David Broder
David Broder is an expert on European politics and the author of “Mussolini’s Grandchildren.” He wrote from Berlin.
The New York Times
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| Debora Szpilman |
“Europeus, avante!”
Esse foi o grito de guerra de Kaja Kallas, chefe de política externa da União Europeia, na Conferência de Segurança de Munique deste ano. “Estamos chegando lá: tirando a poeira de nossas capas, calçando nossas botas e acelerando nossos motores”, disse ela à plateia. Ao retratar a União Europeia como um grupo de super-heróis, Kallas citou uma frase frequentemente atribuída erroneamente aos filmes do “Homem de Ferro”: “Heróis são feitos pelos caminhos que escolhem, não pelos poderes que lhes foram concedidos”. Mais gastos militares e um esforço pela soberania tecnológica, afirmou Kallas, fortaleceriam a determinação da Europa em um mundo cada vez mais hostil.
Suas palavras ecoaram as declarações, já habituais, sobre o “momento de independência” da União Europeia. Incomodados com a postura de confronto do presidente Trump, os líderes do continente buscam caminhar com as próprias pernas. Para o chanceler alemão Friedrich Merz, a Europa “precisa se tornar muito mais independente dos Estados Unidos em termos de política de segurança”. O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a redução da dependência (“derisking”) da Europa em relação a todas as grandes potências, visando maior autonomia. Líderes europeus agora falam abertamente em traçar seu próprio rumo, defendendo o aumento da produção europeia de semicondutores, fontes de energia locais e até mesmo uma capacidade conjunta de dissuasão nuclear. Na cúpula da OTAN desta semana em Ancara, na Turquia, espera-se ouvir muito mais sobre a necessidade urgente de autossuficiência europeia.
No entanto, apesar de toda a discussão sobre a União Europeia se proteger de ameaças externas, os maiores perigos residem em seu interior. Há uma década, o referendo do Brexit no Reino Unido gerou temores de que o bloco se fragmentasse ainda mais. Isso não se concretizou. Hoje, porém, o bloco enfrenta profundas divisões internas. Tanto na Alemanha quanto na França — os maiores e historicamente mais importantes Estados da União —, partidos de extrema-direita estão mais próximos do poder do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. O problema não para por aí. Em todo o continente — seja na Holanda ou na Dinamarca, na República Tcheca ou na Bulgária —, partidos que por muito tempo estiveram no centro da política europeia perderam eleitorados antes fiéis, à medida que eleitores frustrados se voltam para alternativas heterogêneas. A norma é a turbulência, não a tranquilidade.
O resultado é um paradoxo. Em nível continental, a Europa se une, com líderes exaltando a crescente resiliência do bloco. No entanto, em nível dos Estados-membros, a Europa se fragmenta à medida que a política interna se torna cada vez mais volátil. Isso ameaça mergulhar o continente no caos, prejudicando a busca da União Europeia por independência e expondo-a às investidas da extrema-direita.
Para o historiador econômico Adam Tooze, vivemos uma era de "policrise" — um acúmulo de desastres cujo impacto conjunto é pior do que a soma de suas partes. Na Europa, os efeitos persistentes da crise econômica de 2008, somados à pandemia e aos conflitos armados crônicos da atualidade, alimentam a sensação generalizada de que as coisas estão saindo dos trilhos. Os preços sobem, os salários estagnam e serviços públicos sobrecarregados precisam lidar com o envelhecimento da população e o aumento das temperaturas. Nesse cenário sombrio, a principal questão política é se os governos conseguem ir além de apenas "apagar incêndios" para transmitir segurança aos cidadãos.
A resposta da União Europeia à pandemia sugeriu que isso é possível. Após a crise financeira, os líderes europeus haviam imposto um regime rigoroso de cortes orçamentários, a um custo social e econômico elevado. Com a disseminação dos lockdowns em 2020, ficou claro que os líderes europeus não poderiam simplesmente exigir mais sacrifícios e austeridade. Em vez disso, o bloco rompeu o tabu do endividamento coletivo e destinou mais de 800 bilhões de euros — entre subsídios e empréstimos — ao programa NextGenerationEU.
Esses gastos visavam não apenas sustentar a renda, mas também fortalecer a resiliência. A maior parte dos investimentos foi direcionada à reindustrialização verde ou à digitalização. Tratava-se de apoio estatal a empresas privadas, e não de um plano de investimento público propriamente dito, mas a iniciativa marcou um rompimento com os dogmas de austeridade da década anterior. Essa mudança impactou, sobretudo, a margem de manobra fiscal dos Estados, uma vez que as regras de déficit — frequentemente aplicadas de forma seletiva e punitiva durante a crise da dívida — foram flexibilizadas.
