31 de julho de 2026

Reserve um momento para sentir a dor dos ricos

Antigamente, a opinião respeitável preocupava-se em distinguir os pobres "merecedores" daqueles "não merecedores". Hoje, à medida que cresce o sentimento contra os ultrarricos, a The Economist argumenta que são, na verdade, os bilionários que merecem nossa gratidão, solidariedade e proteção.

Danny Dorling

Jacobin

Sob qualquer definição razoável da palavra "fazer" [ou "construir"], ninguém "faz" um bilhão de dólares sozinho. Ninguém jamais o fez. A desigualdade extrema exige uma narrativa que a legitime. A The Economist tem o prazer de fornecer uma. (Chesnot / Getty Images)

Em 23 de junho de 2026, a The Economist publicou uma matéria sobre bilionários intitulada "A Ascensão dos Ricos Merecedores". A publicação alegava que "os bilionários de hoje têm mais probabilidade de ter construído sua própria fortuna do que os de antigamente". Essa afirmação é facilmente refutada. A questão mais interessante é: por que a revista se deu ao trabalho de publicá-la?

Sob qualquer definição razoável da palavra "fazer", ninguém "faz" o equivalente a um bilhão de dólares sozinho. Ninguém jamais o fez. Mas sempre houve pessoas que possuíam muito mais dinheiro do que outras. Para sustentar tal desigualdade, uma narrativa legitimadora é essencial. Mas será que os redatores anônimos da The Economist realmente acreditam no que estão escrevendo?

A penúltima frase do penúltimo parágrafo do artigo — descrito pela revista como uma "análise especializada" — afirma: "O Sr. [Elon] Musk construiu sua própria fortuna, o que é ótimo, mas ele não esconde seu desejo de influenciar eleições, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior". Os autores sugerem, então, que talvez as doações a partidos políticos devessem ser limitadas, em vez de se tributar excessivamente os bilionários. Vale a pena perguntar: quem está contando essa história e por quê?

Os ganhos da riqueza

Após mencionar um número ínfimo de mulheres bilionárias — sem ressaltar o quão raras elas são —, recorre-se ao clichê habitual de citar alguns dos jogadores de futebol homens mais ricos do mundo, como se a capacidade de Elon Musk de acumular uma riqueza astronômica fosse, de alguma forma, comparável à habilidade de chutar uma bola. No entanto, existe uma conexão que os analistas especializados não mencionam.

A "remuneração" dos jogadores de futebol internacionais contemporâneos tem relativamente pouco a ver apenas com o talento deles. Eles jogam em um momento em que o futebol se tornou mais monetizado do que em qualquer outra fase de sua história. Se fossem igualmente brilhantes há um século, teriam recebido uma ninharia. São os contratos de televisão, a dimensão da audiência global e os contadores que tornam alguns jogadores de futebol tão ricos hoje em dia.

A ideia de que um talento extraordinário merece uma remuneração extraordinária é a nossa justificativa moderna para um mito cada vez mais desgastado sobre a desigualdade. O que parece ter levado a The Economist a agir é a crescente oposição a esse mito. O artigo observa que, em 2026, e-mails de arrecadação de fundos de políticos do Partido Democrata nos Estados Unidos tinham três vezes mais chances de criticar duramente os bilionários do que em 2024. Algo está mudando rapidamente.

Os redatores da The Economist criaram sua própria classificação para cerca de 7.000 bilionários analisados ​​desde 2001, a fim de afirmar que, "pela primeira vez, metade da riqueza dos bilionários do mundo foi obtida de forma razoavelmente justa". O advérbio "razoavelmente" desempenha um papel crucial aqui. Aparentemente, acumular um bilhão é considerado "razoável" desde que o dinheiro não provenha de jogos de azar, construção civil, indústria de defesa ou mineração. O raciocínio da revista é que esses setores frequentemente exigem "acesso político", sugerindo que a corrupção desempenhou um papel importante. Nas palavras dos próprios "analistas especializados": "É difícil abrir uma mina ou um cassino, por exemplo, sem ter amigos no governo".

