13 de julho de 2026

Massa, uma arma contra o fascismo

Quando Benito Mussolini foi deposto em 1943, uma família de agricultores chamada Cervi celebrou servindo porções gratuitas de massa na praça do vilarejo. É um ritual que ainda se repete todo mês de julho, mantendo vivo o espírito comunitário que está na essência do antifascismo italiano.

Marzia Maccaferri

Alcide Cervi com sua família, incluindo seus sete filhos que foram mortos por fascistas italianos. (Alcide Cervi)

Em 25 de julho de 1943, após vinte e um anos de ditadura, Benito Mussolini foi destituído e preso. Em meio à situação cada vez mais crítica da Itália na Segunda Guerra Mundial, o Grande Conselho Fascista voltou-se contra Mussolini durante a noite, e o marechal Pietro Badoglio foi nomeado chefe de governo. Por toda a Itália, a notícia se espalhou de forma desigual e lenta, transmitida boca a boca, entre boatos e descrença. Muitos pensavam não apenas que o fascismo havia caído, mas que a própria guerra poderia finalmente ter chegado ao fim.

Na zona rural ao redor de Reggio Emilia, na região da Emília-Romanha, no norte da Itália, a família Cervi soube da notícia ao retornar do trabalho nos campos. Alcide Cervi, sua esposa Genoeffa, seus sete filhos e duas filhas eram camponeses de Gattatico, perto de Campegine. Eram uma família de agricultores católicos que, durante a década de 1930, desenvolveu novas técnicas agrícolas e conseguiu se libertar do regime de parceria agrícola.

Mas eles também haviam desenvolvido uma consciência antifascista. Suas convicções políticas surgiram das tradições democráticas e socialistas da Emília-Romanha, próximas ao socialismo humanista e reformista associado a Camillo Prampolini. Em Campegine, ajudaram a organizar atividades clandestinas, incluindo uma pequena biblioteca circulante com Didimo Ferrari, mais tarde conhecido na Resistência como Comissário Eros.

A consciência política de alguns dos irmãos aprofundou-se durante o serviço militar. Aldo Cervi, em particular, entrou em contato com círculos comunistas por meio de Lucia Sarzi, uma atriz de teatro antifascista. No verão de 1943, ela trabalhou com o futuro líder comunista Giorgio Amendola em uma gráfica clandestina na zona rural próxima a Correggio, reimprimindo edições do jornal do partido, l’Unità. Os irmãos Cervi envolveram-se posteriormente no movimento partigiano durante a ocupação alemã.

No entanto, o gesto pelo qual a família Cervi é mais lembrada foi uma refeição.

Os Cervi decidiram celebrar a queda de Mussolini cozinhando massa com manteiga e queijo e distribuindo-a gratuitamente ao povo de Campegine. A massa foi cozida em Gattatico e transportada para a praça do vilarejo. Quando chegou, em 27 de julho, já estava bastante passada do ponto. A quantidade exata distribuída não importa muito. O que importa é que foi preparada em abundância e oferecida a todos, sem distinção.

Foi um gesto simples, mas não neutro. Tratava-se de uma refeição coletiva contra a ditadura, a fome, a guerra e o medo. Foi uma celebração da comunidade contra aquilo que Alcide Cervi — o pai que sobreviveu ao extermínio de todos os seus sete filhos — chamaria mais tarde de "câncer fascista". Era o antifascismo vindo da base, concretizado por meio da solidariedade e da comida.

O ideal fascista do "novo italiano" era disciplinado, rural, viril e militarizado. A massa era criticada por ser pesada, por causar moleza e sonolência; um alimento antimoderno que, supostamente, enfraquecia o espírito nacional.

A esperança não durou. Em 28 de julho, soldados abriram fogo contra trabalhadores da fábrica Officine Meccaniche Reggiane, em Reggio Emilia, matando nove pessoas. O governo de Badoglio também não trouxe a paz. Após concordar com um armistício com os Aliados no início de setembro de 1943, a Alemanha nazista ocupou o centro-norte da Itália. Os irmãos Cervi formaram o primeiro grupo de partisans da região. Eles se refugiaram nas montanhas para evitar a captura e, mais tarde, retornaram para atuar nas planícies do Vale do Pó, escondendo e ajudando ex-prisioneiros que haviam escapado de campos de detenção próximos.