Suas palavras ecoaram as declarações, já habituais, sobre o “momento de independência” da União Europeia. Incomodados com a postura de confronto do presidente Trump, os líderes do continente buscam caminhar com as próprias pernas. Para o chanceler alemão Friedrich Merz, a Europa “precisa se tornar muito mais independente dos Estados Unidos em termos de política de segurança”. O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a redução da dependência (“derisking”) da Europa em relação a todas as grandes potências, visando maior autonomia. Líderes europeus agora falam abertamente em traçar seu próprio rumo, defendendo o aumento da produção europeia de semicondutores, fontes de energia locais e até mesmo uma capacidade conjunta de dissuasão nuclear. Na cúpula da OTAN desta semana em Ancara, na Turquia, espera-se ouvir muito mais sobre a necessidade urgente de autossuficiência europeia.
No entanto, apesar de toda a discussão sobre a União Europeia se proteger de ameaças externas, os maiores perigos residem em seu interior. Há uma década, o referendo do Brexit no Reino Unido gerou temores de que o bloco se fragmentasse ainda mais. Isso não se concretizou. Hoje, porém, o bloco enfrenta profundas divisões internas. Tanto na Alemanha quanto na França — os maiores e historicamente mais importantes Estados da União —, partidos de extrema-direita estão mais próximos do poder do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. O problema não para por aí. Em todo o continente — seja na Holanda ou na Dinamarca, na República Tcheca ou na Bulgária —, partidos que por muito tempo estiveram no centro da política europeia perderam eleitorados antes fiéis, à medida que eleitores frustrados se voltam para alternativas heterogêneas. A norma é a turbulência, não a tranquilidade.
O resultado é um paradoxo. Em nível continental, a Europa se une, com líderes exaltando a crescente resiliência do bloco. No entanto, em nível dos Estados-membros, a Europa se fragmenta à medida que a política interna se torna cada vez mais volátil. Isso ameaça mergulhar o continente no caos, prejudicando a busca da União Europeia por independência e expondo-a às investidas da extrema-direita.
Para o historiador econômico Adam Tooze, vivemos uma era de "policrise" — um acúmulo de desastres cujo impacto conjunto é pior do que a soma de suas partes. Na Europa, os efeitos persistentes da crise econômica de 2008, somados à pandemia e aos conflitos armados crônicos da atualidade, alimentam a sensação generalizada de que as coisas estão saindo dos trilhos. Os preços sobem, os salários estagnam e serviços públicos sobrecarregados precisam lidar com o envelhecimento da população e o aumento das temperaturas. Nesse cenário sombrio, a principal questão política é se os governos conseguem ir além de apenas "apagar incêndios" para transmitir segurança aos cidadãos.
A resposta da União Europeia à pandemia sugeriu que isso é possível. Após a crise financeira, os líderes europeus haviam imposto um regime rigoroso de cortes orçamentários, a um custo social e econômico elevado. Com a disseminação dos lockdowns em 2020, ficou claro que os líderes europeus não poderiam simplesmente exigir mais sacrifícios e austeridade. Em vez disso, o bloco rompeu o tabu do endividamento coletivo e destinou mais de 800 bilhões de euros — entre subsídios e empréstimos — ao programa NextGenerationEU.
Esses gastos visavam não apenas sustentar a renda, mas também fortalecer a resiliência. A maior parte dos investimentos foi direcionada à reindustrialização verde ou à digitalização. Tratava-se de apoio estatal a empresas privadas, e não de um plano de investimento público propriamente dito, mas a iniciativa marcou um rompimento com os dogmas de austeridade da década anterior. Essa mudança impactou, sobretudo, a margem de manobra fiscal dos Estados, uma vez que as regras de déficit — frequentemente aplicadas de forma seletiva e punitiva durante a crise da dívida — foram flexibilizadas.
A Espanha e a Itália, os dois países que receberam mais recursos, demonstram o que foi possível alcançar. A coalizão de esquerda liderada por Pedro Sánchez, em Madri, e o governo de direita de Giorgia Meloni, em Roma, representam orientações políticas opostas. No entanto, compartilham um denominador comum: ambos utilizaram os fundos da UE destinados ao pós-pandemia para gerar crescimento, conter a dívida pública e evitar crises políticas. Embora hoje esses líderes dividam opiniões, durante anos conseguiram manter índices de aprovação mais elevados do que a maioria de seus homólogos na UE. A Espanha obteve resultados particularmente bons na redução das contas de eletricidade e na expansão do uso de energias renováveis; a Itália ampliou sua infraestrutura ferroviária de alta velocidade.
