15 de julho de 2026

Filmado no Saara Ocidental, The Odyssey endossa o colonialismo.

Há cinco décadas, o Marrocos ocupa ilegalmente o Saara Ocidental. As filmagens de parte de The Odyssey, de Christopher Nolan, realizadas no território com o apoio de subsídios estatais, integram um esforço de amplo alcance para normalizar o domínio colonial marroquino.

Eoghan Gilmartin

Jacobin

Grande parte da polêmica em torno do novo filme de Christopher Nolan centrou-se na identidade do elenco. No entanto, o verdadeiro problema residia na sua produção e nas filmagens realizadas no Saara Ocidental, sob ocupação ilegal marroquina. (Syncopy Inc)

Antes de sua estreia nos cinemas, o filme The Odyssey, de Christopher Nolan, viu-se envolvido em polêmicas online depois que Elon Musk criticou o elenco da obra, alegando que ele seguia uma agenda "woke" (politicamente correta). No entanto, por trás desse espetáculo artificial, há uma crítica muito mais importante a ser feita aos cineastas: a decisão de filmar parte do longa na última colônia da África, o Saara Ocidental. Ao receberem generosos subsídios do Estado marroquino, eles conferiram legitimidade ao regime de ocupação ilegal do país.

Enquanto Nolan e sua equipe filmavam na costa, nas imediações da cidade portuária de Dakhla, no verão passado, uma carta aberta condenando a iniciativa foi assinada por figuras de destaque do cinema mundial, incluindo Javier Bardem, Pedro Almodóvar e Paul Laverty. "O Sr. Nolan filmou lá sem o consentimento do povo saaraui", dizia o texto, referindo-se à nacionalidade majoritária no Saara Ocidental. "O único consentimento que ele obteve veio da força ocupante: o Marrocos."

O ator Bardem, vencedor do Oscar, foi particularmente incisivo. Ao publicar a carta em seu perfil no Instagram, ele acrescentou: "Há 50 anos, o Marrocos ocupa o Saara Ocidental, expulsando o povo saaraui de suas cidades. Dakhla é uma delas; transformada pelos ocupantes marroquinos em destino turístico e, agora, em cenário de filmagem, sempre com o objetivo de apagar a identidade saaraui da cidade."

Com uma área equivalente à da Grã-Bretanha, o Saara Ocidental é classificado pelas Nações Unidas como um "território não autônomo" e permanece na lista oficial de territórios que ainda aguardam a descolonização. Mantido sob domínio da Espanha de Francisco Franco mesmo quando outras colônias europeias conquistavam sua liberdade, o território não obteve a independência nem mesmo após a morte do ditador, em 1975. Em vez disso, os países vizinhos — Marrocos e Mauritânia — invadiram a região; pelo menos 40% da população saaraui da época fugiu para a vizinha Argélia para escapar da campanha de bombardeios da força aérea marroquina. Meio século depois, 173 mil saarauis ainda vivem em campos de refugiados na Argélia. Os saarauis nativos que vivem sob ocupação marroquina estão sujeitos ao que a Freedom House classifica como um dos sistemas políticos menos livres do planeta.

The Odyssey é a primeira grande produção de Hollywood a filmar cenas no Saara Ocidental. Isso teria sido impensável antes de 2020, quando o presidente Donald Trump rompeu com décadas de política externa dos EUA e reconheceu a soberania — estabelecida ilegalmente — do Marrocos sobre o território. A decisão fez parte de um quid pro quo em contrapartida à normalização das relações do Marrocos com Israel. Agora, as filmagens de quatro dias de Nolan e sua equipe em Dakhla ilustram a rapidez com que os estúdios de Hollywood agiram para aproveitar as oportunidades criadas pela diplomacia transacional de Trump. Esse cinema subsidiado da ocupação é mais um sintoma do colapso do que quer que tenha restado de uma ordem liberal baseada em regras.

