14 de outubro de 2026

A próxima fronteira da China

Como Pequim está desafiando Washington no espaço sideral

Kathleen Curlee e Sam Bresnick


Um foguete LandSpace decolando perto de Jiuquan, China, agosto de 2026 Reuters

Na manhã de 19 de agosto, o setor espacial da China atingiu um marco importante. Pouco depois de a empresa aeroespacial chinesa LandSpace lançar um foguete no noroeste da China, seu propulsor — a parte necessária para impulsionar o foguete até a órbita — separou-se com sucesso e pousou de volta na Terra. Foi a primeira vez que uma empresa chinesa recuperou um foguete em solo; o feito ocorreu seis semanas após a primeira recuperação de um foguete pelo país, realizada no Mar do Sul da China pela principal empreiteira espacial estatal chinesa. Esses eventos marcam o início dos lançamentos de foguetes reutilizáveis ​​na China — uma capacidade que abrirá um enorme potencial para o setor espacial do país, que se encontra em plena expansão.

A resposta de Washington a esses acontecimentos tem sido contida. Os Estados Unidos ainda realizam mais que o dobro de lançamentos e possuem mais satélites em órbita do que qualquer outro país. Mas a China está reduzindo essa diferença. Entre 2020 e 2025, o número de foguetes lançados anualmente por empresas chinesas mais do que dobrou, passando de 39 para 92. Entidades chinesas solicitaram licenças para centenas de milhares de satélites de comunicação, e o número de empresas espaciais chinesas tem crescido rapidamente. Muitas delas, como a LandSpace, são relativamente novas, mas já demonstram um caráter inovador.

Esse progresso traz implicações tanto econômicas quanto militares. Em breve, empresas chinesas poderão competir com firmas norte-americanas no fornecimento de serviços espaciais — como internet via satélite — para vastas regiões do globo. Paralelamente, o Exército de Libertação Popular (ELP), que considera a superioridade espacial essencial para vencer guerras futuras, está desenvolvendo uma série de capacidades espaciais, bem como um arsenal de armas capazes de atacar satélites. Isso representa um risco sério para as forças armadas dos EUA, que dependem do espaço para comunicações, consciência situacional e navegação, além de utilizá-lo para realizar ataques de precisão e receber alertas sobre mísseis.

A ascensão da China como potência espacial deve servir como um alerta para os Estados Unidos. Após o fim da Guerra Fria, Washington passou a considerar sua predominância no espaço como algo garantido. Esse é um luxo que o país não pode mais se dar ao luxo de manter. À medida que o setor espacial de Pequim avança, suas vantagens em termos de custos tornarão muito mais difícil para as empresas norte-americanas competirem; além disso, as capacidades militares da China aumentarão o risco de que o espaço se torne um campo de batalha em conflitos futuros. A era da supremacia espacial norte-americana inquestionável está chegando ao fim, e Washington não tem outra escolha a não ser se adaptar.

DECOLAGEM!

O programa espacial da China remonta à década de 1950, quando o líder chinês Mao Tsé-Tung iniciou esforços para modernizar o Exército de Libertação Popular (ELP) e impulsionar a inovação tecnológica. Em 1970, a China lançou seu primeiro satélite e, na década de 1980, transformou a pesquisa em tecnologia espacial em uma prioridade nacional. Contudo, o momento decisivo para o programa espacial chinês ocorreu durante a Guerra do Golfo (1990–1991), quando o uso hábil de recursos espaciais pelas forças armadas dos EUA permitiu que uma coalizão relativamente pequena, porém tecnologicamente avançada, derrotasse o exército do Iraque em apenas alguns dias. Os satélites permitiram que as forças americanas navegassem por terrenos desérticos complexos, forneceram aos comandantes informações sobre o campo de batalha com maior rapidez e precisão, e possibilitaram que os soldados se coordenassem de forma integrada, mesmo a longas distâncias. Pequim, que até então não havia percebido o quanto estava defasada, agiu prontamente para recuperar o atraso.

Nos anos seguintes, a doutrina do ELP passou a enfatizar a importância crescente da tecnologia avançada — especialmente os satélites — para a condução de conflitos. Em 2000, as forças armadas chinesas iniciaram o desenvolvimento de seu próprio sistema de navegação por satélite, denominado BeiDou, visando eliminar a dependência do GPS, operado pelos EUA. Em 2015, o ELP criou a Força de Apoio Estratégico — uma organização hoje extinta — que consolidou as missões chinesas nos domínios espacial, cibernético e de guerra eletrônica, com o objetivo de acelerar o progresso do país no setor espacial. Naquele mesmo ano, um documento oficial do governo chinês classificou o espaço sideral como um domínio crítico para a segurança nacional. Desde então, a China desenvolveu espaçonaves voltadas para comunicações, navegação, além de inteligência, vigilância e reconhecimento — capacidades que seriam inimagináveis ​​para os oficiais do ELP que acompanharam a Operação Tempestade no Deserto.

O incentivo à atividade espacial comercial tornou-se uma das principais ferramentas da China para expandir seu programa espacial. Em 2014, Pequim abriu partes do setor espacial ao investimento privado; desde então, surgiram mais de 400 empresas espaciais comerciais chinesas. O governo central e os governos provinciais têm oferecido financiamento a essas empresas por meio de fundos de investimento estatais, subsidiado a modernização de instalações industriais e o lançamento de foguetes, além de conceder ao setor privado acesso a tecnologias e instalações de testes governamentais. Em 2025, as missões espaciais comerciais representaram 54% do total nacional da China, e os satélites comerciais constituíram 84% das espaçonaves chinesas colocadas em órbita. O amplo ecossistema espacial-industrial da China — composto por empresas comerciais, estatais, institutos de pesquisa e universidades — permitiu ao país eliminar sua dependência do GPS e abriu caminho para o surgimento de novas empresas nacionais voltadas ao sensoriamento remoto e às comunicações via satélite.

No campo da tecnologia de foguetes reutilizáveis, a empresa norte-americana SpaceX tem desfrutado de uma vantagem enorme, sendo responsável por cinco em cada seis lançamentos realizados nos Estados Unidos. Contudo, as duas recuperações controladas de propulsores de foguetes realizadas pela China em julho e agosto sugerem que o país poderá se tornar um concorrente real dos Estados Unidos dentro de uma década. Foguetes reutilizáveis ​​reduzem significativamente os custos e aumentam a agilidade dos lançamentos espaciais; caso a China domine essa tecnologia, ela poderá desenvolver grandes constelações de satélites com muito mais facilidade.

Lançamentos reutilizáveis ​​também permitirão que a China desenvolva capacidades de internet via espaço para competir com a rede Starlink — a rede dominante da SpaceX, um extenso sistema de internet por satélite com conectividade que rivaliza com muitas redes terrestres e que tem sido fundamental para a Ucrânia em sua defesa contra a Rússia. Embora as empresas chinesas ainda estejam nos estágios iniciais de desenvolvimento dessa tecnologia, elas estão avançando rapidamente. As entidades que operam as constelações de satélites Guowang e Qianfan, que pretendem competir com a Starlink, planejam lançar cerca de 30.000 satélites de comunicação ao longo da próxima década, aproximadamente. Esses sistemas são, atualmente, muito menores do que a Starlink — que conta com mais de 11.000 satélites em órbita —, mas, com o tempo, podem se tornar alternativas viáveis. A Qianfan já possui acordos de teste com o Brasil, Cazaquistão, Malásia e Turquia para o uso de sua rede de satélites.

CIÊNCIA DE FOGUETES

O desenvolvimento espacial comercial da China tem caminhado lado a lado com uma capacidade crescente de utilizar o espaço para apoiar sua modernização militar. Pequim passou décadas estudando o uso de satélites pelos militares dos EUA e, agora, está desenvolvendo suas próprias capacidades espaciais voltadas para a segurança nacional. Segundo o Pentágono, a China opera mais de 500 satélites capazes de realizar missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, além de contar com um sistema de posicionamento via satélite que permite ao Exército de Libertação Popular (ELP) localizar e rastrear forças dos EUA e de seus aliados ao redor do mundo. Estrategistas do ELP identificaram os ativos espaciais do Departamento de Defesa dos EUA como alvos valiosos, uma vez que os militares americanos dependem deles para quase todas as etapas do que chamam de “cadeia de neutralização” (kill chain): localizar, mirar e atacar alvos, para, em seguida, avaliar os resultados.

Para explorar a dependência dos EUA em relação a satélites, Pequim tem investido em armas antissatélite. Desde 2007, quando realizou seu primeiro teste bem-sucedido de um míssil antissatélite, a China desenvolveu outros recursos — incluindo sistemas de guerra eletrônica e armas de energia direcionada — capazes de interferir em sinais de satélite ou danificar sensores, sem a necessidade de destruir fisicamente os satélites. Veículos espaciais chineses também são capazes de realizar manobras cada vez mais sofisticadas: em 2022, um satélite chinês chamado Shijian-21 acoplou-se a um satélite chinês inativo e o deslocou para uma órbita diferente. Embora tal ação possa ter um propósito benigno — como o reparo e reabastecimento de satélites ou a remoção de detritos espaciais —, ela também permite que plataformas chinesas manipulem outras espaçonaves, inclusive satélites militares dos EUA. A capacidade de Pequim de neutralizar satélites americanos representaria um desafio particularmente grave para as forças armadas dos EUA no Leste Asiático; em um eventual conflito, a China seria muito menos dependente de ativos espaciais do que os Estados Unidos.

A ascensão da China no setor espacial já influencia a dinâmica mais ampla da segurança internacional. Durante a invasão russa da Ucrânia em 2022, empresas chinesas forneceram imagens de satélite do campo de batalha que auxiliaram as forças russas na condução de operações militares. Ao longo do conflito envolvendo o Irã, entidades chinesas também forneceram a Teerã imagens de satélite — incluindo registros de uma base na Jordânia que foi alvo de um ataque iraniano em julho, resultando na morte de três militares americanos. À medida que o setor espacial comercial da China se expande, essas relações também podem se ampliar, permitindo que mais países e atores não estatais — mesmo aqueles sem programas espaciais avançados — tenham acesso a tais benefícios. Esse acesso ampliado poderia ser utilizado para salvar vidas durante desastres naturais ou outras emergências. Por outro lado, também poderia conferir a adversários a capacidade de atacar, com maior eficácia, forças dos EUA e de seus aliados ao redor do mundo.

MISSÃO CRÍTICA

Diante do crescimento do poder espacial chinês, Washington tem tomado medidas para proteger algumas de suas redes de satélites. A Força Espacial dos EUA diversificou a localização de alguns de seus ativos mais sensíveis e intensificou a aquisição de novos satélites. Tais investimentos são úteis, mas insuficientes para sanar as vulnerabilidades dos Estados Unidos. Diante das capacidades que a China já possui ou desenvolverá em breve, surgem diversos cenários nos quais as forças armadas dos EUA poderiam ter de operar em condições em que as comunicações via satélite estejam indisponíveis ou degradadas, os sinais de GPS sofram interferência (bloqueio) e o acesso a informações de inteligência a partir da órbita esteja restrito.

As forças armadas dos EUA devem investir em tecnologias incipientes — como sistemas de navegação inercial e sensores quânticos — que, futuramente, poderão permitir que suas tropas se desloquem com precisão mesmo sem o GPS. Devem também investir em alternativas emergentes aos satélites, tais como: sistemas de retransmissão em grandes altitudes (incluindo drones ou balões que operam mais próximos à Terra e podem conectar redes de comunicação); comunicações via laser (que utilizam luz para transmitir informações e são de difícil interrupção); e redes em malha (mesh networks), que redirecionam automaticamente os sinais contornando pontos que tenham sido destruídos, tornando as comunicações mais resilientes. Mecanismos para delegar a tomada de decisões tornar-se-ão ainda mais essenciais do que no passado, à medida que aumenta o risco de desconexão.

