em colaboração com o fotógrafo Jean Mohr. A obra acompanha, de perto e com sensibilidade, a trajetória de um médico, John Sassall, testemunhando processos de cura e cuidado pessoal entre os habitantes da Forest of Dean — conhecidos como foresters (habitantes da floresta) —, um grupo descrito por Berger como “desconfiado, independente, resistente, com pouca instrução formal e avesso à hierarquia eclesiástica”. Enquanto, no livro anterior, as transformações históricas eram impulsionadas por forças econômicas, em A Fortunate Man as forças de mudança manifestam-se por meio dos dramas de personagens individuais. Contudo, embora Berger observe com agudeza a forma como o Dr. Sassall traz para os foresters “uma convergência extraordinariamente complexa de tradições filosóficas, sentimentos, ideias apenas parcialmente formuladas, instintos atávicos e intuições imaginativas”, ele desconhecia que aqueles habitantes eram descendentes de um antigo sistema de bens comuns — uma tradição que remonta ao Book of Denis, de 1610, e que atravessa episódios como a revolta por alimentos de 1795, a derrubada de um muro de cercamento por Warren James em 1828, e as ações do grupo conhecido como Blakeney Gang na década de 1890. Dos bens comuns aos costumes, e destes ao crime, cada prática deixa vestígios para a que a sucede.

Mary e John Houghton eram pessoas da terra: em particular, da freguesia de Timworth, no oeste do condado de Suffolk. O pasto e o campo de colheita eram a base do couro da calçada e do grão da respiga. Como atividades humanas são antigas, remontando à primeira domesticação de plantas e animais. As peles de animais — bovinos, ovinos, suínos — forneciam o material do sapateiro; sementes de cevada e sementes de trigo forneceram a primeira cerveja e pão do Neolítico. As sociedades de classes começaram então.

Mary nasceu em 1730 como uma criança “vil” (ilegítima) e partilhou com os seus companheiros plebeus um pequeno pedaço de terra: o suficiente para ela desfrutar de direitos comuns, como a respiga. Com John ela teve quatro filhos. A família morava a uma curta distância de Culford, a oeste, e a apenas uma caminhada um pouco mais longa de Thetford, ao norte. Culford abrigava a propriedade rural de Lord Cornwallis, na época uma “pilha de pedras” recentemente construída, como eram ironicamente chamadas essas grandes casas que dominam a paisagem, e agora uma escola particular. Thetford foi o local de nascimento de Thomas Paine. Vizinhos em Inglaterra, inimigos na América, os dois – Paine, o democrata radical e Cornwallis, o aristocrata imperialista – podem muito bem ter-se cruzado quando ambos regressaram a Suffolk após o fim da guerra.

Cornwallis foi derrotado em Yorktown em 1781, uma batalha que encerrou a Revolução Americana. O campo de batalha estava repleto de negros mortos e moribundos. Depois de regressar ao continente, Cornwallis lutou fervorosamente para preservar a propriedade privada colonial no império remanescente, combatendo o movimento de independência irlandês e introduzindo em Bengala as leis e práticas de propriedade privada. Enquanto estava na Índia, ele deixou a administração de suas propriedades – incluindo os campos que Mary colheu – para seu irmão, o bispo de Lichfield. Cruz e espada aliadas na expropriação dos Houghtons. Eles pertenciam à classe que se considerava senhores da espécie humana.

O juiz Heath afirmou que o direito de respigar “aumentaria a insolência dos pobres”. “Autorizar esse costume”, acrescentou ele, “introduziria a fraude e a rapina, e acarretaria uma maldição sobre o país.”

