2 de setembro de 2026

A disparada dos rendimentos dos títulos beneficia os ricos e aperta o restante da população

A alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro não é um veredito do mercado sobre a irresponsabilidade do governo. Trata-se de uma decisão de política econômica que transfere renda de trabalhadores e tomadores de empréstimos para detentores de títulos e instituições financeiras.

Matías Vernengo


Os "vigilantes do mercado de títulos" não são uma força externa de mercado disciplinando um governo irresponsável. A narrativa do pânico no mercado de títulos inverte a relação de causa e efeito: os rendimentos elevados refletem, em grande medida, escolhas de política — e essas escolhas têm consequências distributivas. (Melissa Sue Gerrits / Getty Images)

A recente alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de longo prazo reacendeu uma narrativa conhecida sobre irresponsabilidade fiscal. Analistas apontam para os grandes déficits federais, a crescente dívida pública e o volume de títulos do Tesouro chegando ao mercado. Sob essa ótica, rendimentos mais altos seriam a resposta do mercado ao endividamento governamental excessivo, e a política da administração Trump equivaleria a uma imprudência fiscal. Essa interpretação baseia-se em uma concepção antiga e equivocada dos mercados financeiros. Ela trata o governo e os tomadores de empréstimos privados como concorrentes por um conjunto limitado de poupança, de modo que déficits maiores necessariamente impulsionariam as taxas de juros para cima. No entanto, as taxas de juros em uma economia monetária moderna não são determinadas dessa forma. O Federal Reserve (Fed) define diretamente a taxa de juros de curto prazo (taxa básica) e exerce forte influência sobre toda a curva de rendimentos por meio de alterações na composição e no tamanho de seu balanço patrimonial, bem como por meio das expectativas em relação às taxas futuras.

A atual elevação das taxas de longo prazo é mais bem compreendida sob essa perspectiva monetária. A inflação permanece acima da meta de 2% do Fed, e o choque energético associado à guerra envolvendo o Irã reforçou os receios de persistência inflacionária. Tais receios são exagerados. Uma inflação acima de 2% não constitui, por si só, evidência de uma crise inflacionária, especialmente quando não há conflito distributivo capaz de gerar uma espiral salários-preços autossustentável. O problema mais profundo reside no compromisso do Fed com uma meta de inflação excessivamente baixa. Como os formuladores de políticas tratam até mesmo uma inflação moderada como algo que exige medidas restritivas, as taxas de curto prazo permanecem desnecessariamente elevadas, e as expectativas de taxas mais altas se propagam para os títulos de vencimento mais longo.

Os rendimentos de longo prazo também devem ser analisados ​​à luz das políticas monetárias extraordinárias adotadas após a crise financeira global. O quantitative easing (flexibilização quantitativa) reduziu deliberadamente as taxas de longo prazo ao fazer com que o Fed comprasse grandes quantidades de títulos do Tesouro. À medida que o Fed adquiria títulos de longo prazo, seus preços subiam e seus rendimentos — a taxa de juros de longo prazo — caíam. O recuo posterior em relação a essas políticas eliminou uma importante fonte de pressão de baixa sobre os rendimentos. Contudo, embora o rendimento do título do Tesouro de 10 anos pareça elevado em comparação com o período excepcional pós-2008, ele permanece modesto segundo padrões históricos de mais longo prazo. Nada nos rendimentos atuais demonstra que a dívida pública dos EUA se tornou financeiramente insustentável. De fato, a experiência desde 2008 mostra que, quando o Federal Reserve deseja influenciar as taxas dos títulos do Tesouro de longo prazo, ele dispõe dos meios para fazê-lo.

A análise recente de Adam Tooze sobre os rendimentos mais elevados dos títulos públicos oferece uma versão mais sofisticada do argumento de que o mercado de títulos gera apreensão. Ele observa corretamente que os Estados Unidos não estão à beira de um calote. Sua preocupação, na verdade, diz respeito à mudança na estrutura da demanda por títulos do Tesouro (Treasuries). Nos anos 2000, bancos centrais estrangeiros absorviam uma grande parcela das novas emissões do Tesouro. Hoje, segundo ele, investidores privados — especialmente fundos de hedge alavancados — desempenham um papel muito maior. Como essas posições podem ser desfeitas rapidamente, Tooze teme que um choque possa desencadear vendas forçadas e uma repetição da turbulência no mercado de títulos ocorrida em março de 2020.

É verdade que mercados financeiros alavancados são frágeis, e uma corrida por liquidez pode gerar desordem mesmo no mercado dos ativos em dólar mais seguros. No entanto, apesar dessa descrição sofisticada da mudança na estrutura institucional do mercado de títulos, Tooze ainda trata a demanda privada por títulos públicos como uma restrição operacional para o Tesouro. O Tesouro emite títulos, investidores privados precisam absorvê-los, e o perigo reside na possibilidade de exigirem rendimentos mais altos ou se retirarem abruptamente. Assim, o Tesouro parece, pelo menos em certa medida, refém das circunstâncias do mercado. Essa é uma concepção equivocada.

O mercado de títulos do Tesouro não é um mercado comum, no qual o governo precisa aceitar qualquer preço necessário para atrair compradores privados que o financiem. O Tesouro e o Federal Reserve são instituições formalmente distintas, mas partes conectadas de forma simbiótica ao sistema monetário. Os bancos do Federal Reserve atuam como agentes fiscais do Tesouro. Considerando a capacidade do Fed de definir a taxa de curto prazo e comprar ativos — incluindo títulos de longo prazo — e a capacidade do Tesouro de alterar a composição de prazos da dívida, as autoridades públicas têm, em última análise, o poder de determinar a estrutura das taxas dos títulos, caso decidam utilizar plenamente suas prerrogativas. Isso não significa que acidentes financeiros sejam impossíveis. Fundos de hedge podem quebrar e mercados podem ficar temporariamente ilíquidos. Mas isso não transforma os rendimentos mais altos dos títulos em uma restrição externa imposta ao governo dos EUA. Se a desordem ameaçasse o sistema financeiro, o Fed poderia intervir, como já fez anteriormente. A questão relevante, portanto, não é se haverá compradores privados suficientes para financiar o endividamento do Tesouro a uma taxa determinada pelo mercado. A questão é por que o regime de política econômica do Tesouro e do Fed optou por tolerar — e, em aspectos importantes, gerar — taxas substancialmente mais altas.

A discussão recente de James K. Galbraith sobre a dívida federal aproxima-se consideravelmente dessa interpretação. Galbraith descarta a marca de US$ 40 trilhões da dívida como algo economicamente irrelevante e enfatiza que as obrigações dos EUA denominadas em dólares podem sempre ser pagas. Mais importante ainda, ele observa que taxas elevadas têm efeitos diferentes quando a dívida federal é grande. Elas não apenas comprimem o setor imobiliário, o investimento empresarial e o crédito ao consumidor; também geram enormes pagamentos de juros aos detentores de títulos públicos. Como diz Galbraith, pagamentos de juros mais altos "inundam os detentores de dívida com dinheiro". A consequência distributiva é clara: mais renda vai para os detentores ricos de títulos. Ele também tem razão ao afirmar que a alta nos rendimentos de longo prazo não precisa sinalizar perda de confiança no governo. Quando as taxas de curto prazo sobem e a expectativa é de que permaneçam altas, o preço dos títulos de longo prazo existentes (com cupons baixos) cai, e os rendimentos de longo prazo aumentam. Não há necessidade de invocar pânico fiscal.

Isso muda a forma como devemos entender a alta dos rendimentos. Os "vigilantes do mercado de títulos" (bond vigilantes) não são uma força externa de mercado disciplinando um governo irresponsável. A narrativa do pânico no mercado de títulos inverte a relação de causalidade. Taxas elevadas refletem, em grande medida, escolhas de política econômica, e essas escolhas têm consequências distributivas. Durante grande parte do período pós-crise financeira global, os proprietários de ativos financeiros seguros enfrentaram retornos excepcionalmente baixos. Taxas básicas baixas e a flexibilização quantitativa (quantitative easing) comprimiram os rendimentos, reduziram a receita de juros de títulos públicos e geraram queixas incessantes sobre repressão financeira. O novo regime inverte esse cenário. Uma vez estabelecido, no entanto, o regime de taxas mais altas restaura fluxos substanciais de receita de juros para credores e detentores de riqueza financeira.

Scott Bessent, um homem oriundo das entranhas de Wall Street, não está sendo derrotado por seus antigos amigos. Galbraith aponta a ironia de Bessent recomprar títulos de longo prazo com rendimentos mais baixos enquanto financia essas compras emitindo dívida de curto prazo com rendimentos mais altos, e pergunta de forma ácida: "Por que, afinal, um servidor público — que supostamente não trabalha para os detentores de títulos — iria querer fazer isso?" A questão é, precisamente, quem se beneficia do regime de taxas de juros mantido pelo Tesouro e pelo Federal Reserve. Os vencedores são os rentistas. Os detentores de títulos do Tesouro recebem pagamentos de juros maiores. As instituições financeiras voltam a obter retornos substanciais sobre ativos seguros, e as famílias ricas ganham um fluxo de renda garantido pelo governo federal. Trabalhadores, tomadores de empréstimos e devedores enfrentam o outro lado da política monetária restritiva. Os custos refletem-se em prestações de financiamento imobiliário e taxas de crédito mais elevadas, demanda agregada mais fraca, crescimento mais lento e um mercado de trabalho menos aquecido.

Há uma ironia adicional. O Fed eleva as taxas, a conta de juros do governo aumenta como consequência e esse custo mais elevado com juros é então citado como prova de que os déficits estão fora de controle e de que os gastos sociais precisam ser cortados. Um problema fiscal criado, em parte, pelo regime monetário torna-se a justificativa para a austeridade. A narrativa convencional inverte a sequência de causa e efeito. Em vez de reconhecer os pagamentos de juros mais altos como resultado de uma decisão política que transfere renda para os credores, ela apresenta a conta de juros elevada resultante como evidência de que os gastos do governo estão fora de controle.

O perigo maior é político, não financeiro. As interpretações convencionais sobre os rendimentos mais altos dos títulos não passam de argumentos retóricos em prol do ajuste fiscal. Tooze tem razão ao afirmar que estruturas financeiras alavancadas podem sofrer um desmonte, e Galbraith tem razão ao dizer que não existe uma crise de solvência federal significativa e que taxas elevadas enriquecem os detentores de títulos. No entanto, nem a fragilidade financeira nem a necessidade fiscal explicam o regime atual. O governo não é simplesmente vítima de taxas geradas pelo mercado. O sistema Tesouro-Fed tem capacidade de influenciar essas taxas e optou por um regime no qual elas permanecem mais altas do que no passado recente.

Não se trata do "Choque Volcker", mas há uma semelhança de natureza entre ambos. A inflação está longe dos níveis da década de 1970 e os sindicatos estão consideravelmente mais fracos, mas isso não impediu o surgimento de um regime de política macroeconômica que mantém taxas mais elevadas e exerce nova pressão sobre os gastos sociais — tudo isso em nome de princípios de política econômica sensatos. A verdadeira questão não são os "vigilantes dos títulos" (bond vigilantes), mas sim a vingança dos rentistas.

