10 de agosto de 2026

Por que a China se preocupa com a Coreia do Norte

Os planos de Pequim para lidar com uma Pyongyang assertiva

Zheng Jiyong


O líder chinês Xi Jinping e o líder norte-coreano Kim Jong Un em Pyongyang, junho de 2026
Korean Central News Agency / Reuters

Para a China, o Nordeste Asiático continua sendo o ponto fraco em sua tentativa de garantir a segurança de suas fronteiras imediatas. As tensões entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul estão aumentando, o que levanta a possibilidade de um conflito que poderia transbordar para além da Península Coreana. A coordenação de segurança entre Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos também vem se fortalecendo, pressionando a China; além disso, o status nuclear consolidado da Coreia do Norte gerou apreensão no Japão e na Coreia do Sul quanto à sua própria segurança, podendo até motivá-los a buscar, futuramente, suas próprias armas nucleares.

A China está cada vez mais preocupada com o papel da Coreia do Norte na criação e intensificação desses riscos — e com a necessidade de ajustar sua estratégia em relação ao país para gerenciá-los sem inflamar tensões ou desestabilizar ainda mais a região. Pyongyang tornou-se mais imprevisível à medida que ganhou confiança com seu programa nuclear. Décadas de sanções internacionais, condenações e isolamento não forçaram Pyongyang a promover a desnuclearização. Pelo contrário, tornaram a Coreia do Norte ainda mais determinada a manter seu programa de armas nucleares. E, embora a Coreia do Norte ainda dependa da China para apoio econômico, a crescente relação de segurança de Pyongyang com a Rússia a tornou menos dependente exclusivamente de Pequim do que no passado. Caso ecloda uma crise envolvendo a Coreia do Norte, a China teme ser marginalizada à medida que o conflito saia de controle.

Por quase oito décadas, a relação de Pequim com Pyongyang baseou-se em laços históricos, amizade simbólica e coordenação informal. No entanto, a imprevisibilidade de Pyongyang tornou essa abordagem inadequada. A nova estratégia da China, simbolizada pela visita do líder chinês Xi Jinping à Coreia do Norte em junho, visa trazer Pyongyang de volta à sua órbita e tornar a relação bilateral mais estável e gerenciável. Pequim não quer que a Coreia do Norte — um dos poucos estados comunistas restantes no mundo e uma possível vitrine de como a China pode gerenciar eficazmente suas relações com aliados — fracasse. Pequim também não quer abandonar seus esforços em prol da desnuclearização a longo prazo na Península Coreana. No entanto, reconhece a necessidade de meios mais eficazes para evitar surpresas por parte de Pyongyang — situações que poderiam desestabilizar a China ou desencadear uma ampliação da presença militar do Japão, da Coreia do Sul e dos Estados Unidos.

Pequim trabalha para estabelecer canais de comunicação estruturados de alto nível, visando receber alertas antecipados sobre possíveis provocações norte-coreanas, dispor de mais oportunidades para intervir antes de uma escalada da crise e aprimorar sua capacidade de prever o comportamento da Coreia do Norte. O país também está mudando sua abordagem: em vez de tratar a desnuclearização como pré-condição para o engajamento com Pyongyang, passa a focar na redução de riscos que possam levar a conflitos. Diante da crescente incerteza global, a China espera que um contato mais estreito e uma comunicação mais clara com a Coreia do Norte sirvam ao seu objetivo primordial: manter a estabilidade em sua vizinhança imediata.

ESTABELECENDO LIMITES

Embora a China e a Coreia do Norte compartilhem uma fronteira e sejam ambas Estados comunistas, sua relação tem oscilado ao longo das quase oito décadas desde a fundação de ambos os países. A conexão da China com a Coreia do Norte baseou-se tradicionalmente na amizade diplomática, em memórias revolucionárias compartilhadas e nas redes de relacionamento pessoal de líderes veteranos. Durante a Guerra da Coreia, por exemplo, os dois países se aproximaram. No entanto, em outros momentos, tensões provocaram o afastamento entre eles. Após Kim Jong Un assumir a liderança da Coreia do Norte, no final de 2011, as relações do país com a China sofreram uma forte deterioração devido a divergências sobre as ações de Pyongyang, incluindo a busca de Kim por armas nucleares e a prisão e execução de seu tio.

A frustração de Pequim com Pyongyang atingiu um novo patamar em 2017, quando a Coreia do Norte realizou um teste nuclear e diversos testes de mísseis que revelaram o domínio da tecnologia de bombas de hidrogênio e o rápido aprimoramento de suas capacidades nucleares. O teste não apenas desafiou a oposição declarada da China à nuclearização norte-coreana, mas também causou constrangimento político a Pequim: ocorreu justamente quando a China sediava uma cúpula dos líderes do BRICS. Naquele ano, a China votou a favor de cinco resoluções do Conselho de Segurança da ONU para impor sanções severas à Coreia do Norte e endurecer as exigências de monitoramento. A preocupação da China com uma possível escalada do conflito entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos levou Pequim a convidar o chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, Joseph Dunford, para discutir o programa nuclear norte-coreano e a segurança regional.

