7 de agosto de 2026

A esquerda não pode vencer sem uma visão internacionalista

O entusiasmo com a globalização no início dos anos 2000 deu lugar a um foco intenso nas fronteiras nacionais e na competição entre Estados. Mas a esquerda não pode se dar ao luxo de abandonar sua própria forma de internacionalismo, baseada na ideia de emancipação humana universal.

Salar Mohandesi

Jacobin

O objetivo da esquerda não é simplesmente redistribuir riqueza ou combater a discriminação racial no próprio país; é abolir toda forma de opressão e dominação em toda parte. Por definição, a emancipação universal precisa ser global ou não existirá. (Yuri Cortez / AFP via Getty Images)

À medida que entramos em uma nova era de guerras imperialistas, o internacionalismo retorna com força à pauta da esquerda. Mas o que é o internacionalismo? E por que ele é importante?

A preocupação da esquerda com o "internacionalismo" decorre do fato de que seu projeto político sempre esteve vinculado, de alguma forma, ao que se poderia chamar de emancipação universal. Emancipar significa libertar alguém ou algo de um poder, e a emancipação universal representa a libertação de todos de toda forma de dominação.

O objetivo da esquerda, em outras palavras, não é simplesmente redistribuir riqueza, expandir serviços estatais ou combater a discriminação racial no próprio país; é abolir toda forma de opressão e dominação em toda parte. Por definição, a emancipação universal precisa ser global ou não existirá.

Um mundo de estados

Mas o globo não é um espaço único, homogêneo e uniforme. Os povos do mundo não estão sujeitos a uma única entidade administrativa, a um único conjunto de leis ou a uma única força policial. Tampouco estão sob a autoridade de uma classe indiferenciada de governantes.

Em vez disso, o planeta está dividido em muitas unidades políticas distintas que, em grande medida, assumiram a forma de Estados-nação. São precisamente esses Estados-nação independentes que assumiram a responsabilidade principal pela manutenção da dominação no mundo atual. Isso não significa que o Estado seja a única fonte de dominação, mas sim que os Estados são os principais agentes de imposição dessa ordem mundial desigual.

Quer se lute contra o racismo, o patriarcado ou o capitalismo, será inevitável confrontar as leis, a polícia, os tribunais e as prisões do Estado. Como o poder estatal está distribuído por tantos Estados-nação diferentes, a luta pela emancipação assume a forma de uma multiplicidade de combates distintos, travados dentro e contra cada um dos muitos Estados-nação espalhados pelo globo.

Essa é uma das razões pelas quais a esquerda, historicamente, tende a falar em "internacionalismo" em vez de, por exemplo, "cosmopolitismo". O termo serve para lembrar que a ambição de refazer o mundo precisa levar em conta a realidade incontornável de que as principais unidades políticas da ordem mundial vigente são os Estados-nação. Mesmo no mundo atual, supostamente globalizado e repleto de ONGs, pactos militares, corporações transnacionais e instituições internacionais, o caminho para o plano planetário passa necessariamente pelo confronto com o Estado-nação.

O internacionalismo não é um imperativo moral de ajuda aos necessitados, nem tampouco uma estratégia única e pronta para libertar o mundo. Ele designa, antes, a ampla gama de problemas políticos que emergem da tensão entre a necessidade de promover mudanças em escala global e a exigência estratégica de tomar os muitos Estados-nação do mundo como os principais campos de batalha.

Cruzando fronteiras

Nenhum Estado-nação jamais governou uma população única e homogênea. Isso ocorre, em grande parte, porque os Estados foram historicamente impostos a populações já heterogêneas. Essas pessoas não cruzaram as fronteiras para entrar nos novos Estados-nação; foram as fronteiras recém-inventadas desses Estados-nação que as "cruzaram".

Esses Estados-nação jamais podem ser hermeticamente fechados: milhões de pessoas atravessam suas fronteiras regularmente, e muitos países abrigam imigrantes vindos de outros Estados. Isso reforça a heterogeneidade fundamental existente no cerne de todo Estado-nação. Muitos países são hoje compostos, em grande medida, por pessoas cujos ancestrais nasceram em outras partes do mundo.

Atualmente, os blocos dominantes que governam os países do mundo tentam neutralizar o descontentamento popular canalizando a indignação política para um nativismo xenofóbico.

Visto que todo Estado abriga uma população diversa, uma mudança emancipatória significativa depende de encontrar formas de unir pessoas diferentes em uma luta comum — pessoas que nasceram em diferentes Estados-nação, falam línguas distintas, residem em locais diferentes, vivem em comunidades diversas e se preocupam com questões distintas.

No entanto, o bloco dominante de cada país sempre se empenha em impedir que essa unidade seja forjada. A divisão é o meio pelo qual os governantes mantêm sua dominação, e a maneira mais eficaz de promover a desunião é mobilizar categorias políticas inventadas — como raça, nacionalidade ou, especialmente, cidadania — para transformar essas diferenças reais em divisões intransponíveis.

