Matt McManus
![]() |
| Retrato de Thomas More feito por Hans Holbein, o Jovem, em 1527 (da The Frick Collection) |
Resenha de Utopia for Our Century: A Manifesto of Hope, de David Albertson e Jason Blakely (Yale University Press, 2026)
A impossibilidade inquietante de uma sociedade que esteja à altura dos nossos ideais declarados pode ser dolorosa quando confrontada com as sociedades reais, que ficam tão aquém deles. É por isso que o sonho da utopia — ou "lugar nenhum" — perturba o sono de tantos pensadores há tanto tempo que pode acabar parecendo um pesadelo. Diante da hipocrisia de um mundo onde a crueldade muitas vezes parece ser o objetivo, que direito temos de imaginar que as coisas poderiam ser melhores? Como podem pessoas supostamente sábias e inteligentes sonhar com a utopia, quando a sabedoria e a inteligência apontam para a sua impossibilidade?
O novo livro de David Albertson e Jason Blakely, Utopia for Our Century: A Manifesto of Hope, apresenta uma história reflexiva daquelas almas audazes que sonharam com algo melhor. Mas, mais do que uma história, a obra busca analisar o valor político e ideológico do pensamento utópico e contestar a ideia de que se trata apenas de um desejo ingênuo. Albertson e Blakely encontram muito a admirar nos autores utópicos, vendo-os como "sonhadores virtuosos, que viveram realidades pelo menos tão sombrias e aterrorizantes quanto a nossa, mas o fizeram com uma esperança inabalável". Em seu melhor momento, os utopistas enfatizavam a esperança sem garantias — uma postura sábia que traça um caminho intermediário entre o otimismo cego e a inércia resignada de um falso "realismo".
O arquétipo deles é Thomas More, cuja obra Utopia, publicada no século XVI, batizou o conceito. Para Albertson e Blakely, More nos oferece uma visão da personalidade dos utopistas. Eles não são os otimistas ingênuos das caricaturas.
Longe de ser um pensador meramente especulativo e abstrato, More é um dos poucos grandes filósofos a ter uma carreira política pública genuína, e isso durante um período particularmente desafiador. Ele serviu como Lorde Chanceler da Inglaterra sob o comando do amoral e cruel Henrique VIII. Foi uma época tumultuada para o país. Henrique rompeu com Roma e declarou-se chefe da Igreja da Inglaterra para anular seu casamento e unir-se a outra mulher. Isso gerou forte resistência, à qual Henrique respondeu com repressão violenta. Tal repressão acabou atingindo More, um católico devoto, que foi levado a julgamento por se recusar a reconhecer a supremacia religiosa de Henrique. More manteve-se firme em suas convicções, o que levou à sua execução em 1535.
Albertson e Blakely compreendem que a trágica imersão de More na Realpolitik é parte do que inspirou sua adesão ao utopismo. Sua definição irônica de "utopia" como "nenhum lugar" não visa apenas demonstrar a natureza especulativa de seu pensamento. More chama a atenção para o fato de que nenhum lugar na Terra chega perto de concretizar a justiça, embora muitas elites governantes — que detêm o poder de mudar as coisas — afirmem preocupar-se profundamente em ser justas. Em uma passagem memorável, More descreve um diálogo entre Raphael Hythloday — o viajante que visitou Utopia — e um advogado anônimo. O advogado diz preocupar-se com a lei e a ordem, argumentando que a única maneira de preservá-las é por meio de punições brutais. Hythloday observa que Utopia é um lugar muito mais seguro, em grande parte por ser uma sociedade muito menos desigual, onde a propriedade é amplamente compartilhada e há poucos pobres. Além disso, as punições para crimes como o roubo são muito mais brandas do que na Inglaterra, refletindo ainda mais o compromisso humanista daquela sociedade. Com um "humor mordaz", Hythloday observa que realistas como o advogado encurralam os pobres em uma situação impossível: "primeiro transformando-os em ladrões e, depois, punindo-os por isso". Em vez de empreender reformas para alcançar a paz e a justiça que o advogado afirma desejar e nas quais diz acreditar, ele insiste obstinadamente na ilusão de que "a Inglaterra poderia resolver os problemas da pobreza por meio do encarceramento e da execução (infelizmente, o estratagema continua funcionando perfeitamente)".
