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2 de junho de 2026

Gaza foi o último prego no caixão do atlanticismo liberal

Desde o fim da Guerra Fria, os liberais europeus e norte-americanos afirmam defender uma “ordem internacional baseada em regras”. Muitas vezes uma ficção, até mesmo o fingimento desapareceu agora sob os escombros de Gaza.

Entrevista com
Gilbert Achcar

Jacobin

A ordem internacional liberal não morreu quando Donald Trump voltou à Casa Branca. Ao apoiar o genocídio israelense em Gaza, Joe Biden já havia desferido um golpe fatal. (Omar Al-Qataa / AFP via Getty Images)

Entrevista por
Trümmer auf Trümmer

Trümmer auf Trümmer é uma coletânea em alemão que reúne perspectivas críticas sobre o chamado Staatsräson, que serviu para justificar o apoio contínuo do Estado alemão a Israel, bem como sua repressão ao movimento pró-Palestina.

Entre outros temas, aborda a instrumentalização racista da memória do Holocausto, a história das relações germano-israelenses e o papel desempenhado pela esquerda alemã nesse contexto. Nesta entrevista com os editores do livro, o especialista em relações internacionais Gilbert Achcar explica por que o genocídio de Israel em Gaza representa um divisor de águas histórico, destruindo ilusões do atlantismo liberal.

Trümmer auf Trümmer

Em Israel e na maioria dos países ocidentais, palestinos e críticos da política israelense são frequentemente comparados aos nazistas. Desde outubro de 2023, essas comparações têm sido cada vez mais usadas para justificar as ações genocidas de Israel, por exemplo, por Benjamin Netanyahu, quando descreveu o Hamas como “os novos nazistas” em uma coletiva de imprensa com o ex-chanceler alemão Olaf Scholz. Já ​​em 2019, o Bundestag alemão empregou essa manobra retórica em uma resolução contra o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), proclamando que o boicote a produtos israelenses lembrava “a fase mais sombria da história alemã”. Qual é a linhagem histórica dessa narrativa? Em que medida ela é resultado do que você chama de “guerra de narrativas árabe-israelense”?

Gilbert Achcar

A nazificação da rejeição dos árabes e muçulmanos palestinos ao movimento de colonização sionista e ao Estado de Israel que este fundou é uma estratégia de propaganda muito antiga. Historicamente, foi facilitada pelo papel nefasto de Haj Amin al-Husseini. Ele era grão-mufti da Palestina e foi nomeado para o cargo por um alto comissário britânico extremamente pró-sionista. O fato de ter viajado entre Berlim e Roma em 1941, trabalhando com os nazistas e os fascistas italianos, tornou-o uma figura muito apropriada para essa propaganda e contribuiu significativamente para o seu sucesso.

Desde a sua origem, o movimento sionista tem buscado consistentemente retratar os árabes não apenas como adversários, mas como afiliados ideológicos — ou mesmo aliados — do nazismo. Dentro dessa narrativa, a Guerra Árabe-Israelense de 1948, que se seguiu à proclamação do Estado de Israel, é frequentemente abstraída da realidade concomitante da Nakba: o deslocamento em larga escala e a limpeza étnica da população palestina — um ato que se enquadra nos critérios de crime de guerra e crime contra a humanidade, segundo o direito internacional. O fato de ter sido uma limpeza étnica é praticamente indiscutível: até mesmo alguém como o renomado historiador Benny Morris, que passou de pós-sionista a sionista fervoroso, reconheceu que o ocorrido foi uma limpeza étnica. Ele a justifica de alguma forma, mas não se furta a reconhecer o fato. Assim, a guerra de 1948 pôde ser apresentada, de certa forma, como a última batalha da Segunda Guerra Mundial, a última batalha contra o nazismo ou seus aliados.

Aqui podemos ver onde reside a justificativa para a limpeza étnica dos palestinos: "ou nós fizemos isso com eles, ou eles continuariam o Holocausto contra nós". Essa é a lógica, e podemos ver como essa lógica segue uma linha direta até o dia 7 de outubro de 2023, que foi imediatamente enquadrado como "o pior assassinato de judeus desde o Holocausto". Essa forma de enquadrar o evento foi extremamente difundida. De Israel a todos os tipos de governos ocidentais, ouvimos a mesma coisa: este foi o pior massacre de judeus desde o Holocausto. O que isso significa? Significa colocar o que aconteceu em 7 de outubro em continuidade com o Holocausto. Essa é a mesma lógica da nazificação que vem ocorrendo desde a década de 1940.

Situar o dia 7 de outubro — independentemente das atrocidades cometidas naquele dia — em um continuum que remonta ao Holocausto é uma visão muito distorcida da história. Para os palestinos e a maioria das pessoas no Sul Global, esse continuum representa uma longa tradição de lutas anticoloniais. As lutas anticoloniais não são imunes a atrocidades. Houve vários eventos desse tipo na história, em Angola, na Argélia e em outros países, onde massacres brutais foram cometidos em algum momento pelos habitantes locais contra os colonizadores brancos. Não há justificativa para massacres de civis, mas entendemos como eles podem ser uma reação à opressão colonial acumulada, à usurpação de terras e ao racismo.

Dependendo da sequência histórica em que você situa o dia 7 de outubro, chegará a dois resultados muito diferentes. Por um lado, a nazificação do Hamas e, além do Hamas, dos habitantes de Gaza, senão de todos os palestinos, porque muitos dos apoiadores mais fervorosos de Israel mal fazem distinção entre o povo de Gaza, os palestinos em geral e o Hamas. A outra sequência histórica permite superar essa perspectiva de "mal absoluto" e compreender — sem justificar — como pessoas tão oprimidas, que viveram por tantos anos em uma prisão a céu aberto, sofrendo todo tipo de práticas sádicas impostas a elas em relação à sua vida, incluindo bombardeios periódicos, sem falar que a maioria dos habitantes de Gaza são refugiados de 1948 e, portanto, vítimas diretas de limpeza étnica, como pessoas assim recorrem a tais ações, mesmo que — repito — não seja necessário aprovar o que fizeram.

Na minha opinião, o dia 7 de outubro foi um enorme erro de cálculo, que, na verdade, causou muito mais mal do que bem aos palestinos. Causou muito mais danos aos palestinos do que aos israelenses, pois foi usado pela coalizão de extrema direita israelense para lançar uma guerra genocida com o objetivo de completar a limpeza étnica da Palestina em Gaza e, ao mesmo tempo, como podemos ver, também avançando na mesma direção na Cisjordânia, onde a violência de colonos e militares contra a população aumentou tremendamente e continua aumentando desde outubro de 2023. Tudo isso faz parte da guerra de narrativas que sempre foi um elemento crucial deste conflito nacional, étnico e colonial.

Não há nada de novo a esse respeito, exceto que o dia 7 de outubro tornou a situação mais aguda do que antes. A estratégia violenta do Hamas é inadequada e imprópria para a luta dos palestinos. A Intifada de 1988 foi um levante popular não violento, com o simples ato de atirar pedras contra o exército de ocupação. É importante ressaltar que as mulheres puderam participar dessas manifestações, algo que a propaganda sionista não conseguiu nazificar. Não se podia dizer que civis não violentos que protestavam contra um exército de ocupação eram semelhantes aos nazistas; isso seria completamente absurdo. Isso demonstra o tipo de luta apropriado para um povo que enfrenta um inimigo militarmente muito mais forte.

É muito mais eficiente recorrer à luta não violenta e usar a superioridade moral contra a superioridade física do opressor. A quantidade de violência infligida aos palestinos desde a virada do século, desde o colapso dos Acordos de Oslo, foi tamanha que as tentativas de reviver uma luta popular não violenta foram sempre e facilmente sufocadas por grupos como o Hamas. Nesse sentido, o Hamas desempenhou um papel muito negativo para a luta palestina, na minha opinião. Posso entender a origem do Hamas como uma reação a uma longa opressão. Mas isso não o torna melhor. Não é o que os palestinos realmente precisam.

Sempre que as potências ocidentais atacam alguém, a nazificação surge imediatamente. Essa ferramenta de propaganda se baseia em uma perspectiva eurocêntrica.

Voltando à "nazificação", ela faz parte de uma estratégia mais ampla, enraizada no uso do nazismo como o epítome do mal absoluto. Sabemos o quão amplamente isso foi empregado em diversos contextos. Mesmo dentro de Israel, facções políticas se compararam mutuamente a Adolf Hitler, como arma retórica. Na política do Oriente Médio, Israel e seus aliados ocidentais rotularam repetidamente como "nazistas", ou simpatizantes nazistas, aqueles que se opuseram à dominação ocidental: uma figura após a outra foi submetida a essa estratégia de deslegitimação. Gamal Abdel Nasser, o líder egípcio anticolonial e anti-imperialista, foi comparado a Hitler. Yasser Arafat foi comparado a Hitler. Saddam Hussein — um ditador terrível por si só — também foi comparado a Hitler para justificar a invasão e ocupação do Iraque liderada pelos EUA em 2003. Slobodan Milošević, na Europa, foi comparado a Hitler. Sempre que as potências ocidentais atacam alguém, a nazificação surge imediatamente. Esse artifício de propaganda se baseia em uma perspectiva eurocêntrica, no sentido de que as potências europeias sempre projetam sua própria história no resto do mundo. Na verdade, a maior parte do mundo não gira em torno da história da Europa. O trauma colonial, que é uma das condições históricas do nazismo e do Holocausto, se seguirmos Hannah Arendt em sua análise do totalitarismo, tem um impacto muito maior na humanidade do que o próprio nazismo.

Trümmer auf Trümmer

Nesse arcabouço ideológico, em que, como você disse, o nazismo representa o mal absoluto, qualquer crítica a Israel equivale a uma relativização do Holocausto. Consequentemente, houve tentativas de criminalizar termos como “genocídio” e “apartheid”.

Gilbert Achcar

O nazismo foi um mal absoluto, no sentido de que o extermínio sistemático e industrializado de toda uma população pelos nazistas é mais perverso do que qualquer outro genocídio que conhecemos, anterior ou posterior a ele. Outros genocídios do século XX foram perpetrados com meios de destruição muito menos sofisticados — o genocídio armênio, o genocídio ruandês, Darfur, e assim por diante. Nesse sentido, eu não hesitaria em dizer que o pior genocídio desde o genocídio nazista dos judeus é o que temos testemunhado em Gaza desde outubro de 2023. Porque, como descrevo em meu novo livro, A Catástrofe de Gaza: O Genocídio em Perspectiva Histórica Mundial, trata-se do primeiro genocídio perpetrado por um Estado industrializado e altamente militarizado, apoiado pelo Ocidente, desde 1945.

Podemos ver como Israel está aplicando sistematicamente meios sofisticados de destruição contra uma pequena população, com pleno conhecimento de que está matando muito mais civis do que membros do Hamas, muito mais não combatentes, incluindo uma maioria de mulheres e crianças. Eles sabem o que estão fazendo e continuam fazendo com um nível de sadismo prolongado que não víamos desde 1945. Todo o Ocidente chamou o que aconteceu na Bósnia, em Srebrenica, de genocídio. No entanto, recusa-se a reconhecer o caráter genocida do que está acontecendo em Gaza, embora seja muito mais óbvio. Pior ainda, como você mencionou, tenta criminalizar o próprio fato de chamar o que está acontecendo em Gaza de genocídio. Se você chama isso de genocídio, é rotulado de “antissemita” e, de alguma forma, isso significa que você está inserido na narrativa da nazificação, já que imediatamente traz à memória a pior versão do antissemitismo na história.

