4 de agosto de 2026

As vitórias socialistas em Nova York não podem ser descartadas tão facilmente

Democratas de centro tentam minimizar as vitórias socialistas na cidade de Nova York, atribuindo-as a um acaso decorrente da gentrificação e da baixa participação eleitoral. No entanto, foi a própria máquina do Partido Democrata que passou décadas cultivando um eleitorado despolitizado.

Michael Kinnucan

Jacobin

Illapa Sairitupac, Zohran Mamdani e Brad Lander fazem campanha durante as recentes eleições primárias em Nova York. (Adam Gray / Bloomberg via Getty Images)

Nas últimas semanas, democratas de centro têm se esforçado para desmerecer as vitórias da organização Socialistas Democráticos da América (DSA) e de outros grupos progressistas na cidade de Nova York. Eles argumentam que essas vitórias não têm real significado político, pois teriam sido impulsionadas pela gentrificação e ocorreram em um cenário de baixa participação eleitoral. Infelizmente para eles, essa narrativa não passa de uma tentativa de lidar com a frustração da derrota.

Considere um caso específico: o Distrito 54 da Assembleia, que abrange os bairros de Bushwick e Cypress Hills, no Brooklyn. O distrito tem uma população de 130.000 habitantes, incluindo 53.000 democratas registrados. Atualmente, é representado por Erik Dilan, um político da velha guarda ligado à máquina partidária; ele ocupa o cargo desde que venceu a eleição em 2014 e, antes disso, atuou na Câmara Municipal por mais de uma década, a partir de 2002.

A DSA lançou candidatos contra Dilan em duas ocasiões: Samy Nemir Olivares em 2022 (que perdeu) e Christian Celeste Tate em 2026 (que venceu). Em 2022, Nemir Olivares obteve 2.313 votos contra 2.524 de Dilan; em 2026, Tate conquistou 4.054 votos contra 2.479 de Dilan. Antes dessas duas disputas, o último desafio que Dilan enfrentou em primárias foi em 2014, quando derrotou Kim Council por 1.955 votos a 1.305.

Várias observações podem ser feitas a partir desses números. Primeiramente, Dilan recebeu praticamente o mesmo número de votos em 2022 e 2026 — cerca de 2.500. O candidato da DSA perdeu em 2022 com cerca de 2.300 votos; em 2026, a votação da DSA quase dobrou, ultrapassando 4.000 votos, e o candidato da DSA venceu de forma avassaladora.

Em segundo lugar, Dilan representa um distrito que passa por um rápido processo de gentrificação — mas seus eleitores não foram expulsos por esse fenômeno. A julgar pelo mapa eleitoral, trata-se, em grande parte, de proprietários de imóveis em Cypress Hills que não pagam os aluguéis em alta. Ele obteve em 2026 praticamente o mesmo número de votos de 2022 e, em ambos os anos, quase dobrou o maior total de votos que já havia conquistado anteriormente em uma eleição primária.

Em terceiro lugar, ainda assim, não foi um número expressivo de votos. Dilan representou uma comunidade de 130.000 pessoas por mais de vinte anos — tanto na Câmara Municipal quanto na legislatura estadual — contando com o apoio de um total de apenas 2.500 delas em seu melhor momento. Esses 2.500 votos foram apenas o suficiente para mantê-lo no cargo em 2022. Mas, em 2026, outras 1.700 pessoas compareceram às urnas e o tiraram do poder.

Em quarto lugar, quem eram essas cerca de 1.700 pessoas? É plausível que muitas fossem jovens que haviam se mudado recentemente para o distrito e — vejam só — queriam ter voz na forma como sua comunidade era representada. Também é plausível que algumas fossem moradores antigos com queixas antigas, mobilizados pela primeira vez por uma campanha muito forte.

