Jung H. Pak
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| Björn Griesbach |
O 75º aniversário do Partido dos Trabalhadores da Coreia, em outubro de 2020, não foi a celebração festiva que o líder norte-coreano Kim Jong Un desejava. Apesar dos fogos de artifício, da demonstração aérea militar e do desfile de novos mísseis intercontinentais, Kim pareceu enxugar as lágrimas ao se aproximar do púlpito e pedir desculpas à multidão: “Meus esforços e sinceridade não foram suficientes para livrar nosso povo das dificuldades em suas vidas”. A pandemia de COVID-19 havia sido difícil para a maioria dos países, mas parecia especialmente premonitória para a Coreia do Norte, que sofria com insegurança alimentar, tinha um sistema de saúde pública notoriamente precário e lutava contra uma economia fragilizada. O próprio Kim Jong-un foi humilhado e isolado, tanto interna quanto internacionalmente, após não conseguir o tão necessário alívio das sanções em uma cúpula de alto nível com os líderes dos Estados Unidos, Coreia do Sul, China e Rússia. Foi, sem dúvida, o momento mais baixo nos 78 anos de história da República Popular Democrática da Coreia do Norte.
E, no entanto, apenas cinco anos depois, em setembro de 2025, Kim Jong-un irradiava alegria em um desfile militar diferente — em Pequim, onde estava ao lado do líder chinês Xi Jinping e do líder russo Vladimir Putin. Soldados norte-coreanos lutavam ao lado de tropas russas na Ucrânia, o comércio norte-coreano com a China havia atingido níveis saudáveis pré-pandemia e Kim Jong-un havia sido acolhido por um grupo unificado de líderes que combatiam a influência dos EUA e do Ocidente. Em uma reviravolta impressionante, a Coreia do Norte hoje ascende de maneiras que nem mesmo o analista mais imaginativo poderia ter previsto. Kim Jong-un, cujo controle do poder nunca foi tão forte, transformou-se de um pária global em uma potência global em tempo recorde.
Essa metamorfose é produto tanto das circunstâncias quanto da habilidade. O alvorecer de uma nova era de competição entre grandes potências tem sido um desenvolvimento indesejável para muitos países pequenos e potências médias, mas a Coreia do Norte se saiu melhor do que a maioria, alavancando seu arsenal nuclear para evitar ser subjugada por atores maiores. Kim também se mostrou excepcionalmente hábil em explorar as oportunidades e navegar pelas correntes dessa nova geopolítica. Ao abordar as relações com a China e a Rússia, ele assumiu riscos surpreendentes, como travar uma guerra na Europa e intensificar o desenvolvimento de armas nucleares, que se provaram acertados.
Como resultado, sua capacidade de moldar a dinâmica regional é agora maior do que nunca. No passado, Washington conseguiu trabalhar com Pequim e Moscou, ainda que de forma limitada, para conter a Coreia do Norte e evitar um confronto militar. Mas hoje, o desafio norte-coreano é mais formidável e mais duradouro. A confluência da tensão entre EUA e China, a guerra da Rússia na Ucrânia e a crescente desconfiança dos aliados dos EUA em relação às intenções e ao compromisso de Washington criaram uma situação global imprevisível e volátil. A Coreia do Norte é, portanto, uma prévia dos obstáculos que os Estados Unidos enfrentarão à medida que essa nova ordem se consolida.
HOMEM-FOGUETE
Quando Kim Jong-un chegou ao poder em 2011, aos 27 anos, a economia moribunda da Coreia do Norte dependia quase que exclusivamente de ajuda externa e do comércio com a China. Organizações internacionais de ajuda humanitária já haviam relatado que mais de 40% dos 26 milhões de cidadãos norte-coreanos sofriam de desnutrição, enquanto a elite de Pyongyang desfrutava de restaurantes e shoppings. Na época, autoridades e analistas americanos previram que o jovem sucessor, sem experiência militar ou de liderança conhecida, provavelmente fracassaria, sendo rapidamente deposto por seus antecessores ou marginalizado como uma figura decorativa.
Mas Kim Jong-un reagiu com veemência. Conduziu expurgos sistemáticos para intimidar a elite e garantir sua lealdade absoluta, e, de forma bastante pública, assassinou seu poderoso tio e seu meio-irmão. Ele também intensificou o programa de armas nucleares do país, realizando mais de 100 testes de mísseis entre 2012 e 2019 — mais do que o triplo do número supervisionado por seu pai e avô juntos — e quatro dos seis testes nucleares do país, incluindo uma bomba de hidrogênio em setembro de 2017 com uma potência estimada entre 100 e 150 quilotons. (Para comparação, a bomba atômica lançada sobre Hiroshima teve uma potência estimada em 15 quilotons.) No final de 2017, ele chegou a testar com sucesso um míssil balístico intercontinental pela primeira vez na história da Coreia do Norte.
O outono de 2017 foi, portanto, particularmente tenso. Kim e o presidente dos EUA, Donald Trump, trocavam insultos — Trump chamou Kim de "Pequeno Homem-Foguete", enquanto Kim chamou Trump de "mentalmente perturbado" — e Trump alertou que as forças armadas dos EUA estavam "prontas para o combate". James Mattis, então secretário de Defesa, prometeu uma “resposta militar maciça” a quaisquer novas ameaças da Coreia do Norte, e H. R. McMaster, então conselheiro de segurança nacional, falou sobre uma “guerra preventiva” contra a Coreia do Norte. A tensão era tão palpável que até mesmo a China e a Rússia apoiaram sanções mais rigorosas da ONU contra Pyongyang.
Kim passou de pária global a influente figura global.
Kim, contudo, é hábil em perceber o contexto. Em janeiro de 2018, ele expressou interesse em participar dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, proporcionando o que Sheila Miyoshi Jager, especialista em história coreana, chamou de “uma pausa tranquilizadora em um aterrorizante jogo de risco global”. Enquanto o mundo soltava um suspiro coletivo de alívio, Kim e Trump recuaram da beira do precipício, e os dois líderes realizaram uma cúpula sem precedentes em Singapura, em junho daquele ano, mediada por um entusiasmado Moon Jae-in, então presidente da Coreia do Sul. Embora Trump tenha declarado nas redes sociais que “não havia mais ameaça nuclear da Coreia do Norte”, o encontro alcançou poucos resultados, e as negociações permaneceram em impasse nos meses seguintes, culminando em uma segunda cúpula fracassada em Hanói, em fevereiro de 2019.
A essa altura, já era evidente que a economia da Coreia do Norte estava em crise. O Banco Central da Coreia do Sul informou que a economia norte-coreana havia encolhido entre quatro e cinco por cento em 2018. Nas negociações, Kim ofereceu-se para fechar parte de um antigo centro de pesquisa nuclear em troca da suspensão das sanções impostas em 2016 e 2017 pelas Nações Unidas, que proibiam as exportações norte-coreanas de têxteis, frutos do mar, carvão, minério de ferro e mão de obra, além de limitarem as importações de derivados de petróleo refinados. Presumindo que Kim reinvestiria a receita obtida em seu programa nuclear, os Estados Unidos rejeitaram o acordo, e Kim retornou a Pyongyang cabisbaixo.