Contudo, o alcance desses recursos teve limites. Muitas vezes, o dinheiro serviu apenas para cobrir lacunas orçamentárias, e diversos projetos de infraestrutura iniciados enfrentam atrasos ou estouros de orçamento. Em 2019, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal) como o pilar essencial para a prosperidade de longo prazo da União. No entanto, confrontado tanto pela resistência persistente de partidos céticos em relação às mudanças climáticas quanto pela pressão para ampliar a produção militar, o bloco acabou por flexibilizar suas metas, incluindo a eliminação gradual planejada dos carros movidos a gasolina. Essa postura alinhou-se à lógica dos fundos pós-pandemia, que resultaram em um progresso intermitente na diversificação das fontes de energia.
A invasão da Ucrânia pela Rússia representou um ponto de virada crucial — e mais uma oportunidade perdida. Em resposta, a União Europeia cortou laços econômicos com Moscou e buscou substituir totalmente o gás russo. Inicialmente, os líderes europeus prometeram que essa medida aceleraria a transição ecológica e levaria a uma maior independência energética. Na prática, porém, recorreram a soluções de curto prazo, como o aumento expressivo do fornecimento de gás pelos Estados Unidos; alguns países chegaram até a defender a manutenção da parceria com a Rússia. A Alemanha desativou seus reatores nucleares, enquanto outros países, como a França, seguiram o caminho oposto.
A guerra teve outro efeito negativo. Enquanto os países da UE hesitavam quanto à ajuda à Ucrânia, o rearmamento ganhou força própria. Em todo o continente, o aumento dos gastos militares tornou-se um consenso. Essa mudança é particularmente visível na Alemanha, onde, após as eleições de 2025, os principais partidos suspenderam os limites de gastos públicos — mas apenas para fins militares e de infraestrutura correlata. Em nível europeu, a defesa começou a ganhar mais destaque do que o Pacto Ecológico como principal objetivo para a captação conjunta de recursos. Programas como o ReArmEurope e o SAFE são agora o foco.
Seria isso uma forma de keynesianismo militar? Afinal, os € 150 bilhões em empréstimos do SAFE destinam-se a estimular a reindustrialização e criar empregos, em vez de apenas financiar a compra de armamentos. No entanto, os primeiros indícios pouco sustentam essas expectativas. Além disso, alguns países têm demonstrado relutância em aderir ao programa. A Polônia, maior beneficiária do SAFE, vive um impasse sobre se deve concentrar seu orçamento militar na produção europeia ou em seus atuais fornecedores dos EUA e da Coreia do Sul. Em Roma, a premiê Meloni começou a recuar em relação aos € 15 bilhões em empréstimos do SAFE previstos, alegando que a necessidade mais urgente da Itália é de ajuda para arcar com os custos de energia.
As consequências são claras. Após não conseguirem transformar os fundos do pós-pandemia em independência energética de longo prazo e em uma renovação econômica sustentável, os líderes europeus apresentaram a remilitarização como a causa unificadora e a estratégia fundamental do bloco. No entanto, ao contrário de um plano robusto de reindustrialização verde, essa medida não gera empregos em massa nem mitiga os choques de preços que tanto preocupam os cidadãos europeus. Além disso, os eleitores frustrados não parecem recompensar a postura de seus líderes como defensores da segurança. Pelo contrário: um número crescente de pessoas mostra-se cínico e alienado — e cada vez mais atraído pela extrema-direita.
Por trás de tudo isso está Donald Trump. Seus ataques à União Europeia — que sua administração menosprezou, alegando que o bloco estava à beira de um "apagamento civilizacional" — e seu apoio a partidos nativistas foram um grande catalisador para a busca pela independência europeia. Contudo, a autonomia europeia muitas vezes parece apenas um apelo para que os Estados-membros cumpram melhor a sua parte na aliança transatlântica. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte — ex-primeiro-ministro holandês —, parece convencido de que o principal dever dos europeus é manter o interesse dos EUA na aliança, mesmo que isso signifique apenas comprar armas americanas.
De forma curiosa, a hostilidade de Trump empurrou os líderes europeus para uma dependência ainda mais subserviente. Basta considerar o acordo comercial que Ursula von der Leyen firmou em julho passado, ostensivamente para garantir o compromisso contínuo de Trump com a defesa europeia. Mesmo enquanto alardeavam sua determinação de seguir seu próprio caminho, os líderes europeus aceitaram um acordo desigual, no qual se comprometeram a comprar mais gás americano, absorver tarifas e eliminar taxas sobre importações dos EUA. Após Trump ameaçar comprar a Groenlândia, o acordo foi suspenso. No entanto, em maio, o Parlamento Europeu votou a favor de dar continuidade a ele.
