1 de agosto de 2026

O novo Homem-Aranha é pura diversão

O recordista Spider-Man: Brand New Day é uma diversão alegre e sem grandes exigências que não finge ser nada além disso. Em uma monocultura de super-heróis que continua drenando dinheiro, talento e ambição de Hollywood, isso é praticamente o melhor que se pode esperar.

Eileen Jones

Jacobin

Spider-Man: Brand New Day é a prova de que filmes de super-heróis funcionam melhor quando não aspiram a nada além da diversão típica de desenhos animados. (Columbia Pictures / Marvel Studios)

O que se pode dizer sobre um novo filme do Homem-Aranha além de, num tom de incredulidade: "Lá vem outro!"?

Bem, algumas coisas. Spider-Man: Brand New Day foi dirigido por Destin Daniel Cretton, que também comandou Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021), filme de que gostei. Era uma obra leve e bem-humorada, com excelentes sequências de ação e um desenvolvimento de personagens sutil e agradável, além de ter transformado Simu Liu em estrela de cinema — ainda que brevemente. Aliás, eu gostaria de ver mais filmes com Simu Liu; e não me refiro a papéis pequenos, como um dos Kens em Barbie (2023) ou um membro da multidão de Vingadores — como ele aparecerá em seu retorno como Shang-Chi no próximo Avengers: Doomsday. É bom que ele esteja ganhando a vida e tudo mais, mas a maneira como Hollywood desperdiça tanto carisma é um pecado e uma pena.

Quem recebe muito mais atenção e cuidado na carreira são as jovens estrelas Tom Holland e Zendaya, que retornam para o quarto filme desta mais recente série reiniciada do Homem-Aranha, após a trilogia composta por Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), Homem-Aranha: Longe de Casa (2019) e Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021). Interpretando o Homem-Aranha/Peter Parker e sua amada de língua afiada, Michelle "MJ" Jones-Watson, neste início de uma nova trilogia — meu Deus, é algo incessante —, Holland e Zendaya atingem o auge profissional após o casamento amplamente divulgado e suas atuações no sucesso épico A Odisseia, que estreou há poucas semanas e ainda está em cartaz em salas concorrentes.

Ambos estão muito melhores em Spider-Man: Brand New Day. Aquele tom de voz de "bom moço" impecável, com um sotaque americano típico de filmes ingênuos e otimistas adotado por Holland — que é britânico — para interpretar Peter Parker, soa estranho e distrai o espectador quando ele vive Telêmaco, príncipe de Ítaca e filho imaturo de Odisseu; no entanto, encaixa-se perfeitamente na diversão cartunesca dos filmes do Homem-Aranha. Zendaya é, naturalmente, linda, mas interpretar a deusa Atena tal como Christopher Nolan a escreveu — uma observadora preocupada e sombria, sem nada de "divino" para fazer — não a favoreceu. Ela tem uma postura maravilhosamente moderna e um ótimo timing cômico. Ela e Holland compartilham uma dinâmica de trocas bem-humoradas e descontraídas, o que é cativante e divertido.

O melhor aspecto de Spider-Man: Brand New Day é que o filme não tenta ser nada além de pura diversão, reunindo ação vibrante, momentos frequentes de humor e bastante drama emocional em um pacote de entretenimento bem acabado. Há muito pouco daquela falsa profundidade tola que somos obrigados a suportar quando certos diretores — que não vêm ao caso mencionar — assumem o comando de filmes de super-heróis. Além disso, o filme já é um sucesso estrondoso, estabelecendo um recorde de bilheteria no dia de estreia que supera a marca anterior de outro longa da Marvel: Vingadores: Ultimato (2019).

Spider-Man: Brand New Day dá continuidade ao desfecho do filme anterior — resumido de forma eficiente em algumas linhas durante os créditos de abertura —, quando o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) lançou um feitiço fazendo o mundo esquecer a identidade de Peter Parker, a qual havia sido revelada com consequências potencialmente desastrosas. O resultado é que o Homem-Aranha pode continuar combatendo o crime com eficiência em Nova York sem que ninguém saiba sua verdadeira identidade. No entanto, isso inclui as pessoas da vida pessoal de Peter — como sua namorada, MJ, e seu amigo e ex-colega de turma do MIT, Ned Leeds (Jacob Batalon).

Como sua tia May (Marisa Tomei) — que sempre o apoiou — morreu em decorrência de sua ligação com o Homem-Aranha, Peter vive agora um isolamento quase monástico, dedicado exclusivamente à caçada solitária a vilões perigosos. Sua conexão mais próxima é com a detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas), com quem conversa por telefone sobre os roubos mais recentes e os perigos que ameaçam as ruas da cidade.

Trata-se de uma trama de super-herói que já vimos inúmeras vezes: a figura idolatrada pelo público por sua velocidade e força imbatíveis e por seus atos heroicos constantes, mas que, apesar disso, vive uma existência de profunda miséria e isolamento, precisando reencontrar alguma forma de conexão humana básica para salvar a si mesmo. Gostamos do lado sombrio e romântico desse personagem, assim como nos fascinamos infinitamente com histórias de estrelas de cinema que parecem ter tudo — beleza, dinheiro, fama, adoração — mas que, no fundo, sempre foram profundamente atormentadas e infelizes.