Para piorar a situação, uma seca recorde ameaçou as colheitas da Coreia do Norte, e vários tufões atingiram o país. Assim, os cidadãos do país já se encontravam em uma posição extremamente vulnerável quando a pandemia chegou em janeiro de 2020. O comércio com a China, a principal fonte de renda da Coreia do Norte, despencou mais de 80% com o fechamento das fronteiras, e as previsões para o país tornaram-se cada vez mais sombrias.
CONFINAMENTOS E REPRESSÃO
Kim, no entanto, provou que não era do tipo que desperdiçava uma crise. Na verdade, a pandemia lhe deu mais margem de manobra para consolidar seu poder e uma desculpa tangível para não apresentar resultados na economia. Como a interação com o mundo exterior passou a ser não apenas perigosa, mas também mortal, Kim usou a pandemia para expulsar diplomatas estrangeiros e trabalhadores humanitários, além de reforçar ainda mais a segurança nas fronteiras da Coreia do Norte. Sua máquina de propaganda entrou em ação, com a disseminação da COVID-19 servindo como uma metáfora apropriada para a doença da influência externa.
A pandemia também apresentou à Coreia do Norte uma oportunidade econômica singular. Pyongyang vinha utilizando esquemas cibernéticos maliciosos há anos para mitigar os efeitos das sanções e gerar receita para o regime. Roubava de aliados e inimigos: o Painel de Especialistas da ONU, criado em 2009 para investigar a evasão de sanções por Pyongyang, relatou que, de 2017 a 2023, hackers norte-coreanos acumularam cerca de US$ 3 bilhões. Durante a pandemia, essa operação ilegal se intensificou. Com a imposição da internet ao mundo, houve um aumento correspondente em golpes, fraudes e violações de segurança online — muitos deles cometidos por cibercriminosos norte-coreanos. Norte-coreanos chegaram a conseguir empregos em empresas legítimas nos Estados Unidos, fingindo ser trabalhadores remotos de tecnologia da informação e ganhando até US$ 300.000 por ano.
Kim garantiu que esse dinheiro fosse bem utilizado. Apesar da crise de saúde pública, ele não hesitou em priorizar o programa de armas nucleares e, em janeiro de 2021, revelou um ambicioso plano de defesa de cinco anos para desenvolver armas nucleares táticas, “ogivas nucleares superdimensionadas”, veículos hipersônicos planadores, submarinos nucleares e veículos subaquáticos não tripulados e drones de reconhecimento. O esforço valeu a pena. Em abril de 2025, o general da Força Aérea que chefia o Comando Norte dos EUA testemunhou perante o Congresso que a Coreia do Norte havia testado um novo míssil balístico intercontinental de combustível sólido que provavelmente poderia “lançar uma ogiva nuclear contra alvos em toda a América do Norte”.
O PÚLPITO DE IMPLANTAÇÃO DE PEQUIM
Com seu regime no auge do poder interno, Kim também vislumbrou oportunidades no exterior. A competição estratégica entre os Estados Unidos e a China estava se intensificando, e Pyongyang certamente estava ciente da inquietação de Pequim enquanto o governo Biden trabalhava para fortalecer os laços com os aliados no Indo-Pacífico após assumir o poder no início de 2021. Embora não seja surpreendente que Pyongyang se aproximasse mais de Pequim do que de Washington, foi uma quebra notável de tradição quando Kim começou a expressar um apoio mais entusiasmado à China e a responder a medidas tomadas pelos Estados Unidos que pouco tinham a ver com a Coreia do Norte.
Já em março de 2021, por exemplo, em uma carta a Xi Jinping, Kim Jong-un expressou a necessidade compartilhada de "lidar com os desafios e manobras obstrutivas das forças hostis em todas as frentes", uma referência à política do novo governo Biden de intensificar a cooperação com aliados e parceiros para contrabalançar as ações coercitivas de Pequim na Ásia e em outras regiões. Em outubro de 2021, o regime norte-coreano criticou duramente os Estados Unidos por inflamar as tensões militares no Estreito de Taiwan, conduzindo as chamadas operações de liberdade de navegação e fornecendo armas a Taiwan. Pela primeira vez em décadas, Pyongyang emitia declarações apoiando as posições de Pequim sobre Taiwan. Em agosto de 2022, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte denunciou a visita a Taiwan da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, afirmando que Taiwan era "parte inseparável da China" e que os Estados Unidos eram a "causa principal da perturbação da paz e da segurança na região".
Pyongyang também condenou o advento do AUKUS, um acordo entre a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos, pelo qual os Estados Unidos fornecem submarinos nucleares à Austrália, como "um ato extremamente perigoso". Criticou ainda a cúpula trilateral de Washington em 2022 com o Japão e a Coreia do Sul, a primeira em cinco anos, como um "prelúdio perigoso para o estabelecimento de uma 'versão asiática da OTAN'". Sobre a própria OTAN, Pyongyang afirmou que o grupo era uma "aliança de confronto" com a intenção de construir "um cerco transpacífico para conter e isolar a China".
Essas foram todas maneiras retóricas, de baixo risco e baixo custo, pelas quais a Coreia do Norte poderia demonstrar seu apoio à China. Sendo um país pequeno e empobrecido, pouco tinha a oferecer ao seu gigante vizinho. Mas, dada a deterioração de suas relações com Washington e Seul, Kim precisava manter Xi ao seu lado. Como no passado, Kim provavelmente esperava que laços mais cordiais com o presidente chinês suavizassem a aplicação das sanções da ONU por Pequim e impedissem qualquer potencial coordenação entre Pequim e Washington sobre a desnuclearização da Coreia do Norte.
Pequim cumpriu sua promessa. Embora a China tivesse aderido às sanções da ONU, Pequim ofereceu a Pyongyang uma tábua de salvação em 2020 que, segundo a inteligência americana e relatórios da ONU, incluiu 32 casos de contrabando de combustível, 555 casos de navios transportando mercadorias proibidas pela ONU da Coreia do Norte para a China e 155 incidentes de barcaças de carvão com bandeira chinesa viajando para a Coreia do Norte e retornando à China com carga ilícita. Pequim, que há muito prioriza a estabilidade em sua fronteira, provavelmente estava preocupada com os efeitos da pandemia na situação interna de Pyongyang. Xi queria manter Kim sob sua mira.Kim também se beneficiou com o enfraquecimento da cooperação sino-americana devido à competição estratégica. Autoridades chinesas frequentemente pediam, de forma branda, "moderação" por parte dos EUA, argumentavam que a Coreia do Norte tinha preocupações de segurança "legítimas" e culpavam Washington e Seul por realizarem exercícios militares conjuntos na região e inflamarem as tensões. Tudo isso soava como música para os ouvidos de Kim.