Washington deve, ainda, intensificar seus esforços para promover uma indústria nacional de lançamentos espaciais mais competitiva. Os Estados Unidos lideram o setor global de lançamentos espaciais, em grande parte graças à SpaceX. Embora a empresa represente um ativo valioso, seu quase monopólio constitui um risco. Caso falhas técnicas ou danos à infraestrutura de lançamento interrompam as operações da SpaceX, a capacidade dos Estados Unidos de colocar satélites em órbita seria severamente comprometida. Este ano, a SpaceX anunciou planos de descontinuar o Falcon 9, seu principal foguete reutilizável. O Falcon 9 será futuramente substituído pelo Starship, um novo foguete de alta capacidade, capaz de transportar um número maior de satélites por lançamento. Contudo, o início desse processo de desativação já gerou uma escassez de lançamentos, o que ameaça o desenvolvimento contínuo da economia espacial norte-americana. Para mitigar esse risco, Washington deve continuar concedendo contratos governamentais a um número maior de empresas.

A SpaceX é um ativo valioso para os Estados Unidos, mas seu quase monopólio representa um risco.

Além de investir em capacidade de lançamento, os Estados Unidos deveriam oferecer apoio a empresas que desenvolvem tecnologias espaciais emergentes — as quais, embora apresentem aplicações importantes para a segurança nacional, enfrentam dificuldades para atrair demanda comercial suficiente em seus anos iniciais. Essa foi a abordagem adotada em relação à SpaceX a partir da primeira década deste século. Agências federais poderiam atuar como clientes âncora para tecnologias que Washington considera cruciais para fins de segurança nacional, garantindo às empresas que as produzem uma receita estável e uma legitimidade que lhes permitam crescer.

Identificar tecnologias emergentes importantes e financiá-las de forma consistente é essencial para manter a liderança no espaço. Infelizmente, as prioridades dos EUA no setor têm estado sujeitas a mudanças ao longo das diferentes administrações presidenciais e no Congresso. Com o colapso da União Soviética, a disposição de Washington em investir pesadamente no espaço também diminuiu. É claro que os Estados Unidos não abandonaram totalmente o espaço, como demonstram projetos como o programa dos ônibus espaciais, as missões lunares Artemis e a criação da Força Espacial dos EUA. Contudo, o interesse do governo nesse domínio tem oscilado ao longo do tempo. Pequim, por outro lado, tem buscado seus objetivos espaciais de maneira consistente desde o início da década de 1990, ajustando programas conforme a tecnologia evolui, mas sem nunca perder de vista seu objetivo final. Se Washington deseja continuar competindo com a China, também precisa manter seus compromissos.

Por fim, os Estados Unidos se beneficiariam ao trabalhar com seus aliados. A OTAN já vem testando formas de compartilhar a experiência espacial de seus membros e integrá-la às operações aliadas. Em julho, oito aliados dos EUA lançaram a iniciativa HALO, que visa conectar satélites militares soberanos em uma rede que otimiza as comunicações, a inteligência e o rastreamento de mísseis. O projeto STARLIFT, da OTAN — estabelecido em 2024 —, analisa como locais de lançamento situados em território aliado poderiam acelerar o acesso à órbita durante uma crise. Os Estados Unidos, que nos últimos anos deixaram a cooperação internacional em segurança em segundo plano, deveriam reafirmar seu compromisso com a segurança espacial aliada. Ter acesso aos recursos espaciais dos aliados será fundamental em conflitos futuros que abranjam grandes distâncias, especialmente caso os próprios ativos espaciais dos Estados Unidos sejam neutralizados.

Mesmo as medidas de modernização e resiliência mais eficazes não serão suficientes para proteger os ativos espaciais dos EUA contra adversários determinados. Durante décadas, os Estados Unidos puderam contar com o domínio do espaço para travar guerras. Atualmente, a dependência excessiva de satélites e da SpaceX constitui uma vulnerabilidade significativa. Washington precisa se proteger em um mundo no qual já não é a única potência espacial. Manter a dianteira na nova corrida espacial exigirá tanto investir em arquitetura espacial quanto estabelecer planos de contingência para neutralizar os riscos da emergente era espacial multipolar.

KATHLEEN CURLEE é analista sênior de pesquisa no Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown.

SAM BRESNICK é pesquisador e bolsista Andrew W. Marshall no Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown.

Um retrato de Eugene Debs para a esquerda de hoje

O socialismo avança, e os defensores do capitalismo estão acuados. American Socialist: The Life and Legacy of Eugene V. Debs, de Shawn Gude — uma biografia do mais proeminente agitador socialista da história dos Estados Unidos —, não poderia ser mais oportuna.

Matthew E. Stanley

Dá para perceber que o sistema capitalista está em apuros quando os americanos começam a falar sobre Eugene Debs. (CantonRep.com)

Resenha de American Socialist: The Life and Legacy of Eugene V. Debs, de Shawn Gude (Simon and Schuster, outubro de 2026)

Sabe-se que o sistema capitalista está em apuros quando os americanos começam a falar sobre Eugene Debs. Embora a imagem popular desse grande líder trabalhista e socialista tenha oscilado ao longo do século transcorrido desde a sua morte, a nossa "Nova Era Dourada" (New Gilded Age) o colocou novamente em destaque. Políticos progressistas e ativistas trabalhistas — incluindo o presidente do sindicato United Auto Workers, Shawn Fain, e a organizadora sindical Jaz Brisack — citam seus discursos com frequência. No ano passado, Alexandria Ocasio-Cortez viajou até a casa de Debs em Terre Haute, Indiana, para apresentar Bernie Sanders, que há muito cita o incendiário líder de Indiana como um herói político. E, quando Zohran Mamdani iniciou sua campanha para a prefeitura da maior cidade do país, fê-lo citando Debs.

Tais homenagens refletem um movimento mais amplo. A visão de mundo defendida por Debs é mais popular hoje do que em qualquer outro momento desde a sua morte; pesquisas indicam que os americanos — especialmente os jovens e as pessoas não brancas — veem o socialismo de forma mais positiva do que nunca. A organização Democratic Socialists of America (DSA), sucessora institucional do Partido Socialista da América de Debs, ultrapassou recentemente a marca de 120 mil membros, tornando-se a maior organização socialista da história dos EUA, com mais de 250 integrantes ocupando cargos eletivos em quarenta estados.

Nesse contexto, a obra American Socialist: The Life and Legacy of Eugene V. Debs, de Shawn Gude, chega em um momento extremamente oportuno. Este estudo, escrito de forma cativante e fruto de uma pesquisa minuciosa, não apenas renova histórias já conhecidas, mas também desafia os leitores a repensar noções pré-concebidas. Por exemplo, Gude dedica mais espaço do que biógrafos anteriores ao socialismo negro e às ideias de Debs sobre raça, revelando não uma relíquia rígida e dogmática da (muito) "Velha Esquerda", mas sim um rebelde imperfeito, porém frequentemente versátil, que ampliou ativa e continuamente sua compreensão pessoal de solidariedade. Ao fazer isso, American Socialist desafia a noção equivocada de Debs como um determinista rígido e imutável, cuja visão não levava em conta as complexidades de raça e classe.

O objetivo de Gude em American Socialist não é substituir as biografias anteriores — e ainda extremamente valiosas — de Ray Ginger, Bernard Brommel e Nick Salvatore, mas sim “levar a história de Debs a uma nova geração e a um público mais amplo”. De fato, Gude elaborou uma biografia acessível para os nossos tempos — um retrato fascinante de “um dos grandes críticos americanos da plutocracia: um homem que escalou até a sala das caldeiras do capitalismo, observou suas engrenagens e declarou que o sistema era despótico em sua essência”.

Da respeitabilidade ao radicalismo

Eugene Debs não nasceu radical. Ele chegou ao socialismo através de uma experiência preocupante – com o poder corporativo, os tribunais capitalistas e as injustiças diárias de viver e trabalhar na Era Dourada da América. Nascido em 1855, filho de imigrantes alsacianos em Terre Haute, ingressou na ferrovia aos quatorze anos, enquanto a nação avançava rumo ao capitalismo bucaneiro. Expulso do trabalho durante a depressão económica de 1873, Debs rapidamente se tornou um organizador da Irmandade dos Bombeiros de Locomotivas, usando a sua posição ascendente para se opor às greves, fazer eco da retórica de “lei e ordem” dos seus chefes e defender o credo sindical conservador da Irmandade de “benevolência, sobriedade, indústria”. Ele chegou ao ponto de fazer um discurso difamando a Grande Greve Ferroviária pela sua “anarquia e revolução”.

No final da década, Debs fez a sua primeira incursão na política eleitoral, primeiro como secretário municipal democrata e depois como deputado estadual. Ele provou ser um reformador trabalhista moderado, respeitável e receptivo aos negócios. Notavelmente, ele rompeu com o seu partido num esforço malsucedido para eliminar as distinções raciais da lei estadual, mas permaneceu decididamente anti-radical (até patrocinando um projeto de lei pró-milícia). Imbuído de uma visão da história do Grande Homem e da crença no poder da fortaleza individual, ele ascendeu rapidamente dentro de seu sindicato exclusivo de brancos. Ao contrário de muitos líderes comerciais, Debs não transformou abertamente os trabalhadores negros em bodes expiatórios. Mas ele também não usou sua posição para desafiar a linha de cor. Em vez disso, ele evitou o tema da raça inteiramente por indiferença ou por medo de que isso repelisse os trabalhadores brancos. O ativismo do jovem Debs foi definido pelo que Gude chama de “razão de sala de estar”, e não pela insurgência organizada.

Mas a luta de classes e a violenta obstinação do capital rapidamente arrancaram Debs da complacência. Não recompensado pela lealdade à classe patronal, Debs liderou sua primeira greve em 1888 contra a ferrovia Chicago, Burlington e Quincy. Ele emergiu como um homem mudado, abraçando a ampla federação em vez do exclusivismo artesanal e mais tarde evitando o sistema bipartidário. Através de uma nova consciência que se baseou nos abolicionistas e nos Cavaleiros do Trabalho, ele tornou-se activo no movimento populista e foi ainda mais agitado pela violência anti-trabalhador em Homestead e noutros locais. Na altura em que fundou a American Railway Union (ARU) em 1893 e orquestrou a greve Pullman no ano seguinte, Debs estava convencido do conflito estrutural permanente entre proprietários e trabalhadores.

Como tantos revolucionários, Debs passou por sua maior transformação enquanto estava na prisão.

A história do primeiro encarceramento e radicalização de Debs é familiar aos leitores da esquerda, mas Gude conta-a com rigor e estilo. Como tantos revolucionários, Debs passou pela maior transformação enquanto estava na prisão. Abandonado por Samuel Gompers e seus sindicatos artesanais da Federação Americana do Trabalho (AFL), Debs devorou ​​​​livros de Edward Bellamy e Laurence Gronlund. Ele leu Karl Kautsky e Karl Marx também. Como diz Gude, a greve Pullman constituiu um despertar quase espiritual, "um baptismo... do qual nasceu um novo Debs. Ele era agora, e seria para sempre, um agitador radical da classe trabalhadora".

A fórmula Debs

Debs logo se declarou socialista, comprometido com sindicatos e não com esquemas utópicos. Acreditando que em breve surgiria uma república dos trabalhadores (afinal, como poderiam persistir as agudas contradições e as profundas desigualdades da América industrial?), Debs abraçou o “socialismo político” de organizar um partido da classe trabalhadora para disputar eleições, popularizar ideias socialistas e actuar como o braço político do movimento operário. Ele aprendeu uma nova linguagem do marxismo e depois a destilou para os agricultores de Oklahoma, as confeccionistas de Nova York, os mineiros de cobre de Montana e os meeiros da Louisiana. Alimentado por uma mistura de cristianismo radical e história americana, ele avançou em viagens ininterruptas pelo país, abrangendo cinco campanhas presidenciais. Enquanto ele defendia uma grande tenda que fosse simultaneamente consciente das votações e das greves, a questão de como conseguir reformas imediatas com o objectivo final de vencer o socialismo definiu a cruzada de Debs para o próximo quarto de século.

