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25 de agosto de 2026

Depois de Petro

O novo presidente da Colômbia.

Nick MacWilliam

Sidecar


Em 10 de agosto, às 7h34, um terremoto atingiu o oeste da Colômbia, matando mais de 300 pessoas e deixando muitas outras desabrigadas. Cali, a terceira maior cidade do país, foi duramente atingida; três dias antes, o presidente Abelardo de la Espriella havia realizado ali sua cerimônia de posse — uma violação controversa da regra constitucional que determina que os presidentes assumam o cargo no Congresso Nacional, em Bogotá. Enquanto as pessoas buscavam desesperadamente por sobreviventes entre os escombros, o Ministério das Relações Exteriores anunciou o reconhecimento oficial, pelo novo governo, da soberania israelense sobre as Colinas de Golã ocupadas, bem como da reivindicação do Marrocos sobre o Saara Ocidental, revertendo as políticas da administração anterior, de Gustavo Petro. O momento escolhido para o anúncio não ajudou a dissipar a percepção de que o governo de de la Espriella priorizará os interesses dos EUA e de Israel em detrimento dos da população. Durante uma coletiva de imprensa de emergência naquela tarde, de la Espriella foi filmado rindo e mandando beijos. "Estamos diante de uma tragédia nacional", lembrou-lhe seu vice-presidente.

Além de mudar o local de sua posse, de la Espriella também pretende que a cidade de Barranquilla, no norte do país — onde possui laços familiares —, funcione como uma das principais sedes do governo. Ambas as iniciativas visam apresentar sua eleição como uma ruptura com o poder estabelecido — representado, segundo ele, tanto pela direita tradicional quanto por uma esquerda historicamente vitimada pela violência que, contra todas as expectativas, chegou ao governo em 2022. Assim como ocorreu em outros lugares, a postura populista de de la Espriella mostrou-se eficaz. No segundo turno, realizado em junho, ele derrotou por uma margem estreita o sucessor pretendido por Petro, Iván Cepeda — senador de esquerda e ativista de direitos humanos, filho do senador comunista Manuel Cepeda, assassinado por paramilitares em 1994.

A vitória de de la Espriella mantém a tendência recente de eleição de governos de extrema-direita na América Latina; governos que, embora representem os mesmos interesses de classe, em grande parte não estão vinculados ao conservadorismo tradicional. A maioria dos analistas esperava que o partido Centro Democrático — construído em torno do culto à personalidade do ex-presidente Álvaro Uribe (2002–2010) — fosse o principal opositor de extrema-direita ao Pacto Histórico de Petro e Cepeda; de fato, alguns setores da esquerda chegaram a demonstrar otimismo, acreditando que de la Espriella poderia dividir o voto da direita e garantir a vitória de Cepeda ainda no primeiro turno. No entanto, enquanto a candidata do Centro Democrático, Paloma Valencia, tentava suavizar a imagem de linha-dura do "uribismo" para atrair eleitores de centro, de la Espriella a superou pela direita, conquistando o apoio em massa dos eleitores conservadores. O resultado surpreendente do primeiro turno, no qual de la Espriella obteve 43,7% dos votos em uma disputa com 13 candidatos, foi um duro golpe tanto para a esquerda quanto para a direita tradicional.

Assim como ocorreu com Noboa no Equador ou Kast no Chile, de la Espriella capitalizou o receio público quanto à percepção de deterioração da segurança, escolhendo estrategicamente para o partido que fundou em 2024 o nome "Defensores da Pátria". No campo econômico, sua campanha argumentava que as políticas do Pacto Histórico contrárias ao capital baseado em combustíveis fósseis estavam prejudicando as famílias de baixa renda. A promessa de se opor ao aborto e à parentalidade homoafetiva atraiu o eleitorado religioso conservador, um grupo de expressão significativa. Do ponto de vista estratégico, considerando o sistema de representação proporcional da Colômbia, a campanha de De la Espriella concentrou-se em áreas urbanas densamente povoadas. A participação eleitoral foi excepcionalmente alta, atingindo 64%, e seus 12,9 milhões de votos superaram a marca de qualquer candidato presidencial anterior. Embora Cepeda tenha vencido em 18 dos 32 departamentos colombianos, bem como em Bogotá e Cali, sua campanha enfrentou dificuldades em redutos conservadores tradicionais, especialmente no norte do país. Como demonstrou a eleição de Petro em 2022, uma plataforma baseada na construção da paz, na proteção ambiental e na defesa de direitos sociais conquista forte apoio em regiões política e economicamente marginalizadas, como Cauca e Nariño, mas tem menos força em grandes centros urbanos, onde os eleitores são menos afetados pelo conflito e pela negligência estatal.

Como ocorre com muitos que se autodenominam "outsiders", a ascensão de de la Espriella foi viabilizada pela proximidade com o poder. Ele nasceu em uma família abastada de Córdoba, um reduto conservador. Seu pai era juiz; sua mãe, herdeira de uma fazenda de gado. O casal desempenhava um papel de destaque na política regional — seu pai viria a ser coordenador regional da bem-sucedida campanha presidencial de Uribe em 2002, o que ampliou o contato do jovem Abelardo com figuras influentes, tanto dentro quanto fora da legalidade. Ele passou a casa dos vinte anos convidando comandantes das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) — o maior grupo paramilitar do país — para palestrar em fóruns universitários, ao mesmo tempo em que fazia campanha contra a extradição deles; essa tática era favorecida por certos círculos poderosos para impedir que ex-aliados testemunhassem sobre a conivência da elite em atrocidades. Uma investigação ordenada pela Suprema Corte em 2007 sobre a Fundação Iniciativas para a Paz (FIPAZ), de Abelardo, devido às suas ligações com paramilitares, foi barrada pelo Procurador-Geral, um amigo pessoal.

