23 de dezembro de 2010

Obscurantismo contemporâneo

Desde a década de 1980, tem havido tentativas, sob o pretexto de “modernidade”, de reciclar o velho lixo liberal que remonta à década de 1820.

Alain Badiou

Le Monde


Tradução / Como devemos chamar as construções intelectuais extraordinárias que são os trabalhos de Darwin, Marx e Freud? Elas não são estritamente ciências, mesmo se a biologia – incluindo a biologia contemporânea – for pensada dentro da moldura darwiniana. Elas certamente também não são filosofias, mesmo se a dialética, esse antigo nome platônico para filosofia, tenha ressurgido com Marx. Elas não podem ser reduzidas a práticas às quais esses autores jogaram luz, mesmo se a experimentação prova a razão de Darwin, mesmo se políticas revolucionárias tentam verificar a hipótese comunista de Marx, e mesmo se a cura psicanalítica coloque Freud nas fronteiras sempre confusas da psiquiatria.

Vamos chamar o “século 19” de período que vai da Revolução Francesa à Revolução Russa. Eu proponho chamar essas três tentativas de dispositivos de pensamento geniais e, afirmando isso, em um certo sentido esses dispositivos identificam o que o século 19 trouxe, como uma nova força, para a história da emancipação humana. Depois de Darwin, os movimentos da vida humana e da existência, irrevogavelmente desvencilhados de toda transcendência religiosa, foram deixados à imanência de suas próprias leis.

Depois de Marx, a história dos grupos humanos foi removida tanto da opacidade da providência e da onipotência quanto das inércias opressivas da propriedade privada, da família e do Estado. Ela foi deixada ao jogo livre das contradições dentro da qual um futuro igualitário deve ser ser escrito – mesmo se for com esforço e incerteza. Depois de Freud, ficou compreendido que não há alma, cujo treinamento seria sempre algo moralizante, opondo os desejos primordiais ao que a infância traz com o que será. Ao contrário, é no centro desses desejos, particularmente dos desejos sexuais, que a possível liberdade do sujeito está em jogo – uma liberdade em que ele ou ela dependem da linguagem, esse resumo da ordem simbólica.

Por muito tempo, todas as formas de conservadorismo atacaram esses três grandes dispositivos. É natural. É muito bem conhecido o fato de que nos Estados Unidos, mesmo hoje, as instituições educacionais são geralmente forçadas a opor o criacionismo bíblico à evolução em um sentido darwiniano. A história do anti-comunismo praticamente sobrepõe-se à da ideologia dominante em todos os grandes países em que o capital-parlamentarismo reina sob a capa da “democracia”. A psiquiatria positiva, que vê desvios e anomalias em todos os lugares que devem ser contra-atacados com o uso brutalidades químicas, tenta desesperadamente “provar” que a psicanálise é uma impostura.

Por muito tempo, particularmente na França, não obstante, os imensos efeitos emancipatórios, em pensamento e ação, de Darwin, Marx e Freud, prevaleceram em meio a argumentos ferozes, revisões agonizantes e críticas criativas. O movimento desses dispositivos dominou a arena intelectual. Conservadorismos estavam na defensiva.

Depois do vasto processo de normalização em escala global que começou nos anos 1980, todo tipo de pensamento ou mera crítica emancipatória é inconveniente. Portanto, nós temos visto um esforço atrás do outro para remover todos os traços desses grandes dispositivos de pensamento que são cunhados como “ideologias” onde eles são exatamente a crítica racional da ideologia por si só. A França, de acordo com Marx o “lugar clássico da luta de classes”, se viu sob a ação de pequenos grupos de renegados da “década vermelha” (1965-1975), que estão na linha de frente dessa reação. Nós temos testemunhado a multiplicação de “livros negros” sobre o comunismo, sobre a psicanálise, sobre o progressismo e sobre tudo que não é igual à estupidez contemporânea: consumir, trabalhar, votar e calar a boca.

Entre essas tentativas, que, sobre o rótulo de “modernidade”, reciclam as tolices obsoletas liberais da década de 1820, as menos detestáveis não são aquelas derivadas de um materialismo do prazer que atua como uma espécie de vigia, particularmente em relação à psicanálise. Longe de ser qualquer tipo de emancipação, o imperativo “aproveite!” é aquele que as tão proclamadas sociedades ocidentais nos ordenam a obedecer. E isso para nos prevenir de ver o que realmente conta: o processo em que algumas verdades disponíveis são liberadas, que os grandes dispositivos de pensamentos costumavam considerar.

Portanto, devemos chamar de “obscurantismo contemporâneo” todas as formas, sem exceção, de supressão e erradicação do poder contido, para o benefício de toda a humanidade, em Darwin, Marx e Freud.

13 de dezembro de 2010

Chega de direitos humanos

WikiLeaks e Saara Ocidental

Jeremy Harding



Tradução / Graças a WikiLeaks, aprendem-se duas coisas sobre a ocupação ilegal, pelo Marrocos, do Sahara Ocidental, lições que nos vêm da Embaixada dos EUA em Rabat: 1) a ocupação é fonte de renda pessoal para oficiais do exército marroquino, mas... 2) tudo bem, tudo ótimo.

O Sahara Ocidental foi possessão espanhola, que Madrid teria de entregar às populações nativas em 1975. O rei Hassan II do Marrocos aproveitou-se do caos reinante na Espanha ao tempo da morte de Franco e anexou o território. A ONU lamentou muito; a Frente Polisario embarcou numa guerra de libertação, que acabou em impasse e num cessar-fogo, em 1989. Naquele momento, o Marrocos controlava a maior parte do território, onde fazia jorrar colonos, com o projeto de superar, em números populacionais, os sarauis indígenas.

Sob auspícios da ONU, os dois lados – o reino do Marrocos e a Frente Polisario – concordaram que a independência passaria porreferendum. Vinte anos depois, ainda não aconteceu e já ninguém espera que aconteça: os marroquinos avançaram sobre o terreno, encontrando resistência bizantina, ano após ano. A missão da ONU foi posta de lado; o projeto colonial avança; há centenas de milhares de refugiados na Argélia e uma população no território, sempre punida quando reivindica direitos de independência.

São questões de somenos para o embaixador Thomas T. Riley, escrevendo de Rabat em 2008. O que conta é “a robusta relação militar entre EUA e Marrocos”, confirmada pela “compra de armamento sofisticado dos EUA, que incluirá, esse ano, 24 F-16s”[1]. O regime, anuncia Riley:

“também aumentou suas atividades num acordo de parceria com a Guarda Nacional de Utah, que visita regularmente o Marrocos para conduzir operações de treinamento e ajuda humanitária”.

Ainda assim, perturba-o um pouco a corrupção no exército do Marrocos (no total, 218 mil soldados; entre “50 e 70% (...) preocupados com operações na região do Sahara Ocidental”). Riley cita o Tenente General Abdelaziz Bennani, comandante da Sessão Sul – i.e. o território anexado. Ao que parece, Bennani:

“usou sua posição para arrancar dinheiro de empresas fornecedoras dos militares e influenciar decisões comerciais. Boato muito disseminado diz que é proprietário de grandes fatias de empresas pesqueiras no Sahara Ocidental (...) há relatórios, inclusive, de alunos da Academia Militar do Marrocos que pagam para obterem indicação para postos militares mais lucrativos.”

No topo da lista: o Sahara Ocidental

Riley arranjou excelente emprego na Savvis, a empresa de comunicações, depois que os Republicanos perderam a Casa Branca. Fast forward até o verão de 2009: outro par de mãos trabalha no laptop em Rabat – o chargé d’affaires, Robert P. Jackson – que digita outro telegrama que tem muito prazer em intitular “Western Sahara Realities” [Realidades do Sahara Ocidental]’ [2]. E repete os números de Riley – cerca de 150 mil soldados marroquinos estão alocados no Sahara Ocidental – e diz, corretamente, que 385 mil pessoas vivem na área anexada. (Só uma faixa ‘liberada’, à margem do deserto, é ainda controlada pela Frente Polisario, e o cessar-fogo continua vigente.)

Jackson acerta também ao dizer que os colonos marroquinos chegam hoje “a bem mais da metade daquele número”. Esse portanto é território cuja população nativa é apenas ligeiramente maior que o número de soldados ali alocados por Rabat: a proporção é quase de 1:1. Se isso não for repressão, o que mais será? Lá estarão para dar aulas de educação moral e cívica? O exército marroquino organizará seminários sobre genealogia dos mórmons, para proveito da Guarda Nacional de Utah? Pois Jackson escreve que “o respeito aos direitos humanos no território melhorou muito”2. Admite que os cidadãos nativos não têm direito de reivindicar qualquer independência: talvez os direitos humanos dos sarauís sejam como direitos animais das raposas, que já conquistaram o direito de se meterem na toca, à espera de que alguém defenda o direito das raposas. Mas não esperem que Jackson – hoje embaixador dos EUA em Camarões – faça o serviço.

Há oito anos, perto de Layoune, capital do Saara Ocidental, os sarauís organizaram um acampamento para protestar contra a ocupação marroquina foi invadido e sitiado pelos militares e, em novembro, foi destruído; houve 60 feridos e foram presos os suspeitos de sempre. E só, em matéria de direitos humanos dos sarauís.

Há até passagens mais preocupadas com a natureza do conflito, no telegrama de Jackson. Pergunta-se por que a Frente Polisario (a qual, segundo ele, operaria “à moda dos cubanos”) jamais reclamou áreas do próprio Marrocos, da Mauritânia ou da Argélia, onde vivem grandes números de sarauís, como parte do Estado independente que reivindicam. Conclui que não o fazem foi falta de “um nacionalismo mais amplo”, de onde conclui que a disputa é estreitamente territorial – expressão de antigas tensões de fronteira entre Marrocos e Argélia, com a Frente Polisario atuando como cúmplice dos argelinos.

Sim, sim, trata-se de território, mas só na medida em que a descolonização do Sahara espanhol deveria ter implicado em direito à independência. A etnia dos que vivem na região, ou de outros, além fronteiras, nada tem a ver com isso. Seja qual for o papel da Argélia nesse conflito, a Frente Polisario jamais comprometeria seus objetivos desafiando a Organização da Unidade Africana (OAU) ou a inviolabilidade das fronteiras coloniais e sonhando com um Sahara Ocidental ‘maior’, expandido. Tivesse feito isso, não teria recebido parecer favorável da Corte Internacional de Justiça, a ONU não teria concordado com o referendo sobre a independência, e o governo do que é hoje o único território colonizado da África (República Árabe Democrática Sarauí, ing. Saharawi Arab Democratic Republic, SADR o SADR) não seria membro da União Africana nem seria reconhecida por 81 Estados.

Pois... vejam só! Um chargé d’affaires em Rabat desqualifica o movimento de independência, porque fez o que deveria ter feito. Já o Marrocos, que viola rotineiramente fronteiras de um Estado soberano, que viola as aspirações legítimas dos sarauís, que infla a terra anexada com colonos e soldados... é premiado com duas dúzias de aviões bombardeiros para a própria ‘proteção’!

1 de dezembro de 2010

Vida sem salário

Origens dos números do desemprego e do setor informal, e sua inadequação às formas contemporâneas de ausência de salário. Michael Denning extrai lições de Marx, Fanon e das ruas de Ahmedabad.

Michael Denning

NLR 66 • Nov/Dec 2010

No capitalismo, a única coisa pior do que ser explorado é não ser explorado. Desde o início da economia baseada no trabalho assalariado, a vida sem salário tem sido uma calamidade para aqueles despojados de terra, ferramentas e meios de subsistência. Expulsos do trabalho, os desprovidos de salário tornaram-se também invisíveis para a ciência: a economia política, como Marx observou nas primeiras formulações de sua crítica à disciplina, “não reconhece o trabalhador desempregado”: ​​“O malandro, o vigarista, o mendigo, o desempregado, o trabalhador faminto, miserável e criminoso — essas são figuras que não existem para a economia política, mas apenas para outros olhares: os do médico, do juiz, do coveiro e do oficial de justiça, etc.; tais figuras são espectros fora de seu domínio”.[1] Hoje em dia, o marxismo — visto mais frequentemente como um exemplo de economia política do que como sua crítica — e outras análises baseadas no trabalho enfrentam a mesma objeção. Dizem-nos que as concepções construídas sobre o trabalho assalariado não conseguem dar conta da realidade vivida pela parcela mais numerosa e miserável da população mundial: aqueles sem salário, aqueles que, na verdade, não têm sequer a esperança de um salário. Vida nua, vida desperdiçada, vida descartável, vida precária, vida supérflua: esses estão entre os termos usados ​​para descrever os habitantes de um planeta de favelas. Não é a criança na oficina de exploração (sweatshop) que constitui nossa figura mais característica, mas sim a criança das ruas, alternadamente predadora e presa.