O partido de Debs fez do socialismo uma força na política americana pela primeira vez na história dos EUA, mas a mobilização política e a governação revelaram-se cansativas. As divergências intrapartidárias surgiram ao longo de linhas de classe, estratégicas e regionais. Debs sentiu que os conservadores, liderados por Victor Berger, “diluíram os objectivos revolucionários” com a sua fixação na elegibilidade. Mas, ao contrário do seu futuro compatriota dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW), Bill Haywood, ele não conseguia imaginar uma revolução democrática a ocorrer nos Estados Unidos sem alcançar o poder através das urnas. Às vezes, parecia que o popular Debs era a única personalidade que mantinha tudo unido.

Sendo um partido independente (e não o braço eleitoral dos sindicatos, como o Partido Trabalhista Britânico), o Partido Socialista (SP) também entrou em conflito com Gompers, que apoiava avidamente os dois partidos capitalistas. Debs caminhou no que Gude descreve como a corda bamba de “como pressionar o trabalho organizado tradicional para longe de posições excludentes sem isolar o Partido Socialista”. Por vezes, Debs parecia acreditar que, se atacasse os burocratas da AFL com força suficiente, as suas bases avançariam em direcção à reforma socialista.

Às vezes, Debs parecia acreditar que, se apenas atacasse os burocratas da AFL com vigor suficiente, a base da organização migraria em direção à reforma socialista.

O SP também enfrentou dificuldades, em certos momentos, para formular uma visão coerente. Segundo Gude, Debs “nunca detalhou exatamente como seria uma economia socialista democrática”. Embora ferrovias, siderúrgicas, minas de carvão e outras grandes indústrias devessem ser de propriedade pública e estar sujeitas a controle democrático, Debs jamais delineou o papel preciso dos trabalhadores, das cooperativas, das pequenas empresas ou dos mercados no Estado socialista que idealizava. Assim como muitos outros socialistas, Debs considerava prematuro — ou potencialmente divisivo — elaborar um plano detalhado para a vida após o capitalismo.

Apesar de suas conquistas eleitorais notáveis, o partido estagnou. Debs obteve quase um milhão de votos ao concorrer da prisão em 1920, mas esse número representava uma proporção menor do que a marca alcançada em 1912. Gude detalha como muitos eleitores da classe trabalhadora não se sentiam capazes de apoiar Debs, por uma série de razões que iam desde a lealdade partidária e o clientelismo até a simples viabilidade política. “Debs ainda era uma aposta improvável, mesmo para aqueles que acreditavam em seus ideais”, lembra o autor, “e, claro, muitos não acreditavam”. Apesar de toda a energia e o magnetismo de Debs, após duas décadas o SP parecia ter atingido um limite eleitoral intransponível.

Por quê? Grande parte da resposta residia na escassez fundamental de recursos e de estrutura partidária. A violenta repressão estatal durante a Primeira Guerra Mundial agravou essas desvantagens, levando muitos socialistas a rejeitar a democracia eleitoral em favor da ação revolucionária. No entanto, a resposta também estava na tarefa hercúlea — e ainda não resolvida — de unir a classe trabalhadora mais diversa do mundo.

Algo a oferecer?
Assim como os socialistas de hoje, Debs deparou-se com o desafio de organizar trabalhadores profundamente fragmentados por raça, gênero, idade, etnia, idioma, região, religião e origem nacional. A postura padrão do SP (Partido Socialista) era sustentar que o capitalismo explorava todos os trabalhadores igualmente, defender objetivos "neutros em relação à raça" e insistir que o racismo se resolveria naturalmente por meio da luta material. Um movimento abrangente exigia, naturalmente, abrir espaço para diversos tipos de adeptos, mas os socialistas aderiam a um padrão branco não oficial, encarando o antirracismo ativo como algo indesejável — fosse por princípio ou por acreditarem que isso fragmentaria seu movimento, já de si frágil.

Ao longo de um século, estudiosos e ativistas têm criticado o que Philip S. Foner denominou "visão debsiana" de esquiva em relação à questão racial. Essa crítica teve origem entre militantes negros de esquerda da época, que apontavam as falhas do SP quanto à questão racial (convencido de que o partido não levava a questão a sério, Hubert Harrison deixou a legenda em 1914). Durante as disputas sectárias das décadas de 1920 e 1930, teóricos do Partido Comunista utilizaram declarações de Debs (muitas vezes fora de contexto) como arma para desacreditar o SP, expondo sua cumplicidade com a supremacia branca. O resultado foi, por vezes, uma caricatura da suposta indiferença racial dos socialistas.

Debs e outros líderes da ARU na prisão de Woodstock, Illinois, em 1895. (Railway Times)

Desde então, historiadores trouxeram mais nuances a essa discussão. Lamentando a falha do SP em "adotar um programa específico para a população negra", Ray Ginger via o partido como imobilizado pelo "preconceito de Berger", de um lado, e pela "análise simplista de Debs", de outro. Críticos posteriores, especialmente da Nova Esquerda, citaram declarações de Debs mais frágeis ou descontextualizadas (“Não temos nada de especial a oferecer ao negro, e não podemos fazer apelos separados a todas as raças”) como prova de sua inadequação ou indiferença; outros, porém, reconheceram que Debs estava avançando pessoalmente em direção a uma prática antirracista. Nick Salvatore traçou a evolução da mentalidade racial de Debs, mostrando como ela “mudou ao longo de sua carreira”, passando de uma perspectiva “unidimensional” para — ao final de sua vida — “uma crítica fundamental à própria cultura branca americana”.

Pouco na formação de Debs sugeria que ele se tornaria um oponente da injustiça racial. Essa metamorfose ocorreu lentamente e por meio de lutas materiais.

A narrativa de Gude enriquece imensamente essa discussão ao contrapor as falhas tanto de Debs quanto do SP (Partido Socialista) a uma infinidade de limitações externas e dinâmicas partidárias quase impossíveis de gerir. Utilizando novas fontes e percepções sutis sobre o socialismo negro, a obra de Gude desafia a dicotomia "racista versus apático" proposta por Ginger e revigora as conclusões de Salvatore. Isso é feito ao situar a evolução das ideias de Debs no contexto da política afro-americana e das exigências do SP.

Pouco na criação de Debs — marcada pela segregação racial no sul de Indiana — sugeria que ele se tornaria um defensor da igualdade racial, muito menos um oponente da injustiça racial. Essa transformação ocorreu lentamente, impulsionada por lutas concretas. Já na década de 1890, Debs aproveitou sua posição como presidente da American Railway Union (Sindicato dos Ferroviários Americanos) para contestar a política da entidade que restringia a filiação a brancos — uma atitude motivada talvez por convicção pessoal, mas claramente também por interesses sindicais. Quando alguns delegados defenderam a restrição racial alegando que trabalhadores negros haviam atuado como fura-greves (e afirmaram que o próprio Debs seria enforcado por tal ofensa no Sul), Debs apontou isso como a melhor razão para acolhê-los no sindicato. Seus discursos em defesa da inclusão de negros às vezes refletiam preconceitos comuns à época (ele não "defendia a associação com o negro", por exemplo), e sua proposta inclusiva acabou derrotada por uma margem estreita, mas jornais negros progressistas elogiaram seus esforços.

Embora, em sua fase inicial como socialista, Debs tenha recorrido a generalizações superficiais e defendido uma lógica excessivamente restrita de "prioridade à classe" — como em sua afirmação de 1903: "Não existe um 'problema do negro' separado do problema geral do trabalho" —, Gude deixa poucas dúvidas de que o impetuoso líder de Indiana era "um radical na questão racial para a sua época". Os conservadores raciais dentro do SP certamente "não tinham dificuldade em perceber o radicalismo das posições gerais de Debs", argumenta o autor, o que por vezes o afastava de outros socialistas brancos. E, quando publicações negras da virada do século criticavam Debs, faziam-no "invariavelmente a partir da direita, com uma postura de acomodação ao estilo de Booker T. Washington".

Havia mais por vir. Os frequentes distúrbios raciais, especialmente em sua terra natal, Indiana, levaram Debs a escrever com maior intensidade sobre a “questão racial”. Ele criticou duramente as plataformas estaduais do Partido Socialista (SP) que incluíam cláusulas segregacionistas (do tipo Jim Crow), atacou publicamente a literatura racista popular e recusou-se, de forma notória, a discursar em locais que excluíam afro-americanos. À medida que sua visão de mundo se consolidava, aquilo que Gude chama de “tiques preconceituosos que antes transpareciam em seus discursos” tornaram-se menos frequentes; ele passou a se manifestar de forma mais incisiva, e suas reflexões sobre a questão racial tornaram-se mais sofisticadas.

Debs também aprendeu com a esquerda negra. Um aspecto crucial é que esse engajamento coincidiu com a mudança de postura em relação à abordagem de autoajuda e empreendedorismo de Booker T. Washington — a quem aliados de Debs, como George Washington Woodbey, criticavam duramente, classificando-o como "um bom servidor do capitalismo". Influenciada pelos delegados afro-americanos William Costley (sindicalista da Califórnia) e dois mineiros de carvão de Indiana (John H. Adams e Edward D. McKay), a convenção de fundação do Partido Socialista (SP) em 1901 aprovou uma resolução de seis parágrafos afirmando que os proprietários buscavam fomentar o "ódio racial entre o trabalhador branco e o negro" e "trair o negro em sua atual luta desesperada contra a privação de direitos políticos e a violência".

Identificando o racismo como um dilema nacional que prejudicava a sindicalização e considerando o apoio dos negros essencial para qualquer movimento operário digno desse nome, Debs voltou sua atenção para o Sul. Em uma campanha de organização realizada em 1903 na região do "Dixie", ele esperava "atrair membros de sindicatos e ex-populistas" por meio de apelos inter-raciais baseados na classe social, desafiando as normas regionais. Provavelmente inspirado pela obra *As Almas da Gente Negra* (*The Souls of Black Folk*), de W. E. B. Du Bois, publicada naquele mesmo ano, Debs abordou a questão da identidade branca.

Assim como Du Bois, ele reconhecia a ironia de ver os brancos pobres da região — "eles próprios um produto nefasto do sistema capitalista" — serem "tratados com o mais profundo desprezo pela classe dominante, ao mesmo tempo em que se consideravam imensamente superiores ao negro mais asseado, inteligente e digno". Revendo sua antiga abordagem que ignorava as diferenças raciais (*color-blind*) e suas afirmações anteriores sobre a condição idêntica de trabalhadores assalariados brancos e negros, Debs reconheceu que os trabalhadores negros eram "duplamente escravizados".

A evolução mais acelerada de Debs ocorreu entre meados e o final da década de 1910. Influenciados por ativistas negros e pressionados por mudanças demográficas que levaram trabalhadores negros (e potenciais eleitores) a se estabelecerem em cidades do Norte, os socialistas brancos, de modo geral, passaram a dar mais atenção à questão racial. Tratava-se tanto de uma oportunidade política quanto de uma questão de sinceridade ideológica. Os socialistas já enviaam há algum tempo oradores negros — entre eles Woodbey — a comunidades negras, utilizando uma retórica de emancipação para comparar Debs a John Brown; contudo, eles foram gradualmente incorporando esse progressismo racial à linha oficial do partido. Em 1918, uma nova plataforma do Partido Socialista (SP) condenava o "linchamento por enforcamento e fogo, a ampla privação de direitos políticos e a perda de direitos civis" no Sul, exigindo que a região cumprisse a Décima Quarta Emenda.

Debs continuava a enfatizar a velha ideia de igualdade legal ("O Partido Socialista não faz distinção de cor, credo, sexo ou raça"), mas, ocasionalmente, passou a se envolver nas lutas por direitos civis, mesmo quando parecia ter pouco a ganhar eleitoralmente com isso. Em 1911, ele aderiu a uma campanha pública para salvar da pena de morte Earl Gilchrist, um adolescente negro do Arkansas; quatro anos depois, participou de um piquete de protesto ao lado de moradores negros de Terre Haute contra O Nascimento de uma Nação, o filme de grande sucesso e ideologia supremacista branca dirigido por D. W. Griffith.

