Andre Pagliarini
Andre Pagliarini é especialista em política brasileira e autor da obra Claiming the Nation: The Politics of Nationalism in Modern Brazil (com lançamento previsto), na qual este ensaio se baseia.
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| Daniel Ramalho/Agência France-Presse — Getty Images |
“O Trump 2.0 está sendo muito melhor do que o Trump 1.0, certo? Bem, o Bolsonaro 2.0 também será muito melhor.”
Foi o que declarou Flávio Bolsonaro este ano. Flávio — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que deixou o cargo em desgraça, e um dos principais nomes na disputa presidencial brasileira de outubro — tem tentado unir os dois países em um projeto político compartilhado. O presidente Trump tem atendido a esse desejo com entusiasmo. Desde que retornou ao cargo, Trump tem demonstrado interesse ativo na política brasileira. Em junho, ele compartilhou um artigo na Truth Social descrevendo a próxima corrida presidencial do país como o “próximo grande teste” no projeto trumpista de “tornar as Américas grandes novamente”.
No entanto, a eleição será decidida por uma questão tipicamente brasileira: quem fala em nome da nação? Ambos os lados da disputa competem ferozmente para responder a isso. Flávio insiste que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — um veterano político progressista — capitulou diante do crime organizado e de uma esquerda internacional corrupta; Lula, por sua vez, rotula o campo bolsonarista como bajuladores servis de Washington, dispostos a ceder tudo em troca do apoio de Trump. A acusação de ambos os lados é a de que o outro está entregando a nação a interesses estrangeiros e que apenas o seu próprio grupo é digno de confiança.
Essa disputa tipicamente brasileira define a vida pública do país há mais de um século. Em vez de redefinir os termos da política brasileira, Trump simplesmente forneceu, tanto à esquerda quanto à direita, nova munição para uma disputa ideológica de longa data. O presidente dos EUA pode alegar estar moldando a América Latina à sua imagem e semelhança. Mas, no Brasil, ele está atrasado em relação à realidade local.
O Brasil é assombrado há muito tempo pelo abismo entre o seu potencial e a sua capacidade de concretizá-lo. O país possui o sexto maior território do mundo, vastos recursos naturais e uma população de mais de 200 milhões de habitantes. Durante a maior parte do século XX, sua economia cresceu mais rapidamente do que a de praticamente qualquer outro país. E, no entanto, a maior nação da América Latina nunca chegou a se tornar aquilo que seus defensores sempre insistiram que seria: uma potência global de prosperidade compartilhada. Essa distância exasperante e persistente entre a promessa e a realidade é o que transformou o nacionalismo na linguagem dominante da política brasileira. Quem conseguisse responder à pergunta sobre por que o Brasil não havia alcançado seu pleno potencial — e o que fazer a respeito — detinha a chave para o sucesso político.
A partir da década de 1920, duas visões abrangentes disputaram essa chave. A vertente progressista sustentava que o fracasso do Brasil em concretizar seu potencial tinha raízes na desigualdade e na captura do Estado por elites que se beneficiavam da exploração estrangeira. Uma ampla agenda reformista tornou-se, então, pré-requisito para o desenvolvimento nacional. Sob a presidência de João Goulart, no início da década de 1960, essa visão materializou-se nas "Reformas de Base" — um conjunto de medidas que incluía a reforma agrária, o direito de voto para brasileiros analfabetos, a limitação da remessa de lucros por empresas estrangeiras e um maior controle estatal sobre os recursos naturais. Tendo a Guerra Fria como pano de fundo, a retórica da autodeterminação nacional tornou-se uma linguagem comum na política democrática brasileira.
