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2 de setembro de 2026

A disparada dos rendimentos dos títulos beneficia os ricos e aperta o restante da população

A alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro não é um veredito do mercado sobre a irresponsabilidade do governo. Trata-se de uma decisão de política econômica que transfere renda de trabalhadores e tomadores de empréstimos para detentores de títulos e instituições financeiras.

Matías Vernengo


Os "vigilantes do mercado de títulos" não são uma força externa de mercado disciplinando um governo irresponsável. A narrativa do pânico no mercado de títulos inverte a relação de causa e efeito: os rendimentos elevados refletem, em grande medida, escolhas de política — e essas escolhas têm consequências distributivas. (Melissa Sue Gerrits / Getty Images)

A recente alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de longo prazo reacendeu uma narrativa conhecida sobre irresponsabilidade fiscal. Analistas apontam para os grandes déficits federais, a crescente dívida pública e o volume de títulos do Tesouro chegando ao mercado. Sob essa ótica, rendimentos mais altos seriam a resposta do mercado ao endividamento governamental excessivo, e a política da administração Trump equivaleria a uma imprudência fiscal. Essa interpretação baseia-se em uma concepção antiga e equivocada dos mercados financeiros. Ela trata o governo e os tomadores de empréstimos privados como concorrentes por um conjunto limitado de poupança, de modo que déficits maiores necessariamente impulsionariam as taxas de juros para cima. No entanto, as taxas de juros em uma economia monetária moderna não são determinadas dessa forma. O Federal Reserve (Fed) define diretamente a taxa de juros de curto prazo (taxa básica) e exerce forte influência sobre toda a curva de rendimentos por meio de alterações na composição e no tamanho de seu balanço patrimonial, bem como por meio das expectativas em relação às taxas futuras.

A atual elevação das taxas de longo prazo é mais bem compreendida sob essa perspectiva monetária. A inflação permanece acima da meta de 2% do Fed, e o choque energético associado à guerra envolvendo o Irã reforçou os receios de persistência inflacionária. Tais receios são exagerados. Uma inflação acima de 2% não constitui, por si só, evidência de uma crise inflacionária, especialmente quando não há conflito distributivo capaz de gerar uma espiral salários-preços autossustentável. O problema mais profundo reside no compromisso do Fed com uma meta de inflação excessivamente baixa. Como os formuladores de políticas tratam até mesmo uma inflação moderada como algo que exige medidas restritivas, as taxas de curto prazo permanecem desnecessariamente elevadas, e as expectativas de taxas mais altas se propagam para os títulos de vencimento mais longo.

Os rendimentos de longo prazo também devem ser analisados ​​à luz das políticas monetárias extraordinárias adotadas após a crise financeira global. O quantitative easing (flexibilização quantitativa) reduziu deliberadamente as taxas de longo prazo ao fazer com que o Fed comprasse grandes quantidades de títulos do Tesouro. À medida que o Fed adquiria títulos de longo prazo, seus preços subiam e seus rendimentos — a taxa de juros de longo prazo — caíam. O recuo posterior em relação a essas políticas eliminou uma importante fonte de pressão de baixa sobre os rendimentos. Contudo, embora o rendimento do título do Tesouro de 10 anos pareça elevado em comparação com o período excepcional pós-2008, ele permanece modesto segundo padrões históricos de mais longo prazo. Nada nos rendimentos atuais demonstra que a dívida pública dos EUA se tornou financeiramente insustentável. De fato, a experiência desde 2008 mostra que, quando o Federal Reserve deseja influenciar as taxas dos títulos do Tesouro de longo prazo, ele dispõe dos meios para fazê-lo.

A análise recente de Adam Tooze sobre os rendimentos mais elevados dos títulos públicos oferece uma versão mais sofisticada do argumento de que o mercado de títulos gera apreensão. Ele observa corretamente que os Estados Unidos não estão à beira de um calote. Sua preocupação, na verdade, diz respeito à mudança na estrutura da demanda por títulos do Tesouro (Treasuries). Nos anos 2000, bancos centrais estrangeiros absorviam uma grande parcela das novas emissões do Tesouro. Hoje, segundo ele, investidores privados — especialmente fundos de hedge alavancados — desempenham um papel muito maior. Como essas posições podem ser desfeitas rapidamente, Tooze teme que um choque possa desencadear vendas forçadas e uma repetição da turbulência no mercado de títulos ocorrida em março de 2020.

É verdade que mercados financeiros alavancados são frágeis, e uma corrida por liquidez pode gerar desordem mesmo no mercado dos ativos em dólar mais seguros. No entanto, apesar dessa descrição sofisticada da mudança na estrutura institucional do mercado de títulos, Tooze ainda trata a demanda privada por títulos públicos como uma restrição operacional para o Tesouro. O Tesouro emite títulos, investidores privados precisam absorvê-los, e o perigo reside na possibilidade de exigirem rendimentos mais altos ou se retirarem abruptamente. Assim, o Tesouro parece, pelo menos em certa medida, refém das circunstâncias do mercado. Essa é uma concepção equivocada.

O mercado de títulos do Tesouro não é um mercado comum, no qual o governo precisa aceitar qualquer preço necessário para atrair compradores privados que o financiem. O Tesouro e o Federal Reserve são instituições formalmente distintas, mas partes conectadas de forma simbiótica ao sistema monetário. Os bancos do Federal Reserve atuam como agentes fiscais do Tesouro. Considerando a capacidade do Fed de definir a taxa de curto prazo e comprar ativos — incluindo títulos de longo prazo — e a capacidade do Tesouro de alterar a composição de prazos da dívida, as autoridades públicas têm, em última análise, o poder de determinar a estrutura das taxas dos títulos, caso decidam utilizar plenamente suas prerrogativas. Isso não significa que acidentes financeiros sejam impossíveis. Fundos de hedge podem quebrar e mercados podem ficar temporariamente ilíquidos. Mas isso não transforma os rendimentos mais altos dos títulos em uma restrição externa imposta ao governo dos EUA. Se a desordem ameaçasse o sistema financeiro, o Fed poderia intervir, como já fez anteriormente. A questão relevante, portanto, não é se haverá compradores privados suficientes para financiar o endividamento do Tesouro a uma taxa determinada pelo mercado. A questão é por que o regime de política econômica do Tesouro e do Fed optou por tolerar — e, em aspectos importantes, gerar — taxas substancialmente mais altas.

A discussão recente de James K. Galbraith sobre a dívida federal aproxima-se consideravelmente dessa interpretação. Galbraith descarta a marca de US$ 40 trilhões da dívida como algo economicamente irrelevante e enfatiza que as obrigações dos EUA denominadas em dólares podem sempre ser pagas. Mais importante ainda, ele observa que taxas elevadas têm efeitos diferentes quando a dívida federal é grande. Elas não apenas comprimem o setor imobiliário, o investimento empresarial e o crédito ao consumidor; também geram enormes pagamentos de juros aos detentores de títulos públicos. Como diz Galbraith, pagamentos de juros mais altos "inundam os detentores de dívida com dinheiro". A consequência distributiva é clara: mais renda vai para os detentores ricos de títulos. Ele também tem razão ao afirmar que a alta nos rendimentos de longo prazo não precisa sinalizar perda de confiança no governo. Quando as taxas de curto prazo sobem e a expectativa é de que permaneçam altas, o preço dos títulos de longo prazo existentes (com cupons baixos) cai, e os rendimentos de longo prazo aumentam. Não há necessidade de invocar pânico fiscal.

Isso muda a forma como devemos entender a alta dos rendimentos. Os "vigilantes do mercado de títulos" (bond vigilantes) não são uma força externa de mercado disciplinando um governo irresponsável. A narrativa do pânico no mercado de títulos inverte a relação de causalidade. Taxas elevadas refletem, em grande medida, escolhas de política econômica, e essas escolhas têm consequências distributivas. Durante grande parte do período pós-crise financeira global, os proprietários de ativos financeiros seguros enfrentaram retornos excepcionalmente baixos. Taxas básicas baixas e a flexibilização quantitativa (quantitative easing) comprimiram os rendimentos, reduziram a receita de juros de títulos públicos e geraram queixas incessantes sobre repressão financeira. O novo regime inverte esse cenário. Uma vez estabelecido, no entanto, o regime de taxas mais altas restaura fluxos substanciais de receita de juros para credores e detentores de riqueza financeira.

Scott Bessent, um homem oriundo das entranhas de Wall Street, não está sendo derrotado por seus antigos amigos. Galbraith aponta a ironia de Bessent recomprar títulos de longo prazo com rendimentos mais baixos enquanto financia essas compras emitindo dívida de curto prazo com rendimentos mais altos, e pergunta de forma ácida: "Por que, afinal, um servidor público — que supostamente não trabalha para os detentores de títulos — iria querer fazer isso?" A questão é, precisamente, quem se beneficia do regime de taxas de juros mantido pelo Tesouro e pelo Federal Reserve. Os vencedores são os rentistas. Os detentores de títulos do Tesouro recebem pagamentos de juros maiores. As instituições financeiras voltam a obter retornos substanciais sobre ativos seguros, e as famílias ricas ganham um fluxo de renda garantido pelo governo federal. Trabalhadores, tomadores de empréstimos e devedores enfrentam o outro lado da política monetária restritiva. Os custos refletem-se em prestações de financiamento imobiliário e taxas de crédito mais elevadas, demanda agregada mais fraca, crescimento mais lento e um mercado de trabalho menos aquecido.

Há uma ironia adicional. O Fed eleva as taxas, a conta de juros do governo aumenta como consequência e esse custo mais elevado com juros é então citado como prova de que os déficits estão fora de controle e de que os gastos sociais precisam ser cortados. Um problema fiscal criado, em parte, pelo regime monetário torna-se a justificativa para a austeridade. A narrativa convencional inverte a sequência de causa e efeito. Em vez de reconhecer os pagamentos de juros mais altos como resultado de uma decisão política que transfere renda para os credores, ela apresenta a conta de juros elevada resultante como evidência de que os gastos do governo estão fora de controle.

O perigo maior é político, não financeiro. As interpretações convencionais sobre os rendimentos mais altos dos títulos não passam de argumentos retóricos em prol do ajuste fiscal. Tooze tem razão ao afirmar que estruturas financeiras alavancadas podem sofrer um desmonte, e Galbraith tem razão ao dizer que não existe uma crise de solvência federal significativa e que taxas elevadas enriquecem os detentores de títulos. No entanto, nem a fragilidade financeira nem a necessidade fiscal explicam o regime atual. O governo não é simplesmente vítima de taxas geradas pelo mercado. O sistema Tesouro-Fed tem capacidade de influenciar essas taxas e optou por um regime no qual elas permanecem mais altas do que no passado recente.

Não se trata do "Choque Volcker", mas há uma semelhança de natureza entre ambos. A inflação está longe dos níveis da década de 1970 e os sindicatos estão consideravelmente mais fracos, mas isso não impediu o surgimento de um regime de política macroeconômica que mantém taxas mais elevadas e exerce nova pressão sobre os gastos sociais — tudo isso em nome de princípios de política econômica sensatos. A verdadeira questão não são os "vigilantes dos títulos" (bond vigilantes), mas sim a vingança dos rentistas.

