19 de novembro de 2025

Primeiro arrasem Gaza, depois construam um parque de diversões para o capital global

Empreendedores ávidos por lucro, monarcas do Golfo, Donald Trump, Tony Blair e a extrema-direita israelense estão todos unidos em sua visão para Gaza: uma zona econômica especial impulsionada pela tecnologia e governada por bilionários, sem qualquer possibilidade de autodeterminação para os palestinos.

Abe Asher

Jacobin

A visão do governo Trump para Gaza, publicada em seu documento do plano GREAT Trust. (Plano GREAT Trust)

Quando o presidente Donald Trump intermediou um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas no final de setembro, o presidente estadunidense foi aclamado, inclusive por alguns democratas de destaque, por sua atuação em prol da paz. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e o presidente do Knesset israelense, Amir Ohana, disseram que indicariam Trump conjuntamente ao cobiçado Prêmio Nobel da Paz.

A apresentação do plano de paz relativamente sóbrio de Trump para Gaza, composto por vinte pontos, pareceu marcar uma mudança drástica em relação à forma como o presidente pensava sobre Gaza menos de oito meses antes, quando anunciou, em uma coletiva de imprensa na Casa Branca com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que os Estados Unidos assumiriam o controle da Faixa de Gaza, a ocupariam e a transformariam na “Riviera do Oriente Médio” — uma possibilidade que, nas palavras de Trump, poderia ser “magnífica”. Pouco depois da coletiva de imprensa, Trump compartilhou nas redes sociais um vídeo bizarro, gerado por inteligência artificial, de uma Gaza reconstruída, com direito a dançarinas do ventre, Elon Musk jogando maços de dinheiro para o ar e Trump e Netanyahu deitados sem camisa em cadeiras de praia.

A ambição de Trump de transformar Gaza em um destino turístico foi incorporada a um plano mais amplo para o futuro da região, que foi discutido em Washington no final do verão. O Fundo Fiduciário para a Reconstituição, Aceleração Econômica e Transformação de Gaza (GREAT Trust, sigla em inglês) foi a primeira grande proposta do governo Trump para trazer a paz a Gaza. Sua lógica permanece em vigor no atual plano de paz.

O plano GREAT Trust destacou-se pela sua franqueza: propunha realocar um quarto da população existente em Gaza para países vizinhos durante o processo de reconstrução e transferir o restante para acomodações temporárias e restritas na Faixa. Feito isso, os Estados Unidos assumiriam o controle de Gaza por um período de dez anos e supervisionariam a transformação da devastada pátria de mais de dois milhões de palestinos em “um centro mediterrâneo para manufatura, comércio, hospedagem de dados e turismo, beneficiando-se de sua localização estratégica, acesso a mercados (Europa, CCG [Conselho de Cooperação do Golfo], Ásia), recursos e uma força de trabalho jovem, tudo isso apoiado pela tecnologia israelense e por investimentos do CCG”.

A transformação seria financiada por até US$ 100 bilhões em investimentos públicos e até US$ 65 bilhões em investimentos privados, que cobririam o custo de tudo, desde “pacotes generosos de realocação” para residentes palestinos até “10 megaprojetos de construção”.

A ideia que atraiu mais atenção foi o projeto de transformar o litoral de Gaza na “Riviera Trump de Gaza e Ilhas”, uma série de resorts de luxo e pequenas ilhas artificiais inspiradas nas Ilhas Palm de Dubai, que, presumivelmente, atrairiam turistas dispostos a estender suas cadeiras de praia sobre os ossos dos palestinos mortos. Mas esse não foi o único megaprojeto na proposta. Outros incluem a construção de rodovias com os nomes de Mohammed bin Salman, governante da Arábia Saudita, e Mohamed bin Zayed al-Nahyan, governante de Abu Dhabi; uma zona de manufatura inteligente com o nome de Elon Musk; e uma rede de data centers para atender Israel e os países do Golfo.

