25 de novembro de 2025

O capitalismo sem mitos: uma história global da violência e da expansão

Sven Beckert reconstrói mil anos de capitalismo como um sistema historicamente construído, global desde a origem, dependente do Estado e da coerção, desmontando a narrativa dos mercados livres como destino natural da humanidade.

Editorial

Choldraboldra

Penguin Random House

Capitalism: A Global History
Sven Beckert
Londres/Nova York: Penguin, 2025, 1344 p.

Em Capitalism: A Global History, Sven Beckert entrega uma das mais ambiciosas sínteses históricas já escritas sobre o capitalismo. Resultado de anos de pesquisa em arquivos espalhados por seis continentes, o livro propõe nada menos que uma história global do sistema que, segundo o autor, mais profundamente moldou a vida humana nos últimos mil anos. Longe de uma narrativa eurocêntrica ou de uma história econômica restrita a indicadores e teorias, Beckert constrói um relato denso, violento e profundamente humano do capitalismo como processo histórico contingente, expansivo e estruturalmente desigual.

A tese central do livro é clara e radical: o capitalismo não surgiu como uma ordem natural de mercados livres, nem como uma consequência inevitável do progresso técnico, mas como um sistema historicamente construído, desde o início global, violento e dependente da ação estatal. Beckert mostra que práticas capitalistas emergiram simultaneamente em diferentes regiões da Ásia, África e Europa, mas só se consolidaram como sistema dominante quando se articularam a Estados imperiais europeus capazes de impor, pela força, novas relações de produção, circulação e trabalho em escala planetária.

Nesse sentido, o autor identifica na expansão ultramarina europeia e na escravidão atlântica o “big bang” do capitalismo moderno. As plantações escravistas do Caribe, especialmente as de açúcar e algodão, aparecem como epicentros de experimentação brutal de formas de organização do trabalho, disciplina, contabilidade e extração de valor que seriam posteriormente generalizadas. A violência extrema, longe de ser um desvio moral, surge como elemento constitutivo do capitalismo em sua fase de ascensão. Não há, em Beckert, qualquer nostalgia por um suposto capitalismo “puro” ou “ideal”.

Um dos grandes méritos da obra está na articulação entre macroprocessos globais e experiências locais concretas. Beckert transita com fluidez entre casas mercantis em Aden, fábricas de automóveis em Turim, campos de cana em Barbados e oficinas têxteis no Camboja contemporâneo. Ao fazê-lo, amplia o campo de visão da história do capitalismo, incorporando trabalhadores, camponeses, mulheres, populações colonizadas e escravizadas como agentes históricos centrais — ainda que frequentemente submetidos à coerção extrema.

O papel do Estado ocupa lugar central na interpretação de Beckert. O capitalismo, argumenta o autor, jamais existiu sem o apoio ativo de instituições estatais: exércitos, sistemas jurídicos, regimes de propriedade, infraestrutura, crédito e políticas de coerção. A ideia de mercados autorregulados aparece como uma construção ideológica tardia, dissociada da realidade histórica. Mesmo nos momentos de maior liberalização, o capitalismo operou por meio de Estados fortes, seletivos e profundamente desiguais.

Ao longo do livro, Beckert acompanha as grandes transformações do sistema: a Revolução Industrial, a centralidade dos combustíveis fósseis, a financeirização, a globalização contemporânea e suas crises recorrentes. Em todos esses momentos, destaca-se a combinação entre inovação e destruição, produtividade e expropriação, crescimento e desigualdade. O capitalismo aparece como um sistema extraordinariamente dinâmico, mas estruturalmente incapaz de oferecer integração social universal.

Outro aspecto relevante da obra é a atenção às resistências. Beckert mostra que o capitalismo nunca avançou sem oposição: revoltas de escravizados, lutas camponesas, movimentos operários, projetos nacional-desenvolvimentistas e experiências socialistas aparecem como tentativas recorrentes — ainda que frequentemente derrotadas — de limitar, domesticar ou superar a lógica capitalista. Ao mesmo tempo, o autor ressalta que, apesar de sua tendência expansiva, o capitalismo jamais conseguiu colonizar integralmente todas as esferas da vida humana, deixando espaços de sociabilidade, reciprocidade e economia não mercantil que persistem até hoje.

Do ponto de vista metodológico, Capitalism: A Global History é uma obra exemplar da história global e transnacional. Beckert combina erudição impressionante, clareza narrativa e uma escrita envolvente, capaz de sustentar mais de mil páginas sem perder coesão analítica. O livro não se limita a “somar casos” globais, mas constrói uma interpretação integrada do capitalismo como sistema histórico mundial.

A principal ousadia — e talvez a maior virtude — da obra está em seu horizonte crítico. Beckert não se contenta em descrever o capitalismo; ele o historiciza radicalmente. Ao insistir que o sistema é recente, contingente e fruto de escolhas políticas e coerções, o autor desafia a naturalização do capitalismo como destino inevitável da humanidade. Sem oferecer modelos fechados de superação, o livro abre espaço para imaginar futuros pós-capitalistas, lembrando que outros mundos sempre existiram — e continuam a existir — nas fissuras da ordem dominante.

Em síntese, Capitalism: A Global History é uma obra monumental, destinada a se tornar referência por décadas. Trata-se de um livro que não apenas reescreve a história do capitalismo, mas redefine os termos do debate sobre modernidade, poder, desigualdade e futuro. Para leitores interessados em compreender as raízes profundas da crise contemporânea e os limites estruturais da ordem capitalista global, a obra de Sven Beckert é simplesmente incontornável.

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