Diante dessa situação, nenhuma das designações marxistas clássicas para os desprovidos de salário — o exército industrial de reserva ou o lumpemproletariado — parece adequada. Para alguns, apenas uma teoria da cidadania e da exclusão dela, ou dos direitos e de sua ausência, consegue captar essa realidade: falar de trabalho é falar daqueles que já gozam de direitos de cidadania. Outros recorreram a uma biopolítica ou necropolítica da existência nua. Nenhuma dessas alternativas é convincente. Embora a luta pela inclusão social e cultural, bem como pela cidadania política, seja vital em um mundo de sans-papiers, com demasiada frequência as batalhas teóricas sobre cidadania e direitos humanos permanecem presas a fantasias de soberania. Por outro lado, a retórica da vida e da morte por vezes apresenta uma falsa imediação, enxergando um estado de exceção ou de emergência naquilo que, infelizmente, é um estado de normalidade. Falar repetidamente em vida nua e vida supérflua pode nos levar a imaginar que existem, de fato, pessoas descartáveis, e não apenas que elas são descartáveis ​​aos olhos do Estado e do mercado.

Além disso, a vida nua não está desprovida de atividade prática. Uma análise crítica do viver e do prover a própria subsistência sob os imperativos capitalistas deve, a meu ver, partir não da acumulação de capital, mas de seu outro lado: a acumulação de trabalho. Dialeticamente, ambos são a mesma coisa: como afirmou Marx, "a acumulação de capital é, portanto, a multiplicação do proletariado".[2] No entanto, abordar a questão do ponto de vista do capital é — como Hegel e Marx poderiam dizer — algo unilateral. Vários críticos contemporâneos da economia política observaram esse desequilíbrio. Michael Lebowitz argumenta que a obra de Marx sobre o capital deveria ter sido acompanhada por outra sobre o trabalho assalariado; em Os Limites do Capital, David Harvey descreve "a falha, bastante surpreendente, de Marx em empreender qualquer estudo sistemático dos processos que regem a produção e a reprodução da própria força de trabalho" como "uma das mais graves lacunas na própria teoria de Marx".[3]

A seguir, proponho que precisamos de uma inversão semelhante no que diz respeito ao trabalho assalariado. A vida sem salário tem sido quase sempre vista como uma situação de carência, um espaço de exclusão: o desempregado, o trabalhador informal. Não pretendo resolver esse problema semântico: meu próprio termo de trabalho — "os sem salário" — é uma construção paralela. No entanto, quero insistir na necessidade de descentralizar o trabalho assalariado em nossa concepção da vida sob o capitalismo. O fetichismo do salário pode muito bem ser a fonte das ideologias capitalistas de liberdade e igualdade, mas o contrato de trabalho não é o seu momento fundador. Pois o capitalismo não começa com a oferta de trabalho, mas com o imperativo de ganhar a vida. Despossessão e expropriação, seguidas pela imposição de tributos monetários e do pagamento de aluguel: eis o idílio do "trabalho livre". Naqueles raros momentos de emancipação moderna, as pessoas libertadas — da escravidão, da servidão e de outras formas de trabalho coercitivo — jamais escolheram tornar-se trabalhadoras assalariadas. Pode até existir uma "propensão a traficar, permutar e trocar uma coisa por outra", como disse Adam Smith, mas claramente não há propensão a conseguir um emprego.

Em vez de encarar o operário fabril que provê o sustento como a base produtiva sobre a qual se ergue uma superestrutura reprodutiva, imagine o lar proletário despossuído como uma base de trabalho de subsistência não remunerado — o "trabalho das mulheres" de cozinhar, limpar e cuidar — que sustenta uma superestrutura de migrantes em busca de salário, os quais atuam como embaixadores, ou talvez reféns, da economia salarial. Essas migrações podem ser de curta distância e duração — os deslocamentos diários de bonde ou ônibus do cortiço à fábrica, ou do prédio de apartamentos ao escritório, que viriam a ser chamados de commuting — ou podem estender-se às viagens globais anuais de trabalhadores sazonais (via navio a vapor, ferrovia e automóvel), bem como à separação radical da migração aérea, mantida por anos de remessas e telefonemas. O desemprego precede o emprego, e a economia informal precede a formal, tanto histórica quanto conceitualmente. Devemos insistir que "proletário" não é sinônimo de "trabalhador assalariado", mas sim de despossessão, expropriação e dependência radical do mercado. Não é preciso ter um emprego para ser proletário: a vida sem salário — e não o trabalho assalariado — é o ponto de partida para compreender o livre mercado.

Neste ensaio, pretendo explorar os contornos da vida sem salário ao longo do último século, apresentando uma genealogia de duas representações fundamentais que não apenas a nomeiam e buscam regulá-la, mas também traçam uma linha divisória marcante entre as concepções dessa realidade nas metrópoles imperiais do capitalismo e na sua periferia: as figuras do desemprego e do setor informal. A primeira foi o tropo fundador da social-democracia do século XX, surgido em meio às grandes crises econômicas que assolaram os capitalismos industriais do Atlântico Norte e repercutiram em seus territórios coloniais. Esse conceito deslocou uma série de noções anteriores sobre os pobres, os ociosos e os perigosos, tornando-se parte central do discurso estatal e popular ao longo do século seguinte, sobretudo durante os períodos de desemprego em massa: a Grande Depressão da década de 1930 e a Grande Recessão da década de 1970. Por outro lado, o termo "setor informal" foi cunhado no início da década de 1970 para dar conta da massa de pessoas sem salário no Terceiro Mundo recém-independente — uma realidade que parecia escapar tanto à categoria de emprego quanto à de desemprego. Esse termo também deslocou concepções anteriores — talvez a mais notável delas sendo a de lumpemproletariado, tal como retratada por Frantz Fanon em Os Condenados da Terra — e continua a integrar tanto o discurso oficial quanto o não oficial.

Uma história institucional mais antiga poderia afirmar que o Estado de bem-estar social foi criado em resposta ao desemprego: o espectro do desempregado retorna a cada depressão e recessão, à medida que ilustradores e fotógrafos tentam representar a ausência de trabalho em ícones que vão desde "A Reunião dos Desempregados", do cartunista vitoriano Tom Merry, até "A Fila do Pão do Anjo Branco" (White Angel Breadline), de Dorothea Lange. No entanto, uma história biopolítica mais recente sugere que o Estado social emergente inventou o desemprego no processo de normalização e regulação do mercado de trabalho. A própria palavra surgiu justamente quando o fenômeno se tornou objeto de produção de conhecimento estatal durante a longa desaceleração econômica das décadas de 1880 e 1890. O termo foi utilizado pela primeira vez em inglês em 1887, quando o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho de Massachusetts, Carroll D. Wright, tentou contabilizar os desempregados — desencadeando uma prática estatística que se tornaria central para o Estado moderno e que, na década seguinte, já era de uso comum. A primeira abordagem teórica — o artigo de 1895 intitulado "O Significado e a Medida do 'Desemprego'", do economista liberal J. A. Hobson (mais conhecido por sua influente análise do imperialismo) — definiu a pauta para um século de debates: como defini-lo e medi-lo? A palavra francesa para desempregado, chômeur, remonta à mesma época, e o equivalente alemão, Arbeitslosigkeit, era raramente utilizado antes da década de 1890. De fato, como aponta John Garraty, autor da obra de referência Unemployment in History, o próprio Marx não utilizava essa expressão. Em O Capital, assim como na passagem dos manuscritos de 1844 citada anteriormente, Marx escreve sobre die Unbeschäftigen — os "não ocupados" ou "sem ocupação" — em vez de die Arbeitslosen, o termo contemporâneo para desempregados.[5]

O conceito moderno de desemprego dependia da normalização do emprego, o intrincado processo pelo qual a participação nos mercados de trabalho se torna a norma. Enquanto os empregadores estabelecem as regras, os trabalhadores insistem nas práticas habituais, e tribunais, parlamentos e inspetores de fábricas definem os padrões. Marx argumentou que “a criação de uma jornada de trabalho normal [ein Normalarbeitstag] é, portanto, produto de uma prolongada, mais ou menos disfarçada, guerra civil entre a classe capitalista e a classe trabalhadora”. De fato, Marx insistiu que “em lugar do pomposo catálogo dos ‘direitos inalienáveis ​​do homem’, fosse concedida a modesta Magna Carta de uma jornada de trabalho legalmente limitada”.[6]

A normalização do emprego possibilitou a normalização do desemprego de pelo menos três maneiras. Primeiro, estar desempregado significava perder o emprego habitual, e, de fato, as primeiras formas de proteção ao desemprego surgiram dos sindicatos, que buscavam manter o nível salarial vigente oferecendo benefícios aos membros que perdiam seus empregos. Em sua discussão sobre desemprego e governo, William Walter sugere que “o status de ‘desempregado’ foi realmente inventado pelo sindicalismo”. A segunda forma de normalização surgiu quando os desempregados começaram a se organizar e a se manifestar como tal. O ponto de partida clássico é o famoso Motim de Fevereiro de 1886 em Londres. A Liga do Comércio Justo, liderada pelos conservadores, convocou uma manifestação de desempregados na Trafalgar Square, que atraiu 20.000 trabalhadores da construção civil e portuários; quando a Federação Social Democrata liderou parte da multidão pela Pall Mall, vitrines foram quebradas, lojas foram saqueadas e Londres, segundo o The Times, mergulhou no pânico. Manifestações semelhantes continuaram a ocorrer, aumentando em 1887 e culminando em novembro no Domingo Sangrento, o protesto contra medidas coercitivas na Irlanda, no qual a polícia atacou os manifestantes e três pessoas foram mortas.[7]

Finalmente, por volta da virada do século, o desemprego foi incorporado ao trabalho de teóricos como Hobson e William Beveridge, que argumentaram que não se tratava de uma questão de depravação ou preguiça individual, mas de um aspecto normal e inevitável da sociedade industrial. “Sem dúvida, as causas pessoais explicam em grande parte quem serão os indivíduos que representarão os 10% dos ‘desempregados’”, argumentou Hobson, “mas elas não são, de forma alguma, causas que contribuem para o ‘desemprego’”. Essas análises construíram a primeira ideia de que o capitalismo criou um exército industrial de reserva, um conceito frequentemente considerado distintamente marxista, já que aparece em O Capital na discussão sobre o excedente populacional relativo no capitalismo. No entanto, Marx estava simplesmente adotando a retórica do movimento operário britânico. Os radicais, especialmente as associações cartistas e fourieristas, imaginavam os novos operários como vastos exércitos industriais, e essa ideia difundida levou a líder cartista Bronterre O’Brien a falar, em 1839, no jornal Northern Star, sobre um exército industrial de reserva. O jovem Engels retomou a imagem em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, em 1844, e Marx ocasionalmente invocaria a metáfora, diferenciando entre o exército ativo e o exército de reserva da classe trabalhadora. No final do século XIX, ela fazia parte da interpretação racional do desemprego: em 1911, até mesmo o Departamento de Estatísticas do Trabalho de Massachusetts pôde concluir que “por mais prósperas que sejam as condições, sempre haverá um ‘exército de reserva’ de desempregados”.[8]

Risco e Alívio

Essa normalização do desemprego formou a base das principais técnicas social-democratas que buscavam conter o espectro da vida sem salário. A fase inicial foi caracterizada pela concepção do desemprego como um risco segurável, um acidente como doença, incêndio, roubo ou morte. Essa foi a base da Lei Nacional de Seguros Britânica de 1911, o primeiro programa governamental desse tipo. Imitando o sistema de bem-estar social de Bismarck, o governo de Herbert Asquith criou um fundo estatal para assegurar os trabalhadores contra o desemprego. No entanto, a lógica do seguro falha em casos de desastres coletivos, quando muitos acidentes ocorrem simultaneamente. Assim, o desemprego em massa durante a Grande Depressão da década de 1930 tornou evidentes as limitações dessas redes de proteção. Surgiu uma nova geração de movimentos de trabalhadores desempregados, geralmente liderados por jovens ativistas comunistas, como os Comitês de Desempregados na França ou os Conselhos de Desempregados nos Estados Unidos, onde um terço da população estava desempregada. As marchas e protestos mais famosos contra despejos ocorreram nesses centros industriais — os distúrbios de Wall Street em 1930, a marcha da fome da Ford dois anos depois, a marcha de Lille a Paris no final de 1933 — mas manifestações semelhantes também ocorreram nas colônias, como a marcha da fome na Jamaica em 1933.

