19 de agosto de 2026

No Peru, Keiko Fujimori promete ordem, não reconciliação

Keiko Fujimori tornou-se presidente do Peru após mais um segundo turno eleitoral acirrado. Enquanto em disputas anteriores ela evitava abordar diretamente o histórico autoritário de seu pai, desta vez ela capitalizou a imagem dele de líder de mão forte.

Rebecca Jarman

A nova presidente do Peru, Keiko Fujimori, tem sido frequentemente chamada, de forma eufemística, de populista. Na prática, isso significa combinar reformas de livre mercado com a ampliação dos poderes dos militares e ataques a proteções legais. (Connie France / AFP via Getty Images)

As seções eleitorais haviam aberto há pouco tempo quando Keiko Fujimori chegou ao cemitério acompanhada de sua irmã mais nova e de suas filhas adolescentes. Vestidas de forma coordenada — com blusas brancas impecáveis ​​e calças jeans —, elas atravessaram o gramado, cada uma carregando um maço de rosas e cravos. As mulheres mais velhas ajoelharam-se diante do túmulo da mãe e colocaram as flores, de um tom rosa-suave, em um vaso. Com as cabeças baixas, permaneceram ali por alguns instantes. Depois, de mãos dadas, caminharam mais vinte passos por entre as lápides. Para seu pai, Alberto — presidente do Peru entre 1990 e 2000 —, Keiko levara um arranjo nas cores nacionais: vermelho e branco. Ela conduziu a família em oração antes de se voltar para os repórteres e sorrir. Mais tarde naquele dia, ela votou na eleição presidencial em que, na quarta tentativa, conquistou o cargo mais alto do país.

A visita de Keiko aos túmulos de seus pais foi uma espécie de resposta tardia aos críticos de Alberto Fujimori, que zombavam de um presidente sem antepassados ​​enterrados em solo peruano. Fujimori era apenas filho de imigrantes japoneses quando surgiu no cenário político, sendo eleito pela primeira vez em 1990. Seu sobrenome não tinha precedentes nem significado anterior. Pouco depois de chegar ao Peru, na década de 1930, o pai de Alberto adotara um novo nome. Fujimori pode ser traduzido livremente como "bosque de glicínias". Foi uma escolha apropriada. Ele abriria uma floricultura no país que o acolheu — negócio onde Alberto trabalhou na adolescência, entregando esculturas florais espetaculares de bicicleta nas mansões modernistas de Lima. De origens humildes, Fujimori ascendeu longe e rápido. E caiu ainda mais fundo, sendo condenado em 2009 a vinte e cinco anos de prisão por violações dos direitos humanos e corrupção.

Agora, os restos mortais de Fujimori repousam nas profundezas da terra andina. Ainda assim, a linhagem de Keiko certamente permanece controversa. Por duas gerações, os peruanos acompanharam os enredos complexos de dramáticas disputas familiares, começando pelo conflito entre seu pai, Alberto, e sua mãe, Susana Higuchi — que também pertencia à comunidade japonesa. O conflito, amplamente divulgado, surgiu em 1992, quando Higuchi acusou a família do marido de desviar doações de caridade enviadas do Japão. Keiko surgiu na vida pública durante o divórcio conturbado de seus pais: quando ela tinha apenas dezenove anos, seu pai, então presidente, convidou-a para substituir a mãe no papel de primeira-dama. Empresária bem-sucedida e duas vezes deputada, Higuchi chegou a aspirar à presidência, mas suas ambições foram frustradas por uma campanha de vingança orquestrada pelo ex-marido para impedir sua candidatura. Ela reagiu alegando ter sido torturada por ordem de Fujimori. A relação tumultuada entre Susana e Keiko sempre foi alvo de especulações. Essas desavenças não jogaram a seu favor; o Peru é uma nação conservadora que valoriza a integridade e a discrição, especialmente entre a elite e as pessoas influentes.

Alberto Fujimori faleceu em 2024, aos 86 anos, pouco depois de ser libertado da prisão por razões humanitárias. Sua morte proporcionou a Keiko novas possibilidades em sua mais recente campanha presidencial, incluindo a chance de reescrever a história da família destacando uma reconciliação entre seus pais no leito de morte de Higuchi. Gestos de conciliação semelhantes foram, segundo a narrativa construída por Keiko, estendidos a outros membros da família. No funeral de Fujimori, Keiko abraçou seu irmão Kenji, visivelmente abalado, a quem ela havia expulsado de seu partido, o Fuerza Popular, em 2018, após ele se recusar a apoiar a tentativa dela de promover o impeachment do então presidente Pedro Pablo Kuczynski. Em contrapartida, Kenji havia conseguido o perdão presidencial de Kuczynski para o pai (embora a medida tenha sido prontamente anulada pela Suprema Corte, adiando a libertação em mais seis anos). Keiko justificou sua oposição a Kenji afirmando que Fujimori deveria ser plenamente absolvido pelo Judiciário, e não simplesmente anistiado pelo Executivo. Críticos apontaram que ela priorizava interesses políticos em vez de realmente tentar libertar o pai, que estava com a saúde debilitada. Em 2022, Keiko anunciou o fim de seu casamento de dezoito anos, ressaltando, porém, que a separação foi amigável. Em fevereiro deste ano, a própria filha de Keiko criticou suas posições contrárias ao aborto para mais de quatrocentos mil seguidores no Instagram. Keiko atribuiu a publicação a um debate político saudável, e não a tensões familiares.

A mensagem de unidade de Keiko não é apenas uma questão de âmbito privado. A primeira mulher eleita presidente do Peru também prometeu unir uma nação polarizada. As quatro eleições anteriores dividiram os votos quase exatamente ao meio: em todas as vezes que Keiko perdeu, foi por uma margem mínima. Por fim, ela também venceu a disputa por pouco, depois que os votos de emigrantes peruanos penderam a balança a seu favor. Internamente, sua base concentra-se ao longo da costa urbana do Pacífico, vinda de cidades industriais como Chimbote, Chiclayo e Trujillo. No segundo turno, ela conquistou votos conservadores na região metropolitana de Lima que haviam ido para o extravagante ex-prefeito Rafael López Aliaga, um magnata dos negócios e membro do Opus Dei. Já os distritos rurais dos Andes e da Amazônia apoiaram o esquerdista Roberto Sánchez. Candidatando-se pelo partido Juntos por el Perú, Sánchez fez campanha pela reformulação da Constituição, promoveu o desenvolvimento liderado pelo Estado e a reforma policial, além de prometer justiça para as vítimas da repressão estatal durante a luta armada das décadas de 1980 e 1990. Em um nível mais simbólico, a candidatura de Sánchez representou uma reivindicação em favor de seu aliado, Pedro Castillo — presidente por dezesseis meses antes de seu impeachment em 2022 e que atualmente cumpre pena de onze anos de prisão por tentar fechar o Congresso. No final, o programa de esquerda de Sánchez foi superado pela agenda de Keiko — favorável ao mercado e a um Estado forte —, que defendia uma linha dura na segurança pública e a expansão do Exército, ao mesmo tempo em que minimizava os legados sociais do conflito civil.

Peru com ordem?

A unidade, nesse sentido, não significa uma verdadeira reconciliação nacional, mas sim a consolidação de uma coalizão populista de direita em torno do sobrenome Fujimori. De fato, é a postura firme de Keiko em relação ao crime que mobiliza seus apoiadores; alguns deles aplaudem a cruzada violenta de seu pai contra o grupo armado maoista Sendero Luminoso, que resultou na quase total aniquilação do grupo e pôs fim ao conflito interno. Enquanto em suas campanhas presidenciais anteriores Keiko havia evitado associar-se ao legado do pai, nesta tentativa ela capitalizou a reputação dele como um líder de mão forte. Essa estratégia ressoou especialmente entre os moradores de comunidades urbanas informais. As taxas de criminalidade no Peru dispararam nos últimos meses, tornando-se uma grande fonte de medo. A violência de gangues atingiu níveis sem precedentes em todo o país. Bairros de baixa renda são assolados por roubos de rua e extorsões. Desde 2019, a taxa de homicídios subiu de 7,4 para 10,7 por 100 mil habitantes. Concorrendo sob o slogan "Perú con orden" (Peru com Ordem), Keiko priorizou a segurança pública e comprometeu-se a desmantelar as redes criminosas transnacionais que operam em território peruano. Suas políticas de segurança preveem o envio de militares para áreas com altos índices de criminalidade, a ampliação da capacidade prisional, a reforma do sistema penitenciário e o reforço do policiamento nas fronteiras internacionais. Defensora das forças de defesa nacional, ela também busca fortalecer as agências de inteligência do país, aumentar a autonomia dos militares em relação ao Judiciário e retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Tais tendências autoritárias sugerem que, ao menos no que diz respeito ao combate ao crime, um eventual governo de Keiko daria continuidade à política interna de Fujimori.

Ainda assim, Keiko assume um governo de natureza muito diferente. Em 1990, seu pai obteve uma vitória esmagadora. Dois anos depois, ele fechou o Congresso e suspendeu a Constituição antes de instituir uma assembleia constituinte unicameral, projetada para concentrar poder no Executivo. Keiko não conta com tal mandato. Este ano marca o retorno de um Legislativo bicameral, após sua dissolução pelo pai dela. O Fuerza Popular não detém maioria absoluta nem na Câmara dos Deputados nem no recém-criado Senado. Para governar de forma eficaz, Keiko será obrigada a formar coalizões multipartidárias. Suas propostas legislativas passarão por um escrutínio redobrado. Ela será pressionada a dialogar por um eleitorado exausto e desesperado para superar uma década de governos paralisados. O Peru teve dez presidentes em igual número de anos. A maioria deles renunciou, foi destituída ou acabou presa. Alguns, como Pedro Pablo Kuczynski (presidente no final da década de 2010) e, posteriormente, Castillo, caíram em decorrência de manobras de Keiko para utilizar os poderes do Congresso em prol de sua própria agenda. Esse uso do Congresso como arma é um reflexo de um sistema político que permite que as ambições de líderes individualistas se consolidem em organizações partidárias. Contudo, Keiko também não está imune a essas maquinações. Ela já foi vítima do sistema anteriormente, tendo passado dezesseis meses na prisão durante uma investigação por corrupção que acabou arquivada, mas que ainda pode ser retomada. Assim, ela terá incentivos para negociar.

Resta saber qual será a interpretação de Keiko sobre a liberdade democrática em um sentido mais amplo. Em 28 de julho, centenas de homens e mulheres viajaram de todo o país até o centro de Lima para protestar contra a sua posse. Entre eles estavam familiares de pessoas mortas durante as amplas manifestações contra Dina Boluarte — vice-presidente de Castillo, que assumiu o poder com o apoio do Fuerza Popular após a destituição dele. Nos meses turbulentos que se seguiram à sua ascensão, Boluarte mobilizou as forças armadas para dispersar protestos em cidades do sul, resultando na morte de pelo menos quarenta e nove civis. Os manifestantes acusam Keiko de ser conivente com a violência estatal ao proteger os responsáveis ​​pelas mortes, encarando sua eleição como um sinal de que o Peru endossa uma cultura de impunidade. Este grupo pró-Castillo une forças com as famílias de pessoas assassinadas ou desaparecidas pelos esquadrões da morte militares supervisionados por Alberto Fujimori na década de 1990. Marchando ao lado de estudantes, socialistas e sindicatos, eles resgataram um ritual icônico de lavagem de bandeiras, utilizado para denunciar a corrupção durante o último ano de mandato do presidente. No passado, Keiko ignorou em grande parte essa articulação popular do movimento antifujimorista. Isso pode mudar, à medida que ela também se propõe a "limpar" o Peru.

Colaborador

Rebecca Jarman é professora de humanidades na Universidade de Leeds e autora de Representing the Barrios: Culture, Politics, and Urban Poverty in Twentieth-Century Caracas.

O movimento pela independência de Porto Rico ganha força

Desde o século XIX, a escolha entre a independência e a incorporação aos EUA tem sido uma questão central na política porto-riquenha. O apoio ao Partido Independentista de Porto Rico, de orientação esquerdista, vem crescendo rapidamente entre a juventude do país.

Cruz Bonlarron Martínez


Obstinate Star, a obra de Rafael Bernabe sobre o movimento de independência de Porto Rico, pode servir como uma ferramenta fundamental para os setores da esquerda dos EUA que desejam compreender a política porto-riquenha para além da instrumentalização simbólica e ocasional da ilha pelas elites do Partido Democrata. (Alejandro Granadillo / Anadolu via Getty Images)

Resenha de Obstinate Star: A History of the Puerto Rico Independence Movement, de Rafael Bernabe (Haymarket Books, 2025)

Em um discurso recente na cidade de Nashville, a ex-candidata democrata à presidência Kamala Harris falou sobre a necessidade de "revisitar" várias questões relacionadas ao sistema político dos EUA: o Colégio Eleitoral, a Suprema Corte e a concessão de status de estado a Porto Rico e Washington, D.C. Embora a mídia americana tenha se apressado em destacar seus comentários sobre o Colégio Eleitoral e a Corte, a menção a Porto Rico foi tratada como algo secundário.