Tais esforços receberam elogios de líderes negros, incluindo Du Bois e Ida B. Wells — esta última convidou Debs para discursar em sua *Negro Fellowship League*. Paralelamente, Debs estreitou laços com socialistas negros como Ross D. Brown, Chandler Owen e A. Philip Randolph; este último defendeu o político de Indiana em seu jornal radical, *The Messenger*. A influência crescente desses homens integrou o que Gude descreve como uma "reavaliação sobre a questão racial" mais ampla por parte de Debs, fundamentada em "medidas mais imediatas para combater a opressão racial".

No auge da era Jim Crow, Debs era o único político de âmbito nacional a defender a "eliminação da linha divisória racial".

Gude detalha como o aprendizado de Debs sobre questões raciais perdurou até o fim de sua vida, abrangendo também os elementos culturais da supremacia branca. Em uma de suas últimas colunas, Debs abordou os assassinatos de indígenas da etnia Osage em Oklahoma, condenando as mortes e ridicularizando a ideia do "Fardo do Homem Branco". Ele dedicou suas últimas energias políticas à colaboração com Randolph — um camarada próximo e futuro veterano da luta pelos direitos civis, cuja *Brotherhood of Sleeping Car Porters* (Irmandade dos Carregadores de Vagões-Leito) havia se tornado, segundo Gude, a "encarnação viva do sonho emancipatório de Eugene Debs".

As concepções raciais de Debs não eram isentas de falhas, e sua linguagem por vezes se mostrava problemática, sobretudo no início de sua trajetória socialista. Contudo, como observaram diversos reformadores negros e como Gude sustenta com razão, é inegavelmente significativo que, no auge da era Jim Crow — momento em que cientistas sociais inventavam novas taxonomias raciais, imperialistas ianques proclamavam a "sobrevivência do mais apto" e líderes raciais de destaque pregavam a deferência social —, Debs fosse o único político de âmbito nacional a defender a "eliminação da linha divisória racial".

Os limites da igualdade

Mas, se Debs evoluiu para uma compreensão mais profunda das múltiplas camadas de opressão enfrentadas pelos trabalhadores negros, por que o Partido Socialista não adotou um programa ativamente antirracista? Por que os principais defensores brancos da justiça econômica da época não tentaram organizar trabalhadores negros no local de trabalho, lançando campanhas de organização nos campos do Sul para recrutar mineiros e meeiros (nos moldes do Partido Comunista)? Por que o Partido Socialista, em seus primórdios, não fez campanhas sistemáticas contra o linchamento ou o racismo na habitação, na educação, nos transportes ou no sistema judiciário? A resposta é multifacetada, envolvendo uma combinação de indiferença, erros estratégicos e ideológicos, limitações estruturais e hostilidade aberta.

Primeiro, como Gude ilustra de forma detalhada e dramática, o partido estava perpetuamente dividido entre progressistas e reacionários em questões raciais. As opiniões de Debs representavam uma dessas vertentes, mas ele nunca teve controle absoluto sobre todo o partido ou suas facções rivais (de fato, em 1904, Debs já estava se afastando da formulação de políticas partidárias). Para complicar ainda mais a questão, as posições sobre racismo e antirracismo nem sempre coincidiam perfeitamente com outras divisões entre direita e esquerda dentro do partido. Por exemplo, o ativista do Partido Socialista William English Walling ajudou a fundar a Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP), mas acabou apoiando o envolvimento dos EUA na Primeira Guerra Mundial.

Além disso, mesmo progressistas como Debs falharam em grande parte — especialmente na primeira década do partido — em articular como as reformas socialistas minariam o racismo, talvez encarando o confronto direto com as leis de segregação racial (Jim Crow) como aquilo que Gude chama de "um desvio da batalha fundamental dos socialistas". As próprias declarações de Debs nessa época revelaram-se contraditórias. Ele falava sobre a opressão cumulativa daqueles "duplamente escravizados", apenas para afirmar, de forma equivocada, que "quando a classe trabalhadora triunfasse na luta de classes... o problema racial desapareceria".

Gude sugere que o "espírito de Debs" nunca teve tanta relevância quanto na nossa atual "Nova Era Dourada" (New Gilded Age).

Havia também limitações práticas internas ao partido. Os socialistas formavam um partido pequeno e com poucos recursos financeiros, e muitos membros consideravam inviáveis ​​as campanhas de organização, por serem dispendiosas e potencialmente perigosas. Da mesma forma, Debs atraía públicos esmagadoramente brancos, o que tornava sua mensagem de igualdade notável, mas também lhe impunha limites práticos. O partido dependia de recursos financeiros e do apoio de supremacistas brancos convictos, cuja presença era constante em sua ampla coalizão (ainda em 1912, ano em que o Partido Socialista atingiu o auge de seu número de membros pagantes, a convenção apresentou um relatório argumentando que o racismo “não é tanto resultado da evolução social, mas sim da biológica”).

Faixa da chapa presidencial do Partido Socialista da América de 1904: Eugene V. Debs para presidente e Ben Hanford para vice-presidente. (Bettmann / Getty Images)

Talvez o aspecto mais crítico seja que as condições sociais e culturais mais amplas eram distintas — e representavam um desafio maior para a organização multirracial — durante o auge da influência de Debs. Nas duas primeiras décadas do século XX, socialistas com visão progressista sobre a questão racial, ao lidarem com o "problema racial" em uma nação que se afastava rapidamente da igualdade racial, enfrentavam uma maré crescente de adversidades. Em muitos aspectos, segundo Gude, "o espaço para a organização havia se fechado à medida que o laço de Jim Crow apertava". A grande tragédia do socialismo inicial é que o antirracismo pessoal de Debs nunca se traduziu em um movimento concreto para recrutar trabalhadores negros dentro do SP.

Um homem em evolução

Eugene Debs era, como o abolicionista Horace Greeley certa vez descreveu Abe Lincoln, um "homem em evolução". Mais do que biógrafos anteriores, Gude evidencia como Debs nunca parou de aprender, de aprimorar sua perspectiva socialista ou de recalibrar e ampliar sua concepção de solidariedade. Desde as difíceis concessões na ARU até a cofundação da IWW e a reflexão sobre a criação de um "Partido Trabalhista Americano", Debs manteve uma busca incessante pela melhor forma de empoderar os trabalhadores e conquistar o socialismo.

American Socialist destaca de forma eloquente essa formação política contínua. À medida que o socialismo inseria Debs em um movimento global, ele evoluiu de um democrata que apoiava a exclusão de imigrantes como solução para a concorrência trabalhista para um internacionalista convicto, que defendia a organização dos trabalhadores no exterior e insistia que os trabalhadores dos EUA tinham muito mais em comum com os trabalhadores de outros países do que com suas próprias elites. Com base em sua experiência pessoal, Debs também se tornou um crítico ferrenho do Estado penal, considerando as prisões uma forma de "tortura" em vez de reabilitação. E, embora sempre tenha apoiado o sufrágio feminino, suas visões sobre gênero e suas alianças também se radicalizaram com o tempo. Segundo Gude, Debs estava sempre "encontrando outra injustiça contra a qual se insurgir" e "nunca parecia ver uma sem imediatamente se dedicar a combatê-la".

Gude evidencia como Debs nunca parou de aprender, de aprimorar sua perspectiva socialista ou de recalibrar e ampliar sua concepção de solidariedade.

Essa transformação flexível significava que Debs assumia diversos papéis — muitas vezes simultaneamente: o de humanista cuja política era impregnada de simbolismo cristão; o de cidadão do mundo que apresentava o socialismo como algo totalmente compatível com as tradições políticas americanas; e o de defensor da igualdade racial, cujas palavras e propostas políticas frequentemente ficavam aquém de seus ideais, mesmo enquanto ele avançava em direção ao antirracismo — um tema que constitui um dos aspectos mais fascinantes do livro.

De fato, a atenção de Gude à questão racial — em comparação com biógrafos anteriores — evidencia como a esquerda há muito se debate com a relação precisa entre racismo e capitalismo, inclusive sobre como promover um antirracismo baseado na luta de classes em momentos de declínio relativo. Assim como na época de Debs, os trabalhadores dos EUA hoje — exauridos por custos crescentes e cargas de trabalho esmagadoras, disciplinados por discursos de escassez e vigilância tecnoautoritária, e isolados pelo trabalho remoto e pela "gig economy" — parecem, por vezes, fragmentados de forma quase irremediável. Os proprietários utilizam questões religiosas, geracionais e migratórias para colocar diferentes blocos de trabalhadores uns contra os outros. Políticos e elites midiáticas exploram diversas identidades para subverter debates sobre desigualdade, direitos trabalhistas e redistribuição material. Paralelamente, alternativas não reacionárias — incluindo um "antirracismo" liberal facilmente mercantilizável — agravam o problema ao ignorar a política de classes, eximir o capital de responsabilidade e reduzir o racismo a uma questão de atitudes individuais ou representação cultural. A trajetória de Debs, narrada com maestria por Gude, expõe os desafios da organização multirracial em um cenário de propaganda antissindical e de fragilidade do poder estrutural dos trabalhadores.

O livro de Gude destina-se a todos que reconhecem que o capitalismo está falhando em cumprir sua promessa de liberdade.

Embora trace o legado de Debs desde a formação do Congress of Industrial Organizations (CIO) e da Highlander Folk School até a oposição de Martin Luther King Jr. à Guerra do Vietnã, Gude sugere que o "espírito debseano" nunca teve tanta relevância quanto na nossa atual "Nova Era Dourada" (New Gilded Age). É importante ressaltar, portanto, que esta obra cativante não se dirige apenas a socialistas, mas também àqueles que, confrontados com as injustiças atuais, identificam-se com a consciência em expansão e o senso de indignação de Debs. O livro é para qualquer crítico emergente de nossa economia profundamente antidemocrática — um sistema manipulado em favor dos ultrarricos, enquanto a maioria, aparentemente impotente, definha sob a exploração e em meio a sistemas de habitação, educação e saúde inacessíveis e ineficientes. Destina-se a todos que reconhecem que o capitalismo está falhando em cumprir sua promessa de liberdade.

Em seu melhor momento, a política de Debs foi incansável em minar o que Gude chama de “todas as formas de poder irresponsável — dos ricos sobre os pobres, dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros, dos colonizadores sobre os colonizados — como algo nocivo à liberdade humana”. Uma leitura fascinante e envolvente, American Socialist é uma ferramenta valiosa para quem busca conquistar um mundo onde esse tipo de liberdade reine soberano.

Colaborador

Matthew E. Stanley leciona no Departamento de História da Universidade do Arkansas.

13 de outubro de 2026

Por que é uma má ideia seguir o modelo econômico de Milei, inspiração de Flávio Bolsonaro

Com nível recorde de inadimplência das famílias, queda do consumo e do investimento, PIB está em rota de contração

Redução da inflação (ainda acima de 30% ao ano) foi acompanhada de graves restrições, e país é cliente dos EUA

Laura Carvalho
Professora da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP e pesquisadora associada do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). Autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico"

Martin Guzman
Professor da Universidade Columbia e da Universidad Nacional de La Plata. Ex-ministro da Economia da Argentina (2019-2022)

Joseph E. Stiglitz
Professor da Universidade Columbia e vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2001. Autor, entre outros livros, de "Globalization and Its Discontents", "Globalização: Como Dar Certo" e "Povo, Poder e Lucro"

[RESUMO] O experimento econômico de Javier Milei, assentado em corte de gastos, corrosão de aposentadorias e salários pela inflação e alto endividamento externo, fracassou e nem sequer é replicável no Brasil, sustentam os autores, ao contrário da ideia de modelo para o país defendida pelo campo bolsonarista.