Após mudar-se para Miami e habilitar-se como advogado, de la Espriella defendeu narcotraficantes e obteve a cidadania americana. Ele cultivou um estilo chamativo, adequado ao meio conservador latino de Miami: dentes reluzentes, barba impecável e ternos ajustados ao corpo. De volta à Colômbia, contou histórias em programas de entrevistas sobre como matava gatos com fogos de artifício — algo que ele alegou ser apenas uma brincadeira quando as imagens ressurgiram durante a campanha. As ofensas misóginas e homofóbicas, os tons autoritários e a promessa de "aniquilar a esquerda" jamais foram retratados.

Depois de liderar as pesquisas na fase de pré-campanha, Cepeda obteve a marca inédita de 12,7 milhões de votos — 1,5 milhão a mais do que o total que garantiu a vitória de Petro em 2022 —, com uma margem de derrota inferior a 1%. No entanto, sua campanha cometeu vários erros evitáveis: demorou a diversificar a atuação nas redes sociais e concentrou-se excessivamente nos já convertidos; além disso, a postura ponderada de Cepeda acabou ofuscada pela combatividade inflamada — que garantia alta audiência — tanto de Petro quanto de de la Espriella. Seu desempenho expressivo pode justificar uma nova tentativa em 2030. Mas, por enquanto, Cepeda — um homem compassivo e digno — terá de continuar a luta a partir da oposição.

Os índices de aprovação de Petro são altos para um presidente em fim de mandato, refletindo as conquistas notáveis ​​de seu governo. Os sindicatos saudaram um projeto de lei de reforma trabalhista que formalizou trabalhadores da gig economy e do setor de cuidados, aumentou a remuneração por horas extras, fortaleceu contratos, estabeleceu salários obrigatórios para aprendizes, restringiu a terceirização e impôs uma jornada semanal de 42 horas. Mais de meio milhão de hectares de terras produtivas foram redistribuídos para famílias rurais, em comparação com apenas 13.000 na gestão anterior. Uma demanda histórica foi atendida com o reconhecimento da população camponesa como "sujeito de direitos", garantindo acesso à terra, produção de alimentos e investimentos estatais nas comunidades. O governo proibiu o fracking e a concessão de licenças para exploração de combustíveis fósseis. Internacionalmente, Petro promoveu a integração e a autonomia regionais, restabeleceu relações diplomáticas com a Venezuela e Cuba e desenvolveu o comércio Sul-Sul, com as exportações para a África dobrando de volume. Sua postura em relação a Gaza tornou-o uma figura de destaque global no movimento pró-Palestina. Embora os avanços legislativos estejam sob ameaça — de la Espriella derrubou a proibição do fracking e planeja expandir a extração de petróleo e gás, enquanto os sindicatos se preparam para um ataque às conquistas duramente obtidas —, a força do Pacto Histórico no Congresso deve impedir uma reversão total.

No entanto, apesar dessa resistência, a esquerda acabou não conseguindo garantir a continuidade do governo. Petro assumiu o cargo com um mandato para mudanças estruturais e redistribuição de renda, mas foi frustrado por um sistema político intransigente. A falta de maioria no Congresso forçou uma aproximação inicial com liberais e conservadores que ruiu como um castelo de cartas, uma vez que os partidos tradicionais resistiram às tentativas de reformular o sistema de livre mercado arraigado e de ampliar o acesso público a serviços essenciais. Para o primeiro governo de esquerda do país, foi uma lição marcante sobre onde reside a lealdade do centro político. O discurso de Petro tornou-se mais à esquerda na tentativa de mobilizar a base do Pacto Histórico, mas esbarrou em um Congresso obstrucionista, forçando concessões a opositores que diluíram ou bloquearam reformas progressistas. Dada a história de conflitos de classe do país, muitos setores poderosos nunca aceitaram um ex-guerrilheiro como presidente — mesmo um oriundo do movimento M-19, de orientação mais moderada, que havia adotado a social-democracia.

As reformas sociais do Pacto Histórico buscavam corrigir as profundas desigualdades do país — 10% da população colombiana detém cerca de 70% da riqueza nacional —, propondo ampliar o acesso da classe trabalhadora e das populações de baixa renda à educação, saúde, previdência e direitos trabalhistas. Ao final do mandato de Petro, apenas versões desidratadas dessas duas últimas medidas haviam sido aprovadas. Sob pressão da direita, o projeto de reforma trabalhista, embora contivesse proteções importantes aos direitos individuais, teve suprimidas as garantias relativas à negociação coletiva e ao direito de greve — pilares fundamentais do poder dos trabalhadores. Quando não conseguia barrar a legislação no Congresso, o bloco de direita liderado pelo Centro Democrático recorria aos tribunais: a reforma da previdência, que prevê renda estatal para até três milhões de aposentados anteriormente desassistidos, e o aumento de 23% no salário mínimo ocorrido em janeiro passado estão travados em meio a contestações judiciais (de la Espriella alegou apoiar o aumento, que conta com amplo apoio popular, mas poucos acreditam que ele o implementará). Eleito em meio a uma enorme expectativa pública — que Petro jamais poderia realisticamente satisfazer no único mandato de quatro anos permitido pela Constituição —, o Pacto Histórico não conseguiu proporcionar os benefícios materiais que muitos esperavam. Paralelamente, foi resgatada a velha acusação de irresponsabilidade fiscal da esquerda, atribuindo o alto endividamento a supostos gastos excessivos de Petro, mas omitindo o déficit que ele herdara.

