Amplamente reconhecido como um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos, Joe Sacco tem concentrado grande parte de seu trabalho na Palestina. Ele conversou com a Jacobin sobre a cumplicidade do Ocidente nos crimes de Israel e sobre por que é dever dos jornalistas abordar essa questão.
Entrevista com
Joe Sacco
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| Um novo livro do cartunista Joe Sacco e do escritor Chris Hedges, Requiem for Gaza, baseia-se em dezenas de relatos de palestinos sobre a sobrevivência a um genocídio. (Philippe Huguen / AFP via Getty Images) |
Entrevista realizada por
Elias Feroz
Joe Sacco é amplamente reconhecido como um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos. Ele ganhou notoriedade com Palestina (publicada originalmente entre 1993 e 1995), obra que ofereceu um retrato contundente da vida palestina sob a ocupação israelense. Em 2009, lançou Notas de Rodapé em Gaza e, em 2024, War on Gaza (Guerra em Gaza), uma coletânea de quadrinhos que aborda a destruição da Faixa de Gaza por Israel. Hoje, as ruas que o jornalista e cartunista outrora retratou com tamanha riqueza de detalhes já não existem mais.
Agora, mais de três décadas após a publicação inicial de Palestina, Sacco volta sua atenção para Gaza. No ano passado, acompanhado de seu colega Chris Hedges, ele viajou ao Cairo para entrevistar refugiados sobreviventes do genocídio. O novo livro da dupla, Requiem for Gaza (Réquiem para Gaza), combina os desenhos e o trabalho de reportagem de Sacco com a prosa e as entrevistas de Hedges para documentar as vivências dos habitantes de Gaza.
Sacco conversou com Elias Feroz sobre Requiem for Gaza em uma entrevista para a Jacobin. Ele reflete sobre a falha de grande parte da mídia ocidental em apoiar seus colegas palestinos — muitos dos quais foram mortos enquanto noticiavam o genocídio. A conversa também abordou a memória histórica, o engajamento de Sacco com a causa palestina ao longo de décadas e os motivos que o levaram a retornar ao jornalismo diante da destruição de Gaza.
Elias Feroz
Você e Chris Hedges dedicam explicitamente este livro aos jornalistas palestinos, um grupo que tem sido alvo de ataques e morto como nunca antes na guerra em Gaza. Se considerarmos um "réquiem" como uma elegia aos mortos, este livro é também o seu réquiem pessoal pelos colegas mortos e silenciados?
Joe Sacco
O livro é um réquiem para toda Gaza e para a sociedade de Gaza. Mas sim, considero esses jornalistas meus colegas, e é por isso que a dedicatória é para eles. Eles demonstraram enorme integridade, sofreram imensamente, foram mortos em grande número e viram suas famílias serem mortas também.
Fala-se muito sobre como os jornalistas estrangeiros não conseguem entrar em Gaza. Como jornalista estrangeiro, quero ir lá e ver as coisas com meus próprios olhos. Mas isso não deve, de forma alguma, diminuir o trabalho incrível que esses jornalistas realizaram, sob circunstâncias que considero sem precedentes. Tenho enorme admiração por eles. Eles fizeram um trabalho incrível enquanto eram retratados como apoiadores do Hamas e submetidos a todo tipo de difamação. Parte da dedicatória é também uma espécie de crítica contundente a muitos repórteres ocidentais que não defenderam seus colegas, que aderiram a essas difamações — incluindo algumas das próprias organizações que empregavam, ou haviam empregado, esses jornalistas palestinos.
Elias Feroz
Chris também levanta um ponto muito interessante sobre a proibição de acesso da mídia estrangeira a Gaza, afirmando: “A suposição de que, se repórteres ocidentais estivessem em Gaza, a cobertura melhoraria, é ridícula. Acredite em mim: não melhoraria.” Isso desafia diretamente um viés profundamente arraigado — quase colonial — no Ocidente, que sugere que o jornalismo ocidental é inerentemente superior ou mais “objetivo” do que o trabalho de jornalistas palestinos locais. Qual é a sua experiência? Você já enfrentou críticas ou ceticismo de editores da grande mídia ou de leitores que questionaram a credibilidade do seu trabalho simplesmente porque você prioriza os relatos crus de fontes palestinas?