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A eleição presidencial brasileira vai ser decidida no segundo turno. Flávio Bolsonaro (PL), filho do desmoralizado Jair Bolsonaro, terminou o primeiro turno à frente do presidente Lula (PT), mas nenhum obteve a maioria necessária para vencer nessa etapa.

O campo bolsonarista apresenta o programa econômico de Javier Milei como modelo para o Brasil. Isso, no entanto, ignora tanto as circunstâncias que levaram o presidente da Argentina ao poder quanto os resultados alcançados pelas suas políticas.

Flávio Bolsonaro (dir.) segura uma tesoura ao lado de Javier Milei na convenção do PL, em São Paulo - Nelson Almeida - 25.jul.26/AFP

Quando os argentinos elegeram Milei, o problema mais urgente do país era a inflação, que chegou a 211% em 2023. A inflação brasileira, em contraste, está em torno de 4,6%, embora os juros extremamente elevados intensifiquem as pressões fiscais.

A prioridade imediata da política econômica do governo Lula é elevar a renda real dos trabalhadores e criar empregos de melhor qualidade, além de reduzir os juros o suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB e abrir espaço para um aumento sustentado do investimento, o que ampliaria a capacidade produtiva e permitiria que o crescimento continuasse ou se acelerasse sem pressionar a inflação.

O que Milei realmente fez? O seu programa econômico se apoiou em três pilares. O primeiro era a eliminação rápida do déficit primário para acabar com o financiamento inflacionário do Tesouro pelo Banco Central. Isso foi alcançado principalmente por meio do corte de gastos com infraestrutura, ciência e universidades públicas e da corrosão, pela inflação, do valor real das aposentadorias e dos salários do setor público. O governo também reduziu os impostos dos mais ricos e ofereceu benefícios fiscais generosos a grandes investimentos, sobretudo no setor de commodities.

A estratégia de Milei de deixar a inflação corroer o valor real dos gastos públicos nem sequer é replicável em um ambiente de inflação baixa como o brasileiro. Além disso, diferentemente da Argentina, a falta de espaço fiscal no Brasil decorre quase inteiramente do custo muito elevado do serviço da dívida, próximo de 9% do PIB, devido aos juros reais nas alturas, não ao resultado primário.

Em seguida, veio a taxa de câmbio, que o governo administrou como a principal arma contra a inflação. Por fim, a promessa de Milei de desmantelar o Estado por meio de corte de gastos e de uma desregulamentação ampla. Como costuma acontecer com Milei, a retórica superou em muito a realidade.

Essas políticas deveriam acabar com a inflação. Milei prometeu que a taxa mensal começaria com zero em meados de 2026, o que significa que ficaria abaixo de 1%. O investimento, por sua vez, deveria disparar e "tornar a Argentina grande de novo". Esse slogan se apoia no mito nostálgico de que as exportações de grãos e de carne bovina no fim do século 19 teriam transformado o país em uma potência econômica.

O governo Milei, contudo, superestimou a velocidade da queda da inflação e subestimou os danos que as políticas infligiriam à economia e ao mercado de trabalho. A inflação recuou, embora esteja longe de zero: a taxa acumulada em 12 meses é de 33,5% e há dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo atual a médio prazo.

A queda da inflação foi possibilitada, em parte, por um câmbio mais valorizado, que, por sua vez, depende do financiamento externo, incluindo um novo empréstimo do FMI (Fundo Monetário Internacional) obtido sem apoio político amplo. Somando-se o novo empréstimo ao valor recorde tomado do FMI em 2018 e 2019, a Argentina deve hoje US$ 57 bilhões, montante que não vai conseguir pagar no cronograma atual, o que deixará o país dependente do fundo por muitos anos.

A população argentina pagou caro pelo experimento de Milei. Os salários reais caíram quase 8% desde que ele assumiu o cargo, enquanto o desemprego subiu de 5,7% para 7,9%. A informalidade aumentou à medida que trabalhadores desempregados assumiram postos de baixa remuneração no setor de serviços.

A queda da renda real tem deixado um número cada vez maior de famílias com dificuldade para pagar as dívidas. A inadimplência atingiu níveis recordes: 12,8% dos empréstimos bancários às famílias estão em atraso, ante 4,5% um ano antes. Isso equivale a 6 milhões de argentinos —mais de um quarto de todos os tomadores de crédito— e expressa, de longe, o maior nível de aperto financeiro das famílias desde que o Banco Central começou a compilar esses dados.

O consumo e o investimento também estão caindo. O investimento recuou 11,1% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior —um mau presságio para o futuro do país. Com a queda rápida do crédito em termos reais, o setor financeiro está se retraindo. Tudo isso apesar de termos de troca excepcionalmente favoráveis.

Não surpreende, portanto, que a economia tenha começado a encolher. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre em comparação com o primeiro, e a atividade econômica recuou 2,9% em julho em relação ao mês anterior, o que levou o JPMorgan a revisar para baixo a projeção de crescimento deste ano do país. Espera-se uma nova contração do PIB no terceiro trimestre, o que colocaria a Argentina, apesar das promessas de Milei, em recessão técnica.

A fragilidade do modelo Milei ficou exposta em 2025, quando o país sofreu duas corridas contra o peso. Em ambas, o governo precisou ser socorrido. Na primeira, em abril, o FMI entrou em cena com um empréstimo de US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões já foram desembolsados. A segunda ocorreu nas semanas que antecederam as eleições legislativas de outubro, quando o Tesouro dos Estados Unidos interveio para sustentar o câmbio.

Sem o socorro externo, o peso teria se desvalorizado e a inflação teria voltado a subir. Essas intervenções tiveram um preço elevado, tanto em novos compromissos financeiros internacionais quanto em política externa. Agora dependente do apoio americano para evitar uma disparada da inflação, a Argentina se tornou, na prática, um Estado cliente dos EUA, que, sob Donald Trump, vêm usando regularmente o seu poder econômico para promover os próprios interesses sem consideração pelo direito ou pelas normas internacionais.

O experimento de Milei fracassou. O seu único êxito parcial, a redução da inflação, teve um custo enorme: o sistema produtivo argentino está mais pobre, os trabalhadores têm menos oportunidades e o setor público, ainda mais endividado com o FMI que quando Milei assumiu o cargo, depende perigosamente de apoio externo para sustentar o peso.

O Brasil não recorre ao FMI desde que quitou integralmente a sua dívida, em 2005. Isso conferiu ao país uma independência econômica considerável, que deve ser preservada e fortalecida.

O Brasil e a Argentina, os dois maiores membros do Mercosul, deveriam ter ambições maiores que as oferecidas pelo modelo de Milei. A eleição presidencial brasileira opõe dois futuros econômicos muito diferentes. Um busca uma economia mais desenvolvida, com uma base produtiva mais diversificada, inovadora e rica. O outro aponta para uma dependência maior de commodities, um mercado interno em retração e a condição de Estado cliente dos EUA.

O que está em jogo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro não é só a democracia brasileira, mas também a prosperidade econômica que o país tanto trabalhou para conquistar.

12 de outubro de 2026

Robert Kramer é o grande cineasta esquecido da Nova Esquerda

Os filmes de Robert Kramer retrataram a Nova Esquerda a partir de dentro, desde o seu início promissor até o seu doloroso desmantelamento. Ele caiu no esquecimento, em grande parte, porque sua obra era de difícil acesso. Nesta nova era de volatilidade política, ele merece ser redescoberto.

Whitney Strub


Poucos cineastas da década de 1960 foram tão admirados tanto por radicais quanto por críticos quanto Robert Kramer. (IMDb)

Quando o filme The Edge (1968), de Robert Kramer, chegou a Los Angeles, seu anúncio no jornal Free Press lançava uma pergunta provocativa: "Devemos matar o presidente?" E, embora Lyndon Johnson tenha sobrevivido ao aspirante a assassino alienado daquele filme, a obra seguinte de Kramer não deixou dúvidas sobre sua posição. Ice, filmado no início de 1969 e lançado no final de 1970, imaginava uma insurreição armada de esquerda na cidade de Nova York, adotando o estilo documental impactante de A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo, e trazendo a guerra para dentro da "Big Apple". Ver os revolucionários de Kramer circulando pelo Grand Central Terminal, pelo Aeroporto JFK, pela Universidade de Nova York e por outros locais reconhecíveis, enquanto tentam criar uma Frente de Libertação Nacional tipicamente americana, é uma visão inquietantemente fascinante em 2026. É impossível não pensar em Luigi Mangione, ou em Elias Rodriguez, ou talvez no 6 de janeiro, ou na morte do sonho revolucionário dos anos 60.

Kramer, nascido em 1939 e falecido em 1999, foi, quase indiscutivelmente, o cineasta fundamental da Nova Esquerda americana. Ele desempenhou um papel central na formação do Newsreel — o coletivo de documentários de agitprop que forjou a estética da Nova Esquerda — e suas conexões políticas abrangiam desde o Students for a Democratic Society (SDS) e o Weather Underground até comunas armadas em Vermont e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Enquanto seu contemporâneo mais próximo, Haskell Wexler, filmava o caos da Convenção Nacional Democrata de 1968, Kramer era preso no local por tentar espalhar esferas com pontas nas vias para dificultar a ação policial — fato que contribuiu para incluí-lo na lista de subversivos perigosos monitorados pelo FBI. Seus filmes, de caráter resolutamente independente, retrataram a Nova Esquerda a partir de seu interior e constituem seu legado cinematográfico mais coeso.

No entanto, Kramer permanece um tanto desconhecido. Ele é mais lembrado na França, onde o grupo da Cahiers du Cinéma o acolheu logo cedo, destacando-o na capa de outubro de 1968 entre os "quatro americanos" (Quatre Américains) na vanguarda do cinema independente dos EUA, ao lado de John Cassavetes, Andy Warhol e Shirley Clarke. Kramer mudou-se para lá no final da década de 1970, permaneceu no país até sua morte e sempre manteve visibilidade na cultura cinematográfica nacional. Em sua terra natal, no entanto, ele é, no máximo, um diretor cult, conhecido quase exclusivamente por aquele tipo de cinéfilo que frequenta cinemas de repertório e as seções de filmes obscuros do Letterboxd.

Os filmes de Kramer, resolutamente independentes, retrataram a Nova Esquerda a partir de dentro e oferecem o seu legado cinematográfico mais coeso.

É tentador atribuir a quase invisibilidade de Kramer à repressão política — da qual, naturalmente, houve muita. No entanto, após passar vários anos pesquisando sua vida e obra para meu novo livro, Films That Explode Like Grenades: Robert Kramer and the Search for a Radical Cinema, cheguei a uma conclusão um tanto mais materialista: Kramer caiu no esquecimento nos Estados Unidos porque, durante várias décadas, praticamente nenhuma de suas obras estava facilmente acessível ao público.

O mercado de home video das décadas de 1980 e 1990 o ignorou quase por completo e, mesmo agora, na era do streaming e dos torrents, muitas de suas obras continuam difíceis de encontrar. Mas tenho a esperança de que estejamos prestes a vivenciar um renascimento de Kramer. À medida que as contradições da política americana se acirram e suas tensões internas se intensificam, as explorações de Kramer sobre o radicalismo raramente pareceram tão pertinentes.

A formação de um radical

Robert Kramer cresceu na Park Avenue, no centro de Manhattan, filho único de um pai médico altamente talentoso e de uma mãe igualmente respeitada, designer têxtil e colecionadora de arte, ambos de famílias que fugiram da Europa Oriental na diáspora judaica. Seu pai, Milton, foi um dos primeiros médicos enviados a Hiroshima após a bomba atômica. Ele nunca discutiu os horrores que testemunhou, e Robert cresceu num casulo de riqueza e alienação.

