Bhaskar Sunkara
Jonathan Chait publicou um artigo na The Atlantic alertando que a Democratic Socialists of America (DSA) tornou-se exatamente aquilo a que se opunha quando foi fundada. Não há nada de errado em um articulista liberal, em uma publicação liberal, criticar a esquerda socialista. Na verdade, isso é um bom sinal.
O movimento socialista nos Estados Unidos está crescendo. Suas fileiras voltam a incluir prefeitos e membros do Congresso, e eu ficaria mais confuso se os liberais estivessem satisfeitos com essa evolução.
O problema reside nos argumentos que Chait utiliza para criticar a DSA.
Sou membro da organização há quase toda a minha vida — já se vão duas décadas. Entrei ainda adolescente, atraído pela oposição da DSA à Guerra do Iraque e pelas minhas próprias leituras sobre marxismo e socialismo democrático, incluindo obras de figuras como Irving Howe e Michael Harrington. A DSA que encontrei no verão de 2007 estava repleta de pessoas muito mais velhas do que eu, politizadas pela longa história do século XX. Algumas haviam participado do movimento pelos direitos civis, enquanto outras vinham das lutas antiguerra e feministas da época da Guerra do Vietnã. Muitos pertenciam a uma corrente política conhecida como "Terceiro Campo", que passara a Guerra Fria opondo-se tanto a Washington quanto a Moscou. Havia debates acalorados na organização, mas era inegável o fato de estarmos estagnados em cinco ou seis mil membros e atuando, na melhor das hipóteses, como um parceiro minoritário em uma coalizão progressista mais ampla.
Hoje, a DSA atrai a atenção da mídia em todo o país, vence eleições importantes e conta com mais de 15 mil membros apenas na cidade de Nova York. Diante desse cenário, Chait afirma que "uma ironia trágica da história é que a Democratic Socialists of America foi formada em oposição àquilo em que se tornou". No entanto, o que vi ao longo dos anos não foi, de forma alguma, uma organização tomada por radicais e extremistas.
Tomemos como exemplo Darializa Avila Chevalier, figura central nos argumentos de Chait. Não vou analisar detalhadamente, ponto a ponto, as postagens antigas dela no Twitter. Concordo com algumas e discordo de outras. Mas estou muito mais interessado na campanha que ela realmente realizou — uma campanha focada na acessibilidade (de moradia e custo de vida) e enraizada na realidade das pessoas que ela representará, em Uptown e no Bronx. Não há nada na essência dessa campanha que um Harrington ou um Howe deixariam de reconhecer como socialista democrática, incluindo sua bandeira “Bebês, não bombas” — um chamado para redirecionar gastos militares para programas sociais internos.
O problema reside nos argumentos que Chait utiliza para criticar a DSA.
Sou membro da organização há quase toda a minha vida — já se vão duas décadas. Entrei ainda adolescente, atraído pela oposição da DSA à Guerra do Iraque e pelas minhas próprias leituras sobre marxismo e socialismo democrático, incluindo obras de figuras como Irving Howe e Michael Harrington. A DSA que encontrei no verão de 2007 estava repleta de pessoas muito mais velhas do que eu, politizadas pela longa história do século XX. Algumas haviam participado do movimento pelos direitos civis, enquanto outras vinham das lutas antiguerra e feministas da época da Guerra do Vietnã. Muitos pertenciam a uma corrente política conhecida como "Terceiro Campo", que passara a Guerra Fria opondo-se tanto a Washington quanto a Moscou. Havia debates acalorados na organização, mas era inegável o fato de estarmos estagnados em cinco ou seis mil membros e atuando, na melhor das hipóteses, como um parceiro minoritário em uma coalizão progressista mais ampla.
Hoje, a DSA atrai a atenção da mídia em todo o país, vence eleições importantes e conta com mais de 15 mil membros apenas na cidade de Nova York. Diante desse cenário, Chait afirma que "uma ironia trágica da história é que a Democratic Socialists of America foi formada em oposição àquilo em que se tornou". No entanto, o que vi ao longo dos anos não foi, de forma alguma, uma organização tomada por radicais e extremistas.