A subsequente reconceitualização keynesiana do desemprego como um indicador econômico sujeito a ajustes macroeconômicos nacionais tornou-se a base para os estados de bem-estar social do pós-Segunda Guerra Mundial, que previam uma economia de pleno emprego. Por duas décadas, pareceu que o desemprego em massa era coisa do passado. No entanto, a Grande Recessão da década de 1970 na Europa e na América do Norte marcou o retorno do espectro da vida sem salário, agora sob o signo da superfluidez. O fechamento permanente de fábricas ocorreu à medida que regiões inteiras passavam por uma contrarrevolução industrial. Uma nova onda de movimentos emergiu, particularmente na França, no inverno de 1997-1998. Assim como na década de 1930, a desindustrialização é frequentemente entendida como um fenômeno do Primeiro Mundo, mas, como veremos, deixou para trás inúmeras áreas deprimidas em todo o globo, como evidenciado pelo caso de Ahmedabad, a Manchester da Índia.

Para alguns teóricos, porém, a desindustrialização marcou o fim do desemprego como ferramenta política e conceitual. Entre aqueles que argumentaram que havíamos chegado ao fim do trabalho estava Ulrich Beck, o teórico alemão da sociedade de risco do neoliberalismo, que apontou para a mudança de um “sistema uniforme de trabalho em tempo integral e vitalício, organizado em um único local industrial, com a alternativa radical do desemprego, para um sistema arriscado de subemprego flexível, pluralizado e descentralizado que, no entanto, possivelmente nunca mais poderá apresentar o problema de [...] estar completamente sem emprego remunerado”.⁹ Os economistas neoliberais insistiam que o desemprego involuntário sequer existia; o desemprego era ou uma escolha resultante da utilidade marginal do lazer, ou uma obstrução temporária do mercado de trabalho causada por altos salários, tornados rígidos demais pelo monopólio sindical e pelo salário mínimo estatal.

Também é importante destacar a grande fragilidade da normalização social-democrata do emprego e do desemprego. Essa normalização criou um sujeito normal: o assalariado. Consequentemente, grande parte da complexidade do capitalismo era irreconhecível para um movimento operário que havia sido reconstituído pelo aparato estatal em um movimento de emprego, em um agente de assalariados divididos em unidades de negociação coletiva. Em toda a sociedade, havia muitos que viviam à margem do emprego e do desemprego típicos: mulheres que trabalhavam em suas próprias casas, comunidades desindustrializadas que sofreram com o desinvestimento e a falta de salários, aqueles sujeitos a códigos raciais, até mesmo assalariados em indústrias e locais de trabalho não oficialmente reconhecidos (nos Estados Unidos, por exemplo, trabalhadores domésticos, trabalhadores agrícolas e estagiários e pesquisadores precários não abrangidos pelo Conselho Nacional de Relações Trabalhistas). Como argumentou uma geração de feministas críticas ao Estado de bem-estar social, isso levou a uma injusta divisão de gênero na seguridade social. Famílias e bairros da classe trabalhadora eram divididos entre sujeitos independentes, caracteristicamente homens, sujeitos à seguridade social, e sujeitos dependentes, caracteristicamente mulheres, sujeitos à assistência social. Um braço do aparato estatal assegurava e protegia o provedor masculino normativo contra o risco de desemprego involuntário; outro braço examinava os métodos e meios de criação dos filhos pelas mulheres antes de distribuir auxílios estigmatizados. Se a concepção social-democrata de desemprego rompeu com a retórica das Leis dos Pobres do século XIX ao entender a pobreza como sistêmica em vez de individual, como um desperdício de trabalho social em vez da pretensão de ociosidade e dissolução, ela também traçou uma linha divisória rígida e ideológica dentro das massas da classe trabalhadora.

Favelas e bairros de lata

Enquanto o desemprego dominava o imaginário dos estados capitalistas ocidentais, ele não seria o conceito regulador no discurso de desenvolvimento dos estados pós-coloniais. Aqui, o espectro da vida sem remuneração nas favelas e bairros de lata em expansão da Ásia, África e América Latina obliterou qualquer divisão clara entre empregados e desempregados. A vida sem remuneração não era um revés temporário contra o qual se pudesse obter seguro, nem uma falha macroeconômica da demanda agregada; Aparentemente, era o principal modo de existência em uma economia à parte, quase autônoma.

A ideia do setor informal surgiu após duas décadas de migração extraordinária do Terceiro Mundo para as cidades, onde a população trabalhadora urbana dobrou entre 1950 e 1970. Os regimes e assentamentos coloniais, assim como as economias de plantação das Américas, restringiram e até criminalizaram a migração para a cidade; assim, muitas das revoltas de meados do século foram baseadas em levantes de camponeses e trabalhadores agrícolas. Mas, na sequência da libertação nacional, “os pobres”, como aponta Mike Davis, “reivindicaram com entusiasmo o seu ‘direito à cidade’, mesmo que isso significasse apenas uma favela na sua periferia”.¹⁰ Nas grandes áreas urbanas ocupadas da década de 1950, surgiram novas formas de subsistência e luta, e mesmo antes de economistas e sociólogos do desenvolvimento darem um nome ao setor informal, os cineastas retrataram a vida sem salário das novas favelas em filmes que se tornaram paradigmas para o resto do século: Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus, lançou a primeira World Music — a bossa nova — a partir de uma representação romântica e mítica das favelas do Rio durante o carnaval; e A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo, criou um retrato imperecível da revolução anticolonial argelina, não como a guerra camponesa que foi, mas através da metonímia épica da insurreição urbana derrotada de 1956-1957.

O primeiro grande engajamento teórico com essa nova forma de existência sem salário também surgiu de uma reflexão sobre a revolução argelina: em Os Condenados da Terra, Frantz Fanon reviveu o termo marxista do século XIX "lumpenproletariado". Cunhado por Marx na década de 1840 como um entre uma família de termos — o lumpemproletariado, a turba, os lazzaroni, os boêmios, os brancos pobres — ele caracterizava as formações de classe do Segundo Império em Paris, do Risorgimento em Nápoles, da Londres vitoriana e dos estados escravistas da América do Norte. Na maioria dos casos, Marx até mesmo usou a linguagem original para sugerir a especificidade histórica dessas formações, em vez do alcance teórico do conceito. Para ele, tais expressões tinham duas conotações principais: por um lado, a de um estrato improdutivo e parasitário da sociedade, uma escória ou resíduo social composto por aqueles que se aproveitavam dos outros; Por outro lado, havia o fato de que uma parcela dos pobres geralmente se aliava às forças da lei, como no relato do recrutamento do lumpemproletariado por Luís Napoleão em O Dezoito Brumário, ou em sua análise da aliança entre proprietários de escravos e brancos pobres no sul dos Estados Unidos.

Nessas formulações, Marx tinha dois antagonistas. Primeiro, ele combatia a visão predominante de que toda a classe trabalhadora era um elemento perigoso e imoral. Ele traçou uma linha divisória entre o proletariado e o lumpemproletariado para defender o caráter moral do primeiro. Segundo, ele desafiava aqueles — especialmente seu grande aliado e adversário anarquista Bakunin — que sustentavam que criminosos e bandidos constituíam uma força política revolucionária.[11] Em meados do século XX, o conceito de lumpemproletariado havia praticamente desaparecido do discurso socialista e marxista. Contudo, sua reinvenção em Os Condenados da Terra para descrever as populações urbanas inteiramente novas do Terceiro Mundo o tornou uma figura-chave nos debates teóricos das décadas de 1960 e 1970. A discussão sobre o lumpemproletariado ocorre principalmente no segundo ensaio do livro, "Grandeur et faiblesse de la spontanéité" (Grande e Fraqueza da Espontaneidade), no qual Fanon traça as contradições da coalizão anticolonial à medida que os militantes nacionalistas urbanos se voltavam para as massas camponesas. Ele faz três afirmações convincentes e controversas. A primeira é uma afirmação sociológica sobre o surgimento de uma nova população de despossuídos, o povo das favelas: "Deixando o campo [...] os camponeses sem-terra, agora um lumpemproletariado, são impelidos para as cidades, amontoados em favelas enquanto se esforçam para infiltrar os portos e as cidades, criações da dominação colonial." "Esses homens, separados à força de seus locais de nascimento pelo crescimento da população rural e pela expropriação colonial, cercam incessantemente as cidades, na esperança de que um dia lhes seja permitido entrar nelas." Fanon recorre a metáforas biológicas: “a favela é a consagração da decisão biológica do colonizado de invadir as cidadelas do inimigo a qualquer custo e, se necessário, pelos canais mais subterrâneos”. É uma “podridão irreversível”, uma “gangrena que devora o coração da dominação colonial”. “Por mais que seja chutada ou apedrejada, [essa lumpemproletariado] continua a corroer as raízes da árvore como uma matilha de ratos.”[12]

Em segundo lugar, Fanon, assim como Marx, argumenta que esse lumpemproletariado é facilmente manipulado pelas forças repressivas da ordem colonial; se não for “organizado pela insurreição, juntar-se-á às tropas coloniais como mercenários”, e cita exemplos de Madagascar, Argélia, Angola e Congo. Em terceiro lugar, e o que ele enfatiza com mais veemência contra a visão aceita tanto pelos movimentos nacionalistas quanto pelos comunistas, Fanon insiste que:

é entre essas massas, entre o povo das favelas e o lumpemproletariado, que a revolução encontrará sua vanguarda urbana. O lumpemproletariado, essa coorte de homens famintos, divorciados de tribo e clã, constitui uma das forças mais espontâneas e radicalmente revolucionárias dos povos colonizados [...] Esses desempregados, essa espécie subumana, redimem-se aos seus próprios olhos e perante a história.[13]

O Nascimento da Informalidade

A apropriação do termo do século XIX por Fanon alimentou debates políticos ao longo da década de 1960. Praticamente todos os estudos pioneiros sobre trabalho no Terceiro Mundo endossaram sua formulação: Pierre Bourdieu sobre trabalho e trabalhadores na Argélia; Ken Post sobre as revoltas operárias na Jamaica na década de 1930; Charles van Onselen sobre a vida cotidiana no Witswatersrand, na África do Sul. Economistas e sociólogos do desenvolvimento se esforçaram para nomear a nova realidade que Fanon havia identificado. Em sua história clássica do desenvolvimento econômico do Terceiro Mundo, Paul Bairoch argumentou que “os conceitos de desemprego e subemprego, tal como foram formulados no Ocidente, não podem ser aplicados [...] exceto de maneira muito grosseira e aproximada”.¹⁴ Trabalhando dentro de uma tradição social-democrata, o economista jamaicano W. Arthur Lewis desenvolveu um influente modelo da “economia dual” colonial no início da década de 1950. Em meados da década seguinte, o conceito de massas marginalizadas, desenvolvido pelo marxista argentino José Nun, suscitou um debate considerável.