A MUDANÇA DE PALHA PARA PUTIN
Apesar de suas tentativas de bajular Pequim, Kim, assim como seu pai antes dele, há muito tempo se incomoda com a dependência excessiva de seu país em relação à China. A dinâmica se torna especialmente espinhosa porque Pequim prioriza a estabilidade na península e tem usado sua influência econômica para conter as provocações do regime. Em 2003, por exemplo, a China cortou o fornecimento de petróleo para a Coreia do Norte por três dias depois que Pyongyang testou um míssil nas águas entre a península coreana e o Japão.
Kim, no entanto, não hesitou em mostrar a Xi que não deve favores a ninguém. Em maio de 2017, por exemplo, ele provocou Xi ao realizar testes de mísseis balísticos perto da fronteira com a China, antes de Xi sediar o Fórum da Iniciativa Cinturão e Rota. Mesmo enquanto cortejava Pequim e oferecia seu apoio no início da pandemia, Kim buscava maneiras de preservar sua autonomia.
Quando a Rússia lançou sua guerra ilegal contra a Ucrânia em 2022, a sorte encontrou a preparação. As relações de Pyongyang com Moscou eram mornas desde o fim da Guerra Fria, mas ambos os lados viam benefícios em manter os laços: Putin queria ser um ator importante no Nordeste Asiático, e Kim sempre viu Putin como uma forma de equilibrar seus relacionamentos com a China, a Coreia do Sul e os Estados Unidos. O desespero da Rússia por apoio militar em sua guerra contra a Ucrânia criou um ambiente excepcionalmente favorável para que Kim pudesse afirmar sua utilidade.
Em setembro de 2022, sete meses após o início da guerra, Washington divulgou informações de inteligência desclassificadas alertando que a Rússia estava tentando comprar milhões de projéteis de artilharia e foguetes da Coreia do Norte, um indício de que Moscou estava tão pressionada pelas sanções internacionais que Putin teve que recorrer à Coreia do Norte em busca de ajuda. No verão e outono de 2023, segundo estimativas militares e de inteligência sul-coreanas, a Coreia do Norte já havia enviado mísseis balísticos de curto alcance, mísseis antitanque e mísseis antiaéreos portáteis para a Rússia, além de mais de um milhão de projéteis de artilharia norte-coreanos.
A Coreia do Norte agora fornece até 40% das munições do exército russo.
A princípio, Pyongyang negou envolvimento, possivelmente para aumentar sua influência sobre Moscou e preservar a máxima flexibilidade em seus próximos passos. Mas o apoio material da Coreia do Norte à Rússia logo se mostrou um desenvolvimento valioso demais para Kim, que buscava se posicionar como parte de um bloco maior de potências autoproclamadas antiocidentais e anti-imperialistas. Em setembro de 2023, Kim fez sua primeira viagem internacional desde o início da pandemia, visitando uma instalação de lançamento espacial no Extremo Oriente russo. Kim e Putin passaram pelo menos quatro horas juntos, segundo uma agência de notícias estatal russa. Putin ofereceu assistência tecnológica em satélites e discutiu possibilidades de cooperação militar, enquanto Kim apoiou a “operação especial” da Rússia na Ucrânia e a “luta contra o imperialismo”.
Em junho de 2024, Putin viajou a Pyongyang, onde os dois líderes elevaram sua relação a uma “parceria estratégica abrangente” e prometeram que, se qualquer um dos países entrasse em guerra após uma invasão, o outro forneceria assistência militar. Este acordo notável, que ecoava a linguagem de um pacto de 1961 entre a União Soviética e a Coreia do Norte, abriu as comportas do apoio norte-coreano a Putin. Até o final de 2024, Pyongyang havia enviado 11.000 soldados para a Rússia para lutar contra a Ucrânia e mais de 20.000 contêineres de munição, incluindo pelo menos seis milhões de projéteis de artilharia pesada e 100 mísseis balísticos, de acordo com o monitoramento dos Estados Unidos e seus aliados.
Enquanto isso, Putin, além de pagar à Coreia do Norte por armas e tropas, provavelmente também lhe fornecia petróleo, farinha de trigo, açúcar, peixe e soja, e a ajudava a acessar o sistema financeiro global e a pagar seus trabalhadores, em violação às sanções da ONU. Até o final de 2024, os dois países também trocaram delegações sobre inteligência artificial, operações cibernéticas, inteligência, ciência e tecnologia, esportes, agricultura e cultura.
Foi somente em abril de 2025 que Kim Jong-un reconheceu publicamente ter enviado tropas à Rússia para “aniquilar e eliminar os ocupantes neonazistas ucranianos”. A medida provavelmente foi motivada, em parte, pela incapacidade de Kim de esconder as estimadas 6.000 baixas norte-coreanas na guerra, mas também pelos sucessos russo-coreanos no campo de batalha, o que lhe proporcionou mais uma grande oportunidade de propaganda.
FAZER NOVOS AMIGOS, MANTER OS ANTIGOS
Para Kim Jong-un, que por muito tempo foi um líder menosprezado de um Estado pária, a aliança com Putin foi uma grande conquista. Sua capacidade de apresentar a Coreia do Norte como contribuinte para um projeto antiocidental também lhe conferiu o brilho da legitimidade ideológica entre seu povo e globalmente — seu país agora era abraçado por dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Isso trouxe benefícios tangíveis. Em 2022, por exemplo, a Rússia e a China bloquearam os esforços do Conselho de Segurança para fortalecer as sanções contra Pyongyang. Também se uniram em 2024 para sabotar o Painel de Especialistas da ONU, vetando uma resolução do Conselho de Segurança que estendia seu mandato.
Contudo, embora Putin e Xi tenham afirmado que sua amizade “não tem limites”, Pequim provavelmente se irritou com a nova aproximação da Coreia do Norte com a Rússia. Para não ficar atrás e para lembrar Pyongyang de seu centro de gravidade econômico, a China aumentou seu comércio com a Coreia do Norte em mais de 25% entre 2024 e 2025. Além disso, para afirmar a influência de Pequim sobre seus vizinhos, Xi convidou Kim para participar do desfile militar de 2025 e o destacou na programação. Esse gesto contribuiu significativamente para diminuir o status de pária de Kim: não houve menção à desnuclearização no resumo formal de Pequim sobre o encontro bilateral privado, ao contrário do que havia ocorrido em comunicados chineses anteriores, sugerindo que a China estava disposta a aceitar a Coreia do Norte como uma potência nuclear.
Enquanto isso, as forças armadas da Coreia do Norte obtiveram avanços rápidos graças ao uso de mísseis, artilharia e soldados russos. Em abril de 2025, o comandante das forças americanas na Coreia testemunhou que a expertise russa "permitirá avanços no programa de armas de destruição em massa [da Coreia do Norte] nos próximos três a cinco anos". Embora tenha havido problemas com os mísseis norte-coreanos inicialmente, o chefe da inteligência de defesa da Ucrânia afirmou, em agosto de 2025, que sua "precisão, infelizmente, aumentou após a modernização russa".