Colaborador

Matías Vernengo é professor de economia na Universidade Bucknell e ex-gerente sênior de pesquisa do Banco Central da Argentina. É coeditor da Review of Keynesian Economics e coeditor-chefe do The New Palgrave Dictionary of Economics.

1 de setembro de 2026

O escândalo que pode derrubar a extrema direita latino-americana

Fernando Cerimedo construiu a máquina de desinformação por trás das vitórias da extrema direita — da Argentina à Bolívia e a Honduras — com tecnologia e recursos provenientes dos próprios operadores de Trump. Agora, ele está preso na Bolívia, acusado de tentar mandar matar seu ex-sócio.

Kurt Hackbarth


Policiais transferem o assessor próximo do presidente Rodrigo Paz, o argentino Fernando Cerimedo, do Palácio da Justiça para a prisão de Palmasola, em Santa Cruz, Bolívia, em 21 de agosto de 2026. A polícia boliviana prendeu Cerimedo devido a um ataque a tiros contra sua ex-companheira. (Rodrigo Urzagasti / AFP via Getty Images)

Na terça-feira, 18 de agosto, um cidadão argentino chamado Fernando Cerimedo foi preso no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Cerimedo, de 45 anos, foi acusado da tentativa de homicídio de sua ex-companheira, a advogada boliviana Nadia Beller, e teve decretada sua prisão preventiva por 180 dias. Os detalhes são macabros: imagens de câmeras de segurança mostraram pistoleiros, disfarçados de entregadores, disparando à queima-roupa contra Beller — que foi pega de surpresa — antes de fugirem do local. Para agravar a situação, Beller, que sobreviveu milagrosamente ao ataque, estava aparentemente grávida de um filho do próprio Cerimedo.

Até esse ponto, o caso poderia ser classificado como mais um episódio — horrendo, sim, mas pouco incomum — de tentativa de feminicídio após o fim de um relacionamento. Algo para ocupar brevemente as páginas policiais dos jornais locais. E, de fato, é assim que várias partes interessadas gostariam de retratar o caso. No entanto, Cerimedo é o mentor da desinformação por trás das campanhas de extrema-direita que ganharam força avassaladora na América Latina.

Suas conexões também não se limitam ao Cone Sul: elas se estendem até os círculos mais restritos do próprio trumpismo.

Cerimedo está no centro da extrema-direita latino-americana

Ao começar a observar a extrema-direita latino-americana, o nome de Fernando Cerimedo surge por toda parte. Ele esteve no Brasil, ajudando a família Bolsonaro a disseminar a narrativa de fraude nas eleições de 2022, que marcaram o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva. Esteve na Argentina, onde — segundo Beller — trabalhou para o próprio Javier Milei, a quem considerava "louco", ao mesmo tempo em que compilava informações sobre o escândalo de suborno envolvendo a irmã de Milei, Karina, atual secretária-geral da Presidência. Esteve no Chile, onde se gabou de ter derrubado o referendo para a nova constituição — que substituiria a versão da era Augusto Pinochet ainda em vigor — enquanto, segundo relatos, também auxiliava na campanha presidencial de José Antonio Kast. Esteve no Peru, circulando com um assessor próximo de Keiko Fujimori no período que antecedeu as eleições presidenciais de junho, vencidas por ela por uma margem mínima. Esteve em Honduras, onde supostamente aparece em um áudio admitindo crimes eleitorais no pleito de novembro de 2025, que resultou na vitória inesperada de Nasry Asfura, aliado de Donald Trump. E esteve presente nas eleições presidenciais da Colômbia, onde, segundo a contagem oficial, outro apoiador de Trump, Abelardo de la Espriella, derrotou Iván Cepeda por uma diferença inferior a um ponto percentual, em junho.

Imagens de câmeras de segurança mostraram os pistoleiros, disfarçados de entregadores, disparando à queima-roupa contra Beller — que foi pego de surpresa — antes de fugirem do local.

Por que ele era tão requisitado? Porque Cerimedo era o homem capaz de articular tudo isso: marketing político, segmentação de público, fazendas de bots que somavam centenas de milhares de contas, pesquisas enganosas, investigação de opositores e manipulações via inteligência artificial. Em suma, ele fornecia a mensagem negativa — fosse mentira ou calúnia — e, em seguida, a segmentava, sensacionalizava e ampliava para alcançar o maior e mais receptivo público possível. Junto com seu sócio, o falsificador contumaz Javier Negre (condenado repetidamente na Espanha por inventar informações e até entrevistas inteiras), ele fundou o La Derecha Diario, uma plataforma de mídia online concebida para legitimar esse material como se fossem "notícias" em toda a América Latina.

Tendo começado na Argentina, o veículo rapidamente estabeleceu edições regionais no México, Uruguai, Equador e Israel, além de uma versão em inglês nos Estados Unidos, onde Negre se tornaria presença constante nas coletivas de imprensa da Casa Branca. No caso do México, conforme o próprio Negre explicou em um evento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), o grupo foi convidado a se instalar no país pelo magnata de extrema-direita Ricardo Salinas Pliego para "travar a batalha cultural". O México — aponta Beller — era o próximo da lista, servindo como ponto de partida para interferir nas eleições de meio de mandato de 2027 no país. Tudo isso era impulsionado por uma rede de carteiras digitais encontradas no celular dele, totalizando cerca de US$ 132,8 milhões.

Um ministro sem pasta

Mas nada supera o caso da Bolívia, onde Cerimedo foi muito além de um simples mercenário digital: ele atuou como uma espécie de ministro sem pasta e todo-poderoso no governo de direita de Rodrigo Paz, eleito em outubro de 2025 após uma ruptura devastadora no partido governista Movimento ao Socialismo (MAS). Embora tenham tido o cuidado de não incluí-lo na folha de pagamento oficial, o "assessor principal" exercia poderes que, na prática, equivaliam a uma cogestão nas áreas de comunicação, gabinete e polícia. Tamanho era esse poder que, nos dias que antecederam a tentativa de assassinato de Beller, Cerimedo manteve contato via chat com o tenente-coronel Erik Correa González, diretor de inteligência da Força Especial Antinarcóticos da Bolívia, para coordenar o ataque. Correa também está sendo investigado por supostamente receber propinas de 50 mil dólares por avião para fazer vista grossa a voos de transporte de cocaína. Por sua vez, além da tentativa de homicídio, Cerimedo também é investigado por enriquecimento ilícito ligado ao narcotráfico — especificamente, tráfico de substâncias controladas e encobrimento de atividades de narcotráfico.

É a ironia das ironias. A máquina de desinformação de Cerimedo especializou-se em associar o prefixo "narco" a líderes, movimentos e governos progressistas em toda a região, com o objetivo de desacreditá-los. Agora, ele é acusado não apenas de conluio com narcotraficantes, mas de utilizar um deles para tentar eliminar seu próprio ex-sócio e o filho que ainda não havia nascido. Toda acusação é uma confissão.

A conexão com os EUA

Se a história de Cerimedo terminasse aqui, isso poderia justificar, ao menos em parte, a escassa cobertura da imprensa de língua inglesa. Mas não termina. Segundo uma investigação publicada no jornal mexicano La Jornada e baseada em documentos arquivados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA), a porta de entrada de Cerimedo nos Estados Unidos foi Miami. A cidade do sul da Flórida era mais do que um endereço comercial; funcionava "como uma plataforma de coordenação entre campanhas latino-americanas, veículos de mídia de orientação ideológica, consultores políticos, organizações do ecossistema cubano-americano e setores do Partido Republicano com capacidade de influenciar a política dos EUA para o hemisfério". E a figura-chave que dá as boas-vindas nesse ambiente propício ao extremismo é Damian Merlo — lobista, consultor de relações públicas, sócio-diretor do Latin America Advisory Group (LAAG) e ex-analista do Departamento de Estado dos EUA em Havana. Foi Merlo, de fato, quem organizou a participação de Javier Milei no programa de Tucker Carlson em 2023 — uma aparição que viralizou —, dois meses antes de sua eleição para a presidência da Argentina.

Para Cerimedo, Merlo poderia proporcionar acesso aos gabinetes de parlamentares profundamente ligados à política de extrema-direita na América Latina, como os deputados Mario Díaz-Balart e Maria Elvira Salazar — que preside a Subcomissão de Relações Exteriores da Câmara para o Hemisfério Ocidental — e o Secretário de Estado Marco Rubio. De fato, em uma foto oficial do Departamento de Estado referente à cúpula Shield of the Americas (Escudo das Américas), realizada em 7 de março de 2026, Cerimedo aparece sentado ao lado de Rodrigo Paz e em frente ao Secretário de Estado dos EUA, em uma mesa para seis pessoas onde o clima é de camaradagem.

Em uma foto oficial do Departamento de Estado, Cerimedo aparece sentado em frente ao secretário de Estado dos EUA, em uma mesa para seis pessoas com um clima de camaradagem.

Quando, naquele mesmo ano de 2023, Cerimedo fundou sua empresa Numen Academy em Miami, a Numen e a LAAG uniram forças para trabalhar na campanha de Milei. A Numen também colocou Cerimedo em contato com uma figura fundamental em toda essa saga: Brad Parscale, diretor de mídia digital da campanha de Trump em 2016 e gerente da campanha de Trump em 2020. Foi uma parceria perfeita, já que ambos ofereciam um leque muito semelhante de "serviços": foi Parscale quem pagou cerca de 6 milhões de dólares à Cambridge Analytica em 2016 para utilizar dados do Facebook coletados de 87 milhões de usuários sem o consentimento deles. Nas eleições de Honduras, Parscale assessorou a Numen remotamente sobre o uso de dados para segmentar eleitores. Na Bolívia, ele foi além, viajando ao país para ajudar a equipe da Numen a utilizar as ferramentas de dados de suas empresas. Em 2025, Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo para a América Latina da Campaign Nucleus, de propriedade de Parscale, e da Eyesover, uma empresa afiliada. "Brad forneceu toda a tecnologia com a qual trabalho", admitiu Cerimedo. Em outubro de 2025, Parscale registrou-se sob a FARA junto ao governo de Israel, por intermédio da Havas Media Germany GmbH.

O castelo de cartas

Tarifas, atentados a bomba contra embarcações, intervencionismo declarado, o sequestro de um chefe de Estado em exercício: basta uma análise superficial da ofensiva do segundo governo Trump contra a América Latina e o Caribe para levar qualquer pessoa ao desespero. No entanto, como demonstra o caso Cerimedo, a investida da extrema-direita é mais frágil do que pode parecer à primeira vista. De Kast a Milei e Paz, os líderes eleitos na esteira dessa onda tornaram-se impopulares, envolveram-se em escândalos e enfrentaram protestos populares — ou tudo isso ao mesmo tempo — em rápida sucessão. As vitórias em Honduras, no Peru e na Colômbia foram apertadíssimas, deixando o terreno propício para reviravoltas causadas pelo tipo de manipulação contratada no Norte e que metastatizou no Sul. Na ausência de um mandato popular, alguns recorreram a estados de exceção; outros, a se agarrar com mais força ao "Escudo das Américas" e às "colaborações" que ele oferece com as forças dos EUA.