Os legados do conflito também lançam uma sombra. Com duração de mais de meio século e envolvendo o Estado, grupos guerrilheiros marxistas e paramilitares de direita, o conflito deixou mais de 400 mil mortos e deslocou milhões de pessoas à força até à sua resolução parcial através do acordo de paz de 2016 entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC. O governo do Centro Democrático de Iván Duque (2018-22), que se opôs veementemente ao processo de paz das FARC, negligenciou a implementação do acordo, levando a vazios de poder em grandes territórios anteriormente sob controlo das FARC. Os grupos armados competiram para preencher o vazio, colocando-os em colisão uns com os outros e com comunidades que se opunham à sua presença. Os ataques judiciais a antigos guerrilheiros, em violação do acordo de paz, e o agravamento da violência fizeram com que uma minoria abandonasse o processo de reintegração e regressasse às armas.

Após o progresso inicial, a política de “Paz Total” de Petro de negociação com grupos armados vacilou à medida que os cessar-fogo expiraram e a violência aumentou, enraizada na luta para controlar economias e territórios ilícitos. Mercenários colombianos regressaram da Ucrânia e do Sudão treinados em novas técnicas, como a guerra com drones. Os combates entre grupos têm sido particularmente prejudiciais, tendo os confrontos em Catatumbo, em Janeiro de 2025, causado a maior crise humanitária da Colômbia em duas décadas. O governo suspendeu as negociações com os guerrilheiros do ELN em resposta. Ativistas e ex-guerrilheiros são assassinados com uma frequência chocante. As atrocidades são mais uma vez comuns. Em Abril deste ano, um bombardeamento matou 21 civis num autocarro em Cauca. A retórica da direita acusa a esquerda de ceder e insiste na necessidade de uma abordagem mano dura (punho de ferro). De la Espriella herda nove processos de diálogo separados – alguns em curso, outros congelados, outros mal iniciados – e encerrará todos eles. Ele está a encerrar o Gabinete do Alto Comissariado para a Paz, que coordena a consolidação da paz, e a Unidade de Protecção Nacional, que fornece guarda-costas às pessoas consideradas em risco. Ele atacará o acordo de 2016, particularmente o seu capítulo sobre justiça transicional – odiado pela direita colombiana – que sanciona abusos do exército, bem como os das FARC.

Petro está inflexível de que o resultado das eleições foi ilegítimo, alegando interferência da empresa israelita de software BlackCore, ecoando acusações feitas na Escócia, França, Angola e outros lugares. Cepeda argumenta que a dupla cidadania de de la Espriella o exclui do executivo. O novo presidente não terá vida fácil no Congresso: já conseguiu o aparentemente impossível ao unir o Centro Democrático e o Pacto Histórico para bloquear a sua escolha para presidente do Senado. Desejando preservar a sua influência política contra um desafiante iniciante, o Centro Democrático posicionou com sucesso o seu próprio candidato no papel, e o Pacto Histórico apoiou o mal menor. O Pacto forma o maior bloco parlamentar, enquanto a recusa de alianças por parte dos Defensores da Pátria durante a campanha – parte da rotina dos “estranhos” – pode custar caro ao governo. Como Petro descobriu, alcançar o consenso legislativo é uma tarefa ingrata. O partido do antigo presidente procurará utilizar o mesmo mecanismo que frustrou grande parte da sua própria visão para o país.

Os EUA apoiaram publicamente a candidatura de de la Espriella, tendo-se intrometido nas recentes eleições na Argentina e nas Honduras. Ele inspira-se noutros radicais regionais, quer na prisão de quase dois por cento da população salvadorenha por Bukele, quer no bombardeamento de pequenos barcos por Trump e na execução sumária de sobreviventes. Colocando em primeiro plano a segurança e uma imagem hiper-masculina – que se autodenomina “El Tigre” – de la Espriella comprometeu-se a intensificar o confronto militar com grupos armados, a construir megaprisões, a exterminar os traficantes de droga e a restaurar as relações diplomáticas com Israel que tinham sido cortadas por Petro por causa do genocídio de Gaza. Um dia antes de assumir o cargo, ele organizou uma reunião de três horas com o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, que saudou a planejada transferência da embaixada da Colômbia de Tel Aviv para Jerusalém. O Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, aproveitou o ataque à Mesquita de Al-Aqsa para felicitar o novo governo da Colômbia. Tal como acontece com outros líderes da extrema direita da América Latina, o apoio incondicional a Israel tem sido fundamental para garantir o apoio dos EUA.

A Colômbia aderiu agora à aliança "Escudo das Américas" de Trump – tendo como recompensa um pacote de segurança bilionário anunciado horas após a posse de de la Espriella. Criada em março de 2026, a aliança visa "deter a interferência estrangeira em nosso hemisfério, as gangues e cartéis criminosos e narcoterroristas, e a imigração ilegal e em massa". Essencialmente, ela concede aos EUA carta branca, militar e de outras naturezas, uma vez que a guinada conservadora na América Latina atraiu a maioria dos governos regionais para a iniciativa. Guatemala, Equador e Venezuela consentiram com ataques dos EUA em seus territórios. Em 12 de agosto, Pete Hegseth confirmou a realização de operações militares conjuntas entre EUA e Colômbia em território colombiano. Em julho, seu subordinado Joseph M. Humire mencionou o "Plano Patriota 2.0", sucessor do Plano Patriota (apoiado pelos EUA) — parte do acordo mais amplo do Plano Colômbia, que permitiu graves violações dos direitos humanos pelo exército sob o governo Uribe.