Joe Sacco
Acho que essa é uma crítica típica: “Por que você está focando em fontes palestinas? E quanto ao outro lado?” Eu respondo dizendo que cresci conhecendo o outro lado, vendo tudo através de um filtro israelense.
Crescendo nos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980, as únicas vozes que eu ouvia eram as de israelenses e de pessoas que apoiavam Israel. Tanto que eu via os palestinos simplesmente como terroristas. Com o tempo, precisei questionar essa ideia. E fiz isso depois de já ter me formado em jornalismo. Tive realmente que questionar toda a noção de jornalismo: o jornalismo ao estilo americano, o jornalismo “objetivo”. Frequentemente falamos sobre como jornalistas estrangeiros não conseguem entrar em Gaza. Como jornalista estrangeiro, quero ir lá e ver as coisas com meus próprios olhos. Mas isso não deve diminuir o trabalho incrível realizado pelos jornalistas palestinos.
Minhas primeiras tentativas de falar sobre a situação palestina visavam dar voz aos palestinos, porque, na época, eu simplesmente não via essas vozes. E jamais pedirei desculpas pela abordagem que adotei, que foi: vamos ver o que os palestinos têm a dizer. Não vou retratá-los como anjos, mas quero ouvir o que eles têm a dizer. E acho que isso continua válido. O interessante agora é que aprendemos algo sobre a experiência palestina de várias maneiras, apesar da mídia ocidental. Muitas vozes palestinas têm chegado ao público sem filtros em plataformas como o TikTok e outras redes sociais — o que talvez explique por que essas plataformas estão sendo compradas por pessoas como Larry Ellison, para silenciar esse tipo de conteúdo.
Elias Feroz
Qual você acha que é a diferença fundamental entre a cobertura jornalística ocidental convencional e as suas próprias experiências in loco? E por que o retrato apresentado ao público é tão drasticamente diferente da realidade que você encontra? É simplesmente porque não querem mostrar as perspectivas palestinas ou existe outra razão também?
Joe Sacco
Acho que a maioria dos repórteres ocidentais se identifica com os interesses ocidentais. No fim das contas, somos moldados pela cultura em que crescemos. Isso vale para qualquer pessoa, em qualquer lugar. Acho que os repórteres ocidentais muitas vezes têm muita dificuldade em sair dessa estrutura de pensamento.
Eles veem o governo dos EUA e o modo americano de fazer as coisas como parte do projeto mais amplo do Iluminismo: algo em que acreditam e que subscrevem. E, no fundo, veem o modo americano como a maneira correta. É uma forma um tanto fundamental — até simplista — de colocar a questão, mas acho que é, em geral, o que acontece. Acredito que a armadilha para os jornalistas é que eles se veem como objetivos. Eles vão a um lugar no Oriente Médio acreditando que podem ser objetivos. A diferença, no meu caso, é que reconheço que não posso ser objetivo. Sou fruto da minha formação. A maioria dos repórteres ocidentais... vê o modo americano como a maneira correta.
Há coisas que aprendi, coisas que preciso desaprender e coisas que aprendi e que precisam ser questionadas. Por isso, tento, na medida do possível, compreender o que o chamado "outro" está vivenciando e simplesmente ouvir o que ele tem a dizer. Para mim, não se trata sequer de "dar voz" a eles. Sempre achei essa ideia um tanto inútil. Acho que eles já têm voz. A questão é se temos ouvidos para escutar. É isso que tenho tentado fazer: ouvir e, depois, passar para o papel o que ouvi.
No livro, Chris distingue dois tipos de correspondentes de guerra: há uma pequena minoria que corre riscos reais para documentar a realidade crua in loco, a qual quase sempre contradiz as narrativas oficiais. Mas ele também descreve uma massa de jornalistas que, voluntariamente, vende propaganda militar encenada como se fosse notícia. Será que esse segundo grupo evidencia os enormes obstáculos estruturais do jornalismo convencional?