Nesse sentido, o utopismo não é uma fantasia sobre mundos impossíveis, mas um espelho implacável que reflete o quanto falhamos em viver de acordo com os princípios que dizemos defender. Ademais, ao não se comprometerem com a justiça em nome do "realismo", as elites governantes são responsáveis por gerar a própria corrupção que apontam como o maior obstáculo para melhorias. More queria expor como esse apego ideológico ao status quo, com todas as suas falhas, constituía uma das principais barreiras para tornar as coisas melhores. "A Utopia de More submete gradualmente seus contemporâneos europeus ao escrutínio do 'e se...' e ao seu poder de desmascaramento", como afirmam Albertson e Blakely. "Atitudes comuns da época em relação ao encarceramento, à propriedade privada, à educação e à assistência médica são expostas, uma a uma, como inviáveis, insustentáveis e, de fato, irrealistas à luz das conquistas de Utopia." E, no entanto, em apenas alguns séculos, tudo isso mudou: “Quantas das políticas tidas como evidentes na Londres de More perduraram até o nosso século — seja a pena capital por roubo ou o direito divino dos reis? A resposta é clara: elas desapareceram.”
A pós-modernidade; ou, a lógica cultural das utopias monstruosas
Ao contrário da fama de idealistas que temos, muitos dos pensadores mais perspicazes da esquerda manifestaram profundo ceticismo em relação ao utopismo. Isso começou, naturalmente, com Karl Marx, que ficou famoso por repreender socialistas com quem discordava, rotulando-os pejorativamente de "utópicos". Em seus momentos de maior aspereza, Marx ridicularizava o utopismo, comparando-o à redação de livros de receitas para as cozinhas do futuro. Tais esquemas não passavam de uma indulgência especulativa e a-histórica (embora o próprio Marx frequentemente se permitisse tal prática). Seguindo seus passos, muitos marxistas ortodoxos insistem que o socialismo deve ser "científico"; caso contrário, não é socialismo.
Marxistas mais reflexivos adotam uma abordagem diferente. Em sua obra seminal Archaeologies of the Future, o saudoso e brilhante Fredric Jameson observa como a ficção científica utópica tem sido, muitas vezes, um gênero construtivo para que progressistas imaginem como seriam futuros melhores, visando concretizá-los. O gênero, é claro, teve início com o próprio Thomas More, a quem Jameson descreve como um satírico do poder essencialmente progressista, oferecendo um "comentário ponto a ponto, e contundente, sobre os assuntos e a situação da Inglaterra". A literatura utópica perdurou sob diversas formas, à medida que autores — de Edward Bellamy a Ursula K. Le Guin — utilizavam a ficção científica tanto para criticar o status quo quanto para formular hipóteses sobre um futuro melhor. Contudo, Jameson acaba expressando cautela quanto ao poder transformador do gênero utópico, sugerindo que ele pode ter se esgotado no século XXI pós-moderno. Ele observa como, hoje, o gênero utópico praticamente desapareceu, dando lugar a retratos sombrios do futuro, nos quais é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Um sinal revelador é que mesmo obras que começam apresentando utopias geralmente terminam por revelar que elas não são tudo aquilo que prometiam ser. O mundo de Barbie (2023), aparentemente idílico e cor-de-rosa, revela-se marcado por uma angústia existencial reprimida e por antagonismos de gênero. Séries mais recentes de Star Trek, como Picard e Discovery, pegam o futuro cosmopolita e luminoso prometido pela Federação Unida dos Planetas de Gene Roddenberry e mostram que ele dependia, secretamente, de manipulação oculta, da exploração de marginalizados e de muitas outras coisas.
Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais idealista é um realista lúcido.
Discordando de Jameson, Albertson e Blakely veem o gênero utópico como algo muito vivo, porém em situação precária. Esse é um problema grave, visto que a necessidade de utopias “construtivas” é urgente. Albertson e Blakely são muito críticos em relação ao populismo de direita e aos estragos que ele provoca, mas argumentam que grande parte disso deriva das próprias aspirações utópicas da direita (frequentemente negadas por ela mesma). Entre elas está o sonho nacionalista de um ethnos unificado, que Albertson e Blakely descrevem como um “tipo peculiar de utopia fracassada”. Os nacionalistas evocam um “espírito imaginado da nação que cria uma ilusão de unidade cultural” — uma ilusão que pretende basear-se na história real, ao mesmo tempo em que eles minimizam constantemente ou resistem de forma militante a fatos históricos que não se coadunam com os mitos patrióticos que desejam propagar. Albertson e Blakely observam, com ironia, que os nacionalistas precisam constantemente “sustentar a falsidade óbvia de que o Geist [espírito nacional] fictício permanece puro, livre de influências de culturas sobrepostas, constituintes ou vizinhas, e que jamais muda com o passar do tempo”.