Com os EUA classificando opositores como "terroristas" (ativistas do Antifa) ou rotulando governos como "patrocinadores estatais do terrorismo" (governo cubano), além de atacarem com impunidade embarcações de pesca que supostamente abrigariam "narcoterroristas", um cenário alarmante parece estar se desenrolando nas Américas. Ações militares em terra inevitavelmente afetarão a população civil. Muitos agora se perguntam: o que impedirá o governo militarista e de extrema-direita da Colômbia de atacar opositores e ativistas — grupos que sofreram milhares de assassinatos entre as décadas de 1980 e 2000? Seria essa a forma como de la Espriella planeja "aniquilar a esquerda"? Em toda a América Latina, houve pouca justiça para as vítimas da violência histórica orquestrada em Washington. Agora, sob o "Escudo das Américas", a sombra da Operação Condor — o programa da década de 1970, apoiado pelos EUA, que coordenava ditaduras militares regionais para sequestrar e assassinar dissidentes — começa a ressurgir na história.

O epicentro do terremoto foi em San José del Palmar, no departamento de Chocó, uma das regiões mais afetadas pelo histórico abandono estatal e pelos conflitos. Hoje, mais de 60% da população de Chocó vive abaixo da linha da pobreza, e 30% não têm acesso a água potável. A mortalidade materna é três vezes superior à média nacional, e a expectativa de vida é mais de uma década menor. Por muito tempo, os governos centrais negaram à região uma rede viária ou serviços básicos, isolando a população majoritariamente afrodescendente do restante do país. Grupos armados preencheram esse vácuo. Assim como outras zonas de conflito, o Chocó votou de forma esmagadora — 81% — em Cepeda, cuja abordagem construtiva em relação à paz e ao subdesenvolvimento era a única proposta capaz de trazer a transformação social urgentemente necessária às periferias abandonadas da Colômbia. Vinte e quatro horas após o terremoto, o Ministro do Interior, Rodrigo Lara, declarou a um telejornal que nada sabia sobre a situação no Chocó, enquanto de la Espriella rejeitava equipes de resgate do México, da China e da Espanha por motivos políticos. Nos primórdios do "Espriellismo", o desastre pode vir a simbolizar as esperanças que muitos colombianos depositavam em um futuro construído sobre a inclusão, a soberania e a paz — esperanças que agora se reduziram a pó.

14 de julho de 2023

A batalha pela Colômbia

O primeiro ano de governo de Gustavo Petro.

Nick Macwilliam



Tradução / Em Cali, a memória reveste as paredes. A terceira maior cidade da Colômbia é adornada com murais que retratam o estallido social : os imensos protestos que abalaram a Colômbia de abril a junho de 2021, provocados por condições sociais dramáticas e reprimidos com selvageria pelo Estado. Pinturas de cinco metros de jovens mortos pela polícia dominam avenidas congestionadas, sinalizando a recusa dos moradores a esquecer os crimes cometidos durante o regime autoritário de Iván Duque. Este ano, no segundo aniversário do levante, os puntos de resistencia da cidade foram reinventados. Surgiram novas obras de arte de rua, enquanto refeições comunitárias e apresentações musicais reuniram as pessoas afetadas: os pais de ativistas mortos na repressão, os manifestantes cujos ferimentos que mudaram suas vidas. “A polícia não gostava que nos encontrássemos assim antes”, disse um grafiteiro, com uma lata de spray na mão. “Mas desde a eleição, eles tendem a nos deixar em paz.”

Em junho de 2022, a revolta contra Duque culminou na eleição do primeiro governo progressista da Colômbia, chefiado pelo presidente Gustavo Petro e pela vice-presidente Francia Márquez. A última vez que um esquerdista havia disputado a presidência com chances reais fora em 1948, quando a provável vitória de Jorge Eliécer Gaitán foi frustrada por seu assassinato. Desde então, as populações camponesas e indígenas do país foram excluídas de suas instituições políticas – dominadas pelos interesses do agronegócio e do extrativismo, sustentados por Washington com a ajuda de grupos paramilitares de direita.

O PIB colombiano está em torno da média latino-americana, mas os níveis de desigualdade situam-se entre os mais altos da região. Durante décadas, populações camponesas, indígenas e afro-colombianas foram deslocadas à força para facilitar o aumento da concentração de terras. À medida que a economia extrativa espalhou-se, a partir da década de 1980 – junto com a pecuária, a agricultura intensiva e a produção de cocaína –, os paramilitares “limparam” muitas áreas rurais de seus habitantes. Sob a presidência de direita de Álvaro Uribe (2002-10), a oligarquia latifundiária, que representa apenas uma pequena fração do total de proprietários, aumentou sua participação de 47% das terras agrícolas para 68%, enquanto 80% dos camponeses viviam em pobreza. A classe trabalhadora urbana sofria com baixos salários e instabilidade no emprego. Sua capacidade de se organizar por melhores condições foi fatalmente enfraquecida pela violência sistemática contra líderes sindicais e ativistas comunitários. Durante o mandato de Duque, 42% da população empobreceu, devido a uma combinação de políticas hiperneoliberais e má gestão da pandemia.

Essas assimetrias são, em parte, resultado do sistema político viciado da Colômbia. Em 1958, os dois partidos da elite governante, o Liberal e o Conservador, acordaram que o poder seria rotacionado entre eles como parte de um arranjo de Frente Nacional. Este duopólio antidemocrático foi contestado pelos movimentos guerrilheiros surgidos na esteira da Revolução Cubana: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN), que pretendiam defender os camponeses contra a violência do Estado e estabelecer um novo arranjo nacional baseado na participação popular e no antiimperialismo. As FARC, em particular, encontraram apoio entre os pobres do campo, pois os guerrilheiros forneceram infraestrutura, serviços e segurança em territórios abandonados pelo Estado. Depois de meio século de luta, em 2016 o grupo acabou assinando um acordo de paz com o governo de Juan Manuel Santos. No entanto, uma série de condutas do Estado fez com que o conflito persistisse em regiões anteriormente sob o controle das FARC. Quando Duque chegou ao poder, dois anos depois, prometeu rasgar os acordos e adotar uma linha dura contra as forças guerrilheiras. Seu governo privou o acordo de recursos, recusando-se a implementar seus mecanismos de segurança ou programas de desenvolvimento rural. Os assassinatos de ativistas sociais e ex-guerrilheiros dispararam. Manifestantes que pediam paz foram massacrados pelo Estado.

