Editorial
Choldraboldra
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| Penguin Random House |
Branko Milanovic
The Great Global Transformation: National Market Liberalism in a Multipolar World.
Londres: Penguin Books, 2025, 288 p.
Em The Great Global Transformation, Branko Milanovic oferece uma das interpretações mais abrangentes e sistemáticas das mudanças em curso na economia política global. Conhecido por seus estudos pioneiros sobre desigualdade, o autor desloca aqui o foco da mera distribuição de renda para a transformação estrutural do capitalismo mundial. Sua tese central é que o neoliberalismo globalizado, tal como se consolidou nas últimas cinco décadas, entrou em declínio irreversível, sendo progressivamente substituído por uma nova forma de organização econômica que ele denomina “liberalismo de mercado nacional” (national market liberalism), operando em um contexto de multipolaridade.
Milanovic parte do diagnóstico de que a ordem econômica internacional do pós-Guerra Fria está se desintegrando. O livre-comércio irrestrito, as cadeias globais de valor altamente integradas e a hegemonia normativa liberal cedem espaço a blocos regionais, guerras tarifárias, sanções econômicas, políticas industriais agressivas e à revalorização de “campeões nacionais”. Esse movimento, longe de ser episódico, refletiria uma mudança profunda nas condições materiais e políticas do capitalismo global, marcada pela ascensão da Ásia — especialmente da China e do Sudeste Asiático — e pela perda relativa de centralidade das economias atlânticas.
Um dos eixos mais originais do livro é a análise da reconfiguração da desigualdade em escala global. Milanovic retoma e atualiza sua conhecida tese do “elefante da desigualdade”, mostrando como o crescimento asiático produziu a maior redistribuição de renda internacional desde a Revolução Industrial, criando uma nova classe média global fora do Ocidente. Paradoxalmente, esse processo ocorreu ao mesmo tempo em que as desigualdades internas se aprofundaram em muitos países ricos, alimentando frustrações sociais, ressentimentos políticos e a ascensão de movimentos nacionalistas e antiliberais.
O autor dedica especial atenção a esse aparente paradoxo: por que sociedades se tornam mais infelizes e politicamente instáveis em um mundo que, em termos agregados, é mais rico e menos desigual do que no passado recente? Para Milanovic, a resposta reside na combinação entre estagnação relativa das classes médias ocidentais, concentração extrema de riqueza no topo e erosão dos mecanismos tradicionais de mobilidade social. O retorno da plutocracia — entendida como a captura do poder político por elites econômicas — surge como uma ameaça central às democracias contemporâneas.
No plano geopolítico, The Great Global Transformation sustenta que a transição para um mundo multipolar intensifica conflitos e incertezas. O enfraquecimento das instituições multilaterais, a instrumentalização do comércio e das finanças como armas políticas e o aumento das tensões militares criam um ambiente propício a guerras prolongadas e a crises sistêmicas. Milanovic não apresenta esse cenário como inevitavelmente catastrófico, mas tampouco oferece ilusões reconfortantes sobre uma transição suave ou consensual.
O conceito de “liberalismo de mercado nacional” funciona como fio condutor da obra. Trata-se de um arranjo híbrido, no qual Estados mantêm mercados capitalistas relativamente abertos, mas subordinados a prioridades nacionais, controle estratégico de setores-chave e políticas explícitas de proteção social e soberania econômica. Embora o modelo seja apresentado como uma tendência dominante, Milanovic mantém uma postura analítica cautelosa, reconhecendo suas contradições internas, seus riscos autoritários e sua capacidade limitada de resolver dilemas globais como a crise climática.
Do ponto de vista metodológico, o livro combina análise empírica rigorosa com interpretação histórica e sensibilidade sociopolítica. Milanovic escreve de forma clara e acessível, sem abrir mão da densidade teórica. Sua capacidade de articular dados econômicos, tendências de longo prazo e consequências políticas concretas torna a obra especialmente valiosa para leitores que buscam compreender o presente para além de slogans ideológicos.
Em síntese, The Great Global Transformation é uma contribuição decisiva para o debate sobre o futuro da ordem mundial. Ao diagnosticar o esgotamento do neoliberalismo global e mapear o surgimento de uma nova configuração capitalista multipolar, Milanovic oferece não apenas um retrato preciso do nosso tempo, mas também um alerta: a transição em curso será marcada por conflitos distributivos, disputas geopolíticas e escolhas políticas difíceis. Com sobriedade analítica e alcance global, o autor nos fornece um guia indispensável para compreender os contornos do século XXI.