O episódio demonstra que, independentemente da antipatia em relação a Trump na Europa, são os Estados Unidos que dão as cartas. Afinal, os membros europeus da OTAN que se comprometeram a destinar 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para gastos com defesa o fizeram a pedido do próprio Trump. E gastos não são tudo. Para líderes de países como a Polônia, Washington continua sendo um aliado central, especialmente diante da política imprevisível de potências europeias como França e Alemanha. O continente também permanece fortemente dependente de empresas de tecnologia, energia e sistemas de pagamento americanos. Sob essa ótica, a autonomia europeia equivale a uma renegociação do papel da Europa como parceira secundária dos Estados Unidos. Adaptando a famosa frase de Lord Ismay, que chefiou a OTAN na década de 1950, trata-se de manter os russos fora e os americanos dentro — sem se preocupar excessivamente com os rumos da Alemanha. Essa abordagem norteia fortemente a diplomacia europeia: o objetivo, acima de tudo, é não indispor-se com o Sr. Trump, mesmo que isso signifique silenciar críticas à sua postura agressiva no Caribe e no Oriente Médio.
Existe, no entanto, outra maneira. Essa versão de autossuficiência transformaria a Europa em um pilar do sistema global, servindo de exemplo para o mundo em questões de direito internacional e na transição verde. Tais iniciativas dificilmente seriam desinteressadas. Embora a Europa não consiga reduzir drasticamente as emissões globais sozinha, livrar-se da dependência de combustíveis fósseis a ajudaria a evitar choques futuros decorrentes de crises como o fechamento do Estreito de Ormuz. Além disso, as recentes sanções do governo Trump contra membros do Tribunal Penal Internacional demonstram que defender o Estado de Direito é, antes de tudo, necessário para proteger os cidadãos europeus de hostilidades.
Para caminhar com as próprias pernas, a Europa precisaria ampliar suas alianças. Nesse aspecto, houve algum progresso: a União Europeia fechou recentemente acordos comerciais com países da América Latina e com a Índia. Contudo, sua abordagem em relação à China continua sendo um problema persistente. Em maio, a Sra. Kallas falou sobre a necessidade de "morfina" ou "quimioterapia" para tratar a "doença" da dependência excessiva da China. Alguns líderes, notadamente o Sr. Sánchez, da Espanha, têm defendido uma postura mais pragmática, focada na transferência de tecnologia e em condicionantes para investimentos estrangeiros. Aliada a investimentos em áreas onde a Europa já é forte — como a produção de turbinas eólicas, tecnologias de hidrogênio limpo e bioenergia —, essa estratégia poderia ser a receita para uma renovação econômica.
Não se trata apenas de questões geopolíticas. Um caminho real para a independência contribuiria muito para unir o continente, tanto em nível nacional quanto federal, e para recompor seu contrato social desgastado. Para Bruxelas, isso significaria energia mais barata, melhores perspectivas econômicas e maior estabilidade. Não existe solução mágica: mesmo que a Europa conseguisse reduzir as contas de energia, criar empregos ou controlar a inflação, isso não faria desaparecer, da noite para o dia, os conflitos em torno de imigração e identidade. Ainda assim, poderia aumentar a confiança dos eleitores no processo democrático e ajudar a atenuar parte de sua indignação.
Uma cúpula da OTAN não é o cenário ideal para concretizar as aspirações de independência europeia. Afinal, a organização é uma aliança que inclui os Estados Unidos. Há questões complexas a serem respondidas sobre a produção militar continental, a cooperação em defesa e até mesmo a criação de um exército europeu. Ainda assim, em benefício de seus próprios cidadãos, a União Europeia precisa fazer mais do que apenas atender às expectativas de Washington. Finalmente livre da sombra dos Estados Unidos, a Europa pode proteger os fundamentos de sua economia e começar a reconquistar eleitores tentados pelo canto da sereia do nacionalismo.
Os ministros europeus não usam capas, como sugeriu a Sra. Kallas. No entanto, ela tinha razão em um aspecto. A Europa pode não ser dotada de poderes avassaladores, mas pode escolher um caminho melhor. Não é tarde demais para fazer exatamente isso.
David Broder (@broderly) é o autor, mais recentemente, de “Mussolini’s Grandchildren: Fascism in Contemporary Italy”.

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