Colaborador

Matías Vernengo é professor de economia na Universidade Bucknell e ex-gerente sênior de pesquisa do Banco Central da Argentina. É coeditor da Review of Keynesian Economics e coeditor-chefe do The New Palgrave Dictionary of Economics.

1 de setembro de 2026

O escândalo que pode derrubar a extrema direita latino-americana

Fernando Cerimedo construiu a máquina de desinformação por trás das vitórias da extrema direita — da Argentina à Bolívia e a Honduras — com tecnologia e recursos provenientes dos próprios operadores de Trump. Agora, ele está preso na Bolívia, acusado de tentar mandar matar seu ex-sócio.

Kurt Hackbarth


Policiais transferem o assessor próximo do presidente Rodrigo Paz, o argentino Fernando Cerimedo, do Palácio da Justiça para a prisão de Palmasola, em Santa Cruz, Bolívia, em 21 de agosto de 2026. A polícia boliviana prendeu Cerimedo devido a um ataque a tiros contra sua ex-companheira. (Rodrigo Urzagasti / AFP via Getty Images)

Na terça-feira, 18 de agosto, um cidadão argentino chamado Fernando Cerimedo foi preso no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Cerimedo, de 45 anos, foi acusado da tentativa de homicídio de sua ex-companheira, a advogada boliviana Nadia Beller, e teve decretada sua prisão preventiva por 180 dias. Os detalhes são macabros: imagens de câmeras de segurança mostraram pistoleiros, disfarçados de entregadores, disparando à queima-roupa contra Beller — que foi pega de surpresa — antes de fugirem do local. Para agravar a situação, Beller, que sobreviveu milagrosamente ao ataque, estava aparentemente grávida de um filho do próprio Cerimedo.

Até esse ponto, o caso poderia ser classificado como mais um episódio — horrendo, sim, mas pouco incomum — de tentativa de feminicídio após o fim de um relacionamento. Algo para ocupar brevemente as páginas policiais dos jornais locais. E, de fato, é assim que várias partes interessadas gostariam de retratar o caso. No entanto, Cerimedo é o mentor da desinformação por trás das campanhas de extrema-direita que ganharam força avassaladora na América Latina.

Suas conexões também não se limitam ao Cone Sul: elas se estendem até os círculos mais restritos do próprio trumpismo.

Cerimedo está no centro da extrema-direita latino-americana

Ao começar a observar a extrema-direita latino-americana, o nome de Fernando Cerimedo surge por toda parte. Ele esteve no Brasil, ajudando a família Bolsonaro a disseminar a narrativa de fraude nas eleições de 2022, que marcaram o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva. Esteve na Argentina, onde — segundo Beller — trabalhou para o próprio Javier Milei, a quem considerava "louco", ao mesmo tempo em que compilava informações sobre o escândalo de suborno envolvendo a irmã de Milei, Karina, atual secretária-geral da Presidência. Esteve no Chile, onde se gabou de ter derrubado o referendo para a nova constituição — que substituiria a versão da era Augusto Pinochet ainda em vigor — enquanto, segundo relatos, também auxiliava na campanha presidencial de José Antonio Kast. Esteve no Peru, circulando com um assessor próximo de Keiko Fujimori no período que antecedeu as eleições presidenciais de junho, vencidas por ela por uma margem mínima. Esteve em Honduras, onde supostamente aparece em um áudio admitindo crimes eleitorais no pleito de novembro de 2025, que resultou na vitória inesperada de Nasry Asfura, aliado de Donald Trump. E esteve presente nas eleições presidenciais da Colômbia, onde, segundo a contagem oficial, outro apoiador de Trump, Abelardo de la Espriella, derrotou Iván Cepeda por uma diferença inferior a um ponto percentual, em junho.

Imagens de câmeras de segurança mostraram os pistoleiros, disfarçados de entregadores, disparando à queima-roupa contra Beller — que foi pego de surpresa — antes de fugirem do local.

Por que ele era tão requisitado? Porque Cerimedo era o homem capaz de articular tudo isso: marketing político, segmentação de público, fazendas de bots que somavam centenas de milhares de contas, pesquisas enganosas, investigação de opositores e manipulações via inteligência artificial. Em suma, ele fornecia a mensagem negativa — fosse mentira ou calúnia — e, em seguida, a segmentava, sensacionalizava e ampliava para alcançar o maior e mais receptivo público possível. Junto com seu sócio, o falsificador contumaz Javier Negre (condenado repetidamente na Espanha por inventar informações e até entrevistas inteiras), ele fundou o La Derecha Diario, uma plataforma de mídia online concebida para legitimar esse material como se fossem "notícias" em toda a América Latina.

Tendo começado na Argentina, o veículo rapidamente estabeleceu edições regionais no México, Uruguai, Equador e Israel, além de uma versão em inglês nos Estados Unidos, onde Negre se tornaria presença constante nas coletivas de imprensa da Casa Branca. No caso do México, conforme o próprio Negre explicou em um evento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), o grupo foi convidado a se instalar no país pelo magnata de extrema-direita Ricardo Salinas Pliego para "travar a batalha cultural". O México — aponta Beller — era o próximo da lista, servindo como ponto de partida para interferir nas eleições de meio de mandato de 2027 no país. Tudo isso era impulsionado por uma rede de carteiras digitais encontradas no celular dele, totalizando cerca de US$ 132,8 milhões.

Um ministro sem pasta

Mas nada supera o caso da Bolívia, onde Cerimedo foi muito além de um simples mercenário digital: ele atuou como uma espécie de ministro sem pasta e todo-poderoso no governo de direita de Rodrigo Paz, eleito em outubro de 2025 após uma ruptura devastadora no partido governista Movimento ao Socialismo (MAS). Embora tenham tido o cuidado de não incluí-lo na folha de pagamento oficial, o "assessor principal" exercia poderes que, na prática, equivaliam a uma cogestão nas áreas de comunicação, gabinete e polícia. Tamanho era esse poder que, nos dias que antecederam a tentativa de assassinato de Beller, Cerimedo manteve contato via chat com o tenente-coronel Erik Correa González, diretor de inteligência da Força Especial Antinarcóticos da Bolívia, para coordenar o ataque. Correa também está sendo investigado por supostamente receber propinas de 50 mil dólares por avião para fazer vista grossa a voos de transporte de cocaína. Por sua vez, além da tentativa de homicídio, Cerimedo também é investigado por enriquecimento ilícito ligado ao narcotráfico — especificamente, tráfico de substâncias controladas e encobrimento de atividades de narcotráfico.

É a ironia das ironias. A máquina de desinformação de Cerimedo especializou-se em associar o prefixo "narco" a líderes, movimentos e governos progressistas em toda a região, com o objetivo de desacreditá-los. Agora, ele é acusado não apenas de conluio com narcotraficantes, mas de utilizar um deles para tentar eliminar seu próprio ex-sócio e o filho que ainda não havia nascido. Toda acusação é uma confissão.

A conexão com os EUA

Se a história de Cerimedo terminasse aqui, isso poderia justificar, ao menos em parte, a escassa cobertura da imprensa de língua inglesa. Mas não termina. Segundo uma investigação publicada no jornal mexicano La Jornada e baseada em documentos arquivados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA), a porta de entrada de Cerimedo nos Estados Unidos foi Miami. A cidade do sul da Flórida era mais do que um endereço comercial; funcionava "como uma plataforma de coordenação entre campanhas latino-americanas, veículos de mídia de orientação ideológica, consultores políticos, organizações do ecossistema cubano-americano e setores do Partido Republicano com capacidade de influenciar a política dos EUA para o hemisfério". E a figura-chave que dá as boas-vindas nesse ambiente propício ao extremismo é Damian Merlo — lobista, consultor de relações públicas, sócio-diretor do Latin America Advisory Group (LAAG) e ex-analista do Departamento de Estado dos EUA em Havana. Foi Merlo, de fato, quem organizou a participação de Javier Milei no programa de Tucker Carlson em 2023 — uma aparição que viralizou —, dois meses antes de sua eleição para a presidência da Argentina.

Para Cerimedo, Merlo poderia proporcionar acesso aos gabinetes de parlamentares profundamente ligados à política de extrema-direita na América Latina, como os deputados Mario Díaz-Balart e Maria Elvira Salazar — que preside a Subcomissão de Relações Exteriores da Câmara para o Hemisfério Ocidental — e o Secretário de Estado Marco Rubio. De fato, em uma foto oficial do Departamento de Estado referente à cúpula Shield of the Americas (Escudo das Américas), realizada em 7 de março de 2026, Cerimedo aparece sentado ao lado de Rodrigo Paz e em frente ao Secretário de Estado dos EUA, em uma mesa para seis pessoas onde o clima é de camaradagem.

Em uma foto oficial do Departamento de Estado, Cerimedo aparece sentado em frente ao secretário de Estado dos EUA, em uma mesa para seis pessoas com um clima de camaradagem.

Quando, naquele mesmo ano de 2023, Cerimedo fundou sua empresa Numen Academy em Miami, a Numen e a LAAG uniram forças para trabalhar na campanha de Milei. A Numen também colocou Cerimedo em contato com uma figura fundamental em toda essa saga: Brad Parscale, diretor de mídia digital da campanha de Trump em 2016 e gerente da campanha de Trump em 2020. Foi uma parceria perfeita, já que ambos ofereciam um leque muito semelhante de "serviços": foi Parscale quem pagou cerca de 6 milhões de dólares à Cambridge Analytica em 2016 para utilizar dados do Facebook coletados de 87 milhões de usuários sem o consentimento deles. Nas eleições de Honduras, Parscale assessorou a Numen remotamente sobre o uso de dados para segmentar eleitores. Na Bolívia, ele foi além, viajando ao país para ajudar a equipe da Numen a utilizar as ferramentas de dados de suas empresas. Em 2025, Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo para a América Latina da Campaign Nucleus, de propriedade de Parscale, e da Eyesover, uma empresa afiliada. "Brad forneceu toda a tecnologia com a qual trabalho", admitiu Cerimedo. Em outubro de 2025, Parscale registrou-se sob a FARA junto ao governo de Israel, por intermédio da Havas Media Germany GmbH.

O castelo de cartas

Tarifas, atentados a bomba contra embarcações, intervencionismo declarado, o sequestro de um chefe de Estado em exercício: basta uma análise superficial da ofensiva do segundo governo Trump contra a América Latina e o Caribe para levar qualquer pessoa ao desespero. No entanto, como demonstra o caso Cerimedo, a investida da extrema-direita é mais frágil do que pode parecer à primeira vista. De Kast a Milei e Paz, os líderes eleitos na esteira dessa onda tornaram-se impopulares, envolveram-se em escândalos e enfrentaram protestos populares — ou tudo isso ao mesmo tempo — em rápida sucessão. As vitórias em Honduras, no Peru e na Colômbia foram apertadíssimas, deixando o terreno propício para reviravoltas causadas pelo tipo de manipulação contratada no Norte e que metastatizou no Sul. Na ausência de um mandato popular, alguns recorreram a estados de exceção; outros, a se agarrar com mais força ao "Escudo das Américas" e às "colaborações" que ele oferece com as forças dos EUA.

Mas o fato de que grande parte disso pode ser atribuída a um único homem nos bastidores é revelador. Cerimedo, naturalmente, será descartado e substituído; já se formou a fila de antigos clientes e comparsas disputando espaço para se distanciar dele. Contudo, o castelo de cartas que é a extrema-direita latino-americana oscila sobre suas fundações precárias: a decadência de seu "mágico digital" passou a simbolizar a podridão no cerne de seu projeto.

