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13 de agosto de 2026

A Geração Z não é apolítica. Ela perdeu a fé no capitalismo.

A Geração Z frequentemente é descartada como apática. No entanto, entrevistas com grandes especialistas sugerem o contrário: uma geração que chega à vida adulta em meio a crises na habitação, no trabalho e nas instituições políticas não está perdendo a fé na política, mas sim nas promessas do capitalismo.

Dora Mengüç


A Geração Z boicota marcas, impulsiona hashtags e participa de protestos sem se filiar a partidos. Sua política pode parecer desorganizada ou efêmera, mas, por trás da desordem, pode haver algo muito mais antigo: a ascensão da consciência de classe. (Tolga Sezgin / Middle East Images / AFP via Getty Images)

A Geração Z é frequentemente descrita como distraída, cínica, politicamente inconsistente ou avessa a instituições. No entanto, essa descrição deixa escapar uma ruptura mais profunda. O que distingue essa geração não é a falta de política, mas o colapso da confiança nas instituições e nas regras que, outrora, conferiam uma estrutura reconhecível à política, ao trabalho e à vida adulta.

Durante décadas, o capitalismo prometeu aos jovens uma sequência: a educação levaria ao trabalho; o trabalho levaria à estabilidade; a estabilidade levaria a um lar, uma família e uma vida com alguma dignidade. Essa promessa nunca foi distribuída igualmente. Para muitos, sempre foi frágil. Mas para a Geração Z, tornou-se quase impossível acreditar nela.

Em sociedades muito diferentes, os jovens estão entrando na vida adulta pela mesma porta estreita. Atrás dessa porta, encontram-se empregos precários, moradia instável, dívidas estudantis e de consumo, mercados de trabalho gerenciados por algoritmos, ansiedade climática e instituições políticas que parecem muito fracas ou muito controladas para promover mudanças significativas.

Esta geração não confia em partidos, líderes ou instituições. No entanto, também vota, boicota, protesta, organiza-se na internet, abandona empregos e canaliza sua raiva por meio de redes digitais. Mais importante ainda, ela consegue transformar o cotidiano em um campo de batalha político. Sua política é fragmentada, dinâmica, sem liderança e, muitas vezes, absorvida pelos próprios mercados que rejeita. Mas, ainda assim, é política.

Em entrevistas realizadas para este artigo, Guy Standing, Emre Erdoğan, Christian Fuchs e Anu Muhammad descreveram diferentes aspectos da mesma crise: a formação de uma geração sem futuro profissional seguro, sem um contrato social estável e sem razões convincentes para acreditar que o capitalismo ainda possa cumprir suas promessas.

Um estudante universitário de dezenove anos que mora em Istambul coloca a questão de forma mais direta: “Eu não tenho uma ideologia. Eu só odeio a ordem mundial.”

Essa frase captura algo maior do que a raiva juvenil. O que estamos testemunhando é uma ruptura geracional. A Geração Z não se afastou da política. Ela simplesmente está desiludida com a linguagem e o modelo político antigos. E cresceu em um mundo onde o vocabulário político tradicional já não consegue dar sentido à insegurança que enfrenta.

A Geração Z não existe fora das relações de classe. As mudanças no capitalismo remodelaram a estrutura de classes e as condições de trabalho, e a Geração Z atingiu a maioridade dentro dessas novas relações. O que descrevemos como “política da Geração Z” não deve ser entendido como a política de uma geração homogênea, mas como uma expressão geracional de uma transformação mais ampla nas relações de classe.

Uma geração sem futuro profissional

O economista e teórico do trabalho britânico Guy Standing passou anos descrevendo a ascensão de uma nova classe: o “precariado”. Não se trata simplesmente de um grupo de pessoas com empregos precários. É uma classe moldada pela própria insegurança: emprego instável, renda irregular, dívidas, ausência de identidade profissional e a constante necessidade de se requalificar, reinventar a imagem profissional e permanecer disponível para um trabalho que talvez nunca ofereça estabilidade.

Standing entende a economia contemporânea como “uma era rentista globalizada”: “Estamos vivendo na era rentista globalizada do capitalismo; renda, riqueza e poder fluem cada vez mais para aqueles que detêm a riqueza e para as elites que possuem as principais formas de propriedade”, afirma. “A grande maioria dos jovens adultos enfrentará empregos instáveis ​​e precários. Eles viverão com salários baixos e incertos e estarão quase constantemente endividados.”

Para Standing, a questão não é simplesmente que os jovens tenham piores condições de trabalho do que as gerações anteriores. A questão é que cada nova geração está sendo arrastada cada vez mais para o precariado do que a anterior.

Como ele mesmo afirma, “Cada nova geração está mais envolvida nessa classe do que a anterior”. Para os jovens, as possibilidades de trabalho são tão sombrias que eles “não têm futuro profissional”.

Milhões estão online; todos são visíveis; todos estão produzindo algo. No entanto, os trabalhadores muitas vezes enfrentam o mercado sozinhos.

“Os indivíduos no precariado também são forçados a procurar emprego constantemente, a se requalificar e a encontrar novas fontes de renda”, diz Standing. “A maioria dessas atividades não é remunerada e é invisível. Portanto, as pessoas não conseguem desenvolver uma identidade profissional nem se inserir em uma carreira estável.”

É o colapso de uma das promessas clássicas do capitalismo. A antiga narrativa sobre o trabalho nas democracias liberais era de que ele proporcionaria aos jovens não apenas salários, mas também uma direção, senso de pertencimento e um futuro. No novo mercado de trabalho, o trabalho muitas vezes lhes oferece apenas exaustão, incerteza e dívidas.

O corpo também enfatiza que essa condição produz consequências físicas e psicológicas. A incerteza crônica não permanece fora do organismo. Ela se transforma em estresse, doença e medo.

“Especialmente os jovens, mas todos no precariado em geral, têm que lidar com a incerteza crônica”, diz ele. “Isso significa enfrentar ‘desconhecidos desconhecidos’; ou seja, não há robustez para suportar choques nem resiliência para se recuperar. As consequências individuais disso são dívidas, estresse e aumento de doenças.”

Este não é um problema temporário do mercado de trabalho. É uma condição política. Quando os jovens não conseguem mais imaginar um futuro estável através do trabalho, eles também começam a perder a fé nas instituições que ainda falam como se esse futuro existisse.

As regras deixaram de funcionar

A insegurança econômica por si só não explica as posições políticas da Geração Z. O que torna a ruptura atual mais profunda é o colapso da crença de que a sociedade possui regras claras e legítimas.

O cientista político Emre Erdoğan, cuja pesquisa se concentra na confiança social, na juventude e no comportamento político, descreve isso como uma crise mais ampla da ordem social do pós-guerra. Erdoğan argumenta que a insegurança dos jovens reflete o colapso das instituições que outrora legitimavam o capitalismo. “O consenso pós-1945 chegou ao fim”, afirma Erdoğan.

“A ordem das Nações Unidas chegou ao fim. O sistema estabelecido pelo Banco Mundial, pelo FMI e pela Organização Mundial do Comércio entrou em colapso. O Estado de bem-estar social entrou em colapso. O que chamamos de rede de segurança não existe mais. Quando você cair, quem o amparará? A resposta é: família, parentes, compatriotas. Não o Estado.”

As análises de Standing explicam a situação econômica, e Erdoğan explica por que ela se torna política. Os jovens não estão apenas lutando para encontrar trabalho. Eles também estão lutando para entender quais regras devem seguir.

“Não se pode mais dizer aos jovens: ‘Se vocês trabalharem duro, terão sucesso’”, diz Erdoğan. “Não sabemos como ter sucesso. As pessoas estão cada vez mais desconfiadas das regras. Não há consenso sobre o que é preciso para ser bem-sucedido nesta sociedade. Os jovens lutam não só para encontrar emprego, mas também para entender quais regras devem seguir. Essa incerteza, com o tempo, se transforma em uma percepção de injustiça estrutural, em vez de um sentimento de fracasso individual. E essa percepção alimenta a raiva.”

Essa distinção é importante. Se os jovens acreditassem que seus problemas eram meramente fracassos pessoais, o resultado poderia ser vergonha, isolamento ou desespero silencioso. Mas quando a insegurança é entendida como injustiça estrutural, a raiva se torna política.

Em todo o mundo, a Geração Z tem estado repetidamente na vanguarda das convulsões políticas.

Uma estudante grega do programa Erasmus em Istambul descreve essa desconfiança de forma contundente: “Se eu votar algum dia, provavelmente será em protesto ou para destruir algo, não porque confio em algum político.”

Isso não é mero cinismo. É uma expressão de anomia: uma condição na qual as regras da vida social perdem sua legitimidade. O jovem ainda pode votar. Ainda pode participar. Mas o ato não está mais fundamentado na confiança. Torna-se um ato de recusa.

Erdoğan tem uma única palavra para essa condição: “ressentimento”.

Na Turquia, esse ressentimento se manifestou com força durante os protestos do Parque Gezi em 2013, quando uma manifestação ambiental se transformou em um movimento antigovernamental de massa. Embora o movimento Gezi seja anterior ao cenário político da Geração Z, os ressentimentos identificados por Erdoğan ressurgiram em formas mais recentes de protesto: movimentos estudantis, manifestações urbanas, campanhas online, boicotes de consumidores e atos de recusa sem liderança.

A expressão política está emergindo em formas que as instituições mais antigas têm dificuldade em decifrar.

Em todo o mundo, a Geração Z tem estado repetidamente na vanguarda de convulsões políticas. Isso não se deve a uma ideologia geracional compartilhada, mas sim à experiência comum de precariedade e desconfiança institucional. Das greves climáticas à revolta liderada por mulheres no Irã, das mobilizações juvenis em Bangladesh e no Nepal aos recentes protestos contra as baratas na Índia, a Geração Z tem emergido repetidamente como uma força disruptiva em momentos de crise política.

A raiva não é novidade. O que é novo é a sua velocidade, a sua mobilidade e a forma como se propaga pelas ruas, telas, locais de trabalho, campi universitários e mercados.

Capitalismo digital e o novo campo de luta

É tentador dizer que as redes sociais são o motor da política da Geração Z. Mas isso seria simplificar demais. As plataformas digitais não criaram a exploração, o endividamento, a insegurança ou a violência policial. Mas elas mudaram o terreno em que esses conflitos são vistos, organizados, acelerados e monetizados.

O teórico da mídia Christian Fuchs, cujo trabalho se concentra no trabalho digital e no capitalismo, argumenta que as plataformas devem ser entendidas não como a causa das revoltas contemporâneas, mas como mediadoras da luta social sob o capitalismo digital:

As redes sociais não são a causa dos protestos, rebeliões e revoluções contemporâneas. Dado que os jovens são altamente proficientes em tecnologia, é natural que utilizem todos os tipos de mídia digital na comunicação, coordenação e organização de protestos. O trabalho precário é certamente um fator importante em alguns protestos da Geração Z. No entanto, não podemos dizer que esses protestos são “criados” pelas plataformas de redes sociais. No capitalismo digital, essas plataformas não criam exploração e lutas sociais, mas sim as mediam.

