James Wham
Sidecar
Perto do final de 1975, começaram a surgir relatos no Diário de Pernambuco sobre uma "perna cabeluda" fantasmagórica, desincorporada e inteiramente senciente. Ela foi avistada pela primeira vez no bairro de Tiúma, em uma rua conhecida por atividades paranormais, como uma projeção nas paredes de uma das casas (a de número treze, se você puder acreditar). Um garotinho avistou a perna cabeluda e saiu correndo aos gritos, atraindo padres, pastores e, por fim, a polícia. Os avistamentos logo se espalharam para outras casas, com o poltergeist funcionando como um pequeno cinema itinerante. Dois meses depois, um homem local relatou ter encontrado sua esposa na cama com a perna cabeluda, compartilhando um cigarro pós-coito. Ele afirmou que ela saltou dos lençóis e o atacou. Depois disso, os relatos se multiplicaram — histórias de terror eram transmitidas no rádio, contadas em bares e em reuniões de negócios. Recife não falava de outra coisa. A perna cabeluda logo se tornou responsável por espancamentos, torturas, desaparecimentos, mutilações, assassinatos e todo tipo de outros crimes — crimes quase fantásticos demais para se acreditar.
O Agente Secreto abre em 1977, durante o que o filme chama de "um período de grande pirraça". Em entrevista à New Yorker, seu diretor, Kleber Mendonça Filho, explicou que referir-se ao período da ditadura militar brasileira dessa forma foi, em si, uma espécie de travessura — uma versão satírica daqueles letreiros que aparecem antes dos créditos em Casablanca ou Star Wars. "É uma palavra maravilhosa, um tanto antiga", diz ele sobre o termo pirraça. "Geralmente significa alguém provocando outra pessoa de má fé. Alguém que tem o poder de pregar uma peça em você. E essa peça pode passar dos limites." Em seu filme, a perna cabeluda vai parar no estômago de um tubarão morto. O delegado local é alertado e ordena a um de seus capangas que jogue a "maldita coisa" de volta ao oceano. Na noite seguinte, em um interlúdio ao estilo "filme B", assistimos à perna cabeluda emergir da água — como um pula-pula zumbi maligno — para aterrorizar os banhistas.
É um floreio artístico que conecta o mito local ao cinema e, mais especificamente, ao fenômeno global de Tubarão – um filme que ainda lota cinemas em Recife um ano após seu lançamento. Fernando, um menino de nove anos – a mesma idade que Mendonça tinha em 1977 – sonha em ver Tubarão, mas seu pai, Marcelo (Wagner Moura), não o deixa. Ele é muito novo; só o pôster já lhe dá pesadelos. Fernando mora com seu avô, Alexandre, que trabalha como projecionista no Cinema São Luiz. Sua mãe está morta e Marcelo está foragido. Só descobrimos o motivo perto do final do filme, quando ele é entrevistado por Elza, uma líder da resistência, na cabine de projeção do cinema de Alexandre.
O filme começa com Marcelo a caminho de Recife em um Fusca amarelo brilhante, parando em um posto de gasolina isolado onde encontra um cadáver em decomposição, sendo revistado pela polícia – completamente desinteressada no corpo – e seguindo viagem; ele chega a um esconderijo administrado por um anarco-comunista charmoso e decrépito com um gato de duas cabeças, conhece outros dissidentes e fugitivos, alguns fugindo da Guerra Civil Angolana; descobrimos que seu nome verdadeiro é Armando Solimões, que ele é um ex-professor na lista negra e que há uma recompensa por sua cabeça – e então corta para o presente, onde uma estudante universitária chamada Flávia está ouvindo as gravações de seu depoimento.
O Cinema São Luiz teve um papel de destaque no filme anterior de Mendonça, Pictures of Ghosts (2023), um ensaio-memória sobre sua cidade natal e seus cinemas. “Encontrei a essência de O Agente Secreto fazendo Pictures of Ghosts”, diz ele, “o poder das coisas que sobrevivem e são preservadas em arquivos. Porque o arquivo é a prova de vida de alguém. Quando você ouve uma voz gravada em 1977, aquela pessoa estava viva em 77... Provavelmente, a sensação mais forte de viagem no tempo que já senti foi fazendo filmes e trabalhando com arquivos.”’