Em The Great Global Transformation, Branko Milanovic oferece uma das interpretações mais abrangentes e sistemáticas das mudanças em curso na economia política global. Conhecido por seus estudos pioneiros sobre desigualdade, o autor desloca aqui o foco da mera distribuição de renda para a transformação estrutural do capitalismo mundial. Sua tese central é que o neoliberalismo globalizado, tal como se consolidou nas últimas cinco décadas, entrou em declínio irreversível, sendo progressivamente substituído por uma nova forma de organização econômica que ele denomina “liberalismo de mercado nacional” (national market liberalism), operando em um contexto de multipolaridade.
Milanovic parte do diagnóstico de que a ordem econômica internacional do pós-Guerra Fria está se desintegrando. O livre-comércio irrestrito, as cadeias globais de valor altamente integradas e a hegemonia normativa liberal cedem espaço a blocos regionais, guerras tarifárias, sanções econômicas, políticas industriais agressivas e à revalorização de “campeões nacionais”. Esse movimento, longe de ser episódico, refletiria uma mudança profunda nas condições materiais e políticas do capitalismo global, marcada pela ascensão da Ásia — especialmente da China e do Sudeste Asiático — e pela perda relativa de centralidade das economias atlânticas.
Um dos eixos mais originais do livro é a análise da reconfiguração da desigualdade em escala global. Milanovic retoma e atualiza sua conhecida tese do “elefante da desigualdade”, mostrando como o crescimento asiático produziu a maior redistribuição de renda internacional desde a Revolução Industrial, criando uma nova classe média global fora do Ocidente. Paradoxalmente, esse processo ocorreu ao mesmo tempo em que as desigualdades internas se aprofundaram em muitos países ricos, alimentando frustrações sociais, ressentimentos políticos e a ascensão de movimentos nacionalistas e antiliberais.
O autor dedica especial atenção a esse aparente paradoxo: por que sociedades se tornam mais infelizes e politicamente instáveis em um mundo que, em termos agregados, é mais rico e menos desigual do que no passado recente? Para Milanovic, a resposta reside na combinação entre estagnação relativa das classes médias ocidentais, concentração extrema de riqueza no topo e erosão dos mecanismos tradicionais de mobilidade social. O retorno da plutocracia — entendida como a captura do poder político por elites econômicas — surge como uma ameaça central às democracias contemporâneas.
No plano geopolítico, The Great Global Transformation sustenta que a transição para um mundo multipolar intensifica conflitos e incertezas. O enfraquecimento das instituições multilaterais, a instrumentalização do comércio e das finanças como armas políticas e o aumento das tensões militares criam um ambiente propício a guerras prolongadas e a crises sistêmicas. Milanovic não apresenta esse cenário como inevitavelmente catastrófico, mas tampouco oferece ilusões reconfortantes sobre uma transição suave ou consensual.
O conceito de “liberalismo de mercado nacional” funciona como fio condutor da obra. Trata-se de um arranjo híbrido, no qual Estados mantêm mercados capitalistas relativamente abertos, mas subordinados a prioridades nacionais, controle estratégico de setores-chave e políticas explícitas de proteção social e soberania econômica. Embora o modelo seja apresentado como uma tendência dominante, Milanovic mantém uma postura analítica cautelosa, reconhecendo suas contradições internas, seus riscos autoritários e sua capacidade limitada de resolver dilemas globais como a crise climática.
Do ponto de vista metodológico, o livro combina análise empírica rigorosa com interpretação histórica e sensibilidade sociopolítica. Milanovic escreve de forma clara e acessível, sem abrir mão da densidade teórica. Sua capacidade de articular dados econômicos, tendências de longo prazo e consequências políticas concretas torna a obra especialmente valiosa para leitores que buscam compreender o presente para além de slogans ideológicos.
Em síntese, The Great Global Transformation é uma contribuição decisiva para o debate sobre o futuro da ordem mundial. Ao diagnosticar o esgotamento do neoliberalismo global e mapear o surgimento de uma nova configuração capitalista multipolar, Milanovic oferece não apenas um retrato preciso do nosso tempo, mas também um alerta: a transição em curso será marcada por conflitos distributivos, disputas geopolíticas e escolhas políticas difíceis. Com sobriedade analítica e alcance global, o autor nos fornece um guia indispensável para compreender os contornos do século XXI.

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