Em 15 de agosto de 1971, Richard Nixon apareceu na televisão estadunidense para anunciar uma drástica reestruturação da economia do pós-guerra. Ele fechou a chamada janela do ouro, pondo fim à conversibilidade dos dólares detidos por bancos centrais estrangeiros em ouro estadunidense. Outros bancos centrais não estavam mais autorizados a trocar seus dólares por ouro dos EUA. Com um breve discurso, ele derrubou a ordem monetária que sustentava a economia mundial desde a Segunda Guerra Mundial: o sistema de Bretton Woods.
Os Estados Unidos haviam colocado o dólar no centro do sistema. O país prometeu resgatar dólares por ouro a um preço fixo. Outros países atrelaram suas moedas ao dólar. Mas a Guerra do Vietnã drenou recursos, aumentou os gastos e enviou novos dólares para o mundo todo.
A decisão de abandonar a indexação do dólar ao ouro foi impulsionada, em grande parte, por essas pressões. Ao final da década, os Estados Unidos tentaram financiar tanto a guerra quanto os crescentes programas da Grande Sociedade sem arcar com todos os custos por meio de impostos. O Congresso acabou promulgando uma sobretaxa temporária no imposto de renda em 1968, mas os déficits crescentes e a política monetária expansionista já haviam contribuído para a inflação. A guerra também desviou mão de obra, aço, combustível, transporte e outros recursos reais da economia civil, contribuindo para o superaquecimento da economia e para o envio de dólares adicionais para o exterior. De 1965 até a primavera de 1968, a presença estadunidense no Vietnã cresceu de cerca de 24.000 militares para cerca de 550.000.
Os Estados Unidos também descartaram alternativas à guerra. Inicialmente, Ho Chi Minh buscou a cooperação com os Estados Unidos e inspirou-se na Declaração de Independência estadunidense. Mas Washington acabou apoiando a recolonização francesa, aproximando assim o movimento de independência vietnamita da União Soviética e da China. Os Estados Unidos, portanto, escolheram um conflito que mais tarde contribuiu para minar seu próprio sistema monetário.
À medida que os bancos estrangeiros tentavam cada vez mais obter ouro em troca de dólares, a contradição ficou evidente: os Estados Unidos haviam emitido mais dólares do que podiam resgatar ao preço oficial. Nixon, portanto, suspendeu a conversibilidade numa tentativa de evitar a austeridade interna. A decisão permitiu maior liberdade monetária, mas a consequente desvalorização do dólar corroeu o poder de compra das receitas dos produtores e aumentou a pressão por preços mais altos do petróleo.
É claro que os Estados Unidos não iniciaram a Guerra do Vietnã para romper com o padrão-ouro. A relação causal foi a seguinte: a guerra agravou os déficits, aumentou as pressões inflacionárias e tornou o sistema de Bretton Woods insustentável. Washington compreendeu essa relação, mas permitiu que a guerra continuasse. Quando o sistema entrou em colapso, aproveitou a crise para construir um regime monetário baseado no dólar mais flexível e sob seu próprio controle.
Contudo, Washington não se contentou em apenas proteger suas reservas de ouro. Em uma reunião de 1974 com Henry Kissinger, o Secretário de Estado Adjunto Thomas Enders declarou que um papel mais forte para o ouro beneficiaria a Europa, que detinha a maior parte das reservas mundiais do metal. Os Estados Unidos, por sua vez, queriam transferir o sistema para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os Direitos Especiais de Saque (DES), um ativo de reserva internacional criado pelo fundo. A discussão revela uma luta pelo poder geopolítico, e não simplesmente uma reforma monetária técnica.
Quadruplicar o preço do produto essencial para a sociedade industrial
Dois anos depois, eclodiu a Guerra do Yom Kippur entre Israel e uma coalizão de Estados árabes liderada pelo Egito e pela Síria. Os produtores árabes de petróleo reduziram a produção e impuseram um embargo aos países que apoiavam Israel. Em poucos meses, o preço do petróleo bruto disparou.