A expressão que passou a dominar o discurso oficial — o “setor informal” — foi cunhada no início da década de 1970 por um economista britânico especializado em desenvolvimento, Keith Hart, que estudava as comunidades migrantes Frafa, originárias do norte de Gana, que viviam na favela de Nima, nos arredores da cidade velha de Accra. Hart afirmou que “grande parte da força de trabalho urbana não tem contato com empregos assalariados”. Ele prosseguiu resumindo as formas de “trabalho por conta própria” que garantiam o sustento dos habitantes da favela de Nima: “A distinção entre oportunidades de renda formais e informais baseia-se essencialmente na diferença entre assalariados e trabalhadores por conta própria”. O termo foi rapidamente adotado pela Organização Internacional do Trabalho em um estudo de 1972 sobre emprego no Quênia. Vinte anos depois, a OIT desenvolveu critérios para medições estatísticas no setor informal, e diversos debates se seguiram não apenas na África anglófona, mas também no Sul da Ásia e na América Latina. O “setor informal” tornou-se o termo dominante para representar o trabalho não remunerado em cidades do mundo todo. Segundo a OIT, “o emprego informal representa entre metade e três quartos do emprego não agrícola nos países em desenvolvimento”: 48% no Norte da África, 51% na América Latina, 65% na Ásia e 72% na África Subsaariana. Além disso, “três tipos de trabalho atípico e não padronizado — trabalho por conta própria, trabalho em tempo parcial e trabalho temporário — representam 30% do emprego total em quinze países europeus e 25% nos Estados Unidos”. No final do século, a economia informal (como havia sido renomeada) tornou-se visível não apenas em Accra e Nairóbi, mas também em Los Angeles e Moscou.15

Em seu ensaio sobre Accra, Hart deu início a um debate sobre a natureza informal do trabalho não remunerado que persiste até hoje: “O crescente subemprego e o desemprego residual nas cidades dos países em desenvolvimento são geralmente considerados ‘algo ruim’. Mas por que precisa ser? Em que sentido exatamente esse fenômeno constitui um problema?” Sua pergunta pode ser vista como o início da normalização do setor informal. Modelos anteriores da economia dual o tratavam como o legado “negativo” da modernização incompleta do colonialismo, um momento de transição no caminho para o emprego formal e o desemprego. Esses Estados haviam herdado aparatos trabalhistas coloniais que tentavam disciplinar e regular o trabalho precário. E, de fato, a era da industrialização por substituição de importações em meados do século testemunhou o crescimento do emprego no setor formal na América Latina e até mesmo em partes da Ásia e da África; O surgimento de novos exércitos de trabalhadores industriais organizados deu origem às grandes revoltas operárias na África do Sul, no Brasil e na Coreia do Sul. No entanto, na década de 1970, o crescimento desses empregos estagnou, e o discurso que cunhou o termo "setor informal" o considerava uma esfera normal da atividade econômica — na verdade, em crescimento sob o neoliberalismo — que fazia parte da lógica da acumulação capitalista pós-colonial.[16]

Assim como a definição de desemprego no final do século XIX dependia de uma nova interpretação da economia, a descoberta do setor informal dependeu, em certo sentido, dos aparatos formais do Estado para o trabalho, que estabeleciam salários mínimos e jornadas máximas de trabalho, além de fornecer seguro-desemprego e seguridade social. O que caracterizava o setor informal não era o tamanho da empresa ou a forma do processo de trabalho, mas sim sua relação com o Estado. A questão central, então, tornou-se a força ou a fraqueza do Estado: para alguns, as economias informais se desenvolvem quando o Estado regula demais, levando a atividade econômica para a clandestinidade, sem regulamentação e sem tributação; para outros, são produto de Estados fracos ou falidos, incapazes de fornecer proteção social aos seus cidadãos e de fazer cumprir as leis ou arrecadar impostos. Os críticos neoliberais da regulação estatal tendem a celebrar o entusiasmo empreendedor pelo setor informal, por suas microempresas que precisam apenas de microcrédito para prosperar. Os defensores dos Estados de bem-estar social-democratas têm defendido a formalização do setor informal: a expansão da proteção social e da representação sindical.

Trabalho sindical em Ahmedabad

Ao mesmo tempo em que economistas do desenvolvimento como Hart descobriam o setor informal, a primeira grande organização de trabalhadores desse setor começava a tomar forma. Em 1972, Ela Bhatt, ativista da Associação de Trabalhadores Têxteis de Gandihana, começou a reunir mulheres que trabalhavam carregando e descarregando mercadorias e como vendedoras ambulantes na cidade têxtil de Ahmedabad em um sindicato, a Associação de Mulheres Autônomas. Bhatt havia sido designada para examinar a situação das famílias afetadas pelo fechamento de duas grandes fábricas têxteis.

Enquanto os homens se dedicavam a fazer campanha pela reabertura das fábricas, [...] eram as mulheres que ganhavam dinheiro e sustentavam suas famílias. Elas vendiam frutas e verduras nas ruas; costuravam em casa por peça para intermediários; trabalhavam como operárias em mercados atacadistas, carregando e descarregando mercadorias; ou coletavam lixo reciclável nas ruas da cidade [...] trabalhos sem definição. Aprendi pela primeira vez o que significava ser autônoma. Nenhuma das leis trabalhistas se aplicava a elas; no caso delas, minha formação jurídica era inútil.

“Ironicamente”, recorda ele três décadas mais tarde, “foi enquanto trabalhava no setor formal que testemunhei pela primeira vez a vastidão do setor informal.”17

Ao longo dos trinta anos seguintes, a AMAE evoluiu para um conjunto de três tipos de organizações de pessoas pobres às quais seus membros se filiavam. Primeiro, um sindicato — em 2004, o maior sindicato de base da Índia — composto por uma variedade de comerciantes informais — catadores de lixo, costureiras de roupas e de chindi (cigarro indiano), enroladores de bidi (cigarro indiano), vendedores de verduras — que negociavam com compradores, empreiteiros e autoridades municipais sobre trabalho por peça e espaço nas ruas. Segundo, uma coalizão de dezenas de cooperativas de produtores que fabricavam tecido para camisetas, reciclavam papel usado e limpavam escritórios; e terceiro, diversas instituições de ajuda mútua e proteção, incluindo um banco da AMAE e cooperativas de saúde organizadas em torno de parteiras que também faziam parte do setor informal.

Uma parte fundamental de sua história tem sido a luta por representatividade. Como diz Bhatt, “Quando alguém me pergunta qual foi a parte mais difícil da jornada da AMAE”, posso responder sem hesitar: superar bloqueios conceituais. Algumas de nossas maiores batalhas foram para refutar ideias e atitudes preconcebidas de funcionários, burocratas, especialistas e acadêmicos. As definições fazem parte dessa batalha. O Registro Sindical não nos considerava “trabalhadores”; portanto, não podíamos nos registrar como um “sindicato”. Os trabalhadores braçais, bordadeiras, carroceiros, catadores de trapos, matronas e coletores de produtos florestais podem contribuir para o produto interno bruto do país, mas Deus os impede de serem reconhecidos como trabalhadores! Sem um empregador, você não pode ser classificado como trabalhador e, como não é um trabalhador, não pode formar um sindicato. Nossa luta para sermos reconhecidos como um sindicato nacional continua.18

A AMAE rejeitou a retórica do setor informal que dominava o discurso oficial: “Dividir a economia em setores formal e informal é artificial”. Bhatt argumenta que “isso pode facilitar a análise ou a administração, mas, em última análise, perpetua a pobreza”: “Agrupar uma força de trabalho enorme em categorias como ‘marginal’, ‘informal’, ‘desorganizada’, ‘periférica’, ‘atípica’ ou ‘economia subterrânea’ me pareceu absurdo. Eu me perguntava: marginal e periférica em relação a quê? [...] Aos meus olhos, eles eram simplesmente ‘autônomos’”. De fato, os vendedores ambulantes que estiveram entre os primeiros a construir a AMAE se autodenominavam comerciantes.<sup>19</sup>

Essa retórica do trabalho autônomo se baseava nas ideologias da ala gandhiana do sindicalismo indiano, da qual a AMAE emergiu, e foi adotada por outras organizações de trabalhadores não assalariados, particularmente a União Sul-Africana de Mulheres Autônomas, com sede em Durban e fundada em meados da década de 1990. Contudo, em retrospectiva, parece ter-se tornado um lugar-comum nominal, visto que a AMAE adotou como uma de suas principais tarefas a representação de um mundo de trabalho não remunerado, invisível ao aparato trabalhista estatal. Quando, no final da década de 1970, a AMAE organizou mulheres que costuravam chindi — retalhos de tecido descartados pelas fábricas têxteis — para fazer kohls (cobertores de retalhos), começou por estudá-las, apesar do seu ceticismo:

Para melhor compreender os problemas enfrentados pelos trabalhadores de chindi, decidimos realizar uma pesquisa nos sete pontos de venda, ou ruas, onde a maior parte do kohl era costurada. Karimaben [uma das ativistas] não teve paciência para a pesquisa e reclamou comigo: “Sabemos exatamente qual é o problema. Deixe-me dizer, eu gasto mais em uma peça de kohl do que ganho fazendo-a”.

No entanto, a AMAE insistiu em “proceder metodicamente e realizar pesquisas”, informando os trabalhadores de chindi sobre as descobertas e usando-as para pressionar por um aumento no salário por peça tanto para os comerciantes de kohl quanto para os funcionários do Ministério do Trabalho. Bhatt afirma que “ao longo dos anos, os estudos têm sido úteis para a AMAE. Eles nos ajudam a obter uma compreensão detalhada dos problemas antes de tomar qualquer medida, e o processo nos ajuda a identificar potenciais líderes comunitários”.²⁰ Esses estudos proporcionaram uma visão muito mais matizada do mundo dos trabalhadores autônomos. Em 2004, a pesquisa da AMAE havia dividido seus membros em mais de 80 ocupações, dentro de quatro categorias principais: vendedores ambulantes, produtores domésticos, trabalhadores diaristas e prestadores de serviços, e produtores rurais.<sup>21</sup> A Tabela 1 mostra o crescimento de cada uma dessas categorias desde a década de 1970. Deve-se notar que o grupo mais visível — os vendedores ambulantes, que representavam 2% da população na Índia urbana — constituía uma parte central da AMAE inicial, antes de sofrer um declínio proporcional.

Após começar pelas cidades, a década de 1990 viu o lançamento de uma organização de produtores rurais e trabalhadores agrícolas. Dois terços de seus membros não são tanto autônomos, mas sim o que Jan Breman chamou de “caçadores e coletores de salários” — trabalhadores temporários e prestadores de serviços que trabalham para outros sob o disfarce complexo de trabalhadores contratados e remunerados por peça.[22]

Em 2004, uma análise mais detalhada (Tabela 2) revela não apenas a variedade de ocupações informais — de vendedores de verduras e catadores de lixo a trabalhadores de carga e descarga — mas também o número expressivo de trabalhadores agrícolas.

Portanto, as organizações de trabalhadores no chamado setor informal planejaram seu mundo não tanto com base em sua relação com uma economia formal e regulamentada pelo Estado, mas sim em seus próprios locais de trabalho, especialmente a rua e o lar. Quando a AMAE defendeu alianças transnacionais de associações de trabalhadores na década de 1990, fez isso criando os domínios StreetNet e HomeNet. Cada vez mais, as duas principais representações de trabalhadores informais, tanto no discurso oficial quanto na cultura popular, são o vendedor ambulante e o trabalhador doméstico.

Explorando o Mercado

Qual pode ser a conclusão dessa genealogia de representações da vida sem salário? Parece claro que nenhum dos dois principais termos do século XX — desemprego e setor informal — permanece adequado, principalmente devido à sua segregação em áreas específicas do sistema capitalista global; mesmo os estudos acadêmicos sobre cada um deles mal mencionam o outro. Essa sensação de exaustão conceitual também se aplica às analogias marxistas tradicionais: a adoção socialista do “exército industrial de reserva” de Marx e a adoção anticolonial da reinterpretação do lumpemproletariado por Fanon. Mas quais são as alternativas?

Como propus anteriormente, nosso imaginário contemporâneo parece ser dominado por dois tipos de metáforas. O primeiro aponta para a insegurança de muitos tipos de trabalho contemporâneo: falamos de precarização, informalização e proliferação de empregos temporários e precários. Em 1999, a OIT — há muito tempo um campo de batalha pelas formas de representação trabalhista, e cuja convenção de 1996 sobre trabalho a domicílio foi produto de uma luta prolongada liderada em parte pela AMAE — tentou romper a dicotomia formal-informal, caracterizando este último como trabalho vulnerável, contra o qual defendeu o trabalho decente. Essa reivindicação representa tanto um recuo, um reconhecimento de que a regulamentação do trabalho formal não alcança a maioria, quanto um passo adiante, um argumento em favor da proteção social e dos direitos trabalhistas para os vulneráveis. Apesar das muitas declarações grandiosas sobre direitos humanos inalienáveis, é evidente que ainda aguardamos a modesta Magna Carta do trabalho decente.

Uma segunda metáfora vai além, propondo que ultrapassamos um marco histórico: o fim do trabalho como o conhecemos. Dizem-nos que o trabalho perdeu sua centralidade na vida; a vida sem salário é uma vida sem trabalho, uma vida desperdiçada. Apontando para a ruptura dramática no discurso popular entre a retórica do desemprego e a da superfluidez, Zygmunt Bauman afirma que “superfluidez” compartilha seu espaço semântico com “rejeitados”, “preguiçosos”, “lixo”, “desperdício” — com resíduos. O destino dos desempregados, do “exército de reserva industrial”, era ser convocado de volta ao serviço ativo. O destino dos resíduos é o aterro sanitário, o lixão. “A produção de ‘resíduos humanos’ ou, mais precisamente, de humanos descartados [...] é um resultado inevitável da modernização”; “refugiados, requerentes de asilo, migrantes” são “os resíduos da globalização”.23

A denúncia apocalíptica de Bauman sobre nossa cultura do descarte é convincente, mas erra o alvo por dois motivos. Primeiramente, sua ligação excessivamente simplista entre resíduos materiais e resíduos humanos repete um dos tropos mais antigos a respeito dos não remunerados: eles são equivalentes a lixo, a refugo. Tais metáforas aparecem em todos esses estudos, desde a caracterização inicial do desemprego como resíduo feita por Hobson. Marx também não ficou isento delas, referindo-se em O Dezoito Brumário ao lumpemproletariado como resíduo. E de fato existe uma conexão: aqueles sem salário há muito tempo trabalham catando lixo. Mas, como apontei anteriormente, os catadores de lixo não são apenas uma parte significativa da AMAE (Aliança Monetária das Filipinas), muitos dos ofícios que ela abrange, como o das mulheres tecelãs de chindi, surgiram de subprodutos da indústria têxtil. Em março de 2008, foi realizada em Bogotá a primeira conferência internacional de organizações de catadores de lixo.