Mas o fato de que grande parte disso pode ser atribuída a um único homem nos bastidores é revelador. Cerimedo, naturalmente, será descartado e substituído; já se formou a fila de antigos clientes e comparsas disputando espaço para se distanciar dele. Contudo, o castelo de cartas que é a extrema-direita latino-americana oscila sobre suas fundações precárias: a decadência de seu "mágico digital" passou a simbolizar a podridão no cerne de seu projeto.

Colaborador

Kurt Hackbarth é jornalista, escritor e dramaturgo que cobre o México e a América Latina. Ele atua como analista no Canal Once, do México, e é coapresentador do Soberanía: The Mexican Politics Podcast.

O lobby de Israel está fora de controle

Há vinte anos, estudiosos podiam ser acusados ​​de antissemitismo apenas por reconhecerem a existência do lobby de Israel. Hoje, a influência desse lobby tornou-se uma questão inegável e onipresente na política americana.

Entrevista com
Eli Clifton, Ian Lustick


O ex-secretário de Estado Antony Blinken discursa na conferência de políticas da AIPAC de 2023, em Washington, D.C., em 5 de junho de 2023. (Mandel Ngan / AFP via Getty Images)

Entrevista realizada por
Seth Ackerman

Em um ano marcado por gastos recordes em campanhas eleitorais por parte do American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) e por uma ampla repulsa popular à guerra de Donald Trump contra o Irã, um estudo minuciosamente pesquisado sobre o lobby de Israel não poderia ser mais oportuno. Seth Ackerman, da Jacobin, conversou com o jornalista investigativo Eli Clifton e o veterano acadêmico Ian Lustick sobre o novo livro deles, Israel’s Lobby: America in the Grip of a Foreign Power. A obra revela como esse lobby não apenas distorceu a política de Washington, mas também acelerou a própria radicalização ideológica de Israel — e agora ameaça as liberdades civis dos americanos em seu próprio país.

Seth Ackerman

Há quase vinte anos, os especialistas em relações internacionais John Mearsheimer e Stephen Walt escreveram um livro muito famoso e controverso intitulado The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy. O livro de vocês é, em muitos aspectos, uma continuação daquela obra. O que os levou a decidir que era o momento certo para um livro como este?

Eli Clifton

Muita coisa mudou desde 2007. Steve Walt e John Mearsheimer identificaram alguns dos custos estratégicos globais que as atividades do lobby impunham aos americanos, e esses custos continuaram a se ampliar e a se intensificar. No entanto, outros custos são de natureza mais interna, tendo sido viabilizados por mudanças em nossas leis que Steve e John não poderiam ter previsto.

Na conclusão de seu livro, eles argumentaram que o apoio a uma relação de alinhamento incondicional com Israel estava diminuindo gradualmente. Eles identificaram o início dessa tendência por volta de 1999 ou 2000, com o fracasso dos Acordos de Oslo e o fechamento da janela de oportunidade para a solução de dois Estados. Previram também que esse declínio lento seria acompanhado pela ascensão de outras instituições — como a J Street, a Jewish Voice for Peace e outras — capazes de defender uma relação mais normal e equilibrada entre os EUA e Israel, permitindo assim desvincular a política americana da influência desse lobby.

Contudo, em 2010, foram proferidas as decisões nos casos Citizens United e SpeechNow. Isso abriu as comportas do nosso sistema de financiamento de campanhas. A partir de 2012 — a primeira eleição após a decisão Citizens United —, ao analisarmos quem eram os maiores doadores, deparamo-nos com Sheldon Adelson e outros megadoadores bilionários pró-Israel. E eles declararam explicitamente que agiam em prol de Israel.

Assim, diante do declínio do apoio público a Israel — movimento que se acelerou drasticamente após 7 de outubro em praticamente todos os segmentos demográficos —, eles conseguiram criar uma medida paliativa.

Paralelamente ao fator financeiro, houve também uma mudança estratégica. O lobby deixou de tentar contrapor argumentos como os de Mearsheimer e Walt. Em vez disso, passou a buscar o encerramento completo do debate, inclusive utilizando o poder do Estado para coibir críticas a Israel. Vimos isso ocorrer com a retenção de centenas de milhões de dólares em verbas federais destinadas a universidades — muitas vezes em áreas de pesquisa sem qualquer relação com Israel ou a Palestina — ou nas tentativas de deportar portadores de green card simplesmente por criticarem um país estrangeiro.

Portanto, estamos pagando um preço interno que afeta nossas próprias liberdades civis. Esse é um aspecto fundamental das mudanças ocorridas desde a publicação do livro deles.

Seth Ackerman

Um dos argumentos apresentados por Mearsheimer e Walt há vinte anos era que o fim da Guerra Fria eliminou a principal justificativa usada anteriormente para embasar a relação privilegiada de Israel com os Estados Unidos. Você diria que o lobby tentou, então, transformar o Irã na nova União Soviética — o novo inimigo que tornaria Israel indispensável para os Estados Unidos?

Ian Lustick

Israel de fato se apresentava como um aliado crucial contra a penetração soviética no Oriente Médio, embora essa alegação nunca tenha sido muito convincente para os especialistas. No livro, relatamos um experimento natural fascinante que comprovou o quão vazia era essa alegação. Em 1991, um dos principais analistas de relações internacionais, A. F. K. Organski, professor da Universidade de Michigan, publicou um livro intitulado The $36 Billion Bargain, no qual argumentava que Israel era como um porta-aviões em terra firme: era tão útil aos Estados Unidos em sua luta contra a União Soviética que toda a ajuda que lhes dávamos representava um excelente negócio.

E, como parte de seu argumento, ele perguntou: como podemos saber se isso é verdade? Bem, se a União Soviética desaparecesse e a Guerra Fria terminasse, veríamos a ajuda diminuir. Ora, foi exatamente isso que aconteceu logo após a publicação de seu livro. A União Soviética se desintegrou e a Guerra Fria chegou ao fim. E o que aconteceu com a ajuda a Israel? Absolutamente nada. Ela permaneceu exatamente no mesmo nível. Isso demonstrou que a ajuda a Israel não decorria de cálculos estratégicos americanos. Ela era, em grande medida, fruto do poder político interno do lobby de Israel nos Estados Unidos.

No entanto, o argumento de que Israel servia aos interesses estratégicos dos EUA era importante tanto para Israel quanto para seu lobby. Após o fim da Guerra Fria, ambos precisavam de um contexto no qual pudessem apresentar Israel como um aliado crucial dos Estados Unidos. Assim, durante a Guerra Global ao Terror (GWOT), líderes israelenses afirmavam que suas guerras contra o Hezbollah ou contra os palestinos na Cisjordânia faziam parte da guerra ao terror liderada pelos EUA. Mas a GWOT chegou ao fim, e foi necessário encontrar outro cenário para que Israel pudesse se apresentar como um aliado fundamental da América.

Benjamin Netanyahu escolheu o Irã para desempenhar o papel de inimigo mortal tanto de Israel quanto dos Estados Unidos, substituindo a guerra ao terror, que, por sua vez, havia substituído a União Soviética. Mas Netanyahu, na verdade, teve grande dificuldade em fomentar o ataque conjunto EUA-Israel ao Irã que ele desejava.

É isso que acontece com um país que possui capital político excessivo proveniente do exterior.

O próprio aparato de segurança de Israel se opunha a ele, argumentando que não, o Irã jamais atacaria Israel com uma arma nuclear. Ele também se deparou com uma série de presidentes americanos que consideravam a ideia de atacar o Irã um absurdo. Suas exigências por uma guerra foram contidas com sucesso até que ele encontrou, em Trump, um presidente estúpido o suficiente — e uma burocracia de segurança nacional tão desprovida de expertise e tão incompetente — que conseguiu, essencialmente, arrastar os Estados Unidos para uma guerra contra o Irã; uma guerra que, provavelmente, até mesmo Trump hoje considera um erro terrível.

Mas há uma razão mais profunda pela qual Netanyahu, o primeiro-ministro que mais tempo governou Israel, tem adotado uma postura belicista contra o Irã, Gaza, a Síria e o Líbano — e pela qual, ultimamente, tem fomentado uma crise com a Turquia. A razão fundamental para tal postura belicosa é que seus governos foram incapazes de articular uma visão de paz para o Oriente Médio que satisfizesse qualquer pessoa na região. E, como não possuem nenhuma visão de paz, precisam depender totalmente de sua capacidade de usar força militar com risco quase nulo, seja no Líbano, no Iraque, na Síria, em Gaza ou no Irã. Outro dia, vimos a Força Aérea de Israel bombardear uma base na Síria — não porque houvesse uma ameaça real, mas porque havia uma ameaça potencial, vinda da Turquia ou das forças armadas sírias.

Isso é emblemático da situação que Israel criou para si mesmo. Se o país não pode contar com a diplomacia ou com compromissos negociados, deve recorrer à força militar. Mas, para depender da força militar, precisa ter a confiança de que pode usá-la sem risco de baixas significativas ou de uma escalada para o uso de armas de destruição em massa. Portanto, na prática, Israel insiste em uma superioridade aérea absoluta e no domínio de todo o Oriente Médio. E precisa insistir que apenas ele tenha permissão para possuir armas de destruição em massa. São exigências enormes. Lembre-se de que o Irã é geograficamente maior do que a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha somadas.

A ameaça representada pelo Irã não é a de que ele atacará Israel com armas nucleares. O problema é que, se houver sequer 1% de possibilidade de o Irã escalar o conflito para o nível nuclear, Israel não poderá mais usar a força na região sem temer essa escalada. Isso é intolerável para quem não tem um plano de paz — algo que o governo Netanyahu jamais teve. Essa é a razão mais profunda pela qual ele tem se concentrado tanto no Irã e depende tanto da força militar.

Seth Ackerman

Em seu livro, você argumenta que esse dilema estratégico é, em parte, resultado do próprio poder do lobby nos Estados Unidos.

Ian Lustick

Sim. Inicialmente, o objetivo do lobby era apenas evitar que houvesse pressão sobre Israel; não se tratava de mudar Israel ou transformá-lo nesse Estado de direita fanática. No entanto, ao insistir que a ajuda a Israel fosse de enorme vulto e incondicional, o lobby tornou praticamente impossível — ou, no mínimo, extremamente difícil — que candidatos moderados vencessem eleições em Israel. Isso porque tudo o que diziam sobre as consequências de Israel se distanciar dos Estados Unidos — ou seja, que isso levaria o país a um acordo pior do que aquele que poderia obter caso adotasse uma postura razoável antes de sofrer tal pressão — acabou se revelando falso.

Posso lhe dizer exatamente quando isso vai acabar. É como em qualquer guerra. Vai acabar quando os Estados Unidos disserem a Israel que tem de acabar.

