Olavo Passos de Souza
Enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva faz campanha para um quarto mandato antes das eleições gerais de outubro, a direita brasileira luta para acompanhar o popular líder de esquerda do país. O vácuo político na direita, criado pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, levou muitos a questionar quem assumiria a causa bolsonarista — que continua sendo a força dominante entre os conservadores brasileiros.
Por fim, Flávio Bolsonaro — filho mais velho do ex-presidente e também um político experiente — assumiu o papel e é atualmente o principal adversário de Lula na disputa pela liderança do Brasil. No entanto, uma série de escândalos financeiros e pessoais surgidos nos últimos meses — que vão desde supostas propinas ligadas a filmes até desavenças com sua influente madrasta — abalou a candidatura do filho de Bolsonaro, levando alguns a afirmar que sua campanha está em queda livre.
Política dinástica
Por fim, Flávio Bolsonaro — filho mais velho do ex-presidente e também um político experiente — assumiu o papel e é atualmente o principal adversário de Lula na disputa pela liderança do Brasil. No entanto, uma série de escândalos financeiros e pessoais surgidos nos últimos meses — que vão desde supostas propinas ligadas a filmes até desavenças com sua influente madrasta — abalou a candidatura do filho de Bolsonaro, levando alguns a afirmar que sua campanha está em queda livre.
Política dinástica
Em 2025, à medida que crescia a probabilidade de Jair Bolsonaro ser condenado por conspiração contra a democracia brasileira, começou a surgir a questão de quem o substituiria. Assim como Lula no lado oposto do espectro político, Bolsonaro havia passado a dominar o campo da direita no Brasil.
À medida que crescia a probabilidade de Jair Bolsonaro ser condenado sob a acusação de conspiração contra a democracia brasileira, começou a surgir a questão de quem o substituiria.
À medida que crescia a probabilidade de Jair Bolsonaro ser condenado sob a acusação de conspiração contra a democracia brasileira, começou a surgir a questão de quem o substituiria.
O Partido Liberal (PL), adotado por Bolsonaro durante sua presidência e rapidamente moldado à sua imagem populista e de caráter quase fascista, tornou-se o principal partido de direita do Brasil. Ele eclipsou o neoliberal (e de nome confuso) Partido Social Democrata, deslocando a política brasileira do centro em direção à extrema-direita.
Hoje, o Partido Liberal está entre os maiores do Brasil, contando com o maior número de senadores e o segundo maior número de deputados, sem falar em milhares de prefeitos e representantes locais. Seus candidatos defendem uma plataforma evangélica, autoritária e reacionária, que dilui as fronteiras entre Estado e religião, bem como entre interesses privados e públicos. Nesses círculos, Bolsonaro é visto mais como uma figura paterna do que como um líder político convencional.
No entanto, durante muitos meses, o favorito para substituir Bolsonaro não era membro do Partido Liberal. A escolha esperada era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, figura que conseguiu se posicionar como uma opção mais moderada e palatável. Isso não se devia a qualquer moderação real de sua parte — Freitas é um conhecido populista de direita, envolvido em suas próprias controvérsias —, mas simplesmente ao fato de não estar vinculado aos inúmeros escândalos que assolaram Bolsonaro e seus principais aliados políticos.
Ao se apresentar como um direitista menos polêmico e mais pragmático, Tarcísio remetia à campanha presidencial fracassada de Ron DeSantis, o político da Flórida que tentou se colocar como a alternativa republicana mais sensata a Donald Trump.
Filho de seu pai
Hoje, o Partido Liberal está entre os maiores do Brasil, contando com o maior número de senadores e o segundo maior número de deputados, sem falar em milhares de prefeitos e representantes locais. Seus candidatos defendem uma plataforma evangélica, autoritária e reacionária, que dilui as fronteiras entre Estado e religião, bem como entre interesses privados e públicos. Nesses círculos, Bolsonaro é visto mais como uma figura paterna do que como um líder político convencional.
