7 de julho de 2026

O papel fundamental da Turquia na OTAN não é uma contradição

A Turquia, que sedia a cúpula da OTAN desta semana, possui o segundo maior exército da aliança. Seu papel estratégico em uma ordem mundial dominada pelos EUA há muito supera quaisquer preocupações quanto à sua falta de padrões democráticos.

Oğul Tuna

Jacobin

Centenas de pessoas foram presas em Ancara antes da cúpula da OTAN desta semana. A repressão na capital turca representa menos uma contradição em relação aos valores declarados da OTAN do que uma demonstração de como a militarização se sobrepõe à democracia. (Saul Loeb / AFP via Getty Images)

A cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizada nesta semana na capital turca começou em um cenário já conhecido: a repressão policial a qualquer pessoa que manifestasse discordância em relação à aliança. Antes da reunião, Ancara foi submetida ao que equivalia a um quase estado de emergência. Sem declarar formalmente o estado de emergência, o gabinete do governador proibiu praticamente todas as formas de protesto e manifestação política pública entre 28 de junho e 10 de julho. O fechamento de vias e parques, o esvaziamento de alojamentos estudantis, esquemas especiais de segurança e barreiras de credenciamento para jornalistas transformaram a capital em uma zona de segurança reforçada, onde a expressão política e a vida urbana cotidiana foram temporariamente suspensas.

Autoridades enfatizaram repetidamente os riscos de segurança em torno da cúpula. No entanto, a dimensão da repressão apontava para algo mais revelador: centenas de pessoas foram detidas em operações realizadas antes do evento, incluindo acadêmicos, jornalistas, advogados, sindicalistas e figuras da sociedade civil.

Esses dados revelam não apenas a erosão do Estado de Direito na Turquia, mas também a importância contínua de Ancara dentro da aliança. De fato, embora os líderes da OTAN frequentemente afirmem que o bloco se baseia em valores compartilhados de democracia e Estado de Direito, a repressão na Turquia raramente ameaçou a posição do país no bloco. Não é difícil entender o motivo. A Turquia possui o segundo maior exército da OTAN, controla o acesso entre o Mar Negro e o Mediterrâneo, faz fronteira com o Oriente Médio e o Cáucaso e mantém influência diplomática que se estende da Ucrânia à Síria. Seu valor estratégico há muito supera as preocupações liberais, e o país demonstra novamente, hoje, sua importância para o bloco. A Turquia sedia o encontro da OTAN em um momento em que a guerra na Ucrânia, a devastação de Gaza e a escalada do conflito em torno do Irã estão remodelando regiões diretamente ligadas a um dos membros mais estrategicamente importantes da aliança.

O papel fundamental da Turquia na OTAN não deve ser encarado como uma contradição ou um constrangimento temporário. O histórico do país mostra que o flanco sudeste da aliança frequentemente dependeu do reforço mútuo entre prioridades de segurança externa e autoritarismo interno.

Desde a Guerra Fria, o papel da Turquia como Estado de fronteira anticomunista ajudou a consolidar um aparato de segurança voltado não apenas contra inimigos externos, mas também contra a esquerda interna, os sindicatos e outras formas de dissidência. Esse aparato não operava apenas por meio de uma ideologia abstrata: era sustentado por ajuda militar, bases, cooperação de inteligência, treinamento de oficiais e uma doutrina de segurança anticomunista que associava os inimigos internos da Turquia à ameaça soviética global.

Para compreender o lugar da Turquia na OTAN hoje, é preciso retornar às origens dessa relação: a formação de um Estado de fronteira no início da Guerra Fria.

A Turquia como fronteira anticomunista da OTAN

A narrativa oficial turca sobre a adesão à OTAN é geralmente apresentada como uma história de necessidade estratégica e de vocação ocidental do país. A república fez uma "escolha histórica" ​​após a Segunda Guerra Mundial ao alinhar-se ao "mundo livre" e ao bloco ocidental — uma escolha "coroada" pela entrada na OTAN em 1952. A partir desse momento, a OTAN tornou-se, na retórica oficial, o pilar da política de defesa e segurança da Turquia, ao passo que o próprio país assumiu a defesa da fronteira sudeste da aliança durante toda a Guerra Fria.

Havia uma base material para essa narrativa. A Turquia emergiu da guerra diplomaticamente isolada, economicamente debilitada e militarmente vulnerável. Em 1945, a União Soviética denunciou o Tratado de Amizade de 1925 entre os dois países e pressionou Ancara quanto ao futuro dos Estreitos Turcos; os líderes turcos também temiam exigências de bases militares e revisões territoriais no leste da Anatólia. Esses receios contribuíram para aproximar Ancara de Washington.

O papel da Turquia como Estado de fronteira anticomunista ajudou a consolidar um aparato de segurança voltado não apenas contra inimigos externos, mas também contra a esquerda interna, os sindicatos e outras formas de dissidência.

No entanto, essa história fundadora sempre esteve carregada de conotações políticas. Durante décadas, as “exigências soviéticas” funcionaram na memória oficial turca como um ponto de origem quase mítico: a prova de que a Turquia não tinha outra escolha senão integrar-se ao sistema militar ocidental. A historiografia recente trouxe complexidade a esse quadro. Onur İşçi demonstra que a liderança turca sentia-se genuinamente vulnerável no período de 1945–1946, mas também contesta a narrativa oficial mais antiga, que apresenta a adesão à OTAN como uma resposta inevitável a uma ameaça soviética simples. A ameaça não foi inventada do nada, mas a decisão de aderir à aliança também foi motivada pela busca da própria Turquia por um lugar em uma nova arquitetura imperial liderada pelos Estados Unidos.

A Guerra da Coreia tornou essa lógica explícita: a decisão da Turquia de enviar tropas foi apresentada como um sacrifício em prol do “mundo livre”, mas também representou uma tentativa de obter admissão na aliança atlântica. Em 1952, a Turquia havia se tornado não apenas uma beneficiária da segurança ocidental, mas um Estado de fronteira militarizado. Seu valor residia em seu contingente humano, em seu anticomunismo e também em sua proximidade geográfica com a União Soviética, os Bálcãs, o Cáucaso e o Oriente Médio.

A esquerda turca contra a Aliança

Em março de 1968, Behice Boran, uma das principais figuras da esquerda turca, encerrou um artigo intitulado “Por que devemos sair da OTAN” com uma formulação marcante: “Na base da dependência dos governos anteriores em relação aos Estados Unidos, de sua entrada na OTAN e da insistência do governo atual em permanecer na OTAN, não estão razões ou considerações militares, mas sim políticas e econômicas”. A burguesia interna da Turquia, argumentava ela, havia aberto o país ao capital estrangeiro, aos empréstimos externos e à influência militar e política dos Estados que os sustentavam. “Os acordos bilaterais e a OTAN”, escreveu Boran, “constituem a frente militar das relações econômicas e financeiras da Turquia com o mundo capitalista”. Para Boran, a adesão à OTAN representava mais do que um simples acordo de segurança; era a expressão militar do capitalismo dependente da Turquia.

A década de 1960 na Turquia foi marcada pelo rápido crescimento da esquerda. O golpe militar de 27 de maio de 1960 — ou a "Revolução de 27 de Maio", como muitos setores de esquerda a denominavam na época — gerou uma nova ordem constitucional que abriu um espaço limitado, porém real, para a política socialista, o sindicalismo, o ativismo estudantil e o debate público. O Partido dos Trabalhadores da Turquia, o primeiro partido socialista a ingressar no parlamento na história republicana, conquistou cadeiras em 1965 e tornou-se a expressão mais visível dessa nova corrente socialista. Boran viria a liderá-lo na década de 1970.

A adesão à OTAN representou mais do que apenas um acordo de segurança; foi a forma militar do capitalismo dependente da Turquia.

À medida que a esquerda turca ganhava força, uma reação nacionalista-conservadora, religiosa-conservadora e anticomunista crescia paralelamente. Apoiada por setores do Estado, pela imprensa de direita e pelos aliados ocidentais da Turquia, essa reação retratava trabalhadores, estudantes e intelectuais de esquerda como agentes de "Moskof" — um antigo termo pejorativo para os russos, ressignificado para a propaganda da Guerra Fria. Associações anticomunistas e redes educacionais religiosas-conservadoras ajudaram a transformar essa política em uma infraestrutura social, formando quadros que, a partir da década de 1970, ingressariam em partidos, ministérios, municípios, associações empresariais e, por fim, nos altos escalões do Estado turco. A OTAN e os Estados Unidos eram apresentados como as únicas barreiras contra uma renovada ameaça russa, associando o anticomunismo contemporâneo a memórias mais antigas de conflitos entre o Império Otomano e a Rússia.

No entanto, esse período também testemunhou a primeira grande ruptura entre a Turquia e a aliança. A questão de Chipre, que ainda paira sobre as relações da Turquia com o Ocidente, demonstrou tanto ao Estado turco quanto aos cidadãos comuns que a adesão à OTAN não garantia apoio automático. A Carta Johnson de 1964, enviada pelo novo presidente dos EUA, deixou isso dolorosamente claro: a Turquia poderia ser contida por seu principal aliado mesmo ao enfrentar uma crise envolvendo outro membro da OTAN, a Grécia. Para a direita turca, contudo, isso não alterou fundamentalmente o cenário estratégico. A maior ameaça ainda era vista como proveniente do norte, da União Soviética.

Apesar da força da propaganda anticomunista, a esquerda não pôde ser totalmente contida pelo memorando militar de 1971, o que forçou uma guinada autoritária. A repressão foi severa, mas insuficiente para extinguir a política de esquerda e a militância sindical. No final da década de 1970, porém, a violência política, a crise econômica e a polarização da Guerra Fria criaram as condições para uma intervenção mais decisiva. O que parecia ser violência de rua era também uma disputa pelo futuro do Estado, das relações trabalhistas e do lugar da Turquia na ordem da Guerra Fria. Em 12 de setembro de 1980, o exército interveio mais uma vez. Na frase frequentemente citada e atribuída a Paul Henze, chefe da estação da CIA em Ancara, "nossos garotos" haviam realizado a tarefa.

O Islã político e o capital

O golpe militar de 1980 não se limitou a esmagar a esquerda turca. Ele também consumou uma longa transformação nas bases ideológicas da ordem anticomunista da república. Doğan Avcıoğlu e muitos militantes da geração de 1968 situavam a ruptura decisiva não em 1980, mas na consolidação, após 1950, de um regime capitalista dependente, pró-americano e anticomunista. Embora sua leitura pudesse, por vezes, idealizar um projeto republicano anterior, ela captava algo essencial: no final da Guerra Fria, a ideologia dominante do Estado turco já não era o republicanismo nacional-desenvolvimentista, mas sim uma síntese de direita composta por tutela militar, capitalismo neoliberal, lealdade à OTAN e conservadorismo religioso.