Graças à rede de resistência, Marcelo consegue um emprego no cartório de identidade de Recife, onde passa a maior parte do tempo procurando informações sobre sua mãe, sobre quem sabe muito pouco. Era uma época em que pessoas desapareciam e nunca eram encontradas. Alguns anos antes, a oeste de Pernambuco, às margens do rio Araguaia, um grupo de cerca de cem guerrilheiros comunistas se opôs ao Exército brasileiro; pelo menos sessenta foram torturados e assassinados. Devido a uma Lei de Anistia de 1979, aprovada pela junta militar, nenhum ex-militar jamais foi condenado criminalmente, e somente em 2008, quando Carlos Brilhante Ustra foi declarado torturador por um tribunal civil em São Paulo, seus crimes foram oficialmente reconhecidos. (Ele morreu em liberdade aos 83 anos.) Foi apenas em 2012 que a então presidente Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade para investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante os anos da ditadura. Quando Dilma sofreu impeachment em 2016, Jair Bolsonaro fez questão de elogiar Ustra antes de votar, chamando-o de “o temor de Dilma Rousseff”.
A própria Dilma foi presa e torturada durante esses anos. Em 2011, uma fotografia sua foi descoberta nos arquivos de São Paulo, tirada em novembro de 1970, quando ela era membro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Ela havia suportado meses na prisão e semanas de tortura e agora se encontrava diante de um tribunal militar. Na foto, ela está sentada, curvada e entediada, enquanto dois generais do Exército a observam, cobrindo os rostos como se estivessem envergonhados – como se o futuro pudesse, de alguma forma, vê-los. “Tortura é algo complexo”, disse ela ao Brasil de Fato em 2020. “Acho que todos que passaram pela prisão sempre carregarão essa marca. Não gosto de assistir a filmes com tortura, por exemplo. Não é que eu não goste. Eu simplesmente não assisto.” "Não quero ver isso."
Nesse sentido, o thriller policial carnavalesco de Mendonça é ideal para assistir: o diretor disse que queria "subestimar grosseiramente, quase de forma poética", a crueldade da ditadura. Mas ainda há vislumbres de horror. Um dos interlúdios mais marcantes do filme mostra Marcelo sendo abordado pelo chefe de polícia corrupto Euclides e seus capangas. "Queremos te mostrar uma coisa", diz Euclides. Marcelo concorda, e eles o levam até um alfaiate próximo para encontrar Hans (Udo Kier, em seu último papel), um suposto nazista e vítima frequente do assédio de Euclides. "Mostre suas cicatrizes", diz ele, e, assim como Marcelo, Hans obedece. Ele levanta a camisa e Euclides quase geme de excitação.
Bolsonaro gostava de levantar a camisa para a imprensa e exibir suas facadas, frequentemente durante suas muitas internações por Covid-19. Era uma espécie de exibicionismo machista, o mesmo que excita Euclides, que vê Hans como um companheiro de farda que lutou por seu país e conquistou seu lugar no exército. Mendonça afirmou que Hans foi inspirado por um refugiado romeno, amigo e alfaiate de seu pai, e pela herança judaica da cidade (Recife foi o local da primeira comunidade judaica organizada do Brasil, no século XVII). Ao final da cena, revela-se que Hans é um sobrevivente do Holocausto, forçado a aceitar o título de nazista para permanecer nas boas graças de Euclides. Seu personagem revela a natureza peculiar da identidade sob o fascismo. No Brasil de 1977, Hans vive sob uma identidade falsa, assim como Marcelo, e como Josef Mengele, que escapou, como tantos outros nazistas, para a América do Sul pelas rotas de fuga (ele se afogaria em São Paulo dois anos depois).