As dinâmicas políticas que emergiram entre muitos membros da Geração Z não podem ser reduzidas ao TikTok, Instagram, X ou qualquer outra plataforma. Mas também não podem ser compreendidas fora delas. As gerações não eliminam as classes sociais. Em vez disso, a experiência geracional molda as condições sob as quais as relações de classe são vivenciadas. As mídias digitais se tornaram um dos principais espaços onde a raiva da Geração Z circula, onde protestos são organizados, onde identidades são formadas e onde até mesmo a oposição pode ser transformada em conteúdo, dados e lucro.

A contradição reside nas condições em que muitos jovens trabalham atualmente. Mesmo aqueles que rejeitam o sistema podem ser atraídos para mercados digitais especulativos, economias de influenciadores, trabalho em plataformas digitais e competição algorítmica. Podem protestar contra o capitalismo pela manhã e serem forçados a se apresentar para suas plataformas à noite.

O capitalismo digital não está à margem da vida dos jovens. Ele estrutura seu trabalho, sua comunicação, sua atenção e, cada vez mais, seu senso de identidade. Fuchs descreve o capital digital como global, enquanto os trabalhadores digitais são locais, isolados e fragmentados.

O problema não é apenas que o trabalho nas plataformas digitais seja mal remunerado. É também que ele está organizado de maneiras que dificultam a construção de poder coletivo.

“O trabalho digital é frequentemente individualizado e fragmentado”, diz Fuchs. “Os trabalhadores operam desconectados uns dos outros, e as possibilidades de organização coletiva são fracas. Isso os torna mais frágeis e mais facilmente exploráveis.”

Em outras palavras, a economia digital cria uma força de trabalho constantemente conectada, mas politicamente segregada. Milhões estão online; todos são visíveis; todos estão produzindo algo. No entanto, os trabalhadores muitas vezes enfrentam o mercado sozinhos.

Fuchs argumenta que, se o capital se globalizou, o trabalho também precisa se organizar globalmente. “Precisamos de um sindicato digital transnacional e global, onde trabalhadores digitais do mundo todo se unam contra o capital digital.”

É aqui que a discussão transcende a cultura jovem. A questão não é se os jovens são mais irônicos, ansiosos, conectados ou impacientes do que as gerações anteriores. A questão é: novas formas de trabalho e comunicação estão remodelando as estruturas de classe? E, em caso afirmativo, será que essas novas formas de política de classe conseguirão escapar da absorção pelas plataformas por onde circulam?

A juventude como vítima e força política

Anu Muhammad, um economista bengali conhecido por suas críticas ao capitalismo, vê o desemprego e o trabalho precário como inseparáveis ​​da economia de mercado capitalista. Mas ele também enfatiza que essas condições não produzem um único resultado político.

“As classes dominantes veem essa situação como uma oportunidade para usar os jovens”, diz Muhammad. “Os jovens enfrentam incerteza, precariedade e desesperança desde cedo. Embora essas condições transformem alguns em parte do sistema, elas levam outros a questionar e se opor a essa ordem.”

Essa é uma das principais contradições da política da Geração Z, que reflete a crise mais ampla do próprio capitalismo. Condições de insegurança não produzem uma única política. Elas podem gerar resignação, niilismo ou adaptação — ou oposição e revolta. Uma parte da juventude pode se tornar um instrumento do sistema, enquanto outra se torna parte da resistência contra ele.

Não se trata simplesmente de um grupo de pessoas com empregos precários. É uma classe moldada pela própria insegurança: emprego instável, renda irregular, dívidas e ausência de identidade profissional.

A revolta de 2024 em Bangladesh demonstrou a volatilidade do descontentamento juvenil. Padrões semelhantes podem ser observados em outros lugares. Os jovens nem sempre estão organizados em partidos. Nem sempre são guiados por ideologias coerentes. Seus movimentos são frequentemente instáveis ​​e internamente contraditórios. Mesmo assim, eles aparecem repetidamente no centro de rupturas políticas.

Essa dinâmica é desconcertante para as instituições políticas mais tradicionais. Os partidos geralmente esperam que os jovens entrem na política por meio de canais já conhecidos: filiação, campanhas, eleições, lealdade ideológica. Mas a Geração Z muitas vezes entra na política em meio a crises: uma luta por moradia, um desastre climático, um escândalo de corrupção, um protesto universitário ou um vídeo viral que cristaliza uma injustiça mais ampla.

O resultado é uma política difícil de conter. Ela pode ser rápida e moralmente intensa. Pode ser amorfa. Pode desaparecer e reaparecer. Pode rejeitar líderes. Pode desconfiar da negociação. Mas não pode simplesmente ser descartada como apolítica.

Sem confiança, mas sem isolamento

Um dos paradoxos da Geração Z é este: a desconfiança nem sempre leva ao isolamento. Os jovens podem desconfiar das instituições e ainda assim votar. Podem detestar o sistema político e ainda assim ir às ruas. Podem zombar da política tradicional e ainda assim desenvolver fortes convicções morais sobre trabalho, consumo, identidade, clima, guerra e desigualdade.

Uma jovem com quem conversei descreveu o colapso da antiga promessa de carreira com brutal clareza: “Subir na carreira? Estou apenas tentando não ficar embaixo da escada. A casa e o carro que as gerações anteriores tinham aos vinte e cinco anos são algo que nem sequer posso sonhar.”

Isso não é apenas uma queixa sobre dinheiro. Expressa o colapso de toda uma economia moral. A antiga promessa dizia que o esforço seria recompensado, que a vida adulta se tornaria mais estável com o tempo e que o futuro seria algo que se poderia planejar razoavelmente. Para muitos jovens, essa promessa agora parece uma relíquia histórica.

Contudo, essa perda de fé não significa que os jovens tenham parado de agir. Pelo contrário, suas posições políticas muitas vezes se manifestam em espaços que as gerações mais velhas não reconhecem como políticos.

Os membros politicamente ativos da Geração Z boicotam marcas. Eles pedem demissão. Criam redes de apoio mútuo. Amplificam hashtags. Denunciam empregadores. Participam de protestos de rua sem se filiar a partidos. Usam a ironia como arma. Transformam o consumo em julgamento e a visibilidade digital em pressão.

A antiga promessa dizia que o esforço seria recompensado, que a vida adulta se tornaria mais estável com o tempo e que o futuro seria algo que se poderia planejar razoavelmente.

Parte disso é facilmente comercializável. Parte disso é superficial. Parte disso desaparece tão rápido quanto aparece. Mas o fato de ser contraditório não significa que seja desprovido de significado.

Standing vê nesse processo a possibilidade de que o precariado — do qual a Geração Z constitui uma parcela desproporcional — esteja lentamente começando a se reconhecer como uma classe.

“Observamos que o precariado está lentamente se tornando ‘uma classe à parte’ em todo o mundo”, afirma ele. “Em outras palavras, pertencer ao precariado não é mais visto como um sinal de vergonha ou fracasso, mas é cada vez mais reconhecido como resultado do capitalismo global contemporâneo.”

Esse reconhecimento é politicamente explosivo. Quando a insegurança deixa de ser vivenciada como uma falha individual, ela pode galvanizar a ação coletiva.

Uma nova imaginação política

A Geração Z é mais do que uma coorte demográfica. É também um resultado: de décadas de reestruturação neoliberal, declínio das proteções trabalhistas, aumento da dívida, habitação inacessível, enfraquecimento do Estado de bem-estar social, exploração digital e sistemas políticos que falham cada vez mais em representar a realidade social.

Sua raiva é contraditória, fragmentada e frequentemente cooptada pelo mercado que rejeita. Pode se transformar em protesto, mas também em conteúdo. Os jovens que querem recusar o sistema, no entanto, muitas vezes acabam integrados à economia de plataformas.

Mas isso não torna a Geração Z apolítica. Mostra que a expressão política está emergindo em formas que as instituições mais antigas têm dificuldade em compreender.

Esta geração não está fora da política. Mas sente-se cada vez mais à margem das antigas instituições políticas. A sua política não começa necessariamente com partidos, programas ou tradições ideológicas. Começa com a insegurança, a humilhação, com futuros bloqueados e com a sensação de que as regras são manipuladas — ou que já não funcionam de todo.

A velha linguagem da política questiona se esses jovens são de esquerda, liberais, conservadores, populistas, radicais ou apáticos. Mas a questão mais profunda talvez seja outra: o que acontece quando uma geração deixa de acreditar que o sistema pode lhe oferecer um futuro?

A crise do capitalismo hoje não reside apenas no fato de gerar desigualdade. Reside também na perda de credibilidade de sua promessa central. A velha história — trabalhe duro e você poderá ter sucesso — já não convence a geração que herdará o mundo.

Resta saber se a raiva e a desilusão da Geração Z gerarão resignação, reação ou solidariedade. O que está claro é que cada vez mais jovens não enxergam mais a insegurança como uma falha individual, mas como uma condição compartilhada. Reconhecer o que parece ser um infortúnio privado como uma condição pública compartilhada é o ponto de partida para a política. É isso que impulsiona a ação coletiva e as demandas por mudanças estruturais.

Colaborador

Dora Mengüç é jornalista, atuou anteriormente como gerente de notícias da Sözcü TV e trabalhou em grandes redações ao longo de mais de duas décadas. Atualmente, é correspondente da Deutsche Welle e escreve para veículos internacionais, incluindo o Le Parisien Matin.

26 de abril de 2026

A guinada à esquerda do Brasil continua

O governo de extrema direita de Jair Bolsonaro foi um período sombrio para os movimentos sociais no Brasil. Desde o retorno de Lula ao poder, ativistas da área da moradia têm desempenhado um papel renovado, não apenas nas ruas, mas também na formulação de políticas governamentais.

Entrevista com
Vitória Genuino

Jacobin

As eleições brasileiras de outubro deste ano colocarão o Presidente Lula frente a frente com Flávio, filho do político de extrema-direita Jair Bolsonaro. Será um teste crucial para saber se o legado do governo de esquerda no Brasil conseguirá perdurar.

Entrevista por
Pablo Castaño

Atualmente Secretária da Juventude no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Vitória Genuino iniciou sua trajetória como ativista de base no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), principal força motriz na luta por moradia digna e justiça social.

No último fim de semana, ela esteve em Barcelona para participar do Encontro de Mobilização Progressista Global, que reuniu chefes de governo de esquerda e centro-esquerda, como Lula, Gustavo Petro, da Colômbia, Claudia Sheinbaum, do México, e o próprio primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Ela falou na conferência sobre a mobilização da juventude e seu trabalho no Brasil.

Em entrevista a Pablo Castaño para a Jacobin, Genuino falou sobre as oportunidades e contradições da transição dos movimentos sociais para a política institucional. Ela também fez um balanço do governo Lula a poucos meses das eleições gerais de outubro, nas quais o veterano líder do Partido dos Trabalhadores (PT) enfrentará Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Pablo Castaño

Antes de ingressar no governo brasileiro como secretária da Juventude, você teve uma longa trajetória de ativismo no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. Neste momento, como você vê a luta por moradia digna no Brasil?

Vitória Genuino

Com a volta do presidente Lula ao poder [no início de 2023], os movimentos agora têm maior possibilidade de diálogo com o governo. Os espaços de participação social promovidos pelo governo auxiliam nesse processo de reorganização dos movimentos, que durante o último período, sob o governo de Jair Bolsonaro, sofreram uma criminalização muito violenta. Por isso, considero este um momento de reorganização e fortalecimento das lutas pela reconstrução da política habitacional no Brasil.

