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8 de julho de 2026

É preciso reindustrializar o Brasil para disputar o futuro

País deve decidir entre ser fornecedor de commodities ou nação soberana e desenvolvida

Grandes potências voltaram a fazer política industrial, disputando semicondutores, IA e energia

José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)

Folha de S.Paulo

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) apresentou aos presidenciáveis o documento Construindo o Brasil 2050, com propostas para recolocar a indústria no centro da estratégia nacional de desenvolvimento. No encontro, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado repetiram suas cantilenas: equilíbrio fiscal, ataques ao Supremo Tribunal Federal, privatizações e corte de gastos, como se isso bastasse para reconstruir o futuro nacional.

O diagnóstico da CNI é correto. O Brasil vive perda de densidade produtiva, precisa elevar produtividade, ampliar investimentos, fortalecer ciência, tecnologia e inovação, modernizar infraestrutura e tornar a política industrial política de Estado. A questão decisiva é simples: sem indústria forte, o Brasil não será uma nação soberana.

Complexo industrial de produção da empresa chinesa BYD, em Camaçari (BA) - Jin Haoyuan/Xinhua

Esse debate ocorre em um mundo que já não é o da globalização como dogma, nem da crença de que bastaria privatizar, flexibilizar direitos e reduzir o Estado para que o desenvolvimento viesse naturalmente. Não veio. O que veio foi perda industrial, reprimarização, dependência tecnológica e orçamento capturado por juros altos. As grandes potências voltaram a fazer política industrial, disputando semicondutores, inteligência artificial, energia, defesa, dados e cadeias produtivas.

Há elementos relevantes, como o planejamento de longo prazo, política industrial perene, inovação, digitalização, financiamento, infraestrutura, transição energética, integração internacional. Mas há contradições quando a agenda se aproxima de uma visão fiscalista que trata gasto social, investimento público e direitos como obstáculos. O desafio é disputar seu sentido.

A indústria de transformação organiza cadeias produtivas, impulsiona ciência e tecnologia, demanda engenharia, gera empregos melhores e capacidade nacional de decisão. Petrobras, Eletrobras, Embraer, BNDES, Embrapa, Fiocruz, Butantan e universidades públicas não nasceram do espontaneísmo de mercado, mas de uma longa construção nacional.

Precisamos de estratégia nacional e temos vantagens extraordinárias: matriz energética limpa, alimentos, água, biodiversidade, minerais estratégicos, base industrial, mercado interno e ciência. Mas recurso natural requer indústria, biodiversidade exige ciência, energia limpa precisa de estratégia e minerais críticos requerem beneficiamento nacional.

A Nova Indústria Brasil, lançada pelo governo Lula, recolocou corretamente esse tema no centro da estratégia nacional. Agora é o momento de a agenda ganhar escala, instrumentos, recursos e continuidade, convertendo-se em política de Estado, com crédito de longo prazo, compras públicas, apoio à inovação, PAC, conteúdo nacional e prioridade a saúde, defesa, transição energética, semicondutores e bioeconomia.

Mas nenhuma política industrial ganhará fôlego enquanto a política econômica estiver prisioneira do rentismo. Juros estratosféricos drenam recursos públicos, encarecem o crédito e oferecem ao capital financeiro remuneração incompatível com qualquer projeto nacional. A indústria não floresce em uma economia organizada para satisfazer os rentistas.

É nesse ponto que as respostas dos presidenciáveis revelaram pobreza programática: equilíbrio fiscal como fim em si mesmo, corte de gastos, privatização, flexibilização trabalhista e ataques às instituições. É pouco para um país que precisa de projeto, direção política, planejamento, coragem e imaginação histórica. O Brasil deve decidir se quer ser apenas mercado consumidor, fornecedor de commodities e pagador de juros, ou uma nação soberana, democrática, desenvolvida, justa e capaz de oferecer futuro digno à sua população

27 de janeiro de 2026

Faria Lima foi fiadora da irresponsabilidade que culminou no caso Master

Sob Roberto Campos Neto, BC se orientou por visão dogmática de mercado autorregulado e redução da supervisão efetiva
FGC não pode continuar a ser instrumento de marketing e incentivo perverso à tomada excessiva de risco

José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)

Folha de S.Paulo


[RESUMO] Autor argumenta que o caso Master não é um episódio isolado, mas resulta de uma regulação permissiva do sistema financeiro, que estimula a oferta de produtos de alto risco disfarçados de investimentos seguros e um modelo lucrativo que beneficia grandes grupos econômicos e penaliza o investidor comum.