Relatórios destacando novas formas de cooperação continuam a surgir. A inteligência militar ucraniana avaliou que a Coreia do Norte agora fornece até 40% das munições do exército russo. Um grupo de pesquisa britânico descobriu que as forças russas estão usando munições de fragmentação norte-coreanas, até então desconhecidas, em seus drones de ataque. E, de acordo com autoridades de defesa ucranianas, as tropas norte-coreanas estão se tornando combatentes mais eficientes. O comandante de um batalhão de assalto ucraniano disse à Rádio Pública Nacional (NPR) no ano passado que os norte-coreanos estão aprendendo guerra eletrônica e “passaram de usar táticas da Segunda Guerra Mundial para se virar no campo de batalha com drones”.
Com suas forças armadas aprimoradas, sua economia em recuperação e seus diversos novos relacionamentos em níveis regionais e subnacionais, Pyongyang possui, portanto, mais flexibilidade estratégica e tática do que nunca. Kim, em outras palavras, representa uma ameaça sem precedentes para a região.
TESTANDO OS LIMITES
Permanece improvável que Kim busque uma invasão direta da Coreia do Sul, o que poderia provocar uma retaliação de Seul e Washington que levaria ao fim do regime. Kim é audacioso e oportunista, não suicida. Mas, dada sua nova posição e força, é mais provável que ele ameace e coaja seus vizinhos, o que criaria dilemas estratégicos para os Estados Unidos.
Por exemplo, Kim poderia realizar atividades cinéticas — secretas e abertas — com o objetivo de testar a aliança EUA-Coreia do Sul e avaliar como Pequim e Moscou reagiriam. A Coreia do Norte já realizou tais atividades contra Seul no passado, mas a combinação do apoio material e técnico de Moscou e a percepção de que o governo Trump tem um comprometimento menor com alianças provavelmente aumentou a confiança de Kim e sua disposição para correr riscos.
Considere o Mar Amarelo, por exemplo. Lar da Linha Limite Norte, a fronteira marítima de fato entre as Coreias do Norte e do Sul, o mar é rico em recursos pesqueiros e próximo a importantes portos sul-coreanos, além de grandes centros populacionais. Mas Pyongyang nunca reconheceu a LLN, e ela há muito tempo é fonte de ira norte-coreana e palco de inúmeras trocas de retaliações.
Kim agora parece determinado a pressionar ainda mais a legitimidade da LLN. Ele chamou-a de “linha fantasma” e, aparentemente inspirando-se nas atividades da “zona cinzenta” de Pequim no Mar da China Meridional, está testando a tolerância de Seul a incursões. Em setembro de 2025, por exemplo, um navio mercante norte-coreano cruzou a Linha Norte-Marítima (LNM), provocando transmissões de alerta e disparos de advertência da Coreia do Sul. Ao afirmar que Pyongyang retaliaria qualquer “invasão” através da fronteira marítima como uma “violação da soberania [do Norte] e como provocações armadas”, Kim sinalizou sua disposição de desafiar o status quo, mesmo correndo o risco de desencadear um conflito militar.
Uma série de ações e pronunciamentos oficiais da Coreia do Norte ressaltam o crescente apetite de Kim por riscos. Em novembro de 2022, por exemplo, a Coreia do Norte lançou cerca de duas dúzias de mísseis balísticos de suas costas leste e oeste, ostensivamente como resposta a exercícios militares de rotina entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Um dos mísseis caiu em águas territoriais sul-coreanas a menos de 65 quilômetros da cidade sul-coreana de Sokcho. Foi a primeira vez que um evento desse tipo ocorreu desde a Guerra da Coreia, na década de 1950.
No total, Kim lançou quase 70 mísseis somente em 2022, o maior número na história da Coreia do Norte. Em seguida, no final de 2023, Kim abandonou a política de reunificação pacífica de seu pai e avô e declarou a Coreia do Sul um "Estado hostil".
A Coreia do Norte também intensificou suas ameaças nucleares. Em julho de 2022, em um discurso contundente direcionado aos Estados Unidos e a Yoon Suk-yeol, então o novo presidente sul-coreano, Kim afirmou que o programa nuclear norte-coreano estava "pronto para mobilizar seu poder absoluto de forma diligente, precisa e rápida", segundo a mídia estatal oficial. Quando um porta-aviões americano de propulsão nuclear chegou à Coreia do Sul para exercícios marítimos trilaterais com o Japão em outubro de 2023, Pyongyang reagiu com veemência e ameaçou o uso preventivo de armas nucleares. Após apresentar seu novo destróier naval — seu maior navio de guerra — em abril de 2025, do qual Kim se gabou por poder operar mísseis com capacidade nuclear, a Coreia do Norte realizou uma simulação de contra-ataque nuclear contra forças americanas e sul-coreanas.
Durante anos, a superioridade militar da Coreia do Sul, reforçada pelo guarda-chuva nuclear americano e pelas forças armadas estacionadas no país, serviu como dissuasão contra a agressão norte-coreana. Mas, com as capacidades aprimoradas adquiridas de Moscou e os avanços em seu programa nuclear, os cálculos de Kim provavelmente mudaram. Como observou uma Avaliação Nacional de Inteligência dos EUA em janeiro de 2023, Kim “pode estar disposto a assumir maiores riscos militares convencionais, acreditando que as armas nucleares dissuadirão uma resposta inaceitavelmente forte dos EUA ou da Coreia do Sul”. A avaliação também sugeriu que o líder norte-coreano se sentiria mais ousado se tivesse certeza de que a China e a Rússia não se oporiam a ele.
A VOLTA DE KIM
Kim possui um novo arsenal de manobras diplomáticas para amenizar as consequências de suas ações militares destinadas a alterar o status quo. Considere um cenário em que a Coreia do Norte aja agressivamente no Mar Amarelo, talvez enviando um grande número de navios mercantes e navais além da Linha Naval de Fronteira (LNF) e hostilizando barcos de pesca sul-coreanos, enquanto declara novamente que Pyongyang não reconhece o armistício coreano nem a legitimidade da fronteira marítima.
Como no passado, os dois lados poderiam trocar tiros. Mas, diferentemente de quando tais confrontos ocorreram em 1973, 1999, 2002, 2009 e 2010, a Coreia do Norte possui hoje armas mais avançadas e diversificadas. Kim poderia ameaçar ou insinuar o uso de armas nucleares táticas no impasse, o que, por sua vez, complicaria a coordenação entre as forças armadas sul-coreanas e americanas. Ele poderia então direcionar a estratégia para o engajamento diplomático com Trump — não sobre a desnuclearização, mas sobre o status da Linha de Controle Nuclear (LCN) — e gerar dúvidas na Coreia do Sul sobre o compromisso dos EUA com a aliança, a dissuasão ampliada e o desarmamento da Coreia do Norte.