Mendonça afirmou que via no regime Bolsonaro uma imitação do nazismo, em sua retórica e ideologia, mas também “de uma forma fetichista”. (Sobre o tema dos arquivos: Bolsonaro, após uma visita ao Museu do Holocausto em Jerusalém, disse que os crimes do Holocausto poderiam ser “perdoados, mas não esquecidos”; porém, sobre o passado enterrado de seu próprio país, disse: “Só um cachorro procura ossos”). Poucas semanas após o impeachment de Dilma em 2016, o filme Aquarius, de Mendonça, foi exibido em Cannes; no tapete vermelho, o diretor segurava cartazes expressando apoio a Dilma e afirmando que o Brasil não era mais uma democracia. Quando saiu do teatro duas horas depois, foi recebido por uma “tempestade de críticas”; recebeu ameaças de morte e seus filmes, sujeitos aos caprichos do governo do país, foram impedidos de concorrer ao Oscar. Este ano, Mendonça está indicado a quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme, que, caso vença, será recebido por sua esposa.
É um floreio artístico que conecta o mito local ao cinema e, mais especificamente, ao fenômeno global de Tubarão – um filme que ainda lota cinemas em Recife um ano após seu lançamento. Fernando, um menino de nove anos – a mesma idade que Mendonça tinha em 1977 – sonha em ver Tubarão, mas seu pai, Marcelo (Wagner Moura), não o deixa. Ele é muito novo; só o pôster já lhe dá pesadelos. Fernando mora com seu avô, Alexandre, que trabalha como projecionista no Cinema São Luiz. Sua mãe está morta e Marcelo está foragido. Só descobrimos o motivo perto do final do filme, quando ele é entrevistado por Elza, uma líder da resistência, na cabine de projeção do cinema de Alexandre.
O filme começa com Marcelo a caminho de Recife em um Fusca amarelo brilhante, parando em um posto de gasolina isolado onde encontra um cadáver em decomposição, sendo revistado pela polícia – completamente desinteressada no corpo – e seguindo viagem; ele chega a um esconderijo administrado por um anarco-comunista charmoso e decrépito com um gato de duas cabeças, conhece outros dissidentes e fugitivos, alguns fugindo da Guerra Civil Angolana; descobrimos que seu nome verdadeiro é Armando Solimões, que ele é um ex-professor na lista negra e que há uma recompensa por sua cabeça – e então corta para o presente, onde uma estudante universitária chamada Flávia está ouvindo as gravações de seu depoimento.
O Cinema São Luiz teve um papel de destaque no filme anterior de Mendonça, Pictures of Ghosts (2023), um ensaio-memória sobre sua cidade natal e seus cinemas. “Encontrei a essência de O Agente Secreto fazendo Pictures of Ghosts”, diz ele, “o poder das coisas que sobrevivem e são preservadas em arquivos. Porque o arquivo é a prova de vida de alguém. Quando você ouve uma voz gravada em 1977, aquela pessoa estava viva em 77... Provavelmente, a sensação mais forte de viagem no tempo que já senti foi fazendo filmes e trabalhando com arquivos.”’
Graças à rede de resistência, Marcelo consegue um emprego no cartório de identidade de Recife, onde passa a maior parte do tempo procurando informações sobre sua mãe, sobre quem sabe muito pouco. Era uma época em que pessoas desapareciam e nunca eram encontradas. Alguns anos antes, a oeste de Pernambuco, às margens do rio Araguaia, um grupo de cerca de cem guerrilheiros comunistas se opôs ao Exército brasileiro; pelo menos sessenta foram torturados e assassinados. Devido a uma Lei de Anistia de 1979, aprovada pela junta militar, nenhum ex-militar jamais foi condenado criminalmente, e somente em 2008, quando Carlos Brilhante Ustra foi declarado torturador por um tribunal civil em São Paulo, seus crimes foram oficialmente reconhecidos. (Ele morreu em liberdade aos 83 anos.) Foi apenas em 2012 que a então presidente Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade para investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante os anos da ditadura. Quando Dilma sofreu impeachment em 2016, Jair Bolsonaro fez questão de elogiar Ustra antes de votar, chamando-o de “o temor de Dilma Rousseff”.