*

O caso Master —inicialmente associado ao BRB (Banco de Brasília), agora também ao Will Bank, igualmente liquidado, e ao sistema financeiro como um todo— parece longe de representar um acidente de percurso, um episódio isolado de má gestão ou um desvio pontual.

É produto direto de uma arquitetura do sistema financeiro alicerçada em baixa regulação, alta opacidade e incentivos permanentes à irresponsabilidade. Revela, de forma contundente, as fragilidades de um sistema regulatório que falhou em sua missão básica: proteger investidores, preservar a estabilidade financeira e impedir a recorrente socialização dos prejuízos privados.

Edifício na av. Faria Lima, em São Paulo, que abriga unidade do Banco Master - Rafaela Araújo - 29.dez.25/Folhapress

De um lado, está a flexibilização imprudente e ideologicamente orientada promovida durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, marcada por uma visão dogmática de mercado autorregulado e pela redução deliberada da supervisão substantiva. De outro, o progressivo esvaziamento da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que perdeu capacidade operacional, autonomia política e instrumentos eficazes para cumprir seu papel fiscalizador em um mercado cada vez mais complexo, concentrado e financeirizado.

Em ambos os casos, trata-se de um modelo defendido, articulado e protegido pela Faria Lima, por seus porta-vozes no mercado, na mídia e, infelizmente, em parcelas do próprio Estado.

Mais do que um problema bancário específico, estamos diante de uma crise estrutural da regulação do mercado financeiro e de capitais. O que veio à tona foi um sistema que tolera e até estimula a captura da poupança popular por meio de produtos de alto risco disfarçados de investimentos seguros. Essa engrenagem só funcionou porque encontrou um ambiente institucional complacente, fragmentado e, em larga medida, capturado, que beneficia grandes grupos econômicos e penaliza o investidor comum.

Não faltaram sinais de alerta: estruturas societárias opacas, ativos de difícil mensuração, alavancagem excessiva, elevada concentração de risco e uma política agressiva de captação via CDBs com taxas muito acima da média do mercado.

Nada disso teria prosperado sem um ambiente regulatório permissivo. Plataformas digitais de investimento passaram a operar como verdadeiros canais de distribuição de risco sistêmico, promovendo CDBs como produtos "seguros" e explorando o FGC (Fundo Garantidor de Créditos ) como selo de confiabilidade absoluta. Criou-se a ficção de que risco elevado e segurança plena podem coexistir —uma mentira conveniente para quem lucra com a intermediação financeira e transfere o ônus ao Estado e à sociedade.

A Faria Lima foi a principal fiadora desse modelo. Durante anos, propagou a narrativa de que qualquer reforço regulatório representaria atraso, intervencionismo ou ameaça à inovação. O resultado está à vista: um mercado que premia a irresponsabilidade, estimula apostas temerárias e se sustenta na certeza implícita de que, em última instância, o Estado intervirá para evitar o colapso sistêmico.

Auditores, plataformas, entidades autorreguladoras e agentes financeiros sabiam —ou tinham todas as condições técnicas para saber— dos riscos envolvidos. Preferiram calar-se. Não foi uma falha técnica, mas uma escolha política e econômica. Um silêncio que se mostrou funcional a um modelo de negócios lucrativo para poucos e perigoso para muitos.

O Banco Central, sobretudo sob a gestão de Roberto Campos Neto, quando o risco se consolidou, não pode se eximir dessa responsabilidade. Ao priorizar uma leitura estreita de estabilidade monetária e indicadores formais de solvência, negligenciou os riscos sistêmicos que se acumulavam fora de seu radar convencional. Adotou uma postura excessivamente tolerante com estruturas financeiras complexas, operações cruzadas e modelos agressivos de captação, confiando mais na suposta disciplina de mercado do que na supervisão efetiva.

Enquanto isso, a CVM foi progressivamente esvaziada. Sem recursos, sem respaldo político e sem instrumentos adequados, passou a atuar de forma reativa, sempre a reboque dos acontecimentos. A Receita Federal, isolada desse circuito de informações, também deixou de cumprir um papel central na identificação de grupos econômicos, beneficiários finais e fluxos financeiros incompatíveis com a atividade declarada.