No final da Guerra Fria, a ideologia dominante do Estado turco já não era o republicanismo nacional-desenvolvimentista, mas sim uma síntese de direita composta por tutela militar, capitalismo neoliberal, lealdade à OTAN e conservadorismo religioso.

O falecido teórico marxista Yalçın Küçük compreendeu essa transformação com clareza incomum, mesmo enquanto ela ganhava forma. Escrevendo às vésperas do golpe de 1980, ele argumentou que o capital turco, diante do agravamento da desigualdade e da derrota da esquerda organizada, precisaria não apenas de repressão militar, mas também de uma disciplina religiosa mais profunda. O exército, em sua visão, poderia reprimir partidos islâmicos como concorrentes políticos e, simultaneamente, adotar uma versão mais intensa de conservadorismo religioso. Esse era o paradoxo da ordem pós-1980: não a vitória do islamismo sobre o Estado, mas sim o Estado utilizando o Islã para fins anticomunistas.

Nesse sentido, Küçük antecipou, em um contexto especificamente turco, o argumento posterior de Samir Amin sobre o "Islã político a serviço do imperialismo": o Islã político poderia crescer não fora das estruturas de segurança ocidentais, mas dentro de uma ordem de Guerra Fria que armava os militares, vinculava a Turquia à OTAN e atrelava suas classes dominantes ao capital internacional. Isso também altera a forma como devemos compreender a ascensão posterior do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Recep Tayyip Erdoğan. Da síntese turco-islâmica dos anos pós-golpe ao conservadorismo neoliberal, o caminho para o AKP foi preparado no âmbito da configuração política estabelecida após 1980. O partido não representou uma ruptura total com a ordem da OTAN na Turquia, por mais que sua retórica por vezes entrasse em conflito com o Ocidente. Ele foi a forma política mais bem-sucedida gerada por aquele arranjo: pró-mercado, antiesquerda, socialmente conservador e capaz de transformar o antigo Estado anticomunista em uma nova hegemonia islâmico-conservadora.

Poder de negociação

A Turquia já não ocupa a mesma posição que detinha no início da Guerra Fria. Não é simplesmente o posto avançado da OTAN no sudeste contra a União Soviética, nem apenas uma fronteira militar que guarda o Bósforo, o Mar Negro e as vias de acesso ao Oriente Médio. Hoje, Ancara atua como uma força de negociação dentro da aliança: uma força difícil e frequentemente disruptiva, mas ainda assim indispensável. Seu valor reside na capacidade de transitar entre diferentes palcos — Ucrânia, Síria, Iraque, Cáucaso, Mediterrâneo Oriental, Gaza e Irã — onde o poder ocidental está sobrecarregado ou depende de intermediários regionais.

É por isso que as tensões periódicas da Turquia com a OTAN raramente resultaram em uma ruptura real. Da crise dos S-400 às questões da Síria, Ucrânia e da expansão da OTAN, Ancara transformou repetidamente as tensões com a aliança em vantagem estratégica. Os governos de Erdoğan compreenderam bem isso. Sua política externa frequentemente pareceu oscilar entre o Oriente e o Ocidente — por exemplo, com a retórica sobre a Palestina —, mas esse jogo de equilíbrio não é anti-imperialismo. Trata-se de negociar a partir de dentro da arquitetura do império. Portanto, a retórica antiocidental do AKP não deve ser confundida com uma ruptura com a ordem da OTAN. Sua novidade reside em outro aspecto: ela traduziu a síntese pós-1980 — composta por autoritarismo de Estado voltado para a segurança, capitalismo neoliberal e conservadorismo religioso — em um regime duradouro.

A cúpula de Ancara desta semana, marcada por um forte esquema de segurança, fechou o ciclo dessa história. Um encontro apresentado como uma reunião de aliados democráticos exigiu a supressão de liberdades civis básicas na cidade onde ocorreu. Isso não foi uma contradição acidental, mas um lembrete da continuidade mais profunda na história da Turquia na OTAN: a segurança externa tem fornecido, repetidamente, a linguagem que justifica a repressão interna.

Assim, a história da participação da Turquia na OTAN não é apenas uma história de relações exteriores, mas também uma história de formação de regime. A OTAN ajudou a moldar o Estado anticomunista turco, a repressão à esquerda, a guinada neoliberal e conservadora-religiosa pós-1980 e a posterior ascensão do país como uma potência regional difícil, porém indispensável. A Turquia ingressou na OTAN como um Estado de fronteira anticomunista; agora, atua como uma força de negociação dentro da mesma aliança. Sua posição na OTAN há muito está assegurada não apesar do autoritarismo, mas, muitas vezes, por meio dele.

Colaborador

Oğul Tuna é historiador e escritor que se dedica a temas como a Turquia, a Eurásia, a história intelectual, o socialismo e as culturas políticas do Oriente Médio moderno.

Grandes odisseias cinematográficas para preparar você para A Odisseia

De Preston Sturges e os irmãos Coen a Martin Scorsese e John Ford, a série “Odysseys” do Criterion Channel acompanha o apelo duradouro do épico de Homero no cinema americano.

Eileen Jones

Jacobin

John Turturro, Tim Blake Nelson e George Clooney em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, filme dos irmãos Coen inspirado na Odisseia (Touchstone Pictures)

Há uma nova série no Criterion Channel chamada "Odysseys", claramente concebida para fazer uma conexão com o aguardado épico de Christopher Nolan, The Odyssey, que estreia em breve.

Mas, antes de falar sobre os filmes escolhidos pela Criterion, preciso mencionar que já tive essa conversa algumas vezes no último mês ao discutir, de forma vaga, os lançamentos de filmes de verão:

Eu: O próximo que tenho de analisar é The Odyssey.

Eles: Sobre o que é?

Eu: É, você sabe, A Odisseia.

Eles: [olhar vazio]

Eu: A Odisseia de Homero? Ulisses? A tentativa de voltar para casa depois da Guerra de Troia? Sereias? Ciclope? Tudo isso?

Eles: [fingindo reconhecer] Ah! Ah, sim. Certo, certo. Essa Odisseia.

Portanto, é um gesto mais ousado do que parece criar uma série de filmes que remete tanto ao épico de Homero quanto ao "grande filme novo de Christopher Nolan estrelado por Matt Damon", sem sequer explicitar a conexão, partindo do princípio de que o público a compreenderá sem precisar de explicações. O pessoal do Criterion Channel é como os monges irlandeses da Idade Média, que preservaram o conhecimento de toda uma civilização em manuscritos iluminados. Eles seguem firme em seu trabalho, independentemente de que tipo de bobagem ignorante tenha tomado conta do mundo lá fora.

Dentre os filmes escolhidos por Sean Fennessey — coprogramador da Criterion e integrante dos podcasts do The Ringer —, apenas E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) — a deliciosa comédia embalada por música de raízes americanas, escrita e dirigida por Joel e Ethan Coen — faz referência direta a A Odisseia do início ao fim. Ambientado no Mississippi árduo da época da Grande Depressão, o filme acompanha um vigarista eloquente e contador de histórias chamado Ulysses Everett McGill (George Clooney), que escapa de uma corrente de prisioneiros (um grupo de detentos acorrentados uns aos outros) junto com dois companheiros de cela presos a ele: Pete e Delmar (John Turturro e Tim Blake Nelson). Everett tem pressa para voltar para casa porque soube que sua esposa, Penny (Holly Hunter) — de quem está separado —, está sendo cortejada com insistência e pode acabar se casando novamente em breve.

Mas Everett não conta nada aos seus amigos sobre os seus verdadeiros motivos, enganando-os, em vez disso, com uma história tentadora sobre um esconderijo de dinheiro de assalto a banco que deve ser recuperado dentro de alguns dias, antes que o governo de Franklin Delano Roosevelt inunde o Vale do Tennessee e “energize todo o estado desolado”.

Em sua jornada, o trio de fugitivos encontra muitos obstáculos, todos previstos por um vidente cego, assim como na Odisséia de Homero, aqui retratado como um velho trabalhando em um carrinho de bomba ao longo de uma ferrovia:

Vocês buscam uma grande fortuna, vocês três que agora estão acorrentados. Você encontrará uma fortuna, embora não seja aquela que você procura. Mas primeiro... primeiro você deve percorrer uma estrada longa e difícil, uma estrada repleta de perigos. ... Não posso dizer quanto tempo este caminho durará, mas não tema os obstáculos em seu caminho, pois o destino concedeu sua recompensa.

Seus obstáculos incluem encontros apropriadamente homéricos com três mulheres sedutoras lavando roupas em um riacho que os atacam com a atração do sexo e do uísque caseiro (as sereias); um enorme vendedor de Bíblias, caolho e língua prateada, que os rouba, interpretado por John Goodman (o Ciclope); uma perturbadora cerimônia de batismo comunitário à beira do lago, onde Pete e Delmar de repente adquirem religião em um rito de imersão total (o interlúdio dos comedores de lótus); e uma terrível sequência noturna, iluminada por tochas e assassina em um comício da Ku Klux Klan (uma variação da viagem de Odisseu ao submundo).

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? até começa com um intertítulo apresentando a frase de abertura do épico de Homero:

Ó Musa! Cante em mim e através de mim conte a história

Daquele homem habilidoso em todas as formas de contenda

Um andarilho, atormentado por anos a fio. ...

Ulysses Everett McGill é aquele andarilho atormentado e “homem de tristeza constante” que finalmente encontra um grande tesouro inesperado na música local constantemente tocada e cantada por sulistas negros e brancos em todo o lugar. Eles estão tão familiarizados com isso que não têm ideia de seu tremendo valor. Esse tema é sinalizado pela primeira música do filme, “Po’ Lazarus”, cantada por verdadeiros prisioneiros de gangues da Penitenciária Estadual do Mississippi, que criaram os sons percussivos com os machados que usavam para cortar toras. Foi gravada em 1959 pelo famoso etnomusicólogo Alan Lomax, que temia a perda de um legado precioso e gravou muitas apresentações musicais de pessoas comuns nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha entre as décadas de 1940 e 1960.