A refundação do Ministério das Cidades pelo presidente Lula oferece aos movimentos a possibilidade de irem além do confronto direto com o governo e de participarem da reconstrução das políticas públicas. Acredito que este seja um bom momento para rearticular problemas, reorganizar e elaborar propostas concretas para a melhoria das condições de moradia.

Pablo Castaño

Em termos mais pessoais, como você vivenciou essa transição da política de movimentos para a política institucional?

Vitória Genuino

É uma mudança recente, de dezembro para cá. É muito diferente estar no governo, mas é uma experiência importante. Por mais que eu esteja hoje exercendo uma função oficial e representando o governo brasileiro, faço isso como militante pelo direito à moradia e pelos direitos da juventude.

Acredito que o governo pode ser uma ferramenta de transformação social. É um espaço onde eu, como militante, posso conceber e construir políticas públicas a partir dessa visão militante, entendendo que agora respondo “do outro lado da sacada”, como costumamos dizer no Brasil. Conheço as dificuldades e posso ter uma perspectiva diferente das demandas que surgem. Não apenas por ser militante, mas também por causa da minha origem: cresci na periferia de Olinda, no Nordeste brasileiro. Essa perspectiva diferente me permite entender que, embora este momento de governo seja certamente temporário, ele também é uma ferramenta real para a transformação social.

Pablo Castaño

Sua trajetória é excepcional dentro do atual governo brasileiro, ou existem outras figuras que vêm diretamente de movimentos sociais?

Vitória Genuino

Várias pessoas que estão no governo hoje têm um histórico de ativismo em movimentos sociais, mas posso falar mais diretamente sobre o ministério [da Presidência] do qual minha secretaria faz parte. O ministro Guilherme Boulos [do partido de esquerda Socialismo e Liberdade, PSOL], que pela primeira vez também faz parte do governo, tem uma longa trajetória no movimento habitacional, mas não foi o primeiro. O governo Lula criou, pela primeira vez, a Secretaria Nacional para a Periferia das Cidades. Historicamente, essa era uma reivindicação dos movimentos sociais, que compreendiam a necessidade, dentro do Ministério das Cidades, de criar um espaço para discutir concretamente os problemas das áreas periféricas. Há também Izadora Gama Brito, Secretária de Participação Social, que surgiu das lutas do MTST.

Pablo Castaño

Na corrida para as eleições gerais de 2022, Lula firmou um acordo com os partidos tradicionais, que incluiu a presença de um antigo rival, Geraldo Alckmin, como seu vice-presidente. Qual o impacto desse acordo nas políticas do governo, em comparação com os mandatos anteriores de Lula?

Vitória Genuino

Há uma constante disputa para mover o governo para a direita, ou mais para o centro, ou para a esquerda. Cada ator no governo tem seu papel nisso. A parceria que o presidente Lula fez com o vice-presidente Geraldo Alckmin foi importante para que pudéssemos retornar ao poder, em nossa luta contra a direita representada por Bolsonaro, mas isso também tem suas consequências. Desempenhamos nosso papel de impulsionar a esquerda.

Na semana passada, o presidente Lula abraçou a luta contra a semana de trabalho de seis dias (6x1), em diálogo direto com as plataformas de aplicativos, como parte de uma discussão mais ampla sobre trabalho digno. Essa iniciativa parte, em grande parte, do ministro Boulos — essa é a sua agenda histórica. Nosso papel é promover as demandas urgentes da classe trabalhadora dentro do governo, e o presidente Lula tem se dedicado diretamente a essas questões.

Pablo Castaño

Quais políticas você destacaria no histórico deste governo?

Vitória Genuino

Quando falamos especificamente sobre este governo Lula [2023–presente], é importante destacar que se trata de um governo de reconstrução. Isso significa a reintegração do Ministério das Cidades e o repasse de recursos para ministérios estratégicos.

Hoje, temos uma redução na taxa de desemprego entre os jovens brasileiros. E o Ministério da Educação, por exemplo, lançou os “cursos populares”, uma política muito importante voltada para estudantes das periferias e favelas do Brasil. Há também o Pé-de-Meia, uma política em que o governo destina recursos para estudantes da rede pública. Portanto, em termos de políticas voltadas para a educação e, principalmente, para a juventude — que é a agenda que estou construindo hoje dentro do governo — conseguimos uma série de avanços.

Pablo Castaño

As pesquisas mostram um empate entre Lula e o filho de Bolsonaro, Flávio, antes das eleições gerais de outubro. Por que você acha que a extrema direita é tão forte no Brasil, mesmo após a tentativa de golpe e a prisão de Bolsonaro?

Vitória Genuino

A classe mais rica, o centro que controla a riqueza mundial, também tem suas ramificações no Brasil. O governo Bolsonaro teve influência na sociedade. Hoje, por exemplo, temos um claro aumento nos casos de violência contra a mulher. Isso é resultado do legado deixado pela direita após sua passagem pelo governo.

Acredito que essa classe dominante exerce influência simbólica na sociedade, e o discurso do livre mercado pode ser atraente para muitos. Mas acreditamos que o povo brasileiro é favorável a essa reconstrução do país. Hoje temos uma situação muito melhor para o nosso povo. Acreditamos que, por meio da construção efetiva de políticas públicas, conseguiremos avançar e dar continuidade a esse trabalho.

Pablo Castaño

Um dos desafios enfrentados pelos presidentes progressistas da América Latina (Lula, Petro, Sheinbaum) é a relação com Donald Trump, dadas as constantes ameaças, ataques e tarifas. Como Lula lidou com Trump?

Vitória Genuino

O Brasil tem um papel muito importante na construção do diálogo na política internacional. O presidente Lula e nosso governo estão fortalecendo nossa soberania e nossa independência, e defendemos uma posição muito concreta em relação às políticas do governo Trump, que afetam principalmente os brasileiros que hoje residem nos Estados Unidos. Lutamos com muita força. Nosso papel é buscar o diálogo, para que possamos evitar novos conflitos.

Pablo Castaño

Durante os primeiros governos Lula [2002–2010], a América Latina era mais unida como ator geopolítico, com a criação do Mercosul e outros esquemas de integração regional, do que é hoje. Você acha que ter que confrontar Trump pode ajudar a reconstruir algum tipo de unidade latino-americana hoje?

Vitória Genuino

Está se tornando um importante motor de mobilização. A Mobilização Progressista Global representa essa reorganização dos países latino-americanos, compreendendo o período histórico que estamos vivendo, dado o avanço da direita nesses países. Mas acho que o presidente Lula, Sheinbaum e esses outros atores que se reunirão aqui em defesa da democracia estão demonstrando nosso compromisso com essa agenda. O Brasil tem esse importante papel de dialogar com ambos os lados, ao mesmo tempo em que fortalece a soberania do nosso território.

Pablo Castaño

O que você espera deste encontro em Barcelona?

Vitória Genuino

O principal legado que queremos deixar é a luta contra o extremismo e a defesa da democracia. Nossa participação aqui tem o propósito de fortalecer a soberania dos povos e territórios, por meio da democracia. Acho que essa é a principal mensagem.

Pablo Castaño

Na Europa, ouvimos com frequência que os jovens oscilam entre a apatia e posições conservadoras, e as pesquisas mostram uma certa guinada à direita entre os jovens do sexo masculino. Qual é a sua experiência no Brasil?

Vitória Genuino

Algumas pesquisas sugerem uma queda na popularidade do governo Lula entre os jovens de 16 a 24 anos. Precisamos entender melhor como comunicar os avanços e as políticas que construímos em torno da juventude. Embora haja uma mobilização menor nas ruas [do que em períodos anteriores], também existe alguma resistência. Temos a União Nacional dos Estudantes, a União Brasileira de Estudantes do Ensino Médio... movimentos históricos em escolas e universidades que ainda são fortes hoje.

Mas também existem movimentos juvenis culturais e religiosos muito fortes que não se organizam nesses modelos tradicionais de partidos e movimentos estudantis. Precisamos aprender sobre essas novas experiências. Às vezes, quando falamos de mobilização, pensamos nesse modelo tradicional. Mas temos uma nova geração. As redes sociais podem ter um lado negativo; precisamos falar sobre a saúde mental dos jovens. Mas, ao mesmo tempo, precisamos entender como podemos conversar com os jovens sobre todos esses direitos e avanços que temos desenvolvido.

Colaboradores

Vitória Genuino é atualmente secretária da juventude no governo brasileiro.

Pablo Castaño é jornalista freelancer e cientista político. É doutor em Ciência Política pela Universidade Autônoma de Barcelona e já escreveu para publicações como Ctxt, Público, Regards e The Independent.

9 de fevereiro de 2025

O caso para o consumo social de bebidas alcoólicas

Os americanos estão trocando a cultura de bar por aplicativos de bem-estar e mocktails. Mas, apesar das muitas deficiências do álcool, nossa sobriedade nacional não é uma causa simples para comemoração. Também estamos perdendo espaços sociais e tradições em uma sociedade cada vez mais alienada.

Ryan Zickgraf

O volume de vendas de álcool caiu 2,8% somente nos primeiros sete meses de 2024. (iStock / Getty Images)

Numa quinta-feira à noite em outubro, notei um homem de vinte e poucos anos sentado sozinho em uma cervejaria da Pensilvânia, onde organizo uma noite semanal de perguntas e respostas. Mas ele não passou a noite afogando suas mágoas. Em vez disso, assisti em tempo real ele fazendo amizade com estranhos durante algumas rodadas de cerveja — uma cena que eu já tinha visto acontecer muitas vezes. Agora ele não só retorna ao bar toda semana com seus novos amigos, mas um deles recentemente o iniciou em um clube social do bairro. Poucos meses depois de sua introdução regada a álcool, ele cantou uma música na festa de karaokê de um colega de equipe de perguntas e respostas na véspera de Ano Novo. Eu sei disso porque eu também estava lá, convidado após alguns meses de socialização na cervejaria.

Histórias como essas de sociabilidade auxiliada pelo álcool soam cada vez mais como relíquias do passado. A pandemia da COVID-19 congelou o consumo social de bebidas em bares e festas em casa, e ainda não derreteu completamente. Não só o “Janeiro Seco” foi mais seco este ano, mas o resto do calendário também está secando. Os jovens estão cada vez mais livres de álcool ou estão mais “curiosos pela sobriedade“.

Esse desenvolvimento não é necessariamente uma coisa ruim. As muitas desvantagens do álcool são bem documentadas. Sabíamos sobre os vícios, os perigosos apagões e as implicações negativas para a saúde muito antes dos médicos alertarem contra o consumo de álcool.

Mas, goste ou não, o álcool é um importante canal pelo qual os americanos desfrutam da companhia uns dos outros pessoalmente. Já somos atomizados, alienados e dependentes da internet o suficiente. O álcool tem algumas desvantagens, mas também facilita as conexões sociais tete-a-tete que sustentaram todas as gerações anteriores.

A falta de conexão offline genuína também é um veneno para qualquer projeto político sério. É quase impossível ter falar de socialismo sem o social. Então, tenha cuidado, claro, mas mantenha a bebida fluindo.

Rum e revolução

Nos Estados Unidos, os bares sempre foram mais do que um lugar para tomar cerveja e comer alguma coisa.