A defesa da transformação de Porto Rico em estado da União tornou-se um tema recorrente no discurso democrata convencional. No entanto, essa pauta deve-se mais a fantasias liberais brancas de um imperialismo multicultural do que aos desejos reais do povo porto-riquenho por uma mudança de status político. De fato, o movimento pela estadualidade de Porto Rico está muito mais alinhado ao Partido Republicano do que aos seus rivais democratas. A atual governadora da ilha, Jenniffer González — defensora da estadualidade —, é uma republicana fervorosa e apoiadora de Trump.

Se os consultores democratas que assessoram Harris tivessem dedicado algum tempo para pesquisar a política porto-riquenha contemporânea, teriam percebido que o movimento pela independência está ganhando força entre a juventude do país. O candidato independentista Juan Dalmau fez história ao conquistar quase 31% dos votos na eleição para governador de 2024.

A escolha entre independência ou incorporação à metrópole colonial tem sido a característica definidora da política porto-riquenha desde o século XIX. Esse é o debate que o sociólogo Rafael Bernabe — ex-senador porto-riquenho pelo Movimento Vitória Cidadã (Movimiento Victoria Ciudadana) — examina em Obstinate Star: A History of the Puerto Rico Independence Movement. Bernabe narra a trajetória dos homens e mulheres que mantiveram vivo o sonho da independência de Porto Rico ao longo dos últimos duzentos anos, concentrando-se no papel desempenhado pela classe trabalhadora do país dentro do movimento.

Uma nação americana

Embora frequentemente excluídas das discussões sobre as campanhas de independência latino-americanas lideradas por Simón Bolívar e José de San Martín, as colônias espanholas no Caribe insular — Cuba e Porto Rico — forneceram soldados para ambos os lados do conflito. Um desses soldados, cuja vida é abordada por Bernabe, é Antonio Valero, um oficial porto-riquenho do exército espanhol que participou das negociações de independência do México e decidiu integrar as forças armadas da nação recém-independente.

A escolha entre a independência e a incorporação à metrópole colonial tem sido a característica definidora da política porto-riquenha desde o século XIX.

No entanto, pouco depois da independência, os ideais republicanos de Valero o colocaram em conflito com Agustín de Iturbide, que havia se coroado Imperador do México, levando-o a fugir para a Grã-Colômbia, onde se alistou no exército e lutou pela independência do Peru. Valero nunca deixou de sonhar em libertar sua terra natal e tentou convencer Bolívar a libertar as colônias espanholas restantes no Caribe. Esse plano quase se concretizou em 1827, mas foi abandonado devido às possíveis ameaças que a continuidade da guerra poderia representar para a independência recém-conquistada da Grã-Colômbia.

Em Obstinate Star, Bernabe demonstra que o sonho da independência de Porto Rico não morreu com a invasão de Cuba e Porto Rico abandonada por Bolívar; em vez disso, reconfigurou-se como parte de uma identidade antilhana cosmopolita, promovida por uma nova geração de intelectuais patriotas cubanos e porto-riquenhos.

As duas principais figuras porto-riquenhas dessa nova geração foram Ramón Emeterio Betances e Eugenio María de Hostos; ambos se tornariam defensores fundamentais da independência de Porto Rico no final do século XIX e os arquitetos intelectuais da nação porto-riquenha. Ambos aparecem com destaque na obra de Bernabe: como apoiadores-chave da Revolta de Lares contra o domínio colonial espanhol em 1868, eles vincularam a luta pela independência de Porto Rico ao movimento revolucionário cubano e a outras lutas de libertação na América Latina e na Europa.

O livro também destaca como o movimento de independência se adaptou às mudanças de cenário após a Guerra Hispano-Americana, quando a ilha se tornou uma colônia dos EUA em 1898, enfatizando as conexões e os confrontos entre setores do movimento e o crescente movimento trabalhista na ilha. Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, essas conexões e divergências manifestaram-se de forma mais acentuada na política eclética de Pedro Albizu Campos e do Partido Nacionalista de Porto Rico.

Albizu Campos defendia um nacionalismo populista militante que buscava conectar Porto Rico aos movimentos sociais contemporâneos da América Latina, reunindo defensores da independência de todas as ideologias, desde nacionalistas conservadores até comunistas. Bernabe faz questão de ressaltar as contradições ideológicas dentro do Partido Nacionalista e os esforços do grupo para conquistar a classe trabalhadora, então ligada ao Partido Socialista, que apoiava a integração plena aos EUA (statehood). 

Porto Rico e a esquerda dos EUA

Obstinate Star também destaca a forte relação entre o Partido Nacionalista e a esquerda dos EUA nesse período. O autor concentra-se, em particular, nos vínculos que ligavam Albizu Campos ao Partido Comunista dos EUA e ao deputado de esquerda por Nova York, Vito Marcantonio. Ele prossegue analisando os anos que se seguiram à fundação do Estado Livre Associado em 1952 e mostra como a experiência da Revolução Cubana de 1959 revitalizou o movimento de independência.

Obstinate Star também enfatiza a forte relação entre o Partido Nacionalista e a esquerda dos EUA nesse período.

O Movimento Pró-Independência (MPI), assim como o Movimento 26 de Julho em Cuba, caminhou para a adoção aberta do marxismo-leninismo e acabou se transformando no novo Partido Socialista Porto-Riquenho. O movimento de independência de Porto Rico seguiu um caminho semelhante ao de muitas forças de esquerda ao redor do mundo entre as décadas de 1960 e 1980, tornando-se cada vez mais radicalizado.

Durante esses anos, surgiram muitas pequenas organizações armadas que realizaram ações contra o colonialismo dos EUA, como o atentado a bomba à Base Aérea Muñiz, em 1981, e o assalto à Wells Fargo, em 1983 — na época, o maior roubo a banco da história dos EUA. O relato de Bernabe evita romantizar esses eventos, situando-os no contexto das condições históricas e políticas mais amplas em que ocorreram e detalhando minuciosamente muitos dos debates complexos que se desenrolaram na esquerda daquela época.

No mesmo período, a diáspora porto-riquenha nos Estados Unidos buscou identificar-se com o movimento de independência da ilha. Para alguns, isso significava integrar a seção da diáspora do Partido Socialista Porto-Riquenho e ver-se como parte de uma nação dividida. Bernabe argumenta que essa abordagem frequentemente levava a priorizar a luta pela independência em detrimento do apoio a outros movimentos nos EUA. Uma perspectiva diferente surgiu com a organização El Comité, que nasceu de lutas contra a gentrificação e defendia que os porto-riquenhos nos EUA se organizassem como uma nacionalidade oprimida dentro da classe trabalhadora multinacional norte-americana, em vez de como parte de uma nação dividida.

O debate entre essas duas posições gerou uma polarização que persiste até hoje entre setores da esquerda porto-riquenha. De um lado, estão aqueles que enfatizam a necessidade de focar principalmente na independência; de outro, aqueles que buscam se organizar dentro da esquerda dos EUA, deixando a questão da independência para os porto-riquenhos que ainda vivem na ilha. Esse é um debate que a esquerda contemporânea dos EUA deveria estudar ao tentar dialogar com a diáspora porto-riquenha.

Além da tokenização

Embora Porto Rico continue sendo uma das colônias mais antigas do mundo, seu movimento de independência possui uma história rica que perdura até hoje, refletida no sucesso eleitoral do Partido Independentista Porto-Riquenho e na crescente popularidade do astro pop independentista Bad Bunny. Bernabe demonstra que o movimento independentista não é um bloco monolítico, mas sim uma força heterogênea composta por ativistas de diversas ideologias e origens.

Obstinate Star pode servir como uma ferramenta fundamental para integrantes da esquerda norte-americana que desejam compreender melhor a política porto-riquenha contemporânea, indo além do sucesso de Bad Bunny e da instrumentalização ocasional da ilha por elites do Partido Democrata. A obra também oferece um recurso valioso para pessoas na ilha e em outros países da América Latina que buscam entender como — apesar da situação colonial do país — o movimento independentista porto-riquenho tem refletido tendências políticas mais amplas em toda a região, tudo isso sob a perspectiva de um historiador com experiência direta no movimento.

Colaboradores

Cruz Bonlarron Martínez é escritor independente e foi bolsista do programa Fulbright na Colômbia entre 2021 e 2022. Seus textos sobre política, direitos humanos e cultura na América Latina e na diáspora latino-americana foram publicados em diversos veículos dos EUA e do exterior.

Como é o multilateralismo após o declínio dos EUA

A atual crise na ordem mundial não se resume ao fato de Donald Trump ignorar as instituições multilaterais. Os EUA há muito descumprem as regras; a verdadeira mudança é que Washington está perdendo a capacidade de ditar as normas aos outros Estados.

Juliano Fiori

As pesadas tarifas dos EUA sobre as exportações brasileiras são mais um sinal da disposição de Washington de punir seus adversários políticos. No entanto, resistir a tais medidas exigirá mais do que apelos ao espírito do multilateralismo. (Ricardo Stuckert / Handout / Anadolu via Getty Images)

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, reagiu com uma postura de desafio justificado à recente confirmação de que o governo dos Estados Unidos imporia uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. Entre os "atos, políticas e práticas" que o Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos considerou "irrazoáveis ​​ou discriminatórios" e passíveis de investigação formal, foram citados os serviços brasileiros de pagamento eletrônico. O governo Trump tem criticado frequentemente o Pix, um mecanismo de pagamento instantâneo mantido por bancos brasileiros sem a intermediação de empresas norte-americanas como Visa e Mastercard. No entanto, a imposição dessas tarifas também faz parte de um número crescente de medidas destinadas a minar o governo Lula antes das eleições de outubro, num momento em que os Estados Unidos buscam acesso privilegiado às abundantes reservas brasileiras de elementos de terras raras. Um porta-voz do presidente brasileiro questionou a legitimidade da investigação, afirmando que ela "não se baseava em regras de comércio multilateral".

No entanto, há um problema maior. Embora os governos nacionais ainda invoquem tais regras em defesa de sua soberania, as condições que permitiram a expansão do multilateralismo no século XX já não existem. Embora o desrespeito flagrante da administração Trump às normas e instituições internacionais possa ser intuitivamente visto como prova disso, esse não é o indicador mais importante: afinal, é prerrogativa de uma potência hegemônica contornar regras universais enquanto fiscaliza a adesão de outros a elas. Mais relevante é a aparente incapacidade dos Estados Unidos de reformular essas regras em consonância com sua própria geoestratégia em evolução. E, à medida que Washington se afastou do multilateralismo, sua preeminência global no exercício da coerção também diminuiu. Dada a ausência efetiva dos Estados Unidos nas instituições multilaterais existentes, as tentativas de conferir-lhes novos significados — sobretudo por parte de Estados revisionistas como a China e a Rússia — têm sido utilizadas para minar a própria hegemonia americana. Contudo, à medida que Donald Trump aponta novos alvos ao redor do mundo, tanto adversários de ocasião quanto rivais sistêmicos também reagem na mesma moeda.

Guerra econômica

Particularmente reveladoras, nesse sentido, são as mudanças na condução da guerra econômica. O dólar americano tem sido a moeda de referência global desde o Acordo de Bretton Woods, de 1944, conferindo a Washington um controle singular sobre os fluxos internacionais de capital e de mercadorias. Por meio da imposição de diversas formas de "bloqueio" — desde sanções e tarifas até cercos marítimos —, os Estados Unidos condicionaram as relações econômicas de uma maneira que, por algum tempo, serviu para gerar um sistema de consentimento ao seu poder imperial. No entanto, tais medidas forçaram reações que, em última análise, contribuíram para a erosão de sua hegemonia global. Sob a pressão das sanções americanas, por exemplo, a Rússia, o Irã e a Venezuela adotaram estratégias de desdolarização, liquidando transações comerciais em outras moedas, especialmente o yuan. Contudo, como observou recentemente o historiador Nicholas Mulder, muitos Estados reagiram à crescente coerção de Washington desenvolvendo "não apenas rotas de evasão, mas também suas próprias contra-armas econômicas".