Trümmer auf Trümmer

Desde 7 de outubro, o Estado alemão vem conduzindo uma campanha de repressão sem precedentes contra palestinos e seus aliados, em nome do combate ao que é chamado de “antissemitismo relacionado a Israel” e “antissemitismo importado”. A ideia de um antissemitismo especificamente árabe não é nova nem exclusivamente alemã — por que surgiu e em que contexto?

Gilbert Achcar

O conceito de “novo antissemitismo” foi cunhado por Bernard Lewis, um estudioso de estudos islâmicos e do Oriente Médio, também conhecido por negar o genocídio armênio. Edward Said descreveu Lewis como um orientalista por excelência. Na década de 1980, Lewis argumentou que o antissemitismo europeu estava desaparecendo e se tornava apenas residual, enquanto um novo antissemitismo surgia — um que, segundo ele, estava enraizado não no preconceito cristão ou racial, mas na oposição política a Israel. Esse novo antissemitismo, de acordo com Lewis, estava intimamente ligado ao que ele chamou de “conflito israelo-palestino” e se expressava cada vez mais em críticas ao sionismo e à política israelense, particularmente no mundo árabe e muçulmano.

O Holocausto traz lições universais. Se você restringir seu significado histórico a uma questão que diz respeito apenas aos judeus, você menospreza sua importância histórica e tira lições erradas.

Ora, isso é tão perverso quanto o artifício da nazificação, no sentido de que o “novo antissemitismo” estabelece uma continuidade com o antigo antissemitismo e, portanto, coloca a oposição política a Israel em continuidade com a história europeia, quando, na realidade, está bastante desconectada dela. Até mesmo Bernard Lewis reconheceu que, enquanto o antissemitismo foi a causa do que aconteceu na Europa, no Oriente Médio ele é o resultado do “conflito israelo-palestino”. Ele admitiu que o que chamou de “novo antissemitismo” foi uma reação à criação do Estado de Israel. E isso faz uma enorme diferença, porque uma maioria dominante que ataca uma minoria por razões puramente racistas, como ocorreu na Alemanha sob o regime nazista, é radicalmente diferente de um povo oprimido que reage à sua opressão demonstrando ódio ao opressor.

Esse ódio ao opressor pode, em alguns casos, levar a uma essencialização do inimigo — como não traçar uma distinção clara entre sionista e judeu. Mas devo dizer que essa distinção é, na verdade, bem compreendida na região árabe, especialmente pelos palestinos, pois há muitos judeus que apoiam sua causa. No próprio movimento de solidariedade à Palestina nos Estados Unidos, muitos jovens judeus americanos estão envolvidos, e esses fatos facilitam a percepção da diferença entre sionista e judeu. Nem todo judeu é sionista, e nem todo sionista é judeu, pois é sabido que alguns dos sionistas e apoiadores de Israel mais fanáticos são cristãos, os chamados sionistas cristãos. Eles representam uma parte fundamental da base do movimento neofascista nos Estados Unidos.

A ideia de um “novo antissemitismo” tornou-se um mantra usado por governos ocidentais posteriormente, especialmente após 7 de outubro. É uma maneira conveniente de criminalizar críticas a Israel, o que está inscrito na definição de antissemitismo adotada pela Associação Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Mesmo o autor dessa definição se distanciou dela, reconhecendo que era um rascunho frágil e apressado. Mas, ainda assim, foi adotada por diversos governos numa tentativa de impô-la às instituições acadêmicas e ao público em geral. Isso representou uma tentativa de sufocar o debate, de impedir a liberdade acadêmica, a liberdade de expressão e a liberdade de criticar o Estado de Israel, a liberdade de criticar uma das guerras mais brutais que vimos em décadas.

É ainda mais perverso no sentido de que os governos ocidentais que usam esse tipo de artifício — e o governo alemão é obviamente um dos mais proeminentes — o aplicam a pessoas que contestam um governo de extrema-direita que tem muito mais em comum com o nazismo do que com qualquer entidade palestina. O governo israelense engloba todo o espectro das forças de extrema-direita: é abertamente racista, abertamente anexionista, abertamente expansionista — mais do que qualquer governo israelense anterior. Essas forças têm muito mais em comum com os nazistas do que com o Hamas, devido à sua posição estrutural como invasores, ocupantes e perpetradores. Estão perpetrando um genocídio. E quando governos como o alemão toleram o genocídio e condenam aqueles que o criticam, é realmente repugnante. É moralmente nojento e demonstra o quanto o chamado filosemitismo pode, na verdade, consistir em antissemitismo invertido: pessoas que têm um complexo de culpa e tentam esconder seu antissemitismo latente adotando uma postura filosemita. Não é preciso ser Sigmund Freud para entender esse mecanismo, e ele é, de fato, bastante perverso.

A islamofobia é a principal forma de racismo e xenofobia na Europa atual, desempenhando um papel semelhante ao do antissemitismo no final do século XIX e na primeira metade do século XX.

Isso também significa que a Alemanha, que se vangloria de ter realizado um trabalho radical de memória para extirpar seu passado nazista, na verdade tirou lições erradas, porque as lições corretas da catástrofe nazista são precisamente aquelas que muitos daqueles que lutaram contra o nazismo, incluindo importantes pensadores judeus, defenderam, contrapondo o legado étnico, racista e genocida dos nazistas com um humanismo universal. A lição correta a ser extraída do genocídio nazista não é "Nie Wieder" (nunca mais) de danos apenas aos judeus, mas "Nie Wieder" (nunca mais) de ocupação, opressão e genocídio contra qualquer povo.

O Holocausto traz lições universais. Se você restringir seu significado histórico a uma questão que diz respeito apenas aos judeus, você menospreza sua importância histórica e tira lições erradas. A Alemanha é, depois dos Estados Unidos, o segundo maior fornecedor de armas para o Estado de Israel, portanto, está diretamente envolvida na guerra genocida em curso. Se a única lição que os governantes alemães conseguem extrair do passado nazista os leva a participar de um novo genocídio perpetrado por um Estado que se declara judeu, isso é absolutamente trágico. Esse fracasso lamentável é consequência da construção ideológica de um Estado que esteve sob regime de direita durante a Guerra Fria, com muitos ex-nazistas em suas instituições após 1945. Essas pessoas não são capazes de extrair lições universais de caráter progressista. São reacionárias, e as únicas lições que conseguem extrair do passado nazista são lições equivocadas, confinadas à mesma perspectiva etnocêntrica e limitada, levando, portanto, a uma transição do antissemitismo para o filosemitismo, com toda a ambiguidade inerente a esse suposto filosemitismo. A situação se torna ainda mais ultrajante quando o atual Estado alemão ataca judeus alemães por suas críticas a Israel. Eles não têm vergonha.

Trümmer auf Trümmer

Em paralelo à popularização do conceito de um novo antissemitismo, a década de 2000 também testemunhou o surgimento da ideia de que a segurança de Israel é a razão de Estado da Alemanha – o chamado Staatsräson, que desde então tem sido cada vez mais imposto por meio de medidas autoritárias. Poderia falar sobre a origem dessa ideia e sobre as relações germano-israelenses? Qual foi o papel de Israel na Alemanha Ocidental do pós-guerra?

Gilbert Achcar

Isso remonta ao governo muito conservador da Alemanha Ocidental após 1945. Konrad Adenauer fez algumas declarações bastante ambíguas sobre os judeus. Como sabemos que havia muitos ex-nazistas nas instituições estatais – Hannah Arendt, em seu livro "Eichmann em Jerusalém", evocou um caso famoso, mas havia muitos outros –, é possível compreender como funcionava a mentalidade dessas pessoas.

Não devemos esquecer que, nos oito anos entre 1933 e 1941 — o ano em que os nazistas começaram a implementar o extermínio sistemático dos judeus, a chamada Solução Final —, eles não estavam perpetrando um genocídio contra os judeus alemães. Estavam implementando uma limpeza étnica, tornando a Alemanha “judenrein” (“livre de judeus”) por meio da expulsão e deportação dos judeus alemães, uma questão na qual encontraram um ponto em comum com o movimento sionista, interessado em atrair judeus para a Palestina. Essa convergência de interesses se traduziu no famoso Acordo de Haavara de 1933 entre as autoridades nazistas e o movimento sionista alemão, que visava forçar os judeus alemães a migrar para a Palestina, o único destino onde lhes era permitido levar consigo algum capital. Após 1945, a Alemanha não tinha mais população judaica, devido, em primeiro lugar, às deportações e, em seguida, ao genocídio. Assim, uma grande parte dos judeus alemães acabou na Palestina por causa do Acordo de Haavara.

Assim, quando o Estado da Alemanha Ocidental começou a apoiar o novo Estado de Israel, foi, de certa forma, uma retomada da colaboração anterior, de 1933-1941, visto que Bonn reduziu as vítimas judias do nazismo ao Estado criado pelo movimento sionista. Apoiou o Estado de Israel em benefício de suas próprias indústrias militares. Em vez de as reparações irem diretamente às vítimas, foram para o Estado que fingia representá-las, embora o sionismo fosse contestado por muitas das vítimas judias do nazismo, sem falar no fato de que o próprio Estado sionista foi construído sobre a limpeza étnica e a ocupação. Da mesma forma, o governo da Alemanha Ocidental obteve seu visto para o clube ocidental durante a Guerra Fria. Viu em seu apoio ao Estado sionista uma maneira de se reabilitar da opróbrio do genocídio nazista e de obter um visto para a entrada da Alemanha na OTAN e a permissão para se rearmar. Tudo estava interligado. O primeiro a estudar esse processo a fundo foi um acadêmico israelense que mais tarde se mudou para Viena, Frank Stern, e o estudo mais recente e completo sobre o mesmo tema é o livro do meu ex-aluno de doutorado, Daniel Marwecki.

Trümmer auf Trümmer

Em um de seus artigos, você argumenta que a ideologia atlanticista conseguiu se apresentar como uma força contrária tanto ao comunismo soviético quanto ao fascismo, identificando o primeiro com o totalitarismo e reduzindo o segundo ao nazismo. Você afirma ainda que a máscara liberal do atlanticismo caiu nos últimos anos. Onde você situa o atlanticismo hoje e qual o papel de Gaza nesse contexto?

Gilbert Achcar

O que chamo de atlanticismo liberal é uma referência ao momento da Aliança Atlântica durante a Segunda Guerra Mundial — originalmente uma aliança antinazista e antifascista, que também era, ao mesmo tempo, antitotalitária, embora aliada à União Soviética até 1945. O principal arquiteto dessa concepção de uma “ordem liberal baseada em regras”, e das Nações Unidas como sua personificação, foi Franklin Delano Roosevelt, um verdadeiro liberal, um progressista. Mas ele morreu em 1945 e foi sucedido por seu vice-presidente, Harry Truman, que representava a ala direita do Partido Democrata. Roosevelt o escolheu para compor a chapa como vice-presidente para abranger todo o espectro político do partido. Truman era um defensor ferrenho da Guerra Fria. Ele basicamente iniciou a Guerra Fria.