O “governo da mudança” do Petro – composto por um amplo espectro de partidos do centro à esquerda, unidos no chamado Pacto Histórico – foi eleito com o compromisso de enfrentar essas crises sociais e políticas endêmicas. Petro conquistou 50% dos votos em 2022, graças a índices de comparecimento às urnas extraordinariamente altas nos regiões negligenciadas do Pacífico, Caribe e Amazônia. Seu oponente populista de direita, Rodolfo Hernández, obteve 47%. O novo presidente prometeu atender às necessidades dos marginalizados: comunidades rurais, minorias étnicas, jovens, trabalhadores de baixa renda. Isso seria alcançado revivendo o processo de paz e estimulando o desenvolvimento econômico: implementando o acordo de 2016 e, ao mesmo tempo, decretando uma transição verde. Do ponto de vista legislativo, o governo tem até agora como alvo três áreas principais – Trabalho, Saúde e Previdência. Ao mesmo tempo, inicia diálogo com os diversos grupos armados do país.

Existem limites claros para o que Petro pode alcançar. Ele está constitucionalmente limitado a um único mandato de quatro anos e enfrenta forte oposição do establishment. A falta de maioria no Congresso comprometeu sua capacidade de aprovar reformas significativas. Uma aliança inicial entre o governo e os partidos da elite tradicional – Liberais, Conservadores e Partido da U (liberal, dominado pelo ex-presidente Juan Manuel dos Santos) – rompeu-se. Já o Centro Democrático (CD), uribista, e a Liga Anticorrupção de Rodolfo Hernández tentaram ao máximo obstruir as políticas sociais. O governo está sob constante ataque da mídia corporativa, liderada pela revista neoconservadora Semana, de propriedade do conglomerado financeiro Gilinski. E Eduardo Zapateiro, ex-general do exército colombiano, denunciou Petro vigorosamente, chegando a rotulá-lo de “criminoso” durante a campanha eleitoral. Embora Zapateiro tenha renunciado logo após as eleições de 2022 e o Petro tenha removido rapidamente quinze generais ligados a violações de direitos humanos, ainda há incerteza sobre a relação entre o exército e o executivo. Dadas essas restrições, como devemos avaliar as tentativas de Petro de remodelar a Colômbia, um ano após sua posse?

Os direitos dos trabalhadores colombianos estão entre os mais frágeis do mundo, após anos de legislação antissindical e os assassinatos de milhares de sindicalistas, desde a década de 1970, pelas forças estatais e seus representantes paramilitares. A nomeação por Petro de uma sindicalista experiente, Gloria Ramírez, como ministra do Trabalho foi um passo importante para corrigir esse histórico manchado de sangue. A principal legislação trabalhista do governo, apresentada ao Congresso no início deste ano, aumentaria os valores pagos por horas extras e trabalho noturno, reprimiria a terceirização e fortaleceria os contratos de trabalho. Também imporia uma estrutura regulatória ao vasto setor informal, que representa pelo menos metade da força de trabalho e é especialmente vulnerável em tempos de crise. Em 20 de junho, essas reformas foram arquivadas por falta de quórum – um resultado comemorado pelo CD uribista e pelo partido de centro-direita Mudança Radical. Os opositores proclamam que a legislação está morta. O ministério do Trabalho insiste que ela pode ser revivida, embora ainda não tenha conseguido reunir os votos necessários.

A reforma da saúde de Petro se saiu um pouco melhor. A reestruturação da oferta de saúde pública era necessária e urgente após a pandemia, pois muitas equipes haviam sido desfalcadas por mortes ou demissões em massa, devido a condições perigosas. O subinvestimento crônico significa que crianças em regiões periféricas como La Guajira e Chocó ainda morrem de desnutrição e doenças evitáveis. Muitos colombianos pobres, principalmente em áreas rurais, lutam para ter acesso até mesmo a cuidados rudimentares.

O novo projeto de lei do governo consagra a saúde como um direito universal, afirmando que a posição de classe não deve determinar as chances de sobrevivência. Além de melhorar a remuneração do pessoal, visa reduzir as disparidades no acesso à saúde entre as populações urbanas e rurais e aumentar os exames preventivos. Os partidos conservadores que fazem parte da aliança parlamentar de Petro foram unânimes em se opor a essa reforma. Em resposta, o presidente desfez a coalizão de governo e removeu os principais ministros que se opuseram aos planos de eliminar o papel dos intermediários privados. Desse modo, ele conseguiu recolocar a legislação em debate. Mas o colapso do acordo no Congresso minou suas tentativas de projetar uma imagem de unidade e pode dificultar a aprovação, pelo Parlamento, de outras leis, mais adiante.

A lei previdenciária de Petro passou em primeira instância no Congresso em 14 de junho, com mais duas votações agendadas, em meio à oposição intransigente do CD e dos conservadores. Sob o sistema atual, o emprego informal e a baixa renda significam que apenas um quarto dos trabalhadores colombianos qualificam-se para receber aposentadoria. Muitos são forçados a passar por dificuldades econômicas ou dependência familiar. As novas propostas garantiriam uma aposentadoria mínima a todos, reduziriam a diferença entre os que ganham menos e os que ganham mais e veriam os fundos de pensão privados transferidos para o Colpensiones, sistema estatal. O governo projeta que tirará três milhões de idosos da pobreza. Os opositores afirmam que as medidas penalizariam os trabalhadores com salários mais altos.