Observem o raciocínio desses magistrados. Lord Loughborough escreveu sobre a prática de recolher as sobras da colheita (gleaning): “Em primeiro lugar, considero-a incompatível com a natureza da propriedade, que pressupõe o usufruto exclusivo. Em segundo lugar, ela é destrutiva para a paz e a boa ordem da sociedade, equivalendo a uma forma generalizada de vadiagem”. O juiz Wilson, referindo-se ao agricultor, afirmou: “A terra é dele, o cultivo é dele, a semente é dele; portanto, segundo a justiça natural, os lucros também lhe pertencem”. O juiz Heath declarou que o direito de recolher as sobras “abriria as portas para a fraude, pois os trabalhadores seriam tentados a espalhar os grãos para facilitar a coleta por parte de suas esposas, filhos e vizinhos”, o que, por sua vez, “alimentaria a insolência dos pobres”. “Sancionar esse costume”, acrescentou ele, “introduziria a fraude e a rapina, atraindo uma maldição sobre o país”. Foi a hierarquia de classes e o domínio da propriedade privada que justificaram a abolição dessa prática de uso comum — o último vestígio dos bens comunais agrários.

Mary não foi a primeira pessoa a ser levada a julgamento por recolher as sobras da colheita. Um ano antes de ela enfrentar o tribunal, Capel Lofft, um morador da mesma região, defendeu Benjamin Manning — também sapateiro — em um caso semelhante. Sobre essa prática, Lofft escreveu na ocasião:

um costume fundamentado na benevolência, consolidado pelo uso imemorial, que remonta a um preceito moral de benevolência divina; um direito restrito aos indigentes e àqueles que, por falta de força ou de hábito, não estão aptos aos trabalhos mais rentáveis ​​no campo — um direito que, aliás, só é reivindicado depois que o agricultor, segundo uma interpretação razoável, já recolheu sua colheita.

Thompson e Berger, embora estudiosos atentos do Marx do Manifesto Comunista, desconheciam o fato de que, em sua juventude — indignado com a violência contra os pobres em sua Renânia natal —, o próprio Marx escreveu: “Reivindicamos para os pobres um direito consuetudinário; um direito que não possui caráter local, mas que pertence aos pobres em todos os países”. E “é também por meio de sua atividade que a pobreza adquire o seu direito. Pelo seu ato de colher o que resta, a classe elementar da sociedade humana incumbe-se de introduzir ordem entre os produtos da força elementar da natureza”. E “o mesmo se aplica à prática de recolher as sobras após a colheita e a outros direitos consuetudinários semelhantes”. Houghton era, precisamente, uma dessas pessoas que “recolhiam o que restava”. Ela pertencia a uma classe “elementar”.

Quando Berger clamou pela destruição do regime de propriedade e pelo estabelecimento do humano, ele também recorria ao elemento fundamental. O regime de propriedade desenraizou as pessoas e as escravizou. A expropriação do trabalho concretizou-se por meio dos cercamentos, e a exploração do trabalho, por meio da escravidão. Embora ambos os processos tivessem origens no capitalismo do século XVI, no século XVIII eles atingiram um auge quantitativo e uma dominância econômica. Na Grã-Bretanha, entre 1730 e 1754, foram aprovadas, em média, pouco mais de quatro leis parlamentares de cercamento por ano. Após 1755, esse número cresceu rapidamente, chegando a sessenta e quatro por ano na década de 1770, e continuou a aumentar ao longo do século XIX.

Concomitante ao movimento parlamentar de cercamentos, ocorria o tráfico transatlântico de escravizados. Em 1787 — o mesmo ano em que Mary Houghton foi acusada de invasão de propriedade —, a Inglaterra tornou-se a maior negociante de escravizados: cerca de trinta e oito mil pessoas foram escravizadas e transportadas da África para serem vendidas nas Américas e no Caribe. Naquele mesmo ano, Ottobah Cugoano publicou sua contundente obra Thoughts and Sentiments on the Evil of Slavery, na qual cita o profeta hebreu Miqueias:

Ai de mim! Pobre África! Pois sou como as últimas sobras dos frutos de verão, como os restos da vindima, onde não resta um cacho sequer para comer. Os bons desapareceram da face da Terra, e não há um só homem íntegro entre os seres humanos; todos espreitam para derramar sangue; cada um persegue o seu próximo com uma rede.