Colaborador

Kurt Hackbarth é jornalista, escritor e dramaturgo que cobre o México e a América Latina. Ele atua como analista no Canal Once, do México, e é coapresentador do Soberanía: The Mexican Politics Podcast.

20 de agosto de 2026

Em defesa dos direitos mais fundamentais dos indianos

Os grupos de defesa das liberdades civis na Índia são compostos, em grande parte, por "cidadãos preocupados", e não pelos segmentos mais oprimidos da sociedade. A atuação desses grupos na defesa de direitos constitucionais básicos vem sofrendo ataques crescentes por parte do partido governista Bharatiya Janata.

Achin Vanaik

Jacobin

O recente movimento das "baratas" na Índia forçou a renúncia do ministro da Educação. Foi uma demonstração da vitalidade dos protestos no país, apesar dos esforços do governo para rotular seus críticos como elementos "antinacionais". (Sumit Sanyal / Anadolu via Getty Images)

Resenha de Becoming Allies: Civil Liberties Activism in India, de Ankita Pandey (Cambridge University Press, 2026)

Com a ascensão global de forças políticas de direita e de extrema-direita, mesmo em países considerados democracias, os grupos de defesa das liberdades civis enfrentam pressões sem precedentes. Isso é certamente verdade na Índia, embora o sucesso da recente mobilização espontânea de jovens — sob a bandeira do ironicamente denominado Cockroach Janata Party (Partido Janata das Baratas) — tenha ganhado as manchetes internacionais e proporcionado um bem-vindo alívio.

Os protestos surgiram em reação a uma grave manipulação educacional que prejudicava as perspectivas futuras de emprego dos estudantes. Alguns líderes do partido governista Bharatiya Janata Party (BJP) tiveram de agir com cautela política, uma vez que uma parcela muito significativa desses jovens manifestantes provinha de famílias apoiadoras do BJP. Isso não impediu, contudo, que líderes do partido alegassem que o movimento estava sendo manipulado por elementos e grupos "antinacionais" — referindo-se aos estudantes de inclinação mais à esquerda e aos membros de grupos de defesa das liberdades civis em Délhi e outras partes da Índia que expressavam solidariedade e apoio. Se o movimento não tivesse obtido êxito em sua principal reivindicação por responsabilização oficial — culminando na renúncia do ministro da Educação no final de julho —, não restariam dúvidas de que os supostos "antinacionais" teriam sofrido graves represálias.

É isso que torna tão oportuno o novo estudo de Ankita Pandey sobre os grupos de defesa das liberdades civis (CLGs) na Índia. A autora nos apresenta o estudo mais abrangente e aprofundado realizado até o momento sobre essas organizações, que não são controladas por partidos políticos ou autoridades estatais, seja em nível provincial ou central. Assim como a evolução histórica do ativismo pelas liberdades civis nos Estados Unidos (moldada, sem dúvida, por diversos movimentos sociais progressistas e lutas) conferiu um caráter particular aos seus respectivos grupos, o mesmo ocorre quando se busca compreender a natureza dos CLGs na Índia pós-independência.

O ativismo de aliados — ou allyship — é um conceito que existe há talvez mais de duas décadas no Ocidente, mas que raramente foi empregado em estudos de ciências sociais na Índia. Não é um termo familiar aos ativistas indianos de liberdades civis. A compreensão mínima e consensual de seu significado é que ele se refere ao ativismo de grupos relativamente privilegiados que atuam em conjunto com segmentos desfavorecidos ou marginalizados da sociedade, mas que não possuem nenhum "interesse direto, pessoal ou material na causa". Essa definição é bastante precisa como descrição formal do ativismo pelas liberdades civis na Índia. No entanto, um aspecto distintivo é que os iniciadores e organizadores dos CLGs da Índia têm sido, em sua maioria, marxistas convictos influenciados por diferentes partidos e seitas maoistas extraparlamentares, ou socialistas moderados que assim se autodenominam. Estes últimos inspiraram-se na tradição gandhiana ou na visão apartidária do ex-comunista M. N. Roy, cujo Humanismo Radical priorizava a liberdade individual, a razão e formas descentralizadas de poder e governança democráticos.

A maneira específica como Pandey desenvolveu e aplicou a noção de uma “política de amplificação” reflete essa realidade. Ao contrário de instituições de caridade e organizações não governamentais (ONGs), os grupos de liberdades civis (CLGs) indianos não são meros prestadores de serviços regularmente subordinados a financiadores específicos (muitas vezes estrangeiros), que possuem seus próprios vieses e se preocupam em não desagradar os detentores do poder. Por serem organizações voluntárias autofinanciadas, pode-se dizer que os CLGs possuem maior autonomia política e, em geral, inclinam-se mais à esquerda do que suas contrapartes em outros países, como os Estados Unidos. Eles diferem dos movimentos sociais cujos líderes representam uma categoria social específica e precisam mobilizar grandes contingentes para alcançar seus objetivos — quanto maior o número de pessoas e mais longa a duração, melhor! A política de amplificação é muito diferente da “política de representação” e da luta direta. Como Pandey afirma acertadamente: “A atuação em aliança mobiliza credibilidade, não números”.

No entanto, os alinhamentos ideológicos dos CLGs indianos influenciam a forma como eles se solidarizam com os oprimidos e suas demandas, ou se relacionam com eles. Isso os torna, talvez, mais incisivos ao expressar reivindicações em nome — e não apenas a pedido — daqueles que sofrem vitimização. Os CLGs indianos estabelecem alianças temporárias com movimentos sociais e atuam em uma gama muito mais ampla de questões, uma vez que suas ações são respostas pontuais a diferentes formas de repressão estatal. Contudo, eles também têm reagido a injustiças internas à sociedade, como a violência intercomunitária e as atrocidades cometidas durante a apropriação de terras por grandes latifundiários.

Composição, origem e variações

As manifestações regionais e nacionais dos CLGs indianos surgiram, de fato, no final das décadas de 1960 e 1970. Os membros ativistas dos dois primeiros CLGs regionais — nos estados de Bengala Ocidental e Andhra Pradesh — eram, em grande medida, jovens radicalizados que se identificavam fortemente com a luta naxalita em defesa da população rural pobre. Eles buscavam a libertação desses ativistas do cárcere e o reconhecimento de seu direito de serem tratados pelo Estado como presos políticos, e não como criminosos.

Embora o livro de Pandey apresente relatos detalhados sobre CLGs de nível estadual, o foco central — que também fornece uma base para avaliações mais amplas — recai sobre duas organizações de âmbito nacional: a People’s Union for Civil Liberties (PUCL) e a People’s Union of Democratic Rights (PUDR), ambas sediadas em Délhi. O autor realizou extensas entrevistas com os muitos participantes e membros de longa data (esses grupos foram formados inicialmente em 1976) e analisou a fundo mais de 250 de suas histórias e relatos. Um ponto central aqui é o período do Estado de Emergência (1975–1977): um momento decisivo que expôs a fragilidade do compromisso constitucional da Índia com um sistema político democrático liberal e que serviu de grande impulso para o surgimento posterior da PUCL e da PUDR.

Entre a introdução e a conclusão, encontram-se cinco capítulos que exploram e avaliam: a) a composição e as trajetórias políticas dos CLGs; b) a forma como se relacionam com os partidos políticos; c) seus métodos de atuação e funções principais; d) os debates ideológicos — internos e entre os próprios CLGs — que moldam suas práticas fundamentais; e e) como, enquanto uma forma específica de "cidadania engajada" (existindo outras, como organizações beneficentes, associações de moradores e ONGs), eles desafiaram o Estado em nome da sociedade civil.

Quem são os membros dos CLGs? Em sua maioria, provêm de profissões de classe média consideradas "respeitáveis" — advogados, acadêmicos, jornalistas, assistentes sociais, celebridades ocasionais do mundo das artes e do entretenimento, entre outros. Esse fato, por si só, confere certa respeitabilidade às suas intervenções perante o grande público. CLGs de longa data — como alguns grupos regionais e, certamente, a PUCL e a PUDR — contam com um quadro de ativistas mais estável e constante do que aqueles grupos efêmeros que surgem periodicamente em resposta a eventos dramáticos, elaboram seus relatórios e depois desaparecem. Tais ações também atestam a existência de um espectro mais amplo da chamada "política de amplificação".

Estudiosos de renome caracterizaram esses CLGs como "formações políticas apartidárias" — uma interpretação que Pandey criticou acertadamente por ignorar a relação mais complexa existente entre eles e os partidos políticos. Diversos militantes partidários (um espectro que abrange desde seitas de esquerda e extrema-esquerda até oposição tanto do Congresso Nacional Indiano quanto de outros partidos, mas exclui o BJP, de caráter culturalmente excludente) foram aceitos como membros ativos dos CLGs. No entanto, na maior parte dos casos, restrições procedimentais e numéricas impediram que esses membros transformassem tais grupos em braços partidários.

Virtudes da investigação de fatos e uma diferença fundamental

Missões de investigação de fatos têm sido uma forma central de atuação dos Grupos de Liberdades Civis (CLGs). Para manter sua credibilidade, esses relatórios — por exemplo, sobre a violência policial injustificada na província da Caxemira — precisaram emular processos jurídicos, demonstrando imparcialidade na coleta de evidências materiais, incluindo relatos de testemunhas. O objetivo é expor falhas e possíveis tentativas de encobrimento em decisões e alegações oficiais. Isso também abre espaço para o apoio de simpatizantes, tanto de dentro quanto de fora dos partidos governantes, nas esferas local, estadual e central.

A grande mídia frequentemente concentra-se nos resultados desses relatórios de investigação, seja para desacreditá-los ou para endossá-los, em certa medida. No entanto, além disso, tais missões ajudaram a legitimar os depoimentos de cidadãos comuns — vozes ignoradas por autoridades cujos vínculos de classe e casta as levam a reprimir a verdade.

O trabalho dos CLGs também foi significativamente impulsionado pela instituição, após o período da Emergência, do Litígio de Interesse Público (PIL). Por meio desse mecanismo, cidadãos comuns e grupos de cidadãos têm legitimidade para recorrer às Altas Cortes e à Suprema Corte em defesa de pessoas carentes e desfavorecidas, solicitando investigações e decisões que ofereçam alternativas às narrativas oficiais ou dominantes. Dada essa "judicialização" do ativismo em prol das liberdades civis, não surpreende que advogados dedicados realizem trabalhos pro bono para os CLGs, constituindo uma peça-chave nessa forma de ativismo baseado em alianças.