Portanto, desde o início, a “ordem internacional liberal baseada em regras” nasceu morta, viciada pela Guerra Fria. E a Guerra Fria levou os Estados Unidos, em particular, mesmo tendo sido o padrinho das Nações Unidas, a se comportarem como um estado pária em suas relações com a ONU. A ponto de, até Ronald Reagan, os Estados Unidos considerarem a ONU como inimiga, após tê-la utilizado por um tempo, quando os países ocidentais detinham a maioria na organização. Desde a década de 1960, quando a maior parte do Sul Global se descolonizou e a composição da maioria na Assembleia Geral da ONU mudou, a mudança de atitude dos Estados Unidos tornou-se evidente. O país passou a encarar a ONU de maneira cada vez mais hostil. Os Estados Unidos têm sido um dos principais violadores das normas do direito internacional.

Existe um paralelo óbvio entre a forma como a administração dos EUA se aproveitou do 11 de setembro e a forma como o governo de extrema-direita de Israel se aproveitou do 7 de outubro para concretizar planos premeditados.

Essa ordem liberal atlanticista era, sem dúvida, falha, mas ainda havia alguma credibilidade na alegação ideológica de "Somos democratas, o farol da liberdade, contra o totalitarismo comunista". Isso apesar de a OTAN ter, desde o início, entre seus membros, uma ditadura quase fascista em Portugal. Houve também uma tentativa de reviver o liberalismo atlanticista no final da Guerra Fria. Com o fim da União Soviética, vimos uma onda de liberais clamando por um novo cosmopolitismo, com tentativas de reviver algum tipo de ordem liberal global baseada em regras, que se desfez rapidamente. A ocupação do Iraque em 2003, liderada pelo governo Bush, foi um momento crucial nesse sentido. Existe um paralelo óbvio entre a forma como a administração dos EUA se aproveitou do 11 de setembro e a forma como o governo de extrema-direita de Israel se aproveitou do 7 de outubro para concretizar planos premeditados.

Durante a década de 1990, os Estados Unidos se comportaram de tal maneira que o mundo passou rapidamente, em poucos anos, da Guerra Fria para o que eu chamo de Nova Guerra Fria. Publiquei um livro com esse título, analisando essa Nova Guerra Fria tripolar que começou na virada do século, entre o bloco ocidental liderado pelos EUA, a Rússia e a China. A tentativa pós-Guerra Fria de reviver a “ordem liberal internacional” fracassou, culminando na guerra de Gaza, que revelou da forma mais flagrante a hipocrisia e o duplo padrão daqueles que condenam categoricamente a invasão russa da Ucrânia, mas ao mesmo tempo defendem a invasão israelense de Gaza.

O ataque de Israel a Gaza foi a primeira guerra em que os Estados Unidos se envolveram completamente ao lado de Israel. De todas as guerras de Israel, esta é a primeira que pode ser descrita com precisão como uma guerra conjunta com os Estados Unidos, que forneceram, por meio de pontes aéreas e transporte marítimo, a maior parte das bombas usadas na destruição de Gaza. Esse fato, somado ao fato de que governos ocidentais apoiaram essa guerra a ponto de se oporem a um cessar-fogo por vários meses — Berlim, Paris e Londres se opuseram a um cessar-fogo em Gaza — demonstra sua flagrante cumplicidade com o que estava acontecendo. Esse foi o golpe final no caixão do liberalismo atlantic.

O golpe final não veio quando Donald Trump voltou à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025. A ordem liberal já estava morta sob Joe Biden e sua posição sobre Gaza.

Trümmer auf Trümmer

O segundo mandato de Trump está desmantelando o bloco atlanticista, e as relações entre a Europa e os Estados Unidos se deterioraram a tal ponto que mal se pode falar em unidade. Simultaneamente, todos os estados ocidentais estão testemunhando a ascensão da extrema-direita, que apoia amplamente Israel. Como você avalia esses desenvolvimentos no Ocidente?

Gilbert Achcar

O golpe final não foi o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025. A ordem liberal já estava morta sob Joe Biden e sua posição sobre Gaza. Essa morte abriu caminho para uma mudança global rumo à era do neofascismo, uma onda global de forças de extrema-direita.

A grande diferença em relação à onda fascista do século passado é que os Estados Unidos não são mais um baluarte contra o extremismo de direita, mas, ao contrário, seu epicentro. O país apoia o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) na Alemanha, o regime de Viktor Orbán na Hungria e todos os tipos de forças de extrema-direita na Europa e no mundo. O ímpeto político ocidental deslocou-se do liberalismo para o neofascismo. Os governos liberais da Europa Ocidental estão, por sua vez, a inclinar-se cada vez mais para a direita, adaptando-se ao discurso da extrema-direita, e, consequentemente, encontram-se em declínio. Entramos numa era histórica muito perigosa.

Um tema comum a estas forças, pelo menos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, é a islamofobia. Este é o verdadeiro “novo antissemitismo”, no sentido de que a islamofobia é a principal forma de racismo e xenofobia na Europa atual, desempenhando um papel semelhante ao do antissemitismo no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Qualquer pessoa verdadeiramente antirracista, antifascista e antinazista deveria ser capaz de compreender este facto óbvio.

Trümmer auf Trümmer: Zur Kritik der deutschen Staatsräson conta com contribuições de Bue Rübner Hansen, Leandros Fischer, Sami Khatib, Jewish Currents, Gerhard Hanloser, Emily Dische-Becker, Anna Younes, Alexander Gorski, 3ezwa, Nahed Samour, AK Beau Séjour e Alberto Toscano. Foi publicado em maio de 2026 pela Die Buchmacherei.

Colaboradores

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

Trümmer auf Trümmer é uma coletânea em língua alemã que reúne perspectivas críticas sobre a suposta responsabilidade do Estado alemão em apoiar Israel.

9 de março de 2026

As guerras no Oriente Médio ainda giram em torno do petróleo e do império

Gilbert Achcar explica como o petróleo, o poder dos EUA e as rivalidades regionais moldaram décadas de conflito no Oriente Médio — e por que o confronto com o Irã se encaixa em um longo padrão imperial.

Uma entrevista com
Gilbert Achcar


Incêndio deflagra no depósito de petróleo de Shahran, em Teerã, Irã, após ataques dos EUA e de Israel em 8 de março de 2026. (Hassan Ghaedi / Anadolu via Getty Images)

Entrevistado por
Bashir Abu-Manneh

Por que o Oriente Médio tem sido tão constantemente assolado por guerras? Em entrevista ao editor colaborador da revista Jacobin, Bashir Abu-Manneh, o economista político Gilbert Achcar argumenta que a resposta reside, sobretudo, na posição central da região na economia global do petróleo e nas estratégias das grandes potências que buscam controlá-la. Achcar discute a lógica da intervenção dos EUA, os limites da aliança EUA-Israel, a estratégia do Irã no conflito atual e as consequências regionais da doutrina imperial em evolução de Washington.

Bashir Abu-Manneh

É impossível falar do Oriente Médio sem falar de guerra. Provavelmente, é a região mais afetada por guerras no período pós-1945. Somente na última década e meia, muitas revoltas árabes degeneraram em prolongadas guerras civis. Sem mencionar a guerra sem fim de Israel contra os palestinos. Por que você acha que a guerra é tão prevalente na região?

Gilbert Achcar

Não há dúvida de que o Oriente Médio e o Norte da África (MENA) são, entre todas as regiões do mundo, as que testemunharam o maior número de conflitos armados desde 1945, com um número impressionante de guerras interestatais e intervenções estrangeiras. Esta última categoria aumentou exponencialmente após o colapso da URSS, quando os Estados Unidos se sentiram livres para intervir na região a partir da guerra de 1991 contra o Iraque. A Rússia seguiu o exemplo sob Vladimir Putin, a começar pela sua intervenção para apoiar o regime sírio em 2015.

A razão para esta prevalência da guerra é simples: é o que é frequentemente referido na região como a “maldição do petróleo”, o facto de o Golfo e os países vizinhos serem conhecidos desde a véspera da Segunda Guerra Mundial por possuírem as maiores reservas de petróleo do mundo, de um tipo particularmente rentável devido à relativa facilidade de extração.

O petróleo, ou mais precisamente os hidrocarbonetos, incluindo o gás natural, têm estado no centro da política do Médio Oriente e Norte de África desde o fim da guerra. O enorme interesse do imperialismo estadunidense na região, sustentado pelas grandes petrolíferas americanas, foi exemplificado pela famosa escala de Franklin Delano Roosevelt no Mar Vermelho em fevereiro de 1945, a caminho de regresso da crucial Conferência de Yalta, onde os Aliados discutiram a configuração do mundo pós-guerra. Aquele encontro a bordo do USS Quincy com o Rei Abdul Aziz, fundador do reino saudita, foi seguido pela construção de uma base da Força Aérea dos EUA em Dhahran, no coração dos principais campos de petróleo sauditas explorados pela então dominada pelos EUA, a Aramco (originalmente, Arabian American Oil Company), e estrategicamente localizada para fins da Guerra Fria.

Certa vez, chamei o reino saudita de o verdadeiro quinquagésimo primeiro estado da União Americana, um status de fato que detinha antes mesmo do nascimento do Estado de Israel. O reino e toda a região do Golfo têm sido e continuam sendo o centro da estratégia imperialista dos EUA no Hemisfério Oriental, apesar das inúmeras tentativas de burlar o senso comum explicando que “não se trata de petróleo” ou “não se trata apenas de petróleo”. Comentando a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, questionou em suas memórias por que “é politicamente inconveniente reconhecer o que todos sabem: a Guerra do Iraque é em grande parte sobre petróleo”.

A razão para essa prevalência de guerras é simples: é o que costuma ser chamado na região de "maldição do petróleo".

É claro que, para Washington, o petróleo não se resume apenas — ou sequer é sua principal preocupação — ao acesso dos EUA ao petróleo iraquiano ou do Golfo. Trata-se de controlar a enorme quantidade de dinheiro petrolífero retido pelos países do Golfo (seus fundos soberanos detêm mais de US$ 3 trilhões em ativos, quase 40% do total mundial mantido nesses fundos) e de se beneficiar de seu considerável poder de compra, especialmente no financiamento do complexo militar-industrial dos EUA. Trata-se também de controlar o acesso de outros países aos hidrocarbonetos do Golfo. Como David Harvey bem observou certa vez, “quem controla o Oriente Médio controla a torneira global do petróleo e quem controla a torneira global do petróleo pode controlar a economia global, pelo menos no futuro próximo”.