O fato de a globalização produzir superfluidez é melhor compreendido não pela imagem aparentemente concreta de vidas descartadas, mas por meio de dois conceitos dialeticamente relacionados de Marx: a população excedente relativa e os pobres virtuais. O primeiro vem de O Capital; O segundo dos Grundrisse. No capítulo fundamental sobre "A Lei Geral da Acumulação Capitalista" em O Capital, Marx considera o problema do ponto de vista do capital: "É a própria acumulação capitalista que produz constantemente — em relação direta com sua própria energia e extensão — uma população trabalhadora relativamente supérflua, isto é, uma população que é supérflua às necessidades médias do capital para a sua própria valorização, e que é, portanto, uma população excedente." Marx continua: "Esta é uma lei populacional característica do modo de produção capitalista e, de fato, historicamente, cada modo de produção específico tem suas próprias leis populacionais especiais. De fato, "o excedente populacional relativo existe em todos os tipos de formas. Todo trabalhador pertence a ele durante o tempo em que está apenas parcialmente empregado ou totalmente desempregado." O exército de reserva industrial é, portanto, simplesmente uma dessas formas; na verdade, como se poderia esperar, os exemplos particulares de Marx sobre o excedente populacional relativo são a parte mais antiquada de sua análise.24

A metáfora fundamental na análise de Marx é a das forças opostas: não se trata de duas classes de trabalhadores, empregados e desempregados, ou de dois setores da economia, formal e informal; antes, há um processo em que “quanto maior a atração dos trabalhadores pelo capital, maior a sua rejeição [...] às vezes os trabalhadores são repelidos, às vezes são atraídos novamente em massas ainda maiores”. “Quanto maior a produtividade do trabalho, maior a pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego, mais precária se torna a condição de sua existência, especialmente para a venda de sua própria força de trabalho”. Curiosamente, praticamente todo o vocabulário contemporâneo — redundante, supérfluo, precário — pode ser encontrado neste capítulo.[25]

Se a passagem em O Capital narra a história do ponto de vista da acumulação de capital, a passagem paralela nos Grundrisse parte do ponto de vista do trabalho vivo: “O conceito de trabalhador livre já significa que ele é um indigente: um indigente virtual… Se o capitalista não tem utilidade para seu trabalho excedente, então o trabalhador não pode realizar seu trabalho necessário”. Marx não está argumentando que todos os trabalhadores se tornarão mendigos, como sustenta a tese da pauperização frequentemente atribuída a ele. Em vez disso, esta é a sua explicação da vida nua: como a troca necessária para os meios de subsistência — a venda da força de trabalho — é acidental e indiferente à sua presença orgânica, o trabalhador é um indigente virtual.26 Indigentes virtuais: esta estranha figura — combinando uma palavra quase extinta com outra que assumiu conotações inteiramente novas — será meu ponto de parada temporário. Em uma carta escrita em seu quinquagésimo aniversário, Marx disse: “Meio século sobre meus ombros e ainda um indigente”. Um século e meio depois, o espectro da vida sem salário paira novamente sobre nós.

1 Karl Marx e Friedrich Engels, Obras Completas, Nova York, 1975, vol. III, p. 284. Este ensaio foi originalmente escrito como parte do Grupo de Trabalho de Yale sobre Globalização e Cultura. Gostaria de agradecer aos demais membros por suas sugestões e críticas, e a Achille Mbembe por sua resposta a um texto anterior no Instituto de Pesquisa Social e Econômica da Universidade de Witwatersrand, África do Sul, em 22 de fevereiro de 2006.

2 K. Marx, Capital, vol. I, Harmondsworth, 1976, p. 764.

3 Michael Lebowitz, Beyond Capital. Marx’s Political Economy of the Working Class, Nova York, 2003; David Harvey, The Limits to Capital, Chicago, 1982, p. 163.

4 As leituras biopolíticas do desemprego são, em certo sentido, um produto da convulsão intelectual causada pela terceira onda de desemprego em massa; dois textos seminais datam de 1986: Robert Salais, L’invention du chômage. Histoire et transformations d’une catégorie en France des années 1890 aux années 1980 (Paris, 1986), e Alexander Keyssar, Out of Work: The First Century of Unemployment in Massachusetts (Cambridge, 1986). Veja também Christian Topalov, Naissance du chômeur, 1880–1910 (Paris, 1994). Um estudo mais recente, baseado nesse trabalho, é Unemployment and Government: Genealogies of the Social, de William Walters (Cambridge, 2000).

5 John Garraty, Unemployment in History, Nova York, 1978, pp. 109, 4; J. A. Hobson, "The Meaning and Measure of 'Unemployment'", Contemporary Review 67, março de 1895.

6 K. Marx, Capital, cit., pp. 303, 307.

7 W. Walters, Unemployment, cit., p. 18. Ver também Gareth Stedman Jones, Outcast London, Nova York, 1984, pp. 291-296. Em suas cartas, Engels foi bastante crítico das "bobagens sobre revolução social" da FSD. Sua caracterização da manifestação como sendo composta principalmente por "vagabundos, espiões da polícia e malandros" é uma das passagens clássicas sobre o lumpemproletariado; K. Marx e F. Engels, Collected Works, cit., vol. XLVII, pp. 407, 408.

8 Hobson, citado por W. Walters, Unemployment, cit., p. 32. Ver também Stedman Jones, Languages ​​of Class, Cambridge, 1983, p. 159. O Departamento de Massachusetts é citado por A. Keyssar, Out of Work, cit., p. 72.

9 Ulrich Beck, Risk Society, Londres, 1992, p. 143.
 
10 Mike Davis, Planet of Slums, Londres, 2006, p. 55.

11 Hal Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, vol. II, Nova York, 1978, capítulo 15 e apêndice G: «On the Origin of the Term Lumpenproletariat».

12 Frantz Fanon, The Wretched of the Earth, Nova York, 2004, pp. 66, 81.

13 Ibid, pp. 81-82, 87.

14 Paul Bairoch, The Economic Development of the Third World since 1900, Berkeley, 1975, p. 165.

15 Keith Hart, «Informal Income Opportunities and Urban Employment in Ghana», Journal of Modern African Studies XI, 1, março de 1973, pp. 62, 68; Paul E. Bangasser, The ILO and the Informal Sector, ILO Employment Paper 2000/9, p. 10; ILO, Women and Men in the Informal Economy, Ginebra 2002, p. 7.

16 K. Hart, «Informal Income Opportunities», cit., p. 81. Veja tambémn Alejandro Portes y Kelly Hoffman, «Latin American Class Structures. Their Composition and Change during the Neoliberal Era», Latin American Research Review XXXVIII, 1º de fevereiro de 2003.

17 Ela Bhatt, We Are Poor but So Many: The Story of Self-Employed Women in India, Oxford, 2006, p. 89.

18 Ibid, pp. 17-18.

19 Ibid, pp. 18, 10, 11.

20 Ibid, pp. 63.

21 Martha Alter Chen, Self-Employed Women. A Profile of SEWA’s Membership, Ahmedabad, 2006, p.12

22 Jan Breman, Wage Hunters and Gatherers. Search for Work in the Urban and Rural Economy of South Gujarat, Delhi, 1994.

23 Zygmunt Bauman, Wasted Lives, Cambridge, 2004, pp. 12, 5, 66.
 
24 K. Marx, Capital, cit., pp. 782,783-784, 794.

29 de novembro de 2010

Dois elogios para o WikiLeaks

Ao expor fofocas, preconceitos e mentiras oficiais em tempo real, o WikiLeaks não revela grandes segredos, mas desmonta versões convenientes do poder e dificulta que seus agentes escapem impunes — ainda que coloque novos desafios para a história e o jornalismo.

Bernard Porter



Bem, grande coisa não há. Mas, até aqui, só nos serviram pequenas fatias saborosas selecionadas pelos editores dos jornais premiados com uma prévia da coisa toda: selecionados por critérios dos jornais (em geral, os temas que renderiam as melhores manchetes, por país); e aparentemente pesadamente "editados" pelos jornalistas. O que ainda esteja por vir, não sabemos. (Tentei entrar diretamente na página de WikiLeaks, mas não consegui. Meu computador estará envelhecendo? Tráfego congestionado na internet? Alguma espécie de bloqueio?) Mas é pouco provável que se encontrem lá coisas realmente perigosas, tipo ‘top secret’, que provavelmente é material mais bem protegido.

O que mais se encontra nos WikiVazamentos, a julgar pelo que vi, são fofocas, e praticamente nenhuma novidade. As fofocas são evidentemente embaraçosas e poucos dizem sobre os assuntos ‘fofocados’: o que nos importa que o coronel Gaddafi ande pelo mundo com uma “voluptuosa enfermeira ucraniana”?! Será verdade? Será mentira? 

Por outro lado, as fofocas dizem muito sobre o modo de pensar dos fofoqueiros; sobretudo quando se tem a oportunidade de examinar uma grande amostra de material redigido, por exemplo, pelos embaixadores dos EUA em Londres. 

Descobri esse filão quando pesquisava as cartas privadas trocadas entre o Foreign Office e vários embaixadores britânicos nos anos 1850s: as cartas acompanhavam os telegramas oficiais, mas, diferentes dos telegramas, não eram reveladas ao Parlamento. O sistema de preconceitos que se inferia daquelas cartas tornava muito mais inteligíveis as políticas britânicas, do que os argumentos “oficiais” que acompanhavam, como “justificativas”, as propostas políticas.

Quanto a “já sabíamos disso”: sim, sim, muita gente sabia, mas muito do que já se sabia foi oficialmente desmentido no momento do evento, ou – o que é ainda pior – foi atribuída a alguma paranóia esquerdista ou sumariamente descartado como produto de alguma “teoria da conspiração”. 

Em geral, são necessários no mínimo 30 anos para que historiadores afinal possam exibir provas de que a sempre tão demonizada esquerda afinal tinha mesmo razão numa ou duas de suas análises. (Ou, vez ou outra, é a direita. Por exemplo, a velha história do “ouro de Moscou” do velho Partido Comunista da Grã-Bretanha.) Mas quando afinal a verdade aparece já é tarde demais e ninguém se interessa por ela. E é assim que, depois de 30 anos, os safados conseguem escapar, outra vez

Revelações instantâneas, no calor da hora, dificultam ou, pelo menos, diminuem a probabilidade de que os safados escapem. E isso, me parece, justifica a divulgação, por WikiLeaks, dessa recente imensa quantidade de documentos semissecretos da diplomacia dos EUA. 

Mas vejo alguns problemas. Primeiro, o problema da escala astronômica. Quem, afinal, conseguirá examinar tantos documentos e saber o que realmente documentam? Os historiadores só poderiam trabalhar com razoável segurança, se todo esse material tivesse aparecido, digamos, ao longo de trinta anos, ano após ano. E em todos os casos se aproximariam do material já com algumas ideias reunidas de outras fontes, e mesmo que provisórias, que lhes dariam um contexto histórico para os aspectos que mais lhes interessasse investigar. E trabalhariam com todo o conjunto dos dicta de cada embaixador dos EUA, por exemplo. Para isso, precisamente, inventaram-se as análises quantitativas. 

Um segundo problema é o modo como essa informação é abordada pela imprensa e pelos leitores: todos à procura de ‘revelações’, de porções mais sexy, de alguma “denúncia”, todos trabalhando com programas de busca por palavras-chaves e por aí vai. Respostas instantâneas (espero que não aconteça no caso dessa minha resposta instantânea) estimulam esse tipo de reação. 

O terceiro problema é que agora que toda aquela gente já sabe que suas opiniões e fofocas não são protegidas, de fato, por nenhum tipo de proteção confiável, e podem acabar publicadas em jornais, eles nunca mais escreverão tanto, nem tão descuidadamente. Assim, os historiadores do futuro não terão tanta informação da qual inferir os preconceitos que geram as atuais políticas quanto temos hoje – nesse que provavelmente foi o último jorro diluviano de material escrito para ser secreto, mas que acabou por chegar aos ouvidos do povo.

