A centralidade da agricultura para o capital mundial não pode ser subestimada. Na década que antecedeu 2025, o valor das exportações agrícolas mundiais aumentou 34%, atingindo quase US$ 2,3 trilhões, superando as commodities de metais e minerais e ficando atrás apenas dos combustíveis fósseis. Esse enorme motor material de produção é apenas o lado tangível do agronegócio, que controla cada vez mais circuitos enormes de capital financeiro especulativo. A crescente economia verde conferiu ainda mais importância à agricultura em larga escala. Com os sistemas agroalimentares respondendo por um terço das emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana, o agrocapital tem um impacto desproporcional na trajetória da transição climática global.
Não surpreende, portanto, que em países dependentes de commodities — cerca de 80% das economias em desenvolvimento, segundo estimativas da ONU — o agrocapital desfrute de considerável poder fiscal e político. O Brasil é um desses países. Os produtos agrícolas representam 43% das exportações do Brasil, com soja, carne bovina e café liderando um mercado de commodities que movimenta US$ 169 bilhões. Essa riqueza também é extremamente concentrada. Apenas 10% dos latifundiários controlam 73% da área rural brasileira, com os 50% menores produtores concentrados em apenas 2% do território. Esse controle desigual dos recursos produtivos do país sustenta o domínio duradouro das classes latifundiárias sobre o Estado.
Consequentemente, o agronegócio brasileiro exerce o maior e mais poderoso lobby em um cenário político dominado por grupos de interesse consolidados. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que conta com 342 membros nas duas casas do Congresso brasileiro, é apenas a ponta de lança de um complexo nacional que representa os interesses de latifundiários e empresas agropecuárias, independentemente do partido no poder. Trata-se da chamada bancada ruralista.
Em maio, o lobby agiu com uma velocidade impressionante para aprovar um conjunto de projetos de lei que destroem as proteções ambientais e sociais do Brasil. Tratava-se de um ataque coordenado aos alicerces das frágeis vitórias ambientais do presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, uma campanha legislativa de choque e intimidação. Projetos de lei foram levados à votação em plenário sem revisão por comissões. Leis foram derrubadas apenas para serem ressuscitadas e votadas horas depois. Os projetos, o momento escolhido, os espectadores presentes — tudo foi cuidadosamente planejado para obter o máximo efeito.
O que os jornalistas chamam de “Semana do Agro” não é um fato consumado. Os projetos precisam ser aprovados pelo Senado antes de se tornarem lei, e ainda existe a possibilidade de Lula exercer seu poder de veto presidencial. Independentemente do resultado final, as consequências nunca foram tão claras. Para que serve a natureza e quem pode desfrutar de seus frutos?
Os projetos de lei
A magnitude da ofensiva jurídica do agronegócio pode ser percebida nas leis propostas. Entre elas, estão propostas para reduzir em meio milhão de hectares a reserva ecológica Jamanxim, na Amazônia; conceder ao Ministério da Agricultura o controle sobre quais animais entram na lista de espécies ameaçadas de extinção; retirar a proteção de 40% das áreas florestais no estado do Pará e de áreas de vegetação nativa em todo o país; restringir a capacidade do governo de monitorar riscos de criminalidade no financiamento rural; e, mais importante, neutralizar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), dificultando sua capacidade de combater o desmatamento ilegal por meio de imagens de satélite.
Sob a gestão revitalizada do IBAMA, o desmatamento caiu 50% nos últimos três anos, com "megaoperações" contra madeireiros ilegais gerando multas sem precedentes e apreensões de madeira ilegal.
Para completar o quadro, temos a aprovação do Supremo Tribunal Federal para a construção de uma ferrovia em território indígena e as tentativas contínuas do lobby de usar fundos sociais e rendas do petróleo para reestruturar as dívidas dos agricultores, e começamos a perceber a dimensão dessa tempestade de reações do setor agrícola.
No entanto, surpreendentemente pouco foi criado com essa enxurrada de projetos de lei. A vingança é o grito de guerra: desfazer o que o setor percebe como violações de suas liberdades de produção e expansão irrestritas.