“[Eles são] um local onde as pessoas se reúnem e conversam. E bebem. E o álcool leva a mais conversa, mais bebida e, sob certas circunstâncias, a um nível mais alto de indignação e comprometimento com a ação”, escreve a autora Christine Sismondo em America Walks Into a Bar: A Spirited History of Taverns and Saloons, Speakeasies and Grog Shops.

Como tal, beber socialmente é um elemento negligenciado na importância histórica das revoluções e mudanças sociais, incluindo a Revolução Francesa. Como um estudioso francês observa, o álcool não só era central para a vida social, mas também desencadeou protestos em torno da questão da tributação excessiva, levando cidadãos comuns a participar da criação de um novo regime. O vinho tinto simbolizava liberdade, igualdade e republicanismo francês, já que jacobinos e sans-culottes bebiam vinho tinto todos os dias em tavernas, cafés e reuniões.

Se não fosse pelo bar, os americanos possivelmente ainda seriam súditos de um rei britânico. Na América colonial, o pub, abreviação de casa pública, era onde as pessoas se misturavam em volta de uma caneca de cerveja, independentemente da classe. As primeiras leis fixavam o preço que os donos das tavernas podiam cobrar por uma bebida, para que eles não pudessem atender apenas aos clientes ricos.

Os pubs também serviam como locais de reunião para assembleias e tribunais, destinos para entretenimento e locais democráticos para debate e discussão sobre ideias revolucionárias. Eles “se tornaram um palco público no qual os colonos resistiam, iniciavam e abordavam mudanças em sua sociedade… redefinindo gradualmente seus relacionamentos com figuras de autoridade”, escreve David W. Conroy em In Public Houses: Drink and the Revolution of Authority in Colonial Massachusetts.

O Green Dragon Tavern, um bar em Boston, foi apelidado de “Sede da Revolução” pelo ex-secretário de estado Daniel Webster como o local de encontro dos “filhos da liberdade”. O Boston Tea Party foi planejado a portas fechadas da taverna; Paul Revere foi enviado de lá para Lexington em seu passeio icônico depois de ouvir planos para a invasão de Lexington e Concord. O escritório de George Washington já foi na Fraunces Tavern, na cidade de Nova York. A Rebelião do Uísque na década de 1790 e os tumultos de Stonewall na década de 1960 também saíram dos bares.

As tavernas frequentemente serviram como um local de encontro para o movimento trabalhista, fornecendo um espaço para os trabalhadores debaterem e se organizarem. É por isso que os primeiros industriais frequentemente as proibiam em cidades empresariais e eventualmente apoiavam a Liga Anti-Saloon e a Lei Seca no início do século XX — o controle sobre o pub significava menos pessoas se organizando para montar sindicatos e lutar por melhores condições de trabalho. “As pessoas não embarcaram na Lei Seca até que viram o saloon como um espaço político radical e perigoso”, lembra Sismondo.

Nem todos os socialistas eram contra a Lei Seca, mas um oponente proeminente foi Eugene V. Debs, que escreveu em 1916:

Socialize o negócio de bebidas alcoólicas, tire o lucro e deixe que ele seja controlado pelo Estado, como o socialismo propõe, e haverá um fim sumário para o mal, mas nunca por meio de legislação proibitiva. Há muita “proibição” no mundo, e frequentemente o espírito dela é intolerante e tirânico. Há dezenas de milhares de leis em livros de estatutos que proíbem quase tudo que se possa conceber, e por todo o bem que elas fazem, seria melhor que fossem revogadas.

Horário de encerramento

Na década de 2020, bares e tavernas estão fechando — mas, desta vez, não é o governo que os está fechando. São os americanos que estão voluntariamente largando a garrafa e ficando em casa.

Os números são impressionantes. Em todo o país, o volume de vendas de álcool caiu 2,8% somente nos primeiros sete meses de 2024, de acordo com a IWSR, uma empresa de análise da indústria de bebidas. As vendas de vinho caíram 4%, a cerveja caiu 3,5% e as bebidas destiladas caíram 3%. O quadro de declínio se torna mais nítido se assumirmos que os dados incluem pessoas mais alcoólatras, incluindo aqueles que mantiveram o hábito mesmo na pandemia, consumindo suas bebidas em casa.

Como resultado, o happy hour não é mais tão feliz. Na Filadélfia, por exemplo, há atualmente cerca de 1.300 licenças ativas para venda de bebidas alcoólicas, uma queda de 38,1% desde 1997, e mais de 60 delas são detidas por supermercados e postos de gasolina. A recessão dos bares de Chicago é ainda pior, caindo de 3.300 estabelecimentos com licenças de taverna em 1990 para cerca de 1.200 hoje.

O abandono dos bares está ocorrendo junto com uma recessão social mais ampla, como documentado em “The Anti-Social Century”, a atual matéria de capa da Atlantic. Os americanos agora passam menos tempo interagindo pessoalmente do que em qualquer período da história moderna.

Esse declínio social é especialmente mais forte para a Geração Z, que tem sido chamada de “geração caseira“. A multidão com menos de 30 anos aparentemente prefere ficar em casa e fumar um pouco de maconha legalizada enquanto rola os feeds das redes sociais do que beber com amigos em um bar. Um estudo recente revelou que 2022 foi o primeiro ano na história americana em que o consumo de maconha ultrapassou o consumo de álcool, com a Geração Z liderando a pesquisa.

Outros jovens aderiram ao movimento de “otimização”, liderados por influenciadores obcecados em maximizar a saúde, praticar a autodisciplina e eliminar todas as indulgências — ou seja, em se tornar monges seculares. O extremo dessa tendência é personificado por Bryan Johnson, o multimilionário da tecnologia com aparência vampírica que afirma que sua rotina de autocuidado de US$ 2 milhões por ano lhe garantirá a imortalidade. Bryan Johnson recebeu transfusões de sangue de seu filho adolescente para reverter o envelhecimento — e ele não bebe.

Novamente, há alguns pontos positivos nessa mudança nos hábitos dos americanos. “Aquela bebida demoníaca” é culpada por uma quantidade incalculável de problemas de dependência, incidentes violentos, mau comportamento e inúmeros riscos à saúde. No entanto, continuamos a precisar de conexão e estímulo para prosperar. Solidão e atomização também podem tirar anos da sua vida. O álcool é uma maneira consagrada de quebrar o gelo, e seus benefícios sociais podem superar suas desvantagens para pessoas que conseguem usá-lo com moderação.

Em seu livro Capitalist Realism, o escritor, filósofo e e critico cultural Mark Fisher sabiamente nos disse que as consequências do capitalismo tardio não devem ser sofridos sozinhos. “A pandemia de angústia mental que aflige nosso tempo não pode ser devidamente compreendida ou curada se vista como um problema privado sofrido por indivíduos prejudicados”, ele escreveu. Está longe de ser perfeito, mas uma cervejinha com amigos no bar local é um antídoto.

Frank Sinatra também dizia: “O álcool pode ser o pior inimigo do homem, mas a Bíblia diz que você deve amar seu inimigo.”

Então, saúde e vamos brindar a vida e luta!

Colaborador

Ryan Zickgraf é um jornalista residente no Alabama e editor da Third Rail Mag.

29 de novembro de 2024

A Geração Z é super estranha

Do monarquismo ao ecofascismo, as subculturas da internet deram origem a uma nova geração de "e-deologias". Amber Frost mergulha no significado da política dos Zoomers.

Amber A'Lee Frost


Há uma enorme diferença entre a maneira como os Zoomers "se encontram" e a maneira como aqueles que chegaram à maioridade antes deles o fizeram: eles o fazem online, anonimamente e em segredo. (Matt Cardy / Getty Images)

Tradução / Desde fevereiro de 2023, o artista, professor universitário e escritor de cultura da internet Joshua Citarella tem conduzido entrevistas com uma ampla gama de sujeitos que formaram suas posições políticas a partir de subculturas da internet. Seria uma simplificação grosseira dizer que suas chamadas “e-deologias” abrangem amplamente “o espectro político”, já que a verdadeira marca registrada de uma e-deologia não é tanto o quão de direita ou de esquerda ela é, mas sua tendência a coletar respectivas idiossincrasias e qualificações barrocas. Esses não são meramente republicanos e democratas, ou conservadores e liberais, ou mesmo socialistas e libertários. Esses são autoidentificados “monarquistas pan-constitucionais”, “transumanistas antidemocráticos”, “eleitoralistas anarco-primitivistas”, “islamo-nacionalistas”, “voluntaristas agrários”, “eco-fascistas” e muitas outras permutações aparentemente infinitas de ideias de boutique.

Aqui estão alguns trechos de um desses entrevistados, anonimizado pelo seu nome de tela “PapaCoomer”, um “terceiro-posicionista”, também conhecido como “fascista”:

Como você descreveria sua política ou ideologia?
Terceira posição.
Como você descreveria sua política ou ideologia?
Terceira posição.
Quem são suas maiores influências?
Hans Hermann Hoppe, James Mason, William Luther Pierce e Mencius Moldbug.
Quando você conheceu ou começou a visitar comunidades políticas online?
2017.

Citarella entrevista Zoomers, o que explica por que outro de seus entrevistados, um jovem de dezesseis anos do Texas, pode dizer que os empregos de um futuro não muito distante serão “guerrilheiro, escravo neoliberal, mestre neoliberal” com uma cara séria. Essa pessoa disse a Citarella que visita comunidades online desde 2016. Se estiverem dizendo a verdade, isso significa que tinham nove anos de idade, no máximo. E se forem verdadeiros, têm sido “politicamente ativos” offline também, embora isso não seja tratado. Eles não dizem se suas mães tiveram que levá-los.

Dizer que o extremismo de direita e a radicalização reacionária e, sim, até mesmo o fascismo estão “em ascensão” entre os jovens estadunidenses precisar vir com algum contexto. É preocupante? Certamente. Estou com medo de camisas-pardas da Geração Z batendo na minha porta no meio da noite e me prendendo nos campos de servidores de Bitcoin? Na verdade, não, por algumas razões.

Alguns comentários do nosso querido texano de dezesseis anos:

Como você descreveria sua política ou ideologia?
A ideologia está morta. Eu só trabalho para colapsar o sistema atual para que um novo possa surgir das cinzas do antigo.
Como você descreveria sua política ou ideologia?
Terceira posição.
Quem são suas maiores influências?
Ted Kaczynski, Nick Land, James Mason.

E então temos as previsões, feitas com a máxima confiança.

Que mudanças você quer ver nos próximos dez anos?
O colapso dos Estados Unidos, a conscientização em massa sobre o atual estado global, a rejeição dos ideais neoliberais e iluministas.
Que mudanças você quer ver nos próximos quarenta anos?
Colapso do sistema global, retorno do estilo de vida agrário, uma solução viável para as mudanças climáticas.

Não importa se você acha essas respostas cômicas ou angustiantes, eu não confiaria muito na longevidade delas.

Nosso aceleracionista júnior nem sempre foi um adepto do que eles chamam de “pensamento antissistêmico”. Eles se identificaram como marxistas-leninistas em 2016 — quando tinham oito anos de idade. Eles pularam muito, dizendo: “Eu fui anarquista, fascista, comunista, etc.”