Essa fragmentação institucional favorece exatamente os esquemas que agora vêm à tona. Enquanto os órgãos de controle operam como ilhas, grupos financeiros exploram brechas regulatórias, praticam arbitragem institucional e se aproveitam das assimetrias de informação. O Estado chega sempre tarde, pressionado pelo fato consumado e pelo risco de contaminação sistêmica.

É nesse contexto que o país precisa de uma reforma profunda do FGC. O fundo não pode continuar funcionando como incentivo perverso à tomada excessiva de risco. Sua governança deve ser revista, com contribuições proporcionais ao risco assumido, limites mais rigorosos por instituição e a proibição explícita de seu uso como instrumento de marketing. O fundo não pode seguir como fiador silencioso da irresponsabilidade privada.

As plataformas de investimento também precisam ser responsabilizadas. Não são intermediárias neutras. São agentes econômicos que selecionam, promovem e distribuem produtos financeiros e devem responder por isso. A promoção maciça de CDBs de alto risco ao investidor de varejo, sem transparência efetiva e sem alertas claros, é incompatível com qualquer noção séria de proteção ao consumidor financeiro.

O caso Master-BRB-Will deve ser tratado como um ponto de inflexão. A financeirização descontrolada da economia brasileira não fortaleceu o desenvolvimento nacional, não ampliou o crédito produtivo nem democratizou o acesso à riqueza. Ao contrário, criou bolhas, fragilizou instituições e aprofundou desigualdades.

Não haverá estabilidade financeira, crescimento sustentável ou democracia econômica sem um Estado regulador forte, integrado e disposto a enfrentar interesses poderosos. Recolocar o sistema financeiro a serviço do desenvolvimento nacional é uma tarefa política inadiável.

30 de janeiro de 2025

Brasil não pode perder o controle sobre seu destino

País precisa de projeto de desenvolvimento para enfrentar instabilidades econômicas e geopolíticas aguçadas por Trump

José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)


[RESUMO] O acirramento de conflitos geopolíticos, de incertezas econômicas e da emergência climática demanda, argumenta o autor, que o Brasil avance em um projeto nacional de desenvolvimento ancorado em investimentos em infraestrutura, reindustrialização e transição energética e ambiental. Lula já demonstrou sua capacidade de superar crises e, em 2025, o governo deve priorizar crescimento econômico, revisão do relacionamento com o Legislativo e mitigação de eventos climáticos extremos.

*

Uma era de grandes incertezas econômicas e mudanças significativas no cenário geopolítico internacional, como a que vivemos hoje no mundo, exige de um país como o Brasil capacidade de controlar o próprio destino a fim de moldar o seu futuro. Esse é talvez o grande desafio do nosso tempo, uma questão que deve dirigir tanto nossa política externa quanto um inadiável projeto nacional de desenvolvimento.

O início do novo governo de Donald Trump, com um conjunto de medidas que inevitavelmente vão aguçar conflitos geopolíticos e instabilidade econômica, só acelera essa necessidade.

O presidente Lula (PT) em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília - Ueslei Marcelino - 14.jan.25/Reuters

Como disse Thomas Shannon, ex-subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental e ex-embaixador dos EUA no Brasil, em artigo publicado no jornal O Globo, Trump acredita que "o país pode controlar o seu destino se estiver preparado para garantir a segurança das suas fronteiras, proteger suas indústrias e economia e evitar aventuras estrangeiras".

O presidente dos EUA tem a sua convicção, e o Brasil também precisa ter a sua. Sobretudo, precisa ter a certeza de que, em uma época de mudanças como a nossa, não pode perder o controle do seu destino e do seu futuro. Essa necessidade vai além de Trump e do seu governo, que acaba de lançar frentes de batalha contra imigrantes, a América Latina, a agenda climática, a OMS (Organização Mundial de Saúde), a Europa e a Rússia —sem falar na inevitável guerra comercial contra a China.

Já vínhamos em um mundo de conflitos com impacto global, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e a guerra de Israel contra o povo palestino, mas há também os problemas econômicos enfrentados pelos EUA em decorrência da sobrevalorização do dólar, da dívida pública, dos riscos de inflação e da ameaça de perder a hegemonia comercial e tecnológica, além da redistribuição de poder e da força da emergência de países como China, Índia, Rússia, Irã, Turquia, Indonésia, Arábia Saudita e Brasil.

Há também, nos EUA, o agravamento da desigualdade social, do crime e da violência, o crescimento dos sem-teto, a profunda e perigosa divisão da sociedade do país, a crise no sistema de saúde e o desafio da imigração, sem a qual a economia norte-americana não vive.

Projeto nacional de desenvolvimento

Esse cenário exige, mais do que nunca, um projeto nacional de desenvolvimento, ancorado na Nova Indústria Brasil, no PAC e na transição energética e ambiental —tema no qual venho insistindo, especialmente com a necessidade do Brasil buscar autonomia tecnológica e financeira, cuja ausência pode fazer com que o país termine por perder a capacidade de construir seu próprio destino. Sem isso, seguiremos à mercê das instabilidades e incertezas internacionais, perdendo oportunidades de transformações geopolíticas e econômicas.

Tenho dito que, com suas necessidades e desafios, o Brasil não pode nem prescindir da capacidade de transferência de tecnologia, créditos e investimentos que a China tem nem subestimar o outro mundo que está surgindo.

Um bom exemplo é o conjunto de acordos assinados em novembro entre o Brasil e a China. Os atos assinados por Lula e Xi Jinping incluem parcerias nas áreas de infraestrutura, indústria, energia, mineração, finanças, comunicações, desenvolvimento sustentável, turismo, esportes, saúde e cultura.

Mais do que nunca, o Brasil precisa equilibrar-se entre a ascensão da China e do Sul Global, que são a força emergente do século 21, e nossas históricas relações com os EUA e a Europa.

Para esse equilíbrio ser bem-sucedido, porém, o Brasil precisa de uma estratégia capaz de preparar o país para enfrentar as consequências das medidas que Trump adotará e, ao mesmo tempo, promover uma verdadeira revolução política e social capaz de preservar nossa liderança na integração da América do Sul. Uma estratégia que, sob a liderança do presidente Lula, construa consensos mínimos, una setores de classes empresariais e classes trabalhadoras, supere divisões e evite más escolhas.

Agendas prioritárias

Como recentemente noticiado, a popularidade do governo tomou um tombo histórico no meio do terceiro mandato do presidente. Há mais gente achando seu governo ruim/péssimo que ótimo/bom. É a primeira vez que o saldo de popularidade de Lula fica negativo, para além da margem de erro.

O mais importante: algumas das maiores perdas de aprovação se deram entre os mais pobres, os moradores do Nordeste e as mulheres, segmentos que ajudaram Lula a derrotar Jair Bolsonaro nas urnas em 2022.

Eis algumas agendas que parecem fundamentais para este ano e o próximo:

1. Sob a liderança do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a economia tem de continuar a crescer, sem o que todas as outras prioridades ficam prejudicadas. Ao mesmo tempo, o aumento da cesta básica é uma realidade. Precisamos de uma resposta efetiva, com uma política agrícola nacional para a agricultura familiar e a formação de estoques reguladores. Do contrário, precisaremos importar.

Sem essa resposta efetiva, não adiantará obter bons indicadores, como o crescimento do PIB e a geração de emprego, estando os preços de produtos de primeira necessidade em constante elevação.

Se o preço dos alimentos, especialmente da cesta básica, é prioridade, o MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) devem ter recursos orçamentários à altura do desafio. É preciso lembrar que a agricultura brasileira acaba sendo impactada por uma combinação de fatores estruturais e sazonais, incluindo câmbio, internacionalização e fatores climáticos.

2. O governo deve dar continuidade à reforma do Imposto de Renda e das regras de distribuição de lucros e dividendos.

3. O governo deve preventivamente se preparar para incêndios, enchentes, ondas de calor e de chuva e outros efeitos da emergência climática e ser eficiente nas respostas a esses eventos. Também será fundamental dar atenção especial à construção da agenda da COP30, em Belém.

4. O crime organizado em todo o país e o avanço do narcotráfico na região da Amazônia demandam a continuidade e o fortalecimento da política anunciada pelo Ministério da Justiça, com visibilidade e impacto. O governo precisa transformar a segurança pública em prioridade nacional —se trata de uma emergência nacional, como a questão climática— e ter o compromisso de dar consequência às propostas apresentadas.

