Há gerações, os americanos celebram a obra Common Sense, de Thomas Paine. O que se perde em meio a toda essa celebração é o fato de que o bom senso não é um repositório eterno de sabedoria política, mas algo continuamente remodelado pelo debate democrático, pela argumentação e pela persuasão.
Jacobin
Este 250º ano da independência americana não registrou escassez de hinos de louvor a Thomas Paine, o sumo sacerdote da Revolução Americana. Veículos de política liberal-de-esquerda, do The Atlantic ao The New York Times e à The Nation, têm suplicado por um retorno a Paine e ao seu panfleto de 1776, Senso Comum, neste nosso momento de perigo democrático. Enquanto isso, um novo livro amplamente aclamado pela crítica posiciona Paine na raiz ideológica da política revolucionária que inaugurou a democracia moderna, apontando-o como uma fonte para a renovação da democracia hoje.
No entanto, há razões para questionar esse "copiar e colar" de Paine para as condições contemporâneas. Um grito de guerra revolucionário pelo governo popular em 1776, hoje o "senso comum" é um eufemismo contrarrevolucionário, incapaz de capturar o que há de mais fascinante na democracia liberal. Ao celebrarmos o Dia da Independência, faríamos bem em repensar também esse célebre manifesto americano.
Em Senso Comum, Paine faz uma crítica demolidora ao governo monárquico, evocando a sabedoria dos plebeus como a alternativa baseada no bom senso ao poder arbitrário da realeza. "Nas páginas seguintes, não ofereço nada mais do que fatos simples, argumentos claros e senso comum", entoou Paine, enquanto instava à revolta contra a Coroa Britânica. Com os dons retóricos de um panfleteiro radical, Paine moldou a política revolucionária da soberania popular como uma verdade incontestável — não mais contestável do que a cor do céu ou o caráter desprezível dos reis. A independência deu à luz uma nova nação, mas também um idioma político dominante, cimentando o senso comum como o nosso credo coletivo.
Bom senso, tudo e nada
Muito antes de os cientistas políticos utilizarem o termo "populismo", Paine já havia delineado seu léxico retórico fundamental, oferecendo à política populista a justificativa epistemológica do senso comum. Por esta razão, a formulação de Paine continua sendo um ingrediente central de sociedades democráticas baseadas no governo popular e governadas por meio de instituições participativas. Para Paine, contudo, o senso comum não era meramente um conceito epistemológico estático. Em vez disso, ele chancelava um processo político, servindo para legitimar a mobilização política de massa: o senso comum deveria ser alcançado por meio da concretização da democracia moderna.
Mas, ao longo dos últimos dois séculos e meio, o senso comum distanciou-se do discurso revolucionário e migrou para o mainstream, tornando-se o catecismo professado por todo político. Naturalmente, as elites políticas ajoelham-se copiosamente diante do senso comum: o povo americano seria um grupo de pessoas simples e íntegras; sua sabedoria seria intuitiva e instintiva; e a política seria uma atividade caseira, melhor conduzida pelas experiências cotidianas das pessoas comuns. Embora essas homenagens ao senso comum simulem uma afiliação com o povo, elas não seguem o uso de Paine ao clamar por uma ação radical ou ao desafiar o raciocínio convencional.
Após a eleição de 2024, o Partido Democrata apropriou-se do jargão de Paine. Índices de aprovação historicamente baixos no rastro da reeleição de Donald Trump empurraram os Democratas a adotar o senso comum como um meio de se reconectar com eleitores alienados. Como as posições democratas em uma variedade de temas — imigração e segurança de fronteira, direitos transgênero, raça e DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), economia e inflação — eram percebidas como desalinhadas com grande parte do público americano, a repaginação do partido como um veículo do senso comum prometia cultivar a imagem popular e o kitsch do homem comum que os Democratas cederam na era Trump.
Esse apelo moderno ao senso comum atravessa divisões internas, emanando tanto de bancadas moderadas quanto das de esquerda. O centrista Joe Manchin escreve a ex-colegas democratas em um livro cujo subtítulo é "Em Defesa do Senso Comum". Por outro lado, a progressista inflamada Alexandria Ocasio-Cortez explica que as chamadas políticas radicais são, na verdade, simplesmente senso comum.