A ameaça de tarifas recíprocas tem sido o recurso mais comum entre os Estados alvo da coerção econômica da segunda administração Trump. A consequência mais drástica dessa abordagem foi o embargo comercial mútuo, de ​​facto, mantido entre os Estados Unidos e a China durante um mês em meados de 2025, depois que o presidente chinês, Xi Jinping, respondeu repetidamente à escalada tarifária de Trump. Em resposta ao recente anúncio de tarifas sobre as exportações brasileiras, o porta-voz de Lula invocou a Lei de Reciprocidade Econômica do Brasil, que permite ao governo responder de forma proporcional a medidas de outros Estados que prejudiquem sua competitividade. Ainda assim, ele reafirmou o compromisso do governo com o multilateralismo, prometendo buscar reparação por meio do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

No entanto, se as medidas de proteção comercial recuperaram a legitimidade internacional como meio de defesa da soberania nacional, o uso de barreiras físicas ao comércio como "contra-arma" econômica trouxe consigo a ameaça de consequências mais imediatas e generalizadas. Durante décadas, analistas de segurança energética e estrategistas de política externa estudaram a possibilidade de o Irã bloquear efetivamente o Estreito de Ormuz. A concretização dessa possibilidade — e a imposição, pelo Irã, de uma taxa de passagem para navios que cruzassem o estreito — deveria ter causado menos surpresa do que a decisão de curta duração de Trump de fazer o mesmo. No entanto, as ações defensivas do Irã, em resposta à guerra deflagrada contra ele pelos Estados Unidos e por Israel, são muito mais notáveis ​​por suas implicações sistêmicas.

Em sua aclamada análise da Grande Depressão, o historiador Charles Kindleberger argumentou que a estabilidade da economia mundial dependia da existência de um único Estado hegemônico capaz de liderar por meio do fornecimento de bens públicos internacionais. Em 1973, quando The World in Depression foi publicado, os Estados Unidos já haviam consolidado há muito tempo sua hegemonia global, apresentando a proteção à liberdade de navegação como um desses bens públicos, ao mesmo tempo em que exerciam sua prerrogativa hegemônica de controlar o fluxo comercial através de vias navegáveis ​​internacionais. Se o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã e sua solicitação para que aliados Houthis fechassem o Estreito de Bab el-Mandeb representam um desafio direto à liberdade de navegação, a incapacidade dos Estados Unidos de garantir a observância desse princípio é mais um indício do colapso de sua hegemonia.

Em um mundo pós-ordem hegemônica dos Estados Unidos, as instituições multilaterais — especialmente as das Nações Unidas — estão perdendo relevância política. Elas se tornam menos eficazes na imposição de limites aos interesses nacionais. Tais instituições, de modo geral, foram viabilizadas e sustentadas no âmbito do sistema de consentimento da hegemonia americana. Embora continuem a servir como espaços de contestação defensiva contra imposições imperiais e a hipocrisia, é provável que o domínio das grandes potências gere respostas mais diretas e coercitivas. Contudo, para as potências médias em particular, o multilateralismo oferece a oportunidade de exercerem sua própria influência relativa na construção de iniciativas coletivas que protejam melhor seus interesses. De fato, as potências médias desempenharam um papel fundamental na definição de muitas instituições da ONU.

Potências médias

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em janeiro deste ano, o primeiro-ministro canadense Mark Carney conclamou as potências médias a "construir uma nova ordem que abranja nossos valores, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos diversos Estados". No entanto, apesar de toda a sua postura moral, foi o reconhecimento da influência limitada de seu país — e, consequentemente, de seu interesse em unir forças com outros em posição semelhante — que motivou Carney a assumir a liderança na promoção de coalizões de potências médias. De fato, ele deixou claro que a defesa desses valores não era sua preocupação primordial alguns meses depois, quando anunciou seu apoio ao bombardeio do Irã pelos EUA e por Israel.

Na ausência da consolidação de uma nova ordem hegemônica global, surgirão novas modalidades de engajamento multilateral. É provável que formações regionais e de blocos — já em ascensão no primeiro quarto do século XXI — desempenhem um papel de maior destaque. Contudo, até o momento, o impacto global das iniciativas das potências médias tem sido limitado. O atual governo dos EUA parece empenhado em conter a influência desses países. Em meados de julho, o subsecretário de Defesa para Política dos EUA, Elbridge Colby, publicou uma sequência de mensagens na rede social X sobre a estratégia coletiva entre potências médias, argumentando que ela se baseava em "uma compreensão equivocada das relações internacionais". "'Potências médias' não possuem uma base coerente para o alinhamento", acrescentou ele.

No entanto, a convergência estratégica das potências médias não será determinada primordialmente pelas inclinações ideológicas de seus governos. Em vez disso, essas potências serão compelidas a cultivar inovações diplomáticas — mesmo quando a formação de coalizões não for viável ou preferível — em decorrência de sua posição em relação às potências imperiais. A postura de Lula, ao projetar o Brasil como mediador internacional, é um exemplo revelador. Em consonância com a própria tradição de política externa brasileira, o papel do país — ao lado da Turquia — em negociações anteriores sobre o programa nuclear iraniano demonstrou disposição para desempenhar essa função sistêmica em meio a sinais iniciais de um relativo declínio americano. As ofertas de Lula para mediar negociações de paz entre Ucrânia e Rússia, bem como entre Venezuela e Estados Unidos, servem como exemplos mais recentes. Ainda assim, tal diplomacia não oferecerá defesa imediata contra a coerção exercida pela administração Trump. Medidas econômicas de contrapartida, explorando a rivalidade da China com os Estados Unidos, tornar-se-ão, então, cada vez mais centrais para os esforços brasileiros de afirmar a soberania nacional.

O fim da ordem não implica necessariamente o fim do multilateralismo. As grandes transformações estruturais do nosso tempo gerarão novos canais de cooperação internacional, fundamentados em interesses comuns. A medida em que esses canais de cooperação poderão limitar a predominância das grandes potências dependerá do investimento subsequente das potências médias na sua expansão.

Este ensaio integra o projeto After Order, do Alameda, que explora a disputa pela soberania em um mundo fragmentado.

Colaborador

Juliano Fiori é diretor do instituto de pesquisa Alameda. Ele está trabalhando em um livro sobre a economia política das reivindicações contemporâneas de soberania. Vive no Rio de Janeiro.

A ordem abandonada

Aprendendo a viver em um mundo pós-americano

Mark Leonard


Ilustração: Chloe Cushman

Há cinco anos, o mercado imobiliário chinês entrou em colapso, deixando milhares de prédios de apartamentos inacabados por todo o país. Uma geração de cidadãos chineses, que havia apostado todas as suas economias em uma expansão ilimitada, viu-se subitamente sem moradia. Com o tempo, porém, algumas pessoas audazes ocuparam as ruínas dessas edificações, montando barracas sobre os pisos de concreto, usando lençóis como paredes e cozinhando em fogões improvisados. Os chineses chamam essas estruturas abandonadas de lanwei lou — expressão que significa literalmente "edifícios de cauda podre" —, designando um projeto que deu errado, um plano suspenso. Os habitantes desses edifícios reaproveitam o que é antigo e improvisam para sobreviver a uma tempestade econômica.

A situação do mercado imobiliário chinês serve como uma boa metáfora para a ordem internacional baseada em regras e liderada pelos Estados Unidos. Após décadas de expansão, ela também está sendo abandonada. Nunca plenamente aceita pela China e pela Rússia, e vista com ressentimento por potências médias que assumem posturas mais assertivas, essa ordem perdeu o interesse de seus principais financiadores — o povo americano — em custear seu desenvolvimento contínuo. E, assim como nos projetos habitacionais fracassados ​​da China, não há nenhum provedor alternativo surgindo para assumir o seu lugar.

Um mundo de "cauda podre" está emergindo; nele, os Estados terão de se adaptar com astúcia, improvisar novos usos para elementos da antiga ordem que ainda conservam valor e ajustar-se rapidamente à decadência drástica de outros. No entanto, muitos líderes ainda agem como se a antiga ordem pudesse, de alguma forma, ser salva ou até mesmo aperfeiçoada. A Assembleia Geral da ONU continua a reunir-se anualmente, apesar de ser cada vez mais deixada à margem dos esforços diplomáticos. A Organização Mundial do Comércio segue arbitrando disputas comerciais, a despeito da onda de protecionismo. Conferências da ONU sobre mudanças climáticas reúnem-se para traçar um caminho — cada vez mais fadado ao fracasso — rumo a emissões líquidas zero. Grupos de trabalho internacionais continuam a discutir grandes planos para uma solução de dois Estados, mesmo enquanto o Oriente Médio está em chamas.

Os aliados dos Estados Unidos, em particular, simplesmente ainda não compreenderam que Washington retirou seu apoio à antiga ordem e a eles próprios. O Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, ridicularizou os europeus que sugerem aprender a se defender sem a ajuda dos EUA, dizendo-lhes para "continuarem sonhando". A cúpula da OTAN de julho de 2026 ofereceu um dos exemplos mais surreais de dissonância cognitiva: líderes europeus prometeram freneticamente homenagens ao presidente dos EUA, Donald Trump, na forma de aumentos arbitrários nos gastos com defesa — desconectados das avaliações de seus próprios analistas de defesa — na esperança de que ele não retirasse o país da aliança. O Reino Unido continua a consolidar sua dependência de segurança em relação aos Estados Unidos ao comprar caças americanos, e a Dinamarca está aprovando grandes compras de armamentos de Washington, mesmo enquanto Trump ameaça anexar à força seu território constituinte, a Groenlândia. A Austrália segue firme com investimentos no AUKUS, sua parceria de segurança trilateral com o Reino Unido e os Estados Unidos, subsidiando a base industrial americana mesmo enquanto os compromissos dos EUA vacilam.

Líderes que não enfrentam a nova realidade estão falhando com seus países. É hora de reconhecer que a velha ordem realmente desapareceu — e de traçar uma nova abordagem para a geopolítica. Este momento não constitui um breve interregno entre uma ordem liderada pelos EUA e uma liderada pela China. Por algum tempo, o mundo ficará sem ordem alguma — assolado pela fragmentação, pelo contágio e pelo estrangulamento, ou pela tentação de transformar em arma uma ampla variedade de pontos de estrangulamento geográficos, econômicos e tecnológicos. Em vez de construir uma grande estratégia, os Estados precisarão desenvolver respostas muito mais flexíveis e artesanais.

VERIFICAÇÃO DA REALIDADE

O Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, afirmou certa vez que a ordem mundial assenta em dois pilares: um equilíbrio de poder razoavelmente estável e um conjunto de regras comummente acordadas sobre o que os Estados podem ou não fazer. Hoje, ambos os pilares estão a desmoronar-se e é pouco provável que possam ser fortificados ou reconstruídos tão cedo. Os Estados Unidos continuam a ser a potência militar, econômica e tecnológica proeminente do mundo. Mas é cada vez mais claro que Washington já não tem capacidade para prevenir conflitos ou garantir o livre fluxo de comércio em todo o mundo; não conseguiu sequer abrir o Estreito de Ormuz depois de um Irão militarmente limitado ter fechado a hidrovia.

Mesmo no auge do poder dos EUA, os adversários no Afeganistão e no Iraque foram capazes de explorar vantagens assimétricas para desafiá-lo. Mas a rápida mudança tecnológica, especialmente a supervisão de mísseis e drones baratos, está a minar rapidamente o comando militar dos EUA sobre os mares e os céus e a paz relativa que o acompanha. Mesmo antes de Trump, o sistema de alianças que ajudou os Estados Unidos a cumprir as regras estava a enfraquecer; A China, a Rússia e as potências emergentes que não cumpriram as regras impuseram um exercício de pressão contra eles.

Depois, Trump lançou uma rebelião de dentro contra a ordem liderada pelos EUA, intimidando os aliados americanos, abandonando a Organização Mundial de Saúde, desmantelando a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional e impondo tarifas punitivas generalizadas. A sua vontade de desmantelar a ordem construída pelos Estados Unidos foi extraordinária. Mas mesmo depois de terminar a sua presidência, em 2029, é altamente provável que os Estados Unidos retomem o seu antigo papel. Os americanos já tinham perdido o interesse em ser o principal fornecedor mundial de bens públicos, o seu agente policial e o seu defensor do comércio livre. E nenhuma outra potência tem a ambição de assumir o manto.

Em muitas conversas privadas que tiveram ao longo do último ano com líderes de todo o mundo, a única coisa em que concordam é que não sabem o que virá a seguir. Eles lutam para usar a história ou estão a teoria para se orientar. As informações que recebem das agências de inteligência e dos serviços diplomáticos já não dão qualquer certeza. Antes de cada cimeira da NATO, receba mensagens de texto de líderes europeus que me perguntaram o que penso que poderá acontecer. Um líder do Golfo admitiu-me recentemente que simplesmente não tinha ideia de que acordo resolveria a disputa sobre o Estreito de Ormuz. O conselheiro de segurança nacional de um aliado dos EUA no Indo-Pacífico disse que o seu governo já não sabia se os Estados Unidos defenderiam o seu país numa crise.