Ironicamente, dadas as inúmeras referências do filme à sua obra de origem, Joel e Ethan Coen sempre sustentaram que jamais leram A Odisseia. É provável que isso não seja verdade, visto que os irmãos Coen são conhecidos por suas brincadeiras e por inventarem histórias fantasiosas. Tim Blake Nelson — que cursou Estudos Clássicos na Universidade Brown e certamente leu A Odisseia — declarou abertamente que não acreditava neles.

No entanto, antigamente, era comum que as pessoas soubessem bastante sobre textos que nunca haviam lido. Certas obras canônicas haviam permeado a cultura de tal forma que as pessoas as conheciam por ouvir dizer, sem nunca ter lido a fonte original — mesmo que a leitura tivesse sido exigida na escola. Era relativamente fácil aparentar mais erudição do que se possuía, simplesmente absorvendo uma grande quantidade de informações por meio de leituras variadas e referências da cultura pop.

Homero através da comédia pastelão americana

Os irmãos Coen certamente conheciam em primeira mão uma fonte diferente para o seu filme: a grande comédia de 1941 de Preston Sturges, Sullivan’s Travels (no Brasil, Contrastes Humanos), que é outro filme do tipo "odisseia" incluído na coleção da Criterion. A trama gira em torno de um diretor de cinema popular em Hollywood, John L. "Sully" Sullivan (Joel McCrea), especializado em comédia pastelão, mas que anseia por abordar questões sociais sérias adaptando um romance realista ambientado na Grande Depressão intitulado — prepare-se — O Brother, Where Art Thou? (E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?), o que sugere que os Coen estavam tentando, finalmente, realizar eles mesmos o grande e importante filme de Sully. Ao tentarem dissuadir o jovem diretor, os dois chefes do estúdio zombam de sua falta de experiência real com a pobreza e o sofrimento:

O que você sabe sobre dificuldades? ... Você quer fazer um épico sobre a miséria. Quer mostrar gente faminta dormindo em entradas de prédios... Quer produzir milhares de metros de filme sobre o infortúnio, e tudo o que eu pergunto é: o que você sabe sobre infortúnio?

Mas a estratégia sai pela culatra quando Sully admite, envergonhado, que passou diretamente de um internato caro para a faculdade e, de lá, para uma carreira como diretor de sucesso em Hollywood. Em vez de desistir do projeto, ele decide aprender na prática. Veste roupas maltrapilhas e sai pelo mundo apenas com dez centavos no bolso e a determinação de compartilhar o sofrimento das pessoas comuns.

Talvez você não consiga voltar para casa, como disse aquele homem. Talvez você deseje não ter voltado.

Muitas aventuras cômicas acontecem quando Sullivan é perseguido na estrada por uma equipe promocional em um luxuoso “iate terrestre”. Ele se livra deles, mas descobre que um de seus maiores problemas é afundar em algo parecido com uma vida de verdadeira privação. Ele nem consegue ficar fora da cidade – não importa como viaje, a pé, de carona ou de trem, ele continua sendo entregue de volta a Hollywood e ao luxo. É tudo menos uma odisseia, como se a maior dificuldade de Odisseu fosse ficar longe de casa e da família em Ítaca o tempo suficiente para viver aventuras.

Mas, eventualmente, em uma reviravolta notavelmente sombria, Sully inadvertidamente consegue encontrar problemas reais quando é preso sob a acusação de agressão e condenado a uma longa sentença em uma gangue de fazendas prisionais no Extremo Sul - certamente uma espécie de submundo vindo diretamente de Homero. Ele está tão além do resgate que, finalmente, sabe o que significa estar realmente em apuros. O sofrimento profundo começa quando não há saída.

Nessas circunstâncias adversas, a grande descoberta de Sully é que a comédia serve de bálsamo para a alma daqueles que vivem em um estado de constante infortúnio. Ele percebe isso quando o grupo de prisioneiros recebe uma rara oportunidade de lazer, oferecida por uma igreja negra que exibe, para seus convidados marginalizados, um antigo desenho da Disney repleto das trapalhadas cômicas de Pluto, o cachorro do Mickey Mouse. Sullivan’s Travels é uma homenagem a todos os criadores de comédia que já existiram — algo explicitado na dedicatória que abre o filme. É também uma defesa, por parte de Sturges, de sua própria obra cinematográfica, em uma época em que Frank Capra era admirado por realizar comédias dramáticas de apelo popular e tom mais sério, que abordavam problemas sociais.

Retornos cinematográficos

Vários outros filmes da série — incluindo Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese; Viagem a Darjeelin (2007), de Wes Anderson; Uma História Real (1999), de David Lynch; e A Longa Caminhada (1971), de Nicolas Roeg — são muito mais ambíguos quanto às bênçãos do retorno ao lar, embora preservem a natureza angustiante de uma jornada árdua, repleta de desvios e obstáculos. Até mesmo as comédias mergulham na sombriedade quando parece que tudo está perdido e não há como voltar para casa — ainda que o "lar" possa acabar sendo apenas um escritório impessoal e monótono e um emprego sem futuro. A comédia de humor negro satírica de Martin Scorsese, Depois de Horas, consegue manter tanto o humor quanto o horror ao longo da trama, na qual Paul Hackett (Griffin Dunne) — um funcionário corporativo que vive a rotina mecânica de digitar dados — decide dar uma animada em sua vida passando uma noite no bairro do SoHo, apenas para acabar se arrependendo amargamente. Ao contrário dos outros filmes da série, esta odisseia restringe-se a uma área urbana claustrofóbica de Manhattan. E Hackett não está em busca de nenhuma grande aventura ou de cumprir uma missão vital.

As ações mais banais o arrastam cada vez mais fundo em um labirinto noturno de estranhezas e ameaças crescentes. Ele tenta se envolver com uma jovem sedutora, porém perturbada (Rosanna Arquette); tenta conseguir dinheiro suficiente para voltar para casa depois de perder sua única nota de 20 dólares em uma corrida de táxi frenética; tenta escapar de uma chuva torrencial quando o único refúgio disponível é o apartamento de uma mulher estranha e desesperadamente carente, com um penteado volumoso estilo "colmeia" (Teri Garr); e tenta se esconder de uma multidão enfurecida, convencida de que ele é o autor de uma série de roubos na região.

Depois de Horas foi uma pequena produção independente, realizada em um momento difícil da carreira de Scorsese, mas rendeu-lhe a Palma de Ouro em Cannes e tornou-se um filme cult. Eu adorei Depois de Horas quando foi lançado e não o via desde então, mas pude apreciar novamente sua visão implacavelmente crua da humanidade e sua representação contundente da angústia modernista. Quando o familiar se torna uma armadilha e o estranho é estranho demais, resta apenas um pavor profundo de todos os lugares, de todas as pessoas e de tudo o mais.

Um dos grandes benefícios desta série é rever uma vasta gama de filmes marcantes — histórias de andarilhos e buscadores que são, alternadamente, trágicas, cômicas, míticas e profundamente pessoais, tocando no anseio humano fundamental de encontrar o caminho de volta ao lugar a que pertencemos. Vale sempre a pena revisitar, por exemplo, a obra-prima de John Ford, Rastros de Ódio (1956) — o único faroeste da retrospectiva da Criterion. O filme gira em torno de um veterano da Guerra Civil violento e racista (John Wayne) e de sua busca vingativa, que dura anos, por sua sobrinha (Natalie Wood), sequestrada pelos comanches durante um ataque à sua casa. O retorno de Wayne ao lar em Rastros de Ódio é famoso por ser profundamente comovente. Após desistir de seu plano bárbaro de assassinar tanto o sequestrador quanto a própria sobrinha — sob a suposição de que ela provavelmente teria sido "maculada" por experiências sexuais com um comanche —, ele devolve a jovem em segurança aos familiares sobreviventes. No entanto, ele permanece excluído do abraço afetuoso e do acolhimento que unem a família naquele reencontro. Na famosa cena final do filme, ele aparece abraçando o próprio corpo com um dos braços, emoldurado pela porta da casa na pradaria, antes de caminhar em direção ao horizonte, levando consigo sua natureza sombria de anti-herói e sua inquietude, elementos que já não encontram lugar construtivo na vida daquelas pessoas.

Talvez a grande felicidade de alguém sempre tenha estado em casa, enquanto essa pessoa vagava em busca dela. Talvez o lar seja apenas um lugar mais seguro do que o resto deste mundo louco e atormentado. Talvez não se possa voltar para casa, como dizia o ditado. Talvez você deseje não ter voltado.

Colaborador

Eileen Jones é crítica de cinema da Jacobin, apresentadora do podcast Filmsuck e autora de Filmsuck, USA.

Nos bastidores da OTAN, a Europa está se desintegrando

Os maiores perigos estão dentro de nós.

David Broder
David Broder is an expert on European politics and the author of “Mussolini’s Grandchildren.” He wrote from Berlin.

The New York Times

Debora Szpilman

“Europeus, avante!”

Esse foi o grito de guerra de Kaja Kallas, chefe de política externa da União Europeia, na Conferência de Segurança de Munique deste ano. “Estamos chegando lá: tirando a poeira de nossas capas, calçando nossas botas e acelerando nossos motores”, disse ela à plateia. Ao retratar a União Europeia como um grupo de super-heróis, Kallas citou uma frase frequentemente atribuída erroneamente aos filmes do “Homem de Ferro”: “Heróis são feitos pelos caminhos que escolhem, não pelos poderes que lhes foram concedidos”. Mais gastos militares e um esforço pela soberania tecnológica, afirmou Kallas, fortaleceriam a determinação da Europa em um mundo cada vez mais hostil.

Suas palavras ecoaram as declarações, já habituais, sobre o “momento de independência” da União Europeia. Incomodados com a postura de confronto do presidente Trump, os líderes do continente buscam caminhar com as próprias pernas. Para o chanceler alemão Friedrich Merz, a Europa “precisa se tornar muito mais independente dos Estados Unidos em termos de política de segurança”. O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a redução da dependência (“derisking”) da Europa em relação a todas as grandes potências, visando maior autonomia. Líderes europeus agora falam abertamente em traçar seu próprio rumo, defendendo o aumento da produção europeia de semicondutores, fontes de energia locais e até mesmo uma capacidade conjunta de dissuasão nuclear. Na cúpula da OTAN desta semana em Ancara, na Turquia, espera-se ouvir muito mais sobre a necessidade urgente de autossuficiência europeia.