Eis, novamente, a ideia de “recolher as sobras”. Esses dois processos do capitalismo — a escravidão, ou trabalho não remunerado, e o cercamento de terras comunais — tocam em algo fundamental para a história da mulher e do homem: a saber, que ela trabalha para a subsistência, tal como o escravizado africano, enquanto ele trabalha por dinheiro. A produção depende dele; a reprodução, dela. Essa divisão também está enraizada no terror.


Quem cria as leis? O que significa soberania? John Locke, o teórico da propriedade que justificou o cercamento das terras comunais, definiu a soberania como o direito e o poder de criar leis cuja violação seria punível com a morte. Para as mulheres, as crianças e os pobres, contudo, a soberania significava pão — e o pão era obtido por meio da prática da espiga (a coleta de restos de colheita). David Morgan, um trabalhador rural que estudou comigo na Universidade de Warwick, descreve essa prática com base em evidências de 1860: “Durante o período da espiga [duas ou três semanas], os campos deixavam de pertencer aos fazendeiros e passavam a pertencer aos habitantes da vila”, escreveu ele. “A lei determinava uma coisa, mas os trabalhadores pobres seguiam seu próprio caminho, sem se importar com ela.” Essa prática, conclui Morgan, deve ser vista como “uma manifestação da crença de que o acesso comum à terra era um direito permanente”. Como se para consolidar essa crença, a coleta de restos de colheita assumia os rituais da soberania: “Tendo o pregoeiro da vila ‘proclamado a Rainha’, quase 100 pessoas reuniram-se na extremidade da vila... Os rapazes gritaram uma saudação real, e a coroa foi trazida de seu local de depósito temporário”, diz um relato publicado em 1860. Com a coroação da rainha dos que coletavam os restos da colheita, surgia também a sua lei.

Em 1787, mesmo ano em que Mary Houghton foi acusada de invasão de propriedade, a Inglaterra tornou-se a maior negociante de escravos do mundo.

Em vez da igreja, “o momento sagrado era a colheita”, contou John Grout, de 84 anos, ao historiador oral Ronald Blythe sobre a colheita em East Anglia. “O senhor sentou-se em cima da última carga para deixar o campo, e então as mulheres e as crianças vieram recolher o restolho. Esse é um dos sons da história lá de baixo!

Arthur Young, o analista contemporâneo da agricultura envolvente, transmite uma sensação de multidão. “A coleta de dados nos grandes campos abertos era um emprego muito mais lucrativo do que após o cerco”, escreveu ele. “Tão grandes eram as nuvens de respigadores que passeavam de freguesia em freguesia que em alguns distritos foi necessário que a freguesia preservasse a respiga para o seu próprio povo.” Outra avaliação contemporânea é fornecida por The State of the Poor (1797), de Frederic Eden: “Várias famílias colherão tanto trigo quanto for necessário para o pão durante todo o ano, e tantos feijões quantos forem necessários para manter um porco”. Ivy Pinchbeck, a historiadora das mulheres trabalhadoras na Revolução Industrial, escreveu que “cinco ou seis alqueires de trigo são normalmente dados como a quantidade que uma mulher colheria, e quando o preço de um alqueire de trigo era quase o dobro do salário semanal de um trabalhador, veremos quão lucrativa foi esta colheita”.

John Clare, um poeta e testemunha em primeira mão da coleta, foi excluído do espaço comum. Embora ele pudesse adotar um tom piedoso em relação à respiga (“nunca lhe faltará o que dá aos pobres”), sua força está na observação direta:

The reapers leave their beds before the sun
And gleaners follow when home toils are done,
To pick the littered ear the reaper leaves,
And glean in open fields among the sheaves.
The ruddy child, nursed in the lap of care,
In toil’s rude ways to do its little share,
Beside its mother poddles o’er the land,
Sun-burnt and stooping with a weary hand,
Picking its tiny glean of corn or wheat
While crackling stubbles wound its legs and feet.