Em nenhum momento do plano havia qualquer sugestão de que a população palestina de Gaza pudesse apoiar democraticamente a transformação de sua pátria sitiada em uma zona econômica especial tecnofuturista governada pelos EUA; palavras como democracia e soberania estavam ausentes de uma apresentação de trinta e oito slides sobre a proposta, obtida pelo Washington Post. Isso ocorre porque os idealizadores do plano sabiam que não conseguiriam apoio democrático ou porque desistiram da pretensão de se importar. Não há menção aos direitos políticos palestinos no plano até que Gaza seja “desmilitarizada e desradicalizada”, momento em que a governança será transferida para uma entidade política palestina submissa que aderirá aos Acordos de Abraão e, potencialmente, assinará um pacto de livre associação com o GREAT Trust para garantir apoio financeiro contínuo “em troca da manutenção de alguns poderes plenos por parte do Trust”.

Entretanto, a suposição implícita é que a população palestina de Gaza irá migrar permanentemente para países vizinhos ou será “pacificada” por um aparato de segurança multibilionário, apoiado, a julgar pelos logotipos apresentados nos slides, por uma lista dos principais empreiteiros militares e fabricantes de armas do mundo. O plano do GREAT Trust não menciona o que poderia acontecer se os habitantes de Gaza resistirem a essa próxima fase de sua desapropriação, mas não é muito difícil imaginar.

O modelo Neom

Como escreveu Alberto Toscano, Gaza está sendo reimaginada como uma “apoteose daquela fusão entre capital e regime autoritário que constitui, para grande parte da reação global, o ‘milagre’ daquelas ‘cidades milagrosas’ do Oriente Médio”. A referência às cidades milagrosas do Oriente Médio é frequentemente explícita nos planos para o futuro de Gaza, com Neom, a cidade planejada que está sendo construída a um custo enorme na costa noroeste da Arábia Saudita, servindo como um ponto de referência frequente.

Embora a Palestina seja frequentemente usada como um laboratório para o futuro, o plano de Trump para Gaza não é tanto uma prévia do que está por vir, mas sim uma extensão macabra de um futuro que já chegou.

A região onde Neom está sendo construída foi descrita como uma “tela em branco” por bin Salman, de forma muito semelhante à maneira como os arquitetos do plano de Trump parecem conceber Gaza. Neom também foi imaginada como um novo e reluzente centro regional para a indústria, o comércio e o lazer, com direito a uma estação de esqui e um estádio de futebol suspenso. Mas a região não é uma tela em branco. O governo já destruiu diversas aldeias no processo de desmatamento para a construção. No ano passado, autorizou o uso de força letal contra moradores para facilitar a construção em curso e potencialmente fadada ao fracasso da Linha — uma cidade inteligente de 177 quilômetros de extensão, revestida de vidro, que inicialmente deveria ser capaz de acomodar um quarto da população total do país.

O projeto Neom se destaca não apenas por sua ambição vertiginosa — uma cidade industrial flutuante! Um resort de luxo em uma ilha! Um “arranha-céu ultraluxuoso de cabeça para baixo”! — mas também por incorporar a mesma lógica que anima os planos para Gaza: a de que a terra é uma tela em branco à espera de ser transformada, não em nome da construção da nação, mas em nome da criação de zonas econômicas especiais que só podem ser acessadas pelos ricos e que funcionam, como sugeriu Quinn Slobodian, como um “navio de cruzeiro ou um parque temático”.

Já vimos versões dessa visão sendo implementadas em lugares como Dubai. Embora a Palestina seja frequentemente usada como um laboratório para o futuro, o plano de Trump para Gaza não é tanto uma prévia do que está por vir, mas uma extensão macabra de um futuro que já chegou — não apenas no Golfo, mas também em países da América Central como El Salvador e Honduras.

O sionismo encontra o capital global

O plano GREAT Trust foi previsivelmente duramente criticado pelos palestinos e por grande parte da comunidade internacional, mas em Israel mostrou-se bastante popular entre figuras-chave do governo Netanyahu. Em setembro, o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, sugeriu em uma conferência imobiliária em Tel Aviv que o custo do ataque a Gaza acabaria por se pagar. “A demolição, a primeira etapa da renovação da cidade, já fizemos”, disse Smotrich. “Agora precisamos construir.”