Essa abordagem jurídica — tanto em termos de procedimento quanto de prática — é comum a todos esses grupos. Ainda assim, persiste uma diferença ideológica importante entre a PUCL e a PUDR (bem como entre outros grupos e, até certo ponto, no interior deles), não apenas no que diz respeito às motivações, mas também quanto às suas orientações políticas e de defesa de direitos fundamentais. Na prática, a ala mais moderada — de orientação liberal-progressista — busca fazer com que o poder estatal atue em conformidade com as exigências mais elevadas da atual constituição democrática liberal. Já a ala mais radical de esquerda busca criar uma contranarrativa mais ampla — ou o que Pandey denomina "contestação discursiva" — para persuadir o público a pensar além da constituição e considerar a necessidade de uma transformação mais "revolucionária" da ordem social. Não surpreende que a primeira corrente seja menos propensa a racionalizar e, em parte, justificar o recurso à violência por parte dos oprimidos ou de seus agentes (grupos de extrema-esquerda) para contrapor formas explícitas ou mais “institucionalizadas” de violência exercida por opressores sociais ou pelo Estado. Isso pode ocorrer mesmo que tal lógica não seja declarada explicitamente pelo grupo em questão. Em outras palavras, a literatura geral sobre o discurso dos direitos apresenta quatro grandes áreas de debate: 1) o fundamento material e moral para a construção dos direitos: universalismo versus relativismo cultural; 2) direitos individuais versus direitos de grupo; 3) a questão dos direitos civis e políticos versus direitos econômicos e sociais: a satisfação suficiente e equitativa das necessidades básicas não seria tão importante quanto — ou até mais importante que — a igualdade de liberdades fundamentais?; e 4) até que ponto expandir o âmbito dos direitos.

É, na verdade, no que diz respeito a essas duas últimas áreas que residem, no fundo, as diferenças entre as duas correntes de ativismo, mesmo quando elas não são percebidas como tais.

O cidadão engajado na mira

Em seu penúltimo capítulo, Pandey refere-se à "cidadania engajada" personificada pelos CLGs (Grupos de Liberdades Civis). Seu livro merece muitos elogios por abordar novas perspectivas e despertará no leitor maior respeito e compreensão quanto ao papel que certas formas de aliança desempenham na defesa dos direitos democráticos e na sua extensão àqueles que, na Índia, são os mais privados desses direitos.

Após a publicação do livro, surgiu um desdobramento recente que, obviamente, não pôde ser incluído no texto. Ele ameaça acelerar drasticamente a erosão das liberdades democráticas, que já está em curso. Isso porque o governo de Narendra Modi declarou que não existe um documento único — ou conjunto de documentos — capaz de identificar, de forma axiomática e irrefutável, alguém como cidadão indiano. Nem mesmo o passaporte serve para esse fim.

No mundo atual, para ser um titular de direitos, é preciso ser cidadão. Somente assim se pode usufruir do leque de direitos cuja abrangência e profundidade variam conforme o país a que se pertence. Mas o que acontece com a capacidade de exercer formas positivas de "cidadania engajada" — como o ativismo em prol das liberdades civis — quando o governo detém o poder arbitrário de questionar e decidir sobre o próprio status de cidadania de um indivíduo?

Até o momento, não houve rejeição judicial dessa presunção oficial. É incerto se isso de fato ocorrerá. Agora, mais do que nunca, partidos, movimentos e CLGs precisam lutar unidos contra esse governo marcado pela ideologia Hindutva e, portanto, verdadeiramente antinacional.

Colaborador

Achin Vanaik é escritor e ativista social, ex-professor da Universidade de Délhi e pesquisador associado do Transnational Institute (Amsterdã), com base em Délhi.

Immanuel Wallerstein previu a queda do império dos EUA

Logo após o 11 de Setembro, o teórico do sistema-mundo Immanuel Wallerstein alertou que o declínio imperial dos EUA era inevitável. No entanto, os líderes americanos não queriam ouvir que seus dias de glória haviam ficado para trás, e geriram esse declínio da pior maneira possível.

Gregory P. Williams

Jacobin

Immanuel Wallerstein acreditava que os EUA poderiam reagir ao declínio imperial de duas maneiras: tornando-se uma sociedade mais progressista e igualitária ou caminhando abruptamente em direção ao neofascismo. Infelizmente, está claro qual dessas tendências é a mais forte atualmente. (Semaanurbulbul / CC BY-SA 4.0 [cortada])

Em julho de 2002, Immanuel Wallerstein participou de um programa matinal de entrevistas com participação do público na emissora C-SPAN. Ele havia acabado de escrever um artigo para a revista Foreign Policy com um título provocativo: The Eagle Has Crash Landed. Wallerstein argumentava que a posição de domínio dos EUA no cenário mundial estava em declínio.

Naquele momento, havia passado menos de um ano desde os ataques terroristas de 11 de setembro e a subsequente invasão do Afeganistão pelos EUA. O governo Bush preparava suas forças armadas e a opinião pública americana para a invasão do Iraque, que começaria em março de 2003.

Vale lembrar que George W. Bush era uma figura popular na época. O índice de aprovação do presidente atingira o recorde de 90% em setembro do ano anterior e permanecia acima de 70% quando Wallerstein veio a público com sua mensagem sobre o declínio.

No entanto, para Wallerstein, aquele devia parecer o momento exato para intervir. Ele escrevia sobre o declínio da hegemonia dos EUA desde o início da década de 1980. Ainda assim, no intervalo entre as invasões do Afeganistão e do Iraque, ele acreditava que a América tinha a oportunidade de gerir de forma eficaz o seu declínio.

Wallerstein não acreditava ser possível prolongar indefinidamente o domínio global de uma grande potência. Ele observava que as grandes potências se tornam hegemônicas — termo que se refere a um domínio global inigualável — devido a fatores econômicos, políticos e militares que, em última análise, também provocam a erosão dessa hegemonia. O declínio da hegemonia dos EUA começou muito antes do 11 de setembro, com a desaceleração econômica da década de 1970 e a Guerra do Vietnã.

Para Wallerstein, os Estados Unidos enfrentavam a escolha comum a todas as potências hegemônicas em declínio: declinar com elegância ou declinar de forma precipitada. George W. Bush escolheu a segunda opção. Hoje, Donald Trump acelerou ainda mais o declínio dos EUA ao empregar agressivamente uma das poucas armas que restam a uma potência hegemônica em declínio: seu poderio militar extremamente forte.

Ciclos de hegemonia

Por que a hegemonia dos EUA estava em declínio? Para Wallerstein, a hegemonia americana do século XX pouco diferia da hegemonia holandesa do século XVII ou da hegemonia britânica do século XIX. Essas três potências (e apenas essas três, em sua visão) alcançaram a hegemonia ao aproveitar uma onda de forças econômicas que não conseguiam controlar plenamente e ao prevalecer militarmente sobre um rival. Após triunfar, a potência hegemônica passava a criar organizações à sua imagem. Os britânicos, por exemplo, prevaleceram sobre a França e, em seguida, criaram o Concerto da Europa em 1815.

Wallerstein não pensava que fosse possível prolongar indefinidamente o domínio global de uma grande potência.

A ascensão dos Estados Unidos à hegemonia teve início após a recessão global de 1873. Segundo a análise de Wallerstein, a perda de participação da Grã-Bretanha nos mercados mundiais devia-se à ascensão dos Estados Unidos e de sua principal rival, a Alemanha. Os Estados Unidos tornaram-se grandes produtores de aço e, posteriormente, de automóveis, enquanto a Alemanha se destacava na produção de produtos químicos industriais. A ascensão econômica de cada um desses Estados ocorreu após uma crise política interna seguida de uma estabilização (relativa): no caso dos EUA, a vitória da União na Guerra Civil; no caso da Alemanha, a unificação sob liderança prussiana após a guerra contra a França.

Wallerstein interpretava as duas guerras mundiais como uma prolongada "Guerra dos Trinta Anos" entre essas potências rivais. Ele observou que as Províncias Unidas dos Países Baixos e a Grã-Bretanha também haviam alcançado a hegemonia após conflitos que duraram cerca de três décadas (no caso holandês, isso ocorreu na sequência da Guerra dos Trinta Anos original, travada entre 1618 e 1648).

Após triunfarem sobre a Alemanha e as potências do Eixo em 1945, os líderes norte-americanos acreditavam que três elementos eram necessários para sustentar a prosperidade do país: primeiro, clientes internacionais para sua produção industrial; segundo, uma ordem mundial que garantisse o comércio a baixo custo; e terceiro, uma espécie de pacto que assegurasse o fluxo desimpedido da produção.

Washington alcançou esses objetivos reconstruindo a Europa Ocidental e o Japão, criando importantes instituições internacionais — como a Organização das Nações Unidas (ONU) — e estabelecendo uma espécie de acordo com a União Soviética. Para Wallerstein, essa última medida — simbolizada pela Conferência de Ialta, em fevereiro de 1945 — foi muito mais significativa do que a fundação da ONU, ocorrida dois meses depois.

Na visão convencional, a Guerra Fria — que durou aproximadamente de 1945 a 1991, considerando-se o período mais extenso possível — foi uma disputa entre adversários norte-americanos e soviéticos. Para Wallerstein, contudo, esse período estruturou-se, na verdade, em torno de um pacto implícito entre as grandes potências. A esfera de influência norte-americana abrangia cerca de dois terços do globo, cabendo à esfera soviética o restante. Cada potência podia dominar sua zona de influência e utilizar a ameaça representada pela outra para enquadrar aliados relutantes. A ordem estabelecida em Ialta sustentava-se em um "equilíbrio do terror" entre as nações. O auge da hegemonia americana estendeu-se, aproximadamente, de 1945 a 1970. Como todas as potências hegemônicas, os EUA tornaram-se vítimas do seu próprio sucesso. Por volta de 1970, a Europa Ocidental e o Japão eram, na visão de Wallerstein, pares econômicos dos Estados Unidos. Ao desenvolver parceiros comerciais — algo crucial para o sucesso americano no pós-guerra —, os EUA também criaram rivais.

Como todas as potências hegemônicas, os Estados Unidos começaram a perder sua vantagem econômica seguindo a mesma sequência pela qual ela havia sido originalmente construída. Primeiro, a potência hegemônica perde sua vantagem na agricultura e na indústria. Depois, perde a vantagem no comércio. Por fim, perde a vantagem nas finanças.

Também na década de 1970, a derrota de Washington no Vietnã expôs a fraqueza militar dos EUA e revelou sua incapacidade de impor sua vontade ao mundo. O Vietnã, escreveu Wallerstein, simbolizava uma rejeição à ordem mundial americana por parte dos povos esquecidos do mundo — por vezes chamados de Terceiro Mundo, por vezes de Sul Global. O movimento de independência no Vietnã contra potências coloniais (França, Japão e Estados Unidos) foi uma extensão do movimento global de protesto que atingiu seu auge em 1968. Segundo Wallerstein, "aqueles de 1968 não apenas condenavam a hegemonia dos EUA; condenavam o conluio soviético com os EUA, condenavam Yalta" e viam apenas "dois campos: as duas superpotências e o resto do mundo".

O colapso da União Soviética em 1991, contrariando mais uma vez o senso comum, representou para Wallerstein um desastre para os Estados Unidos, pois o país perdeu seu grande "Outro". Em um ensaio de 1992, Wallerstein insistiu que a Guerra Fria "não era um jogo a ser vencido, mas sim um minueto a ser dançado... O fim da Guerra Fria, na prática, eliminou o último grande pilar da hegemonia e da prosperidade dos EUA: o escudo soviético".

A resposta de Washington ao declínio hegemônico tem sido afirmar sua grandeza, tanto em palavras quanto em atos, buscando recuperar sua posição no mundo. Mas, como Wallerstein explicou na C-SPAN: “Se você é o número um, não precisa gritar que é o número um. As pessoas sabem que você é o número um. Se você precisa gritar, há algo errado. Há algo acontecendo”.