Em seus Commentaries on the Laws of England, o jurista do século XVIII William Blackstone definiu a propriedade em termos que não poderiam ser mais opostos às práticas de gleaning (a coleta de sobras agrícolas). Ela consiste, escreveu ele, no “domínio exclusivo e despótico que um homem reivindica e exerce sobre as coisas externas do mundo, com a exclusão total do direito de qualquer outro indivíduo no universo”. Não é de se admirar que os juízes no caso de Mary tenham classificado a prática de gleaning como fraude, rapina, insolência e uma maldição. Apenas um membro do tribunal, o juiz Gould, defendeu o direito a essa coleta. Ele insistiu que a prática tinha uma natureza “sagrada”, citando a injunção do livro de Levítico que orienta os agricultores a deixarem as sobras para os pobres. Ele poderia ter mencionado também o Livro de Rute, outra história que envolve a coleta de sobras. Quando Rute “perguntou se poderia colher as espigas que restavam após a passagem dos ceifeiros”, o rico proprietário de terras, Boaz, disse aos seus trabalhadores: “deixem que ela colha até mesmo entre os feixes; não a repreendam. Podem até tirar algumas espigas dos feixes e deixá-las para que ela as recolha, sem qualquer censura”. Em 1819, ano do Massacre de Peterloo, o poeta romântico John Keats escreveu a “Ode a um Rouxinol”. É bem possível que ele tivesse Mary Houghton em mente ao referir-se ao pássaro...

selfsame song that found a path
Through the sad heart of Ruth when, sick for home,
She stood in tears amid the alien corn;

O juiz Gould também fez referência a um axioma de Platão — “quem compreende os nomes, compreende também as coisas” — bem como a um corolário de Isidoro: “Se você não conhece os nomes das coisas, o conhecimento das próprias coisas perece”. O esquecimento de termos que, no século XIII, eram de conhecimento comum, acabou, no século XVIII, envolvendo as terras de uso coletivo em uma névoa de obscuridade. As Grandes Cartas de Liberdade — como a Magna Carta e a Carta das Florestas — mencionavam estovers (coleta de madeira), chiminage (direito de passagem/circulação), pannage (direito de alimentar porcos com bolotas e frutos silvestres) e herbage (direito de pastoreio para o gado). Em conjunto, esses elementos formavam o que Thompson chamou de “uma teia de direitos comunais” — prerrogativas que garantiam às pessoas acesso aos meios de produção e de subsistência. A prática da gleaning (recolha de restos de colheita) era um costume, e tal costume era preservado não em livros jurídicos, mas na memória do povo. À época em que Mary Houghton foi levada a julgamento, esse costume já havia sido criminalizado. O sistema penitenciário desenvolveu-se paralelamente ao processo de cercamento das terras.


Em 1777 — dez anos antes de Mary ser processada por recolher sobras da colheita —, John Howard publicou State of the Prisons, defendendo um novo regime punitivo de caráter sanitário, baseado no isolamento e na vigilância. Termos utilizados pelas classes populares passaram a integrar os primeiros dicionários de jargão criminoso — um campo lexical tecnicamente conhecido como cant.

Cada ofício ou profissão possuía seus próprios "usos", "vantagens" ou "costumes". Criados recebiam gorjetas; sapateiros, retalhos de couro; chapeleiros, sobras de feltro; curtidores, pedaços de pele; guardas florestais, galhos e pontas de árvores; relojoeiros, limalhas; alfaiates, retalhos de tecido; tecelões de seda, pontas de fio; tecelões de lã, fragmentos e restos de urdidura; construtores navais, lascas de madeira; trabalhadores portuários, resíduos de carga; tanoeiros, restos de cera; cardadores de lã e seda, fibras curtas descartadas — e assim por diante, em uma disputa, quase sempre oculta, que permeava todo o universo do homo faber, o homem que produz. Tais práticas são a expressão semântica de uma separação ainda incompleta entre o trabalhador e suas ferramentas e materiais de produção. Eram, por assim dizer, um "bem comum" do trabalhador. A supressão desses direitos levou ao empobrecimento do artesão, à sua criminalização pelas autoridades, ao incentivo à vigilância e à mecanização, culminando nas condições miseráveis ​​do proletariado urbano.