Nada disso deve ser lido como argumento contra revelar tudo o que foi revelado. Não gostaria de por meus interesses de historiador acima dos meus interesses de cidadão. Tenho-me divertido muito lendo o que fulano ou beltrano pensa de David Cameron ou de Nicolas Sarkozy ou de seja lá quem for, tanto quanto qualquer leitor de jornal não historiador. 

Estou gostando de ver com que facilidade algumas revelações já lançam dúvidas sobre o velho mito das boas relações anglo-norte-americanas – e não me incomodará se a coisa toda ruir como castelo de cartas. Não me incomoda ver tantos políticos tão atrapalhados; e adoraria – embora sem qualquer esperança de que aconteça – que todos os políticos que hoje tanto nos envergonham fossem trocados por outros que nos envergonhassem menos. 

De fato, encho-me de novas esperanças, ao ver que todos esses políticos e autoridades e embaixadores são tão ingênuos a ponto de entregar toda sua correspondência confidencial a um sistema tecnológico que pode ser facilmente violado por um hacker de 23 anos. Em certo sentido, vejo a coisa como deserção do sistema oficial de vigilância ao qual nós, cidadãos ordinários, estamos submetidos há anos. Não me parece, pelo que vi até aqui, que alguma vida tenha ficado ameaçada por causa daquilo lá. Assim sendo, no geral, congratulo-me, com algumas reservas, com WikiLeaks, por ter feito o que fez.

E estamos ainda no começo. Será interessante ver o que mais aparecerá nas próximas semanas; e se o que aparecer fará alguma diferença. Se fizer, seja qual for, é possível que eu descarte parte da minha reserva.

1 de novembro de 2010

O capitalismo e a maldição da eficiência energética: O retorno do paradoxo de Jevons

Como a busca incessante por lucro em sistemas capitalistas transforma ganhos de eficiência energética em alavancas que aceleram o consumo e ignoram os limites ambientais, trazendo à tona o retorno paradoxal da lei de William Stanley Jevons.

John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York

Monthly Review

Monthly Review Vol. 62 (2010–2011), No. 06 (November 2010)

Tradução / A maldição da eficiência energética, mais conhecida como Paradoxo de Jevons – a ideia de que a maior eficiência energética (e de recursos materiais) resulta não em conservação, mas em seu uso aumentado – foi primeiramente colocada em questão por William Stanley Jevons, no século XIX. Apesar de esquecido durante a maior parte do século XX, o Paradoxo de Jevons foi redescoberto nas últimas décadas, e está no centro das disputais ambientais do presente.

O século XIX foi o século do carvão. Foi o carvão, acima de tudo, que moveu a indústria britânica, e, portanto, o império britânico. Mas em 1863 o industrial Sir William George Armstrong, em seu discurso anual para a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, questionou se a supremacia mundial britânica na produção industrial poderia ser ameaçada no longo prazo pela exaustão das reservas disponíveis de carvão.[1] Naquele tempo, nenhum estudo econômico havia sido levado a cabo sobre o consumo de carvão e o seu impacto no crescimento industrial.

Em resposta, William Stanley Jevons, que se tornaria um dos fundadores da economia neoclássica, escreveu, em apenas três meses, um livro intitulado A questão do carvão: uma investigação sobre o progresso da nação, e a provável exaustão de nossas minas de carvão (1865). Jevons argumentou que o crescimento industrial britânico se baseava no carvão barato, e que o seu custo ascendente, à medida que minas mais profundas eram exploradas, acarretaria a perda da “supremacia comercial e manufatureira”, possivelmente “no período de uma geração”, e um limite do crescimento econômico, gerando um “estado estacionário” da indústria “em um século”.[2] Nenhuma tecnologia ou substituição do carvão por outras fontes energéticas, segundo ele, poderia alterar isso.

O livro de Jevons teve enorme impacto. John Herschel, uma das grandes figuras da ciência britânica, escreveu em apoio à tese de Jevons que “estamos usando nossos recursos e expandindo nossa vida nacional a uma taxa enorme e crescente, e assim é iminente um acerto de contas, mais cedo ou mais tarde”.3 Em abril de 1866, John Stuart Mill saudou A questão do carvão na Casa dos Comuns, discursando em favor da proposta de Jevons de compensar a exaustão desse recurso natural crítico através do corte da dívida nacional. Essa causa foi assumida por William Gladstone, chanceler de Exchequer, que instou o Parlamento a agir para reduzir a dívida, baseado nas expectativas incertas para o desenvolvimento nacional futuro, devido à prevista exaustão rápida das reservas de carvão. Como resultado, o livro de Jevons rapidamente se tornou um bestseller.4

Mas Jevons estava totalmente equivocado em seus cálculos. É verdade que a produção britânica de carvão, em resposta à demanda crescente, mais do que dobrou nos trinta anos seguintes à publicação do livro. Durante o mesmo período nos Estados Unidos, a produção de carvão, a partir de um nível muito menor, cresceu dez vezes, apesar de ainda permanecer abaixo do nível britânico. 5 Mas não ocorreu nenhum “pânico do carvão” duradouro, devido à exaustão dos suprimentos de carvão disponíveis, no final do século XIX e início do século XX. O maior erro de Jevons foi igualar a energia para a indústria com o carvão em si, sem prever o posterior desenvolvimento de energias substitutas do carvão, como o petróleo e a hidroeletricidade.6 Em 1936, setenta anos depois do furor parlamentar gerado pelo livro de Jevons, John Maynard Keynes comentou sobre a projeção de um declínio da disponibilidade de carvão feita por Jevons, observando que ela foi “dist orcida e exagerada”. Pode-se acrescentar que o seu escopo foi bastante estreito.7

O Paradoxo de Jevons

Mas há um aspecto do argumento de Jevons – o próprio Paradoxo de Jevons – que continua a ser considerado um dos insights pioneiros na economia ecológica.8 No capítulo 7 d’A questão do carvão, entitulado “Sobre a economia de combustível”, Jevons respondeu à noção comum de que, uma vez que “o suprimento decrescente de carvão será enfrentado com novos modos de usá-lo de maneira eficiente econômica”, não haveria problema de suprimento, e que, de fato, “a quantidade de trabalho útil extraído do carvão pode ser aumentada muitas vezes, enquanto a quantidade de carvão consumido permanece estacionária ou diminui”. Em aguda oposição a isso, Jevons contrapôs que a maior eficiência no uso do carvão como fonte energética apenas gerava um aumento de demanda para esse recurso, e não diminuição de demanda, como se poderia esperar. Isso porque a melhora na eficiência levava a uma expansão econômica adicional. “É uma grande confusão”, escreveu ele, “supor que o uso econômico de combustível equivale a uma diminuição de consumo. Na verdade ocorre exatamente o contrário. Como regra, novos modos de economia levarão a um aumento de consumo, de acordo com um princípio reconhecido em muitos casos semelhantes... Os mesmos princípios se aplicam, com ainda mais força e distinção, para o uso de um agente geral como o carvão. É a própr ia economia no seu uso que leva ao seu consumo extensivo”.9

“Tampouco é difícil ver”, escreveu Jevons, “como surge esse paradoxo”. Toda inovação tecnológica na produção de máquinas a vapor, destacou ele em uma detalhada descrição da evolução da máquina a vapor, resultara numa máquina termodinamicamente mais eficiente. E cada máquina nova, aperfeiçoada, resultara em uso aumentado de carvão. A máquina de Savery, uma das primeiras máquinas a vapor, destacou ele, era tão ineficiente que “praticamente, o custo do funcionamento impedia a sua utilização; ela não consumia carvão, porque a sua taxa de consumo era muito alta”.1 0 Modelos posteriores que eram mais eficientes, como a famosa máquina de Watt, levaram a cada vez maiores demandas por carvão, a cada aperfeiçoamento. “Cada um desses aperfeiçoamentos da máquina a vapor, quando levado a cabo, não faz mais do que acelerar novamente o consumo de carvão. Todo ramo da manufatura recebe um novo impulso – o trabalho manual é substituído ainda mais por trabalho mecânico, e obras muito prolongadas, que não eram comercialmente viáveis com o uso da energia mais cara, podem ser executadas.1 1

Ainda que Jevons tenha pensado que esse paradoxo se aplicava a numerosos casos, o seu foco n’A questão do carvão foi inteiramente no carvão como “agente geral” da industrialização e como estímulo para indústrias de bens de investimento. O poder do carvão para estimular o avanço econômico, o seu uso acelerado, apesar dos avanços na eficiência, e a severidade dos efeitos a ser esperados do declínio de sua disponibilidade, eram todas devido ao seu papel duplo como o combustível necessário para a moderna máquina a vapor e como a base para a tecnologia do alto-forno. Em meados do século XIX, o carvão era material-chave para altos-fornos e na fundição do ferro – o produto industrial crucial e base do domínio industrial.12 Foi em virtude de seu maior desenvolvimento nessa área, como “manufatura do mundo”, que a Grã-Bretanha foi responsável pela metade da produção mundial de ferro em 1870.13 A maior eficiência no uso do carvão, portanto, traduziu-se em maior capacidade de produzir ferro e expandir a indústria em geral, levando a uma crescente demanda por carvão. Como coloca Jevons:

Se a quantidade de carvão usado em um alto -forno, por exemplo, diminui em comparação com a produção, os lucros do comércio aumentarão, novos capitais serão atraídos, e o preço do ferro-gusa cairá, mas a demanda por ele aumentará; e, ao final, o maior número de fornos mais do que compensará a sua diminuição de consumo. E se nem sempre é esse o resultado em um ramo específico da manufatura, devemos lembrar que o progresso em qualquer de seus ramos estimula uma nova atividade em muitos outros, e leva indiretamente, se não diretamente, a mais incursões em nossos veios de carvão.[14]

O que tornou esse argumento tão poderoso à época é que pareceu imediatamente óbvio para todos os contemporâneos de Jevons que o desenvolvimento industrial dependia da capacidade de expandir a produção de ferro a baixo custo. Isso implicava que uma redução na quantidade de carvão necessário para um alto-forno seria imediatamente traduzida em uma expansão da produção industrial, da capacidade industrial, e sua habilidade de capturar uma maior porção do mercado mundial – e vem daí a maior demanda por carvão. A tonelagem de consumo de carvão pelas indústrias do ferro e do aço da Grã-Bretanha, em 1869, de 32 milhões de toneladas, excedeu a quantidade combinada usada nas manufaturas em geral (28 milhões de toneladas) e estradas de ferro (2 milhões de toneladas).1 5

Essa foi a era do capital e a era da indústria na qual o poder industrial era medido em termos da produção de carvão e ferro-gusa. A produção de carvão e ferro na Grã-Bretanha cresceu em estreita correlação nesse período, ambas triplicando entre 1830 e 1860.1 6 Como coloca o próprio Jevons: “Depois do carvão... o ferro é a base material do nosso poder. Ele é osso e o tendão de nosso sistema de trabalho. Analistas políticos trataram corretamente a invenção do alto-forno de carvão como aquela que mais contribuiu para a nossa riqueza material... A produção de ferro, o material de toda a nossa maquinar ia, é a melhor medida de nossa riqueza e poder”.1 7

Assim, nenhum dos leitores de Jevons deixaria de perceber os efeitos multiplicadores na indústria de uma melhora na eficiência no uso do carvão, ou as “incursões aumentadas” às “minas de carvão” que isso geraria. “A economia”, ele concluiu, “multiplica o valor e a eficiência de nosso material principal; ela aumenta indefinidamente a nossa riqueza e de nossos meios de subsistência, e leva ao aumento de nossa população, obras e comércio, o que é gratificante para o presente, mas deve levar a um fim antecipado”.18

Uma lei natural

Ao tratar o carvão como “o material chefe” da indústria britânica, Jevons enfatizou o que ele via como uma mudança no desenvolvimento industrial, a partir do que ele chamava de “produtos básicos do país”, para outro. A grande batalha sobre as Corn Laws já haviam apontado para o fato – já apontado por seu pai, Thomas Jevons, entre outros – de que um menor preço para um produto básico expandiria fortemente a sua demanda, e em último caso, escassez (que, no caso do trigo, deveria ser satisfeita com importações).1 9 Mas ao final do século XIX, era o carvão, e não o trigo, que estava no centro de um tipo de escassez malthusiana.20

“A tese de Jevons nesse livro”, observou Keynes, “era que a manutenção da prosperidade e liderança industrial da Grã-Bretanha requeria um crescimento contínuo de sua indústria pesada numa escala que implicaria uma demanda de carvão em progressão geométrica. Jevons propôs esse princípio como uma extensão da lei da população de Malthus, e a designou como Lei Natural do Crescimento Social... A partir daí, basta um pequeno passo para colocar o carvão na posição ocupada pelo milho na teoria de Malthus”.21

Estendendo a teoria de Malthus ao carvão, Jevons escreveu: “A nossa subsistência não depende mais da nossa produção de trigo. A decisiva revogação das Corn Laws nos impele do trigo para o carvão. Ela marca, de qualquer maneira, a época na qual o carvão foi finalmente reconhecido como o produto básico do país; ela marca a ascensão do interesse manufatureiro, que é apenas outro nome para o desenvolvimento do uso do carvão”. Jevons argumentou que embora a população tenha “quadruplicado desde o começo do século XIX”, o consumo de carvão cresceu “dezesseis vezes”, e que esse crescimento da produção de carvão “per capita” era uma necessidade do desenvolvimento industrial acelerado, que teria de acabar.22

Mas a maior contradição por detrás do paradoxo que Jevons levantou – a dinâmica global de acumulação ou reprodução expandida intrínseca ao capitalismo – não foi analisada n’A questão do carvão. Como um dos primeiros economistas neoclássicos, Jevons abandonou a ênfase central na classe e na acumulação que distinguiu o trabalho dos economistas clássicos. As suas análises econômicas tomaram a forma de uma teoria do equilíbrio estático. Não há nada no seu argumento que lembre a noção de Karl Marx do capital como valor que se autovaloriza, e a consequente necessidade de contínua expansão.