Pequim, por sua vez, normalmente se oporia a qualquer confronto militar desse tipo, mas provavelmente apoiaria um diálogo entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, especialmente se isso enfraquecesse a aliança de Washington com Seul. Kim poderia, assim, obter uma vitória significativa: avançar além da LCN, desviando a atenção de seu programa de armas nucleares.
Kim poderia facilmente atrair Xi e Putin para uma situação que eles não teriam escolhido.
Ele também poderia usar suas cartas diplomáticas de outras maneiras. Para demonstrar seu valor para Putin, por exemplo, Kim poderia iniciar conversas com a Coreia do Sul como forma de pressionar Seul a limitar o apoio de Seul à Ucrânia. Seul forneceu quase US$ 400 milhões em ajuda humanitária e para a reconstrução da Ucrânia em 2024 e prometeu mais de US$ 2 bilhões em empréstimos com juros baixos e expansão da cooperação econômica. Reduzir o apoio à Ucrânia provavelmente tensionaria as relações da Coreia do Sul com a Europa, mas se Kim fizesse gestos positivos a Seul, a administração presidencial progressista do país — tradicionalmente o partido que prefere uma abordagem mais conciliadora com Pyongyang — teria dificuldade em ignorá-los, especialmente porque as relações entre os dois governos da península estão congeladas desde 2019. O presidente Lee Jae-myung provavelmente acolheria bem a oportunidade de buscar a diplomacia intercoreana, incluindo a retomada dos reencontros familiares separados pela Guerra da Coreia. Kim sairia da negociação com mais combustível ou tecnologias militares mais sensíveis da Rússia, enquanto Putin garantiria um apoio menor à Ucrânia. Ambos se beneficiariam ao criar uma cisão entre a Coreia do Sul e a Europa.
Dado que os interesses da China e da Rússia não estão alinhados na península — Pequim busca estabilidade, enquanto Moscou busca distração —, existem inúmeros outros cenários nos quais Kim poderia usar Xi e Putin para criar atritos. De fato, é importante lembrar que, por trás da pompa, essa parceria tripartite é permeada por suspeitas. O New York Times, por exemplo, obteve um relatório da inteligência russa que classificava a China como "inimiga" e alertava para espionagem chinesa.
Enquanto isso, autoridades e especialistas chineses expressam preocupação, em conversas privadas com interlocutores americanos, sobre os tipos de tecnologia militar que a Rússia pode estar compartilhando com a Coreia do Norte e como isso poderia encorajar Kim a tomar medidas de escalada. Eles querem que os Estados Unidos saibam que a China não apoia o estreitamento dos laços entre a Rússia e a Coreia do Norte. Como Zhu Feng, reitor da Escola de Relações Internacionais da Universidade de Nanjing, declarou à Associated Press: "Embora a relação entre Rússia e Coreia do Norte tenha retornado a uma aliança militar, a China se recusa a voltar ao ano de 1950."
Kim poderia facilmente arrastar Xi e Putin para uma situação que eles não teriam escolhido e que não é do interesse nacional de nenhum dos dois. A China, por exemplo, ainda tem considerável influência econômica sobre a Coreia do Norte, mas Kim poderia explorar o desconforto de Pequim com a crescente influência da Rússia para obter mais concessões. E se Kim ficar impaciente com o nível de material militar e conhecimento técnico que está recebendo da Rússia — a Coreia do Norte vem invadindo os sistemas do Ministério das Relações Exteriores e de empresas de defesa da Rússia desde pelo menos 2022, o que sugere que Kim pode não estar satisfeito com os níveis atuais de apoio — ele poderia diminuir seu apoio à guerra na Ucrânia e minar o esforço de guerra de Putin.
FIM DO REINO ERMITÃO
A Coreia do Norte, para surpresa de todos, tem muitas cartas na manga. Kim provou ser um jogador regional habilidoso e, como seu pai e avô antes dele, aprimorou a arte de fazer malabarismos, bajular, ameaçar e frustrar seus vizinhos maiores. Como as condições internas e externas da Coreia do Norte mudaram drasticamente nos últimos cinco anos, suas ações agora têm o potencial de desafiar o status quo, semear confusão e minar os interesses dos EUA muito além da Península Coreana.
No passado, Washington ofereceu alívio de sanções, assistência econômica e ajuda humanitária para dialogar com Pyongyang e conter suas ações. Agora, se os Estados Unidos optarem por retomar o diálogo, precisarão estar preparados para oferecer muito mais do que isso. Kim possui novas redes, novas capacidades e uma aceitação tácita de que a Coreia do Norte permanecerá uma potência nuclear. Washington precisa levar em conta o novo cenário geoestratégico, pois, independentemente de como Kim escolha alcançar seus objetivos — por meios diplomáticos, militares ou uma combinação de ambos —, o que acontecer na Península Coreana não ficará restrito à Península Coreana.
Com seu regime no auge do poder interno, Kim também vislumbrou oportunidades no exterior. A competição estratégica entre os Estados Unidos e a China estava se intensificando, e Pyongyang certamente estava ciente da inquietação de Pequim enquanto o governo Biden trabalhava para fortalecer os laços com os aliados no Indo-Pacífico após assumir o poder no início de 2021. Embora não seja surpreendente que Pyongyang se aproximasse mais de Pequim do que de Washington, foi uma quebra notável de tradição quando Kim começou a expressar um apoio mais entusiasmado à China e a responder a medidas tomadas pelos Estados Unidos que pouco tinham a ver com a Coreia do Norte.
Já em março de 2021, por exemplo, em uma carta a Xi Jinping, Kim Jong-un expressou a necessidade compartilhada de "lidar com os desafios e manobras obstrutivas das forças hostis em todas as frentes", uma referência à política do novo governo Biden de intensificar a cooperação com aliados e parceiros para contrabalançar as ações coercitivas de Pequim na Ásia e em outras regiões. Em outubro de 2021, o regime norte-coreano criticou duramente os Estados Unidos por inflamar as tensões militares no Estreito de Taiwan, conduzindo as chamadas operações de liberdade de navegação e fornecendo armas a Taiwan. Pela primeira vez em décadas, Pyongyang emitia declarações apoiando as posições de Pequim sobre Taiwan. Em agosto de 2022, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte denunciou a visita a Taiwan da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, afirmando que Taiwan era "parte inseparável da China" e que os Estados Unidos eram a "causa principal da perturbação da paz e da segurança na região".
Pyongyang também condenou o advento do AUKUS, um acordo entre a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos, pelo qual os Estados Unidos fornecem submarinos nucleares à Austrália, como "um ato extremamente perigoso". Criticou ainda a cúpula trilateral de Washington em 2022 com o Japão e a Coreia do Sul, a primeira em cinco anos, como um "prelúdio perigoso para o estabelecimento de uma 'versão asiática da OTAN'". Sobre a própria OTAN, Pyongyang afirmou que o grupo era uma "aliança de confronto" com a intenção de construir "um cerco transpacífico para conter e isolar a China".