A própria Dilma foi presa e torturada durante esses anos. Em 2011, uma fotografia sua foi descoberta nos arquivos de São Paulo, tirada em novembro de 1970, quando ela era membro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Ela havia suportado meses na prisão e semanas de tortura e agora se encontrava diante de um tribunal militar. Na foto, ela está sentada, curvada e entediada, enquanto dois generais do Exército a observam, cobrindo os rostos como se estivessem envergonhados – como se o futuro pudesse, de alguma forma, vê-los. “Tortura é algo complexo”, disse ela ao Brasil de Fato em 2020. “Acho que todos que passaram pela prisão sempre carregarão essa marca. Não gosto de assistir a filmes com tortura, por exemplo. Não é que eu não goste. Eu simplesmente não assisto.” "Não quero ver isso."
Nesse sentido, o thriller policial carnavalesco de Mendonça é ideal para assistir: o diretor disse que queria "subestimar grosseiramente, quase de forma poética", a crueldade da ditadura. Mas ainda há vislumbres de horror. Um dos interlúdios mais marcantes do filme mostra Marcelo sendo abordado pelo chefe de polícia corrupto Euclides e seus capangas. "Queremos te mostrar uma coisa", diz Euclides. Marcelo concorda, e eles o levam até um alfaiate próximo para encontrar Hans (Udo Kier, em seu último papel), um suposto nazista e vítima frequente do assédio de Euclides. "Mostre suas cicatrizes", diz ele, e, assim como Marcelo, Hans obedece. Ele levanta a camisa e Euclides quase geme de excitação.
Bolsonaro gostava de levantar a camisa para a imprensa e exibir suas facadas, frequentemente durante suas muitas internações por Covid-19. Era uma espécie de exibicionismo machista, o mesmo que excita Euclides, que vê Hans como um companheiro de farda que lutou por seu país e conquistou seu lugar no exército. Mendonça afirmou que Hans foi inspirado por um refugiado romeno, amigo e alfaiate de seu pai, e pela herança judaica da cidade (Recife foi o local da primeira comunidade judaica organizada do Brasil, no século XVII). Ao final da cena, revela-se que Hans é um sobrevivente do Holocausto, forçado a aceitar o título de nazista para permanecer nas boas graças de Euclides. Seu personagem revela a natureza peculiar da identidade sob o fascismo. No Brasil de 1977, Hans vive sob uma identidade falsa, assim como Marcelo, e como Josef Mengele, que escapou, como tantos outros nazistas, para a América do Sul pelas rotas de fuga (ele se afogaria em São Paulo dois anos depois).
Mendonça afirmou que via no regime Bolsonaro uma imitação do nazismo, em sua retórica e ideologia, mas também “de uma forma fetichista”. (Sobre o tema dos arquivos: Bolsonaro, após uma visita ao Museu do Holocausto em Jerusalém, disse que os crimes do Holocausto poderiam ser “perdoados, mas não esquecidos”; porém, sobre o passado enterrado de seu próprio país, disse: “Só um cachorro procura ossos”). Poucas semanas após o impeachment de Dilma em 2016, o filme Aquarius, de Mendonça, foi exibido em Cannes; no tapete vermelho, o diretor segurava cartazes expressando apoio a Dilma e afirmando que o Brasil não era mais uma democracia. Quando saiu do teatro duas horas depois, foi recebido por uma “tempestade de críticas”; recebeu ameaças de morte e seus filmes, sujeitos aos caprichos do governo do país, foram impedidos de concorrer ao Oscar. Este ano, Mendonça está indicado a quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme, que, caso vença, será recebido por sua esposa.
Uma forma de tortura que se tornou infame durante a ditadura foi o pau de arara, ou poleiro de papagaio, onde a vítima era amarrada a uma vara que percorria a parte interna dos cotovelos e a parte de trás dos joelhos. Originalmente, era chamada de "balanço de Boger", em homenagem ao nazista que popularizou a técnica em Auschwitz. A proeminência de telefones públicos laranja brilhantes no filme pode aludir indiretamente a outra forma de tortura, onde estudantes eram pendurados em público, encharcados e depois eletrocutados com telefones de corda – geralmente em seus genitais. E talvez o Fusca amarelo que nos introduz ao filme faça alusão à famosa fotografia de Carlos Marighella, outro guerrilheiro dissidente, morto dentro do mesmo carro após ser assassinado pela polícia. (Moura estreou na direção com Marighella em 2019; o governo Bolsonaro proibiu a distribuição do filme no Brasil.) A realidade existe em todas essas imagens, por mais sutis que sejam, porque existe em seus referentes – isto é, no arquivo, a “prova de vida”.