Isso também demonstra o quão equivocados estavam muitos que acreditaram que o aumento da produção de hidrocarbonetos de xisto nos Estados Unidos, combinado com a ascensão do poder da China, significava que o Oriente Médio havia perdido sua importância para Washington. Grande parte desse tipo de comentário ilusório foi direcionado ao famoso “pivô para a Ásia” do governo Obama. O que esses comentários ignoraram completamente é que controlar a “torneira de petróleo” do Golfo é crucial para a estratégia dos EUA em relação à China, cujas importações de petróleo provêm, em cerca de metade, do Golfo. As parcerias em curso entre as principais empresas de IA dos EUA e os estados árabes do Golfo – que levam à construção de centros de dados com alto consumo de energia, aproveitando a abundância de dinheiro e energia barata desses estados – adicionam um elemento importante à relevância geral da região para os Estados Unidos.

Por último, mas não menos importante, no caso específico do governo Trump, os consideráveis ​​interesses das famílias Trump, Kushner e Witkoff nos estados árabes do Golfo elevam o interesse de Washington na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA) em geral, e no Golfo em particular, a um ápice histórico, o que se traduziu em Donald Trump intervindo militarmente na região mais do que em qualquer outra parte do mundo.

Bashir Abu-Manneh

De fato, Trump se insere em uma longa linhagem de presidentes dos EUA que usam a força militar no Oriente Médio como parte central da estratégia americana. Quais são as causas imediatas e os objetivos políticos de longo prazo do ataque dos EUA ao Irã? O que explica a política da administração Trump em relação ao Irã?

Gilbert Achcar

Desde que a revolução iraniana de 1979 derrubou o regime do xá, Teerã, um importante aliado regional dos EUA, tornou-se um espinho incômodo no flanco dos Estados Unidos. As relações entre os dois países, no entanto, passaram por fases contrastantes: por mais estranho que pareça, houve fases de cooperação entre Washington e Teerã após 1979. Na década de 1980, os Estados Unidos e Israel apoiaram o esforço de guerra do Irã contra o Iraque no que ficou conhecido como o caso Irã-Contras. Naquela época, era do interesse deles prolongar a guerra entre o que consideravam dois estados rebeldes que ameaçavam seus interesses. Posteriormente, o Irã apoiou a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, por meio da conivência de seus aliados iraquianos com Washington.

Paradoxalmente, os militares dos EUA levaram consigo esses aliados e os instalaram no poder. O resultado foi que o Irã se tornou o principal beneficiário da invasão, eventualmente conquistando mais influência sobre o Iraque do que os Estados Unidos — uma das razões pelas quais o Iraque é considerado um grande fiasco na história imperial dos EUA, comparável ao Vietnã.

Tanto os Estados Unidos quanto Israel — não apenas o governo de Netanyahu, mas toda a elite sionista no poder — querem pôr fim ao programa nuclear do Irã.

O acordo nuclear que o governo Obama concluiu com Teerã em 2015 não impediu o Irã de expandir ainda mais sua influência regional, impulsionada pela intervenção na Síria ao lado do regime de Bashar al-Assad a partir de 2013 e pela tomada do norte do Iêmen pelos houthis em 2014. Nessa expansão regional, Teerã explorou tanto o ressentimento anti-Israel e anti-EUA quanto a lealdade sectária xiita. Essa é a principal crítica dirigida por Trump, Benjamin Netanyahu e as principais monarquias do Golfo a Obama, a quem todos criticam por ter concluído o acordo nuclear em um momento em que a expansão do poder regional de Teerã estava a todo vapor, sem dar a devida atenção à contenção dessa expansão. Pelo contrário, o acordo melhorou a situação econômica do Irã, facilitando, assim, sua política regional.

Considerando todos os motivos que mencionamos, fica claro o forte raciocínio por trás da política de Trump em relação ao Irã. Por meio do ataque atual, ele espera alcançar o domínio sobre aquele país, o que completaria e ampliaria enormemente o domínio dos EUA sobre o Golfo, bem como sobre toda a região do Oriente Médio e Norte da África.

Bashir Abu-Manneh

Esta guerra parece ser a realização de um sonho para Netanyahu. Os objetivos e metas de guerra dos EUA são os mesmos que os de Israel ou existem divergências significativas?

Gilbert Achcar

Há convergências e divergências, sem dúvida. As convergências são óbvias: tanto os Estados Unidos quanto Israel — não apenas o governo de Netanyahu, mas toda a elite sionista no poder — querem acabar com o programa nuclear do Irã. Israel vê essa questão como uma ameaça existencial, que coloca em risco seu status atual como o único Estado com armas nucleares na região. Washington vê a futura posse de armas nucleares pelo Irã, não tão hipotética assim, como um grande fator de dissuasão, já que Teerã poderia ameaçar bombardear campos de petróleo árabes vizinhos, provocando um desastre para os interesses dos EUA e para a economia global. Tanto Washington quanto Israel têm um claro interesse em reduzir a influência regional do Irã.

Há também divergências, embora não sejam tão óbvias quanto as convergências. De modo geral, raramente houve uma sobreposição total entre os objetivos de Israel e os dos Estados Unidos. Considere a primeira grande guerra israelense a serviço dos interesses americanos: a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, na qual Israel infligiu um duro golpe aos dois estados árabes que então se opunham radicalmente ao imperialismo americano — o Egito, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, e a Síria, sob a liderança da ala esquerda do partido nacionalista árabe Baath. Israel aproveitou a oportunidade da guerra de 1967 para completar a tomada de toda a Palestina sob mandato britânico, do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo, principalmente às custas da monarquia jordaniana — um aliado fiel dos EUA que governava a Cisjordânia desde sua anexação em 1949. Certamente, isso não era algo que Washington desejasse.

Na ofensiva contínua contra o Irã, a divergência torna-se cada vez mais visível a cada vez que Netanyahu defende uma “mudança de regime” e apoia a restauração da monarquia sob Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, enquanto Trump rejeita este último, assim como fez com a líder da oposição venezuelana de direita, María Corina Machado, após o sequestro de Nicolás Maduro. Compare a posição de Netanyahu com a declaração franca de Trump à Fox News em 6 de março: “Vai funcionar muito facilmente. Vai funcionar como funcionou na Venezuela. Temos uma líder maravilhosa lá. Ela está fazendo um trabalho fantástico. E vai funcionar como na Venezuela”, disse ele, referindo-se à presidente interina Delcy Rodríguez.

Trump também disse estar aberto à possibilidade de ter um líder religioso no Irã. “Bem, talvez sim, quer dizer, depende de quem seja a pessoa. Não me importo com líderes religiosos. Lido com muitos líderes religiosos e eles são fantásticos”, afirmou. Questionado se insistia na necessidade de um Estado democrático, Trump disse à CNN: “Não, estou dizendo que precisa haver um líder justo e imparcial. Que faça um ótimo trabalho. Que trate bem os Estados Unidos e Israel, e que trate bem os outros países do Oriente Médio — todos eles são nossos parceiros.”

A questão central é que, enquanto Netanyahu e toda a elite sionista do poder veriam com bons olhos o colapso do Estado iraniano, o que se encaixaria perfeitamente em seu projeto de longa data de fragmentar o ambiente regional, o colapso e a fragmentação do Estado iraniano, cuja população, em quase metade, é composta por minorias étnicas, seriam um desastre para os interesses regionais dos EUA. Isso porque desestabilizaria enormemente toda a região, começando pelos aliados mais próximos de Washington. Este último grupo certamente apoia o objetivo dos EUA no ataque contra o Irã, mas, igualmente, rejeita o objetivo de Israel — sem mencionar que, sendo todos estados despóticos, só podem ressentir-se da hipócrita defesa da “democracia” por Netanyahu no Irã.

Sob o governo Trump, em seu segundo mandato, os Estados Unidos adotaram uma versão modernizada da "diplomacia das canhoneiras" do século XIX.

Para entender o que chamei de “doutrina imperial antiga-nova” de Trump, é preciso ter em mente as lições do Iraque, que Trump observou atentamente. O desmantelamento do Estado iraquiano por Washington, após a ocupação do país em 2003, levou a um caos que facilitou a dominação do Irã sobre a maioria árabe xiita e a disseminação da insurgência anti-EUA entre os árabes sunitas, que mais tarde se transformou no Estado Islâmico do Iraque e da Síria. A conclusão foi que, em vez de “mudança de regime” — defendida pelos neoconservadores que dominaram o Departamento de Defesa durante o primeiro mandato de George W. Bush e que contavam com o apoio de Donald Rumsfeld e Dick Cheney — os Estados Unidos deveriam impor sua vontade aos regimes existentes, tal como se apresentam, independentemente de suas características.

Poderíamos dizer que os Estados Unidos, sob o segundo mandato de Trump, adotaram uma versão modernizada da "diplomacia das canhoneiras" do século XIX, quando as grandes potências impunham sua vontade sobre os Estados mais fracos ameaçando bombardeá-los ou, de fato, bombardeando-os caso resistissem. Naquela época, não havia preocupação com a natureza dos governos — apenas a vontade descarada de impor grosseiramente interesses imperialistas a países mais fracos.

Bashir Abu-Manneh

Muitos opositores estadunidenses do ataque conjunto EUA-Israel ao Irã, tanto na esquerda quanto na direita e na extrema-direita, o consideram injustificado, especialmente porque o Irã não representa uma ameaça iminente aos Estados Unidos. Para justificá-lo, recorrem à ideia de que os EUA estão fazendo o jogo de Israel. A guerra, mais uma vez, traz à tona a questão de se Israel e seu lobby determinam e distorcem a política externa americana no Oriente Médio. Qual a sua opinião sobre a aliança EUA-Israel e suas causas subjacentes, tanto historicamente quanto na atualidade?

Gilbert Achcar

Bem, pelo que expliquei sobre as divergências entre Washington e Israel, deve ficar claro que o rabo de Israel não está abanando o pitbull americano. Os dois países têm interesses convergentes em criticar o Irã, como estão fazendo atualmente em conjunto, mas não compartilham os mesmos objetivos. Quanto à declaração muito comentada de Marco Rubio dizendo,

Sabíamos que haveria uma ação israelense, sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas e sabíamos que, se não os atacássemos preventivamente antes que lançassem esses ataques, sofreríamos baixas ainda maiores,

a verdade é que essa declaração foi amplamente mal interpretada.

Para entender essa afirmação, é preciso considerar que um elemento central da nova doutrina Trump de “mudança de comportamento por um regime” em vez de “mudança de regime” — nas palavras acertadas do presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, comentando o ato de pirataria dos EUA na Venezuela — é a eliminação dos líderes do regime considerados um obstáculo à mudança de comportamento. Como não era possível nem útil sequestrar o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, a única opção restante era assassiná-lo, uma arte na qual Israel e seu Mossad, o equivalente israelense da CIA, se tornaram especialistas renomados. Washington, portanto, confiou em seu parceiro menor para executar essa tarefa. Sabemos, por meio de uma investigação conduzida pelo Financial Times, que Israel identificou uma oportunidade particularmente favorável no sábado.

Quando a CIA e Israel determinaram que Khamenei realizaria uma reunião na manhã de sábado em seus escritórios perto da Rua Pasteur, a oportunidade de assassiná-lo, juntamente com grande parte da alta cúpula do Irã, tornou-se especialmente oportuna.

Os militares dos EUA abriram caminho para que caças israelenses bombardeassem o complexo de Khamenei, lançando ciberataques que "interromperam, degradaram e cegaram a capacidade do Irã de ver, comunicar e responder", segundo o General Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA.