Essas foram todas maneiras retóricas, de baixo risco e baixo custo, pelas quais a Coreia do Norte poderia demonstrar seu apoio à China. Sendo um país pequeno e empobrecido, pouco tinha a oferecer ao seu gigante vizinho. Mas, dada a deterioração de suas relações com Washington e Seul, Kim precisava manter Xi ao seu lado. Como no passado, Kim provavelmente esperava que laços mais cordiais com o presidente chinês suavizassem a aplicação das sanções da ONU por Pequim e impedissem qualquer potencial coordenação entre Pequim e Washington sobre a desnuclearização da Coreia do Norte.
Pequim cumpriu sua promessa. Embora a China tivesse aderido às sanções da ONU, Pequim ofereceu a Pyongyang uma tábua de salvação em 2020 que, segundo a inteligência americana e relatórios da ONU, incluiu 32 casos de contrabando de combustível, 555 casos de navios transportando mercadorias proibidas pela ONU da Coreia do Norte para a China e 155 incidentes de barcaças de carvão com bandeira chinesa viajando para a Coreia do Norte e retornando à China com carga ilícita. Pequim, que há muito prioriza a estabilidade em sua fronteira, provavelmente estava preocupada com os efeitos da pandemia na situação interna de Pyongyang. Xi queria manter Kim sob sua mira.Kim também se beneficiou com o enfraquecimento da cooperação sino-americana devido à competição estratégica. Autoridades chinesas frequentemente pediam, de forma branda, "moderação" por parte dos EUA, argumentavam que a Coreia do Norte tinha preocupações de segurança "legítimas" e culpavam Washington e Seul por realizarem exercícios militares conjuntos na região e inflamarem as tensões. Tudo isso soava como música para os ouvidos de Kim.
A MUDANÇA DE PALHA PARA PUTIN
Apesar de suas tentativas de bajular Pequim, Kim, assim como seu pai antes dele, há muito tempo se incomoda com a dependência excessiva de seu país em relação à China. A dinâmica se torna especialmente espinhosa porque Pequim prioriza a estabilidade na península e tem usado sua influência econômica para conter as provocações do regime. Em 2003, por exemplo, a China cortou o fornecimento de petróleo para a Coreia do Norte por três dias depois que Pyongyang testou um míssil nas águas entre a península coreana e o Japão.
Kim, no entanto, não hesitou em mostrar a Xi que não deve favores a ninguém. Em maio de 2017, por exemplo, ele provocou Xi ao realizar testes de mísseis balísticos perto da fronteira com a China, antes de Xi sediar o Fórum da Iniciativa Cinturão e Rota. Mesmo enquanto cortejava Pequim e oferecia seu apoio no início da pandemia, Kim buscava maneiras de preservar sua autonomia.
Quando a Rússia lançou sua guerra ilegal contra a Ucrânia em 2022, a sorte encontrou a preparação. As relações de Pyongyang com Moscou eram mornas desde o fim da Guerra Fria, mas ambos os lados viam benefícios em manter os laços: Putin queria ser um ator importante no Nordeste Asiático, e Kim sempre viu Putin como uma forma de equilibrar seus relacionamentos com a China, a Coreia do Sul e os Estados Unidos. O desespero da Rússia por apoio militar em sua guerra contra a Ucrânia criou um ambiente excepcionalmente favorável para que Kim pudesse afirmar sua utilidade.
Em setembro de 2022, sete meses após o início da guerra, Washington divulgou informações de inteligência desclassificadas alertando que a Rússia estava tentando comprar milhões de projéteis de artilharia e foguetes da Coreia do Norte, um indício de que Moscou estava tão pressionada pelas sanções internacionais que Putin teve que recorrer à Coreia do Norte em busca de ajuda. No verão e outono de 2023, segundo estimativas militares e de inteligência sul-coreanas, a Coreia do Norte já havia enviado mísseis balísticos de curto alcance, mísseis antitanque e mísseis antiaéreos portáteis para a Rússia, além de mais de um milhão de projéteis de artilharia norte-coreanos.
A Coreia do Norte agora fornece até 40% das munições do exército russo.
A princípio, Pyongyang negou envolvimento, possivelmente para aumentar sua influência sobre Moscou e preservar a máxima flexibilidade em seus próximos passos. Mas o apoio material da Coreia do Norte à Rússia logo se mostrou um desenvolvimento valioso demais para Kim, que buscava se posicionar como parte de um bloco maior de potências autoproclamadas antiocidentais e anti-imperialistas. Em setembro de 2023, Kim fez sua primeira viagem internacional desde o início da pandemia, visitando uma instalação de lançamento espacial no Extremo Oriente russo. Kim e Putin passaram pelo menos quatro horas juntos, segundo uma agência de notícias estatal russa. Putin ofereceu assistência tecnológica em satélites e discutiu possibilidades de cooperação militar, enquanto Kim apoiou a “operação especial” da Rússia na Ucrânia e a “luta contra o imperialismo”.
Em junho de 2024, Putin viajou a Pyongyang, onde os dois líderes elevaram sua relação a uma “parceria estratégica abrangente” e prometeram que, se qualquer um dos países entrasse em guerra após uma invasão, o outro forneceria assistência militar. Este acordo notável, que ecoava a linguagem de um pacto de 1961 entre a União Soviética e a Coreia do Norte, abriu as comportas do apoio norte-coreano a Putin. Até o final de 2024, Pyongyang havia enviado 11.000 soldados para a Rússia para lutar contra a Ucrânia e mais de 20.000 contêineres de munição, incluindo pelo menos seis milhões de projéteis de artilharia pesada e 100 mísseis balísticos, de acordo com o monitoramento dos Estados Unidos e seus aliados.
Enquanto isso, Putin, além de pagar à Coreia do Norte por armas e tropas, provavelmente também lhe fornecia petróleo, farinha de trigo, açúcar, peixe e soja, e a ajudava a acessar o sistema financeiro global e a pagar seus trabalhadores, em violação às sanções da ONU. Até o final de 2024, os dois países também trocaram delegações sobre inteligência artificial, operações cibernéticas, inteligência, ciência e tecnologia, esportes, agricultura e cultura.
Foi somente em abril de 2025 que Kim Jong-un reconheceu publicamente ter enviado tropas à Rússia para “aniquilar e eliminar os ocupantes neonazistas ucranianos”. A medida provavelmente foi motivada, em parte, pela incapacidade de Kim de esconder as estimadas 6.000 baixas norte-coreanas na guerra, mas também pelos sucessos russo-coreanos no campo de batalha, o que lhe proporcionou mais uma grande oportunidade de propaganda.
