14 de maio de 2021

Os palestinos têm o direito de se defender

Em toda a mídia e nos corredores do poder, ouvimos que Israel tem direito à autodefesa. Mas quando perguntamos se os palestinos que sofrem uma ocupação colonial têm esse mesmo direito para sobreviver, ouvimos um silêncio ensurdecedor.

Greg Shupak

Jacobin


Tradução / Em um comunicado divulgado na segunda-feira, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, condenou “nos termos mais veementes” os foguetes disparados de Gaza contra Israel. Pedindo a “redução da escalada de todos os lados”, Price alegou o usual argumento de que “Israel tem o direito legítimo de defender seu povo e seu território”. Quando o chefe do escritório de Washington do Al-Quds Daily perguntou se os palestinos compartilhavam o direito à autodefesa, a resposta de Price foi ambígua, afirmando que “o conceito de autodefesa” deveria se aplicar “a qualquer Estado”. Aos palestinos apátridas, pode-se concluir, o Departamento de Estado não estende esses direitos.

Este é um falso consenso compartilhado por grande parte da mídia corporativa, bem como entre os políticos, nas democracias ocidentais. Uma pesquisa do agregador de mídia Factiva descobriu que os cinco jornais americanos de maior circulação – Wall Street Journal, USA Today, New York Times, Washington Post e Los Angeles Times – publicaram 343 artigos neste século contendo as frases “Direito de Israel à autodefesa”, “Israel tem o direito de se defender” ou “o direito de Israel de se defender”.

Consultar os mesmos meios de comunicação no mesmo período pelo “direito palestino de autodefesa”, “os palestinos têm o direito de se defender” ou variações do “direito dos palestinos de se defenderem” produz apenas dois resultados, notícias quase idênticas de um ex-guarda da base da Força Aérea dos Estados Unidos que supostamente disse que os palestinos têm esse direito.

Direitos de quem?

Implícito neste falso consenso está a ideia de que os palestinos devem simplesmente se submeter ao seu próprio assassinato, agressão e expropriação. Atualmente, isso significa concordar com os esforços israelenses para roubar casas palestinas de seis famílias no bairro Sheikh Jarrah em Jerusalém. Isso significa que os palestinos devem se render incondicionalmente aos ataques israelenses ao complexo de Al-Aqsa e à própria mesquita de Al-Aqsa, o terceiro local mais sagrado do Islã – incluindo o lançamento de granadas contra os fiéis enquanto oravam – durante o Ramadã, o mês mais sagrado do Islã.

Até domingo, a Palestine Red Crescent Society em Jerusalém tratou 541 palestinos pelos ferimentos que as forças israelenses infligiram com balas de metal revestidas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e “espancamentos brutais”; ambulâncias foram impedidas de chegar aos feridos na hora. Além disso, negar o direito dos palestinos de se defenderem significa exigir sua submissão total enquanto Israel tem como alvo os manifestantes palestinos em cidades como Nablus, Belém, Qalqilya e Hebron. Mais de 100 desses manifestantes precisaram de assistência médica.

Desde 2008, Israel matou cerca de 6.000 palestinos, mais da metade deles civis – 1.250 eram crianças. Em comparação, 251 israelenses foram mortos no mesmo período. Desde 2009, as demolições israelenses deslocaram mais de 11.400 palestinos, mais de 2.600 deles em Jerusalém Oriental. Quase 620.000 israelenses estão assentados em terras palestinas na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, em violação à lei internacional.

Sob ataque

O Programa Mundial de Alimentos observa que 68,5% dos palestinos em Gaza sofrem de insegurança alimentar e 53% vivem na pobreza, enquanto “todos os setores produtivos, serviços sociais básicos e infraestruturas” entraram em colapso. O tecido socioeconômico de Gaza está vacilando devido à impacto acumulativo de 12 anos de bloqueio marítimo, terrestre e aéreo. ” O cerco destruiu o sistema de saúde de Gaza, privando-a dos recursos essenciais necessários para lidar com a propagação de doenças, incluindo o surto da COVID-19 que Israel permitiu a disseminação para devastar o território ou para lidar com a agressão que Israel está realizando agora. Nesse contexto, é difícil imaginar qualquer grupo estatal ou não estatal que não reagisse.

O direito palestino à autodefesa pode não ser reconhecido pelo Estado de Israel ou pela mídia, mas é um direito baseado no direito internacional. Em 1982, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução afirmando “a legitimidade da luta dos povos pela independência, integridade territorial, unidade nacional e libertação da dominação colonial e ocupação estrangeira por todos os meios disponíveis, incluindo a luta armada”. A resolução se refere aos palestinos 11 vezes, descrevendo-os explicitamente como “sob domínio estrangeiro e colonial”.

O silêncio ensurdecedor da mídia neste contexto mais amplo da ocupação colonial ajuda a explicar por que a questão do direito da Palestina à autodefesa cai no esquecimento. Reconhecer o direito palestino à autodefesa significa primeiro reconhecer as condições brutais que a ocupação impõe.

Colaborador

Greg Shupak leciona sobre mídia na Universidade de Guelph, no Canadá. Ele é o autor de The Wrong Story: Palestine, Israel, and the Media (OR Books).

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