Até agora, a tentativa de Petro de acabar com o conflito armado e reviver o acordo com as FARC – conhecida como a estratégia de “Paz Total” – teve resultados mistos. Consciente de que os acordos de 2016 foram prejudicados pela hostilidade da direita, o presidente tentou enquadrar o processo de paz como um projeto nacional, em vez de uma trégua bilateral. Nomeou oponentes políticos como José Félix Lafaurie, presidente da ultraconservadora associação de fazendeiros Fedegan, para as equipes de negociação. No entanto, como os governos anteriores falharam em implementar o acordo de paz, áreas antes controladas por guerrilheiros viram a proliferação de grupos armados menores competindo para ocupar o vácuo de poder. Como resultado, o conflito continua intenso em Cauca, Nariño e Putumayo, no sudoeste; Antioquia, Córdoba e Chocó no noroeste; e ao longo da fronteira venezuelana em Arauca e Norte de Santander.

O ex-presidente Duque exacerbou esses problemas aumentando a militarização, lançando bombardeios que mataram civis e dando aos soldados carta branca para cometer abusos. Isso não afetou seriamente as capacidades dos grupos visados. Petro, por outro lado, tentou implementar programas de desenvolvimento nessas áreas, mas essa solução de longo prazo ainda não trouxe alívio para as comunidades. Um total de 82 ativistas sociais e 19 ex-guerrilheiros das FARC foram mortos apenas no primeiro semestre de 2023.

As negociações com o ELN, a maior organização guerrilheira remanescente da Colômbia, continuaram de onde pararam no governo de Santos. Mas enquanto este recusou-se de modo categórico a discutir questões macroeconômicas, Petro tentou estabelecer um terreno comum. Em 27 de abril, o governo e o ELN assinaram uma agenda de negociações, batizada de “Acordo do México”, que prometia examinar “o modelo econômico, o sistema político e as doutrinas que impedem a unidade e a reconciliação nacional” e afirmava que a construção da paz requer a “eliminação do atual sistema de exploração e depredação, e a criação de condições de equidade social e econômica”. As negociações não foram fáceis, mas agora uma saída parece ser alcançável. A terceira rodada terminou com um anúncio de cessar-fogo bilateral, com início previsto para agosto e duração inicial de seis meses. Também foram realizadas discussões com dois grupos armados “dissidentes” — a Segunda Marquetalia, que abandonou o processo de paz anterior, e o Estado Maior Central, que nunca o subscreveu. Aqui, um cessar-fogo mostrou-se mais evasivo, e Petro teve que enfrentar a oposição de políticos que o exortavam a abandonar o esforço.

Tendo defendido em campanha a necessidade de acabar com a dependência econômica da Colômbia em relação aos combustíveis fósseis, que têm ampliado o desmatamento e a contaminação dos recursos naturais, o governo impulsionou a legislação anti-fracking. Também proíbiu novas licenças de exploração de petróleo e gás. Em março, anunciou planos de transição para uma economia verde, investindo em energia renovável e modernizando sua infraestrutura. A vice-presidente Francia Márquez, uma ativista ambiental de longa data, tem sido poderosa porta-voz desse programa. Mas como a riqueza mineral da Colômbia continua a fluir do solo para os cofres estrangeiros, não será fácil garantir o nível de cooperação internacional necessário para uma grande transição energética. E se as receitas das exportações de combustíveis fósseis começarem a encolher, o governo precisará de fontes alternativas de financiamento para os projetos redistributivos e de paz. Elas podem ser escassas.

O projeto do Petro foi fortalecido pelo ressurgimento de governos progressistas no Brasil, México, Chile, Peru, Bolívia e outros países. Apesar de suas divisões internas, este bloco de poder regional fez com que a influência norte-americana e europeia diminuísse. A ascensão da China contribuiu para esse reequilíbrio, à medida que os Estados olham cada vez mais para o leste em busca de comércio e investimento. Isso contrasta com o período de 2015-19, quando os governos conservadores da América Latina atuaram como retransmissores voluntários da política externa dos EUA. Enquanto Duque somou-se à tentativa de golpe apoiada pelos Estados Unidos contra o governo de Maduro, Petro reabriu rapidamente as relações diplomáticas com a Venezuela, coordenando uma resposta conjunta à migração em massa e ao aumento da violência nas zonas de fronteira. O consenso regional também se voltou fortemente contra a “guerra às drogas” liderada pelos Estados Unidos, que devastou o continente por mais de cinquenta anos. Mesmo que o antiimperialismo da primeira “maré rosa” não tenha se manifestado tão fortemente na nova onda, um mundo cada vez mais multipolar dá a Petro e seus aliados maior espaço de manobra. As preocupações de que o hegemon global desestabilizaria seu governo ainda não se concretizaram.

No entanto, o governo continua vulnerável em outras frentes. Margarita Cabello, a inspetora-geral (de direita) encarregada de supervisionar a conduta das autoridades eleitas, tem como alvo remover do Congresso membros do Pacto Histórico. Alega que se opuseram à polícia durante os protestos de 2021. E Francisco Barbosa, procurador-geral nomeado por Duque, impediu os processos de paz ao se recusar a retirar mandados de prisão de líderes de grupos armados e impedir sua participação nas negociações. No início de junho, a chefe de gabinete do Petro foi acusada de submeter sua babá a vigilância ilegal. Pouco depois, o próprio Petro foi acusado de se beneficiar de financiamento ilegal de campanha com base em uma gravação de áudio vazada de seu assessor Armando Benedetti. O presidente descreveu esses escândalos forjados como uma tentativa de golpe blando, ligando-os à longa história de luta contra os líderes social-democratas na América Latina.