Atualmente, os blocos dominantes que governam os países do mundo tentam neutralizar o descontentamento popular canalizando a indignação política para um nativismo xenofóbico. Essa estratégia pode até mesmo voltar imigrantes uns contra os outros, inclusive aqueles provenientes do mesmo país. Os Estados Unidos são, provavelmente, o melhor exemplo disso, mas não são, de forma alguma, um caso único.

Assim, pode-se dizer que o internacionalismo começa no interior do próprio Estado-nação. Cada Estado-nação governa uma população heterogênea e reclassifica juridicamente essas diferenças como questões de nacionalidade. Uma vez que essas divisões "nacionais" são utilizadas para colocar as pessoas umas contra as outras dentro de um Estado fundamentalmente "multinacional", a atuação política eficaz no âmbito de um Estado-nação é, desde sempre, internacional.

Soluções globais

Além de impedir a unificação dentro de um determinado Estado-nação, a divisão do globo em fronteiras nacionais, identidades nacionais e Estados-nação torna muito mais difícil organizar um movimento unificado que transcenda as fronteiras. Embora essas divisões acentuadas não transformem todos em xenófobos, elas tendem a estreitar o horizonte político de uma forma que incentiva as pessoas de qualquer país a priorizar questões internas em detrimento das internacionais.

A divisão do globo em fronteiras nacionais, identidades nacionais e Estados-nação torna muito mais difícil organizar um movimento unificado que transcenda as fronteiras.

Isso é especialmente verdadeiro nos centros de poder de países imperialistas isolados, como os Estados Unidos, onde o sistema político é concebido para cultivar uma cultura de individualismo implacável. Quando as pessoas nesses países se politizam, isso ocorre frequentemente — embora nem sempre, é claro — porque acontecimentos dentro de seu próprio Estado-nação tiveram um impacto direto em suas vidas. Os preços dos combustíveis sobem, os alimentos ficam caros demais, empregadores monitoram suas redes sociais, inundações sem precedentes danificam suas casas ou a polícia de imigração perturba seus bairros.

Essas são todas razões legítimas para se voltar à política de esquerda, e elas estão profundamente entrelaçadas com processos globais. No entanto, as dimensões internacionalistas dessas insatisfações são deliberadamente obscurecidas. O desafio é conectar os pontos.

Aqueles que se preocupam com a emancipação precisam explicar que as questões locais estão enraizadas em um contexto global e, portanto, só podem ser resolvidas globalmente. Eles precisam convencer as pessoas de que o que acontece no exterior as afeta e que, assim, seus destinos estão ligados aos de milhões de indivíduos que jamais conhecerão.

Uma pluralidade de lutas

Uma vez que as pessoas decidem se envolver com lutas em outros lugares, há muito que podem fazer para ajudar. Em quase todos os casos, aqueles que combatem a opressão e a dominação se verão em grande desvantagem frente ao bloco dominante de seu Estado. Esse bloco controla vastos arsenais, forças policiais treinadas, recursos financeiros vultosos e extensos aparatos midiáticos.

A solidariedade pode alterar a correlação de forças. Pode ajudar camaradas que lutam em outros países a sentirem que não estão sozinhos. Pode divulgar suas lutas, atrair a atenção internacional para as injustiças que enfrentam e impedir a intervenção de outros Estados. Pode fornecer-lhes fundos, informações, equipamentos, treinamento, bases, consultores e até mesmo voluntários.

A melhor maneira de apoiar lutas no exterior, no entanto, não é apenas fornecer ajuda, mas também travar lutas internamente. Quando ativistas antiguerra, na década de 1960, perguntavam o que podiam fazer para ajudar o povo do Vietnã, os revolucionários vietnamitas costumavam dizer: façam a revolução em seu próprio país. Che Guevara traduziu essa ideia de forma célebre como a criação de "dois, três, muitos Vietnãs". A solidariedade não consiste simplesmente em estender a mão a pessoas que lutam em outros lugares, mas em multiplicar as lutas em casa.

Cada país possui seu próprio terreno de luta distinto, o que, por sua vez, molda a forma como as lutas se desenvolverão nesse contexto.

Se a única maneira de mudar o mundo é travar lutas nos diversos Estados-nação que compõem o globo, então a questão é como coordenar essa pluralidade de lutas. Países diferentes possuem leis, histórias, culturas populares, tradições intelectuais, sistemas estatais, organizações, instituições, economias e forças políticas distintos. Cada país, em outras palavras, tem seu próprio terreno de luta, o que, por sua vez, molda a forma como as lutas se desenvolverão nesse contexto.

Isso não significa que as lutas em diferentes países estejam completamente isoladas umas das outras. Aqueles que participam dessas lutas quase sempre estão cientes da existência uns dos outros e, por vezes, mantêm contato. No entanto, a unificação dessas lutas heterogêneas — travadas em tantos terrenos nacionais distintos — em um movimento internacional comum nunca é algo garantido. Como a esquerda pode coordená-las?