Se o bom senso pode ser invocado por qualquer pessoa, de AOC a Donald Trump, é justo perguntar: será ele um meio adequado para mobilizar a defesa da democracia nos dias de hoje?
A liderança do partido também aderiu a essa abordagem. O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, invoca o bom senso como um princípio norteador da atuação democrata, utilizando-o para explicar a posição do partido sobre a paralisação do governo no ano passado; da mesma forma, o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, faz coro a Jeffries, traduzindo para a linguagem do bom senso até mesmo os aspectos mais complexos da resistência democrata a Trump — como a defesa do Consumer Financial Protection Bureau (órgão de proteção ao consumidor no setor financeiro). Além disso, figuras cotadas para a disputa presidencial de 2028, como Andy Beshear, Gavin Newsom e Josh Shapiro, fazem questão de ressaltar suas credenciais ligadas ao bom senso.
É tentador celebrar a guinada dos democratas em direção ao bom senso no período pós-2024. Afinal, Trump apresenta sua política como uma expressão de bom senso desde 2016, e seu discurso de posse de 2025 prometeu uma "revolução do bom senso". Por que não disputar esse terreno retórico que Trump tanto privilegia?
Surge, porém, um dilema: o bom senso não é um significante vazio nem um discurso neutro no qual se possa simplesmente despejar uma agenda democrata. Ideia de natureza ambivalente no imaginário americano, o bom senso surgiu como um clamor pela independência dos EUA na era revolucionária de Thomas Paine. Contudo, em nossa época, ele serve tanto como pilar fundamental da política reacionária e elemento recorrente da autocracia trumpista quanto como indicador de credenciais progressistas.
Se o bom senso pode ser invocado por qualquer pessoa, de AOC a Donald Trump, é legítimo perguntar: será ele um veículo adequado para mobilizar a defesa da democracia nos dias de hoje? Pode o bom senso ainda evocar a política democrática revolucionária para a qual Paine o concebeu?
O Senso Comum da deliberação democrática
Sempre houve uma ironia em Senso Comum. Para Paine, o senso comum implicava um compromisso não apenas com o governo popular, mas com ideais progressistas da era moderna, como políticas antiescravagistas, o secularismo e o bem-estar social. No entanto, esses princípios revolucionários foram pouco articulados em Senso Comum e não eram amplamente compartilhados na América de Paine: a sociedade moderna que Paine intuía como senso comum não era nada disso.
Na prática, a política emancipatória que Paine almejava foi fruto do trabalho árduo e lento de um pequeno grupo de abolicionistas e livres-pensadores nas décadas seguintes à sua morte, e não de uma ascensão natural do senso comum. Ao recorrer ao senso comum de forma antecipatória, Paine pressupunha a política radical que pretendia gerar, mas que não chegou a articular plenamente.
É aqui que a ironia se aprofunda. As conquistas democráticas progressistas associadas ao legado de Paine pouco têm a ver com algum repositório estático de senso comum. Elas se tornaram senso comum como resultado de luta política e contestação democrática.
As invocações contemporâneas do senso comum frequentemente ignoram esse fato. Muitas vezes, elas interpretam mal a causalidade: a política é entendida como um repositório fixo de senso comum que as instituições traduzem em políticas públicas, negligenciando a política como um processo deliberativo contínuo por meio do qual o próprio senso comum é criado e transformado. Nessa estrutura despolitizada, todos os usos do senso comum apelam a sentimentos vagos e incipientes, evitando a agitação política vigorosa e preferindo apostar no apelo intuitivo em vez do tipo de deliberação democrática — debate, argumentação e evidências — que facilita o aprendizado coletivo.
É isso que torna o senso comum um significante problemático para a política democrática progressista. Sem dúvida, o senso comum tem sido utilizado em todo o espectro ideológico, mostrando-se tão eficaz para fins revolucionários quanto para reacionários. Mas a política reacionária beneficia-se mais da sutil evasão da deliberação democrática para a qual os apelos ao senso comum apontam.