Tomemos como exemplo Darializa Avila Chevalier, figura central nos argumentos de Chait. Não vou analisar detalhadamente, ponto a ponto, as postagens antigas dela no Twitter. Concordo com algumas e discordo de outras. Mas estou muito mais interessado na campanha que ela realmente realizou — uma campanha focada na acessibilidade (de moradia e custo de vida) e enraizada na realidade das pessoas que ela representará, em Uptown e no Bronx. Não há nada na essência dessa campanha que um Harrington ou um Howe deixariam de reconhecer como socialista democrática, incluindo sua bandeira “Bebês, não bombas” — um chamado para redirecionar gastos militares para programas sociais internos.
Mais continuidade do que mudança
Comecemos pela democracia, o ponto mais importante da crítica de Chait. A DSA permanece comprometida com ela, tanto em sua vida interna quanto no mundo que deseja construir. As milhares de pessoas que aderiram à organização, vindas de todas as vertentes da esquerda existente, não diluíram esse compromisso. O fato de atuarem em uma organização de base como a DSA — em vez de grupos mais sectários ou marginais — é prova da hegemonia da teoria e da prática do socialismo democrático na esquerda atual, e não de seu colapso.
Quanto à política externa, Chait aponta algumas mudanças reais na DSA ao longo dos anos. Mas são mudanças esperadas de uma organização com raízes na Nova Esquerda e nos grupos que a sucederam — pessoas que testemunharam as ações do imperialismo norte-americano no Vietnã, na América Central e ao longo da "Guerra ao Terror" (bem como os efeitos da posição "shachtmanista" sobre a Guerra do Vietnã no movimento socialista dos Estados Unidos).
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, grande parte da organização enfatizou os fatores sobre os quais tinha influência interna: a OTAN e os erros reais da política externa dos EUA. Embora concordasse com essas críticas, eu pensava na época — e ainda penso — que deveria ter havido maior ênfase na denúncia da invasão e na expressão de solidariedade ao povo ucraniano. No entanto, como alguém que participa desses debates dentro da organização, posso afirmar que a ideia de que a DSA nutre simpatia por Moscou é absurda. De fato, os apelos iniciais da DSA por uma solução negociada estão se tornando um consenso crescente em todo o espectro político à medida que a guerra se prolonga.
Em relação à Palestina, houve uma mudança real e duradoura desde a fundação da DSA, na década de 1980. Diante dos acontecimentos dos últimos dois anos e da destruição de Gaza, é difícil sustentar o argumento de que o erro do movimento socialista americano é ser insuficientemente sionista. O que Chait interpreta como uma captura ideológica por radicais universitários é algo mais simples: uma mudança geracional — tanto dentro da coalizão democrata quanto muito além dela — que se afasta da defesa de um Estado de apartheid e se volta para a visão de que Israel, tal como constituído atualmente, é um obstáculo à paz para todos na região, inclusive para os judeus.
Parte da narrativa de Chait sobre a captura ideológica é a ideia — propagada erroneamente por alguns ex-membros da DSA — de que fomos capturados por radicais. Segundo a narrativa deles, “as barreiras de proteção que Harrington construiu para excluir comunistas” foram desmontadas.
Essa é uma maneira estranha de descrever o que realmente aconteceu. Essas barreiras originaram-se no New American Movement, e não na ala de Harrington durante a fusão que criou a DSA em 1982. Mais importante ainda: a regra não visava comunistas per se, mas sim pessoas submetidas à disciplina de organizações de centralismo democrático que buscavam transformar a DSA a partir de dentro. A DSA ainda mantém a prerrogativa de expulsar membros. O motivo pelo qual não se ouve falar do uso dessa medida é que a situação simplesmente não surgiu. Não estamos sendo infiltrados por quadros disciplinados; estamos sendo inundados por pessoas novas na esquerda e na política organizada de qualquer tipo. Além disso, a DSA de antigamente também nunca expurgou seus quadros. Nossa organização chegou a recusar a expulsão de um membro que havia sido preso e condenado anos antes como espião da Alemanha Oriental, sob o argumento de que, ao final da vida, ele havia se tornado um socialista democrático convicto.