Quando os arquivos militares foram abertos para fins legais em 1979, um grupo de advogados começou a contrabandear os documentos para uma sala repleta de fotocopiadoras alugadas, publicando eventualmente Brasil: Nunca Mais (1985), que detalha 1.843 casos de tortura. A história existe em tais milagres. Um ex-policial testemunhou em 2012 que foi responsável por se desfazer de pelo menos dez corpos durante a ditadura, alegando que levou os cadáveres para uma plantação de cana-de-açúcar e os queimou na fornalha da destilaria – porém, sem provas, suas palavras não passam de fumaça. O Agente Secreto nasceu do arquivo, da história material disponível a Mendonça durante sua pesquisa. O que seria do filme sem ela? As histórias da perna cabeluda surgiram numa época em que os censores do governo patrulhavam as gráficas, com alguns jornais reduzidos a publicar poesia ou receitas de bolo nas primeiras páginas. Essas histórias começaram como uma piada, claro, uma travessura, mas a perna cabeluda logo se tornou uma metonímia para a violência estatal não reconhecida – uma forma de dizer o que não é dito.
A mãe de Mendonça era historiadora. Ele se lembra com carinho de quando ela trazia fitas de entrevistas para casa; ele ouvia tantas vozes estranhas. "Ela não era cineasta, mas suas entrevistas eram muito parecidas com filmes." Após a morte dela, as fitas ganharam uma nova dimensão — onde a única voz que importava era a de um amor perdido. Ao final de O Agente Secreto, Flávia, a estudante, encontra-se com Fernando, agora adulto, para falar sobre o pai dele, cuja voz ela vem ouvindo por tantos dias, semanas, meses. O choque é que Fernando diz que mal se lembra dele. Ele olha para trás, para aquele tempo, para a "pirraça" de 1977, e quase não tem recordações do pai. Mas ele se lembra de Tubarão.
Quando os arquivos militares foram abertos para fins legais em 1979, um grupo de advogados começou a contrabandear os documentos para uma sala repleta de fotocopiadoras alugadas, publicando eventualmente Brasil: Nunca Mais (1985), que detalha 1.843 casos de tortura. A história existe em tais milagres. Um ex-policial testemunhou em 2012 que foi responsável por se desfazer de pelo menos dez corpos durante a ditadura, alegando que levou os cadáveres para uma plantação de cana-de-açúcar e os queimou na fornalha da destilaria – porém, sem provas, suas palavras não passam de fumaça. O Agente Secreto nasceu do arquivo, da história material disponível a Mendonça durante sua pesquisa. O que seria do filme sem ela? As histórias da perna cabeluda surgiram numa época em que os censores do governo patrulhavam as gráficas, com alguns jornais reduzidos a publicar poesia ou receitas de bolo nas primeiras páginas. Essas histórias começaram como uma piada, claro, uma travessura, mas a perna cabeluda logo se tornou uma metonímia para a violência estatal não reconhecida – uma forma de dizer o que não é dito.
A mãe de Mendonça era historiadora. Ele se lembra com carinho de quando ela trazia fitas de entrevistas para casa; ele ouvia tantas vozes estranhas. "Ela não era cineasta, mas suas entrevistas eram muito parecidas com filmes." Após a morte dela, as fitas ganharam uma nova dimensão — onde a única voz que importava era a de um amor perdido. Ao final de O Agente Secreto, Flávia, a estudante, encontra-se com Fernando, agora adulto, para falar sobre o pai dele, cuja voz ela vem ouvindo por tantos dias, semanas, meses. O choque é que Fernando diz que mal se lembra dele. Ele olha para trás, para aquele tempo, para a "pirraça" de 1977, e quase não tem recordações do pai. Mas ele se lembra de Tubarão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário