15 de julho de 2026

A filha de Richard Pryor sobre seu legado radical

A historiadora Elizabeth Stordeur Pryor fala sobre seu novo livro de memórias, a história da palavra "nigger" e por que seu pai usava a comédia para enfrentar o racismo.

Entrevista com
Elizabeth Stordeur Pryor


Richard Pryor não mudou apenas a comédia. Ele mudou a forma como a América falava sobre raça. (Paul Natkin / Getty Images)

Entrevista realizada por
Ed Rampell

Elizabeth Stordeur Pryor realiza, por meio do meio acadêmico e como autora de obras de não ficção, o que seu pai, Richard Pryor, fez por meio da comédia. No auge de sua carreira, nas décadas de 1970 e 1980, Pryor foi um comediante de stand-up, ator e roteirista pioneiro que, de forma ousada, abriu novos caminhos para discutir e questionar questões raciais nos palcos e nas telas. Pryor representava a dimensão cômica do movimento Black Power; ele frequentemente contracenava em comédias com Gene Wilder e interpretou um herói da classe trabalhadora no filme Blue Collar (1978), de Paul Schrader.

No que poderia ser chamado de sua "ofensiva Pryor", as apresentações de Richard frequentemente recorriam ao uso da palavra "nigger" (termo pejorativo em inglês para se referir a negros), até que um evento dramático o levou a repudiar seu uso. Agora, em Something We Said: Richard Pryor, a Notorious Word, and Me, sua filha Elizabeth Stordeur Pryor desconstrói a história e a etimologia dessa palavra infame, entrelaçando-as com memórias pessoais de ter sido criada por uma lenda de Hollywood e contando a história de seu pai atormentado, que transformou relatos sobre crescer em um bordel em humor de relevância social, impactando o debate nacional sobre dinâmicas raciais e de gênero.

Elizabeth Stordeur Pryor, professora de história no Smith College, foi entrevistada por telefone, em Oakland.

Ed Rampell

Something We Said é um livro singular que combina um olhar sobre os bastidores da vida de uma celebridade, suas memórias pessoais e a história de uma questão social, mostrando como tudo isso se entrelaça.

Elizabeth Stordeur Pryor

Inspirei-me em muitos livros diferentes: Wild, de Cheryl Strayed, porque adorei a maneira como ela conseguia estar no presente e remeter ao passado; Caste e The Warmth of Other Suns, de Isabel Wilkerson, obras nas quais ela transita entre tempos, apresentando personagens e revelando suas histórias mais amplas e sua vida interior. Foi daí que surgiu minha ideia de mesclar todas essas histórias. Além disso, houve a influência de In the Wake: On Blackness and Being, de Christina Sharpe.

Ed Rampell

Qual é a origem de Something We Said?

Elizabeth Stordeur Pryor

No semestre de primavera de 2010, eu estava cursando o segundo semestre do meu primeiro ano como professora de história recém-contratada no Smith College. Eu estava lecionando sobre a Guerra Civil e, especificamente, sobre a Lei dos Escravos Fugitivos, quando uma aluna me perguntou se eu já tinha assistido a Banzé no Oeste. Aquilo me pegou totalmente de surpresa, pois eu nunca conversava com meus alunos sobre o fato de meu pai ser Richard Pryor. Senti que a aluna estava tentando revelar que eu era filha dele, já que meu pai foi coautor — junto com Mel Brooks — de Banzé no Oeste, uma comédia satírica de 1974 que abordava questões raciais. Então, respondi que já tinha visto o filme, embora não o tivesse feito. Se o tivesse assistido, provavelmente teria evitado o que aconteceu em seguida.

Ela citou uma fala do filme — que, sem dúvida, foi escrita por meu pai — que utilizava um termo pejorativo para pessoas de ascendência chinesa e a N-word (o termo racista ofensivo contra negros), e os alunos ouviram as ofensas. Naquele momento, fiquei muito abalada. Foi como se mundos colidissem: minha história pessoal com a palavra — como uma pessoa mestiça e judia, filha de Richard Pryor — e meu papel como professora universitária refletindo sobre como abordar essas histórias de forma intencional, já que elas podem gerar desconforto. O ensino desses temas pode ser muito intenso, e eu ainda não compreendia isso plenamente na época.