Pouco depois, quando uma reaproximação entre os EUA e a Coreia do Norte parecia possível, a China mudou de postura. No início de 2018, após o presidente dos EUA, Donald Trump, e Kim começarem a discutir uma possível cúpula, a China temeu ser excluída das negociações sobre como gerir as tensões na Península Coreana. Antes do encontro de Kim com Trump — que acabou ocorrendo em Singapura, em junho de 2018 —, o líder norte-coreano quis consultar Xi sobre suas experiências ao lidar com o líder americano. Pequim prontamente convidou Kim para uma visita. Kim viajou à China em março e, novamente, em maio e junho daquele mesmo ano. Após Xi retribuir a visita e ir à Coreia do Norte no verão de 2019, o comércio fronteiriço prosperou e os laços bilaterais se restabeleceram. No entanto, quando a pandemia de COVID-19 eclodiu, no início de 2020, a Coreia do Norte fechou sua fronteira e suspendeu todos os serviços de trens de passageiros e de carga, bem como os voos para a China. A interrupção abrupta dos principais canais de conexão e contato deixou a relação sino-norte-coreana em frangalhos, à medida que o comércio estagnou e os laços econômicos foram, em grande parte, cortados. Simultaneamente, a Coreia do Norte aproximou-se da Rússia, deixando a China novamente preocupada com a possibilidade de ficar isolada.

DA RÚSSIA, COM PODER DE INFLUÊNCIA

Hoje, a China continua sendo economicamente insubstituível para a Coreia do Norte. A China é a origem de mais de 70% do comércio exterior total da Coreia do Norte, de aproximadamente 60% de seus alimentos e de 75% de seus bens de consumo. Anualmente, a China fornece à Coreia do Norte cerca de 520.000 toneladas de petróleo e entre 500.000 e 800.000 toneladas de grãos e fertilizantes (tudo dentro dos limites de isenção da ONU). Esse é um arranjo fundamental para sustentar a subsistência norte-coreana e estabilizar a fronteira nordeste da China.

Nos últimos anos, no entanto, a Rússia aumentou drasticamente seu apoio à Coreia do Norte. Após a assinatura do Tratado de Parceria Estratégica Abrangente entre a Coreia do Norte e a Rússia, em junho de 2024, Moscou passou a fornecer garantias de segurança, tecnologia militar, suprimentos de energia, mercados para exportação de mão de obra e apoio para burlar sanções a Pyongyang. A Coreia do Norte, por sua vez, enviou munição e soldados para lutar pela Rússia na guerra na Ucrânia.

A relação mais estreita da Rússia com a Coreia do Norte alivia parte da obrigação da China de fornecer ajuda econômica e garantias de segurança ao seu vizinho do nordeste. Mas isso também conferiu à Coreia do Norte maior poder de negociação e alterou sua relação com a China. Anteriormente, a China era a única provedora da Coreia do Norte; agora, é apenas o maior entre vários pilares de apoio. A estratégia externa norte-coreana evoluiu de um modelo em que o país dependia da China para equilibrar a pressão dos Estados Unidos para um arranjo de três frentes: utiliza a China para estabilizar sua economia, a Rússia para reforçar sua segurança e a pressão dos EUA para justificar seu programa nuclear. Ao fortalecer simultaneamente os laços com a China e a Rússia e, ao mesmo tempo, manter sua dissuasão nuclear contra os Estados Unidos, a Coreia do Norte deixou claro seu desejo de replicar o padrão da Guerra Fria de manobrar entre a China e a União Soviética, o que lhe permite maximizar os benefícios que pode obter.

A China continua sendo economicamente insubstituível para a Coreia do Norte.

Para Pequim, o maior risco de uma cooperação mais estreita entre a Coreia do Norte e a Rússia é que ela fornece um pretexto excelente para que o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos acelerem a integração de seu bloco. Se a Coreia do Norte e a Rússia continuarem a colaborar estreitamente na área de armas nucleares, o Japão e a Coreia do Sul usarão a ameaça norte-coreana para justificar o fortalecimento de suas alianças com os Estados Unidos. Eles poderiam pressionar por uma maior troca de informações de inteligência em nível trilateral, exercícios militares conjuntos e integração de armamentos. Isso acabará por criar uma aliança de dissuasão militar institucionalizada voltada não apenas para a Coreia do Norte, mas também para a China, o que exercerá pressão sobre o país a partir de múltiplas frentes e acirrará as tensões militares em pontos críticos, como o Estreito de Taiwan.