No entanto, durante muitos meses, o favorito para substituir Bolsonaro não era membro do Partido Liberal. A escolha esperada era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, figura que conseguiu se posicionar como uma opção mais moderada e palatável. Isso não se devia a qualquer moderação real de sua parte — Freitas é um conhecido populista de direita, envolvido em suas próprias controvérsias —, mas simplesmente ao fato de não estar vinculado aos inúmeros escândalos que assolaram Bolsonaro e seus principais aliados políticos.
Ao se apresentar como um direitista menos polêmico e mais pragmático, Tarcísio remetia à campanha presidencial fracassada de Ron DeSantis, o político da Flórida que tentou se colocar como a alternativa republicana mais sensata a Donald Trump.
Filho de seu pai
No final, e para surpresa de muitos — inclusive de Tarcísio —, Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de Jair e senador por direito próprio, anunciou sua candidatura pela legenda do Partido Liberal, após supostamente consultar seu pai, que se encontra preso. O anúncio colocou Flávio na posição de sucessor ou, mais precisamente, de substituto (já que a influência de seu pai certamente pairaria sobre sua eventual gestão). Também frustrou imediatamente as expectativas de Tarcísio, que prontamente anunciou, em vez disso, sua campanha à reeleição para o governo de São Paulo.
Mais do que uma decisão partidária, a escolha de Bolsonaro pelo próprio filho demonstra que o ex-presidente deseja, acima de tudo, manter a liderança da direita brasileira sob seu controle. Contudo, Flávio Bolsonaro não é uma cópia fiel de seu pai.
Mais do que uma decisão partidária, a escolha de Bolsonaro pelo próprio filho demonstra que o ex-presidente deseja, acima de tudo, manter a liderança da direita brasileira sob seu controle. Contudo, Flávio Bolsonaro não é uma cópia fiel de seu pai.
Apesar de ser um defensor fervoroso do legado de seu pai, Flávio é conhecido como o mais "respeitável" dos três irmãos Bolsonaro.
Enquanto seu pai tem um longo histórico de grosseria e de proferir insultos — o que o tornou amado por alguns e odiado por muitos —, Flávio tem fama de ser educado e pragmático. Ele é conhecido por trabalhar bem até mesmo com rivais do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, quando isso é necessário para aprovar leis.
Ele é tão de direita quanto o pai e defende muitas das teses reacionárias sobre a histórica ditadura militar e a eleição de 2022 — a qual apoiadores de Bolsonaro alegam falsamente ter sido roubada por Lula. No entanto, apesar de ser um defensor fervoroso do legado do pai, Flávio é visto como o mais "respeitável" dos três irmãos Bolsonaro e parece determinado a construir sua própria imagem pública.
Sua campanha já havia sido prejudicada pela alta na popularidade de Lula no início deste ano. Agora, enfrenta grandes reveses, todos ligados à sua própria família.
Parentes que causam constrangimento
A imagem polida e calculada de Flávio contrasta fortemente com a de seu irmão mais novo, Eduardo. Atualmente residindo nos Estados Unidos, Eduardo assemelha-se muito mais ao pai em sua postura, sendo conhecido por seus desabafos na internet e por suas diatribes repletas de ofensas contra aqueles que se opõem à família.
A persona bem-cuidada e calculada de Flávio contrasta fortemente com a de seu irmão mais novo, Eduardo.
Principal porta-voz e redator de discursos do ex-presidente, Eduardo é um propagandista talentoso que passou os últimos anos no circuito de palestras conservadoras pregando sobre a suposta perseguição à sua família, as tendências ditatoriais do Judiciário brasileiro e os perigos do marxismo cultural. Figura com laços estreitos com a mídia de direita dos EUA, Eduardo Bolsonaro licenciou-se do cargo de deputado federal para viver nos Estados Unidos no início de 2025.
Desde então, ele lidera o lobby antibrasileiro na política dos EUA a partir dessa posição, trabalhando arduamente para sabotar o governo brasileiro por todos os meios possíveis. Em julho de 2025, ele reivindicou parte do crédito pela decisão de Trump de impor tarifas ao Brasil — uma medida justificada com base no tratamento dispensado a Jair Bolsonaro.