Considere a decisão, aprovada pela Câmara dos Deputados em 21 de maio, de conceder ao Ministério da Agricultura controle quase total sobre a lista de espécies ameaçadas e invasoras — um poder usurpado do Ministério do Meio Ambiente. Tratava-se de uma punição pela decisão deste último de classificar a tilápia, um peixe comum na aquicultura, como espécie invasora — uma medida que o ministério fez questão de enfatizar que ainda não restringia seu cultivo. A perspectiva de iminentes repressões estaduais contra a tilápia mergulhou os produtores de carne em um pânico moral. “É um absurdo. É irritante”, exclamou o presidente da FPA. Sob pressão de grupos de pressão, o Ministério do Meio Ambiente suspendeu, em dezembro, toda a sua lista de espécies protegidas: todas as 444. O projeto de lei do mês passado foi apresentado ao Congresso para garantir que esse tipo de susto nunca mais aconteça.
A vingança também alimentou o que ameaça ser a lei mais consequente aprovada em maio: o assassinato do IBAMA, órgão de fiscalização ambiental do Brasil. Essa agência tem sido o principal instrumento do considerável sucesso do terceiro governo Lula no combate ao desmatamento da Amazônia desde 2022. Sob o comando desse IBAMA revigorado, o desmatamento caiu 50% nos últimos três anos, com “megaoperações” contra madeireiros ilegais gerando multas sem precedentes e apreensões de madeira ilegal.
Essas conquistas se baseiam em dois pilares agora diretamente ameaçados. O primeiro é o uso de imagens de satélite pelo IBAMA para monitorar remotamente o desmatamento, sem a necessidade de fiscais visitarem fisicamente áreas rurais isoladas e frequentemente hostis. A segunda é a capacidade do IBAMA de impor embargos preventivos a propriedades sob investigação por crimes ambientais, bloqueando seu acesso a mercados e crédito — uma medida considerada crucial no combate a um setor criminoso rápido e furtivo. Ambos os poderes, insiste o agronegócio, colocam os agricultores em risco injusto de punições. Histórias de horror de produtores azarados que cortam seus caquizeiros apenas para serem identificados como desmatadores ilegais via satélite ajudaram o agronegócio a se apresentar como defensor dos humildes agricultores assediados por tecnocratas distantes e sem rosto.
Na realidade, há motivações menos benevolentes em jogo. Com essa lei, o agronegócio visa nada menos que dinamitar um dos pilares da proteção ambiental no Brasil. Restringir o IBAMA a inspeções físicas é semelhante, como disse um funcionário, a fiscalizar infrações de trânsito com policiais escondidos no mato. Quanto à proposta de notificar os proprietários de terras antes que o IBAMA implemente bloqueios preventivos à chegada de sua madeira ou soja potencialmente ilegais ao mercado, há um motivo pelo qual os criminosos geralmente não são avisados, de forma educada, sobre a iminência de ações judiciais.
A satisfação moral de derrotar a ala ambientalista da esquerda brasileira é apenas um bônus adicional.
Caso seja aprovada, essa lei poderá bloquear cerca de 70% das atividades de monitoramento do IBAMA. A destruição da Amazônia, que já está em pleno andamento, seria praticamente legalizada. O Brasil cambaleia, lamentou o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, à beira de uma “regressão inimaginável”. Na semana passada, ele alertou que isso pode ter um “impacto na governança ambiental no Brasil em proporções nunca antes vistas”.
Crises no setor agrícola
Quem está por trás dessa onda de leis? E qual é a sua principal motivação?
O agronegócio brasileiro não é um bloco monolítico, e as diversas divisões internas são essenciais para entender as queixas que alimentam sua política. Existem lacunas significativas entre os interesses e as prioridades de corporações multinacionais como a Bunge e a Amaggi e os dos pequenos e médios agricultores que povoam o coração agrícola do Brasil. Em paralelo a esses grupos, encontram-se os clãs oligárquicos, cujo domínio quase feudal do norte e nordeste do Brasil esconde laços estreitos com o agronegócio financeirizado. E abaixo de todos esses, estão os grileiros, garimpeiros ilegais e outros criminosos extrativistas que se infiltraram no lobby rural para promover seus interesses mútuos em enfraquecer as proteções ambientais e expandir a fronteira extrativista da Amazônia.
