30 de julho de 2026

Reconstruindo o horizonte socialista

Originalmente apresentada como a palestra inaugural em memória de Eric Aarons, em Sydney (Austrália), esta ensaio examina a ascensão, a crise e a possível renovação do socialismo como movimento político voltado a uma sociedade livre da dominação de classe. Ao refletir sobre as experiências do planejamento de estilo soviético, da social-democracia do pós-guerra e da era neoliberal, o texto argumenta que os fracassos de projetos socialistas anteriores não esgotam as possibilidades de uma transformação socialista democrática.

Bhaskar Sunkara



Eric Aarons vivenciou as grandes derrotas do movimento socialista do século XX, mas recusou-se a permitir que essas derrotas tivessem a última palavra. Ele ingressou no Partido Comunista da Austrália ainda jovem. Acreditava, assim como milhões de pessoas ao redor do mundo, que estava do lado certo da história. Ao longo de décadas, testemunhou o desenrolar da história na realidade — viu o stalinismo revelar seus horrores, o movimento comunista oficial fragmentar-se e o compromisso social-democrata no Ocidente desgastar-se até ser finalmente rompido. No entanto, ele continuou lutando por um mundo melhor. Não retornando às certezas de sua juventude, nem avançando em direção às acomodações da política de centro, mas sim buscando caminhar rumo a uma nova política.

É com esse espírito que desejo falar esta noite. Pois estamos aqui reunidos como socialistas, como sindicalistas, como pessoas que desejam viver em um mundo melhor, décadas depois de o socialismo ter sido declarado morto. De fato, o movimento socialista que milhões de trabalhadores em todo o mundo construíram ao longo de 150 anos — os partidos, os sindicatos, as cooperativas, os jornais, as instituições culturais, as experiências de poder operário e de propriedade pública — ou desapareceu ou foi esvaziado.

Mas devemos insistir perante o mundo que o socialismo não estava errado. O socialismo sofreu derrotas.

Se o socialismo estava errado — se todo o projeto de organizar a sociedade em torno das necessidades humanas, em vez do lucro privado, não passava de um entusiasmo do século XIX que deveríamos superar —, então a única atitude honesta que resta àqueles que um dia se autodenominaram socialistas é administrar o capitalismo de forma mais humana. É aceitar, como diz o slogan capitalista, que não há alternativa.

Mas, se o socialismo sofreu derrotas — se foi vencido por uma combinação de seus inimigos, de seus próprios crimes e de seus próprios fracassos econômicos, mas não refutado em seus princípios —, então a situação é outra. Nesse caso, a tarefa que temos pela frente não é lamentar e nos acomodar, mas aprender, reconstruir e lutar novamente, com uma noção mais clara do que fizemos de errado e uma convicção mais profunda sobre o que fizemos de certo.

Quero argumentar, além disso, que uma esquerda sem um horizonte socialista não é uma política pela qual valha a pena lutar. Não apenas por causa da força moral do nosso objetivo, mas porque, sem ele, tornamo-nos reformistas mais fracos, e não mais pragmáticos. E perdemos algo que, de fato, nos conferia força na luta da classe trabalhadora. Perdemos a grande narrativa — aquela que, outrora, dizia aos trabalhadores comuns que eles não eram vítimas da história, carentes de caridade privada ou estatal, mas sim os autores da história.

Assim, nesta noite, quero fazer três coisas. Quero falar sobre o que o movimento socialista realmente conquistou antes de ser derrotado. Quero discutir as razões de sua derrota, tanto por fatores externos quanto internos. E, por fim, quero falar sobre o que um horizonte socialista poderia significar para nós hoje, em meio a todas as complexidades e aos desafios da nossa época.

Permitam-me começar pela conquista.

A história da esquerda moderna costuma ser narrada como uma história de fracassos. No entanto, pelo menos no que diz respeito à conquista do poder, nada poderia estar mais longe da verdade.