O petróleo era a força vital da sociedade industrial. Naquela época, assim como agora, ele impulsionava caminhões, fábricas, agricultura e navios; aquecia edifícios; e servia como insumo fundamental na produção de plásticos, produtos químicos e fertilizantes. Com a disparada dos preços do petróleo, o custo de quase tudo aumentou. As empresas elevaram os preços. As famílias perderam poder de compra. Os países importadores de petróleo registraram déficits comerciais crescentes.
O choque do petróleo acelerou uma inflação que já estava em curso, principalmente sob a forma de um choque de custos. Ela não ocorreu porque os professores lecionavam para um número insuficiente de crianças, os enfermeiros cuidavam de poucos pacientes ou os aposentados recebiam pensões excessivas. A guerra, a energia cara, a desvalorização das moedas e a escassez de recursos essenciais impulsionaram os preços para cima.
Durante e após a Primeira Guerra Mundial, os preços também dispararam — praticamente dobrando entre 1914 e 1920 — à medida que o esforço de guerra consumia recursos, destruía a capacidade produtiva e criava escassez para a população civil. A Segunda Guerra Mundial trouxe consigo fortes pressões inflacionárias, embora o racionamento rigoroso e o controle de preços tenham atenuado grande parte do aumento provocado pelo período de guerra. Quando esses controles foram suspensos em 1946, desencadearam uma onda inflacionária curta, porém violenta, provocando aumentos de preços próximos a 20% em 1946-1947. Contudo, isso foi visto como um fenômeno normal e administrável do pós-guerra — e não como uma falha sistêmica permanente. Os Estados Unidos, portanto, possuíam ampla experiência histórica com guerras que geram inflação.
No entanto, a direita política passou a contar uma história diferente. Alegava que o Estado de bem-estar social havia crescido demais, os trabalhadores se tornaram poderosos demais e o Estado, generoso demais. O petróleo contribuiu para a crise. A narrativa política transferiu a culpa.
Os Estados Unidos se contentavam em se apresentar como vítimas dos produtores de petróleo árabes. Mas o papel de Washington no aumento dos preços era mais complexo do que a narrativa da direita afirmava.
O Irã do Xá Mohammad Reza Pahlavi era um dos aliados mais importantes dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. O xá queria transformar o Irã em uma superpotência regional e comprar grandes quantidades de armas estadunidenses. Para isso, ele precisava de maiores receitas com petróleo. Nixon e Kissinger, portanto, tinham fortes razões para atender a pelo menos algumas de suas exigências por petróleo mais caro.
Poderosos interesses estadunidenses também lucraram com o aumento do preço. Os lucros das companhias petrolíferas dispararam, e bancos em Nova York e Londres obtiveram acesso a enormes fluxos de dinheiro provenientes do petróleo. A indústria bélica conquistou novos clientes. Embora o petróleo caro tenha prejudicado a economia em geral, ele enriqueceu interesses estratégicos e comerciais e fortaleceu as relações entre os EUA e o Irã.
Os Estados Unidos se contentavam em se apresentar como vítimas dos produtores de petróleo árabes. Mas o papel de Washington no aumento dos preços era mais complexo do que a narrativa da direita afirmava.
A Arábia Saudita tentou periodicamente estancar os aumentos de preços. O xá, por sua vez, pressionava para mantê-los altos ou para que subissem ainda mais. A resposta de Washington foi oscilante. Resistiu ao embargo e buscou preços mais baixos, mas também se mostrou avessa a confrontar o Irã. Em um artigo da época, “Nós os pressionamos”, V. H. Oppenheim afirmou que os Estados Unidos incentivaram os produtores de petróleo do Oriente Médio a aumentarem os preços em 1971.
Os Estados Unidos não criaram a crise do petróleo. A guerra, o embargo, o crescente poder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e os interesses próprios dos produtores de petróleo desempenharam papéis cruciais. Mas os líderes estadunidenses reforçaram essa tendência e aceitaram os danos, e setores estrategicamente importantes colheram os benefícios. Os líderes estadunidenses não precisavam ter planejado cada passo da crise para entender e explorar as oportunidades resultantes.