Os membros da bancada ruralista podem, portanto, ser classificados em diversos eixos com base no tamanho de suas propriedades rurais, no grau de integração com os mercados globais e na legalidade de seus empreendimentos. O que une esse grupo frequentemente heterogêneo, “de um mero conjunto de interesses setoriais a um movimento cada vez mais assertivo que busca a hegemonia no cenário nacional”, como afirma Fernando Rugitsky, é a queixa comum contra o modelo de governança ambiental do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula e a habilidade da família Bolsonaro em usar essa queixa para contestar o poder no mais alto nível.
Esse “agrobolsonarismo” é a principal força motriz da ofensiva jurídica do mês passado. Embora seja defendido pelos oligarcas e grandes latifundiários que compõem as fileiras da FPA no Congresso, a força motriz do movimento reside, sem dúvida, nos pequenos e médios agricultores. Suas queixas não são totalmente infundadas: pressionados desconfortavelmente entre os dois principais defensores do lulismo — os gigantes da produção de commodities e os trabalhadores pobres —, os pequenos proprietários rurais lutam para sobreviver. Este era um terreno fértil para o populismo reacionário de Jair Bolsonaro, que incorporou a celebração do empreendedor independente ao repertório habitual de temas conservadores: mais armas, menos regulamentação, desprezo generalizado pelos pobres sem lei. Impulsionados pela vitória de Bolsonaro, os agricultores descontentes provaram ser plenamente capazes de defender seus interesses mesmo após sua destituição.
Os anos desde a eleição de Lula apenas reforçaram a sensação de crise no setor agrícola. Cerca de 8,2% das propriedades rurais estavam inadimplentes no final de 2025, com as taxas de insolvência aumentando trimestre a trimestre por dois anos consecutivos. Em meio a uma tempestade perfeita de tarifas americanas, aumento dos custos de produção e uma série de desastres climáticos alarmantes, muitos agricultores terão sorte se conseguirem pelo menos empatar após a colheita deste ano. Essa crise de rentabilidade é o contexto imanente da ofensiva legislativa da FPA.
O setor agrícola brasileiro há muito tempo vê a proteção ambiental como um fardo: árvores protegidas às custas do agricultor. Ao desmantelar as proteções ecológicas, a bancada ruralista busca remover quaisquer entraves ao alcance e à intensidade da produção agrícola. A satisfação moral de derrotar a ala ambientalista da esquerda brasileira é apenas um bônus adicional.
O lobby do agronegócio também defendeu um resgate estatal direto para seus membros. A resposta preferida da bancada ruralista à crise da dívida não envolve apenas o aumento drástico dos subsídios estatais disponíveis aos agricultores, mas também a obtenção desse alívio da dívida a partir de fundos sociais e das rendas do petróleo, que dispararam durante a guerra com o Irã. É um lembrete contundente da relação persistente entre a destruição da Terra e a destruição de seus pobres.
Tudo isso constitui uma resposta perversa à COP30, realizada há apenas oito meses em Belém, capital do estado do Pará, na Amazônia, sob o governo do então governador Hélder Barbalho. Em um surreal teatro político, um orgulhoso Barbalho assistiu passivamente enquanto o Congresso votava para dizimar os ecossistemas de seu estado e sancionar a grilagem de terras em larga escala. O Brasil pode estar dando passos admiráveis para tornar sua matriz energética mais verde, mas essa falha flagrante em proteger suas florestas de tratores e motosserras deixa um gosto amargo nas autoproclamações do Brasil como “líder climático”.
Com a promessa de uma eleição acirrada em outubro contra Flávio Bolsonaro, Lula dificilmente estará em posição de confrontar diretamente o lobby mais forte do Congresso.
Existe, de fato, um contingente crescente do setor do agronegócio que busca surfar na onda da transição verde. As multinacionais foram abaladas pela decisão da UE de proibir as importações de carne brasileira, e as cadeias de suprimentos marcadas por abusos trabalhistas e destruição ecológica parecem cada vez mais um passivo fiscal e de imagem. Para esses proprietários de terras “conscientes”, o ataque do mês passado às proteções ambientais é simplesmente arcaico. Aqueles dispostos a prestar um serviço superficial à transição climática não precisam abrir mão de lucros substanciais: tokens de carbono, títulos verdes e créditos de biodiversidade oferecem novas maneiras de extrair valor da terra com uma fração do risco reputacional. Por enquanto, no entanto, essas estratégias foram adotadas apenas por uma pequena minoria. A monocultura em larga escala para exportação — o modo de produção imposto pelos portugueses — continua sendo o padrão para os agricultores brasileiros. O açúcar deu lugar à soja, mas pouco mais mudou.
Um oceano de soja
Lula não está sem cartas na manga. O setor do agronegócio continua extremamente dependente do Estado. Sem seus créditos e subsídios, suas generosas taxas de juros e infraestrutura financiada pelo Estado — todas manifestações do tipo de ativismo governamental que seus líderes de direita dizem detestar — o setor não pode sobreviver. No entanto, o lulismo, por sua vez, depende do agronegócio e dos setores extrativistas, necessitando de suas rendas e divisas para alimentar o desenvolvimentismo estatal redistributivo do PT. Com a promessa de uma eleição acirrada contra Flávio Bolsonaro em outubro, Lula dificilmente está em posição de confrontar diretamente o lobby mais forte do Congresso.
De fato, a conciliação — e não a resistência — tem definido a relação de Lula com o agronegócio ao longo de seus doze anos no poder. Lula colocou os cofres públicos à disposição deles; os agricultores, por sua vez, têm tolerado, ainda que a contragosto, suas políticas sociais. Esse casamento instável — ampla promoção social impulsionada pelo mais regressivo dos setores econômicos — é a contradição insuperável no cerne do lulismo.
A resposta do Partido dos Trabalhadores à avalanche legislativa do mês passado tem sido, até agora, inegavelmente fraca. Aqui e ali, a bancada ambientalista conseguiu suavizar o discurso, inserir uma brecha, apontar o dedo em desaprovação — parecendo cada vez mais que foram para uma guerra de armas com uma faca. Lula ainda poderia exercer seu veto caso algum projeto de lei seja aprovado pelo Senado, como fez quando a chamada Lei da Devastação foi promulgada em julho passado. Mas isso também parece uma resposta anêmica: o veto presidencial pode ser derrubado caso a maioria absoluta das duas casas do Congresso vote por sua anulação. Um Congresso dominado pela bancada ruralista frequentemente tem a última palavra. A FPA levou menos de cinco meses para derrubar cinquenta e seis dos sessenta e três vetos de Lula contra o projeto de lei mencionado.
Se existe um caminho a seguir, ele reside nos grupos que estão na linha de frente da luta contra essa contrarrevolução agrária: os movimentos indígenas, de trabalhadores rurais sem-terra e quilombolas, que tanto contribuíram para chamar a atenção do mundo para a pilhagem da Terra. O verdadeiro poder dessas lutas populares está enraizado na demonstração prática de modos de vida e produção que sustentam este planeta e seus seres vivos. Como enfatiza Rugitsky, existe um caminho a seguir que vai além do paradigma estéril e combativo da “poupança de terras” que define a abordagem do PT à governança ambiental. Somente se esses movimentos forem fortalecidos por uma base de massas, somente se conseguirem navegar pela longa marcha através das instituições do Estado brasileiro, as futuras gerações herdarão uma Terra habitável.
A alternativa — um oceano de soja, uma paisagem lunar pisoteada por gado — é algo que dificilmente merece ser considerado.
Este trabalho foi possível graças ao apoio da Fundação Puffin.
Colaborador
Tyler Antonio Lynch é economista político e doutorando, pesquisando temas como terra, trabalho e Estado na América Latina.