O movimento socialista moderno surgiu, em sua forma reconhecível, em meados do século XIX — com pequenos grupos de trabalhadores e artesãos confrontando uma sociedade industrial espetacular e aterrorizante. Em setenta anos, esses pequenos grupos haviam crescido e se tornado os maiores partidos políticos da Europa. Em cem anos, partidos que se autodenominavam socialistas ou comunistas governavam cerca de metade do planeta.

Não houve nada igual na história moderna. É preciso recuar até as primeiras conquistas islâmicas dos séculos VII e VIII para encontrar um movimento que tenha se espalhado tão longe e tão rápido — passando de alguns milhares de militantes na década de 1860 para o poder político, de alguma forma, abrangendo mais da metade da população mundial na década de 1960.

Hal Draper, um socialista americano e crítico contundente de todas as versões de socialismo realmente existentes, observou em 1966 que, "pela primeira vez na história do mundo, muito provavelmente a maioria de seus habitantes se autodenomina 'socialista', em um sentido ou em outro". Isso não era um projeto sectário. Tratava-se, segundo sua estimativa, da maioria dos seres humanos politicamente conscientes — em todos os continentes — identificando-se com alguma versão de uma ideia que, sessenta anos antes, pertencia apenas a alguns núcleos de trabalhadores ou intelectuais exilados.

Mas, antes de conquistar o poder estatal, o movimento socialista conquistou algo ainda mais notável. Ele conquistou uma cultura.

Nas vilas mineiras do País de Gales, mineiros pediam para ser enterrados com seus exemplares de O Manifesto Comunista, assim como uma geração anterior pedira para ser enterrada com suas Bíblias. Nos lares da classe trabalhadora por toda a Europa, retratos de líderes socialistas ocupavam o lugar onde antes pendiam ícones de santos. As festividades do antigo calendário religioso foram incorporadas a um novo calendário de greves, mártires seculares e feriados. Eric Hobsbawm registrou um anúncio feito no Vale do Pó, em 1891: "Os padres têm suas festas. O Primeiro de Maio é a festa dos trabalhadores de todo o mundo".

Isso não era apenas organização política. Tratava-se da construção de uma contracivilização no interior da antiga. Os trabalhadores tinham seus próprios jornais, clubes esportivos, corais, escolas, associações funerárias, teorias da história, heróis e feriados. Eles caminhavam pelas mesmas ruas que seus chefes, mas viviam, em certo sentido real, em um mundo diferente — um mundo com seu próprio horizonte moral e sua própria visão do que estava por vir.

E o que estava por vir, muitos acreditavam, era o socialismo.

Duas versões amplas desse futuro acabaram ganhando forma. Havia o socialismo dentro do capitalismo — o projeto social-democrata, que buscava humanizar o mercado por meio do poder da negociação coletiva e do Estado. E havia o socialismo fora do capitalismo — o projeto comunista, que buscava abolir completamente o mercado por meio da propriedade estatal e do planejamento central.

Ambos os projetos, em seu auge, transformaram a vida de centenas de milhões de pessoas. O que quer que se diga sobre o comunismo soviético — e eu venho de uma tradição socialista democrática extremamente crítica a ele —, é fato que ele pegou uma sociedade camponesa e a industrializou em uma geração, eliminou o analfabetismo, derrotou a Alemanha nazista no campo de batalha e ofereceu, para muitas pessoas no mundo colonizado, um modelo aparentemente funcional de como escapar da divisão imperialista do trabalho. E, quanto à social-democracia, a Suécia do pós-guerra sob Olof Palme figurou entre as sociedades mais decentes que já existiram. Ela apresentava pleno emprego, sindicatos fortes negociando em condições de igualdade (ou até de vantagem) com os empregadores e um Estado de bem-estar social universal. Isso significava dignidade real para os trabalhadores, tanto no chão de fábrica quanto na sociedade como um todo.

Mesmo muitos críticos de ambos os modelos os viam, pelo menos, como etapas em um caminho que milhões de pessoas acreditavam genuinamente levar, por fim, a uma sociedade na qual a grande divisão dos seres humanos em uma classe que detém a propriedade e uma classe que trabalha seria encerrada de vez.