Quem detém a propriedade e o controle dos meios de produção? Aqueles que recolhiam as sobras da colheita usavam um avental para guardar o que coletavam. Eles dependiam dos ceifeiros ou dos trabalhadores que cortavam o cereal. O ceifeiro utilizava a foicinha; o trabalhador que ceifava grandes áreas, a foice de cabo longo. Esta última corta mais rente ao solo, deixando pouca sobra; a foicinha, por sua vez, oferece a quem colhe maior margem de escolha sobre a altura do corte no talo. Na disputa entre a foicinha e a foice de cabo longo, uma tornou-se o símbolo do comunismo do século XX, enquanto a outra passou a representar a mortalidade e os mortos colhidos pela morte.

Quem governa quem? Quem retira o quê de quem? A figura da "rainha" entre aqueles que recolhiam as sobras da colheita expressa uma forma de soberania. O mesmo ocorre, de maneira distinta, na descrição da colheita feita por Paine. Trata-se de uma soberania imposta pela necessidade da fome. Não há crime maior do que a fome — o ápice da desumanidade. “Todo indivíduo, seja de posição elevada ou humilde”, escreveu Paine,

tem interesse nos frutos da terra; homens, mulheres e crianças, de todas as idades e condições, mobilizar-se-ão para ajudar o agricultor, a fim de garantir que a colheita seja realizada — algo que não fariam por nenhum outro tipo de propriedade. É o único bem pelo qual a humanidade, em uníssono, roga; e é o único que jamais pode fracassar por falta de meios. Trata-se de uma questão que diz respeito não a uma política, mas à própria existência da humanidade — e, se ela deixar de existir, a humanidade também deixará de ser.

John Houghton pagou a multa de Mary. Como sapateiro na década de 1780, ele fazia parte da economia monetária. Não que ele tivesse dinheiro, mas conseguia obter crédito — o que fazia tomando emprestado do curtidor, uma figura essencial na cadeia de suprimentos do sapateiro. Assim como a abundância de espigas que restavam após a colheita dependia do ceifeiro, o acesso aos retalhos de couro — com os quais os sapateiros fabricavam calçados para os pobres — dependia do curtidor e do cortador de couro. Portanto, façamos agora uma incursão pela história, tendo o sapateiro ao nosso lado.

Thomas Hardy explica, em Tess of the d’Urbervilles (1891), que os sapateiros “constituíam a espinha dorsal da vida no vilarejo, antigamente” e “eram os guardiões das tradições locais”. Ao contrário de outros artesãos da aldeia, como o ferreiro ou o fabricante de rodas, os clientes mais frequentes do sapateiro eram os pobres. Eles estavam associados à igualdade e à dissidência. “Nunca é bom quando o sapateiro olha para cima do tornozelo”, diziam os mais abastados. Na década de 1720, o sapateiro Timothy Bennett afirmou que “não queria deixar o mundo pior do que o encontrou”. Os camponeses alemães que, em 1525, se revoltaram sob o estandarte do Bundschuh — a “união do sapato” — exigiram, no primeiro de seus “Doze Artigos”, a eleição direta de seus pregadores. Em 1583, um sapateiro chamado John Copping foi enforcado por possuir um livro do puritano inglês Robert Browne, intitulado Reformation without Tarrying for Any, que defendia a separação total da congregação de fiéis em relação ao Estado, ao papado ou a qualquer hierarquia: uma espécie de democracia direta. Pouco tempo depois, em 1594, dois sapateiros declararam “que o inferno nada mais é do que a pobreza e a miséria neste mundo; e o céu nada mais é do que ser rico e desfrutar de prazeres” — uma visão que, certamente, não favorecia as diferenciações de classe que começavam a surgir no ofício.