Esse último detalhe toca em um ponto que escapa a toda a análise de Chait: as fronteiras entre “comunista”, “socialista” e “social-democrata” nunca foram tão nítidas quanto ele afirma. Todos faziam parte do mesmo movimento antes da Primeira Guerra Mundial e se dividiram em torno de questões fundamentais. No entanto, nos últimos anos, houve de fato uma convergência de meios pós-comunistas, pós-trotskistas e de esquerda social-democrata nas mesmas organizações ao redor do mundo. Para mim, isso representa um triunfo do socialismo democrático — que sobreviveu às provações do século XX —, e não um ponto negativo para o nosso movimento.
O que Harrington queria
A DSA de hoje reflete isso internamente, mesmo que muitos de seus membros não o reconheçam explicitamente. Ideologicamente, ela representa uma fusão de ideias socialistas e liberais: a crença na permanência da política, e não na busca por sua abolição; a crença no pluralismo como um bem em si mesmo; o reconhecimento de que nenhuma revolução elimina a discordância e a necessidade de mediação civil das diferenças. Esses compromissos não são tratados como heresia na DSA, na qual ainda atuo. Eles estão mais próximos do senso comum do que Chait imagina.
Mas Chait tem razão em um aspecto fundamental. Somos membros de uma organização que possui, para os padrões da América de 2026, objetivos bastante revolucionários. A DSA realmente almeja uma forma de democracia mais profunda e radical do que a que temos atualmente. O que Chait parece não saber é que essa ambição remonta diretamente a Michael Harrington e a todos os outros fundadores da organização. Em seus livros populares, Harrington defendia a expropriação da classe capitalista, uma democracia que se estendesse à economia e o controle dos meios de produção pelos trabalhadores.
Não é difícil identificar o fio condutor que liga a DSA de Michael Harrington à atual.
O que o diferenciava do restante da extrema-esquerda não era esse objetivo. Eram os seus meios — profundamente democráticos — e a sua insistência no pluralismo; naquilo que Irving Howe, em um ensaio de 1977 na revista Dissent, chamou de reconciliação entre o liberalismo filosófico e o socialismo. O argumento de Howe era que os socialistas deveriam preservar os acertos do liberalismo — sua defesa das liberdades civis, da liberdade de expressão e do pluralismo social —, ao mesmo tempo em que rejeitavam a defesa liberal da propriedade capitalista. Essa é uma tradição que ainda vejo na DSA de hoje.
Chait também tem razão ao afirmar que priorizamos questões como a acessibilidade de custos — aluguel, assistência médica e demandas que parecem mais viáveis de conquistar. É claro que sim. Se você não consegue reunir poder político suficiente para reduzir os aluguéis ou conquistar um sistema universal de saúde, certamente não conseguirá socializar a economia.
No entanto, essa socialização da economia — a abolição das divisões de classe que existem na maioria dos lugares desde a Revolução Neolítica — tem sido um objetivo da DSA desde a sua fundação. Esse apelo foi uma das coisas que me levaram à minha primeira reunião, no verão de 2007. Não havia outro motivo para ingressar em uma organização socialista quando a esquerda em geral estava tão enfraquecida; nenhuma outra razão para passar anos no isolamento político, a não ser aquele compromisso, aparentemente excêntrico, com um mundo além do capitalismo.
A questão partidária
Para ser justo, muitas das preocupações de Chait giram em torno da questão partidária e do que a DSA planeja fazer com o partido ao qual ele próprio está vinculado: o Partido Democrata. Segundo sua análise, enquanto na época de Harrington os socialistas democráticos se dedicavam a construir e transformar os Democratas, a DSA de hoje adota uma abordagem muito mais instrumental. Acredito que essa visão simplifica uma história mais interessante.