Como passamos de vitórias imperfeitas ou parciais para a derrota?

A narrativa padrão, difundida por muitos na esquerda, é a de que o socialismo foi esmagado de fora para dentro. Pela Guerra Fria. Pelo imperialismo americano. Pela CIA. Pelo golpe de Pinochet, pela Operação Condor, pelas guerras sujas em todo o Sul Global. Pela contrarrevolução de Thatcher e Reagan. Pela pressão dos mercados de títulos que enquadrou François Mitterrand no início da década de 1980. Pelo trabalho longo e paciente de agentes do capitalismo por meio de seus think tanks, da mídia e de partidos políticos.

Parte dessa história é, naturalmente, verdadeira. O movimento socialista foi, de fato, alvo da mais persistente, bem financiada e implacável contraofensiva ideológica e militar da história moderna. Não devemos esquecer isso, nem tampouco quantos mártires o anticomunismo violento — da Indonésia ao Cone Sul — deixou pelo caminho. Mas, se contarmos a nós mesmos apenas essa história — se dissermos que fomos simplesmente derrotados por inimigos externos —, estaremos nos eximindo de responsabilidade de uma maneira que torna impossível aprender com os outros aspectos do que aconteceu. E devemos mais do que isso a Eric Aarons, e a todos aqueles que, como ele, dedicaram a vida a tentar compreender nossa derrota com honestidade.

A verdade é que o socialismo não foi derrotado apenas de fora. Foi derrotado também de dentro — por seus próprios crimes políticos e por seus próprios fracassos econômicos.

Os crimes políticos do movimento comunista do século XX não são uma calúnia inventada por propagandistas da Guerra Fria. Os gulags eram reais. Os terrores sangrentos e os expurgos eram reais. As fomes que mataram milhões na Ucrânia e na China eram reais. A destruição da livre expressão, dos sindicatos livres, da liberdade religiosa e da sociedade civil — isso também era real. E esses crimes foram cometidos não apenas por autoritários que fingiam ser socialistas, mas por pessoas que acreditavam — sinceramente, em muitos casos — estar construindo o futuro com o qual Karl Marx sonhara. Não podemos recorrer à falácia do "verdadeiro escocês" para nos defendermos. Essa foi a experiência histórica real do socialismo para milhões de pessoas.

Foi o que Rosa Luxemburgo previu: a substituição da classe pelo partido; a substituição do partido pelo Estado; a substituição do Estado pelo líder.

E a crença de que a história estava tão claramente do nosso lado — a crença que quero resgatar — foi usada para construir um universo moral no qual quaisquer meios empregados para acelerar a história eram justificados. Direitos individuais e o Estado de Direito eram vistos como coisas da burguesia. A convicção era a de que, uma vez assumido o controle dos setores estratégicos da economia, bastaria dar ordens para moldar o restante da sociedade conforme desejado.

Um socialismo que não compreenda, em sua essência, por que as decisões que moldaram o socialismo de Estado estavam erradas — não apenas taticamente, mas moralmente erradas — é um socialismo que não terá, nem deveria ter, futuro no século XXI.

No entanto, a maior parte da esquerda concorda quanto a essas questões políticas. Onde há menos autocrítica é em relação aos fracassos econômicos do socialismo.

O planejamento centralizado ao estilo soviético não entrou em colapso apenas devido à repressão política, à corrida armamentista ou às intrigas da CIA. Ele colapsou porque, segundo seus próprios critérios, não conseguiu entregar resultados. Nas décadas de 1970 e 1980, a disparidade entre o que o sistema prometia e o que ele produzia tornou-se impossível de ocultar.