Eu disse “ofício”? Na cena de abertura de Júlio César — a clássica peça de Shakespeare sobre o tiranicídio —, um sapateiro que está na rua é questionado três vezes sobre qual é o seu “ofício”. Por três vezes, ele rejeita esse termo, preferindo identificar-se como “trabalhador” e, em seguida, como “sapateiro” ou “alguém que conserta solas estragadas”. “Tudo o que me sustenta vem da sovela”, diz ele, fazendo um jogo de palavras. “Não me meto nos assuntos de comerciantes.” Enquanto o comerciante compra e vende, o artesão trabalha com as próprias mãos — o sapateiro atua como um “cirurgião de sapatos velhos”, devolvendo-lhes o aspecto de novos. O sapateiro brinca dizendo que uma manifestação nas ruas desgasta os calçados das pessoas, o que, por sua vez, lhe garante mais trabalho. Nos períodos Tudor e Stuart, os ofícios artesanais passaram a ser chamados de “comércios” (trades). Com essa transição do artesão para o comerciante, algo se perdeu: o termo “ofício” (craft) carregava consigo uma dimensão de arte e mistério, ao passo que “comércio” (trade) remetia à troca, à mercadoria e ao lucro.

Crispim e Crispiniano, os santos padroeiros dos sapateiros, teriam fornecido, milagrosamente, couro aos artesãos para que estes pudessem calçar os pobres. O*English Dialect Dictionary (1898), de Joseph Wright, define o termo clicking de maneira inequívoca: roubar. Em 1723, o Parlamento britânico recebeu relatos de sapateiros que penhoravam o couro de boa qualidade que lhes fora confiado, substituindo-o por material de qualidade inferior. Uma lei de 1738 tentou regulamentar o corte do couro. Henry Mayhew, sociólogo do século XIX que estudou a população pobre de Londres, observou que a tarefa do clicker (o profissional responsável pelo corte do couro) “exige a máxima precisão, a fim de ajustar as proporções do material às medidas do pé”. Uma rima jocosa, atribuída a James Fenimore Cooper, nos conduz à questão em pauta.

Old Father Hewes, he makes good shoes,
And sews them well together
It has no heels but those he steals
And begs his upper leather.

George Twelves Hewes foi o sapateiro de Boston que consertava os calçados de John Hancock e cujo assobio convocou a multidão para a Festa do Chá de Boston. Ao contrário de outro sapateiro revolucionário de Boston, Nicola Sacco — perseguido por suas convicções anarquistas e injustamente executado em 1927 —, Hewes não foi morto; pelo contrário, foi reverenciado como um grande patriota.

Por volta de 1761, os mestres sapateiros de Londres empregavam centenas de trabalhadores e trabalhadoras. A obra London Tradesmen (1747), de Campbell, resume o papel desses proprietários de oficinas, artífices e aprendizes: “O ofício de cortador de couro é bastante rentável; exige um conhecimento geral das propriedades do material, além de discernimento suficiente para cortar as peles e couros de modo a obter o maior número possível de moldes para pares de calçados, sem desperdício”. “Sem desperdício”, de fato! Por trás dessas duas palavras, escondia-se um conflito velado, porém intenso: afinal, a quem cabia definir o que constituía desperdício — ao mestre ou ao trabalhador? O ato de cortar o couro seria algo virtuoso ou criminoso? Novas relações materiais e sociais estavam irrompendo na linguagem. Nomear as ferramentas reais de um trabalho concreto tornou-se um mecanismo de exclusão de classe, afastando os trabalhadores do universo letrado e culto da burguesia.

O ICE transforma armazéns em centros de detenção; a IA transforma terrenos abertos em centros de dados fechados. Sua abolição é essencial para cumprir a promessa de Berger de restabelecer o humano.

Samuel How, um sapateiro, pregou em 1639 no Nag’s Head, na Coleman Street — um reduto radical em Londres desde os tempos dos lolardos, local que abrigava prensas clandestinas, reuniões secretas e assembleias religiosas não autorizadas, além de ser um ponto de encontro para pregadores populares e reuniões de mulheres. How não foi o único sapateiro radical a atuar como pregador naquela década; ele provocou uma oposição feroz e virulenta, ao mesmo tempo em que despertava um impulso democrático. Entre aqueles que o ouviam com admiração estava John Lilburne — conhecido como “nascido livre” (Free-born) —, um dos fundadores dos Levellers (niveladores) e um prolífico autor de panfletos, cujos julgamentos e defesas influenciaram a Bill of Rights (Declaração de Direitos). “Decidi... apresentar minha queixa [contra a perseguição por parte da Igreja e do Rei] à Câmara dos Comuns da Inglaterra”, escreveu Lilburne em 1647, “e ver o que... os homens de pés calejados e sapatos remendados farão por mim.” Foi, portanto, um sapateiro quem facilitou a transição da organização democrática da religião para a organização democrática do governo.