O Pacto Histórico encerra assim seu primeiro ano de mandato tentando equilibrar as demandas dos movimentos sociais que o levaram ao poder com as de uma classe política que mantém o poder legislativo. O compromisso será essencial, o que pode significar sacrificar alguns elementos centrais da agenda do Petro para que outros possam avançar. Um plano de sucessão também é crucial para o “governo da mudança”, pois seus ganhos poderiam ser revertidos pelo próximo presidente. A eleição de 2022 foi vencida por uma margem estreita que pode ser eliminada pelo mau planejamento da campanha de 2026. Talvez inevitavelmente, em meio ao fluxo constante de publicidade negativa e ao aparentemente intratável pântano legislativo, os índices de aprovação do Petro começaram recentemente a cair. As eleições locais marcadas para outubro funcionarão como um referendo sobre seu mandato. O estallido social sustentará a esquerda colombiana?

24 de maio de 2021

A classe dominante da Colômbia está ficando desesperada

A última rodada de protestos contra o governo de direita da Colômbia teve uma repressão brutal, levando a pelo menos 43 mortes. Mas o movimento de massas contra o neoliberalismo e a violência do Estado está ficando cada vez mais forte.

Hasan Dodwell e Nick Macwilliam


Demonstrators clash with riot police at Portal De Las Americas in Bogotá on May 22, 2021. (JUAN BARRETO/AFP via Getty Images)

Tradução / Em 28 de abril sindicatos e movimentos sociais colombianos encenaram uma nova rodada de protestos paro nacionais (greve nacional), a mais recente de uma série contínua de mobilizações para abordar a ladainha de problemas impactando a sociedade colombiana.

A oposição a uma reforma tributária planejada – que os organizadores da greve disseram que injustamente teria como alvo as classes média e trabalhadora, no qual é um dos países mais desiguais da América Latina – foi a questão central, particularmente no contexto da pandemia global, que colocou uns estimados cinco milhões de colombianos fora do trabalho. Apelos para revogar a reforma tributária foram alinhados com demandas de longa duração acerca dos crescentes níveis de pobreza, abordando a crise de direitos humanos afetando grande parte do País e adequadamente avançando a implementação do acordo de paz de 2016.

Desde que o movimento de greve nacional foi lançado em novembro de 2019, os manifestantes se acostumaram as repressões da polícia da administração de direita do Presidente Iván Duque. Ainda, mesmo por padrões recentes, a propagação e duração da violência desencadeada desde 28 de abril foi extrema. Por mais de três semanas de protestos diários através da Colômbia, as forças de segurança colombianas – especialmente a notória unidade da polícia antimotim, o Esquadrão Anti-Perturbação Móvel (Na sigla, ESMAD) – cometeu massivas violações de direitos humanos enquanto o governo de Duque procura suprimir a raiva em relação a seu governo.

Como convém à era do telefone com câmera, as mídias sociais contaram a história da revolta social da Colômbia. Milhares de imagens e vídeos se propagaram virtualmente, com vários se destacando por suas exposições de unidade social ou solidariedade pungente: mães carregando escudos improvisados se juntam a manifestantes jovens na linha de frente para enfrentar a polícia militarizada; estátuas de colonizadores são derrubadas e substituídas com as semelhantes das vítimas da violência de Estado; música, arte e dança energizam multidões cujas vozes se levantam como uma para exigir uma Colômbia mais justa.

Enquanto a organização oficial do movimento de greve nacional vem de sindicatos junto com camponeses, indígenas e outras organizações sociais estabelecidas, os protestos se caracterizaram pela mobilização de jovens colombianos de bairros urbanos pobres. Nas cidades através do País, mais notavelmente em Cali, essa nova geração de manifestantes políticos se tornou a assim chamada linha de frente, resistindo a níveis sempre crescentes de brutalidade policial.

Ato de Centrais sindicais e movimentos populares no consulado geral da Colômbia em defesa da luta do povo e contra repressão do governo Iván Duque. São Paulo, SP, 06 de maio de 2021. Foto: Roberto Parizotti.

As mídias sociais também expuseram a horrível violência infligida nos manifestantes pelas forças de segurança. Em um angustiante vídeo, enquanto quatro agentes do ESMAD a arrastam para uma delegacia de polícia em Popayán, Alison Meléndez, de dezessete anos, grita que eles estão removendo suas calças. No dia seguinte, depois de reportar que eles a tinham agredido sexualmente, ela tirou sua vida. Imagens de vídeo filmadas na cidade de Madrid, em Cundinamarca, mostram uma bomba de gás lacrimogêneo disparada contra os manifestantes de uma viatura policial blindada. O projétil atingiu Brayan Niño, de vinte e quatro, na face, o matando, apesar dos esforços daqueles ao seu redor.

Em 18 de maio, organizações de direitos humanos colombianas registraram aparente responsabilidade das forças de segurança por mais de 2.300 atos de violência, 43 assassinatos (incluindo quatro menores), 18 agressões sexuais e 30 casos de ferimentos nos olhos. Homens em roupas comuns foram filmados atirando nos manifestantes, enquanto policiais de uniforme ficavam ao lado deles e não faziam nada, o que é particularmente alarmante dado a longa história da Colômbia de conluio do Estado com o terror paramilitar.

Houve uma ampla condenação internacional a resposta do governo da Colômbia aos protestos. O Alto Comissário das Nações Unidas para Direitos Humanos disse que testemunhou o uso de “força excessiva”, enquanto a embaixada dos EUA em Bogotá exigiu “moderação” da polícia colombiana, para evitar “adicionais perdas de vidas”.

