Xiaolu Kuang, Fusheng Xie e Zhi Li
Monthly Review
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| Vol. 78, No. 03 (July-August 2026) |
A financeirização da economia global é a característica mais marcante do capitalismo no século XXI. Desde a crise de estagflação da década de 1970, o capitalismo passou por uma transformação estrutural na qual seu centro de gravidade deslocou-se da produção para as finanças, em resposta à estagnação da atividade produtiva. Isso deu origem ao que foi descrito como uma "explosão financeira": a expansão desenfreada de novas instituições, instrumentos e mercados financeiros, acompanhada pelo crescente endividamento e pela disseminação de atividades especulativas. A expansão do sistema financeiro superou em muito o necessário para sustentar o investimento produtivo, ao passo que uma parcela crescente dos lucros nos países do Norte Global provém agora das finanças, e não da produção.1 Simultaneamente, a financeirização substituiu, em grande medida, o domínio colonial direto e tornou-se um mecanismo crucial de controle e expropriação no imperialismo contemporâneo. Dada a posição subordinada do Sul Global nos sistemas globais de produção e finanças, os países do Norte continuam a extrair valor das economias do Sul, ao mesmo tempo em que restringem seu desenvolvimento autônomo por meio de mecanismos como a liberalização da conta de capitais e a dolarização da dívida soberana.2
Entre os países do Sul Global, a China parece apresentar um caso singular. Por um lado, no contexto da financeirização capitalista contemporânea, essa vasta economia conseguiu preservar um grau significativo de autonomia desenvolvimentista ao mesmo tempo em que se integrava profundamente à economia mundial. Ela sustentou a acumulação produtiva de longo prazo e evitou a subordinação financeira, sem exibir qualquer padrão claro de financeirização subordinada. Nesse aspecto, a ascensão da China reveste-se de uma importância que vai muito além daquela dos Estados desenvolvimentistas do Leste Asiático durante a chamada "era de ouro" do capitalismo. Simultaneamente, no curso das reformas orientadas para o mercado, a China desenvolveu um amplo setor privado, atraiu investimentos estrangeiros e absorveu uma parcela substancial da realocação industrial. Com o avanço da acumulação de capital e a expansão cada vez mais desordenada do capital, o desenvolvimento econômico e social chinês também se deparou com uma série de contradições, incluindo a degradação ecológica, o aumento da polarização social e a proteção trabalhista inadequada. Essas contradições constituíam, na verdade, uma imagem espelhada sobreposta — produzida pela compressão espaço-temporal do rápido desenvolvimento chinês — dos muitos problemas que as economias avançadas haviam enfrentado em diferentes estágios de desenvolvimento.
Desde a década de 2010, a acentuada contração das exportações, decorrente da crise financeira internacional, alterou as condições externas que anteriormente sustentavam o crescimento acelerado da China. Simultaneamente, o país tem apresentado sinais de financeirização, manifestados na desaceleração da acumulação produtiva, na expansão da atividade financeira e na crescente visibilidade dos riscos financeiros. A alta cúpula do Partido Comunista da China (PCC) reconheceu a necessidade — no âmbito da economia de mercado socialista — de regular e orientar o comportamento do capital sob a liderança do Partido. Desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, o presidente Xi Jinping fortaleceu significativamente a liderança do Partido — especialmente a do Comitê Central — nas atividades econômicas e financeiras, reafirmou o princípio fundamental de que o setor financeiro deve servir à economia real e intensificou os esforços de combate à corrupção no setor financeiro. Tudo isso reflete a determinação do Partido em enfrentar, na raiz, problemas como a financeirização e a expansão desordenada do capital, bem como em avançar na construção de um sistema econômico socialista com características chinesas.
A transformação estrutural do capitalismo contemporâneo e a financeirização dependente no Sul Global
Entre os países do Sul Global, a China parece apresentar um caso singular. Por um lado, no contexto da financeirização capitalista contemporânea, essa vasta economia conseguiu preservar um grau significativo de autonomia desenvolvimentista ao mesmo tempo em que se integrava profundamente à economia mundial. Ela sustentou a acumulação produtiva de longo prazo e evitou a subordinação financeira, sem exibir qualquer padrão claro de financeirização subordinada. Nesse aspecto, a ascensão da China reveste-se de uma importância que vai muito além daquela dos Estados desenvolvimentistas do Leste Asiático durante a chamada "era de ouro" do capitalismo. Simultaneamente, no curso das reformas orientadas para o mercado, a China desenvolveu um amplo setor privado, atraiu investimentos estrangeiros e absorveu uma parcela substancial da realocação industrial. Com o avanço da acumulação de capital e a expansão cada vez mais desordenada do capital, o desenvolvimento econômico e social chinês também se deparou com uma série de contradições, incluindo a degradação ecológica, o aumento da polarização social e a proteção trabalhista inadequada. Essas contradições constituíam, na verdade, uma imagem espelhada sobreposta — produzida pela compressão espaço-temporal do rápido desenvolvimento chinês — dos muitos problemas que as economias avançadas haviam enfrentado em diferentes estágios de desenvolvimento.
Desde a década de 2010, a acentuada contração das exportações, decorrente da crise financeira internacional, alterou as condições externas que anteriormente sustentavam o crescimento acelerado da China. Simultaneamente, o país tem apresentado sinais de financeirização, manifestados na desaceleração da acumulação produtiva, na expansão da atividade financeira e na crescente visibilidade dos riscos financeiros. A alta cúpula do Partido Comunista da China (PCC) reconheceu a necessidade — no âmbito da economia de mercado socialista — de regular e orientar o comportamento do capital sob a liderança do Partido. Desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, o presidente Xi Jinping fortaleceu significativamente a liderança do Partido — especialmente a do Comitê Central — nas atividades econômicas e financeiras, reafirmou o princípio fundamental de que o setor financeiro deve servir à economia real e intensificou os esforços de combate à corrupção no setor financeiro. Tudo isso reflete a determinação do Partido em enfrentar, na raiz, problemas como a financeirização e a expansão desordenada do capital, bem como em avançar na construção de um sistema econômico socialista com características chinesas.