Joe Sacco
Acredito que sim. E o Chris tem uma noção melhor disso do que eu, pois foi chefe da sucursal do New York Times no Oriente Médio e também atuou como chefe de sucursal em outras partes do mundo. Portanto, ele fez parte desse meio e viu tudo de perto.
Já conheci muitos jornalistas, mas, devido ao que faço e à forma como conduzo meu trabalho, nunca cheguei a conviver com esse grupo da mesma maneira. Quando encontro jornalistas — mesmo aqueles que trabalham para grandes veículos —, muitas vezes percebo que eles sabem o que está acontecendo. São pessoas inteligentes. Mas acho que, no fim das contas, eles precisam prestar contas aos seus editores — as pessoas que dão as cartas em Londres e Washington — sobre o que é noticiado. E os editores, assim como os proprietários das empresas que detêm os jornais, seguem uma linha editorial e têm um ponto de vista específico. Acho que os jornalistas sabem até onde podem ir ao contar às pessoas o que realmente está acontecendo.
Muitas vezes, eles sabem que precisam apresentar o outro lado da história, em parte até para tentar amenizar um pouco as coisas. Mas não sinto que precise participar desse jogo, e sei que o Chris também não.
Elias Feroz
Como jornalista independente que utiliza os quadrinhos, você trabalha fora desse sistema. Acredita que isso lhe confere a vantagem suprema: a liberdade de contornar essas amarras institucionais sem ter de levar em conta as percepções confortáveis de terceiros?
Joe Sacco
É verdade. Mas, quando comecei, não planejei isso detalhadamente. Eu simplesmente não tinha dinheiro. E, quando não se tem dinheiro, é preciso encontrar formas alternativas de fazer a reportagem. Muitas vezes, você precisa alugar um lugar de moradores locais. Você não vai ficar em um hotel se o seu dinheiro estiver prestes a acabar em cinco ou seis dias. Então, você precisa encontrar outros meios de estar presente no local. E isso coloca você em maior contato com as pessoas nas ruas. De certa forma, a maneira como comecei — sem um planejamento rigoroso, de forma orgânica — moldou a minha forma de relatar os fatos, porque era aquilo que eu estava vendo.
Não foi uma questão de atribuição profissional ou mesmo de habilidade, pois, no início, ninguém falaria comigo se eu fosse apenas um cartunista. Eu não conversaria com políticos ou generais. Quando comecei, tudo se resumia a cafés, bares e a morar com alguém ou alugar um quarto na casa de outra pessoa. Você obtém uma perspectiva diferente quando não está naquele ambiente jornalístico restrito e elitizado, naquele espaço mais confortável.
Elias Feroz
Você passou a se interessar por entrevistar políticos ou figuras militares mais tarde?
Joe Sacco
Mais tarde na carreira, quando ganhei mais confiança no que fazia, cheguei a entrevistar generais, coronéis e alguns políticos. Mas nunca desenvolvi um gosto real por isso. Gosto de conviver com pessoas comuns porque, no fim das contas, percebo que o que me interessa é como as decisões tomadas nas capitais do mundo afetam os seres humanos.
Gosto de conviver com pessoas comuns porque, no fim das contas, percebo que o que me interessa é como as decisões tomadas nas capitais do mundo afetam os seres humanos. Afinal, as decisões tomadas até mesmo aqui, internamente, me afetam pessoalmente. Nós somos as pessoas atropeladas por esses tomadores de decisão, por seus grandes planos e pelo desejo deles de manter o poder. Por isso, tenho afinidade com essa perspectiva também. Sinto que esse é o meu ponto forte.
Não preciso conviver com os poderosos. Eu simplesmente não me sentiria confortável fazendo isso agora. Se você tivesse me encontrado no início dos meus vinte anos e me dado bastante acesso, talvez não estivéssemos tendo esta conversa. Não posso afirmar que tenho qualquer superioridade moral em tudo isso. Acho que, de forma orgânica, as coisas simplesmente aconteceram como aconteceram.