É isso que acontece com um país que dispõe de excesso de capital político fornecido externamente. Se você fosse um político em Israel, aprendia que precisava alimentar as fantasias e os medos das pessoas, e que não havia custo real nisso. Mas havia um custo enorme em falar racionalmente sobre a situação difícil em que Israel acabaria se encontrando.

Posso citar todos esses políticos israelenses brilhantes — Shulamit Aloni, Haim Ramon, Yossi Sarid, Yossi Beilin — pessoas que poderiam ter sido primeiros-ministros, que queriam sê-lo, mas não conseguiram — e não tinham como conseguir — devido ao controle férreo que o lobby exercia sobre a política dos EUA em relação a Israel e aos palestinos.

Seth Ackerman

Em outras palavras, muitos israelenses presumiam que, se a situação chegasse ao limite, os Estados Unidos salvariam Israel de si mesmo, intervindo e contendo o país.

Ian Lustick

Sim. E esse foi, especificamente, o problema com Joe Biden. Ele não desempenhou o papel que os militares israelenses sempre esperam que os Estados Unidos desempenhem.

Quando a revista Time me entrevistou no início da guerra em Gaza, perguntaram-me: "Quando a guerra vai acabar?" Eu respondi: "Posso dizer exatamente quando vai acabar. É como em qualquer guerra: terminará quando os Estados Unidos disserem a Israel que ela precisa acabar. Até que isso aconteça, a guerra continuará". E Biden simplesmente não dizia isso. Trump, mais ou menos, disse isso, e a guerra parou (ou, pelo menos, uma certa versão da guerra parou). Mas ela se prolongou por anos — muito, muito mais tempo do que deveria. Foi algo absurdo. Os militares israelenses jamais imaginaram que um presidente americano permitiria que eles agissem de forma tão desenfreada por tanto tempo.

Seth Ackerman

E quanto à ala liberal do establishment pró-Israel nos EUA? Eles parecem estar em uma situação política bastante complicada no momento. Você acha que eles encontraram um caminho a seguir?

Eli Clifton

Uma coisa que vemos eles fazendo é se apegar — de maneira bastante desesperada e pouco sincera — à "folha de figueira" da ideia de que o Israel com o qual gostariam de se associar ainda existe de alguma forma, ou está prestes a surgir. A ideia é que, se Netanyahu for removido, essa guinada à direita chegará ao fim e Israel voltará a ser como era — imagino eu — antes de 1967.

No momento decisivo, políticos de todo o Partido Democrata dizem: "Eu acredito na solução de dois Estados". E isso é perigoso, pois simplesmente não se baseia na realidade concreta. A janela de oportunidade para essa possibilidade se fechou, por mais desejável que ela pudesse ter sido.

Então, acho que a forma como muitos deles lidam com isso — para falar sem rodeios — é por meio do autoengano e ao apresentar aos seus eleitores uma visão distorcida do que é possível e de qual é a realidade no terreno.

Ian Lustick

Deixe-me aprofundar um pouco mais esse ponto. Publiquei um livro sobre o assunto em 2019, Paradigm Lost: From Two-State Solution to One-State Reality. Mesmo naquela época, já era impossível imaginar cenários políticos que permitissem alcançar uma solução de dois Estados. Esses cenários deixaram de ser viáveis ​​na década de 1990, com o fim dos Acordos de Oslo. No entanto, afirmar que um acordo negociado de dois Estados ainda é possível tem sido uma posição política segura.

Tem sido seguro para os centristas israelenses que não querem admitir que preferem o apartheid à democracia. E tem sido seguro para políticos democratas e outros nos Estados Unidos, que podem dizer: "Sou a favor da solução de dois Estados. Não me culpem, progressistas". Ao mesmo tempo, podem dizer ao lobby: "Não me critiquem — até mesmo Netanyahu já disse ser a favor da solução de dois Estados". Como disse Eli, é uma folha de figueira.

Uma proposta de solução de dois Estados simplesmente não se baseia em nenhuma realidade concreta no terreno. A oportunidade para essa possibilidade já passou, por mais desejável que ela pudesse ter sido.

Então, onde está o futuro? Eu diria que é preciso mudar a escala temporal da sua análise. Na época em que considerávamos a solução de dois Estados algo plausível, pensávamos no que chamo de tempo estratégico. O tempo estratégico compreende um período de dois a cinco anos — o prazo em que, de fato, se pode realizar algo nesse tipo de cenário. Precisamos passar do tempo estratégico para o tempo geológico. Na política, o tempo geológico equivale a um período de trinta a sessenta anos.

Como um país como Israel se democratiza? O processo não é igual ao da democratização da Romênia: você derruba o ditador a tiros e, no dia seguinte, tem uma democracia. A democratização não funciona assim em casos como, digamos, o dos Estados Unidos — onde negros foram excluídos da política por gerações —, ou o dos católicos irlandeses na Grã-Bretanha, dos negros na África do Sul ou das mulheres em todas as democracias industriais ocidentais. Esse tipo de democratização leva de cinquenta a cem anos.

Seth Ackerman

Mas não existe o risco de que, ao adotar essa perspectiva, você acabe dando, inadvertidamente, uma desculpa para que os defensores do status quo não façam nada? Se o progresso só pode ocorrer em tempo geológico, qual é a urgência de agir hoje?

Ian Lustick

Não vai acontecer amanhã. Mas devemos desmascarar aqueles que, em Israel, dizem querer manter os territórios ocupados pelo país em 1967. Ao analisar os projetos de lei sobre a anexação da Cisjordânia apresentados no Knesset, percebe-se que nenhum deles propõe a anexação imediata de toda a população e de todo o território. Na verdade, eles têm receio de anexar esses territórios de fato. Preferem manter a ficção de que eles ainda não foram absorvidos permanentemente.

Seth Ackerman

No curto prazo, o lobby parece apostar que, após as eleições de outubro, haverá um novo governo — presumivelmente liderado por Gadi Eisenkot — capaz de apresentar uma imagem mais amena e conciliadora ao público americano. Isso poderia funcionar?

Ian Lustick

Talvez. Mas não duraria muito.

Lembre-se de quem é Gadi Eisenkot. Comparado a Netanyahu, ele pode parecer um homem sensato, focado na realidade em vez de fantasias, e que não busca agradar aos piores preconceitos de seu público. No entanto, ele também é o criador da "Doutrina Dahiya". Essa é a doutrina que leva o nome de um bairro de Beirute completamente destruído por Israel — não apenas para matar combatentes, mas para destruir toda a infraestrutura civil ao redor deles.

O que vimos em Gaza foi a aplicação dessa doutrina. Portanto, não devemos criar expectativas exageradas sobre o que Eisenkot tem a oferecer.

Acredito que a questão mais interessante sobre a próxima eleição é se Eisenkot conseguirá sequer formar um governo sem se aliar a partidos de maioria árabe. O partido Ra’am passará a contar com um membro judeu em sua lista de candidatos ao Knesset — deixando, assim, de ser um partido exclusivamente árabe —, mas ainda não será um "partido sionista" nos moldes definidos pelos israelenses. E, na narrativa de Netanyahu, apenas traidores formariam um governo com o apoio de partidos não sionistas (embora, é claro, ele próprio tenha tentado fazer isso no passado).

O lobby de Israel existe objetivamente. Isso não é algo que precisemos mais debater.

Mas, numa perspectiva de tempo geológico, o que me interessa é o precedente da cooperação árabe-judaica — inclusive a cooperação de setores de direita com árabes — que prenuncia a possibilidade de que, em algum momento futuro, um número significativo de judeus veja vantagens em permitir que os palestinos da Cisjordânia e de Gaza votem. Será que teremos um resultado eleitoral em que ninguém consiga formar governo a menos que a coalizão inclua árabes? E como o sistema político israelense reagirá a isso?

Para mim, isso é mais importante do que a questão de quanto tempo Eisenkot conseguirá continuar tentando maquiar uma situação ruim para fazê-la parecer boa. Estou mais interessado em saber se esta eleição forçará o país a caminhar em direção a alianças políticas entre judeus e árabes.

Seth Ackerman

Perguntei há pouco sobre o livro de Mearsheimer e Walt. Vinte anos atrás, a obra deles gerou uma espécie de escândalo literário. Publicações se recusaram a lançar o trabalho, e críticas agressivas os acusaram de todo tipo de coisa terrível. Como você compararia a reação ao seu livro até agora?

Eli Clifton

É muito diferente. Já não vivemos mais em um mundo onde é preciso debater se o lobby existe ou não. Quando se observa a resistência enfrentada por Steve e John, infelizmente é aí que eles tiveram de travar muitas de suas batalhas: a discussão girava em torno da própria existência do lobby e se afirmar que ele existe seria, de alguma forma, antissemitismo. Mas esse não é mais o mundo em que vivemos. Isso já está bem estabelecido.

Quer dizer, mantenho um site — israelslobby.com — que monitora em tempo real os registros da Comissão Eleitoral Federal sobre Super PACs pró-Israel. No momento, creio que eles já arrecadaram 160 milhões de dólares neste ciclo político. Isso provavelmente significa que chegarão a 250 milhões de dólares arrecadados apenas para estas eleições de meio de mandato. Um quarto de bilhão de dólares — é muito dinheiro para um grupo de interesse ligado a um país estrangeiro arrecadar e gastar. Portanto, o lobby existe objetivamente. Isso não é algo que precisemos mais debater.

Além disso, o assunto também está nas manchetes. Tivemos sorte com o momento de lançamento do livro, pois esse assunto é parte central do debate público atual, especialmente devido à guerra em Gaza, à tensão com o Irã e às eleições de meio de mandato nos EUA. É uma questão que ocupa o topo das preocupações dos eleitores, algo incomum para temas de política externa. Claro que isso também tem seu lado negativo: muita gente está falando sobre o assunto agora. Por isso, tentamos trazer algo novo à discussão, contextualizando como chegamos a este momento.

Este não é apenas um livro sobre atualidades. Ele examina o histórico de como o lobby de Israel se tornou o que é hoje e quais foram as consequências disso — não apenas em termos de oportunidades diplomáticas e recursos perdidos para os Estados Unidos, mas também quanto ao custo interno mensurável decorrente de restrições às liberdades civis, caças às bruxas relacionadas ao antissemitismo e tentativas de cercear a liberdade de expressão, sobretudo nas universidades. Nesse sentido, o momento atual é mais alarmante do que o de 2007.

Colaboradores

Eli Clifton é jornalista investigativo e cofundador do Quincy Institute for Responsible Statecraft. É coautor, com Ian Lustick, do livro Israel’s Lobby.

Ian Lustick é professor emérito de ciência política na Universidade da Pensilvânia. Especialista em política do Oriente Médio, é autor de diversos livros, incluindo Paradigm Lost: From Two-State Solution to One-State Reality e, mais recentemente, Israel’s Lobby, em coautoria com Eli Clifton.

Seth Ackerman é editor da Jacobin.