A transformação estrutural do capitalismo contemporâneo e a financeirização dependente no Sul Global
A crise de estagflação da década de 1970 pôs fim definitivo ao boom do capitalismo no pós-guerra. Após um período prolongado de ajuste estrutural, o capitalismo entrou em uma nova etapa — fundamentalmente diferente da "era de ouro" do pós-guerra —, na qual o capital financeiro monopolista tornou-se a força dominante. A característica mais marcante dessa etapa é o descolamento da expansão financeira em relação ao desenvolvimento da economia real. A intensificação da atividade financeira em toda a sociedade — abrangendo o setor financeiro, as empresas não financeiras e as famílias — ajudou a aliviar as pressões da estagnação econômica e, por meio de efeitos de riqueza, transformou a inflação dos preços dos ativos em novas fontes de demanda. Contudo, tratava-se de uma falsa prosperidade. A expansão desproporcional de bolhas financeiras deixou a economia perpetuamente exposta ao risco de deflação da dívida, fator que também constituiu a causa subjacente da crise financeira global de 2007–2009. Mesmo após a crise, no entanto, as economias capitalistas não retornaram ao padrão de acumulação do pós-guerra liderado pelo capital industrial. Em vez disso, a tendência profundamente arraigada à estagnação econômica forçou o capitalismo a continuar avançando pela via da financeirização.4
A persistência da financeirização nos países capitalistas centrais, como os Estados Unidos, é indissociável do estabelecimento da ordem imperialista contemporânea. A essência dessa ordem reside no fato de que, para compensar a acumulação doméstica insuficiente do capital monopolista, os Estados Unidos coordenam ações com países capitalistas avançados — como os da Europa e o Japão — visando à apropriação contínua de mais-valia de outras nações por meio de redes globais de produção, da financeirização e de mecanismos correlatos, ao mesmo tempo em que reforçam esse processo mediante meios políticos e militares de controle.
Primeiramente, empresas multinacionais sediadas nos Estados Unidos e em outros países capitalistas estruturaram redes globais de produção do tipo centro-periferia, valendo-se da modularização e da tecnologia da informação. Ao fragmentar processos produtivos e transferir diversas atividades produtivas para países periféricos do Sul Global, essas empresas conseguiram exercer controle sobre tais nações graças ao seu monopólio de tecnologias-chave e de marcas, apropriando-se continuamente de mais-valia por meio de métodos como a redução dos preços de aquisição e a aceleração da acumulação de ativos intangíveis. A criação de redes globais de produção também liberou recursos substanciais, anteriormente alocados em investimentos de capital fixo, para as empresas dos EUA, permitindo-lhes realizar fusões e aquisições, recompras de ações, operações corporativas financeirizadas e investimentos financeiros.5 Essas atividades financeiras constituem, por sua vez, um dos principais canais pelos quais o valor é transferido de países periféricos para países centrais, intensificando ainda mais a financeirização e fortalecendo o poder do capital monopolista-financeiro.6
Em segundo lugar, com a rápida expansão do capital monopolista-financeiro dos EUA, o dólar e um mercado financeiro internacional cada vez mais centrado nos EUA tornaram-se os pilares do sistema monetário e financeiro internacional. Isso permitiu aos Estados Unidos realizar a expropriação financeira global por meio de diversos mecanismos, incluindo a senhoriagem, a inovação financeira e a expansão do capital financeiro.7
Por fim, ao exercer controle sobre instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, estabelecer bases militares em todo o mundo e promover o Consenso de Washington, os Estados Unidos obrigaram países devedores a implementar programas de ajuste estrutural — centrados na liberalização financeira, na privatização e na desregulamentação — que obstaculizam o desenvolvimento autônomo. Por meio de seu poder econômico, político e militar combinado, o país tem, assim, mantido essa ordem imperialista.
A maioria dos países do Sul Global não se beneficiou da chamada globalização; em vez disso, ficou presa em uma financeirização subordinada. A financeirização subordinada, ou subordinação financeira internacional, refere-se principalmente às relações desiguais de controle e expropriação no âmbito do sistema mundial, manifestadas por meio de canais monetários e financeiros.8 Em uma perspectiva histórica de longo prazo, a subordinação financeira de muitos países do Sul remonta ao período colonial, quando seus sistemas financeiros foram estabelecidos não para atender às necessidades da produção interna, mas em função de imperativos externos.9 Sob a ordem imperialista contemporânea, contudo, a atuação combinada das redes globais de produção e de um sistema financeiro baseado no dólar e orientado pelo mercado deu origem a novas formas de financeirização subordinada no Sul Global.
No plano da produção, os países do Sul participam de redes globais de produção, mas permanecem presos aos elos de menor valor agregado das cadeias de valor, obtendo margens de lucro reduzidas e arcando com os riscos decorrentes das flutuações na demanda de mercado e nas taxas de câmbio. Simultaneamente, os salários dos trabalhadores têm sido mantidos em níveis baixos há muito tempo, e a consequente fraqueza da demanda interna reforçou ainda mais a dependência desses países em relação aos mercados internacionais. As políticas macroeconômicas "prudentes" preconizadas pelo neoliberalismo também restringiram ainda mais o espaço para investimentos produtivos internos.
No plano financeiro, a participação em redes globais de produção exige que os países do Sul se integrem a um sistema financeiro baseado no mercado e denominado em dólares. Com isso, ativos em moeda nacional são transformados em ativos financeiros negociáveis, facilmente sujeitos à especulação, ao passo que as empresas locais ficam continuamente expostas à ameaça de choques na liquidez global. Quando a liquidez global é abundante, fluxos repentinos de capital especulativo inflam os preços dos ativos; quando a política monetária nos países centrais se torna restritiva, a desvalorização cambial e crises de dívida logo se seguem. Além disso, para estabilizar as taxas de câmbio, os países do Sul são compelidos a acumular grandes reservas cambiais — emitindo, na prática, passivos em moeda nacional com juros elevados em troca de títulos do Tesouro dos EUA de baixo rendimento —, o que também constitui um dos canais de transferência de valor.10
Pode-se argumentar que a financeirização subordinada no Sul Global foi moldada conjuntamente pela posição de subordinação desses países e pela transformação estrutural do capitalismo contemporâneo. Ao serem integrados à força à produção e às finanças globalizadas, os países do Sul também vivenciaram uma expansão desproporcional da atividade financeira em relação à produção. No entanto, os lucros financeiros assim gerados não permanecem nesses países, sendo transferidos para as economias capitalistas centrais. Esse processo intensificou a fragilidade dos países do Sul tanto no desenvolvimento econômico quanto na esfera financeira, ao mesmo tempo em que seu espaço de desenvolvimento e sua autonomia têm sido crescentemente restringidos pelos países centrais do sistema-mundo capitalista.
A persistência da financeirização nos países capitalistas centrais, como os Estados Unidos, é indissociável do estabelecimento da ordem imperialista contemporânea. A essência dessa ordem reside no fato de que, para compensar a acumulação doméstica insuficiente do capital monopolista, os Estados Unidos coordenam ações com países capitalistas avançados — como os da Europa e o Japão — visando à apropriação contínua de mais-valia de outras nações por meio de redes globais de produção, da financeirização e de mecanismos correlatos, ao mesmo tempo em que reforçam esse processo mediante meios políticos e militares de controle.
Primeiramente, empresas multinacionais sediadas nos Estados Unidos e em outros países capitalistas estruturaram redes globais de produção do tipo centro-periferia, valendo-se da modularização e da tecnologia da informação. Ao fragmentar processos produtivos e transferir diversas atividades produtivas para países periféricos do Sul Global, essas empresas conseguiram exercer controle sobre tais nações graças ao seu monopólio de tecnologias-chave e de marcas, apropriando-se continuamente de mais-valia por meio de métodos como a redução dos preços de aquisição e a aceleração da acumulação de ativos intangíveis. A criação de redes globais de produção também liberou recursos substanciais, anteriormente alocados em investimentos de capital fixo, para as empresas dos EUA, permitindo-lhes realizar fusões e aquisições, recompras de ações, operações corporativas financeirizadas e investimentos financeiros.5 Essas atividades financeiras constituem, por sua vez, um dos principais canais pelos quais o valor é transferido de países periféricos para países centrais, intensificando ainda mais a financeirização e fortalecendo o poder do capital monopolista-financeiro.6
Em segundo lugar, com a rápida expansão do capital monopolista-financeiro dos EUA, o dólar e um mercado financeiro internacional cada vez mais centrado nos EUA tornaram-se os pilares do sistema monetário e financeiro internacional. Isso permitiu aos Estados Unidos realizar a expropriação financeira global por meio de diversos mecanismos, incluindo a senhoriagem, a inovação financeira e a expansão do capital financeiro.7
Por fim, ao exercer controle sobre instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, estabelecer bases militares em todo o mundo e promover o Consenso de Washington, os Estados Unidos obrigaram países devedores a implementar programas de ajuste estrutural — centrados na liberalização financeira, na privatização e na desregulamentação — que obstaculizam o desenvolvimento autônomo. Por meio de seu poder econômico, político e militar combinado, o país tem, assim, mantido essa ordem imperialista.
A maioria dos países do Sul Global não se beneficiou da chamada globalização; em vez disso, ficou presa em uma financeirização subordinada. A financeirização subordinada, ou subordinação financeira internacional, refere-se principalmente às relações desiguais de controle e expropriação no âmbito do sistema mundial, manifestadas por meio de canais monetários e financeiros.8 Em uma perspectiva histórica de longo prazo, a subordinação financeira de muitos países do Sul remonta ao período colonial, quando seus sistemas financeiros foram estabelecidos não para atender às necessidades da produção interna, mas em função de imperativos externos.9 Sob a ordem imperialista contemporânea, contudo, a atuação combinada das redes globais de produção e de um sistema financeiro baseado no dólar e orientado pelo mercado deu origem a novas formas de financeirização subordinada no Sul Global.
No plano da produção, os países do Sul participam de redes globais de produção, mas permanecem presos aos elos de menor valor agregado das cadeias de valor, obtendo margens de lucro reduzidas e arcando com os riscos decorrentes das flutuações na demanda de mercado e nas taxas de câmbio. Simultaneamente, os salários dos trabalhadores têm sido mantidos em níveis baixos há muito tempo, e a consequente fraqueza da demanda interna reforçou ainda mais a dependência desses países em relação aos mercados internacionais. As políticas macroeconômicas "prudentes" preconizadas pelo neoliberalismo também restringiram ainda mais o espaço para investimentos produtivos internos.
No plano financeiro, a participação em redes globais de produção exige que os países do Sul se integrem a um sistema financeiro baseado no mercado e denominado em dólares. Com isso, ativos em moeda nacional são transformados em ativos financeiros negociáveis, facilmente sujeitos à especulação, ao passo que as empresas locais ficam continuamente expostas à ameaça de choques na liquidez global. Quando a liquidez global é abundante, fluxos repentinos de capital especulativo inflam os preços dos ativos; quando a política monetária nos países centrais se torna restritiva, a desvalorização cambial e crises de dívida logo se seguem. Além disso, para estabilizar as taxas de câmbio, os países do Sul são compelidos a acumular grandes reservas cambiais — emitindo, na prática, passivos em moeda nacional com juros elevados em troca de títulos do Tesouro dos EUA de baixo rendimento —, o que também constitui um dos canais de transferência de valor.10
Pode-se argumentar que a financeirização subordinada no Sul Global foi moldada conjuntamente pela posição de subordinação desses países e pela transformação estrutural do capitalismo contemporâneo. Ao serem integrados à força à produção e às finanças globalizadas, os países do Sul também vivenciaram uma expansão desproporcional da atividade financeira em relação à produção. No entanto, os lucros financeiros assim gerados não permanecem nesses países, sendo transferidos para as economias capitalistas centrais. Esse processo intensificou a fragilidade dos países do Sul tanto no desenvolvimento econômico quanto na esfera financeira, ao mesmo tempo em que seu espaço de desenvolvimento e sua autonomia têm sido crescentemente restringidos pelos países centrais do sistema-mundo capitalista.
A integração da China na economia mundial e a prevenção da financeirização subordinada
Entre os países do Sul Global, a China destaca-se como uma distinta exceção. Embora tenha se integrado profundamente na economia mundial, não caiu na financeirização subordinada. Em vez disso, alcançou os dois milagres do rápido crescimento económico e da estabilidade social a longo prazo, e tornou-se um dos principais motores do crescimento económico global. Esta distinção precisa ser entendida tanto do lado produtivo como do lado financeiro.
Do lado produtivo, a integralidade do sistema industrial da China, a vasta escala da procura no mercado interno e os fundos monetários acumulados internamente têm sido cruciais para permitir à China, mesmo após a sua integração na economia mundial, sustentar o crescimento através da expansão industrial e da melhoria da produtividade, em vez de cair numa financeirização subordinada.
Em primeiro lugar, o PCC tem reconhecido consistentemente a importância de possuir um sistema industrial independente e autossuficiente. Já na década de 1950, a China já tinha estabelecido um sistema industrial independente e relativamente abrangente e um sistema económico nacional. Isto proporcionou a base material que permitiu à China, depois de aderir à Organização Mundial do Comércio (OMC), absorver a deslocalização industrial e transformar rapidamente o investimento estrangeiro em capacidade produtiva, em vez de expansão financeira. Mais importante ainda, o Estado chinês tem sido capaz e disposto a transcender a lógica de procura de lucros do capital privado, orientando e controlando grandes volumes de fundos sociais para sectores estratégicos sem fins lucrativos que exigem investimento a longo prazo, tais como infra-estruturas e alta tecnologia. Estes investimentos não só estimularam directamente o crescimento através de efeitos multiplicadores, mas também criaram as condições gerais de produção conducentes à acumulação produtiva.
Em segundo lugar, a Reforma e a Abertura iniciadas no final da década de 1970 libertaram a procura de consumo reprimida da era da economia planificada, activaram a capacidade produtiva e estimularam o crescimento. O crescimento económico traduziu-se então num aumento dos rendimentos da população. Como mostra o Gráfico 1, entre 2000 e 2025, o crescimento salarial entre os trabalhadores em unidades urbanas não privadas acompanhou, em geral, e em alguns anos até excedeu, o crescimento do PIB per capita. Embora o crescimento dos salários dos trabalhadores migrantes tenha ficado um pouco para trás, ainda apresentou uma tendência ascendente e não estagnante. O aumento dos rendimentos foi posteriormente convertido em procura interna, o que por sua vez promoveu o crescimento económico. Na verdade, o crescimento da China tem dependido principalmente da procura interna e não da procura externa. Em termos de taxas de contribuição, entre 1978 e 2025 – com a única exceção de 2020, devido à pandemia – o consumo final contribuiu consistentemente mais para o crescimento do PIB do que as exportações líquidas de bens e serviços. Mesmo durante o período de rápido crescimento que se seguiu à adesão da China à OMC, de 2001 a 2007, a contribuição das exportações líquidas de bens e serviços para o crescimento do PIB foi de apenas 1,53 por cento, enquanto o consumo final contribuiu com 48,73 por cento.11
Gráfico 1. Índice de Taxa Salarial e PIB per capita
Por fim, uma das razões pelas quais muitos países do Sul caem em uma financeirização subordinada é que o desenvolvimento econômico passa a depender de financiamento externo. Em contrapartida, desde a era Mao, a China tem seguido a estratégia nacional básica de depender "principalmente da autossuficiência, tratando a assistência externa como complementar". O investimento na construção econômica da China provém principalmente da acumulação interna, e não de capital estrangeiro ou de superávits comerciais. Desde 1983, a participação do investimento estrangeiro direto no investimento total em ativos fixos superou 10% apenas no período de 1993 a 2002; em todos os outros anos, a média foi de apenas 3,5%. Além disso, a China só começou a registrar um superávit estável em conta corrente a partir de 1994 e, mesmo em seu pico, entre 2006 e 2008, esse superávit permaneceu abaixo de 10% do PIB; na maioria dos outros anos, manteve-se em torno de 1% a 3%.
Do ponto de vista financeiro, a posição dominante dos bancos estatais, a intervenção governamental no sistema financeiro e a abertura prudente da conta de capital direcionaram efetivamente os recursos para setores produtivos, ao mesmo tempo em que preservaram a autonomia e a resiliência do sistema financeiro.12
Analisemos cada uma dessas características. Primeiramente, o sistema financeiro chinês é centrado nos bancos. Em comparação com instituições baseadas no mercado, os bancos têm maior capacidade de fornecer o capital de longo prazo (patient capital) necessário à produção industrial. No final de 2024, os bancos detinham 89,7% dos ativos de todas as instituições financeiras; e, dentro do setor bancário, mais de 50% do total de ativos estava sob controle de bancos estatais.13 Comparados aos bancos privados, que são mais orientados para a lucratividade, os bancos estatais têm maior capacidade de expandir o crédito de forma anticíclica — um papel que se mostrou particularmente importante tanto durante a crise financeira asiática quanto na crise financeira global de 2007–2009.14 Ao mesmo tempo, como os bancos estatais contam com o respaldo do crédito soberano, a garantia implícita do governo sustentou, em certa medida, a estabilidade do sistema financeiro. A criação, em 1994, dos três bancos estatais de fomento da China (o Banco de Desenvolvimento da China, o Banco de Exportação e Importação da China e o Banco de Desenvolvimento Agrícola da China) também impulsionou o fluxo de recursos para setores prioritários.
Em segundo lugar, a intervenção governamental no sistema financeiro manifesta-se principalmente de duas formas. Uma delas consiste em um sistema de controle administrativo e regulatório que, em certos aspectos, é mais rigoroso do que os padrões internacionais e visa preservar a estabilidade do sistema financeiro.15 A outra ocorre no âmbito das próprias instituições financeiras, onde a liderança do Partido está integrada por meio da estruturação organizacional do Partido. Especialmente nas instituições financeiras estatais, os objetivos políticos do Comitê Central do Partido podem ser traduzidos em responsabilidade política e efetivamente transmitidos e implementados por meio de mecanismos como a avaliação de quadros e a prestação de contas. Cabe ressaltar, contudo, que, sob a orientação de reformas voltadas para o mercado, os bancos estatais também apresentaram instabilidade comportamental, o que, por sua vez, evidencia a necessidade de intervenção governamental. Por fim, a política de "abertura prudente" da conta de capital permitiu à China preservar o status independente do renminbi e manter a autonomia tanto na política monetária quanto na política cambial.
Embora a China tenha evitado a financeirização subordinada, o desenvolvimento de empresas privadas e a introdução de capital estrangeiro durante as reformas orientadas para o mercado também deram origem a uma expansão desordenada do capital na economia de mercado socialista — fenômeno que, inicialmente, estava associado sobretudo à esfera da produção. Desde o início do século XXI, a China integrou-se às redes globais de produção por meio da manufatura em larga escala de componentes modulares padronizados e da montagem final. Esse modelo caracterizava-se por baixos salários e elevado consumo de energia; especialmente nas regiões costeiras, eram notórios os ambientes de trabalho precários e a proteção trabalhista inadequada, ao passo que a capacidade de suporte dos recursos e do meio ambiente também se aproximava de seus limites. Paralelamente, com o crescimento da riqueza e a acumulação monetária, desenvolveu-se também um sistema de mercado financeiro — abrangendo ações, títulos e fundos de investimento.
No entanto, devido à rápida expansão dos setores produtivos e ao relativo atraso no desenvolvimento dos mercados financeiros e das inovações financeiras, a maior parte dos recursos sociais provenientes de diversas fontes — incluindo o sistema bancário paralelo (shadow banking) — continuou a ser direcionada para investimentos produtivos. Em 2005, o investimento em ativos fixos na China cresceu 31,3%, enquanto a participação do valor agregado do setor financeiro no PIB chegou a cair no período de 2001 a 2005, situando-se em uma média de apenas 4,3%. Não havia, portanto, uma separação clara entre finanças e produção. Por outro lado, à medida que a acumulação de capital industrial começou a enfrentar obstáculos e os mercados e inovações financeiras foram ganhando forma, a busca do capital excedente por retornos mais elevados levou a uma expansão desordenada do capital em direção à esfera financeira. Foi exatamente esse processo que passou a caracterizar a economia chinesa a partir da década de 2010.
Tendências de financeirização e a experiência da China na regulação do capital desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China
Em 2013, o presidente Xi avaliou que a economia chinesa havia entrado em um "novo normal" — isto é, um estágio caracterizado pela sobreposição de três períodos: uma mudança na taxa de crescimento, o doloroso processo de ajuste estrutural e a absorção dos efeitos de políticas de estímulo anteriores. Somado ao profundo ajuste da economia mundial, esse cenário criou um ambiente de desenvolvimento extremamente complexo. Durante o período anterior de crescimento acelerado, a China havia acumulado uma enorme capacidade produtiva, e o pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans, lançado em resposta ao impacto da crise financeira global, expandiu ainda mais essa capacidade. Do lado da demanda, a elevação dos padrões de consumo interno e a contração dos mercados internacionais geraram tanto um problema quantitativo — com a oferta agregada superando a demanda — quanto um descompasso estrutural entre oferta e demanda na esfera produtiva. Uma parcela considerável da capacidade produtiva em larga escala, voltada apenas para uma demanda padronizada, havia atingido seu limite; isso, combinado com o aumento dos custos sociais de produção, levou a um declínio na taxa de lucro da economia real. Como mostra o Gráfico 2, a taxa de lucro sobre os ativos das empresas industriais chinesas caiu de 9,1% em 2011 para 4,1% em 2024, sendo a queda ainda mais acentuada nas empresas privadas do que nas estatais.
Gráfico 2. Taxa de lucro sobre ativos das empresas industriais da China
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| Fontes: NBSC. A taxa de lucro é calculada como o lucro total dividido pelo ativo total. |
Diante da queda na lucratividade da economia real e da defasagem na regulamentação financeira, a China começou a apresentar tendências à financeirização. Grandes volumes de capital fluíram para setores fictícios, como o financeiro e o imobiliário, inflando bolhas de preços de ativos e expondo gradualmente riscos financeiros. Esse fenômeno tem sido frequentemente descrito como a transição "do real para o fictício". Manifestou-se de forma mais acentuada no comportamento crescente de especulação e endividamento de empresas não financeiras. Uma vez que o 11º e o 12º Planos Quinquenais preconizaram, sucessivamente, a promoção "estável" e "ativa, porém prudente", de programas-piloto para operações financeiras mistas, o número de empresas não financeiras que investem no setor financeiro aumentou de forma constante, dando origem a holdings financeiras. Estas podem ser divididas, em linhas gerais, em cinco categorias: primeiro, grandes grupos empresariais aprovados pelo Conselho de Estado para apoiar a abertura e o desenvolvimento econômico da China; segundo, empresas abrangentes de investimento e operação de ativos estabelecidas com a aprovação de governos locais; terceiro, empresas de gestão de ativos criadas pelas controladoras de grupos de empresas estatais centrais para gerir os negócios financeiros do grupo; quarto, empresas privadas e de capital aberto que passaram a controlar gradualmente múltiplas instituições financeiras de diferentes tipos por meio de investimentos e fusões e aquisições; e quinto, certas empresas de internet que, após conquistarem posições dominantes no comércio eletrônico, expandiram-se gradualmente para o setor financeiro, adquiriram múltiplas licenças financeiras e construíram plataformas financeiras integradas.
No entanto, algumas empresas não financeiras — especialmente as das categorias quatro e cinco — deixaram-se levar excessivamente pela especulação financeira e negligenciaram o desenvolvimento de suas atividades principais. Algumas obtiveram lucros extraordinários ao adquirir licenças financeiras escassas e transferir rapidamente participações acionárias, como no caso do Grupo Jiuding.16 Outras empreenderam uma expansão imprudente por meio de financiamento alavancado, injeções circulares de capital e aportes de capital fictício. Elas apropriaram-se de vultosos recursos de instituições financeiras mediante transações entre partes relacionadas e outras formas de transferência ilícita de benefícios, além de burlarem a regulamentação financeira doméstica ao ocultar suas estruturas de propriedade, como no caso do Grupo Tomorrow.17 Outras ainda, sob a fachada de empresas de tecnologia, dedicaram-se a empréstimos online para contornar a regulamentação e utilizaram instrumentos de securitização de ativos para reempacotar e revender ativos de crédito em múltiplas camadas, gerando assim níveis extremamente elevados de alavancagem financeira, como no caso do Ant Group.18 Esse processo foi acompanhado também por conluio entre empresários e autoridades governamentais, bem como por corrupção. Essa expansão imprudente elevou os índices de alavancagem das empresas não financeiras e lançou as bases para riscos relacionados ao endividamento.19 De modo geral, desde 2009, o índice de alavancagem do setor corporativo não financeiro da China começou a subir de forma acentuada — com um crescimento particularmente rápido entre 2012 e 2016 —, atingindo 168,4% no final de 2024 (ver Gráfico 3).
Além das empresas não financeiras, a dívida oculta dos governos locais também cresceu rapidamente. Após a implementação da nova Lei Orçamentária em 2015, exigiu-se que toda a dívida dos governos locais fosse incorporada à gestão orçamentária, e a emissão de títulos públicos locais tornou-se o único canal legal para o endividamento desses entes. No entanto, os governos locais continuaram a captar recursos em violação a essas regras por meio de veículos de financiamento de governos locais (LGFVs), contratação pública de serviços, parcerias público-privadas (PPPs) e diversos fundos de desenvolvimento e orientação; em algumas províncias, o estoque de dívida pública oculta chegou a superar a dívida explícita em até 80%.20 A maior parte da dívida dos governos locais, contudo, foi direcionada a projetos de infraestrutura de médio e longo prazo, caracterizados por ciclos longos e retornos lentos. Em um cenário de queda na lucratividade da economia real, esses retornos tornaram-se também cada vez mais incertos. Simultaneamente, as fontes de financiamento são frequentemente de curto prazo, os encargos com juros são elevados e a pressão para rolar a dívida existente é considerável, gerando riscos latentes significativos. Além disso, o pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans de 2009 e a política de reassentamento monetizado para a reurbanização de áreas de habitação precária, introduzida em 2015, impulsionaram uma rápida alta nos preços dos imóveis nas principais cidades, contribuindo para o aumento da alavancagem das famílias (ver Gráfico 3).
Ainda assim, não se pode concluir que a China tenha passado por um processo de financeirização comparável ao dos Estados Unidos. Com base em dados comparáveis, embora a razão entre o valor adicionado nos setores de finanças, seguros e mercado imobiliário (FIRE) e o valor adicionado nos setores produtores de bens tenha aumentado acentuadamente desde 1978, seu nível absoluto permanece muito abaixo do observado nos Estados Unidos (ver Gráfico 4).21 Ademais, como o sistema financeiro chinês ainda está em processo de consolidação e aperfeiçoamento, o aumento relativo da participação dos setores FIRE no valor adicionado total possui uma lógica própria. Ao mesmo tempo, os níveis de alavancagem das famílias e do governo central na China permanecem relativamente baixos, oferecendo margem para manobras de política econômica (ver Gráfico 3).
Gráfico 4. Razão entre o valor adicionado nos setores FIRE e o valor adicionado nos setores produtores de bens na China
Mais importante ainda, a alta liderança da China desenvolveu uma profunda consciência dos perigos da financeirização. Como enfatizou o presidente Xi: "Servir à economia real é o dever e a missão do setor financeiro. Se buscarmos, sem a devida reflexão, a circulação interna e a expansão isolada do setor financeiro, este perderá seu propósito e, em última análise, levará a crises. O setor financeiro da China deve cumprir seu dever primordial de servir à economia real e facilitar o desenvolvimento de alta qualidade. Jamais deve deixar a economia real em segundo plano em favor da economia virtual"22. Desde 2015, o Bureau Político do Comitê Central do PCCh tem convocado repetidamente reuniões que atribuem grande importância à prevenção e à mitigação de riscos financeiros e ao fortalecimento da regulamentação financeira, ao mesmo tempo em que introduz uma série de medidas políticas para intensificar a correção de desordens financeiras e regular a expansão desordenada do capital na esfera financeira. Em 2023, a Conferência Nacional de Trabalho Financeiro foi elevada ao status de Conferência Central de Trabalho Financeiro, ressaltando ainda mais a liderança centralizada e unificada do Comitê Central do Partido sobre as atividades financeiras.
A regulamentação e a orientação do comportamento do capital por parte do PCCh têm avançado de forma sistemática em múltiplas frentes. Nos setores financeiro e imobiliário, a prioridade tem sido manter o serviço à economia real e o benefício à grande massa da população como o propósito fundamental do trabalho financeiro, ao mesmo tempo em que se fortalecem serviços financeiros de alta qualidade voltados para grandes estratégias nacionais, setores-chave e áreas carentes de apoio — incluindo inovação tecnológica, desenvolvimento ecológico, revitalização rural, pequenas e microempresas e cuidados com os idosos. A partir de 2025, a política monetária passou de prudente para moderadamente flexível, com maior apoio direcionado ao desenvolvimento da economia real.
Em segundo lugar, a China tem mantido consistentemente seu compromisso com a prevenção e o controle de riscos financeiros. Conglomerados empresariais de alto risco, como o Tomorrow Group e o HNA Group, foram tratados de maneira ordenada; a abertura de capital (IPO) do Ant Group foi suspensa e a empresa foi posteriormente reestruturada e submetida a medidas corretivas; ...e a dívida oculta existente dos governos locais foi convertida em títulos públicos locais.23 Como resultado, o volume da dívida oculta caiu 60% entre 2018 e 2024, situando-se em 10,5 trilhões de yuans ao final de 2024.24 Paralelamente, os esforços de combate à corrupção no setor financeiro continuaram a se intensificar, juntamente com o fortalecimento das instituições de regulação financeira e o aprimoramento do arcabouço jurídico e das regras de mercado que regem o setor financeiro.25
Em terceiro lugar, a gestão macroprudencial dos fluxos de capitais transfronteiriços foi reforçada. Após a crise financeira global, movimentos de grande escala de capital internacional especulativo contribuíram para a formação de bolhas financeiras na China. Atualmente, a China dá maior ênfase ao monitoramento e ao alerta precoce dos fluxos de capitais transfronteiriços e, quando necessário, reforça a gestão macroprudencial para salvaguardar o funcionamento estável do mercado de câmbio.
Em quarto lugar, a China manteve o princípio de que a habitação serve para moradia, e não para especulação. O país regulou proativamente os preços dos imóveis, buscou prevenir atividades especulativas e conduziu a liquidação e a reestruturação de incorporadoras como a Evergrande, cuja expansão imprudente levou a crises de endividamento. Vale ressaltar que a China não caiu na armadilha de uma oposição binária entre propriedade estatal e privada. Em vez disso, ao mesmo tempo em que preserva o papel fundamental dos grandes bancos comerciais estatais no atendimento à economia real e na manutenção da estabilidade financeira, o país também promoveu um sistema de serviços financeiros caracterizado pela divisão de trabalho e pela coordenação entre grandes bancos comerciais estatais, bancos de capital aberto (sociedades anônimas) e bancos de pequeno e médio porte.26
Na esfera da produção, desde 2015, o PCCh tem introduzido sucessivamente uma série de iniciativas estratégicas, incluindo a reforma estrutural do lado da oferta, o desenvolvimento de alta qualidade e o desenvolvimento de forças produtivas qualitativamente novas. Tais iniciativas visam superar gargalos em tecnologias fundamentais, promover a transformação inteligente, ecológica e em rede dos modos de produção e atender à crescente demanda da população por produtos e serviços personalizados e diversificados, estabelecendo assim uma circulação econômica interna na qual oferta e demanda estejam mais bem alinhadas, com base na harmonia entre humanidade e natureza. Simultaneamente, as áreas rurais da China ainda oferecem enorme espaço para investimentos. A estratégia de revitalização rural, que busca construir espaços modernos de produção e vida no campo, ajuda a absorver o excesso de capacidade e a alcançar uma solução espacial para o capital. Todas essas medidas contribuem para elevar a renda da população, livrar grupos de baixa renda das pressões da competição internacional baseada na degradação de padrões (a chamada "corrida para o fundo do poço") e ampliar a classe de renda média, de modo a concretizar o potencial do vasto mercado interno chinês, em vez de depender — como fazem os Estados Unidos — do crédito ao consumidor para estimular a demanda. Além disso, em resposta a problemas como a concorrência desordenada entre plataformas comerciais digitais e a compressão dos lucros de pequenas e médias empresas manufatureiras devido a rendas de monopólio extraídas pelo capital das plataformas, o governo chinês tem reforçado continuamente a regulamentação antimonopólio dessas plataformas e trabalhado para aprimorar a regulação do mercado, a governança macroeconômica e o arcabouço político e jurídico adequado ao desenvolvimento da economia digital, promovendo assim a concorrência leal e o desenvolvimento coordenado do capital. Atualmente, a China está lançando seu 15º Plano Quinquenal e utilizando a função de governança por objetivos do planejamento para orientar o capital privado a servir aos objetivos estratégicos mais amplos do país.
Resumo
A busca do capital pelo lucro implica uma tendência inerente de se desvincular da produção e voltar-se para a autocirculação na esfera financeira. Na realidade, para compensar a crise de estagnação na acumulação do capital monopolista, o capitalismo contemporâneo passou por uma transformação estrutural em direção à financeirização, marcada por características acentuadamente predatórias, especulativas e de curto prazo, que têm obstaculizado a industrialização dos países em desenvolvimento. Em contrapartida, a prática chinesa de resistir à financeirização demonstra que o país está desenvolvendo uma forma de economia orientada para a produção e com perspectiva de longo prazo, fundamentalmente diferente do capitalismo. Isso foi alcançado por meio da regulação do comportamento do capital pelo PCCh, orientando o capital industrial para a produção de bens que atendam às necessidades da população, direcionando o capital financeiro e comercial para servir à economia real e convertendo o crescimento econômico em renda para as pessoas, em vez de satisfazer os interesses de poucos capitalistas.
O desenvolvimento da China também tem sido desafiado pelo mundo capitalista. Assim como ocorreu com o Acordo de Plaza, que enfraqueceu o Japão na década de 1980, os Estados Unidos iniciaram, nos últimos anos, uma guerra comercial, uma guerra tarifária e o que ficou conhecido como "Acordo de Mar-a-Lago", tentando transferir sua crise interna para o exterior e enfraquecer a China por meio de medidas como tarifas elevadas, desvalorização do dólar, trocas de dívida, negociações monetárias multilaterais e imposições relacionadas à segurança. No entanto, desde o período da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa, o PCCh atribui grande importância a uma política monetária independente, plenamente consciente de que, uma vez perdida a autonomia da política monetária, torna-se impossível superar problemas econômicos internos e facilita-se a predação econômica externa. Já em 2016, a agência de notícias oficial da China, Xinhua, declarou que a China não era como o Japão do passado e não precisava de um "novo Acordo de Plaza"; caso as flutuações cambiais ultrapassassem a faixa tolerada, o Banco Popular da China manteria a gestão da taxa de câmbio. Diante da guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos, a China também respondeu imediatamente com fortes contramedidas. Tudo isso demonstra que a China se recusa a ser incorporada de forma subordinada ao sistema capitalista mundial e não seguirá uma trajetória neoliberal ou capitalista.
Notas
1. Harry Magdoff and Paul M. Sweezy, Stagnation and the Financial Explosion (New York: Monthly Review Press, 1987).
2. Carolina Alves, Bruno Bonizzi, Annina Kaltenbrunner, e José Gabriel Palma, “Conceptualising Financialisation in Developing and Emerging Economies: The Diversity Within a Unity,” Cambridge Journal of Economics 46, no. 5 (September 2022): 921–29; Ilias Alami et al., “International Financial Subordination: A Critical Research Agenda,” Review of International Political Economy 30, no. 4 (August 2023): 1360–86.
3. O “trabalho econômico e financeiro” refere-se, principalmente, à liderança do Partido sobre questões fundamentais nas áreas econômica e financeira, incluindo o desenho de alto nível, o planejamento geral, a coordenação unificada, o avanço integrado e a supervisão para assegurar uma implementação eficaz.
4. John Bellamy Foster, “The Age of Monopoly-Finance Capital,” Monthly Review 61, no. 9 (February 2010): 1–13.
5. William Milberg, “Shifting Sources and Uses of Profits: Sustaining U.S. Financialization with Global Value Chains,” Economy and Society 37, no. 3 (August 2008): 420–51.
6 Bruno Bonizzi, Annina Kaltenbrunner, e Jeff Powell, “Financialised Capitalism and the Subordination of Emerging Capitalist Economies,” Cambridge Journal of Economics 46, no. 4 (July 2022): 651–78.
7 Tony Norfield, The City: London and the Global Power of Finance (London: Verso, 2016).
8 Esse processo pode ser resumido como “uma relação espacial de dominação, inferioridade e subjugação entre diferentes espaços no âmbito do mercado mundial — expressa no e por meio do dinheiro e das finanças — que penaliza desproporcionalmente os atores nas economias em desenvolvimento e emergentes (EDEs)”. Veja Alami et al., “International Financial Subordination”.
9 Kai Koddenbrock, Ingrid Harvold Kvangraven, and Ndongo Samba Sylla, “Beyond Financialisation: the ‘Longue Durée’ of Finance and Production in the Global South,” Cambridge Journal of Economics 46, no. 4 (July 2022): 703–33.
10 Bonizzi, Kaltenbrunner, e Powell, “Financialised Capitalism.”
11 Salvo indicação em contrário, todos os dados apresentados a seguir provêm do Departamento Nacional de Estatísticas da China (data.stats.gov.cn).
15 Dic Lo, Guicai Li, and Yingquan Jiang, “Financial Governance and Economic Development: Making Sense of the Chinese Experience,” PSL Quarterly Review 64, no. 258 (September 2011): 267–86.