Criando fatos consumados no terreno

Para as autoridades marroquinas, a presença da equipe de filmagem de The Odyssey representou uma vitória de propaganda. Elas deixaram claro que veem isso apenas como o início do desenvolvimento de Dakhla como base para produções cinematográficas internacionais. Isso ocorre apesar do fato de que a região mais ampla do Saara Ocidental continua sendo palco de um conflito armado em curso entre as forças militares do país e o movimento de independência saaraui, a Frente Polisário. No mês passado, três combatentes da Polisário foram mortos em um ataque de drone marroquino perto da barreira de areia de 2.700 quilômetros que separa o território controlado pelo Marrocos das áreas desérticas mantidas pela Polisário.

Se a construção da vasta barreira defensiva na década de 1980 foi uma tentativa do Marrocos de consolidar seu controle militar sobre o Saara Ocidental, a transformação de Dakhla em destino turístico e polo de energia verde nos últimos anos visa consolidar a ocupação como uma realidade econômica irreversível. Na perspectiva da liderança marroquina, a independência saaraui parecerá cada vez mais irrealista se o território puder ser desenvolvido em parceria com investidores internacionais. O país também incentiva colonos marroquinos a se mudarem para o território, oferecendo subsídios generosos e empregos.

A expressão mais clara dessa estratégia é a Iniciativa Atlântica do Marrocos, que busca proporcionar aos países sem saída para o mar na região do Sahel acesso marítimo ao Atlântico por meio de um novo complexo portuário de 1,3 bilhão de euros, atualmente em construção em Dakhla (com previsão de entrar em operação até 2028). Ao posicionar a cidade ocupada como um importante polo logístico para o noroeste da África, o projeto visa integrar ainda mais o Saara Ocidental às redes comerciais regionais.

O turismo também é fundamental para normalizar o controle marroquino, com Dakhla, em particular, sendo reposicionada como um destino internacional para kitesurf e ecoturismo. Em uma visita realizada em 2022, Ivanka Trump e Jared Kushner foram fotografados em um dos hotéis de luxo — cujo número vem crescendo — na península de Dakhla, bem como na vasta costa atlântica que, mais tarde, atrairia a equipe de filmagem de The Odyssey. As fotos de férias do casal apresentavam uma imagem de resorts de luxo e lazer, na qual a ocupação militar e a população indígena saaraui foram omitidas da vista. 

O anúncio da companhia aérea Ryanair, em 2024, sobre a abertura de novas rotas diretas ligando a Espanha a Dakhla e à capital saaraui, El Aaiún, marcou uma nova expansão desse modelo de turismo de ocupação — mesmo com a Comissão Europeia informando às companhias aéreas que as rotas envolvendo o Saara Ocidental não estariam cobertas pelos termos do acordo de aviação entre a UE e o Marrocos. Paralelamente, jornalistas internacionais, sindicalistas e defensores dos direitos humanos têm tentado romper o bloqueio midiático marroquino ao embarcar nesses voos de baixo custo nos últimos dezoito meses, acabando, porém, detidos no aeroporto ou presos ao entrarem em contato com ativistas saarauis locais. Imagens do ano passado chegaram a mostrar uma delegação de esquerda do Parlamento Europeu sendo impedida fisicamente, por forças de segurança marroquinas, de desembarcar de um voo da Ryanair.

Cinema sob ocupação

A produção subsidiada de The Odyssey faz parte desse mesmo esforço para consolidar Dakhla como um destino internacional — porém firmemente marroquino —, ao mesmo tempo em que limita o escrutínio sobre a própria ocupação. No entanto, quando as notícias sobre as filmagens em Dakhla surgiram no verão passado, cineastas, jornalistas e ativistas saarauis recorreram às redes sociais para contrastar a liberdade total concedida à produção de Hollywood de Nolan com a repressão sistemática que enfrentavam ao tentar documentar as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado marroquino, ou simplesmente ao exercer sua liberdade criativa.