No entanto, a atuação de Eduardo gerou uma enorme reação negativa dentro do Brasil. Além de criar um efeito de "união em torno da bandeira" — fortalecendo a posição de Lula nas pesquisas num momento em que o presidente enfrentava seu pior índice de popularidade —, a atitude provocou ampla condenação à família Bolsonaro por parte de todo o espectro político brasileiro.
Desde então, Eduardo teve seu mandato de deputado federal cassado devido à sua longa ausência. Em junho deste ano, ele foi condenado por tentar obstruir a justiça e o julgamento de seu pai por meio de sua atuação de lobby. Eduardo rapidamente rotulou as autoridades brasileiras de "Gestapo" e solicitou asilo político ao governo dos EUA. O pedido foi prontamente concedido — em contraste com a forma como a administração Trump trata refugiados genuínos — e ele agora possui um green card.
As atitudes de Eduardo prejudicaram consideravelmente a imagem de seu irmão como candidato à presidência. Seu envolvimento nas tarifas impostas ao Brasil manchou significativamente o nome Bolsonaro e, com o anúncio pelos Estados Unidos de uma tarifa adicional de 25% sobre todos os produtos brasileiros em julho, a questão permanece viva na memória de todos os brasileiros.
Produzindo filmes
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro também se viu envolvido em um escândalo bancário bizarro. Mensagens vazadas entre Flávio e o banqueiro brasileiro Daniel Vorcaro mostram o político solicitando quase 25 milhões de dólares para ajudar a financiar seu projeto cinematográfico, Dark Horse.
Mensagens vazadas entre Flávio e o banqueiro brasileiro Daniel Vorcaro mostram o político solicitando quase 25 milhões de dólares para ajudar a financiar seu projeto cinematográfico, Dark Horse.
O filme é uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos, estrelada pelo ator americano Jim Caviezel — anteriormente mais conhecido por interpretar Jesus em A Paixão de Cristo — no papel de Jair Bolsonaro. A obra ainda não foi lançada, mas já gera muita discussão entre o público brasileiro quanto às escolhas do elenco e ao seu caráter presumivelmente propagandístico.
Vorcaro, chefe do Master Bank, está atualmente sob investigação por um grande e amplamente divulgado escândalo de fraude bancária. A origem dos recursos transferidos para o financiamento do filme — uma transferência inicialmente negada por todas as partes envolvidas — tem sido alvo de intenso escrutínio, sem falar na questão da adequação ética de um senador em exercício receber tal quantia.
As mensagens vazadas revelaram laços estreitos entre Flávio e Vorcaro, indicando um longo histórico de comunicação entre ambos. À medida que a investigação sobre o banqueiro prossegue, novas revelações podem surgir.
O Master Bank é uma instituição muito popular, especialmente entre a classe trabalhadora brasileira, e o caso atraiu grande atenção pública, transformando Vorcaro rapidamente em uma figura execrada. As mensagens de Bolsonaro, nas quais ele pede a Vorcaro que cubra despesas e se refere a ele como "irmão", não ajudaram a melhorar sua imagem perante o público.
A família tem o hábito de fazer campanha com base em plataformas anticorrupção, apesar de estar cercada por seus próprios escândalos de corrupção; a campanha de Flávio não é diferente, lançando acusações de corrupção grave contra Lula e o PT. O escândalo do Master Bank tornou impossível para o filho de Bolsonaro fazer campanha com essa bandeira sem atrair acusações de hipocrisia.
No entanto, isso não o impediu de tentar. Em um comício recente, Flávio apareceu vestindo uma camiseta com a frase "O Pix é do Bolsonaro, a Master é do Lula", tentando reivindicar o crédito pelo popular sistema de pagamento direto e sem dinheiro em espécie utilizado no Brasil, ao mesmo tempo em que atribuía a Lula a culpa pelo escândalo da Master. Parece pouco provável que tal retórica surta efeito, mas há pouco mais que Flávio possa fazer para se distanciar desse escândalo em curso.
Desavença familiar
Além de tudo isso, Flávio protagonizou recentemente um desentendimento público com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, em uma disputa familiar que ameaça dividir a base eleitoral bolsonarista. Michelle ganhou destaque durante o período em que foi primeira-dama. Ela é uma voz conservadora influente entre as mulheres brasileiras e preside o segmento feminino do Partido Liberal, coordenando a campanha de diversas candidatas conservadoras.