Atirando no mensageiro

Muitos participantes que ligaram para o programa da C-SPAN não ficaram satisfeitos com a mensagem de declínio transmitida por Wallerstein. Um deles perguntou se bandeiras eram hasteadas no campus de Yale, dada a aparente postura antiamericana de Wallerstein. Outro o acusou de ter se esquivado do recrutamento militar na Guerra do Vietnã, sem saber que Wallerstein havia sido convocado anteriormente, durante a Guerra da Coreia. Um terceiro estremeceu ao imaginar Wallerstein na presidência: "Se um sujeito como ele estivesse governando os Estados Unidos, o país acabaria como um tatu: enrolado em uma bola, esperando levar um chute".

Essas manifestações de indignação eram comuns para Wallerstein, que já havia escrito sobre o impacto psicológico nacional que o declínio hegemônico exerce sobre aqueles que o vivenciam. Era um período potencialmente perigoso para a política interna e para os líderes aos quais o público poderia recorrer.

No programa, Wallerstein explicou que era apenas o mensageiro e que os Estados Unidos estavam se isolando do mundo — não apenas de nações que precisavam ser cortejadas, mas também de seus aliados mais próximos. "Se você superestima seu poder e sai por aí agindo como um valentão", disse ele, "você perde mais do que se estabelecesse um diálogo básico".

O declínio não significava catástrofe. Historicamente, potências hegemônicas não caem muito.

Alguns interlocutores viam Wallerstein como alguém empenhado em reformar a política externa dos EUA. Um deles perguntou como responder a acusações de antiamericanismo. Wallerstein explicou que tentava usar a razão. Ele argumentava que a política externa dos EUA contrariava os interesses individuais:

Não estou apelando ao seu altruísmo. Estou apelando ao seu egoísmo. Vocês estão provocando um impacto negativo muito mais rápido sobre os EUA e sobre as suas próprias vidas. Em termos de padrão de vida, de risco de morte e de tudo o que vocês defendem, estarão em pior situação ao manter essas políticas do que se as mudassem.

O declínio não significava catástrofe. Historicamente, potências hegemônicas não sofrem quedas drásticas. Elas se estabilizam entre as outras grandes potências, embora desfrutem de maior conforto material do que a maioria (basta olhar para a Holanda ou o Reino Unido hoje).

Além disso, como Wallerstein escreveu naquele ensaio de 1992, o declínio poderia ser “a maior de todas as bênçãos”. Os Estados Unidos tinham a oportunidade de abraçar a moralidade. Foi “Abraham Lincoln quem deu o tom moral: ‘Assim como não gostaria de ser escravo, também não gostaria de ser senhor’”.

No início da década de 1990, Wallerstein via dois futuros possíveis para a América. Um envolveria o neofascismo, caracterizado por conflitos sociais, com as camadas mais baixas sujeitas à brutalidade e ao preconceito. O segundo cenário, mais esperançoso, seria uma forma de solidariedade nacional por meio da social-democracia e de um movimento em direção ao igualitarismo.

Embora Wallerstein não fosse propenso a previsões excessivamente otimistas, ele considerava o caminho igualitário mais provável do que o neofascista. Ele vislumbrava uma catarse resultante de uma “tensão social compartilhada” — combinada com a prosperidade econômica americana e as noções populares de liberdade — que geraria um movimento contra os principais aspectos da “distribuição desigual”: gênero, raça e etnia, idade e classe social. Ele acreditava que o ímpeto de 1968, ao abalar a hegemonia americana e destronar a ideologia do liberalismo de centro, levaria a um movimento de massa em prol do progresso.

Wallerstein também tinha a história como guia. Nos dois primeiros casos de hegemonia na economia-mundo capitalista — a holandesa e a britânica —, o declínio hegemônico foi seguido, com o tempo, por um movimento em direção ao bem-estar social e à igualdade. Por que os Estados Unidos deveriam ser tão diferentes?

No entanto, Wallerstein também deixou em aberto a possibilidade do neofascismo. Se o fim da Guerra Fria significou o fim da hegemonia dos EUA sobre dois terços do mundo, significou também o fim do liberalismo centrista como garantidor cultural da economia-mundo capitalista. Pelo menos desde as revoluções de 1848, o liberalismo centrista havia sido a força gravitacional que mantinha a esquerda radical e a direita conservadora sob controle.

O liberalismo centrista prometia a concretização de direitos democráticos e bem-estar econômico — não imediatamente para todos os povos, mas por meio de um processo lento e ordenado, a ser gerido pelo Estado ao longo de gerações. O liberalismo centrista, como Wallerstein descreveu em seu livro O Sistema-Mundo Moderno IV, era utilizado pelos "fortes [para] atenuar o descontentamento dos fracos". Indivíduos fortes atenuavam o descontentamento das massas fracas, e Estados fortes atenuavam o descontentamento de Estados fracos.

Contudo, a vantagem econômica dos EUA vacilou à medida que o Sul Global começou a rejeitar a estrutura de poder de Yalta. Após o colapso de um dos principais atores, a União Soviética, as massas e os Estados fracos mostraram não ser tão fracos, afinal. Nessa conjuntura, para Wallerstein, "os conservadores voltariam a ser conservadores, e os radicais, radicais. Os liberais centristas não desapareceram, mas viram sua influência reduzida". As possibilidades ideológicas eram, agora, infinitas.

Após a Guerra Fria, Wallerstein vislumbrou um grande potencial para que o declínio da hegemonia americana fosse acompanhado por uma redistribuição econômica interna.

Após a Guerra Fria, Wallerstein vislumbrou um grande potencial para que o declínio da hegemonia americana fosse acompanhado por uma redistribuição econômica interna. Dez anos mais tarde, aquele movimento radical não havia se concretizado, ao passo que os conservadores adeptos de uma postura agressiva (hawks) estavam firmemente estabelecidos no poder. Eles buscavam projetar poderio militar porque, em sua visão, "se Washington não exercer sua força, os Estados Unidos ficarão cada vez mais marginalizados".

No entanto, Wallerstein via as ações deles como algo que produziria o efeito oposto. Dada a inevitabilidade do declínio, a política externa assertiva e agressiva da administração Bush "apenas contribuiria para o declínio dos Estados Unidos, transformando uma descida gradual em uma queda muito mais rápida e turbulenta".

Em retrospecto, o ensaio e a participação televisiva de Wallerstein em 2002 representaram uma tentativa de desviar os Estados Unidos de sua trajetória. Ele havia, evidentemente, abandonado a esperança de um movimento social-democrata e voltado sua atenção para a própria potência hegemônica em declínio.

No verão de 2002, mais de seis em cada dez americanos apoiavam a abertura de uma segunda frente de guerra no Iraque. A opinião de Wallerstein alinhava-se à de um grupo de críticos que, embora impopular, mantinha-se persistente. Diante de tais críticas, o presidente Bush limitava-se a dizer que a história julgaria suas ações.

Hoje, fica claro que os defensores da linha dura não conseguiram preservar a hegemonia americana nem remodelar o mundo de uma maneira mais favorável aos interesses dos EUA. O que aconteceu nesse intervalo?

Declínio e negação

O século XXI não tem sido favorável aos Estados Unidos. Os líderes americanos têm se empenhado em recuperar a hegemonia perdida. À medida que o poder econômico dos EUA diminui em relação ao restante do mundo, Washington tem recorrido ao seu poderio militar para demonstrar força e alcançar ambições políticas.

À medida que o poder econômico dos EUA diminuiu em comparação com o resto do mundo, Washington tem utilizado suas forças armadas para demonstrar força.

De fato, os Estados Unidos empreenderam mais intervenções militares desde 1991 do que entre 1798 e 1990. Essa escolha refletiu a estratégia clássica de uma potência hegemônica em declínio que se recusava a encarar a realidade: ciente de sua decadência, mas inconsciente de que sua melhor opção viável seria gerir adequadamente esse declínio.

Os Estados Unidos não tornaram o mundo mais pacífico ou próspero, nem melhoraram as nações que invadiram. Em European Universalism: The Rhetoric of Power (2006), Wallerstein questionou a lógica do intervencionismo. A potência invasora raramente deixa o local invadido em melhor situação do que se não tivesse intervindo — uma conclusão confirmada pelas aventuras militares dos EUA no Oriente Médio.

O veredito de Wallerstein, de 2002, poderia ter sido escrito este ano (ou mesmo nesta semana). Ele escreveu que os Estados Unidos se encontram como "uma superpotência solitária desprovida de poder real, um líder mundial que ninguém segue e poucos respeitam, e uma nação à deriva perigosamente em meio a um caos global que não consegue controlar". A reação da geração de 1968, descrita por ele, partiu tanto do Sul Global não alinhado quanto das massas insatisfeitas internamente. No século XXI, essa dinâmica — iniciada no nível do sistema-mundo — rapidamente se deslocou para a política interna americana e, em seguida, expandiu-se novamente para o exterior.

O fim da Guerra Fria desvinculou o radicalismo e o conservadorismo do liberalismo centrista. Os efeitos foram drásticos. Décadas de consenso neoliberal foram desafiadas por figuras como Donald Trump e Bernie Sanders. Quando Trump assumiu a presidência — primeiro em 2017 e novamente em 2025 —, fê-lo na condição de crítico da ordem liberal americana.

No entanto, o lema "América em primeiro lugar" não resultou na retomada da produção interna, na melhoria do bem-estar social ou na proteção dos trabalhadores. Em vez disso, o trumpismo caracteriza-se por uma corrupção desenfreada e descarada (tanto internamente quanto no exterior), pelo militarismo externo e por políticas internas de deportação em massa. Os Estados Unidos continuaram a ampliar seus compromissos e gastos militares, mas sem um compromisso correspondente com o bem-estar social interno. Enquanto isso, o otimismo dos americanos em relação ao futuro tem diminuído, de modo geral, desde 2013.

Em suma, os Estados Unidos escolheram o caminho neofascista que Wallerstein inicialmente considerava o menos provável: conflito social, brutalidade e preconceito. Membros das camadas mais altas têm buscado preservar seus privilégios e recompensas extraordinários. Consequentemente, os americanos levam vidas mais precárias, vivendo de salário em salário, com menos proteção contra os riscos de doenças, envelhecimento e instabilidade no emprego.

Em 2026, a guerra dos EUA no Irã sintetiza duas tendências do declínio da hegemonia americana. Uma é a incapacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade, apesar de possuírem um poderio militar extremamente forte. A outra é o descontentamento do público americano com a queda do padrão de vida e com uma classe dirigente na qual já não confia.

Tais sentimentos de descontentamento, como observou Wallerstein, podem ser poderosos catalisadores de ação política. Washington pode ser surpreendida, mais uma vez, por eventos caóticos — tanto globais quanto internos — que não consegue controlar.

Colaborador

Gregory P. Williams é professor associado de ciência política e relações internacionais na Simmons University, em Boston. Seu livro, Contesting the Global Order: The Radical Political Economy of Perry Anderson and Immanuel Wallerstein, foi reconhecido pela American Library Association como uma "Obra Acadêmica de Destaque" (Outstanding Academic Title).