Smotrich está longe de ser a única figura de destaque a apoiar o espírito, senão a letra fria, do plano de Trump para a Riviera de Gaza. Durante o verão, Smotrich discursou em uma conferência do Knesset intitulada “A Riviera de Gaza — do Projeto à Realidade” para uma plateia que, segundo relatos, incluía outros ministros do governo, membros do Knesset, agentes de segurança, parentes dos reféns e uma variedade de outros pesquisadores e ativistas, como a notória “madrinha” do movimento de colonos israelenses, Daniella Weiss. Smotrich assegurou à sua plateia que Trump apoiava o esforço “para transformar Gaza em uma faixa próspera, uma cidade turística com empregos”. Isso, disse ele, é “como se faz a paz”.

O fato de Smotrich e membros de seu partido de extrema-direita, a coalizão sionista religiosa, apoiarem o reassentamento e a anexação de Gaza após a guerra não é surpreendente; a expansão territorial tem sido um objetivo primordial do movimento sionista, e o próprio Smotrich foi preso por planejar um atentado a bomba contra uma rodovia israelense em protesto contra a retirada dos colonos israelenses de Gaza em 2005. Smotrich cresceu no assentamento de Beit El, na Cisjordânia; seu pai é o rabino Chaim Smotrich, que também protestou contra a retirada das forças israelenses de Gaza duas décadas atrás e permanece uma figura de destaque na política sionista como reitor de uma yeshivá no assentamento de Kiryat Arba, nos arredores de Hebron.

O que chama a atenção é o entusiasmo demonstrado por Smotrich e seus aliados pelo projeto de repensar Gaza exatamente da maneira como Trump o faz: como uma oportunidade para extração e acumulação de capital. É quase como se Smotrich e Itamar Ben-Gvir, o ministro da segurança nacional, também de visão extremista, entendessem que essa é uma estrutura particularmente eficaz para angariar o apoio internacional necessário para concluir o reassentamento e a anexação. Essa ideia não surgiu com a intervenção de Trump: no ano passado, antes da reeleição de Trump, Netanyahu promoveu um plano semelhante que propunha reconstruir Gaza “do nada” e convertê-la em uma próspera zona de livre comércio que pudesse servir como um centro para toda a região.

Os planos têm mais em comum do que o desejo compartilhado de transformar Gaza em um centro tecnofuturista para extrativismo e livre comércio. Apresentações em PowerPoint detalhando as particularidades dos planos exibem a mesma imagem gerada por inteligência artificial de uma Gaza reconstruída, reluzente com arranha-céus angulares de vidro, extensas linhas ferroviárias, campos verdejantes e uma frota de plataformas de petróleo ociosas perto da costa do Mediterrâneo. Não há nada identificável como palestino na imagem; essa Gaza transformada poderia estar em qualquer lugar com litoral e uma política de desenvolvimento adequada.

Gaza pode e será ressuscitada, mas apenas como um canal higienizado para o capital e um playground para a elite global.

A proposta de Netanyahu, “Gaza 2035”, apresentava diversos elementos notáveis. Um deles era o foco na extração de petróleo, como evidenciado pela presença sinistra das plataformas no Mediterrâneo. As Nações Unidas estimam que existam 1,7 bilhão de barris de petróleo recuperáveis ​​na Bacia do Levante, no Mediterrâneo, além de aproximadamente 3,45 bilhões de metros cúbicos de gás. Outro elemento notável era a referência a Neom, que seria conectada a Gaza por uma ferrovia de alta velocidade. O plano, argumenta Shane Reiner-Roth, “demonstra quão ilimitada é a imaginação colonialista quando o tema da contenção é percebido como algo do passado”.

Planos dessa natureza abundam. Em abril passado, o bilionário gestor de fundos de hedge, Bill Ackman, apresentou sua própria proposta — uma competição global entre arquitetos, planejadores e “tecnólogos” disputando o direito de “construir uma nova cidade a partir de uma folha em branco”, que seria governada pelos Estados Unidos e um consórcio de aliados do Golfo. Na fantasia de Ackman, Gaza se torna não apenas habitável, mas uma “cidade modelo”. Não há qualquer menção à autodeterminação dos residentes palestinos de Gaza, e certamente não à criação de um Estado palestino. O mesmo ocorre com os planos divulgados pela RAND Corporation e pelo Instituto Judaico para a Segurança Nacional da América: Gaza pode e será ressuscitada, mas apenas como um canal higienizado para o capital e um playground para a elite global.