16 See “Full-Set Financial Licenses: A Bargaining Chip in the Capital Game,” People’s Daily Online, February 20, 2017, money.people.com.cn (in Chinese).
17 Ver “Pan Gongsheng: The Orderly Takeover of Nine Financial Institutions Under the ‘Tomorrow Group’ Is Advancing Steadily,” Hexun, September 14, 2020, bank.hexun.com (in Chinese).
18 Ver “Chinese Regulators Fine Ant Group $984m for Violations,” China Daily, July 8, 2023, chinadailyhk.com.
19 Ver China Financial Stability Report 2018 (Beijing: China Financial Publishing House, 2018), pbc.gov.cn.
20 China Financial Stability Report 2018.
24 Os dados são do Ministério das Finanças da China, disponíveis em https://www.mof.gov.cn/en/.
27 V. I. Lenin, Collected Works (Moscow: Progress Publishers, n.d.), vol. 29, 551.
2. Carolina Alves, Bruno Bonizzi, Annina Kaltenbrunner, e José Gabriel Palma, “Conceptualising Financialisation in Developing and Emerging Economies: The Diversity Within a Unity,” Cambridge Journal of Economics 46, no. 5 (September 2022): 921–29; Ilias Alami et al., “International Financial Subordination: A Critical Research Agenda,” Review of International Political Economy 30, no. 4 (August 2023): 1360–86.
3. O “trabalho econômico e financeiro” refere-se, principalmente, à liderança do Partido sobre questões fundamentais nas áreas econômica e financeira, incluindo o desenho de alto nível, o planejamento geral, a coordenação unificada, o avanço integrado e a supervisão para assegurar uma implementação eficaz.
4. John Bellamy Foster, “The Age of Monopoly-Finance Capital,” Monthly Review 61, no. 9 (February 2010): 1–13.
5. William Milberg, “Shifting Sources and Uses of Profits: Sustaining U.S. Financialization with Global Value Chains,” Economy and Society 37, no. 3 (August 2008): 420–51.
6 Bruno Bonizzi, Annina Kaltenbrunner, e Jeff Powell, “Financialised Capitalism and the Subordination of Emerging Capitalist Economies,” Cambridge Journal of Economics 46, no. 4 (July 2022): 651–78.
7 Tony Norfield, The City: London and the Global Power of Finance (London: Verso, 2016).
8 Esse processo pode ser resumido como “uma relação espacial de dominação, inferioridade e subjugação entre diferentes espaços no âmbito do mercado mundial — expressa no e por meio do dinheiro e das finanças — que penaliza desproporcionalmente os atores nas economias em desenvolvimento e emergentes (EDEs)”. Veja Alami et al., “International Financial Subordination”.
9 Kai Koddenbrock, Ingrid Harvold Kvangraven, and Ndongo Samba Sylla, “Beyond Financialisation: the ‘Longue Durée’ of Finance and Production in the Global South,” Cambridge Journal of Economics 46, no. 4 (July 2022): 703–33.
10 Bonizzi, Kaltenbrunner, e Powell, “Financialised Capitalism.”
11 Salvo indicação em contrário, todos os dados apresentados a seguir provêm do Departamento Nacional de Estatísticas da China (data.stats.gov.cn).
12 Os bancos estatais da China incluem: bancos comerciais especializados sob controle estatal (isto é, Industrial and Commercial Bank of China, Agricultural Bank of China, Bank of China, China Construction Bank); Bank of Communications; bancos de fomento estatais (isto é, China Development Bank, Agricultural Development Bank of China, Export and Import Bank of China); e o Postal Savings Bank of China.
13 Os dados provêm de relatórios anuais dos bancos estatais e do Banco Popular da China.
14 Longyao Zhang, Sara Hsu, Zhong Xu, e Enjiang Cheng, “Responding to Financial Crisis: Bank Credit Expansion with Chinese Characteristics,” China Economic Review 61 (2020): 101420.15 Dic Lo, Guicai Li, and Yingquan Jiang, “Financial Governance and Economic Development: Making Sense of the Chinese Experience,” PSL Quarterly Review 64, no. 258 (September 2011): 267–86.
16 See “Full-Set Financial Licenses: A Bargaining Chip in the Capital Game,” People’s Daily Online, February 20, 2017, money.people.com.cn (in Chinese).
17 Ver “Pan Gongsheng: The Orderly Takeover of Nine Financial Institutions Under the ‘Tomorrow Group’ Is Advancing Steadily,” Hexun, September 14, 2020, bank.hexun.com (in Chinese).
18 Ver “Chinese Regulators Fine Ant Group $984m for Violations,” China Daily, July 8, 2023, chinadailyhk.com.
19 Ver China Financial Stability Report 2018 (Beijing: China Financial Publishing House, 2018), pbc.gov.cn.
20 China Financial Stability Report 2018.
21 Nos Estados Unidos, esse indicador já havia atingido 35% no início da década de 1980 e ultrapassou 90% na década de 2010. Veja John Bellamy Foster e Robert W. McChesney, The Endless Crisis: How Monopoly-Finance Capital Produces Stagnation and Upheaval from the USA to China (Nova York: Monthly Review Press, 2012).
22 Veja Xi Jinping, The Governance of China, vol. 5 (Beijing: Foreign Languages Press, 2025), 228.
23 Veja China Financial Stability Report 2024 (Beijing: China Financial Publishing House, 2024), pbc.gov.cn.24 Os dados são do Ministério das Finanças da China, disponíveis em https://www.mof.gov.cn/en/.
25 Desde 2025, diversos altos funcionários do sistema de regulação financeira da China — incluindo Yi Huiman, vice-diretor do Comitê de Assuntos Econômicos do 14.º Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e ex-presidente da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China; Wang Jianjun, ex-membro do Comitê do Partido e vice-presidente da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China; e Zhou Liang, membro do Comitê do Partido e vice-ministro da Administração Nacional de Regulação Financeira — foram investigados pela Comissão Central de Inspeção Disciplinar e tiveram seus nomes divulgados publicamente por suspeita de violações graves da disciplina e da lei.
26 Veja China Financial Stability Report 2025 (Beijing: China Financial Publishing House, 2025), pbc.gov.cn.27 V. I. Lenin, Collected Works (Moscow: Progress Publishers, n.d.), vol. 29, 551.





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