Na França, assim como nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, as esperanças do establishment de que os tribunais pudessem barrar a ascensão da extrema-direita mais uma vez se mostraram vãs. Em março do ano passado, o Tribunal Correcional de Paris ganhou as manchetes ao declarar Marine Le Pen inelegível para disputar a eleição presidencial francesa do ano seguinte, após sua condenação por uso indevido de verbas do Parlamento Europeu. No início deste mês, em uma decisão muito aguardada, um tribunal de apelação manteve a condenação, mas reduziu a pena para três anos de prisão — em vez de quatro —, sendo dois com suspensão condicional e um sob monitoramento eletrônico, além de uma proibição de exercer cargos públicos por quinze meses, período já considerado cumprido. Em outras palavras, ela poderá concorrer em 2027. Le Pen prometeu recorrer à Corte de Cassação, a mais alta instância judicial da França, o que suspende a execução da sentença. Especialistas acreditam que esse tribunal pode levar até abril de 2027 para decidir, poucas semanas antes do primeiro turno da votação. Se o veredito for desfavorável à líder do RN, ela poderá ter de usar uma tornozeleira eletrônica nos últimos dias da campanha; caso contrário, o processo poderá ser remetido a outro tribunal de apelação para um novo julgamento, um trâmite que provavelmente se arrastaria até o ano seguinte. De qualquer forma, ainda há reviravoltas à vista.
Nenhuma decisão legal jamais resolveria essas contradições. Quem irá? No curto prazo, ninguém. Não é que a linha do RN seja ambígua. A ambigüidade é a linha. O sucesso de Le Pen sempre se baseou em fraudes e ofuscações táticas. Seu conjunto com Bardella é um deles. A dívida pública é outra. O programa do RN permanece totalmente sem custos. Além de reduzir a prestação de cuidados de saúde aos migrantes, identifica poucas novas fontes de receitas, ao mesmo tempo que oferece reduções fiscais a quase todos – herdeiros, jovens assalariados, motoristas, pequenas empresas – juntamente com subsídios para fundos de investimento e apoio a empresas nacionais de tecnologia e defesa. Dada a situação fiscal da França, isto equivale a decisões difíceis adiadas e a traições por vir.
Pesquisas de opinião sugerem que os eleitores não estão excessivamente preocupados com a condenação de Le Pen, que dizia respeito ao desvio de verbas destinadas a assistentes parlamentares da UE para financiar atividades internas do partido, e não ao enriquecimento pessoal. Ao mesmo tempo, o fato de acusações semelhantes terem sido feitas em todo o espectro político francês — inclusive contra a coalizão governista de Macron e o La France Insoumise — enfraquece a alegação de Le Pen de que ela foi alvo de perseguição seletiva. O Tribunal de Apelação, por sua vez, explicou que ponderou a necessidade de punir o desvio de recursos públicos em relação à "liberdade de escolha dos eleitores, um pré-requisito para o exercício do sufrágio democrático". Em outras palavras: Le Pen é culpada, mas seria melhor se ela pudesse concorrer às eleições.
É possível que a decisão tenha sido tomada com base em critérios estritamente jurídicos. No entanto, ela também pode refletir uma tendência crescente das instituições francesas de demonstrar uma boa vontade preventiva em relação à extrema-direita, a fim de evitar problemas futuros. Isso já ficou evidente em junho de 2022, quando votos da maioria parlamentar de Macron e do centro-direita ajudaram a eleger dois deputados do RN como vice-presidentes da Assembleia Nacional. A France Télévisions — que o RN pretende privatizar — recrutou recentemente alguns comentaristas do ecossistema da CNews, canal de extrema-direita, enquanto a Arcom, órgão regulador da mídia que o RN quer reestruturar, determinou que a Radio France aumentasse o tempo de antena concedido aos representantes do partido. A lista continua.
Embora os juízes tenham decidido não tornar Le Pen inelegível, sua saga judicial revelou possíveis divisões em seu próprio campo político. Nos dias seguintes à decisão de 2025, ela foi forçada a responder à pergunta sobre o "e se". E se ela estivesse atrás das grades ou, por algum motivo, impedida de concorrer em 2027? Le Pen respondeu que Jordan Bardella, seu braço direito e presidente do RN, assumiria o seu lugar. À primeira vista, essa proposta — que remete à substituição entre Putin e Medvedev — não passava de uma encenação óbvia, com pouca relevância para a dinâmica política real. Dois anos atrás, Bardella era um eurodeputado de 29 anos sem grande projeção além do apoio de Le Pen. Filho de um pequeno empresário e de uma auxiliar de creche, ele ganhou notoriedade inicialmente como "MrJordan9320", um influenciador adolescente do YouTube conhecido por publicar vídeos jogando Call of Duty. Após abandonar a universidade — tendo sido reprovado duas vezes no segundo ano do curso de Geografia —, ele obteve maior sucesso ao ingressar no círculo íntimo do RN por meio de seus relacionamentos amorosos: primeiro como namorado de Kerridwen Chatillon — filha do mago das finanças Frédéric Châtillon e de Marie d’Herbais, assistente pessoal de Jean-Marie Le Pen — e, posteriormente, da sobrinha de Marine Le Pen. Dada a estrutura de clã do RN, isso lhe abriu caminho para a cúpula do partido.