Afinal, o movimento MAGA é mais eficaz não quando apresentado como uma ideologia antidemocrática plenamente articulada, mas quando surge como um conjunto de verdades simples e cotidianas, tão sensatas que nenhum americano decente ousaria contestá-las. O senso comum sustenta o autoritarismo americano não ao se opor explicitamente à democracia constitucional, mas ao apresentar como desnecessária a contestação política que a democracia existe justamente para facilitar. Na melhor das hipóteses, a contestação é vista como supérflua diante do apelo avassalador do senso comum. Na pior das hipóteses, a supressão da discordância é apresentada como necessária para defender o bom senso dos americanos sensatos e restaurar a ordem política.
O senso comum da política de massas
É claro que a trajetória revolucionária de Paine está tão intrinsecamente ligada à memória da Declaração de Independência e da Constituição dos EUA que acabamos por confundir o senso comum com a defesa da democracia constitucional. Na verdade, trata-se de sensibilidades políticas concorrentes: a democracia constitucional protege o espaço no qual os cidadãos podem debater o que constitui o senso comum.
A democracia constitucional é fruto de um raciocínio contraintuitivo, de uma arquitetura delicada que concilia propósitos divergentes e princípios limitadores. Ao proteger expressões heterodoxas e impopulares, a democracia constitucional desconfia da resolução de questões com base em convenções comuns, mesmo quando tais convenções parecem sensatas; ao assegurar liberdades civis e direitos fundamentais a todas as pessoas, independentemente de seu status cívico ou casta social, a democracia constitucional desafia as fronteiras daquilo — e daqueles — que consideramos comuns a nós; ao adotar o Estado de Direito como seu princípio organizador, a democracia constitucional resguarda o funcionalismo público independente das pressões exercidas pela autoridade do senso comum.
Para Paine, o bom senso implicava um compromisso não apenas com o governo popular, mas também com ideais progressistas da era moderna, como políticas antiescravistas, o secularismo e o bem-estar social.
Nada disso sugere que a democracia deva ser um reduto de especialistas esclarecidos ou prescindir da participação popular. Muito pelo contrário. A democracia constitucional não rejeita a política de massas; ela fornece a estrutura institucional por meio da qual a política de massas pode se concretizar, ao mesmo tempo em que assegura a permanência da possibilidade de divergência política. Ao institucionalizar a oposição política por meio de eleições regulares e competitivas, a democracia constitucional desafia o senso comum, lembrando aos cidadãos que nenhuma agenda política desfruta de consenso universal.
Um Partido Democrata ou uma esquerda democrática que tenha o senso comum como norte corre o risco de abrir mão de sua capacidade transformadora, reduzindo o projeto de persuasão e mobilização de massas em uma democracia constitucional à afirmação de dogmas cristalizados, apresentados como verdades evidentes por si mesmas.
Lendo Senso Comum em seu contexto
Não precisamos descartar Paine. No entanto, com muita frequência, Senso Comum é lido como uma obra revolucionária isolada, aprisionada pela mitologia da independência nacional. Na verdade, o projeto populista da esquerda democrática atual deve muito ao Paine que surgiu após Senso Comum.
Nos anos seguintes à independência, Paine integrou a primeira sociedade antiescravista dos Estados Unidos, na Filadélfia, e engajou-se na Revolução Francesa, publicando textos fundamentais que desafiavam uma política contrarrevolucionária então incipiente, incluindo Direitos do Homem (1791), A Era da Razão (1794) e Justiça Agrária (1797). Toda essa agitação política rendeu a Paine o desprezo de seus compatriotas e de antigos revolucionários americanos. Quando Paine morreu, em 1809, apenas cerca de uma dúzia de pessoas compareceu ao seu funeral.
Paine compreendia que a política é um duelo discursivo: a linguagem dominante constrói nosso horizonte de possibilidades, tornando algumas pautas mais inteligíveis e imperativas do que outras. O que faz de Paine uma figura revolucionária que vale a pena revisitar não é apenas Senso Comum em si, mas a perspicácia com que ele contestou os contornos do senso comum após 1776. Paine acabou subvertendo seu próprio apelo ao senso comum, em vez de se curvar a um legado nacional que poderia ter reivindicado para si. Para aprender essa que é a mais duradoura das lições de Paine, precisaremos contar uma história diferente sobre Senso Comum.
Colaborador
Maxwell G. Burkey é professor assistente de ciência política na Kean University.

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