FAZER NOVOS AMIGOS, MANTER OS ANTIGOS
Para Kim Jong-un, que por muito tempo foi um líder menosprezado de um Estado pária, a aliança com Putin foi uma grande conquista. Sua capacidade de apresentar a Coreia do Norte como contribuinte para um projeto antiocidental também lhe conferiu o brilho da legitimidade ideológica entre seu povo e globalmente — seu país agora era abraçado por dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Isso trouxe benefícios tangíveis. Em 2022, por exemplo, a Rússia e a China bloquearam os esforços do Conselho de Segurança para fortalecer as sanções contra Pyongyang. Também se uniram em 2024 para sabotar o Painel de Especialistas da ONU, vetando uma resolução do Conselho de Segurança que estendia seu mandato.
Contudo, embora Putin e Xi tenham afirmado que sua amizade “não tem limites”, Pequim provavelmente se irritou com a nova aproximação da Coreia do Norte com a Rússia. Para não ficar atrás e para lembrar Pyongyang de seu centro de gravidade econômico, a China aumentou seu comércio com a Coreia do Norte em mais de 25% entre 2024 e 2025. Além disso, para afirmar a influência de Pequim sobre seus vizinhos, Xi convidou Kim para participar do desfile militar de 2025 e o destacou na programação. Esse gesto contribuiu significativamente para diminuir o status de pária de Kim: não houve menção à desnuclearização no resumo formal de Pequim sobre o encontro bilateral privado, ao contrário do que havia ocorrido em comunicados chineses anteriores, sugerindo que a China estava disposta a aceitar a Coreia do Norte como uma potência nuclear.
Enquanto isso, as forças armadas da Coreia do Norte obtiveram avanços rápidos graças ao uso de mísseis, artilharia e soldados russos. Em abril de 2025, o comandante das forças americanas na Coreia testemunhou que a expertise russa "permitirá avanços no programa de armas de destruição em massa [da Coreia do Norte] nos próximos três a cinco anos". Embora tenha havido problemas com os mísseis norte-coreanos inicialmente, o chefe da inteligência de defesa da Ucrânia afirmou, em agosto de 2025, que sua "precisão, infelizmente, aumentou após a modernização russa".
Relatórios destacando novas formas de cooperação continuam a surgir. A inteligência militar ucraniana avaliou que a Coreia do Norte agora fornece até 40% das munições do exército russo. Um grupo de pesquisa britânico descobriu que as forças russas estão usando munições de fragmentação norte-coreanas, até então desconhecidas, em seus drones de ataque. E, de acordo com autoridades de defesa ucranianas, as tropas norte-coreanas estão se tornando combatentes mais eficientes. O comandante de um batalhão de assalto ucraniano disse à Rádio Pública Nacional (NPR) no ano passado que os norte-coreanos estão aprendendo guerra eletrônica e “passaram de usar táticas da Segunda Guerra Mundial para se virar no campo de batalha com drones”.
Com suas forças armadas aprimoradas, sua economia em recuperação e seus diversos novos relacionamentos em níveis regionais e subnacionais, Pyongyang possui, portanto, mais flexibilidade estratégica e tática do que nunca. Kim, em outras palavras, representa uma ameaça sem precedentes para a região.
TESTANDO OS LIMITES
Permanece improvável que Kim busque uma invasão direta da Coreia do Sul, o que poderia provocar uma retaliação de Seul e Washington que levaria ao fim do regime. Kim é audacioso e oportunista, não suicida. Mas, dada sua nova posição e força, é mais provável que ele ameace e coaja seus vizinhos, o que criaria dilemas estratégicos para os Estados Unidos.
Por exemplo, Kim poderia realizar atividades cinéticas — secretas e abertas — com o objetivo de testar a aliança EUA-Coreia do Sul e avaliar como Pequim e Moscou reagiriam. A Coreia do Norte já realizou tais atividades contra Seul no passado, mas a combinação do apoio material e técnico de Moscou e a percepção de que o governo Trump tem um comprometimento menor com alianças provavelmente aumentou a confiança de Kim e sua disposição para correr riscos.
Considere o Mar Amarelo, por exemplo. Lar da Linha Limite Norte, a fronteira marítima de fato entre as Coreias do Norte e do Sul, o mar é rico em recursos pesqueiros e próximo a importantes portos sul-coreanos, além de grandes centros populacionais. Mas Pyongyang nunca reconheceu a LLN, e ela há muito tempo é fonte de ira norte-coreana e palco de inúmeras trocas de retaliações.
Kim agora parece determinado a pressionar ainda mais a legitimidade da LLN. Ele chamou-a de “linha fantasma” e, aparentemente inspirando-se nas atividades da “zona cinzenta” de Pequim no Mar da China Meridional, está testando a tolerância de Seul a incursões. Em setembro de 2025, por exemplo, um navio mercante norte-coreano cruzou a Linha Norte-Marítima (LNM), provocando transmissões de alerta e disparos de advertência da Coreia do Sul. Ao afirmar que Pyongyang retaliaria qualquer “invasão” através da fronteira marítima como uma “violação da soberania [do Norte] e como provocações armadas”, Kim sinalizou sua disposição de desafiar o status quo, mesmo correndo o risco de desencadear um conflito militar.
Uma série de ações e pronunciamentos oficiais da Coreia do Norte ressaltam o crescente apetite de Kim por riscos. Em novembro de 2022, por exemplo, a Coreia do Norte lançou cerca de duas dúzias de mísseis balísticos de suas costas leste e oeste, ostensivamente como resposta a exercícios militares de rotina entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Um dos mísseis caiu em águas territoriais sul-coreanas a menos de 65 quilômetros da cidade sul-coreana de Sokcho. Foi a primeira vez que um evento desse tipo ocorreu desde a Guerra da Coreia, na década de 1950.
No total, Kim lançou quase 70 mísseis somente em 2022, o maior número na história da Coreia do Norte. Em seguida, no final de 2023, Kim abandonou a política de reunificação pacífica de seu pai e avô e declarou a Coreia do Sul um "Estado hostil".
A Coreia do Norte também intensificou suas ameaças nucleares. Em julho de 2022, em um discurso contundente direcionado aos Estados Unidos e a Yoon Suk-yeol, então o novo presidente sul-coreano, Kim afirmou que o programa nuclear norte-coreano estava "pronto para mobilizar seu poder absoluto de forma diligente, precisa e rápida", segundo a mídia estatal oficial. Quando um porta-aviões americano de propulsão nuclear chegou à Coreia do Sul para exercícios marítimos trilaterais com o Japão em outubro de 2023, Pyongyang reagiu com veemência e ameaçou o uso preventivo de armas nucleares. Após apresentar seu novo destróier naval — seu maior navio de guerra — em abril de 2025, do qual Kim se gabou por poder operar mísseis com capacidade nuclear, a Coreia do Norte realizou uma simulação de contra-ataque nuclear contra forças americanas e sul-coreanas.
Durante anos, a superioridade militar da Coreia do Sul, reforçada pelo guarda-chuva nuclear americano e pelas forças armadas estacionadas no país, serviu como dissuasão contra a agressão norte-coreana. Mas, com as capacidades aprimoradas adquiridas de Moscou e os avanços em seu programa nuclear, os cálculos de Kim provavelmente mudaram. Como observou uma Avaliação Nacional de Inteligência dos EUA em janeiro de 2023, Kim “pode estar disposto a assumir maiores riscos militares convencionais, acreditando que as armas nucleares dissuadirão uma resposta inaceitavelmente forte dos EUA ou da Coreia do Sul”. A avaliação também sugeriu que o líder norte-coreano se sentiria mais ousado se tivesse certeza de que a China e a Rússia não se oporiam a ele.
