A IA não é uma tecnologia neutra cujos benefícios precisam ser redistribuídos. Ela é uma arma de luta de classes vinda de cima, projetada para baratear a mão de obra e concentrar poder. Nacionalizá-la não muda isso em nada.
Hagen Blix, Ingeborg Glimmer
Bernie Sanders quer nacionalizar a IA. No artigo "O Argumento a Favor da Nacionalização da Inteligência Artificial", Dustin Guastella defende a proposta de Sanders: os grandes laboratórios de IA deveriam ser parcialmente nacionalizados, com a transferência de 50% de suas ações para um fundo público. Em uma foto que ilustra o artigo, Bernie Sanders aparece atrás de um cartaz com a frase "A IA deve beneficiar os trabalhadores". Esse slogan, apesar de sua imprecisão, revela uma compreensão equivocada e perigosa da economia política da IA. Apresentaremos aqui argumentos contra a proposta de Sanders — e a favor da construção de um movimento socialista contra a IA.
A Inteligência Artificial é uma arma de luta de classes vinda de cima
A inteligência artificial é, antes de tudo, uma máquina de transferência de renda e poder do trabalho para o capital. Quando investidores capitalistas pagam bilhões de dólares para fazer com que computadores "saibam coisas", o objetivo é baratear o conhecimento que as pessoas possuem, economizar com salários e transformar essa economia em lucro.
No capitalismo, os trabalhadores são remunerados por seus conhecimentos e habilidades passíveis de comercialização. O conhecimento lhes confere poder de negociação — mas isso só ocorre se o capital não encontrar uma maneira mais barata de adquirir esse conhecimento. Claramente, patrões e gerentes adoram a IA porque a veem justamente como essa alternativa mais barata. Eles enxergam a IA como uma máquina capaz de transformar empregos qualificados em funções desqualificadas e atreladas a um computador.
O capital sonha com a fungibilidade: qualquer dólar pode ser substituído por outro dólar, seja ele amassado ou novo, um objeto físico ou apenas um número no livro-razão de um banco. Quem dera aqueles trabalhadores incômodos fossem como dólares: fungíveis, substituíveis, sem qualidades individuais, sem atrito! Peças consumíveis da máquina que são descartadas e substituídas assim que se desgastam ou causam problemas. E o que poderia ser mais problemático do que trabalhadores precisando dominar certos conhecimentos? (Ou até mesmo querendo receber por isso!)
Como defendemos há muito tempo — e como Katy Habr acaba de argumentar em um artigo recente na Jacobin —, a IA é uma máquina que pega bons empregos e os torna precários. É uma máquina de transformar empregos estáveis em trabalho sob demanda (gig work). De designers a engenheiros de software, o "polimento de tralha" tornou-se a ordem do dia. A IA aplica a lógica do fast fashion a todo tipo de trabalho intelectual. A produção rápida e barata reina absoluta.
O taylorismo consistia em transferir o conhecimento sobre os processos de trabalho dos trabalhadores para a gestão. Com a IA, o capital já não se contenta em centralizar o conhecimento apenas entre os seus representantes humanos.
Ao encararmos os grandes modelos de linguagem como meios de produção, nada disso deveria causar surpresa. A IA representa uma tentativa de industrializar a produção da linguagem. Ao ouvirmos falar de IA, não devemos cair nas narrativas dos seus promotores sobre explosões de produtividade e desemprego em massa. Devemos pensar no taylorismo e nas inúmeras formas pelas quais o capital centraliza o conhecimento, mensura as pessoas e fragmenta o trabalho para maximizar o seu controle e minimizar os custos. Em outras palavras: minimizar o poder de negociação e a renda dos trabalhadores.
O taylorismo e os seus muitos desdobramentos gerenciais baseiam-se na transferência do conhecimento sobre os processos de trabalho dos trabalhadores para a gestão. Com a IA, vemos que o capital já não se contenta em centralizar o conhecimento apenas entre os seus representantes humanos. Agora que essa possibilidade parece estar ao alcance, exige-se uma intensificação da sua lógica: transformar o conhecimento diretamente em capital constante, em propriedade privada. O objetivo, como já dissemos, é desvalorizar e tornar as pessoas fungíveis, reduzindo o seu poder de negociação e a sua capacidade de interromper fluxos de trabalho (seja individual ou coletivamente).
A IA é, acima de tudo, uma arma da luta de classes travada de cima para baixo. O fato de ser empunhada pelo Estado ou por corporações pouco altera essa realidade.
Corporativismo de IA
Pior ainda: não estamos sequer falando de socialização. O que Sanders propõe é a estatização (parcial). A questão em debate não é "Os trabalhadores deveriam assumir o controle?", mas sim "O governo deveria fazê-lo?". Pode ter passado despercebido aos participantes desse debate, mas o governo atual não é particularmente simpático aos interesses socialistas. O fato de Donald Trump e Bernie Sanders terem defendido a estatização de empresas de IA é apresentado por Guastella como algo positivo, como uma superação da divisão partidária. Nós, porém, acreditamos que isso representa um grave erro estratégico.