Havia também a própria história da palavra. Eu me perguntava: será que realmente sei o que ela significa? Ela tem o mesmo sentido hoje que tinha naquela época? Como abordar essas histórias? Quanto mais eu pesquisava sobre o assunto, mais o nome do meu pai surgia, devido ao seu trabalho pioneiro na década de 1970 e à sua disposição em usar a palavra para forçar o público a confrontar o próprio racismo.

Ed Rampell

Segundo o seu livro, Richard a contratou para trabalhar na autobiografia dele, mas você sofreu um bloqueio criativo e não conseguiu realizar a tarefa. Você acha que Something We Said finalmente cumpre essa missão?

Elizabeth Stordeur Pryor

Acredito que sim. Sinto que é um pedido de desculpas, uma forma de reparar o passado. Uma maneira de me reconectar com ele, de contar a nossa história juntos e de contar a história dele. Espero que o livro reapresente a obra dele a um público mais jovem. No semestre passado, ministrei um curso chamado "A América de Richard Pryor" e fiquei chocada ao perceber que meus alunos realmente não sabem quem ele é, apesar da importância que sua voz teve na década de 1970.

Ed Rampell

A "palavra notória" mencionada no subtítulo do seu livro é a N-word (o termo pejorativo racial em inglês). Qual é a etimologia dessa palavra e a história de seu uso e abuso?

Elizabeth Stordeur Pryor

O livro é estruturado em três partes: a história da minha relação com meu pai e como essa palavra permeia essa relação; a história do meu trabalho em sala de aula; e uma parte dedicada à história da própria palavra, para situá-la e permitir a compreensão das outras partes do livro. Foi em 1619 que os primeiros vinte africanos foram sequestrados e trazidos para Jamestown, e a palavra foi aplicada a eles. Ela se torna uma ideologia fundamental que concebe as pessoas negras como o "outro".

A palavra passa a ser realmente um insulto racial quando as pessoas negras começam a conquistar a liberdade. Na década de 1830, no Norte dos EUA antes da Guerra Civil, ela funciona como um ataque à liberdade, à mobilidade, à prosperidade e à participação econômica e política dos negros. Quando as pessoas deixam de ser formalmente escravizadas, a palavra as prende como um grilhão. Pois agora temos oradores incríveis — convidados para jantares por grandes personalidades americanas — sendo chamados por esse termo. Ela atua como uma barreira no espaço público, excluindo as pessoas negras, funcionando como uma ferramenta de segregação. E isso evolui para a violência.

Descobri também que, desde o final do século XVIII, as pessoas negras vinham ressignificando o termo, utilizando-o como forma de subversão e protesto em suas próprias falas para se referirem a si mesmas — de maneira muito semelhante ao que se ouve hoje no hip-hop. Não foram meu pai, nem escritores negros importantes dos anos 70 ou intelectuais do movimento Black Power que começaram a usar a palavra com "N" dessa maneira; eles estavam dando continuidade a séculos de uma tradição oral de protesto.

Os comediantes eram historiadores. Eles não estavam apenas inventando histórias sobre suas vidas, mas conectando-as a essa história mais ampla. Eles compreendiam o contexto de suas experiências como homens negros.

Ed Rampell

Você escreve sobre dois significados e pronúncias diferentes da "palavra com N" (N-word).

Elizabeth Stordeur Pryor

Essa é uma distinção que jovens começaram a fazer no inglês americano há quinze ou vinte anos: a palavra com N terminada em "r" forte e a palavra com N terminada em "a" suave. Existem dois significados para essas palavras. A versão com o "r" forte é aquela branca e racista — a última palavra que alguém ouvia ao ser linchado, usada durante a escravidão e em casos de brutalidade policial. A outra é a versão que meu pai usava com mais frequência, e que aparecia no título de dois de seus álbuns vencedores do Grammy. Embora meu pai a escrevesse exatamente da mesma maneira, a essência da palavra remetia a uma espécie de camaradagem.

Ed Rampell

Quem tem permissão para dizer a palavra com N em público e em privado, e por quê?

Elizabeth Stordeur Pryor

Existe um livro que tem basicamente esse título, The N Word, de Jabari Asim. Ele aborda essa questão, e acho que ela é importante. Para mim, debates polêmicos sobre quem deve ou não dizer a palavra contam apenas parte da história. O que eu queria fazer era ir mais a fundo. Obviamente, sinto que, se você está lançando um insulto racial contra alguém, não tem o direito de usar essa palavra. Não acho que seja possível, a menos que você venha de uma experiência muito específica. Eu não venho dessa experiência, e sou uma pessoa negra. É preciso vir de uma experiência muito específica para que essa palavra seja dita autenticamente por você.