Tal como Julien Odoul, o antigo modelo de roupa interior masculina que se tornou porta-voz do RN, Bardella personificava um tipo específico de funcionário do partido: jovens leais e telegénicos, totalmente dependentes de Le Pen e razoavelmente capazes de repetir os seus pontos de vista. Contudo, sendo a vida política o que é, não demorou muito para que Bardella começasse a sugerir diferenças com la patronne. A partir do verão de 2024, identificou-se cada vez mais com uma agenda pró-negócios. No que diz respeito às pensões, questionou a oposição de Le Pen à lei de Macron que aumenta a idade de reforma e disse que estava aberto a adicionar uma componente financiada ao sistema existente apoiado pelo Estado; ele também expressou ceticismo sobre a tributação dos superlucros das empresas de combustíveis fósseis, uma medida anteriormente apoiada pelo RN. Para além destas divergências, foi Bardella quem foi enviado para conquistar as organizações patronais com promessas de contenção fiscal e regulamentação mais leve. Ele também começou a se movimentar em círculos mais restritos. Nesta primavera, os tablóides anunciaram seu namoro com Maria Carolina de Bourbon des Deux-Siciles, uma herdeira multimilionária e descendente de Luís XIV. Enquanto a França se recuperava de um caso de homicídio de uma criança no mês passado, ele compareceu ao Grande Prémio do Mónaco, onde os ultra-ricos franceses ostentavam a sua riqueza.
Várias linhas de fractura dividiram historicamente a extrema-direita francesa: apoio à República e simpatias monárquicas ou ditatoriais; europeísmo “civilizacional” e hostilidade à UE; Orientações atlantistas e a afirmação da soberania nacional. A política económica não é exceção. O RN tem alternado entre as panaceias reaganistas de Le Pen père – esmolas corporativas, desregulamentação, ataques ao Estado social – e o curso mais estatista iniciado na década de 2010 pelo antigo consigliere da sua filha, Florian Philippot.
O purgatório legal de Le Pen reavivou sonhos de uma solução há muito esperada para estas questões – de uma fracção da extrema direita aproveitar a oportunidade para eliminar rivais e clarificar de forma decisiva a linha do partido. Não seria o primeiro expurgo desse tipo. A história do RN é repleta de expulsões e deserções, apesar da persistência da família Le Pen à sua frente. Em 1998, Jean-Marie Le Pen expulsou Bruno Mégret, o poderoso segundo no comando do partido, que defendia uma apresentação pública mais suave na procura de alianças com a direita dominante; ele saiu com a maioria dos quadros do partido e formou um grupo rival. Em 2015, foi a vez de Le Pen, mais velha, ser excluída pela filha na sua tentativa de limpar o RN dos seus elementos mais extravagantes. Dois anos mais tarde, ela expulsou muitos dos seus antigos partidários leais e afastou-se do populismo económico de Philippot, precipitando por sua vez a sua saída. O desafio de Éric Zemmour a Le Pen na corrida presidencial de 2022 ecoou estas disputas – ele acusou o líder do RN de cripto-socialismo e ganhou o apoio da sobrinha amiga dos negócios de Le Pen, Marion Maréchal, e do antigo vice-presidente do partido, Nicolas Bay.
Historianos da direita francesa tradicionalmente distinguem três correntes — orleanista, bonapartista e legitimista — que vão desde o centro moderado até a reação intransigente. O colapso do regime de Vichy, seguido pelos desdobramentos da Guerra da Argélia, reduziu esse espectro a uma oposição binária que, na prática, limitou a extrema-direita a um conjunto de micropartidos isolados e sem acesso ao poder; de De Gaulle a Chirac e Sarkozy, figuras da direita "republicana" recorriam estrategicamente a eles quando conveniente, mas insistiam na fronteira que os separava da política respeitável quando não o era. Enquanto isso, a extrema-direita há muito planeja formar uma union des droites — uma coalizão com a direita tradicional que poderia levá-la ao poder, embora com o risco de ser absorvida por ela.