Defender a estatização sob um governo socialista seria algo completamente diferente; exigiria uma visão e um plano para transformar a IA em uma ferramenta de poder da classe trabalhadora. Dadas as características reais dessa tecnologia (algumas das quais acabamos de discutir), é discutível se tal visão é sequer viável. No entanto, em nossa opinião, defender a estatização da IA sob qualquer governo não socialista resume-se, na melhor das hipóteses, a exigir que a IA seja controlada pelo que Karl Marx chamou de "comitê para os assuntos comuns da burguesia".
O fato de o mecanismo de depressão salarial ser vendido por empresas que são (parcialmente) de propriedade do Estado — ou não — não deixa de torná-lo um mecanismo de depressão salarial. Assim, quem quer que o produza já tomou, mesmo que inconscientemente, o partido daqueles que desejam reduzir os salários. Pouco importa se esses interesses se organizam por meio do mercado, por empresas privadas ou pelo Estado, com a mediação de organizações como a Citizens United e os super PACs.
O fato de o mecanismo de depressão salarial ser vendido por empresas que são (parcialmente) de propriedade do Estado — ou não — não deixa de torná-lo um mecanismo de depressão salarial
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A proposta de Sanders criaria um fundo soberano de IA dos EUA, que deteria uma participação de 50% no capital das maiores empresas de IA do país. Sanders imagina o fundo sendo gerido por uma "comissão independente", cujos membros seriam indicados pelo presidente e confirmados pelo Senado — numa analogia aproximada com o Conselho de Governadores do Federal Reserve ou com a Suprema Corte. No caso do Federal Reserve, a lei incumbe o presidente de garantir uma "representação justa dos interesses financeiros, agrícolas, industriais e comerciais". Os trabalhadores, naturalmente, estão ausentes — trata-se, de fato, do comitê para os assuntos comuns da burguesia.
Mesmo que deixemos de lado as formas óbvias pelas quais o governo atual tentaria assumir o controle de tal instituição — tal como fez com a Suprema Corte e o Federal Reserve —, inúmeros problemas ainda persistiriam.
Tanto Sanders quanto Guastella citam a Noruega e o Alasca como modelos, visto que ambos criaram seus próprios fundos soberanos. Em ambos os casos, estamos falando, obviamente, de uma riqueza imensa derivada da extração de combustíveis fósseis. Sob uma perspectiva socialista, qual é o sentido da produção socializada? Ela deveria, no mínimo, envolver a capacidade de priorizar as necessidades sociais em detrimento da simples busca pelo lucro. O fato de os modelos da Noruega e do Alasca se basearem justamente na infraestrutura de combustíveis fósseis que impulsiona as mudanças climáticas e compromete a habitabilidade de grande parte do planeta deveria suscitar sérias dúvidas quanto à eficácia dos fundos soberanos para alcançar esses objetivos.
Sobre o argumento moral a favor da socialização
Como argumentamos, a nacionalização da IA não oferece uma solução para os problemas trabalhistas que ela suscita. A IA é uma arma da luta de classes travada de cima para baixo. Guastella tem toda a razão, é claro, ao argumentar que a IA foi literalmente construída a partir de todos nós — de livros a postagens em blogs, de dados de treinamento por reforço a conversas online; esses modelos foram treinados com dados extraídos de todos nós. Guastella argumenta que, a partir desse fato, podemos derivar uma reivindicação moral coletiva de propriedade.
Não temos objeções a esse argumento no plano moral. Infelizmente, o plano de nacionalização de Guastella — segundo o qual a IA passaria a ser parcialmente propriedade dos Estados Unidos — entra em contradição imediata com o seu próprio argumento moral. Afinal, existem inúmeros anotadores de dados em todo o mundo que, com base nos critérios dele, poderiam muito bem apresentar reivindicações morais legítimas.
Levar a sério essa reivindicação moral implicaria, naturalmente, um internacionalismo político sério. Mas há algo mais: a constatação de Guastella sobre a IA — a de que os trabalhadores cujo trabalho sustenta a tecnologia têm um direito moral à propriedade coletiva — é, na verdade, uma característica que se aplica ao capital de modo geral. Das fábricas aos centros de dados, a riqueza tangível e intangível do mundo foi criada pelo trabalho da classe trabalhadora global.
Em que os socialistas devem focar?
Nossas ressalvas, portanto, não dizem respeito à reivindicação moral de Guastella. A primeira diz respeito à sua aplicação inconsistente. A segunda é que ele confunde a reivindicação moral com uma perspectiva estratégica. Firmar um acordo de participação nos lucros com o capital não resolve o fato de que a IA é uma arma apontada para as nossas cabeças (em sentido figurado) e, talvez, para as nossas mentes (em sentido literal).