A primeira razão foi o cálculo econômico. O Gosplan, a agência de planejamento soviética, era responsável por coordenar uma economia que abrangia quase 400 órgãos burocráticos, 43.000 fábricas, 26.000 empresas de construção, 47.000 unidades agrícolas, 260.000 estabelecimentos de serviços e mais de um milhão de pontos de venda no varejo — produzindo cerca de 12 milhões de produtos distintos, cada um exigindo os insumos certos, dos fornecedores certos, nos locais certos e nos prazos certos, com cadeias de suprimentos que se estendiam por onze fusos horários. Tudo isso somava dezenas de bilhões de variáveis, número que chegava à casa dos trilhões quando se ampliava o horizonte de planejamento ao longo do tempo.

Para planejar isso racionalmente, seria preciso saber o que cada empresa poderia produzir, o que cada família desejaria e como cada insumo se conectava a cada produto final. Ninguém poderia saber isso. Nem os economistas mais brilhantes do mundo. Nem o computador mais poderoso já construído ou que venha a sê-lo. A informação simplesmente não existe em uma forma que qualquer autoridade central possa coletar e processar. Assim, o que se tinha em seu lugar eram suposições — os números do ano anterior acrescidos de um pouco mais — sustentadas por uma vasta economia paralela e secreta de trocas, estocagem e acordos informais que os gerentes conduziam por fora para manter as coisas funcionando.

O segundo problema, relacionado ao primeiro, era o dos incentivos. Todo gerente entendia que os recursos do ano seguinte dependiam dos números relatados no ano corrente. Por isso, eles subestimavam sua capacidade projetada e superestimavam sua produção real. Eles acumulavam mão de obra e materiais. Eles mentiam. Os trabalhadores sob seu comando logo perceberam que superar uma meta significava apenas uma meta mais alta no trimestre seguinte. Empresas fracas nunca tinham permissão para falir, pois deixá-las quebrar significava desemprego e interrupção das cadeias de suprimento; logo, a ineficiência nunca era punida. Do Politburo ao chão de fábrica, toda a hierarquia tinha incentivos para distorcer a realidade de suas atividades.

Não eram falhas que pudessem ser corrigidas com um algoritmo melhor. Eram características da própria estrutura da economia de estilo soviético. E o que nós, como socialistas, temos de admitir é que não existe versão de planejamento administrativo que escape a esses problemas. O sonho de administrar uma economia moderna complexa puramente por meio do planejamento não deve — nem pode — ser resgatado.

Há também a social-democracia, cujo fracasso assumiu uma forma diferente. A social-democracia não fracassou por tentar abolir o capitalismo. Fracassou por tentar domar o capitalismo sem transcendê-lo.

Durante uma geração, sua fórmula básica funcionou. A social-democracia gerou sindicatos fortes, pleno emprego, um Estado de bem-estar social generoso, salários em ascensão e uma economia em crescimento que gerava excedente suficiente para financiar tudo isso.

No entanto, havia uma contradição no cerne do pacto social-democrata, e ele não sobreviveu ao momento em que o crescimento desacelerou. A social-democracia conferiu poder político aos trabalhadores, mas manteve a propriedade dos meios de produção em mãos privadas. Isso gerou um impasse permanente entre um movimento trabalhista poderoso e uma classe capitalista que ainda controlava os investimentos. Enquanto a "torta" crescia, o impasse era tolerável — havia o suficiente para salários, para lucros e, além disso, para o Estado de bem-estar social. Mas, no momento em que a torta parou de crescer, durante a estagflação da década de 1970, o impasse ruiu.

Os social-democratas suecos, na verdade, previram isso. Rudolf Meidner, o grande economista sueco, propôs um plano em 1976 para transferir gradualmente a propriedade de grandes empresas para fundos controlados pelos trabalhadores, utilizando uma parcela dos lucros anuais — uma verdadeira ponte da social-democracia para o socialismo, financiada pela contenção salarial que os trabalhadores já vinham praticando há décadas. Isso teria resolvido tanto as dificuldades econômicas quanto o impasse político da Suécia.