O quadro de referência econômico de Jevons estava, portanto, mal-equipado para tratar concretamente questões como acumulação e crescimento econômico. A explosão da população, da indústria e da demanda por carvão (como o “material central” da vida industrial) era, em sua visão, simplesmente o produto de uma abstrata Lei Natural do Crescimento Social, elaborada a partir de Malthus. Ao enfocar o capitalismo mais como um fenômeno natural do que como uma realidade socialmente construída, ele não podia encontrar uma explicação para a demanda econômica continuamente crescente, que não fosse mencionar o comportamento individual, a demografia malthusiana e o mecanismo do preço. Ao invés de enfatizar o próprio motivo do lucro, ele se baseou na lei abstrata da energia de Justus von Liebig: “A civilização, diz o Barão Liebig, é a economia de energia, e a nossa energia é o carvão”.23

As forças que comandam a expansão econômica, alimentando a industrialização e resultando na demanda crescente por carvão, eram assim estranhamente fracas e maldesenvolvidas n’A questão do carvão, refletindo o fato de que faltava a Jevons uma concepção realista da economia capitalista e da sociedade.

Hegemonia industrial, não sustentabilidade ecológica

A hegemonia britânica, e não a ecologia, é o pano de fundo das considerações de Jevons. Apesar da ênfase que ele coloca na escassez de recursos e da sua importância para a economia ecológica, seria um erro considerar o caráter d’A questão do carvão como predominantemente ecológica. Jevons não se concentrou nos problemas ambientais associados à exaustão das reservas energéticas da Grã-Bretanha ou do resto do mundo. Ele nem mesmo mencionou a poluição do ar, do solo e hídrica que acompanhava a produção de carvão. Charles Dickens, décadas antes, descreveu as cidades industriais, com a sua queima concentrada de carvão, como caracterizadas por uma “praga de fumaça, que obscurece a luz, e suja o ar melancólico” em uma progressão incessante de “vômito negro, manchando todas as coisas vivas ou inanimadas, apagando a face do dia, e embrulhando todos esses horrores com uma densa nuvem negra”.24 Disso, não há nem sequer um traço em Jevons. Da mesma maneira, as doenças e riscos ocupacionais enfrentados pelos trabalhadores nas minas de carvão e nas fábricas alimentadas a carvão não constaram em sua análise, como testemunhado pelas Condições da classe trabalhadora inglesa de Friedrich Engels.25

De fato, não havia em Jevons nenhuma consideração pela natureza como tal. Ele simplesmente assumiu que os distúrbios e degradações em massa da terra eram um processo natural. Ainda que a falta de carvão, como fonte energética, tenha originado questionamentos em sua análise sobre a possibilidade do crescimento sustentado, a questão da sustentabilidade ecológica em si nunca foi abordada. Já que a economia tem de permanecer em contínuo movimento, Jevons desconsiderou fontes sustentáveis de energia, como a água e o vento, como inconfiáveis, limitadas a um tempo e local particular.26 O carvão ofereceu ao capital uma fonte energética universal para operar a produção, sem distúrbios dos padrões comerciais.

Jevons, portanto, não tinha resposta real para o paradoxo que levantou. A Grã-Bretanha poderia ou rapidamente usar a sua fonte barata de combustível – o carvão sobre o qual a sua industrialização repousava – ou poderia usá-lo mais lentamente. Ao final, escolheu usá-lo rapidamente: “Se pródiga e corajosamente avançarmos na criação de nossas riquezas, tanto materiais quanto intelectuais, é difícil estimar a grandeza da influência positiva que podemos atingir no presente. Mas a manutenção de tal posição é fisicamente impossível. Temos que fazer a escolha decisiva entre uma grandeza breve, mas verdadeira, e uma longa e continuada mediocridade”.27

Expresso nesses termos, o caminho a ser tomado era claro: buscar a glória no presente e aceitar a perspectiva de uma posição drasticamente degradada para as gerações futuras. Uma vez que Jevons não tinha resposta para o que ele viu como a exaustão rápida e inevitável dos estoques de carvão da Grã-Bretanha – e a capital e o governo britânicos não viram outro curso concebível a não ser “business as usual” – a resposta ao livro de Jevons tomou a forma predominante, por estranho que pareça, de uma justificação adicional para a redução da dívida nacional. Isso foi apresentado como uma medida preventiva face à eventual desaceleração da indústria. Como escreveu Keynes, “A proposição de que estávamos vivendo às custas de nosso capital natural” levou à resposta irracional de que era necessário levar a cabo “uma rápida redução do peso da dívida”.28

De fato, a quase totalidade do impacto político do livro de Jevons ficou confinado, ironicamente, ao seu penúltimo capítulo, “Taxas e dívida nacional”. Jevons e outras figuras, como Mill e Gladstone, que assumiu o seu argumento, nunca defenderam seriamente a ideia da conservação do carvão. Não há nenhuma menção na análise de Jevons ao ponto levantado por Engels em uma carta a Marx, na qual o capitalismo industrial era caracterizado como um “esbanjador de energia solar passada”, como evidenciado pelo seu “esbanjamento [de] nossas reservas de energia, nosso carvão, metais, florestas, etc.”.29 Para Jevons, a ideia de uma alternativa ao business as usual nunca foi discutida, e sem dúvida nunca foi cogitada. Nada estava mais distante da sua visão econômica do que a transformação das relações sociais de produção em direção a uma sociedade governada não pela busca do lucro, mas pelas necessidades genuínas das pessoas e pelos requisitos sócio-ecológicos da sustentabilidade. Ao final, os problemas que ele previu foram adiados no curso real da história pela expansão do uso de outros combustíveis fósseis – petróleo e gás natural –, assim como de energia hidrelétrica, e pela corrente exploração de recursos no mundo inteiro. Tudo isso, porém, preparou o terreno para o nosso dilema planetário atual e para o retorno do Paradoxo de Jevons.

A redescoberta do Paradoxo de Jevons

O Paradoxo de Jevons foi esquecido no auge da era do petróleo durante três quartos do século XX, mas ressurgiu nos anos 70 devido à crescente preocupação sobre a escassez de recursos associada com a análise dos Limites do crescimento feita pelo Clube de Roma, exacerbada pela crise do petróleo e da energia de 1973-74. Enquanto medidas de eficiência energética eram tomadas, economistas se debruçavam sobre a sua efetividade. Isso levou à ressurreição, no fim dos anos 70 e início dos 80, da questão geral posta pelo Paradoxo de Jevons, na forma do que foi chamado de “efeito rebote”. Essa era a noção bastante simples de que ganhos de eficiência propiciados pela engenharia normalmente levam a uma diminuição do preço efetivo de uma mercadoria, com isso gerando aumento de demanda, de maneira que os ganhos de eficiência não causavam um decréscimo no consumo de igual medida. O Paradoxo de Jevons foi frequentemente relegado à versão mais extrema do efeito rebote, no qual há um backfire, ou um rebote de mais de 100% da “economia de engenhar ia”, resultando em aumento, e não em diminuição, do consumo de um dado recurso.30

Os otimistas da tecnologia tentaram argumentar que o efeito rebote é pequeno, e, portanto, os problemas ambientais podem ser resolvidos em grande medida tão somente através da inovação tecnológica, com os ganhos de eficiência sendo traduzidos em processamento reduzido de energia e materiais (desmaterialização). Porém, há fortes evidências empíricas de um efeito rebote substancial. Por exemplo, avanços tecnológicos nos veículos automotores, que aumentaram a quantidade média de milhas percorridas por galão em 30% nos Estados Unidos a partir de 1980, não reduziram a energia total utilizada pelos veículos. O consumo de combustível por veículo permaneceu constante, enquanto os ganhos de eficiência levaram ao aumento não apenas do número de automóveis e caminhões nas estradas (e das milhas viajadas), mas também do seu tamanho e “performance” (taxa de aceleração, velocidade de cruzeiro, etc.) – de maneira que hoje SUV’s e minivans povoam as autoestradas estadunidenses. No nível macro, o Paradoxo de Jevons pode ser constatado no fato de que, ainda que os Estados Unidos tenham dobrado a sua eficiência energética desde 1975, o seu consumo de energia aumentou dramaticamente. Juliet Schor nota que nos últimos 35 anos: a energia gasta por dólar do PIB foi cortada pela metade. Mas ao invés de cair, a demanda energética aumentou em cerca de 40%. Além disso, a demanda cresce mais rapidamente naqueles setores que têm os maiores ganhos de eficiência – uso de energia no transporte e residencial. A eficiência de refrigeradores aumentou 10%, mas o número de refrigeradores em uso aumentou em 20%. Na aviação, o consumo de combustível por milha caiu mais de 40%, mas o uso total de combustível cresceu 150%, porque a milhagem por passageiro aumentou. Veículos têm história semelhante. E com a explosão da demanda, tivemos explosão das emissões. O dióxido de carbono desses dois setores aumentou em 40%, o dobro da taxa da maior economia.

Economistas e ambientalistas que tentam medir os efeitos diretos da eficiência na diminuição do preço e o efeito rebote imediato geralmente tendem a ver esse efeito como relativamente pequeno, no intervalo de 10 a 30% em ramos de alto consumo energético, como aquecimento e resfriamento doméstico e automóveis. Mas uma vez que são incorporados os efeitos indiretos, aparentes no nível macro, o Paradoxo de Jevons permanece extremamente significativo. É no nível macro que os efeitos de escala se tornam claros: aperfeiçoamentos na eficiência energética podem diminuir o custo efetivo de vários produtos, impelindo a economia em geral e expandindo o consumo energético em geral.3 1 Economistas ecológicos como Mario Giampietro e Kozo Mayumi argumentam que o Paradoxo de Jevons somente pode ser entendido em um modelo macroevolucionário, onde aperfeiçoamentos na eficiência resultam em mudanças nas matrizes da economia, de maneira que o efeito agregado é o aumento da escala e do ritmo do sistema como um todo.[32]

A maior parte das análises do Paradoxo de Jevons permanece abstrata, baseadas em efeitos tecnológicos isolados, e apartados do processo histórico. Elas deixam de examinar, tal como Jevons, o caráter da industrialização. Além disso, elas estão ainda mais distantes de um entendimento realista do caráter orientado à acumulação do desenvolvimento capitalista. Um sistema econômico devotado aos lucros, à acumulação e à expansão econômica sem fim tenderá a usar todos os ganhos da eficiência energética ou redução de custos para expandir a escala agregada da produção. A inovação tecnológica será, portanto, claramente configurada para esses mesmos fins expansivos. Não é mera coincidência que todas as grandes inovações que dominaram os séculos XVIII, XIX e XX (ou seja, a máquina a vapor, a estrada de ferro e o automóvel) se caracterizaram pela sua importância no direcionamento da acumulação do capital e pela retroação positiva que geraram no que concerne ao crescimento econômico como um todo – de maneira que os efeitos de escala na economia que resultaram de seu desenvolvimento necessariamente suplantaram as melhoras na eficiência tecnológica.33 A conservação no agregado é impossível para o capitalismo, por mais que a razão entradas/saídas possa aumentar na engenharia de um dado produto. Isso porque todas as economias tendem a estimular a formação de mais capital (caso canais de investimento estejam disponíveis). Esse é especialmente o caso quando recursos industriais essenciais – o que Jevons chamou de “materiais centrais” ou “produtos básicos” – estão em jogo.