Elias Feroz
Para o seu livro mais recente, você e Chris entrevistaram palestinos que conseguiram fugir de Gaza para o Egito. Ambos conhecem bem a região e visitaram Gaza anos atrás: Chris, na época, como correspondente do New York Times, firmemente inserido no jornalismo tradicional da grande mídia, enquanto você estabelecia sua própria forma de jornalismo por meio dos quadrinhos. Como esses dois mundos contrastantes moldaram a colaboração neste livro, e onde vocês encontraram os pontos em comum mais fortes?
Joe Sacco
Chris e eu nos conhecemos na Bósnia, na parte de trás de um jipe blindado. Eu era cartunista, fazendo o meu trabalho, e ele era o chefe da sucursal do Times em Sarajevo na época, durante o final da Guerra da Bósnia. Havia, portanto, uma certa distância entre nós em alguns aspectos, mas nos demos bem logo de cara porque conversamos sobre livros, basicamente, durante aquele longo trajeto de carro até uma cidade no leste da Bósnia chamada Goražde. A partir dali, nos tornamos amigos. E então começamos a colaborar. Ele havia passado muito tempo no Oriente Médio e em Gaza.
Em certo momento, fizemos uma matéria para a Harper’s Magazine na qual ele cuidava do texto e eu fazia as ilustrações. Mais tarde, fizemos um livro chamado Days of Destruction, Days of Revolt. Aquilo também foi uma espécie de fusão das nossas formas de trabalhar; fazemos as entrevistas juntos. Na maioria das vezes, ele conduz as entrevistas, e eu faço intervenções ou pergunto coisas que acho que ele pode ter deixado passar — o que não acontece com frequência.
Ele respeita muito o que eu faço, e vice-versa. Então, se há uma história que parece combinar particularmente bem com o meu estilo, ele diz: "Você deveria assumir essa. Ela tem um potencial visual incrível". No caso do livro sobre Gaza, houve uma história em que pensei: "Preciso focar nesta aqui". E ele imediatamente me incentivou a seguir em frente. Não invadimos o espaço um do outro. E mesmo na estruturação do livro, ele escreveu, por exemplo, o final de um capítulo para fazer a transição para a minha seção. Também não ficamos interferindo no trabalho um do outro. Tudo flui de maneira muito orgânica.
Elias Feroz
No livro, Chris critica duramente o New York Times pela cobertura que faz de Gaza. Considerando que se trata de seu antigo empregador, você e Chris percebem alguma melhora real ou mudança estrutural na maneira como grandes veículos, a exemplo do Times, noticiam a situação em Gaza hoje, ou consideram que os vieses fundamentais e as restrições editoriais permanecem os mesmos?
Joe Sacco
Acho que ambas as coisas são, de certa forma, verdadeiras. Os vieses fundamentais permaneceram os mesmos, mas acredito que o genocídio é tão evidente — e tantas pessoas o percebem — que o jornal não pode ignorá-lo; eles precisam lidar com a questão em algum nível.
Isso não significa que a situação estrutural tenha mudado. Eles estão reconhecendo parte do sofrimento pelo qual os palestinos estão passando. Essa é a minha interpretação. O Chris pode ter uma interpretação diferente.
Elias Feroz
No atual discurso político e midiático em torno de Israel e Palestina, há um debate intenso sobre o contexto histórico e sobre quando esse conflito realmente começou. As narrativas dominantes frequentemente focam excessivamente em eventos imediatos, tratando as décadas passadas como se tivessem perdido a validade. No livro, há uma passagem marcante sobre como Lewis Lapham, editor da Harper’s Magazine, cortou suas entrevistas com sobreviventes dos massacres de 1956 por considerá-las "história irrelevante". Você ficou furioso e retornou a Khan Yunis e Rafah, o que culminou no seu livro Notas de Rodapé em Gaza. Olhando para trás, como essa rejeição editorial moldou sua compreensão de como a mídia dominante usa a arma da "irrelevância" para controlar a cronologia de um conflito?