Mas o plano nunca se concretizou de forma viável, não apenas devido à oposição do capital, mas porque a própria liderança do Partido Social-Democrata Sueco não quis lutar por ele. Eles não estavam dispostos a mobilizar a classe trabalhadora para uma transformação das relações de propriedade. O plano foi diluído, depois esvaziado de seu conteúdo e, por fim, abandonado. E, pouco tempo depois, o capital sueco conseguiu resolver a crise da social-democracia à sua própria maneira, impulsionando uma longa campanha de liberalização que reduziu o Estado de bem-estar social sueco a uma sombra do que já foi.

Devemos tirar lições de ambos os fracassos.

O socialismo de estilo soviético fracassou porque não é possível administrar uma economia moderna e complexa sem preços, empresas autônomas e incentivos reais. A social-democracia fracassou porque tentou manter intacta a propriedade privada do capital; e uma classe capitalista que detém o controle de todas as alavancas de investimento acabará usando seu poder para desmontar quaisquer restrições que lhe tenham sido impostas. Esses dois fracassos foram imagens espelhadas um do outro.
Mas a lição desses fracassos não é que o socialismo seja impossível. A lição é que o socialismo precisa ser repensado em sua concepção técnica, sem que abandonemos nosso objetivo de uma sociedade livre de exploração ou opressão.

Antes de abordar como seria esse socialismo do século XXI, quero apresentar um argumento prático — e não apenas normativo — contra a moderação. Pois a tentação para uma Esquerda derrotada é dizer: "Esqueçam o socialismo; vamos falar apenas de bem-estar social, habitação pública ou salários mínimos mais altos. Essas são pautas viáveis. Por que sobrecarregá-las com essa palavra impopular, com esse sonho desacreditado?"

A primeira razão é que uma Esquerda sem um horizonte socialista não é sequer uma esquerda reformista mais eficaz. É uma esquerda reformista pior.

Reformas não são propostas políticas abstratas que flutuam pela história por seus próprios méritos. Reformas são conquistadas por movimentos. E os movimentos se sustentam por meio de histórias — histórias sobre quem são seus integrantes, por que eles importam, para onde estão indo e de que fazem parte. Um movimento que só consegue dizer "Queremos um seguro-desemprego mais generoso" é um movimento que não mobilizará a energia necessária para conquistar sequer esse benefício; isso porque o seguro-desemprego, por si só, não responde às perguntas que os trabalhadores realmente fazem ao considerar se devem dedicar uma noite, um sábado, uma carreira e, às vezes, a própria vida à ação política.

As questões mais importantes, eu diria, são na verdade mais fundamentais: Quem sou eu nesta sociedade? Por que os recursos são distribuídos da maneira que são? Para onde vamos como sociedade? Existe um futuro no qual nossos filhos herdarão algo melhor do que o que temos? Quem está impedindo a concretização desse futuro?

Os grandes partidos socialistas do início do século XX sabiam responder a essas perguntas. Eles podiam dizer a um mineiro galês que ele era herdeiro de uma tradição que ia dos *Levellers* aos Cartistas e às Internacionais operárias; que a carteirinha de seu sindicato ou partido significava pertencer a um movimento de milhões de trabalhadores ao redor do mundo; que a greve da qual ele estava prestes a participar era uma pequena escaramuça em uma luta global que, eventualmente — durante a vida de seus filhos ou netos —, marcaria o triunfo final do trabalho. Essa narrativa é que o tornava disposto a enfrentar o *lockout*, a ser espancado ou a perder o emprego. Não se tratava apenas do aumento salarial e da segurança material para sua família; era também a narrativa que conferia um significado profundo a esses sacrifícios.

Quando se retira essa narrativa, priva-se o nosso movimento de uma de suas maiores fontes de poder. Pede-se às pessoas que travem centenas de pequenas batalhas sem nunca lhes dizer qual é o objetivo dessas lutas.

Em segundo lugar, uma Esquerda sem um horizonte socialista acaba se tornando algo diferente de uma Esquerda. Ela se transforma em uma espécie de tecnocracia progressista: uma rede de especialistas em políticas públicas, funcionários de ONGs, consultores de comunicação e articuladores eleitorais que gerenciam os sintomas de um sistema que desistiram de tentar mudar.