Ele frequentou Swarthmore, graduando-se em 1961, pouco antes de a Nova Esquerda chegar em massa lá. Consequentemente, em vez de se juntar à sua organização inicial, ele passou os seus anos pós-universitários como aspirante a romancista, trabalhando num gigantesco livro modernista que os seus amigos acharam pesado. Ele foi aceito no programa de doutorado em história de Stanford e desistiu imediatamente. Seu principal relacionamento romântico, com a ceramista Jane Doubilet, muitas vezes parecia movido pela inércia e pelo tédio, e depois de se casarem infelizes, eles viajaram com o dinheiro da família para evitar o confronto com a insatisfação mútua. Enquanto estavam na América do Sul em 1965, seu pai morreu de hemorragia cerebral aos 58 anos.

Só então Kramer mergulhou tanto no cinema como na esquerda, usando ambos como trampolim para sair do seu mal-estar. O seu amigo de infância Peter Gessner, filho do pioneiro dos estudos cinematográficos Robert Gessner, trabalhava numa pequena unidade de produção liderada por exilados de Hollywood na lista negra quando receberam imagens contrabandeadas para fora da Venezuela por revolucionários das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN). Gessner convidou Kramer para colaborar. A curta de meia hora resultante, FALN (1965), foi uma estreia simples e pouco auspiciosa – excepto pelo facto impressionante de endossar a violência revolucionária contra um Estado fantoche apoiado pelos EUA.

A essa altura, Kramer havia encontrado o SDS. A principal organização da Nova Esquerda estava a tentar ir além da sua base predominantemente branca no campus universitário, organizando-se em áreas urbanas negras e forjando aquilo que um documento estratégico chamava “um movimento inter-racial dos pobres” baseado em novas formas de solidariedade popular. Os principais planejadores, Carl Wittman e Tom Hayden, mudaram-se para Newark, Nova Jersey, e sua presença e a proximidade com a capital da mídia, Nova York, fizeram da cidade o ponto culminante do projeto nacional.

Kramer era individualista demais para ser um forte organizador comunitário, mas mesmo assim era um orador fotogênico, carismático e autoritário. Quando o documentário Troublemakers (1966) narrou o Newark Community Union Project (NCUP), Hayden apareceu como um líder claro, mas Kramer trouxe a frieza na tela em suas aparições esporádicas, agitando um cigarro enquanto lançava dúvidas sobre o trabalho dentro dos sistemas existentes, pensando claramente nas FALN armadas ao declarar: “Minha vida inteira foi gasta tentando descobrir o quão fedorento é o sistema político, e eu realmente não entendo como, de repente, vamos intervir e mudar isso.” O NCUP se concentrou principalmente na organização em nível de bloco, mas Kramer apareceu como um radical moderno pronto para a revolução. Um conhecido dessa época relembrou-o como “como todos nós imaginávamos que On the Road seria, sempre de óculos escuros e jaquetas de couro, parecendo um boêmio furioso”.

Kramer era individualista demais para ser um organizador comunitário de peso, mas, ainda assim, era um orador fotogênico, carismático e de presença marcante.

Ele não ficou muito tempo em Newark e partiu antes que a cidade explodisse na infame rebelião de junho de 1967. Mas Troublemakers deixou sua marca, capturando a Nova Esquerda em um momento de transição, quando o movimento começava a questionar as limitações da democracia participativa e a simpatizar com a ideia de uma intervenção mais radical — com Kramer personificando essa mudança de rumo no filme. Stokely Carmichael, então presidente do Comitê Coordenador Estudantil Não Violento (SNCC), apoiou o filme, e o empresário do cinema underground Jonas Mekas o descreveu como o "único filme americano que conheço que prega a revolução". Embora tivesse desempenhado um papel periférico no próprio NCUP, Kramer viu-se subitamente no centro da cultura cinematográfica da Nova Esquerda.

O cinema do aceleracionismo

Os diretores de Troublemakers, Robert Machover e Norman Fruchter, tornaram-se sua equipe para um longa-metragem minimalista: In the Country (1967). O filme narra a história de um casal exausto pela militância de esquerda que se retira para uma casa de campo e se envolve em recriminações constantes à medida que seu relacionamento amoroso se desintegra. Influenciada pelo estilo do cinema de arte europeu, a obra marcou uma estreia na direção ousada, ainda que um tanto indulgente (e apresentou o ator William Devane ao público); embora tenha passado praticamente despercebido, o filme serviu como um laboratório útil para The Edge.

O segundo longa de Kramer — no qual um jovem esquerdista anuncia seu plano de matar LBJ e seus amigos reagem com indiferença — foi mais uma dissecação do que ele via como a catatonia e a paralisia da Esquerda, concebida como uma autocrítica interna. O assassinato presidencial oferecia um gancho atraente, mas The Edge recusava-se terminantemente a oferecer emoções fáceis, confrontando, em vez disso, um movimento que Kramer considerava estagnado. Leitor voraz — devorando obras de Frantz Fanon, Malcolm X, Régis Debray e outros teóricos radicais da época —, Kramer era inegavelmente suscetível a visões românticas e aventureiras; ele constantemente comparava a Nova Esquerda americana aos movimentos revolucionários anticoloniais que varriam o Sul Global, julgando-a insuficientemente engajada. Nada menos que uma revolução poderia acabar com a Guerra do Vietnã ou derrubar as hipocrisias vazias do cotidiano americano. Sem um verdadeiro desenvolvimento dramático ou clímax, a alegorização da insatisfação de Kramer em The Edge certamente frustrou quem buscava um thriller político; no entanto, foram justamente essas tensões contidas e não resolvidas que levaram à sua aclamação pela revista Cahiers. Nada menos que Jacques Rivette, pioneiro da Nouvelle Vague francesa, apontou-o como seu filme favorito daquele ano.

Apesar de toda essa trajetória inicial, foram Newsreel e Ice que projetaram Kramer para a vanguarda do cinema radical internacional. O coletivo Newsreel, formado no início de 1968 por um grupo ad hoc de cineastas experimentais e de esquerda, tornou-se imediatamente a ala documental de fato da Nova Esquerda. O grupo produziu curtas viscerais sobre a ocupação estudantil da Universidade de Columbia, protestos contra a guerra, o Partido dos Panteras Negras, entre outros temas. O próprio Kramer viajou ao Vietnã do Norte com uma delegação do SDS para buscar três prisioneiros de guerra libertados e realizar um filme com a participação de Ho Chi Minh. Quando o líder adoeceu, a equipe de Kramer filmou, em vez disso, escolas em vilarejos e treinamentos de autodefesa. Ao retornarem, a alfândega dos EUA confiscou as filmagens, liberando-as apenas depois que a equipe do Newsreel contestou a medida na justiça. O filme resultante, People’s War (1969), tornou-se imediatamente uma obra de referência do cinema anti-imperialista norte-americano, um hino à perseverança do povo vietnamita.

Ice indexou as correntes radicais de 1969 quando o SDS implodiu e a política democrática de massas deu lugar a táticas vanguardistas.

O estilo do Newsreel — fragmentado e com a granulação típica da película de 16mm — contrastava deliberadamente com o acabamento asséptico da grande mídia. Kramer atuava frequentemente como um porta-voz de frases marcantes, declarando à Film Quarterly que o Newsreel buscava "fazer filmes que perturbassem, que abalassem certezas, que ameaçassem; filmes que não tentassem convencer de forma branda, mas que — num ideal impossível — explodissem como granadas na cara das pessoas ou abrissem suas mentes como um bom abridor de latas". Eles não buscavam diálogo ou debate, explicou Kramer. "Buscamos o confronto", disse ele. "Preferimos a repulsa, a discordância violenta, a constatação dolorosa, os choques — tudo isso em vez daquela concordância passiva e lenta típica dos liberais."

Foi isso que ele tentou fazer com Ice, um filme cujo impacto duradouro deriva, em parte, de suas contradições desconcertantes. Trata-se, inequivocamente, de uma obra de apoio à revolução. Começando com um comunicado do Comitê Nacional de Organizações Revolucionárias Independentes, o filme acompanha os esforços de "brancos urbanos cuja tarefa deve ser a luta armada" para se unirem a uma vanguarda que inclui o Exército do Povo Negro e a Frente Revolucionária Mexicana. A câmera frenética na mão (operada por Machover, de Troublemakers e dos dois filmes anteriores de Kramer) confere uma energia nervosa e inquieta, ocasionalmente liberada por meio de fugas da prisão, assassinatos e a invasão de um prédio de apartamentos de classe média alta, onde os moradores são obrigados, sob a mira de armas, a assistir a propagandas no estilo do Newsreel.

Apesar de tudo isso, Kramer evita o tipo de espetáculo arrebatador que tem sido central no cinema de esquerda desde que Sergei Eisenstein começou a explorar a montagem; a violência em Ice (que inclui a castração do personagem que atua como tradutor do próprio Kramer) não é catártica nem triunfante, mas sim crua e brutal. Se, por um lado, o enredo traça uma curva de tensão crescente, a atmosfera mantém a frieza inquietante de The Edge: personagens comprometidos com a insurreição, porém totalmente incapazes de se relacionar uns com os outros, deixando Ice — fiel ao seu título — congelado em um limbo revolucionário, preso entre a euforia da insurreição e o abismo existencial da alienação pessoal capitalista. Apesar de toda a bravata de "avançar contra as barricadas" presente em suas declarações públicas, Kramer mostrou-se mais dialético do que didático por trás das câmeras; ele recusou os prazeres gratificantes de uma propaganda política mais triunfalista e, em vez disso, forçou o espectador a confrontar a deliberada falta de resolução do filme — aspecto que, justamente, confere a Ice seu impacto perturbador e duradouro.

Essa abordagem também permitiu a Kramer manter duas posições simultâneas: mais do que qualquer outro filme, Ice registrou as correntes radicais de 1969, momento em que o SDS implodia e a política democrática de massas dava lugar às táticas vanguardistas do Weather Underground — cujas ações explosivas, em alguns casos, ecoavam cenas do filme (havendo, inclusive, membros do elenco que se juntaram ao grupo). No entanto, por mais que o próprio Kramer apoiasse o Weather Underground — chegando a ter um breve relacionamento com a líder Bernardine Dohrn no auge da notoriedade dela na lista de fugitivos mais procurados pelo FBI —, Ice também previu o fracasso do grupo. Para Kramer, tal fracasso decorria mais das relações sociais frias no seio da Esquerda do que da guinada para um ultrarradicalismo fadado ao insucesso em si; ainda assim, isso faz de Ice um artefato singularmente assombrado e assombroso de um momento que foi, simultaneamente, o apogeu e o ponto mais baixo da vertente revolucionária da Nova Esquerda.

Após o sonho revolucionário

Ice levou mais de um ano para chegar às telas, principalmente devido a debates internos sobre sua orientação política no coletivo Newsreel, que acabou recusando-se a distribuí-lo. Assim, um filme que previu o Weather Underground acabou parecendo segui-lo. Mesmo assim, quando chegou ao público em 1970, causou comoção em Cannes, foi amplamente visto e debatido pela esquerda americana e ajudou a impulsionar a revista Cahiers a um frenesi teórico militante que durou toda a meia década seguinte. Robert Kramer havia se tornado a face do cinema radical americano.

Kramer levou meia década para concluir outro filme; nesse período, passou um tempo em Vermont com o Red Clover Collective, uma comuna armada que não conseguiu inspirar uma revolta semelhante à retratada em Ice. Após o colapso do SDS e a ofensiva liderada pelo COINTELPRO contra o radicalismo negro, a esquerda do início dos anos 70 ramificou-se em diversas direções de impactos variados. De um lado, houve o florescimento dos movimentos de libertação gay e feminina, do Movimento dos Índios Americanos, do feminismo negro e de outras vozes anteriormente marginalizadas, mesmo dentro dos círculos radicais; de outro, surgiram os excessos e vexames de organizações sectárias marginais, como o Exército Simbionês de Libertação, que azedaram a opinião pública em relação à política radical.