“Cresci nos campos de refugiados saarauis na Argélia e hoje, como cineasta saaraui da cidade ocupada de Dakhla, não posso entrar livremente em minha terra natal para contar minhas próprias histórias”, publicou o diretor Brahim Chagaf como parte da campanha online organizada pelo Festival Internacional de Cinema do Saara Ocidental. “Essa é a grande contradição por trás dessa paisagem: enquanto alguns privilegiados, como Nolan, podem transformá-la em um filme, outros ainda aguardam o dia em que poderemos simplesmente retornar a ela”.

A mensagem da ativista Ghalia Djimi foi ainda mais contundente: “Sr. Nolan: sou uma defensora dos direitos humanos. O Marrocos me fez desaparecer por 3 anos e 7 meses em uma prisão secreta em El Aaiún, território ocupado.”

Sua experiência está longe de ser um caso isolado. Em seu relatório mais recente, de 2024, a ONG de direitos humanos CODESA registrou dezenas de abusos cometidos pelas forças de segurança marroquinas naquele ano. Entre eles, incluíam-se a repressão violenta e recorrente a protestos pacíficos, o assédio e a detenção arbitrária de ativistas, e as mortes suspeitas de três civis saarauis sob custódia. Em novembro de 2023, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária concluiu que as detenções de duas dezenas de ativistas e jornalistas saarauis — mantidos presos desde o acampamento de protesto de Gdeim Izik, em 2010 — eram ilegais. O grupo também constatou que, no caso de dezoito estudantes ativistas detidos em 2016, houve uso de tortura para obter confissões.

Enquanto The Odyssey estreia nos cinemas de todo o mundo, um dos prisioneiros de Gdeim Izik, Enaâma Asfari, cumpre atualmente a quarta semana de uma greve de fome por tempo indeterminado. Ao exigir sua libertação imediata no mês passado, a Frontline Defenders declarou estar “preocupada com relatos que descrevem negligência médica, represálias e outras formas de maus-tratos contra defensores dos direitos humanos saarauis encarcerados”.

“Quando Christopher Nolan pisar no tapete vermelho a caminho da exibição de estreia, ele também estará pisando no Direito Internacional”, afirmou enfaticamente María Carrión, diretora executiva do Festival Internacional de Cinema do Saara Ocidental, no mês passado. “Pedimos ao público que trate este filme como trataria uma obra realizada na Ucrânia ocupada com autorizações de [Vladimir] Putin, ou nos assentamentos ilegais na Palestina com a bênção de [Benjamin] Netanyahu.”

Uma série de decisões da mais alta corte da União Europeia corrobora essa posição. Na última década, o Tribunal de Justiça da União Europeia determinou repetidamente que o Saara Ocidental é um território com um status “separado e distinto” do Marrocos e que, legalmente, seus recursos não podem ser explorados sem o consentimento do povo saaraui. Tais decisões referem-se a acordos comerciais específicos entre a UE e o Marrocos — acordos que a UE tentou reativar, apesar das sucessivas decisões de seus próprios tribunais apontando que eles violavam o direito internacional. No entanto, essas decisões levantam questões mais amplas sobre as responsabilidades de empresas internacionais que operam no território ocupado, incluindo estúdios de cinema.

Diante de sua filmografia, o brilhantismo de Nolan como roteirista e diretor é inquestionável. No entanto, com The Odyssey, ele e a Universal Pictures abriram um precedente perigoso ao inaugurar uma nova forma de fazer cinema para a nossa era trumpista: o cinema de ocupação. Um país submetido a uma colonização brutal e a um sistema de apartheid de fato não é um cenário legítimo nem para o turismo internacional nem para um blockbuster de Hollywood.

Colaborador

Eoghan Gilmartin é escritor, tradutor e colaborador da Jacobin, radicado em Madri.

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