31 de agosto de 2026

A teoria do capitalismo de Nancy Fraser é politicamente vital

Nancy Fraser ampliou sua compreensão sobre como o capitalismo funciona e por que ele depende de múltiplas formas de dominação. Sua teoria nos mostra que as lutas feministas, ambientais e antirracistas estão todas necessariamente ligadas a uma política anticapitalista.

Marjan Ivković e Zona Zarić


A obra de Nancy Fraser nos mostra que o capitalismo se baseia em múltiplas formas de dominação e que a política anticapitalista deve incorporar todas as lutas contra tal dominação, incluindo os movimentos feministas e antirracistas, bem como as lutas pelo aprofundamento da democracia. (Jim West / UCG / Universal Images Group via Getty Images)

A obra de Nancy Fraser tem exercido uma influência significativa na política anticapitalista ao longo das últimas décadas. Algumas de suas reflexões — como aquelas sobre a relação entre "redistribuição" e "reconhecimento" ou sobre a "aliança perigosa" entre o feminismo liberal e o antirracismo e as agendas econômicas neoliberais — transcenderam os círculos acadêmicos de esquerda e passaram a integrar o vocabulário do ativismo político.

É precisamente esse o objetivo da tradição da teoria crítica, na qual Fraser se insere: fornecer recursos para o autocompreendimento das lutas políticas progressistas. Em um sentido mais amplo, Fraser formulou uma teorização singular do capitalismo que responde, de maneira inovadora, a algumas das questões mais prementes da estratégia política anticapitalista.

A teoria do capitalismo de Fraser evoluiu gradualmente ao longo dos anos; podemos considerar sua trajetória — pragmática, dialógica e orientada pela investigação de problemas — rumo à formulação de uma análise sistemática do capitalismo como um modelo de como um pensador engajado deve chegar a uma "grande teoria" da sociedade.

Dualismo analítico

Fraser expôs sistematicamente a sua teoria do capitalismo no seu livro de 2022, Cannibal Capitalism, mas para apreciar plenamente a profundidade da sua perspectiva, deve-se também consultar os trabalhos anteriores sobre os quais a sua teoria madura se baseia. A pedra angular da teoria social de Fraser é uma forma de “dualismo” analítico.

A pedra angular da teoria social de Nancy Fraser é uma forma de "dualismo" analítico.

Por um lado, em oposição ao reducionismo econômico característico do marxismo ortodoxo, ela enfatiza que a reprodução material e a simbólica no capitalismo são mutuamente irredutíveis. Rejeitando o esquema de base e superestrutura, ela argumenta que o capitalismo é tanto uma ordem econômica quanto cultural — um sistema de exploração econômica e de hierarquias de status, uma configuração de formas de dominação tanto materiais quanto simbólicas.

Para Fraser, a classe é uma modalidade fundamental de diferenciação social, enraizada na estrutura político-econômica da sociedade, enquanto o grupo de status é outra modalidade, enraizada na ordem cultural (simbólica). Todo ator social no capitalismo ocupa uma posição específica ao longo de ambos os eixos, de modo que sua posição geral na hierarquia social resulta da combinação dessas duas posições. Grupos sociais são frequentemente submetidos, simultaneamente, a injustiças econômicas e culturais.

Já encontramos esse argumento sobre as duas dimensões da sociedade capitalista — a sistêmica e a cultural — nos primeiros trabalhos de Fraser; por exemplo, em sua crítica a Jürgen Habermas, intitulada "O que há de crítico na Teoria Crítica? Habermas e o caso do gênero". Nesse ensaio, Fraser argumenta que o ideal capitalista do "salário familiar" foi historicamente concebido como um pagamento a um homem que sustentava sua família, e não como um pagamento a um "indivíduo sem gênero".

Segundo Fraser, essa "leitura sensível ao gênero" das relações institucionais no capitalismo — entre família, economia, esfera pública e Estado burocrático — demonstra que a dominação masculina é "intrínseca, e não acidental, ao capitalismo clássico". Uma leitura desse tipo também revela a natureza multidirecional da causalidade no capitalismo. Contrapondo-se ao determinismo econômico do marxismo ortodoxo, Fraser demonstra que normas de gênero culturalmente elaboradas condicionam a característica político-econômica fundamental do capitalismo: a divisão sexual do trabalho — ou, mais precisamente, a divisão entre trabalho remunerado e trabalho reprodutivo não remunerado.

O dualismo analítico de Fraser nos ajuda a identificar o que ela chama de "subtextos" de fenômenos sociais no capitalismo que, tradicionalmente, eram considerados puramente (ou predominantemente) "econômicos" ou "culturais". Sua crítica a Habermas transmite uma mensagem política essencial para os movimentos anticapitalistas: ordens de dominação "culturais", como o patriarcado, não são "secundárias" nem "residuais". Elas são intrínsecas ao capitalismo, e a política anticapitalista deve reconhecer as lutas contra tais injustiças como indispensáveis.

Negação

Nas obras escritas ao longo da última década e meia, Fraser aprofundou essa percepção fundamental. Partindo do feminismo marxista clássico, ela argumenta que o capitalismo é uma ordem social que institui uma divisão historicamente arbitrária entre trabalho remunerado e atividades de reprodução social não remuneradas (como a criação de filhos e o trabalho de cuidado), sendo estas últimas inerentemente marcadas pelo gênero e atribuídas às mulheres.

A economia capitalista depende da reprodução gratuita da força de trabalho. Em nível simbólico, contudo, tal dependência não pode ser reconhecida, pois isso significaria admitir que o trabalho reprodutivo é uma forma de trabalho de alto valor e deveria ser remunerado. A economia capitalista tem, portanto, uma necessidade sistêmica de negar sua dependência em relação à esfera da reprodução social.

Como se efetiva essa negação? Precisamente por meio de subtextos de gênero culturalmente elaborados — presentes em fenômenos econômicos-chave como o "salário familiar" — que reforçam e naturalizam a divisão sexual do trabalho, obscurecendo seu caráter arbitrário.

A economia capitalista depende da livre reprodução da força de trabalho.

Além de teorizar o papel do trabalho de cuidado não remunerado como condição de possibilidade para o capitalismo, Fraser recorreu à obra de Karl Polanyi para conceituar outros aspectos não econômicos da realidade social capitalista que, em conjunto, formam a estrutura "ampliada" do capitalismo. Esses aspectos incluem as relações humanas com a natureza, a esfera da política institucional liberal-democrática e a dominação imperial global baseada em hierarquias raciais.

Esse conceito ampliado de capitalismo oferece um antídoto poderoso contra a ideologia burguesa, que trata o capitalismo como uma ordem puramente econômica compatível com o ideal político da meritocracia liberal. Trata-se de uma ferramenta crucial para críticas ideológicas e lutas sociais emancipatórias, ao expor o papel estrutural que formas de dominação distintas da exploração clássica — como o patriarcado e o racismo — desempenham no capitalismo.

Ligações perigosas

É tendo como pano de fundo a apropriação que Fraser faz de Polanyi que devemos considerar seu conhecido argumento sobre a "ligação perigosa" entre a política emancipatória liberal e a economia neoliberal. Ela sustenta que a atual crise multidimensional do capitalismo foi desencadeada por outro grande "movimento" polanyiano em direção à mercantilização, análogo ao liberalismo econômico do século XIX.

No entanto, enquanto Polanyi conseguia identificar claramente uma lógica unificadora de um "contramovimento" protecionista em relação ao liberalismo de livre mercado — lógica que perpassava projetos políticos tão díspares quanto os EUA do New Deal, a União Soviética, a Europa fascista e a social-democracia europeia do pós-guerra —, Fraser observa que não existe hoje uma alternativa tão clara ao projeto neoliberal.

Ela explica essa ausência de um contramovimento expandindo a concepção de Polanyi — que define a dinâmica política básica do capitalismo como um "duplo movimento" de "mercantilização" e "proteção" — para incluir um terceiro polo: o da "emancipação". Ela argumenta que cada polo desse "triplo movimento" deriva sua configuração política concreta não apenas de sua própria lógica interna, mas também de suas relações com os outros dois polos, o que resulta em uma ambivalência interna de todos os três polos.

No caso do polo da emancipação, essa ambivalência significa que os movimentos emancipatórios do pós-guerra (Nova Esquerda, feminismo, ambientalismo) apresentavam divisões internas. Por um lado, havia facções que combatiam formas de dominação de base cultural (o polo da proteção), ao mesmo tempo que davam pouca atenção aos processos de mercantilização ou até mesmo os endossavam. Por outro, havia facções que combatiam simultaneamente formas opressivas tanto de proteção quanto de mercantilização, o que, na prática, significava lutar para transformar aquilo que Fraser denomina "substância ética" da proteção.

Nosso atual bloco hegemônico, que agora se desintegra, é uma amálgama de mercantilização e emancipação que Fraser denomina "neoliberalismo progressista".

Como ela observa, as correntes liberais tornaram-se hegemônicas ao longo do tempo e formaram uma aliança com os agentes neoliberais da mercantilização. No âmbito dessa aliança, argumenta Fraser, uma “crítica emancipatória” da proteção em suas formas opressivas “convergiu com a crítica neoliberal da proteção *per se*”.

É aqui que encontramos a chave para compreender a peculiaridade atual da ausência de um contramovimento. Fraser desenvolve a teoria da hegemonia de Antonio Gramsci sob uma ótica polanyiana, argumentando que um determinado bloco histórico (hegemônico) é uma configuração específica de dois polos presentes no movimento triplo.

Nosso atual bloco hegemônico, que agora se desintegra, é uma amálgama de mercantilização e emancipação que Fraser denomina “neoliberalismo progressista”. O que a política anticapitalista precisa forjar, se quiser construir um bloco contra-hegemônico, é uma combinação de proteção e emancipação.

Mudanças epistêmicas

Mas, para a teorização de Fraser sobre o capitalismo, algo ainda mais fundamental do que a obra de Polanyi é o que ela considera ser o método básico de Karl Marx: o das “mudanças epistêmicas”. O que Marx essencialmente fez foi escavar para além da economia política burguesa, a qual privilegia os mercados — a troca de mercadorias de valor equivalente — como o elemento central do capitalismo.

Por trás dessa “narrativa de fachada”, Marx identificou o “segredo sujo” de como a própria produção se organiza no capitalismo: por meio da exploração, isto é, a extração de mais-valia do trabalho. Aqui encontramos a primeira “morada oculta” do capitalismo, como a chama Fraser: a relação de exploração — de natureza não equivalente — subjacente à equivalência da troca de mercado. Contudo, o método de Marx não para por aí, como ressalta Fraser.

No capítulo sobre a “acumulação primitiva”, no Volume 1 de O Capital, ele desloca a perspectiva mais uma vez, revelando uma “morada por trás da morada”. Marx identifica, na gênese histórica do capitalismo, o processo brutal de desapossamento (o que Fraser chama de “expropriação”) que separou as pessoas de seus meios de subsistência por meio de cercamentos, roubos e conquistas coloniais. O método das mudanças epistêmicas, que nos permite identificar camadas de dominação cada vez mais profundas no capitalismo, constitui, para Fraser, a própria essência da teoria crítica.