Simplesmente não é muito provável que o que você acredita aos dezesseis anos dure até a idade adulta. Os jovens são muito inconstantes, e não há como prever onde suas paixões impetuosas os levarão. Eles não apenas mudam de ideia muito, como as mudam drasticamente, o que não é nada notável para quem se lembra de ser adolescente, sendo o capricho uma marca registrada da juventude. Veja “J”, um autointitulado “reacionário” de 22 anos. Ele era um apoiador de Bernie Sanders em 2016. Ou “R”, que se identifica como anarcocomunista, mas era ecofascista em 2019 — quando tinha onze anos.

Crianças e jovens adultos estão sempre experimentando chapéus, testando suas crenças e identidades enquanto cultivam o tipo de narcisismo com nuances que os jovens sempre estabeleceram para si mesmos, frequentemente sendo antissociais e, mais frequentemente, sendo seletivamente sociais. Afinal, essas sub-sub-subculturas online são uma maneira dessa garotada encontrar amigos tanto quanto uma maneira de se sentirem únicos.

Ainda assim, é improvável que eles se organizem, mesmo dentro de suas próprias fileiras. Há uma grande diferença entre a maneira como os Zoomers “se encontram” e a maneira como aqueles que chegaram à maioridade antes deles o fizeram: eles estão fazendo isso online, anonimamente e em segredo, sem espaço físico para os reunir e sem o perigo de encontrar alguém com quem não queiram falar. Extremamente online é a norma. É meio difícil fazer uma Kristallnacht se você não sai.

Mesmo que eles se envolvessem em ambientes sociais, indo tão longe a ponto de tentar evangelizar seus pares, esses fascistas teóricos juniores altamente alfabetizados encontrariam alguns obstáculos durante qualquer tentativa de recrutamento. Seja atleta, punk rocker, candidato a orador da turma, garoto do teatro, maconheiro ou qualquer outro clichê de John Hughes que nunca chegou perto de representar como nos víamos ou uns aos outros, os adolescentes ficariam perplexos, revirariam os olhos ou pelo menos sorririam um pouco ao encontrar tal pessoa. Não é que toda escola não tivesse intelectuais aspirantes a figuras sérias, mas eles eram apenas alguns; eles eram sempre marginais e quase sempre amadureciam e cresciam a partir disso.

Certamente, as coisas mudaram desde os dias do Myspace, mas ainda é difícil imaginar um dos e-deólogos de dezesseis anos de Citarella em uma pista de skate, uma festa, um evento esportivo ou alguma outra situação em que eles possam estar cercados por colegas, como pregadores de rua maníacos, evangelizando suas crenças políticas altamente específicas e incrivelmente nichadas, com citações de teóricos alemães mortos, reunindo seus pares adolescentes com discussões sérias.

Veja, essas crianças são nerds.

Isso não quer dizer que nerds não possam ser perigosos — Elon Musk e Jeff Bezos têm sido mais vorazmente eficazes em concentrar riqueza do que qualquer barão ladrão antes deles. Até mesmo nerds liberais como George Soros e Bill Gates avançaram algumas políticas neoliberais verdadeiramente hediondas em todo o mundo. Mas essa garotada nem pode votar ainda, então não é muito provável que deponham nossos senhores da tecnologia e assumam seus tronos tão cedo, se algum deles quisesse fazer isso, ou quisesse quando tivessem os meios para inventar algum aplicativo insidioso.

O problema de ser fascista nos EUA é que nunca tivemos um Estado muito orientado a projetos específicos. Essencialmente, eles enfrentam o mesmo obstáculo que os socialistas: o capital.

Nós realmente não construímos instituições políticas ou veículos para economias planejadas ambiciosas, muito menos algo tão ordenado quanto um Estado étnico. Os EUA modernos sempre preferiram a exploração ao genocídio e ao autoritarismo absoluto. E tendemos a ser atores passivos nos genocídios cometidos por outros países. Claro, terceirizamos isso para Estados proxy sabotando seus movimentos de esquerda — por exemplo, armando a América Latina e Israel na Guerra Fria, ou fazendo negócios com os nazistas, como Prescott Bush fez — mas a verdade que permanece é que qualquer um que alegue ser fascista na América é um estranho eurófilo, doente mental ou tem quinze anos.

A ideia do fascismo estadunidense vai contra o capitalismo. Não me entenda mal: no que diz respeito aos Estados contemporâneos, provavelmente somos os melhores quando se trata de permitir o fascismo no exterior, e no que diz respeito aos países desenvolvidos, nossa estrutura neoliberal é única e excepcionalmente cruel, opressiva e exploradora para com os próprios estadunidenses. Mas, me perdoem o pedantismo, o fascismo não será implementado nos bons e velhos EUA tão cedo pela mesma razão que o socialismo também não: nem existem aqui as instituições ou a base para desafiar o capitalismo. Nossa “elite do mal” é uma fera diferente, e qualquer um que tente derrubá-la não tem meios para fazê-lo. Não temos força de trabalho militante, e não temos tropas de assalto. Em vez disso, temos o Estado profundo e a Amazon, e os “partidos” Republicano e Democrata — nenhum dos quais é um partido real com membros cidadãos exercendo qualquer tipo de controle democrático.

Seja para a Juventude Hitlerista ou para a Liga dos Jovens Comunistas, as coisas parecem bem sombrias, o que ajuda muito a explicar as inclinações niilistas, se não totalmente milenaristas, desses radicais infantis. Eles realmente não parecem ter muita esperança na política. Há aberturas para a revolução, mas ela tende a ser irreverente, e você realmente tem que duvidar de sua continuidade. O aceleracionismo parece estar bem popular nesta temporada, mas isso não é realmente política; são expectativas reduzidas e sonhos encolhidos, a esperança de que talvez algum tipo de deus ex machina inevitável nos tire dessa confusão. À medida que envelhecem, alguns deles também desistem disso.

Vamos voltar para J, o quase Bernie Bro de 22 anos que se autoidentificou como “reacionário”.

Ele posta anonimamente, é claro, porque tem um emprego e mantém várias contas no Instagram para compartilhar conteúdo reacionário, caso seja sinalizado por algo que o algoritmo aprende a identificar como discurso de ódio, como o Sol Negro, um símbolo nazista popular entre os supremacistas brancos.

J não é branco, é hindu. Então como conciliar o sol negro com sua própria religião e designação racial? Ele não concilia. Raramente parece achar que é importante. Assim como aquele antigo pessoal que formou motoclubes ou os Sex Pistols ou Siouxsie Sioux, ele parece ser atraído pela subversão envolvida.

Ele é rápido em dizer que tem outros conteúdos online que segue: fóruns de estilo de vida fitness e exercícios, vídeos fofos de animais no YouTube e assim por diante. Então, quando ele diz: “Se eu quisesse me descrever como alguém nas redes, diria que sou um reacionário”, ele está dizendo que formou uma identidade com base nas redes sociais que consome, não nas ações que realiza, assim como seus amigos brancos reacionários online que não têm interesse em expulsar seu compatriota não branco. Ele deixa claro que, embora seja possível para a internet reacionária (e a única aula de ciência política que teve na faculdade) transformar sua visão de mundo, não tem planos de fazer nada a respeito, especialmente quando sua relação com a ideologia é uma parte tão tênue e mercurial de sua identidade geral, o que levanta a questão: você é realmente um nazista se vídeos fofos de animais estão no mesmo nível de sua política? E você realmente faz parte de um movimento nazista se nem sai para marchar?

J é inteligente e atencioso o suficiente para saber que o “discurso” é um hobby. Ele não requer nenhum engajamento ou atividade no mundo real, ou mesmo crença sincera. Ele simplesmente não leva isso a sério; cresceu fora disso.

Mesmo que eles persistam, mesmo que o capital tropece bastante e as condições se tornem maduras, essa garotada não é realmente fascista. Eles estão entediados, solitários, assustados e sem esperança. Eles não têm para onde ir, ninguém com quem estar e nada para fazer politicamente e, cada vez mais, socialmente. Vale sempre a pena ter em mente que a maioria dos Zoomers não está pensando em ideologia. Por que estariam? Como se o caos universal e atemporal de crescer já não fosse o suficiente — reprovar em um teste, sofrer seu primeiro término, aprender a dirigir, tentar se encaixar enquanto também tenta se destacar — a internet fornece distrações constantes e bem-vindas da escassez de possibilidades que eles estão convencidos de que está gravada em pedra.

Esse é o verdadeiro perigo aqui, a verdadeira tragédia: uma descontentamento e atomização que impede o engajamento político necessário para um mundo melhor. Tudo o que eles podem fazer é experimentar chapéus bobos e feios.

Fascistas? Na verdade, não. Não mais do que seus equivalentes são maoístas-sindicalistas-aceleracionistas-anarco-católicos-tradicionalistas. Mas os jovens definitivamente não estão bem, e cabe a nós dar a eles não apenas algo em que acreditar, mas algo para fazer. Admito que é uma tarefa muito difícil hoje em dia, mas ainda tenho esperança. O que posso dizer? Sou um velho romântico.

Republicado do Tribune.

Colaborador

Amber A’Lee Frost é escritora e coapresentadora do podcast Chapo Trap House. Ela é autora do novo livro Dirtbag: Essays.

25 de maio de 2024

John Krasinski pode dirigir o que quiser, eu acho

IF é John Krasinski atuando com a Pixar. Se essas palavras te deixam animado, você vai gostar do filme. Se não, você provavelmente não vai gostar.

Eileen Jones


Cailey Fleming e Ryan Reynolds em foto do filme IF de John Krasinski. (Fotos Paramount/Youtube)

Por que John Krasinski está dirigindo uma versão live-action de um filme da Pixar? Fiquei me perguntando quando vi pela primeira vez uma prévia de IF, um título que representa um acrônimo para “Imaginary Friend” [Amigo Imaginário].

IF é sobre uma menina de 12 anos chamada Bea (Cailey Fleming) que de repente consegue ver essas criaturas adoráveis ​​​​e invisíveis vagando pela cidade de Nova York, separadas de seus filhos que cresceram e as esqueceram. Ela conhece um vizinho irascível chamado Cal (Ryan Reynolds), que também pode ver IFs; juntos, eles decidiram reunir os adultos com seus IFs há muito perdidos.

Então você entende o que quero dizer sobre o efeito Pixar. Alma da Pixar nos deu adoráveis ​​​​personagens espirituais separados de seus humanos após a morte, e a única alma tentando se reunir com sua pessoa para que pudesse viver uma vida plena. A narrativa abrangente dos filmes Toy Story da Pixar é a tristeza entre os brinquedos adoráveis ​​quando seus filhos crescem e se esquecem deles. Inside Out da Pixar caracteriza as emoções adoráveis ​​dentro de uma garota durante um período não tão feliz de sua vida. E Monsters, Inc. da Pixar nos mostrou quais criaturas fantásticas do mundo imaginário são atribuídas a crianças específicas para se esconderem debaixo de suas camas e assustá-las à noite, e o que acontece quando um monstro não quer mais assustar sua garotinha designada.

Monstros Inc. claramente teve grande importância na criação de IF, e Krasinski realmente fez dublagem para a sequência, Monsters University. Entre as criações CGI de IF, um dos personagens principais, Blue (dublado por Steve Carell), um “monstro” roxo enorme e peludo, mas também doce e pateta, é tão fofo que poderia ter saído do elenco de personagens de Monsters, Inc.