Após a criação da República Social Italiana — um Estado fantoche dos nazistas que, nominalmente, devolveu o poder a Mussolini em 23 de setembro de 1943 —, a repressão logo se intensificou. Em 28 de dezembro, os sete irmãos Cervi — Gelindo, Antenore, Aldo, Ferdinando, Agostino, Ovidio e Ettore — foram fuzilados pelos fascistas, juntamente com o partisan Quarto Camurri.

É por isso que a pastasciutta é importante. Não se trata de uma anedota sentimental sobre "bons italianos" em tempos sombrios. É um lembrete de que o antifascismo foi construído por camponeses, trabalhadores, mulheres, contrabandistas de livros e pão, leitores clandestinos e pessoas comuns que transformaram atos cotidianos em gestos políticos.

Fascistas contra a massa

Há também uma razão mais específica pela qual a massa era importante. Hoje, a massa é tratada como o símbolo mais evidente da identidade italiana. Mas nem sempre foi assim. Antes da industrialização da produção de alimentos, ocorrida após a Segunda Guerra Mundial, a massa não era consumida da mesma maneira em toda a Itália. Em grande parte do Norte, a polenta continuava a ser central; no Sul, o pão era, muitas vezes, mais importante.

O fascismo mantinha uma relação ambivalente — e frequentemente hostil — com a massa. No contexto da autarquia, o regime queria reduzir a dependência de trigo importado. O ideal fascista do "novo italiano" era disciplinado, rural, viril e militarizado. A massa, especialmente na retórica futurista, era criticada por ser pesada, por causar moleza e sonolência; um alimento antimoderno que, supostamente, enfraquecia o espírito nacional. A polêmica de Filippo Tommaso Marinetti contra a massa expressava algo real sobre o desejo do fascismo de regular corpos, gostos, hábitos e a vida cotidiana.

Nesse contexto, uma distribuição pública de massa representava, mais do que uma refeição, um desafio à disciplina fascista. Era uma ação da sociedade civil contra a tentativa do Estado de controlar o cotidiano. Tratava-se de uma dádiva política, uma forma de dizer: ainda estamos aqui; ainda podemos nos reunir; ainda podemos compartilhar; ainda podemos imaginar a vida após o fascismo.

Na Emília-Romanha, a massa carregava um significado diferente, discretamente subversivo. Em muitas famílias socialistas, o cappelletti in brodo — tradicionalmente consumido em 1º de maio — tornou-se um símbolo de comunidade e de pertencimento político. O cappelletti nunca foi proibido. O que o regime fascista aboliu, na verdade, em 1923, foi o Dia do Trabalho, apagando o feriado operário e suprimindo seus rituais. No entanto, a tradição sobreviveu a portas fechadas: preparar e compartilhar cappelletti no dia 1º de maio tornou-se um ato sutil de resistência, uma maneira de manter viva uma memória que o regime tentava extinguir. Na minha família, em Carpi (província de Modena), continuamos a comer cappelletti in brodo em todo 1º de maio desde então.

Após a guerra, na recém-fundada República Italiana, a memória da família Cervi não permaneceu politicamente neutra. O Partido Comunista Italiano (PCI) transformou os sete irmãos em um dos grandes mitos populares da Resistência. Se Antonio Gramsci se tornou, de certa forma, a principal lenda intelectual do antifascismo italiano e mundial, os Cervi tornaram-se um de seus mitos populares: camponeses, mártires, irmãos, filhos do povo.

Se Antonio Gramsci se tornou, de certa forma, a maior lenda intelectual do antifascismo italiano e global, os Cervi tornaram-se um de seus mitos populares: camponeses, mártires, irmãos, filhos do povo.

Por muitos anos, a pastasciutta (o prato de massa) dos Cervi permaneceu uma memória essencialmente local, restrita a Reggio Emilia. Foi somente após a Guerra Fria que ela começou a ser resgatada como uma celebração antifascista mais ampla. Em 1988, voluntários do Museo Casa Cervi em Gattatico — museu existente desde 1974 — organizaram uma nova Pastasciutta Antifascista, servindo pratos de massa em 25 de julho. A partir de meados da década de 1990, o evento tornou-se regular.

Hoje, a celebração ocorre em muitas cidades da Itália e do exterior. Ela se faz presente onde quer que a memória antifascista italiana viaje com migrantes, associações, estudantes, trabalhadores, comunidades políticas e até mesmo professores universitários como eu — que, em Londres, organizo um prato de massa e uma taça de Lambrusco para conversar um pouco sobre história e memória. Nesse sentido, a *pastasciutta* tornou-se um ritual antifascista transnacional.