A VOLTA DE KIM
Kim possui um novo arsenal de manobras diplomáticas para amenizar as consequências de suas ações militares destinadas a alterar o status quo. Considere um cenário em que a Coreia do Norte aja agressivamente no Mar Amarelo, talvez enviando um grande número de navios mercantes e navais além da Linha Naval de Fronteira (LNF) e hostilizando barcos de pesca sul-coreanos, enquanto declara novamente que Pyongyang não reconhece o armistício coreano nem a legitimidade da fronteira marítima.
Como no passado, os dois lados poderiam trocar tiros. Mas, diferentemente de quando tais confrontos ocorreram em 1973, 1999, 2002, 2009 e 2010, a Coreia do Norte possui hoje armas mais avançadas e diversificadas. Kim poderia ameaçar ou insinuar o uso de armas nucleares táticas no impasse, o que, por sua vez, complicaria a coordenação entre as forças armadas sul-coreanas e americanas. Ele poderia então direcionar a estratégia para o engajamento diplomático com Trump — não sobre a desnuclearização, mas sobre o status da Linha de Controle Nuclear (LCN) — e gerar dúvidas na Coreia do Sul sobre o compromisso dos EUA com a aliança, a dissuasão ampliada e o desarmamento da Coreia do Norte.
Pequim, por sua vez, normalmente se oporia a qualquer confronto militar desse tipo, mas provavelmente apoiaria um diálogo entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, especialmente se isso enfraquecesse a aliança de Washington com Seul. Kim poderia, assim, obter uma vitória significativa: avançar além da LCN, desviando a atenção de seu programa de armas nucleares.
Kim poderia facilmente atrair Xi e Putin para uma situação que eles não teriam escolhido.
Ele também poderia usar suas cartas diplomáticas de outras maneiras. Para demonstrar seu valor para Putin, por exemplo, Kim poderia iniciar conversas com a Coreia do Sul como forma de pressionar Seul a limitar o apoio de Seul à Ucrânia. Seul forneceu quase US$ 400 milhões em ajuda humanitária e para a reconstrução da Ucrânia em 2024 e prometeu mais de US$ 2 bilhões em empréstimos com juros baixos e expansão da cooperação econômica. Reduzir o apoio à Ucrânia provavelmente tensionaria as relações da Coreia do Sul com a Europa, mas se Kim fizesse gestos positivos a Seul, a administração presidencial progressista do país — tradicionalmente o partido que prefere uma abordagem mais conciliadora com Pyongyang — teria dificuldade em ignorá-los, especialmente porque as relações entre os dois governos da península estão congeladas desde 2019. O presidente Lee Jae-myung provavelmente acolheria bem a oportunidade de buscar a diplomacia intercoreana, incluindo a retomada dos reencontros familiares separados pela Guerra da Coreia. Kim sairia da negociação com mais combustível ou tecnologias militares mais sensíveis da Rússia, enquanto Putin garantiria um apoio menor à Ucrânia. Ambos se beneficiariam ao criar uma cisão entre a Coreia do Sul e a Europa.
Dado que os interesses da China e da Rússia não estão alinhados na península — Pequim busca estabilidade, enquanto Moscou busca distração —, existem inúmeros outros cenários nos quais Kim poderia usar Xi e Putin para criar atritos. De fato, é importante lembrar que, por trás da pompa, essa parceria tripartite é permeada por suspeitas. O New York Times, por exemplo, obteve um relatório da inteligência russa que classificava a China como "inimiga" e alertava para espionagem chinesa.
Enquanto isso, autoridades e especialistas chineses expressam preocupação, em conversas privadas com interlocutores americanos, sobre os tipos de tecnologia militar que a Rússia pode estar compartilhando com a Coreia do Norte e como isso poderia encorajar Kim a tomar medidas de escalada. Eles querem que os Estados Unidos saibam que a China não apoia o estreitamento dos laços entre a Rússia e a Coreia do Norte. Como Zhu Feng, reitor da Escola de Relações Internacionais da Universidade de Nanjing, declarou à Associated Press: "Embora a relação entre Rússia e Coreia do Norte tenha retornado a uma aliança militar, a China se recusa a voltar ao ano de 1950."
Kim poderia facilmente arrastar Xi e Putin para uma situação que eles não teriam escolhido e que não é do interesse nacional de nenhum dos dois. A China, por exemplo, ainda tem considerável influência econômica sobre a Coreia do Norte, mas Kim poderia explorar o desconforto de Pequim com a crescente influência da Rússia para obter mais concessões. E se Kim ficar impaciente com o nível de material militar e conhecimento técnico que está recebendo da Rússia — a Coreia do Norte vem invadindo os sistemas do Ministério das Relações Exteriores e de empresas de defesa da Rússia desde pelo menos 2022, o que sugere que Kim pode não estar satisfeito com os níveis atuais de apoio — ele poderia diminuir seu apoio à guerra na Ucrânia e minar o esforço de guerra de Putin.
FIM DO REINO ERMITÃO
A Coreia do Norte, para surpresa de todos, tem muitas cartas na manga. Kim provou ser um jogador regional habilidoso e, como seu pai e avô antes dele, aprimorou a arte de fazer malabarismos, bajular, ameaçar e frustrar seus vizinhos maiores. Como as condições internas e externas da Coreia do Norte mudaram drasticamente nos últimos cinco anos, suas ações agora têm o potencial de desafiar o status quo, semear confusão e minar os interesses dos EUA muito além da Península Coreana.
No passado, Washington ofereceu alívio de sanções, assistência econômica e ajuda humanitária para dialogar com Pyongyang e conter suas ações. Agora, se os Estados Unidos optarem por retomar o diálogo, precisarão estar preparados para oferecer muito mais do que isso. Kim possui novas redes, novas capacidades e uma aceitação tácita de que a Coreia do Norte permanecerá uma potência nuclear. Washington precisa levar em conta o novo cenário geoestratégico, pois, independentemente de como Kim escolha alcançar seus objetivos — por meios diplomáticos, militares ou uma combinação de ambos —, o que acontecer na Península Coreana não ficará restrito à Península Coreana.
JUNG H. PAK é Pesquisadora Associada Distinta no Centro de Segurança, Diplomacia e Estratégia da Vrije Universiteit Brussel. Ela atuou como Subsecretária Adjunta de Estado dos EUA para o Leste Asiático e o Pacífico de 2021 a 2024 e é autora de "Tornando-se Kim Jong Un: As Perspectivas de uma Ex-Oficial da CIA sobre o Enigmático Jovem Ditador da Coreia do Norte".