Como Lilburne, como citou 1 Coríntios 1:27–8:

E ele escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias, e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as coisas que são poderosas, e as coisas vis do mundo, e Deus escolheu as coisas que são desprezadas, sim, as coisas que não são, para reduzir a nada as que são.

Este é um programa revolucionário. Tem um objetivo ou propósito, “reduzir a nada as coisas que existem”. Nada pode significar um fim ou, como zero, um ponto de partida. A revolução é ambos: o fim da monarquia e o início da comunidade; o fim do direito divino dos reis e o início de “nós, o povo”. Quanto aos meios de conseguir isso, Paulo refere-se a tipos específicos de pessoas que podem virar o mundo de cabeça para baixo – os tolos, os fracos, os vis e os desprezados. Estes são os maus nomes das autoridades para as pessoas da classe trabalhadora, caso contrário, a “multidão vulgar” ou “comunidade”.

Samuel How e John Lilburne não foram os únicos radicais a citar o Corinthians. Em maio de 1649, as mulheres Leveler aludiram aos mesmos versículos em sua petição para inclusão na franquia. Gerrard Winstanley, o grande comunista inglês e fundador dos Diggers (“Trabalhem juntos. Comam pão juntos”) escreveu que um novo espírito “surgirá do pó, dos pobres que são pisados”, e parafraseia a revolução de Paulo pelos fracos, pelos tolos, pelos vis e desprezados. Abiezer Coppe, um escavador cujo livro foi proibido e queimado, citou os versos revolucionários de Paulo. O profeta Theaurau John Tany também os citou. Hanserd Knollys, um pregador anabatista, às vezes peregrino de Massachusetts e pregador em Coleman Street, escreveu sobre a Guerra Civil Inglesa: "Onde ela começou? Bem nos pés, nas próprias solas dos pés. Vocês que são de classe inferior, pessoas comuns, não desanimem; pois Deus pretende fazer uso das pessoas comuns na grande obra de proclamar o reino de seu Filho."

Knollys foi preso em janeiro de 1645 em Bury St. Bury não era apenas a cidade mais próxima de Mary e John Houghton, mas também era há muito tempo um lugar de rebelião. Os rebeldes se reuniram lá em 1549, quando “o pé tomou sobre ele a parte da cabeça e Commonyns se tornou rei”. Quase cem anos depois, tornou-se o centro da revolucionária Associação Oriental de Oliver Cromwell e a base do “General Caçador de Bruxas”, Matthew Hopkins, e do seu assistente, John Stearne, que organizou o terror massivo contra as mulheres. Em agosto de 1645, dois homens e dezesseis mulheres pobres foram enforcados como bruxos em Bury, com dezenas a seguir. (Uma mulher contou que o diabo apareceu para ela como três ratos, que ela chamou de Tocar, Arranque e Pegar.) Assim aterrorizadas, as mulheres foram demonizadas como parte da desvalorização de
trabalho reprodutivo.

Era uma época religiosa. Jacob Böhme foi um sapateiro alemão do século XVII. Sua teosofia dialética influenciou profundamente os radicais da Revolução Inglesa, bem como os quacres, William Blake, Hegel e Karl Marx. Antiautoritário, o *Philosophus der Einfältigen* — ou “o filósofo das pessoas simples” — dizia: “Seja ele cristão, judeu, turco ou pagão, para mim dá no mesmo”. Suas ideias audaciosas e misteriosas foram publicadas e traduzidas sob o título *Aurora* — ou seja, o despontar do dia, o alvorecer no Oriente. É por isso que, dois séculos mais tarde, a romancista e estudiosa da cultura alemã George Eliot, em sua obra *Adam Bede* (1859), fez referência a “esses pobres sapateiros maltrapilhos que acreditam poder ajudar a regenerar a humanidade ao saírem para pregar no crepúsculo matutino, antes de começarem sua jornada de trabalho”.