Um golpe militar apoiado pelos EUA em 1964 pôs fim a isso. Em vez disso, os generais que tomaram o poder fundiram a propaganda patriótica com um autoritarismo violento. Ao defender o regime militar, Roberto Campos, o ministro do Planejamento e intelectual do governo, atacou o que chamava de "nacionalismo temperamental" — que ele classificava como emocional, errático e economicamente desastroso — e insistiu que a disciplina de mercado e o alinhamento com Washington constituíam o verdadeiro interesse nacional. O patriotismo da ditadura, que atingiu seu auge em 1970, quando o Brasil conquistou sua terceira Copa do Mundo de futebol, esperava que os cidadãos se orgulhassem de seu país sem levantar questões incômodas sobre a quem ele servia. Aqueles que faziam tais perguntas eram retratados como obstáculos ao desenvolvimento da nação ou sofriam destinos muito piores.
A ditadura terminou em 1985, mas a batalha pela bandeira do nacionalismo continuou. Quando Jair Bolsonaro prometeu, durante sua campanha de 2018, que "criminosos vermelhos seriam banidos de nossa pátria" e afirmou que "nós somos o verdadeiro Brasil", pronto para "construir uma nova nação", ele não estava tanto copiando a cartilha de Trump, mas sim recorrendo à herança política de seu próprio país. Conservadores fizeram declarações semelhantes ao longo da Guerra Fria, ao denunciarem nacionalistas progressistas como subversivos insidiosos. Bolsonaro atualizou o conteúdo, mas a forma permaneceu a mesma: reivindicar a nação para si, deslegitimar a esquerda como antibrasileira e insistir que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.
Seu filho tentou repetir a mesma estratégia. Flávio Bolsonaro fez da segurança pública um eixo central de seus ataques a Lula, argumentando que o presidente e seu partido são lenientes com o crime organizado. Voltando-se para Washington, Bolsonaro ajudou, em maio, a garantir que os EUA classificassem as duas maiores organizações criminosas do Brasil como grupos terroristas. No entanto, essa abordagem tem um custo político. Quando Trump impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros no mês passado, Lula conseguiu se apresentar de forma convincente como o defensor da soberania brasileira contra a interferência estrangeira. O mesmo ocorreu no ano passado, quando Trump iniciou uma guerra comercial contra o Brasil a pedido da família Bolsonaro.
Esse é o dilema que a direita brasileira sempre enfrentou ao se alinhar de forma muito visível a Washington: a esquerda transforma esse alinhamento em prova de que não se pode confiar à direita a defesa do interesse nacional. Isso aconteceu na década de 1950, quando conservadores foram rotulados como marionetes do imperialismo ianque. Aconteceu durante a ditadura, quando o modelo de desenvolvimento do regime foi criticado por enriquecer multinacionais estrangeiras em detrimento do Brasil. E está acontecendo agora, à medida que o entusiasmo de Bolsonaro em buscar o apoio de Washington é criticado por colocar os interesses de outro país em primeiro lugar.
Nada disso significa que as intervenções de Trump sejam irrelevantes. Em uma disputa tão acirrada, a pressão de Washington poderia alterar as margens, como ocorreu em outros lugares da América Latina durante a era Trump. Mas as forças que impulsionam a eleição vão muito além de qualquer coisa vista na Truth Social. A economia brasileira, embora resiliente, continua frustrando expectativas, com taxas de juros elevadas e preocupações persistentes quanto à dívida pública. A segurança pública é outra fonte de apreensão; a criminalidade figura entre as principais preocupações dos eleitores. E o público, embora ainda polarizado, começa a demonstrar sinais de cansaço. Pesquisas recentes indicaram que 20% dos eleitores afirmaram não se identificar nem com Lula nem com seu principal adversário.
As viagens frequentes de Bolsonaro aos Estados Unidos visam claramente projetar influência internamente, reforçando a imagem de um presidente que impõe respeito à superpotência do hemisfério. No entanto, cada oportunidade de foto no estilo MAGA serve de munição para o argumento central de Lula: o de que o grupo de Bolsonaro trocou a dignidade e a democracia do Brasil pela aprovação americana. Quem quer que saia vitorioso em outubro, a velha questão permanecerá: quem realmente fala pelo Brasil — e quem o vendeu?

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