Durante a maior parte da existência da DSA, houve um amplo consenso teórico em torno do "realinhamento" — a ideia de que o Partido Democrata poderia ser pressionado e remodelado para se tornar um verdadeiro veículo da social-democracia. Esse consenso surgiu da experiência: os movimentos insurgentes da "Nova Política" (New Politics) na década de 1970 e o fato de que o partido já havia passado por um realinhamento na memória recente — expurgando sua ala dos Dixiecrats (democratas conservadores do Sul), voltando-se para os direitos civis e impulsionando figuras como Ted Kennedy a apoiar medidas como o projeto de lei Humphrey-Hawkins sobre o pleno emprego; um esforço que o Comitê Organizador Socialista Democrático (DSOC, precursor da DSA fundado por Harrington) e, posteriormente, a própria DSA ajudaram a articular. Essa estratégia também era — como Chait certamente compreende — fortemente condicionada pela própria estrutura política americana, com seus partidos fracos e leis restritivas de acesso às cédulas eleitorais.
Em teoria, muitos membros da DSA rejeitam o realinhamento. Eu sou um deles. Na prática, porém, a organização está seguindo a cartilha de Harrington em sua forma mais ambiciosa: socialistas declarados concorrendo pela legenda democrata, vinculados a uma organização democrática de base. Além disso, encontram-se membros da DSA disputando e conquistando cargos internos no Partido Democrata, tanto em estados "azuis" (democratas) quanto "vermelhos" (republicanos), mesmo que isso não faça parte da estratégia nacional oficial. No entanto, esses esforços — que não são menos legítimos do que declarações de grupos internos (caucuses) — não ganham destaque nas polêmicas contra a DSA, pois isso seria inconveniente demais.
Harrington desejava exatamente esse tipo de organização: uma que tivesse democracia interna genuína e flexibilidade suficiente para cometer erros — chegando ao ponto de permitir, ocasionalmente, a entrada de um espião da Alemanha Oriental. Um homem que quisesse que os socialistas se dissolvessem silenciosamente no liberalismo não teria passado a vida fundando e defendendo uma organização socialista.
No entanto, enquanto não democratizarmos o sistema americano o suficiente para viabilizar uma democracia multipartidária — com eleições justas e cédulas abertas —, seria um erro evitar o uso de uma das duas legendas que realmente chegam aos eleitores. Se o rótulo de "socialista" ajuda ou prejudica o Partido Democrata é uma questão à parte — e uma questão legítima. Mas ser socialista é algo que Harrington abraçou, e que o vereador de Nova York Zohran Mamdani e uma nova geração de representantes eleitos abraçam, pela simples razão de que são socialistas. Eles queriam, e querem, algo mais do que um Estado de bem-estar social humanitário.
Os "Chaits" do mundo devem continuar a criticar nosso programa, nossa retórica e até mesmo nossos tuítes. Tudo isso é alvo legítimo de crítica. O que seria incorreto, no entanto, é rotular isso como um autoritarismo incipiente ou olhar para o movimento socialista das últimas três ou quatro décadas e enxergar mais ruptura do que continuidade. Não é difícil identificar o fio condutor que liga a DSA de Harrington à atual.
O medo oposto
Sob todos os aspectos, a DSA de 2026 é uma organização melhor do que aquela à qual me juntei em 2007. Mas minha verdadeira preocupação é quase o oposto daquela que Chait tem. Ele teme que o antigo socialismo democrático esteja sendo sufocado por uma camarilha de ultraesquerdistas. Meu medo vai na direção contrária. O resultado mais provável de eleger tantos socialistas não é uma guinada em direção a um comunismo autoritário, mas sim uma nova onda de reformistas que governam com competência, criam bons empregos e consagram a saúde como um direito, mas que não têm caminho — nem mesmo desejo — para uma sociedade livre da exploração e da dominação capitalistas.
Chait teme que sejamos radicais demais para que se confie o poder a nós. Eu temo que, uma vez com o poder, não sejamos radicais o suficiente para concluir o que Harrington começou.
Colaborador
Bhaskar Sunkara é o editor fundador da Jacobin, presidente da revista The Nation e autor de The Socialist Manifesto: The Case for Radical Politics in an Era of Extreme Inequality.

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