A característica central dessas conversas é a incerteza, uma sensação de que o mundo desafia as convenções e a compreensão. Episódios de quebra de regras sempre caracterizaram uma ordem baseada em regras, mas ocorreram dentro de uma estrutura geral que ainda se mantinha. Esta é a distinção: num mundo desordenado, os atores violam regras que ainda regulam. Num mundo definido pelo que poderia ser chamado de “desordem”, eles são sem qualquer referência a qualquer estrutura comum.
UM MUNDO EM PEDAÇOS

A incerteza que permeia esta era desprovida de ordem é impulsionada por três forças que estão transtornando o sistema internacional: fragmentação, contágio e estrangulamento. A abordagem predatória de Trump em relação aos parceiros está fragmentando o Ocidente enquanto comunidade política. As alianças estão se esfacelando — e não apenas as ocidentais; basta observar a desordem no Conselho de Cooperação do Golfo. Restrições comerciais estão rompendo os mercados mundiais, mas não em blocos organizados. Problemas globais já não atraem soluções globais, mas sim uma colcha de retalhos de medidas paliativas de curto prazo.

A fragmentação mais profunda é de natureza epistêmica. Um mundo digitalmente conectado não se divide apenas em torno de interpretações; seus habitantes já não concordam sobre os fatos, eliminando a noção de realidade compartilhada que sustenta a própria diplomacia. Considere a guerra que os Estados Unidos e Israel iniciaram contra o Irã em fevereiro. As partes envolvidas no conflito não conseguiram sequer chegar a um acordo sobre a existência de um cessar-fogo, sobre quais meios de pressão detêm ou sobre quem venceu ou perdeu.

A aspiração de estabelecer uma ordem global única está cedendo lugar a uma realidade na qual diversos sistemas organizadores coexistem e competem entre si. Algumas estruturas organizam-se em torno de regiões. Outras — incluindo a *Pax Silica* (uma nova iniciativa para assegurar cadeias de suprimento tecnológico), o Tratado Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífico e o AUKUS — buscam regular áreas como tecnologia, comércio e segurança. Já não existe a ideia de que as Nações Unidas ou mesmo os Estados Unidos poderiam supervisionar acordos de paz abrangentes que resolvessem com êxito disputas territoriais, questões de justiça no pós-guerra e a reconstrução. Em vez de tais acordos, cessar-fogos e tréguas limitados — negociados não por diplomatas, mas por um grupo heterogêneo de intermediários, como o magnata imobiliário americano Steve Witkoff, o banqueiro russo Kirill Dmitriev e o general paquistanês Asim Munir — visam congelar conflitos em vez de resolvê-los. Em um mundo de aliados pouco confiáveis, os países buscarão estratégias de proteção e diversificação de riscos. O Tratado de Não Proliferação Nuclear pode deixar de funcionar como um mecanismo de restrição eficaz, e Alemanha, Irã, Polônia, Arábia Saudita e Coreia do Sul poderão avançar para a aquisição de armas nucleares nas próximas duas décadas.

Também desapareceu a noção de que regras consistentes deveriam reger a economia global. O nacionalismo econômico e o protecionismo estão em ascensão; a implementação do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira pela UE, as tarifas impostas por Trump e os controles de exportação da China estão acelerando a fragmentação da economia global. Barris de petróleo idênticos são negociados atualmente a preços muito distintos, dependendo de onde são vendidos, de qual sistema de pagamento é utilizado, de quem é o comprador e de qual regime de sanções se aplica. No início de abril, por exemplo, os contratos futuros de petróleo Brent eram negociados a cerca de US$ 113 o barril, enquanto cargas físicas do produto eram vendidas por até US$ 144. Embora os preços futuros e os preços à vista (*spot*) do petróleo geralmente divirjam, essa diferença costuma ser de apenas alguns dólares; uma disparidade dessa magnitude é extremamente incomum. Os mercados de ouro de Londres e Nova York também registram episódios de acentuada divergência de preços. Esse tipo de fragmentação tende a se tornar cada vez mais generalizado. A predominância do dólar sofrerá uma erosão mais rápida, com sua participação nas reservas cambiais globais possivelmente caindo para menos de 50%, à medida que se multiplicam os acordos cambiais bilaterais e se diversificam as formas de precificação de *commodities*. Os custos de captação de recursos dos EUA aumentarão, e os custos globais de transação dispararão com a proliferação de sistemas incompatíveis entre si.

FORA DE CONTROLE

Outro grande desafio é o contágio. Antigamente, o direito e as normas internacionais impunham limites às ações dos Estados. As grandes potências podiam nem sempre seguir as regras, mas estas eram impostas às potências menores e estabeleciam expectativas sobre como as relações seriam conduzidas. No entanto, nesta era de desinibição, as crises já não se restringem ao seu âmbito original, e os atores não se sentem mais limitados por normas de conduta adequada — de fato, muitos dos atores mais poderosos do mundo parecem nem sequer ter consciência de que estão violando regras.

Nesse cenário, é também menos provável que as disputas permaneçam compartimentadas. A França e a Alemanha opuseram-se firmemente à guerra que os Estados Unidos iniciaram contra o ditador iraquiano Saddam Hussein em 2003; contudo, isso não as impediu de continuar a compartilhar informações de inteligência e a manter relações comerciais com os Estados Unidos, nem de cooperar com Washington em outras questões da OTAN. Em contrapartida, quando Trump ameaçou impor tarifas a aliados europeus que se opuseram à sua pretensão sobre a Groenlândia, demonstrou que, mesmo entre aliados, as relações econômicas e de segurança já não estão separadas. Durante a recente crise envolvendo o Irã, quando vários países europeus manifestaram reservas quanto ao conflito, Trump ameaçou interromper o comércio com eles e retirar as tropas estacionadas em seus territórios.

Muitos líderes ainda agem como se a velha ordem pudesse, de alguma forma, ser salva.

E, após Israel e os Estados Unidos atacarem o Irã, a República Islâmica e seus aliados regionais lançaram ataques contra parceiros dos EUA — Bahrein, Omã, Jordânia, Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos e até mesmo a Europa, ao atacar Chipre. Em vez de tentar prejudicar diretamente o esforço de guerra dos EUA, o Irã parecia determinado a desestabilizar os mercados globais o máximo possível. Frustrados com a proximidade do Paquistão com o Irã, os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, também retaliaram em diversas frentes, exigindo o pagamento antecipado de uma dívida de US$ 3,5 bilhões e deportando milhares de trabalhadores paquistaneses.

Essa mesma ausência de freios rege, cada vez mais, a própria condução da guerra. Os tabus contra assassinatos, ataques a civis e guerras de conquista territorial estão desaparecendo. Segundo reportagem do *The New York Times*, Israel planejou assassinar o ministro das Relações Exteriores e o presidente do parlamento do Irã enquanto ambos conduziam negociações com os Estados Unidos. Ao longo da guerra em Gaza, Israel atacou pessoas e instalações que antes não eram consideradas alvos legítimos: jornalistas, hospitais, locais culturais, instituições religiosas e infraestrutura civil; Israel alegou que o Hamas utilizava tais alvos como fachada. A Rússia ataca regularmente a infraestrutura civil em sua guerra na Ucrânia, e ambos os países matam cidadãos um do outro em terceiros países por meio de assassinatos seletivos.

Esse tipo de escalada descontrolada quase certamente levará a mais guerras. Países além dos Estados Unidos podem sentir-se tentados a chantagear seus aliados, e a ameaça de ataques nucleares pode acabar sendo normalizada. O mais preocupante é a perspectiva de uma proliferação de pequenas guerras por território. Não faltam possíveis gatilhos. A China poderia atacar Taiwan diretamente; a Venezuela poderia decidir usar a força para reivindicar Essequibo, a metade ocidental da vizinha Guiana, rica em recursos; a Etiópia poderia tentar obter acesso aos portos da Eritreia no Mar Vermelho; e a Rússia poderia decidir tomar a cidade fronteiriça estoniana de Narva.

O GRANDE APERTO

Em um casamento que fracassou, os laços que uniam o casal nos bons momentos — a casa, os filhos, o cachorro — transformam-se nas armas que usam para ferir um ao outro nos momentos difíceis. Da mesma forma, na geopolítica atual, os Estados estão transformando cada vez mais em armas os sistemas que antes os conectavam — rotas de energia, cadeias de suprimento de semicondutores, infraestrutura financeira e rotas de navegação. O controle de um país sobre pontos de estrangulamento (*chokepoints*) está se tornando um indicador fundamental de seu poder, assim como o seu PIB e o tamanho de suas forças armadas.

Os países ocidentais têm atuado de forma particularmente ativa na identificação e na instrumentalização estratégica desses pontos de estrangulamento, sobretudo por meio do controle que exercem sobre o sistema financeiro global e tecnologias essenciais. O primeiro governo Trump restringiu o acesso de empresas chinesas a microchips de ponta. O governo Biden intensificou esse estrangulamento tecnológico ao impor controles de exportação mais abrangentes, aproveitando o fato de que empresas dos EUA e de seus aliados dominam a produção de equipamentos para a fabricação de chips e o software necessário para produzi-los. Em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em larga escala, uma coalizão de países europeus e norte-americanos tomou a medida notável de instrumentalizar o dólar para punir um membro do G-20, ao excluir bancos russos do sistema de pagamentos SWIFT e congelar US$ 300 bilhões em reservas do Banco Central da Rússia.
Aprendendo com essa experiência, a China está expandindo rapidamente sua própria autoridade sobre pontos de estrangulamento (*chokepoints*). Em 2010, Pequim chegou a interromper brevemente as exportações de terras raras para o Japão em meio a uma disputa territorial, mas ainda não havia estabelecido a estrutura burocrática necessária para aplicar tais controles com precisão. Desde então, o país criou seu próprio sistema de controle de exportações — explicitamente modelado no de Washington — e ampliou seu domínio sobre pontos de estrangulamento de recursos, abrangendo desde matérias-primas até o processamento. No final de 2025, a China adotou sua própria versão da regra norte-americana de "produto direto estrangeiro" (*foreign direct product rule*), reivindicando o direito de decidir se empresas de qualquer lugar do mundo podem ter acesso a ímãs que contenham sequer vestígios de materiais chineses ou que tenham sido fabricados com tecnologia chinesa. Na prática, Pequim voltou contra Washington a mesma tática extraterritorial que os EUA haviam criado para controlar o setor de chips. Países menores e atores não estatais também estão explorando cada vez mais esses pontos de estrangulamento. Segundo promotores alemães, uma equipe ucraniana destruiu os gasodutos Nord Stream para romper a dependência da Europa em relação ao gás russo. Mesmo antes de o Irã fechar o Estreito de Ormuz — paralisando praticamente 20% do transporte global de petróleo e gás natural liquefeito —, a milícia Houthi, no Iêmen, já utilizava drones e mísseis de baixo custo para bloquear o trânsito pelo Mar Vermelho.

Essa exploração de pontos de estrangulamento logo se tornará generalizada. As consequências podem ser extraordinárias, pois os potenciais gargalos são inúmeros: eles existem não apenas em vias navegáveis ​​físicas, mas também nas cadeias de suprimentos de armas, alimentos, assistência médica e tecnologias básicas — todos os itens essenciais para o cotidiano das pessoas. Os Estados Unidos poderiam impedir que europeus utilizassem seus modelos de IA ou até mesmo bloquear o acesso deles a produtos da Microsoft. A China poderia restringir ainda mais o fornecimento de terras raras usadas em sistemas de armas e tecnologias de ponta dos EUA e da Europa, ou alavancar seu controle sobre as indústrias globais de veículos elétricos, energia solar e eólica. Além disso, como fabrica a vasta maioria dos princípios ativos farmacêuticos, Pequim poderia até mesmo restringir a produção de medicamentos vitais. O abastecimento de alimentos seria particularmente vulnerável a bloqueios: mais de 55% do milho, trigo, arroz e soja comercializados globalmente passam por pelo menos um ponto de estrangulamento marítimo, e interrupções no setor de energia podem se transformar em crises de preços de alimentos em questão de semanas.

O bloqueio de um ponto de estrangulamento desvia o tráfego para outros, sobrecarregando as rotas alternativas. O fechamento de Ormuz forçou o desvio das remessas de petróleo para a rota do Cabo da Boa Esperança. Um fechamento simultâneo do Canal de Suez e do Estreito de Malaca não teria solução viável. Tanto o Irã quanto os Estados Unidos sugeriram a intenção de cobrar pedágios de navios que transitam pelo Estreito de Ormuz, e outros Estados poderiam sentir-se tentados a começar a cobrar pelo acesso a vias navegáveis ​​internacionais. O fechamento de um único ponto de estrangulamento poderia ser administrável; múltiplos bloqueios, no entanto, não o seriam.

SEJA REALISTA

Estão surgindo duas formas principais de lidar com este novo mundo: o método do arquiteto e a abordagem do artesão. Arquitetos elaboram projetos para estabelecer a ordem e tentam moldar o mundo segundo seus planos, criando normas universais e ancorando a segurança em instituições multilaterais. Já os artesãos não presumem ter o poder ou os recursos para construir grandes estruturas do zero. Em vez disso, recorrem à improvisação e à flexibilidade para lidar com um mundo que não se presta a planos abrangentes. Em muitos aspectos, a China já se comporta como um Estado artesão. Ela promove seus interesses reaproveitando instituições existentes — como quando utilizou a União Internacional de Telecomunicações para incorporar controles favoráveis ​​à vigilância nos padrões globais da Internet — e criando novas instituições, como a Organização para Cooperação de Xangai e o BRICS+, o bloco geopolítico que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros quatro novos membros. Essas instituições são flexíveis quanto à sua composição e finalidade, não tendo como objetivo estabelecer regras globais. Outras potências médias, como Brasil, Índia, Irã e Turquia, estão criando e aderindo a uma infinidade de agrupamentos semelhantes, buscando equilíbrio e proteção estratégica em meio à disputa entre as grandes potências.

Em contrapartida, em muitas outras potências médias da Europa, do Indo-Pacífico e da América do Norte, a lamentação pela perda da ordem baseada em regras desperta um instinto arquitetônico. Embora reconheçam a incerteza, os líderes dessas regiões não compreendem plenamente as mudanças que enfrentam; com frequência excessiva, suas estratégias propõem manter a forma da antiga ordem sem a sua substância — isto é, a legitimidade e a capacidade de imposição que lhe eram conferidas pelos Estados Unidos. Eles ainda se esforçam para sustentar o sistema de comércio global baseado em regras, tentando criar uma cópia fiel do mecanismo de apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC) — atualmente paralisado — e continuando a apresentar queixas contra as tarifas dos EUA na própria OMC, o que equivale a gritar para o vazio.

Muitos governos ainda tentam conter conflitos recorrendo à ONU ou a tribunais internacionais. A Irlanda, por exemplo, juntou-se à Espanha para apoiar a acusação de genocídio feita pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça — uma iniciativa amplamente alardeada, mas que praticamente não surtiu efeito na política israelense. O ministro das Relações Exteriores da Austrália falou em uma "nova era de diplomacia ampliada das potências médias", que buscaria reforçar compromissos multilaterais formais e fazer valer o direito internacional. A principal diferença entre esses projetos e as abordagens mais artesanais adotadas pela China e por outros países é que o objetivo dos primeiros permanece essencialmente legalista, focado em promover mudanças por meio da adesão a estruturas cada vez mais obsoletas.

A antiga ordem baseada em regras nunca se resumiu, de fato, apenas a regras. Ela oferecia normas respaldadas por uma potência específica, disposta a arcar com custos desproporcionais para mantê-las. Os Estados Unidos e seus aliados europeus foram os arquitetos das ordens do pós-guerra e do pós-Guerra Fria, mas já não dispõem dos recursos necessários para sustentá-las. Além disso, as potências médias não podem simplesmente unir seus recursos e replicar o passado. Nenhuma coalizão é capaz de manter a relevância da OMC, garantir a predominância do dólar ou assegurar a abertura do Estreito de Ormuz. Políticos costumam falar como arquitetos porque acreditam que isso transmite confiança; na realidade, porém, tal discurso mina a confiança.

Trump discursando na Assembleia Geral da ONU, Nova York, setembro de 2025.
MIKE SEGAR / Reuters

Em vez disso, os antigos aliados dos Estados Unidos precisam pensar e agir como artesãos. Muitos desses países estão mais bem preparados para essa mudança de estratégia do que imaginam; suas histórias são repletas de exemplos de inovação e flexibilidade.

Enquanto arquitetos buscam estabilidade, artesãos preparam-se para o caos e a mudança. Arquitetos poderiam tentar reformar o Conselho de Segurança da ONU ou restaurar o Órgão de Apelação da OMC, mas estariam apenas perdendo tempo. Artesãos, por sua vez, acompanham o rumo que a diplomacia já está tomando. A China é observadora no Conselho do Ártico; da mesma forma, a UE deveria solicitar sua admissão como observadora no BRICS+, na Organização para Cooperação de Xangai ou na Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). No âmbito comercial, uma abordagem artesanal significaria investir em novos polos de infraestrutura estruturados em torno de corredores e portos — como o Corredor do Lobito, uma rota logística que conecta a região central da África, rica em minérios, ao Atlântico. Tais iniciativas prometem retornos maiores do que acordos comerciais abrangentes — como os que a UE buscou com a Índia ou com o Mercosul —, cujas negociações podem levar décadas. E, em vez de disputarem a nomeação de seus diplomatas como enviados especiais da ONU, países como Austrália, Noruega, Espanha, Suécia, Reino Unido e outros semelhantes deveriam buscar contribuir para esforços de mediação de conflitos menos convencionais, atualmente liderados por nações como Paquistão e Catar.

Enquanto os arquitetos acreditam na possibilidade de um conjunto único de regras para todos, os artesãos aceitam a coexistência de múltiplas diretrizes. Blocos como a UE deveriam concentrar cada vez mais seus esforços na criação de ordens baseadas em regras em suas próprias vizinhanças, em vez de buscarem uma ordem global inalcançável. Abordagens regulatórias multilaterais abrangentes — como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR) da UE — estão perdendo eficácia à medida que outros grandes mercados, incluindo a China, deixam de copiar o modelo europeu. O mesmo ocorre com as estruturas globais voltadas para a solução de problemas como as mudanças climáticas. A competição pela liderança em tecnologias renováveis ​​provavelmente contribuiu mais para combater o aumento das emissões do que todas as reuniões da Conferência das Partes (COP) somadas. Europeus e membros do grupo G-6+ devem envidar todos os esforços para compreender como brasileiros, indianos, indonésios, russos e sul-africanos enxergam este momento. Se desejam gerir riscos de forma mais eficiente, precisam compreender melhor os outros atores que também buscam essa mitigação de riscos.

Enquanto os "arquitetos" veem a globalização como um meio de transformar os outros, os "artesãos" preocupam-se com as vulnerabilidades geradas pela interconexão. A Europa e seus aliados dispõem de mais meios do que imaginam para desenvolver a autossuficiência e estabelecer acordos com outras potências. Para se proteger de chantagens chinesas, a Europa poderia usar sua posição nas vendas da Airbus como alavanca, suspendendo atualizações de software para a frota de aeronaves Airbus da China — medida que deixaria em solo mais da metade das aeronaves comerciais do país. Para retaliar tarifas impostas pelos EUA, poderia restringir o acesso ao mercado para empresas americanas de redes sociais. Para dissuadir a China de ameaçar sua soberania, Taiwan poderia impor restrições à sua indústria estratégica de semicondutores.

O controle de um país sobre pontos de estrangulamento (chokepoints) está se tornando um indicador fundamental de seu poder.

Tais estratégias podem ter um foco mais defensivo, mas, se os países quiserem prosperar, precisam fortalecer sua segurança, competitividade industrial, liderança em energia limpa e influência global. Um aspecto central desse processo é a busca pela soberania tecnológica. Em vez de aceitar a dependência da tecnologia americana ou apostar todas as fichas na criação de ecossistemas tecnológicos totalmente autônomos, eles devem utilizar a influência que já possuem para minimizar riscos de ações agressivas contra si e ampliar suas vantagens naturais. Em 2023, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido concedeu à empresa de tecnologia americana Palantir um contrato importante para fornecer sua nova plataforma de dados; neste ano, um novo programa de IA da polícia britânica manifestou interesse em trabalhar com a mesma empresa. Em vez disso, o país deveria usar seu poder de compra para incentivar fornecedores nacionais — utilizando tecnologias de código aberto — a desenvolver ferramentas especializadas, além de exigir padrões abertos e formatos de dados portáteis como condição para contratos públicos, evitando assim que a plataforma de um único fornecedor se torne um ponto de estrangulamento permanente.

Talvez o mais importante seja que, enquanto os "arquitetos" pensam na segurança de fora para dentro, os "artesãos" compreendem que um país deve ser defendido de dentro para fora. Os Estados europeus e do Indo-Pacífico precisam preservar o que for possível da antiga arquitetura de segurança — recorrendo, por exemplo, às estruturas de comando da OTAN para operações militares — e reduzir drasticamente sua dependência dos Estados Unidos como provedores perpétuos de segurança para suas regiões.

Além disso, não devem tentar simplesmente replicar os métodos militares americanos, que exigem enorme aporte de capital. Precisam desenvolver formas de combate mais econômicas e adequadas às suas realidades específicas. Tanto a Ucrânia quanto o Irã demonstraram como adaptar tecnologias mais baratas para fins ofensivos e defensivos, neutralizando a vantagem de seus oponentes em sistemas de alta tecnologia muito mais caros. Muitos países se beneficiarão de estratégias semelhantes de "ouriço", que aproveitam a revolução tecnológica favorável à defesa para proteger seus territórios contra o contágio. Para os países europeus, isso significa desenvolver capacidade militar, lutar com unhas e dentes para impedir que a Rússia e os Estados Unidos façam acordos à sua revelia e adotar uma postura mais distante em relação a conflitos em partes mais remotas do mundo. O Japão e a Coreia do Sul devem, da mesma forma, investir em autodefesa e trabalhar para impedir que a China e os Estados Unidos os excluam de decisões que moldam o seu futuro. Mesmo que os Estados Unidos não estejam mais dispostos a atuar como a polícia do mundo, eles têm um papel importante a desempenhar nesses esforços, incentivando os parceiros a se adaptarem em vez de transformá-los em vassalos — ainda que isso signifique menos encomendas para as empresas de defesa americanas.

Muito antes do segundo mandato de Trump, mudanças na estrutura de poder global já haviam esvaziado a antiga ordem. E é provável que as forças de ruptura se acelerem. As próximas décadas serão definidas por mudanças explosivas e ondas de crises, e não por um retorno à antiga ordem ou pela criação de uma nova. Assim como os moradores engenhosos dos edifícios inacabados da China, os líderes mais bem-sucedidos serão aqueles que tomarem as rédeas do próprio destino, em vez de esperar que um novo conjunto de regras venha salvá-los.

Mark Leonard é cofundador e diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores e autor de Surviving Chaos: Geopolitics When the Rules Fail.

Como as alianças sobrevivem

Argumentos contra o pessimismo e o caminho para uma nova ordem de aliados

Kurt M. Campbell e Rush Doshi

Foreign Affairs

Rob Dobi

Em 1984, meses depois de a decisão do governo Reagan de implantar mísseis nucleares de alcance intermediário Pershing II na Europa Ocidental ter levado centenas de milhares de manifestantes às ruas das principais cidades europeias, um grupo de altos funcionários franceses, alemães e italianos abordou o Secretário-Geral da OTAN, Peter Carrington, do lado de fora de seu escritório em Bruxelas. As tensões ainda estavam elevadas e eles reclamavam que os americanos eram rudes, imprudentes e desdenhosos em relação aos conselhos dos aliados. Carrington ouviu-os. Depois, deu de ombros e ofereceu seu veredito habitual sobre por que a indispensabilidade americana exigia tolerância por parte dos aliados: "Infelizmente, são os únicos americanos que temos".

Hoje, essa tolerância está sendo severamente testada. Em menos de dois anos, o segundo governo Trump ameaçou tomar a Groenlândia e abandonar a OTAN, retirou tropas da Alemanha, interferiu nas eleições de aliados e impôs tarifas a amigos — tudo isso enquanto prodigalizava cúpulas e lisonjas a Pequim e Moscou. Os aliados reagiram com alarme compreensível. "A antiga relação que tínhamos com os Estados Unidos", declarou o primeiro-ministro canadense Mark Carney, "acabou". Uma "profunda ruptura" estava se formando, alertou o chanceler alemão Friedrich Merz. "O Ocidente como o conhecíamos não existe mais", declarou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ng Eng, ministro da Defesa de Cingapura, lamentou que os Estados Unidos tivessem deixado de ser parceiros para se tornar "proprietários cobrando aluguel".

Nos Estados Unidos, cresce o consenso de que é improvável que as alianças se recuperem. O ex-presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, Greg Meeks, questionou "se nossos amigos e aliados voltarão algum dia a confiar nos Estados Unidos". O acadêmico Robert Kagan, em um elogio fúnebre a uma era em que os aliados dos EUA permaneciam ao lado de Washington, declarou que "esses dias acabaram e não voltarão tão cedo".