Elogiando os herdeiros de grandes fortunas

Quase todos os bilionários jamais sujaram as mãos de verdade. Poucos saberiam programar sequer o software mais básico utilizado por suas empresas ou montar e conectar as peças de uma pequena parte de uma máquina. Seus talentos costumam residir em outras áreas: gestão financeira rigorosa, negociação de acordos, autopromoção e uma postura implacável. Mesmo aqueles que se autodenominam "self-made" (que construíram a própria fortuna) frequentemente se beneficiam de heranças substanciais, credenciais educacionais de elite, segurança para assumir riscos e conexões sociais exclusivas, inacessíveis às pessoas comuns.

Elogiar bilionários é um pouco como exaltar os reis e rainhas de outrora, ou os sumos sacerdotes, faraós e imperadores que os antecederam. Essas figuras eram outrora veneradas, e narrativas elaboradas eram construídas em torno delas, exaltando sua grandeza independentemente de quão insanas, perversas ou incapazes pudessem ter sido — ou ainda sejam.

A ideia de que um talento extraordinário merece uma remuneração extraordinária é a nossa justificativa moderna para um mito cada vez mais desgastado sobre a desigualdade.

As sociedades criam posições que precisam ser ocupadas por figuras de destaque, e alguém invariavelmente as preencherá. O interessante é quando as histórias que sustentam essas figuras começam a perder o brilho. É frequentemente nesse momento que a mudança se aproxima e a sociedade evolui para algo novo.

A revista The Economist analisa a mudança na composição da classe dos bilionários para sugerir que o sistema está se tornando mais meritocrático e robusto. Segundo seus cálculos, cerca de metade de toda a riqueza dos bilionários provinha diretamente de heranças no início dos anos 2000; mais recentemente, essa proporção caiu para um quarto. No entanto, esse declínio parece refletir a redução da concentração de bilionários nos Estados Unidos e na Europa — à medida que fortunas gigantescas crescem em outras partes do mundo —, paralelamente ao crescimento corporativo e à valorização dos ativos.

Os muito ricos tornam-se ainda mais ricos quando o restante de nós está menos organizado. À medida que os EUA e a Europa perdem importância econômica e a Ásia ascende, a composição e a geografia da riqueza dos bilionários estão se transformando. Ao tentar explicar o aparente aumento da riqueza "merecida", a revista observa que empresas ao redor do mundo proporcionaram retornos anuais médios de 13% aos acionistas. Como a The Economist reconhece, grande parte do aumento da riqueza dos bilionários provém de participações em empresas distintas daquelas às quais esses bilionários estão diretamente associados. A revista não vê qualquer relação entre esse aumento na geração de lucros e a crise global do custo de vida que afeta a grande maioria das pessoas; em vez disso, classifica a situação como uma “crise de acessibilidade” e a reduz a “alguns anos de inflação elevada prejudicando o padrão de vida”.

A existência de bilionários não é inevitável

Em certo ponto, o artigo admite que a democracia poderia funcionar melhor com menos influência de bilionários. No entanto, se a democracia realmente funcionasse melhor, não teríamos bilionários. Não há argumentos convincentes que justifiquem permitir que alguém acumule tanta riqueza e, consequentemente, tanto poder sobre a vida de outras pessoas. Mas a democracia recebe poucos elogios neste artigo. Em vez disso, os louvores são reservados aos acumuladores de dinheiro que, segundo nos dizem, mantêm o mundo moderno em movimento.

