Grandes potências voltaram a fazer política industrial, disputando semicondutores, IA e energia
José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)
Folha de S.Paulo
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) apresentou aos presidenciáveis o documento Construindo o Brasil 2050, com propostas para recolocar a indústria no centro da estratégia nacional de desenvolvimento. No encontro, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado repetiram suas cantilenas: equilíbrio fiscal, ataques ao Supremo Tribunal Federal, privatizações e corte de gastos, como se isso bastasse para reconstruir o futuro nacional.
O diagnóstico da CNI é correto. O Brasil vive perda de densidade produtiva, precisa elevar produtividade, ampliar investimentos, fortalecer ciência, tecnologia e inovação, modernizar infraestrutura e tornar a política industrial política de Estado. A questão decisiva é simples: sem indústria forte, o Brasil não será uma nação soberana.
José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)
Folha de S.Paulo
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) apresentou aos presidenciáveis o documento Construindo o Brasil 2050, com propostas para recolocar a indústria no centro da estratégia nacional de desenvolvimento. No encontro, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado repetiram suas cantilenas: equilíbrio fiscal, ataques ao Supremo Tribunal Federal, privatizações e corte de gastos, como se isso bastasse para reconstruir o futuro nacional.
O diagnóstico da CNI é correto. O Brasil vive perda de densidade produtiva, precisa elevar produtividade, ampliar investimentos, fortalecer ciência, tecnologia e inovação, modernizar infraestrutura e tornar a política industrial política de Estado. A questão decisiva é simples: sem indústria forte, o Brasil não será uma nação soberana.
![]() |
| Complexo industrial de produção da empresa chinesa BYD, em Camaçari (BA) - Jin Haoyuan/Xinhua |
Esse debate ocorre em um mundo que já não é o da globalização como dogma, nem da crença de que bastaria privatizar, flexibilizar direitos e reduzir o Estado para que o desenvolvimento viesse naturalmente. Não veio. O que veio foi perda industrial, reprimarização, dependência tecnológica e orçamento capturado por juros altos. As grandes potências voltaram a fazer política industrial, disputando semicondutores, inteligência artificial, energia, defesa, dados e cadeias produtivas.
Há elementos relevantes, como o planejamento de longo prazo, política industrial perene, inovação, digitalização, financiamento, infraestrutura, transição energética, integração internacional. Mas há contradições quando a agenda se aproxima de uma visão fiscalista que trata gasto social, investimento público e direitos como obstáculos. O desafio é disputar seu sentido.
A indústria de transformação organiza cadeias produtivas, impulsiona ciência e tecnologia, demanda engenharia, gera empregos melhores e capacidade nacional de decisão. Petrobras, Eletrobras, Embraer, BNDES, Embrapa, Fiocruz, Butantan e universidades públicas não nasceram do espontaneísmo de mercado, mas de uma longa construção nacional.
Precisamos de estratégia nacional e temos vantagens extraordinárias: matriz energética limpa, alimentos, água, biodiversidade, minerais estratégicos, base industrial, mercado interno e ciência. Mas recurso natural requer indústria, biodiversidade exige ciência, energia limpa precisa de estratégia e minerais críticos requerem beneficiamento nacional.
A Nova Indústria Brasil, lançada pelo governo Lula, recolocou corretamente esse tema no centro da estratégia nacional. Agora é o momento de a agenda ganhar escala, instrumentos, recursos e continuidade, convertendo-se em política de Estado, com crédito de longo prazo, compras públicas, apoio à inovação, PAC, conteúdo nacional e prioridade a saúde, defesa, transição energética, semicondutores e bioeconomia.
Mas nenhuma política industrial ganhará fôlego enquanto a política econômica estiver prisioneira do rentismo. Juros estratosféricos drenam recursos públicos, encarecem o crédito e oferecem ao capital financeiro remuneração incompatível com qualquer projeto nacional. A indústria não floresce em uma economia organizada para satisfazer os rentistas.
É nesse ponto que as respostas dos presidenciáveis revelaram pobreza programática: equilíbrio fiscal como fim em si mesmo, corte de gastos, privatização, flexibilização trabalhista e ataques às instituições. É pouco para um país que precisa de projeto, direção política, planejamento, coragem e imaginação histórica. O Brasil deve decidir se quer ser apenas mercado consumidor, fornecedor de commodities e pagador de juros, ou uma nação soberana, democrática, desenvolvida, justa e capaz de oferecer futuro digno à sua população
Há elementos relevantes, como o planejamento de longo prazo, política industrial perene, inovação, digitalização, financiamento, infraestrutura, transição energética, integração internacional. Mas há contradições quando a agenda se aproxima de uma visão fiscalista que trata gasto social, investimento público e direitos como obstáculos. O desafio é disputar seu sentido.
A indústria de transformação organiza cadeias produtivas, impulsiona ciência e tecnologia, demanda engenharia, gera empregos melhores e capacidade nacional de decisão. Petrobras, Eletrobras, Embraer, BNDES, Embrapa, Fiocruz, Butantan e universidades públicas não nasceram do espontaneísmo de mercado, mas de uma longa construção nacional.
Precisamos de estratégia nacional e temos vantagens extraordinárias: matriz energética limpa, alimentos, água, biodiversidade, minerais estratégicos, base industrial, mercado interno e ciência. Mas recurso natural requer indústria, biodiversidade exige ciência, energia limpa precisa de estratégia e minerais críticos requerem beneficiamento nacional.
A Nova Indústria Brasil, lançada pelo governo Lula, recolocou corretamente esse tema no centro da estratégia nacional. Agora é o momento de a agenda ganhar escala, instrumentos, recursos e continuidade, convertendo-se em política de Estado, com crédito de longo prazo, compras públicas, apoio à inovação, PAC, conteúdo nacional e prioridade a saúde, defesa, transição energética, semicondutores e bioeconomia.
Mas nenhuma política industrial ganhará fôlego enquanto a política econômica estiver prisioneira do rentismo. Juros estratosféricos drenam recursos públicos, encarecem o crédito e oferecem ao capital financeiro remuneração incompatível com qualquer projeto nacional. A indústria não floresce em uma economia organizada para satisfazer os rentistas.
É nesse ponto que as respostas dos presidenciáveis revelaram pobreza programática: equilíbrio fiscal como fim em si mesmo, corte de gastos, privatização, flexibilização trabalhista e ataques às instituições. É pouco para um país que precisa de projeto, direção política, planejamento, coragem e imaginação histórica. O Brasil deve decidir se quer ser apenas mercado consumidor, fornecedor de commodities e pagador de juros, ou uma nação soberana, democrática, desenvolvida, justa e capaz de oferecer futuro digno à sua população

Nenhum comentário:
Postar um comentário