Um progressismo que nada tem a dizer sobre classe — que fala apenas de identidade, ou apenas de pobreza, ou apenas de políticas públicas — não consegue fazer frente a uma Direita que tem muito a dizer sobre classe, mesmo que tudo o que ela diga seja mentira. A Direita dirá aos trabalhadores que seus inimigos são os imigrantes, as minorias ou a elite cultural. Um progressismo que se recusa a apontar os capitalistas e os ricos como inimigos deixa os trabalhadores sem nada para contrapor a essa narrativa, exceto a garantia de que seus sentimentos serão respeitados e suas identidades atribuídas serão honradas. A esquerda que vencer no século XXI será uma esquerda capaz de nomear o que está errado, nomear quem se beneficia disso e nomear o que queremos colocar em seu lugar.

E a terceira razão é que devemos isso às pessoas que vieram antes de nós.

O movimento socialista foi construído por pessoas que não tinham nenhuma razão objetiva para acreditar que venceriam. O mineiro galês que lia *O Manifesto Comunista* em 1890 tinha todos os motivos para pensar que sua vida seria curta, dura e esquecida. O operário têxtil russo em 1905 tinha todos os motivos para pensar que a autocracia duraria para sempre. O operário fabril em São Paulo, o estivador em Sydney, o metalúrgico em Turim, em 1920, acreditavam porque haviam decidido — contra as evidências — que não eram vítimas da história. Eles eram os autores da história. Eram os protagonistas de uma narrativa cujo desfecho ainda não havia sido escrito.

Essa confiança de alcance histórico mundial foi o que construiu todas as instituições que herdamos: a jornada de oito horas; o fim de semana; a aposentadoria; o hospital onde você nasceu; a escola que você frequentou; o sindicato que, se você tiver sorte, ainda o representa no trabalho. Nada disso caiu do céu. Essas conquistas foram arrancadas das mãos de quem não queria cedê-las, graças a movimentos de trabalhadores que acreditavam estar fazendo mais do que apenas negociar migalhas. Eles acreditavam que o futuro lhes pertencia.

E nós, que herdamos os frutos de sua luta, permitimo-nos contentar com menos. Encolhemos nosso horizonte para que coubesse em nossa atual fragilidade e, depois, nos perguntamos por que não conseguimos crescer.

Essa é a principal razão pela qual precisamos resgatar o horizonte do socialismo e uma linguagem que não se limite a fofocas parlamentares ou frases de efeito para a mídia, mas que abarque séculos e continentes. É por isso que, por mais antiquado que possa parecer, precisamos falar sobre socialismo e sobre a abolição da sociedade de classes. Sobre o fim da divisão milenar entre aqueles que comandam o trabalho e aqueles que o executam. Sobre um mundo organizado em torno de uma forma radical de democracia e igualdade.

É famosa a advertência de Marx contra a elaboração de receitas para as "cozinhas do futuro". Ele criticava, com razão, os socialistas utópicos de sua época. No entanto, em nosso mundo, o desafio é provar às pessoas que o socialismo não é apenas politicamente desejável, mas também tecnicamente possível.

Como resultado não apenas da propaganda capitalista, mas também dos fracassos reais de ambas as formas de socialismo do século XX, cresceu o ceticismo quanto ao futuro do socialismo. Será que assumir o controle democrático de uma economia complexa não acabaria gerando crises, colapsando em ineficiência ou degenerando em autoritarismo?

Afirmar que o socialismo é tecnicamente possível e que devemos esboçar projetos para ele não exige fingir que existe um modelo único e consolidado de socialismo apenas à espera de implementação. Exige, contudo, enfrentar um conjunto de questões incontornáveis ​​às quais qualquer alternativa credível deve responder.