No entanto, apesar de toda a discussão sobre a União Europeia se proteger de ameaças externas, os maiores perigos residem em seu interior. Há uma década, o referendo do Brexit no Reino Unido gerou temores de que o bloco se fragmentasse ainda mais. Isso não se concretizou. Hoje, porém, o bloco enfrenta profundas divisões internas. Tanto na Alemanha quanto na França — os maiores e historicamente mais importantes Estados da União —, partidos de extrema-direita estão mais próximos do poder do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. O problema não para por aí. Em todo o continente — seja na Holanda ou na Dinamarca, na República Tcheca ou na Bulgária —, partidos que por muito tempo estiveram no centro da política europeia perderam eleitorados antes fiéis, à medida que eleitores frustrados se voltam para alternativas heterogêneas. A norma é a turbulência, não a tranquilidade.

O resultado é um paradoxo. Em nível continental, a Europa se une, com líderes exaltando a crescente resiliência do bloco. No entanto, em nível dos Estados-membros, a Europa se fragmenta à medida que a política interna se torna cada vez mais volátil. Isso ameaça mergulhar o continente no caos, prejudicando a busca da União Europeia por independência e expondo-a às investidas da extrema-direita.

Para o historiador econômico Adam Tooze, vivemos uma era de "policrise" — um acúmulo de desastres cujo impacto conjunto é pior do que a soma de suas partes. Na Europa, os efeitos persistentes da crise econômica de 2008, somados à pandemia e aos conflitos armados crônicos da atualidade, alimentam a sensação generalizada de que as coisas estão saindo dos trilhos. Os preços sobem, os salários estagnam e serviços públicos sobrecarregados precisam lidar com o envelhecimento da população e o aumento das temperaturas. Nesse cenário sombrio, a principal questão política é se os governos conseguem ir além de apenas "apagar incêndios" para transmitir segurança aos cidadãos.

A resposta da União Europeia à pandemia sugeriu que isso é possível. Após a crise financeira, os líderes europeus haviam imposto um regime rigoroso de cortes orçamentários, a um custo social e econômico elevado. Com a disseminação dos lockdowns em 2020, ficou claro que os líderes europeus não poderiam simplesmente exigir mais sacrifícios e austeridade. Em vez disso, o bloco rompeu o tabu do endividamento coletivo e destinou mais de 800 bilhões de euros — entre subsídios e empréstimos — ao programa NextGenerationEU.

Esses gastos visavam não apenas sustentar a renda, mas também fortalecer a resiliência. A maior parte dos investimentos foi direcionada à reindustrialização verde ou à digitalização. Tratava-se de apoio estatal a empresas privadas, e não de um plano de investimento público propriamente dito, mas a iniciativa marcou um rompimento com os dogmas de austeridade da década anterior. Essa mudança impactou, sobretudo, a margem de manobra fiscal dos Estados, uma vez que as regras de déficit — frequentemente aplicadas de forma seletiva e punitiva durante a crise da dívida — foram flexibilizadas.

A Espanha e a Itália, os dois países que receberam mais recursos, demonstram o que foi possível alcançar. A coalizão de esquerda liderada por Pedro Sánchez, em Madri, e o governo de direita de Giorgia Meloni, em Roma, representam orientações políticas opostas. No entanto, compartilham um denominador comum: ambos utilizaram os fundos da UE destinados ao pós-pandemia para gerar crescimento, conter a dívida pública e evitar crises políticas. Embora hoje esses líderes dividam opiniões, durante anos conseguiram manter índices de aprovação mais elevados do que a maioria de seus homólogos na UE. A Espanha obteve resultados particularmente bons na redução das contas de eletricidade e na expansão do uso de energias renováveis; a Itália ampliou sua infraestrutura ferroviária de alta velocidade.

Contudo, o alcance desses recursos teve limites. Muitas vezes, o dinheiro serviu apenas para cobrir lacunas orçamentárias, e diversos projetos de infraestrutura iniciados enfrentam atrasos ou estouros de orçamento. Em 2019, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal) como o pilar essencial para a prosperidade de longo prazo da União. No entanto, confrontado tanto pela resistência persistente de partidos céticos em relação às mudanças climáticas quanto pela pressão para ampliar a produção militar, o bloco acabou por flexibilizar suas metas, incluindo a eliminação gradual planejada dos carros movidos a gasolina. Essa postura alinhou-se à lógica dos fundos pós-pandemia, que resultaram em um progresso intermitente na diversificação das fontes de energia.

A invasão da Ucrânia pela Rússia representou um ponto de virada crucial — e mais uma oportunidade perdida. Em resposta, a União Europeia cortou laços econômicos com Moscou e buscou substituir totalmente o gás russo. Inicialmente, os líderes europeus prometeram que essa medida aceleraria a transição ecológica e levaria a uma maior independência energética. Na prática, porém, recorreram a soluções de curto prazo, como o aumento expressivo do fornecimento de gás pelos Estados Unidos; alguns países chegaram até a defender a manutenção da parceria com a Rússia. A Alemanha desativou seus reatores nucleares, enquanto outros países, como a França, seguiram o caminho oposto.

A guerra teve outro efeito negativo. Enquanto os países da UE hesitavam quanto à ajuda à Ucrânia, o rearmamento ganhou força própria. Em todo o continente, o aumento dos gastos militares tornou-se um consenso. Essa mudança é particularmente visível na Alemanha, onde, após as eleições de 2025, os principais partidos suspenderam os limites de gastos públicos — mas apenas para fins militares e de infraestrutura correlata. Em nível europeu, a defesa começou a ganhar mais destaque do que o Pacto Ecológico como principal objetivo para a captação conjunta de recursos. Programas como o ReArmEurope e o SAFE são agora o foco.

Seria isso uma forma de keynesianismo militar? Afinal, os € 150 bilhões em empréstimos do SAFE destinam-se a estimular a reindustrialização e criar empregos, em vez de apenas financiar a compra de armamentos. No entanto, os primeiros indícios pouco sustentam essas expectativas. Além disso, alguns países têm demonstrado relutância em aderir ao programa. A Polônia, maior beneficiária do SAFE, vive um impasse sobre se deve concentrar seu orçamento militar na produção europeia ou em seus atuais fornecedores dos EUA e da Coreia do Sul. Em Roma, a premiê Meloni começou a recuar em relação aos € 15 bilhões em empréstimos do SAFE previstos, alegando que a necessidade mais urgente da Itália é de ajuda para arcar com os custos de energia.

As consequências são claras. Após não conseguirem transformar os fundos do pós-pandemia em independência energética de longo prazo e em uma renovação econômica sustentável, os líderes europeus apresentaram a remilitarização como a causa unificadora e a estratégia fundamental do bloco. No entanto, ao contrário de um plano robusto de reindustrialização verde, essa medida não gera empregos em massa nem mitiga os choques de preços que tanto preocupam os cidadãos europeus. Além disso, os eleitores frustrados não parecem recompensar a postura de seus líderes como defensores da segurança. Pelo contrário: um número crescente de pessoas mostra-se cínico e alienado — e cada vez mais atraído pela extrema-direita.

Por trás de tudo isso está Donald Trump. Seus ataques à União Europeia — que sua administração menosprezou, alegando que o bloco estava à beira de um "apagamento civilizacional" — e seu apoio a partidos nativistas foram um grande catalisador para a busca pela independência europeia. Contudo, a autonomia europeia muitas vezes parece apenas um apelo para que os Estados-membros cumpram melhor a sua parte na aliança transatlântica. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte — ex-primeiro-ministro holandês —, parece convencido de que o principal dever dos europeus é manter o interesse dos EUA na aliança, mesmo que isso signifique apenas comprar armas americanas.

De forma curiosa, a hostilidade de Trump empurrou os líderes europeus para uma dependência ainda mais subserviente. Basta considerar o acordo comercial que Ursula von der Leyen firmou em julho passado, ostensivamente para garantir o compromisso contínuo de Trump com a defesa europeia. Mesmo enquanto alardeavam sua determinação de seguir seu próprio caminho, os líderes europeus aceitaram um acordo desigual, no qual se comprometeram a comprar mais gás americano, absorver tarifas e eliminar taxas sobre importações dos EUA. Após Trump ameaçar comprar a Groenlândia, o acordo foi suspenso. No entanto, em maio, o Parlamento Europeu votou a favor de dar continuidade a ele.

O episódio demonstra que, independentemente da antipatia em relação a Trump na Europa, são os Estados Unidos que dão as cartas. Afinal, os membros europeus da OTAN que se comprometeram a destinar 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para gastos com defesa o fizeram a pedido do próprio Trump. E gastos não são tudo. Para líderes de países como a Polônia, Washington continua sendo um aliado central, especialmente diante da política imprevisível de potências europeias como França e Alemanha. O continente também permanece fortemente dependente de empresas de tecnologia, energia e sistemas de pagamento americanos. Sob essa ótica, a autonomia europeia equivale a uma renegociação do papel da Europa como parceira secundária dos Estados Unidos. Adaptando a famosa frase de Lord Ismay, que chefiou a OTAN na década de 1950, trata-se de manter os russos fora e os americanos dentro — sem se preocupar excessivamente com os rumos da Alemanha. Essa abordagem norteia fortemente a diplomacia europeia: o objetivo, acima de tudo, é não indispor-se com o Sr. Trump, mesmo que isso signifique silenciar críticas à sua postura agressiva no Caribe e no Oriente Médio.

Existe, no entanto, outra maneira. Essa versão de autossuficiência transformaria a Europa em um pilar do sistema global, servindo de exemplo para o mundo em questões de direito internacional e na transição verde. Tais iniciativas dificilmente seriam desinteressadas. Embora a Europa não consiga reduzir drasticamente as emissões globais sozinha, livrar-se da dependência de combustíveis fósseis a ajudaria a evitar choques futuros decorrentes de crises como o fechamento do Estreito de Ormuz. Além disso, as recentes sanções do governo Trump contra membros do Tribunal Penal Internacional demonstram que defender o Estado de Direito é, antes de tudo, necessário para proteger os cidadãos europeus de hostilidades.

Para caminhar com as próprias pernas, a Europa precisaria ampliar suas alianças. Nesse aspecto, houve algum progresso: a União Europeia fechou recentemente acordos comerciais com países da América Latina e com a Índia. Contudo, sua abordagem em relação à China continua sendo um problema persistente. Em maio, a Sra. Kallas falou sobre a necessidade de "morfina" ou "quimioterapia" para tratar a "doença" da dependência excessiva da China. Alguns líderes, notadamente o Sr. Sánchez, da Espanha, têm defendido uma postura mais pragmática, focada na transferência de tecnologia e em condicionantes para investimentos estrangeiros. Aliada a investimentos em áreas onde a Europa já é forte — como a produção de turbinas eólicas, tecnologias de hidrogênio limpo e bioenergia —, essa estratégia poderia ser a receita para uma renovação econômica.