Mais do que lembrar o passado

Mas o que significa celebrar a massa antifascista hoje?

A memória é importante e faz parte da vida cívica. Mas a história é algo mais. Pensar historicamente significa indagar sobre causas, transformações, instituições, relações de classe, linguagens políticas, hierarquias culturais e formas de dominação. Se a memória pode preservar, a história também deve inquietar. A memória diz: não se esqueça. A história pergunta: como isso foi possível? Por que aconteceu? O que mudou e o que não mudou?

Essa distinção é importante porque a questão do fascismo é, hoje, frequentemente mal colocada. Se a memória se desvincula da história, o antifascismo pode tornar-se mero ritual. Hoje, o antifascismo pode parecer "descolado" novamente. Os símbolos circulam com facilidade: canções, slogans, camisetas, cartazes, postagens em redes sociais, lenços vermelhos, grafismos vintage, a estética partisan. Isso não é algo ruim. Culturas políticas precisam de seus rituais e de seu pathos. Mas existe também o risco de utilizar símbolos antifascistas como uma decoração moral, esvaziados de seu contexto e de sua substância política. Existe o risco de o antifascismo se tornar uma mera marca, reduzido a um estilo de vida ou a um gesto de distinção cultural, em vez de algo realmente praticado.

Uma das definições mais perspicazes de fascismo foi dada por Vittorio Foa, um partigiano socialista que se tornou parlamentar na república italiana do pós-guerra. Respondendo a um senador eleito pelo partido pós-fascista Movimento Sociale Italiano, Foa disse: "Se vocês tivessem vencido, eu estaria na prisão. Como nós vencemos, você é senador". Ele sugeriu que o antifascismo não é a supressão da discordância, mas a condição que torna possível a discordância democrática.

Há, naturalmente, ainda um fascismo nostálgico, especialmente na Itália: peregrinações a Predappio — cidade natal de Mussolini —, saudações romanas, objetos e recordações fascistas e o culto grotesco ao Duce.

No entanto, o perigo mais grave reside no esvaziamento da democracia, na erosão de direitos, na normalização da violência política e no retorno de discursos políticos que transformam problemas sociais em inimigos a serem expulsos. Isso nem sempre se parece com o fascismo; pode operar dentro dos limites formais da democracia liberal. Pode valer-se da linguagem da segurança, da tradição, da nação, da religião, da família natural ou do senso comum. Pode não se apresentar como uma ditadura; pode apresentar-se como "o povo" contra seus inimigos — sejam eles migrantes, artistas, feministas, trabalhadores, intelectuais, juízes, o movimento LGBTQ ou jornalistas.

A verdadeira ameaça não é o retorno do fascismo. O perigo atual é, antes, a desistoricização do fascismo, transformando-o em apenas mais uma opinião entre outras, um lado de uma fratura supostamente eterna na narrativa nacional. Com demasiada frequência, o fascismo é apresentado não como um regime com suas causas, instituições, violência, alianças de classe, guerras coloniais e leis raciais, mas como uma expressão temperamental da "cultura italiana". O fascismo torna-se apenas mais uma história no álbum de fotos nacional, mais uma suposta identidade disponível para a performance política.

A Pastasciutta Antifascista resiste a isso. Ela nos convida a tornar a história pública novamente, a reunir as pessoas não apenas para celebrar, mas também para discutir, debater, compreender e organizar. O objetivo não é a nostalgia da Resistência da Segunda Guerra Mundial, mas sim recuperar a dimensão popular, material e coletiva do antifascismo.

Obviamente, um prato de massa cozida demais não derrotou o fascismo. Mas anunciou, pública e coletivamente, que o fascismo poderia ser derrotado. Transformou o fim de um regime — ou o que as pessoas esperavam que fosse o fim — em um ato compartilhado de libertação.

Por essa razão, a Pastasciutta Antifascista continua relevante. Precisamos de ocasiões para pensar historicamente em conjunto. Lembrar da família Cervi não significa apenas dizer que eles foram mortos por fascistas. Significa perguntar que tipo de mundo tornou o fascismo possível, que formas de solidariedade tornaram a resistência possível e que formas de indiferença poderiam tornar o autoritarismo possível novamente.

O antifascismo, afinal, não é apenas a memória daqueles que morreram. É algo praticado por aqueles que vivem.

Colaborador

Marzia Maccaferri leciona teoria política e história na Queen Mary University of London. Ela é uma das organizadoras da Pastasciutta Antifascista em Londres.

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