Quando eu era criança, gostava muito de monstros. Mas eu gostava daqueles que realmente pareciam e agiam como monstros - não brinquedos de pelúcia grandes e adoravelmente felpudos, como em Monstros S.A. Bruxas, fantasmas, vampiros e zumbis falavam profundamente em mim. Eu era mais o tipo de criança da Família Addams.

Mas acho que a maioria das crianças, e seus pais, gostam de fofura e lágrimas em grandes doses, e assim IF alcançou o primeiro lugar nas bilheterias na semana de estreia.

Parece que Krasinski fez isso de novo. Ele deixou de interpretar o brincalhão Jim na longa comédia de TV, The Office, para escrever, dirigir, produzir e estrelar uma miscelânea de coisas, para o status de estrela de herói de ação em porcarias machistas e chauvinistas como 13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi e Jack Ryan, a ser metade de um casal poderoso de Hollywood com a esposa do ator e produtor Emily Blunt, que estrelou sua franquia de terror de sucesso, A Quiet Place. E agora isso.

Krasinski está na lista da revista Time das cem pessoas mais influentes do mundo. Quem diria que Jim tinha isso dentro dele?

De qualquer forma, de volta ao IF. A história por trás da repentina capacidade de Bea de ver IFs é a ansiedade que ela sente enquanto seu pai hospitalizado (interpretado por Krasinski) é submetido a uma cirurgia cardíaca. Tendo já perdido a mãe devido ao câncer há alguns anos, ela agora teme estar prestes a tornar-se órfã.

Parece que não é potencialmente choroso o suficiente, o enredo principal do filme sobre reunir adultos com seus IFs, que envolve muitas cenas fungadas mostrando-os sendo restaurados ao seu senso de admiração infantil. Além disso, há uma criança com uma mãe morta e um pai talvez moribundo, além de uma avó doce e excêntrica (Fiona Shaw) tentando encantadoramente assumir o papel de mãe substituta. E, além de tudo isso, há uma trilha sonora de Michael Giacchino que é tão melada, tão pesadamente comovente, que tenta arrancar seu coração em cada cena, sobrecarregado como todos estão com violinos soluçantes e teclas de piano infantilmente batidas.

Mas obviamente, esse tipo de filme não foi feito para mim. John Krasinski está modelando o tipo de pessoa para quem este filme foi feito em entrevistas, quando deixa claro que é a flecha definitiva: um cara branco essencialmente conservador que adora a ideia de família e apoia as tropas e admira os agentes da CIA e fala na celebração inaugural de Joe Biden e faz trabalhos de caridade com Boys & Girls Clubs of America. Ele afirma que há uma linha direta conectando seus esforços de direção aparentemente muito diferentes, os filmes Quiet Place, com IF. “Adoro a ideia de serem peças complementares”, diz Krasinski. “Ambos tratam de amor e família.”

IF foi um projeto clássico de Hollywood inspirado em meus filhos que serve de base para tantas entrevistas com celebridades. IF apresenta os amigos imaginários dos filhos de Krasinski com Emily Blunt, Hazel (10) e Violet (7). Eles são o jacaré rosa de Violet e o marshmallow de Hazel que pega fogo. Parece que, como diz Krasinksi, “Hazel é uma pessoa muito empática. Certo dia, estávamos fazendo marshmallows e o marshmallow dela pegou fogo e ela ficou emocionalmente destruída.”

E, como a Pixar demonstrou, quando os filhos dos criadores dos bastidores são a fonte de inspiração para os filmes, o fator fofura está fora de cogitação e os lucros são astronômicos.

Ainda assim, IF tem altos valores de produção e os atores principais fazem tudo o que podem com o material em mãos. Cailey Fleming como Bea parece talentosa, tem um rosto doce e um queixo pontudo que é encantador de se olhar e parece trazer à tona uma qualidade de tio irritado, mas gentil, em Ryan Reynolds como Cal. Fiona Shaw tem uma cena comovente em que sua personagem avó relembra sua ambição de infância de ser bailarina e dança a coreografia de seu antigo recital da escola, com sua esquecida IF, Blossom (Phoebe Waller-Bridge), dançando atrás dela.

E o filme também oferece a diversão de tentar adivinhar qual ator famoso está dando voz a qual IF. Eles incluem Awkwafina, Emily Blunt, George Clooney, Matt Damon, Bradley Cooper, Bill Hader, Maya Rudolph, Jon Stewart, Amy Schumer, Sam Rockwell, Blake Lively, Richard Jenkins, Keegan-Michael Key, e em sua última apresentação, o falecido Louis Gossett Jr. O filme é dedicado a ele, e ele interpreta um velho e sábio ursinho de pelúcia que administra uma casa de repouso para IFs e filosofa sobre o poder da memória.

Eu gostaria que o formidável Gossett tivesse um papel de ação ao vivo menos sentimental e mais substancial para desempenhar. Mas, novamente, sou só eu.

Colaborador

Eileen Jones é crítica de cinema da Jacobin, apresentadora do podcast Filmsuck e autora de Filmsuck, EUA.

9 de outubro de 2023

Jovens no Japão procuram uma alternativa

A Jacobin entrevistou Yuichi Ikegawa, um membro comunista da Assembleia Metropolitana de Tóquio, sobre a razão pela qual a juventude japonesa rejeita cada vez mais o militarismo, a gerontocracia e as falsas promessas do capitalismo.

Uma entrevista com
Yuichi Ikegawa

Jacobin

Milhares de pessoas reúnem-se em 3 de maio de 2022, em Tóquio, no Japão, para protestar contra a alteração da constituição pacifista japonesa para permitir a ação militar no estrangeiro. (David Mareuil/Agência Anadolu via Getty Images)

Entrevistado por
Chris Dite

O Japão está sofrendo de crises contínuas e interligadas. O mal-estar demográfico do país atingiu proporções surpreendentes: 10% dos seus cidadãos têm agora mais de oitenta anos e a população está a diminuindo em cerca de 800.000 pessoas por ano.

Isso se reflete na política do país. O Japão é uma gerontocracia. Em 2021, vários escândalos que antecederam os Jogos Olímpicos de Tóquio revelaram o sexismo arraigado deste sistema político. No ano passado, o assassinato do antigo primeiro-ministro Shinzo Abe resultou em uma onda de raiva pública dirigida não ao seu assassino, mas ao Partido Liberal Democrata de Abe. A somar a esta turbulência interna, a aliança do Japão com os Estados Unidos está a arrastá-lo para mais perto do confronto militar com a China.

O Partido Comunista Japonês (JCP), que no ano passado celebrou o seu centenário, tem sido uma voz consistente contra este status quo fracassado. O PCJ foi reprimido sob o sistema imperial, e novamente durante o "Expurgo Vermelho" da ocupação dos EUA. Ele navegou por uma posição independente durante a divisão sino-soviética e sobreviveu bem e verdadeiramente à queda da União Soviética. Hoje, o JCP tem cerca de 270.000 membros, o que o torna um dos maiores partidos comunistas não governamentais do mundo.

Yuichi Ikegawa é membro eleito da Assembleia Metropolitana de Tóquio pelo JCP. O órgão de governo da extensa megacidade tem poderes mais semelhantes aos de um parlamento do que de um conselho municipal, e os seus debates provocam frequentemente discussões a nível nacional. O jovem Ikegawa alcançou a fama em todo o Japão como o rosto de um movimento estudantil triunfante contra as regras autoritárias e bizarras do Conselho de Educação de Tóquio que policiam os cortes de cabelo dos estudantes. A questão tornou-se um símbolo do tratamento por vezes cruel que o Japão dispensa à sua cada vez menor população jovem.

De forma algo incomum em um Japão que envelhece rapidamente, as campanhas eleitorais bem-sucedidas de Ikegawa centraram-se nos direitos dos jovens e dos estudantes. Seus esforços foram recentemente retratados em One Hundred Years and Hope, um documentário sobre o JCP.

A Jacobin conversou com Ikegawa sobre a situação sombria que a juventude japonesa enfrenta no contexto de uma guerra iminente.

Chris Dite

Os resultados de uma pesquisa da Fundação Nippon publicada este ano mostraram que cerca de 45% dos japoneses com idade entre dezoito e vinte e nove anos têm pensamentos suicidas. Isso é incrivelmente alto. Você poderia explicar as dificuldades enfrentadas pelos jovens sob o capitalismo no Japão?

Yuichi Ikegawa

Esta é uma figura muito séria. As gerações mais jovens no Japão estão sofrendo fardos terríveis. Na educação, a concorrência excessiva e a microgestão prejudicam profundamente os jovens. Eles estão crescendo em um ambiente onde têm muito pouca experiência em criar algo por conta própria. Suas mensalidades são extremamente altas em comparação com outros países. Eles são forçados a entrar no mercado de trabalho sobrecarregados com grandes dívidas estudantis decorrentes de empréstimos de "bolsas de estudo".

Uma vez lá, descobrem que uma em cada duas pessoas tem um emprego precário como trabalhador não regular. As pessoas são cada vez mais incapazes de ter esperança no futuro ou de imaginar as suas vidas amanhã. Nestas circunstâncias, o bullying, a evasão escolar, a violência contra professores e o suicídio estão aumentado. O problema é que as crianças são tratadas como recursos humanos a serem utilizados e não como sujeitos com direitos. Estão dispersos e alienados, e esta situação é muitas vezes justificada através de ideias profundamente enraizadas de "responsabilidade pessoal".

Chris Dite

Você liderou os seus jovens eleitores em uma batalha muito pública contra as práticas autoritárias do Conselho de Educação de Tóquio. Sua campanha resultou na abolição pelo Conselho de algumas de suas políticas alarmantes em relação ao vestuário e aparência dos estudantes. Estarão os estudantes em Tóquio mais confiantes agora para se levantarem e exigirem os seus direitos básicos?

Yuichi Ikegawa

Esta foi realmente uma experiência feliz. Isso prova que se você levantar a voz, poderá mudar a política e a sociedade. Alunos do ensino fundamental e médio, que ainda nem sequer podem votar, agiram e abriram caminho para eliminar essas regras escolares irracionais. Esperamos que esta tendência se espalhe não apenas em Tóquio, mas por todo o Japão.

É importante notar que os próprios professores também estão sujeitos a um controle extremo e a um tratamento ultrajante. Muitos professores expressaram a sua oposição às regras cruéis para as crianças em idade escolar e a sua felicidade por termos conseguido vencer as mudanças que fizemos. Esperemos que esta solidariedade possa levar à criação de escolas mais colaborativas.

Mas ainda há muitos desafios a superar se quisermos pôr fim à opressão contínua das crianças e à violação dos seus direitos. Se o status quo é irracional, deveríamos apenas adaptar-nos a ele ou tomar medidas para mudar a situação? Estes jovens levantaram as suas vozes e devemos ser solidários para amplificar as suas vozes e provocar mudanças.

Chris Dite

Os trabalhadores da loja de departamentos Seibu-Sogo entraram em greve no mês passado em Tóquio. Foi a primeira grande greve em lojas de departamentos em mais de sessenta anos. Existe um clima crescente de desafio entre os trabalhadores no Japão?