Eles também identificam muitas das mesmas fantasias operando na "esperança utópica mais febril" da direita: a de que um dia poderíamos alcançar a visão "mais imaculada, geométrica e isenta de atritos do 'livre mercado'". Gerações inteiras de americanos viveram como se o mercado fosse a única utopia tolerável. Albertson e Blakely são ferozmente críticos dessa visão — e com razão —, classificando-a como uma "utopia monstruosa" por exigir pouco das pessoas e oferecer ainda menos em troca, tudo isso enquanto o sistema monetário é tratado como uma "divindade menor".
Eu iria ainda mais longe do que Albertson e Blakely, sugerindo que a concepção meritocrática do capitalismo — a ideia de que cada um será recompensado de acordo com o que merece — não é apenas uma visão utópica ruim; é a utopia mais fantasiosa e irrealista já concebida. Filósofos da Antiguidade tiveram a sabedoria de aceitar que apenas a mão muito visível e onisciente de Deus poderia recompensar as pessoas com base no que mereciam, e isso apenas em um reino perfeito além deste mundo. Apenas os conservadores americanos imaginaram um mundo tão fantástico a ponto de a mão invisível e irracional do mercado recompensar as pessoas com base no que mereciam, e nesta vida. Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais idealista parece um realista lúcido, visto que eles apenas imaginavam ser possível dar às pessoas o de que precisavam, deixando em aberto a questão do que elas mereciam.
A utopia é possível hoje?
Em contrapartida, Albertson e Blakely veem com mais simpatia as utopias de esquerda, mas acreditam que elas permanecem limitadas por certas restrições fundamentais. Eles demonstram certa simpatia pelo liberalismo, ao mesmo tempo em que destacam como o "liberalismo do pós-guerra estagnou" devido a uma regressão ao "libertarismo de direita, por vezes chamado de neoliberalismo". Essa regressão ao neoliberalismo "traiu os ideais originais da tradição [liberal]" de alcançar liberdade, igualdade e solidariedade para todos. Albertson e Blakely também criticam a tradição marxista por não reconhecer que as verdadeiras revoluções nunca começam na esfera econômica. Em vez disso, precisamos de uma transição de valores, buscando padrões éticos mais elevados. Eles não detalham exatamente o que isso implicaria, mas suas referências elogiosas a cristãos humanistas e de esquerda — como o próprio More, Martin Luther King Jr. e o falecido Alasdair MacIntyre — oferecem muitas pistas.
O que torna a posição de Albertson e Blakely interessante é a defesa de uma visão utópica que seja, simultaneamente, liberal, anticapitalista e profundamente espiritual. Desnecessário dizer que essa é uma combinação difícil de alcançar — embora se possa perguntar: de que serve uma visão utópica sem ambição? Infelizmente, os autores não se esforçam muito para detalhar essa ideia, mesmo apresentando exemplos comoventes nas trajetórias de More e King. Aqui, meus instintos marxistas entram em cena, levando-me a suspeitar que atos individuais de graça simplesmente não serão suficientes. A ausência de uma teoria clara sobre o poder — algo que complementasse as condenações veementes à injustiça e a crítica às camisas de força ideológicas — constitui uma limitação real da visão deles.
Ainda assim, Albertson e Blakely merecem reconhecimento pela força e pela ousadia — até mesmo pela audácia — de sua visão. Eles certamente têm razão ao afirmar que uma forma de utopismo pode ser mais realista do que a adesão irrefletida a um status quo que não funciona. Afinal, fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes não é sinal de sabedoria. É loucura.
Colaborador
Matt McManus é professor assistente no Spelman College. Ele é autor de The Political Right and Equality e The Political Theory of Liberal Socialism, entre outros livros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário