11 de março de 2026

O que revela a condenação dos assassinos de Marielle Franco

Os assassinos da vereadora socialista do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foram recentemente condenados, expondo os profundos laços entre a direita brasileira e as milícias violentas. O caso demonstra que as instituições democráticas ainda podem responsabilizar os autores de atos de violência da extrema direita.

Alex MacArthur


O assassinato da vereadora socialista Marielle Franco em 2018 expôs as profundas ligações entre a extrema-direita brasileira e as redes criminosas infiltradas no Estado. (Mídia NINJA)

Por volta das 21h30 do dia 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, um Chevrolet Cobalt prata parou ao lado do carro onde estavam a vereadora Marielle Franco, seu motorista Anderson Gomes e seu assessor de imprensa. Franco acabara de moderar uma mesa-redonda sobre mulheres negras e mudanças estruturais e estava voltando para casa quando o veículo emparelhou com o dela e um assassino armado com uma submetralhadora disparou uma rajada precisa de treze tiros, atingindo Franco e Gomes várias vezes e matando-os antes de fugir em alta velocidade.

Em uma cidade acostumada a derramamento de sangue em público, a natureza do crime ficou imediatamente clara para muitos: não se tratava de um assalto ou de um acerto de contas entre gangues que deu errado, mas de um assassinato político. Franco, com 38 anos na época de sua morte, havia se tornado uma das figuras mais proeminentes da Câmara Municipal, representando o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Uma defensora ferrenha da esquerda e dos direitos dos moradores negros, LGBTQ+ e das favelas, ela presidiu a Comissão de Defesa das Mulheres da cidade e desempenhou um papel importante no monitoramento e na denúncia de violentas operações policiais, muitas delas ordenadas pelo governo estadual de direita. Ela cresceu na favela da Maré, uma região pobre, filha de pais que chegaram à cidade com poucos recursos e a incentivaram a trabalhar duro. Aos onze anos, começou a trabalhar para ajudar no sustento da família e, mais tarde, ganhou uma bolsa de estudos para a universidade, onde escreveu sobre as políticas policiais do estado.

Assim como a ascensão de Franco personificou a promessa da democracia brasileira, sua morte expôs seus limites. Ela foi assassinada por ter se tornado uma das opositoras mais visíveis das milícias do Rio e uma das defensoras mais incisivas dos moradores marginalizados das favelas. Mais do que contrabando de armas, assassinatos por encomenda ou mesmo tráfico de drogas, as milícias — máfias paramilitares de direita compostas em grande parte por ex-militares e policiais que alegavam combater o crime — lucravam enormemente com a grilagem de terras e a especulação imobiliária nas favelas do Rio. Antes de ser eleita, Franco havia trabalhado com o deputado estadual Marcelo Freixo em uma comissão parlamentar de inquérito sobre as milícias, que levou à acusação de milicianos e políticos alinhados a elas. Franco representava tudo o que a direita detestava: uma socialista implacável disposta a expor autoridades corruptas, ela representava uma ameaça material real.
“Marielle era uma mulher negra pobre que desafiava os interesses das milícias. Que mensagem mais forte poderia ser enviada?”, questionou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ao término da longa investigação em 25 de fevereiro. A sentença do tribunal condenou os irmãos Brazão, políticos estaduais que ordenaram os assassinatos, a 76 anos de prisão, além da condenação anterior dos dois ex-policiais que os executaram.

O caso demorou tanto para ser resolvido, em parte, porque autoridades ligadas às milícias nos mais altos escalões do poder, encorajadas durante o mandato do então presidente de extrema direita Jair Bolsonaro — que se recusou a condenar o assassinato e cuja família mantém laços com as milícias — trabalharam para obstruir a justiça. A conspiração para obstruir a justiça se estendeu por todo o estado. A destruição de provas e o desvio de pistas foram posteriormente comprovados como orquestrados pelo então chefe de polícia do Rio, Rivaldo Barbosa, que recebeu uma sentença de 18 anos.

Após o assassinato de Marielle Franco, a pergunta “Quem mandou matar Marielle?” tornou-se um grito de guerra no Brasil e no mundo. A resposta final, obtida por meio de um acordo de delação premiada com um dos assassinos, expôs muito mais do que a depravação dos irmãos Brazão. Revelou uma rede subterrânea coordenada de políticos influentes de direita, policiais e paramilitares — semelhante à conspiração para derrubar o governo que posteriormente levou à prisão de Bolsonaro. À medida que a extrema direita consolida o poder e ameaça as instituições democráticas em todo o mundo, o assassinato de Franco deve servir como um alerta contundente: a violência política que espreita por trás da retórica da extrema direita deve ser levada a sério.

Embora o caminho para a justiça tenha sido tortuoso e árduo, a investigação federal e o julgamento do caso pelo Supremo Tribunal Federal, apesar da forte resistência da direita, também demonstraram que as instituições brasileiras continuam capazes de defender a democracia. “Hoje, o sistema judiciário brasileiro honrou a memória de Marielle e Anderson”, disse Anielle Franco, irmã de Marielle e ministra da Igualdade Racial no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “O Brasil inicia um novo capítulo histórico no enfrentamento da violência política baseada em gênero e raça. A impunidade não pode fazer parte da nossa democracia.”

Colaborador

Alex MacArthur é pesquisador e escritor freelancer, atualmente cursando mestrado em história econômica e social na Universidade de Cambridge.

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