Não se trata apenas de questões geopolíticas. Um caminho real para a independência contribuiria muito para unir o continente, tanto em nível nacional quanto federal, e para recompor seu contrato social desgastado. Para Bruxelas, isso significaria energia mais barata, melhores perspectivas econômicas e maior estabilidade. Não existe solução mágica: mesmo que a Europa conseguisse reduzir as contas de energia, criar empregos ou controlar a inflação, isso não faria desaparecer, da noite para o dia, os conflitos em torno de imigração e identidade. Ainda assim, poderia aumentar a confiança dos eleitores no processo democrático e ajudar a atenuar parte de sua indignação.

Uma cúpula da OTAN não é o cenário ideal para concretizar as aspirações de independência europeia. Afinal, a organização é uma aliança que inclui os Estados Unidos. Há questões complexas a serem respondidas sobre a produção militar continental, a cooperação em defesa e até mesmo a criação de um exército europeu. Ainda assim, em benefício de seus próprios cidadãos, a União Europeia precisa fazer mais do que apenas atender às expectativas de Washington. Finalmente livre da sombra dos Estados Unidos, a Europa pode proteger os fundamentos de sua economia e começar a reconquistar eleitores tentados pelo canto da sereia do nacionalismo.

Os ministros europeus não usam capas, como sugeriu a Sra. Kallas. No entanto, ela tinha razão em um aspecto. A Europa pode não ser dotada de poderes avassaladores, mas pode escolher um caminho melhor. Não é tarde demais para fazer exatamente isso.

David Broder (@broderly) é o autor, mais recentemente, de “Mussolini’s Grandchildren: Fascism in Contemporary Italy”.

6 de julho de 2026

Quão revolucionária foi a Revolução Americana?

Recentemente, muitos historiadores passaram a vê-la como um evento moderado, até mesmo decepcionante. Mas, na era Trump, a velha questão sobre o seu caráter radical ganha uma nova dimensão.

Jennifer Schuessler

The New York Times

Participantes de reconstituições históricas em Lexington, Massachusetts, preparam-se para o 250º aniversário da Batalha de Lexington e Concord, em abril de 2025. Todd Heisler/The New York Times

A Declaração de Independência completou 250 anos no fim de semana, com celebrações patrióticas grandiosas, condizentes com o aniversário da democracia mais antiga do mundo. No entanto, a narrativa fundadora que a sustenta está cada vez mais em disputa.

Conservadores acusam progressistas de abandonar a sabedoria da Declaração e de distorcer o legado da Revolução Americana. À esquerda, alguns veem a narrativa de liberdade — que outrora inspirou pessoas ao redor do mundo — perder força, à medida que suas hipocrisias e omissões são expostas.

Entre os estudiosos, as cinco décadas decorridas desde o Bicentenário de 1976 ampliaram radicalmente o elenco de personagens, o alcance geográfico e a cronologia da Revolução, transformando o que antes era visto como uma narrativa nacional unificada em uma história mais fragmentada e caleidoscópica: a de uma guerra civil inserida em um conflito global maior.

Mas, subjacente tanto ao debate acadêmico quanto à discussão pública polarizada sobre 1776, persiste uma velha questão: afinal, quão revolucionária foi a Revolução Americana?

Para muitos americanos, a pergunta pode parecer estranha. O caráter revolucionário da Revolução Americana está implícito no próprio nome do evento e é atestado pela realização da celebração dos 250 anos.

Contudo, a questão também é debatida implicitamente na prática, à medida que a versão de 1776 defendida pelo presidente Trump — marcada pela ostentação da bandeira — é contraposta pela iconografia deliberadamente inspirada na era revolucionária utilizada nos protestos do movimento "No Kings" (Sem Reis).

T.H. Breen, historiador da Universidade Northwestern, classificou a questão como importante, embora também "ligeiramente embaraçosa".

"Se não a tivéssemos, poderíamos nos parecer com o Canadá" — que também é uma democracia —, disse ele. “Mas nós fizemos. Então, queremos entender: de que maneira, exatamente, isso foi uma revolução?”

Uma revolução conservadora?

Os americanos lutaram pela história e pelo significado da Revolução praticamente desde o momento em que ela terminou. No século XIX, o seu legado foi reivindicado por abolicionistas e sufragistas femininas, que abraçaram as promessas de igualdade da Declaração, bem como por separatistas do Sul que se viam como rebeldes contra um poder opressor.

A agora familiar história de fundação patriótica surgiu no início do século XX, quando os líderes americanos procuravam reforçar um governo nacional cada vez mais forte, ao mesmo tempo que defendiam contra novas correntes revolucionárias vindas da Europa.

Em 1926, num discurso por ocasião do 150º aniversário da Declaração, o Presidente Calvin Coolidge descreveu a Revolução como “um movimento do povo”, mas “de forma alguma um movimento radical”. A visão exposta na Declaração era perfeita, sem necessidade de revisão.

“Se todos os homens forem criados iguais, isso será definitivo”, disse ele. “Se eles são dotados de direitos inalienáveis, isso é definitivo”, disse ele. “Se os governos derivam os seus justos poderes do consentimento dos governados, isso é definitivo.”

Uma celebração patriótica em 1926. Mark Jay Goebel/Getty Images

Durante a Guerra Fria, a memória da Revolução tornou-se um baluarte no confronto com a União Soviética, definida como uma luta pelos direitos individuais e pela livre iniciativa. Tratava-se, sem dúvida, de uma revolução — argumentavam os conservadores —, mas não daquela espécie negativa.

Em um ensaio de 1973 intitulado "A Revolução Americana como uma Revolução Bem-Sucedida", o teórico político neoconservador Irving Kristol criticou estudiosos de esquerda por menosprezarem o evento, descrevendo-o como "uma Revolução Francesa que nunca chegou a se concretizar plenamente". Ao contrário do que ocorreu na Rússia ou na França, escreveu ele, as paixões da revolução americana foram contidas pela razão e pela virtude.

"A Revolução Americana foi bem-sucedida na medida em que seus líderes puderam, anos mais tarde, olhar para trás com serenidade para a obra que haviam realizado e afirmar que ela era boa", escreveu Kristol. Diferentemente dos líderes de revoluções que acabaram por devorar a si mesmas, eles "morreram em suas camas".

Entre os historiadores, crescia a ênfase na ideologia dos revolucionários, detalhada em obras como o estudo clássico de Bernard Bailyn de 1967, "As Origens Ideológicas da Revolução Americana".

No entanto, simultaneamente — em meio às agitações das décadas de 1960 e 1970 —, a história social voltada para as pessoas comuns ganhava força no meio acadêmico, à medida que pesquisadores resgatavam as perspectivas de mulheres, negros livres e escravizados, povos nativos americanos e a classe trabalhadora.

O Bicentenário de 1976 trouxe uma explosão de simbolismo patriótico, acompanhada de novos debates sobre a Revolução Americana e sobre quem ela beneficiou. Associated Press

Por ocasião do Bicentenário, um repórter do The New York Times consultou importantes estudiosos e constatou uma divergência acentuada entre a escola ideológica da "velha guarda" e os defensores de esquerda da "história vista de baixo". Para os historiadores sociais, a narrativa da Revolução era a de impulsos democráticos populares que acabaram sendo reprimidos pelas elites.

Desde então, os estudiosos têm ampliado a perspectiva geográfica, situando o evento como parte de uma guerra mundial mais ampla que envolveu múltiplos impérios. Não se trata apenas de uma história sobre debates na Filadélfia ou em Boston, mas também sobre os povos nativos do Vale de Ohio, confrontos navais na Costa do Golfo, rebeliões de escravizados na Jamaica ou até mesmo o comércio na Índia.

As pesquisas acadêmicas também concentram-se menos nas causas e mais nas consequências, que foram extremamente desiguais. O resultado, como definiu o historiador Michael D. Hattem, é uma Revolução Americana “que parece menos americana e menos revolucionária”.

“Na Guerra Fria, a questão era: ‘Foi realmente uma Revolução?’”, disse Hattem — autor de The Memory of ’76 (A Memória de 76), um estudo sobre como a Revolução tem sido lembrada — em uma entrevista. “Agora, a pergunta é: ‘De quem foi a Revolução?’”

Alguns nomes de destaque na área mantiveram abordagens mais celebratórias. Em seu livro de 1991 vencedor do Prêmio Pulitzer, The Radicalism of the American Revolution, Gordon S. Wood argumentou que a Revolução fez mais do que instituir uma nova forma de governo; ela também deu origem a uma cultura igualitária e individualista que foi muito além do que os Pais Fundadores haviam pretendido.

Hoje, os estudiosos observam uma nítida ruptura geracional na área: muitos daqueles que atingiram a maturidade acadêmica após a década de 1990 veem a Revolução como um evento de desfecho profundamente conservador, especialmente no que diz respeito à escravidão e às questões raciais.

Um desfile em 4 de julho de 1976 passa perto do Independence Hall, na Filadélfia, onde a Declaração de Independência foi aprovada. Associated Press

Após a Revolução, os estados do Norte começaram a abolir a escravidão, à medida que pessoas escravizadas utilizavam as ideias da Declaração para reivindicar a liberdade. No entanto, a escravidão se consolidou ainda mais no Sul, ao mesmo tempo em que se expandia para o oeste. E, para os povos nativos americanos, a expansão desenfreada para o oeste, desencadeada pela revolução, foi um desastre.

“Sim, algumas mudanças radicais foram iniciadas”, disse em entrevista Leslie M. Harris, especialista em história afro-americana do início dos EUA na Universidade Northwestern. “Mas não se pode ignorar as limitações profundamente conservadoras que restringiam esse radicalismo.”

Harris, em consonância com outros estudiosos, afirma que a Revolução Americana parece mais revolucionária quando vista como o estopim de uma “Era das Revoluções” em todo o mundo atlântico. Ela influenciou acontecimentos não apenas na França, mas também no Haiti, na Venezuela, na Irlanda, na Polônia e em outros lugares.

A Revolução “realmente despertou uma nova forma de pensar, não apenas sobre a escravidão, mas sobre a humanidade”, disse Harris. “Ela levantou a questão: ‘O que é a liberdade?’”

Joanne B. Freeman, historiadora da Universidade Yale, ministra há quase 30 anos um curso muito popular sobre a Revolução. O evento pode não parecer tão radical hoje em dia — pelo menos não em seus resultados imediatos —, observou Freeman em entrevista. No entanto, à medida que a Revolução se desenrolava, as pessoas a compreendiam como algo do qual precisavam participar.