5. Atenção à educação profissional e ao ensino integral para enfrentar o problema da falta generalizada de mão de obra. Será importante levar à prática decisões que impulsionam uma revolução tecnológica, ao lado do apoio à inovação e à inclusão digital. O presidente Lula lançou, por exemplo, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial em julho do ano passado, com investimentos previstos de R$ 23 bilhões até 2028.

6. As mudanças na comunicação do governo devem incluir as relações e as articulações políticas com o Congresso e a sociedade. A comunicação precisa ser vista, portanto, de forma ampliada: sem articulação política ampla, uma pode inviabilizar a outra.

Enquanto isso, o papel do presidente e dos ministros da área é decisivo. Mais do que nunca, é preciso ir ao encontro das lideranças do país e levar a outro patamar a articulação política do governo. Tão importante quanto isso: o presidente precisa falar mais com o Brasil, com o povo e com os formadores de opinião e lideranças políticas e cívicas.

7. Ainda na esfera política, a relação do governo com o PT e suas bancadas tem de mudar. É preciso transformar em realidade e dar visibilidade à frente ampla que elegeu Lula em 2022. O governo precisa de uma aliança de centro-esquerda e esquerda fortalecida, capaz de apoiar e mobilizar em defesa de suas iniciativas. É preciso também criar espaços com lideranças do PT e partidos aliados para discutir e avaliar nossas políticas e estratégias.

8. Além de aperfeiçoar a articulação política com o Congresso, é preciso dar visibilidade e transparência às negociações com o Legislativo e, sobretudo, não recuar na necessária mudança nas emendas parlamentares impositivas —ou o governo seguirá refém de uma estrutura que não exige dos partidos compromisso com o êxito das políticas públicas.

Ademais, como o governo não tem maioria parlamentar, fica sujeito aos interesses de um Parlamento conservador na pauta de costumes, liberal nas questões econômicas e sem escrúpulo em trocar votos por interesse político. É preciso pôr o dedo nos riscos de mal aplicação e desvio de recursos das emendas parlamentares.

Economia e política agrícola, educação e enfrentamento da emergência climática, capacidade de comunicação e articulação com o Congresso, sociedade e lideranças e revisão do modelo de relacionamento com o Legislativo e gestão do Orçamento, eis as prioridades que devem compor a agenda do governo de 2025.

A história mostra que Lula sabe superar crises e impasses

A atenção devida a essas agendas é o primeiro passo para que o país possa construir, de fato, um projeto nacional de desenvolvimento, tendo como base a Nova Indústria Brasil, o PAC e a transição energética e ambiental, o que resultará no fortalecimento da indústria, do setor agrícola e em transferência de tecnologia e de financiamento de longo prazo.

O presidente Lula já mostrou diversas vezes que tem capacidade, liderança e experiência na superação de momentos de grande impasse, reorientando o seu governo. Basta lembrar que, entre 2005 e 2006, seu primeiro governo enfrentou uma crise de proporções inéditas, precisando lidar com os efeitos do que se convencionou chamar de crise do mensalão.

Lula lidou, enfrentou e saiu vitorioso na disputa pela reeleição em 2006. Também soube enfrentar a profunda crise financeira global de 2008 e 2009. Seu segundo governo reorientou a política econômica, lançou o PAC e se recusou a adotar a política de austeridade proposta, como sempre, pelos setores da direita, da mídia e do mercado financeiro. Com audácia, superou a crise e teve um segundo mandato forte e com grandes resultados na economia e na popularidade.

Agora, nesse mundo que surgirá, é hora, mais uma vez, de uma reorientação em suas políticas e exercício de sua capacidade de liderança. Mais do que nunca, o país precisará de coesão interna e de um projeto nacional que nos ajude a enfrentar as incertezas internacionais. É o meio, enfim, de o Brasil ter domínio sobre o seu destino.