A falácia da desmaterialização

O Paradoxo de Jevons é o produto de um sistema econômico capitalista que é incapaz de conservar na macroescala, pois ele é configurado para maximizar o processamento energético e material, desde a fonte de recursos até o depósito de final de lixo. A economia de energia em tal sistema tende a ser usada como um meio para o desenvolvimento adicional da ordem econômica, gerando o que Alfred Lotka chamou de “máximo fluxo energético”, ao invés de uma mínima pr odução de energia.34 A desconsideração da conservação absoluta de energia (em oposição à relativa) está imbricada na natureza e na lógica do capitalismo, como um sistema integralmente devotado aos deuses da produção e do lucro. Como colocou Marx: “Acumulai! Acumulai! Esse é o mandamento!”35

Visto no contexto da sociedade capitalista, portanto, o Paradoxo de Jevons demonstra a falácia das noções correntes de que os problemas ambientais com que a sociedade se depara podem ser resolvidos com meios puramente tecnológicos. Economistas ecológicos hegemônicos frequentemente se referem à “desmaterialização” ou “desacoplamento” do crescimento econômico em relação ao consumo de energia e recursos. O aumento da eficiência energética é com frequência tomado como uma indicação concreta de que o problema ambiental está sendo resolvido. Mas a economia de materiais e energia, no contexto de um dado processo de produção, como vimos, não é nada novo; ela é parte da história cotidiana do desenvolvimento capitalista.36 Cada nova máquina a vapor, como enfatizava Jevons, era mais eficiente do que a anterior. “Processos de economia de matérias-primas”, como notou o sociólogo ambiental Stephen Bunker, “são mais velhos do que a Revolução Industrial, e foram dinâmicos ao longo da história do capitalismo”. Toda noção de que a redução do processamento material por unidade de renda nacional é um fenômeno novo é, portanto, “profundamente a-histórica”.37

O que se negligencia, então, em noções simplistas de que a uma maior eficiência energética normalmente leva a um aumento da economia agregada, é a realidade da relação do Paradoxo de Jevons – através da qual a economia de energia é usada para promover novas formações de capital e a proliferação de mercadorias, demandando recursos cada vez maiores. Ao invés de uma anomalia, a regra de que a eficiência aumenta o consumo energético e material é integral ao própr io “regime do capital”.38 Como colocado em O peso das nações, um estudo empírico importante das saídas materiais nas últimas décadas em cinco nações industrializadas (Áustria, Alemanha, Holanda, Estados Unidos e Japão): “Ganhos de eficiência propiciados pela tecnologia e novas práticas gerenciais tem sido compensadas por [aumentos da] escala do crescimento econômico”.39

O resultado é a produção de montanhas sobre montanhas de mercadorias e custos unitários decrescentes que levam a um maior gasto de recursos materiais. Além disso, no capitalismo monopolista tais mercadorias tomam cada vez mais a forma de valores de uso artificiais, promovidos por um vasto sistema de propaganda e projetados para instigar uma demanda cada vez maior por mercadorias e pelo valor de troca que elas representam – como um substituto para a satisfação de necessidades genuinamente humanas. Bens desnecessários e desperdício são produzidos com labuta inútil para incrementar valores puramente econômicos, em detrimento do ambiente. Qualquer desaceleração desse processo de destruição ecológica, sob o sistema atual, implica o desastre econômico.

Aos olhos de Jevons, a “escolha decisiva” levantada pela continuação do business as usual era simplesmente “entre uma breve mas verdadeira grandeza [nacional] e uma longa e continuada mediocridade”. Ele optou pela primeira – o máximo fluxo energético. Um século e meio mais tarde, em nossa economia muito maior e mais global – mas não menos cara – não é mais apenas a supremacia nacional que está em jogo, mas o destino do próprio planeta. Certamente, há aqueles que defendem que deveríamos “viver bem agora e deixar que o futuro cuide de si mesmo”. Escolher esse caminho, porém, é flertar com o desastre planetário. A única resposta real para a humanidade (incluindo as futuras gerações) e para a Terra como um todo é alterar as relações sociais de produção, para criar um sistema no qual a eficiência não seja mais uma maldição – um sistema mais elevado, no qual igualdade, desenvolvimento humano, comunidade e sustentabilidade sejam objetivos explícitos.

Notas

1. Sir William George Armstrong, Presidential Address, Report of the 33rd Meeting of the British Association for the Advancement of Science, Held at Newcastle-upon-Tyne (London: John Murray, 1864), li-lxiv. Ver também William Stanley Jevons, The Coal Question: An Inquiry Concerning the Progress of the Nation, and the Probable Exhaustion of Our Coal -Mines, ed. A. W. Flux (London: Macmillan, 1906 [1865]), 32-36.

2. Jevons, The Coal Question, xxxi, 274.

3. John Herschel, citado em Juan Martínez-Alier, Ecological Economics (Oxford: Basil Blackwell, 1987), 161 -62.

4. Mic hael V . White, “Frightening the ‘Landed Fogies’ Parliamentary Politic s and the Coal Question,” Utilitas 3/2 (November 1991): 289-302; Leonard H. Courtney, “Jevons’s Coal Question: Thirty Years A fter,” Journal of the Royal Statistical Society 60/4 (December 1897): 789; John Maynard Keynes, Essays and Sketches in Biography (New York: Meridan Books, 1956), 132. O enfoque de Gladstone em relação à obra de Jevons foi inicialmente um estratagema tático, usado politicamente para justificar o argumento a favor da redução da dívida, que nunca foi de fato implementada no orçamento

5. Courtney, “Jevons’s Coal Question,” 797.

6. Jevons não estava sozinho nesse erro. John Tyndall, um dos maiores físicos da época, observou em 1865: “Não vejo nenhuma perspectiva para um substituto do carvão como fonte de potência motriz.” Citado em Jevons, The Coal Question, xi. Vale mencionar que a perfuração do histórico poço de petróleo de Edwin Drake no noroeste da Pensilvânia ocorrera apenas seis anos antes, em 1859, e o seu significado ainda não havia sido bem compreendido.

7. Keynes, Essays and Sketches in Biography, 128.

8. Mario Giampietro and Kozo Mayumi, “A nother V iew of Dev elopment, Ecological Degradation, and North–South Trade,” Review of Social Economy 56/1 (1998): 24-26; John M. Polimeni, Kozo Mayumi, Mario Giampietro, and Blake Alcott, eds., The Jevons Paradox and the Myth of Resource Efficiency Improvements (London: Earthscan, 2008).

9. Jevons, The Coal Question, 137-41.

10. Ibid., 141 -43.

11. Ibid., 152-53.

12. Ainda em 1842 as fornalhas inglesas ainda consumiam dois terços do carvão do país, mas quando Jevons escreveu o seu livro, mais de duas décadas mais tarde, isso havia diminuído para cerca de um quinto do consumo nacional e dificilmente se aplicaria a esse argumento, que se focava na demanda industrial de carvão como a maior e indispensável origem da demanda. Como disse Jevo ns, “Não me refiro aqui ao consumo doméstico de carvão. Esse pode sem dúvida ser diminuído sem problemas maiores além de diminuir nosso conforto domésticos e alterar de alguma forma nossos hábitos nacionais arraigados”. Ver Jevons, The Coal Question, 138-39; Eric J. Hobsbawm, Industry and Empire (London: Penguin, 1969), 69.

13. Eric J. Hobsbawm, The Age of Capital, 1848-1873 (New York: Vintage, 1996), 39-40.

14. Jevons, The Coal Question, 140-42.

15. Os dados de 1869 foram fornecidos na edição anotada da obra de Jevons de A. W. Flux. Em 1903 as relações mudaram, com as indústrias do ferro e do aço respondendo por 28 milhões de toneladas de consumo de carvão (menos do que no tempo de Jevons), enquanto o consumo das manufaturas em geral cresceu para 53 milhões de toneladas e das ferrovias para 13 milhões de toneladas. Ver Jevons, The Coal Question, 138-39.

16 Hobsbawm, Industry and Empire, 70-71.

17. Jevons, The Coal Question, 245.

18. Ibid., 156.

19. Ibid., 195, 234-41; Thomas Jevons, The Prosperity of the Landholders Not Dependent on the Corn Laws (London: Longmans, 1840).

20. O próprio Malthus negou a possibilidade da escassez de minerais, argumentando que as matérias primas, em contraste com os alimentos, “ocorrem em grande abundância” e “a demanda... não deixará de criá-las em quantidades tão grandes quanto forem desejadas”. Ver Thomas Robert Malthus, An Essay on the Principle of Population and a Summary View of the Principle of Population (London: Penguin, 1970), 100.

21. Keynes, Essays and Sketches in Biography, 128-29.

22. Jevons, The Coal Question, 195-96. A discussão de Jevons sobre o desenvolvimento industrial em termos dos vários produtos básicos antecipou a obra de Harold Innis e a teoria dos produtos básicos do crescimento econômico. Ver Mel Watkins, Staples and Beyond (Montreal: McGill-Queens University Press, 2006).

23. Jevons, The Coal Question, 142.

24. Charles Dickens, The Old Curiosity Shop (New York: E.P. Dutton and Co., 1908), 327.

25. Frederick Engels, The Condition of the Working Class in England (Chicago: Academy Publishers, 1984). Ver também John Bellamy Foster, The Vulnerable Planet (New York: Monthly Review Press, 1994), 50-5 9; Brett Clark e John Bellamy Foster, “The Env ironmental Conditions of the Working Class: An Introduction to Selections from Friedrich Engels’s The Condition of the Working Class in England in 1844,” Organization & Environment 19/3 (2006): 375-88.

29. Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works (New York: International Publishers, 1975), vol. 46, 411.

26. Jevons, The Coal Question, 164-71.

27. Ibid., 459-60.

28. Keynes, Essays and Sketches in Biography, 132.

30. Blake A lc ott, “Historic al Ov erv iew of the Jevons Paradox in the Literature,” in Polimeni, et al., The Jevons Paradox, 8, 63. For the Club of Rome study, see Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers, William W. Behrens III, The Limits to Growth (New York: Universe Books, 1972).

31. Juliet B. Schor, Plenitude (New York: Penguin Press, 2010), 88-90. Para uma discussão detalhada dos dados empíricos sobre o Paradoxo de Jevons, ver John M. Polimeni, “Empirical Ev idence for the Jevons Paradox,” in Polimeni, et al., The Jevons Paradox, 141 -71.

32. Mario Giampietro and Kozo May umi, “The Jevons Paradox,” in Polimeni, et al., The Jevons Paradox, 80-81.

33. Para uma discussão de inovações que marcam épocas, ver Paul A. Baran and Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966), 219-22.

34. A lfred J. Lotka, “Contributions to the Energetic s of Evolution” Proceedings of National Academy of Sciences 8 (1922): 147 -51; Giampietro and Mayumi, “The Jevons Paradox,” 111-15.

35. Karl Marx, Capital, vol. 1 (New York: Vintage, 1976), 742.

36. John Bellamy Foster, Ecology Against Capitalism (New York: Monthly Review Press, 2002), 22-24.

37. Stephen G. Bunker, “Raw Materials and the Global Economy,” Society and Natural Resources 9/4 (July -August 1996): 421.

38. Robert L. Heilbroner, The Nature and Logic of Capitalism (New York: W.W. Norton, 1985).

39. Emily Matthews, Christof Amann, Stefan Bringezu, Marina Fischer -Kowalski, Walter Hüttler, René Kleijn, Yuichi Moriguchi, Christian Ottke, Eric Rodenburg, Don Rogich, Heinz Schandl, Helmut Schütz, Ester van der Voet, and Helga Weisz, The Weight of Nations (Washington, D.C.: World Resources Institute, 2000), 35.

John Bellamy Foster (jfoster@monthlyreview.org) é editor da Monthly Review e professor de sociologia na Universidade do Oregon. Brett Clark é professor assistente de sociologia na Universidade Estadual da Carolina do Norte. Richard York (rfyork@uoregon.edu) é coeditor da Organization & Environment e professor associado de sociologia na Universidade do Oregon. Este ensaio é um capítulo do livro deles, The Ecological Rift: Capitalism’s War on the Earth (Monthly Review Press, 2010).

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