O método das mudanças epistêmicas, que nos permite identificar camadas cada vez mais profundas de dominação no capitalismo, constitui para Fraser a própria essência da teoria crítica.

As relações entre a economia capitalista e todas as suas condições de possibilidade subjacentes – natureza, política e reprodução social – seguem a lógica marxista da acumulação primitiva, que envolve tomar tudo o que se pode sem qualquer compensação, ao mesmo tempo que se nega e encobre todo o processo. Fraser resume essa lógica com o termo “freeriding”.

Para se reproduzir e prosperar, a economia capitalista deve aproveitar-se do trabalho reprodutivo não remunerado das mulheres, da natureza como uma “tomada” gratuita de recursos e do poder político (ou público, como Fraser prefere) como garante do quadro legal de coerção económica. Para permitir tal freeriding, a sociedade capitalista institucionaliza as fronteiras historicamente únicas que definem a sua estrutura básica.

A primeira fronteira é aquela entre a economia como esfera de trabalho remunerado e a reprodução social como esfera de trabalho reprodutivo não remunerado. A segunda é a fronteira que separa a natureza e o mundo humano. A linha divisória entre sistema político e economia (ou, para ser mais franco, entre a coerção aberta da força armada e a coerção encoberta do mercado de trabalho) torna possível remover todas as questões “económicas” da esfera da tomada de decisão política.

Finalmente, existe a distinção entre trabalho “explorável” e “expropriável”. Para Fraser, esta fronteira segue em grande parte a “linha da cor”, que tem sido historicamente constituída em termos imperialistas como uma divisão entre trabalhadores explorados (que são considerados brancos) e sujeitos expropriáveis ​​(que não o são).

Gramáticas morais

O último limite é o mais complexo. “Quando devidamente compreendido”, argumenta Fraser no seu debate de 2018 com Rahel Jaeggi, “clarifica o lugar estrutural da opressão imperial e racial na sociedade capitalista”. Ela aplica o seu dualismo analítico a esta divisão institucionalizada do capitalismo, definindo-a como simultaneamente económica e política.

A expropriação ajuda a sustentar a economia capitalista oficial de exploração ao reduzir os custos de produção e reprodução da força de trabalho.

Sob uma perspectiva econômica, a exploração e a expropriação são dois mecanismos de acumulação de capital, sendo o primeiro estruturalmente dependente do segundo — não apenas nos primórdios do capitalismo, mas ao longo de toda a sua história até o presente. A expropriação ajuda a sustentar a economia capitalista oficial de exploração ao reduzir os custos de produção e reprodução da força de trabalho.

Por outro lado, sob uma perspectiva política, a fronteira entre exploração e expropriação é uma fronteira de status institucionalizada por meio da atuação dos Estados. Ao combinar esses dois pontos de vista, podemos concluir razoavelmente, como faz Fraser, que aquilo que chamamos de "raça" é simplesmente "a marca que distingue os sujeitos livres da exploração dos sujeitos dependentes da expropriação".

Visto que o capitalismo se estrutura em torno de fronteiras constitutivas, argumenta Fraser, ele inevitavelmente gera disputas em torno dessas fronteiras. Trata-se de conflitos históricos multifacetados sobre a localização exata da linha divisória, nos quais os atores mobilizam diversas "gramáticas morais" da sociedade capitalista contra a lógica do capital e sua própria gramática moral de eficiência e meritocracia.

Na esfera da reprodução social, as normas de reciprocidade, cuidado e solidariedade desafiam a gramática capitalista. Nas interações humanas não capitalistas com a natureza, operam normas de gestão responsável (stewardship), sustentabilidade e justiça intergeracional. Por fim, na esfera da política democrática, prevalecem as normas de democracia, cidadania igualitária e interesse público.

Muitos campos de luta

Segundo Fraser, as disputas em torno das linhas de demarcação entre economia e política, produção e reprodução, sociedade e natureza, e exploração e expropriação são tão fundamentais para o capitalismo quanto as lutas de classe no âmbito da economia capitalista.

Assim, as obras da fase madura de Fraser reiteram, de forma mais elaborada, a percepção política central de seus primeiros trabalhos: o capitalismo é uma ordem social construída sobre formas multidimensionais de dominação estrutural, e a política anticapitalista deve apoiar e incorporar todas as lutas que desafiem as diversas dimensões dessa dominação, sem estabelecer distinções ou hierarquias entre elas. Isso inclui movimentos ambientalistas, feministas e antirracistas, bem como lutas para aprofundar e radicalizar a democracia liberal.

Colaboradores

Marjan Ivković é pesquisador sênior no Instituto de Filosofia e Teoria Social da Universidade de Belgrado e autor, juntamente com Zona Zarić, de Nancy Fraser and Politics.

Zona Zarić é pesquisadora no Instituto de Filosofia e Teoria Social da Universidade de Belgrado, professora na American University of Paris e autora, juntamente com Marjan Ivković, de Nancy Fraser and Politics.

30 de agosto de 2026

A crise do petróleo que se tornou uma arma contra o Estado de bem-estar social

A guerra, o caos em torno do dólar e a disparada dos preços do petróleo alimentaram a inflação da década de 1970. Os trabalhadores e o Estado de bem-estar social arcaram com a culpa. À medida que a guerra faz os preços do petróleo dispararem novamente, essa narrativa ainda limita o que acreditamos que a sociedade pode custear.

Oskar Brandt

Jacobin

Na década de 1970, a guerra e a escassez de petróleo impulsionaram a inflação. Uma crise de escassez de recursos foi apresentada como um problema de gastos públicos excessivos. Esse mito persiste sempre que governos alegam não haver dinheiro para saúde, habitação ou previdência. (Smith Collection / Gado / Getty Images)

Em 15 de agosto de 1971, Richard Nixon apareceu na televisão estadunidense para anunciar uma drástica reestruturação da economia do pós-guerra. Ele fechou a chamada janela do ouro, pondo fim à conversibilidade dos dólares detidos por bancos centrais estrangeiros em ouro estadunidense. Outros bancos centrais não estavam mais autorizados a trocar seus dólares por ouro dos EUA. Com um breve discurso, ele derrubou a ordem monetária que sustentava a economia mundial desde a Segunda Guerra Mundial: o sistema de Bretton Woods.

Os Estados Unidos haviam colocado o dólar no centro do sistema. O país prometeu resgatar dólares por ouro a um preço fixo. Outros países atrelaram suas moedas ao dólar. Mas a Guerra do Vietnã drenou recursos, aumentou os gastos e enviou novos dólares para o mundo todo.

A decisão de abandonar a indexação do dólar ao ouro foi impulsionada, em grande parte, por essas pressões. Ao final da década, os Estados Unidos tentaram financiar tanto a guerra quanto os crescentes programas da Grande Sociedade sem arcar com todos os custos por meio de impostos. O Congresso acabou promulgando uma sobretaxa temporária no imposto de renda em 1968, mas os déficits crescentes e a política monetária expansionista já haviam contribuído para a inflação. A guerra também desviou mão de obra, aço, combustível, transporte e outros recursos reais da economia civil, contribuindo para o superaquecimento da economia e para o envio de dólares adicionais para o exterior. De 1965 até a primavera de 1968, a presença estadunidense no Vietnã cresceu de cerca de 24.000 militares para cerca de 550.000.

Os Estados Unidos também descartaram alternativas à guerra. Inicialmente, Ho Chi Minh buscou a cooperação com os Estados Unidos e inspirou-se na Declaração de Independência estadunidense. Mas Washington acabou apoiando a recolonização francesa, aproximando assim o movimento de independência vietnamita da União Soviética e da China. Os Estados Unidos, portanto, escolheram um conflito que mais tarde contribuiu para minar seu próprio sistema monetário.

À medida que os bancos estrangeiros tentavam cada vez mais obter ouro em troca de dólares, a contradição ficou evidente: os Estados Unidos haviam emitido mais dólares do que podiam resgatar ao preço oficial. Nixon, portanto, suspendeu a conversibilidade numa tentativa de evitar a austeridade interna. A decisão permitiu maior liberdade monetária, mas a consequente desvalorização do dólar corroeu o poder de compra das receitas dos produtores e aumentou a pressão por preços mais altos do petróleo.

É claro que os Estados Unidos não iniciaram a Guerra do Vietnã para romper com o padrão-ouro. A relação causal foi a seguinte: a guerra agravou os déficits, aumentou as pressões inflacionárias e tornou o sistema de Bretton Woods insustentável. Washington compreendeu essa relação, mas permitiu que a guerra continuasse. Quando o sistema entrou em colapso, aproveitou a crise para construir um regime monetário baseado no dólar mais flexível e sob seu próprio controle.

Contudo, Washington não se contentou em apenas proteger suas reservas de ouro. Em uma reunião de 1974 com Henry Kissinger, o Secretário de Estado Adjunto Thomas Enders declarou que um papel mais forte para o ouro beneficiaria a Europa, que detinha a maior parte das reservas mundiais do metal. Os Estados Unidos, por sua vez, queriam transferir o sistema para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os Direitos Especiais de Saque (DES), um ativo de reserva internacional criado pelo fundo. A discussão revela uma luta pelo poder geopolítico, e não simplesmente uma reforma monetária técnica.

Quadruplicar o preço do produto essencial para a sociedade industrial

Dois anos depois, eclodiu a Guerra do Yom Kippur entre Israel e uma coalizão de Estados árabes liderada pelo Egito e pela Síria. Os produtores árabes de petróleo reduziram a produção e impuseram um embargo aos países que apoiavam Israel. Em poucos meses, o preço do petróleo bruto disparou.

O petróleo era a força vital da sociedade industrial. Naquela época, assim como agora, ele impulsionava caminhões, fábricas, agricultura e navios; aquecia edifícios; e servia como insumo fundamental na produção de plásticos, produtos químicos e fertilizantes. Com a disparada dos preços do petróleo, o custo de quase tudo aumentou. As empresas elevaram os preços. As famílias perderam poder de compra. Os países importadores de petróleo registraram déficits comerciais crescentes.

O choque do petróleo acelerou uma inflação que já estava em curso, principalmente sob a forma de um choque de custos. Ela não ocorreu porque os professores lecionavam para um número insuficiente de crianças, os enfermeiros cuidavam de poucos pacientes ou os aposentados recebiam pensões excessivas. A guerra, a energia cara, a desvalorização das moedas e a escassez de recursos essenciais impulsionaram os preços para cima.

Durante e após a Primeira Guerra Mundial, os preços também dispararam — praticamente dobrando entre 1914 e 1920 — à medida que o esforço de guerra consumia recursos, destruía a capacidade produtiva e criava escassez para a população civil. A Segunda Guerra Mundial trouxe consigo fortes pressões inflacionárias, embora o racionamento rigoroso e o controle de preços tenham atenuado grande parte do aumento provocado pelo período de guerra. Quando esses controles foram suspensos em 1946, desencadearam uma onda inflacionária curta, porém violenta, provocando aumentos de preços próximos a 20% em 1946-1947. Contudo, isso foi visto como um fenômeno normal e administrável do pós-guerra — e não como uma falha sistêmica permanente. Os Estados Unidos, portanto, possuíam ampla experiência histórica com guerras que geram inflação.