Esse pessimismo é compreensível, mas significativamente exagerado. O ressentimento nas capitais aliadas, embora genuíno, não é um guia duradouro para o que virá a seguir. Por mais sombrio que o momento pareça, as alianças dos Estados Unidos sobreviverão ao choque Trump por razões que as manchetes deixam passar. Em primeiro lugar, o sistema de alianças já superou abalos hoje esquecidos, mas pelo menos tão graves quanto os atuais; e os problemas de agora devem-se mais à personalidade presidencial do que a uma nova política duradoura. Em segundo lugar, as ameaças que deram origem às alianças não desapareceram; pelo contrário, intensificaram-se e convergiram, à medida que as percepções dos aliados sobre a China e a Rússia se alinham como nunca antes. Em terceiro lugar, poderosas forças gravitacionais continuam a unir os aliados nos âmbitos econômico, tecnológico e militar, superando os esforços de Washington para a "redução de riscos", ao passo que burocracias profissionais avançam discretamente na cooperação, longe dos holofotes da política.

Se permitido consolidar-se como uma verdade incontestável, o pessimismo corre o risco de se tornar uma profecia autorrealizável: formuladores de políticas, convencidos de que as alianças não podem ser salvas, deixam de realizar o trabalho necessário para garantir sua continuidade. No entanto, essas forças de união sustentarão as alianças durante o "momento Trump" e as prepararão — caso as capitais aliadas aproveitem a oportunidade — para a transformação necessária a fim de enfrentar o desafio de uma China que, apoiada por uma Rússia recém-agressiva, é capaz de superar qualquer outro país nos indicadores de poder mais relevantes. As atuais apreensões podem, ainda que involuntariamente, fortalecer o sistema de alianças: assim como ocorreu no passado, as tensões podem impulsionar reformas que criem as capacidades do futuro. Os aliados poderiam deixar de ser dependentes para se tornarem cocriadores de poder, unindo suas capacidades naquilo que anteriormente denominamos "escala aliada". O governo Trump instou os aliados a fazerem mais para que os Estados Unidos pudessem fazer menos; na realidade, porém, tanto os aliados quanto os Estados Unidos precisarão fazer mais no futuro, criando fluxos bidirecionais de capacidade e interdependência que tornem o todo maior do que a soma de suas partes.

É verdade que, como argumentaram o presidente francês Emmanuel Macron e outros líderes aliados, "não há como voltar atrás". Isso não significa, contudo, o fim do sistema de alianças. Significa refundar esse sistema para uma nova era.

O NOVO FATALISMO

Os danos que o presidente dos EUA, Donald Trump, causou às alianças americanas até agora em seu segundo mandato superam os danos de todo o seu primeiro mandato de quatro anos. Isso ocorre, em parte, porque a equipe de orientação internacionalista que impôs limites e salvaguardas na ocasião anterior já não está mais presente. No entanto, a crescente preocupação com o futuro das alianças americanas não se resume a Trump. Ela é impulsionada pela convicção de que forças corrosivas de longa data, agravadas pelos ataques de Trump à confiança mútua, estão desgastando o sistema a tal ponto que ele se tornará irrecuperável.

O primeiro conjunto de forças corrosivas encontra-se dentro dos próprios Estados Unidos. Como observaram Phil Gordon e Mara Karlin, altos funcionários do governo Biden, uma geração marcada por intervenções fracassadas, desafios econômicos e uma política voltada para questões internas deixou os americanos mais relutantes em sustentar a ordem global do que em qualquer outro momento desde antes da Segunda Guerra Mundial. O argumento é que Trump é tanto um sintoma quanto uma causa. O primeiro mandato de Trump pode ter parecido uma aberração, mas o segundo sinaliza um padrão — sugerindo que o pêndulo talvez não retorne à posição anterior.

O segundo conjunto de forças corrosivas reside nas capitais dos países aliados. A credibilidade americana profundamente abalada, segundo essa perspectiva, está levando os aliados a ajustar suas orientações estratégicas de maneiras que se mostrarão irreversíveis. O fato de Trump tratar os compromissos de aliança na Europa e na Ásia como algo condicional e transacional altera a natureza essencial dessas parcerias, mesmo sem grandes retiradas de tropas ou o uso de força contra os aliados. Governos europeus já estão priorizando a "autonomia estratégica" e buscando independência em relação aos Estados Unidos no âmbito da defesa; a França e o Reino Unido chegaram a propor um novo "guarda-chuva nuclear" para a Europa. Aliados asiáticos também estão reavaliando um dos pilares fundamentais do sistema de alianças dos EUA — a dissuasão nuclear estendida — e cogitando adquirir suas próprias capacidades nucleares. Além disso, ambos os grupos de aliados estão formando novas coalizões de potências médias para reduzir a dependência de Washington, desde acordos recentes da Europa com a Índia até pactos comerciais que o Japão busca firmar com a América Latina. Todos procuram formas de reduzir os riscos associados aos Estados Unidos. Os céticos temem que, independentemente de quão favorável às alianças seja o próximo líder americano, essa estratégia de precaução persistirá: afinal, por que os aliados apostariam em décadas de planejamento militar — bases, aquisições, estrutura de forças — ou buscariam integração econômica e industrial com Washington se a própria aliança é posta em xeque a cada quatro ou oito anos?

A resposta a essa pergunta é mais complexa do que parece e deveria afastar qualquer sentimento de desespero. O colapso das alianças é muito menos provável do que a sua persistência e evolução, por razões que muitas vezes escapam aos observadores. Como as alianças surpreenderam os estrategistas ao sobreviverem ao colapso soviético, passaram a ser vistas como produtos de aspectos mais brandos da política internacional — sentimentos, instituições, confiança, valores compartilhados, nostalgia —, justamente os elementos mais desgastados pela administração Trump. No entanto, elas foram forjadas e sempre se mantiveram graças a realidades materiais concretas. Longe de desaparecerem, essas realidades materiais exercem hoje uma força ainda maior do que antes.

A ERA DE OURO QUE NÃO EXISTIU

O pessimismo atual contrapõe os desafios de hoje a uma suposta era de ouro da aliança que, na verdade, nunca existiu. A história real das alianças dos EUA é marcada por crises recorrentes: aliados expulsando tropas americanas, presidentes surpreendendo parceiros com decisões inesperadas, capitais tomadas por protestos e, em todas as épocas, previsões confiantes de um colapso iminente.

Embora muitos membros da elite de política externa acreditem que desta vez a situação é diferente, as populações americana e europeia não concordam. Segundo dados de pesquisas do Chicago Council on Global Affairs, que remontam a 1974, a parcela de americanos que acredita que Washington deve tomar grandes decisões em conjunto com aliados, em vez de agir por conta própria, atingiu seu nível mais alto em 50 anos. Durante a era Trump, de 2016 até hoje, a convicção de que manter as alianças existentes é "muito eficaz" para promover os objetivos dos EUA cresceu de 32% para 55%, alcançando patamares recordes na última década tanto entre democratas quanto entre republicanos. Do outro lado do Atlântico, pesquisas do European Council on Foreign Relations revelaram uma insatisfação alarmante em relação aos Estados Unidos. No entanto, o dado mais surpreendente é que uma clara maioria de cidadãos em 13 dos 15 países europeus pesquisados ​​— e uma parcela significativa (embora não majoritária) nos outros dois — acredita que a relação "voltará a melhorar" assim que Trump deixar o cargo. Menos de um terço acredita que os danos persistirão após sua saída. Ao que tudo indica, as populações europeias veem Trump como uma aberração, e não como um verdadeiro representante dos Estados Unidos.

A crença de que "isso também vai passar" tem um peso histórico considerável. No campo da segurança, os desafios atuais são reais — ameaças de tomar a Groenlândia, abandonar a Ucrânia, sair da Otan, retirar tropas da Alemanha ou condicionar a venda de armas a Taiwan às preferências de Pequim. Contudo, as alianças já sobreviveram a situações piores.

Mesmo sob a gestão de Trump, os Estados Unidos não ameaçaram de forma crível um aliado com uma catástrofe financeira, como fizeram com o Reino Unido na década de 1950 para interromper sua intervenção em Suez. Da mesma forma, nenhum aliado expulsou tropas americanas ou comprometeu seriamente a estrutura de uma aliança, como a França fez na década de 1960 ao retirar-se do comando unificado da Otan. Os Estados Unidos não retiraram grandes contingentes de tropas de países aliados, como o Senado quase os forçou a fazer na década de 1970 — ocasião em que a Emenda Mansfield, que teria reduzido as forças americanas na Europa pela metade, foi rejeitada por uma margem estreita.

Em uma cúpula de líderes da OTAN em Ancara, Turquia, julho de 2026
Yves Herman / Reuters

Na Ásia, não existe atualmente nada comparável aos grandes choques da década de 1970, que levaram Seul e Taipé a buscar programas nucleares secretos. A Doutrina Guam, de 1969, do presidente americano Richard Nixon, orientava os aliados a fornecerem o efetivo para sua própria defesa — um imperativo reforçado pela retirada de 20 mil soldados americanos da Coreia do Sul. Sua iniciativa de aproximação com Pequim, em 1972, pegou Taipé e Tóquio de surpresa. Poucos anos depois, a queda de Saigon gerou preocupações quanto à determinação americana e levou o líder de Singapura, Lee Kuan Yew, a declarar que a influência dos EUA na região "nunca mais seria a mesma". Apesar da profunda insatisfação com os Estados Unidos, não houve protestos em massa nas capitais aliadas, como aqueles ocorridos contra a instalação dos mísseis Pershing II. Tampouco desapareceu a percepção compartilhada de ameaça que sustenta o sistema de alianças, como aconteceu na década de 1990 após a dissolução da União Soviética.

A principal exceção é a ameaça do uso de força pelos EUA contra a Groenlândia, o que poderia, de fato, levar ao colapso do sistema de alianças caso Washington concretizasse tal ação. No entanto, essa ameaça é tão peculiar, personalista e extrema que nenhuma figura de peso em qualquer um dos partidos a endossou. Democratas manifestaram oposição aberta, assim como líderes republicanos: o presidente da Câmara, Mike Johnson, afirmou que uma intervenção militar dos EUA na Groenlândia “não seria apropriada”, e o líder da maioria no Senado, John Thune, declarou: “Não vejo a ação militar como uma opção neste caso”. Trump acabou recuando da ideia.

O histórico econômico assemelha-se ao de segurança. As tarifas do “Dia da Libertação” prejudicaram a percepção dos Estados Unidos como um parceiro econômico confiável — mas esta não é a primeira vez que Washington volta seu peso econômico contra seus próprios aliados, inclusive por meio de tarifas. Em agosto de 1971, o “Choque Nixon” promoveu ambas as medidas simultaneamente: pôs fim unilateralmente à conversibilidade do dólar em ouro, pegando de surpresa aliados cujas economias estavam atreladas a ele, e impôs uma sobretaxa de importação de 10% sobre todos os produtos. Em 1985, o Acordo de Plaza forçou os aliados a realizar um ajuste cambial significativo sob a pressão do protecionismo, afetando as economias alemã e japonesa de forma mais severa do que as tarifas que os aliados enfrentam hoje; em três anos, o iene dobrou de valor em relação ao dólar, um ajuste muito maior do que a tarifa de 15% sobre as exportações japonesas.

As tensões atuais são as mais significativas desde o fim da Guerra Fria. Contudo, a lição da história é que os sistemas de alianças frequentemente se mostram mais resilientes, em retrospectiva, do que os observadores contemporâneos imaginam no momento. Crises geram repetidamente previsões de colapso, mas as alianças se adaptam justamente porque os incentivos subjacentes permanecem convincentes. A pressão agressiva do primeiro governo Trump sobre a divisão de encargos foi mal recebida nas capitais aliadas e causou danos reais — mas também impulsionou os orçamentos de defesa europeus em direção à meta de 2% da OTAN, levou o Japão a dobrar seus gastos com defesa e estimulou a coordenação diante do desafio tecnológico representado pela China. Sob o governo Biden, muitos desses mesmos aliados integraram uma rede densa de iniciativas que, outrora, teriam sido inconcebíveis: o acordo AUKUS entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos; a parceria de segurança Quad, focada no Indo-Pacífico; a reaproximação entre Seul e Tóquio; controles conjuntos de exportação de semicondutores; uma resposta coordenada da Europa e da Ásia à invasão da Ucrânia pela Rússia em larga escala. Nada disso foi planejado por Trump, mas o fato demonstra como as tensões de uma época podem gerar capacidade na seguinte, oferecendo aos líderes subsequentes a oportunidade de fortalecer alianças de maneiras antes inalcançáveis.