Agora, ao afirmarem que o rabo de Israel abana o pitbull americano, conservadores — como John Mearsheimer, Stephen Walt e a ala do movimento MAGA representada por Tucker Carlson — tentam obscurecer a realidade do imperialismo americano e atribuir seus fracassos ao lobby israelense, se não aos "judeus", como no caso de Carlson.

A "relação especial" de Washington com o Estado sionista se deve ao fato de considerar este último como um guardião dos interesses regionais dos EUA.

O famoso best-seller de 2007 de Mearsheimer e Walt abordou a questão da fracassada invasão americana do Iraque, como se o governo de George W. Bush, repleto de membros do Projeto para um Novo Século Americano que haviam pressionado Bill Clinton a favor da invasão, precisasse do lobby israelense para aproveitar a oportunidade oferecida pelos ataques de 11 de setembro de 2001 e invadir o Iraque. Isso em um momento em que o Iraque estava completamente exausto após oito anos de guerra com o Irã, seguidos por doze anos de um embargo debilitante e criminoso imposto pelos EUA. Na verdade, Israel teria preferido que os Estados Unidos atacassem o Irã naquela época. Certamente, Israel ressentia-se do fato de Washington ter enviado aliados de Teerã para o seu território e os ter instalado no poder em Bagdá.

A “relação especial” de Washington com o Estado sionista se deve ao fato de o considerar um guardião dos interesses regionais dos EUA — um aliado militar altamente eficiente, capaz de compensar quando a intervenção americana é impedida por fatores internos, ou de complementá-la de forma eficaz, como visto agora no ataque conjunto contra o Irã, bem como no ataque anterior, em junho passado. Qualquer ajuda militar concedida por Washington a Israel é insignificante em comparação com o gigantesco orçamento militar americano, e certamente é um investimento de excelente custo-benefício se comparado ao efeito marginal da mesma quantia se adicionada aos gastos do Pentágono. Por vezes, um fator ideológico pode fortalecer o apoio de Washington a Israel, como foi o caso de Joe Biden, certamente o presidente americano mais genuinamente e firmemente sionista de todos os tempos, e orgulhoso disso.

Bashir Abu-Manneh

Em sua resposta à agressão israelense-americana, o Irã está fazendo o que sempre disse que faria: atacar os interesses dos EUA na região, inclusive nos países do Golfo. Quais são os objetivos do Irã nesta guerra, e o regime impopular do Irã sobreviverá?

Gilbert Achcar

Os objetivos do Irã ao espalhar a guerra por toda a região são muito claros e, de fato, foram declarados em forma de ameaça muito antes do início do ataque. Essa é, na verdade, a única carta militar do Irã para enfrentar o ataque: além de bombardear Israel e as forças americanas dentro de seu alcance, busca criar uma perturbação tão grande nos estados do Golfo e em suas exportações de petróleo que exerça uma pressão significativa sobre a economia global e sobre esses estados, levando-os, por sua vez, a pressionar Washington para interromper o ataque o mais rápido possível.

É bem possível que os levantes populares contra o governo recomecem após o fim da guerra, mas é difícil imaginar que as pessoas sairiam às ruas de Teerã sob os bombardeios.

Quanto à sobrevivência do governo iraniano, não vejo, no momento, nenhuma perspectiva crível de queda. O levante popular contra o governo pode muito bem recomeçar após o fim da guerra, mas é difícil imaginar que as pessoas sairiam às ruas de Teerã sob os bombardeios. E mesmo que isso acontecesse, não existe nenhuma força de oposição organizada no Irã capaz de derrubar a República Islâmica. Diante do levante que começou no final do ano passado e se tornou o maior que o Irã já testemunhou desde a revolta que derrubou o xá em 1979, o regime teocrático demonstrou que não hesitará em matar milhares e milhares de pessoas para garantir sua sobrevivência. O único cenário alternativo seria uma divisão das forças armadas iranianas — como entre o exército regular e a Guarda Revolucionária, a espinha dorsal armada do governo — levando a uma guerra civil semelhante à da Síria. Mas esse é precisamente o pesadelo de Washington, embora seja o sonho de Israel.

Isso explica a insistência de Trump em desejar uma mudança interna, chegando a cogitar cooperar com "líderes religiosos" que sejam favoráveis ​​aos interesses dos EUA. Por ora, o regime iraniano parece ter optado por continuar o confronto, elegendo Mojtaba, filho de Khamenei, como novo Líder Supremo. Se Trump conseguirá o que deseja ou se o regime iraniano manterá sua posição, é uma incógnita no momento, embora os indícios iniciais apontem para a segunda opção.

Bashir Abu-Manneh

E quanto ao seu próprio país, o Líbano? Israel não parou de bombardeá-lo desde 7 de outubro, e o Hezbollah está severamente enfraquecido, tanto militar quanto politicamente, tendo perdido grande parte do apoio popular que tinha quando lutou contra Israel em 2006, especialmente depois de intervir ao lado do brutal regime de Assad. Para onde está indo o Hezbollah?

Gilbert Achcar

Israel vê o Hezbollah exclusivamente como um representante de Teerã. Mas o Hezbollah também é um partido de massas que defende a mesma mistura ideológica de Teerã: antissionismo, oposição à hegemonia dos EUA, sectarismo xiita e fundamentalismo islâmico. Isso significa que, assim como em seu ataque para destruir o Hamas, Israel está tentando eliminar o Hezbollah por meio de uma combinação de ataques diretos, incluindo a decapitação do movimento no outono de 2024, com a estratégia de contrainsurgência testada e comprovada chamada "drenar o mar" — ou seja, atacar a base popular que apoia o inimigo para levá-la a se desvincular dele e, eventualmente, se voltar contra ele.

A versão israelense dessa estratégia é conhecida como Doutrina Dahiya, em referência aos subúrbios do sul de Beirute (dahiya significa subúrbio em árabe), densamente povoados por uma maioria xiita, que foram alvos de intensos ataques e em grande parte destruídos durante a ofensiva israelense contra o Hezbollah em 2006, juntamente com outras áreas libanesas pró-Hezbollah de maioria xiita. É isso que Israel está infligindo novamente ao Líbano, de forma ainda mais brutal do que em 2006 ou 2024, com a intenção de forçar as forças governamentais libanesas a coagir o Hezbollah a se desarmar. É difícil prever como tudo isso terminará, já que depende muito do resultado da ofensiva em curso contra o Irã.

Permita-me um último comentário a esse respeito. Em sua guerra genocida contra Gaza, apresentada como um ataque ao Hamas, assim como em seu ataque assassino ao Líbano, visando o Hezbollah, Israel, por uma das amargas ironias de sua história, está agindo de maneira bastante semelhante ao que geralmente é visto como um exemplo inicial da estratégia de "drenar o mar": a brutal repressão, pelo Império Romano, no século II d.C., da revolta judaica contra ele, liderada por Simon bar Kokhba.

É como se o Estado sionista estivesse ansioso para imitar todos os opressores históricos dos judeus, da antiguidade ao século XX, infligindo tratamento semelhante aos povos do Oriente Médio. A "imitação darwiniana" dos antissemitas pelos sionistas, prevista pelo fundador do sionismo político, Theodor Herzl, é verdadeiramente completa.

Colaboradores

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

Bashir Abu-Manneh leciona na Escola de Estudos Clássicos, Inglês e História da Universidade de Kent e é editor colaborador da revista Jacobin.

16 de fevereiro de 2026

O imperialismo de Donald Trump segue uma tradição americana sombria

Há algo de hipócrita na redescoberta, pela mídia liberal ocidental, de que o termo “imperialismo” também se aplica aos EUA. Donald Trump não representa uma ruptura radical com seus antecessores; ele simplesmente abandona a pretensão de exportar democracia.

Gilbert Achcar

Tradução de
George Miller


Donald Trump sempre se orgulhou de ser um “durão” que não hesitará em atacar quando necessário. (Celal Gunes / Anadolu via Getty Images)

Seria preciso uma memória altamente seletiva para considerar o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, em 3 de janeiro, como um retorno de Washington a uma política imperialista que supostamente abandonou em 1945, ou mesmo em 1918.

Há algo de hipócrita no súbito reaparecimento do termo “imperialista” nos veículos de comunicação ocidentais, que antes o aplicavam apenas à Rússia. Para nos limitarmos ao período pós-Guerra Fria, foi de maneira muito semelhante que Washington retomou as operações militares em larga escala em 1989, sob o governo do presidente George H. W. Bush, após longos anos de "síndrome do Vietnã". Assim como a recente intervenção na Venezuela, a invasão do Panamá e o sequestro de seu ditador, Manuel Noriega, em flagrante violação do direito internacional, também foram apresentados como uma operação policial antidrogas.

Isso deu início a uma nova sequência de intervenções americanas, culminando na invasão do Iraque em 2003, sob o governo de George W. Bush. As ocupações do Iraque e do Afeganistão após os ataques de 11 de setembro de 2001 rapidamente se transformaram em atoleiros dos quais os Estados Unidos só conseguiram se desvencilhar após perdas significativas — em 2011, no caso do Iraque, e uma década depois, no caso do Afeganistão.

Esses dois grandes fracassos — o do Iraque, em particular, por envolver riscos muito maiores e mobilizar recursos americanos muito mais abundantes — reacenderam a síndrome do Vietnã. As lições aprendidas com a experiência anterior — evitar qualquer ocupação prolongada, estabelecer objetivos limitados, usar força maciça inicialmente, mas por um curto período, priorizar ataques remotos em vez do envio de tropas terrestres — foram revigoradas, após terem sido deliberadamente ignoradas pelo governo de George W. Bush. Seu sucessor, Barack Obama, que se orgulhava de ter se oposto à invasão do Iraque, bateu recordes no uso de ataques remotos, especialmente com drones. Donald Trump seguiu o mesmo caminho durante seu primeiro mandato, assim como Joe Biden.

O que há de tão novo, então, no ato de pirataria internacional de Trump na Venezuela? Ele tem sido caracterizado como um retorno à política de “mudança de regime” abandonada após o desastre iraquiano. Mas isso demonstra uma incompreensão tanto do significado do termo quanto da política de Trump. A expressão em si se refere, sobretudo, à ocupação do Iraque. A ideia ganhou força durante o primeiro mandato de George W. Bush, quando sua administração era composta em grande número por neoconservadores, principalmente no Departamento de Defesa, que defendiam o fim de uma longa tradição de políticas “realistas”, que toleravam ditaduras, mesmo as mais brutais, desde que servissem aos interesses dos EUA.

Com o fim da Guerra Fria, o novo papel ostensivo de Washington era o de fazer jus às suas palavras, promovendo mudanças democráticas em escala global. A mudança de regime no Iraque deveria ocorrer juntamente com a construção de uma nação: a criação de um novo Estado sob a tutela dos Estados Unidos como potência ocupante, nos moldes do que havia acontecido na Alemanha Ocidental e no Japão após 1945. O Iraque estava destinado a se tornar o exemplo de mudança democrática no Oriente Médio. Tão convincente seria seu exemplo que, combinado com a pressão dos EUA, levaria os outros Estados da região a imitar esse modelo virtuoso, e Washington finalmente seria capaz de criar um mundo à sua própria imagem.