“Ela as tocou de maneiras que talvez não esperassem”, disse ela. “Não necessariamente como uma questão ideológica ampla. Mas, de repente, sentiram-se compelidas a fazer algo, a escrever algo, a protestar.”

Hoje, é comum entre liberais e progressistas minimizar a importância da Revolução e adotar a “Segunda Fundação” da nação — ocorrida após a Guerra Civil — como uma narrativa de origem mais adequada para a nossa atual democracia multirracial.

Contudo, David Waldstreicher, especialista em história americana do início da nação no Graduate Center da City University of New York, argumenta que essa visão ignora a medida em que a Revolução provocou “uma politização extrema das pessoas comuns”, e não apenas dos homens brancos.

“Essa politização é o alicerce da democracia americana”, afirmou ele.

Da Revolução à Fundação

Desde o Bicentenário, a direita tem se apropriado cada vez mais da memória pública da Revolução Americana, adotando um originalismo jurídico e histórico focado nas verdades dos documentos fundadores.

Nos últimos anos, no entanto, surgiram fissuras nessa apropriação pela direita. Alguns conservadores nacionalistas rejeitaram o universalismo da Declaração, argumentando que os Estados Unidos são a pátria de um povo e de uma cultura específicos, e não uma nação baseada em um credo cívico. Outros conservadores defensores do "bem comum" argumentaram que a ênfase da Declaração nos direitos individuais enfraquece o vínculo entre Deus e a sociedade.

Ainda assim, a versão de 1776 promovida pelo governo Trump mantém-se fiel à narrativa tradicional e heroica, concebida de cima para baixo.

Os "Freedom Trucks", uma exposição histórica itinerante apoiada pelo governo Trump, apresentam uma narrativa da fundação centrada nos ideais da Declaração de Independência e na coragem dos homens que a assinaram. Zack Wittman para o The New York Times

Os "Freedom Trucks" — uma frota de museus históricos itinerantes financiados pelo governo federal, criados para o 250º aniversário em parceria com o Hillsdale College e a plataforma educacional conservadora PragerU — recebem os visitantes com um vídeo de George Washington gerado por inteligência artificial. A Revolução é retratada como uma série de eventos heroicos — Lexington e Concord, Bunker Hill — que decorrem das verdades da Declaração.

As exposições reconhecem a existência da escravidão, mas descrevem os Pais Fundadores coletivamente como proto-abolicionistas que "previam que a escravidão declinaria e desapareceria gradualmente".

Os Trucks foram criticados por historiadores por oferecerem o que consideram uma história "higienizada". No entanto, Matthew Spalding, especialista em direito constitucional e chefe das operações do Hillsdale College em Washington — que ajudou a criar a exposição —, afirmou que as críticas refletiam uma visão "pós-moderna" da história, a qual impõe os valores do presente ao passado.

Mais recentemente, a versão de 1776 do presidente Trump, envolta em bandeiras, tem sido contraposta pela iconografia da era revolucionária presente nos protestos "No Kings" (Sem Reis). Jason Andrew para o The New York Times

O que houve de revolucionário, ou até mesmo radical, na Revolução — disse Spalding em entrevista — foi sua natureza deliberativa e racional, além da ideia "de anunciar uma nova nação baseada em verdades evidentes por si mesmas, começando por 'todos os homens são criados iguais'".

"Parte do problema é que queremos vê-la tornar-se imediatamente revolucionária — entre aspas — no sentido moderno", disse ele. "Mas a Revolução Americana estabeleceu o princípio, lançou as bases e, então, desenrolou-se ao longo da história americana."

Yuval Levin, especialista em direito constitucional do American Enterprise Institute — um think tank conservador que não participou do projeto —, concordou que a Revolução Americana foi uma "revolução conservadora".

"Foi, mais ou menos, a primeira revolta colonial bem-sucedida na história conhecida do mundo", disse ele por e-mail, "mas avançou insistindo nos ideais de sua metrópole, em vez de romper com eles."

A escravidão, disse Levin, foi uma "mancha moral" da qual os fundadores foram "cúmplices". Mas, no fim das contas, afirmou ele, ela foi abolida graças à exigência de que o país honrasse seus próprios fundamentos, e não por meio de qualquer tentativa de derrubá-los.

"Não acho que os fundadores, como um todo, fossem proto-abolicionistas", disse ele. "Mas a lógica da Revolução apontava nessa direção."

A história da Revolução continua sendo reescrita e nunca será definitiva. Breen, o historiador da Northwestern, disse que cabe aos estudiosos "fazer o melhor possível com as evidências remanescentes, na esperança de que isso instrua o povo americano a pensar de forma honesta e crítica sobre suas origens".

A Revolução, disse Breen, pertencia ao povo. Assim, segundo outros historiadores, também lhe pertence o seu legado hoje, momento em que os americanos — tal como em 1776 — talvez não precisem de líderes, nem de historiadores, para lhes dizer o que ela significa.

"Todos sabem que a Revolução Americana foi antimonárquica", disse Waldstreicher. "Ninguém precisou abrir um livro para defender a ideia de 'nada de reis'."

Jennifer Schuessler é repórter da seção de Cultura do The Times e cobre a vida intelectual e o mundo das ideias.

5 de julho de 2026

Em Nuestra Tierra, a identidade coletiva é construída na luta

O filme mais recente de Lucrecia Martel, Nuestra Tierra — o primeiro documentário da diretora —, justapõe a fragilidade das narrativas coloniais à força da identidade coletiva dos povos indígenas, formada na luta contra o desapossamento de suas terras.

Marianela D'Aprile

Jacobin

Nuestra Tierra não tenta combater a lógica colonial em seus próprios termos, mas sim nos termos dos Chuschagastas. (Rei Cine)

A língua espanhola possui uma única palavra, historia, que pode significar tanto "história" (como registro de fatos passados) quanto "narrativa" ou "conto". Na Argentina, onde a ditadura militar — responsável pelo desaparecimento de trinta mil pessoas entre 1976 e 1983 — permanece viva na memória coletiva, a reconstrução da democracia tem dependido de uma negociação pública e política contínua entre os dois sentidos de historia: um mais estável e objetivo, o outro mais maleável. Revisitar, emendar e corrigir narrativas oficiais é um elemento comum do discurso público; uma das primeiras manifestações artísticas dessa negociação é o filme La Historia Oficial (1985), vencedor do Oscar, que retrata como uma mulher de classe média descobre que sua filha adotiva havia sido roubada de uma mulher presa — e provavelmente morta mais tarde — pelos militares. Ao contrapor a palavra ao adjetivo autoritário e totalizante "oficial", o título do filme evidencia a ambiguidade do termo.

O mais recente longa-metragem da diretora argentina Lucrecia Martel, Nuestra Tierra, também se debruça sobre a instabilidade inerente à palavra historia, voltando seu olhar para uma parte menos explorada do passado argentino: a era colonial e seu impacto sobre a população indígena do país.

O filme acompanha o julgamento, ocorrido em 2018, pelo assassinato de Javier Chocobar, líder indígena e ativista da comunidade Chuschagasta, na província de Tucumán, norte da Argentina. Chocobar foi morto em 2009 por um tiro que rompeu sua artéria femoral, durante um confronto entre um grupo de Chuschagastas e três empresários que haviam chegado às terras da comunidade para fazer valer uma reivindicação de posse duvidosa. Um desses homens — aquele que disparou o tiro fatal — pretendia explorar a terra para a extração de pedras em lajes.

Esses fatos são estabelecidos rapidamente, logo no início do filme. Mas, antes de chegarmos a isso, Martel define o tom com uma tomada inicial heroica da Terra vista do espaço. É assim que tudo começa: a milhares de quilômetros de distância, com nosso ponto de vista flutuando ao lado de um satélite e depois descendo, registrando a transição de uma paisagem intocada para lotes demarcados e, finalmente, para um campo de futebol onde jovens mulheres Chuschagasta jogam. Estamos em um lugar específico, diz a câmera, mas o que estamos prestes a ver acontece em todo o mundo.

Martel começou a trabalhar em Nuestra Tierra em 2010, depois de ver no YouTube um vídeo do assassinato de Chocobar; Darío Amín — o homem que portava a arma e alegava possuir a escritura da terra — havia registrado a ação e, então, por algum motivo, carregado as imagens incriminadoras para o site, que na época tinha cinco anos de existência. Esse vídeo aparece logo no início do filme, assim como os acusados: Amín e os ex-policiais Luis Humberto Gómez e Eduardo José Valdivieso. Martel os filma principalmente de costas e, quando vemos seus rostos, eles parecem assustados e irritados; mostram-se submissos diante do juiz, ao mesmo tempo em que tratam seus acusadores com condescendência.

A versão oficial, segundo eles, é simples: a família de Amín era uma das várias na região com títulos de terra que remontavam à era colonial argentina; naquele dia de 2009, ele estava simplesmente retomando o que era legitimamente seu. Eles agiram pacificamente, dizem os homens, aparentemente sem perceber qualquer contradição entre essa afirmação e o fato de estarem armados — Gómez, inclusive, com não apenas uma, mas duas armas escondidas no corpo. Martel não precisa de muito esforço para pintá-los como vilões; eles mesmos se denunciam prontamente, assim como aos sistemas que os moldaram — Gómez chega a afirmar, em certo momento, que "o Estado argentino [o] ensinou a fazer aquilo" (referindo-se ao ato de atacar uma pessoa desarmada que avançava em sua direção com os braços abertos e as palmas das mãos voltadas para fora). Como todo vilão, eles sofrem de complexo de inferioridade — "Minha arma é grande! Meu revólver é grande!", grita Valdivieso em um momento do julgamento — e baseiam sua força em estruturas de poder rudimentares e mal concebidas: especificamente, os processos pós-coloniais pelos quais o Estado argentino privou os povos indígenas não apenas de suas terras, mas de sua própria identidade.

Esse último ponto — ao contrário dos fatos do caso, que Martel estabelece de forma rápida e eficiente — é desenvolvido lenta e cuidadosamente ao longo de Nuestra Tierra, em um tom ponderado e deliberado que reflete o próprio processo de criação do filme. Martel passou anos construindo laços com a comunidade Chuschagasta; é desse esforço que começa a surgir a revelação central do filme. A questão no cerne do julgamento não é se Amín, Gómez e Valdivieso foram ou não responsáveis ​​pela morte de Chocobar, nem mesmo quem tinha direito à terra. A questão é se os Chuschagastas existem ou não.