19 de agosto de 2026

No Peru, Keiko Fujimori promete ordem, não reconciliação

Keiko Fujimori tornou-se presidente do Peru após mais um segundo turno eleitoral acirrado. Enquanto em disputas anteriores ela evitava abordar diretamente o histórico autoritário de seu pai, desta vez ela capitalizou a imagem dele de líder de mão forte.

Rebecca Jarman

A nova presidente do Peru, Keiko Fujimori, tem sido frequentemente chamada, de forma eufemística, de populista. Na prática, isso significa combinar reformas de livre mercado com a ampliação dos poderes dos militares e ataques a proteções legais. (Connie France / AFP via Getty Images)

As seções eleitorais haviam aberto há pouco tempo quando Keiko Fujimori chegou ao cemitério acompanhada de sua irmã mais nova e de suas filhas adolescentes. Vestidas de forma coordenada — com blusas brancas impecáveis ​​e calças jeans —, elas atravessaram o gramado, cada uma carregando um maço de rosas e cravos. As mulheres mais velhas ajoelharam-se diante do túmulo da mãe e colocaram as flores, de um tom rosa-suave, em um vaso. Com as cabeças baixas, permaneceram ali por alguns instantes. Depois, de mãos dadas, caminharam mais vinte passos por entre as lápides. Para seu pai, Alberto — presidente do Peru entre 1990 e 2000 —, Keiko levara um arranjo nas cores nacionais: vermelho e branco. Ela conduziu a família em oração antes de se voltar para os repórteres e sorrir. Mais tarde naquele dia, ela votou na eleição presidencial em que, na quarta tentativa, conquistou o cargo mais alto do país.

A visita de Keiko aos túmulos de seus pais foi uma espécie de resposta tardia aos críticos de Alberto Fujimori, que zombavam de um presidente sem antepassados ​​enterrados em solo peruano. Fujimori era apenas filho de imigrantes japoneses quando surgiu no cenário político, sendo eleito pela primeira vez em 1990. Seu sobrenome não tinha precedentes nem significado anterior. Pouco depois de chegar ao Peru, na década de 1930, o pai de Alberto adotara um novo nome. Fujimori pode ser traduzido livremente como "bosque de glicínias". Foi uma escolha apropriada. Ele abriria uma floricultura no país que o acolheu — negócio onde Alberto trabalhou na adolescência, entregando esculturas florais espetaculares de bicicleta nas mansões modernistas de Lima. De origens humildes, Fujimori ascendeu longe e rápido. E caiu ainda mais fundo, sendo condenado em 2009 a vinte e cinco anos de prisão por violações dos direitos humanos e corrupção.

Agora, os restos mortais de Fujimori repousam nas profundezas da terra andina. Ainda assim, a linhagem de Keiko certamente permanece controversa. Por duas gerações, os peruanos acompanharam os enredos complexos de dramáticas disputas familiares, começando pelo conflito entre seu pai, Alberto, e sua mãe, Susana Higuchi — que também pertencia à comunidade japonesa. O conflito, amplamente divulgado, surgiu em 1992, quando Higuchi acusou a família do marido de desviar doações de caridade enviadas do Japão. Keiko surgiu na vida pública durante o divórcio conturbado de seus pais: quando ela tinha apenas dezenove anos, seu pai, então presidente, convidou-a para substituir a mãe no papel de primeira-dama. Empresária bem-sucedida e duas vezes deputada, Higuchi chegou a aspirar à presidência, mas suas ambições foram frustradas por uma campanha de vingança orquestrada pelo ex-marido para impedir sua candidatura. Ela reagiu alegando ter sido torturada por ordem de Fujimori. A relação tumultuada entre Susana e Keiko sempre foi alvo de especulações. Essas desavenças não jogaram a seu favor; o Peru é uma nação conservadora que valoriza a integridade e a discrição, especialmente entre a elite e as pessoas influentes.

Alberto Fujimori faleceu em 2024, aos 86 anos, pouco depois de ser libertado da prisão por razões humanitárias. Sua morte proporcionou a Keiko novas possibilidades em sua mais recente campanha presidencial, incluindo a chance de reescrever a história da família destacando uma reconciliação entre seus pais no leito de morte de Higuchi. Gestos de conciliação semelhantes foram, segundo a narrativa construída por Keiko, estendidos a outros membros da família. No funeral de Fujimori, Keiko abraçou seu irmão Kenji, visivelmente abalado, a quem ela havia expulsado de seu partido, o Fuerza Popular, em 2018, após ele se recusar a apoiar a tentativa dela de promover o impeachment do então presidente Pedro Pablo Kuczynski. Em contrapartida, Kenji havia conseguido o perdão presidencial de Kuczynski para o pai (embora a medida tenha sido prontamente anulada pela Suprema Corte, adiando a libertação em mais seis anos). Keiko justificou sua oposição a Kenji afirmando que Fujimori deveria ser plenamente absolvido pelo Judiciário, e não simplesmente anistiado pelo Executivo. Críticos apontaram que ela priorizava interesses políticos em vez de realmente tentar libertar o pai, que estava com a saúde debilitada. Em 2022, Keiko anunciou o fim de seu casamento de dezoito anos, ressaltando, porém, que a separação foi amigável. Em fevereiro deste ano, a própria filha de Keiko criticou suas posições contrárias ao aborto para mais de quatrocentos mil seguidores no Instagram. Keiko atribuiu a publicação a um debate político saudável, e não a tensões familiares.

A mensagem de unidade de Keiko não é apenas uma questão de âmbito privado. A primeira mulher eleita presidente do Peru também prometeu unir uma nação polarizada. As quatro eleições anteriores dividiram os votos quase exatamente ao meio: em todas as vezes que Keiko perdeu, foi por uma margem mínima. Por fim, ela também venceu a disputa por pouco, depois que os votos de emigrantes peruanos penderam a balança a seu favor. Internamente, sua base concentra-se ao longo da costa urbana do Pacífico, vinda de cidades industriais como Chimbote, Chiclayo e Trujillo. No segundo turno, ela conquistou votos conservadores na região metropolitana de Lima que haviam ido para o extravagante ex-prefeito Rafael López Aliaga, um magnata dos negócios e membro do Opus Dei. Já os distritos rurais dos Andes e da Amazônia apoiaram o esquerdista Roberto Sánchez. Candidatando-se pelo partido Juntos por el Perú, Sánchez fez campanha pela reformulação da Constituição, promoveu o desenvolvimento liderado pelo Estado e a reforma policial, além de prometer justiça para as vítimas da repressão estatal durante a luta armada das décadas de 1980 e 1990. Em um nível mais simbólico, a candidatura de Sánchez representou uma reivindicação em favor de seu aliado, Pedro Castillo — presidente por dezesseis meses antes de seu impeachment em 2022 e que atualmente cumpre pena de onze anos de prisão por tentar fechar o Congresso. No final, o programa de esquerda de Sánchez foi superado pela agenda de Keiko — favorável ao mercado e a um Estado forte —, que defendia uma linha dura na segurança pública e a expansão do Exército, ao mesmo tempo em que minimizava os legados sociais do conflito civil.

Peru com ordem?

A unidade, nesse sentido, não significa uma verdadeira reconciliação nacional, mas sim a consolidação de uma coalizão populista de direita em torno do sobrenome Fujimori. De fato, é a postura firme de Keiko em relação ao crime que mobiliza seus apoiadores; alguns deles aplaudem a cruzada violenta de seu pai contra o grupo armado maoista Sendero Luminoso, que resultou na quase total aniquilação do grupo e pôs fim ao conflito interno. Enquanto em suas campanhas presidenciais anteriores Keiko havia evitado associar-se ao legado do pai, nesta tentativa ela capitalizou a reputação dele como um líder de mão forte. Essa estratégia ressoou especialmente entre os moradores de comunidades urbanas informais. As taxas de criminalidade no Peru dispararam nos últimos meses, tornando-se uma grande fonte de medo. A violência de gangues atingiu níveis sem precedentes em todo o país. Bairros de baixa renda são assolados por roubos de rua e extorsões. Desde 2019, a taxa de homicídios subiu de 7,4 para 10,7 por 100 mil habitantes. Concorrendo sob o slogan "Perú con orden" (Peru com Ordem), Keiko priorizou a segurança pública e comprometeu-se a desmantelar as redes criminosas transnacionais que operam em território peruano. Suas políticas de segurança preveem o envio de militares para áreas com altos índices de criminalidade, a ampliação da capacidade prisional, a reforma do sistema penitenciário e o reforço do policiamento nas fronteiras internacionais. Defensora das forças de defesa nacional, ela também busca fortalecer as agências de inteligência do país, aumentar a autonomia dos militares em relação ao Judiciário e retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Tais tendências autoritárias sugerem que, ao menos no que diz respeito ao combate ao crime, um eventual governo de Keiko daria continuidade à política interna de Fujimori.

Ainda assim, Keiko assume um governo de natureza muito diferente. Em 1990, seu pai obteve uma vitória esmagadora. Dois anos depois, ele fechou o Congresso e suspendeu a Constituição antes de instituir uma assembleia constituinte unicameral, projetada para concentrar poder no Executivo. Keiko não conta com tal mandato. Este ano marca o retorno de um Legislativo bicameral, após sua dissolução pelo pai dela. O Fuerza Popular não detém maioria absoluta nem na Câmara dos Deputados nem no recém-criado Senado. Para governar de forma eficaz, Keiko será obrigada a formar coalizões multipartidárias. Suas propostas legislativas passarão por um escrutínio redobrado. Ela será pressionada a dialogar por um eleitorado exausto e desesperado para superar uma década de governos paralisados. O Peru teve dez presidentes em igual número de anos. A maioria deles renunciou, foi destituída ou acabou presa. Alguns, como Pedro Pablo Kuczynski (presidente no final da década de 2010) e, posteriormente, Castillo, caíram em decorrência de manobras de Keiko para utilizar os poderes do Congresso em prol de sua própria agenda. Esse uso do Congresso como arma é um reflexo de um sistema político que permite que as ambições de líderes individualistas se consolidem em organizações partidárias. Contudo, Keiko também não está imune a essas maquinações. Ela já foi vítima do sistema anteriormente, tendo passado dezesseis meses na prisão durante uma investigação por corrupção que acabou arquivada, mas que ainda pode ser retomada. Assim, ela terá incentivos para negociar.

Resta saber qual será a interpretação de Keiko sobre a liberdade democrática em um sentido mais amplo. Em 28 de julho, centenas de homens e mulheres viajaram de todo o país até o centro de Lima para protestar contra a sua posse. Entre eles estavam familiares de pessoas mortas durante as amplas manifestações contra Dina Boluarte — vice-presidente de Castillo, que assumiu o poder com o apoio do Fuerza Popular após a destituição dele. Nos meses turbulentos que se seguiram à sua ascensão, Boluarte mobilizou as forças armadas para dispersar protestos em cidades do sul, resultando na morte de pelo menos quarenta e nove civis. Os manifestantes acusam Keiko de ser conivente com a violência estatal ao proteger os responsáveis ​​pelas mortes, encarando sua eleição como um sinal de que o Peru endossa uma cultura de impunidade. Este grupo pró-Castillo une forças com as famílias de pessoas assassinadas ou desaparecidas pelos esquadrões da morte militares supervisionados por Alberto Fujimori na década de 1990. Marchando ao lado de estudantes, socialistas e sindicatos, eles resgataram um ritual icônico de lavagem de bandeiras, utilizado para denunciar a corrupção durante o último ano de mandato do presidente. No passado, Keiko ignorou em grande parte essa articulação popular do movimento antifujimorista. Isso pode mudar, à medida que ela também se propõe a "limpar" o Peru.