CONVERGÊNCIA, FINALMENTE

Hoje, essa dinâmica é particularmente poderosa, visto que as percepções de ameaça convergem e se intensificam cada vez mais em torno de um desafio comum representado por Pequim e Moscou — mesmo com os aliados enfrentando um desafio de curto prazo vindo de Washington. Isso é notável porque, desde o fim da Guerra Fria, as percepções de ameaça entre os aliados frequentemente divergiam. A Europa, por exemplo, tornou-se gradualmente mais apreensiva em relação ao desafio militar russo, mas, de modo geral, via a China como mercado e fabricante. Os aliados asiáticos muitas vezes viam a situação de forma inversa: desconfiavam do crescente poderio militar chinês, mas preocupavam-se menos com a Rússia, encarando seus recursos energéticos como uma oportunidade econômica. Essa divergência favorecia Pequim e Moscou. Durante décadas, Washington empenhou-se em alinhar essas percepções entre as diferentes regiões, mas com pouco sucesso.

Essa convergência está, finalmente, se concretizando. A conduta da China e da Rússia forjou, mais do que qualquer iniciativa ocidental, laços entre a Europa e a Ásia. A invasão da Ucrânia pela Rússia destruiu as ilusões restantes da Europa não apenas em relação a Moscou, mas também a Pequim. A China tornou-se a principal patrocinadora da Rússia, fornecendo apoio tecnológico de duplo uso e até mesmo suporte militar letal no campo de batalha, além de um reforço financeiro, industrial e diplomático crucial. É a China que está construindo a base industrial de defesa e a capacidade militar russas que agora ameaçam a Europa. Refletindo essa constatação, os comunicados da OTAN agora classificam a China como um "facilitador decisivo" da guerra da Rússia, e seu secretário-geral defende que os teatros de operações do Indo-Pacífico e da Europa devem ser vistos "como um só". Os países asiáticos, por sua vez, veem o uso chocante da força pela Rússia como um sinal dos riscos que enfrentam caso o equilíbrio militar com a China se deteriore ainda mais. Japão, Coreia do Sul, Taiwan e até mesmo Cingapura manifestaram apoio à Ucrânia, considerando uma derrota russa essencial para conter a ambição chinesa. Os líderes dos quatro parceiros da OTAN no Indo-Pacífico — Austrália, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul — participam agora regularmente das cúpulas da aliança. Paralelamente, Pequim e Moscou também estão estreitando seus laços na Ásia, realizando exercícios e patrulhas com bombardeiros estratégicos nas proximidades de aliados dos EUA, inclusive durante grandes encontros multilaterais.

A percepção de ameaça por parte dos aliados mudou não apenas na dimensão de segurança, mas também — e talvez de forma mais marcante — nas dimensões econômica e tecnológica. Governos asiáticos e europeus passaram a ver a China da mesma forma que os Estados Unidos a veem há muito tempo: uma potência mercantilista que atenta contra os fundamentos de sua força industrial. Líderes europeus falam agora em um segundo "choque da China" — uma enxurrada de produtos manufaturados subsidiados que, como afirmou Macron, estão "literalmente matando grande parte da indústria europeia". Von der Leyen alertou para as "capacidades excessivas" da China, que "corroem nossa própria base manufatureira", e classificou a situação como "simplesmente insustentável". Merz sugeriu um novo Acordo de Plaza para forçar a valorização da moeda chinesa.

Nada disso constitui, ainda, uma política aliada unificada. A convergência quanto à natureza da ameaça não implica um alinhamento total em relação à resposta, seja na dimensão de segurança ou na econômica; Há divergências, também, sobre a extensão da redução de riscos em relação à China, como equilibrar interesses econômicos e de segurança e como conduzir as políticas referentes a Taiwan e à Ucrânia. No entanto, um diagnóstico compartilhado é pré-requisito para uma ação conjunta e, pela primeira vez em uma geração, os diagnósticos estão começando a convergir.

Essa convergência é um fato geopolítico notável. Mesmo durante a Guerra Fria, os aliados divergiam quanto à percepção de ameaças: a Alemanha Ocidental buscava a Ostpolitik e a distensão (détente) enquanto países da linha de frente pressionavam por dissuasão, e a instalação de euromísseis dividia tanto a opinião pública quanto os governos. Sob alguns aspectos, há hoje uma unidade comparativamente maior, mesmo diante de uma ameaça menos urgente. O aspecto particularmente transformador é que o Atlântico e o Pacífico estão deixando de funcionar como espaços estratégicos totalmente distintos — preparando o terreno para esforços de aliança verdadeiramente globais, ainda que seja pouco provável que a administração Trump aproveite essa convergência nos próximos dois anos e meio.

LAÇOS QUE UNEM

Não restam dúvidas de que os aliados buscam reduzir riscos em relação aos Estados Unidos em áreas-chave por meio de novas coalizões de potências médias. Contudo, essa tendência de redução de riscos está sendo contrabalançada e, em última análise, superada por megatendências mais amplas: o forte crescimento das exportações chinesas no âmbito econômico, a revolução da IA ​​no campo tecnológico e o aumento dos gastos com defesa na esfera militar. Esses fatores estão criando novos vínculos com Washington mais rapidamente do que os antigos podem ser rompidos.

No âmbito econômico, os Estados Unidos absorvem atualmente cerca de 20% a 30% de todas as exportações dos aliados — uma parcela muito maior do que a de apenas cinco anos atrás —, à medida que a China compra menos. No ano passado, mesmo em meio à guerra comercial, a Europa, o Japão e a Índia exportaram significativamente mais para os Estados Unidos do que para a China; nos últimos cinco anos, as exportações para a China caíram cerca de 15% para a Europa, 20% para o Japão, 20% para a Coreia do Sul e 20% para a Índia — enquanto as exportações para os Estados Unidos cresceram cerca de 30% para a Europa, a Coreia do Sul e a Índia, respectivamente. Essa dependência do mercado americano só tende a aumentar: o segundo "choque da China" tornará o mercado dos EUA uma tábua de salvação ainda mais crítica. Além disso, os esforços de reindustrialização dos EUA dependem cada vez mais de investimentos e do compartilhamento de tecnologia por parte dos aliados — abrangendo desde a construção naval até semicondutores e baterias —, o que reforça a interdependência.

A tecnologia também apresenta uma dependência crescente em ambas as direções, em parte devido à revolução da IA. Multiplicam-se os relatos de governos europeus instruindo autoridades a abandonar o Microsoft Teams e o Zoom, migrar para fora de sistemas operacionais americanos e criar alternativas "soberanas" em nuvem e IA. No entanto, a nova onda de inovação tecnológica está recriando a dependência dos aliados. A dependência de ontem em relação aos sistemas operacionais americanos para dispositivos móveis e computadores de mesa não diminuiu; agora, os aliados dos EUA também dependem de infraestrutura de nuvem, chips avançados e modelos de IA americanos. Três "hiperescaladores" dos EUA — Amazon, Google e Microsoft — detêm cerca de dois terços do mercado global de nuvem, enquanto os provedores europeus detêm apenas 15% de seu próprio mercado interno. Espera-se que os hiperescaladores americanos gastem mais de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA em 2026, contra gastos soberanos europeus de cerca de US$ 13 bilhões. E essa disparidade está aumentando. Por enquanto, os esforços da Europa são excessivamente modestos, regulamentados, fragmentados e focados em aliviar restrições governamentais — em vez de promover o uso comercial — para alterar fundamentalmente as dependências acumuladas ao longo de décadas. (Enquanto isso, os Estados Unidos continuarão dependentes de máquinas de litografia holandesas, sistemas ópticos e lasers alemães, produtos químicos japoneses e fábricas de semicondutores de Taiwan para sua agenda de IA.)

A verdadeira história das alianças dos EUA é marcada por crises recorrentes.

É no âmbito militar que os laços podem ser mais estreitos. Os esforços dos aliados para reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos estão sendo contrabalançados pelo fato de que cada aliado busca, simultaneamente, o maior fortalecimento de suas capacidades de defesa em uma geração — em resposta às crescentes ameaças da China e da Rússia —, o que acaba por aproximá-los ainda mais de Washington. Na Ásia, essa lógica é evidente. Mesmo enquanto Trump critica periodicamente seus aliados asiáticos em seus discursos, Taiwan solicitou a compra de US$ 25 bilhões em novos armamentos americanos; o Japão buscou adquirir mais caças F-35 e mísseis Tomahawk, ao mesmo tempo em que integrava suas estruturas de comando às dos EUA; a Coreia do Sul buscou cooperação para novos submarinos nucleares; e a Índia aprofundou sua dependência de motores a jato americanos. Embora a Europa tenha avançado mais na redução dessa dependência, os vínculos permanecem fortes também nessa região. Mais de 80% do novo esforço de rearmamento europeu, avaliado em US$ 860 bilhões, está totalmente aberto a empresas americanas; quanto aos 20% restantes — destinados exclusivamente a empresas europeias —, existem diversas exceções que permitem a participação americana. As novas empresas europeias de destaque em tecnologia de defesa, como a Helsing e a Stark, recebem financiamento substancial de capital americano, proveniente de locais que vão de Nova York a Menlo Park. Além disso, nos últimos anos, a parcela de aquisições de defesa europeias destinada a empresas americanas cresceu — segundo uma métrica — de cerca de 28% no período 2019–2021 para 51% em 2022–2024, à medida que a urgência da guerra na Ucrânia gerou uma demanda que apenas os Estados Unidos conseguiam suprir com a rapidez e a escala necessárias. Mesmo quando canadenses e europeus optam por não adquirir certas plataformas americanas e passam a comprar uns dos outros, essas novas plataformas — que levarão uma década para serem entregues — aprofundam a dependência dos EUA para a infraestrutura de guerras de alta intensidade, como os sistemas de enlace de dados táticos que viabilizam o comando e controle aliado. Ademais, os aliados europeus não dispõem de alternativa aos EUA para sistemas espaciais de alerta antecipado de mísseis ou para capacidades críticas de inteligência, vigilância e reconhecimento. Até mesmo Merz admitiu que a Europa "continuará dependente dos Estados Unidos da América por muito tempo".

A estratégia de proteção de riscos adotada por potências médias não está sendo apenas superada por forças maiores; ela também é menos indicativa de problemas nas alianças do que muitos acreditam. As potências médias continuam a colaborar com Washington mesmo enquanto buscam estabelecer novas relações em outras partes. E, na maioria dos casos, essas novas relações são firmadas com aliados e parceiros dos EUA — muitas delas abrangendo diferentes teatros de operações de maneiras que Washington há muito incentiva, tendo atores-chave como Índia e Japão no centro. O que hoje parece ser uma estratégia de redução de riscos servirá, a longo prazo, como um reinvestimento na rede de alianças e nas capacidades que Washington sempre buscou fortalecer: produção de defesa, resiliência das cadeias de suprimentos e interoperabilidade. As políticas da administração Trump podem ter servido de impulso, mas o aumento da coesão e da capacidade dos aliados perdurará para além de seu mandato.

O VERDADEIRO "ESTADO PROFUNDO"

Não são apenas forças externas às alianças que as aproximam, mas também forças internas. Trump e sua equipe tentaram extirpar um suposto "Estado profundo" de ativistas com mentalidade progressista (woke), mas o verdadeiro Estado profundo é, ao mesmo tempo, mais prosaico e mais consequente. Profissionais dedicados às alianças conduzem o trabalho diário de cooperação longe dos holofotes e das críticas públicas: planejadores militares e oficiais de inteligência, especialistas em controle de exportações e sanções, banqueiros centrais e negociadores comerciais, além dos engenheiros e responsáveis ​​por normas técnicas que garantem a interoperabilidade entre os sistemas dos aliados. Eles formam uma rede densa de relacionamentos, construída e cultivada ao longo de décadas. Por ser um trabalho de natureza técnica — e não política — e por se desenvolver em escalas de tempo que abrangem anos ou até décadas, ele é lento tanto para ser construído quanto para ser desmantelado. É justamente essa natureza pouco chamativa que confere às alianças uma estabilidade fundamental diante de ciclos políticos turbulentos.

Essa dinâmica constante fica evidente na quantidade de iniciativas que prosseguiram — e até se aprofundaram — durante a administração Trump, apesar das tensões no alto escalão. Mesmo quando a Índia fervilhava de indignação com as tarifas recordes impostas pelos Estados Unidos, a relação na área de defesa permaneceu imune à disputa comercial: em outubro de 2025, os dois países assinaram um novo acordo de defesa de dez anos, reforçando a interoperabilidade em todos os domínios. O AUKUS, submetido a uma revisão cética do Pentágono sob a ótica do "America First" (América em Primeiro Lugar), saiu ileso do processo, tendo sobrevivido, até aquele momento, a mudanças de governo nos três países membros. Nas Filipinas, o exercício militar anual chamado Balikatan (que significa "ombro a ombro") expandiu-se em 2025 para sua maior edição de todos os tempos, contando com 16.000 soldados, planos de contingência aliados e forças japonesas. As tensões comerciais com a Coreia do Sul não impediram uma maior colaboração em submarinos nucleares.