Os comediantes eram historiadores. Eles não estavam apenas inventando histórias sobre suas vidas, mas sim conectando-as a essa história mais ampla.

Gosto de inverter a perspectiva e perguntar: por que essa palavra ressoa tanto entre as pessoas negras, entre artistas negros como meu pai e artistas de hip-hop? Se é uma palavra de protesto contra a injustiça e a desigualdade, então ela continuará a ressoar enquanto esses sistemas permanecerem em vigor.

Ed Rampell
Richard Pryor usava a palavra "nigger" em suas apresentações de *stand-up*, filmes e títulos de álbuns. Você escreve que o uso dessa palavra por ele era "algo ousado e novo" e que ele era "a voz de uma geração negra". Como e por que ele a utilizava?

Elizabeth Stordeur Pryor
Nunca tive essa conversa com meu pai. É uma das muitas conversas que eu gostaria de ter tido com ele. Como historiadora, sinto que posso falar sobre o assunto. Em 1967, meu pai teve um momento de compreensão. Ele estava se apresentando para uma plateia que não aceitaria nem mesmo a sua própria avó como espectadora. Ele disse que não queria mais fazer aquele tipo de comédia baseada em clichês que ele achava que o tornaria famoso. Ele largou o microfone, saiu do palco em Las Vegas e começou a dizer verdades, falando sobre as experiências reais que vivenciou em casa. A maneira como ele usa a palavra é engraçada, mas força o público a confrontar suas próprias questões. Especificamente, se for um público branco, o seu próprio racismo. Ele realmente os convida a fazer parte de seu mundo negro, em vez de ele ir para o mundo branco deles.

Ed Rampell
Richard acabou repudiando a palavra "nigger". Por quê?

Elizabeth Stordeur Pryor
Em 1979, ele foi para a África. No Quênia, ele fez uma reflexão. Estava cercado por pessoas negras que desempenhavam os trabalhos mais braçais e, ao mesmo tempo, administravam o país. Nesse contexto, fora da supremacia branca dos Estados Unidos, ele nem sequer pensava em usar a palavra "nigger", pois ela não fazia sentido no contexto do mundo negro em que ele estava inserido. Depois disso, ele disse: "Nunca mais chamarei outro homem negro de 'nigger'". Foi preciso essa viagem internacional para compreender que ser negro nos Estados Unidos não era a única forma de experiência negra que uma pessoa poderia ter. Em seu show de stand-up, ele disse: "Aquilo me atingiu em cheio; eu chorei". Foi algo realmente impactante para ele. E nunca mais o ouvi chamar alguém daquela maneira.

Ed Rampell
Fale-nos sobre o curso que você ministra no Smith College a respeito de seu pai.

Elizabeth Stordeur Pryor
Foi uma experiência realmente incrível. Era, em parte, história da família e, em parte, uma análise da obra dele. Foi profundo ver a comédia dele sob a perspectiva dos alunos. Em *Live in Concert*, de 1979, ele praticamente inventou o filme de show, o especial de comédia — o gênero em si. Ele passa cerca de metade do tempo falando sobre "Macho Man", zombando da própria masculinidade e da masculinidade típica em geral. Os homens não faziam isso; não zombavam da própria virilidade e sentiam a necessidade de parecer superiores às mulheres. Meus alunos apontam isso, pois costumam refletir sobre gênero e sexualidade, e realmente perceberam essa característica na obra dele.

Ed Rampell
Como você se lembra dele como pai?

Elizabeth Stordeur Pryor
O que eu mais amei ao escrever o livro foi poder resgatar toda aquela ternura. Eu adorava meu pai. Para mim, ele não fazia nada de errado — mesmo quando fazia. Eu simplesmente o admirava, via nele um exemplo e o amava profundamente. Ele não estava presente o tempo todo, mas, quando estava, era extremamente participativo. Não tenho dúvidas de que ele realmente queria ser um bom pai para todos os seus sete filhos; isso era algo que importava muito para ele.

Colaboradores

Elizabeth Stordeur Pryor é professora de história no Smith College.

Ed Rampell é historiador e crítico de cinema radicado em Los Angeles e autor de *Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States*.

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