25 de agosto de 2026

A guerra envolvendo o Irã mostra que a estratégia energética da China está funcionando

Esperava-se que a guerra com o Irã expusesse a vulnerabilidade da China em relação ao petróleo, mas as coisas não aconteceram exatamente assim.

Michal Meidan
Michal Meidan é o chefe de pesquisas sobre energia na China no Oxford Institute for Energy Studies.

Arne Bellstorf

Quando a guerra do Irã começou, no final de fevereiro, a China parecia vulnerável.

A China, maior importadora de petróleo bruto do mundo, dependeu nos últimos anos de importações para suprir mais de 70% de seu consumo, sendo que cerca de metade desse volume provinha do Oriente Médio. A ameaça de bloqueio ao Estreito de Ormuz — ocorrida meses depois de os Estados Unidos terem interrompido o fluxo global de petróleo proveniente da Venezuela — parecia colocar os líderes chineses diante de um de seus maiores temores estratégicos: um choque petrolífero paralisante que eles não teriam como controlar.

No entanto, a ofensiva do presidente Trump contra o Irã acabou sendo uma revelação positiva para a China. O país absorveu uma das mais severas interrupções no fornecimento de petróleo da era moderna, demonstrando que anos de preparação haviam mitigado uma enorme vulnerabilidade — e uma potencial fonte de influência dos EUA sobre Pequim em um eventual confronto geopolítico.

A China foi autossuficiente em petróleo até 1993, quando as necessidades crescentes de sua economia em franca expansão a transformaram em importadora líquida. As importações de petróleo dispararam nos anos seguintes, levando o presidente Hu Jintao a alertar, em 2003, que potências hostis poderiam tentar controlar o Estreito de Malaca — a rota marítima no Sudeste Asiático por onde passa grande parte do petróleo importado pelo país.

Pequim respondeu com uma estratégia abrangente para reduzir essa exposição. Diversificou as fontes de suprimento para limitar a participação do petróleo vindo do Oriente Médio e começou a constituir o que hoje se estima serem os maiores estoques de petróleo bruto do mundo, equivalentes, grosso modo, aos dos Estados Unidos e do Japão somados. A China tem impulsionado agressivamente a transição dos veículos de passeio de combustíveis fósseis para a energia elétrica — tornando-se, de longe, o maior mercado mundial de veículos elétricos atualmente — e está estendendo esse esforço aos caminhões. A geração de eletricidade depende quase inteiramente de fontes de energia nacionais, como carvão, energia nuclear, hidrelétrica e, cada vez mais, eólica e solar.

Essa estratégia de longo prazo foi submetida a um teste de estresse real com a crise envolvendo o Irã — e, até o momento, foi aprovada.

As interrupções no Estreito de Ormuz fizeram os preços do petróleo dispararem. No entanto, ao contrário do que ocorreu durante a escassez de carvão na China em 2021 — quando o governo instruiu os importadores a garantir suprimentos de energia com urgência —, desta vez não houve pânico. O fluxo de petróleo para a China despencou à medida que os importadores reduziram drasticamente as compras. O país recorreu aos seus estoques e, simultaneamente, restringiu as exportações de combustíveis para transporte, visando manter maior oferta internamente. A alta nos preços dos combustíveis também parece ter levado muitos motoristas chineses a optar pelo transporte público, táxis ou serviços de transporte por aplicativo — muitos dos quais operam com eletricidade.

Como resultado, enquanto alguns governos asiáticos foram forçados a adotar medidas emergenciais drásticas — como racionamento de combustível, aumento de preços e redução de serviços públicos —, a economia chinesa não sofreu perturbações significativas. A contenção nas compras do mercado global de petróleo também aliviou a pressão sobre os preços, poupando o mundo de um choque petrolífero ainda maior e, ironicamente, atenuando as repercussões políticas internas para Trump, ao limitar o impacto nos preços dos combustíveis nos EUA.

A capacidade da China de enfrentar as perturbações no fornecimento de petróleo decorrentes da guerra com o Irã surpreendeu a muitos. Não deveria ter surpreendido; é exatamente para isso que o governo vem se preparando há anos.

Os líderes chineses encaram a energia como uma fonte de poder nacional e geopolítico equiparável à força industrial, tecnológica e militar. Em 2021, eles defenderam que a China se tornasse uma "potência energética" — menos dependente de combustíveis fósseis, mas ainda capaz de fornecer energia abundante e confiável à economia. Mesmo antes do início da guerra, em fevereiro, a mídia controlada pelo Partido Comunista afirmava que alcançar esse objetivo era crucial para que a China "assumisse a iniciativa na disputa entre grandes potências" — uma referência clara à competição com os Estados Unidos em setores estratégicos, como manufatura avançada, centros de dados e inteligência artificial.

O plano energético mais recente da China, adotado este ano, reflete essa ambição. Ele prevê o desenvolvimento de mais fontes de energia renovável, bem como nuclear e hidrelétrica, mantendo o carvão — há muito a espinha dorsal do sistema energético chinês — como uma reserva estratégica fundamental. O país também está investindo pesadamente em novas linhas de transmissão para levar energia de regiões ricas em recursos para as cidades e fábricas que dela necessitam, bem como em baterias e outras capacidades de armazenamento e na modernização da rede elétrica para garantir um suprimento estável de eletricidade.

Os Estados Unidos possuem grandes vantagens energéticas próprias. O país continua sendo uma potência inigualável em petróleo e gás, contando com abundantes reservas internas, capacidade de processamento e exportação em escala gigantesca e grandes reservas estratégicas. No entanto, seu sistema elétrico enfrenta dificuldades para acompanhar o rápido aumento da demanda gerado por uma nova onda de indústrias de alto consumo de energia.

Durante décadas, o poder de influência no setor petrolífero parecia residir nos países que controlavam a oferta — a Opep, a Rússia e outros grandes exportadores, bem como os produtores de xisto dos EUA — e que podiam alterar os preços restringindo ou ampliando o fluxo de produção. A crise no Estreito de Ormuz demonstrou que a China está se tornando um novo tipo de potência energética: uma importadora de petróleo de tal magnitude que consegue influenciar os preços globais da commodity e resistir a perturbações externas.

Embora a dependência da China em relação ao petróleo importado continue significativa, a geopolítica da energia está migrando do controle dos fluxos de petróleo para o controle de sistemas industriais eletrificados. A China detém uma clara vantagem inicial nessa transição, o que fortalece sua posição na disputa industrial e estratégica com os Estados Unidos.

Michal Meidan é a chefe de pesquisa sobre energia na China no Oxford Institute for Energy Studies.

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