Curiosamente, o lugar que registrou um dos maiores aumentos no número de bilionários nos últimos anos foi a China. É também um dos poucos países do mundo onde o governo assumiu um papel ativo na contenção do crescimento da riqueza dos bilionários. A The Economist menciona a repressão de Pequim aos jogos de azar em Macau — o que prejudicou alguns bilionários do setor de cassinos — e a queda na fortuna de um incorporador imobiliário chinês, de US$ 21 bilhões em 2017 para cerca de US$ 4 bilhões atualmente. A publicação também observa que muitos bilionários chineses só recentemente ingressaram na faixa de riqueza bilionária.

É pouco provável que o governo chinês celebre a concentração de renda em sua economia, que ainda está em expansão. Também é improvável que aceite a conclusão da The Economist de que "uma parcela maior de bilionários atuais impulsiona o crescimento do emprego e ganhos de produtividade" e que essa concentração de riqueza "aumenta o custo econômico de perdê-los" caso eles "decidam ir embora ou trabalhar menos para evitar a tributação".

A ideia de que um número reduzido de pessoas extraordinariamente ricas é a razão pela qual existem mais empregos em certos lugares, ou de que os trabalhadores se tornam mais produtivos devido à existência de bilionários, seria ridícula se não fosse propagada com tanta seriedade e desespero nos dias de hoje. A implicação parece ser a de que sociedades democráticas não conseguem conter o poder dos bilionários. O exemplo da China não prova o contrário — visto que o número de novos bilionários cresceu rapidamente —, mas demonstra, pelo menos, que a quantidade de bilhões que cada um pode vir a acumular é uma escolha política, e não uma inevitabilidade.

Taquígrafos da classe dominante

A The Economist pertence a famílias ricas, a maioria das quais possui fortunas avaliadas em bilhões. Entre seus maiores acionistas estão a família Agnelli (com patrimônio superior a US$ 20 bilhões) e a família Smith, por meio da Smith Financial Corporation (avaliada em cerca de £ 7 bilhões). Outras famílias muito ricas, incluindo os Cadbury e os Schröder, também detêm participações significativas.

Por que famílias muito ricas patrocinariam e moldariam a linha editorial de uma revista chamada The Economist? Uma resposta pode ser encontrada em artigos como The rise of the deserving rich. Em um momento em que os muito ricos estão sob crescente escrutínio público, a revista optou por produzir um texto em defesa dos bilionários.

O artigo começa observando que "bilionários nunca foram exatamente populares, mas hoje são detestados", acrescentando que é comum ouvir que "todo bilionário representa uma falha nas políticas públicas". A The Economist foi fundada há 180 anos por um banqueiro e empresário. Ela sempre defendeu uma visão de mundo econômica específica, voltada para um público também específico. Hoje, à medida que o liberalismo econômico enfrenta críticas renovadas e vigorosas, a revista respondeu com uma defesa dos ricos. A própria necessidade de elaborar tal defesa é reveladora.

O título, "deserving rich", é, por si só, uma inversão reveladora da antiga distinção entre os "pobres merecedores" e os "pobres não merecedores". Os pobres merecedores eram considerados bem-comportados e suficientemente trabalhadores para fazer jus a algumas moedas para sobreviver; os pobres não merecedores eram confinados em workhouses.

Para aqueles que possuem grandes riquezas, argumentos a favor de uma maior igualdade econômica podem parecer uma forma de opressão. Os ricos temem ser vistos cada vez mais como não merecedores e receiam acabar, um dia, no equivalente a um asilo de trabalho. O artigo sugere que eles são, na verdade, dignos de compreensão e proteção. Por meio de publicações que possuem ou influenciam, os ricos não pedem apenas nossa compreensão e pena, mas também nossa gratidão, nossa empatia e, em última análise, nossa contínua subserviência. Seus apelos estridentes e parciais revelam a fragilidade de seus argumentos.

Colaborador

Danny Dorling é professor de geografia humana na Universidade de Oxford. Seu livro mais recente é Seven Children: Inequality and Britain's Next Generation, a ser publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos no outono de 2024 pelas editoras Hurst e Oxford University Press.

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