Joe Sacco
Se você não entende a história, não entende por que as coisas acontecem. Historicamente, pouca coisa surge do nada. Existe uma continuidade de eventos.
Às vezes, uma geração inteira pode ser ignorada, e então o fio da história é retomado. No caso da Palestina, isso é muito claro. Você pode pegar, digamos, os anos 2000. Duas ou três vezes, Israel interveio e "aparou a grama" — como eles diziam eufemisticamente —, matando centenas, ou até milhares de pessoas, em campanhas de bombardeio que duravam semanas. Claramente, as pessoas em Gaza têm sido contidas, frustradas, oprimidas e controladas de todas as formas possíveis.
Curiosamente, apesar de tudo isso, uma sociedade vibrante conseguiu se desenvolver lá.
Nesse caso, eu queria focar no que aconteceu em 1956 nas cidades de Khan Yunis e Rafah. Não vejo a história como algo irrelevante. Vejo-a como um alicerce fundamental para a situação em que estamos hoje. Para entender a fúria, a frustração, a raiva — tudo isso —, é preciso entender o que aconteceu com aquele povo. Isso, é claro, não diminui em nada a importância do que aconteceu em 7 de outubro. De forma alguma. Mas é preciso observar certos aspectos. Se você não entende a história, não entende por que as coisas acontecem.
Durante a Grande Marcha do Retorno, em 2018 e 2019, por exemplo, palestinos se aproximaram pacificamente do chamado muro de segurança [construído por Israel] e foram alvejados a tiros. Ao longo de vários meses, algumas centenas foram mortos. Muitos ficaram gravemente feridos. Atiradores de elite israelenses disparavam contra as pernas e os joelhos das pessoas, resultando em um grande número de amputações. Esse tipo de acontecimento não recebeu muita atenção da grande mídia. Fico indignado quando pessoas como Thomas Friedman, do New York Times, perguntam: "Onde está o Gandhi palestino?"
Vemos pessoas tentando encontrar uma maneira pacífica de chamar a atenção do mundo, dizendo: "Esse confinamento a que somos submetidos como povo não pode continuar. Essa opressão não pode continuar", mas o Ocidente dá de ombros. É preciso compreender todos esses aspectos.
Vou dar outro exemplo de algo que considerei muito importante, mas que foi cortado daquela matéria da Harper’s. Entrevistamos [Abdel Aziz] Al-Rantisi, um dos fundadores do Hamas. Isso aconteceu na Cidade de Gaza, em 2000 ou 2001. Ele nos falou sobre o massacre de 1956 em Khan Yunis e sobre como seu tio havia sido morto quando ele próprio era um menino de oito ou nove anos. Ele descreveu como se lembrava dos gritos de lamento. Parecia que ele ia chorar só de pensar no que havia acontecido e disse: "Naquele momento, plantaram o ódio em nossos corações". É preciso entender como um fato leva ao outro. Não se pode isolar os acontecimentos históricos.
Para Requiem for Gaza, você e Chris entrevistaram vinte e nove famílias no Cairo que haviam acabado de fugir de Gaza. De que maneira o caráter imediato e recente do trauma delas afetou o processo de entrevista, em comparação com a pesquisa histórica realizada para Footnotes in Gaza? E como vocês escolheram as pessoas que entrevistariam?
Joe Sacco
Algumas semanas antes de partirmos para o nosso livro atual, ficamos pensando: "Quem vamos entrevistar? Como vamos fazer isso?". Tínhamos uma tradutora chamada Ruba, e ela ajudou a organizar quem entrevistaríamos. Você faz um contato, a pessoa conversa com você e, então, indica outra pessoa. Mais uma vez, tudo aconteceu de forma orgânica.
Algumas pessoas têm receio de falar, mas muitas querem conversar. A diferença é que, quando se fala de algo ocorrido há cinquenta anos, é natural que as lembranças comecem a se apagar. Ainda assim, as pessoas se lembravam muito bem de certos episódios marcantes. Havia o desafio de lidar com diversos episódios históricos que competiam entre si na memória das pessoas. Quando eu estava produzindo o livro sobre 1956 e entrevistando moradores de Gaza, às vezes me perguntavam: "Por que você não fala sobre o que está acontecendo agora?".