O cenário da comuna de Vermont abarcava todas essas tendências. Kramer estava próximo de um coletivo de mecânica automotiva liderado por mulheres (o Free Garage), da rota de fuga clandestina para o Canadá destinada a quem se recusava a servir o exército, e da organização eleitoral regional da qual emergiu a carreira política inicial de Bernie Sanders. Seu principal interesse na época, contudo, continuava sendo a revolução, que ele e muitos outros ainda consideravam iminente. O Red Clover acumulava armas, distribuía panfletos em escolas de ensino médio locais, encenava peças de teatro de rua com caráter de agitação e propaganda (agitprop) e, apenas lenta e dolorosamente, começou a encarar o fato inegável de que haviam feito um cálculo equivocado.

Isso foi devastador para Kramer; Milestones, codirigido com o colega do Newsreel John Douglas, surgiu em 1975 como uma tentativa de compreender o novo contexto, oferecendo um panorama abrangente da vida após o que eles viam como "O Movimento" (uma unidade que muitos daqueles grupos marginalizados já questionavam há muito tempo). Ao acompanhar dezenas de ex-integrantes da Nova Esquerda em sua busca por fundamentos para novas formas de resistência, as três horas de Milestones constituem uma das análises mais profundas — já vistas nas telas da década de 1970 — sobre as próprias condições de possibilidade de uma esquerda norte-americana. O filme, um longa-metragem narrativo rodado em um estilo semidocumental muitas vezes improvisado, capturou de forma deslumbrante a beleza natural dos Estados Unidos — do Novo México e Colorado até Vermont —, mas associou essas observações a reflexões sobre a história de exploração racial e aniquilação do país. O título foi inspirado em um poema escrito por Ho Chi Minh na prisão e, como sempre, Kramer ofereceu menos respostas do que indagações em aberto. No entanto, o humanismo vibrante do filme — que guarda certa semelhança com Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (1976), a meditação franco-suíça da mesma época de Alain Tanner sobre os ecos da década de 1960 — marcou uma mudança de rumo para o diretor, certamente influenciada por seu codiretor, Douglas. Embora o público norte-americano tenha ignorado Milestones em grande parte, o filme foi uma das obras mais aclamadas pela crítica francesa na década de 1970.

Os legados e os desdobramentos da Nova Esquerda revelaram-se um fio condutor recorrente na obra de Kramer.

Se Kramer via o espírito de 1968 se esvair em casa, ele acreditava vislumbrá-lo em outros lugares. A Revolução dos Cravos em Portugal, que derrubou o regime fascista mais duradouro do mundo, teve início em 1974; quando Kramer levou o filme Milestones a Cannes no ano seguinte, fez uma escala e encontrou uma atmosfera eletrizante. Acompanhado pelo amigo Phil Spinelli, ele retornou ao país munido de uma câmera e com um orçamento quase inexistente. O filme resultante, Scenes from the Class Struggle in Portugal, busca capturar aquela euforia inicial — mas acaba encontrando uma revolução que já estava sendo suplantada por um neoliberalismo incipiente. Kramer então se aventurou por Angola, que havia triunfado recentemente em sua própria luta anticolonial contra Portugal, na esperança de realizar um filme — mas logo contraiu malária e voltou para casa. De volta a São Francisco, onde passou a maior parte da década de 1970, ele reduziu suas ambições e começou a trabalhar em um livro de fotojornalismo com uma pequena editora de esquerda.

O final da década de 1970 revelou-se uma decepção avassaladora para Kramer, tanto no âmbito pessoal quanto no político. O sonho dos anos 60 parecia morto, e seu trabalho era ignorado nos Estados Unidos, apesar de contar com defensores de peso, como o crítico do New York Times, Vincent Canby. Ele chegou a cogitar um acordo em Hollywood e, posteriormente, a trabalhar na equipe técnica de cineastas como Jean-Luc Godard e Francis Ford Coppola, mas nada se concretizou. Em vez disso, mudou-se para Paris com sua companheira, Erika, e a filha do casal, Keja, passando a produzir obras menores, voltadas para o circuito de cinema de arte, e integrando uma rede de exilados que incluía outros cineastas itinerantes, como Chris Marker e Raúl Ruiz.

Algumas das aventuras de Kramer foram bem-sucedidas, como o filme cru e impactante Notre nazi (1984) — um documentário realizado nos bastidores de uma produção experimental estrelada por um ex-oficial da SS responsável por assassinatos. Outras não vingaram, como ocorreu com sua única tentativa de alcançar o grande público: o filme de ficção científica pós-apocalíptica Diesel (1985), que fracassou merecidamente. No entanto, os legados e os desdobramentos da Nova Esquerda mostraram-se um fio condutor recorrente na obra de Kramer. Um exemplo foi o drama sobre a relação entre pai e filho Doc’s Kingdom (1987), que reuniu o astro de Ice, Paul McIsaac, e um jovem Vincent Gallo na costa portuguesa. Outro foi Route One/USA (1989), uma viagem de quatro horas pela costa leste, do Maine a Key West, às vésperas da eleição presidencial de 1988; o filme revela uma nação assombrada por muitas coisas, incluindo os vestígios meramente espectrais de uma esquerda popular, vibrante e esperançosa.

Quando uma infecção súbita por meningite tirou a vida de Kramer, logo após ele completar sessenta anos, ele já havia abandonado há muito tempo a política incendiária de sua juventude, mas nunca deixou de questionar seus desdobramentos — ou, aliás, a própria natureza do cinema político. O último longa-metragem que ele concluiu, Walk the Walk (1996), tirou seu título de um antigo slogan dos Panteras Negras: "Se você fala, é bom que aja de acordo" (If you talk the talk, you’d better walk the walk), conforme Kramer se lembrava da frase. Ele tinha seus defeitos e, em meu livro Films That Explode Like Grenades: Robert Kramer and the Search for a Radical Cinema, não poupo críticas a eles. Mas, independentemente das críticas que possamos e devamos fazer — e Kramer, que amava contradições, também as encarnava profundamente —, nenhum outro artista tem um direito tão legítimo ao título de cineasta emblemático da Nova Esquerda dos EUA.

Colaborador

Whitney Strub é autora de Perversion for Profit: The Politics of Pornography and the Rise of the New Right. Ele ensina história na Rutgers University-Newark e é um orgulhoso membro da Rutgers AAUP-AFT e dos Socialistas Democráticos da América do Norte de Nova Jersey.

11 de outubro de 2026

Fraturas do sistema

O sistema partidário da Alemanha.

Wolfgang Streeck

Sidecar


Não há necessidade de nos precipitarmos: ainda demorarão alguns anos até que a AfD tome o poder. Nas cinco eleições estaduais alemãs realizadas este ano, embora tenha sido o único partido a aumentar o seu voto em todos os setores, a AfD não conseguiu garantir a maioria absoluta em nenhum lugar. Nas cinco eleições, o partido obteve uma média de 27,3 por cento. O seu resultado mais elevado – 43,8% na Saxónia-Anhalt – foi mais de duas vezes e meia o mais baixo, 16,3% em Berlim. Os seus maiores ganhos registaram-se na Saxónia-Anhalt e em Meclemburgo-Vorpommern – estados com eleitorados relativamente pequenos (1,7 milhões e 1,3 milhões, respectivamente, num país com 60,5 milhões de eleitores elegíveis), e nos quais a CDU do Chanceler Merz teve um desempenho particularmente mau. É difícil acreditar que tantos eleitores da CDU nestas duas regiões orientais se tenham tornado neonazis nos últimos cinco anos.

Em qualquer caso, houve outras tendências em ação nestas eleições, para além da ascensão da AfD. Os factores regionais desempenharam um papel – especificamente, a posição relativa dos primeiros-ministros em exercício (fraca na Saxónia-Anhalt e Berlim, forte em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental). Os Verdes estagnaram, sofrendo perdas em três dos cinco estados; a CDU obteve ganhos – embora modestos – nos dois estados ocidentais (em Baden-Württemberg, com os seus 7,7 milhões de eleitores elegíveis, esteve a um passo de vencer, e na Renânia-Palatinado, com 2,9 milhões de eleitores elegíveis, venceu de facto); enquanto o Die Linke aumentou o seu voto em três das cinco eleições: nos dois estados ocidentais e, sobretudo, em Berlim (2,5 milhões de eleitores elegíveis), onde terminou quase dez pontos percentuais à frente da AfD.

Para o SPD, este ano eleitoral foi um desastre. Nas cinco eleições, a média foi de apenas 17,7 por cento – ou 13,2 por cento se for excluído o caso atípico de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. A média da CDU, pelo contrário, foi de 20,3 por cento. Portanto, não é apenas a CDU que deve enfrentar o facto de já não ser um chamado Volkspartei, ou partido do povo. Merz pelo menos abordou a questão no dia seguinte às eleições em Mecklenburg-Vorpommern e Berlim; a liderança do SPD ainda está lutando para encontrar as palavras apropriadas.

Quanto à “luta contra a direita”: todas as marchas antifascistas, os professores liderando os seus alunos, os jornalistas “tomando posição”, o Gabinete para a Proteção da Constituição atuando como uma Inquisição secularizada (a AfD “confirmada como parcialmente de extrema-direita”) e as incessantes advertências do Presidente Federal, juntamente com outros presidentes, de qualquer coisa. Tudo foi em vão; no final, a AfD provavelmente ficou-lhes grata. A “revolta dos decentes” e de “todos os democratas” em apoio à “nossa democracia” contra os “não-democratas” – só podemos imaginar quão grande foi a contribuição que isto deu para o sucesso da AfD; e continuará a fazer no futuro, se os outros partidos, por sua vez, continuarem a sua batalha pela “unidade social” de uma sociedade gerida pelo Estado “não há alternativa”, esperando-se que os cidadãos não se preocupem com a inflação, a crise da habitação, a pobreza, a desigualdade, a insegurança, os transportes públicos em dificuldades e o declínio das escolas.

E agora? Durante algum tempo, a “luta contra a direita” relegou a luta contra a crise social e econômica para segundo plano – onde não se via que não estava realmente a acontecer. Isto pode explicar em parte o fervor alarmista com que os partidos estabelecidos se mobilizaram contra o regresso iminente do fascismo. Mas isso pode estar agora a chegar ao fim, à medida que a AfD continua a crescer inabalavelmente, conquistando com sucesso eleitores no território dos partidos mais antigos. Existe agora um pânico perceptível entre os partidos que governaram durante 24 (SPD) e 17 (CDU/CSU) dos 28 anos desde o fim da era Kohl. Actualmente, a ideia é que houve “problemas de comunicação” entre os partidos do governo e os cidadãos, e que devem ser encontradas novas “narrativas” para restaurar a confiança na “nossa democracia”. Há também uma tentação óbvia de recorrer ao método consagrado pelo tempo de equiparar o inimigo interno ao externo – capitalizando a situação global para apresentar a oposição como a quinta coluna do inimigo, como traidores da Pátria, ou simplesmente como “amigos de Putin”. Resta saber o que esta nova “narrativa” pode alcançar.

A ascensão da AfD começou entretanto a criar uma barreira na coligação CDU-SPD e a minar as várias barreiras de segurança dos últimos anos (todos contra a AfD; a CDU também contra Die Linke). Tal como o Volksparteien, a CDU e o SPD enfrentam o esquecimento eleitoral. E assim o falso consenso sobre “as reformas necessárias” – vendido pela CDU como uma contribuição para a “competitividade econômica” e pelo SPD como uma contribuição para a “justiça social” – está a começar a evaporar-se. Durante a sua próxima deliberação no Bundestag, ficará claro para os partidos no governo – o seu julgamento aguçado pelas suas derrotas eleitorais – que a concepção de justiça do SPD e a concepção de competitividade da CDU são mutuamente exclusivas. A iniciativa anunciada por Merz após as eleições em Mecklenburg-Vorpommern e Berlim para restaurar a “coesão social” através de “narrativas” novas e optimistas não irá esconder isto por muito tempo. Pois as lideranças partidárias não conseguirão persuadir os deputados a aprovar leis que ameacem a sua reeleição: na CDU, porque as reformas contêm demasiado SPD, e no SPD, porque contêm demasiada CDU. As revoltas são esperadas.