Para Thomas Evans, seguidor cristão de Thomas Spence, os membros da república agrária de Moisés “deveriam viver em pé de igualdade”. Como ele escreveu em 1816:

Vivi o suficiente para testemunhar o efeito de um cercamento após o outro, e de um imposto após o outro; expulsando o camponês da prática de recolher as sobras nos campos abertos, privando-o de seu direito às terras comunais, de sua casa, de seu casebre — que um dia foram seus —, roubando-lhe seus poucos pertences: seu porco, suas aves, seu combustível; reduzindo-o, assim, à condição de indigente, de escravo.

Empobrecidos e escravizados dessa forma, Mary e John Houghton viram-se arruinados. Mas essa não pode ser a conclusão da história.

A lei, por si só, não foi capaz de eliminar a prática de recolher as sobras das colheitas. No século XIX, a recém-inventada ceifadora mecânica McCormick cortava as plantas tão rente ao solo que não restava nada para ser recolhido. Após a polícia balear e matar alguns dos operários fundidores que fabricavam a máquina, os trabalhadores de Chicago reuniram-se em Haymarket para protestar — e assim nasceu o Primeiro de Maio, a celebração dedicada aos trabalhadores de todo o mundo. A mudança decisiva provocada pela mecanização na etapa de acabamento (limpeza e preparação das peças) assemelha-se à introdução da máquina de costura na fabricação de calçados: sua aplicação, na década de 1850, submeteu indiretamente o trabalho à vigilância rigorosa da fábrica e, consequentemente, reduziu a necessidade de operações de corte e ajuste manual.


Walter Benjamin observou como toda história contém algo prático, talvez “uma proposta referente à continuação de uma história que ainda está se desenrolando”. A fábrica e a prisão permanecem como a arquitetura da expropriação e da exploração, só que agora em escala planetária. O ICE transforma armazéns em centros de detenção; a inteligência artificial transforma espaços abertos em centros de dados fechados. A abolição dessas estruturas é essencial para o compromisso assumido por Berger, há mais de meio século, de destruir o império da propriedade e instaurar o humano.

“Nunca antes de nossa época tantas pessoas foram desenraizadas”, escreveu Berger e nossos rostos, meu coração, breves como fotos. Isso foi em 1984. Este é o “momento” do capitalismo; é contínuo e contém períodos, séculos, fases. Mais tarde, Berger escreverá: “As Highlands lamentam aqueles que desapareceram, sobretudo aqueles que foram forçados a desaparecer”. Os ingleses expropriaram as Terras Altas da Escócia em 1745 e limparam ainda mais os seus bens comuns na década de 1790. Um dos fundadores dos Estados Unidos, James Wilson, veio das Terras Baixas da Escócia. Tornou-se um rico proprietário na América, inventou a infame Cláusula dos Três Quintos, obteve um assento no primeiro Supremo Tribunal e deu palestras em Filadélfia a George e Martha Washington e ao gabinete sobre a superioridade da propriedade privada e o total atraso histórico dos bens comuns.

Em seu “Posfácio Histórico” a Pig Earth, o primeiro romance da trilogia Into Their Labours, Berger escreve que “a notável continuidade da experiência camponesa e da visão de mundo camponesa adquire, à medida que é ameaçada de extinção, uma urgência sem precedentes e inesperada”. O projeto revolucionário dos bens comuns faz parte dessa urgência. Reconstituí-los — desde formas micro de mutualidade até formas macro contra o desperdício da civilização — significará opor-se à cegueira da forma-mercadoria e à crueldade sistemática da classe dominante, com sua acumulação viciante, sua ganância desenfreada por extração e sua concupiscência pela guerra.

Peter Linebaugh é um historiador britânico. É autor de diversos livros, incluindo The London Hanged e, mais recentemente, Red Round Globe Hot Burning: A Tale at the Crossroads of the Commons & Closure, of Love & Terror, of Race & Class, and of Kate & Ned Despard.

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