Cinquenta e cinco membros do Congresso Americano assinaram uma carta chamando a situação de direitos humanos de “fora de controle”, enquanto sindicatos britânicos e irlandeses exigiram justiça para as vítimas da violência. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos requisitou permissão do governo colombiano para investigar os abusos. Por sua parte, o governo britânico, que tem programas de treinamento com a polícia colombiana, não criticou diretamente a violência de Estado.

A oposição à reforma tributária planejada vem em uma época em que estimadamente mais de cinco milhões de pessoas perderam sua principal fonte de renda, devido à pandemia global e níveis de pobreza crescendo para mais de 40 por cento. O coronavírus particularmente impactou os muitos colombianos ganhando a vida no grande setor informal, que representa cerca de metade da força de trabalho em funções como trabalhadores do transporte, equipes domésticas e vendedores de rua.

Lockdowns nacionais, acompanhados de uma ausência de apoio do Estado, empurraram muitos colombianos para condições de precariedade ainda mais profundas. Embora Duque tenha revogado a reforma tributária depois de cinco dias de agitação intensa, foi tarde demais. Seu governo tinha derramado muito sangue.

Em meio aos assassinatos e violência brutal sendo realizados por agentes do Estado, longe de acabar com os abusos, oficiais do governo repetidamente emitiram declarações estigmatizantes contra os manifestantes. Em 3 de maio, o Ministro da Defesa, Diego Molano, disse: “A Colômbia enfrenta a ameaça terrorista de organizações criminosas”, enquanto a Vice-Presidente, Martha Ramírez, insinuou que organizações indígenas eram financiadas por dinheiro ilegal de drogas.

O uso de nódoas para deslegitimar os movimentos populares não é de forma alguma uma tática nova – sindicalistas e ativistas há muito foram rotulados de “guerrilheiros” ou “terroristas”. Durante as semanas recentes, contudo, e no contexto de um acordo de paz agora assinado com a maior e mais velha organização guerrilheira do País, as tentativas de estigmatizar parecem ter fortalecido amplamente a determinação dos manifestantes.

A raiva com a injustiça econômica está junto com a principal preocupação por direitos humanos e paz. O acordo de paz de 2016 trouxe a cortina para décadas de conflito armado entre o Estado colombiano e as FARC. O processo de paz viu avanços importantes, tais como a reforma das FARC como um partido político e o desenvolvimento de um internacionalmente aclamado Sistema de Justiça transicional, que começou a investigar os crimes cometidos durante o conflito.

Em uma das suas descobertas mais significativas até agora, ele descobriu que, entre 2002 e 2008 – durante o governo do ex-Presidente Álvaro Uribe, os militares colombianos assassinaram 6.402 civis e falsamente os apresentaram como guerrilheiros mortos em combate.

Desde o seu começo, contudo, a direita colombiana tem feito esforços para minar o processo de paz. Na verdade, Uribe, que continua a manejar poder político significativo e cujo apoio a Duque foi fundamental para sua bem-sucedida campanha presidencial, tem sido a principal voz nessa oposição.

A campanha eleitoral de Duque foi baseada em antagonismo ao acordo de paz e uma promessa de fazer mudanças fundamentais. Desde 2018, quando Duque foi eleito, a Colômbia tem dependido de um movimento político hostil ao processo de paz. Os protestos deram voz a uma grande rejeição a influência contínua do uribismo na política colombiana e seus ataques aos direitos humanos e à paz.

Além disso, desde que o acordo foi assinado, mais de mil ativistas sociais e líderes comunitários foram assassinados na Colômbia, com violência concentrada em regiões historicamente impactadas por conflitos, pobreza estrutural e abandono do Estado. A retirada acordada das FARC criou vácuos de poder em áreas que o Estado falhou em proteger. Paramilitares e outros grupos armados ilegais agora competem para exercer o controle sobre territórios ou economias ilícitas, visando líderes locais e deslocando comunidades inteiras.

Adicionalmente, mais de 270 ex-combatentes das FARC foram assassinados desde que deixaram suas armas. A Missão de Verificação das Nações Unidas na Colômbia avisa que a violência em relação a ativistas sociais e ex-combatentes é a principal ameaça ao processo de paz. O governo Duque, contudo, tem procurado minimizar a crise de direitos humano e nega que os assassinatos reflitam uma segmentação sistemática de grupos específicos.

Com as eleições marcadas para 2022, os protestos podem ser fundamentais para determinar quem leva a presidência. O movimento pró-paz entra na campanha eleitoral em uma posição de força, mas se ele vai ser capaz de coalescer com sucesso em torno de um único candidato pode se provar decisivo. O candidato de esquerda e vice-campeão de 2018 Gustavo Petro atualmente lidera as pesquisas, e seus apoiadores estarão confiantes de que a intensidade dos protestos reflete um desejo generalizado para fundamentalmente remodelar o modelo social político e econômico da Colômbia.

A infinidade de fatores que sustentam o descontentamento popular na Colômbia agora explodiu em primeiro plano. Em reuniões em 10 e 16 de maio com oficiais do governo, o Comitê Nacional de Greve apresentou demandas para resolver a crise, incluindo um imediato fim à violência. Organizações de direitos humanos exigiram uma drástica reforma da polícia, que envolve remover a jurisdição da polícia do Ministério da Defesa e a dissolução do ESMAD. Contudo, com o governo Duque ainda cometendo flagrantes abusos de direitos humanos, há pouca indicação de que uma resolução esteja perto. O povo colombiano mostrou que eles não planejam recuar em breve.

Sobre os autores

Hasan Dodwell é diretor da Justiça pela Colômbia.

Nick MacWilliam é um jornalista independente que cobre a América Latina e coeditor da revista Alborada.

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