Em quinto lugar, nada disso deveria ter sido um problema para Dilan, pois 1.700 não é um número tão grande de pessoas — não em um distrito com 130.000 habitantes e 53.000 democratas registrados. Os defensores do establishment que buscam justificativas para a derrota têm razão: a participação eleitoral foi baixa. Foi maior do que Dilan já havia enfrentado antes, mas nunca chegou nem perto de 20% do eleitorado. Essa baixa participação deveria ter facilitado as coisas para o titular do cargo. Dilan teve mais de uma década para conquistar uma comunidade de 130 mil pessoas e dar a outras 1.700 delas um motivo para dedicar quinze minutos a ir às urnas e mantê-lo no cargo — e ele não conseguiu. Agora, chegará a vez de outra pessoa.

Essa é uma história muito comum na política de Nova York. O nível de desengajamento cívico e apatia — a falta de interesse ou esperança na política, sobretudo nas esferas estadual e local — é surpreendentemente alto. Nesse contexto, políticos de toda a cidade se mantêm no cargo graças ao apoio ativo de uma minoria ínfima das comunidades que dizem representar, somado à apatia e à despolitização da esmagadora maioria.

Em princípio, esse sistema é extremamente frágil: quando tantos políticos sobrevivem com o apoio de 5% do eleitorado, não deveria ser tão difícil conquistar outros 6%. No entanto, o sistema se mantém estável devido ao acesso dos ocupantes dos cargos a recursos de campanha provenientes de lobistas e do setor imobiliário, bem como ao monopólio da máquina política sobre os mecanismos de viabilização das candidaturas. As barreiras de entrada são tamanhas que a maioria dos políticos no poder raramente enfrenta qualquer tipo de desafio.

O resultado é um sistema que se entende, sociologicamente, como representante da “comunidade” — uma minoria ínfima de moradores do distrito, com perfil mais envelhecido, maior probabilidade de serem proprietários de imóveis e, possivelmente, alguma ligação direta de clientelismo com a máquina política —, mas que, na prática, gera uma política dominada por interesses particulares, na qual políticos sem base social significativa dependem de doadores para sustentar as engrenagens do poder e não enfrentam qualquer pressão de contrapeso vinda da base.

Então surge a DSA, quebra o monopólio de acesso às urnas, causa um impacto pequeno, porém significativo, na despolitização e na apatia do eleitorado e desestabiliza o sistema — e, de repente, ouvimos dizer que as vozes da comunidade estão sendo silenciadas pela política de gentrificação.

Ora, se a comunidade tivesse uma representação significativa — se, num distrito de 130 mil habitantes, algo como dez mil eleitores soubessem dizer o nome de seu deputado estadual e citar uma única coisa que ele tivesse feito por eles —, então a DSA não seria um problema. Mas o establishment criou e se beneficiou, durante décadas, de um sistema de baixíssima participação eleitoral e despolitização; agora, está pagando o preço por isso.

Poder-se-ia esperar que o establishment, se realmente faz questão de representar organicamente a comunidade contra nós, os recém-chegados, dissesse: “Eles nos venceram ao mobilizar 1.700 pessoas a mais para votar. Precisamos encontrar uma maneira de atrair essas pessoas ou de engajar melhor o nosso próprio eleitorado. Com nossas profundas conexões orgânicas com a comunidade, podemos mobilizar 5 mil eleitores e derrotá-los no ano que vem. Vamos ao trabalho”.

Em vez disso, a reação do establishment a mais um ciclo de derrotas inesperadas tem sido reclamar do fato de novos eleitores estarem participando da política local — e de como isso é injusto para com a comunidade (ou seja, eles mesmos), que passou décadas lutando por (leia-se: acomodada confortavelmente no comando d)este distrito.

Da próxima vez que o establishment reclamar que os jovens não votam nem se envolvem, não acredite em uma palavra sequer. Como diz o velho ditado da máquina política de Chicago: “Não queremos ninguém que não tenha sido enviado por alguém”.

Pois bem: eles parecem empenhados em perder, e merecem isso.

Colaborador

Michael Kinnucan é membro da Democratic Socialists of America e mora no Brooklyn.

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