É evidente que tal perspectiva não era atraente para as autocracias do Oriente Médio, a começar pelos próprios estados vassalos de Washington, que há muito se beneficiavam da acomodação "realista" do soberano americano com seu despotismo. Essas autocracias vassalas lançaram uma batalha contra os neoconservadores dentro do governo Bush, contando com o apoio do Departamento de Estado e da CIA. Os sauditas, em particular, buscaram persuadir o presidente americano a abandonar qualquer ambição de reconstruir fundamentalmente o regime em Bagdá.

Juntamente com o aliado iraquiano da CIA (e posteriormente primeiro-ministro) Ayad Allawi, eles propuseram a Bush que colaborasse com a liderança do exército, ajudando-os a depor Saddam Hussein e reorientar o Iraque em uma direção compatível com os interesses regionais dos EUA. "Nossa ideia era eliminar a elite e deixar o resto do regime intacto", disse Allawi posteriormente.

Ao tomarem conhecimento disso, os aliados dos neoconservadores no Iraque, liderados por Ahmed Chalabi, soaram o alarme na mídia, acusando uma camarilha árabe-americana de querer perpetuar o saddamismo sem Saddam. Com o apoio do primeiro-ministro britânico Tony Blair, os neoconservadores prevaleceram. Mas o plano deles se provaria catastrófico para os Estados Unidos: o desmantelamento do Estado iraquiano em nome da “desbaathificação”, inspirado pela desnazificação da Alemanha, mergulhou no caos, permitindo que o Irã dominasse a maioria xiita do país e que uma insurgência anti-americana e anti-xiita se desenvolvesse nas regiões árabes sunitas, tendo a Al-Qaeda como sua principal força.

Em 2004, Chalabi foi acusado de trabalhar para Teerã e repudiado por Washington. Os neoconservadores foram expulsos do governo no ano seguinte e, em 2006, o Congresso americano formulou uma estratégia de saída, deixando os sonhos de democracia definharem.

A partir de então, a lição do Iraque passou a ser que o erro fatal havia sido desmantelar o aparato estatal, que deveria ter sido mantido para governar o país. Assim, com a democratização imposta pelos militares descartada, Obama tentou a democratização de baixo para cima. Ele buscou apoiar os levantes da Primavera Árabe com a ajuda do Catar, apostando na cooptação dos protestos pela Irmandade Muçulmana. O fracasso dessa estratégia alternativa — notadamente a reafirmação do controle militar no Egito em 2013, com o apoio de Riad e contra a vontade de Washington — acelerou seu declínio.

Apenas o caminho defendido pela liderança saudita antes da ocupação do Iraque permaneceu em vigor: a ideia de que, quando grandes interesses estão em jogo, é melhor forçar os regimes existentes a se adequarem aos desejos de Washington do que tentar derrubá-los e correr o risco de criar o caos.

Essa lição não passou despercebida por Trump. Ele reagiu ao desastre no Iraque defendendo o uso da força para se apoderar dos recursos petrolíferos do país, de uma maneira que mais tarde caracterizaria sua presidência. Em 2011, último ano da ocupação americana do Iraque, ele repreendeu Obama por abandonar o país sem ter assumido o controle do petróleo. Em "Time to Get Tough" (Hora de Ser Duro), livro que definiu o tom de sua futura campanha presidencial, Trump abordou o Iraque em um capítulo intitulado "Tomar o Petróleo", sob o subtítulo "Aos Vencedores, os Despojos". Os Estados Unidos, argumentou ele, precisavam se apoderar do petróleo iraquiano — deixando uma porcentagem para o próprio Iraque — a fim de impedir que o Irã se apoderasse dele. Esse é o mesmo argumento que ele usou recentemente para justificar seus planos em relação à Venezuela e à Groenlândia, ambas ameaçadas, segundo ele, pela expansão chinesa e russa.

Tendo se tornado extremamente crítico de mudanças de regime que visavam implantar a democracia, Trump chegou às conclusões lógicas. Em seu primeiro mandato, negociou a retirada dos EUA do Afeganistão com o Talibã — uma retirada concluída sob o governo Biden de forma desastrosa, como é sabido. Inspirado pela lição do Iraque, seu governo, em 2018, cultivou laços com oficiais militares venezuelanos que preparavam um golpe em Caracas, oficiais que, no entanto, figuravam na lista de Washington de figuras do regime acusadas de crimes e envolvimento com o narcotráfico. Sua primeira tentativa foi sufocada logo no início. Uma segunda, em abril de 2019, também fracassou, por não ter conseguido mobilizar o exército ou a população.

Uma figura chave nessa última tentativa foi Manuel Cristóvão Figuera, diretor-geral do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional da Venezuela (SEBIN), que havia sido alvo de sanções dos EUA em fevereiro de 2019 por “tortura em massa, violações em massa dos direitos humanos e perseguição em massa contra aqueles que desejam mudanças democráticas na Venezuela”.

Após a tentativa de golpe, Figuera fugiu para os Estados Unidos, onde as sanções contra ele foram, previsivelmente, suspensas. O fracasso, no entanto, foi amargo para Trump, que, em nome da democracia, havia sido pressionado por sua equipe do primeiro mandato a reconhecer Juan Guaidó (presidente da Assembleia Nacional, então dominada pela oposição) como presidente da Venezuela. Esse revés intensificou sua aversão a invocar a causa democrática.

A primeira viagem política de Trump ao exterior em seu segundo mandato, no ano passado, foi, assim como no primeiro, à Arábia Saudita. Embora tenha criticado duramente a própria ideia de promover a democracia no Oriente Médio, ele também afirmou não ter muita inclinação pelo uso da força. Essa retórica vazia, combinada com suas pretensões de ser um pacificador de olho no Prêmio Nobel, fomentou uma impressão enganosa de Trump que o associa ao isolacionismo — uma tendência política tradicionalmente ligada à extrema direita americana — e até mesmo ao pacifismo.

Mas Trump sempre se orgulhou de ser um "durão" que, ao contrário de Obama, não hesitará em atacar quando necessário, como fez na Síria e no Iraque, entre outros lugares, em seu primeiro mandato, e tem feito com muito mais frequência desde o início do segundo. A lista de países alvos das forças americanas desde janeiro de 2025 já é considerável: Iêmen, Somália, Iraque, Irã, Síria e Nigéria, além de ataques no Caribe relacionados à Venezuela.

Ao contrário da reputação de imprevisibilidade que cultiva, a política neoimperialista de Trump está longe de ser incoerente. Ela é naturalmente ditada por sua visão dos interesses materiais e estratégicos dos Estados Unidos — e, às vezes, por seus próprios interesses pessoais e familiares. A lição do Iraque está no cerne de sua abordagem, como fica claro no caso da Venezuela: ele já não se preocupa em fingir que está promovendo a democracia e não exigiu eleições livres. Ele chegou até mesmo — por ora — a marginalizar María Corina Machado, a principal figura da oposição venezuelana, que antes contava com o apoio de países ocidentais.

Trump se vangloria dos contatos que seu governo estabeleceu dentro do regime de Maduro, inclusive com a vice-presidente, Delcy Rodríguez, agora presidente interina. Ele acredita que, após essa demonstração de força — e diante da ameaça constante de novas ações militares e do endurecimento do controle dos Estados Unidos sobre a economia do país — o governo venezuelano não tem outra escolha senão acatar suas exigências e os interesses da Chevron, a principal petrolífera americana que opera na Venezuela, e de outros aliados de Trump. Como bem disse Mike Johnson, presidente republicano da Câmara dos Representantes: “Isso não é uma mudança de regime, mas uma mudança de comportamento por parte de um regime”. A mesma abordagem está por trás da insistência de Trump para que Cuba e o Irã “façam um acordo” com ele — sob coação, é claro.

A política neoimperialista de Trump em seu segundo mandato combina um cinismo que alguns confundem com honestidade com uma política de força bruta a serviço de uma visão de mundo que demonstra uma predileção tanto pelo supremacismo (América Primeiro) quanto pelo lebensraum — a “Doutrina Donroe”, uma nova versão da Doutrina Monroe que reivindicava as Américas como domínio exclusivo dos Estados Unidos.

E se Trump não está hipocritamente se apresentando como um defensor da democracia, como fizeram seus antecessores, isso não se deve a qualquer relutância em interferir nos assuntos de outros países. Ele e membros de sua administração — com J. D. Vance à frente — apoiam abertamente seus pares ideológicos onde quer que estejam — especialmente na América Latina, como ele demonstrou recentemente na Argentina e no Brasil.

Colaboradores

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

George Miller é tradutor da edição em inglês do Le Monde diplomatique.

12 de novembro de 2025

A tentativa de encobrir a imagem de Ahmed al-Sharaa

O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, acaba de ser recebido na Casa Branca de Donald Trump. Sua visita representa a aceitação, por Washington, de um governo sectário com pouco respeito pela democracia.


O nome de Ahmed al-Sharaa foi retirado da lista de "terroristas" procurados pelos EUA, que ofereciam uma recompensa de dez milhões de dólares por sua captura. (Ibrahim Ezzat / NurPhoto via Getty Images)

Um convite para visitar a Casa Branca sempre foi o ápice da manipulação política, pelo menos da perspectiva ocidental. Na Sala Oval, nesta segunda-feira, estava Ahmed al-Sharaa, que da noite para o dia se transformou de Abu Mohammad al-Julani, o emir do grupo dissidente da Al-Qaeda, Hay'at Tahrir al-Sham (HTS, anteriormente Jabhat al-Nusra), em Ahmed al-Sharaa, o presidente da República Árabe da Síria, trocando seu uniforme cáqui jihadista por um terno e gravata ocidentais.

Donald Trump o recebeu atrás de sua mesa, como se o estivesse interrogando antes de conceder a aprovação. Apenas três dias antes, o nome de al-Sharaa/al-Julani havia sido retirado da lista de "terroristas" procurados pelos EUA, com uma recompensa de dez milhões de dólares por sua captura, vivo ou morto, como um vilão saído diretamente de um faroeste de Hollywood.

A visita de al-Sharaa à Casa Branca ocorreu menos de um mês depois de outra visita ainda mais surpreendente — embora esta tenha atraído muito menos atenção da mídia ocidental: seu encontro com Vladimir Putin no Kremlin, em Moscou. O que é ainda mais surpreendente é que al-Sharaa lutava contra as tropas russas há anos, ao contrário dos Estados Unidos, para os quais estendeu a mão na luta contra o Estado Islâmico, principalmente por meio de seus laços com a Turquia, membro da OTAN. Mesmo assim, al-Sharaa não hesitou em apertar a mão do homem em grande parte responsável pela destruição da Síria e pela morte de seu povo na defesa do regime de Bashar al-Assad — inimigo declarado de al-Sharaa, para quem Moscou ofereceu refúgio.

Esses eventos impressionantes são agravados pela convergência de potências regionais rivais — Turquia, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outras — que cortejam al-Sharaa. O Irã, no entanto, não se juntou a esse coro, devido às tensões sectárias entre suas políticas e as da HTS. Enquanto isso, Israel trata o novo regime de Damasco de forma semelhante à maneira como lida com o Líbano: com pressão militar visando alcançar seus objetivos.