As condições para concretizar tal união vêm sendo gestadas há algum tempo. Em 2012, Le Pen lançou o Rassemblement bleu Marine, um "movimento" de contornos vagos que atraiu novas figuras para disputar as eleições legislativas daquele ano como um bloco conjunto, sem que precisassem ingressar formalmente no RN. O pequeno partido soberanista de Nicolas Dupont-Aignan, Debout la France, apoiou Le Pen nos dois últimos segundos turnos das eleições presidenciais, mantendo-se, contudo, organizacionalmente independente. As eleições legislativas antecipadas de 2024 marcaram uma mudança mais drástica. Éric Ciotti, então líder do partido de centro-direita Les Républicains (LR) e de olho na prefeitura de Nice — cidade situada no reduto da extrema-direita no sudeste do país —, desafiou o comitê político de seu partido ao propor uma aliança com o RN. Após fechar brevemente a sede do LR em Paris e tomar posse das chaves, ele rompeu com a legenda para fundar um micropartido com o nome característico de Union des Droites pour la République (União das Direitas pela República).
Existem razões históricas para a dificuldade em concretizar essa estratégia de união. Entre os fundadores da Front National — precursora do RN — estavam ex-voluntários franceses da Waffen-SS (alguns dos quais haviam sido condenados à morte ou à prisão após a Libertação) e veteranos da OAS, o grupo terrorista pró-Argélia Francesa que tentou assassinar De Gaulle repetidas vezes. No entanto, há também obstáculos mais práticos à unidade, enraizados não apenas nas divisões entre as facções de direita, mas também na heterogeneidade do eleitorado reunido no próprio RN. O que os eleitores de baixa renda de Hénin-Beaumont — cidade governada pelo RN, situada no norte desindustrializado — têm em comum com os de Menton, também governada pelo RN, uma cidade rica não muito distante de Mônaco? Como conciliar os interesses da base eleitoral rural do partido — incluindo o sindicato agrícola a ele vinculado, a Coordination Rurale, que defende os pequenos agricultores familiares e denuncia a financeirização da agricultura — com os de seus financiadores bilionários, como o magnata da gestão de ativos Édouard Carmignac ou Pierre-Édouard Stérin, o investidor de capital de risco católico ultraconservador?
As forças sociais que compõem o bloco de extrema-direita continuam, no entanto, a insistir em suas demandas. Qualquer eventual esclarecimento provavelmente virá menos de um debate ideológico do que da vitória de uma dessas forças sobre as outras. É revelador que o eleitorado de classe trabalhadora do RN no norte do país esteja sendo cada vez mais eclipsado, dentro do bloco, pelos grandes interesses empresariais. Até pouco tempo atrás, o patronato geralmente mantinha a extrema-direita a certa distância, oferecendo apoio apenas indireto — financiando um veículo de imprensa aqui, um empreendimento de ensino superior ali —, mas raramente financiando o partido em si. Contudo, à medida que setores do capital francês perdem a confiança na capacidade do macronismo de defender seus interesses, alguns passaram a se envolver mais diretamente com a política de extrema-direita. Isso pode ocorrer de forma abertamente transacional, como no caso do envolvimento de Stérin na compra de uma propriedade da família Le Pen em Rueil-Malmaison por um preço que, segundo relatos, estava muito acima do valor de mercado; mas também assume formas mais sinuosas, incluindo pressões externas sobre o RN.
Na última década, o magnata da mídia e da energia Vincent Bolloré acumulou um império de comunicação e publicações capaz de moldar o debate público francês, abrangendo desde livros até televisão e rádio. Aproximadamente a cada ano, ele promove uma nova figura de extrema-direita capaz de competir com o RN, combinando o tradicionalismo católico etnonacionalista com a ortodoxia neoliberal. Ele foi a força motriz por trás da campanha presidencial de Zemmour — anteriormente contratado de seu canal de TV, a CNews — e, desde então, tem apoiado Louis Sarkozy, filho de Nicolas Sarkozy e admirador de Trump; o magnata de parques temáticos e tradicionalista católico Philippe de Villiers; e Sarah Knafo, namorada e estrategista política de Zemmour, além de eurodeputada pelo partido dele, o Reconquête — todos os quais se beneficiaram de amplo espaço na mídia. Mas Bolloré não se limitou a fomentar a competição na extrema-direita; ele também facilitou alianças. Em junho de 2024, enquanto Ciotti negociava seu pacto com Le Pen e Bardella, Bolloré recebeu o líder do LR nos escritórios de sua holding familiar, onde ambos planejaram o anúncio do acordo. Os veículos de mídia de Bolloré então passaram a apoiar a iniciativa, o que culminou na destituição tragicômica de Ciotti do partido que ele presidia.
Muitos esperavam que a decisão judicial da semana passada esclarecesse a linha política do RN. Não foi o que aconteceu. Em vez de aguardar um deus ex machina judicial, deveríamos prestar mais atenção às tensões no interior do bloco de extrema-direita — entre seu eleitorado da classe trabalhadora e da pequena burguesia e seus patronos do setor empresarial, cada vez mais assertivos. É aí que a clareza surgirá, embora provavelmente apenas após o próximo ciclo eleitoral. Até lá, a ambiguidade permanece mais como um trunfo do que como um passivo.

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