Já no livro atual, as lembranças dos nossos entrevistados estavam muito vivas. Muitas das pessoas com quem conversamos ainda tinham familiares em Gaza. Elas deixavam os celulares sobre a mesa, pois recebiam ligações dos parentes — aguardando notícias. Estavam sempre na expectativa e preocupadas com seus entes queridos. Dava para perceber a angústia real que sentiam por saber que outras pessoas haviam ficado para trás.
Elias Feroz
Existe um argumento muito difundido no discurso político ocidental sugerindo que os países árabes vizinhos deveriam simplesmente absorver a população de Gaza para resolver a crise humanitária. Seu livro desmonta completamente esse equívoco. As famílias que conseguiram fugir para o Egito não têm status legal, nem direito ao trabalho, nem seguro de saúde, e seus filhos são impedidos de frequentar escolas: não lhes é oferecido futuro algum. Quando você esteve no Cairo, chegou a conversar com os refugiados sobre o que pensavam a respeito dessas supostas soluções?
Joe Sacco
Não me lembro de ter feito essa pergunta específica, mas você tem razão. As pessoas viviam em um grande limbo no Egito. A situação era extremamente desconfortável. Elas não estavam sendo bombardeadas. Não estavam passando fome daquela maneira específica. Mas muitas pessoas estavam ficando sem dinheiro. E, quando o dinheiro acaba, você tende a fazer coisas que normalmente não faria.
Quanto a esse discurso sobre absorver os palestinos, tenho certeza de que ouviremos muito mais sobre isso no futuro, pois, neste momento, não vejo Gaza sendo reconstruída. Seria necessária uma grande mudança política — tanto na política dos EUA quanto na de Israel — para permitir a reconstrução de Gaza. Não sei o que acontecerá com as pessoas de lá. Já analisei outros conflitos, massacres e genocídios, mas raramente vi uma situação em que o Ocidente estivesse tão diretamente envolvido no que está acontecendo.
Muitas pessoas em Gaza provavelmente diriam: "Apenas me tirem daqui". Depois do genocídio, depois de viver em tendas, convivendo com cobras e doenças e em condições de fome ou quase inanição por tanto tempo, você só quer manter seus filhos em segurança. Acho que pode muito bem ser esse o plano: fazer com que as pessoas deixem Gaza "voluntariamente". Em outras palavras, isso seria, com certeza, uma limpeza étnica.
Sei que o Egito resiste muito a absorver palestinos. Na visão deles, já absorveram muitos. Mas é possível imaginar algum tipo de acordo, assim como Donald Trump conseguiu fazer com que países como El Salvador aceitassem detentos sob custódia do ICE (agência de imigração dos EUA) vindos de outros países, ou como está fazendo com a Libéria para receber pessoas. Poderia-se imaginar acordos semelhantes sendo feitos com outros Estados. Quem sabe o que eles podem tentar articular?
Elias Feroz
Sua carreira e sua identidade como pioneiro do jornalismo em quadrinhos estão profundamente ligadas à Palestina. Você percorreu as ruas de Gaza décadas atrás para seus livros e, agora, a Gaza que você conheceu — juntamente com muitos dos lugares e talvez até algumas das pessoas que você desenhou — literalmente não existe mais. Olhando para trás, o quanto a Palestina moldou você, não apenas como jornalista, mas como ser humano? E o que significa para você, emocionalmente, saber que seus livros deixaram de ser reportagens contemporâneas para se tornar um arquivo vital e trágico de um mundo que foi fisicamente apagado?
Joe Sacco
A Palestina me transformou desde o início. Eu teria ficado feliz em seguir em frente e deixar o assunto para trás se, por exemplo, os Acordos de Oslo tivessem evoluído para uma solução de dois Estados que, embora talvez não fosse particularmente justa, fosse pelo menos viável e aceitável para as pessoas envolvidas. Nesse caso, eu provavelmente teria seguido outro caminho.