A ascensão do petrodólar
Após Nixon romper o vínculo com o ouro, os Estados Unidos precisavam reforçar sua posição como detentores da principal moeda de reserva e de comércio internacional. O petróleo ofereceu ao país uma nova âncora.
Em 1974, Washington firmou secretamente um acordo histórico com a Arábia Saudita. Os Estados Unidos concordaram em comprar petróleo saudita e fornecer ao reino ajuda militar e equipamentos. Em troca, os sauditas concordaram em reinvestir seus excedentes em dólares em títulos do governo estadunidense. Outros produtores de petróleo seguiram o exemplo, investindo também grande parte de seus lucros em bancos dos EUA, títulos do governo e na compra de armamentos. Assim, o sistema de reciclagem de petrodólares começou a tomar forma.
Como o preço do petróleo era cotado principalmente em dólares, todos os países importadores de petróleo precisavam ter acesso a dólares. Eles tinham que obtê-los por meio de exportações, utilizar suas reservas ou tomar empréstimos de bancos. Os Estados Unidos, por outro lado, emitiam a moeda na qual o preço do petróleo era cotado. Portanto, podiam pagar pelas importações e tomar empréstimos no exterior em sua própria moeda — privilégios especiais não disponíveis para outros países.
O petrodólar não substituiu o ouro como lastro formal do dólar. Mas reforçou uma forma diferente de poder estrutural. O ouro restringia os países por meio de uma âncora monetária escassa. O novo sistema do petrodólar exigia que os países que compravam petróleo obtivessem dólares, enquanto os produtores de petróleo reinvestiam grande parte de seus excedentes em bancos e títulos do governo estadunidense. O petróleo ajudou a consolidar a posição do dólar como moeda de reserva mundial.
Essa ordem pressionou os países, especialmente os mais pobres e endividados, a buscarem receitas de exportação, a contraírem empréstimos em dólares e a adaptarem suas políticas às taxas de juros estadunidenses. Também deu aos Estados Unidos um incentivo para defender a posição global do dólar com sanções, alianças e, não raramente, guerras.
Mas os Estados Unidos não precisavam de hegemonia monetária baseada no petróleo para se manterem imensamente ricos. A mão de obra, os recursos naturais, a tecnologia e a capacidade produtiva estadunidenses teriam sido suficientes para sustentar uma enorme prosperidade. Mesmo assim, optaram pela dominância em vez de um sistema internacional mais igualitário.
O álibi da estagflação
Acrise do petróleo popularizou um termo relativamente novo na época: estagflação. Os preços subiram enquanto o crescimento desacelerou e o desemprego aumentou.
Isso desafiou uma leitura simplista da curva de Phillips no pós-guerra, que os economistas usam para representar a relação entre inflação e desemprego. Muitos economistas haviam entendido essa relação como prova de que os governos poderiam aceitar alguma inflação em troca de menor desemprego. No entanto, na década de 1960, Milton Friedman e Edmund Phelps argumentaram que o Estado não poderia reduzir o desemprego abaixo de um nível supostamente “natural” sem gerar aumento da inflação.
Quando o choque do petróleo eclodiu, Friedman e seus seguidores declararam que estavam certos e que John Maynard Keynes estava errado. Mas eles mudaram o questionamento. A estagflação pode ter justificado o alerta de que o modelo de Phillips não poderia servir como um guia permanente para as opções de política econômica. Ela não demonstrou que o pleno emprego, o investimento público ou o bem-estar social se tornaram impossíveis. Um modelo simples falhou em explicar uma crise global de energia e moeda, mas o keynesianismo como um todo não foi refutado.