19 de agosto de 2024

O que está por trás da denúncia contra Alexandre de Moraes

Setores da sociedade e da mídia tentam se alinhar à nova face do bolsonarismo

José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)

Folha de S.Paulo

Causa estranheza o destaque dado pela Folha à denúncia de que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, teria agido fora dos ritos ao solicitar, por meio de auxiliares, que o Tribunal Superior Eleitoral —do qual à época era presidente (ele dirigiu a corte de agosto de 2022 a junho de 2024)— produzisse relatórios para embasar o inquérito das fake news. O inquérito foi aberto por ele ainda em 2019, contra jornalistas e comunicadores que insistiam em disseminar notícias falsas contra o sistema eleitoral, os tribunais superiores e seus ministros, pregando o discurso do ódio.

Estranheza porque, como bem disse o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do STF, não fazia sentido o ministro Moraes oficiar a si mesmo. A fundamentação da denúncia é tão pueril que Moraes recebeu o apoio de todos os seus pares, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de muitos políticos e até de expoentes da ultradireita, como o jurista Ives Gandra Martins e a ex-deputada Janaina Paschoal.

O ministro do STF Alexandre de Moraes - Pedro Ladeira/Folhapress - Pedro Ladeira/Folhapress

É importante notar que a denúncia foi muito bem embalada para ter ampla repercussão. A reportagem que a sustenta tem coautoria de Glenn Greenwald, jornalista estadunidense responsável pela denúncia da Vaza Jato, cujos documentos foram fundamentais para anular os processos contra o presidente Lula, reconhecer sua inocência e restituir seus direitos políticos. Imediatamente, os bolsonaristas passaram a pedir o impeachment de Moraes e defender que todas as punições dadas por ele sejam revistas. Querem, ainda, anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023 e para o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro —tanto em torno dos primeiros quanto do segundo o cerco vai se fechando.

A denúncia foi publicada na mesma semana em que se inicia a campanha eleitoral de prefeitos e vereadores e, como o Brasil não aprovou a regulamentação das plataformas digitais e redes sociais, que hoje são um importante veículo de propaganda eleitoral, todo o controle da disseminação das notícias falsas estará em mãos do TSE. Fragilizar a figura do ministro Alexandre de Moraes, que conduz o inquérito das fake news e que à frente do TSE criou o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (Ciedde), que vai atuar pela primeira vez nestas eleições, é importante para a estratégia eleitoral bolsonarista, pois ela depende da disseminação de mentiras para manter suas bases estimuladas e alinhadas. Se o TSE for muito ativo, ela perde pontos. Se acuar o TSE, pode agir mais livremente nas redes.

Também chama a atenção que a denúncia tenha repercutido nas redes de direita no exterior e tenha sido comentada por Elon Musk, dono do X (ex-Twitter) e crítico de Moraes, a quem acusa de cercear a liberdade de expressão com seu inquérito das fake news, através do qual determinou a suspensão de contas de extremistas em redes sociais. Musk, um sul-africano que se fez bilionário nos Estados Unidos e é dono de várias empresas de tecnologia, é apoiador declarado de Donald Trump, que, como Bolsonaro e seus seguidores, é adepto da disseminação de mentiras nas redes sociais.

Musk foi além. Neste sábado (17), o Global Government Affairs, do X, anunciou na rede do microblog que estava encerrando sua operação no Brasil para "proteger a segurança de sua equipe", e atribuiu a decisão às ações determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes (no âmbito do inquérito das fake news). Melodramaticamente, encerra o comunicado com a seguinte frase, que bem evidencia que Musk se pretende dono do mundo: "O povo brasileiro tem uma escolha a fazer —democracia ou Alexandre de Moraes".

Não resta dúvida de que a denúncia, que já começou a refluir, mostrou que a extrema direita está muito ativa e atenta a todos os movimentos de que possa se aproveitar para fortalecer sua posição em direção ao seu projeto de poder para 2026. Mostrou também o quanto setores da sociedade e da mídia tentam se alinhar com a nova face do bolsonarismo, que responde pelo nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas —a "suíte" [no jargão jornalístico, reportagem que explora os desdobramentos de um fato noticiado] saiu da Polícia Civil paulista.

Tarcísio é aquele que vendeu a Sabesp a preço de banana, fazendo a alegria dos rentistas, e promete, se chegar à Presidência, privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa e, quiçá, o BNDES. A Faria Lima já faz fila para apoiá-lo. Não podemos permitir que isso aconteça.