As ruas por onde andei, as pessoas que conheci, toda uma sociedade e todo um modo de vida estão sendo apagados diante dos nossos olhos.
Mas, para mim, a questão continua sendo significativa porque o Ocidente está profundamente envolvido. Analisei outros conflitos, massacres e genocídios, mas raramente vi uma situação em que o Ocidente estivesse tão diretamente implicado no que está acontecendo. No caso da Palestina, os Estados Unidos apoiam as políticas de Israel há décadas — desde a Guerra dos Seis Dias, quando passaram a ver Israel, essencialmente, como parte de um projeto imperial maior. A situação se deteriorou com o tempo, especialmente com o genocídio. Nosso envolvimento vai muito além do simples fornecimento de armas e cobertura diplomática. Basicamente, abandonamos muitos dos princípios e instituições que construímos após a Segunda Guerra Mundial para permitir que isso continuasse. O Tribunal Penal Internacional, as Nações Unidas e todas essas instituições foram criados para impedir que algo assim acontecesse, ou pelo menos para atenuar a situação de alguma forma. Ver o fracasso total dessas instituições tem sido muito difícil. Para mim, trata-se também de uma questão moral fundamental. Se você não consegue reconhecer que um genocídio está ocorrendo, então, honestamente, não sei o que dizer.
Mas você tem razão: meu trabalho entrou, de certa forma, na esfera do arquivo. E há uma grande tristeza nisso, porque você percebe que as ruas por onde andei, as pessoas que conheci, toda uma sociedade e todo um modo de vida estão sendo apagados diante dos nossos olhos. Isso deveria ser motivo de profunda reflexão para qualquer pessoa civilizada — ou para qualquer um que se considere civilizado. Então, sim, isso me afetou. Obviamente, tenho uma ligação mais profunda com essa questão do que a maioria das pessoas. Passei grande parte da minha carreira refletindo sobre isso e retratando essa realidade. Não é fácil observar o que está acontecendo sob essa perspectiva.
Há algum tempo eu queria me afastar do jornalismo. Queria me dedicar a outros trabalhos criativos. Sentia que, de certa forma, já tinha feito o suficiente. Mas então aconteceu o que estamos vendo em Gaza, e você precisa vestir novamente a "roupa de jornalista" e voltar ao trabalho, porque essa é uma questão moral profunda. Sinto a obrigação de refletir sobre isso e de relatar os fatos. Talvez eu consiga fazer isso, até certo ponto, melhor do que outras pessoas no Ocidente, simplesmente por ter a experiência necessária — assim como o Chris. Tenho certeza de que ele sente o mesmo. Não é que eu esteja ansioso para voltar a isso; é que sinto a obrigação de fazê-lo. É um dever.
Elias Feroz
Você está trabalhando atualmente em outro projeto nessa linha?
Joe Sacco
Estou trabalhando em algo que remete aos meus tempos de quadrinhos underground. O projeto aborda algumas das mesmas questões que sempre me interessaram, mas de uma maneira totalmente diferente; não se trata de jornalismo. Basicamente, estou retomando coisas em que pensei enquanto fazia jornalismo — coisas que eu não conseguia expressar plenamente por meio do jornalismo, justamente por serem mais uma questão de intuição ou sentimento visceral. Quando você faz jornalismo, concentra-se nos fatos, em apurar a história corretamente e em tudo o que isso envolve. Mas você também reflete profundamente sobre a natureza humana e outros aspectos que não se encaixam necessariamente na estrutura jornalística. Agora, estou me voltando para algumas dessas ideias que não pude abordar diretamente em reportagens. É algo mais próximo de um ensaio, com elementos de humor ácido e sátira.
Colaboradores
Joe Sacco é cartunista e jornalista.
Elias Feroz é escritor freelancer. Entre outros temas, concentra-se no racismo, no antissemitismo e na islamofobia, bem como na política e na cultura da memória.

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