Os sindicatos na Grã-Bretanha, por exemplo, optaram por tentar compensar seus membros pelo choque do preço do petróleo exigindo salários mais altos. O governo respondeu com controles de preços e salários, negociações com os sindicatos e cortes nos gastos públicos. As reivindicações salariais poderiam gerar aumentos de preços em toda a economia, mas não foram a causa do choque do petróleo. Os governos optaram por não adaptar a política keynesiana de forma pragmática às circunstâncias (por exemplo, por meio de acordos salariais coordenados, controles temporários de preços ou aumento de impostos). Em vez disso, políticos de todo o espectro político priorizaram a baixa inflação em detrimento do pleno emprego e de bons salários.
Keynes nunca prometeu que o Estado poderia comprar quantidades ilimitadas de petróleo, mão de obra ou matérias-primas sem aumento de preços. Sua ideia central era que o Estado poderia mobilizar recursos ociosos quando a demanda privada falhasse. A crise do petróleo apresentou um problema diferente: atingiu o lado da oferta da economia. Exigiu regulação temporária da política energética, controle de preços, investimento, reestruturação e uma distribuição justa dos custos inevitáveis. Não exigiu austeridade permanente.
Das fábricas às finanças
A crise também demandou uma escolha sobre o que fazer com o poder produtivo da indústria do pós-guerra. Segundo o historiador empresarial Alfred Chandler, as grandes corporações tornaram-se tão eficientes na década de 1960 que a superprodução deprimiu os preços e os lucros. Essa capacidade produtiva poderia ter sido redirecionada para as necessidades sociais. O Estado poderia ter financiado a reestruturação industrial em troca de empregos seguros e objetivos sociais mais amplos, como na Suécia após 1931. Um acordo semelhante poderia até ter usado a crise energética como um marco do ano zero para iniciar uma transição verde.
Em vez disso, a redução dos lucros e a crise do petróleo fortaleceram a demanda do capital financeiro por retornos rápidos. Em vez de direcionar essa capacidade produtiva para fins socialmente úteis por meio de planejamento democrático, as empresas tentaram restaurar a lucratividade fechando fábricas, demitindo funcionários, reduzindo salários e recorrendo ao setor financeiro. A lição havia sido aprendida: a escassez de oferta podia manter os preços e os lucros elevados.
Um país pode, de fato, não ter pessoal suficiente, eletricidade, materiais e recursos naturais. Essas são limitações reais. Mas um Estado com moeda própria não precisa esperar que bilionários ou bancos criem seu dinheiro.
O antropólogo David Graeber demonstrou como a burocracia desnecessária prejudica as operações, enquanto o jornalista especializado em neurociência David Rock explicou como a pressão constante e as hierarquias comprometem o foco, o julgamento, a cooperação e a resolução de problemas. Um mercado de trabalho mais intenso pode, portanto, reduzir a eficiência real e, ao mesmo tempo, disciplinar os funcionários. O culto ao trabalho cada vez mais árduo cumpria uma função econômica, mesmo que não tenha gerado mais produtividade.
Os críticos do keynesianismo transformaram a estagflação em uma arma ideológica. A combinação de guerra, escassez de petróleo e turbulência cambial tornou-se prova de que o Estado de bem-estar social havia fracassado. Em vez de adaptar pragmaticamente as políticas keynesianas às novas circunstâncias, a baixa inflação tornou-se o objetivo primordial, tornando o pleno emprego e o aumento dos salários “impossíveis”.
Pesquisas mais recentes enfraqueceram ainda mais a alegação de que o baixo desemprego impulsiona automaticamente a inflação. As consequências da pandemia de Covid-19 reiteraram esse ponto: a inflação surgiu da interrupção das cadeias de produção e abastecimento, dos choques energéticos e da incapacidade de expandir a capacidade produtiva. Não se tratava simplesmente de pessoas terem empregos ou excesso de segurança econômica. De fato, o que foi descrito como “espirais de preços e salários” eram, com a mesma frequência, “espirais de preços e lucros”.
Duas faces da contrarrevolução
Os Estados Unidos não usaram apenas o comércio, os empréstimos e o dólar para fortalecer seu poder, mas também a Agência Central de Inteligência (CIA), a pressão econômica e o apoio a golpes militares.