Poderia uma economia socialista utilizar preços, lucros e concorrência para coordenar uma produção complexa sem reproduzir relações de dominação ou desigualdades significativas? Que incentivos estimulariam a eficiência e a inovação em uma economia composta por empresas geridas democraticamente? Como sustentar o crescimento da produtividade de modo a elevar continuamente os padrões de vida, evitar o desabastecimento e manter o progresso tecnológico, sem a insegurança generalizada que os trabalhadores enfrentam hoje? E qual papel caberia ao Estado na estabilização macroeconômica, na orientação dos investimentos e na implementação de prioridades democráticas, sem sufocar a iniciativa?

Permitam-me esboçar, muito brevemente, o que acredito ser um socialismo crível para o nosso século. Baseio-me aqui num livro que acabei de concluir com os meus colegas Mike Beggs e Ben Burgis. Chama-se The Blueprint: The Case for Socialism in the Real World, onde desenvolvemos estes argumentos mais a fundo.

Um socialismo do século XXI, como o descreveríamos, tem de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Tem de abolir a dependência do mercado — a condição em que a sobrevivência depende do sucesso no mercado — preservando, ao mesmo tempo, os mercados como uma ferramenta entre outras para coordenar uma economia complexa.

Na prática, isto significa desmercantilizar grandes áreas da vida. Saúde, educação, transportes, energia, habitação e telecomunicações são a infraestrutura da vida moderna. Organizar estas necessidades através de mercados, por meio de empresas que visam o lucro e que racionam com base no preço em vez da necessidade, é um erro (não só moralmente, mas também na prática), porque o resultado é um sistema que é simultaneamente mais desigual e menos eficiente do que a provisão pública.

Para além dessas esferas, como meus colegas e eu descrevemos em "The Blueprint", existe a economia mais ampla de bens e serviços, onde os problemas de coordenação são mais variados e onde os mercados continuam sendo importantes. No setor de mercado de uma economia composta por empresas governadas democraticamente, os sinais de preço ainda transmitiriam informações sobre oferta e demanda, ajudando a coordenar a produção e o consumo.

Mas o excedente gerado pela atividade econômica seria controlado por aqueles que o produzem. E o investimento seria alocado por meio de instituições financeiras públicas, e não por capitalistas. Dessa forma, os mercados podem funcionar como ferramentas de coordenação sem reproduzir as relações de poder do capitalismo.

Nesse contexto socialista, as empresas produtivas do setor de produção de mercadorias são controladas pelos trabalhadores, e não por acionistas externos ou capitalistas privados. Os direitos de governança estão vinculados à participação, não à propriedade financeira. A participação em uma empresa, portanto, assemelha-se à participação em uma comunidade política. Ela confere voz e controle democrático real no ponto de produção e impõe obrigações, mas não pode ser mercantilizada.

Essa mudança na governança exige uma mudança correspondente na forma como o investimento é organizado. Qualquer socialismo viável deve evitar restrições orçamentárias flexíveis e permitir que empresas ineficientes falhem enquanto as mais produtivas se expandem. De uma perspectiva igualitária, isso deveria ser senso comum. Por que desperdiçar o recurso mais valioso do mundo — o trabalho humano — em ineficiência?

Mas não se deve esperar que os trabalhadores em empresas democráticas contribuam com capital próprio, nem que vinculem suas economias pessoais ao destino de um único local de trabalho. Deixar as decisões de investimento a cargo de empresas individuais criaria distorções sistêmicas que destruiriam um sistema socialista. As disparidades na intensidade de capital, por exemplo, incentivariam os trabalhadores a se concentrarem em setores com alta intensidade de capital, enquanto a produção com uso intensivo de mão de obra e o setor público ficariam com falta de pessoal. Imagine todos querendo trabalhar em plataformas de petróleo ou em outro setor com alta intensidade de capital, onde os dividendos seriam enormes, em vez de trabalhar em uma creche.

Organizar a propriedade e o investimento como uma função social, em vez de uma função empresarial, é, portanto, essencial. Os bancos públicos desempenham esse papel ao deterem ativos produtivos em comum e alocarem capital em nome da sociedade como um todo. Dessa forma, as empresas operam com verdadeira autonomia, mantendo-se gestoras, e não proprietárias, da riqueza social. E o Estado pode empregar uma ampla gama de ferramentas macroeconômicas para influenciar a direção do desenvolvimento.