No entanto, a direita política passou a contar uma história diferente. Alegava que o Estado de bem-estar social havia crescido demais, os trabalhadores se tornaram poderosos demais e o Estado, generoso demais. O petróleo contribuiu para a crise. A narrativa política transferiu a culpa.

Os Estados Unidos se contentavam em se apresentar como vítimas dos produtores de petróleo árabes. Mas o papel de Washington no aumento dos preços era mais complexo do que a narrativa da direita afirmava.

O Irã do Xá Mohammad Reza Pahlavi era um dos aliados mais importantes dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. O xá queria transformar o Irã em uma superpotência regional e comprar grandes quantidades de armas estadunidenses. Para isso, ele precisava de maiores receitas com petróleo. Nixon e Kissinger, portanto, tinham fortes razões para atender a pelo menos algumas de suas exigências por petróleo mais caro.

Poderosos interesses estadunidenses também lucraram com o aumento do preço. Os lucros das companhias petrolíferas dispararam, e bancos em Nova York e Londres obtiveram acesso a enormes fluxos de dinheiro provenientes do petróleo. A indústria bélica conquistou novos clientes. Embora o petróleo caro tenha prejudicado a economia em geral, ele enriqueceu interesses estratégicos e comerciais e fortaleceu as relações entre os EUA e o Irã.

Os Estados Unidos se contentavam em se apresentar como vítimas dos produtores de petróleo árabes. Mas o papel de Washington no aumento dos preços era mais complexo do que a narrativa da direita afirmava.

A Arábia Saudita tentou periodicamente estancar os aumentos de preços. O xá, por sua vez, pressionava para mantê-los altos ou para que subissem ainda mais. A resposta de Washington foi oscilante. Resistiu ao embargo e buscou preços mais baixos, mas também se mostrou avessa a confrontar o Irã. Em um artigo da época, “Nós os pressionamos”, V. H. Oppenheim afirmou que os Estados Unidos incentivaram os produtores de petróleo do Oriente Médio a aumentarem os preços em 1971.

Os Estados Unidos não criaram a crise do petróleo. A guerra, o embargo, o crescente poder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e os interesses próprios dos produtores de petróleo desempenharam papéis cruciais. Mas os líderes estadunidenses reforçaram essa tendência e aceitaram os danos, e setores estrategicamente importantes colheram os benefícios. Os líderes estadunidenses não precisavam ter planejado cada passo da crise para entender e explorar as oportunidades resultantes.

A ascensão do petrodólar

Após Nixon romper o vínculo com o ouro, os Estados Unidos precisavam reforçar sua posição como detentores da principal moeda de reserva e de comércio internacional. O petróleo ofereceu ao país uma nova âncora.

Em 1974, Washington firmou secretamente um acordo histórico com a Arábia Saudita. Os Estados Unidos concordaram em comprar petróleo saudita e fornecer ao reino ajuda militar e equipamentos. Em troca, os sauditas concordaram em reinvestir seus excedentes em dólares em títulos do governo estadunidense. Outros produtores de petróleo seguiram o exemplo, investindo também grande parte de seus lucros em bancos dos EUA, títulos do governo e na compra de armamentos. Assim, o sistema de reciclagem de petrodólares começou a tomar forma.

Como o preço do petróleo era cotado principalmente em dólares, todos os países importadores de petróleo precisavam ter acesso a dólares. Eles tinham que obtê-los por meio de exportações, utilizar suas reservas ou tomar empréstimos de bancos. Os Estados Unidos, por outro lado, emitiam a moeda na qual o preço do petróleo era cotado. Portanto, podiam pagar pelas importações e tomar empréstimos no exterior em sua própria moeda — privilégios especiais não disponíveis para outros países.

O petrodólar não substituiu o ouro como lastro formal do dólar. Mas reforçou uma forma diferente de poder estrutural. O ouro restringia os países por meio de uma âncora monetária escassa. O novo sistema do petrodólar exigia que os países que compravam petróleo obtivessem dólares, enquanto os produtores de petróleo reinvestiam grande parte de seus excedentes em bancos e títulos do governo estadunidense. O petróleo ajudou a consolidar a posição do dólar como moeda de reserva mundial.

Essa ordem pressionou os países, especialmente os mais pobres e endividados, a buscarem receitas de exportação, a contraírem empréstimos em dólares e a adaptarem suas políticas às taxas de juros estadunidenses. Também deu aos Estados Unidos um incentivo para defender a posição global do dólar com sanções, alianças e, não raramente, guerras.

Mas os Estados Unidos não precisavam de hegemonia monetária baseada no petróleo para se manterem imensamente ricos. A mão de obra, os recursos naturais, a tecnologia e a capacidade produtiva estadunidenses teriam sido suficientes para sustentar uma enorme prosperidade. Mesmo assim, optaram pela dominância em vez de um sistema internacional mais igualitário.

O álibi da estagflação

Acrise do petróleo popularizou um termo relativamente novo na época: estagflação. Os preços subiram enquanto o crescimento desacelerou e o desemprego aumentou.

Isso desafiou uma leitura simplista da curva de Phillips no pós-guerra, que os economistas usam para representar a relação entre inflação e desemprego. Muitos economistas haviam entendido essa relação como prova de que os governos poderiam aceitar alguma inflação em troca de menor desemprego. No entanto, na década de 1960, Milton Friedman e Edmund Phelps argumentaram que o Estado não poderia reduzir o desemprego abaixo de um nível supostamente “natural” sem gerar aumento da inflação.

Quando o choque do petróleo eclodiu, Friedman e seus seguidores declararam que estavam certos e que John Maynard Keynes estava errado. Mas eles mudaram o questionamento. A estagflação pode ter justificado o alerta de que o modelo de Phillips não poderia servir como um guia permanente para as opções de política econômica. Ela não demonstrou que o pleno emprego, o investimento público ou o bem-estar social se tornaram impossíveis. Um modelo simples falhou em explicar uma crise global de energia e moeda, mas o keynesianismo como um todo não foi refutado.

Os sindicatos na Grã-Bretanha, por exemplo, optaram por tentar compensar seus membros pelo choque do preço do petróleo exigindo salários mais altos. O governo respondeu com controles de preços e salários, negociações com os sindicatos e cortes nos gastos públicos. As reivindicações salariais poderiam gerar aumentos de preços em toda a economia, mas não foram a causa do choque do petróleo. Os governos optaram por não adaptar a política keynesiana de forma pragmática às circunstâncias (por exemplo, por meio de acordos salariais coordenados, controles temporários de preços ou aumento de impostos). Em vez disso, políticos de todo o espectro político priorizaram a baixa inflação em detrimento do pleno emprego e de bons salários.

Keynes nunca prometeu que o Estado poderia comprar quantidades ilimitadas de petróleo, mão de obra ou matérias-primas sem aumento de preços. Sua ideia central era que o Estado poderia mobilizar recursos ociosos quando a demanda privada falhasse. A crise do petróleo apresentou um problema diferente: atingiu o lado da oferta da economia. Exigiu regulação temporária da política energética, controle de preços, investimento, reestruturação e uma distribuição justa dos custos inevitáveis. Não exigiu austeridade permanente.

Das fábricas às finanças

A crise também demandou uma escolha sobre o que fazer com o poder produtivo da indústria do pós-guerra. Segundo o historiador empresarial Alfred Chandler, as grandes corporações tornaram-se tão eficientes na década de 1960 que a superprodução deprimiu os preços e os lucros. Essa capacidade produtiva poderia ter sido redirecionada para as necessidades sociais. O Estado poderia ter financiado a reestruturação industrial em troca de empregos seguros e objetivos sociais mais amplos, como na Suécia após 1931. Um acordo semelhante poderia até ter usado a crise energética como um marco do ano zero para iniciar uma transição verde.

Em vez disso, a redução dos lucros e a crise do petróleo fortaleceram a demanda do capital financeiro por retornos rápidos. Em vez de direcionar essa capacidade produtiva para fins socialmente úteis por meio de planejamento democrático, as empresas tentaram restaurar a lucratividade fechando fábricas, demitindo funcionários, reduzindo salários e recorrendo ao setor financeiro. A lição havia sido aprendida: a escassez de oferta podia manter os preços e os lucros elevados.

Um país pode, de fato, não ter pessoal suficiente, eletricidade, materiais e recursos naturais. Essas são limitações reais. Mas um Estado com moeda própria não precisa esperar que bilionários ou bancos criem seu dinheiro.

O antropólogo David Graeber demonstrou como a burocracia desnecessária prejudica as operações, enquanto o jornalista especializado em neurociência David Rock explicou como a pressão constante e as hierarquias comprometem o foco, o julgamento, a cooperação e a resolução de problemas. Um mercado de trabalho mais intenso pode, portanto, reduzir a eficiência real e, ao mesmo tempo, disciplinar os funcionários. O culto ao trabalho cada vez mais árduo cumpria uma função econômica, mesmo que não tenha gerado mais produtividade.

Os críticos do keynesianismo transformaram a estagflação em uma arma ideológica. A combinação de guerra, escassez de petróleo e turbulência cambial tornou-se prova de que o Estado de bem-estar social havia fracassado. Em vez de adaptar pragmaticamente as políticas keynesianas às novas circunstâncias, a baixa inflação tornou-se o objetivo primordial, tornando o pleno emprego e o aumento dos salários “impossíveis”.

Pesquisas mais recentes enfraqueceram ainda mais a alegação de que o baixo desemprego impulsiona automaticamente a inflação. As consequências da pandemia de Covid-19 reiteraram esse ponto: a inflação surgiu da interrupção das cadeias de produção e abastecimento, dos choques energéticos e da incapacidade de expandir a capacidade produtiva. Não se tratava simplesmente de pessoas terem empregos ou excesso de segurança econômica. De fato, o que foi descrito como “espirais de preços e salários” eram, com a mesma frequência, “espirais de preços e lucros”.

Duas faces da contrarrevolução

Os Estados Unidos não usaram apenas o comércio, os empréstimos e o dólar para fortalecer seu poder, mas também a Agência Central de Inteligência (CIA), a pressão econômica e o apoio a golpes militares.

O exemplo mais claro é o golpe de Estado chileno de 1973. Os chilenos elegeram o socialista Salvador Allende como presidente. Ele queria assumir o controle das minas de cobre e implementar uma política econômica independente. O presidente dos EUA, Richard Nixon, temia que uma trajetória democrática bem-sucedida rumo ao socialismo inspirasse outros países a seguirem o exemplo do Chile.

Nixon ordenou à CIA que fizesse a economia do Chile “gritar”. Os Estados Unidos suspenderam a ajuda e o crédito, financiaram partidos e meios de comunicação da oposição e usaram a CIA para desestabilizar o governo de Allende. A crise se aprofundou à medida que greves e conflitos abalaram o país.