Yuichi Ikegawa

É necessário um aumento drástico dos salários para proteger os meios de subsistência das pessoas do aumento dos preços. As empresas japonesas dispõem de enormes e crescentes reservas de capital, mas os salários reais têm diminuído durante dezesseis meses consecutivos. Quando as necessidades e reivindicações dos trabalhadores são frustradas, a greve é essencial para melhorar as nossas vidas e condições de trabalho. Assim, um número crescente de sindicatos no Japão está em greve, e estas greves continuarão a se espalhar. A constituição japonesa garante “o direito dos trabalhadores de se organizarem, participarem na negociação coletiva e participarem em outras ações coletivas”. Fazer greve é um direito de todos os trabalhadores e todos devem ser solidários e apoiar a greve de Seibu-Sogo.

Chris Dite

O livro Capital in the Anthropocene, de Kohei Saito, vendeu mais de meio milhão de cópias no Japão. Por que você acha que a ideia do “comunismo do decrescimento” ressoou tão fortemente?

Yuichi Ikegawa

Penso que é claro que, face à crise climática e às realidades da pobreza e da desigualdade, as pessoas começam a questionar se o capitalismo está funcionando. Há definitivamente uma sensação crescente de crise, uma sensação de que a sobrevivência de muitas pessoas está ameaçada. É evidente que as coisas não podem continuar como estão. Enquanto esta crise se desenrola, as pessoas ainda procuram e exploram possíveis caminhos para sair desta situação. Esperemos que concluam que o capitalismo não se preocupará com o nosso bem-estar, até que a sociedade o obrigue a fazê-lo. Face à crise climática e às realidades da pobreza e da desigualdade, as pessoas começam a questionar se o capitalismo está funcionando.

Chris Dite

A governadora Yuriko Koike chefia a Assembleia Metropolitana de Tóquio na qual você atua e deverá contestar novamente sua posição nas eleições do próximo ano. Ela também é membro da poderosa e secreta organização de extrema direita Nippon Kaigi. Como é que organizações como esta passaram a exercer uma influência tão descomunal e o que isto significa para a política em Tóquio?

Yuichi Ikegawa

A direita religiosa em geral e a política do Partido Liberal Democrático (LDP) estão profundamente ligadas. Em 1993, foi emitida a Declaração de Kono, reconhecendo o envolvimento dos antigos militares japoneses na questão das "mulheres de conforto". Em 1995, o primeiro-ministro [Tomiichi] Murayama expressou "pedidos de desculpas e remorso" pela agressão japonesa e pelo domínio colonial. É evidente que estes esforços não vão suficientemente longe. No entanto, provocaram um verdadeiro sentimento de crise entre certos setores da elite, que viria a fundar a Nippon Kaigi em 1997. A organização tem agora ligações com muitos políticos. Esta ligação exerce influência em todas as áreas, incluindo o revisionismo histórico e os ataques à igualdade de gênero.

O governador Koike faz parte disso. Por exemplo, em 1972, o Governo Metropolitano de Tóquio publicou Tokyo: 100 Years of History. Ele primeiro descreveu como, durante o Grande Terremoto de Kanto, grupos de vigilantes espalharam rumores falsos e depois assassinaram brutalmente muitos coreanos. Reconheceu este massacre de coreanos como um fato histórico. Reconheceu este acontecimento como uma catástrofe provocada pelo homem, distinta do terremoto. E reconheceu os assassinatos como "uma mancha irreversível na história de Tóquio". Nas cerimônias memoriais subsequentes dos governos metropolitanos de Tóquio, os governadores anteriores escreveram cartas de condolências para estas vítimas coreanas. A Governadora Koike adotou uma posição revisionista histórica e recusou-se a fazê-lo.

Mas a Governadora Koike enfrenta agora muitos problemas devido aos seus ataques à história. Por exemplo, a UNESCO acaba de emitir um alerta de patrimônio mundial contra a reconstrução de Jingu Gaien, com fins lucrativos, levada a cabo pelo governadora. O governo de Tóquio precisa de mudanças fundamentais. Estamos unindo forças com os residentes de Tóquio e outros partidos políticos para enfrentar questões como estas desde o início.

Chris Dite

As sondagens sugerem que o público está dividido quase exatamente pela metade relativamente às revisões propostas ao Artigo 9, que proíbe a guerra para sempre. Apesar disso, o governo Kishida está aprofundando os laços militares com os Estados Unidos e duplicando o orçamento de defesa do Japão para se tornar o terceiro maior gastador militar do mundo. Terá o PDL acabado de decidir rescindir o Artigo 9º na prática, em vez de correr o risco de perder um debate formal sobre a sua revisão?

Yuichi Ikegawa

A escolha do Primeiro-Ministro [Fumio] Kishida de responder à expansão militar com expansão militar é perigosa. O aumento dos gastos militares para 43 bilhões de ienes ao longo de cinco anos coloca o Japão em um caminho extremamente traiçoeiro. Mas não importa o que faça, o governo continua vinculado ao Artigo 9. Assim, os reformadores constitucionais, incluindo o Partido Liberal Democrata, continuam desesperados para alterar o Artigo 9, e ainda há movimentos no sentido de alterações constitucionais dentro da Dieta.

Apesar de tudo isto, existem fortes vozes de oposição à política da administração Kishida de aumentar os gastos militares e promover a expansão militar. Há uma necessidade urgente de mudar fundamentalmente o atual sistema político, que centra a aliança Japão-EUA como uma necessidade absoluta. É por isso que usamos slogans como "a política existe para evitar a guerra" e "o Japão deve ajudar a construir uma comunidade de paz na Ásia Oriental", em um esforço para difundir o diálogo e a empatia.

Chris Dite

Em um levantamento recente do Mainichi Shimbun, 80 por cento dos estudantes do ensino secundário responderam "sim" à pergunta: "Queres fazer algo para contribuir para a paz?" Você acha que há potencial para construir um movimento contra a militarização e a guerra no Japão de hoje?

Yuichi Ikegawa

Quando era estudante do ensino secundário, participei nos movimentos sociais de oposição às guerras dos EUA no Afeganistão e no Iraque. Pessoas da mesma geração reuniram-se e manifestaram-se, discutindo o que significa a paz e como poderíamos alcançá-la.

Todas as pessoas desejam melhorar as suas vidas e a sociedade em que vivem. Hoje, no Japão, isso pode ser visto no movimento crescente de jovens que exigem igualdade de gênero e maiores medidas para combater a crise climática. A paz é outra dessas exigências.

A palavra-chave mais importante que permeia todas estas questões são os direitos humanos. A guerra é a maior violação dos direitos humanos. É crucial compreender a realidade da guerra. Esta é a última geração capaz de ouvir diretamente sobre as experiências de guerra do Japão, incluindo a sua exposição à radiação durante os bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Devemos expandir as nossas ações em prol da paz de diversas maneiras.

Colaboradores

Yuichi Ikegawa é membro da Assembleia Metropolitana de Tóquio.

Chris Dite é professor e sindicalista.

26 de maio de 2023

Dar à luz num sistema de saúde público mostrou-me o que está errado no acesso à saúde nos Estados Unidos

Dei à luz dois filhos em duas cidades, Nova Iorque e Londres. Os cuidados que recebi através do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido mostraram-me os limites reais dos melhores cuidados de saúde privados nos EUA.

Tehreem Abedi


É difícil saber quanto dano é causado a milhões de mulheres nos EUA e no mundo que têm de combinar o stress e a emoção do parto com cuidados de saúde inadequados. (Diego Cerro Jiménez/Getty Images)

Tradução / Com dois anos de diferença dei à luz duas crianças em duas cidades, Nova Iorque e Londres. Na minha primeira gravidez vivia no bairro de Upper East Side, em Manhattan. Estava a aclimatar-me ao nosso novo apartamento duplex quando recebi uma chamada. Perguntaram-me se queria marcar uma visita ao hospital. Para mim, a ideia de visitar um hospital antes de dar à luz — como se fosse um hotel onde se estivesse deliberadamente a fazer check-in — soava absurda. Que poderia eu querer ver?

Cresci no Reino Unido numa altura em que o Serviço Nacional de Saúde (National Health Service, NHS) era ainda bem financiado e predominava um serviço “tamanho único”, através do qual todos recebiam o melhor tratamento possível. Rodeada pelo brilho e o glamour dos serviços de saúde privados americanos, o meu espanto europeu cedo deu lugar ao entusiasmo de ter o poder de influenciar o processo de nascimento do meu primeiro filho.

Enquanto andávamos às voltas pelo Mount Sinai West — um imponente edifício de dez andares na 10ª Avenida, bairro de Upper West Side, Manhattan — quem me guiava tentava vender-me o hospital. A maternidade, disseram-me, estava no topo dos rankings e a suite de partos estava desenhada para criar um ambiente familiar confortável.

Parecia claramente melhor do que simplesmente ser-me dito em que hospital subfinanciado do Reino Unido eu iria parir, como foi a experiência de algumas das minhas pares que haviam recentemente dado à luz. A “guia turística” não percebeu que não precisava de ser tão entusiasta a vender-me o produto — o hospital, com o seu chão brilhante de tão branco e as suas casas de banho espaçosas falava por si mesmo.

O aspeto daquele lugar tornava muito mais fácil imaginar os nossos primeiros momentos como uma família de três. Dar à luz no equivalente hospitalar do Ritz não seria, previsivelmente, barato: passar a noite custar-me-ia 900 dólares, fora todos os custos relativos ao parto e cuidados ambulatórios.

Dois anos depois, a meio de uma pandemia, dei por mim dentro de uma casa de banho do Hospital de Chelsea e Westminster, em Londres onde mal conseguia virar-me. O edifício onde esperava a minha primeira consulta parecia datado; não tinha o brilho do Mount Sinai West. Estava a poucas semanas do parto e decidi deixar-me estar no Reino Unido, onde vivia a minha família próxima. O meu marido e eu não conseguíamos imaginar como seria gerir sozinhos uma criança enérgica e um recém-nascido.

Enquanto me deitava para ser examinada, fiquei horrorizada ao ver a médica obstetra puxar de uma fita métrica para medir o crescimento do bebé. Senti que tinha voltado atrás no tempo: não haveria algo menos analógico para fazer aquele trabalho? Estava habituada a fazer ecografias de rotina em todas as minhas consultas. Fiquei chocada ao saber que, em Inglaterra, as grávidas fazem, em média, duas ecografias durante toda a gravidez. Foi um contraste enorme com o que se passou em Nova Iorque, onde a minha gravidez foi gerida ao pormenor por um médico que encontrei após horas de pesquisa, leitura de avaliações e críticas e comparação de qualificações.

Como o Mohsin nasceu de parto natural, presumi que da segunda vez seria igual. A primeira vez foi bastante direta ao assunto, portanto aquela também deveria ser tranquila. Outras mulheres muito mais pobres e muito menos saudáveis que eu costumavam dar à luz oito, nove, ou mesmo dez crianças sem qualquer droga. Haveria de me preocupar com o quê?

Em Londres, ao analisar o historial da minha gravidez, a médica obstetra fez uma pausa prolongada quando percebeu a magnitude das minhas lesões. Assegurou-me, gentilmente, que aquelas informações seriam discutidas por uma equipa médica.