Internacionalismo de cima

A esquerda não é a única força a se organizar além das fronteiras nacionais. Os blocos dominantes dos diversos Estados também coordenaram historicamente seus esforços, especialmente quando confrontados com ameaças revolucionárias.

O desafio representado pelo comunismo após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, forçou os diversos blocos dominantes do mundo a deixar de lado suas diferenças e a apoiar uns aos outros. Para conter a ameaça comum, eles estabeleceram uma série de alianças interestatais — econômicas, financeiras, diplomáticas e militares — coordenadas pelos Estados Unidos.

Os Estados Unidos não apenas criaram as condições para a expansão incessante do capitalismo, mas também sustentaram Estados vulneráveis ​​que enfrentavam lutas de libertação.

Muitos desses governantes aceitaram voluntariamente a liderança dos EUA como o principal guardião da ordem mundial capitalista desigual. Os Estados Unidos não apenas criaram as condições para a expansão incessante do capitalismo, mas também sustentaram Estados vulneráveis ​​que enfrentavam lutas de libertação, intervieram diretamente contra movimentos emancipatórios e derrubaram revolucionários após a tomada do poder.

Os Estados Unidos já não são tão poderosos quanto antes, mas continuam sendo a força militar dominante no mundo e mantêm a capacidade — e a vontade — de intervir em qualquer lugar do globo para esmagar lutas emancipatórias. Enquanto existir essa aliança imperialista liderada pelos EUA, as lutas emancipatórias em toda parte estarão ameaçadas.

Mesmo que forças de esquerda consigam derrubar um Estado repressivo, elas ainda estarão sob a ameaça de golpes, sanções, sabotagem, ataques aéreos e isolamento diplomático. A necessidade de sobreviver a essas ameaças provavelmente as forçará a adotar medidas draconianas, o que, por sua vez, comprometerá seus objetivos emancipatórios. Isso poderá levá-las a restringir liberdades civis para impedir a subversão, realocar recursos escassos para a defesa e tratar a dissidência como conspirações organizadas a partir do exterior.

O que, então, devem fazer as esquerdas de todo o mundo para conter com sucesso a investida inevitável dessa aliança imperial liderada pelos EUA?

Rivalidades interestatais

Embora praticamente todos os blocos dominantes atuais estejam empenhados em impedir um futuro sem dominação, e embora esses blocos frequentemente se coordenem para manter sob controle os movimentos emancipatórios em toda parte, isso não significa que mantenham as melhores relações entre si. Uma das funções da aliança imperial do pós-guerra, liderada pelos EUA, era impor disciplina a esses blocos dominantes em constante competição, para que pudessem resistir melhor à ameaça comum representada pelos movimentos emancipatórios. Hoje, essa aliança está se fragmentando, e guerras entre blocos dominantes rivais estão se tornando mais frequentes.

Os Estados Unidos continuam sendo a maior ameaça aos movimentos emancipatórios em toda parte.

Além disso, existem hoje alguns Estados-nação que são capitalistas, patriarcais, desiguais e, em certos casos, autoritários, mas que, não obstante, se opõem aos Estados Unidos e à sua aliança imperial. Isso coloca um dilema para aqueles comprometidos com a emancipação universal. Por um lado, o objetivo de acabar com toda forma de dominação exige a derrubada desses Estados desiguais, mesmo que eles rejeitem a hegemonia imperial dos EUA. Por outro lado, os Estados Unidos continuam sendo a maior ameaça aos movimentos emancipatórios em toda parte.

Embora as esquerdas estejam atualmente fracas demais para intervir de forma decisiva nessas rivalidades interestatais, seus compromissos internacionalistas levantam a questão de como elas devem se posicionar diante de situações políticas tão espinhosas. Será que apoiar levantes populares contra Estados em conflito com os EUA cria, inadvertidamente, pretextos para que Washington invada esses países? Será que a necessidade de resistir ao inimigo comum — o imperialismo dos EUA — acaba por dar suporte a esses regimes desiguais e anti-EUA? Haveria outra saída?

O problema do internacionalismo

O Estado-nação é incompatível com a emancipação. A função primordial do Estado é manter o status quo desigual; ele faz isso sustentando o bloco dominante, absorvendo desafios internos, reprimindo lutas de libertação, dividindo a população e eliminando o espaço para a experimentação política. Portanto, quem luta pela emancipação precisa encontrar uma saída para além do Estado-nação.

O internacionalismo aponta, assim, para um último problema estratégico fundamental inerente à política emancipatória atual. Como resume Richard Seymour: a emancipação universal significa superar o Estado, mas a divisão do mundo em Estados-nação soberanos implica considerar estrategicamente esses Estados como o principal palco de luta.

Colaborador

Salar Mohandesi é professor associado de História no Bowdoin College e autor de Red Internationalism: Anti-Imperialism and Human Rights in the Global Sixties and Seventies.

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