Em 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet tomou o poder. Os militares derrubaram Allende e impuseram uma brutal ditadura de direita. Os Estados Unidos ajudaram a criar as condições para o golpe. Pinochet então abriu a economia a experiências neoliberais que favoreceram poderosos interesses privados.

O Chile não foi uma exceção. Em 1954, a CIA derrubou o governo eleito da Guatemala depois que as reformas agrárias do presidente Jacobo Árbenz ameaçaram os latifundiários e a United Fruit Company. Em meados da década de 1960, Washington apoiou a destruição do Partido Comunista e do movimento operário de esquerda pelo exército indonésio, ligada a brutais assassinatos em massa. Na década de 1980, os Estados Unidos armaram e apoiaram os Contras em sua guerra contra o governo sandinista da Nicarágua.

Os Estados Unidos se opuseram repetidamente a governos que tentaram controlar suas próprias economias e escapar de sua órbita política. A crise do petróleo pode não ter criado a máquina imperial, mas lhe deu instrumentos poderosos. À medida que os empréstimos em petrodólares e a dívida denominada em dólares se expandiam, Washington ficou livre para combinar pressão financeira, ações secretas e poder militar para derrotar projetos de desenvolvimento independentes e atrair países mais estreitamente para sua esfera de influência.

A coerção era apenas um aspecto do projeto. Os liberais de mercado não precisaram inventar sua narrativa em 1973. Eles a vinham preparando há décadas.

Friedrich Hayek, Milton Friedman e outros fundaram a Sociedade Mont Pèlerin já em 1947. Interesses empresariais financiaram grupos de reflexão, cátedras, livros e campanhas. Essas organizações treinavam políticos e forneciam à mídia mensagens simplistas: o Estado é o problema, os impostos são um obstáculo e os sindicatos elevam os preços.

A crise deu a essas redes a oportunidade que elas tinham. Apontaram para as filas nos postos de gasolina e disseram que o sistema de bem-estar social tinha ido longe demais. Apontaram para a inflação e disseram que os trabalhadores tinham recebido demais. Apontaram para os déficits e fingiram que um Estado com moeda própria funcionava como uma família endividada.

A mensagem obscureceu a diferença crucial. Uma família precisa ganhar ou pedir dinheiro emprestado antes de poder gastá-lo. Um Estado monetário soberano emite a moeda que utiliza. Um Estado pode ficar sem enfermeiros, eletricidade, aço, moradia ou medicamentos. Mas não pode ficar sem sua própria moeda no mesmo sentido.

A inflação estabelece um limite real. A natureza estabelece outro. Mas o esvaziamento do tesouro é frequentemente uma narrativa política, não um fato concreto.

Apresentando Paul Volcker

Em 1979, Paul Volcker assumiu o comando do Federal Reserve dos EUA. Ele elevou as taxas de juros para 20% para combater a inflação. Seu objetivo era derrotar a inflação sufocando a demanda.

O método gerou falências e desemprego em massa. Quando as pessoas temiam perder seus empregos, tinham menos poder para exigir salários mais altos. Quando os sindicatos perderam membros e o poder de greve, o poder passou para os empregadores. A luta contra a inflação, portanto, também se tornou política de classe.

Mas os aumentos das taxas de juros frequentemente atacam os sintomas em vez das causas originais da inflação. Quando os preços são impulsionados para cima por choques de oferta, problemas de distribuição ou guerras, taxas de juros mais altas não produzem mais petróleo, eletricidade, moradias ou alimentos. As pessoas ainda precisam comprar o que necessitam. Em vez disso, taxas altas reduzem o crédito e o investimento e aumentam o desemprego. A economia é forçada a absorver o choque por meio da perda de empregos, salários mais baixos e fechamento de empresas — tudo isso sem realmente sanar a escassez que fez os preços dispararem.

O choque Volcker também provocou a valorização do dólar, já que retornos mais altos atraíram mais capital para os Estados Unidos. Isso dizimou fábricas em todo o cinturão industrial estadunidense. O impacto foi ainda mais severo na América Latina e na África. Muitos países haviam contraído empréstimos com base nos petrodólares emitidos pelos bancos ocidentais na década de 1970. Os empréstimos eram geralmente em dólares e frequentemente tinham taxas de juros variáveis. Quando os Estados Unidos aumentaram as taxas de juros e o dólar se valorizou, o endividamento desses países explodiu.

Em 1982, o México anunciou que não conseguiria mais honrar sua dívida. O FMI e o Banco Mundial ofereceram novos empréstimos, mas exigiram cortes, privatizações, redução dos salários do setor público e abertura de mercados. A crise da dívida deu a essas instituições a alavancagem necessária para desmantelar modelos sociais inteiros e interromper a nascente industrialização que havia começado no Sul Global durante o período de desenvolvimento do pós-guerra.

Em muitos países, os programas de ajustamento do FMI e do Banco Mundial contribuíram para a pobreza, a desindustrialização e a desintegração. Na Iugoslávia, a dívida, o desemprego e os cortes no bem-estar social enfraqueceram a coesão federal. A camisa de força econômica não causou, por si só, a guerra civil e o genocídio na Iugoslávia, mas exacerbou a insegurança e os antagonismos regionais que os líderes nacionalistas transformaram em uma força política explosiva.

Todos são informados de que os recursos estão esgotados e que alguém em uma posição social inferior já se apropriou da sua parte. O conflito subjacente entre trabalho e capital desaparece de vista.

Ronald Reagan apontou o Estado como o problema. Ao mesmo tempo, aumentou os gastos militares e acumulou grandes déficits orçamentários. Os Estados Unidos utilizaram pesquisa pública, aquisições de defesa e políticas industriais para impulsionar a aviação, a computação e novas tecnologias.

Por outro lado, muitos países endividados foram instruídos a cortar gastos. Os países europeus impuseram, cada vez mais, medidas semelhantes em seus próprios territórios. Japão, Coreia do Sul e Taiwan foram autorizados — e, por vezes, incentivados — a utilizar bancos estatais, proteção tarifária e crédito direcionado, desde que seu desenvolvimento servisse à estratégia dos EUA durante a Guerra Fria. A disciplina de mercado, portanto, aplicava-se com maior rigor àqueles que não tinham poder para dizer não.

Na Suécia, a direita, particularmente através da Associação Patronal, conduziu uma longa e dispendiosa campanha para apresentar a crise internacional como um argumento contra os sindicatos, as condições de trabalho, a segurança social e o bem-estar público. O choque do petróleo não provou, de fato, que o Estado de bem-estar social — o folkhem — tivesse falhado. Mas deu aos patrões uma oportunidade de ouro para inverter o equilíbrio de poder, desviando-o dos trabalhadores e das instituições eleitas para as empresas, os proprietários de capital e os mercados privados.

As consequências das lições erradas

Trabalhadores trabalham em fábricas, armazéns, transportes, restaurantes e serviços de assistência. Professores, assistentes sociais, jornalistas, pesquisadores e comunicadores enfrentam a mesma lógica, porém de forma diferente. As organizações sofrem com a falta de pessoal e tempo. Os gestores continuam exigindo que os trabalhadores se tornem mais flexíveis, positivos e eficientes.

Muitas pessoas ainda desejam um bom sistema de saúde, aposentadorias seguras, auxílio-desemprego mais alto, aluguéis acessíveis e escolas que funcionem bem. No entanto, a maioria dos partidos tradicionais, desprovidos de ambição e imaginação política, continua a minar esses mesmos sistemas.

O professor sobrecarregado é colocado em conflito com o funcionário de licença médica. A enfermeira, contra o desempregado. O trabalhador, contra o migrante. Todos são informados de que os recursos estão esgotados e que alguém em uma posição social inferior já se apropriou da sua parte. O conflito subjacente entre trabalho e capital desaparece de vista.

Quando partidos de esquerda e de centro-direita prometem segurança, mas implementam austeridade, a democracia perde credibilidade. Os eleitores se cansam de diferentes versões das mesmas políticas e escolhem aquela que promete mudar o cenário.

Líderes autoritários criam inimigos em vez de segurança para as pessoas. Atacam migrantes, minorias, jornalistas, trabalhadores da cultura, tribunais e sindicatos. Ao mesmo tempo, protegem as maiores fortunas e corporações que lucram com a ordem desigual.

Eles prometem mudanças sistêmicas. Mas direcionam a revolta para baixo.

Meio século depois, os paralelos são difíceis de ignorar. A pandemia desestabilizou a produção e as cadeias de suprimentos; a guerra na Ucrânia aumentou os custos de energia; e agora a guerra com o Irã e os imbróglios que interrompem o tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz fizeram os preços dispararem novamente. As circunstâncias podem ser diferentes; as respostas políticas, não. A inflação resultante da guerra, da escassez e da produção interrompida é atribuída aos salários, aos gastos públicos ou ao fato de as pessoas comuns supostamente viverem na opulência. Repetidamente, os trabalhadores são informados de que devem absorver o custo de crises pelas quais não têm nenhuma responsabilidade.

O mundo da década de 1970 foi assolado por guerras, caos monetário e um aumento drástico no preço de sua fonte de energia mais importante. Os Estados Unidos contribuíram para a convulsão, lucraram com o petrodólar e usaram sua recém-conquistada liberdade monetária para financiar guerras e sustentar a hegemonia global. No entanto, as pessoas comuns foram levadas a acreditar que sua própria prosperidade e segurança haviam causado o desastre.

Esse mito persiste sempre que um governo afirma ter ficado sem dinheiro para saúde, educação, moradia, aposentadorias ou mudanças climáticas. Um país pode, de fato, não ter pessoal suficiente, eletricidade, materiais e recursos naturais. Essas são limitações reais. Mas um Estado com moeda própria não precisa esperar que bilionários ou bancos criem seu dinheiro.

Além disso, a medida prescrita — suprimir a demanda privada e restringir os orçamentos públicos — pode, por si só, prejudicar a produção. Os liberais de mercado podem então citar as dificuldades resultantes para justificar ainda mais austeridade. Em tempos de crise, políticas que transferem riqueza e poder para as camadas mais altas da sociedade podem ser apresentadas como inevitáveis ​​e necessárias.

O Estado deve governar de acordo com a capacidade produtiva real da economia. Deve conter a demanda quando os recursos forem insuficientes, preferencialmente atribuindo uma parcela maior do ônus aos mais ricos. Mas quando houver desemprego, fábricas ficarem ociosas e as necessidades sociais aumentarem, o Estado pode utilizar sua capacidade monetária para colocar os recursos ociosos em atividade.

A crise do petróleo não foi apenas um choque econômico. A direita a transformou em uma narrativa de que a democracia não conseguia mais controlar a economia. Dessa narrativa surgiram cinquenta anos de cortes, desregulamentação, privatização, estresse e desigualdade.

A maior vitória da direita não foi ter resolvido a crise do petróleo. Foi fazer o mundo se lembrar da crise da maneira errada.

Colaborador

Oskar Brandt é um jornalista e historiador sueco que escreve sobre história política e econômica, trabalho, segurança social e desenvolvimento pessoal. Ele é o autor de Överlevnad — för samhället och människorna (Sobrevivência — para a sociedade e seu povo).

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...