Colaborador

Rebecca Jarman é professora de humanidades na Universidade de Leeds e autora de Representing the Barrios: Culture, Politics, and Urban Poverty in Twentieth-Century Caracas.

17 de agosto de 2026

A coalizão de Donald Trump está desmoronando

Os eleitores da classe trabalhadora que proporcionaram a vitória de Donald Trump em 2024 têm diminuído constantemente em 2026, de acordo com novas sondagens. Mas poucos deles estão migrando para os Democratas.

Jared Abbott e Joan C. Williams


Donald Trump está finalmente perdendo os eleitores brancos da classe trabalhadora. Mas abandonar os republicanos não é o mesmo que passar para o lado dos democratas. (Samuel Corum / Getty Images)

Os republicanos saudaram a vitória de Donald Trump em 2024 como o nascimento de uma nova maioria: uma coalizão multirracial e de classe trabalhadora impulsionada por um apoio recém-conquistado entre eleitores negros e latinos — particularmente homens —, que haviam finalmente abandonado os democratas devido à inflação, ao custo de vida e à imigração. Embora essa conclusão pudesse ser justificada em novembro de 2024, já não o é mais. De fato, ao longo de 2026, a nova coalizão de Trump vem se desfazendo.

No primeiro semestre deste ano, realizamos três pesquisas com os eleitores de Trump de 2024: uma em fevereiro com 1.940 pessoas (incluindo entrevistas adicionais com eleitores negros e latinos da classe trabalhadora); outra em abril e maio, com quase oito mil participantes; e uma terceira, de âmbito nacional, no final de junho e início de julho, com 2.360 entrevistados. Constatamos que a parcela de eleitores de Trump em 2024 que não estão comprometidos em votar nos republicanos em 2028 — grupo que chamamos de "eleitores indecisos em relação a Trump" — aumentou consideravelmente ao longo do ano.

Em fevereiro, um em cada cinco eleitores de Trump de 2024 já se enquadrava nessa categoria de indecisos. Em abril, esse índice chegou a 23%, e, em julho, mais de um quarto dos entrevistados declarou não estar comprometido em votar nos republicanos em 2028.



Hesitação se Estende a Eleitores Brancos e com Ensino Superior que Votaram em Trump

Entre os eleitores de Trump em 2024, aqueles com menor probabilidade de afirmar que planejam votar novamente no Partido Republicano em 2028 são os que estão na faixa de renda mais baixa — um cenário que se manteve estável ao longo do tempo. Em fevereiro, 28% dos eleitores de Trump com renda inferior a US$ 50 mil demonstravam hesitação, em comparação com 15% daqueles que ganhavam mais de US$ 100 mil. Em julho, a diferença permanecia praticamente idêntica, embora a hesitação tenha aumentado ligeiramente em ambos os grupos, chegando a 32% e 18%, respectivamente.

Em contrapartida, observa-se um aumento acentuado na hesitação entre fevereiro e julho entre os eleitores de Trump com diploma de ensino superior. Em fevereiro, havia uma diferença modesta relacionada à escolaridade: 22% dos eleitores de Trump sem ensino superior demonstravam hesitação, contra 18% daqueles com diploma. No entanto, em julho, essa diferença desapareceu, uma vez que a hesitação entre os diplomados cresceu mais de seis pontos percentuais, enquanto o índice entre os não diplomados permaneceu inalterado.

A principal novidade é que Trump está finalmente perdendo eleitores brancos da classe trabalhadora. Em fevereiro e abril, eleitores de Trump não brancos — especialmente negros e latinos — apresentavam uma probabilidade muito maior de hesitação do que os eleitores brancos. Contudo, em julho, enquanto a taxa de hesitação entre eleitores negros de Trump ultrapassava 40%, a parcela de eleitores brancos indecisos aumentou substancialmente, passando de 18% em fevereiro para 24% em julho. Atualmente, o índice de hesitação entre eleitores da classe trabalhadora, tanto brancos quanto latinos, gira em torno de 25%.


As divisões de classe são muito menores entre os brancos do que entre os afro-americanos e os latinos. Na pesquisa realizada na primavera (a única com amostra grande o suficiente para segmentar a raça por renda), 46% dos eleitores latinos de Trump com renda inferior a 50 mil dólares estavam indecisos, contra 19% daqueles com renda superior a 100 mil dólares — uma diferença de 27 pontos percentuais. Entre os eleitores negros de Trump, a diferença foi de 18 pontos (45% contra 27%). Entre os eleitores brancos de Trump, foi de dois pontos.

Em suma, não há divisão de classe entre os brancos, mas sim disparidades acentuadas entre os eleitores negros e latinos.


Os eleitores brancos de Trump ainda apresentam a menor taxa de hesitação entre todos os grupos raciais, mas, nos últimos seis meses, afastaram-se dos Republicanos mais rapidamente do que os eleitores negros ou latinos. Isso vale tanto para eleitores brancos com ensino superior quanto para aqueles sem diploma universitário: entre os eleitores brancos de Trump, a hesitação subiu de 19% em fevereiro para 25% em julho no grupo sem diploma, e de 16% para 23% entre os graduados.

As taxas de hesitação são particularmente altas entre os eleitores que migraram de Biden para Trump e aumentaram com o passar do tempo. Em fevereiro, 57% desses eleitores que mudaram de lado afirmaram que não apoiariam o candidato republicano em 2028; já na primavera, essa parcela chegou a 63%. Em contrapartida, a taxa de hesitação entre os eleitores que apoiaram Trump em ambas as eleições fica entre 16% e 17%.

Por que os eleitores de Trump que hesitam não estão migrando majoritariamente para os Democratas

No entanto, afastar-se dos Republicanos não é o mesmo que passar a apoiar os Democratas.

Entre os 25% dos eleitores de Trump em 2024 que hoje demonstram hesitação, constatamos que menos de um em cada cinco afirma que votaria em um Democrata em 2028. Vinte e dois por cento mencionam um candidato independente ou de um terceiro partido, 5% dizem que não votariam de forma alguma e 56% afirmam estar indecisos. Em outras palavras, os Democratas conquistaram menos de 5% do total de eleitores de Trump de 2024.

Para entender melhor o que impede os eleitores indecisos em relação a Trump de apoiar os Democratas, perguntamos o que lhes vem à mente quando pensam no Partido Democrata. Entre os 1.055 indecisos que responderam à nossa pesquisa de primavera, 49% apontaram um motivo específico para não apoiar os Democratas. Vinte e nove por cento não tinham uma opinião firme a favor ou contra, e 18% expressaram algo positivo sobre os Democratas.


O maior obstáculo para o Partido Democrata é uma questão de confiança e competência: se é possível confiar que o partido agirá em prol de pessoas como elas e se ele é capaz de agir de fato. Pouco menos da metade dos eleitores indecisos em relação a Trump — 49% — expressou algo negativo ao serem questionados sobre o que lhes vinha à mente ao pensar no partido; 59% dessas respostas refletiam, de alguma forma, essa dúvida, sem mencionar qualquer posição do partido sobre qualquer assunto.

O maior obstáculo para o Partido Democrata é uma questão de confiança e competência – se é possível confiar no partido para agir em nome de pessoas como eles.

A principal queixa — representando 37% de todas as críticas feitas por eleitores indecisos inclinados a Trump — dizia respeito à corrupção e à busca de vantagens pessoais, ou seja, a acusação de que os democratas agem em benefício próprio. Eis algumas declarações dos entrevistados: “Quando penso no Partido Democrata, penso em pessoas que querem o poder para enriquecer, enquanto fingem se importar com os menos favorecidos”; “Gananciosos, só pensam em si mesmos”; “Só se preocupam em manter o poder e enriquecer.”

Outros 12% duvidavam da capacidade dos democratas de realizar qualquer coisa, alegando que o partido carece de liderança e de espírito de luta: “Um bando de gente que não se entende nem entra em acordo sobre nada”; “Desorganizados, sem liderança de verdade”; “Desonestos e sem credibilidade”; “Não têm força para assumir uma posição. Muita conversa e pouca ação.”

Houve ainda um grupo — cerca de 10% — que afirmou acreditar que o Partido Democrata não conhece nem se importa com pessoas como eles: “Eles não fazem ideia de como é a vida do americano comum e não se importam com isso”; “Um partido que antes defendia a classe trabalhadora, mas que agora se concentra demais nas elites ricas”; “Fui democrata a vida toda e sempre achei que eles defendiam os pobres. Como eu estava enganado.”

O interesse próprio, a fraqueza e o descaso com as pessoas comuns somaram cerca de 60% das opiniões negativas que esses eleitores indecisos tinham em relação ao Partido Democrata.

O problema principal não é que os eleitores indecisos em relação a Trump achem os Democratas radicais demais. É que eles não acreditam que os Democratas tenham em mente os seus melhores interesses.

Em contrapartida, embora as críticas à ideologia do partido e ao seu alinhamento com pautas progressistas (o chamado *wokeness*) estivessem claramente presentes, elas não eram nem de longe tão frequentes. Quinze por cento das opiniões negativas sobre os Democratas concentravam-se em questões sociais divisivas, e outros 12% acusavam o partido de ter se deslocado para a extrema-esquerda. Além disso, muitas das críticas feitas por eleitores indecisos que antes apoiavam Trump — focadas em questões sociais polêmicas — diziam respeito às prioridades dos Democratas, e não a discordâncias sobre políticas específicas: "Preocupam-se mais com questões LGBT do que com a criminalidade"; "Só se importam com a política *woke*. Estão mancomunados com grandes corporações e negligenciaram a classe trabalhadora".

Em suma, o problema principal não é que esses eleitores indecisos (ex-apoiadores de Trump) considerem os Democratas radicais demais. O fato é que eles não acreditam que os Democratas tenham em mente os seus melhores interesses; duvidam que o partido lutaria por eles caso tivesse essa intenção e sentem que os líderes do partido agem em benefício próprio.

Uma oportunidade para os democratas

Os dados coletados ao longo de seis meses revelam um cenário consistente: Trump está perdendo os eleitores da classe trabalhadora — aqueles que os Republicanos esperavam que ajudassem a transformar sua vitória de 2024 em um realinhamento eleitoral duradouro — e essa perda se intensifica à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato (midterms). De forma desproporcional, os eleitores que Trump perdeu são pobres, não brancos e jovens. No entanto, seu apoio também vem diminuindo entre eleitores brancos e pessoas com ensino superior, grupos que agora apresentam índices de intenção de voto seis ou mais pontos percentuais abaixo dos registrados em fevereiro.

O desafio estratégico para os Democratas é que, embora muitos desses eleitores indecisos tendam ao populismo econômico, eles também desconfiam de ambos os partidos e, por ora, são muito mais propensos a se abster de votar do que a migrar para o Partido Democrata. Para conquistar esse eleitorado de forma eficaz, os Democratas precisarão demonstrar claramente que estão lutando pela classe trabalhadora.

Trump está perdendo os eleitores da classe trabalhadora que os republicanos esperavam que ajudassem a transformar sua vitória de 2024 em um realinhamento duradouro, e está perdendo ainda mais desses eleitores à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato.