No entanto, as provações de Peter Parker/Homem-Aranha não param por aí. Ele também enfrenta um problema potencialmente fatal decorrente de sua angústia: um pico de hormônios aracnídeos relacionados ao estresse em seu organismo, o que torna suas características de aranha erráticas e excessivas. De repente, ele passa a disparar teias diretamente dos pulsos, e não mais do uniforme, sem conseguir controlar a quantidade: às vezes não sai nada, outras vezes a teia surge em tamanha profusão que ele acorda envolto nela, pendurado na beirada de prédios.

Ele experimenta soluções científicas, e há cenas divertidas de tentativa e erro enquanto ele cambaleia, despenca e sai disparado descontroladamente pela cidade. Mas é um péssimo momento para perder o controle de seus poderes, pois há uma nova e misteriosa força de caos em ação em Nova York — uma força invisível capaz de possuir humanos e saltar rapidamente de uma pessoa para outra, fazendo com que cada uma se contorça violentamente ao ser tomada ou abandonada, como aqueles bonecos infláveis ​​de tubo que balançam freneticamente em anúncios de carros usados. Assim, o Homem-Aranha não faz ideia de quem é esse suposto inimigo, sendo confrontado repetidamente por alguma pessoa aleatória na rua que o encara com escárnio, desafiando-o a acompanhá-la e dizendo, de forma mordaz: "Você é uma simples aranha".

Enquanto isso, sobra tempo para Peter/Homem-Aranha ficar melancólico, acompanhando MJ e Ned e sentindo uma tristeza profunda. Isso é facilitado pela presença constante de Ned online e por sua condição de fã do Homem-Aranha — o que inclui a invenção de um "Spidey-Tracker" (rastreador do Aranha) para smartphone, que se mostrará útil em vários momentos.

O filme conta com talentos de primeira linha surgindo por toda parte — um daqueles prazeres clássicos dos filmes de gênero de Hollywood: atores extremamente talentosos aparecendo em papéis pequenos e entregando atuações casualmente brilhantes. Florence Pugh está, como sempre, fabulosa como Yelena Belova/Viúva Negra; ela protagoniza cenas divertidas relaxando na piscina de um spa — que ela chama de "meu escritório" — e menosprezando as questões irrelevantes (ou melhor, as "batatinhas de bebê") com as quais o Homem-Aranha se preocupa, enquanto os Vingadores lidam com problemas globais de grande porte. De alguma forma, a leveza e o apelo pop da personagem tornam o talento extraordinário de Pugh ainda mais impressionante do que quando ela interpreta papéis mais densos.

Mark Ruffalo traz diversas nuances à sua atuação como Bruce Banner/Hulk, pois é, aparentemente, um profissional exemplar que jamais faz o trabalho "nas coxas" apenas para receber seu enorme cachê por algumas poucas cenas. E Sadie Sink, de Stranger Things, tem um papel importante que não posso descrever para evitar spoilers, mas ela é muito eficiente. Há uma forte presença de talentos da televisão aqui: Tramell Tillman traz as qualidades enigmáticas que exibiu em Severance, e Liza Colón-Zayas, de The Bear, realiza um trabalho notavelmente comovente em um papel genérico de policial "do bem".

A única atuação de que eu poderia ter dispensado foi a de Jon Bernthal como Frank Castle/Justiceiro; seu vigilantismo machista é tão caricato em sua beligerância que chega a irritar o fato de Peter/Homem-Aranha continuar confiando nele. Bernthal — que também participou de The Odyssey, interpretando Menelau como um brutamontes vingativo — parece surgir em toda parte ultimamente, encarnando variações da masculinidade tóxica. Suponho que não seja culpa dele ter essa cara de brutamontes de nariz quebrado, mas que maneira de ganhar a vida!

Mas, se você procura um entretenimento que não exija muito esforço mental, há vários aspectos agradavelmente distrativos em Spider-Man: Brand New Day para manter seu interesse ao longo da duração excessiva do filme, que é tipicamente carregada de tramas. No entanto, é preciso não deixar a mente divagar — acima de tudo, não pense na situação deplorável do cinema ou na situação ainda mais deplorável do mundo enquanto assiste.

Porque, se você ama cinema, essa onda interminável e avassaladora de filmes de super-heróis é — e há muito tempo tem sido — algo exaustivo e deprimente, pois suga todo o dinheiro, talento, energia e cobertura da imprensa, deixando apenas migalhas para outras iniciativas cinematográficas potencialmente mais ambiciosas. E, se você se detiver a pensar nos enormes recursos dedicados a esses circos cinematográficos que frequentamos — enquanto enfrentamos cerca de seis crises globais mortais diferentes que ameaçam toda a vida na Terra —, sentirá um mal-estar ao imaginar o que todo esse dinheiro poderia realizar se não o estivéssemos desperdiçando constante e deliberadamente.

E isso certamente não ajudará você a manter o interesse em saber como o Homem-Aranha capturará a ameaça capaz de saltar de um corpo para outro, ou se Peter Parker algum dia terá coragem de falar para MJ sobre o amor perdido entre eles.

Às vezes, temos de admitir, estamos desesperados por uma distração descompromissada.

Colaborador

Eileen Jones é crítica de cinema na Jacobin, apresentadora do podcast Filmsuck e autora de Filmsuck, USA.

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