Mesmo assim, enquanto a data do parto se aproximava, lembrei-me de anteriormente ter sofrido algo chamado laceração perineal de quarto grau após ter dado à luz o meu primeiro filho. Esta informação estava num pedaço de papel enfiado ou guardado num lugar qualquer. Passaram seis semanas após o nascimento do Mohsin até eu saber, numa consulta de rotina, que lesões havia sofrido durante o parto. Não me lembro, garantidamente, de alguém se sentar comigo, em Nova Iorque, para me explicar as implicações a longo prazo.

Em Londres, ao analisar o historial da minha gravidez, a médica obstetra fez uma pausa prolongada quando percebeu a magnitude das minhas lesões. Assegurou-me, gentilmente, que aquelas informações seriam discutidas por uma equipa médica. No dia seguinte, um funcionário nervoso ligou-me para explicar que queriam que eu fosse urgentemente fazer um exame para perceber o tamanho da laceração. Era a melhor maneira de perceber se um parto natural seria seguro para mim. Ao ouvir isto, fiquei surpreendida por saber que esse exame existia. Aliás, se existia, porque é que a equipa do hospital privado nem sequer o mencionou? No Reino Unido, apesar do imenso subfinanciamento dos serviços públicos de saúde, o princípio que ditava os procedimentos médicos a fazer era a necessidade do paciente. Nos Estados Unidos, pelo contrário, era a exigência do paciente pelo tipo certo de apoio ao cliente, e aquilo que o seu seguro cobria, que decidia que cuidados receberia.

Aquele setembro em Londres estava glorioso, surpreendentemente soalheiro. Era óptimo, porque significava que o Mohsin podia continuar a passar tempo ao ar livre, a brincar nos jardins de Redcliff ou a seguir o meu marido ou a minha mãe por Chelsea e Fulham, enquanto faziam recados ou se encontravam com amigos. Ainda faltava uma semana para as quarenta, mas já me preparava para o parto. O Mohsin nasceu uma semana antes do suposto e não queria ser apanhada desprevenida.

E assim foi: as contrações tornaram-se mais frequentes exatamente uma semana antes da data prevista. Passei o dia a caminhar pelos lindos jardins do nosso prédio para aliviar as dores até que as águas, inevitavelmente, rebentaram. Já tinha preparado o saco para a maternidade e estava pronta para sair. Peguei no telefone e liguei para lá. “As minhas águas rebentaram”, expliquei, calmamente. E sublinho “calmamente” porque, ainda que fosse a nossa segunda criança, o meu marido ainda não tinha percebido que entre rebentarem as águas e parir poderia passar muito tempo. “Okay, ficamos à sua espera”, respondeu suavemente a médica obstetra.

Despedi-me da minha mãe com um abraço e o meu marido chamou um táxi, apesar do hospital estar a curta distância, facilmente percorrida a pé. Ao contrário do que aconteceu em Nova Iorque, não tive de andar com um plano de nascimento detalhado. Só sabia que queria dar à luz naturalmente, mas os resultados dos exames não tinham chegado à hora em que entrei em trabalho de parto. Não havia maneira de saber se seria seguro.

Deitei-me na cama do hospital com os dentes cerrados enquanto as enfermeiras tentavam determinar o quão dilatada eu estava. As contrações pioraram. Fechei os olhos e murmurei as orações que me vieram à cabeça. Subitamente, duas médicas agitadas apareceram à minha cabeceira. Disseram-me que queriam conversar comigo sobre os resultados dos exames. Com o olhar pedi ao meu marido que as fizesse desaparecer dali, mas elas afirmaram que era imperativo e vital falar sobre os resultados daqueles exames naquele preciso momento.

Segundo as análises que fizeram eu tinha sofrido uma lecaração perineal em quarto grau, a mais grave possível, na minha última gravidez. Outro parto natural poderia ter implicações na minha saúde, para a vida inteira. A minha cabeça começou a andar à roda. Tudo o que percebi foi que recomendavam seriamente uma cesariana. Em último lugar, disseram-me os médicos, a decisão seria minha. Então decidi: não, não queria que me abrissem. A jovem enfermeira australiana suspirou enquanto olhava para a colega, e ambas concordaram que eu precisava de algum tempo para pensar.

Quando voltaram, dez minutos depois, eu continuava irredutível. O tempo passava e se fosse para fazer a cesariana tinha de tomar uma decisão imediatamente. Olhei para o meu marido, que continuou calado. Percebi, pela tensão no seu corpo, que temia por mim. Será que um parto natural faria de mim, realmente, uma mãe melhor? Ou provaria que, de facto, dei à luz?

No Reino Unido, apesar do imenso subfinanciamento dos serviços públicos de saúde, o princípio que ditava os procedimentos médicos a fazer era a necessidade do paciente. Nos Estados Unidos, era a exigência do paciente pelo tipo certo de apoio ao cliente, e aquilo que o seu seguro cobria, que decidia que cuidados receberia.

Abanei a cabeça e reafirmei a minha decisão. Queria um parto natural. A vida é minha, e iria sempre sofrer se algo corresse mal. Uma memória de Nova Iorque aflorou na minha cabeça. Na altura, escrevi em letras maiúsculas que não queria epidural; queria um parto o mais natural possível. Ainda assim, lembro-me de uma enfermeira desafiar essa intenção, perguntando-me o que esperava alcançar com isso, porque jamais havia tido uma paciente que não quisesse aliviar a sua dor. Ainda que essa fosse uma decisão menor, percebi que — e ainda que seja possível escolher previamente fazer uma cesariana, no Reino Unido — os constrangimentos orçamentais faziam com que o pessoal médico não as oferecesse a menos que houvesse uma boa razão. Eu precisava de uma cesariana, mas quando recusei as enfermeiras e as médicas respeitaram a minha decisão.

Concordámos, então, que a epidural seria essencial para controlar o desfecho do parto. Deitei-me de lado e uma anestesista ordenou-me que retesasse o meu corpo enquanto a agulha entrava. Passados 15 minutos já não sentia nada. Meio acordada, meio a dormir, via a luz ao fundo do túnel cada vez mais próxima. A enfermeira australiana assumiu a tarefa de controlar todo o processo para conseguir tirar o bebé. A gravidade faria a sua parte; pediram-me apenas que ficasse deitada e que deixasse o bebé descer o mais naturalmente possível.

Parte de mim questionava-se se não estaria a gastar o tempo daqueles profissionais de saúde. Certamente teriam outros pacientes para atender. Por outro lado, admirava a dedicação que aquela equipa demonstrava. Estava a ir contra os conselhos que me deram, e mesmo assim era o centro de todos os cuidados.

E assim nasceu o Mustafa, numa sexta-feira, 10 de setembro, às 4h10 da manhã. O meu corpo sobreviveu, miraculosamente. Apenas tive de levar alguns pontos. Os meus olhos começaram a enxergar a renovada sala de partos com outros olhos.

Olhando para trás, a decisão de não fazer a cesariana não terá sido das mais inteligentes que já tomei. Tive muita sorte em ter escapado de quaisquer lesões sérias ou complicações para a vida. Ainda assim, o apoio e o cuidado que recebi durante todo o trabalho de parto foram para lá do que havia imaginado.

Eram 8h30 quando me transferiram para a ala pós-parto, já de banho tomado e roupa lavada. Tinha algumas reservas sobre partilhar um quarto com outras cinco mães e os seus cinco recém-nascidos. Lembro-me de ter sido difícil partilhar espaço com outra mãe no Mount Sinai West, que me mandava calar sempre que se sentia incomodada. Assim que me senti nos lençóis lavados, a enfermeira chefe veio ter comigo e apresentou-se. Deu-me os parabéns e disse-me que toda a equipa estava preparada para ajudar as mães com a amamentação. Quando lhe falei sobre a alta, ela expressou um ar de confusão. “Não há pressa”, disse-me. Poderia ficar até me sentir confortável e pronta para ir embora.

Foi apenas depois de dar à luz no Reino Unido, um país com um sistema de saúde público funcional, que pude experienciar uma alternativa genuína. Ficou claro o valor dos serviços financiados publicamente: libertam-nos do terror de ter de calcular os custos das nossas necessidades mais básicas.

No Mount Sinai West, passaram-se horas até ser atendida por uma consultora especializada em lactação, que passou apenas alguns momentos comigo a dizer-me o que deveria fazer. Não parecia entender que eu tinha sido mãe pela primeira vez, que não sabia como funcionava a amamentação, e que todo o meu corpo me doía intensamente. Olhando para trás, isso explica alguns dos problemas que tive na amamentação do meu primeiro filho. Passei três meses tentando combinar a amamentação com o biberon, até desistir.

Em Londres, fiquei quatro noites no hospital depois de dar à luz. Durante esse tempo, não pensei na soma dos custos — porque não havia. Em vez disso, foquei a minha atenção em ficar boa e em ser mãe. Tinha três refeições por dia, com entradas, parto principal e sobremesa. Não estaria isso mais próximo de uma estadia num hotel do que a experiência que tive naquele hospital de ladrilhos brilhantes em Nova Iorque? De médicas a enfermeiras, havia um batalhão de gente pronta a ajudar-me. Os múltiplos chuveiros eram lavados diariamente. Estava longe de ser o caos que achei que seria.

Enquanto me preparava para receber alta, ofereceram-me um livrinho vermelho, charmosamente desatualizado, onde deveria registar o historial de vacinas e procedimentos médicos do bebé. Ri-me sozinha ao pensar que o sistema do boletim vermelho não tinha sido atualizado para refletir a era digital em que vivemos.

Ao sair do hospital em Chelsea, pensei naquele janeiro frio de Nova Iorque, quando me arrastei, manca, para fora de casa, até à primeira consulta pediátrica do Mohsin. Não percebia que nos Estados Unidos não havia o conceito de um cuidador vir até nós. Ainda hoje, ao conversar com amigas americanas que também são mães, elas se surpreendem ao ouvir que em quase toda a Europa não é esperado que uma mãe leve o seu recém-nascido onde quer que seja.

Sempre que o Mustafa tinha uma visita marcada, uma enfermeira ligava para mim na manhã desse dia para agendar uma hora oportuna para a consulta. Era um sistema genial. Ficava em casa, confortavelmente, era observada ao alimentá-lo, e podia perguntar sobre tudo o que me preocupava.

É difícil saber a magnitude do dano causado a milhões de mulheres nos Estados Unidos e no resto mundo que têm de combinar a pressão e a emoção de serem mães com um serviço de saúde inadequado. O problema das baixas expectativas é privar as pessoas de conceberem sequer que há alternativas. Em Nova Iorque fiquei impressionada sobre o que achava ser o melhor cuidado médico possível, melhor do que a maioria dos americanos tem acesso. Mas os serviços mais básicos, como uma cama pela qual não tenho de pagar, nem me pareceu naquele momento uma possibilidade. Pareceu normal.

Foi apenas depois de dar à luz no Reino Unido, um país com um sistema de saúde público funcional (ainda que mal financiado), que pude experienciar uma alternativa genuína. Ficou claro, para mim, o valor dos serviços financiados publicamente: libertam-nos do terror de ter de calcular os custos das nossas necessidades mais básicas.

Colaborador

Tehreem Abedi é uma educadora do ensino médio que se tornou dona de casa e criou seus filhos em dois continentes.

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