Enquanto os advogados de Amín e seus comparsas montam uma defesa baseada na afirmação de um historiador de Tucumán de que os Chuschagastas haviam sido totalmente dizimados por volta de 1807, Martel mostra a comunidade como ela realmente é: em suas casas, em suas terras, trabalhando. Uma idosa Chuschagasta espalha centenas de fotografias sobre uma mesa à sua frente — um arquivo da memória comunitária e uma prova (já que provas são necessárias) de que eles vivem há muito tempo na terra em disputa. Martel encena conversas entre membros da comunidade nas quais a dimensão de suas perdas se torna evidente, assim como o processo — ainda incipiente — de luto pela identidade perdida.

“Perceber que descendemos de nossos antepassados ​​tem sido difícil para mim”, diz um morador de Chuschagasta. “Ninguém nunca nos explicou que éramos indígenas”, diz outro. Ele continua: “E pouca gente dizia que estávamos aqui, agora”. “Tiraram de nós até mesmo a nossa maneira de falar”, retruca outro homem da comunidade, referindo-se à língua Cacán, provavelmente extinta desde o século XVII.

Martel articula esses momentos com mão leve, porém deliberada, montando som e imagem da maneira evocativa e muitas vezes perturbadora que se tornou uma marca registrada de seu trabalho. O ruído estático de um microfone começa baixo e depois se torna ensurdecedor, logo antes da leitura do veredito; um drone que plana e gira atua como nossos olhos sobre a terra, e seu zumbido incessante torna impossível esquecer o fato de sua imposição ao território; quando um pássaro colide com ele, somos sacudidos e giramos junto, para depois flutuar novamente, com nossa perspectiva agora de cabeça para baixo. Martel explora a capacidade do cinema de desorientar e de acumular camadas de sentido para sugerir que a verdade pode ser mais complexa — e mais difícil de definir — do que as narrativas históricas oficiais nos levam a acreditar.

Em um momento particularmente revoltante, ela sobrepõe a fala de um dos advogados do julgamento — citando o trabalho de Carlos Paez de la Torre, o historiador que afirmava que os Chuschagastas haviam sido dizimados por volta de 1807 — a uma imagem do próprio Paez de la Torre; após o término da fala citada, ele comenta com insensibilidade: “Eu escrevi isso? Ha. Se eu tivesse que pesquisar todos os dias para escrever uma dessas coisas, eu morreria”. Elena Perelli de Colombres, a outra historiadora citada pela defesa, demonstra uma insensibilidade semelhante ao avaliar a comunidade Chuschagasta: “Como eles poderiam provar o que são? Eles não preservaram sua língua, nem mesmo seus próprios nomes; não possuem traços físicos distintivos”. Martel exibe essa última frase enquanto mostra um grupo de Chuschagastas sentados juntos no tribunal, exibindo uma semelhança física impressionante.

A negação persistente da existência de todo um grupo de pessoas — que estão ali mesmo no tribunal, que vivem nas terras desejadas por Amín e que o impedem de se apropriar delas — é enlouquecedora. E essa negação exige muito para se sustentar: leis, currículos escolares, títulos de propriedade, livros didáticos, assinaturas, cartórios. Nuestra Tierra vai abrindo brechas nessa estrutura, revelando que sua rigidez e sua fragilidade estão intrinsecamente ligadas.

O cinema, com sua capacidade de trabalhar com fragmentos e sobreposições, pode produzir uma versão dos acontecimentos mais abrangente — e provavelmente mais precisa — ao mesmo tempo em que demonstra a fragilidade das narrativas lineares. Nuestra Tierra não tenta combater a lógica colonial em seus próprios termos, mas sim a partir da perspectiva dos Chuschagastas. Como se constrói uma identidade coletiva quando a narrativa oficial insiste em negá-la? Uma pista talvez esteja em uma das últimas cenas do filme, que mostra os Chuschagastas mobilizados para exigir justiça por Chocobar; unidos na luta, a existência deles torna-se inegável.

Colaborador

Marianela D’Aprile é escritora e vive no Brooklyn. Ela é membro da organização Democratic Socialists of America.

4 de julho de 2026

João Bosco, que faz 80, sempre buscou a perfeição com grandes parcerias

Músico reinventou sua arte diversas vezes, da fase jovem com Aldir Blanc à maturidade com o filho Francisco

"Acústico" de 1992 é o mais importante disco de voz e violão em quase 70 anos


Sidney Molina
É violonista, professor e crítico musical​​. Autor dos livros "Mahler em Schoenberg" e "Música Clássica Brasileira Hoje" e fundador do quarteto de violões Quaternaglia


[RESUMO] Crítico musical analisa a trajetória artística de João Bosco, que completa 80 anos em 13 de julho. Da estreia em disco em 1972, no compacto que dividiu com o já consagrado Tom Jobim, ao mais recente álbum, em 2024, o músico empreendeu uma busca sem fim por excelência musical, que se manifesta na escolha de seus parceiros de composição e no perfeccionismo de suas performances, nas quais se instala a sua presença luminosa como cantor-violonista.

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Em uma premonitória entrevista dada a Zuza Homem de Mello em 1967, Vinicius de Moraes declarou que seus parceiros poderiam ser "desde João Sebastião Bach, até um menino que encontrei outro dia em Ouro Preto, João Bosco". Mais um octogenário ilustre, o canceriano João Bosco nasceu em 13 de julho de 1946, em Ponte Nova (MG).

Haveriam de passar cinco anos até a estreia discográfica do "menino": "Agnus Sei", primeira canção da dupla João Bosco e Aldir Blanc, sairia no célebre disco de bolso lançado em 1972 pelo jornal O Pasquim.

Bosco fora escolhido como o artista iniciante para ocupar o "lado B" do compacto cujo carro-chefe era nada menos que a primeira gravação de "Águas de Março", de um já consagradíssimo Tom Jobim. Desde então, até chegar à sabedoria ancestral que marca o CD "Boca Cheia de Frutas" (2024), foram 28 álbuns, nos quais nenhuma nota é desperdiçada.

O músico João Bosco, que fará 80 anos em 13/7 - Isabella Moriconi/Folhapress

Exatas duas décadas depois da estreia no disco de bolso, a data da gravação do álbum ao vivo "João Bosco Acústico MTV" (28 de janeiro de 1992) merece ser celebrada como um dos mais importantes acontecimentos da música brasileira na última década do século passado.

Entre outras preciosidades, traz aquela que seria a versão definitiva de "Jade" —quem não se lembra da canção que foi trilha sonora da novela "O Salvador da Pátria" (1989)?

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Em "Jade", canção com música e letra de João Bosco, as frases sonoras começam curtas, seguindo um motivo com apenas duas notas, si-si-lá-si. Com seus esdrúxulos jogos de palavras —"áqua-louca tara que tem imã", "misterioso cubanacã"—, o texto busca se situar tão perto quanto possível do tato, das vibrações que saem do corpo do outro.

Então, uma frase maior, gradual, toma forma: "Pedra que lasca seu brilho / E que queima no lábio um quilate de mel / E que deixa na boca melante / Um gosto de língua no céu", para explodir, sublime, em "Luz-talismã [...]".

Esse ponto culminante —plenitude amorosa?— traz exatamente as mesmas notas que iniciaram a canção ("Aqui, meu irmão": si-si-lá-si), porém com outra harmonia: ao invés do contido mi menor, agora um luminoso acorde de sol maior.

"Jade" aparece pela primeira vez em "Bosco" (1989), disco de transição entre o momento áureo da parceria com Aldir Blanc e o início de uma nova fase. Nesse álbum, apenas a faixa final, "Corsário", tem letra de Aldir.

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Desenvolvida paulatinamente ao longo da década anterior, a relação entre voz e violão estabelecida por João Bosco já havia gerado o emblemático "100ª Apresentação" (1983) e atingiria em "Acústico" um nível máximo de perfeição.

Do ponto de vista da performance, é como se João Gilberto e Baden Powell fossem uma só pessoa, e ainda assinassem as composições e arranjos. O show gravado exibe uma "música de câmara solo", dele consigo mesmo, trabalhada, polida em cada nuance.

Não há sequer uma nota trastejada no instrumento, não há a mínima hesitação vocal ou lapso de memória. "Acústico" é o mais importante disco de voz e violão da música brasileira desde "Caymmi e seu Violão" (1959).

O repertório do "JB Acústico" traz vários clássicos da parceria com Aldir Blanc, rompida cinco anos antes; lá estão "Quilombo", "Tiro de Misericórdia" e "Corsário", além de parcerias com Martinho da Vila ("Odilê, Odilá") e Capinan ("Papel Machê").

O disco retoma, sobretudo, cinco das canções lançadas no ano anterior, no espetacular CD "Zona de Fronteira" (1991), testemunho da verdadeira reinvenção composicional estimulada pelos novos parceiros Antonio Cicero e Wally Salomão: "Zona de Fronteira", "Holofotes", "Granito", "Memória da Pele" e "Trem Bala".

No "Acústico", "Jade" surge após "Granito", poema de Cicero que requer reprodução integral: "Há entre as pedras e as almas / Afinidades tão raras, como vou dizer? / Elas têm cheiro de gente / Queira ou não queira, se sente / Têm esse poder / Pedra e homem comovem / Sobem e descem, e somem / E ninguém sabe bem / O homem desce dos céus / E a pedra nasce de Deus / Que tudo contém / Mas o templo, eu faria assim / Puro de uma pedra bruta / De uma fruta bem calada, diminuta furta-cor / Do granito assim a cintilar no seu olhar".

É a vida das pedras, assim representada, que prepara o terreno para, sem mudar de faixa, evocar a "luz-talismã" emanada dos olhos verdes da pessoa amada em "Jade".

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"Ostra grudada na pedra Brasil." É assim que Maurício Kubrusly intitula um breve ensaio lançado em 1982 como encarte de LP na coleção de fascículos, vendidos em bancas de jornais, "História da Música Popular Brasileira", da editora Abril Cultural, com curadoria de Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello. O título do volume não deixa dúvidas: "João Bosco & Aldir Blanc".

Bosco e Aldir, morto pela Covid em 2020, não foram apenas parceiros: formavam uma dupla, na acepção plena do termo. Mais fiéis do que Lennon e McCartney (ou Roberto e Erasmo Carlos), que tiveram Bosco e Aldir compuseram juntos a maioria absoluta das canções lançadas com estrondoso sucesso pelo próprio Bosco ao longo de dez anos, desde o LP de estreia, em 1973.

Isso sem mencionar as versões de outros intérpre-tes, como Elis Regina, que sozinha gravou mais de uma dúzia de composições assinadas pela dupla.