De acordo com um estudo recente que conduzimos, dez em cada doze das maiores prioridades dos eleitores da classe trabalhadora são económicas, e eles preocupam-se com os salários e as oportunidades económicas, bem como com os preços e a inflação. Os eleitores da classe trabalhadora também se preocupam com a corrupção: deveria ser extremamente fácil para os Democratas fornecerem exemplos de como Trump e o seu círculo encantado de bilionários estão a ganhar dinheiro à custa do povo.

Se a coligação de Trump se tornará uma abertura para os progressistas ou apenas um grupo crescente de insatisfeitos, depende de os Democratas conseguirem convencê-los de que o partido oferece aos eleitores algo pelo qual vale a pena recorrer, antes de, a contragosto, decidirem que os Republicanos são o menor dos dois males ou desistirem da política para sempre.

Colaboradores

Jared Abbott é pesquisador do Center for Working-Class Politics e colaborador do Jacobin and Catalyst: A Journal of Theory and Strategy.

Joan C. Williams é autora de Outclassed: How the Left Lost the Working Class and How to Win them Back e publicou sobre dinâmica de classe no New York Times, no Washington Post, no Atlantic, no New Republic e muito mais. Ela é professora ilustre de direito e presidente da Fundação Hastings (emérita) na Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

Democratas-cristãos alemães estão paralisados ​​por uma onda de extrema-direita

As eleições estaduais do próximo mês na Alemanha podem ver a Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançar o poder pela primeira vez. Os Democrata-Cristãos, que governam o país, parecem paralisados e estão imitando cada vez mais seu rival em ascensão na extrema-direita.

Alexander Görlach

Jacobin

Dezoito meses após as eleições federais da Alemanha, o chanceler Friedrich Merz enfrenta dificuldades. Ele prometeu barrar a Alternativa para a Alemanha (AfD), mas agora alguns membros de seu partido estão se voltando para um acordo com a legenda de extrema-direita. (Sean Gallup / Getty Images)

No próximo mês, três eleições estaduais testarão se o consenso do pós-guerra na Alemanha — de não governar com a extrema direita — sobreviverá. Em 6 de setembro, cerca de dois milhões de eleitores na Saxônia-Anhalt irão às urnas; duas semanas depois, em 20 de setembro, será a vez dos eleitores de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e da capital, Berlim.

Nas duas primeiras disputas, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera as pesquisas; em Berlim, ocupa o segundo lugar. Na Saxônia-Anhalt, o partido está muito à frente, com intenções de voto entre 40% e 42%. Está prestes a alcançar uma maioria absoluta que lhe permitiria governar sozinho — algo que nenhum partido de extrema direita conseguiu em qualquer estado alemão desde 1945.

O AfD é um partido cujas seções em vários estados do Leste foram formalmente classificadas pelas agências de inteligência nacionais como "extremistas de direita confirmadas". No entanto, hoje, ele lidera as pesquisas em nível nacional e abriu sua maior vantagem histórica sobre os Democratas-Cristãos (CDU) do chanceler Friedrich Merz. Mesmo em Berlim — cidade que nunca esteve sequer perto do alcance do AfD —, o partido agora registra intenções de voto na casa dos 17% a 19%, tornando-se competitivo pela primeira posição na capital pela primeira vez em sua história.

Esse é o cenário em que Merz governa atualmente. Embora tenha assumido o cargo em maio de 2025 prometendo reduzir pela metade o apoio ao AfD, pesquisas nacionais realizadas neste verão mostram seu campo de centro-direita atrás do AfD por uma margem de 7 a 9 pontos percentuais. Os índices de desaprovação do próprio Merz ultrapassam 80% em algumas sondagens. O *Brandmauer* — a "barreira de proteção" pela qual a principal força conservadora da Alemanha recusa qualquer coalizão ou cooperação com o AfD desde a fundação do partido — está visivelmente sob pressão. Enquanto em nível federal isso permanece uma perspectiva teórica, no Leste um número crescente de representantes locais e estaduais da CDU mostra-se aberto a trabalhar com o AfD.

Aliados desconfortáveis

Por trás dos números desfavoráveis ​​nas pesquisas, há um problema mais profundo e estrutural: no espectro político convencional, a CDU e a AfD ocupam o mesmo campo amplo — da centro-direita à extrema-direita. No entanto, durante grande parte das últimas duas décadas, inclusive sob a atual coalizão de Merz, a parceira habitual de governo da CDU tem sido sua adversária histórica, o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda. Dos últimos seis governos federais, quatro foram "grandes coalizões" desse tipo: arranjos nascidos da necessidade, e não da convicção.

Naturalmente, isso levou a compromissos desconfortáveis, uma vez que a CDU e o SPD têm visões diferentes sobre a economia e as relações de trabalho. Diante do desafio representado pela AfD (de extrema-direita), Merz propôs-se a realizar o impossível: posicionar a CDU mais à direita e, simultaneamente, formar uma coalizão com os social-democratas.

Esse padrão não é exclusivo da Alemanha. Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França, partidos de centro têm sido cada vez mais forçados a formar alianças desconfortáveis ​​ou governos de minoria para manter movimentos de extrema-direita fora do poder. Em cada caso, o resultado foi o esvaziamento do centro, em vez de seu fortalecimento. A Alemanha segue a mesma trajetória: à medida que a CDU e o SPD se apoiaram mutuamente para governar, ambos perderam apoio — e não apenas para a AfD. O Die Linke, força socialista democrática que descende, em parte, dos herdeiros do partido governante da Alemanha Oriental, também vem ganhando terreno, especialmente entre eleitores jovens e urbanos, e agora disputa competitivamente o primeiro lugar em Berlim. Um centro esvaziado gera força nas duas extremidades do espectro político.

O cenário que se desenha assemelha-se a uma tragédia grega: um desfecho inevitável que decorre inexoravelmente de escolhas já feitas. Em vários estados do Leste, a CDU está ficando sem parceiros de coalizão viáveis, exceto a AfD. E o SPD, os Verdes (ambos de centro-esquerda) e os liberais do FDP (de centro-direita), juntos, não teriam votos suficientes para articular uma coalizão. O FDP parece não atingir sequer a cláusula de barreira de 5% necessária para obter representação parlamentar em qualquer um desses estados. Nessa situação, a CDU poderia, na melhor das hipóteses, liderar um governo de minoria, mas dependeria de maiorias voláteis.

Uma opção para o partido de Merz é abandonar o "cordão sanitário" e formar uma coalizão com a AfD, seja em nível federal ou estadual. No entanto, caso tais alianças venham a ser concretizadas, isso quase certamente provocaria uma ruptura na CDU. A linha de fratura já é visível na base do partido. Embora um número crescente de membros comuns e autoridades locais da CDU no Leste declare publicamente que considera a cooperação com a AfD inevitável — ou até mesmo desejável —, tal união ainda é vista como algo inaceitável pela maioria (embora não por todos) da liderança nacional em torno de Merz.

Essa situação também representa um desafio para a própria liderança de Merz, apenas dezoito meses depois de seu partido ter conquistado o primeiro lugar nas eleições federais de 2025. O chanceler parece não ter jeito para o sucesso, seja na gestão do governo ou no trato com as pessoas; ele é visto como alguém distante e desprovido de empatia. Alguns comentaristas afirmam que uma "revolta palaciana" está prestes a ocorrer. Podemos estar diante de uma troca de chanceler sem a realização de novas eleições — um mecanismo utilizado apenas três vezes na história alemã do pós-guerra —, como forma de conter o declínio do partido e evitar maiores danos.

O nome que surge com frequência nessas discussões é o de Hendrik Wüst, ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália — estado que é uma potência econômica — e, segundo a maioria das pesquisas, a figura mais popular da CDU. Wüst representa a ala mais centrista do partido, alinhada à ex-chanceler Angela Merkel. Seus apoiadores argumentam que apenas uma mudança de rumo nessa direção — afastando-se da tentativa de Merz de neutralizar o apelo da AfD ao adotar posições mais à direita em questões como imigração — oferece uma saída para a CDU. Wüst não comentou diretamente as especulações, mas fontes internas do partido afirmam que ele poderia ser convencido a assumir o posto. O argumento a favor dessa mudança baseia-se em uma constatação empírica específica: a estratégia de Merz de competir com a AfD em seu próprio terreno — por exemplo, igualando a intensidade retórica do partido rival em relação à imigração — não reconquistou eleitores, mas continuou a empurrá-los ainda mais para a direita.

Normalizado

Ainda assim, o dilema estratégico não diz respeito apenas ao destino de Merz. Num estado como a Saxónia-Anhalt, a AfD está largamente na liderança e até a sua vantagem nacional sobre a CDU é significativa. Se os Democratas-Cristãos cogitarem uma coligação com a AfD em tais circunstâncias, isso provavelmente tornaria o partido de Konrad Adenauer e Helmut Kohl o parceiro júnior num governo liderado pela extrema-direita. É uma perspectiva inimaginável.

Os analistas dizem que tal ganho para a AfD na Saxónia-Anhalt após a votação de 6 de Setembro seria mais do que uma vitória simbólica. Para além do marco histórico de um governo de extrema-direita, as suas consequências repercutiriam no Bundesrat – a câmara federal que representa os diferentes estados alemães – e normalizariam ainda mais a AfD antes de mais seis eleições a nível estatal, previstas para antes das próximas eleições federais marcadas para 2029.

A votação de Berlim em 20 de Setembro – complicada pelo apagão da rede eléctrica de Janeiro, uma crise imobiliária não resolvida e a retirada da corrida do próprio presidente da CDU – acrescenta um segundo tipo de teste, muito diferente. Dir-nos-á se o apelo da AfD, há muito concentrada no antigo Leste, também pode consolidar-se numa capital diversificada e historicamente de tendência esquerdista.

Por enquanto, os planos da AfD para a Saxónia-Anhalt revelam como seria a Alemanha quando o partido chegasse ao poder. Promete a abolição da televisão e da rádio públicas, o fim das visitas obrigatórias aos campos de concentração para crianças em idade escolar, a exclusão de crianças com deficiência e crianças estrangeiras das escolas públicas, e a abolição dos feriados cristãos em favor dos feriados pagãos-germânicos. A CDU nunca poderia apoiar qualquer parte desta plataforma. No entanto, o partido é considerado altamente adaptável quando serve o seu interesse de permanecer no poder, como demonstrado pela sua mudança de Merkel para Merz.

Aconteça o que acontecer nas eleições de Setembro, a tensão subjacente permanecerá. A CDU construiu a sua identidade pós-guerra sendo a âncora moderada da centro-direita alemã. O Chanceler Merz não conseguiu cumprir a sua promessa de reduzir para metade os resultados da AfD; na verdade, a tendência mudou no sentido contrário, e rapidamente. O resultado será uma CDU que governará com a AfD ou uma CDU que encontrará a salvação ao continuar de onde Merkel parou.

De qualquer forma, será uma CDU sem Friedrich Merz. Ele ficará para a história como o chanceler que permitiu à extrema direita triunfar sobre a CDU.

Colaborador

Alexander Görlach é professor adjunto da Universidade de Nova York, onde leciona teoria e práxis democráticas. Ele mora em Nova York e Berlim.

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