Blair e os bilionários

Desde então, Trump recuou do plano da Riviera de Gaza, e seu plano de paz de vinte pontos não menciona clubes de praia ou reformas haussmannianas na Cidade de Gaza. É retoricamente mais ameno, embora não menos ameaçador — sobretudo porque obteve o apoio da Autoridade Palestina, além de Egito, Jordânia, Turquia e dos principais Estados do Golfo. Resta saber se os últimos dos vinte pontos chegarão a ser implementados; Israel já teria violado os termos do cessar-fogo quase trezentas vezes, e os palestinos sabem muito bem que as etapas finais dos planos de paz muitas vezes nunca se concretizam. Já existem indícios de que os Estados Unidos não têm intenção de cumprir os termos do plano de vinte pontos.

No entanto, o plano de Trump, em teoria, prevê que uma Gaza “desradicalizada” seja transformada em uma “zona econômica especial” com “tarifas e taxas de acesso preferenciais a serem negociadas com os países participantes”. Essa zona econômica especial será governada, em caráter provisório, por um órgão palestino “tecnocrático e apolítico”, supervisionado por um comitê internacional presidido pelo próprio Trump.

O comitê também incluirá o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. O órgão de supervisão “definirá a estrutura e administrará o financiamento para a reconstrução de Gaza” até que a Autoridade Palestina seja considerada apta a assumir o controle, governando de maneira “propícia à atração de investimentos”. Essa visão de Gaza não endossa explicitamente mais limpeza étnica, mas, como argumentou Oliver Eagleton, ainda se assemelha a um “protetorado colonial”.

O envolvimento de Blair no projeto não se limita a um horizonte futuro. O think tank londrino do ex-líder trabalhista teria prestado consultoria sobre o plano inicial de Trump para a Riviera de Gaza, e Blair teria ajudado a elaborar o plano de vinte pontos em uma reunião na Casa Branca com Trump, o conselheiro para o Oriente Médio Jared Kushner e o ministro israelense de assuntos estratégicos Ron Dermer, no final de agosto.

Outra proposta de plano, discutida antes do anúncio do acordo de cessar-fogo, era que Blair administrasse uma autoridade de transição para Gaza por um período de três anos, com um conselho composto principalmente por bilionários como o financista de Wall Street Marc Rowan e o magnata egípcio Naguib Sawiris.

A presença de Blair, apesar de seu histórico de serviço público, pode estar relacionada com as amizades que mantém. Desde 2021, o presidente executivo da Oracle, Larry Ellison — um antigo apoiador das Forças de Defesa de Israel — doou, ou prometeu doar, mais de US$ 300 milhões ao Instituto Tony Blair para a Mudança Global. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein também contrataram o Instituto Blair para realizar trabalhos, e Blair, em sua atuação anterior na região, sempre foi um defensor fervoroso da abertura de terras palestinas ao investimento estrangeiro.

A variedade de planos para a reinvenção de Gaza parece ambiciosamente ridícula, mas não há razão para crer que alguma versão ou combinação deles não será executada. O mundo que foi incapaz, ou se mostrou relutante, em deter o genocídio em Gaza até o fim de 2025 pode não ter maior sucesso em impedir a próxima fase do apagamento do povo de Gaza e o roubo de suas casas, recursos naturais e direitos.

Isso, é claro, não é necessariamente incompatível — pelo menos no curto prazo — com os objetivos da extrema-direita israelense. E assim chegamos a um momento em que o movimento sionista, que busca a expropriação de terras palestinas sob o pretexto da supremacia judaica, encontra um ponto em comum com uma estrutura de poder global de direita que busca criar espaços supranacionais autoritários e sem atritos para o extrativismo e os fluxos de capital.

Essa aliança sugere que, apesar de todas as circunstâncias excepcionais que levaram à criação de Israel, o Estado israelense deve ser compreendido principalmente como um projeto colonial de povoamento em curso, que agora faz parte de uma rede de países e interesses comerciais que tentam remodelar o mundo para favorecer seu próprio enriquecimento. Gaza, lamentavelmente, permanece na mira dessa rede.

Colaborador

Abe Asher é um jornalista cujas reportagens sobre política, movimentos sociais e clima foram publicadas no Nation, VICE News, Portland Mercury e outros meios de comunicação.

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