Flávio protagonizou recentemente um desentendimento público com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, em uma disputa familiar que ameaça dividir a base eleitoral bolsonarista.
Há muito se sabe que Michelle nutre ambições políticas maiores. Ela não apenas é popular entre o eleitorado feminino — público-alvo específico de suas campanhas —, mas também mantém fortes laços com o poderoso movimento evangélico no Brasil. Após a prisão e a condenação de Jair Bolsonaro, ela chegou a ser cogitada como possível substituta dele, antes que o nome de Flávio, mais experiente, fosse escolhido.
Nos últimos anos, houve diversos relatos de conflitos entre Michelle e seus enteados; estes alegavam que ela não tinha experiência e interferia em áreas fora de sua alçada. Recentemente, essa disputa se intensificou em torno de uma possível aliança política que Michelle criticou, classificando-a como "incompatível com os interesses da direita brasileira".
Antes, essas desavenças ocorriam a portas fechadas, mas Michelle decidiu trazê-las a público ao divulgar, em 25 de junho, um vídeo de vinte e sete minutos no qual relata os desentendimentos com Flávio Bolsonaro e os motivos do conflito com os irmãos dele. Ao longo do vídeo, ela desferiu diversos ataques passivo-agressivos contra o candidato de seu partido.
Apresentando o vídeo como uma mensagem a todas as "mulheres de bem" do Brasil, Michelle posicionou-se como defensora das mulheres conservadoras em âmbito nacional, exaltando sua "força delicada". Sua linguagem enfatizava a lealdade ao líder (Bolsonaro); ela argumentou que sempre atuou sob instruções diretas e com o aval total do marido.
Ela afirmou que eram Flávio e outros membros do Partido Liberal que agiam contra os interesses da direita brasileira e instou Flávio a parar de falar sobre ela, sugerindo que as fofocas na internet estavam afetando o bem-estar de sua filha.
Com esse vídeo, amplamente divulgado e analisado, Michelle criou uma ruptura pública evidente entre ela (e, por extensão, seus seguidores) e Flávio Bolsonaro. Sua influência nos meios evangélicos, sua retórica notável, a ligação direta com Bolsonaro e seu histórico (até o momento) ilibado fazem de seus ataques a Flávio um golpe devastador para a campanha dele.
Isso pode indicar o desejo dela de, futuramente, liderar o movimento bolsonarista, bem como de se distanciar do que pode muito bem vir a ser um projeto eleitoral fadado ao fracasso.
Por um fio
Apesar de estar cercado por escândalos, Flávio Bolsonaro continua à frente da candidatura do Partido Liberal à presidência. Não há outros candidatos que cheguem sequer perto dos seus índices de intenção de voto ou dos de Lula (todos os demais candidatos estão abaixo de 10%, enquanto Flávio e Lula oscilam em torno da marca de 40%). Isso significa que a única esperança da direita brasileira de recuperar a presidência reside na campanha cambaleante de Flávio.
Em conformidade com a legislação eleitoral brasileira, as convenções nacionais estão sendo realizadas durante a última semana de julho e a primeira semana de agosto. É nessas convenções, realizadas separadamente pelos diretórios estaduais do partido, que os pré-candidatos são geralmente confirmados pelos delegados partidários. Vale ressaltar que Flávio chegou a esse momento sem ter definido um candidato a vice — algo que praticamente todos os outros principais candidatos já haviam providenciado. Isso pode ser um sinal de que figuras de destaque da direita e do centro brasileiros estão tentando se distanciar de sua campanha.
Nada será oficial até a conclusão dessas convenções separadas, no início de agosto, mas as esperanças presidenciais de Bolsonaro estão por um fio. Embora a remoção dele da chapa fosse algo inédito, coisas muito mais inusitadas já aconteceram na política brasileira. Com a investigação do Master Bank prevista para se prolongar, ele ainda pode se tornar o terceiro membro da família Bolsonaro a enfrentar as consequências jurídicas de seus atos.
Colaborador
Olavo Passos de Souza é doutorando em História na Universidade de Stanford.