O Congresso também tem desempenhado um papel na manutenção da solidez dessas relações. Apesar da polarização, maiorias bipartidárias continuam a apoiar a OTAN, parcerias no Indo-Pacífico — como o AUKUS e o Quad — e a integração da indústria de defesa. Quaisquer que sejam as disputas sobre a divisão de encargos e o comércio, poucos membros sérios de qualquer um dos partidos defendem o abandono total ou mesmo parcial das estruturas de aliança. Até mesmo a liderança republicana adota uma postura mais convencional a esse respeito. Thune, por exemplo, declarou: "Temos muitas pessoas que consideram a OTAN uma aliança fundamental e incrivelmente bem-sucedida do pós-Segunda Guerra Mundial. E acredito que, no mundo atual, precisamos de aliados". De fato, o Congresso proibiu a retirada da OTAN sem a aprovação expressa do Legislativo.

Os aliados americanos, por sua vez, às vezes parecem endossar uma espécie de pensamento mágico em relação aos Estados Unidos: o desejo de manter visões historicamente favoráveis ​​sobre o país, apesar de evidências em contrário. O Japão — apesar de sérias queixas sobre as tarifas dos EUA e a política de distensão branda de Trump em relação a Pequim, bem como a falha flagrante de Washington em apoiar a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi diante da intensa pressão chinesa — está determinado a agir como se a aliança permanecesse tão forte quanto sempre. O Reino Unido tem se apegado com determinação semelhante à ideia de uma "relação especial", e o secretário-geral da OTAN saudou a administração com uma confiança na relação que muitos acham difícil de explicar. Parte disso reflete uma fé genuína no sistema de alianças; outra parte representa uma espécie de pragmatismo do tipo "fingir até superar a era Trump". Independentemente disso, a retórica traz benefícios estabilizadores que podem, efetivamente, ganhar tempo.

APRÈS MOI

A persistência dos aliados diante da hostilidade trumpista não é motivada apenas pelos imperativos atuais de segurança e economia. Ela também reflete a compreensão intuitiva de que as alternativas prováveis ​​a um mundo garantido pelo sistema de alianças são consideravelmente piores para os aliados. Mesmo os danos reais que Trump causou à confiança e à previsibilidade deixam a estrutura de alianças como a melhor opção.

A primeira alternativa possível para os aliados é a multipolaridade global: um mundo sem regras, sem alinhamentos fixos e onde cada Estado age por conta própria. Esse cenário hobbesiano poderia gerar uma guerra catastrófica, como ocorreu antes da Primeira Guerra Mundial. Isso levaria pequenos Estados a perderem soberania, potências médias a adquirirem armas nucleares e grandes potências a entrarem em corridas armamentistas. Uma segunda alternativa — esferas de influência — acrescenta uma certa estrutura de estabilização, à medida que cada grande potência governa sua própria vizinhança e os Estados Unidos se retraem para o Hemisfério Ocidental. No entanto, as grandes potências contestam perpetuamente as esferas umas das outras, como fizeram após as Guerras Napoleônicas e novamente após Yalta; além disso, as esferas não conseguem impedir guerras de cadeias de suprimentos nem enfrentar desafios transnacionais, que vão da IA ​​à elevação do nível do mar. Uma terceira possibilidade, que proporciona ainda mais ordem do que as duas anteriores, é um "concerto" de grandes potências que gere uma paz administrada entre as principais capitais. Mas isso parece implausível hoje, quando as grandes potências não conseguem sequer cooperar no enfrentamento das mudanças climáticas, muito menos definir a configuração completa da ordem mundial. E, mesmo que esses dois últimos cenários se mostrassem viáveis, seriam muito menos favoráveis ​​aos interesses econômicos e de segurança dos atuais aliados dos EUA.

Uma quarta alternativa é mais provável do que as três anteriores: a preeminência parcial da China. A multipolaridade, as esferas de influência e os concertos de grandes potências pressupõem uma igualdade geral entre as grandes potências, o que parece improvável dada a enorme escala da China: o país possui o dobro da capacidade industrial dos Estados Unidos, uma economia 30% maior em termos de poder de compra, a maior marinha do mundo, um superávit comercial global sem precedentes de US$ 1,2 trilhão e uma liderança dominante em tecnologias que vão de veículos elétricos à robótica. Essa preeminência parcial criaria um mundo organizado em torno da deferência a Pequim, sustentada pela massa crítica chinesa, deixando os Estados Unidos e seus parceiros industrialmente esvaziados, tecnologicamente superados, comercialmente deslocados, possivelmente derrotados militarmente e despojados de empregos bem remunerados. A dependência resultante em relação à China levaria os Estados Unidos e seus parceiros a descerem na cadeia de valor global, passando a atuar em setores como mercado imobiliário, turismo, commodities, finanças e, talvez, evasão fiscal transnacional.

Torna-se cada vez mais claro para os formuladores de políticas nas capitais aliadas — assim como deveria ficar claro para os líderes americanos da era pós-Trump — que a escala proporcionada pela aliança é o único caminho para equilibrar o poder da China, representando uma quinta alternativa para a ordem mundial futura. Isso envolveria a união de mercados, investimentos, tecnologia e capacidades militares dos aliados, com as alianças funcionando como plataformas para o desenvolvimento de capacidades, e não apenas para a dissuasão militar. Essa união geraria uma coalizão com um PIB (ajustado pelo poder de compra) e gastos militares mais de duas vezes superiores aos da China; seria a principal produtora de patentes ativas e publicações mais citadas, além de principal parceira comercial da maioria dos países do mundo, respondendo por metade da manufatura global, em comparação com um terço da China. Longe de inviabilizar tal escala aliada, as realidades estruturais tornam sua concretização mais provável, evidenciando sua necessidade, ao mesmo tempo em que as respostas às políticas de Trump colocam os aliados dos EUA em posição de oferecer mais a Washington.

Um dos indicadores mais importantes da viabilidade desse caminho é o empenho de Pequim em frustrá-lo. Cientistas políticos como William Wohlforth e Victoria Tin-bor Hui constataram que, ao longo da história, Estados dominantes buscaram ativamente dividir as coalizões formadas contra eles antes que essas coalizões pudessem se consolidar. Mesmo a aliança da Guerra Fria no século XX — que acabou sendo um grande sucesso — enfrentou desafios, com Moscou interferindo abertamente na política da Europa Ocidental para tentar afastar a Europa dos Estados Unidos. Com esse mesmo objetivo, Pequim adota uma estratégia para dividir coalizões, explorando seu controle sobre as cadeias globais de suprimentos para ameaçar ou punir outros governos. Isso inibe a ação coletiva, pois cada país — ao receber, em alguns casos, concessões específicas — tem motivos para buscar seu próprio acordo em vez de manter a unidade com os demais. No entanto, o que chama a atenção hoje é o pouco resultado que esses esforços chineses alcançaram até agora, apesar de tudo o que Trump fez para favorecer a causa de Pequim.

DA SOBREVIVÊNCIA À ESCALA

Na esteira de Trump, a escala aliada não surgirá por si só. Como qualquer projeto de construção ambicioso, exigirá engenheiros e um plano. Mas isso é mais plausível do que parece. Todas as renovações bem-sucedidas do sistema de alianças foram impulsionadas por uma agenda virada para o futuro, e não por uma restauração nostálgica, e o choque do segundo mandato de Trump está a enterrar a nostalgia e a estimular um acerto de contas necessário, tanto em Washington como nas capitais aliadas.

Um maior pragmatismo deveria substituir o actual pessimismo em Washington, em parte para que não se torne desnecessariamente numa profecia auto-realizável que torne o caminho a seguir mais difícil. A passagem da documentação de desafios para a discussão de soluções já era necessária. A questão de como reconstruir e reformar a estrutura da aliança dos EUA deve tornar-se uma questão central no debate “o que vem a seguir” antes das eleições presidenciais dos EUA em 2028.

Muitos duvidam que qualquer uma dessas opções ainda seja possível. E, no entanto, o modelo já existe em todas as administrações e está a ser utilizado até agora. As suas características definidoras têm sido consistentes há muito tempo: impulsionadas pela Casa Branca, construídas em torno de projectos concretos e organizadas através de coligações ad hoc de aliados dispostos. A administração Biden trabalhou desta forma para lançar o AUKUS e sustentar a coligação por trás da Ucrânia. Por vezes, o mesmo aconteceu com a administração Trump – fornecendo recursos para iniciativas herdadas, como o Pilar 2 do AUKUS, de novas formas significativas e procurando novas, como uma parceria de minerais críticos com mais de 50 países que o Vice-Presidente JD Vance descreveu como um “bloco comercial entre aliados e parceiros”. O facto de o mesmo modelo ter surgido sob administrações tão diferentes é a prova mais forte de que a escala aliada é alcançável depois de Trump.

O primeiro passo é uma avaliação partilhada do desafio – e como sugere a convergência descrita acima, as percepções aliadas da China e da Rússia estão a alinhar-se pela primeira vez numa geração. Construir essa percepção partilhada exigirá virar a página da era actual e fazer esforços proactivos para reconstruir a confiança. Washington terá de persuadir os aliados de que os seus movimentos mais ofensivos foram o produto de uma personalidade particular e não de uma mutação permanente no sistema político. Um repúdio claro e bipartidário às ameaças militares contra a Gronelândia ajudaria. O mesmo aconteceria com uma preferência deliberada por compromissos que durem mais que qualquer presidente: as ordens executivas podem ser revogadas com uma assinatura, mas os estatutos são muito mais difíceis de reverter, e são os estatutos que dão aos aliados a confiança necessária para fazer investimentos medidos em décadas.

Um exercício militar conjunto em Funabashi, Japão, janeiro de 2026
Kim Kyung-Hoon / Reuters

Também seria sensato começar com projetos pequenos e concretos que demonstrem o valor da escala da aliança em casos específicos e criem reservas de confiança. Vitórias rápidas geram confiança, e há espaço para iniciativas experimentais inovadoras em áreas como cadeias de suprimentos farmacêuticos e coprodução de munições. A palavra de ordem deve ser humildade. O instinto pode ser buscar acordos de aliança abrangentes, mas é preciso resistir a esse impulso. Se iniciativas pontuais focassem nas áreas de maior consenso — um ponto de estrangulamento onde o controle chinês é particularmente acentuado, por exemplo —, um resultado positivo expressivo poderia criar impulso. Isso também poderia ajudar a superar obstáculos no cenário político interno.

Isso poderia lançar as bases para a transição de projetos pequenos para iniciativas mais amplas e ambiciosas, envolvendo mais parceiros. O princípio norteador desses projetos deve ser o benefício mútuo, expresso por meio de fluxos bidirecionais de capacidade. O modelo tradicional de aliança tratava os parceiros como dependentes — meros receptores de proteção e acesso a mercados americanos. Uma coalizão sustentada por concessões unilaterais é frágil. A dependência mútua, por outro lado, criaria bases de apoio para o relacionamento em cada capital; por isso, os projetos iniciais devem ser concebidos para gerar vitórias políticas visíveis em todos os países aliados. Novas capacidades dos aliados — e uma compreensão clara, por parte dos eleitores americanos, dos custos de desperdiçá-las — poderiam tornar possível esse tipo de reciprocidade genuína, algo que simplesmente não era viável há poucos anos.

Em última análise, renovar as alianças exigirá um propósito afirmativo. Não pode ser apenas uma postura defensiva contra a China, uma coalizão definida pelo que ela combate. Ela precisa defender algo — uma ordem aberta, próspera e tecnologicamente dinâmica, na qual seus membros queiram ativamente estar e à qual outros queiram aderir. Começar a elaborar essa visão deve ser uma tarefa central da política externa dos EUA nos próximos anos.

No momento, essa perspectiva pode parecer otimista. Mas isso torna ainda mais imperativo recordar a gravidade das crises do passado e a força dos fatores estruturais atuais. Os interesses dos Estados Unidos e de seus parceiros ainda convergem, e essa lógica se intensificou à medida que o poder da China e o alinhamento de outras potências revisionistas cresceram. Seria sensato que os aliados dos EUA se lembrassem de que, apesar de toda a sua legítima indignação e ansiedade, os americanos de hoje são os únicos americanos com quem podem contar. No entanto, seria ainda mais sensato que os americanos invertessem a advertência de Carrington. Em um momento em que os Estados Unidos precisam de seus aliados mais do que nunca, a tolerância é essencial. Afinal, eles são os únicos aliados que os americanos têm.

KURT M. CAMPBELL é presidente e cofundador do Asia Group. Ele atuou como vice-secretário de Estado e coordenador para o Indo-Pacífico no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden.

RUSH DOSHI é professor assistente na Universidade de Georgetown e diretor da Iniciativa de Estratégia para a China no Council on Foreign Relations. Ele atuou como vice-diretor sênior para Assuntos da China e de Taiwan no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden.

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