5 de novembro de 2025

Tanta guerra pra nada

Uma megaoperação policial no Rio expõe a falência da guerra às drogas: muito sangue derramado, apoio popular imediato e nenhum abalo duradouro no poder das facções, enquanto segurança, política e eleições se entrelaçam.

Forrest Hylton



Em 30 de outubro, dias após o maior massacre policial da história de uma cidade tristemente célebre por eles, que deixou pelo menos 121 mortos, o presidente Lula sancionou uma lei para combater o crime organizado. Ele expressou solidariedade, primeiramente, aos quatro policiais mortos, e depois aos moradores inocentes e crianças assassinados na “megaoperação” no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Um fotógrafo encontrou a cabeça de um jovem soldado do Comando Vermelho, Yago Ravel Rodrigues Rosário, de 19 anos, em uma árvore. Ele não tinha antecedentes criminais, mas sabemos que era CV por suas postagens nas redes sociais. A polícia matou mais pessoas do que o número de armas apreendidas.

A operação, que envolveu 2.500 policiais, foi estadual, não federal, sob o comando do governador Cláudio Castro e seu secretário de Segurança Pública, Victor Santos, que anunciou em 2024 que algo grande estava sendo planejado. Ele prometeu colocar o CV em fuga no Rio e, por ora, conseguiu. Atacado por todos os lados, um número indeterminado de membros de gangues foi encurralado na encosta arborizada da Serra da Misericórdia, onde uma fileira de atiradores de uma unidade de elite da polícia os dizimou.

Em 2011, após uma operação semelhante no ano anterior, a banda de reggae roots Ponto de Equilíbrio cantava: “Vejo na televisão/as tropas invadindo o Complexo do Alemão/Leio no jornal/as últimas notícias de guerras mortais... tanta guerra por nada/por nada”. (A rima é em português.) O CV, alvo da operação em 2010, sob o governo do presidente Lula e do governador Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho, permanece no controle do Complexo do Alemão desde então, apesar das operações policiais em 2018 e 2022.

O CV é maior, mais rico, melhor armado e mais disseminado por todo o Brasil do que era há quinze anos. Membros de gangues de todo o país foram pegos na operação policial, que tentaram repelir usando drones carregados com explosivos, entre outras armas. Assim como a polícia, o CV utilizava equipamento tático completo, fuzis automáticos e pistolas, deslocando-se em formação militar. Em Salvador (onde moro), em aliança com grupos locais, o CV controla o litoral e as praias desde o farol até o aeroporto, e muito mais. Em Manaus, membros do CV foram às ruas e bloquearam uma importante via arterial em resposta às operações no Rio.

O inimigo público número um, Edgard Alves de Andrade, vulgo "Doca", considerado o responsável pelas operações do CV na Penha, continua vivo para lutar outro dia, assim como a organização como um todo. Argentina e Paraguai reforçaram suas fronteiras contra fugitivos, embora isso provavelmente não ajude, já que o CV já tem presença em ambos os países, além da Bolívia. Resta saber quem comandará o Complexo da Penha e o Complexo do Alemão, visto que o governo tem presença ou legitimidade mínima nessas áreas, independentemente da opinião dos moradores sobre o CV. Talvez as narcotraficantes que controlam a zona oeste do Rio, com ligações com o clã Bolsonaro, se instalem.

Mais provavelmente, o CV manterá o controle. Nesse caso, o derramamento de sangue terá sido em vão, mesmo que as pesquisas mostrem que 70% dos brasileiros o apoiam e desejam mais operações desse tipo (nas favelas do Rio, o índice foi de 87,6%). “Tanta guerra por nada.” Só que não é por nada: dinheiro, poder, território, votos, lavagem de dinheiro e financiamento de campanhas estão em jogo. É assim que o Brasil funciona desde pelo menos a década de 1970. Não há soluções políticas à vista: apenas tiroteios intermináveis ​​entre policiais e bandidos, com os bandidos perdendo a maioria das batalhas, mas vencendo a guerra.

O massacre ocorreu logo após o encontro de Lula com Trump, onde, além de tarifas e comércio, os dois certamente discutiram segurança e a questão de designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o CV como organizações “terroristas”, como Javier Milei fez agora para agradar o presidente americano. Nove meses atrás, Trump aplicou o rótulo ao Tren de Aragua, a facção criminosa venezuelana formada por membros da diáspora que atuam em presídios, e argumentou que o presidente Nicolás Maduro estava à frente dela. (Ele insinuou que poderia fazer o mesmo com os múltiplos grupos armados da Colômbia, alegando que o presidente Gustavo Petro está no comando deles.)

Uma legislação “antiterrorista” para combater o CV e o muito maior e mais rico PCC foi apresentada ao Congresso brasileiro em 31 de outubro. O chefe de segurança pública de São Paulo renunciou ao cargo para trabalhar nela.

Cláudio Castro reuniu uma série de governadores conservadores – alguns deles pré-candidatos à presidência, incluindo Tarcísio de Freitas, de São Paulo, Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema, de Minas Gerais. Presumivelmente, eles trabalharão paralelamente, e não em conjunto com, o governo federal, até que a lei antiterrorista seja aprovada.

Se quiser vencer em 2026, Lula precisará de políticas de segurança pública diferentes das de seus concorrentes. A questão pode se tornar a brecha que permitirá o retorno da política de extrema-direita pró-Trump no Brasil, após a queda de Bolsonaro e seus aliados nas Forças Armadas (provavelmente em prisão domiciliar durante todo o período). É um mau sinal que o chefe da Casa Civil de Lula seja Rui Costa, governador da Bahia de 2015 a 2022, estado onde a polícia mata mais pessoas por ano do que em todos os Estados Unidos juntos.

Para que haja mudanças, grandes manifestações e protestos em todo o país, como os que ocorreram em 31 de outubro, precisarão ser seguidos por uma mobilização de rua mais consistente e por medidas adicionais para a construção de um movimento de massas por novas políticas de segurança pública. Caso contrário, os massacres e execuções extrajudiciais cometidos pela polícia continuarão.

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