Um mecanismo adicional essencial para que tal economia permaneça eficiente e equitativa ao longo do tempo é o estabelecimento de salários mínimos, diferenciados por ocupação, para orientar seu desenvolvimento. Em vez de permitir que os mercados de trabalho classifiquem gerentes e trabalhadores puramente por meio do poder de negociação local ou de rendas setoriais, os salários de referência estabelecem um piso que reflete as prioridades coletivas em relação à dignidade, às habilidades e à contribuição social.

Empresas e setores que dependem de baixos salários e disciplina trabalhista seriam pressionados a inovar, reorganizar-se ou reduzir o tamanho de suas equipes. Aqueles que aumentam a produtividade por meio de novas técnicas, treinamento adicional ou melhorias tecnológicas seriam recompensados ​​com retornos mais altos. Dessa forma, a economia é direcionada para um caminho de desenvolvimento mais elevado que recompensa a inovação e o investimento, em vez de simplesmente explorar a mão de obra.

É claro que, em uma economia socialista, o objetivo de aumentar a produtividade não é um fim em si mesmo. O objetivo é a expansão do lazer, da segurança e, em última instância, do tempo fora da produção.

Um socialismo que simplesmente redistribui a renda sem mudar a forma como o tempo é organizado não cumpriria sua promessa. Mas um socialismo que combine redistribuição com propriedade social, investimento guiado democraticamente e estruturas salariais que recompensem a eficiência pode traduzir uma economia dinâmica em jornadas de trabalho mais curtas, vidas mais longas e maior liberdade sobre como essas vidas são vividas.

Este é apenas um esboço. Estou apresentando em cinco minutos quando mereceria cinco horas. Mas a questão é que precisamos discutir modelos de socialismo como parte de nossa luta por mudanças tanto a curto quanto a longo prazo.

Em última análise, o nosso objectivo como igualitários deve ser simplesmente o fim da sociedade de classes, não uma sociedade de classes ligeiramente mais justa, nem uma sociedade de classes com melhores redes de segurança, mas o fim da divisão da humanidade numa classe possuidora e numa classe trabalhadora. Seria a primeira sociedade, na maior parte do mundo, desde a Revolução Neolítica, que não está organizada em torno dessa divisão.

Eric Aarons dedicou sua vida à defesa dos trabalhadores e de um mundo melhor. Ele deu vida à convicção de que a sociedade em que vivemos não é a única sociedade em que poderíamos viver e que as pessoas comuns e organizadas são capazes de construir algo melhor.
Foi uma vida bem vivida.

Vivemos em uma época que tentou muito nos convencer de que as vidas de pessoas como Eric foram desperdiçadas. Que os organizadores, activistas partidários, activistas sindicais, professores e delegados sindicais que dedicaram as suas décadas ao movimento socialista estavam, no final, errados. Que apostaram no cavalo errado. Essa história já pronunciou o seu veredicto e esse veredicto foi contra ele.

Eu não poderia discordar mais.

Eric não estava errado. O mineiro galês enterrado com o seu exemplar do Manifesto Comunista não estava errado. O trabalhador têxtil russo, o metalúrgico italiano, o sindicalista sul-africano, o organizador camponês brasileiro, o estivador australiano, o socialista americano que fez campanha por Eugene Debs há cem anos, ou mesmo aquele que bateu de porta em porta por Zohran Mamdani no ano passado, nenhum deles estava errado. Eles não eram ingênuos. Eles não eram os tolos da história. Eram pessoas que olharam para o mundo que lhes foi dado e decidiram que não era bom o suficiente, e gastaram sua energia tentando construir algo melhor.

Só porque não terminaram o trabalho não significa que erraram ao iniciá-lo. E o facto de termos herdado os seus assuntos inacabados não diminui o que eles fizeram. Ele simplesmente nos impõe a obrigação de continuar o seu trabalho.

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