O exemplo mais claro é o golpe de Estado chileno de 1973. Os chilenos elegeram o socialista Salvador Allende como presidente. Ele queria assumir o controle das minas de cobre e implementar uma política econômica independente. O presidente dos EUA, Richard Nixon, temia que uma trajetória democrática bem-sucedida rumo ao socialismo inspirasse outros países a seguirem o exemplo do Chile.
Nixon ordenou à CIA que fizesse a economia do Chile “gritar”. Os Estados Unidos suspenderam a ajuda e o crédito, financiaram partidos e meios de comunicação da oposição e usaram a CIA para desestabilizar o governo de Allende. A crise se aprofundou à medida que greves e conflitos abalaram o país.
Em 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet tomou o poder. Os militares derrubaram Allende e impuseram uma brutal ditadura de direita. Os Estados Unidos ajudaram a criar as condições para o golpe. Pinochet então abriu a economia a experiências neoliberais que favoreceram poderosos interesses privados.
O Chile não foi uma exceção. Em 1954, a CIA derrubou o governo eleito da Guatemala depois que as reformas agrárias do presidente Jacobo Árbenz ameaçaram os latifundiários e a United Fruit Company. Em meados da década de 1960, Washington apoiou a destruição do Partido Comunista e do movimento operário de esquerda pelo exército indonésio, ligada a brutais assassinatos em massa. Na década de 1980, os Estados Unidos armaram e apoiaram os Contras em sua guerra contra o governo sandinista da Nicarágua.
Os Estados Unidos se opuseram repetidamente a governos que tentaram controlar suas próprias economias e escapar de sua órbita política. A crise do petróleo pode não ter criado a máquina imperial, mas lhe deu instrumentos poderosos. À medida que os empréstimos em petrodólares e a dívida denominada em dólares se expandiam, Washington ficou livre para combinar pressão financeira, ações secretas e poder militar para derrotar projetos de desenvolvimento independentes e atrair países mais estreitamente para sua esfera de influência.
A coerção era apenas um aspecto do projeto. Os liberais de mercado não precisaram inventar sua narrativa em 1973. Eles a vinham preparando há décadas.
Friedrich Hayek, Milton Friedman e outros fundaram a Sociedade Mont Pèlerin já em 1947. Interesses empresariais financiaram grupos de reflexão, cátedras, livros e campanhas. Essas organizações treinavam políticos e forneciam à mídia mensagens simplistas: o Estado é o problema, os impostos são um obstáculo e os sindicatos elevam os preços.
A crise deu a essas redes a oportunidade que elas tinham. Apontaram para as filas nos postos de gasolina e disseram que o sistema de bem-estar social tinha ido longe demais. Apontaram para a inflação e disseram que os trabalhadores tinham recebido demais. Apontaram para os déficits e fingiram que um Estado com moeda própria funcionava como uma família endividada.
A mensagem obscureceu a diferença crucial. Uma família precisa ganhar ou pedir dinheiro emprestado antes de poder gastá-lo. Um Estado monetário soberano emite a moeda que utiliza. Um Estado pode ficar sem enfermeiros, eletricidade, aço, moradia ou medicamentos. Mas não pode ficar sem sua própria moeda no mesmo sentido.
A inflação estabelece um limite real. A natureza estabelece outro. Mas o esvaziamento do tesouro é frequentemente uma narrativa política, não um fato concreto.
Apresentando Paul Volcker
Em 1979, Paul Volcker assumiu o comando do Federal Reserve dos EUA. Ele elevou as taxas de juros para 20% para combater a inflação. Seu objetivo era derrotar a inflação sufocando a demanda.
O método gerou falências e desemprego em massa. Quando as pessoas temiam perder seus empregos, tinham menos poder para exigir salários mais altos. Quando os sindicatos perderam membros e o poder de greve, o poder passou para os empregadores. A luta contra a inflação, portanto, também se tornou política de classe.