Vários desses primeiros trabalhos fonográficos são integralmente dedicados a composições dos dois, como o LP "Caça à Raposa" (1975), álbum em que Bosco encontra sua voz poética própria após um instigante disco de estreia onde a vertente mineira advinda do Clube da Esquina ainda era forte.

No mesmo fascículo de 1982, o texto biográfico, o não assinado "Onde o Ronco da Cuíca Soa Fome", fala da dupla como "um se acariocando, outro aprendendo coisas de mineiro; a parceria fluindo, crescendo em repertório e qualidade".

Basta citarmos que "Caça à Raposa" apresenta, sozinho, canções como "O Mestre Sala dos Mares", "De Frente pro Crime", "Dois pra Lá, Dois pra Cá", "Kid Cavaquinho" e a aula magna de Aldir que é "Escadas da Penha": "Nas escadas da Penha, penou / No cotoco de vela, velou / A doideira da chama, chamou / O seu anjo-de-guarda, guardou / O remorso num canto, cantou / A mentira da nega, negou / O ciúme que mata, matou / O amigo de ala, tá lá", onde a história só se revela inteira quando o texto é cantado retrogradamente: "O amigo de ala, matou / O ciúme que mata, negou" —e assim para trás.

A consistência artística segue nos discos seguintes, "Galos de Briga" (1976), que inclui "Incompatibilidade de Gênios", "O Ronco da Cuíca" e "Rancho da Goiabada", e "Tiro de Misericórdia" (1977), que mergulha mais e mais na africanidade do samba-choro tradicional, o que é ressaltado pela presença dos mestres violonistas Meira e Dino 7 Cordas, do flautista Altamiro Carrilho, do clarinetista Abel Ferreira e do trombonista Raul de Barros.

No álbum seguinte, "Linha de passe" (1979), Raphael Rabello imprime seu violão de 7 cordas na faixa título, e João Donato toca piano em "Sudoeste’.

Muitas vezes salientada, a fusão entre lirismo e dureza da realidade, a medula da poesia de Aldir, amplifica-se com naturalidade na música de Bosco, em que o registro sublime se mescla à estranhalização das coisas simples do cotidiano: a "lua da Zona Norte" vista como a "dona de um bordel"; a transa proibida, revelada quando a luz é acesa; ou, ainda, a foto de um gol estampada no jornal que cobre o rosto de um corpo caído no chão na madrugada da periferia.

Se a brutalidade do real surge predominantemente em sambas com todas as variedades rítmicas, os dilemas do desejo emergem, desde que Elis cantou "Dois pra Lá, Dois pra Cá", no decadentismo harmonicamente sofisticado dos boleros.

A poética de "glórias às lutas inglórias" encontraria em "Nação" (1982), composição de Aldir, Bosco e Paulo Emílio, um ponto alto de complexidade e excelência.

Antisamba exaltação, "Nação" junta o candomblé, a fome, a doença, a água contaminada, as queimadas das florestas e o abandono do povo preto ao Brasil visto como "aquarela": "A minha cor é o arco-íris, minha fome é tanta / Planta, flor irmã da bandeira / A minha sina é verde-amarela feito a bananeira".

Essa lírica, no entanto, começaria a encontrar certo limite ao longo dos anos 1980. A escuta retrospectiva da discografia de João Bosco revela uma busca sem fim por excelência musical, que se manifesta na escolha dos arranjadores, dos instrumentistas com quem toca, e no perfeccionismo das performances, onde se instala a sua presença luminosa como cantor-violonista.

Em um determinado ponto, simbolizado por "Jade", a musicalidade musical da própria música é que parece guiar os rumos da canção, e a exigir, ela mesma, a sua poética. João Bosco passa a criar frases vocais cada vez mais extensas; explora o falsete como efeito expressivo, sim, mas também como necessidade instrumental de ampliação da tessitura.

O cantor, desde sempre impecável na afinação, submete sua voz peculiar a experimentos, inventa onomatopeias, improvisa, roça a pele do som. Interage com o violão de forma assombrosa, começando onde João Gilberto havia parado. Como apontado já em "Cabeça de Nego" (1986), músicas se descolam de letras.

Ritmicamente, seu violão —sonoro, limpo, exuberante— atinge os mais altos níveis da música instrumental para cordas dedilhadas. A hipnótica batida de samba —hoje parte da pedagogia do internacionalmente chamado "violão brasileiro", que youtubers de todos os tipos tentam ensinar em passo a passo— tem nuances assimétricas, com o som que evoca o bumbo variando nas antecipações do polegar da mão direita.

Paulatinamente, haverá a incorporação, ao violão, de camadas altamente complexas do pop, do blues e do jazz, que, após a ruptura com Aldir, desaguariam no paradigmático álbum "Zona de Fronteira", as parcerias com Cicero e Salomão, e no "Acústico MTV".

João Bosco e Aldir Blanc ficarão muito tempo sem fazer música juntos, mas, também, como seguir compondo após "O Bêbado e a Equilibrista"? Que renovação seria possível depois de "Nação"?

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Após o final da ditadura, com a Constituição de 1988 e a redemocratização do país, nem todos os artistas que haviam erigido suas carreiras em meio à contestação do regime autoritário conseguiram se reinventar.

Conforme defendi na Ilustríssima em artigo publicado em 2024, um dos casos mais bem-sucedidos foi o de Chico Buarque, cuja carreira madura ganhou amplitude temática e refinamento poético-musical.

João Bosco sempre foi impulsionado pelo trabalho profundo e recorrente com parceiros, tendo interagido, ao longo da carreira, com um número bastante restrito de letristas. Por outro lado, o disco de 1991 com Antonio Cicero e Wally Salomão foi um caso isolado.

Fruto da colaboração entre artistas no auge de suas trajetórias, disse de uma só vez tudo o que havia a dizer. O artista chegou à virada do século, portanto, com a necessidade de se reinventar mais uma vez, e o fez consistentemente a partir da obstinada parceria com Francisco Bosco, seu filho.

Intelectual aberto a múltiplas vertentes —filosofia, antropologia, ciência política, teoria literária, psicanálise—, Francisco começa a compor com o pai ainda muito jovem. Tal como os primeiros trabalhos com Aldir Blanc, álbuns como "As Mil e uma Aldeias" (1997), "Na Esquina" (2000) e "Malabaristas do Sinal Vermelho" (2002) são praticamente inteiros com músicas feitas pela dupla.

Apesar de um caráter ainda um tanto experimental, vale a pena revisitá-los, e canções como "Mama Palavra", "Metamorfoses", "Ditodos", "Na Esquina" e "Enquanto Espero" chegaram a ter, merecidamente, um espaço importante em shows e discos ao vivo gravados (e lançados também no formato DVD) na primeira década deste século.

Mais uma vez, a música de João Bosco teve de mudar para se acomodar a uma nova poética, porém agora em um processo de criação paciente, que se desenvolveu aos poucos. Seu amadurecimento pleno ocorre no extraordinário álbum "Não Vou pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão" (2009), que marca também o retorno de algumas parcerias com Aldir e faixas com letras de Carlos Rennó e Nei Lopes.

É nesse momento, após uma década de trabalho, que pai e filho encontram uma naturalidade expressiva, rica e exuberante, manifesta em canções como "Perfeição", "Desnortes", "Tanajura", "Mentiras de Verdade", "Alma Barroca" e "Tanto Faz", esta última uma das melhores canções de toda a discografia de João Bosco.

Poeticamente, Francisco conseguirá entrelaçar modernidade e singeleza, no improvável ponto de intersecção entre Paulinho da Viola, Antonio Cicero e outro Chico, o Buarque.

Tanto que, musicalmente, "Tanto Faz" abre caminho para "Sinhá", a (até aqui) derradeira parceria de João Bosco com Chico Buarque, e que passaria a integrar os shows de ambos a partir da década de 2010. Recorde-se que, antes disso, Chico e Bosco haviam feito juntos apenas a rosiana "Mano a Mano" (1984).

Do ponto de vista musical, a obra madura de João Bosco com Francisco não se compromete com este ou aquele gênero, já que pode partir de modinhas e valsas, da bossa nova, dos traços caribenhos e até mesmo do samba, rumo a uma canção essencial —quando o rótulo estilístico deixa de ser o assunto principal para dar espaço a uma dicção melódica nova, serena, traduzida em um desenvolvimento motívico-temático sem cortes, e que permite a Francisco até mesmo comentar, metalinguisticamente, a produção anterior do pai, aquele conjunto de músicas que ele e "a torcida do Flamengo" cresceram cantando.

De certo modo, com seus principais parceiros anteriores —Aldir Blanc, Salomão e Cicero—, João Bosco era musicalmente provocado pelos poetas, e sua "música popular cantada" se justapunha, provocante, aos versos.

Nos melhores momentos com Francisco, por outro lado, a arte cancionista vira uma coisa só, e por isso não faz sentido transcrever a letra de "Tanto Faz" sem suas curvas melódicas hesitantes. Francisco não é um poeta que faz canções: sua poesia emerge do artesanato híbrido, implicado, como já se anunciara em "Jade", por melodia e harmonia.

Até aqui são mais de 50 músicas da parceria pai-filho, gravadas por João Bosco ao longo de um período de quase 30 anos, isto é, trata-se de um trabalho muito mais longevo do que a originária dupla com Aldir Blanc.

Que essas peças sejam menos conhecidas do que os sucessos dos anos 1970 deve-se mais às mudanças do mercado musical do que à sua qualidade ou nível artístico.

Muitos dos discos lançados por João Bosco nas últimas décadas trazem colaborações fecundas com instrumentistas de formação jazzística, como os guitarristas e arranjadores Nelson Faria e Ricardo Silveira, a NDR Bigband de Hamburgo, o Trio Madeira Brasil, a clarinetista e saxofonista Anat Cohen e, especialmente, o virtuose da bateria Kiko Freitas, que consegue encaixar e amplificar, com as baquetas, cada movimento de polegar, indicador médio e anular da mão direita de Bosco.

No mesmo texto de 1982 mencionado acima, Kubrusly escreve: "Toca de tatu, linguiça e paio, boi zebu / Rabada com angu, rabo de saia / Naco de peru, lombo de porco com tutu / E bolo de fubá, barriga-d’àgua: se quiser descobrir como tal amontoado de comilanças pode ser transformado em magníficas canções, confira ouvindo ‘Linha de Passe’".

Também citando e comentando "Linha de Passe", Francisco Bosco resume, em "Abricó de Macaco" (2020), o interesse perene da arte de João Bosco: "Babaluaê, rabo de arraia e confusão [...] / Vida, tudo o que existe / Desde o firmamento / Ao chão".

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