21 de janeiro de 2024

Desafios da próxima década

PT e esquerdas necessitam de renovação para lidar com a nova conjuntura

José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)


É impossível falar em desafios da esquerda e do Brasil sem levar em consideração que vivemos um momento de hegemonia internacional da extrema direita e do conservadorismo. As consequências da globalização financeira e da desregulamentação do capitalismo foram o desmonte dos estados de bem-estar social e o ressurgimento da extrema direita, que hoje governa a Itália, a Holanda e a Suécia; é uma alternativa real na França; consolida-se na Polônia e na Hungria; pode retomar o governo dos EUA; é ameaça na Alemanha; e, derrotada no Brasil, acaba de vencer na Argentina.

As crises de 2008-9 e 2011-12, a Covid-19 e a quebra das cadeias produtivas e redes logísticas abriram oportunidades para países como o Brasil, ao mesmo tempo em que a crise climática agravou a necessidade de cada nação buscar segurança ambiental, energética, alimentar e tecnológica. Políticas industriais e subsídios passaram a fazer parte das escolhas dos EUA e da Europa, ao lado do protecionismo e de uma aberta guerra comercial e tecnológica contra a China, que cada vez mais ameaça a hegemonia dos norte-americanos.

José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, durante coletiva de imprensa para falar sobre o livro de sua autoria durante o período em que esteve preso, em Brasília - Pedro Ladeira - 29.ago.23/Folhapress - Folhapress

No Brasil, os anos Temer e Bolsonaro foram de desmonte do Estado e das políticas sociais e de renda próprias da Constituição de 1988, dos governos do PT e do ciclo desenvolvimentista —o que é per si uma contradição com os países desenvolvidos, onde a presença do Estado e de políticas industriais e sociais é cada vez maior. Após vencer quatro eleições e só perder a quinta pela prisão ilegal de Lula, o PT e a esquerda voltaram ao governo, mas em condições de minoria na Câmara e no Senado. Esse retorno se deu com um desafio: como governar e retomar o fio da história do desenvolvimento sem unidade nacional ou sem uma aliança entre a esquerda e setores empresariais?

Explico. A esquerda, sozinha, não tem maioria para fazer reformas estruturais. Também não consegue, sozinha, construir um projeto nacional de desenvolvimento que resolva os pontos de estrangulamento do crescimento —os juros e a concentração de renda, realimentados pela estrutura tributária baseada no consumo e na produção. As bancadas conservadoras, de direita e dos bancos bloqueiam os instrumentos que poderiam superar os impasses nacionais: baixa poupança, investimento e produtividade. Revelada na pandemia e na Guerra da Ucrânia, nossa dependência em chips, fertilizantes, agrotóxicos, fármacos e produtos químicos é quase total. O Brasil pode e deve superar essa dependência, que é de interesse nacional, não só da esquerda.

A condição está em nossa capacidade de construir um bloco social que impulsione reformas que viabilizem desenvolvimento com distribuição de renda. Nossa capacidade de mobilizar a sociedade para essas reformas encontra limites nos partidos e na hegemonia da direita conservadora, razão pela qual o PT e as esquerdas precisam mudar a correlação de forças no Congresso e na disputa eleitoral, política e cultural. Sem isso, será impossível.

A extrema direita se apropriou dos avanços tecnológicos e das guerras culturais e nos impuseram derrotas políticas e eleitorais graças à aliança com os interesses econômicos das elites financeiras e agrárias e com os neopentecostais. Para enfrentar os desafios da próxima década, o PT e as esquerdas necessitam de renovação a fim de lidarem com essa nova conjuntura, condição para serem instrumentos da mobilização que garanta base parlamentar e apoio social para as reformas necessárias.

O Brasil precisa fazer 100 anos em 10. Com educação e inovação, reforma tributária que inverta a concentradora estrutura de impostos, redução dos juros, uma reforma político-institucional e a redefinição do papel do Estado. Precisamos também recuperar nossa soberania na política de desenvolvimento. É um equívoco histórico o pressuposto de que o Brasil pode resolver seus problemas ou via austeridade ou apoiado na agregação de valor da agricultura e da mineração, associada com a negação do Estado e das políticas industriais. As consequências são conhecidas: crescimento que beneficia as elites e pobreza com perda da soberania nacional.

Para que possamos retomar o caminho do desenvolvimento, não há opção para o Brasil a não ser assumir seu papel na América do Sul e no mundo e criar as condições para uma revolução social com unidade nacional.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...