Este é um governo sectário, um projeto ditatorial e um regime corrupto que continua o nepotismo familiar que caracterizou o governo dos Assad.

O objetivo de Israel é trazer tanto a Síria quanto o Líbano para o âmbito da “normalização” árabe — estabelecendo relações amistosas com o Estado sionista — sob duas condições: confronto com o Hezbollah no Líbano para desarmá-lo e reconhecimento, por Damasco, da soberania de Israel sobre as Colinas de Golã, que Israel ocupou em 1967 e anexou em 1981. Trump reconheceu oficialmente essa anexação durante seu primeiro mandato.

Em meio a todas essas manobras geopolíticas, a situação da Síria permanece bastante precária. O novo governo não tem poder para controlar o país e é incapaz de disciplinar os grupos armados dos quais depende há anos. Os massacres sectários aprofundaram os temores entre as minorias religiosas da Síria, que agora acreditam que a segurança sob o novo regime só pode ser alcançada pela força. Nesse sentido, os curdos no nordeste da Síria deram o exemplo ao criar uma região autônoma para autoproteção. De fato, o novo regime em Damasco é a antítese do que a Síria realmente precisa: distanciamento de todo sectarismo, juntamente com democracia e integridade. Em vez disso, trata-se de um governo sectário, um projeto ditatorial e um regime corrupto que perpetua o nepotismo familiar que caracterizou o governo Assad.

Mercado imobiliário

O que está por trás dos inúmeros paradoxos que surgiram desde que al-Sharaa substituiu Assad no palácio presidencial construído pelo pai de Assad? A resposta reside na projeção dos desejos de cada facção sobre o novo regime, combinada com o oportunismo desenfreado de al-Sharaa. Na verdade, as monarquias árabes do petróleo fizeram tudo ao seu alcance para transformar a revolução síria, de um levante democrático popular, em uma guerra jihadista sectária, coerente com seu próprio caráter despótico. Hoje, essas mesmas monarquias temem que a Síria pós-Assad possa ser pior do que o país durante a guerra civil — que o terrorismo jihadista, exportado da Síria há mais de uma década, possa se intensificar.

Os países ocidentais compartilham esses temores, assim como a Rússia e até mesmo a China, que permanece cautelosa em relação ao novo governo sírio. Pequim está particularmente preocupada com a presença, entre as tropas de al-Sharaa, de combatentes jihadistas originários da população muçulmana da China.

Os interesses econômicos também desempenham um papel crucial, é claro. O mercado de reconstrução da Síria é gigantesco, muito superior ao mercado de reconstrução de Gaza, que tanto atraiu os sonhos extravagantes de Trump de criar uma “Riviera”. O Banco Mundial estimou o mercado de reconstrução da Síria entre US$ 140 bilhões e US$ 340 bilhões, considerando que o custo mais provável seja em torno de US$ 215 bilhões. As monarquias do Golfo investiram bilhões em projetos imobiliários e turísticos, principalmente no Egito. Elas já haviam começado a investir na Síria sob o regime de Assad, antes da revolta de 2011.

Declarar confiança no novo regime em Damasco é um prelúdio necessário para deportar refugiados de volta à Síria sob o pretexto de que o país agora é “seguro”.

A mera menção de “imóveis” imediatamente remete a Trump, sua família e seus associados, para quem a especulação imobiliária desempenha um papel fundamental em sua conduta política. Al-Sharaa está bem ciente disso, tendo expressado seu desejo de ver uma Trump Tower construída em Damasco quando se buscava agendar um encontro entre ele e Trump durante a visita deste último ao reino saudita em maio. A perspectiva de se beneficiar do mercado de reconstrução da Síria — embora ainda seja altamente hipotética — provavelmente influencia a posição do presidente dos EUA.

A mesma lógica se aplica a países europeus como a França. O presidente Emmanuel Macron está emulando seus antecessores, buscando garantir uma fatia do bolo econômico árabe (atraindo dólares do petróleo e do gás, obtendo contratos de construção, exportando armas, etc.) ao adotar uma política externa mais alinhada ao consenso árabe oficial do que à de Washington. Assim, Macron se apressou em se encontrar com al-Sharaa no Palácio do Eliseu antes do encontro do líder sírio com Trump em Riad.

Por fim, os líderes europeus tentam apaziguar a extrema direita em seus países buscando expulsar refugiados sírios. Declarar confiança no novo regime em Damasco é um prelúdio necessário para deportar refugiados de volta à Síria sob o pretexto de que o país agora é “seguro”, apesar das óbvias contradições nessa afirmação. Na semana passada, o chanceler alemão Friedrich Merz anunciou que havia convidado al-Sharaa a Berlim para discutir as condições para o retorno dos refugiados sírios. Merz havia criticado anteriormente a decisão da então chanceler Angela Merkel de abrir as portas da Alemanha para refugiados dez anos antes.

Esses diversos fatores — que vão de interesses econômicos a manobras políticas — ajudam a explicar o estranho paradoxo de países se esforçando para encobrir al-Sharaa e obter favores de um regime que era considerado uma entidade terrorista há poucos meses. É um espetáculo apropriado para o estado da política global nesta era Trump.

Traduzido do original em árabe publicado no jornal londrino Al-Quds al-Arabi em 11 de novembro de 2025.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

25 de setembro de 2025

Reconhecer um estado palestino não significa uma Palestina livre

Os planos ocidentais para um estado palestino estão muito aquém da autodeterminação palestina, impondo limites rígidos à sua futura soberania.

Gilbert Achcar

Jacobin

Líderes europeus buscaram uma postura simbólica ao reconhecer o Estado palestino como forma de compensar sua cumplicidade na guerra genocida em Gaza. (Omar al-Qattaa / AFP via Getty Images)

O governo formado no final de 2022 por Benjamin Netanyahu, juntamente com grupos sionistas ainda mais radicais que seu próprio partido de extrema direita, é o mais extremista da história do estado. Menos de dez meses após sua formação, este governo aproveitou a oportunidade encontrada na operação de 7 de outubro de 2023 para travar uma guerra genocida na Faixa de Gaza que superou em horror todas as guerras anteriores de Israel.

Isso ocorreu sob um presidente americano que professava abertamente seu sionismo, enquanto o impacto da Operação Inundação de Al-Aqsa criou um clima que levou a maioria dos outros governos ocidentais a declarar seu apoio irrestrito à terrível agressão lançada pelas Forças Armadas israelenses, sob o pretexto de endossar o direito de Israel à "autodefesa". Essas circunstâncias combinadas encorajaram o governo de extrema direita de Israel a perpetrar genocídio na Faixa de Gaza, destruindo-a com extrema brutalidade, e a buscar expulsar seus moradores remanescentes, ao mesmo tempo em que apertava o cerco à população da Cisjordânia em preparação para sua própria expulsão.

Muitos governantes ocidentais, juntamente com os árabes, presumiram que a agressão israelense se limitaria a eliminar o controle do Hamas sobre a Faixa de Gaza, que poderia, assim, ser devolvida à Autoridade Palestina (AP), sediada em Ramallah. Para tanto, contaram com o governo de Joe Biden, que apoiou esse cenário. No entanto, alguns meses após o início do ataque, ficou claro para eles, assim como para o próprio Biden, que Netanyahu não estava preparado para seguir esse caminho. Netanyahu há muito se gaba de eliminar a perspectiva de um "Estado palestino", particularmente ao consolidar a divisão contínua entre a Cisjordânia e Gaza, ao permitir o financiamento do Catar para o governo do Hamas em Gaza, impedindo assim que esta última ficasse dependente da AP.

Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, e após uma aposta delirante em sua ambição de ganhar o Prêmio Nobel da Paz, esses mesmos governantes europeus e árabes ficaram chocados com suas declarações pedindo a deportação da população de Gaza e a tomada da Faixa de Gaza para transformá-la em um resort de praia. Em contraste, essas declarações foram aplaudidas por Netanyahu e pela extrema direita sionista.

Logo depois, a trégua que precedeu a retomada do poder de Trump se transformou em um novo e terrível capítulo do genocídio em curso, por meio de uma fome orquestrada por Israel em conluio com Washington, acompanhada pelo bárbaro tiroteio contra os moradores de Gaza à vista de todos. Isso foi seguido por uma nova e mortal ofensiva israelense com o objetivo de tomar e destruir as áreas povoadas restantes da Faixa de Gaza. Esses acontecimentos levaram a uma crescente mudança na opinião pública nos países ocidentais, da simpatia por Israel, que havia atingido o pico após 7 de outubro, para a simpatia pelos civis afetados de Gaza, especialmente crianças.

Essa mudança levou líderes europeus, envergonhados, a buscar uma postura simbólica para compensar sua cumplicidade na guerra genocida em Gaza. Essa cumplicidade, de fato, durou mais de um ano e incluiu a rejeição de apelos por um cessar-fogo durante vários meses, e até mesmo a manutenção de todas as suas relações, inclusive militares, com o Estado sionista. Eles viam o reconhecimento do chamado Estado da Palestina, quase quarenta anos após sua proclamação, como um meio de compensar politicamente, ao menor custo, seu apoio anterior à guerra de Israel.

Essa posição simbólica ganhou ainda mais crédito devido ao veemente ataque lançado contra ela por Netanyahu, que agora teme que sua tomada de Gaza possa se transformar em uma oportunidade para pressioná-lo pela reunificação da faixa com a Cisjordânia sob uma única autoridade, revivendo assim a perspectiva de "Estado palestino" que ele há muito busca sufocar.

A posição de Trump certamente decidirá a questão. As posições europeias "não são importantes" nesse sentido, como disse Trump quando foi informado de que o presidente francês Emmanuel Macron anunciou sua decisão de reconhecer o "Estado da Palestina". De fato, somente a posição dos EUA pode forçar Netanyahu a retornar à "solução de dois Estados", que ele até agora rejeita, embora consista essencialmente em um pequeno estado palestino sujeito ao estado de ocupação sionista, semelhante à atual AP sediada em Ramallah.

O que influenciará Trump, no entanto, é a posição dos Estados árabes do Golfo, que certamente são mais caros ao coração (e ao bolso) do presidente americano do que Netanyahu e Israel. É por isso que o presidente francês estava ansioso para envolver o reino saudita na liderança de seus esforços nas Nações Unidas, proporcionando ao lado árabe a oportunidade de participar do lobby pela "solução de dois Estados", compensando sua relutância coletiva em exercer qualquer pressão real para impedir o genocídio.

Quanto ao "Estado da Palestina", eles o veem como condicional (como na Declaração de Nova York emitida há dois meses por meio da iniciativa franco-saudita) à restrição dos direitos políticos àqueles que aceitam a atual abordagem da Autoridade Palestina de Ramallah e à sua desmilitarização além de qualquer armamento necessário para suprimir sua população.