Além disso, a disputa entre as grandes potências — China e Estados Unidos — aumenta a probabilidade de que atritos com Pyongyang escalem para um confronto direto entre americanos e chineses. A Península Coreana é um componente essencial da estratégia de Washington para o Indo-Pacífico, de sua rede de alianças e de seus esforços de dissuasão regional. A prioridade da China é evitar um conflito militar desnecessário com os Estados Unidos; no entanto, as contínuas provocações nucleares e com mísseis da Coreia do Norte, o aprofundamento de sua cooperação militar com a Rússia e sua crescente imprevisibilidade trazem o risco de arrastar a China para uma crise. O desejo de Pequim de evitar a instabilidade na Península Coreana reflete sua vontade de estabilizar as relações com os Estados Unidos e de evitar qualquer potencial de escalada que possa levar a um conflito direto.

BUSCANDO O DIÁLOGO

A China não pode mais depender de sentimentos históricos, amizades pessoais entre líderes e coordenação diplomática ocasional para manter sua influência sobre uma Coreia do Norte cada vez mais imprevisível, confiante e assertiva. Em vez disso, Pequim precisa de uma forma de gerir sua relação com Pyongyang que seja mais estável, baseada em interações consistentes e normais, e que permita à China estabelecer condições exigíveis para a ajuda que fornece. Em outras palavras, a China necessita de uma abordagem de base institucional — que atribua maior peso a mecanismos formais de cooperação e a canais de comunicação.

A China concentra-se em estabelecer mais linhas de emergência para conectar líderes, ampliar as consultas regulares sobre diplomacia e segurança e aprimorar os mecanismos de notificação oficial para incidentes fronteiriços e testes de mísseis. Tais esforços já começaram. Nos últimos quatro meses, o ministro das Relações Exteriores da China e o chefe do principal órgão consultivo político do país reuniram-se com Kim em Pyongyang, e o primeiro-ministro da Coreia do Norte visitou a China e reuniu-se com Xi. Pequim também espera incluir a Coreia do Norte em plataformas multilaterais, como a Iniciativa do Grande Tumen — uma estrutura de cooperação econômica intergovernamental para o Nordeste Asiático — e a Organização para Cooperação de Xangai, além de desenvolver mecanismos de diálogo regional sob a liderança chinesa nos quais a Coreia do Norte possa participar.

A China continua não vendo com bons olhos uma Coreia do Norte nuclear e não acredita que seu status nuclear deva ocorrer sem custos. No entanto, Pequim percebe cada vez mais que uma desnuclearização imediata, ou um roteiro passo a passo claramente definido para a desnuclearização, não é viável. Uma Coreia do Norte nuclear dificilmente é o cenário ideal, mas pressionar uma Pyongyang imprevisível de maneiras que possam levar a um conflito aberto é muito pior. A prevenção de crises e a necessidade de estabilidade são agora as principais prioridades da China na Península Coreana.

Pequim também pode aproveitar a dependência econômica da Coreia do Norte em relação à China para pressionar Pyongyang a adotar medidas específicas de contenção, como abster-se de ações provocativas que poderiam desencadear um aumento na mobilização militar do Japão, da Coreia do Sul e dos Estados Unidos. O apoio econômico não é apenas um preço que a China precisa pagar para manter a estabilidade norte-coreana; é também uma ferramenta prática para moldar as ações de Pyongyang e evitar a própria marginalização de Pequim na região. A China pode condicionar a assistência humanitária, a abertura para o comércio fronteiriço, o fornecimento de energia e a oferta de infraestrutura à disposição da Coreia do Norte de conter suas ameaças militares. Somente ao condicionar a cooperação incremental a evidências tangíveis de que a Coreia do Norte está efetivamente reduzindo os riscos de conflito é que a China poderá converter suas vantagens econômicas em influência regional substantiva.

A reunião de alto nível em Pyongyang, realizada em junho, foi o primeiro passo para concretizar essa estratégia. As relações sino-norte-coreanas terão de seguir uma nova lógica: se a Coreia do Norte deseja uma cooperação mais ampla com Pequim, deve atender às exigências chinesas em matéria de estabilidade nas fronteiras, comunicação em situações de crise e contenção militar. Em contrapartida, a China está disposta a oferecer maior apoio econômico, ampliar o comércio e os investimentos, auxiliar no desenvolvimento de infraestrutura e prestar apoio político internacional — sobretudo porque deseja ver uma Coreia do Norte estável e economicamente viável, que não represente uma ameaça à segurança chinesa nem se torne uma peça de manobra na disputa entre grandes potências. Diante de uma Coreia do Norte transformada, os laços emocionais entre antigos aliados já não bastam para sustentar a estabilidade regional. Pequim aposta na possibilidade de que o aumento das conexões e o estabelecimento de limites mais claros permitam converter sua influência sobre Pyongyang em instrumentos eficazes de gestão de crises.

ZHENG JIYONG é professor e diretor do Instituto de Estudos Regionais da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin.

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