Mas os aumentos das taxas de juros frequentemente atacam os sintomas em vez das causas originais da inflação. Quando os preços são impulsionados para cima por choques de oferta, problemas de distribuição ou guerras, taxas de juros mais altas não produzem mais petróleo, eletricidade, moradias ou alimentos. As pessoas ainda precisam comprar o que necessitam. Em vez disso, taxas altas reduzem o crédito e o investimento e aumentam o desemprego. A economia é forçada a absorver o choque por meio da perda de empregos, salários mais baixos e fechamento de empresas — tudo isso sem realmente sanar a escassez que fez os preços dispararem.
O choque Volcker também provocou a valorização do dólar, já que retornos mais altos atraíram mais capital para os Estados Unidos. Isso dizimou fábricas em todo o cinturão industrial estadunidense. O impacto foi ainda mais severo na América Latina e na África. Muitos países haviam contraído empréstimos com base nos petrodólares emitidos pelos bancos ocidentais na década de 1970. Os empréstimos eram geralmente em dólares e frequentemente tinham taxas de juros variáveis. Quando os Estados Unidos aumentaram as taxas de juros e o dólar se valorizou, o endividamento desses países explodiu.
Em 1982, o México anunciou que não conseguiria mais honrar sua dívida. O FMI e o Banco Mundial ofereceram novos empréstimos, mas exigiram cortes, privatizações, redução dos salários do setor público e abertura de mercados. A crise da dívida deu a essas instituições a alavancagem necessária para desmantelar modelos sociais inteiros e interromper a nascente industrialização que havia começado no Sul Global durante o período de desenvolvimento do pós-guerra.
Em muitos países, os programas de ajustamento do FMI e do Banco Mundial contribuíram para a pobreza, a desindustrialização e a desintegração. Na Iugoslávia, a dívida, o desemprego e os cortes no bem-estar social enfraqueceram a coesão federal. A camisa de força econômica não causou, por si só, a guerra civil e o genocídio na Iugoslávia, mas exacerbou a insegurança e os antagonismos regionais que os líderes nacionalistas transformaram em uma força política explosiva.
Todos são informados de que os recursos estão esgotados e que alguém em uma posição social inferior já se apropriou da sua parte. O conflito subjacente entre trabalho e capital desaparece de vista.
Ronald Reagan apontou o Estado como o problema. Ao mesmo tempo, aumentou os gastos militares e acumulou grandes déficits orçamentários. Os Estados Unidos utilizaram pesquisa pública, aquisições de defesa e políticas industriais para impulsionar a aviação, a computação e novas tecnologias.
Por outro lado, muitos países endividados foram instruídos a cortar gastos. Os países europeus impuseram, cada vez mais, medidas semelhantes em seus próprios territórios. Japão, Coreia do Sul e Taiwan foram autorizados — e, por vezes, incentivados — a utilizar bancos estatais, proteção tarifária e crédito direcionado, desde que seu desenvolvimento servisse à estratégia dos EUA durante a Guerra Fria. A disciplina de mercado, portanto, aplicava-se com maior rigor àqueles que não tinham poder para dizer não.
Na Suécia, a direita, particularmente através da Associação Patronal, conduziu uma longa e dispendiosa campanha para apresentar a crise internacional como um argumento contra os sindicatos, as condições de trabalho, a segurança social e o bem-estar público. O choque do petróleo não provou, de fato, que o Estado de bem-estar social — o folkhem — tivesse falhado. Mas deu aos patrões uma oportunidade de ouro para inverter o equilíbrio de poder, desviando-o dos trabalhadores e das instituições eleitas para as empresas, os proprietários de capital e os mercados privados.
As consequências das lições erradas
Trabalhadores trabalham em fábricas, armazéns, transportes, restaurantes e serviços de assistência. Professores, assistentes sociais, jornalistas, pesquisadores e comunicadores enfrentam a mesma lógica, porém de forma diferente. As organizações sofrem com a falta de pessoal e tempo. Os gestores continuam exigindo que os trabalhadores se tornem mais flexíveis, positivos e eficientes.