De fato, a maior pressão do Golfo que o governo Trump pode exercer é para que o presidente dos EUA retorne ao que ele, na época, chamou de "Acordo do Século", um projeto elaborado por seu genro Jared Kushner em 2020. Esse plano previa o estabelecimento de um "Estado da Palestina" em três enclaves na Cisjordânia, com Israel anexando as terras vizinhas — a maior parte da chamada Área C resultante da implementação dos Acordos de Oslo, incluindo o Vale do Jordão. Quinze assentamentos sionistas permaneceriam dentro dos enclaves alocados ao "Estado da Palestina", sob soberania israelense.

Em troca das terras anexadas ao Estado de Israel, o plano de Kushner previa que os palestinos recebessem dois enclaves no Deserto do Negev, adjacentes à fronteira egípcia. Toda a Faixa de Gaza fazia parte do "Estado da Palestina" no plano de 2020, mas sua reocupação possibilitou estender a ela o tipo de "solução" prevista para a Cisjordânia, segundo a qual Israel tomaria áreas da faixa e as anexaria formalmente, enquanto os refugiados de Gaza seriam confinados a um ou dois enclaves, com alguns deles deslocados para o Negev. O próprio Kushner recomendou esse deslocamento em uma palestra em Harvard em fevereiro de 2024.

Em 2020, a Autoridade Palestina de Ramallah rejeitou categoricamente o plano Kushner-Trump, assim como a Liga Árabe, devido ao seu flagrante desrespeito aos direitos e reivindicações palestinos. Hoje, alguns que o rejeitaram podem vê-lo como um mal menor (em oposição à expulsão completa) e, portanto, exigir sua aceitação. Mesmo que ganhassem o caso e o "Estado da Palestina" fosse estabelecido de forma que Netanyahu pudesse aceitar (ele havia acolhido o plano Kushner-Trump em 2020), isso não passaria de uma "solução" ainda pior do que a que existia antes de 7 de outubro. Em outras palavras, não "resolveria" nada e a resistência palestina, em todas as suas formas, certamente continuaria.

Governos que realmente desejam apoiar a causa palestina devem começar reconhecendo o direito do povo palestino à autodeterminação — antes de reconhecer um Estado hipotético, e sem designar a Autoridade Palestina de Ramallah, rejeitada pela maioria dos palestinos, como o modelo para o Estado que defendem.

De fato, o consenso nacional palestino se expressou em 2006 em uma série de demandas que incluíam a retirada do exército israelense e dos colonos de todos os territórios palestinos ocupados em 1967, incluindo Jerusalém Oriental; o desmantelamento do muro do apartheid; a libertação de todos os prisioneiros palestinos mantidos por Israel; e o reconhecimento do direito dos refugiados palestinos ao retorno e à reparação.

Qualquer "Estado" estabelecido sem que essas demandas fossem atendidas seria, aos olhos da maioria dos palestinos, nada mais do que uma nova tentativa de liquidar sua causa nacional. Seria meramente conferir uma falsa soberania à prisão a céu aberto em que Israel confina o povo palestino nos territórios de 1967, dentro de uma área geográfica cada vez menor.

Este artigo é a tradução do autor de sua coluna publicada em árabe no Al-Quds al-Arabi em 23 de setembro.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são The New Cold War: The United States, Russia and China From Kosovo to Ukraine e Gaza Catastrophe: The Genocide in World-Historical Perspective.

5 de setembro de 2025

O genocídio em Gaza e aqueles que o negam

Os sionistas frequentemente insistem que o uso da palavra "genocídio" para descrever as ações israelenses em Gaza desvaloriza outros crimes passados. No entanto, tanto em escala quanto em intenção, a destruição de Gaza por Israel se assemelha a genocídios históricos.

Gilbert Achcar


Familiares e entes queridos de palestinos que perderam a vida em ataques israelenses lamentam a morte dos mortos no Hospital Shifa, na Cidade de Gaza. (Khames Alrefi / Anadolu via Getty Images)

Desde o início da resposta israelense à Operação Inundação de Al-Aqsa, em 7 de outubro de 2023, ficou claro que o Estado sionista havia lançado uma guerra mais mortal e destrutiva do que todas as suas guerras anteriores. Isso foi o resultado da interação entre o governo mais extremista da história daquele Estado e o ataque mais grave lançado por uma organização palestina armada na história da resistência palestina. Infelizmente, o que previ em meu primeiro comentário sobre os eventos, apenas três dias após a operação liderada pelo Hamas, concretizou-se à risca:

A Operação Inundação de Al-Aqsa reuniu uma sociedade israelense que sofria de um profundo cisma e de uma grave crise política. Ela deu poder a Benjamin Netanyahu e seus colegas da extrema direita do movimento sionista para arrastar consigo os sionistas do lado político oposto, em preparação para uma guerra que, cada vez mais e de forma alarmante, assume as características de uma guerra genocida. Isso começa com a imposição de um bloqueio total, incluindo eletricidade, água e alimentos, a toda a Faixa de Gaza e à sua população de quase dois milhões e meio de pessoas. É uma violação flagrante e gravíssima das leis da guerra, confirmando que os sionistas estão se preparando para cometer um crime contra a humanidade do mais alto calibre.

Desde a criação do Estado de Israel, a direita sionista sonha em completar a Nakba de 1948 com uma nova expulsão em massa de palestinos das terras da Palestina entre o rio e o mar, incluindo a Faixa de Gaza. Não há dúvida de que agora eles veem o que aconteceu no último sábado como um choque que lhes permitirá arrastar o restante da sociedade sionista consigo na realização de seu sonho, primeiro na Faixa de Gaza, enquanto aguardam a oportunidade de implementá-lo na Cisjordânia.

A gravidade do que aconteceu com Israel no último sábado provavelmente atenuará o efeito dissuasor da tomada de reféns pelo Hamas, ao contrário do que ocorreu em rodadas anteriores de confronto entre o movimento e o Estado sionista. É muito provável que, desta vez, este último não se contente com nada menos do que a destruição da Faixa de Gaza em uma extensão superior a tudo o que testemunhamos até agora, a fim de reocupá-la com o menor custo humano possível para Israel e causar o deslocamento da maior parte de sua população para território egípcio, tudo sob o pretexto de erradicar completamente o Hamas.

Isso não exigia um poder de previsão único; era claramente visível para qualquer um que quisesse ver e não estivesse cego por ideologias, emoções ou ilusões. Três dias depois, em 13 de outubro de 2023, menos de uma semana após o início da tragédia, Raz Segal, professor de estudos sobre Holocausto e genocídio na Universidade Stockton, nos Estados Unidos (e cidadão israelense), publicou um artigo bombástico na revista progressista americana Jewish Currents, comentando o que havia começado a se desenrolar em Gaza sob o título "Um Caso Clássico de Genocídio". Segal apontou para a dura realidade da proliferação de declarações de autoridades israelenses que indicavam uma intenção explícita de genocídio, juntamente com o assassinato indiscriminado de civis de Gaza e apelos, bem como medidas, visando seu deslocamento.

Desde os primeiros dias da guerra de Israel em Gaza, a "guerra de narrativas" tem se intensificado febrilmente, paralelamente ao terrível ataque militar. Levou semanas, até meses, para que o debate mudasse da adequação da comparação da Operação Inundação de Al-Aqsa aos pogroms de judeus na história europeia, até o Holocausto nazista, para a adequação da aplicação do conceito de "genocídio" ao que o Estado de Israel vem fazendo na Faixa de Gaza.

Um ano após o início da invasão, as condenações do que estava acontecendo em Gaza como genocídio começaram a se multiplicar, sejam emitidas por organizações jurídicas, organizações de direitos humanos ou grupos acadêmicos. Entre elas, estão, entre outras, acusações emitidas pelo Tribunal Penal Internacional e pelo Tribunal Internacional de Justiça, relatórios emitidos pela Anistia Internacional, pela Human Rights Watch, pelo Relator Especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967 e, mais recentemente, por duas organizações israelenses: o Centro Israelense de Informação sobre Direitos Humanos nos Territórios Ocupados (conhecido como B'Tselem) e pela Physicians for Human Rights.

A posição mais recente e contundente a esse respeito é a resolução emitida pela Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio em 31 de agosto, que contou com o apoio de 86% dos eleitores entre seus quinhentos membros. O reconhecimento de que o que está acontecendo em Gaza é genocídio tornou-se tão abrangente que o debate agora se deslocou da acusação de que o rótulo de genocídio é tendencioso para a acusação de que a rejeição desse rótulo pertence à categoria de negação do genocídio (que também inclui a negação do Holocausto). Essa acusação foi feita com veemência por Daniel Blatman, historiador israelense especializado em história do Holocausto e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, em um artigo do Ha'aretz de 31 de julho intitulado "A identidade de vítima que Israel construiu ao longo de gerações agora alimenta sua negação do genocídio em Gaza".

Um dos exemplos mais deploráveis ​​de negação é um artigo publicado no Jerusalem Post pela advogada israelense Nitsana Darshan-Leitner, presidente do Centro de Direito de Israel (Shurat HaDin), que defende o Estado sionista perante o Tribunal Penal Internacional. O artigo, publicado em 28 de julho, pode ter contribuído para incitar Blatman a escrever o seu próprio. Nele, a advogada responde veementemente a Omer Bartov, também professor de estudos sobre Holocausto e genocídio na Universidade Brown, que havia publicado um artigo no New York Times em 15 de julho intitulado "Sou um estudioso do genocídio. Reconheço quando vejo".

A mensagem deplorável do artigo de Darshan-Leitner atinge seu ápice quando ela critica a descrição feita por Bartov das ações de Israel como genocídio, argumentando que isso "barateia" o termo e "apaga o horror singular" dos genocídios internacionalmente reconhecidos, entre os quais a autora menciona o ocorrido na Bósnia. O fato é que o genocídio bósnio, durante a Guerra da Bósnia, na primeira metade da década de 1990, matou aproximadamente 30.000 pessoas e deslocou aproximadamente um milhão de não sérvios de um total de 2,7 milhões (ou seja, 37% do total).

Então, o que está acontecendo em Gaza, onde o número de mortes diretas chegou a aproximadamente 64.000 (sem contar os mortos desconhecidos sob os escombros e as mortes indiretas, que superam em muito as diretas) e o deslocamento de aproximadamente dois milhões de uma população total de 2,2 milhões (ou seja, mais de 90%)? Como esse desfecho horrível pode "desvalorizar" o conceito de genocídio e "apagar seu horror singular" em comparação com o que aconteceu na Bósnia?

A verdade, cada vez mais difícil de negar, é que o genocídio em curso em Gaza, tanto em termos de sua proporção na população total quanto em termos do grau de brutalidade dos perpetradores, já entrou para a história como um dos exemplos mais terríveis de genocídio que o mundo já viu desde a Segunda Guerra Mundial. Esse genocídio é obra de um Estado industrializado cuja distinção tecnológica, apoiada pelo Estado mais poderoso do planeta, permitiu-lhe distinguir-se em sua barbárie.

Tradução do autor do árabe de sua coluna publicada no jornal londrino Al-Quds al-Arabi em 2 de setembro de 2025.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor emérito da SOAS, Universidade de Londres. Seus livros mais recentes são "A Nova Guerra Fria: Estados Unidos, Rússia e China, do Kosovo à Ucrânia" e "A Catástrofe de Gaza: O Genocídio em Perspectiva Histórica Mundial".

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