Isso não é um bom presságio para o firewall. Partes da CDU quererão trabalhar com a AfD e serão capazes de testar isto de várias maneiras a nível local e estatal. Ao mesmo tempo, partes do SPD procurarão alinhar-se com Die Linke, por exemplo, juntando-se a uma coligação tripartida “vermelho-verde-vermelho” liderada por Die Linke em Berlim. Isto recordará ao Chanceler como, no início de 2025 – pouco antes das eleições federais – confiou na AfD para aprovar uma resolução no Bundestag apelando a uma política de imigração mais rigorosa. Se o SPD forçar a CDU/CSU a diluir as suas “reformas” – e com a barreira de segurança intacta isto está longe de ser improvável – os rebeldes nos bastidores sonharão em aprovar as suas próprias reformas com a AfD. E assim por diante, numa série interminável de experiências com permutações em constante mudança, que os eleitores alemães irão experienciar como nada menos que um caos.

Não que os defensores do firewall tenham desistido ainda. Há sinais de que em breve haverá uma tentativa de consolidá-lo de forma renovada – com a ajuda do Tribunal Constitucional Federal. Ao que tudo indica, a ala Merkel da CDU, liderada pelo rival de Merz, Hendrik Wüst, Ministro-Presidente da Renânia do Norte-Vestefália, está a preparar uma petição para banir a AfD, contra a vontade do Chanceler, mas com o apoio garantido do SPD e dos Verdes. Wüst governa numa coligação harmoniosa com os Verdes, enquanto Merz está ligado a uma coligação cada vez mais turbulenta com o SPD, com um programa econômico que seria muito mais fácil de implementar com a AfD.

Uma petição para proibir um partido político pode ser levada ao tribunal pelo governo federal, pelo Bundestag ou pelo Bundesrat. Se fosse introduzido pelo estado da Renânia do Norte-Vestefália no Bundesrat e apoiado pelos membros do Bundestag da Renânia do Norte-Vestefália, poderia chegar facilmente ao Tribunal, mesmo sem Merz. Pouco antes das eleições em Mecklenburg-Vorpommern e Berlim, Wüst indicou que pretendia criar uma comissão para examinar as perspectivas disso. Declarações públicas bastante invulgares de um antigo presidente do Tribunal Constitucional e do atual presidente – ambos membros da CDU – sugeriram que o tribunal não estaria nada entusiasmado com tal moção. Contudo, os proponentes de uma proibição não precisam necessariamente de se preocupar com a opinião do tribunal sobre a mesma, nem mesmo com a sua decisão final.

O que importa são as repercussões políticas da petição, que serão dramáticas. O processo judicial levaria pelo menos dois anos. Durante este período, os meios de comunicação social manteriam o público constantemente informado sobre os relatórios apresentados pelos serviços de inteligência e outros que explicavam os perigos representados pela AfD. Enquanto o tribunal delibera, os membros da AfD enfrentarão a perspectiva de perder os seus meios de subsistência se a proibição for aprovada – por exemplo, sendo demitidos de cargos na função pública ou, como empresários, sendo-lhes negados contratos públicos. Mesmo agora, os apoiantes da AfD tendem a ser excluídos socialmente, tanto que o partido por vezes tem dificuldade em encontrar candidatos para cargos locais, o que resulta na impossibilidade de preencher os lugares que conquistou. Isso certamente se tornaria ainda mais comum durante os processos judiciais. Entretanto, os membros e responsáveis ​​da CDU que se sentem menos à vontade numa CDU acorrentada ao SDP do que se sentiriam numa versão moderada da AfD, teriam de pensar duas vezes antes de mudar de lado. E qualquer tentativa de impor decisões políticas em aliança com a AfD a nível federal ou estadual – desafiando a barreira de segurança – equivaleria a suicídio político enquanto os processos judiciais estivessem em curso, independentemente do seu eventual resultado.

Wüst seria o primeiro a beneficiar disto, ao enfrentar a reeleição em Maio de 2027. No seu estado, Renânia do Norte-Vestefália – o maior da República Federal, com 13 milhões de eleitores elegíveis – a AfD está irreparavelmente dividida entre uma facção moderada e uma facção mais linha-dura, enquanto o meio liberal-católico da CDU ainda está relativamente intacto. As sondagens dão à CDU uma vantagem razoavelmente confortável sobre a AfD, embora esta esteja a diminuir lentamente. Quaisquer efeitos negativos sobre o voto da AfD decorrentes da cobertura mediática dos procedimentos do Tribunal Constitucional seriam, portanto, muito bem-vindos e ajudariam a renovar a coligação entre a CDU e os Verdes.

Quanto ao próprio Tribunal Constitucional, uma petição para banir a AfD iria sujeitá-la a uma pressão política de um tipo que provavelmente consideraria profundamente desconfortável. Se rejeitar a petição, a decisão será saudada pela AfD como um atestado de boa saúde – e será amplamente percebida dessa forma pelo público votante. Se, por outro lado, o tribunal proibisse a AfD, milhares de funcionários eleitos nos três níveis de governo, juntamente com cerca de vários milhares de funcionários, perderiam imediatamente os seus cargos e empregos de uma só vez. Posteriormente, o Estado teria de determinar, através de vigilância contínua, se qualquer atividade política de antigos membros do parlamento da AfD poderia ser considerada como apoio a uma “organização substituta”, que é punível com até cinco anos de prisão. Isto poderia resultar em centenas de julgamentos criminais, que seriam acompanhados de perto pelos meios de comunicação social – se não na Alemanha, certamente a nível internacional. Os únicos partidos proibidos até à data na República Federal – o Partido Socialista do Reich (1952) e o Partido Comunista da Alemanha (1956) – não tinham representantes eleitos na altura em que foram proibidos.

Do ponto de vista do Die Linke, haveria preocupação com o raciocínio jurídico da decisão final do Tribunal, o que poderia encorajar uma tentativa da CDU/CSU e dos Verdes de proibir também o Die Linke. É concebível que a facção Merz da CDU – em troca do apoio à proibição da AfD – possa insistir que uma moção para proibir a AfD inclua também o Die Linke, talvez com base no “anti-semitismo” anticonstitucional. Sinais que apontam nesta direção já podem ser discernidos nas actuais controvérsias em torno da formação do novo governo do estado de Berlim, que poderá pela primeira vez ser liderado pelo Linkspartei. Actualmente está em curso uma campanha contra o alegado anti-semitismo no Die Linke, apoiada pelos meios de comunicação tradicionais, que é uma cópia carbono daquela travada contra Jeremy Corbyn.

Se não houver uma proibição da AfD, pode-se esperar que o sistema partidário alemão se torne mais parecido com o de outros países europeus, como os Países Baixos. Os dois principais partidos centristas da era do pós-guerra – um democrata-cristão e conservador-burguês, o outro social-democrata-progressista – têm vindo a diminuir há muito tempo e podem, em algum momento, fragmentar-se em partidos sucessores mais pequenos. (Em Rheinland-Pfalz, Saxônia-Anhalt, Mecklenburg-Vorpommern e Berlim, a contagem combinada da CDU e do SPD caiu 6,5, 19,0, 12,5 e 15,8 por cento dos votos, respectivamente, em comparação com as eleições de cinco anos atrás.) No extremo oposto do espectro da AfD, um partido de esquerda poderia estabelecer-se firmemente, o que pode significar que a ascensão do Die Linke em todas as cinco eleições não foi aberração e poderia continuar (como indicado, isso exporia o partido aos mesmos esforços para bani-lo como a AfD). No geral, poder-se-ia esperar um sistema de sete ou oito partidos em vez de três ou quatro, com frequentes formações e dissoluções nas margens. As coligações – mesmo apesar de divisões políticas significativas – seriam necessárias e cada vez mais possíveis; no entanto, exigiriam negociações demoradas, com longos períodos interinos sob governos provisórios. Devido à natureza fragmentada de um sistema como este, as coligações tenderiam a consistir em pelo menos três, em vez de dois partidos.

Além disso, não só os antigos partidos centristas, mas também os novos partidos das margens seriam susceptíveis à divisão interna e à fragmentação como resultado das oportunidades que se abririam para a participação no governo. À direita de uma AfD mais estabelecida, um NPD revivido poderia criar raízes, tal como surgiram partidos à direita da Nova Direita em numerosos países europeus – em França, Itália, Reino Unido, Países Baixos, Suécia e outros. Embora uma AfD menos extremista possa tornar-se um parceiro potencial para uma Merz-CDU, uma Wüst-CDU mais liberal poderá governar com os Verdes e o que resta do SPD, e em algum momento talvez também com um Die Linke moderado, cujos elementos mais radicais poderão separar-se e formar um partido próprio. Dentro do sistema federal alemão, novos partidos e combinações partidárias poderiam ser testados a nível estadual para avaliar a sua viabilidade nacional.

Finalmente, o que acontecerá com o BSW ainda está para ser visto. Nas cinco eleições estaduais, obteve cerca de 5% dos votos, mas apenas na Saxônia-Anhalt isso foi suficiente para conquistar assentos parlamentares. Mais cedo do que outros partidos, o BSW tentou violar a barreira de segurança em torno da AfD, numa tentativa de expulsar o partido do seu refúgio de irresponsabilidade garantida. Ao fazê-lo, porém, tornou-se outro alvo da “luta contra a direita”. A recontagem das últimas eleições federais exigida pelo BSW ainda está pendente um ano e meio depois, o que é por si só um escândalo. Há fortes indícios de que, se o Tribunal Constitucional ordenar ao Bundestag que finalmente cumpra o seu dever, o BSW terá de obter cinco por cento dos votos. Isto significaria que o Bundestag, na sua composição actual, teria sido constituído de forma inadequada. Como seriam atribuídos ao BSW cerca de trinta assentos à custa dos outros partidos, a já não grande Grande Coligação de Merz com o SPD perderia a sua maioria. É claro que quanto mais o Bundestag atrasar a recontagem, menos importância terá. O Tribunal poderá optar por anunciar uma potencial proibição da AfD aproximadamente ao mesmo tempo que o Bundestag poderá ter de ceder os seus assentos ao BSW – apenas alguns meses antes das eleições de 2029.

Em Mecklenburg-Vorpommern, três dos maiores partidos – a CDU, o FDP e o BSW – ficaram aquém do limite de cinco por cento, com um total combinado de 10,7 por cento dos votos; além disso, vários partidos menores, classificados como “outros”, representaram 3,3 por cento. Como resultado, um total de 14 por cento dos que votaram não estarão representados no parlamento durante os próximos cinco anos. O valor para Berlim é de 12,9 por cento; para a Saxônia-Anhalt, 6,9 por cento; em Baden-Württemberg e na Renânia-Palatinado, 15,8 e 15,9 por cento, respetivamente. Acrescente-se a isto os 21,1 por cento de eleitores elegíveis em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, 25 por cento em Berlim e 22,2 por cento na Saxônia-Anhalt que não votaram; em Baden-Württemberg e na Renânia-Palatinado, os números foram de 30,4 e 31,6 por cento. Isto não é irrelevante se as abstenções forem interpretadas, pelo menos em parte, como votos a favor da “NOTA” (None Of The Above). Isto significaria que a proporção de eleitores não representados nos cinco estados varia entre 30 e 48 por cento. Além disso, estima-se que aproximadamente 10 por cento da população residente em todo o país não possui passaporte alemão e, portanto, não é elegível para votar, o que aumenta ainda mais a disparidade de representação.

À medida que o sistema partidário se fragmenta, poderá haver motivos para reduzir o limiar da representação parlamentar para dois ou três por cento; isso pode até ser exigido pela lei constitucional. O argumento tradicional a favor de um limite de cinco por cento – que compensa a perda de representatividade ao facilitar a formação de um governo – já não pode ser válido num sistema partidário fragmentado, onde a necessidade de formar coligações de três partidos torna, de qualquer forma, improvável a rápida formação de um governo.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada na edição alemã da Jacobin.

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