A ideia de um fundo soberano de riqueza baseia-se na premissa de continuar operando empresas de IA com fins lucrativos. Isso não altera em nada as decisões estratégicas do capital. Em vez de buscar falsos compromissos com o capital — que deixam sua lógica perfeitamente intacta —, devemos nos empenhar em identificar as brechas estratégicas que as movimentações deles nos oferecem.
A IA pode ser um fenômeno bastante revelador. Ela deixa claro que os conflitos entre gestores e trabalhadores, entre capital e trabalho, não dizem respeito apenas à remuneração, mas à própria estrutura do trabalho. A IA deve ou não ser utilizada? Há duas respostas óbvias para essa pergunta. Uma é a resposta do capitalismo: ele exige a IA para reduzir custos e implementar medidas que economizam com salários e desqualificam a mão de obra. O sistema é indiferente à degradação do trabalho e dos trabalhadores. A outra resposta é aquela em que o uso da IA está sujeito ao controle dos trabalhadores, e na qual a dignidade do trabalho e de quem trabalha é fundamental. Se os trabalhadores controlam o processo produtivo, é possível levantar questões sobre o valor social do trabalho que vão além do lucro. Hoje, o capitalismo trava uma corrida impulsionada pela IA para transformar tudo em fast fashion, tornando tudo barato, degradado e descartável. Raramente foi tão fácil defender o socialismo — devemos aproveitar essa oportunidade, em vez de embarcar no trem da IA capitalista.
Hoje, o capitalismo trava uma corrida impulsionada pela IA para tornar tudo barato, degradado e descartável. Raramente foi tão fácil defender o socialismo.
Isso é particularmente crucial justamente porque a IA está atingindo muitos dos trabalhadores mais privilegiados, levando a lógica da produção em massa a áreas que, até agora, estavam relativamente protegidas dela. Tomemos como exemplo os terapeutas. É fácil imaginar o futuro capitalista da terapia produzida em massa: não se trata daquele cenário otimista de automação total, no qual um chatbot oferece terapia competente para as massas. O futuro em que todos nós teremos dezenas de "agentes" trabalhando em nosso favor (ou qualquer que seja o discurso de venda do momento) parecerá sombrio — como um único terapeuta supervisionando várias janelas de interfaces de chat com IA. Cliente após cliente conversando com um modelo de linguagem, enquanto o profissional qualificado está ali apenas para supervisionar as conversas, monitorando-as em busca de riscos e possíveis responsabilidades jurídicas. O atendimento prestado será de qualidade duvidosa — mas, nossa, como será barato.
Profissionais como o nosso terapeuta hipotético têm, historicamente, demonstrado indiferença ou até hostilidade em relação ao socialismo. Hoje, é possível demonstrar que o controle socializado dos processos de trabalho — a produção socialista, na qual os trabalhadores podem levar em conta necessidades sociais para além do lucro — é essencial para um trabalho digno. Em meio a uma configuração de classes em transformação, surgem inúmeras oportunidades de solidariedade; precisamos arregaçar as mangas e construir um movimento socialista capaz de oferecer, de forma plausível, uma alternativa à degradação capitalista do trabalho, da vida e do planeta.
As empresas de IA estão investindo quantias enormes de dinheiro não apenas em infraestrutura e desenvolvimento, mas também em marketing (só a OpenAI gastou cerca de 6 bilhões de dólares em vendas e marketing em 2025). Enquanto elas disseminam a IA e seus anúncios por toda parte (inclusive — lamentamos dizer — chegando aos ouvidos de Bernie Sanders, que parece confundir o discurso de vendas com a realidade), surge também um movimento orgânico de resistência e contestação.
Há movimentos que buscam banir a IA das escolas. O ludismo voltou à moda. Feministas lutam contra a automação da violência sexual e do assédio (especialmente, embora não exclusivamente, por meio do Grok, de Elon Musk). Sindicatos que representam desde artistas até os próprios pesquisadores de IA estão engajados em disputas sobre os usos dessa tecnologia. A oposição aos centros de dados está surgindo em toda parte.
Raramente tantos movimentos distintos se uniram de forma tão natural em torno de uma única questão. A IA é uma questão trabalhista. A IA é uma questão feminista. A IA é uma questão ambiental. A IA é uma questão climática. Desde o Grok autodenominando-se "MechaHitler" e disseminando teorias da conspiração de supremacia branca até seus centros de dados poluindo bairros de população negra, a IA é uma questão de antirracismo e de luta contra o antissemitismo. Um movimento socialista que se preze deve lutar em todas essas frentes. Cabe a nós, socialistas, conectar essas lutas e transformar todas as formas espontâneas de resistência em uma coalizão capaz de enfrentar as Big Techs e o capitalismo.
Colaboradores
Hagen Blix é um cientista cognitivo radicado em Nova York, cuja pesquisa abrange linguagem, inteligência artificial e economia política. Ele é coautor do livro Why We Fear AI.
Ingeborg Glimmer é uma profissional de tecnologia e pesquisadora do setor na Alemanha, atuando na área de aprendizado de máquina. Ela é coautora de Why We Fear AI.

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