Muitas pessoas ainda desejam um bom sistema de saúde, aposentadorias seguras, auxílio-desemprego mais alto, aluguéis acessíveis e escolas que funcionem bem. No entanto, a maioria dos partidos tradicionais, desprovidos de ambição e imaginação política, continua a minar esses mesmos sistemas.
O professor sobrecarregado é colocado em conflito com o funcionário de licença médica. A enfermeira, contra o desempregado. O trabalhador, contra o migrante. Todos são informados de que os recursos estão esgotados e que alguém em uma posição social inferior já se apropriou da sua parte. O conflito subjacente entre trabalho e capital desaparece de vista.
Quando partidos de esquerda e de centro-direita prometem segurança, mas implementam austeridade, a democracia perde credibilidade. Os eleitores se cansam de diferentes versões das mesmas políticas e escolhem aquela que promete mudar o cenário.
Líderes autoritários criam inimigos em vez de segurança para as pessoas. Atacam migrantes, minorias, jornalistas, trabalhadores da cultura, tribunais e sindicatos. Ao mesmo tempo, protegem as maiores fortunas e corporações que lucram com a ordem desigual.
Eles prometem mudanças sistêmicas. Mas direcionam a revolta para baixo.
Meio século depois, os paralelos são difíceis de ignorar. A pandemia desestabilizou a produção e as cadeias de suprimentos; a guerra na Ucrânia aumentou os custos de energia; e agora a guerra com o Irã e os imbróglios que interrompem o tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz fizeram os preços dispararem novamente. As circunstâncias podem ser diferentes; as respostas políticas, não. A inflação resultante da guerra, da escassez e da produção interrompida é atribuída aos salários, aos gastos públicos ou ao fato de as pessoas comuns supostamente viverem na opulência. Repetidamente, os trabalhadores são informados de que devem absorver o custo de crises pelas quais não têm nenhuma responsabilidade.
O mundo da década de 1970 foi assolado por guerras, caos monetário e um aumento drástico no preço de sua fonte de energia mais importante. Os Estados Unidos contribuíram para a convulsão, lucraram com o petrodólar e usaram sua recém-conquistada liberdade monetária para financiar guerras e sustentar a hegemonia global. No entanto, as pessoas comuns foram levadas a acreditar que sua própria prosperidade e segurança haviam causado o desastre.
Esse mito persiste sempre que um governo afirma ter ficado sem dinheiro para saúde, educação, moradia, aposentadorias ou mudanças climáticas. Um país pode, de fato, não ter pessoal suficiente, eletricidade, materiais e recursos naturais. Essas são limitações reais. Mas um Estado com moeda própria não precisa esperar que bilionários ou bancos criem seu dinheiro.
Além disso, a medida prescrita — suprimir a demanda privada e restringir os orçamentos públicos — pode, por si só, prejudicar a produção. Os liberais de mercado podem então citar as dificuldades resultantes para justificar ainda mais austeridade. Em tempos de crise, políticas que transferem riqueza e poder para as camadas mais altas da sociedade podem ser apresentadas como inevitáveis e necessárias.
O Estado deve governar de acordo com a capacidade produtiva real da economia. Deve conter a demanda quando os recursos forem insuficientes, preferencialmente atribuindo uma parcela maior do ônus aos mais ricos. Mas quando houver desemprego, fábricas ficarem ociosas e as necessidades sociais aumentarem, o Estado pode utilizar sua capacidade monetária para colocar os recursos ociosos em atividade.
A crise do petróleo não foi apenas um choque econômico. A direita a transformou em uma narrativa de que a democracia não conseguia mais controlar a economia. Dessa narrativa surgiram cinquenta anos de cortes, desregulamentação, privatização, estresse e desigualdade.
A maior vitória da direita não foi ter resolvido a crise do petróleo. Foi fazer o mundo se lembrar da crise da maneira errada.
Colaborador